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CAPíTULO

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA:

Detalhe de Órfã no cem i t é rio ( 182 4) - Eu g ene D e lacroix . Apr e e n são e nervosismo são estados de esp í r i to caract e rísticos do sécul o X I X , como se obser va na e x pr e ssão da jovem mendicante retra t ada n e st a pintur a .

Chegamos agora ao primeiro século da

Idade Contemporânea. Você verá que a variada

produção filosófica desse período deslizou,

em parte, na esteira dos ideais modernos, de

confiança na razão e no progresso. Mas também

reagiu, com muita convicção, a esses ideais e às

desilusões surgidas com a nova ordem capitalista.

Que ordem era essa?

pensamento do século XIX

Questões filosóficas

Existe uma evolução das sociedades humanas?

Os avanços da ciência e da industrialização tornaram os seres humanos' mais felizes? Existe um princípio unificador da realidade?

Se existe, esse princípio é material ou espiritual?

Como é a dinâmica das transformações do real? Como é a relação existencial do ser humano

com ° mundo? O que éa história?

Conceitos-chave

romantismo, nacionalismo, subjetividade,

liberdade, positivismo, ciência, ordem, progresso,

evolução, lei dos três estados, idealismo alemão, eu, inteligência, espírito, razão, absoluto, movimento dialético, espírito subjetivo, espírito

objetivo, espírito absoluto, materialismo,

vontade, representação, dimensão ética, dimensão estética, dimensão religiosa,

materialismo histórico, dialética marxista,

capital, trabalho, luta de classes, modo de

produção, forças produtivas

25 1 I Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

SÉCULO XIX

Expansão do capitalismo e os novos ideais

Iniciemos nosso percurso neste capít ul o a n al i - sando, como vimos fazendo, o contexto his t órico em que se desenvolveu a reflexão filosófica do sécu - lo XIX. De acordo com a periodização tradicional, conside - ra-se a Revolução France s a (1789 - 1799) o marco ini - cial da época contemporânea. Junto com ela, nasceram

os ideais de li berdad e, iguald a de e fr ate rn i d ade .

E sse mo v imento político - social foi em grande

parte lide r ado po r g r upos bur g u eses que, após ob - terem cer t a ascensão econômica , reiv i ndicaram par- ticipação no poder político e na construção de um no v o modelo de sociedade.

N o plano econômico , a partir de meados do século

XVIII, o cap it al i smo foi se consolidando em diversos países da Europa ocidental e, mais tarde, em outras regiões do m undo. Esse processo de transformações, ao qual está v inculada a Revolução I n du str i a l, atin- giu amplo s s e tores da economia: produção de manu - fatu r a s, agricul t ura, comércio, transportes etc.

Progresso técnico e científico

Como te ndência geral , as antigas ofic i nas dos art esão s f o ram sendo substituídas pelas f ábr i cas

e novas máquinas tomaram o luga r de m u itas f er -

ramentas. Em lugar das tradicionais fon t es de energia , como água, v ento e força m u sc u lar, pas - sou - se a utilizar também o carvão, a e l etricida d e

e o petróleo. A todas essas inovaç õ e s t ecno l óg i cas so m aram-

- se muitas outras , ao longo do século XIX, como a

utilização em larga escala do aço, a in venção da lo - comoti v a elétrica, do motor a gasolina, do auto m ó - vel , do motor a diesel , do avião, do tel égrafo, do telefone, da fotografia, do cinema e do rá d io e t c . O

impacto dessas transformações ainda ecoa em nos - sos dias. Esses avanços ratificavam a confiança no po d er

da razão humana, gerada nos séculos anteriores, l e -

v ando cada vez mais ao entusiasmo com a idei a de progresso da humanidade e à apologia da ciência como a principal condutora nesse caminho.

Desigualdades e desumanização

Paralelamente , a e x pansão e a consolidação do ca - pitalismo foi um processo que trouxe consigo novas formas de exp l o r ação do trabal ho humano. Isso constituiria um grande problema, pois - além dos an - seios próprios das burguesias - a Revolução Francesa também ha v ia trazido à cena as aspirações dos traba- lhadores urbanos e do campesinato por melhores condições de v ida . Os ideais de l iberdade , igualdade e fratemidade conduziam à esperança de que o p r ogres- so beneficiaria a todos. Mas não foi bem assim.

Albergue noturno para

os sem-teto na cidade de Londres c. 1868). Com a

Revolução Industrial e o

afl uxo de pessoas às grandes cidades, a - fal ta de moradia e de boas condições de vida tornaram-se problemas graves para os mais pobres.

U

n i dade 3 A fi l osofia n a h i st ór ia

1252

A exploração do trabalho no contexto do capita -

lismo ind u strial gerou uma série de conf l itos entre esses dois grandes grupos sociais e seus di v e r sos

se g me n tos : de um lado , a burguesia empresaria l (da

i ndústria, do comércio , das finanças e t c . ) ; de outro,

os t r abalhadores das c i dades e dos campos. Foi nesse contexto que surgiram as di v ersas cor -

rentes so ciali s tas do século X IX e suas lutas . Uma sér ie de questões soc i ais e políticas passaram a ganhar

d e sta qu e nas reflexões filosóficas desse período . Ao mes m o tempo , o notório otimismo em relação aos poderes da razão - que predom i nou durante a

I dade Moderna e em boa parte do século XIX - co -

m eço u , em muitos sentidos, a minguar lentamente .

Rom antismo

Nesse quadro de desafios , surg i ram di v ersas

p ropostas para os dilemas humanos , destacando -

- se, nesse início da Idade

ma nti s mo . O romantismo foi um movimento cultural que

se i nic i ou no final do século X V II I e predom i nou

du r ante a primeira metade

do a a r te e a filosofia . E x pandiu - se pela Europa e

p or outras regiões do mundo , assumindo caracterís-

ti c as pecu l iares em cada sociedade. De modo geral, o romantismo foi uma reação ao

e

d

o ç ão de qu e a racionaliza ç ão e a mecanização ca - racterizariam o mundo indust r ial e :30 ~

r epresentav a para a e x pressão hu - ~

i

n

s p íri to racion a lista , que pretendia a braçar o mun -

o e orientar a sociedade. Captou precocemente a

Contemporânea , o ro-

do século X I X , envo l ven -

n tu iu a ameaça qu e e sse p r ocesso

m a n a , tendo em v ista que os senti - _~ mentos indi v iduais est a riam sendo ~

relegados a segundo plano.

.~

: ; ;

Principais características

Em linhas gerais , o romant i smo caracteri z ou - se pela e x altação do in -

divíduo - sua

emoções - , da natureza e da pátria . Ve j amos com mais detalhes .

subjeti v id a de e suas

A liberdade guiando o povo (1830) -

Eugene Oe l acro i x.

Uma das carac t erística s ma r cantes do

ro m ant ism o

e m certos ca s os, se desdobrou n a s i mpatia

foi a defesa da liberdade, que,

Os românticos va l orizavam as p a i xões e os se n -

tim en to s v aloros o s . Era o r enas c i mento da in t u i- çâo e da emoçâo con tra a s u p r e m ac i a da ra z ão . Era a a f irmação do a m o r con t r a a fr i e za da rac i o n a lid a-

de, após o reconhe cim ento de qu e o indiví d uo per - manec i a in sat i sfe i to em relação a ' seus a n se i es m a i s prof un dos d e li ber d ade. Enfati z ando a i nt u i ção, a avent u ra e a fan t asi a, va l or i zaram também a su bj e-

ti vida d e. O s u je i to era o cen t ro da visão romântica

do mun d o .

O ro m antismo re t omou

a i de i a de na ture z a

como força v it al que r esi ste à racional i zação t ec - nológica, o utr a resposta a essa i nconformidade com o mundo urban o- indust r ial . A natureza p as -

sou a ser exal t ada e idea li za d a, a ser vista

cer t o mis t icismo. O românt i co recuperava, as -

s i m, a sen sação d e p l enit u de, de pe r te n c i men to

um a tota li dade , a qua l não ma i s reconhecia na fragmentação racional í sta d o mundo soc i a l e cie n t í f i co . A co n cepção de Deus como ra z ão suprema, pró - pr i a do I l u mi nismo, fo i s u bstit u ída pela concepção

a

com

m ís tica e em o c ion a l da d i v in d a de, pois, para os ro - mân ti cos, Deus f a l a a li ng u agem do co ração, não a da ra z ão .

O desenvo l v i mento do n a ci o n a li s mo , do amo r

pela pátr i a, d a v a l orização das tr adições naciona i s,

a l é m do a n seio por lib er d ade in div idu a l , so b retu-

do n a fase mais mad ur a do mov i mento , fo r am o u- tras carac t er í s ti cas român ti cas.

2 5 3 I

Capítulo 15 F il o so f i a c ont e m porânea : pe n samento d o s é c u lo X I X

Romantismo nas artes

Entr e os grand e s nomes do roma n t i smo nas ar- tes, destac a m- se os poetas a l emãe s Schlege l ( 1 76 7 - -1845 ) , Nova lis (177 2 - 1 801) e Holder l í n ( 1 77 0- -1843 ). Tamb é m os escr it o r es a l e m ães Sch ill er

( 1750-1805 ) e G oet h e ( 1 749 - 18 32 ) vivera m o a m-

biente românt i c o , e p ar t e d e suas

nesse movim e nto , e mbo ra tanto um quant o o o utr o procurassem , a partir d e um dado mom e nto , um equilíbrio entr e o rom a nt ism o e o Ilumini s m o.

obra s in c lui-se

N a músi c a d estac am- se os c omp o sitor es a l e m ães

Beetho v en ( 1770-1 8 2 7) , S ch umann ( 1 81 0-1 856 ) e

Br a hms ( 18 33 - 1897) , o aust r í a c o Sch ub er t ( 1 797 -

-1828 ) e o p o l onês C h op in ( 1 81 0 - 1 849 ) .

Romantismo na filosofia

o romant ismo está prese n te n a filosofia não como um mov im ento o u co r rente facil mente i de n t i -

f i c áv el , m as a l g u mas d e s u as ca r acte r íst i cas po d erão

s e r r econh ec id a s e m vár i os fi l ósofos da c o n tern p o r a - neidade . É o ca s o do p e n same n to d e Jean - Jacques Rou s- se au . Ape s ar d e co mun gar e m a lguns a s p ec t os co m

a filosofia ilumin ist a , o fil ó s of o tinha r eserva s e m

relação à cren ça n o p r og re s s o científico , além d e t e r

concebido o bom s e l va g e m, personagem o r iundo d e uma idealização d a n at ur e za. Por isso, muitos o con- sideram um pen s ador pré - ro mã nti c o.

Outro e x empl o d a influ ê ncia ro m â nti ca é o idea - lismo a l emã o, i mpor ta nt e m ov iment o fi l o s óf i c o do

s é cul o XIX ( qu e es tud are m os mais adi a nt e n este ca -

pítulo ) . O id ea l i sm o al e mã o re t ev e d o r o m antismo o

as pecto d o na cio n a lis mo , do am or à p á t ria , d a va l o -

Análise e entendimento

1 . S i nte t i ze as ca r acteríst i cas soc i ais, pol í ticas e ec o n ô mi cas que marcaram o i n í c i o d a I dade Con tempo r ânea e q u e t i veram repe r cussâo no

p e n same nt o f i l osó f ico des s e perí odo.

Conversa filosófica

1. P rog r ess o e desuman i zação

Ho r kheim e r esc re ve u e m 194 6, a respe it o do prog resso t ecnológ i co , que "o a v anço dos

r ecur sos téc ni cos de in f ormação se acom -

panh a de um processo de desuman i zação " . Refl ita sobre as razões que le v aram o f il óso f o

Detalh e de Ir ace m a ( 18 8 1 ) - Jo sé Maria de Med e ir os .

Uma das tend ê n c i as lite rár i as do romantismo

indianismo ,

selvagem , e s u a c ultur a , e m contraste com a b a rb á r ie

civilizatória do eur o p e u.

José de Alencar .

f oi o

qu e id ea liz a v a o índio americano , o b o m

É o c aso do romanc e Ira ce m a, d e

rização do po v o e d o Estado como um or g anismo ,

e mbora seu m a i o r r ep r esentante, H e g e l , comb a t e ss e o sentimentalismo r o m â ntico .

Vere m o s em s e guid a, por é m , um a c o r rente fil o - só fi c a a ssent a da n a con f i a n ç a no pro g r esso c i e n t í fi-

c o e qu e t eve g ra n de p e n e t raç ão em di ve r sas so c i e-

d ade s oc id e nt ai s : o p os it i vi s m o de A u g u s t o C o mte.

2.

D e que mane i ra o m ov im ento româ n tico pode

ser co n sid e rado u ma reaç ão ao I lum i ni sm o ?

Q ua i s sã o suas ca r acte rís tic a s g era i s?

a fa ze r e ssa a firmaç ão. Você entende que e s s a inte rp retação pode s er estendida aos dias

a t u a i s? A te cno l og i a e s t á tornando as p e ssoas

m e n os hum a n as ? Tem modif ic a do sua v i da?

C o m o? Pe sq u is e sob r e o tema , e l abo re u ma

refl e x ão e apresen t e-a a c ol e g as.

Unidade 3 A fi l oso f ia na h istór i a

1254

AUGUSTO COMTE

A fundação do positivismo

A

u g u s t o Com te - T o n y T o ulli o n .

P

a r a Co m te , " n ão p o d e ri a h a v er qu a l q u e r c onhe c i m e nto

r e a l

se n ão a que l e b aseado e m f a tos obse r vá ve i s " ,

co n v ert e u

e m um p r i n c í p i o

d o posit i v i s m o.

frase q u e s e

A u g ust o Comt e ( 1798 - 1 8 57 ) nasce u e m Mo nt-

p e lli e r , Fr a nç a , pa í s que a in da v i v i a o p ro c ess o da

R ev olu ç ão Fr anc e sa . Des de c e d o r e v e lou grand e ca -

pa c ida d e i nt e l e c t u a l e mem ór ia pr o digiosa. Aos 16 anos d e ida de ingressou na Escola Pol i técnica de Pa - ris , onde estudou matemática e c i ênc i a.

D e temp e r a mento intemp es ti v o , du r ant e sua

v id a s o freu s ur to s d e cri se m e n ta l e d e pres s ã o psí-

qui ca. S ep a rad o da pr i m e i ra e s p osa , ap ai x o n o u - se

p or Cl ot ild e d e Va u x, u m a m ulh er c a sada . M anten-

d o p o r e la um a mor p la tô n ico , transformou - a em sua musa inspir a d ora e a san ta de uma no va religião qu e f u n d aria no final da vi da.

o que é positivismo

Posi tiv ismo é a desi gn a ç ã o d a doutrina criad a por Comt e, fund a d a n a ex trem a va l o ri z aç ã o d o m é todo

c i e n t ífico da s c i ê n c i as p ositi v as (ba sead a s nos fa t os e

n a e x p e riênci a) e n a recusa das di sc ussõe s m etafi sicas .

o term o p os i t i vismo fo i a do t a d o pe lo p ró p rio Co mte ,

d e fin i ndo toda u ma d i retriz pa r a a s u a f i l osofia, de cul - to da ciência e sacralização do método cient í fico.

O positi v ism o caract e riza - s e por um tom gera l

de confian ça no s benefí c ios da indu s trialização , bem como por um otimismo e m r e lação ao progres-

so capi t al i sta , guia d o p e l a t é cn i ca e p e l a ciê nc i a. Mani fes t an d o - se de modo va r ia d o em d i ve rsos paí s e s oc i dentais a pa r tir da segun da m e t ade do sé cu-

l o X I X, o p os i tiv i smo ref l e t iu o e ntu s i asmo burgu ê s

pe l o progresso trazi d o com o desenvo l v i mento téc ni- co-in du str i a l cap i talista. E , embora sej a b astante cr i ti- cado no plano teórico , trata-se de uma d o utrina m u i - to i nfluente n o plano prá t ico at é nossos dias .

Lei dos três estados

A l e i dos tr ê s est a do s res u me o p ensame nto d e

Com t e s obre a e volução histór ic a e c ultu ra l d a hu-

manida d e . Conforme escre v e u em seu Curso de filo- sofia positiva, " essa lei consiste e m que cada uma d e no s sas concep ç õ e s p r incipais , cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessi v amente por três esta- dos h i stóricos d i f eren t es" ( p. 4 ) :

• estado teológ i co ou fictício - estágio que repre -

sen t a r ia o ponto de part i d a da int eligência h u-

ma n a no q ua l os f enô m e n os

tos c o m o p roduz id os por seres sobr e n a tu rais . O ponto culminante desse estado d e u- se q u a nd o o ser h umano s u bstituiu o politeísmo (numerosas

d i v i ndades independent e s ) pelo monoteísmo

( a ç ão pro v id e ncia l d e um Deus único );

d o mun do são vis-

• estado metafisico ou abstrato - está g io em q u e

a influ ênc i a dos seres sobrena t ura i s do e s t ágio

teo l ógico fo i subst i t u ída pe l a aç ã o de forças a b s -

tra tas considera d as como repre s e nt a n tes dos s e -

res do mu n d o;

• estado cie n tífico ou positivo - estágio def init i -

vo da evo l u ç ão rac i onal da huma ni dad e em q u e ,

pelo u s o c o mbina d o do r a c i ocí ni o e da obs e rva -

ção , o ser humano passo u a e n tender o s fenôme -

nos do mundo.

Objetivo e características

O o bj et i vo d o mé tod o pos i t i vo de i n vestigação é a

p esq ui sa das le i s ge r ais que r egem os fenôme n os n a -

tura i s. Assim , o posit i v i smo d i fe r e n c i a - se do empirí s -

mo puro porque não reduz o conhec i mento científ i co ap e nas aos fatos obser v ados. É n a elabora ç ão de leis gerais qu e reside o grande ide a l das c i ênc i as.

 

255

I

Co

m base nessa s leis , o ser humano torna - se ca-

paz de prever os fen ô menos naturais , podendo agir

sobre a r ealidade. Ver para prever é o lema da ciên-

ci a p o s i ti va . O conhecimento

s e mo do , um in s trument o d e tr a nsformação da reali- dade , d e domínio do ser humano sobre a natureza .

A s tr a nsformações i mpulsionadas p e las ciências vi-

sam o progresso ; este, po r é m, d ev e est a r subordina- do à ordem. Temos , entã o, um novo lema posit i v ista,

a plicad o à soc i e dad e: ordem e progresso .

ci e ntífico torna- se, des-

Ca p ítul o

15 F ilosof i a co nt empo râ nea: pens a me n to do s éc ulo X I X

r e l a ti vi d ade - aceitação de conhecimentos cien - tíficos r e l ativos. Se não fossem relativ os , não poderia ser admitida a continuidade de novas pesquisas, capazes de trazer teorias com teses opostas ao conhec i mento estabelecido . Assim, a ciência positiva é r e lativ a ' p orque admite o ape r- fe i çoame n to e a ampl i ação dos con h ecimentos humanos.

Reforma da sociedade

A influ ê n c i a

b a nd e ir a do B r a sil, "Or d e m

f

p osi t i v ista

p e l o p rópri o

e st á pr e s e nt e no l e ma d a a tual

e p ro g resso ", e xpr e ssão

C o mte .

o rmul a d a

Na o br a Discurso sobre o espírito positivo, Comte

a ponta as ca ra cterí s t i cas f undamentais qu e distin-

g u em o p o siti v ism o das demais fil o sofias. Seriam o

s e u co m p ro mis s o c o m a :

• real i dade - pe s qui sa d e fatos concretos , ac e ssí - veis à nossa in t eligência , d e i x ando d e lado a preo - cupa ç ão com mist é rios impenetráveis r efer e ntes

às causas primeiras e úl t imas dos ser es;

• utilidade - busca de conhecimen to s destinados

ao

a perfei ç oament o i ndi v idua l e coletivo do in-

div

í du o , desprezando a s especulações ociosas ,

va zias e e st ére is ;

• certeza - obtençã o de conhecimentos capazes de

e st a b e lecer a h a rmonia lógica na m e nte do p r ó- prio indivíduo e a c o munhão e m toda a espécie hum a na , abandonando as dú v id a s indefinidas e

o s in te rmináveis debates metafísicos ;

• precisão - estab e l ec imento de conhecimentos

que s e opõem ao vago , baseados em enun c iados

ri gor o sos , sem ambiguidades ;

• organização - tendência a organizar, construir me- todicament e , sistematizar o conhecimento humano ;

Tendo Comte nascido e vi v ido na França pós - revolucionár i a, a questão soci al não poderia dei x ar de ser im-

portante em sua refle x ão . De fato , um dos temas centrais de sua obra fil osó - fica é a necessidade de uma r e organi-

z aç ã o c ompl e ta da soci eda de . Nessa

tar e fa , el e própri o pr e tendeu desem- penhar o pape l de r e formador uni ve r- sal " encarregado de ins t ituir a ordem de uma maneira soberana" (V E RDE NA L, A filosofi a pos i ti va de Augusto Comte, em CH Â T E LE THistória, da filosofia, v . 5 , p.215) . Essa reconstrução da sociedade consist ia, par a Comte, na regeneração das opin i ões ( ideias) e dos

costumes (ações) humanos. Tratava - se, portanto, de uma re e s tr utu r a çã o int e lectual dos indiv íduos e não de uma re v oluç ã o da s instituiç õ es sociais , como propunham filósofos socialistas franceses de sua é poca , a exemplo de S aint -S imo n (1760- -1825) - de quem Comte havi a sido secretário particular - , Fo uri e r (1772-1837) e Proudh o n

(1809- 1 865).

A r ef orma da sociedade proposta p e lo filósofo deveria obedecer aos seguintes passos: reorganiza - ção i ntelectual, depo i s moral e , por fim, política. Segundo ele, a Rev olução Francesa destruiu uma séri e de v alor e s importantes da sociedade tradi - cional europeia , não sendo capaz , entretanto, de impor no v os e permanentes valores pa r a a emer- gente sociedade burguesa. E nisso residia a grande tarefa a ser desempenhada pe l a filosofia positiva :

rest a b e le ce r a ord e m na sociedade capitalista in- dustrial . Em re l ação aos confli t os entre proletários e capi- tal i stas, Comte assumiu uma posição conside r ada con s ervadora . Defendendo a legitimidade da e xplo- ração industrial, concordava com a divisão das clas - ses socia i s e considerava indispensável a e x istência

Unidade 3 A filosofia na história

1256

dos empreendedores capitalistas e dos operadores diretos, o proletar i ado. Par a os trabalhadores , de- fendia um tipo de doutrinação posi t i v ista destinada a confirmar a necessidade dos trabalhos práticos e mecânicos, inspirando

[ ] o gosto

quer adoçando suas

consequências penosas. Conduzindo, de resto, a uma sadia apreciação das diversas posições sociais e das necessidades cor- respondentes, predispõem a perceber que

seu caráter habitual,

por eles, quer enobrecendo

a felicidade real é compatível com todas

condições, desde que sejam

e quaisquer

desempenhadas com honra e aceitas con-

venientemente.

positivo, p. 85).

(Discurso sobre ° espírito

Nos últimos quinze anos de sua vida, Comte de - cidiu criar uma nova sei t a religiosa , denominada Rel i gião da Humanida d e . A deusa dessa religião tinha os traços de su a amada Clo t ilde d e V au x , e os "santos " eram pensadores como Dante, Shakespea- re, Galileu , Adam Smith etc . Elaborou tamb é m o Catecismo positivista, dest i- nado a difundir os prin cí pios r e ligiosos da no v a

IDEALISMO ALEMÃO

A busca de um sistema unificador do real

Como vimos ant e s , ao longo do livro , uma dou- trina é idealista quando conceb e a no ç ão de que o

sujeito tem um pap e l mais d e terminante que o obje- to no processo de conhecimento . Há vários tipos de idealismo. Platão pode ser considerado o pr i ncipal idealista da Antiguidade , por sua teoria das ideias ( como v imos no capítu -

lo l l ). Descartes, por m ei o do

plenamente seu idealismo (como vimos no capí -

tulo 2 e 13 ), bem como K a nt , na Crítica

cogito, e x pressou

da razão

seita. N essa obra , e x plicitou

oculto ou pouco e v idenciado nos trabalhos ante- rio re s : suas conc e pções dogmáticas, autoritárias e conservadoras .

o que havia ficado

Análise e entendimento

3 . Defina, caracterize e contextualize filosófica do positivismo.

a doutrina

4 . Explique os principais compromissos

do posi-

tivismo, formulados

por Comte. O que procu-

ravam negar?

Conversa filosófica

2. Reforma ' social

Faça uma pesquisa sobre as propostas dos

primeiros pensadores socialistas, como Saint- -Simon, Fourier e Proudhon, e compare-as

social idealizada por Comte.

Depois, debata com colegas suas semelhan- ças e diferenças e exponha qual delas parece mais significativa para você.

com a reforma

XIX , cujas principais característi c as estu daremos

a s e guir.

Johan Gottlieb Fichte

johann Gottlieb Fichte (1726 - 18l4), nascido em Rammenau, Alemanha , é considerado um dos filó- sofos p i on e iros desse mo vi mento. Para entender um conceito fundamental de seu pensamento e do idea- lismo alemão, retomemos Kant . Kant considerava que das coisas só podemos co- nhecer a priori aquilo que nós mesmos colocamos ne-

l as. Isso quer di z er que só podemos conhecer o pensa-

mento ou a consciên c ia que temos das coisas . Para esse filósofo, portanto, a condição última do p r ocesso de conhecer é a existência do eu como princípio da cons-

pura, em que afirma que das coisas só conh ec e-

ci

ê ncia. Em outras palav ra s , é a e x istên c ia do sujeito

mos a priori aquilo que nós m e smos colocamos

c

o mo cent r o (o eu ) que toma possí v el o conhecimento

nelas. Es t e último filósofo assentaria as bases do

e

lhe dá forma, pois é o sujeito que organiza o conhe -

que seria conhec i do como idea l ismo alemão, mo v imento desen v olvido no início do s é culo

cimento do objeto , ao passo q u e este apenas se encaixa nos "mold e s " da percepção humana.

257

I C ap í tulo 15 Fil osofia co n tempor ân ea: p e nsamento do s écul o X I X

A

s sim, Fichte tom o u esse eu de Kant e transfor -

T

r ata - se, po r tanto , d e um a n o ção m ais compre-

mou-

o d e p ri ncí p i o da co n sciê n cia e m prin c ípio cria -

e

n sí vel ao sens o c omum , uma ve z q ue g ua rda a fini-

dor de toda a r ealidade . Dessa forma, lev o u o i d ealis- mo a seu apogeu , fundando uma do u trina seg u n d o a qual a real i dade objetiva seria prod u to d o esp írito

h u mano . Isso porq u e , segundo e l e , traze m o s e m n ó s

concepções l ógicas das cois a s do uni v erso e este , ne - cessariamente, r eflete e ssas c oncep ç ões lóg i cas. F i chte

ch ego u a se refer i r à s coisas da reali dade , ao q ue é ex -

t erior ao ser humano, como o não eu cria d o pelo e u.

Friedrich Schelling

E ss a mesma i deia , que pode pa r e c er um t a n to

e s tranha para o entendimento comum das pe s soas ,

é r e t omada e amadurecida por ou t ro pensador ale - mã o, Friedrich S c helling (1 7 7 5- 1 854 ), n a tural da

cidade alemã de Leonberg.

R

Ao s 23 a n os de i dade , Sche l l i ng t orno u - se

de Fichte. Um ano d epo i s , foi n o meado co n s eg ui n do ent ã o grand e fam a.

e t rato de Friedri c h S ch e lling

(c . 1850) .

assi st ent e seu suc es sor ,

Sche lli ng procurou exp lic ar co m o s e dá a exis -

t ên cia d o mundo real , das co is as, a p a r t ir d o eu , dis- cordando de Fichte n o que se refere à deter m i n ação do m u ndo como pu r o não eu , ou seja, à i de i a de que a real id ade exteri o r seria pro du t o d a c o n ce pção do

e u. Para Sche l ling , e x iste um único princípi o , u m a

d ade com a ide ia d e D e us. A i deia d e uma i nt e lig ê n-

cia, o u espírito , q u e s e m anifesta e se concr e t iza no

mun d o s e n síve l s e r á o pon t o de p arti da d a fil os ofia

d e H e gel, c o n fo rm e ver e mos em seg uida .

Friedrich Hegel

Retrato de F ri ed r ic h H ege l (1825) Na o br a Princípi o s d a fi l osofi a do

a r ac ion a l ida d e do mundo a o d i zer q u e o r ac ion a l é o

r

co nse rvad or i sm o

pa r a o "es t a do d e coisa s " pr e domin a n te.

- I acob Sc htes i n ger . dir e ito, H eg e l af irmou

ea l e o r ea l é r ac i o n a l .

A fr a s e f o i muito u t ili z ad a

pel o f ilo s óf i c a

p o lí t i co , ofe re c en do ju stifica ti va

Ge org W ilhe l m Fri e drich He ge l ( 1770 - 1831) ,

na scid o e m S tut tgar t , A l e manh a, f oi o p rinc ip a l e x -

po e n te d o id e alism o al e m ã o . S u a o bra c o stum a ser

apontada como o ponto culminante do r a cionalis-

m o . T al vez n e nhum outr o pensa do r t e nh a cons eg ui -

d o e l a b or ar , co mo el e , um s istem a f i losó fic o t ão

ab r ang e nte . Busc ando r espo s tas para o maior núm e r o

de

qu e s tões, H e g e l t e nto u re c onc il ia r a fil osofia c om

a rea lid a d e. S e g u ndo o fil ó s of o a l e m ão H er bert

Mar cuse (1898 - 1979), o sist e ma h e gelia n o consti - tui " a últim a grande ex pr essã o d e ss e idealismo

inteligênci a e xt erior a o pró p rio eu q u e r ege to d a s

c

u l tu ral, a ú l tima g ra nde t e n ta ti va p ara fa ze r do

a

s co is as. Essa i nteligên c i a se manifestaria de form a

p

en same n t o

o refúg i o da ra z ã o e d a libe rd a de ".

visíve l em to d os o s níve is da n a tu r ez a até al c anç ar o nív e l mais alto , isto é, o s e r h u mano ou , m ais g e r a l-

men t e , o que cham a mos ra z ão .

Entre as prin ci pa i s obras de Heg e l es tão Fenome- nologia do espírito, Princípios da filosofia do direito e Lições sobre a história da filosofia.

Unidade 3 A filosofia na história

1258

Idealismo absoluto

Como estudamos antes (no capítulo 5), Heg e l entendia a realidade como um processo análogo ao pensamento. Ele dizia que o real é racional e o ra- cional é real . Em outras palavras: a) a realidade possui racionalidade ou identifica - se com ela ; b) a razão possui realidade ou identifica - se com ela. Assim, Hegel rompeu com a distinção tradicio- nal entre consciência e mundo, s u jeito e objeto. Para ele, a realidade se identificaria totalmente com o espírito (ou ideia, ou razão) e a racionalidade se- ria o fundamento de tudo o que existe, inclusive da natureza. O ser humano, por sua vez, constituiria a manifestação mais elevada dessa razão.

Movimento dialético

Também vimos antes que, ao conceber a realidade como espírito , Hegel queria destacar que ela não é apenas uma substãncia (uma coisa permanente, rígi - da), mas um sujeito com vida própria que pode atuar. Portanto, entender a realidade como espíríto é enten - dê-Ia nesse seu atuar constante, ou seja, como movi- mento ou processo. É entendê-Ia como devir. O movimento da realidade apresentaria, segun - do o filósofo , momentos que se contradizem, sem, no entanto, perderem a unidade do processo, que leva a um crescente autoenriquecimento. Trata-se do movimento dialético do real, que se processaria em três momentos:

• o primeiro , do ser em si, seria, por exemplo , o momento de uma planta como semente (tese);

• o segundo, do ser momento em que

outro ou fora de si, seria o essa semente sai fora de si,

desdobra - se em algo distinto (antítese);

• e o terceiro, do ser para si, seria o momento em que surge a planta (síntese dos momentos anteriores).

Esses momentos se sucedem com um movimento em espiral , ou seja, um movimento circular que não se fecha . Assim, cada momento final, que seria a sín- tese, toma - se a tese de um movimento posterior, de caráter mais avançado . (Reveja essas concepções de Hegel na e x posição mais detalhada do capítulo 5 . )

Saber absoluto

Para compreender a dialética da realidade, segun - do Hegel, é necessário que a razão se afaste do enten- dimento comum e se coloque no ponto de vista do absoluto. E a consciência alcança razão ou saber ab - soluto, ou seja : supera o entendimento finito, adqui- rindo a certeza de ser toda a realidade. Desse modo, a ra z ão a l cançaria a consciência da unidade entre ser e pensar, harmonizando subjetividade e objetividade. O pensamento de Hegel apresenta - se, desse modo, como um grande sistema, que permite pen- sar tanto a natureza, a realidade física, quanto o es - pírito. O fio condutor dessa reflexão totalizante é a relação entre finito e infinito. Assim, o trabalho da filosofia seria o de superar o entendimento finito e limitado das coisas finitas e li- mitadas para alcançar o saber absoluto, que é o saber da coisa em si. Seria o caminhar da consciência rumo ao infinito , a busca da infinitude a partir da finitude .

Hegel pretende captar em sua filosofia o movimento da realidade. Assim co m o um botão precisa desapa r ecer para que a flor surja , e a flor desaparece para dar lugar ao fruto, da mesma forma todas as coisas passam por um processo dinâmico de transformações que leva a uma síntese super i o r .

2591

Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

Hegel procurou apresentar, em sua obra, o cami-

n h o d o con h ec i mento finito ao co n hecime n to a b so - lut o, o qu a l se d ar i a e m vár i os ca mpos do saber ,

ta nt o em re l ação à nat ur eza como ao espírito .

rompeu com a

v i são r omântica, que a divinizava , proclamando a

a b soluta super i o r idade do espírito , que se realiza

na história dos seres humanos por meio de sua li- berdade.

Em re l ação ao espírito, Hege l d isting uiu t rês ins -

No que concerne à natureza,

n cias:

o

espírito subjetivo, que se refere ao in d ivíduo

e

à consciência individua l ;

o

e s pírito objetivo, que se refere às ins ti tu i ções

e

co st um es hist ori c a m e n te p r o du zidos p e l os se-

r

es hu manos , express ã o da l iberdade h um ana.

o

espírito absoluto , que se ma n ifesta na arte , na

religião e na filoso f ia como espírito que se com -

preende a si mesmo .

Filosofia e hi stória

A hi stória, para Hege l , é o desdobramento do es-

píri t o ob j etivo . Vejamos por quê. O espírito objetivo

é a realização da l iberdade huma n a na so ci eda d e.

Manifest a - se no di re i to, n a mora lidad e e na "e ti cida -

d e", e ngl o b a ndo famí li a, s ocie d a de e E s t a do . O E s -

ta d o po lítico é o momen t o m ais e l evado do espírito

objet i vo, de fo r ma ta l q u e o i n di víduo só ex i s t e

como membro do Estado , conforme af i rma o filóso - fo em Princípios da filosofia do direito.

A hi s t ória ser i a, porta n to, o d e s d o b ra men to do

e

spírito no te mpo. A f ilosofi a da hist ór i a deve capta r

o

mov im e n to hi stórico n ão como m omen t o s est an -

qu es, mas do ponto de vista da razão , do absoluto .

D

esse p onto de vista , a h i stória é uma contínua evo -

lu

ção d a ideia de liberdade, que se desenvolve se-

gundo um plano racional .

A ssim , para H ege l , o s c onf l i t o s, a s g u err as, as in -

justi ças, as d om i nações de um povo so b re o u t r o de - ver i am ser compreend i dos como contradições,

c o mo momentos negativos que f u ncionam como

mo l a di al é tica q ue move a histór i a. Nos termos da

d i alé ti ca h ege l iana, esses momento s seriam a antíte-

se , que s e c o ntrap õe à tese, f a zen do s u rg i r u ma eta - pa sup er i or, q u e seria a síntese. Assim , se para Hegel , como vimos antes, tudo que é real é racional , e tudo que é racional é re a l , todas as coisas existentes, mesmo as piores, fazem parte d e u m plano racional e , portanto, têm um sen - tido den tro do p ro cesso hi stór i co .

Esse conceito hegelia n o recebe u inú m eras críti- cas, j á que pode levar a um certo confo r mismo ou a

u m a p assivi dad e dia nt e d as in just iças s oc iai s.

Contestação do sistema hegeliano

V ári os fi l ósofos co nt e star a m a fi l oso fia d e Hege l ,

de for ma p a rcial ou e m s e u c onjunt o. M esmo entr e seus s eg u idores, temos os neo -h ege li ano s d e d i reita e os neo - hegelia n os de esquerda , q u e modificaram as - pectos de sua filosofia de modo a adeq u á -Ia a seus projetos po l í t icos. Veremos em seg u ida alg un s d e l es.

Ludwig Feuerbach

E ntr e esse s contestad ores, o q ue mai s se d esta -

cou na crítica à filoso fi a hege l ia n a foi o pensador alemão L udwig Feue r bach ( 1 80 4 - 1872), n ascido na cida d e alemã de Lan dshut . Recusan d o o id ea l ismo de H egel, Fe u er b a ch quali f icou - o d e "e sp ec u laçã o

vaz i a", q u e nã o t rata do ser r ea l , d as co isa s reais e dos indi víduos concretos . Ao contrário do idea li smo h ege li ano, que se ba - seia em noções tão abstratas como as de idei a, espí- rito e razão, Feuerbac h propôs q ue a filosofia d eve - ria p artir do concreto, d o ser hum ano co n s i dera d o

como um ser natural e social . Es s a s ua

p osição fi-

losó f ica , q u e t em co m o ponto de p a r ti d a o ser con - creto, é chamada de materialismo. Fe u erbac h in -

fl u e n ciaria o pensamento inicial de Karl Marx (que

estudaremos adia nt e) .

Arthur Schopenhauer

O

fi l ósofo

a l emão

Arth u r

Schopenha u er

(1788-1860 ) foi o q u e atacou com maior veemênc i a o pensamento hegel i ano. Em sua opinião , Hegel se -

ria um verdade i ro " cha rl atão " , ao construir sua fil o -

s o fia segun d o os int e r esses d o Estado pru s s iano. Isso se comp r eende se l evarmos em co nta que He - gel , ao englobar as situações históricas co m o desdo - bramento do espírito objetivo, terminava por legiti- mar todas as formas de governo e instituições , mes -

mo as mais nefastas. Desse modo, Scho p e nh a u er se

r efe r irá a He g e l co m o u m "aca dêm ico m er cenário " . Como fi l ósofo , Sc h openha u er, ape sar de s ua grande cultura , só seria reconhecido mu ito tard i a - mente , nos últimos anos de sua vida.

O mundo como vontade e representação, sus -

t enta que, como o conhecimento é uma relação na

qu al o ob j et o é perceb i do pelo s uj e i to , o s er hu man o

Na obra

Unidade 3 A fi l osof i a na h i s t ó ri a

1260

não conh e c e a s co i sas como elas são , mas como po- dem ser perce bi das e interpretadas. Nesse aspec t o , faz um ret orno a Kant e opõe-se à possib i lidade do sab e r abs o l uto que Hegel preconizav a .

Sc h ope nh a ue r desenvo l v e u u ma visã o pe ssimist a da v i d a, enc ara d a co m o u ma história de sofrimentos. Por isso , aco ns e lh ava : mais feliz aquele qu e c ons e gu e viv e r sem

g r a nd es s o f ri m e n tos do qu e o outr o que v ive cerca d o d e ale grias

e p r a z e r es. [

acaba lu d i b ri ado, e n quanto o sábio procur a e v itar

] O tolo vive persegu i ndo a ale g ria d a v id a e

o m a l " .

Par a S c hopenhauer , porém , t u do o q ue o mundo

in cl ui ou pode incluir é ine v itav e lmente d epe n dente

d o s uj e i to, não existe s e não pa r a o sujei to . O mundo

é rep resen tação . Isso quer dize r que, para e l e , não

ex i s t e u m a r ea l idade e x teri o r absolut a e que , para

e xi s t i r o conhecimento do mundo , é preciso existir

o suj eito . De s sa forma , Schopenhauer afast av a - se da refle -

xão de Kant e iniciava sua própri a fil o so fia . A r e pr e- sentação d o mundo seria para e le c omo uma "ilu - são", pois o ob j eto conhecido é cond i c i onado pelo

su je it o. Ma s , também diferentemente d e Kant, ad -

mi t e se r poss í vel alcançar a e ssência das coisas por

m e i o d o insig h t i ntu i ti v o , uma espé c ie de ilum i na - ção . Ne s se processo, a ar te te r ia grand e r elevância ,

po is a at i v i dade estética permitiri a ao se r h u mano a

com pre e n são da verdade. Pel a art e , o suje it o se des-

p r e n d eria de sua individualidade pa r a fundir-se no

objet o, e m uma entreg a pura e pl e na. N e s s e ponto ,

S ch o p enhauer seria um romântico .

S ua fi l osofia, de out ro ângu l o, caracteriza - se por

e l e , o ser humano seria essencialmente v on t a de , o

q u e o levaria a desejar sempre mai s , resultando em

uma insatisfação constante. Essa vontade , que se ex - pressa nas ações humanas , seria parte de u m a von -

t ade que anima todas as cois a s da natureza. E , se a

essência do ser humano e do rm í ndo é essa von t ade

insaciável, Schopenhauer iden tif ica aí a origem das lutas entre os i ndivíduos, da dor e do sofrimento .

A história é , para esse filósofo , a história d e lutas ,

em que a infel i cidade é a norma. Temos, portan t o, a recusa da concepção racionalista de história elabo - rada por Hegel, segundo a qual ela possui u m sen t i -

do e progride em direção a uma liberdade maior . Para Schopenhauer , apenas pela arte e ascese - seja, o aband o no de si - pode o ser humano li-

ou

bertar - se da dor . A fi l osofia schopenhaueriana inspi -

r ará as chamadas filosofi a s da e x i s t ê n c ia, que vere- mos no pró x im ? capítulo .

Sôren Kierkegaard

Sôren K i erkegaa r d (1838) - Desenho de N i e l s Kie rk gaa rd. De acordo com Kierkegaard, a f i losofi a hegel i a n a não

c onsegue compreender a existênc i a do ser h umano , su a angústia e seu d e sesp e ro .

O filósofo dinamarquês Sõren Kierkegaard ( 1 813 -

- 1855) contestou a supremacia da razão como ún ico

2 61 I Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

H ege l ha v i a propost o. Co m o p e n sad o r c ri stã o , d efe n-

deu o conh e ciment o qu e se or i g in a da fé .

K ierkeg aa rd afi rmav a qu e a e x ist ê n ci a hum ana

possu i três dimensõe s :

a d ime nsão es tética , na q u a l se proc ur a o p ra z er;

a d ime nsã o ética, n a qu al s e v i vencia o p roble -

m

a d a li be rdad e e d a c o n tra diç ão e nt re o p razer

e

o de ve r ;

a dimen sã o religio sa, ma rc ada pela f é.

De ac o rdo com o filó s of o , cabe ao ser hum a no

e

sc o lher em que dime n s ã o qu er v i v e r , j á que s e tr ata

d e dimens ões exc l u d e nt es e n tre s i . E ssas dim ensõe s

pod e m ser e n te ndi das, t a m bém , como e t a pa s p e l a s quais o s e r humano passa dur a nte s ua ex ist ê n c ia:

prime i ro viria a estética, d epois a ética e, por último,

a r e lig i osa , que seria a mai s e l ev ada.

CONEXÕES

1. Re f l ita sob re a s tr ê s d imens õe s d a e x is- tência h umana . Você c ons i d era que v i v e

em uma de l as? E m qua l

p ri ncipa l mente

go s t a r i a de v i v er? Justif i que.

Os escri t o s do a ut o r pos s u em g rand e b e lez a l i te - rár ia e trat a m de t e mas e s tr anhos à objeti v id a de cie n tífi c a d e sua época, t a is como amor , sofrimento ,

a ngústia e d e sespe r o , que seg undo e le n ã o pod e m

ser e ntendido s pel a raz ã o . S u a pr i ncip a l c rít i c a à f i-

l os ofia he gel i a na d eve - se a o fato d e ela não l eva r em con s idera ção a subj e ti v idade hu m an a.

É ness e s e ntido qu e K ierk eg aard in f luencia rá as

chamadas cor ren te s irr ac ionali s ta s e ex is ten c ia -

l istas , qu e r e co l ocam a quest ã o da ver d a de a partir

do proce sso da e x ist ênc ia . P a r a e le , n e nhum siste m a

Análise e entendimento

s. o q u e foi o ide a l ismo alem ã o? O q ue o c ara c-

t e ri z ou co mo movi ment o f i l o só fico?

6.

7 .

P ara a l guns estudiosos , a f i loso f ia d e Kant

pe r tence ao idea l ismo a l emão . Comente essa po siç ão. V o cê co nco r d a? P o r q uê?

E m que d if er e m o "princíp i o cr i ador" de F i c h te

 

e

o " p ri ncíp io único " de S c h el l i n g?

8.

A

dialét i c a de H eg e l n ã o é um mé t odo ou uma

fo

rma d e pe n sar a r e al i dad e , mas sim o mo v i-

m

e nto do rea l ( o espírito) p ro pria men te d it o .

d e pen samen t o conseg u e d ar conta d a ex p e riê n c ia

a mpla e ún i ca d a vi d a indi v idual . Opon do -se à f il o sofia siste máti ca de Heg e l e a

seu car áte r abst rato , Kier kega ard pr o curou d e sta - ca r a s co ndi ções esp ecífi cas d a exi st ê ncia hu ma-

na e i ncorporá - Ias

isso , é normalm e nt e

t e n c íal ísmo " .

Em su a obra , K ie r keg aar d pro c ur o u analis ar os

p r ob l emas da r e l açã o e x ist e ncial d o ser humano co m o m u n do , consi go me s m o e c om Deu s .

• A relação do ser humano

às r ef l e x õ e s fil osó fic a s .

c

on si d era d o

Po r

o " pa i d o ex i s -

c om o mundo ( o u -

t ros seres humanos e a na tur e z a ) é d ominada

é e nt e ndida co m o o

senti me nto p rof undo qu e temos a o perceber a instabilidade d e v iver e m um mundo de aconte -

c i men t os po s s íve i s , sem gar anti a d e que n o s s as

ex pe c t a ti v as sejam reali zadas. " No po ssíve l , t u d o

é p ossí vel " , escre v e K i erkegaar d . Assim, vivemos

e m um mund o o nde são po ssí ve is tant o a d o r como o prazer , o bem como o mal , o amor co mo

o ódio , o favor á vel com o o de s fa v oráve l .

p e l a angústia . A a n g ú stia

• A relaç ã o do s er humano ma rca d a pel a inqu i etação

c on s i go mes m o é e pe l o dese s pero .

Isso o co rre p or dua s r a z ões f u n d a mentai s: ou

porqu e o ser humano nunca e st á plenam e nte satisf e ito com as possibilidades qu e reali zou, ou porqu e não conseguiu r ea l i zar o que p r ete ndia, esgotando o s limites d o p os s í vel e fracassa n do diant e d e su as ex p e ct at i vas.

• r e laç ão do ser human o c om D e u s seri a t alve z

A

a

úni c a v ia pa ra a s u p eraç ão

da angús tia e do

d

esesp ero . C o ntudo, é marca da pelo paradoxo

de te r d e com p r e ender p e la fé o qu e é incompre -

e n s í v e l pe la ra zão .

9. S eg undo H e gel , comp r eender a dialética da

r e a l i d ade ex i ge um tra ba l ho árduo da raz ão, que deve se afa s t a r do ent e ndimento c o mum e se co l ocar no p o nto de vi s ta do a bs oluto.

a ) Em qu e s e base i a e ss a af i r mação?

b) A partir desse po n to de vista , como ter i a

que s e p o s i cion a r a filos o fi a par a inter -

p r et a r os ac o n t ec im e n tos hi s t ó r i c os ?

10. D estaque, nos pe n samentos de Feuerbach ,

Sc h o p e n haue r

e Kie r keg a a r d ,

o s princ i pais

Unid a de 3 A f i l o so fi a n a h i s t ória

• Conversa filosófica

3. A mis é r ia da existência

Schopenhauer

de lutas, em que "a infelicidade

Muitas pessoas também sentem e interpre-

tam a vida como um caminho de muitos so- frimentos.

diz que a história é a história

é a norma".

1262

KARLMARX O materialismo dialético e histórico

Não s e sabe c o m ce r t ez a a s ra zõe s q u e l ev aram Marx a

O c e r t o é q ue e l e fo i o

ab ra ça r a ca u sa d o p r oletar i ado .

p

rim e i ro

g r a n de p ens ado r a r ompe r c o m

u ma l o nga t r a d i ç ão

d

e p e n s a do r es e art i stas s e mpr e in c lin ado s a o l ado dos

senhor es e a defender a e mancipaçã o do s t ra b alh a dor e s.

El e dizi a : liA cabeç a d e s t a e m a ncipação

c o ra ç ão , o p r o l eta ri ado" .

é a f i l o sofia;

s e u

Você concorda com essa visão? Como você sente a vida? Como é a vida para você? E para as pessoas com quem você se relaciona? O que alivia seus momentos,de infelicidade? Re- flita sobre essas questões e depois discuta-as com colegas.

K a r l Marx (1 818 - 1 883) nasceu na cidade alemã

d e Trie r, n o seio d e uma família judai c a rica e culta.

É provave l men te u m dos pensadores que maior in-

fl u ên c i a exer ceu sobre a f i losofia contemporânea.

S ua i m portân ci a está destacada na a f irmação do

p ensador f r ancês Ray mond A ro n de que se a gran-

de z a de um filós o f o f o sse medida pelos debates que

s

us ci t o u , nenhum del e s , nos últimos séculos, pode-

r

ia s er com p arado

a Karl Mar x.

Nos tempos d a uni v ersidade, Marx rev e lou entu-

s

i asm o pe l o estudo do direito, da f ilosofia e da his-

t ó ri a . F orm a do e m filosofia no círculo do idealismo alem ã o, te n tou seguir a carreira universitária como

pr ofe ssor , mas não conseguiu seu intento devido a

q u estõe s pol í t ic as.

E m 1 8 44 conheceu F ried r ichEngels (1820-

-1 8 9 5 ) em P ari s, e ambos se tornaram amigos inse-

pa r áve is por toda a v ida . Em 1848 , lançaram o cé-

l ebre Manifesto comunista. Seguindo o lema de que

a fi lo s ofia d eve ser também prática , participaram

junto s d e di vers as atividades políticas e escreve -

ram v á r ias obras , qu e lhes custaram duras perse-

g u ições do s g o v e r nos constituídos. O conjunto de

s u as i de i as foi depois interpretado e desen v olvido

p o r o utros p e nsadores, ficando conhecido como marxi s mo.

Crítica ao idealismo hegeliano

M a r x f e z uma crítica radical ao idealismo hege-

li ano , n a qual a firma que H eg e l inverte a relação en - tre o qu e é de t er minante - a realidade material - e o

qu e é de t e rmina do - as representações e conceitos

ace r ca d ess a r ea l id a de. A filosofia ideal i sta seria, as-

s im , uma grande mistificação que pretende enten-

d e r o mundo real, concreto , como manifestação de uma ra z ão a bsolut a .

2631

Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

Cont r apond o s u a fil o so f ia ao idealismo hegel i a - no, M arx a f ir m a n a introdução ao li v ro A ideologia alemã:

As premissas de que partimos não consti- tuem bases arbitrárias, nem dogmas; são antes bases reais de que só é possível abs- trair no âmbito da imaginação. As nossas premissas são os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de existência

[

l

(p. 4).

Marx p r o c uro u , por t an t o,

compreender a histó-

ria r eal do s se r es h u manos em sociedad e a partir das

condi ç õe s m a t e riais n as quais eles v i vem. Essa v isão

d

a históri a f oi c ham a da po s teriormente

por Engels

d

e materialismo histórico .

V ejam os e nt ã o os principais pontos do materia-

l i sm o de M ar x, em qu e destacaremos as concepções

c on t r á r ias ao id e ali s m o d e He g e l .

Materialismo histórico

De acor d o co m o p e n sa mento de M ar x, os seres humano s não p o dem s e r p e n s ados d e forma abstra- ta , como na f il o so fi a d e He g e l, nem de forma isola- da, como na s f il oso f ias de Feu e rbach , Proudhon e tanto s ou t ro s que M a rx c ri ticou , como Schopenhauer e Kie r k e g a ard.

P ara Ma r x, n ão ex ist e o in di ví duo formado fora

da s rela ções s o c iai s . Ele e nf a tiza esse ponto ao afir-

mar : "A es s ê n c i a human a

ções s oc i a i s " (Teses contra Feuerbach, p. 52). Isso sig-

n ifica que a f o rm a c omo os indi v íduos se compor -

t am , agem , se ntem e pensam v incula-se à forma

como se d ã o as r e laçõe s s o ciais . E ssas r e l açõe s sociais,

por s e u lad o, sã o d ~ t e ~ i nadas pela forma de produ- ção da v ida mate r ial , o u sej a, p e la maneira como os seres hu m an o s t rab a lham e pr o duzem os meios ne-

c e s s ários pa ra a s u s t e ntação material das sociedades. Em A ideologia alemã, e sc r i ta em conjunto com En- ge l s, M ar x d es e nv ol ve e ssa ref le x ão dizendo:

] é o conjunto das rela-

A forma como os homens produzem esses

meios depende em primeiro lugar da natu-

reza, isto é, dos meios de existência já ela- borados e que Ihes é necessário reproduzir; mas não deveremos considerar esse modo de produção deste único ponto de vista, isto

é, enquanto mera reprodução da existência

física dos indivíduos. Pelo contrário, já cons- titui um modo determinado de atividade de tais indivíduos, uma forma determinada

de manifestar a sua vida, um modo de vida determinado. A forma como os indivíduos manifestam a sua vida reflete muito exata- mente aquilo que são. O que são coincide portanto com a sua produção, isto é, tan- to com aquilo que produzem como com a forma como produzem. Aquilo que os indi- víduos são depende portanto das condições mate ria is da sua prod ução. (p. 4).

Esse é um ponto fundamental da fil osofia de Marx. Ao falar da produção mater i al da v ida, e le não se refere apenas à prod u ção das inúmeras coi- sas necessárias à manutenção física dos indiv íduos . Considera também o fato de que, ao prod u zirem todas essas coisas , os seres humanos constroem a si mesmos como ind i víduos. Isso ocorre porque, se - gundo o filósofo , " o modo de produção da vida material condiciona o p r ocesso geral de v i da so-

c ial, política e espiritua l " (Para a crítica da econo- mia política, prefácio).

Capital e trabalho

Compreende-se aí a i mportância que Marx deu à análise do trabalho , como procuramos mostrar no capí t u l o 8. E l e reconhece o trabalho como ati v idade fundamental do ser humano e analisa os fatores que o tornaram uma atividade massacrante e alienada no capitalismo . Essa demonstração desenvol v e-se em vários textos, mas de forma mais rigorosa em O capital, livro em que o filósofo expõe a lógica do modo de produção capital i sta, em que a força de trabalho é transformada em u ma mercador i a com dupla face :

de um lado, é uma mercadoria como o u tra qua l- quer , paga p e lo salá r io; de outro, é a única merca - doria q u e produz va l or , ou seja, que rep r odu z o

c apital .

Dialética marxista

Marx também en t ende o desen v olvimento his- tórico-social como decorrente das transformações

ocorr i das no modo de produção (ver e x p licação deta l hada do conceito adiante). Nessa análise , ele se vale dos princíp i os da di a l é t ic a, mas , como afirma no posfácio da segunda edição de O capital,

" meu método dialético não só difere do hegeli ano,

mas é também

nhece o mérito

expor as fo r mas ge r ais da dialé ti ca, mas alega que

a sua antítese direta" . Marx reco - de Heg e l por ter sido o prime i ro a

Unidade 3 A filosofia na história

1264

é p rec iso desmisti ficá - la, ev idenciand o seu n úc leo r ac i o n a l . N a co nce p ção h ege l iana, c onforme v i -

tor n a - se in s trum e nto d e

m os, a di a l ét i ca

l

eg itimação

d a rea l i d a d e ex istente.

N o

p

e n sa ment o

de M a rx, a d ia l é tica le v a ao

e

nt e ndimento d a p o s s ibi l i d a d e de nega-

ç

ão dessa realidade " p or que ap r eend e

c

ada form a e x i ste n te no f l u x o do movi -

m

e nto, portanto

tamb é m com se u l a d o

t r a nsitór i o " . Ou se j a , a dia l ét ica em Marx

a h is tória em seu

pe rmite compr ee nd er

mov im e nt o, e m qu e ca da e tapa é v ista

e d e finiti v o , ma s

n ão c omo al g o es t á t i c o

co m o algo t ra n s i tór i o,

s e r

q

u e pode

t

r a n s form a d o p e l a ação h um a n a.

De aco rd o

com Marx, as gr and e s

t

r ans f or m ações histór i cas dera m - se pri-

meira m e n te n o campo da eco n o mia , c a u-

sadas por contra d ições gera d a s no in te -

rior do p r ó pri o modo de p ro du çã o. D ife -

ren t e m e n te

d e Hegel , no en t a nto , M ar x

não co nceb e um a hi s t ór i a qu e and a sozi -

n ha, g uiad a p or uma

to, m a s sim um a h i st ó ri a f e it a p e los se r es

humanos ,

histórico e podem , d e s s a forma, transfor -

mar a rea li dade social, sobr e t udo se a l te -

r a rem se u modo d e produ ção .

ra z ão ou um e spíri -

q u e int e r ferem no processo

Modo de produção

Mod o d e pr o dução é a m a n e ir a com o se orga -

n iza a pr o du ção m a t eria l e m um dado est ág i o d e

desenvo l vi m e n to soc i a l . E ssa m a n e ira d e p e nd e do

desenvo l v im e n to d as forças pr o dut i v as (a força

ta i s

como m áqu i nas , ferramentas e t c . ) e d a f or m a das relações de produção.

de trabalh o h u ma n o e os meios d e produ ção,

E m bo r a a def i nição dos mo d os d e p ro d ução

seja um as p ec t o comp l exo na o br a d e Ma r x e e n tre

os se u s c o m e n ta d ores , le m os e m A ideologia alemã

a ex posição do s segu i n t e s m o d os de produ çã o do -

ENFiM

A

T E C NOLoq ;A eHE:~A

À P€~rEi ~ Ão :

-

ooe

A M Á quiNA

FA BRi e A

D E ' S € MPRE ' 6! A D e 'i) !

2.

CONEXÕES

O bserve a te n t amen t e essa cha r ge. Q ual é

a críti ca nela contida?

re l aç õe s n as qu ais

ge m as possi b i l i da d es o bj et i va s de tran s form ação

d ess e m o d o d e p ro du ção.

e l a se d á. Nesse m o m e n to, s ur-

Luta de classes

mi

n antes em c a da épo c a: o c om u ni smo pr i mit iv o ,

De acordo c o m M ar x, c aberia à cla s se so cial

o

escr avis mo n a An t i g uid a de , o f eu dali s mo na

que possui , n esse mo m en to , um carát e r r e vo lu -

I dade Média e o capitalismo na I dad e Mo d erna. A pa s sage m d e u m m o d o de pro du ção a o u t ro, seg u ndo o f ilósof o, dá - se no momen t o e m qu e o

n íve l de d ese n v ol v i me n to d a s forças p r oduti vas

en t r a e m c o nt ra d ição co m as r e lações s o c i a i s d e

p rod u ç ão . Q uan do i sso ocor r e , há um s uf oca m e n - to d a p ro du ção e m vi r t u de d a i nad equ ação das

ci o n á ri o inter v i r po r m e io d e aç ões conc re tas,

prá ti cas, para qu e e ssas t rans f o r m a ções ocorram . Fo i o que acont e c e u , por e x emp lo , na passag e m do feudalismo ao c api ta l i s mo, com as r ev o lu ções

b urg u esa s . M ar x s int e tiz a essa a n á li se na afirma ç ão d e qu e a lut a d e c lass e s é o m o t o r da hi s t ó r ia , i sto é, a l ut a

de c l asses faz a histór i a se mover . Por isso, no Mani- festo comunista ( 1848), escrito em pa r cer i a com En - ge l s, Ma r x afirma:

A história de todas as sociedades que existi- ram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, se- nhor e servo, mestre de corporação e apren- diz; numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfar- çada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta.

D e acordo com Marx , o capitalismo tamb é m

crio u u ma c lasse revol u cionár i a q u e , em virtude d e

s u as co ndi ções de existência, deve se organ i zar para ,

no m o m ento oportuno , fazer a revo l ução social

r u mo a o socia l ismo. Essa c lasse revo lu c i onária ser i a

o proletariado .

Análise e entendimento

11. Marx afirma que Hegel, em sua interpretação

da história, determinante ele se refere? esse respeito?

inverteu a relação entre o que é

A que de Marx a

e o que é determinado.

Qual é a concepção

12. "Meu método dialético

não só difere do he-

geliano, mas é também a sua antítese direta."

Comente essa afirmação de Marx.

Conversa filosófica

4. Evolução da humanidade

Comte resumiu sua tese sobre a evolução his-

tórica e cultural

estados. Do mesmo modo, Marx analisou as grandes transformações da humanidade, só que com base nos modos de produção econô- mica, chegando ao conceito de luta de classes

como motor da história.

Compare

com as etapas relativas aos modos de produ- ção dominantes assinalados por Marx. A que esfera da existência humana refere-se cada

uma? Nas duas teorias está implícita

de evolução, de progresso? Em sua opinião, a

da humanidade na lei dos três

as etapas da lei dos três estados

a ideia

2

65 I

Capitulo

15 Filosofia contemporân ea: p e nsam e nto do sécul o XIX

Ce n a do fi lm e Germi n a! ( 1 993 , Fra n ça , d ireção de Claude

Be rr i). A i m age m r et r ata o a n tago n is m o

g ru pos socia i s e a lu ta das c l asses pr ol etá ri as.

d e i n t eresses entre

13. Relacione os seguintes conceitos

do

pensamento de Marx: capital. trabalho, luta

de classes, proletariado.

dentro

14. A visão da história

desenvolvida por Marx

denomina-se, desde Engels, de materialismo

histórico. Por que essa doutrina se classifica-

ria como materialista? E por que esse rialismo seria histórico?

mate-

humanidade tem progredido? Por quê? Deba- ta com colegas.

S. Luta de classes

Vivemos em um país com imensa desigualda-

de econômica entre as classes sociais. Marx

afirmou

que a luta de classes é o motor da

história.

Você entende que existe uma luta de classes no Brasil? Por quê? Que classes estariam em conflito? Haveria entre nós uma classe revolu- cionária capaz de nos levar a transformações revolucionárias? Reflita sobre o assunto e dis- cuta com colegas.

Unidade 3 A filoso f ia na hi stó ri a

1266

FRIEDRICH NIETZSCHE

Uma filosofia "a golpes de martelo"

Nietzsche fo i professor ti t ular de fi l osofia

muitos anos,

episódios de perda da consciência e crises de loucura.

na Bas i leia. Durante

padeceu de uma doença que o l evaria a

Concluindo este capítulo, veremos outro pensa-

dor que, nas últimas décadas do século XIX , ques- tionou profundamente os rumos do pensamento fi- losófico vigente , bem como do mundo ocidental . Trata - se de Friedrich Nietzsche. Nietzsche (1844-1900) nasceu em Rocken , uma

localidade da Alemanha

pastor protestante , pos s u í a um gênio brilhante , ten - do estudado grego , latim , teologia e filosofia. A par - tir da leitura de O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, sentiu - se profundamente atraído pelas reflexões filosóficas . Realizou uma crítica radical e impiedosa à t radi- ção filosófica e aos v alores fundamentais da ci v iliza- ção ocidental, construindo um pensamen t o diferen- te e original, " a golpes de martelo" . Exerceu grande influência sobre os pensadores das f ilosofias da e x is- tênc i a, sendo, por isso, considerado às v ezes um fi- lósofo pré-e x istencialista .

Filho de um culto

Apolíneo e dionisíaco

E m su a ob ra , N ietzsche critica a tradição da filo-

so f ia ocidental a partir de Sócrates , a quem acusa de

ter negado a intuição criadora da filo s of i a anterior,

pré-soc r ática.

Ne s sa análise, o filósofo alemão estab el ec e a dist i n - ção entre dois princípios: o apolíneo e o dionisíaco ,

a parti r , respect iv amente , dos deu s es gregos Apolo

(deus da razão , da clar e za , da ordem) e Dionísio (deus

da av entura , da música, da fanta s i a, da de s ordem) . Para Ni etzsche , e sses doi s princípios ou dimen - sões complementare s da realidade - o apolíneo e o dionisíaco - foram separados na Grécia socrática , que , optando p el o culto à razão , secou a seiva cria- dora da filosofia , contida na dimensão dionisíaca.

Genealogia da moral

Posteriormen te, N ietzsche desen v ol v eu uma crí- tica intensa dos va l ores morais , propondo uma nova abordagem: a genealogia d a moral, i s to é , o estudo da formação histórica dos valores morais. Sua conclusão foi de qu e não e xistem a s noções

ab s olutas de bem e de mal . Para N ietzsche , as con -

cepções morais são elaboradas pelos homens, a partir

dos inte r esses humanos . Ou seja , são produtos histó- rico-culturais . N o entanto as religiões , como o judaís - mo e o cristianismo, impõem esses valores humanos como se fossem produtos da "v ontade de Deus" .

P ara o filósofo , grande pa r te das pessoas acomo -

da - s e a uma "m o ral de rebanho ", baseada na sub-

missão irrefletida aos v alores dominantes da civi l i-

zação cristã e burguesa .

o que é tacitamente recebemos e praticamos

nos e externos, sem ter sido por nós con-

quistado, mas recebido de fora para dentro, é como algo que nos foi dado; são dados que incorporamos à rotina, reverenciamos pas-

peias (amarras que

sivamente

prendem os pés) ao desenvolvimento pessoal

e coletivo.

como a justiça e a bondade, possam atuar e

enriquecer,

que obtivemos ativamente

peração dos dados. [

das mais lídimas (autênticas) virtualidades

do ser é que Nietzsche ensina a combater

a complacência, a mornidão das posições

adquiridas, que o comodismo intitula moral, ou outra coisa bem soante. (CANDIDO, O por- tador, posfácio a Nietzsche, p. 411).

aceito por nós; o que

sem atritos

inter-

e se tornam

Ora, para que certos princípios,

é preciso que surjam como algo

a partir da su-

] Para essa conquista

267

I Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

i m, se compreen d ermos qu e os va l ores pr e -

se n tes em no s sas v idas são co n str u ções h u m a n as,

se q u estiona r mos o v al o r d os va l or es, estamos n o

Ass

i

d eve r d e ref l et i r sobre nossas concepções morais e

e n f r e n tar o d e s a f io de v i v er por nossa p r ópria con- ta e ri sco.

II A escrita aforismática

li Diferentemente da maioria dos filósofos, Nietzsche escreveu a maior parte de suas ob r as sob a forma de aforismos. Aforismo é uma máxima, i sto é, uma sentença curta que e x prime um conceito, um conselho ou um

li 11

II

ens i namento . Os afo r ismos de N ie tz sche tratam de diversos temas, como r eligião , moral , ar te s , c i ên c i as e t c . Seu c onjunto

ocidental. C rí tica à massif i ca ç ão , à

vi são de mundo burguesa , ao conservadorismo cristão (que e l e chama v a " moral de r eb a nho ") e t c . Dessa c r ítica

r e v e l a , no e ntan t o , u m a crítica profunda e impiedosa à civilização

II surgi u tamb é m a ques t ão do valor da existência humana .

I~

Niilismo

Segundo a análise de N i etzs ch e, n o m o m e n to em q u e o cr i s t ianismo de i xo u d e s er a " úni ca ver - dade " p ara se to r nar uma das interpretaç õ e s p os - síveis do mundo , to d a a c i vi lizaç ão oc id e nt a l e

se us v alo res a b so lutos

tam bém foram po s t os e m

xe que . Ne ss e contexto, ocorre uma esc a lada d o

niili s mo, qu e "deve s e r e nt e ndido como um s e nti-

m en t o o p ress i vo e di fu so , próprio às fas es ag u da s

de oc as o d e u ma c ul t ur a . O niili s mo s eria a expr es- são a f e ti va e int e l ect u a l d a d e cad ê n c i a" ( G I ACO I A

JR., Nietzsche, p. 64 - 65) .

O ni il ismo m ode r no apo n ta d o p or Nie t zsche

assenta - se , em grande parte , na i d e i a d a m o rte de

Deus. E m sua ob r a Gaia ciência, o f il ósofo decreta que " Deus está morto ", mas escl a rece q u e qu em o

matou fomos nós mesmos , o u seja, t rata-se de um aco n tecimento cul t ural . Desse modo , teríamos des-

tr u í do os f u ndame n tos transce ndent a i s (assenta d os

em De u s ) dos v alo r es mais caros d e n ossas vidas.

Ass im , por meio do niilismo :

.] o ho m e m mod e rn o viv enc i a a p e r d a d e

sen tido dos val o res su p e ri o r es d e n os s a cu l tu r a . Po r ess a ó tica , niil i smo se ria o se n- ti m ento coleti v o de que nossos s i ste m as tra d ic i ona i s de v aloração, ta n to no p l ano do conhecimento quanto no é t ico - reli - gioso, ou sociopolít i co , ficaram sem con- sist ê ncia e já n ã o podem mai s atuar co m o

i nstâncias d o ado r as de sent i do e fu n da- mento pa r a o conhecimento e a ação . (GIA- COlA JR., Nietzsche, p. 65) .

[

Apesar desse nii li smo em relação aos v alores co n sag r ados da ci v il i zação , Nietzsche defe n deu

ta mb ém valores a f irm a ti v os d a v ida , capazes de e x-

p andir as energia s laten t es em nós .

" Ouse conquistar

a si mesmo " tal v ez seja a

grande indi c a ç ão nietzsch i ana à q u e l es que b u scam

v i ver a " l i berdad e d a razão " , sem conform i smo , re -

s i gnação ou submissão .

Análise e entendimento

15. Sobre si m e smo , Nietzsche a firm ou : "Não sou

u m homem , so u u m a di n amite " .

I dentif i qu e e e x p l iq u e as " bombas" lançadas pe l o f il ósofo nos segu i ntes domí ni os:

a) trad i ç ão f il osóf i ca;

b) da m ora l;

c) da re l ig i ão.

Unidade 3 A filosofia na história

• Conversa filosófica

6 . A morte de Deus

!268

" De us está morto ! Deus permanece morto! E

qu em o matou fomos nós! Como haveremos

de nos co n so l a r , nós os algozes dos algozes?

O q u e o m undo possu i u, até agora , de ma i s

s agrado e m ais pode r oso sucumbiu exangue

aos golpes das nossas l âminas. Quem nos li m pará dess e sangue? Qual a água que nos la v ará? " ( N I E T zs cH EC,a ia ciência, seçâo 1 25) .

Interprete essa f r ase, considerando o contexto da f iloso f ia de N ie tz sche . Depois discuta co m co l egas so b re o te m a da morte de Deus .

Sugestões de filmes

• A é poca da in o cên c ia ( 1993, EUA, d i reção de Martin Scorsese) Hi s t ór i a que se desenro l a e m amb i e n te da burgues i a norte - americana

r omân t i co da paixão

do f i na l do sécul o por u m a m ul he r i n -

depe n de nt e , separada de um nobre russo, e o r e al i smo de submeter-se ao comp r omisso de

noi vado co m uma j ovem perte n cente a impor t an t e famíl i a l ocal .

X I X . Um j ovem vê - se div i d i do e n tre o sent i mento

• Aguirre, a cólera dos deuses (1972 , A lemanha , direção d e W e r n er H e rzog)

E spetacu l ar e i mplacáv e l crôn i ca do imper i alismo enlo u quecido - que nar r a a t entativa i mpos-

s í ve l de conquistar a ci d ade

princ í pios da co l oni z ação .

míti ca de E I Dorado, fe i ta p or uma exped i ção espanhola nos

• . Ju l ia (1977, EUA, d i reção de F red Z i nnemann)

Fil me sobre episódios da v i d a da escritora norte-americana Li l l i an Hel l m a n e de sua amiga

Juli a , a ti v i sta de movime n tos po l íticos da década de 1930.

• Era u m a v ez p r ol e tá r ios

( 2009 , Ch i na , direção d e G u o Xi a o l u)

História d e diversas pessoas , contada co m humor: um v elho camponês , um m ili onário q u e es- pecula na bolsa de valores, um j o ve m m i gran te, um op e rá r io de uma fáb r ica de armamentos , um propr i etário do h otel , cr i anças que sonham em se tornar a r t i stas.

• Para pensar

T

e m os e m seguida três textos . Os do i s pr i me i r os t r at a m d o papel d a filosofi a : H e gel descre v e o conhe -

c

i me n to f il osóf i co como algo que su r ge de p ois qu e a realidade se "i nstala" ; Ma r x propõe, em poucas

p

a l avras, co m o a f il osofia de v e atuar . O últi mo te x to é u ma defes a da t e se m a te r ial i sta de que a v i da

d

ete rmina a consciênc i a. L e i a e re l eia esses textos e r espon da às questõe s .

••••

••

•••

"A tarefa da filosofia é entender o que é , pois o qu e é é a r a z ão.

de seu t emp o . Do m esmo modo , a f i losofia é

se u tempo ap r eendido em p e nsamentos . N ão é s e nsa t o c rer qu e a f i l o s of ia possa ir a l ém de seu

tempo present e, do mesmo mo d o que i magin a r q u e u m i nd i v íd u o p oss a saltar por c i ma de se u

de v e ser, e ste

ex i s t i r á por cer t o, mas s omen t e em su a opin i ão , e l eme nto m a l eáv el no q u a l se pode plasmar

q

P ara ag r egar a l go mais sobre a pretensão de ensinar como de v e se r o mundo , ass i nalemos, por

outra parte, qu e a fi l osofia chega s e mpre t ard e . E n qu a nt o pe nsamento do mundo , aparece n o tempo só depois que a r e alid a de c o nsumo u o s eu pr oce s so d e f o rmaç ã o e já se a c h a pron t a.

O que e n sina o conc e i t o o mostra co m a mesma n ecessi da d e a h i stó r ia : só na ma t uridade da

rea l idade aparece o ideal f r ente ao real, e erige a este mesmo mundo, apreend i do em s u a subs -

tempo. E se uma teoria vai alé m d a su a re al i da d e e co ns tró i u m m undo tal como

No que d i z respe i t o ao indi v íduo , cada um é filho

u a l quer cois a . [ .]

2691

Capítulo 15 Filosofia contemporânea: pensamento do século XIX

Quando a f i losofia pinta com seus tons cinzentos é que já enve l hece u uma f i gura da v i da q ue

s u as pe n u m bras não podem r ej uvenescer, somente conhecer . A ave de M i ne r va (a filosofi a) a l ça seu voo ao entardecer . "

,

HEGEL, Principios de Ia f ilosofía dei derecho, p . 246; tradução dos autores .

2. O papel da filosofia "

"At é agora os filósofos se dedica r am a i nterpretar o mu n do; resta , de agora e m d i a n te, t r a n sfor- ma-to."

3. A vida determina a consciência

MARX, Teses contra Feuerbach, 11ªtese.

"Contrariame n te ã f i l osofia alemã , que desce do céu para a te r ra, aqui parte - se da terra para

atingir o céu . Isto significa

sam nem daquilo que são nas pala v ras , no pensamento , na imag i nação e na represe n tação de

outrem para chegar aos homens em ca r ne e osso ; parte-se dos ho m ens , da sua atividade rea l.

e

das repercussões ideológicas deste processo vital . Mesmo as fantasmagorias correspo n de m , n o cérebro humano, a sublimações necessariamente resul t antes do processo da sua v i da mat eri a l que pode ser observado empiricamente e que repousa em bases mater i ais. Ass i m, a moral , a

É a partir do seu processo de vida real que se representa o desenvo l v i mento dos ref l exos

que não se parte daquilo que os homens d i ze m , i mag in a m e pen-

religião, a metafís i ca e qualquer ou t ra ideologia, ta l como as formas de co n sciê n cia que I hes correspondem , perdem imed i atamente toda a aparênc i a de autonomia. Não têm his tória, não

têm dese n vo l vimento;

serão antes os homen s que, desenvol v endo a sua produção material e as

suas relações materia i s , t r ansformam, com esta real i dade que Ihes é própr i a, o seu pe n same n to e os p r odutos desse pensamento. Não é a co n sciênc i a que determina a vida, mas sim a vida que

determ i na a consciência. Na primeira forma de considerar este assunto, par t e - se da co n sc i ê n c i a como sendo o indivíduo vivo, e na segunda, que corresponde à v i da real, parte - se dos própr i os

i n div í duos r eais e v ivos e cons i dera - se a consciência u n i camente como s u a co n sc i ênc i a . "

MARX, A ideologia alemã, p. 9 -10.

1. Inte r prete a me t áfora "a a v e de Minerva a l ça seu v oo ao entardecer"

2. Qual é a discordânc i a f u ndamen t al ent re o primeiro texto e o segundo?

3. Ident i f i que no terceiro te x to todas as f rase s que i l ustram a concepção materialis t a da f il osof i a de Marx.

4. I nterprete e comen t e a fr a se de Marx: " Não é a consc i ência que de t erm i na a v ida, mas a v i da que determina a c onsc i ê n cia" .