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Lógica e Forma de Vida - Wittgenstein e a natureza da necessidade lógica e da filosofia

Lógica e Forma de Vida - Wittgenstein e a natureza da necessidade lógica e da filosofia

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Chamar critérios de “evidências não indutivas” é enganador, pois sugere que a noção de
critério de Wittgenstein é eminentemente epistemológica, ou apenas epistemológica, co-
mo se o seu objetivo principal fosse atacar o cético com essa noção. • É também engana-
dor dizer que o termo “critério” é um termo técnico de Wittgenstein, pois isso sugere que
há algo como a essência do critério comum a tudo o que é critério. • Para Wittgenstein há
uma interdependência entre semântica e epistemologia. • Os critérios para algo X são os
critérios para se usar a palavra “X” e, também, para determinar o modo como X nos é da-
do. • Critérios são convencionais. • O problema parece ser mostrar como uma convenção
pode fazer com que dois fenômenos distintos devam ser concomitantes. • Critérios defi-
nidores são condições necessárias e suficientes para um dado fenômeno. • Sintomas são
outros fenômenos concomitantes ao fenômeno do qual são sintomas. • Sintomas são des-
critos por hipóteses. • Critérios são fundamentos gramaticais que determinam a identida-
de de uma proposição, pois determinam seu sentido. • Critérios são descritos por proposi-
ções gramaticais. • Não pode haver apenas sintomas. Sintomas são sintomas de algo para
o qual existem critérios. • O realismo admite a possibilidade de haver apenas sintomas.
Dessa possibilidade se segue a inteligibilidade do ceticismo. • Se não há critérios de cor-
reção para “X” não há a prática (normativa) de usar “X” e, portanto, “X” não tem sentido.
Conseqüentemente, não podemos entender o que seriam os sintomas de X. • Deve-se dis-
tinguir critérios de correção de critérios de aplicação. Critérios de aplicação são também
critérios de correção, mas não vice-versa. • A flutuação entre critérios e sintomas pode
dar a impressão de que há apenas sintomas somente se adotarmos uma semântica realista.
• O conceito de critério não se presta a criar uma nova teoria semântica, pois nem toda
expressão é usada com base em critérios. • O ceticismo está errado porque a possibilidade
que ele apresenta é incompatível com a normatividade do significado. • Apenas alguns
conceitos podem ser usados de modo sempre errado. • O problema do ceticismo é o rea-
lismo que está na sua base. • Concluir a revogabilidade geral dos juízos baseados em cri-
térios da inexistência de implicação lógica na relação criterial implica uma concepção e-
quivocada de dúvida e certeza racionais. Há circunstâncias em que a inexistência de im-
plicação lógica é compatível com a certeza racional. • Objetar que a enunciação de uma
sentença pode ser absurda mas não a própria sentença implica assumir a teoria do corpo
de significado. • Convenções não fazem com que ocorram dores sempre que houver com-
portamento de dor. Elas determinam o uso correto, o significado, da expressão “ter dor”.
Negar isso implica comprometer-se com a possibilidade de uma linguagem privada. •
Nem toda diferença de uso implica uma diferença de significado.

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

323

Freqüentemente, as pessoas estão com tal pressa na sua investigação dos
problemas, que começam a resolvê-los com suas mentes vazias — sem pri-
meiro dar conta dos critérios que as capacitarão a reconhecer distintamente a
coisa que estão procurando, caso cruzem por ela. Estão, desse modo, se
comportando como um tolo serviçal que, ao ser enviado a alguma missão
por seus mestres, está tão ansioso por obedecer que sai correndo sem instru-
ções e sem saber onde deve ir.1

…no meu entender, o verdadeiro critério em questão de objetos dos sentidos
é a conexão dos fenômenos, isto é, a conexão daquilo que aconteceu em lu-
gares e tempos diferentes, e na experiência de homens diferentes, que são
eles mesmos, uns em relação aos outros, fenômenos muito importantes nes-
sa matéria.2

…o critério da possibilidade de um conceito (não do objeto deste) é a defi-
nição…3

As reflexões de Wittgenstein sobre o conceito de seguir uma regra e, portanto, sobre a linguagem privada,

como pudemos ver, dependem pesadamente do que Wittgenstein denomina “critério”. Carl Wellman vai

mais além e diz que “não se pode realmente entender a filosofia de Wittgenstein até que se tenha captado o

sentido especial em que ele usa o termo ‘critério’.”4

O modo correto de entender esse uso e que papel a noção

de critério desempenha nas suas reflexões é matéria de grande controvérsia.5

Essa controvérsia envolve al-

guns mal-entendidos que se originam de uma expressão usada por comentadores e críticos para explicar o

que Wittgenstein entende por “critério”. Trata-se da expressão “evidência não indutiva”. É certo que o pró-

prio Wittgenstein usou a palavra “evidência”, ao menos em uma passagem, para caracterizar o que ele chama

de critério: “A gramática das proposições que chamamos proposições sobre objetos físicos admite uma vari-

edade de evidências para cada uma dessas proposições.”6

O problema com essa expressão é que ela sugere

que a noção de critério é eminentemente epistemológica. O mesmo acontece com a expressão “critério para

uma coisa” ou “critério para um fenômeno”. O uso dessas expressões acaba nos forçando a abordar o texto de

Wittgenstein de uma perspectiva da qual seus verdadeiros objetivos aparecem distorcidos, quando aparecem.

Essa interpretação, digamos, epistemológica do termo “critério” é geralmente acompanhada da suposição de

que Wittgenstein usa o conceito de critério tendo como objetivo principal atacar o ceticismo. Isso levou mui-

tos a afirmarem que o uso do termo “critério” por parte de Wittgenstein revela seu compromisso com uma

espécie de verificacionismo ou idealismo.

Outros mal-entendidos originam-se da suposição (presente no texto de Wellman citado acima) de que

o conceito de critério é um conceito wittgensteiniano técnico, por oposição a um conceito ordinário. Isso

1

DESCARTES, Rules for the Direction of the Mind, regra treze, AT 434.

2

LEIBNIZ, Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano, Livro IV, Cap. II, §14.

3

KANT, Crítica da Razão Pura, B115.

4

WELLMAN (1962), p. 433.

5

Cf. ALBRITTON (1966), WELLMAN (1962), KENNY (1967), MALCOLM (1977[a]), esp. pp. 112-117, BAKER (1997),
HACKER (1997), cap. XI, (1990), cap. 5, pp. 545-568, WRIGHT (1993), caps. 12-13, HANFLING (1997), HARRISON (1999),
COOK (2000), caps. 8-9.

6

BBB p. 51.

PARTE II - LÓGICA E FORMA DE VIDA

324

alimenta a suposição de que Wittgenstein estava formulando uma nova teoria semântica e não apenas des-

crevendo nossas práticas lingüísticas. Supõe-se que Wittgenstein tinha uma explicação perfeitamente geral da

expressão “critério”, como se os aspectos do que ele considera os critérios da linguagem psicológica, por

exemplo, devessem ser os mesmos do que ele considera os critérios da linguagem matemática, ou seja, como

se a expressão “critério” fosse aplicada por ele de acordo com condições necessárias e suficientes.

Geralmente a interpretação do que Wittgenstein quer dizer com “critério” na sua filosofia tardia ba-

seia-se fortemente no que ele diz no Livro Azul, principalmente nas páginas 24-25. Esse procedimento inter-

pretativo é problemático porque supõe que, a esse respeito, não há nenhuma mudança na filosofia de Witt-

genstein no período que vai dos Livros Azul e Marrom até as Investigações.

A primeira aparição importante da expressão no Livro Azul ocorre já na página 2. Ali Wittgenstein

pergunta pelos nossos critérios para dizer se alguém entendeu uma definição ostensiva corretamente. Mas ali

ele não explica o que quer dizer com “critério”. Isso se encontra numa passagem que começa no final da

página 23:

Dissemos que era um modo de se examinar a gramática (o uso) da palavra “saber” perguntarmo-nos o que, no
caso particular que estamos examinando, chamamos “vir a saber”. Há uma tentação a pensar que essa pergun-
ta é apenas vagamente relevante, se afinal o é, para a questão: “qual é o significado da palavra ‘saber’?” Pare-
cemos estar num desvio [side-track] quando formulamos a questão “O que é, nesse caso, ‘vir a saber’?” Mas
essa questão é realmente uma questão sobre a gramática da palavra “saber”, e isso se torna mais claro se a
formulamos da seguinte forma: “O que chamamos ‘vir a saber’?” É parte da gramática da palavra “cadeira”
que isso é o que chamamos “sentar numa cadeira”, e é parte da gramática da palavra “significado” que isso é
o que chamamos “explicação do significado”; do mesmo modo, explicar meu critério para outra pessoa ter
dor de dente é dar uma explicação gramatical sobre a palavra “dor de dente” e, nesse sentido, uma explicação
concernente ao significado da palavra “dor de dente”.7

Por que a pergunta “O que chamamos ‘vir a saber’?” parece um desvio em relação à pergunta “O que signifi-

ca ‘saber’?”? Porque estamos inclinados a separar (ao invés de apenas distinguir) questões epistemológicas

de questões semânticas. Uma coisa, pensamos, é o que a palavra “saber” significa, isto é, o saber, outra coisa

é o modo como adquirimos saber, como vimos a saber. Para sabermos como obtemos saber, primeiro deve-

mos ter claro o que é o saber, o que significa “saber”. Da mesma forma, para sabermos como obtemos conhe-

cimento sobre a dor de outra pessoa, primeiro devemos ter claro o que é a dor de outra pessoa, o que significa

“dor de outra pessoa”. Para sabermos como explicamos o significado de uma palavra (como damos a conhe-

cer o significado de uma palavra), primeiro devemos saber o que é o significado de uma palavra, o que signi-

fica “significado”. Segundo Wittgenstein, essa separação, ou seja, a suposição de que as respostas a questões

semânticas podem ser dadas independentemente de quaisquer considerações epistemológicas, é uma distor-

ção tanto da natureza das investigações semânticas ou gramaticais quanto da natureza das investigações epis-

temológicas. Por quê? A resposta a essa pergunta exige a explicação do papel da noção de critério nas refle-

xões de Wittgenstein. Isso, como veremos, está relacionado com a impossibilidade (já examinada) de que

todos tenham sempre usado a linguagem de modo incorreto. Explicar essa impossibilidade à luz das reflexões

de Wittgenstein sobre critérios mostra por que o reconhecimento dessa impossibilidade, dentro das reflexões

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

325

de Wittgenstein, não é o resultado de uma reflexão ilegítima que vai do pensamento ao ser, tal como o argu-

mento ontológico para provar a existência de Deus.

Uma maneira de distorcer as investigações epistemológicas é concebê-las como independentes de uma

investigação semântica. Se esse fosse o caso faria sentido investigar como podemos conhecer x mesmo de-

pois de termos investigado o que “x” significa, como se a investigação semântica não tivesse nenhum resul-

tado epistemológico. Na passagem acima, Wittgenstein afirma que a pergunta “O que chamamos ‘x’?” é uma

formulação melhor, mais clara, da pergunta “O que é ‘x’?” Essa pergunta pede os critérios para “x”. Portan-

to, numa formulação melhor, ela pede os critérios para chamarmos algo de “x”. Ela pede critérios para o uso

de uma expressão lingüística e não critérios para o conhecimento de uma determinada coisa, a qual nos refe-

rimos com uma expressão lingüística cujo uso tem um critério já conhecido. Quando Wittgenstein pede crité-

rios, ele não está interessado primariamente na pergunta “Como podemos conhecer x?”, mas na pergunta “O

que ‘x’ significa?” Mostrar o que “x” significa acaba por mostrar, segundo Wittgenstein, como x pode ser

conhecido. Mas a noção de critério não é epistêmica, no sentido distorcido de “epistêmica” explicado acima.

Isto é, a pergunta pelos critérios de x, no sentido de “critério” que interessa a Wittgenstein, não surge apenas

depois que a pergunta pelo significado de “x” já foi respondida. A pergunta pelos critérios de x e a pergunta

pelo significado de “x” são, segundo Wittgenstein, a mesma pergunta. Explicar os critérios com base nos

quais usamos uma expressão e explicar o significado dessa expressão é explicar a mesma coisa.

Wittgenstein, portanto, quer mostrar uma certa interdependência entre semântica e epistemologia. Não

podemos nem fazer semântica nos abstendo de considerações epistemológicas, nem epistemologia nos abs-

tendo de considerações semânticas.

Imediatamente após o último parágrafo citado, segue-se a seguinte passagem:

Quando aprendemos o uso da frase “Fulano tem dor de dente” nos foi indicado certa espécie de comporta-
mento daqueles que foram ditos ter dor de dente. Tomemos o segurar a bochecha como um exemplo dessas
espécies de comportamento. Suponha que por meio da observação descobri que em certos casos sempre que
estes primeiros critérios me diziam que uma pessoa tinha dor de dente, uma mancha vermelha aparecia na bo-
checha da pessoa. Supondo que eu agora diga a alguém “Vejo que A tem dor de dente, ele tem uma mancha
vermelha na sua bochecha”. Ele pode me perguntar “Como você sabe que A tem dor de dente quando você vê
uma mancha vermelha?” Eu deveria então indicar que certos fenômenos sempre coincidiram com a aparição
da mancha vermelha.

Agora se pode prosseguir e perguntar: “Como você sabe que ele tem dor de dente quando ele segura sua
bochecha?” A resposta poderia ser: “Eu disse que ele tem dor de dente quando ele segura sua bochecha por-
que eu seguro minha bochecha quando eu tenho dor de dente”. Mas e se prosseguíssemos perguntado: — “E
por que você supõe que a dor de dente dele corresponde ao seu segurar a bochecha apenas porque a sua dor de
dente corresponde ao seu segurar a sua bochecha?” Você estará em apuros [at a loss] para responder essa
questão e achará que aqui atingimos a pedra fundamental, isto é, chegamos a convenções. (Se você sugerisse
como resposta à última questão que sempre que vimos pessoas segurando suas bochechas e lhes perguntamos
o que havia de errado elas responderam “Estou com dor de dente”,— lembre-se que essa experiência apenas
coordena o segurar sua bochecha com o dizer certas palavras.)8

Essa passagem pode ser reconstruída como um diálogo entre duas pessoas, A e B, no qual A inicia falando

sobre uma terceira pessoa, C:

7

BBB pp. 23-24.

8

BBB p. 24.

PARTE II - LÓGICA E FORMA DE VIDA

326

A: C tem dor de dente.
B: Como sabes?
A: Uma mancha vermelha apareceu na bochecha de C.
B: Porque o aparecimento dessa mancha te faz crer que C tem dor de dente?
A: Porque a experiência mostrou que sempre que C tinha dor de dente essa mancha vermelha aparecia.
B: Como sabes que ele estava com dor de dente nas ocasiões em que fizeste estas observações?
A: C segurava sua bochecha [gemendo, oscilando o corpo, etc.].
B: Porque acreditas que ele estava com dor de dente quando segurava sua bochecha [gemendo, oscilando o corpo, etc.].
A: Porque sempre que estou com dor de dente eu seguro minha bochecha [gemendo, oscilando o corpo, etc.].
B: Mas por que achas que essa relação entre tua dor e teu comportamento deve ocorrer também entre a dor e o compor-

tamento dos outros?

A: Bem, sempre que vi uma pessoa segurando a bochecha [gemendo, oscilando o corpo, etc.] e perguntei qual era o pro-
blema, a resposta que obtive foi: “Estou com dor de dente”.
B: Mas essa experiência apenas coordena o segurar a bochecha [gemendo, oscilando o corpo, etc.] com a enunciação de

certas palavras.

É com a última pergunta de B que, segundo Wittgenstein, chegamos a convenções lingüísticas, a algo que

não conhecemos por meio da experiência: os critérios. Os critérios são, pois, convencionais. Isso não deveria

ser surpresa, dada a autonomia da gramática. Deve-se, no entanto, frisar que o que foi dito sobre a autonomia

da gramática vale também para os critérios, pois os critérios são constitutivos da gramática: os critérios, ao

menos no caso dos conceitos fundamentais (tal como “dor”), não são objetos de deliberação caprichosa (no

entanto, não porque sejam a expressão de essências independentes). Mas como pode ser matéria de conven-

ção que a relação entre a nossa dor e o nosso comportamento deva ocorrer também entre a dor e o compor-

tamento dos outros? Como uma convenção pode determinar que dois fenômenos diferentes tenham ocorrên-

cias simultâneas?

Essa é uma objeção comum à noção wittgensteiniana de critério. Mas para lidar com essa objeção de-

vemos examinar a passagem do Livro Azul em que Wittgenstein explica o que ele entende por “critério” por

oposição a “sintoma”. Wittgenstein inicia sua explicação dizendo que tanto critérios como sintomas são aqui-

lo que damos como resposta à pergunta “Como você sabe que tal e tal coisa é o caso?”.9

Vincular critérios ao

conhecimento dessa forma pode sugerir que Wittgenstein está engajado numa pesquisa epistemológica, no

sentido distorcido explicado acima. Que esse não é o caso fica claro no que se segue. Como exemplo de cri-

tério, Wittgenstein menciona o critério definidor de angina:

Se a medicina chama angina uma inflamação causada por um certo bacilo, e perguntamos em um caso parti-
cular “Por que dizes que esse homem tem angina?”, então a resposta “Eu encontrei tal e tal bacilo no seu san-
gue” nos dá um critério, ou o que poderia ser chamado de critério definidor de angina.10

Se a medicina chama angina uma inflamação causada pelo bacilo B, então a definição de “angina” será “in-

flamação causada pelo bacilo B”. Nesse caso, ter angina e ter uma inflamação causada pelo bacilo B serão a

mesma coisa. É por isso que Wittgenstein afirma que dizer de um homem que tem uma inflamação causada

pelo bacilo B que ele tem angina é dizer uma tautologia, no sentido original da palavra, isto é, “dizer o mes-

mo”. Ter uma inflamação causada pelo bacilo B será, pois, uma condição necessária e suficiente para se ter

9

BBB pp. 24-25.

10

BBB p. 25.

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

327

angina. Um critério definidor, portanto, nessa passagem, é uma condição necessária e suficiente. (Resta saber

se essa é uma característica de qualquer critério. Trataremos essa questão mais adiante.)

Com isso Wittgenstein contrasta os sintomas. Os sintomas são outros fenômenos, diferentes do fenô-

meno que é o critério definidor, mas que, por meio da experiência, sabemos que coincidem com o critério.11

Se ter a garganta inflamada for um sintoma da angina, então “dizer ‘Um homem tem angina sempre que ele

tiver uma garganta inflamada’ é formular uma hipótese.”12

Critérios, portanto, são “fundamentos que estão gramaticalmente relacionados à proposição e nos di-

zem o que a proposição é.”13

Sintomas, por outro lado, são fundamentos relacionados empiricamente à pro-

posição e que somente podem ser descobertos pela experiência com base nos critérios. Não faz sentido falar

de sintomas aos quais não corresponde nenhum critério.14

Mas após apresentar a diferença entre critérios e

sintomas, Wittgenstein faz uma observação que parece sugerir a possibilidade de que haja apenas sintomas:

Na prática, se a você fosse perguntado qual fenômeno é o critério definidor e qual é um sintoma, você seria,
na maior parte dos casos, incapaz de responder a questão exceto tomando uma decisão arbitrária ad hoc. Pode
ser prático definir uma palavra tomando um fenômeno como critério definidor, mas nós seremos facilmente
persuadidos a definir a palavra por meio do que, de acordo com nosso primeiro uso, era um sintoma. Médicos
usarão nomes de doenças sem nunca decidir quais fenômenos devem ser considerados critérios e quais são
sintomas; e isso não necessita ser uma deplorável falta de claridade. Pois lembre-se que em geral não usamos
a linguagem de acordo com regras estritas tampouco. Nós, em nossas discussões, por outro lado, constante-
mente comparamos a linguagem a um cálculo em que se procede de acordo com regras exatas.15

Se em um caso determinado (a) somos incapazes de determinar o que é critério e o que é sintoma sem tomar

uma decisão ad hoc ou (b) mudamos os critérios constantemente ou (c) nunca decidimos qual fenômeno é

critério e qual é sintoma, isso não significa que devemos concluir que, na verdade, não há critérios em casos

desse tipo, mas apenas sintomas? “A oscilação na gramática entre critérios e sintomas faz parecer como se,

afinal, houvesse apenas sintomas.”16

Mas qual é o problema? Por que não poderia haver apenas sintomas?

Se houvesse apenas sintomas, nada do que damos como resposta à pergunta “Como você sabe que Fa

é o caso?” determinaria o significado de “F”. O significado de “F” seria independente da nossa situação epis-

têmica em relação a F. Portanto, se houvesse apenas sintomas, a semântica seria independente da epistemo-

logia. Essa seria uma semântica realista. Vimos que essa semântica implica que poderíamos usar “F” sempre

de modo incorreto (contanto que não nos contradigamos). Essa “hipótese” é atacada, como também vimos,

por meio de uma redução ao absurdo da noção de significação constitutiva da semântica realista. Investigan-

do a relação entre normatividade e critérios, e, portanto, entre significado e verdade, podemos ver mais preci-

11

O vocábulo grego “súmpt ma” significa, entre outras coisas, o mesmo que “coincidência” (cf. etimologia de “sintoma” no
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

12

Idem. Sobre a noção de sintoma nos escritos anteriores de Wittgenstein, cf. PR pp. 200, 283; PG pp. 84, 360, 370, 384, 436.

13

Z §437.

14

Se o fenômeno A é sintoma do fenômeno B, então constatamos que a ocorrência de B é sempre acompanhada da ocorrência
de A. Mas, para isso, constatamos a ocorrência de B, o que deve ser feito com base em critérios. Se dispuséssemos apenas de sinto-
mas de B, então a constatação de que a ocorrência de B é sempre acompanhada da ocorrência de A seria hipotética (provável) não
apenas porque a constatação dessas relações seja em geral hipotética, mas porque a constatação da ocorrência de B seria hipotética,
ou melhor, porque seria sempre uma hipótese que constatamos a ocorrência de B. E isso seria compatível com a hipótese de que, na
verdade, não constatamos a ocorrência de B. (Cf. o que se segue no texto acima)

15

BBB pp. 24-25.

PARTE II - LÓGICA E FORMA DE VIDA

328

samente porque a semântica realista se enreda em absurdos: ela destrói a relação criterial, nos colocando à

mercê dos sintomas. Isso acaba abrindo o espaço para o ceticismo. Mas o ceticismo é apenas uma conse-

qüência desse primeiro passo. É por isso que as reflexões de Wittgenstein sobre critérios são distorcidas

quando são vistas como estando a serviço da refutação do ceticismo. O alvo de Wittgenstein está mais atrás:

é uma das ilusões que alimenta o realismo semântico; a ilusão de que há (ou pode haver) apenas sintomas.

Mas como Wittgenstein mostra a impossibilidade de que existam apenas sintomas? Já vimos que ele ataca a

noção realista de significação e a possibilidade cética do erro maciço que está latente no realismo. Vejamos

isso agora da perspectiva dos critérios.

A normatividade das nossas expressões, segundo Wittgenstein, é constituída pelas práticas nas quais

elas são usadas. Essas práticas não são entidades independentes de nós, que encontramos prontas e podemos

conhecer bem ou conhecer mal, ou simplesmente não conhecer (salvo se “nós” aqui não se refere a todos

nós, usuários da linguagem). Elas são instituídas e conhecê-las — como práticas normativas — não é inde-

pendente da capacidade de engajar-se nelas. Conhecer essas práticas é conhecer as regras de acordo com as

quais as ações que compõem essas práticas são realizadas e conhecer regras é saber segui-las, saber o que

fazer para agir intencionalmente de acordo com elas. Isso não significa que aquele que conhece uma regra

deva estar de posse de um método capaz de decidir, para todas as ações possíveis, se cada uma delas está ou

não está de acordo com a regra (um tal método é aquilo com que sonha aquele que procura um determinante

absoluto). Isso também não significa que aquele que conhece a regra deva ser capaz de segui-la infalivelmen-

te. Significa antes que aquele que conhece a regra deve, na maior parte dos casos, saber o que fazer para

segui-la, para agir intencionalmente de acordo com ela ou agir corretamente. Mas correto não pode ser aquilo

que achamos ser correto apenas porque parece correto. Portanto, se queremos nos tornar capazes de nos en-

gajarmos numa prática, devemos nos tornar capazes de, ao menos na maior parte dos casos, distinguir ações

que apenas parecem corretas de ações que são corretas em relação à regra cuja aplicação constitui a referida

prática. Dado que essas práticas são instituídas por nós, não poderia existir a distinção entre ações que apenas

parecem corretas e ações que são corretas sem que soubéssemos reconhecê-la na maior parte dos casos; caso

contrário essas práticas simplesmente não existiriam. Isso significa que os critérios para essa distinção não

são encontrados, mas são também instituídos por nós. É isso que Wittgenstein quer dizer quando afirma que

os critérios são matéria de convenção. Essa convenção, no entanto, não é instituída por meio de uma

conventione, de uma assembléia deliberativa. Ela é instituída na própria prática, em meio às demandas que

surgem quando estamos agindo.17

Mas como conciliar essa reflexão com o que Wittgenstein diz acerca da palavra “vermelho”, por e-

xemplo, a saber, que ela não é aplicada com base em critérios? Parece que não há outro modo de se fazer isso

salvo distinguindo critérios de aplicação de critérios de correção.18

Se uma palavra é usada de acordo com

uma regra, então deve haver critérios de correção para o seu uso. Mas isso não significa que aquele que usa a

16

PI §354.

17

O uso de “convenção” nesse contexto se justifica apenas como um meio de se opor que os critérios procuram espelhar essên-

cias independentes.

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

329

palavra o faça com base nesses critérios. Isso parece uma perfeita contradição. Para ver que não é, conside-

remos o seguinte exemplo: se quisermos usar a palavra “vermelho” para dizer que um determinado objeto é

vermelho, normalmente antes de usarmos a palavra não fazemos uma enquete com as pessoas mais próximas

para nos certificarmos de que a estamos usando corretamente, isto é, para nos certificarmos que estamos

chamando de vermelho um objeto vermelho. Entretanto, se alguém disser que o objeto em questão não é

vermelho e quisermos decidir a questão, podemos fazer a referida enquete. A enquete pode ser, então, um

critério de correção, mas não é um critério de aplicação.19

Outro critério de correção que não é um critério de

aplicação é uma tabela com amostras de cor. Usamos tais tabelas apenas quando estão em jogo distinções

muito sutis de tons de cores. Não as usamos para os nomes de cores primárias, por exemplo. Obviamente,

critérios de aplicação são também critérios de correção, mas não vice versa. Alguém que não sabe aplicar a

expressão “vermelho” sem fazer uma enquete não sabe aplicá-la do mesmo modo como a aplicamos. Para

essa pessoa, “x é vermelho” significa o mesmo que “todos concordam que x é vermelho” significa para nós.

Nas passagens do Livro Azul examinadas acima, Wittgenstein tem em mente os critérios de aplicação.

Em certos casos precisamos tomar uma decisão ad hoc sobre o que é critério e o que é sintoma não

porque existam apenas sintomas, mas porque nesses casos não nos é exigido determinar o que não é essencial

para a aplicação da expressão em questão. Portanto, essa indeterminação deveria gerar, no máximo, a im-

pressão de que há apenas critérios.

A flutuação entre sintomas e critérios pode dar a impressão de que há apenas sintomas somente se a

concebermos do seguinte modo: se um critério for abandonado em benefício de outro, então isso mostra que

o antigo critério era, na verdade, um sintoma. Mas isso supõe que um determinado fenômeno possui a propri-

edade de ser um critério ou de ser um sintoma independentemente do modo como tratamos esse fenômeno ao

usar uma expressão lingüística, o que é um absurdo.20

É nesse ponto que devemos ter fixado em mente que

critérios, no sentido que interessa a Wittgenstein, são critérios para o uso de uma expressão lingüística (não

critérios para conhecermos algo a que já sabemos nos referir por meio de expressões lingüísticas que são

usadas com base em outros critérios) e que esse uso não é algo independente de nós, mas é algo que instituí-

mos. Um critério abandonado deixa de ser critério. Mas para deixar de ser critério, ele deve ser critério. O

que nos leva a pensar que um critério abandonado era, na verdade, um sintoma é a consideração das razões

pelas quais abandonamos um critério em benefício de outro com base em descobertas empíricas. Abandona-

mos um critério em benefício de outro porque há algo cuja identificação queremos tornar mais precisa, mais

eficiente. Quando, por exemplo, se descobriu que a água é composta de moléculas de H2O, abandonou-se os

critérios anteriores (ao menos dentro dos laboratórios de química) em favor da composição molecular, que é

18

Carl Wellman menciona essa distinção mas não a explica (cf. WELLMAN, 1962, pp. 443-444).

19

“O nosso jogo de linguagem [com nomes de cores] só funciona, evidentemente, se prevalecer um certo acordo, mas o concei-
to de acordo não entra no jogo de linguagem.” (Z §430) “O conceito de acordo não entra no jogo de linguagem” significa “o acordo
não é um critério de aplicação” ou “não usamos os nomes de cores com base em enquetes sobre a opinião das pessoas acerca das
cores dos objetos”.

20

É possível que um determinado fenômeno A seja sintoma de outro fenômeno B sem que saibamos. Mas não é possível que
tratemos A como critério de B quando, na realidade, ele é um sintoma, salvo se esse engano for de algumas pessoas a respeito do
uso de “B” realizado por outras.

PARTE II - LÓGICA E FORMA DE VIDA

330

um critério muito mais preciso e eficiente (para os propósitos dos químicos). Parece então que a descoberta

de que a água é composta de moléculas de H2O é a descoberta do “verdadeiro significado” da palavra “á-

gua”.21

Mas se antes dessa descoberta houvesse apenas sintomas de água, então seria possível que antes dessa

descoberta todos tivessem sempre usado a palavra “água” de maneira incorreta. Mesmo que estivéssemos

aplicando a palavra “água” com o máximo rigor possível de acordo com as evidências de que dispúnhamos

para tanto, os sintomas, poderíamos ter chamado de “água” sempre o que não era realmente água (XYZ, por

exemplo22

), embora tivesse os sintomas de água. Mas para que o uso fosse incorreto, deveria haver critério de

correção. No entanto, se tudo de que dispúnhamos eram sintomas, então somente poderiam existir critérios

de correção se fossem independentes do nosso conhecimento de sua existência. Isso, entretanto, é absurdo.

Uma regra, como vimos, não atua à distância.23

A distinção entre critérios de aplicação e critérios de correção é uma das razões para se desacreditar a

interpretação de Wittgenstein segundo a qual ele apresenta uma nova teoria semântica baseada no conceito

de critério de aplicação. Nem todas as expressões lingüísticas são usadas com base em critérios de aplicação.

Portanto não se pode dizer que, segundo Wittgenstein, o que determina o significado de uma expressão são

seus critérios de aplicação.

Quais são as conseqüências dessas reflexões sobre critérios para o ceticismo? Antes de tudo, o que se

deve entender por “ceticismo” aqui? O ceticismo é uma conseqüência latente do realismo. Ou seja, o cético

aceita a tese realista fundamental sobre a verdade. Os argumentos céticos procuram mostrar, em cada caso,

que há uma lacuna no caminho que vai do nosso modo de reconhecer a verdade à verdade, isto é, que nosso

modo de reconhecer a verdade não nos garante, de um modo que deveria garantir, que o que reconhecemos

desse modo é a verdade. Ao fazer isso, o cético trata todo o nosso sistema (coerente) de crenças como se

fosse algo epistemicamente homogêneo. Ele reconhece (ou pode reconhecer sem deixar de ser cético) rela-

ções inferenciais entre elas. Com base nisso, a única diferença epistêmica entre elas que ele reconhece é a-

quela entre crenças mais básica e menos básicas. A possibilidade de que todas sejam falsas não apresenta

nenhuma dificuldade para ele. Mas se Wittgenstein esta correto, a possibilidade do erro maciço é um círculo

quadrado semântico. Se, como vimos, seguir uma regra é uma prática, não faz sentido dizer que estamos

sempre errados.

As reflexões precedentes são muito gerais e devem dar conta de certos casos especiais. É óbvio que

alguns conceitos podem ser sempre usados de modo errado. É óbvio que algumas pessoas podem errar sem-

pre na tentativa de seguir as regras que lhes são ensinadas. Mas é impossível (e aqui isso significa que não

faz sentido dizer) que todos errem o tempo todo ao usarem (consistentemente) todos os conceitos. Podemos

sempre usar de modo errado alguns conceitos se eles forem definidos por meio de conceitos que não pode-

mos usar sempre de modo errado. E se esses conceitos definidores por ventura puderem ser usados de modo

sempre errado, então, se prosseguirmos numa cadeia de definições, devemos chegar a conceitos que não

21

Cf. Z §438.

22

Cf. PUTNAM (1995).

23

Cf. cap. VII; cf. BBB p. 14.

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

331

podem ser sempre usados de modo errado. Não faz sentido, por exemplo, dizer que “2” ou “vermelho” sem-

pre foram usados de modo errado por todas as pessoas. Isso significa que nossos critérios de correção, nesses

casos, não podem deixar margem a qualquer dúvida inteligível. Uma dúvida aqui não mostra que estamos

privados da verdade, mas nos priva do sentido. Melhor: uma dúvida aqui mostra que não dominamos o con-

ceito em questão.

O realista e, portanto, o cético possuem aquela concepção distorcida de epistemologia e semântica

descritas acima. Isso faz com que eles não vejam nenhuma relevância semântica na pergunta sobre como

alguém sabe que tal e tal coisa é o caso. Mas como a impossibilidade do erro maciço mostra, essa pergunta

pode ser respondida dando-se informações semânticas: os critérios. Saber se é o caso que Fa, quando se trata

de um saber baseado em critérios, é saber como aplicar “F” e “a” corretamente. Quando esse saber for basea-

do em sintomas, pressupõe o domínio do uso das expressões “F” e “a” e, portanto, critérios de correção.

Mas o cético tem um outro argumento: dado que a satisfação de um critério C, segundo Wittgenstein,

não implica logicamente que exista o fenômeno X para o qual C é um critério, existe sempre a possibilidade

de uma dúvida racional de que F ocorra, mesmo que C esteja satisfeito. A possibilidade de revisar os juízos

que se baseiam em critérios é o famoso aspecto da revogabilidade dos critérios. Entretanto, o argumento

cético supõe que a revogabilidade é universal e independente do contexto. A relação criterial realmente não é

nunca uma relação de implicação lógica. Proposições da forma “É o caso que C” (onde “C” designa um crité-

rio de X) nunca implicam logicamente “É o caso que X”. Não obstante, há contextos em que a dúvida e,

portanto, a possibilidade de revogação, é simplesmente sem sentido. Por exemplo: não faz sentido duvidar de

alguém que é atirado às chamas e grita desesperadamente ou de uma criança que esteja sendo beliscada que

esteja sentindo dor.24

Portanto, a não existência de implicação lógica na relação criterial não implica que essa

relação seja sempre e em qualquer contexto racionalmente revogável. Se ela fosse sempre revogável, ela não

se diferira da relação sintomática. Ir da inexistência de implicação lógica para a revogabilidade generalizada

é cometer um non sequitur que se baseia numa concepção equivocada de dúvida. A presença de certeza e a

ausência de implicação lógica não são, aqui, incompatíveis. Não é necessário excluir todas as possibilidades

lógicas incompatíveis com a verdade de “p” para termos certeza racional da verdade de “p”.

Alguém poderia objetar do seguinte modo: “É absurdo duvidar nas circunstâncias descritas acima.

Mas a absurdidade em questão não é semântica. A sentença ‘Duvido que ele sinta dores’ dita nessas circuns-

tâncias tem sentido, embora seja ininteligível porque a pessoa em questão tem as dúvidas que tem.” Mas por

que é ininteligível que alguém tenha essa dúvida nessas circunstâncias? Além disso, como uma sentença

pode ter sentido e sua enunciação ser ininteligível? Essa objeção pressupõe que uma sentença, por assim

dizer, “carrega” o seu sentido sempre que ela é enunciada e, a fortiori, que o sentido de uma sentença é inde-

pendente do contexto em que ela é enunciada. Isso, por sua vez, pressupõe a problemática noção de corpo de

significado que está ligada à problemática noção de significação como um ato mental independente das nos-

sas práticas criticada por Wittgenstein.

24

Cf. HACKER (1990), pp. 565-566.

PARTE II - LÓGICA E FORMA DE VIDA

332

Mas se os critérios são instituídos por nós, isso significa que instituímos que determinado comporta-

mento, por exemplo, é critério para a dor? Não, não é critério para a dor, mas para a palavra “dor”! Essa

distinção parece ser apenas verbal, mas não é. Ao se dizer que certo comportamento é o critério para a dor,

parece que está determinado o que é dor e que os critérios nos dão apenas o meio de saber se há dor, como se

eles não tivessem nenhum papel semântico, mas apenas epistemológico, no sentido distorcido explicado

acima. É como se supuséssemos o seguinte: “dor” significa dor, uma sensação determinada, e determinado

comportamento é nosso critério para saber se há dor. Uma tal suposição envolve a possibilidade de se apren-

der o significado de “dor” por meio de definições ostensivas privadas e, portanto, implica que a atribuição de

dor aos outros se dá sobre a base de argumentos por analogia. Nesse caso, os critérios para “dor” são priva-

dos e o uso de “dor” na terceira pessoa é feito com base em meros sintomas, cuja descoberta é feita da pers-

pectiva da primeira pessoa. Essa relação sintomática é posteriormente projetada na terceira pessoa com base

num argumento por analogia (o que garantiria, no máximo, o sentido dessas atribuições, mas não a verdade).

É nesse ponto que o ceticismo entra em cena, pois se as atribuições de dor da terceira pessoa são feitas com

base em sintomas, então a dúvida racional é semprepossível. O argumento da linguagem privada procura

mostrar que não há critérios privados (não usamos “dor” na primeira pessoa com base em critérios de aplica-

ção) e que, portanto, as atribuições de dor na terceira pessoa não podem ser todas baseadas em sintomas.

Dizer que determinado comportamento é critério para o uso de “dor” na terceira pessoa é dizer que isso de-

termina o significado de “dor” nas atribuições de dor na terceira pessoa. A assimetria entre as atribuições de

dor na primeira e na terceira pessoas não é (como pensa o realista) epistêmica, mas semântica.

Mas se na primeira pessoa não usamos “dor” com base em critérios de aplicação e usamos “dor” na

terceira pessoa com base em critérios de aplicação, isso não significa que “dor” não significa a mesma coisa

em ambos os casos? Bem, isso vai depender muito do que significa “significar a mesma coisa”. Se Wittgens-

tein tivesse sustentado (o que ele não fez) que toda diferença de uso implica uma diferença de significado,

então teríamos que concluir que “dor” não significa a mesma coisa em ambos os casos. Não estamos fazendo

o mesmo tipo de lance no jogo de linguagem com a palavra “dor” quando dizemos “Eu sinto dor” e “Ele

sente dor”. Não nos baseamos em critérios para usar “dor” em “Eu sinto dor” e nos baseamos em critérios

para usar essa palavra em “Ele sente dor”. Mas os dois usos possuem suficientes semelhanças para que diga-

mos, e de fato dizemos, que a palavra “dor” significa a mesma coisa em ambos os casos: no primeiro caso

usamos “dor” para expressar dor e, no segundo, para atribuir dor. (Considerações análogas podem ser feitas

com relação à palavra “verdade” usada em conexão com proposições empíricas e em conexão com proposi-

ções matemáticas, por exemplo.) Certamente que de “Eu sinto dor” e “Ele sente dor” podemos concluir “Eu

sinto o mesmo que ele, a saber: dor”. Mas isso não torna o uso de “dor” idêntico nos dois casos. A assimetria

semântica aqui, entretanto, não implica que “dor” é uma palavra ambígua. O melhor seria dizer que os dois

usos de “dor” determinam o significado de “dor”. É por isso que nenhuma explicação do significado de “dor”

que considere apenas um dos usos pode ser uma explicação geral do significado de “dor”. Com a palavra

“dor” ocorre o mesmo que com a palavra “jogo”.

CAPÍTULO VII – GRAMÁTICA E FILOSOFIA

333

Wittgenstein não pretende que a regularidade entre a dor e o comportamento de dor (e, portanto, que a

regularidade com que as proposições “Ele exibe comportamento de dor” e “Ele tem dor” são simultaneamen-

te verdadeiras) seja instituída por nós. Na secção 142 das Investigações, como já vimos, ele diz:

E se as coisas se comportassem de modo totalmente diferente do modo como realmente se comportam — se
não houvesse nenhuma expressão característica de dor, de medo, de alegria, por exemplo; se o que é regra se
tornasse exceção e o que é exceção, regra; ou se tornassem ambas fenômenos com aparentemente a mesma
freqüência —, então nossos jogos de linguagem normais perderiam seu propósito.25

Se não houvesse nenhuma expressão de dor, então não haveria o jogo de linguagem com a palavra dor.

As objeções realistas contra Wittgenstein baseiam-se na errônea suposição de que Wittgenstein, nas

suas reflexões sobre os critérios de “dor”, identifica dor e comportamento de dor, o que ele nega explicita-

mente.26

Ele, entretanto, esforça-se para mostrar que essa distinção deve ser determinada a partir da distinção

entre os critérios para “Ele sente dor” e “Ele finge que sente dor” ou “Ele finge que não sente dor”.

As reflexões de Wittgenstein sobre as relações entre critérios, significado e verdade têm suscitado crí-

ticas que o acusam de negar a existência de verdades necessárias, como as da matemática. Um desses críticos

é Michael Dummet. A próxima secção é destinada a expor a interpretação de Dummett. Veremos depois

disso que a principal fonte dos erros interpretativos e objeções de Dummett é sua insatisfação com a concep-

ção de filosofia de Wittgenstein.

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