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PERDÃO: AMOR QUE RECONSTRÓI O PASSADO

“O perdão não modifica o passado mas expande o futuro” (Paul Boese)

O passado carrega lembranças de fatos e experiências negativas: culpas, traumas,


desilusões, limites,
pecados, rejeições, fracassos, erros...
Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente o presente.
Nestes casos, o amor é memória que não deve apenas recordar e registrar o
passado, mas também reconstruí-lo.
O passado de cada pessoa não pode ser considerado como um destino, como
algo que aconteceu e terá
uma fatal continuação, sem qualquer outra alternativa possível.
O ser humano é capaz de se colocar diante do próprio passado, qualquer que ele
tenha sido, de modo fundamentalmente livre. O princípio de base é este:
“O ser humano pode não ser responsável pelo seu passado, mas de qualquer forma é responsável
pela atitude que assumir, no presente, em face desse passado”.

O passado continua vivo em nossas mãos, e à espera de receber um


significado que ninguém, a não ser
o próprio indivíduo, pode lhe dar. Então a pessoa será sujeito de sua
existência, e o passado deixará de ser um tempo alienado para se transformar
numa parte integrante do próprio eu.
“Quando alguém está diante de fatos incompreensíveis, a pergunta a fazer não é a seguinte: “Por
que isso aconteceu?”, mas: “Que atitude devo assumir para que o que aconteceu
tenha um sentido?” De fato, o ser humano pode modificar o valor das situações históricas
introduzindo rumos novos nos próprios episódios acontecidos” (Carlo Molari).

É isso o que Jesus fez; Ele introduziu um sentido onde um sentido parecia não
poder existir, pôs em mo-vimento valores onde parecia não haver valores,
tornou Deus presente onde Ele fora expulso.
“As situações insensatas podem ser vividas pelo ser humano desde que ele consiga dar sentido ao
que parece não ter sentido” (Carlo Molari).
É nesse sentido que o amor transforma o passado “congelado” (congelado por
causa das recordações negativas, ou de fatos negativos que não foram
suficientemente reelaborados e reintegrados na vida) num presente “que
avança”; é possível recuperar o passado, de “vivê-lo” e de fazê-lo viver, de se
colocar diante dele com postura criativa e livre.
O amor não elimina o que já foi feito, nem faz esquecê-lo, mas consegue
arrancar a vida de um fatal e inócuo ponto morto. E neste sentido entra em jogo
o perdão cristão: ele nos permite recolher os fatos passados que estão
“bloqueados” e orientá-los para horizontes muito mais amplos de sentido.
O perdão não tem impacto no que foi, mas no que é e será. É um gesto de responsabilidade para com o
presente e o futuro. Um perdão que faz sentido e que enriquece a vida ao invés de empobre-
cê-la. Se o passado foi estreito, não permita que o presente e o futuro o sejam.
O perdão é a única atitude que pode movimentar as histórias pessoais e coletivas, lançando-as para fora
do círculo vicioso do já realizado, para fora da repetição e da mesmice.
O perdão limpa o terreno para o novo. O perdão nos arranca do imobilismo do passado e nos faz dar
um passo a mais. Este “passo a mais” permite-nos sair de nossas memórias feridas, permite-nos viver o
presente e caminhar para o futuro. O perdão reconhece na pessoa a sua condição humana, ou seja, o
dom de começar de novo, o dom de iniciar algo novo apesar de todas as expectativas em contrário.
O amor-memória não falsifica ou repudia o que foi feito; não distorce os fatos
passados; ele reinterpreta o passado a cada novo instante do presente,
orientando-os segundo as perspectivas atuais da pessoa.
O caminho para a libertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se achará
e se experimentará ao contato com o Senhor Crucificado: que fiz? que faço? que farei por
Cristo?

Textos bíblicos: 1Sam. 15,16-31 Jer. 31,23-34 Num. 14,11-25 Jer. 33,1-13 Miq. 7,14-
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Na oração: Seguros de que Deus nos acolhe


e nos aceita, podemos deixar que
aflorem pouco a pouco à superfície as verda-
des reprimidas de nossa existência e o arrepen-
dimento através do qual nossa vida consciente
assume essas verdades. Por meio deste ato da
graça, iremos nos reconciliando mais e mais com tudo o que é nosso.