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o diálogo

Diálogo desfeito pelo vento (1927) - René Magritte

(Coleção particular).

Nesta altura você já deve estar convencido de que filosofar é mesmo uma maneira um pouco "diferente" de pensar sobre as coisas. É estar aberto à dúvida, à admiração, ao espanto. É estar em busca de um pensamento que é uma "conversa da alma consigo mesma", como definiu Platão. Mas quem filosofa quer dialogar também com outras "almas", outras pessoas, para chegar com elas - idealmente - a um acordo. Isso quer dizer que filosofar é basicamente praticar o diálogo. Que tipo de diálogo? É o que veremos com mais detalhe neste capítulo.

--------------------~
Questões filosóficas
O que é um diálogo? Para que dialogar? Como se filosofa? Para que filosofar? Conhecemos o que acreditamos conhecer? O que podemos afirmar com certeza?

Conceitos-chave
diálogo, conversação, discurso, precisão, clareza, conhecer, generalizar, linguagem, método dia lógico, dialética socrático-platônica

Situação filosófica
Um astrônomo, um físico e um matemático estavam passando férias na Escôcia. Olhando pela janela do trem eles avistaram uma ovelha preta no meio do campo. "Que interessante", observou o astrônomo, "na Escócia todas as ovelhas são pretas." Ao que o físico respondeu: "Não, nada disso! Algumas ovelhas escocesas são pretas". O matemático olhou para cima em desespero e disse: "Na Escócia existe pelo menos um campo, contendo pelo menos uma ovelha e pelo menos um lado dela é preto". (STEWART, citado em SINGH, O último teorema de Fermat, p. 147).

Analisando a situação
• Quem são os três personagens da historieta 7 O que os aproxima? O que os separa? São um astrônomo, um físico e um matemático. De modo geral, podemos dizer que eles têm em comum o fato de serem estudiosos de três disciplinas pertencentes às chamadas ciências exatas (nas quais se pretende um conhecimento exato, preciso e objetivo sobre as coisas, com base no modelo matemático). A astronomia e a física se aproximam e se interpenetram, pois são ciências em que predomina a observação do mundo concreto, sensível, e que podem utilizar a experimentação para confirmar suas hipóteses (embora nem sempre, como na astro física, cujo objeto de estudo é praticamente inalcançável), visando formular leis gerais. Por sua vez, a matemática propriamente dita constitui uma ciência não experimental, que não lida, de modo geral, com a realidade concreta, pois se baseia em objetos abstratos, ideais, e amplia seu conhecimento sobre eles por meio da dedução lógica, conduzida com todo o rigor. Onde estavam? Passavam por uma situação rotineira? Estavam na Escócia, passando férias. Por isso, e pelo diálogo que levaram, podemos supor, mesmo sendo essa uma história fictícia, que eram estrangeiros passeando por esse país. De qualquer forma, teriam saído de sua rotina, de sua vida cotidiana e encontravam-se em uma situação •

mais favorável à experiência de estranhamento, de admiração. O que chamou a atenção deles, quebrando o fluir "monótono" da viagem? Foi a visão de uma ovelha negra no meio do campo escocês. Por que isso chamaria a atenção deles? Provavelmente porque as ovelhas mais comumente conhecidas são de cor clara ou branca. Uma ovelha negra é algo pouco frequente, o que gerou uma quebra, um estranhamento, uma admiração. Qual foi o resultado dessa quebra? A quebra levou-os a refletir sobre o que haviam visto e a iniciar um diálogo em que cada um expressou conclusões distintas. Dito de maneira mais precisa: como eram cientistas - isto é, estudiosos, pessoas comprometidas com o conhecimento -, cada qual passou a formular uma hipótese ou afirmação a respeito do que a visão de uma ovelha negra isolada em um campo da Escócia lhe permitia conhecer "de verdade". Esse diálogo constitui uma paródia do mundo científico, fazendo uma caricatura das três ciências.
Paródia - imitação ou caracterização cômica, satírica de alguma coisa.

Como se podem interpretar as palavras do astrônomo? Interpretar é entender o que foi dito, aprofundando-se em seu significado. É cavoucar, esca-

rafunchar as entrelinhas, o que está implícito. Temos que o astrônomo concluiu, ao ver uma ovelha negra, que todas as ovelhas são negras na Escócia. Essa é uma inferência evidentemente equivocada. Não se pode fazer tamanha generalização a partir de um único caso. Assim, podemos entender que há aí certa referência caricatural à astronomia (ciência que trata de entender e explicar a totalidade física do universo), bem como a uma tendência muito comum nas pessoas: a de generalizar a partir de muito pouco.
Inferência - conclusão a que se chega sobre algo a partir de outro elemento tido como verdadeiro, por qualquer tipo de raciocínio.

um lado dela. Se ela não se virou, ninguém viu seu outro lado. Teoricamente, portanto, não é impossível que o outro lado tivesse outra cor. Ao mesmo tempo, porém, o uso da expressão "pelo menos" em sua proposição deixa aberta a possibilidade de que exista outro campo com outra ovelha negra, bem como que o outro lado dela seja negro. • Você faria alguma crítica à mensagem transmitida por essa anedota? Para poder criticar essa anedota, você precisa - depois de entender bem o texto e suas entrelinhas - ir além dele e ver seus problemas: o que falta, onde ele é parcial, o que tem de mau ou de bom ete. Vejamos um exemplo disso. Há pessoas que não gostam muito das formulações feitas por matemáticos, quando se trata de explicar a realidade concreta. Elas poderiam dizer, por exemplo, que o diálogo está incompleto, que deveria ter prosseguido com objeções de outros especialistas. Nesse caso, talvez um biólogo pudesse dizer: "Embora seu raciocínio seja bastante correto do ponto de vista lógico, se consideramos os fatos, isto é, a experiência que todos nós temos da realidade, é altamente improvável que essa ovelha tenha uma cor distinta do outro lado. Além disso, do ponto de vista biológico ..." e assim por diante. Ou seja, a conversação poderia ter continuado, enriquecida com outros argumentos e conhecimentos, cada personagem tentando encontrar melhores fundamentos para suas opiniões. Essa é uma característica marcante do discurso filosófico.

E as palavras do físico? Podemos dizer que o físico não é tão exagerado quanto o astrônomo, mas também se precipita, pois saber que existe um caso de ovelha negra na Escócia não implica a existência de outras, mesmo que sejam apenas algumas, como ele conclui. Essa poderia ser a única ovelha negra nesse país. Portanto, faltou rigor em sua afirmação. E as palavras do matemático 7 O matemático tem bem presente tudo isso. Fazendo uso da linguagem precisa que caracteriza sua ciência, ele formula uma afirmação rigorosamente lógica a respeito de tudo o que é possível conhecer a partir da experiência que haviam tido: "Na Escócia existe pelo menos um campo, contendo pelo menos uma ovelha e pelo menos um lado dela é preto". De fato, tudo o que se havia visto era um campo, uma ovelha preta e

511

Capítulo 3 O diálogo

PODER DO DIÁLOGO

Caminhos do entendimento
o PRIMEIRO QUE VIER ME FALAR OE
~
(OMUNI(A~O ~UMANA LEVA

~ r

(N~O!

A MAO NA CARA

Joaquin Salvador Lavado [QUINO) Toda Malalda - Marfins Fontes, 1991

A análise que fizemos da situação filosófica deste capítulo teve como propósito, além de destacar os conteúdos da anedota, chamar sua atenção para o potencial de uma boa conversação. Você deve ter percebido que, por meio do diálogo, os interlocutores de nossa historieta foram alcançando progressivamente - mesmo que de uma maneira jocosa, irônica, caricata - uma expressão linguística mais clara e precisa em relação ao conhecimento que podiam extrair da sua experiência recente. Quando estudamos, no capítulo anterior, a dúvida metódica de Descartes, vimos algo semelhante: o filósofo francês viveu o processo de estranhar, duvidar e se questionar por meio de uma conversação, só que interior. Por isso a obra denomina-se Meditações, pois se trata do registro escrito de suas reflexões, de seu diálogo interno. Certamente, porém, o filósofo também tinha em mente outros interlocutores, seus argumentos e objeções. Era como se falasse também com eles enquanto pensava e escrevia, mesmo sem designá-los. Além do mais, depois de finalizar suas Meditações, a conversação de Descartes não terminou. Sabe-se que ele recebeu de alguns estudiosos de sua época, por carta, várias objeções a esses escritos. E respondeu a elas, revisando, aprofundando e enriquecendo algumas de suas teses. Assim, filosofar é fundamentalmente conversar. É seguir oscilando entre uma visão e outra, entre um pensamento e outro, escutando objeções, duvidando novamente, voltando a questionar, procurando ver algo que talvez não esteja sendo observado, mas que tenha importância para a compreensão das coisas. E depois expressá-lo e cornunicá-lo ao outro.

Daí a importância do bom uso da palavra, seja quando se pensa, seja ao falar ou ao escrever. É assim que trabalha a filosofia: burilando os pensamentos, o discurso, a conversação, até alcançar um entendimento mais claro e preciso. Por isso acreditamos, junto com o pensador espanhol Ortega y Gasset (1883-1955), que "a clareza é a cortesia do filósofo" (Citado em KU]AWSKI, Ortega y Gasset: a aventura da razão, p. 18).

CONEXÕES

1. Reflita sobre a tirinha acima. Como você avalia o uso da palavra pelas personagens? Procure relacionar essa reflexão com alguma situação do seu cotidiano, uma história de família etc.

Papel da linguagem
Ora, se filosofar é conversar - esteja você pensando ou escrevendo, falando ou lendo -, podemos dizer que a linguagem é o principal meio ou instrumento da filosofia. E isso não ocorre apenas na atividade filosófica. Entende-se cada vez mais que, utilizando a linguagem, o discurso, a conversação, construímos boa parte do que somos e do mundo à nossa volta (como veremos com mais detalhe no capítulo 7, que trata especificamente do tema da linguagem).

Unidade 1 Introdução ao filosofar

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nossa cultura. É também a atividade conversacional que nos permite desenvolver uma consciência crítica (assunto que veremos no próximo capítulo) pessoal e social mais ampla e chegar a consensos ou acordos que possam mudar o mundo, ou fazê-10 andar, sem dogmas nem imposições. Daí a importância, como salientamos no capítulo anterior, de saber perguntar e escutar e de desenvolver maiores habilidades de compreensão e expressão linguística e comunicacional. Tudo isso se pode aprender. Lembre-se de que, como se diz muito hoje em dia, "mais importante que saber, é manter a capacidade de aprender". É preciso não fossilizar o conhecimento. E a filosofia pode ajudá-10 muito nisso.

conferiria tanto poder à linguagem? Nas últimas décadas, estudiosos de diversos campos do conhecimento - como a antropologia, a sociologia, a filosofia, a linguística, a psicologia e a biologia têm chegado a conclusões que apontam para a mesma direção: o ser humano é um ser fundamentalmente linguístico (conforme estudaremos no capítulo 6, onde se discute o tema da natureza humana e as diversas teorias a respeito). Isso significa que a linguagem é uma dimensão muitíssimo importante de nossa existência, provavelmente bem mais do que para outros animais. Vivemos mergulhados na linguagem tanto quanto em nossos corpos e em nossas emoções. Por meio dela, consolidamos nossas crenças, nossas ações,

o que

A força das palavras

leia abaixo um trecho do discurso de uma política colombiana. íngrid Betancourt. ao receber o prêmio Príncipe de Astúrias da Concórdia. em 2008. "Tenho uma imensa admiração por eles. os escultores da palavra. quem. com a arte sagrada de materializar a alma. enriquecem as outras pessoas sem guardar nada para si. [ ...] Com nossa palavra podemos reivindicaroutras relações. outros compromissos. outras soluções. Podemos aceitar acordos comerciais não tão bons para nós. mas que sejam mais justos. Podemos buscar maiores investimentos solidários e menos rendimentos especulativos. Podemos oferecer mais diálogo e menos imposições pela força. Podemos. sobretudo. não nos resignar. Porque resignar-se é morrer um pouco. é não fazer uso da possibilidade de escolher. é aceitar o silêncio. A palavra. por sua vez. precede a ação. prepara o caminho. abre portas. Hoje devemos mais que nunca usar a voz para romper grilhões. Tenho a profunda convicção de que. quando falamos. estamos modificando o mundo. As grandes transformações de nossa história sempre foram anunciadas antes. Assim chegou o homem à lua. assim caiu o muro de Berlim,assim se acabou com o apartheid. Eu espero que assim desapareça também o terrorismo."
Disponível em: <http://www.premiosprincipe.com/content/view/248/>. Acesso em: 30 dez. 2009. Tradução dos autores

CONEXÕES

2. Analise e interprete o trecho do discurso citado. Para tanto. observe os seguintes passos: a) quem é a autora do discurso. que situação excepcional viveu (pesquise em outras fontes); b) qual é sua tese principal nesse trecho;
c) como a autora fundamenta

sua tese e que fatos ilustram sua

fundamentação; d) qual é o principal alvo de seu discurso; e) você acha que o que a autora defende é possível? Justifique.

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Capitulo 3 O diálogo

Conhecer e acreditar conhecer
Focalizemos agora, especificamente, o diálogo filosófico. Como é ele? Em que difere de outras conversações? Antes de respondermos a essas perguntas, vejamos um lado problemático de nossas falas, nossos discursos. Você já deve ter percebido que uma das preocupações mais constantes dos filósofos - e que devemos levar em conta sempre que filosofamos - é saber se detemos o conhecimento que acreditamos ter. Em outros termos, será esse conhecimento verdadeiro ou apenas um engano ou ilusão? Não é um fato admirável- algo sobre o qual pensar, meditar, filosofar - a quantidade de coisas que acreditamos conhecer sem nunca termos pensado seriamente sobre elas? Vejamos alguns exemplos.

uma afirmação da crença que temos, seja ela qual for. Se escolho agir de determinada maneira é porque, no fundo, creio que essa maneira é melhor para mim do que outra, ao menos naquele momento. Cada ação nossa,em sua peculiar segurança, em vez de ser uma pergunta ou uma dúvida, é realmente uma afirmação categórica; se faço isto ou aquilo é porque estou acreditando, verdadeiramente, que essa ação é mais conveniente que qualquer outra. (ECHEGOYEN e GARCiA-BARÓ, em PlATÃO, Menón, o sobre Ia vírtud, p. 10; tradução dos autores). Dito de outra forma, estamos a todo o instante "afirmando" - seja por meio de palavras ou de ações - nossas crenças, nossas "verdades", que em geral compartilhamos com um grupo pequeno ou numeroso de pessoas que pensam, falam e agem de modo semelhante. O que queremos que você perceba fundamentalmente é que, se não acreditássemos conhecer muito bem uma boa quantidade de temas em nossas vidas, "se não crêssemos numa infinidade de verdades, não falaríamos como falamos e não faríamos o que fazemos" (EcHEGOYEN e GARCÍA-BARÓ, p. 11; tradução dos autores).

Conversas cotidianas
Se observarmos nossas conversas diárias, notaremos que usamos muitas palavras acreditando não apenas conhecer plenamente o que elas querem dizer, como também que, ao empregá-Ias, estamos todos falando da mesma "coisa". Mas será que eu e você, quando temos um diálogo, estamos pensando exatamente na mesma "coisa" quando dizemos "amor", "democracia", "felicidade", "justiça", entre outras palavras? Será que conhecemos o que significam essencialmente essas palavras? Mais ainda: será que existe um Significado essencial de uma palavra? Se analisarmos um pouco mais atentamente tais conversações, nos daremos conta também de que, na maioria das vezes, nos expressamos como se conhecêssemos o que é bom e o que é mau, certo e errado, belo e feio, agradável e desagradável, útil e inútil etc. Não é isso o que ocorre quando avaliamos um prato, um alimento, um filme, uma música, uma lição, um professor, uma escola, um político - entre tantos outros exemplos -, mesmo não sendo especialistas nessas áreas? Em tais situações, tão comuns, está implícito em nossa fala, nossa escrita, nosso discurso que acreditamos saber o que é bom ou melhor para nós, para os outros e para a sociedade.

Cena de um haraquiri, forma de suicídio ritual praticada antigamente no Japão por nobres e guerreiros samurais.

CONEXÕES

Ações cotidianas
Se nos centrarmos, por último, nas ações que empreendemos todos os dias, veremos que agimos de acordo com essa mesma crença de que sabemos o que é melhor para nós. Toda ação é uma afirmação:

3. Pesquise um pouco mais sobre o haraquiri. Qual é a suposição de crença que sustenta essa prática? Você consegue identificar as crenças que sustentam algumas práticas da vida contemporãnea?

Unidade 1 Introdução ao filosofar

154

Análise e entendimento
1. Qual é a interpretação atualmente predominante com relação ao papel da linguagem tanto para os indivíduos como para a sociedade? O que fundamenta essa interpretação? cortesia do filósofo" (Ortega y Gasset).

3. Exponha os fatos "admiráveis" de nossas conversas e ações cotidianas, conforme a análise apresentada neste capítulo.

2. Caracterize a atividade filosófica relacionando
a conversa apresentada no início deste capítulo com a afirmação de que "A clareza é a

4. Por que dizemos que esses fatos são "admiráveis"?

Conversa filosófica
1. Conteúdo das palavras

--------------~~~--~----gem russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). A que ela se refere? Busque exemplos. Depois, forme um grupo com colegas e estabeleça uma conversação filosófica sobre esse assunto.

"Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou sentido ideológico ou vivencial." (BAKHTIN, Marxismo e filosofia da linguagem, p. 95). Reflita sobre essa afirmação do linguista e filósofo da lingua-

Ideológico - relativo a ideologia, isto é, conjunto de ideias ou crenças sustentado por determinada cultura, grupo social, movimento político etc.

ARTE DE PERGUNTAR

O método dialógico de Sócrates
Voltando à nossa pergunta, será que conhecemos verdadeiramente o que acreditamos conhecer? Há mais de 24 séculos, essa era a dúvida fundamental do grande mestre de Platão, Sócrates (c. 469-399 a.C), cuja biografia veremos mais adiante (no capítulo 11). Apesar de ser considerado um homem sábio por muitos de sua época, Sócrates reconhecia sua própria ignorância dos diversos temas que a maioria das pessoas acreditava conhecer. "Só sei que nada sei", costumava repetir. Por isso, vivia cheio de dúvidas. O único grande conhecimento que admitiu possuir, em certo momento, foi a arte de perguntar. Desse modo, empregando o diálogo, Sócrates tornou-se o primeiro grande exemplo de pensador ocidental que acreditou radicalmente no poder da conversação, defendendo-a de maneira explícita como método para atingir um conhecimento mais profundo, essencial e verdadeiro sobre as coisas. Sócrates e seu método dialógico - isto é, em forma de diálogo - são, assim, nossos grandes paradigmas neste capítulo sobre o diálogo e o filosofar.

A conversa misteriosa (1975) - Giorgio de Chirico.
O diálogo filosófico pode nos levar às esferas mais profundas e enigmáticas de nosso ser.

Paradigma - aquilo ou aquele que serve de exemplo, modelo ou referência.

551

Capítulo 3 O diálogo

Explicação do método
Vejamos, então, alguns trechos da explicação que teria dado o próprio Sócrates sobre seu método filosófico, contida no diálogo conhecido como Teeteto, escrito por Platão (partes VI e VII, p. 11-15).

Desse modo Sócrates começa a expor pormenorizadamente a analogia que encontra entre sua atividade filosófica e a prática obstétrica de sua mãe: o filósofo seria um "parteiro de almas", não de corpos (os bebês). Ou seja, seu trabalho é o de ajudar a dar à luz pensamentos e distinguir, por meio do senso crítico, os verdadeiros dos falsos.

Diálogo amigável Perguntas penetrantes
Sócrates - E nunca ouviste falar, meu qracejador, que eu sou filho de uma parteira famosa e imponente, Fanerete? Teeteto - Sim, já ouvi. Sócrates - Então, já te contaram também que eu exerço essa mesma arte? Teeteto - Isso, nunca. Sócrates - Pois fica sabendo que é verdade; porém não me traias; ninguém sabe que eu conheço semelhante arte, e por não o saberem, em suas referências à minha pessoa não aludem a esse ponto; dizem apenas que eu sou o homem mais esquisito do mundo e que lanço confusão no espírito dos outros. A esse respeito já ouviste dizerem alguma coisa? Teeteto - Ouvi. Sócrates - Queres que te aponte a razão disso? Teeteto - Por que não? Tudo se inicia com um diálogo amigável. Nesse trecho, Sócrates sugere que teria herdado a profissão de sua mãe, que era parteira. Por essa razão, o filósofo denominava seu próprio método, sua arte de perguntar, pelo nome de maiêutíca, palavra de origem grega que significa "ciência ou arte do parto", ou seja, a obstetricia. O que ele queria dizer com isso? Sócrates - Neste particular, sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria, tendo grande fundo de verdade a censura que muitos me assacam, de só interrogar os outros, sem nunca apresentar opinião pessoal sobre nenhum assunto, por carecer, justamente, de sabedoria. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Por isso mesmo, não sou sábio, não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. Aqui o filósofo repete, com outras palavras e enfaticamente, o que sempre dizia: "Só sei que nada sei". Seu grande dom seria o de saber formular as perguntas adequadas para ajudar as pessoas a conceberem, por elas mesmas, a verdade sobre os diversos temas. Assim, aprendemos com ele que, para filosofar, a pessoa não deve crer que conhece a verdade. Isso a impediria de seguir questionando, buscando, ascendendo. Em filosofia, mais valem perguntas agudas, penetrantes, do que respostas que instituam o silêncio, o fim da conversação. Lembre-se de que o significado próprio da palavra filósofo é "amigo ou amante da sabedoria". Portanto, ele a persegue, busca, cuida, acompanha. Não a tem, não a possui, e nesse sentido Sócrates pode ser adotado como paradigma do "bom" filósofo.

Parteiro de almas
Sócrates - A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras, com a diferença de eu não partejar mulher, porém homens, e de acompanhar as almas, não os corpos, em seu trabalho de parto. Porém a grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro.
Partejar - servir de parteira ou parteira.

Conhecimento

progressivo

Sócrates - Porém os que tratam comigo, suposto que alguns no começo pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu próprio julgamento como no de estranhos.

Unidade 1 Introdução ao filosofar

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do que aos verdadeiros, com o que acabam por parecerem ignorantes aos seus próprios olhos e aos de estranhos. Foi o que aconteceu com Aristides, filho de Lisímaco, e a outros mais.

Assim, por meio do diálogo filosófico, os interlocutores de Sócrates iriam alcançando um conhecimento mais pleno sobre os temas discutidos. Do mesmo modo, aquele que se faz as perguntas adequadas em sua vida, amplia a consciência de si e das coisas.

Nesse trecho, Sócrates alerta para o perigo de abandonar o diálogo filosófico antes do tempo. Ele se refere certamente aos discípulos "apressadinhos", mas também, por extensão, a todos aqueles que, depois de certo tempo de experiência de vida, acreditam ingenuamente conhecer a verdade sobre as coisas em geral (quase todos nós somos um pouco assim), bem como àqueles que assumem uma atitude ainda mais prepotente e se creem os "donos da verdade". Desse modo, fica a mensagem de que, mesmo quando já se alcançou grande conhecimento, é importante 'seguir praticando a conversação filosófica durante toda a vida, para evitar recair em erros, qualquer que seja nossa idade.

Dor das descobertas
Sócrates - Quando voltam a implorar insistentemente minha companhia, com demonstrações de arrependimento, nalguns casos meu demônio familiar me proíbe reatar relações; noutros o permite, voltando estes, então, a progredir como antes. Neste ponto, os que convivem comigo se parecem com as parturientes: sofrem dores lancinantes e andam dia e noite desorientados, num trabalho muito mais penoso do que o delas. Essas dores é que minha arte sabe despertar ou acalmar. É o que se dá com todos. [...]

Mão com esfera refletora (1935) - M. C. Escher. No ato de dialogar, o interlocutor funciona como espelho.

Prática constante
Sócrates que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira. E a prova é o seguinte: Muitos desconhecedores desse fato e que tudo atribuem a si próprios, ou por me desprezarem ou por injunções de terceiros, afastam-se de mim cedo demais. O resultado é alguns expelirem antes do tempo, em virtude das más companhias, os germes por mim semeados, e estragarem outros, por falta da alimentação adequada, os que eu ajudara a pôr no mundo, por darem mais importância aos produtos falsos e enganosos

o

Ou seja, a atividade filosófica está vinculada a certa dor, a certo grau de incerteza, inquietude e angústia. É a dor da dúvida, do "parto" do conhecimento, do ampliar da consciência. Por exemplo, quando uma pessoa vê pela primeira vez algo que nunca tinha conseguido ver antes e percebe que esteve enganada todo o tempo, essa visão pode ser bastante desestabilizadora. Não é fácil admitir um erro e assumir as consequências. Mas depois, com a prática reflexiva contínua, essa pessoa poderá progredir no sentido de uma consciência mais plena, reorganizar sua compreensão do mundo e alcançar, como vimos anteriormente, a felicidade de uma vida orientada de maneira mais justa e sábia.

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Capítulo 3 O diálogo

Dificuldades do percurso
Sócrates - Se te expus tudo isso, meu caro Teeteto, com tantas minúcias, foi por suspeitar que algo em tua alma está no ponto de vir à luz, como tu mesmo desconfias. Entrega-te, pois, a mim, como a filho de uma parteira que também é parteira, e quando eu te formular alguma questão, procura responder a ela do melhor modo possível. E se no exame de alguma coisa que disseres, depois de eu verificar que não se trata de um produto legítimo mas de algum fantasma sem consistência, que logo arrancarei e jogarei fora, não te aborreças como o fazem as mulheres com seu primeiro filho. Alguns, meu caro, a tal extremo se zangaram comigo, que chegaram a morder-me por os haver livrado de um que outro pensamento extravagante. Não compreendiam que eu só fazia aquilo por bondade. Estão longe de admitir que de jeito nenhum os deuses podem querer mal aos homens e que eu, do meu lado, nada faço por malquerença pois não me é permitido em absoluto pactuar com a mentira nem ocultar a verdade. Aqui o filósofo reconhece que suas perguntas e ao que elas conduziam incomodavam muito seus contemporâneos, a ponto de ser considerado inimigo público e condenado à morte. Quando se toca o cerne de um problema, a reaçâo pode ser violenta. Em razão disso, Sócrates exorta seu interlocutor a aceitar as dificuldades encontradas no caminho. Aquele que se dedica ao filosofar precisa se desfazer não apenas dos preconceitos, mas também das suscetibilidades do orgulho e do amor-próprio e se entregar totalmente ao diálogo reflexivo com o outro, ao exame aberto e fecundo das questões propostas. Mas, como nem todos adotam a mesma atitude, esse esforço nem sempre será compreendido.

Sem a dor das descobertas,

não há crescimento.

Refutação ou ironia
Os diálogos iniciam basicamente com um Sócrates que parece não querer ensinar nada a ninguém. Ao contrário, ele costuma expressar-se como quem deseja aprender com seu interlocutor, fazendo-lhe perguntas como se nada soubesse. Com habilidade de raciocínio, no entanto, conduz suas perguntas de forma a evidenciar as contradições e os problemas que surgem a cada resposta de seu interlocutor. Desse modo, o filósofo vai refutando, contestando, negando a concepção inicialmente apresentada no diálogo e, ao mesmo tempo, demolindo no interlocutor - o orgulho, a arrogância e a presunção do saber. A primeira virtude do sábio é adquirir consciência da própria ignorância. Por tudo isso, essa parte do diálogo é chamada também de ironia, palavra de origem grega cujo sentido primitivo era "interrogação fingindo ignorância".

Estrutura do diálogo
PIatão adotou a mesma forma de filosofar de seu mestre, designando-a dialética, palavra que em sua origem grega quer dizer "diálogo, discussão". Por isso, o método socrático também é conhecido como dialética socratico-platônica. Conforme veremos mais adiante, no exemplo extraído do dialogo EutíJron, o método dialético desenvolve-se, de modo geral, em duas etapas.

Unidade 1 Introdução ao filosofar

158
de questões, ajudando-o a trazer à luz suas próprias ideias. Por isso, essa fase do diálogo socrático é chamada de maiêutica, cujo sentido primitivo é, como já vimos, "arte de ajudar a dar à luz, a parir" (obstetrícia) . Você deve estar percebendo que o diálogo socratico não é um diálogo qualquer. Não é um mero confronto de opiniões, nem sua aceitação passiva. Trata-se de um diálogo que parte de uma afirmação ou opinião (por exemplo, "Fulano foi covarde") e que deriva para a discussão de um tema (por exemplo, "O que é a covardia?" ou "O que é a coragem?") e progride por meio de uma sucessão de perguntas e respostas. Nesse processo, cada resposta vai sendo questionada criticamente, isto é, examinada em seus detalhes, sua coerência, correção ou validez. Seria, portanto, um diálogo crítico.

Sócrates teria assim exposto sua postura: [...] aquele acreditava saber e não sabia, enquanto eu, ao contrário, como não sabia, também não julgava saber, e tive a impressão de que, ao menos numa pequena coisa, fosse mais sábio que ele, ou seja, porque não sei, nem acredito sabê-lo. (PLATÃO, Defesa de Sócrates, em Apologia de Sócrates, p. 71).

Ma iêutica
Nesta segunda fase do diálogo, liberto do orgulho e da pretensão de que tudo sabe, o interlocutor já está em condições de iniciar o caminho de reconstrução de suas próprias ideias. Novamente Sócrates lhe propõe, com grande habilidade, uma série

o caminho

das pedras: para Platão, o processo dialético (da essência) do indivíduo .

promoveria

uma ascensão cognoscitiva

(do conhecimento)

e ontológica

.Diálogo com Eutífron
Para você ter uma ideia mais concreta do que estamos falando, leia atentamente, a seguir, o trecho inicial de um diálogo socrático denominado Eutífron - ou da religiosidade (PLATÃO, 39-44). Quem sabe p. ele possa inspirá-lo a procurar e ler esse e outros diálogos inteiros.

Resumo da parte inicial
Sócrates encontra, à porta do tribunal de Atenas, Eutífron, conhecido como grande entendido em temas religiosos. O filósofo conta que sofre uma ação criminal em que é acusado de corromper os jovens inventando novos deuses e desacreditando os antigos.

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Eutífron, por sua vez, comenta que veio ao tribunal por ter apresentado uma acusação de homicídio contra o próprio pai. Conta que a vítima era um servo que, embriagado, degolou outro servo. O pai prendeu o homicida em um fosso, sem ter maiores cuidados com ele, enquanto esperava orientação do encarregado de justiça. Só que o servo assassino não aguentou o cativeiro e faleceu de frio e inanição. Assim, seu pai teria se tornado um homicida também, por omissão, no julgar do filho. Quando Eutífron afirma estar certo de que está agindo de maneira piedosa, isto é, conforme o dever para com os deuses, inicia-se a refutação socrática.

Capítulo 3 O diálogo

Sequência
Sócrates: - Por Zeus, Eutífron, julgas saber com tanta precisão a opinião dos deuses a respeito do que é e não é piedoso, que não receies que, havendo as coisas sucedido como afirmas, possas cometer uma crueldade movendo esse processo contra teu pai? Eutífron: - Assim, Sócrates, eu não teria utilidade e Eutífron não se distinguiria do mais comum dos homens se não tivesse conhecimento de todas essas coisas com precisão. Sócrates: - Perceberás, por conseguinte, meu caro Eutífron, quão proveitoso para mim seria tornar-me teu discípulo, especialmente antes da ação judicial [...] [...] Sócrates: - Explica-me, então, o que consideras piedoso e ímpio [não piedoso]. Eutífron: - Digo que é piedoso isso mesmo que farei agora, pois em se tratando de homicídios ou roubos sacrílegos, ou qualquer outro crime, a piedade impõe o castigo do culpado, seja este pai, mãe ou outra pessoa qualquer; não agir assim é ímpio. [...] [...] Sócrates: - Pode ser que o seja, mas também existem muitas outras coisas, Eutífron, consideradas piedosas. Eutífron: - Evidentemente que sim. Sócrates: - Recorda, porém, que não te pedi para demonstrar-me uma ou duas dessas coisas, dessas que são piedosas, mas que me explicasses a natureza de todas as coisas piedosas. Porque disseste, salvo engano, que existe algo característico que faz com que todas as coisas ímpias sejam ímpias, e todas

as coisas piedosas, piedosas. Recordas-te? Eutífron: - Recordo-me. Sócrates: - Pois bem, esse caráter distintivo é o que desejo que me esclareças, a fim de que, analisando-o com atenção e servindo-me dele como parâmetro, possa afirmar que tudo o que fazes, ou um outro, de igual maneira é piedoso, enquanto aquilo que se distingue disso não o é. Eutífron: - Se é isso o que queres, dir-te-ei imediatamente. Sócrates: - Em verdade, é só isso que desejo. Eutífron: - É piedoso tudo aquilo que é agradável aos deuses, e ímpio o que a eles não agrada. Sócrates: - Ótimo, Eutífron, respondeste agora como eu esperava que o fizesses, se o que afirmas é correto, embora eu não o saiba. Mas é evidente que me mostrarás que o que declaras é a pura verdade. Eutífron: - Sim, claro. Sócrates: - Muito bem, consideremos o que vamos dizer. Uma coisa e um homem que são agradáveis aos deuses são piedosos, ao passo que uma coisa e um homem detestados pelos deuses são ímpios. [...] Eutífron: - Sim. [...] Sócrates: - E não afirmaste também, Eutífron, que os deuses lutam entre si, que apresentam diferenças e detestam uns aos outros? Eutífron: - Sim, afirmei. Sócrates: - Mas quais são essas divergências que causam esses ódios e essas cóleras, estimado amigo? [...] Sócrates: - Então, qual seria o assunto que, por não ser passível de decisão, causaria entre nós inimizade e nos tornaria reciprocamente irritados? Pode ser que não esteja a teu alcance, mas considera, pelo que estou dizendo, se se trata do justo e do injusto, do belo e do feio, ou do bom e do mau. Com efeito, não é por causa disso que,justamente devido às nossas diferenças e por não poder conseguir uma decisão unânime, nos convertemos em inimigos uns dos outros [...]? Eutífron: - De fato, Sócrates, eis aqui a divergência mais frequente e também as causas que lhe dão origem. Sócrates: - Não acontecem igualmente as mesmas divergências entre os deuses e pelos mesmos motivos? Eutífron: - Com toda a certeza.

Unidade 1 Introdução ao filosofar

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Assim como analisamos e interpretamos a situação filosófica no início do capítulo, agora é sua vez de fazer o mesmo com este diálogo.
CONEXÕES

[...] Sócrates: - E não é verdade que aquilo que cada um deles julga bom e justo é também o que ama, e que o contrário lhe desagrada? Eutífron: - Sim. Sócrates: - Mas são as mesmas coisas, como afirmas, que uns reputam justas e outros injustas. De suas divergências acerca disso é que se originam as guerras e as discórdias entre eles, não é? Eutífron: - De fato. Sócrates: - Temos de afirmar, por conseguinte, que as mesmas coisas são amadas pelos deuses e que Ihes são ao mesmo tempo agradáveis e desagradáveis. Eutífron: - Parece que sim. Sócrates: - O que significa, Eutífron, que algumas coisas poderão ser ao mesmo tempo piedosas e ímpias. Eutífron: - É possível. Sócrates: - Então, estimado amigo, não respondeste à minha pergunta. Pois pedi que me explicasses o que é [...] piedoso e ímpio. Porém vimos que o que agrada a alguns deuses pode desagradar a outros; portanto, querido Eutífron, não seria de espantar que aquilo que fazes ao castigar teu pai fosse agradável para Zeus, mas detestável para Cronos e Urano [...] e, da mesma maneira, agradável e desagradável para uns e outros deuses que divergem a respeito disso.

4. Destaque no texto um trecho em que se expressa: do interlocutor em relação a conhecer a verdade sobre algo. Que algo é esse? b) o interesse de Sócrates em aprender com seu interlocutor. Como se justifica esse interesse? S. Que questão se investiga nesse início do diálogo? 6. Qual é a primeira questão? resposta de Eutífron à
a) o orgulho e convencimento

7. Sintetize o problema identificado nessa primeira resposta por meio das perguntas formuladas por Sócrates. 8. Qual é a segunda resposta de Eutífron à questão? 9. Sintetize o problema identificado nessa segunda resposta por meio das perguntas formuladas por Sócrates. 10. A que fase da dialética socrático-platônica corresponde esse trecho? Justifique.

Quando

não se restringe a uma mera confrontação

de egos, o diálogo

pode ser rico e proveitoso.

611

Capítulo

3 O diálogo

Análise e entendimento
5. Existe alguma relação entre os "fatos admiráveis" que analisamos na primeira parte deste capítulo e as dúvidas em que vivia Sócrates?

8. Explique o caráter progressivo e a necessidade de prática constante do método socrático.

9. Em que sentido a pessoa que filosofa deve es6. Qual era o único grande saber que Sócrates
admitia ter? Qual era seu grande mérito? tar preparada para enfrentar a dor e outras dificuldades de percurso?

7. Por que Sócrates chamava de maiêutica seu
método de dialogar?

10. Explique a estrutura da dialética socrático-platônica e sua denominação.

2. Conhecimento e dúvida "Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida." "A dúvida cresce com o conhecimento." Interprete as duas afirmaçôes acima, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749- 1832). relacionando-as com Sócrates. Você concorda com elas? Por quê? Forme um grupo e debata sobre essas questôes.

3.

Utilidade do diálogo filosófico De acordo com o que estudamos neste capítulo, que sentido pode ter a conversação filosóftca para você? O que mais lhe agrada nela ou qual seria a maior utilidade do ato de dialogar em sua vida? Depois dessa reflexão, junte-se com colegas e procure elaborar com eles/elas uma lista de benefícios possíveis de um bom diálogo .

Doze homens e uma sentença (1957, EUA, direção de Sidney Lumet; 1997, EUA. direção de William Friedkin) Doze jurados se reúnem para decidir se consideram culpado um jovem porto-riquenho, acusado de ter assassinado seu próprio pai. Todos têm certeza da culpa, menos um, mas a decisão deve ser unãnime. Assim, inicia-se uma conversação que revela muito sobre cada um deles (origem e condição social, valores, traumas, preconceitos) e sua decisão . Sócrates (1974, Itália, direção de Roberto Rossellini) Representação do final da vida de Sócrates, seu julgamento e condenação à morte. Utiliza diálogos escritos por Platão, como a Defesa de Sócrates (iulgarnento e defesa do filósofo). Críton (tentativa dos discípulos de convencê-Ia à fuga) e Fédon (último diálogo antes de tomar a cicuta).

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