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Exegese Mt 13.44 Final

Exegese Mt 13.44 Final

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  • Exegese no texto de Mateus 13.44
  • 1. Introdução
  • 2. Texto Grego
  • 2.1 Texto grego e análise morfológica
  • 2.2.1 Tradução Idiomática
  • 2.2.2 Tradução literal
  • 2.2.3 Tradução própria
  • 2.3 Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento
  • 2.3.1 Bíblia Almeida Revista e Atualizada
  • 2.3.2 Avaliação da Tradução de Almeida Revista e Atualizada
  • 2.3.3 Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)
  • 2.3.4 Avaliação da Tradução da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)
  • 2.3.5 A Bíblia de Jerusalém
  • 3. Panorama do Evangelho de Mateus
  • 3.1 A questão Sinóptica
  • 3.2 O Evangelho de Mateus
  • 3.2.1 Autoria
  • 3.2.2 Data e Lugar
  • 3.3 Conteúdo e contexto maior e menor
  • 3.3.1 Conteúdo
  • 3.3.2 contexto maior
  • 3.3.3 Contexto Menor
  • 3.4 Modelos de estruturação do capítulo 13
  • 3.5 O ensinamento de Jesus: a recorrência de um esquema tripartido
  • 3.5.1 Os destinatários: em esquema bipartido:
  • 4. Análise literária
  • 4.1 Delimitação do texto
  • 4.2 Estrutura do Texto
  • 4.2.1 Subdivisão do texto e diagramação do conteúdo
  • 4.2.2 Esquematização da estrutura do texto:
  • 5. Nossa perícope Mt 13.44
  • 5.1 Análise do gênero literário
  • 5.2 O tesouro escondido (13.44)
  • 5.2.1 A imagem do tesouro
  • 5.3 Análise do lugar vivencial (“sitz im leben)
  • 6. Análise de conteúdo
  • 6.1 O Reino dos céus
  • 6.1.1 Tesouro escondido no campo, o homem acha e esconde
  • 6.1.2 Alegria, atitude e valor
  • 6.1.3 O elemento surpresa da parábola
  • 6.2 Do símbolo à realidade
  • 7. Análise teológica
  • 7.1 Reino dos Céus: uma análise do termo
  • 7.2 O Reino no Antigo Testamento
  • 7.3 O Reino no Novo Testamento
  • Conclusão:

Euler Clayton Gomes da silva

Exegese
Mateus 13.44

Exegese apresentada ao Presbitério de Nova Iguaçu como requisito parcial para a licenciatura. Conforme artigo 120, alínea “a”, do capítulo VII da CI/IPB

Nova Iguaçu Outubro de 2010

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SUMÁRIO
Exegese no texto de Mateus 13.44..................................................................................5 1. Introdução....................................................................................................................5 2. Texto Grego..................................................................................................................6 2.1 Texto grego e análise morfológica..........................................................................6 2.2.1 Tradução Idiomática.............................................................................................7 2.2.2 Tradução literal.....................................................................................................7 2.2.3 Tradução própria...................................................................................................7 2.3 Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento ...................8 2.3.1 Bíblia Almeida Revista e Atualizada ...............................................................8 2.3.2 Avaliação da Tradução de Almeida Revista e Atualizada...............................8 2.3.3 Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)......................................................8 2.3.4 Avaliação da Tradução da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica)...........8 2.3.5 A Bíblia de Jerusalém.......................................................................................9 3. Panorama do Evangelho de Mateus........................................................................10 3.1 A questão Sinóptica...............................................................................................10 3.2 O Evangelho de Mateus.........................................................................................11 3.2.1 Autoria................................................................................................................11 3.2.2 Data e Lugar.......................................................................................................13 3.3 Conteúdo e contexto maior e menor......................................................................15 3.3.1 Conteúdo.........................................................................................................15 3.3.2 contexto maior................................................................................................17 3.3.3 Contexto Menor..............................................................................................19 3.4 Modelos de estruturação do capítulo 13................................................................19 3.5 O ensinamento de Jesus: a recorrência de um esquema tripartido........................20 3.5.1 Os destinatários: em esquema bipartido:............................................................21 4. Análise literária.........................................................................................................22 4.1 Delimitação do texto .............................................................................................22 4.2 Estrutura do Texto.................................................................................................24 4.2.1 Subdivisão do texto e diagramação do conteúdo............................................24 4.2.2 Esquematização da estrutura do texto:...........................................................24 5. Nossa perícope Mt 13.44...........................................................................................24 5.1 Análise do gênero literário....................................................................................24 5.2 O tesouro escondido (13.44)..................................................................................27 5.2.1 A imagem do tesouro......................................................................................27 5.3 Análise do lugar vivencial (“sitz im leben)...........................................................28 6. Análise de conteúdo...................................................................................................29 6.1 O Reino dos céus...................................................................................................29 6.1.1 Tesouro escondido no campo, o homem acha e esconde...................................30 6.1.2 Alegria, atitude e valor.......................................................................................30 6.1.3 O elemento surpresa da parábola........................................................................31 6.2 Do símbolo à realidade..........................................................................................31 7. Análise teológica........................................................................................................32 7.1 Reino dos Céus: uma análise do termo..................................................................33 7.2 O Reino no Antigo Testamento.............................................................................34 7.3 O Reino no Novo Testamento...............................................................................34 Conclusão:......................................................................................................................36

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Tabela de Siglas e Abreviaturas

IPB CI/IPB Ed. Org. PNIG Preb. Rev. AT

Igreja Presbiteriana do Brasil Constituição Interna/Igreja Presbiteriana do Brasil Editor Organizador Presbitério de Nova Iguaçu Presbítero Reverendo Antigo Testamento

* Todas as abreviações de livros bíblicos seguem o padrão da versão de Almeida Revista e Atualizada, 2ª Edição, da Sociedade Bíblica do Brasil.

Como Marcos é tido como base dos outros dois evangelhos. A perícope escolhida traz-nos informações essenciais para essa compreensão. Não é o intuito deste trabalho entrar em pormenores relativos a crítica literária alta e baixa. os dito de Jesus sobre o Reino sua compreensão não é fácil. Ex: Essa teoria busca entender as diferenças de material entre Mateus e Lucas que não estão em Marcos. . deixando entrever desta forma a realidade do Reino dos Céus. Artigo 120. De fato é tarefa complexa buscar o entendimento do tema. formulou-se a hipótese de uma fonte tradicional não conhecida chamada Q. alínea “a” para a ordenação de candidato ao Sagrado Ministério.5 Exegese no texto de Mateus 13. a misericórdia e o beneplácito divino ao dá-lo a quem ele quer e a contrapartida humana nas exigências do Reino que são feitas ao discípulo. mas a realidade do Reino de Deus contido nele e sua aplicação a vida cristã diária. mesmo entre os estudiosos do assunto há divergências sobre vários pontos. O texto de Mateus é rico em conteúdo e simbolismo. visa atender uma das exigências da Igreja Presbiteriana do Brasil [IPB] em sua Constituição Interna [CI/IPB] conforme se verifica no capítulo VII. Introdução . O Reino de Deus é assunto deveras importante para o cristão. Esperamos ao término deste trabalho compreender não apenas o texto sagrado escolhido. apesar da vasta gama de textos relacionados a ele. O presente trabalho exegético elaborado sob o texto de Mateus capítulo 13 versículo 44.44 1. desta forma desempenhá-la com mais eficácia. que busca aprofundar seu conhecimento para entender melhor sua tarefa e. Nosso desejo é o de um aprendiz. Não fará parte desta exegese uma análise aprofundada da composição do Evangelho de Mateus. se suas fontes foram o chamado proto-marcos. Mas. Tendo sempre em vista que nosso propósito não é o de esgotar a questão. mas é isso que tentaremos fazer neste trabalho exegético. nem tão pouco absolutizar a opinião do autor desta exegese. sua grata irrupção em Jesus. a dita fonte Q (Quelle = fonte em alemão)1 e ainda para o material peculiar de Mateus a fonte M com 1 N. ele é tema central da mensagem de Cristo e está permeado por todos os Evangelhos sinópticos.

em última análise Deus é o autor e nos fez chegar o texto sagrado desta forma complexa e sem respostas a todos os questionamentos levantados pelos homens. η – artigo definido nominativo feminino singular: o. και απο της χαρας αυτου υπαγει και πωλει παντα οσα εχει και αγοραζει τον αγρον εκεινον2. a. celeste. εν – preposição dativa: em. de fato. no texto tem a tradução por: dos. 27ª edição. κεκρυμμενω – verbo particípio perfeito. das. descobrir. a. 2.6 a inclusão dos logia. εκρυψεν – verbo indicativo aoristo ativo terceira pessoa do singular: esconder και – conjunção coordenativa: e 2 Texto do Novum Testamentum Graece – Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft. Entendemos que essa questão não é essencial por sabermos que. θησαυρω – substantivo dativo masculino singular: coisas preciosas acumuladas. 1993. Oμοíα – adjetivo nominativo feminino singular: Semelhante. mas com respostas suficientes para estes mesmos homens conheceram a vontade de Deus para suas vidas. των – artigo definido genitivo masculino plural. βασιλεια – substantivo nominativo feminino singular: Reino. pessoa. εστιν – verbo ser ou estar na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: é. ανθρωπος – substantivo nominativo masculino singular: ser humano.1 Texto grego e análise morfológica Oμοι α εστιν η βασιλεια των ουρανων θησαυρω κεκρυμμενω εν τω αγρω. dentro de. da voz passiva. no interior de. ον ευρων ανθρωπος εκρυψεν. escondido. Texto Grego 2. dativo. tal. ουρανων – substantivo genitivo masculino plural: do céu. terceira pessoa do singular: oculto. investidura real. αγρω – substantivo dativo masculino singular de αγρος: campo. ον – adjetivo pronominal relativo acusativo masculino singular: o qual ευρων – verbo particípio aoristo ativo nominativo masculino singular de ευρ ι σ κ ω : achar. masculino. tesouro. realeza. . τω – artigo definido dativo masculino singular: o.

2. χαρας – substantivo genitivo feminino singular: alegria.7 απο – preposição genitiva: de της – artigo definido genitivo feminino singular: a. 2. aquela. εκεινον – adjetivo demonstrativo masculino singular εκεινος: aquele. υπαγει – verbo indicativo presente ativo terceira pessoa do singular: partir. e da [imensa] alegria ele vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo.verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular de αγοραζω : comprar τον – artigo definido acusativo masculino singular: o. coisas preciosas oculto dentro do campo.2.2. ir.pronome acusativo neutro plural: completamente. o qual [certo] homem achou [e novamente o] escondeu.1 Tradução Idiomática Semelhante é o Reino dos céus [a um] tesouro escondido no campo. tudo οσα – pronome relativo acusativo neutro plural: que εχει – verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular: ter και – conjunção coordenativa: e αγοραζει . ir embora. : 2. aquilo. και – conjunção coordenativa: e πωλει – verbo presente do indicativo ativo terceira pessoa do singular de π ο λ ε ω vender παντα . 2. regozijo. αυτου – pronome genitivo masculino terceira pessoa singular: ele. αγρον – substantivo acusativo masculino singular de αγρος: campo. o qual achar pessoa e de alegria ela partir e vender tudo que ter e Comprar o.3 Tradução própria .campo aquele”.2 Tradução literal “Semelhante é o Reino dos céus.

transbordante de alegria. tendo-o achado.3. o qual alguém acha e alegrando-se vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo.3.3 Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica) O Reino dos céus é comparável a um tesouro que estava escondido num campo e que um homem descobriu: ele o esconde novamente. E omite o artigo definido ‘o’antes do substantivo campo. . o qual certo homem.8 “Semelhante é o Reino dos Céus a coisas preciosas ocultas num campo.1 Bíblia Almeida Revista e Atualizada O Reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo. vai. escondeu. Acrescenta ‘transbordante’ antes de alegria.” 2. 2. vende tudo o que tem e compra aquele campo.3.3 Avaliação das modernas versões em português do Novo Testamento 2. 2.4 Avaliação da Tradução da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica Bíblica) • • A versão da TEB acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. Acrescenta o artigo definido ‘o’ antes do verbo ter. Acrescenta ‘tendo-o’ antes do verbo achar.3. Acrescenta ‘um’ antes da palavra homem. Acrescenta também ‘certo’ antes da palavra homem. põe à venda tudo o que tem e compra aquele campo. em sua alegria. vai. E.2 Avaliação da Tradução de Almeida Revista e Atualizada • • • • • • A versão de Almeida acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. 2. e.

Faz a substituição da preposição genitiva ‘de’ mais artigo definido genitivo feminino singular ‘a’ para a preposição ‘em’ e acrescenta o pronome possessivo feminino ‘sua’.5 A Bíblia de Jerusalém O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo. p.3. vende tudo o que possui e compra aquele campo. um homem o acha e torna a esconder e. 3 Conforme Uwe Wegner em seu livro exegese do Novo Testamento. • • Acrescenta o verbo do presente do indicativo ‘por’ e o artigo definido ‘a’ mais a preposição ‘a’ que resulta no a craseado. Acrescenta ‘e torna a’ antes do verbo esconder. especificamente nesta perícope. Bíblia TEB e Bíblia de Jerusalém são boas traduções. as presentes traduções fazem bem o papel de versar o texto grego para o português. Elas acrescentam e omitem alguns termos porque realmente o texto em grego é um pouco truncado. fazendo a tradução para ‘num’ campo. Para a crítica textual3. dentro de. na sua alegria. As traduções de Almeida Revista e Atualizada. • Faz a inversão do artigo definido ‘o’ o colocando à frente do pronome relativo ‘que’. vai. Faz a inversão do artigo definido ‘o’ o colocando à frente do pronome relativo ‘que’. no interior de’ mais artigo definido ‘o’. • • • • A versão da TEB acrescenta ‘a um’ tesouro no texto traduzido para o português. Acrescenta ‘um’ antes da palavra homem. Realiza uma substituição da preposição ‘em. 33. Faz a substituição da preposição genitiva ‘de’ mais artigo definido genitivo feminino singular ‘a’ para a preposição ‘em’ mais o artigo definido feminino ‘a’ e acrescenta o pronome possessivo feminino ‘sua’. para a preposição ‘em’ mais artigo indefinido ‘um’.9 • • Acrescenta ‘que estava’ antes do verbo escondido. • • Faz a inversão do pronome masculino ‘ele’ e acrescenta em sua tradução o advérbio de intensidade. . 2.

São acréscimos explicativos que procuram tornar melhor compreensível o que estava implícito no texto.60. Ed. Portanto.1 A questão Sinóptica Não podemos falar do Evangelho de Mateus sem tratar mesmo que superficialmente da questão sinóptica (são derivados do grego σύνοψις / συνοπτικός. As atividades de Jesus são apresentadas de maneira semelhante. não alteram. Vemos que os evangelhos sinópticos apresentam quase sempre a mesma seqüência de aparecimentos de Jesus: O aparecimento de João Batista estão unidos ao batismo e a tentação de Jesus. 3. consiste numa série de unidades distintas de narrativas e discursos. como. A semelhança se estende até a pormenores de estilo e de linguagem. como também seu processo. Paulinas. Mesmo assim. os três coincidem na descrição da atividade de Jesus. A exposição sinóptica. visão de conjunto). Idem. 6 Idem. p. porque aproximam o texto sagrado do leitor sem danificar sua mensagem. nas quais um material de conteúdo semelhante é reunido. Werner. p. . são narrados com muita semelhança. 17ª edição: SP.4 Mateus e Lucas têm material mais rico do que Marcos. os três discursos polêmicos (relativos ao perdão dos pecados.6 4 5 KÜMMEL. nem prejudicam o conteúdo do Texto Sagrado.41. Até a época de sua paixão.10 concernente a este texto. seu aparecimento lá. independentemente de qualquer ligação espacial ou temporal. há secções homogêneas. entre Mateus-Marcos e Lucas-Marcos. por exemplo.42. A ida de Jesus a Jerusalém. Todos os três relatos terminam com a crucifixão e a ressurreição.5 Uma comparação entre os sinópticos é surpreendente principalmente por sua ampla semelhança no que diz respeito ao material. como também sua aparição em público. Introdução ao Novo Testamento. 1982. p. Panorama do Evangelho de Mateus 3. O conteúdo e a disposição do material dos sinópticos estão intimamente relacionados. completas em si mesmas e freqüentemente colocadas uma após a outra. Jesus exerce sua atividade quase que somente na Galiléia. Mas. ligação com pecadores e também sobre o jejum).

e também faz referência a Irineu13 que afirma que Mateus escreveu um Evangelho entre os hebreus no seu próprio dialeto. no caso. Segundo Merrill C. 16. Werner. i. Tenney.. enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma. p. Werner apud (Eusébio de Cesaréia. 17ª edição: SP. Introdução ao Novo Testamento. Um falsificador para ganhar fama teria publicado em nome de um apóstolo de mais renome.. a perícope em estudo neste trabalho só é apresentada em Mateus. Werner. 12 TENNEY. 13 TENNEY. III. Merrill C. . Merrill C.2 O Evangelho de Mateus 3. Introdução ao Novo Testamento. 1982.16). é a famosa passagem de Papias: “Matthaîos.2. Ele é uma das peculiaridades de Mateus cujos estudiosos atribuem a uma fonte chamada “M”.7 3.Hebraídi dialécto ta lógia synetácsato.. 2 Há um consenso geral do conhecido caráter de Mateus. p. chamado por Jesus para fazer parte dos doze discípulos 9. 151. Uma vez que o livro não traz nenhuma indicação de seu autor recorremos à tradição externa para identificação do autor.146. Como publicano era letrado e estava 7 8 KÜMMEL. herméneusen d’autà hos en dynatòs hécastos. Tenney diz que a autoria de Mateus era incontroversa sobre os seguintes argumentos: 1 Mateus era membro relativamente obscuro do grupo dos apóstolos.”11 Reforçando o argumento da tradição Tenney faz referência a Eusébio12 que cita Papias dizendo que o escrito de Mateus teria sido originalmente em aramaico. xxxix. ou na forma plural tà euangélia) esta palavra significa em grego “recompensa pela transmissão de boas novas8. Haer. – O Novo Testamento – sua origem e análise. por isso não há boa razão para o tornar autor de uma obra espúria. 9 TENNEY. p. 151 op cit Irineu. 1.11 No entanto.146. Paulinas. III. p. op cit. 11 KÜMMEL. Werner.1 Autoria Os Evangelhos (to euangélion. 10 KÜMMEL. Ed.10 O mais antigo testemunho. KÜMMEL. 151 op cit Eusébio. Adv. Historia Eclesiae. cobrador de impostos ou publicano. – O Novo Testamento – sua origem e análise. Merrill C. em seu livro O Novo Testamento – sua origem e análise. Sendo assim teremos que fazer uma análise de como o Evangelho da presente pesquisa recebeu o nome de Evangelho Segundo Mateus. diz que este Evangelho é tradicionalmente atribuído a Mateus Levi.33. – O Novo Testamento – sua origem e análise. o que faz dela uma passagem especial por sua singularidade. História Eclesiástica III. Introdução ao Novo Testamento. 39. Em sua redação os Evangelhos não trazem a sua autoria. p. p.

. que dele dependem. Este título foi afirmado por Papias por volta do ano 125 quando escreveu: “Mateus dispôs ordenadamente os ditos em língua hebraica (= aramaico). Raymond E. Mounce. o apóstolo.Introdução ao Novo Testamento. tampouco como as testemunhas mais tardias da igreja primitiva. “[.] o Mateus que possuímos não é tradução de nenhuma língua semítica.. 309. A pergunta que é pertinente ao estudo é: estaria Papias falando de um original semítico de Mateus do qual o texto grego foi traduzido? Da tradição onde hauriu Papias suas informações. em seu livro Mateus / Novo Comentário Contemporâneo diz que o forte argumento dos primitivos pais da igreja favorece a autoria do Evangelho.17 No entanto. mas. 18 Idem. p. parte de sua atividade profissional. Werner op cit. 306. que é muito difícil responder com toda certeza à pergunta sobre a autoria de um Evangelho que não traz registrado em si. e. jamais conhecera um Mateus em língua semítica. Pode-se presumir que se trata do mesmo Matthaîos encontrado em todas as listas dos doze. sem sombra de dúvida se refere ao Mateus que conhecemos. cujo nome nos é desconhecido e que dependeu de fontes como de Marcos e Q” 20. o título “segundo Mateus” foi acrescentado por volta da segunda metade do século II 15. Entretanto. 151-152. foi escrito em língua grega. 307. ao mesmo tempo em que depende do Marcos grego. 19 Idem. apenas se pode provar a correção do nome “Mateus”. p. BROWN. aliás. 20 Idem. Merrill C. – O Novo Testamento – sua origem e análise. em seu livro Introdução ao Novo Testamento. mas. . Já segundo Raymond E. e cada um interpretava/traduzia conforme era capaz” 16. sendo essa afirmação apenas uma hipótese embasada na tradição18. embora. não há comprovação de que Mateus tenha escrito em língua semítica. p..”19 Brown responde que a maioria dos estudiosos acredita que o texto de Mateus foi escrito em grego. . Mounce se posiciona da seguinte maneira: “. A resposta mais razoável é que Mateus.. “o melhor é aceitar a opinião comum de que o Mateus canônico foi escrito originalmente em grego por uma testemunha não-ocular. 17 KÜMMEL. Robert H. p. Brown. Papias.12 acostumado a tomar notas. foi o responsável pelo 14 15 TENNEY. 16 Idem. 3 A tradição de que este Evangelho fora escrito em aramaico não exclui mais tarde o fato de ter-se escrito uma edição em grego que substituiu a aramaica rapidamente14.

Os estudiosos concordam quanto ao nome de Mateus que aparece nas listas mais antigas dos doze. p. e o autor desta pesquisa prefere pensar desta maneira. Merrill C.Novo Comentário Contemporâneo. Introdução ao Novo Testamento.13 Evangelho.25. Introdução ao Novo Testamento.C. e. e que por trás do Evangelho jaz a autoria de Mateus. Raymond E. p. . e escreveu para cristãos de língua grega em sua maioria de origem judaica.2 Data e Lugar Quanto ao seu lugar os escritores eclesiásticos situavam Mateus na Palestina. e. Werner. Robert H. tais como: BROWN. é que os manuscritos dos Evangelhos não traziam o nome do autor. visto que a tradição mais antiga supunha que Mateus havia escrito em hebraico/aramaico. Portanto. – Mateus / Novo Comentário Contemporâneo. MOUNCE.Introdução ao Novo Testamento. p. Contudo. O que se sabe é o que a própria Bíblia nos diz: “homens santos inspirados pelo Espírito Santo”.2. e hoje este livro nos serve como revelação e Palavra de Deus para todos os que ouvem o Espírito do Senhor soprar em seus ouvidos as Sagradas Escrituras do Evangelho de Mateus. 311. poderia ser Mateus ou outro autor de confiança da Igreja Primitiva. Raymond E. o publicano. 24 KÜMMEL. como a de Papias e outros autores. visto que Mateus estava à vontade num ambiente de fala grega. 10 e TENNEY. .Introdução ao Novo Testamento. vê-se que há uma discordância de pensamento quanto à autoria. 3. 316. Mesmo o testemunho dos antigos não é suficiente para comprovar a autoria do Evangelho. Os que dizem que Mateus foi o escritor do Evangelho tendem a uma datação 21 22 MOUNCE.24 Segundo Brown a opinião majoritária data Mateus no período entre 70 e 100 d. na controvérsia interna com os judeus22. o que se pode acrescentar em conhecimento. cobrador de impostos. – O Novo Testamento – sua origem e análise. p. Robert H. – Mateus . A opinião majoritária é de que o Evangelho de Mateus foi redigido na Síria. p. Raymond E. em sua forma primitiva.145. p. O fato é que sabemos quem quer que tenha escrito esse livro foi inspirado por Deus. 311. 23 Para esse argumento de lugar os autores pesquisados entram em concordância. 153. A composição na Palestina é dificilmente admissível. que dissertaram sobre o assunto. BROWN. 25 BROWN. no demais há teorias mil para se tratar da autoria deste livro. provavelmente em Antioquia23. um dos Doze” 21. 10. p. Precisase entender que não se podem descartar as pesquisas de aproximadamente 1900 anos antes da presente era. .

Uma data situada depois do ano 100 d. p.30.C. 31 KÜMMEL.17.8. Contudo.26.13.27. quando se fala que o templo de Jerusalém seria chamado de casa de oração e a referência em Mateus 22. 29 KÜMMEL. .C. da tradição. 28. 4 provavelmente. o ponto de partida só pode ser a dependência em relação a Marcos.14 anterior a 70 d. Werner.29 Fato é que não se tem uma data exata com relação ao escrito do Evangelho segundo Mateus. porém. p. há argumentos que condizem que a data mais plausível seria entre 80 e 100 d. Introdução ao Novo Testamento. datado no período entre 68 e 73 d.C. Raymond E. estando fora de cogitação uma data anterior a cerca do ano 70 d. Para ele a adição da parábola das festas (22. Raymond E. Introdução ao Novo Testamento.15ss e 28.C. Introdução ao Novo Testamento. C está excluída. “Admitamos que Marcos e Mateus se tenham originado em regiões diferentes.. Mesmo assim. p. 3 na narrativa de Mateus 27. devido ao uso que Inácio fez de Mateus. 2 a formulação “em nome do Pai.Introdução ao Novo Testamento.C. 28 Esses argumentos são tirados do BROWN.19 é uma teologia trinitária desenvolvida no final do período neo-testamentário. TENNEY. .C.C. p.146. Werner.7) certamente aponta em direção a uma data posterior ao ano 70 d.15 observa-se que o dito “até o dia de hoje” revela que muito tempo havia se passado entre tais acontecimentos e a época em que o Evangelho foi redigido. deve-se atentar para a redação de Mateus que possivelmente contraria essa datação anterior a 70 d. 153. p. no que respeita ao tempo de composição. por exemplo. baseado nos testemunhos de Papias e outros escritores antigos. 316. o melhor argumento para uma data pós-70 seja a dependência de Mateus em relação a Marcos. C..7 ao rei que incendeia a cidade podem espelhar a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Roma em 70 d.C.”31 26 27 BROWN. 317. Merrill C.144. Brown diz que existem bons argumentos contra uma datação tão antiga28: 1 em Mateus 21. O Novo Testamento – sua origem e análise. data o Evangelho de Mateus entre 50 e 70 d. . do Filho e do Espírito Santo” em Mateus 28. Mateus mostra em sua revisão de Marcos uma tão clara evolução de situação geral da igreja e da reflexão teológica (basta ver 18.Introdução ao Novo Testamento. 317. há uma omissão de “todos os povos ou nações” redigido por Marcos 11. Raymond E. Tenney. p. 30 BROWN. Segundo Kümmel.19) que uma data de composição logo depois de Marcos é menos provável do que o período de tempo situado entre 80 e 100 d.

A estrutura acima é baseada numa fórmula de que apò tóte hercsato ho Iesûs ou Iesoûs Christós.20 e do 18. .27 (sepulcros caiados). 23.35 Apesar de utilizar como fonte o material marcano.127. Uns preferem a divisão que trás consigo a idéia de que os discursos de Jesus marcam a estrutura em cinco livros fazendo alusão à Toráh. mais extenso.16). como a baseada na divisão de Marcos. essa divisão tem muitos problemas que devem ser considerados. um exemplo é o capítulo 23 que ficaria fora da divisão e sem encaixe no livro.17. 23.20)32. Ele aproveitou o esquema marcano das narrações.15 3.126. 35 KÜMMEL.21.20 deve ser considerada. Dispõe narrativas orientado-as para uma formulação especificamente rabínica de uma questão. não pode ser isenta de ambigüidades (pré-história e preparação para a atividade de Jesus: 1. Entretanto. trazendo em Jesus a imagem de um “novo Moisés” seria forçar o texto em diversos ângulos.1-4-4. quem sabe por entender que este esquema lhe serviria melhor ao que tinha em mente. a seguir enumeraremos algumas delas: 1. 34 Para maiores informações sobre a questão ver KÜMMEL.1-10). primeira parte: Proclamação do Reino de Deus (4. “se 32 33 KÜMMEL. p. fora outras questões com os capítulos 1-2 e 26-28. Por exemplo. uma seção conclusiva independente. tomando-o como base de seu trabalho. Idem.16.11. segunda parte: Jesus a caminho de Jerusalém e predição da Paixão (16. 23. não traduz expressões hebraicas.31-46) e conclusão: narrativa da Paixão e relato da Ressurreição (26. essa estrutura.1-10).24. 2. Introdução ao Novo Testamento. então. predição do julgamento do Filho do homem sobre o mundo (25.4.5 (philactéria e franjas). o que não seria viável nem honesto. Werner.1 Conteúdo Podemos dividir o evangelho desta forma: Prólogo (1.1.33 No entanto.3 Conteúdo e contexto maior e menor 3. Introdução ao Novo Testamento. De maneira geral Mateus usou o material de Marcos.24 (coar mosquito). p. indica com clareza o começo de uma nova atividade de Jesus. ao invés da questão mais geral.1-28. Werner.2 (ablução. p. das mãos). Introdução ao Novo Testamento. Mateus tem muitas peculiaridades.126.34 A idéia de que Mateus quer inculcar em seus leitores uma atualização de Moisés.46 com exceção de 18.3.1-28. Mateus não explica os usos e costumes. os preceitos e as expressões judaicos: 15. Werner. mas a perícope 26.

31. “Em verdade vos digo que não acabarei de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem” 10.31.19.3 traz a pergunta dos fariseus “É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo que seja?” 3.4. fazei e observai tudo quanto (os fariseus e escribas) vos disserem”. Mateus adapta a maneira de se exprimir de Jesus às expressões próprias dos judeus.] será chamado o menor no Reino dos Céus” 5. as sete petições e a formulação do pedido de perdão das ofensas 6.2) Mateus 19. Andrew. 21.5. com auxílio da tradição por ele usada. 4. Mateus sempre usa a expressão peculiar sua he Basiléia tôn ouranon ao invés de he Basiléia toû theoû que se encontra exclusivamente em marcos e Lucas. p. histórias de conflito36. Mateus apresenta Jesus como um intérprete preciso da Lei.12. J. 19.23. 1997. teria retocado Marcos a partir de um ponto de vista judeu-cristão. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo – o mundo social da comunidade de Mateus. 10.16 é lícito repudiar a própria mulher” (Mc 10. Loyola. Cecília C. . usa opheilémata ao invés de hamartías Lc 11. Traz toda uma série de ditos em apoio da validez incondicional da Lei mosaica: “Aquele. 5. concluiu-se que Mateus. Ed. com algumas exceções.6.24. na medida em que prova o caráter messiânico de Jesus. Mateus teria sido proveniente do judaísmo com conhecimentos rabínicos a sua disposição. Baseando-se nestas considerações.43.28. trad. isso pode ser observado nas chamadas controvérsias ou. “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” 15. tornando-o palatável para os leitores judeu-cristãos. Ele fala a uma comunidade ainda muito ligada ao judaísmo. mediante seu endereçamento. “Portanto. 23.24ss cf.3. portanto. a saber: 12. A oração do Senhor é colocada de forma a se aproximar do uso litúrgico judaico. que violar um só destes menores mandamentos [.. nem entreis em cidade de samaritanos”.. Bartalotti: SP. 10. Tendo como finalidade defender o cristianismo.85. Mateus traz de preferência os “logia” de Jesus que circunscrevem expressamente a atividade de Jesus a Israel: “ Não tomeis o caminho dos gentios. interpretando a Lei de maneira judaica. A conduta exigida dos discípulos é designada como dicaiosyne apenas por Mateus. Nesses conflitos os fariseus se 36 OVERMAN.

. 39 KÜMMEL. onde Jesus instrui os seus discípulos quanto ao comportamento piedoso. até nos pormenores estava no plano predeterminado de Deus.39 3. O primeiro grande sermão é o chamado Sermão da Montanha registrado nos capítulos 5-7. Há também outro partido judaico envolvido na oposição. onde Jesus dá instruções. admoestações e estímulos. o interesse de Mateus não está nas questões judaicas.38 Obviamente.17 colocam no primeiro plano como opositores a Jesus. O Evangelho de Mateus e o judaísmo formativo – o mundo social da comunidade de Mateus. a mensagem de Jesus é válida para todos os povos. mais da metade dessas citações de cumprimento vem do livro do profeta Isaías. p. o Filho do Deus vivo. e do Espírito Santo. 1997. Introdução ao Novo Testamento. e que salvará seu povo. Fazse a nomeação dos Doze. do uso da bíblia hebraica e de suas profecias. apesar de todo seu aparato quanto a Lei. A idéia é de que toda a vida de Jesus. Em Mateus. Cecília C.3.19-20 Uma das características do Evangelho de Mateus são as chamadas “citações de cumprimento”. fazei discípulos de todas as nações.37 Mas. O segundo grande sermão está registrado no capítulo 10. do conhecimento das tradições judaicas. p 119. . batizando-os em nome do Pai. e do Filho. Eles são mencionados junto com os fariseus em algumas passagens no que parece ser uma fórmula fixa. Ed. Mateus em ponto algum crê que o Evangelho seja uma boa nova de exclusividade judaica.” Mt 28.2 contexto maior O contexto maior abrange todo o Evangelho de Mateus.143. O capítulo 13 é o terceiro grande sermão de Jesus. Essas citações são notas explicativas do autor para esclarecer que algo aconteceu na vida e no ministério de Jesus e que dessa maneira cumpriu algo escrito e previsto por um dos antigos profetas. trad. Werner. ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. OVERMAN. J. Bartalotti: SP. pelo contrário. prometido por Ele desde tempos imemoriais. Ele está interessado em provar que Jesus é o Messias. e. p. 37 38 Idem. Andrew. Há pelo menos 14 citações de cumprimento em Mateus. “Ide. enfatizando que esta salvação é obtida através de Jesus na sua igreja frutificando bons frutos para o Reino de Deus. esse termo refere-se especificamente à utilização de uma profecia da bíblia hebraica com a afirmação de que um determinado evento acontece “para cumprir” algo que foi previsto por um profeta. portanto. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.81. Loyola. os escribas.

Prólogo (capítulos 1-2) A. A identidade de João e de Jesus (capítulos 11-12) 1.1-4. Cura de enfermos e o chamado dos discípulos (capítulo 8-9) B.1-12) 3. Portanto.18-25) 2.Jesus. As obras do Reino (capítulos 8-10) A. .“Do Egito chamei o meu filho” (2. O anúncio do Reino (4.1-18) 4-Um coração para o Reino (5. O nascimento do Rei (1.13-23) II. A genealogia do Rei (1.Adoração dos magos (2. A natureza do Reino (capítulos 11-13) A. O segundo discurso: a missão do Reino (capítulo 10) IV.Resposta às obras de Jesus e de João (capítulo 11) 2. O primeiro discurso: o sermão do monte (capítulos 5-7) 1-As bem-aventuranças (5. 1-17) B.23) 1.A tentação no deserto (4.11) 1. No contexto do livro. Proclamação do Reino (capítulos 3-7) A.18-2.13-48) 3-A piedade no Reino: caridade.Jesus é batizado por João (capítulo 3) 2. E o terceiro grande sermão registrado no capítulo 13 é uma instrução quanto ao Reino dos céus. O início do Reino de Jesus (3. a estrutura do Evangelho segundo Mateus como se segue: I.18 chamado de Sermão da Missão. o senhor do sábado O capítulo 13 é uma continuidade do discurso de Jesus quanto ao Reino dos céus.1-12) 2-Interpretando a lei para o Reino (5.Anúncio a José e nascimento de Jesus (1. jejum (6.13-48) 5-Os padrões de julgamento no Reino (capítulo 7) III. a perícope é uma continuidade das obras do Reino relatadas nos capítulos 8-10 e é seguida por narrativas e discursos quanto à autoridade do Reino nos capítulos 14-18.1-11) B. oração.12-25) C.

45-46 – A parábola da pérola. 47-50 – A parábola da rede. 44 – A parábola do tesouro escondido. Esquema Introdução ao discurso parabólico Parábola do semeador Por que Jesus fala em parábolas “Felizes vós que vedes” Explicação da parábola do semeador Como receber o ensinamento de Jesus Parábola da semente que cresce por si só Parábola do joio Parábola do grão de mostarda Parábola do fermento Conclusão sobre as parábolas Explicação da parábola do joio Parábola do tesouro Parábola da pérola Parábola da rede Conclusão do discurso parabólico Mateus Cap. 51-52 – Jesus proferindo acerca do escriba versado no Reino dos céus.3.1-3a 3b -9 10-15 16-17 18-23 24-25/ Mc 21-25/ Lc 16-18 26-29/ 24-30 31-32 33 34-35 36-43 44 45-46 47-50 51-53 . 34-35 – Por que Jesus falou por parábolas. 14. 10-23 – Depois passa-se à explicação da parábola do semeador. 10.19 3. 9. 11. 15. 7. 3. 13 13. 4. 24-30 – Jesus profere a parábola do joio. 16. Neste texto o Senhor Jesus ensina verdades acerca do Reino. 3. 8. 31-32 – A parábola do grão de mostarda. 36-43 – A explicação da parábola do joio.3 Contexto Menor O contexto menor da perícope escolhida é o próprio capítulo de Mateus 13. 5. 33 – Parábola do fermento. 53-58 – O capítulo é concluído quando Jesus prega em Nazaré e é rejeitado.4 Modelos de estruturação do capítulo 13 Perícope 1. • • • • • • • • • • • • 1-9 – Inicia-se o discurso de Jesus com a parábola do semeador. 13. 12. 2. 6.

Mateus 13. Mateus 13.36-53 = perícopes 12-16 Se olharmos com atenção esse esquema. 8.20 3. B’ considera esta como realização plena das Escrituras. sete (2.24-53 A’ Parábolas contadas às multidões 13.34-35 = perícope 11 C’ Interpretação reservada aos discípulos 13. ele não aparece exato.34-35 (B’) o correspondente de 13. mencionando correspondências reais. Loyola: SP. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. Michel. Enquanto B trata do motivo da pregação em parábolas. Assim.1-17 (B) e agrupá-lo na mesma rubrica – razão de ser das parábolas – levando em conta o desenvolvimento muito desigual das duas seções e do ângulo sob o qual as parábolas são abordadas tanto de um lado quanto de outro.10-17 = perícopes 3-4 C Interpretação reservada aos discípulos 13. perícopes.1-9 = perícopes 1-2 do esquema B Razão de ser das parábolas 13. contém estritamente. p. o capítulo relata um ensinamento de Jesus em relação às parábolas (3.18-23 = perícope 5 II.10-17) deve então ser agrupada como C no ensinamento aos discípulos.30. enquanto a segunda (13. no fundo se trata apenas de categorias com a função de justificar o conteúdo das duas seções.34-35) entra de preferência com A’ no ensinamento às multidões. Dessas catorze. apenas parábolas. sendo que as perícopes 6 e 7 só figuram nos paralelos de Marcos e de Lucas. 10.15) consistem em parábolas e duas (5 e 12) em explicação destas. o capítulo compreende catorze perícopes. tirando a introdução (1) e a conclusão (16) do discurso.5 O ensinamento de Jesus: a recorrência de um esquema tripartido O capítulo 13 de Mateus como sobressai na tabela acima. I. Se quisermos podemos levar em conta o auditório de Jesus. 9. A primeira (13. De acordo com o esquema esboçado. Para o restante. Idem. 14. 13.Ed. . Mas.41 40 41 GOUGUES. seria perfeitamente indicado ver em 13.24-33 = perícopes 8-10 B’ Razão de ser das parábolas 13.1-23 A Parábola contada às multidões 13.4 e11) 40. como o fazem as divisões A-A’ e C-C’. enumeradas de 1 a 5 e de 8 a 16.

A-A’ A B-B’ A’ B-B’ A-A’ Semeador e explicação Joio Grão de mostarda-fermento Explicação do joio Tesouro e pérola Rede e explicação Podemos ainda encontrar estruturas quiásmicas (onde dois elementos A e A’ correspondem a um pólo central B) no capítulo como vemos no exemplo das parábolas de 13.B. neste esquema. seguindo a ordem dos elementos. p. Mateus 13. sendo este. Por exemplo: I.21 3.24-35 = perícopes 8-11 B’ Ensinamentos aos discípulos 13.10-23 = perícopes 3-5 II.24-28ª e 13.32. p.5.33.1 Os destinatários: em esquema bipartido: Neste capítulo o evangelista menciona por quatro vezes os destinatários do ensinamento de Jesus. três (A.1-9 = perícopes 1-2 do esquema B Ensinamentos aos discípulos 13. desempenhando um papel equivalente. um esquema bipartido. obtemos.34-35). Mateus 13. Idem. .24-28a = Situação A Semente do trigo (24)/ semente do joio (25) B Crescimento do trigo (26a)/ Crescimento do joio (26b) 42 43 Idem. M exemplo é que se designarmos A e A’ as parábolas munidas de uma explicação e pó B e B’ as parábolas gêmeas.28b-30. E essas indicações mostram uma ordem de alternância entre o esquema tripartido mostrado acima e outro surgido dos destinatários. Podemos observar que as seções A’ e B’ são três parábolas introduzidas da mesma maneira.42 Podemos chegar a mais estruturas de acordo com o critério usado. Cena I: MT 13. um esquema bastante harmonioso que responde sem dúvida a uma intenção do evangelista43.24-53 A’ Ensinamentos às multidões 13.36-53 = perícopes 12-16 Essa estrutura bipartida tem a vantagem de se apoiar sobre indicações explícitas de Mateus.1-23 A Ensinamento às multidões 13.B’) das quatro seções sendo providas de uma introdução própria e a seção A’ de uma sumário final (13.

Parti-se da ignorância inicial (O Reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo. e a encontraremos novamente no v. 47. 2ª edição 2003: SP. . portanto. não é nosso objetivo analisar todo o capítulo.45). Ed. meio e fim. Paulinas. 46 Gougues. transbordante de alegria. 45 Simian-Yofre. p 136. Metodologia do Antigo Testamento. neste tipo de trama a questão do conhecimento é central. quanto inferiores47. Loyola. 2004. Elementos que indicam um novo início: 44 SILVA. A mesma fórmula é repetida no versículo seguinte (13. três parábolas consecutivas. O resultado desta delimitação se chama perícope.69. Cássio Murilo Dias da. p. Em termos de análise textual podemos classificar a perícope como uma “trama de revelação” 45. 2000.). vende tudo o que tem e compra aquele campo. Há critérios de delimitação tanto superiores... 4. Cássio Murilo Dias da. ao conhecimento final (E. vai. de Queiroz: SP. Odila A. op cit. Loyola.56.”. trad. Delimitar um texto. todas bem divididas46. ou seja. trad. Análise literária 4.. Portanto. p.: SP. começa com uma fórmula típica: “O Reino dos Céus é semelhante.. para introduzir a parábola da pérola. Metodologia de exegese bíblica. no início da parábola da rede. 47 SILVA. apenas exemplificamos tipos de estruturas como maneira de tornar a análise de nossa perícope melhor compreensível. Ed. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus – das origens à atualidade. A parábola do tesouro. significa estabelecer os limites superiores e inferiores.). por isso.1 Delimitação do texto Um texto se caracteriza por ter começo. que cabe apenas em um versículo.28b-30 = Solução A Afastada: Arrancar o joio (28b)/ semente do joio (29) B Conservada (agora): Deixar crescer juntos (30a) C Conservada (no fim): Arrancar o joio (30b) / Recolher o trigo (30c) Essas estruturas são apenas exemplos de formas encontradas no capítulo 13 de Mateus que servem como ajuda na compreensão do mesmo. Costa. Horácio. onde ele começa e onde ele termina44. João R.22 C Semente do trigo (27) semente do joio (28ª) Cena II: MT 13. Michel. Ed.

p. apesar da mensagem posterior (versículos 45-46) ter a mesma conotação. o início de outro texto. há uma fórmula de término “quem tem ouvidos [para ouvir]. No v. 74. marcando o início de outra mensagem através de parábola. – As Parábolas de Jesus. 45-46 compara o Reino a um mercador que procura pérolas48.23  Tempo e espaço  Actantes ou personagens  Argumento  Anúncio de tema  Título  Introdução ao discurso  Mudança de estilo Elementos que indicam o término:  Actantes ou personagens  Espaço  Tempo  Ação ou função do tipo partida  Ação ou função terminal  Ruptura de diálogo  Comentário  Sumário No caso de nossa perícope temos as seguintes características delimitatórias: 1 – A perícope anterior é uma explicação da parábola do joio e tem uma conclusão (versículo 43). e. . Por estas razões o texto deve ter como delimitação somente o versículo 44. 48 KISTEMAKER. 3 – O texto escolhido é um parágrafo completo. utilizando o critério de introdução ao discurso demonstrando assim. quando estes mudam indicam término da seção. ouça. 2 – Apesar da parábola do tesouro não marcar uma delimitação natural ao iniciar como as outras parábolas do capítulo 13 – “outra parábola lhes propôs” – tem sua delimitação no uso de Oμοíα (‘omoía – semelhante. há uma mudança de personagem (critério de actantes e personagens). tal). Simon J. 44 Jesus compara o Reino a um tesouro e nos vv.

24 4.1 Análise do gênero literário A perícope é um discurso de Jesus a cerca do Reino dos céus no gênero literário chamado de parábola. 44c A parte “c” do versículo 44 mostra a atitude do homem que deseja ardentemente se apossar do tesouro. • • Segunda parte: v.1 Subdivisão do texto e diagramação do conteúdo O texto pode ser subdividido em – partes. 44a Jesus inicia seu discurso com o adjetivo Oμοíα. Terceira parte: v. a algum tipo de comparação sem ornamentos de um enredo (Mateus 15)49.2. 44b A parte “b” do versículo 44 narra a alegria do homem ao encontrar o tesouro.35).2. p. a um símbolo ou imagem não verbal (Hebreus 9. A. Um dos fatores constitutivos de uma parábola consiste num elemento 49 CARSON. 109-110. – Deus Conosco. O homem vende tudo e compra o campo. que podem ser diferenciadas pela mudança de ação e atitude por parte do ator: • Primeira parte: v. As parábolas remontam muitas vezes a um provérbio (Lucas 4.44 5. 4. .23). Nossa perícope Mt 13.2 Esquematização da estrutura do texto: I – A comparação que Jesus faz do Reino a um tesouro (a) II – O tesouro encontrado produz alegria (b) III – E motiva o homem a desprender-se de tudo para possuir o tesouro (c) 5. D. comparando o Reino dos céus a um tesouro oculto no campo.2 Estrutura do Texto 4. a um ditado profundo ou obscuro (Mateus 13.9). o qual certo homem acha e esconde novamente.

. podemos perceber nelas outro esquema.” 51 de fato são tantas as similaridades entre as parábolas do tesouro e da pérola que é importante estudá-las juntas. No nosso caso o fato de ter de vender tudo é a marca da extravagância. Há uma estrutura comum que envolve dois pares antitéticos. Outra estrutura vista nesta perícope diz respeito também com a parábola da pérola. 52 Idem. e a última parábola ganha um aspecto escatológico.47)”: o fato de nossas duas parábolas.. Esta ligação é ainda fortalecida pela presença da fórmula “O Reino dos céus é ainda semelhante. Michel. a fim de efetuarr sua aquisição.25 inesperado. fora dos padrões.50 A parábola a qual estamos estudando tem o estilo de comparação. a um negociante (v. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. Como já falamos em parábolas gêmeas. Podemos perceber que há um esquema de perspectiva ameaçadora e consoladora no que concerne ao Reino. GOUGUES. op cit. do mesmo modo que a da rede. 65. Situada na seqüência a parábola do tesouro e da pérola uma face positiva e complementar do Reino. sejam introduzidas exatamente da mesma maneira já sugere uma aproximação arquitetada pelo evangelista. a uma rede (v. p. 44a O Reino dos Céus (η βασιλεια 45a O Reino dos Céus (η βασιλεια των ουρανων) 50 51 των ουρανων) GOUGUES. . Compara o Reino dos céus a um tesouro.44).. “O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro (v. De um lado e de outro há a descoberta de um bem precioso que leva a vender tudo. p. 53 Idem. Há o mesmo aspecto nas parábolas do grão de mostarda e do fermento. Michel.57.. até mesmo uma extravagância. Diante disto podemos montar o seguinte quadro53: A-A’ (Joio e explicação) B-B’ (mostarda e fermento) B-B’ (tesouro e pérola) A-A’ (rede e explicação) O Reino escatológico O Reino presente O Reino presente O Reino escatológico Perspectiva ameaçadora Perspectiva consoladora Perspectiva consoladora Perspectiva ameaçadora Talvez as três parábolas tenham sido reunidas como parábolas do Reino hoje..52 Elas são comumente chamadas de parábolas gêmeas. Em nossa perícope podemos ver que ela é uma atenuação do discurso duro da parábola anterior (joio) que termina com uma evocação ameaçadora do julgamento dos pecadores....45). As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.

As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.. Percebemos também que tanto o verbo que expressa descoberta (tendo achado) é seguido imediatamente pelo verbo ir-se (vai e vende). principalmente na última parte das parábolas gêmeas (13..44b. vender.. Michel.26 é semelhante (Oμοíα εστιν) a um tesouro escondido campo que um homem (ανθρωπος) ao achar (ευρων) o escondeu 44b e.. o alegria. as afinidades se estendem até ao vocabulário e a formulação. Particularmente em Mateus esse verbo (υπαγω ) marca regularmente.13. Esse verbo vai marcar a mudança de lugar e sugere uma mudança de cena. muito particular..e compra). na sua (υπαγει) E vende tudo o que (υπαγει και πωλει παντα οσα εχει) E compra (αγοραζει) aquele campo De um lado e de outro. se quisermos. como os paralelos dos textos o ressalta bem. é semelhante (Oμοíα εστιν) no a um homem (ανθρωποi) que anda em busca de pérolas finas 46 ao achar (ευρων) uma perola de grande valor vai tendo-se ido (α π η λ θ ω ν ) vendeu tudo o que possuía possui (π η π ρ α κ η ν παντα οσα εiχειn) e a comprou (ε γ ο ρ α σ η ν ) 54 GOUGUES. veremos que elas se articulam em torno de um duplo par antitético.45-46ª). op cit.44ª). é completa em si mesma com verbo no passado. que narra a descoberta. depois de um lado e de outro. Desses cinco. e vende.44b. a mesma antítese vender-comprar (13. Neste esquema temos a primeira frase da perícope (v. Deste modo podemos dividir as ações em duas: descoberta e reação.44a). a reação vem logo após (v. ir-se. quatro (encontrar. se contarmos os verbos que se referem aos dois personagens. comprar) são comuns aos dois. teremos cinco passos. 46b). Podemos colocar dessa forma: primeiramente temos o par escondido-achado (13. . Se observarmos mais de perto. a passagem de uma etapa para outra ou.46). A primeira parte do quadro acima descreve a descoberta (antíteses “escondido-encontrado” e “procurar-encontrar”). e a segunda a reação suscitada por ela (mesma antítese “vender-comprar”)54. Muito mais. E de outro lado o par procurar-encontrar (13..44b) do personagem em seguida descrita em três verbos no presente (“ele vai.

” 58 Não há apenas ocorrência de palavras iguais.1 A imagem do tesouro A imagem do tesouro.). no episódio do apelo do jovem rico (Mc 10.55 Tesouro (13.2.44) Pérola (13.45-46)56 Antítese I Descoberta Escondido-achado 13. a essa tradição ele teria colocado algo seu.1 (o contrato dos trabalhadores). podemos analisar a imagem do tesouro. em nossa perícope diz assim: “vai. p. Portanto. Isto posto. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.. A imagem do tesouro volta ainda em outro lugar: “Não ajunteis para vós 55 56 Idem.. de um passo fundamental (descoberta) a outro (reação).44a Procura-encontrar 13.46b 5. É assim que a encontramos .47 (a rede) e 20. . 58 GOUGUES. em 13.21).45-46a Reação Transição: “ele vai” (υπαγει) Transição: “tendo-se ido” (α π η λ θ ω ν ) Antítese (13. substituindo Reino de Deus por Reino dos Céus. Na parábola esse verbo garante a passagem de uma antítese à outra. é bastante costumeira. que na verdade são expressões equivalentes. nos Evangelhos.61. Crê-se que Mateus tenha recebido essa fórmula por tradição 57. vende tudo o que tem e compra aquele campo. 5.44) Vimos que ambas começam com a mesma fórmula introdutória “O Reino dos Céus é semelhante.2 O tesouro escondido (13. O mais impressionante é que nesta parábola ela se apresenta como algo que motiva a renuncia de tudo em favor dele “vai vende tudo o que tens e terás um tesouro nos Céus” diz Jesus ao jovem. Idem.44b) II: comprar-vender Antítese II: vender-comprar (13.27 passo inicial de um novo engajamento. nos três sinópticos. Michel. 57 Elas são encontradas ainda no início de duas parábolas próprias de Mateus. mas também as idéias se correspondem.

Novo Comentário Contemporâneo. onde está o seu tesouro. op cit. parecia aos homens da época. volume 2.62 5. 64 MOUNCE. mais seguro. Mateus 6. p. ensinou que não se deve acumular tesouros onde ladrões possam roubar (cf. Mt 6. que nos dias de hoje estão sendo desenterrados objetos de valor na Palestina64. aí está o teu coração”. “Pois.” 59 Uma sentença de sabedoria nos ajuda a esclarecer a dimensão de nossa perícope. Nas parábolas do joio e da pérola mencionam primeiramente a ação humana: o semeador começou a semear e o negociante. sem que ele esperasse ou imaginasse algo semelhante. Uma cultura onde. Idem. 104. no entanto. Portanto. O tesouro é que mobiliza o “coração”. Podemos sublinhar o caráter gratuito da descoberta e a sorte inaudita do descobridor. . vale a pena poder investir a fundo para possuí-lo. Flávio Josefo diz que: “uma quantidade considerável foi 59 60 Idem. 62 GOUGUES.19) – os chefes de família recorriam a métodos de enterrar suas preciosidades63. esta prática era tão usada naquele tempo. 63 Esta interpretação é comum a HENDRIKSEN. 74. ele o encontra sem sequer precisar procurar.60 Aqui como em outras parábolas do mesmo capítulo. era comum a prática de esconder-se na terra bens dos quais se queria garantir a segurança. por causa da fragilidade das casas.. invasões e dificuldade de se achar um lugar seguro onde depositar valores. – As Parábolas de Jesus. na ausência de bancos. Michel. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus.] mas ajunteis tesouros nos Céus. que ofereciam acesso fácil a ladrões – o próprio Jesus. mas às realidades que fazem os personagens agir. enterrar suas riquezas no campo.. o que faz viver e. no Sermão da Montanha. a existência dele é ignorada por quem irá descobri-lo. 61 Idem.3 Análise do lugar vivencial (“sitz im leben) A parábola mostra que Jesus estava bem interado no contexto social de seu público. a procurar. Segundo Mounce. a atenção é dirigida de imediato para o tesouro escondido.28 tesouros na terra [. e.21.61 Na parábola do tesouro. Devido às guerras. Simon J. como fará o personagem da parábola. portanto. o objeto das afeições. p. Robert H. o Reino é comparado não aos personagens. William – Mateus: Comentário do Novo Testamento. – Mateus . KISTEMAKER. p. Este lhe vem por pura graça. 144.

não que se possa excluir que haja no meio gentios. Por isso o Jesus de Mateus é um excelente intérprete da Lei para marcar a posição do evangelista de que a Lei é bênção de Deus e Jesus seu maior cumpridor. Nos outros evangelhos sinóticos e em textos bíblicos vão tratar desta temática como “Reino de Deus”.D.Comentário Esperança. 65 66 GOUGUES. Ele usa o simbolismo do tesouro escondido para salientar a preciosidade do Reino e seu dom gratuito. João Bentes: SP. e mostra os valores do Reino Deus.61. p. prata e os outros bens preciosos que os judeus possuíam”. Guerra dos Judeus. p.C. É nesse contexto social de um povo em meio a colonização romana onde a religião serve como fator unificador e de definição de identidade que nasce este livro tão rico e tão peculiar nos mostrando um messias cheio de autoridade e fiel as tradições de seu povo sem contudo. Fritz – Evangelho de Mateus . é a partir de sua encarnação que a eclosão deste Reino acontece.29 encontrada (de tesouros. trad. por ocasião da tomada de Jerusalém em 70 d. significam a mesma coisa. II. J. 6. ou seja. VII. 59. O Evangelho de Mateus está intimamente ligado a comunidade com uma identidade judaica muito forte. Ed.65 Jesus entra na situação vivencial daquele povo através de uma parábola. DOUGLAS. 59. O Novo dicionário da Bíblia vol. um contexto social de judeucristãos às voltas com opositores de partidos judaicos (fariseus e escribas). Ouro. Esta é a situação vivencial de Mateus. abrir mão da obediência a seu Pai. 1383. Este reino é o tema central da mensagem de Jesus. João o Batista também em sua mensagem apregoava que o Reino de Deus estava próximo. Análise de conteúdo 6. enterrada na cidade) pelos romanos. 67 RIENECKER.Comentário Esperança. Vida Nova. se há são bem poucos. mensagem que o próprio Jesus deu continuidade.1 O Reino dos céus Reino de Deus e Reino dos Céus são termos equivalentes. p. Este tema central da mensagem de Jesus nesta parábola só é relatado desta forma em Mateus e 37 vezes67. forma usada por Mateus apenas 5 vezes68. p. . Fritz – Evangelho de Mateus .66 Esse Reino precisa ser pregado a toda a criatura. 114-115). Mateus tem preferência por Reino dos Céus. Michel apud (Flávio Josefo. 1984. 68 RIENECKER.

Robert H. o homem acha e esconde Descoberto o tesouro. Uns acham que seria ilegal ele esconder o tesouro que foi achado na terra de outrem70. vai. Este comportamento tem criado divergências entre os exegetas.1 Tesouro escondido no campo. – Mateus – Novo Comentário Contemporâneo. O que podemos dizer é que este homem não é proprietário desta terra. p.age como se fosse normal agir assim. . atitude e valor Em seguida podemos ver que a atitude de esconder é seguida de um sentimento. vende tudo o que tem e compra aquele campo). 6.2 Alegria. Segundo Hendriksen o homem da parábola poderia ser um arrendatário73. Fritz – Evangelho de Mateus / Comentário Esperança. p. Robert H. 144. quando topou com um tesouro” outrem72. Hendriksen diz que não se sabe com que direito o homem estava cavando no campo de 6.30 Tecnicamente não há diferença entre um termo e outro. Na verdade. William – Mateus – Comentário do Novo Testamento volume 2.1.62. O Reino é comparado a este tesouro que o homem quer garantir pra si. Trabalhava no campo pertencente a outrem. 59.1. MOUNCE. 70 Idem. no entanto. Outros ainda acham que por ser um trabalhador modesto trapaceou ao esconder o tesouro para enriquecer e mudar sua condição de vida.. 72 HENDRIKSEN. Sua atitude é espontânea – não faz menção a nenhuma deliberação . a parábola não nos fornece quaisquer informações que possam corroborar tais conjecturas. p. o de alegria (. Sua intenção é garantir a manutenção e conservação de sua descoberta. 71 MOUNCE. Uns tentaram inocentar nosso personagem ao reivindicar o direito rabínico que diz: “só o proprietário pode desbloquear o tesouro escondido”.20. sem dúvida pobre. 69 Concordam com esta interpretação: RIENECKER. 104. Mateus utiliza a expressão “Reino dos céus” e evita a expressão “Reino de Deus” em reverência ao nome de Deus69. 73 Idem.. Mounce diz que “o homem em questão era aparentemente um peão de fazenda. Ambos falam da mesma coisa. – Mateus -Novo Comentário Contemporâneo. tudo fará para sê-lo. o homem apressa-se em escondê-lo. p. e ela é identificada à do “homem que ouve a Palavra e a recebe imediatamente com alegria” Mt 13. Essa alegria havia sido mencionada antes na parábola do semeador. 144. transbordante de alegria. p. 71 .

é a exigência de se vender tudo para adquirir o tesouro. O tesouro poderia ser descoberto por alguém de posses. O que nos chama a atenção. e que destoa e causa admiração. é preciso antes abrir mão do que se tem. O caráter único do tesouro faz com que o personagem faça tudo para adquiri-lo. Por isso os personagens não hesitam e fazer tudo para agarra à chance que tiveram. . mas esta não pode ser vista sem a motivação para tal. vale o sacrifício. Podemos 74 Idem. como outra querem sublinhar a ocasião única que a vinda do Reino de Deus representa. O que ele encontrou não tem preço. Uma apropriação que exige uma total desapropriação. Esta realidade que une as duas parábolas. que não precisasse dispor de sua fortuna. O investimento do sujeito é de acordo com o valor do objeto. sua alegria decorre do sentimento de quem foi agraciado. A intervenção deste último sobrevém como sorte extraordinária que só se apresenta uma vez na vida de uma pessoa e por isso é preciso agarrar a oportunidade. p. nem a alegria da descoberta é algo fora do padrão. 6. tanto uma. O que nos leva novamente a motivação do descobridor em dispor de seus bens. como vimos isso era o costume da época. Na parábola em questão vemos que o personagem precisa dispor de tudo o que tem. O texto coloca em relevo a atitude de vender tudo o que se possui.31 A parábola deixa claro que para se ter esse tesouro. toda sua fortuna.2 Do símbolo à realidade Como vimos Mateus usa de parábolas gêmeas como supracitado para evidenciar a realidade do Reino dos Céus.66. A amplidão da exigência decorre da amplidão do dom. a motivação encontra eco na ação. para de fato obter o bem mais precioso.3 O elemento surpresa da parábola Temos também um elemento de surpresa na parábola. o evangelista quer salientar o sacrifício que se tem de fazer para adquirir o tesouro. Este não consiste no fato de ter de esconder ou enterrar seu achado. 6. Seu valor é inestimável para quem o encontra (o homem) a ponto de se consentir em se despojar de tudo a fim de obter o tesouro. isso seria algo normal. por isso.74 Mas.1.

depois de nos debruçar sobre a perícope podemos expor algo do pensamento de Mateus. É o tesouro supremo.Novo Comentário Contemporâneo. e isto não vem de vós.17b. o Reino dos céus é a preciosidade da vida daquele que o encontra.1114 diz que o Senhor tem pensamento de paz para com o seu povo para dar o que 75 Notemos que em Mateus a ordem do apelo e da proclamação está invertida: “Convertei-vos. – Mateus . 145. Ele produz paz e satisfação interior (Atos 7. Segundo Mounce. O Reino dos céus tem valor supremo. não de obras. Hendriksen comenta a respeito desta idéia da seguinte maneira: “A essência da parábola consiste em que o Reino do céu.” Portanto. p. inclusive a salvação para o presente e para o futuro.32 observar que à oferta do tesouro segue-se a contrapartida humana. é dom de Deus. em nossa vida. Robert H. convertei-vos e crede no evangelho” Mc 1. porque está próximo o Reino de Deus” Mt 4. à intervenção de Deus.. Isso é outro acento do texto. Podemos ver em primeiro pólo: a descoberta do tesouro corresponde à boa nova vinda de Deus.8-9.15ª.54-60). para a alma e finalmente para o corpo.75 7.. porque satisfaz plenamente as necessidades do coração. e desse Reino fazemos nossa maior possessão” 76. A descoberta do tesouro evidencia o caráter gratuito do tesouro. Quando nós o encontramos.15b.. o grande privilégio de assim ser transformado em bênção para outros para a glória de Deus. Ef 2. apesar da descoberta ser um dom há exigências para a obtenção dele. E esse encontrar só é possível porque o próprio Deus se deixa ser encontrado. ou mesmo por acaso.. . 76 MOUNCE. tudo isso é um tesouro tão inestimavelmente precioso que aquele que o obtém se predispõe a entregar por ele tudo quanto possa interferir em sua obtenção. ele foi encontrado sem se esperar. Análise teológica A teologia deste texto está intimamente ligada ao valor do Reino. colocada em relevo pelas parábolas representam o segundo pólo: “. Jeremias 29. “. Como diz São Paulo: “Porque pela graça sois salvos. para que ninguém se glorie. mediante a fé. É a graça divina que providencia uma forma de chegar até o ser humano. Já a reação dos personagens. à iniciativa que ele manifestou no momento decisivo em que o tempo chegou a sua plenitude: “O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo” Mc 1. abrimos mão com máxima alegria de tudo aquilo que faz concorrência com o Reino. O texto analisado pode ser visto em conjunto com a parábola da pérola como outrora foi dito. o alegre reconhecimento do governo de Deus no coração e vida.

Deus. enquanto reinado indica uma esfera superior. Loyola. Quando Jesus profere palavras acerca do Reino.14. O Reino de Deus e os pobres. revisão Jonas P. por sua inefável graça. de eternidade a eternidade80.J. veio ser o mediador de toda a criação79. Por isso é que o povo invocaria o nome do Senhor e o Senhor os ouviria.33 desejarem. Conforme Jesus afirma em Lucas 17. E. e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio” 77. porque o Senhor reina por todo o tempo.1 Reino dos Céus: uma análise do termo Este é um termo freqüentemente utilizado no Novo Testamento. pelo qual. se buscassem de todo o coração. não está se referindo a uma nova doutrina. Ed. Reino remete a um território. 1986. O que se vê neste paralelo é que o homem só encontra a preciosidade do Reino dos céus porque o próprio Deus dá a oportunidade do homem encontrá-lo. e farei mudar a vossa sorte. ou. diz o Senhor. simplesmente. congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei. antigamente havia falado através dos profetas. 79 Romanos 8. principalmente nos Evangelhos. antes está se reportando ao Antigo Testamento.33.18-25. 77 78 Jeremias 29. 7. Então o texto passa a ter um paralelo com a interpretação da parábola quando diz na íntegra: “Serei achado de vós. sem início e sem fim. O termo trata-se sempre de exprimir fundamentalmente a idéia da atividade concreta de Deus como Rei. Deve-se notar que o termo hebraico pode ser traduzido por duas palavras na língua portuguesa: Reino e reinado. Deste modo o conceito deve ser entendido sempre numa grandeza ao mesmo tempo espacial e dinâmica. S. onde o termo foi amplamente utilizado. 80 Salmo 90. que não está presa ao espaço e tempo. Hebreus 1. diz o Senhor. Desta forma. dos Santos: SP.21: “O Reino de Deus está no meio de vós”. .81 Portanto vejamos quais são as implicações do Reino no Antigo e Novo Testamento. Inácio. herdeiro de todas as coisas78. 81 NEUTZLING. que “Deus é Rei”. mas agora se revelou pelo próprio Filho.2. Deus nos deu a conhecer o seu Reino e no-lo revelou através do Filho Unigênito. p.1-2.

M. – Dicionário Bíblico Universal. Inácio. ao contrário.54) e o Reino é dado aos “Santos do Altíssimo” (Dn 7. e DU BUIT. O trono pertence a Deus (Dn 3. S. ou “Senhor-Rei”85-86. Pouco a pouco o uso do termo foi se aclimatando e sendo desenvolvido no culto público e penetrando a piedade privada87. S. 1986. F. dos Santos: SP. Sl 103. p. loc cit. revisão Jonas P. 22.89 7. L. 87 NEUTZLING. O reinado de YHWH tem dimensão universal: “Toda a terra está cheira da sua glória” 84. é a menção de Javé-Rei (Melek) e do exercício de seu reinado. – Dicionário Bíblico Universal. Loyola. O Reino de Deus e os pobres. 18. .J. M. O título de rei será dado a Deus publicamente por um profeta de Jerusalém. e DU BUIT. Ainda no AT podemos verificar duas visões de Reino de Deus: uma escatológica a se realizar finalmente no além celestial e.3. – Dicionário Bíblico Universal. O tema parece ter as suas origens em Jerusalém. 27).33. L. Ed.14. revisão Jonas P. 93.3 O Reino no Novo Testamento 82 83 MONLOUBOU. Isaías 83.34 7. 84 Isaías 6. F. e principalmente a monarquia davídica. Ao lado dessa compreensão escatológica do Reino de Deus no AT. Isaías reveste o termo de um significado especial. O tema de um Reino divino é desenvolvido mais tarde. Ed. outra a se estabelecer aqui embaixo. 677. O Reino de YHWH é universal e eterno (Dn 4. Inácio. p. 1986. uma concepção antiga do rei: “salvador”82. 145. Idem. Tal idéia se consolida na arca que é o trono de YHWH. Loyola. e DU BUIT. 85 MONLOUBOU. F. loc cit. O termo no AT segundo a pesquisa é que a noção de Reinado de Deus não é frequente. descobre-se também a presença de uma teocrática ou hierocrática. 97-99. dos Santos: SP. 89 NEUTZLING. no tempo em que se introduziu a monarquia. p. L. sobre uma terra radicalmente transformada. O que se encontra.19. O Reino de Deus e os pobres. 88 MONLOUBOU. Este tema é trabalhado e afirmado pelos Salmos do Reino.35.2 O Reino no Antigo Testamento A teologia do Reino no Antigo Testamento é uma reflexão sobre o Deus amigo particular de Israel e guerreiro que entra em luta para salvá-lo. 86 Salmo 47.3.11-13)88.J. M.

Reflete uma realidade presente: Nos Evangelhos sinópticos encontramos um conjunto de afirmações sobre a irrupção deste Reino no presente preciso.45.90 3. Loyola. Acentuando a diferença qualitativa de seu anúncio do Reino.28.91 4. 1986. . Idem. o Reino está aqui. em Jesus Deus entrou em ação92. Ed.1. O novo mundo prometido por Deus não é mais uma promessa. O Reino de Deus e os pobres.47. Desta forma a realidade de um Reino que virá não está dissociada da novidade presente da βασ ι λ ε ι α que Jesus anuncia. ao encanar Jesus tornou-se a presença de Deus no mundo. Reflete que em Jesus o Reino é inaugurado: A vinda do Reino de Deus equivale a sua própria vinda. nos Atos dos Apóstolos 8 vezes. 2. ou seja. Portanto. já tornou-se realidade. e a presença do Reino em Jesus. Marcos 9. 92 NEUTZLING.35 A expressão “Reino de Deus” ou “Reino dos céus” é usada cerca de 120 vezes só nos Evangelhos sinóticos. Reflete sua consumação na vida e obra de Jesus: Jesus não fala apenas de sinais que apontam para um Reino futuro. ele é a presença do poder de Deus. E não se reduz a algo meramente interior. trazendo desta forma a inauguração desta realidade do Reino. O Reino de Deus é usado. No Evangelho segundo João aparece apenas 5 vezes. as Epístolas repetem o termo 20 vezes e o Apocalipse 10 vezes. o que reflete o Reino de Deus no Novo testamento? 1. Reflete uma realidade escatológica: está marcado na história da humanidade e sua plenitude virá com a vinda do Filho do homem (Mateus 16.J. p. Esse aspecto escatológico e não-escatológico fortalece a figura do profeta escatológico em Jesus. p. revisão Jonas P. diante dele tudo fica relativizado como vimos em nossa perícope. mais freqüentemente. A vinda de Jesus é manifestação da soberania de Deus no mundo. Inácio. p.27). 90 91 Idem. 44. mas da realidade plenamente presente deste Reino. Lucas 9. Em Jesus o Reino irrompeu já agora. João Batista diz que virá alguém maior do que ele. principalmente nos Evangelhos sinóticos quase sempre co uma conotação escatológica. dos Santos: SP. nos lábios de Jesus. S.

C. pelo menos duas lições: a da gratuidade (graça) e a da exigência (contrapartida humana). ela vai adiante e nos mostra algo singular. eu vim matá-lo. “ele tem de vender tudo para ter o tesouro”. ao radicalismo do investimento de todos os seus bens num só bem. Entende que Cristo exige tudo de todos os que pertencem ao Reino. Se alguém descobre um tesouro é natural que queria adquiri-lo comprando o campo onde se encontra enterrado. Não quero tanto do seu tempo. Mateus quer clarificar a compreensão do Reino de Deus: o acolhimento do Reino de Deus não poderia se acomodar com meias medidas. Mas. a parábola não pára nessa questão. Fala da radicalidade de pertencer ao Reino de Deus.36 Conclusão: A parábola que analisamos tem como tema central evocar a mente de quem a ouviu. Não vim atormentar o seu ‘eu’ natural. ela poderia apenas enfatizar a questão da bênção do achado. tanto do seu dinheiro e tanto do seu trabalho. Esse fato seria banal.S Lewis (1898-1963) diz assim da exigência de Cristo: “Dê-me tudo. É necessário investir tudo o que se possui. é a você que eu quero. ou mesmo insípido. Ter esse tesouro impele o personagem ao extremo. ou de quem a lê no nosso caso. As meias . A gratuidade da descoberta não anula a exigência.

2006. quero extraí-lo.]”. São Paulo. John Piper diz assim sobre a graça irresistível: “A doutrina da graça irresistível significa que o Espírito Santo pode sobrepujar toda a resistência humana e tornar sua influência irresistível. não deixe nada sem me ceder. custoso. ABU Editora . ou seja. o são seriamente. Cristianismo puro e simples.93 Interessante é perceber que apesar da exigência tão expressiva. para ele é preciso estar pronto para todos os investimentos. não é possível lhe esquecer.84. Michel. É um investimento. nem por coroa. acessado no dia 26/10/2010.” 95 Por isso o descobridor não se importa com o custo do tesouro. quer se refiram a bens ou a pessoas.94 Observamos que o que move o descobridor é a graça divina. quero abater a árvore toda. Ceda seu eu ‘natural’ por completo. 96 BEEKE.. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. Quando Deus empreende cumprir seu propósito soberano. Dar-lhe-ei em troca um outro eu. a graça irresistível. e Ferguson. op cit. vende tudo para obtê-lo.. GOUGUES. Não quero tratar do dente. 95 http://www. ninguém pode resisti-lo com sucesso. 112. com todos os desejos que você julga serem inocentes. nem fazer obturação.] A doutrina da graça irresistível significa que Deus é soberano para sobrepujar toda resistência quando quiser. que aqueles que são chamados devem responder ao convite [. alto. p. posso barganhar? Não! A parábola passa direto da descoberta para a ação extrema do desapego aos bens.. As parábolas de Jesus em Marcos e Mateus. 1997. dar-lhe-ei a mim mesmo. op cit. a minha própria vontade tonar-se-á a sua”. Os cânones de Dort (1619) dirão no artigo 8 do capítulo III: “Tantos quantos são chamados pelo Evangelho. mesmo os mais custosos. Isso é uma exigência do chamado do Reino.. O Reino de Deus torna-se para quem o acolhe. pois Deus revela séria e sinceramente na sua Palavra o que lhe é aceitável. C. uma prioridade absoluta.monergismo.37 medidas não adiantam.pdf. 97 Ao aderir ao Reino através do chamado da graça. [. Dietrich Bonhoeffer corrobora tal entendimento: 93 94 LEWIS. Michel. não é possível abrir mão desse tesouro.. Sinclair B.5ª edição. Harmonia das confissões reformadas – São Paulo: Cultura Cristã. A desistência total de tudo o que não leva ao tesouro é evidente na cabeça do descobridor. A parábola não dá margem para a reflexão: “O que vou fazer. . o descobridor do tesouro não hesita em cumprir.? Vale mesmo investir? Há.S.com/textos/graca_irresistivel/graca-irresistivel_piper. os chamados devem mesmo passar a frente de suas afeições humanas mais caras.96 Ao encontrar o tesouro a ação disposta na parábola é a de cumprir a exigência para obtê-lo. Não quero cortar o ramo aqui e acolá.. Na verdade. e também os que você julga maus. p. não lutar por ele. Joel R. 97 GOUGUES. o preço é muito alto.

100 Algumas traduções usam a palavra “esterco”. era lucro. deveras considero tudo como perda100. perder a vida. p. tudo que caiba como resposta humana ao chamado da graça. carregar a cruz. Essa descoberta se esvai quando se tenta resistir à exigência do Reino: vender tudo. Essa deve ser nossa meta suprema. A verdadeira vida cristã. Devemos a partir dele ter uma nova orientação de vida. permitindo que Sua sabedoria guie e domine todas as nossas ações. 2008. e que por ele fomo feitos cidadãos do Reino dos Céus e. no caso de nosso texto. cumpriremos as exigências feitas com alegria e disposição. O simbolismo do tesouro trás consigo a eminência da chegada do Reino. Tudo se deve à descoberta do Evangelho.7-8 “Mas o que. mas o próprio Cristo já o concretizou ao pronunciar o chamado. CALVINO. trad. investir tudo o que se possui é a atitude certa. . “O tempo está realizado e o Reino de Deus está próximo”. isto considerei perda por causa de Cristo. por isso. Daniel Costa. Largar tudo pelo tesouro é compreender a intervenção divina na história da humanidade na encarnação de Jesus. 98 99 Idem. Se compreendermos a proposta de Mateus para essa parábola chegaremos ao entendimento do dom que recebemos através de Jesus Cristo. um tanto quanto insólito para quem não reconhece o valor desse achado. Descobrir o Evangelho é descobrir o tesouro da Boa Nova de salvação. Não é o discípulo que provoca esse rompimento. Cristo libertou o homem de sua relação com o mundo e o transportou para uma relação imediata consigo mesmo. Se pertencemos ao Senhor. por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus. Disposição que nos coloca diante do abandono total de coisas que podem nos ser muito caras. portanto. por conseguinte. Fonte Editorial. deixemos que cada parte de nossa existência seja dirigida por Ele.”99 Tudo isso porque o encontrar tal tesouro deve ter como resposta a re-orientação da vida do descobridor. 31. João. Nosso personagem o reconhece e por isso age de acordo com o valor do tesouro. São Paulo diz assim em Fl 3. a saber: a cidadania celeste. Ed.38 “No chamado de Jesus encontra-se já realizado o rompimento com as relações naturais em que o homem vive. para mim. Os discípulos perceberam as dimensões da intervenção divina ao ver eclodir o Reino de Deus em Cristo. São Paulo. Sim. deixemos de lado nossa conveniência e vivamos para Ele. mas que perdem seu valor em face do bem maior adquirido. à descoberta do tesouro do Evangelho. mesmo sendo.” 98 Calvino dirá: “Pertencemos a Deus.

neles anuncia a eclosão desta realidade do Reino e quem o encontra entrega toda sua vida a Cristo e a sua mensagem entendendo pela graça que este é o maior bem que se pode possuir. 1993. que o Reino exige. p. O bem que leva a reconciliação com Deus e a pertença a seu Reino. 101 CAMACHO. O Reino está contido em Cristo e em sua mensagem. A renúncia a tudo que se possui não é. A descoberta da realidade do Reino relativiza todo o valor conhecido até então. mas levado pela alegria de ter descoberto um valor incomparável e de que não se tinha suspeitado. Não se faz por esforço de vontade. para ganhar a Cristo [. Paulinas: SP.160-161. Ed. . e sim espontâneo101. portanto. Juan Mateos Fernando.].. O Evangelho de Mateus.” A parábola do tesouro contém o ensinamento do compromisso total..39 meu Senhor. por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo. um ato ascético.

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