Aspectos fisiológicos e econômicos da castração em animais de produção e companhia - Verdades e crendices Introdução

Este artigo visa disponibilizar por meio de revisão de literatura, informações relacionadas aos resultados e conseqüências da castração, com ênfase em animais de produção. A prática da castração constitui um dos problemas de manejo mais controvertidos na pecuária de corte (Pereira et al., 1977). Questões polêmicas como a necessidade ou não da castração, melhor idade, época e o método são sempre freqüentes. As informações aqui disponibilizadas são constituídas de resultados científicos, raciocínios técnicos e de crendices regionais. As diversas particularidades inerentes à castração devem ser do conhecimento do Médico Veterinário, sendo mesmo imperativo que sejam ensinadas durante o curso de graduação para se evitar prejuízos econômicos ou de credibilidade profissional. A importância do conhecimento das referidas particularidades está relacionada com a influência econômica, positiva ou negativa, na cadeia produtiva da carne. Além disso, as particularidades em torno da castração são ainda importantes em relação aos animais de companhia e de trabalho, quando se busca essa opção visando o controle reprodutivo ou adequação do comportamento animal à atividade desejável.

Ética e bem estar animal
A castração é a cirurgia mais praticada nos animais domésticos. Todavia, apesar de se tratar de uma intervenção cirúrgica, portanto uma prerrogativa legal do Médico Veterinário, a realidade é outra. Sabe-se que um número predominante de castrações é praticado por leigos que não dispõem de conhecimentos técnicos além da prática repetitiva, artesanal e limitada. É importante considerar a dimensão desse trabalho, pois em muitas ocasiões o conhecimento teórico sem a competência prática tem resultado em prejuízo e descrédito. Para se evitar tais inconveniências, acredita-se que a melhor conduta seja a reunião do conhecimento técnico com a prática vivenciada. Os leigos que castram animais são reconhecidos os castradores. Os peões das fazendas além de outros serviços também castram animais, sendo esses os mais numerosos. Os castradores cobram em média de dois a quatro reais por bovino castrado, dependendo das condições relativas ao número, idade e instalações. Os peões que castram animais não recebem remuneração adicional por esse serviço, a não ser os testículos que constituem iguaria adicional na alimentação. Como estimativa imprecisa do número de castrações realizadas ape-

Geraldo Eleno Silveira Alves Médico Veterinário, CRMV – MG nº 3612, Prof. Adjunto Doutor. Endereço para correspondência: Escola de Veterinária da UFMG, Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária – Avenida Antônio Carlos, 6627 – CP 567 – Pampulha – Belo Horizonte – MG. E-mail: geraldo@vet.ufmg.br

José Aldo Puccetti Moraes Santos Médico Veterinário, CRMV - SP nº5526 E-mail: aldo.vet@uol.com.br Ricardo Tannus Ricardo Jorge Tannus Médico Veterinário, CRMV – SP nº5146, Prof. Doutor E-mail: diretoria@faj.com.br P. C y n t h i a M a r i a d e P a u l a P. Jannuzzi Médica Veterinária, CRMV- SP nº20830 E-mail: cynthia_med@yahoo.com

Revista CFMV - Brasília/DF - Ano XIII - Nº 40 - 2007

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foram abatidos 1. Esse aspecto permite inferir que o número de operações realizadas é consideravelmente grande. Há produção de mediadores inflamatórios (da dor) em quantidade proporcional à magnitude da ferida. 2002. Assim haverá menor incidência de complicações como constataram Padua et al. Stafford e Mellor (2005) mencionaram que qualquer método físico usado para castração de bovinos acarreta efeitos adversos e dor. 1969). Contudo. órgão ou sistema tem suas fases próprias de maior intensidade de crescimento.. ligadura e secção dos funículos espermáticos e (4) período de inflamação pós-operatória. se manifestam nos animais Revista CFMV . a castração de bovinos sem anestesia prévia não é permitida desde setembro de 2001. Se houver distúrbios nutricionais durante essas fases. Portanto. Como também vem sendo utilizada para avaliar diferentes técnicas de castração (Robertson et al. 2003.830. vários autores têm avaliado as vantagens e desvantagens do uso de anti-inflamatórios não esteroidais (Stafford et al. (2003). Adicionalmente. durante as quais aumentam as necessidades metabólicas (Roverso et al.nas em bovinos no Brasil. Deve ser salientado que a anestesia local infiltrativa do escroto não abole a dor profunda induzida pela tração dos funículos espermáticos através dos testículos. na prática bem conduzida. a fim de otimizar todas as condições para minimizar o padecimento e as complicações possíveis.Nº 40 .586 machos e 522. sendo seccionados um número menor de nervos e vasos. É imperativo que as incisões sejam praticadas por instrumento adequadamente afiado. as incisões longitudinais e laterais. Desenvolvimento físico Para melhor entender os resultados e conseqüências da castração de animais de produção é importante salientar alguns princípios que regem o desenvolvimento físico dos animais. quer seja durante ou após a prática da castração.2007 . Em bezerros castrados pelo método do elastrador. Não há mais o efeito da anestesia local.269 bovinos. (3) momento da tração.. Diversos experimentos têm sido conduzidos em diferentes países com a finalidade de abolir ou controlar o sofrimento animal. Todo método de castração causa elevação significativa na concentração de cortisol sérico (Stafford et al.683 fêmeas. quando comparados aos de maior idade. na Suíça. à desorganização tecidual pela técnica ou cuidados inadequados e a presença de complicações diversas possíveis.. esse fato só ocorre com o uso de analgésicos e antiinflamatórios além da anestesia local (Stafford e Mellor 2005). assim como é proibida a prática de castração pelo método do elastrador. expondo maior quantidade de nervos e vasos o que invariavelmente resulta em maior sensibilidade dolorosa e hemorragia. deve se considerar que esses dados não contemplam abates clandestinos. cada tecido. Zulauf et al. Ultimamente. (2003) e Silva et al. Stafford e Mellor. com freqüência. não devem ser desconhecidos os períodos críticos de padecimento ou estresse em conseqüência da castração em animais a campo. Essa dor poderá ser controlada por infiltração anestésica diretamente nos funículos e/ou intratesticular. Adicionalmente. 2002). É importante que sejam considerados todos os momentos ou períodos referidos.Ano XIII . Em outras palavras. as questões relacionadas à dor e ao estresse decorrentes da castração tem motivado a condução de várias pesquisas. resulta em quantidade maior de estruturas terminais nervosas e vasculares seccionadas. portanto. não é prudente negligenciar suas reais desvantagens decorrentes da incisão em sentido contrário às linhas de tração do tecido escrotal.000 bovinos castrados. Por outro lado. o que pode ser limitante na prática. pode-se estimar que o número de castrações praticadas em bovinos a cada mês é igual ou maior que o de bovinos castrados abatidos no mesmo período. a fim de não ocorrer anfractuosidades dos tecidos e.Brasília/DF . Citaram ainda que os métodos farmacológicos para eliminar essas conseqüências durante 12h implicam em custos adicionais... (2) momento da anestesia local e das incisões. Poderiam ser sistematizados em (1) momento da contenção. Considerando que o abate de machos não-castrados ainda não atinge 50%. pode-se levar em conta o número oficial de bovinos abatidos em dezembro de 2002. apesar dessa prática ser difundida com base no argumento de que facilita a drenagem. não representam cruência maior. Segundo Zulauf et al. É oportuno salientar que a castração de ruminantes pela secção transversal do ápice do escroto. Rollin (2003) considerou que não há evidências de que a dor resultante da castração seja menor em animais novos. maior reação inflamatória e sofrimento. apesar de serem duas. Segundo o IBGE. leis britânicas permitem castração sem anestesia somente antes do animal atingir oito semanas de idade. Buscando solução para controlar a dor durante o período pós-castração. Como exemplos dessas alterações podem ser citadas as doenças ortopédicas do desenvolvimento que. bem como animais de outras espécies que também são castrados.307. O período de inflamação pós-operatória é crítico em relação à dor e estresse e está relacionado a diversos fatores. sendo 1. é seguro dizer que em apenas um mês foram abatidos mais de 650. a anestesia local é suficiente para que a concentração sérica de cortisol não se aumente. Assim. resultando em menor estímulo algogênico e hemorragia. (2003). conhecida por tampão. mas quando se utiliza a técnica do Burdizzo ou incisões cirúrgicas. 2005). a dosagem de cortisol tem sido a variável mais utilizada para 68 monitorar o padecimento pela dor e estresse em animais submetidos à castração. A partir desse referencial. O desenvolvimento físico resulta das diferentes velocidades de crescimento de suas partes integrantes. 1994). invariavelmente irão ocorrer alterações no desenvolvimento. São posicionadas no mesmo sentido das linhas de tração do tecido.

Gerrard et al. um anabolizante esteróide que estimula a síntese de proteínas e as secreções de hormônio do crescimento e de prolactina. 2002). 1971. 1983. Efeitos da castração no desenvolvimento físico e no comportamento A castração é uma intervenção cirúrgica com o objetivo de influir nos sistemas endócrino e neurológico visando mudanças nas características físicas e comportamentais. Resultados de pesquisas demonstraram que os ossos longos de bovinos não-castrados eram menores do que os de animais castrados.8% mais músculos. buscando alguma vantagem..Brasília/DF . relação músculo/osso 6. as fêmeas são mais precoces que os machos castrados e esses mais que os não-castrados. 2000). 1993a. menor exigência de mantença. Para minimizar tais dificuldades e principalmente evitar problemas na qualidade da carne. Os bovinos taurinos desenvolvem mais precocemente que os zebuínos que finalizam o crescimento mais tardiamente (Roverso et al..6% a mais. um ganho em peso que pode chegar a 38.. 1996). ao contrário dos animais não-castrados que.5 e 28. com efeito mais acentuado nos animais mais novos (Danilevskaja. 1971. 1993). Isso ocorre porque a castração reduz a concentração de testosterona. Silva. Pereira et al. 1978. os bovinos não-castrados apresentam melhor conversão alimentar. possivelmente devido a ação da testosterona na placa de crescimento epifisária. Qualquer influência imposta sobre os fatores citados. Em experimento controlado. Silva. Galbraith et al. deslocando posteriormente o centro de gravidade do tronco.3 e 24% mais rápido.. 2000).2007 . O melhor ganho em peso dos bovinos não-castrados pode ser devido ao maior desenvolvimento de músculos com menor deposição de gordura (Field. 1970). podem acarretar dificuldades ao manejo. Shahin et al.4% menos gordura (Cosgrove et al. a castração inibiu a hipertrofia dos músculos do pescoço e estimulou os do abdome com maior capacidade de acumular gordura. (1982). Morais et al. constatando que animais castrados possuíam altura de cernelha maior do que animais nãocastrados quando seus pesos foram fixados (Purchas et al.. 1987).9% maior. A altura de cernelha entre esses dois grupos de animais foi mensurada em um estudo recente.. 2001). A análise da conformação física de bovinos permitiu verificar que a castração causa uma pequena. 1992. Shahin et al. 1982)..Nº 40 . os bovinos não-castrados alcançam uma conversão alimentar entre 9. 1977. os bovinos não-castrados desenvolveram 8. demandado pela maior carga de peso dos quartos dianteiros e da cabeça (Shahin et al. é fundamental considerar a influência da qualidade nutricional. sendo menos dóceis. 1969. um desenvolvimento entre 12. Quanto à conformação da musculatura esquelética. enquanto os bovinos castrados desenvolvem carcaça de melhor qualidade. Sobre esse último aspecto é relevante salientar que os animais castrados apresentam vantagens relativas ao manejo. glândulas de secreção interna (endocrinologia). de modo geral.1968). pois possuem órgãos com menor volume e. até no máximo dois anos (Seideman et al. 2000). Roverso et al. A percentagem de tecido muscular no contrafilé desses animais fica em média 12% acima que nos bovinos castrados (Warwick et al. 1969). O melhor funcionamento desse conjunto tem dependência absoluta do equilíbrio entre suas interações e interdependências. a idade mais conveniente para o abate dos bovinos nãocastrados é de 16 a 18 meses (Moura e Luchiari Filho. Segundo Seideman et al.Ano XIII . por conseguinte. 24. Efeitos da castração na qualidade da carne A castração feita no bovino destinado ao abate está relacionada 69 Revista CFMV . nutrientes (nutrição) e meio ambiente (ecossistema).. Considerando o desenvolvimento físico em relação à idade. que são importantes para o desenvolvimento (Silva.. mas significativa redução no desenvolvimento dos ossos dos quartos dianteiros e aumento dos ossos dos quartos traseiros.. Gregory e Ford. Diversos experimentos científicos em bovinos possibilitaram concluir que a castração reduz a taxa de crescimento (Prescott e Mamming. maior crescimento e melhor taxa de ganho em peso em relação aos animais castrados (Champagne et al. sistema nervoso (neurologia). 1969.. 1993b).8% maior. constituído de genes (genética). bovinos não-castrados desenvolvem carcaças com mais carne vermelha comerciável e menos gordura. Em pastagens de baixa qualidade nutricional os bovinos castrados apresentam melhor desempenho que os não-castrados. O maior desenvolvimento da musculatura do pescoço em animais nãocastrados pode ser devido à ação de hormônios andrógenos associada ao maior esforço desse grupo muscular.1964). Quando se comparam as taxas de ganho em peso entre bovinos castrados e não-castrados. O desenvolvimento físico animal é regido por um conjunto de sistemas fisiológicos e fatores integrado.. 1996. acarretará algum desequilíbrio com alguma conseqüência.submetidos à pressão de manejo visando a precocidade de crescimento (Riond.. com rendimento de carcaça semelhante a bovinos castrados (Field. Já em pastagens de qualidade nutricional elevada. Em valores percentuais..

(1996) verificaram que o peso maior dos bovinos inteiros aos 17 meses. são abatidos somente animais castrados. o resultado é o subdesenvolvimento dos caracteres sexuais secundários. Atualmente tem sido crescente a preferência do mercado por alimentos com menor teor de gordura. Um outro estudo verificou também que a carne de animais nãocastrados apresentou-se menos macia.. havendo restrições maiores para animais que já tenham trocado os dentes de leite. O mercado de compra nos frigoríficos ainda é muito variado e quase sempre. Morgan et al. 1994) que visaram definir a melhor idade para a castração em bovinos.. alegação de melhor uniformidade e qualidade da carne. antes da puberdade. consideraram que o menor crescimento dos castrados. mercado etc. Animais não-castrados apresentam carcaças com menor cobertura de gordura. 1991. 2000).Nº 40 . a melhor idade para castração permanece sendo uma das questões mais controvertidas e freqüentes. foi perdido até à época do abate aos 22 meses de idade. mormente finalidade dos 70 animais. Restle et al.1992). fatores como a atividade proteolítica reduzida. Quando a castração é praticada em animais na fase pré-púbere. uma vez que aos 24 me- ses esses animais apresentam o mesmo desenvolvimento dos não-castrados.à atividade de proteinases no músculo. A idade mais conveniente dos animais a serem castrados deve ser a que permite as maiores vantagens para os fins almejados. em relação aos castrados aos sete meses. Porém. levando em conta o desenvolvimento e a taxa de ganho em peso permitiu concluir que não há diferença quando se comparam idades dentro da fase pré-puberal. manejo. Apesar desses fatores contribuírem para o melhor entendimento da complexa regulação da proteólise em ambas as fases. Em alguns frigoríficos. 1997). quando foram castrados. uma maior quantidade de tecido conjuntivo dos animais não-castrados são fatores pertinentes possíveis. constituindo um aspecto indesejável (Padua et al. durante o resfriamento. como referência de aca- Revista CFMV . Cosgrove et al. (1992) verificaram que bovinos não-castrados apresentaram uma atividade da calpastatina maior do que animais castrados. forçando o aumento do abate de bovinos não-castrados. a puberdade constitui a faixa etária diferencial marcante entre a maior e a menor influencia. não compromete o desenvolvimento. Se o mercado exigir taxas em torno de 30% de gordura. Isso se deve a preferência do mercado. muitos fatores relacionados à bioquímica do processo ainda não foram completamente elucidados (Purchas et al. durante o crescimento e após o abate. maiores perdas durante o cozimento e. Idade mais adequada dos animais para a castração A questão da melhor idade para a castração não é banal.. principalmente nos estados do sul. 2003). menor valor é pago por bovinos nãocastrados. Diante desses resultados. o que vem estimulando à produção de carnes mais magras e.Ano XIII . Uma outra enzima chamada calpastatina também foi constatada como um mediador efetivo no processo de proteólise mediado pelas calpaínas na carne bovina após o abate. Cabrera et al. concentrações menores de gordura intramuscular. exceto para perímetro toráxico e peso vivo. Os autores concluíram que a castração de eqüinos prépúberes. mudanças comportamentais e de desempenho (Feijó.Brasília/DF . ocorrendo regresso de algumas características. se a castração for praticada após a puberdade seus efeitos serão menos expressivos. Porém. a atividade das calpaínas é diminuída e por sua vez ocorre uma redução na lise miofribrilar.2007 . (2003) concluíram que a castração aos 15 meses prejudicou o desempenho de bovinos mestiços leiteiros quando avaliados aos 24 meses e comparados com animais nãocastrados. uma cor mais escura na parte externa dos músculos. na medida que interagem aspectos particulares. 1998). (2004) ao estudarem o desenvolvimento de eqüinos castrados e não-castrados. Apesar de parecer banal e ser razoavelmente estudada. Dessa forma é fundamental que os bovinos inteiros sejam abatidos no máximo aos 24 meses de idade. Na presença de altas concentrações de calpastatina. Presume-se que o sistema proteolítico constituído pelas calpaínas tem importante participação na degradação protéica após o abate e confere a carne sua propriedade tenra (Morgan et al. tanto no animal vivo quanto após abate. até mesmo com poucos meses de idade. Por outro lado. a castração favorece o acúmulo de gordura. Embora não tenha sido comprovada qualquer explicação para esses achados. Padua et al. Sem dúvida a idade dos animais tem influencia significativa nos efeitos da castração e. possivelmente. o que acarreta. Em muitos frigoríficos.. fica evidente que o ideal seria manter os animais sem castrar até o abate a fim de assegurar a vantagem do maior ganho em peso. sendo na maioria das vezes pago um valor menor por esses animais em relação aos castrados. de certo modo. Mercado consumidor No Brasil é proibido por lei o uso de hormônios anabolizantes em animais destinados ao abate. deve ser seguido por um crescimento compensatório. A revisão dos trabalhos experimentais (Carrilo et al.. o pH ligeiramente mais alto. 2002). pois são considerados acima da melhor idade (Yassu. motivo principal para sua prática desde antes da era Cristã (Silva. se admite o abate proporcional de bovinos inteiros.

além de subtrair dessa os odores característicos dos machos não-castrados. (2003). principalmente em bovinos de mais idade. pois. Contudo. Apesar dos resultados das pesquisas. as condições de trabalho relativas ao ambiente e as instalações. Diferentes técnicas têm sido utilizadas para a castração de ovinos. toxemias. logo após. edema intenso. os autores concluíram que o método de castração não influenciou o ganho em peso dos animais. os frigoríficos não compram bovinos não-castrados. Eqüinos – Os objetivos principais da castração de eqüinos são adequá-los à função e auxiliar o processo de seleção genética. Osório et al. vários fatores influenciam a ocorrência dessas complicações. Ovinos . bem como a idade dos bovinos. menor eficiência de conversão alimentar. 2003). o Médico Veterinário tem sido mais solicitado. Outras advertências se referem ao local correto de emasculação. 1999.. na medida em que além da possibilidade de interrupção da dinâmica de desenvolvimento físico e/ou ganho de peso. esse método pode acarretar processos inflamatórios e distróficos exuberantes. até alcançarem 30 kg de peso. funiculite e fístulas. abscessos e fístulas. quase sempre acarreta complicações e conseqüentes prejuízos. Austrália e Estados Unidos. Nos bovinos castrados pelo método do Burdizzo a taxa de re-intervenção foi de 15.Nº 40 . granulomas. ao contrário de países da Europa. lembrando que instrumentos muito utilizados perdem eficiência. a faixa etária dos bovinos. 1990). o abate de bovinos não-castrados apresenta desvantagem.Ano XIII . Nos animais castrados pelo método de duas incisões verticais e laterais aos testículos não houve necessidade de reintervenções. entre outros. entre outras. Segundo Beermann et al. se o abate for praticado entre quatro e cinco meses de idade não haverá necessidade da castração (Figueiró & Benavides. A castração de bovinos pela técnica de duas incisões longitudinais e laterais ao escroto resulta em menor número de complicações quando comparada a técnica de incisão transversal no ápice do escroto (Silva et al. toxiinfecções. infecção. Carvalho et al. A experiência mostra que a emasculação errônea de partes do epidídimo e testículo. devido o desgaste. e mesmo óbitos. acar- retando afrouxamento do conjunto de eixos. atenção deve ser dada à qualidade e o estado funcional do emasculador Burdizzo. visto que esses animais necessitam maior peso e. 1985. Já nos animais castrados pelo método cruento do tampão a necessidade de reintervenção foi de 4.76% para tratar granulomas. conservação e aspecto da carne. serviços. dias ou até anos depois da castração (May e Moll. Tais complicações podem ocorrer durante. Silva. 1999). principalmente. Entretanto sob certas condições. 2000). Em estudo sobre o desempenho de cordeiros não-castrados e castrados por diferentes métodos.87% e teve a finalidade de remover tecidos necrosados. queda da qualidade da carne o que implica menor preço (Crouse et al. é prudente considerar que complicações sempre constituem uma ameaça e riscos de prejuízo eminente. cuidados pósoperatórios e possibilidade de complicações. A castração pelo método não cruento com emasculador Burdizzo ganhou adeptos que a classificam como melhor. Entretanto. Isso acarreta em prejuízo considerável devido não só o tempo maior. que prejudica a comercialização. consumo de tempo.bamento. Com relação ao mercado externo. A castração tem sido praticada para facilitar o manejo e quando os animais são abatidos em idades mais avançadas. Para minimizar a ocorrência dessas complicações. uniformizar a qualidade. as diversas técnicas e métodos de castração. 1999) e. 2002). Elas apresentam vantagens e desvantagens quanto à facilidade de excussão. recomenda-se que a castração seja 71 Revista CFMV .. por conseguinte. Para evitar tal inconveniente. mormente gangrena gasosa e tétano. A castra- ção é o procedimento cirúrgico realizado com mais freqüência em eqüinos (Searle et al. em países como a Argentina. podem ser citadas a hemorragia. míiases. 1990.Brasília/DF . Quanto às possíveis complicações advindas dos métodos cruentos. (1995) machos nãocastrados apresentam como vantagens maior ganho de peso e menor acúmulo de gordura. evita certas complicações oriundas das feridas produzidas pelas técnicas cruentas por incisões. dificuldade crescente de manejo e... além da experiência do operador.. a época do ano. perda de peso. é importante considerar que. Ribeiro et al. sendo que as principais complicações relacionadas aos fatores de risco estão sistematizadas na tabela 1. para o que. implica também maior perda de peso. em vez do cordão espermático.2007 . mas também ao maior consumo de alimento e insumos. certamente devido a maior possibilidade de complicações quando comparado com bovinos. onde os anabolizantes são proibidos e os frigoríficos aceitam animais não-castrados (Silva. granulomas e miíases. tempo para atingir essa taxa.A qualidade da carne ovina depende diretamente da idade jovem do animal e de menor quantidade de gordura na carcaça (Figueiró & Benavides. Caprinos . Entre as quais. A necessidade de reintervenção para controle de complicações foi descrita por Padua et al. 2000). ocupação de pastagem prolongada. abscessos.A castração tem sido justificada como prática que visa facilitar o manejo. que o método de castração não influencia esse desempenho quando os animais são terminados em confinamento e abatidos aos 30 kg de peso. (2003) concluíram que a castração é desnecessária para a produção de cordeiros se o objetivo é apenas o desempenho dos animais e. insumos e ocupação territorial de pastagem por maior tempo. Principais complicações Bovinos – Antes de mencionar algumas complicações decorrentes da castração em bovinos.

2007 . Resultados experimentais mostraram indiferença no ganho de peso e o rendimento de carcaça quando se comparou caprinos castrados e não-castrados. Após a castração. que desfrutavam de credibilidade e respeito por parte de muitos proprietários. normalmente a castração é praticada após o afastamento como reprodutores.Brasília/DF . íon hidrogênio e ácido lático. o que ativa a miosina ATPase. permitindo concluir que essa prática não é necessária se o objetivo é o abate de caprinos jovens (Braga. alguns desses práticos benziam os animais.A prática da castração de suínos machos é obrigatória no sistema de produção para o abate. míiase. elevando as concentrações de dióxido de carbono. Os metabolismos aeróbico e anaeróbico aumentam. a fim de atender à solicitação abrupta de energia. Crendices No passado a prática da castração de animais foi objeto de crendices que ainda se tem conhecimento. Até mesmo um pouco de misticismo desenvolveu-se em torno de muitos castradores. a predisposição genética facilita a ocorrência de um desajuste dos canais de cálcio. A síndrome pode ser desencadeada pelo estresse de contenção. pois passaram de geração a geração dependendo do regionalismo e do tradicionalismo da cultura rural. A hipertermia decorre de aumento intenso no metabolismo celular. Outro fator importante é que diversas raças de suínos são geneticamente susceptíveis à síndrome suína de estresse.T ABELA 1. permitiu concluir que a castração pela via de acesso inguinal foi mais satisfatória que a castração pela via de acesso escrotal (Daí Prá et al. Na presença do estresse como fator desencadeante. E FATORES D E RISCO RELACIONADOS COM A Adaptado de Searle et al. bem como temperaturas elevadas relativas ao clima e ao ambiente.Ano XIII . O estudo da influência de duas técnicas de castração no desempenho posterior dos leitões. 72 Suínos . peritonite. 1996). produzindo contratura muscular e liberação de calor. (1999) e May e Moll (2002). castração e efeito de certos anestésicos. sendo a intervenção indispensável para melhorar a qualidade da carne antes do abate. para que haja tempo de ocorrer as modificações orgânicas por ela induzida. variando de hemorragia. Colabora também para a elevação da temperatura. tétano etc. cicatrização rápida e risco menor de infecções e óbito. edema intenso. também conhecida por hipertermia maligna. 2003). A concentração intracelular de cálcio iônico se torna excessiva. 1992). com redução do aporte de oxigênio (Moon e Smith. a particularidade da área de dissipação de calor. o método do elastrador por anel de borracha e o procedimento cirúrgico. o que também faziam para animais portadores de ofidismo. realizada em animais pré-púberes para que os órgãos reprodutores não se desenvolvam durante a puberdade. míiases. a castração deve ser praticada em torno de seis meses antes do abate. Já em adultos. Animais destinados à terminação podem ser castrados em qualquer idade. Os métodos de castração utilizados são a emasculação por torquês Burdizzo. mas a castração de leitões durante as primeiras semanas após o nascimento apresenta vantagens de hemorragia menor. Em varrões. por incisões e extirpação dos testículos. aftosa e intoxicações por Revista CFMV .Nº 40 . Nesses animais a castração acarreta maiores riscos de complicações. devido a cobertura de tecido adiposo desses animais. C OMPLICAÇÕES CASTRAÇÃO DE EQÜINOS .

E. p. outros procedimentos médicos ainda que de menor complexidade são considerados inaceitáveis quando julgados eticamente. Breeding p. SCIOTTI.J. machos castrados e fêmeas. N. CARPENTER. 1968.W. E. L. of Animal Science v. 1995. Journal BRAGA. J. 1987.. A.73. Journal Science. FIELD. CHAMPAGNE.D.F. 2003. p.. KNIGHT. v.11. M.T.38. além de simpatias e tratamentos com ervas ditas medicinais.W. É possível que futuramente.. p. Por outro lado. K.N. VASCONCELOS. D. Recognition and manegement of equine castration complications.22. ROBINSON. Z. Journal of Animal Science. genotype and diet on bovine growth and carcass characteristics. n. 1991..L. 2004. 1978. PERES. BRAGA.. Practice Veterinary. Revista CFMV .. Essa realidade poderá constituir obstáculos para a produtividade. D. R. T. Afirmavam que “para castrar cavalos e outros animais sem riscos de morte para os cavalos. CROUSE. p. nem dá bicho.. 4p. Piracicaba: Sociedade Brasileira de Zootecnia .. p. Desempenho de cordeiros machos inteiros. não só pelos aspectos já citados.D. 1997. Alguns castradores eram conhecidos e respeitados por suas crendices.56. GALBRAITH.C. Collagen stabilitty. Impact of composition manipulation on lean lamb production in the United States. COSTA. KIEKMAN. G. JUDGE. Journal of Animal Science v.. v.24.16.26. o castrador não podia ter relações sexuais durante três dias antes da castração”. 2002.L. ABERLE.D. J.56.435-439. Considerações finais As influências econômicas da castração de animais constituem um complexo de variáveis e particularidades interativas que impõe dificuldades de gerenciamento.D. M. 1983..887Journal 890.. efecto da la edad de castración sobre la ganancia de peso vivo.A.H. Effects of sex condition.E. BUSTAMANTE. J.P.plantas.273-279. Effect of castration on meat quality and quantity. testosterone secretion and meat tenderness in growing bull and steers.129-133.. Effects of late castration.390-393. R. p. L.26. recomendavam “não deixar o animal ser visto por mulheres gestantes.D.. FEIJÓ. como acontece se castrar nas outras luas”. Produção de carne ovina. prerrogativas de direito profissional irão prevalecer sobre interesses econômicos e costumes empíricos.Ano XIII .150-162. Ciência Rural.771-780... A prática cirúrgica numericamente mais executada em animais ainda não é decidida. Efeito da castração pré-púbere sobre o desenvolvimento corporal de eqüinos. 73 . C. M.V.339Production.C. PIRES. v.E. 1969.. p. p. DEMPSTIR. K. LAMBERT.29. as influências não foram ainda abordadas suficientemente com o objetivo de garantir o benefício econômico máximo sem negligência das condições de bem-estar animal próprias de cada espécie. 1971..2493-2502. gerenciada e conduzida exclusivamente pelo Médico Veterinário.P.1236-1242.849-857. porque não incha nem arruína. p. v.. alimentados em confinamento. HENTGES. p.. FIGUEIRÓ. Proceeding of the New Zealand Society of Animal Production. já que os profissionais legalmente habilitados para tal ainda não prevaleceram definitivamente no controle e gerenciamento dessa situação. Compendium Continue Education for Veterinary eterinary. Anulación de la capacidad reprodutiva en terneros.R. Journal of Animal Science.. 342.A.. M. e sem riscos de arruinar para outros animais. v.E. em determinadas espécies de animais.F. Production.H. FERRELL. P. Castração de bovinos de corte: a decisão é do produtor. JONES. P. Animal Production.G. H..B. 1999a. v. v. Gado de Corte Divulga – EMBRAPA.E. MILLER. p.A..Nº 40 .65. zeranol and breed group on growth. Acta Scientiarum Animal Sciences. v. J. D. S.A.15-31. FONSECA.2007 DANILEVSKAJA.. J.C. v. v.P. CABRERA. para o animal não morrer”. v. Caatinga.L.V. J.P.. GREGORY. C. v. Animal Breeding Abstract. HOGUE.L. The development of muscle tissue in bulls castrated at various ages.R. p. J. D. LEMENGER. S.R. feed efficiency and carcass characteristics of late maturing bovine males. Feedlot performance and carcass characteristics of young bulls and steers castrated at four ages. Journal Journal of Animal Science. p. MOLL.29. T.G. G. CARRILLO. Journal Science. GERRARD.32.. J. CARVALHO.J. Após benzerem um animal acometido de ofidismo por serpentes. MAY. 1996. Acreditavam que “a lua melhor para castrar seria a minguante.. entre outros. A note on the effect of castration on the growth performance and concentration of some blood metabolites and hormones in British Friesian male cattle. FORD.1219-1234. COSGROVE. Journal Journal of Animal Science. 1985.Brasília/DF . p. A. CUNDIFF.. Referências Bibliográficas BEERMANN. BENAVIDES.FEALQ.M. Effects of postpubertal castration and diet on growth rate and meat quality of bulls. S. mas também pela predominância de deliberações e ações amadoras. N. T. H.13-15. In: Caprinocultura e ovinocultura. 1990. Efeito da castração sobre ganho de peso e características da carcaça de caprinos SRD.R. De modo geral.A.2227.60. et al. Revista Argentina de Producción Animal.

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