ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social.

In: Do contrato social, Ensaio sobre a origem das línguas, Discurso sobre as ciências e as artes, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Liv. I – cap. I, II, III, IV, VI, VII; Liv. II – cap. I, II, III, IV, VI, XII; Liv. IV – I.

Do Contrato Social
Livro I Capítulo I – Objetivo do Primeiro Livro. 1. “ Eu quero investigar se pode haver, na ordem civil, alguma regra de administração, legítima e segura, que tome os homens tais como são e as leis tais como podem ser.” (p.27) O objetivo primordial da obra é assentar as bases sobre as quais legitimamente se possa efetuar a passagem da liberdade natural à liberdade convencional. 2. Todos os homens nascem livres, mas encontram-se por toda a parte atados, por uma ordem social. 3. No entanto, ela não decorre da natureza, funda-se apenas por convenções humanas.

Capítulo II – Das Primeiras Sociedades 1. “ A mais antiga de todas as sociedades, e a única natural, é a da família. As crianças apenas permanecem ligadas ao pai o tempo necessário que dele necessitam para a sua conservação. Assim que cesse tal necessidade, dissolve-se o laço natural. As crianças, eximidas da obediência devida ao pai, o pai isento dos cuidados devidos aos filhos, reentram todos igualmente na independência. Se continuam a permanecer unidos, já não é naturalmente, mas voluntariamente, e a própria família apenas se mantém por convenção.” (p. 29)

Capítulo III – Do Direito dos Mais Fortes 1. “ A força é uma potência física.” (p.31) 2. Devido a isso, seus efeito não podem resultar em moralidade. 3. Aquele que obedece pela força, não obedece por dever, e uma vez que não seja mais forçado a obedecer, não se é mais obrigado a sujeitar-se a isso. Logo, quem pode desobedecer impunemente, pode fazê-lo legitimamente. Neste contexto, em que o mais forte sempre tem razão, o direito perece assim que acaba a força. Vê-se, pois, que a palavra direito nada acrescenta à força. 4. Rousseau afirma “que força não faz direito, e que não se é obrigado a obedecer senão às autoridades legítimas”.

Capítulo IV – Da Escravidão

portanto. 4. e que tu observarás enquanto me aprouver’”. excluem-se mutuamente. “ Dizer que um homem se dá gratuitamente é dizer coisa absurda e inconcebível. pode ser enunciado da seguinte forma: “Cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a direção suprema da vontade geral. (p. Como os homens não podem gerar novas forças. 9. Nenhum As convenções são as únicas bases para uma autoridade legítima. uma autoridade absoluta. renunciando a liberdade convencional.39) 7. então. todo em teu prejuízo e todo em meu proveito. (p. chamada outrora de cidade. O problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social pode ser enunciado nesses termos: “Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda a força comum. em favor de toda a comunidade. bem como subtrair toda liberdade à sua vontade. mas apenas unir e dirigir as existentes.33) 3. 2.” (p. 6. Já. unindo-se a todos. composto de tantos membros quanto à assembléia de vozes. Os associados adquirem coletivamente o nome de povo. o nome de cidadãos. aos direitos da Humanidade.38) 3.” (p. na qualidade de participantes na autoridade soberana. para se conservarem eles podem se organizar em uma soma de forças que arraste a resistência e os faça agir de comum acordo. de outro. E mesmo que cada qual pudesse alienar-se a si mesmo. este discurso será igualmente insensato: ‘Faço contigo um contrato. Tal renúncia é incompatível com a natureza humana. individualmente. e tomada hoje como república ou corpo político.33) 5. 10. tal ato é ilegítimo e nulo. o qual recebe desse mesmo ato sua unidade. Um ato de associação produz “um corpo moral e coletivo. e pela qual. cada um. Uma vez violado o pacto social.39) 8. (p. .” (p. não poderia alienar seus filhos. (p. enquanto corpo. só obedece contudo a si mesmo. a pessoa pública. inclusive aos seus deveres. e. 4. e é arrebatar toda moralidade a suas ações. uma obediência sem limites. cada homem retoma seus primeiros direitos e sua liberdade natural. As cláusulas do contrato podem ser reduzidas a essa única: A alienação total de cada associado. com todos os seus direitos. Da mesma forma um povo não pode escravizar-se por livre e espontânea vontade. e qualquer modificação as torna sem efeito. que eu observarei enquanto me aprouver.33) 6. “ Renunciar à própria liberdade é o mesmo que renunciar à qualidade de homem.35-36) Capítulo VI – Do Pacto Social 1. “ As palavras escravatura e direito são contraditórias. ou vassalos. 2. de um lado. já que nenhum homem possui uma autoridade natural sobre outro e a força não produz nenhum direito. 5. O contrato social. sua vida e sua vontade”. não passa de vã e contraditória convenção estipular. Não há nenhuma compensação possível para quem quer que renuncie a tudo. Seja de homem para homem. cada membro como parte individual do todo”. permanecendo assim tão livre quanto antes”. pelo simples fato de não se achar de posse de seu juízo quem isto comete. elas são as mesmas em todas as partes. “ Enfim. Embora as cláusulas do contrato social não sejam formalmente enunciadas. quando sujeitos às leis do Estado. seja de um homem para um povo. formada pela união de todas as outras. e recebemos.2 1. seu eu comum. Surge. que nascem homens livres e donos de sua própria liberdade.

6. portanto. E a obediência à lei a si mesmo prescrita é a liberdade. o direito ilimitado a tudo que podia alcançar e manter. 6. não há nem pode haver interesse contrário aos deles. a única que torna o homem verdadeiramente senhor de si mesmo. imprimindo às suas ações a moralidade que anteriormente lhe faltava. 7. seriam absurdas. 2. Deixou de ser um animal estúpido e limitado para se tornar finalmente um ser inteligente. 5. mesmo para com outrem. 3. sem tal condição. Logo. protege-os de toda dependência pessoal” (p. Outra aquisição do estado civil é a liberdade moral. se a oposição dos interesses particulares dos homens levou-os a se unirem em sociedade. Violar isto seria aniquilar-se. Para que não haja engano em suas compensações. as quais. é necessário distinguir a liberdade natural. esta é a condição do pacto social: “oferecendo os cidadãos à pátria. Perdeu. “ Aquele que se recusar a obedecer à vontade geral a isto será constrangido pelo corpo em conjunto. 4. por esses interesses comuns que a sociedade deve ser governada. Ganha a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui. tornando legítimas as obrigações civis. Livro II Capítulo I – A Soberania é Inalienável 1. da liberdade civil que é limitada pela liberdade geral. Assim.3 Capítulo VII – Do Soberano 1. É. Capítulo VIII – Do Estado Civil 1. 5. e como membro do Estado para com o soberano. mudou consideravelmente seu comportamento. deixou de olhar somente para si mesmo para agir através de princípios racionais. Cada indivíduo. que é aquela limitada apenas pelas forças dos indivíduos.42). Obedecer aos impulsos e apetites constitui a escravidão. ao passar do estado natural para o estado civil. após o contrato. Através do contrato social o homem perdeu a liberdade natural. Pois. . se acha obrigado a uma dupla relação: como membro do soberano para com os particulares. a alienar qualquer porção de si mesmo. O homem. como no estado de natureza. o que apenas significa que será forçado a ser livre” (p. foi à conciliação desses mesmos interesses que a tornou possível.42). também. Cabe somente à vontade geral dirigir as forças do Estado. tirânicas e sujeitas aos maiores abusos. A finalidade da instituição do Estado é o bem comum. Substituiu os instintos pela justiça. 3. 2. 2. ou submeter-se a outro soberano. limitada pelas forças do indivíduo. O soberano é constituído tão somente pelos particulares que o compõe. 4. O corpo político ou o soberano não pode jamais se obrigar.

cuja vida consiste na união de seus membros. porém. mas se forem tiradas dessas mesmas vontades as que em menor ou maior grau reciprocamente se destroem. como soma das diferenças. uma vez que a vontade particular tende às preferências. Enquanto isso. (p. “ O poder pode transmitir-se. Assim. evitando assim um equívoco do povo. que nada mais é senão um ser coletivo. restará. A soberania é “o exercício da vontade geral. a geral. alienando sua vontade geral. 3. enquanto que a vontade particular constitui ato de magistratura e é. isto não significa que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retidão. pois a vontade é geral quando corresponde à vontade do corpo do povo. no instante em que houver um senhor. Há grande diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta olha somente o interesse comum. não. A vontade geral constitui ato de soberania e faz lei. a outra não é senão a soma de vontades particulares. ou seja. 6. A soberania é esse poder absoluto dirigido pela vontade geral. dissolve-se em conseqüência desse ato. “ Os empenhos que nos ligam ao corpo social só são obrigatórios pelo fato de serem recíprocos. é necessário que não haja no Estado sociedades parciais e que cada cidadão só manifeste o próprio pensamento. 2. e é tal sua natureza que. 55) . Dessa forma a divisão da soberania feita pelos nossos políticos em força e vontade. Capítulo II – A Soberania é Indivisível 1. desempenhando-os. é necessário uma força universal e compulsória para mover e dispor cada uma das partes da maneira mais conveniente para o todo. e se o mais importante de seus cuidados é o de sua própria conservação. a vontade geral. a outra o interesse privado. não pode ser representado a não ser por si mesmo”. é pelo menos impossível fazer com que esse acordo seja durável e constante. Se não é impossível fazer concordar uma vontade particular com a geral. 50) 5. e a partir de então o corpo político estará destruído. perdendo sua qualidade de povo. 2. Capítulo III – Se Pode Errar a Vontade Geral 1. caso contrário seria apenas uma vontade particular. em torno de algum ponto. o pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus membros. a soberania é indivisível.” (p. não se pode trabalhar para outrem sem trabalhar também para si mesmo. poder legislativo e executivo é totalmente indevida. Para que se tenha uma vontade geral sempre esclarecida. no máximo. não mais haverá soberano. Capítulo IV – Dos Limites do Poder Soberano 1. dirige-se à igualdade. Mesmo sendo a vontade geral sempre reta e tendendo para a utilidade pública. Da mesma forma que a torna inalienável. a vontade. Assim como a Natureza dá a cada homem o poder absoluto sobre todos. Um povo que promete simplesmente a obediência a um senhor.4 3. 49-50) 4. 7. Se o Estado só constitui uma só pessoa moral.” (p. e que o soberano. decreto. jamais se pode alienar.

portanto. Então. Todo governo legítimo é republicano” (p. 61) 9.” (p. à falta de um interesse comum que una e identifique a regra do juiz com a da parte. porque é comum a todos.56) Capítulo VI – Da Lei 1. a matéria estatuída passa a ser geral. 2. jamais um homem como indivíduo. Logo. porque possui como fiadores a força do público e o poder supremo. porque então somente o interesse público governa. 61) 8. de sorte que o soberano jamais possui o direito de sobrecarregar um vassalo mais que outro. à falta de sanção natural. independente das convenções humanas. vê-se imediatamente não mais ser preciso perguntar a quem compete fazer as leis. “ O poder soberano. a lei considera os vassalos em corpo e as ações como sendo abstratas. pois obriga e favorece todos os cidadãos. porque. “ O que generaliza a vontade [geral] é menos o número de vozes que o interesse comum que as une. assim como a vontade. Todo ato de soberania é um ato autêntico da vontade geral. 4. sem que haja nenhuma divisão do todo. Pelo pacto social dá-se existência e vida ao corpo político. pois que estas são apenas registros de nossas vontades. cuja fonte é unicamente Deus. porque então. Porém. Para dar-lhe movimento e vontade deve-se fazê-lo pela legislação. decidindo sobre um homem ou fato específico. se o homem soubesse receber toda essa justiça. eqüitativa. todo absoluto.” (p. útil. As leis constituem atos da vontade geral. a competência para elaborá-las é do próprio povo. O objeto das leis é sempre geral.5 4. quando este as observa com todos. são vãs as leis de justiça entre os homens. pois que elas constituem atos da vontade geral. Considerando humanamente as coisas. “ Nem em que sentido somos livres e sujeitos às leis. 7. 3.56) 6. e que todo homem pode dispor plenamente da parte de seus bens e da liberdade que lhe foi deixada por essas convenções.” (p. e. 61) 7. isto é. 6.” (p. tornando-se o negócio particular. O pacto social estabelece a igualdade dos cidadãos ao colocá-los sob as mesmas condições e ao reservar os mesmos direitos a todos. pois que ninguém é injusto consigo mesmo. pois que ele é membro do Estado. A vontade geral perde a sua retidão natural quando tende a algum objeto individual e determinado. pois julgar algo que é tido como estranho jamais será conduzido pelo princípio da eqüidade. “ República todo Estado regido por leis. cada qual se submete necessariamente às condições que impõe aos outros: admirável acordo do interesse e da justiça. fazem o bem do perverso e o mal do justo. “No tocante a esta idéia.” (p. 5. mas sim uma convenção do corpo com cada um de seus membros: convenção legítima. todo sagrado. não passa nem pode passar além dos limites das convenções gerais. Uma lei é algo que o povo estatui sobre todo o povo. 56) 8. “Um ato de soberania não é um convênio entre o superior e o inferior. 5. que fornece às deliberações comuns um caráter eqüitativo. porque não leva em conta outro intento que não o bem geral. e a coisa pública algo representa. “ Nem se a lei pode ser injusta. É evidente que o que é bom e justo assim o é pela natureza. porque tem por base o contrato social. todo inviolável que é. é necessário que haja convenções e leis para unir os direitos aos deveres e encaminhar a justiça a seu objetivo. sem que ninguém as observe consigo. deixa o seu poder de ser competente. independente da forma de administração que possa ter.61) . nem se o príncipe se encontra acima das leis. o qual se vê desvanecer-se na discussão de todo negócio particular. numa instituição. nem uma ação como particular. não teria necessidade de governos e leis.” (p.

a relação do soberano com o Estado.6 10. Livro IV Capítulo I – A Vontade Geral é Indestrutível . que é a mais importante de todas. então. Por último. É preciso que arrebate ao homem as forças que lhe são inerentes. todos igualmente necessitam de guias. Compete unicamente aos que se associam regulamentar as condições de sociedade. as leis são as próprias condições de associação civil. As leis criminais ditam a relação entre o homem e a lei. Surge. tão grande quanto possível. É preciso obrigar uns a conformar suas vontades com sua razão. Ela está fixada no coração de cada cidadão. a força adquirida pelo todo deve ser igual ou superior à soma das forças naturais de todos os indivíduos. 4. As leis civis são aquelas que controlam a relação dos membros entre si ou com o corpo inteiro. e. far-se-ia preciso uma inteligência superior que visse todas as paixões e não provasse nenhuma. é necessário ensinar outrem a conhecer o que pretende. para lhe dar forças estranhas. substituindo insensivelmente a força do hábito à da autoridade. perpetuando assim suas injustiças. substituindo a existência física e independente que todos recebem da natureza pela existência parcial e moral. no progresso dos tempos. 3. Quisesse ocupar-se da nossa. constituindo mais uma sanção em relação às outras que uma espécie particular de lei. É necessário fazer-lhe ver os objetos tais como são. e que. Apesar da vontade geral ser sempre reta.” (p. ou leis fundamentais. a necessidade de um legislador. Haveria necessidade de deuses para dar leis aos homens. deve ser o autor das mesmas. isto é. portanto. têm-se a lei de usos e costumes. Capítulo XII – Divisão das Leis 1. Aquele que empreende a instituição de um povo deve ter a capacidade de mudar a natureza humana. das quais ele não possa fazer uso sem a ajuda alheia. Essa relação deve ser. o legislador jamais poderia evitar que intuitos particulares alterassem sua obra. 2. Logo. procurando-se uma glória longínqua. “ Para descobrir as melhores regras de sociedade convenientes às nações. retendo o povo dentro do espírito de sua instituição. caso contrário.62) 2. Capítulo VII – Do Legislador 1. O povo. 3. Quem redige as leis não deve ter nenhum direito legislativo. ou seja. se sorte que cada cidadão se sinta perfeitamente independente de todos os outros e numa excessiva dependência da cidade. enfim que. o julgamento que a dirige nem sempre é esclarecido. submetido às leis. tão pequena. são as que buscam dar a melhor forma possível à coisa pública. 11. que não tivesse nenhuma relação com nossa natureza e a conhecesse no íntimo. regulam as ações do corpo inteiro sobre si mesmo. pois. no segundo. pudesse trabalhar em um século e usufruir em um outro. As leis políticas. da união do entendimento e da vontade no corpo social. cuja felicidade fosse independente de nós. dando diariamente forças novas. Enfim. e muitas vezes tais como devem parecer-lhe. no primeiro caso. reanimando ou substituindo leis defasadas.

os cidadãos não mais opinam.7 1. quando o Estado. e a melhor opinião não é aceita sem disputas”. O Estado que necessita de poucas leis é aquele que possui um povo esclarecido.124) 3. pois ela é sempre constante. a vontade geral emudece. O vínculo social começa a afrouxar e o Estado a enfraquecer. inalterável e pura. mas em fazer com que esta seja interrogada e que sempre responda. 4. 5. Em um estado assim governado o povo percebe a necessidade da promulgação de novas leis na medida em que estas se fizerem necessárias. Assim. Mesmo sob tais circunstâncias a vontade geral não está debilitada ou corrompida. para um indivíduo pode parecer insignificante sua parte do mal público perto do bem exclusivo de que deseja apropriar-se. próximo de sua ruína. a vontade geral deixa de ser a vontade de todos. A lei de ordem pública nas assembléias não consiste quase em manter a vontade geral. e são aprovados decretos iníquos cujo único fim é o interesse particular. debates. erguem-se contradições. (p. a Humanidade não reina mais nos votos. O que acontece é que ela está subordinada a outras que a subjugam. onde o bem comum mostra-se por toda à parte com evidência e apenas demanda bom senso para ser percebido. o interesse comum se altera e encontra opositores. apenas subsiste através de uma forma vã e ilusória. . “quando os interesses articulares principiam a fazer-se sentir e as pequenas sociedades a influir sobre a grande. 2. Enfim.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful