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C A P ir U L O

Alcançamos, enfim, a última parada de nossa

viagem por mais de 25 séculos de filosofia. Você

verá que, nos últimos cem anos, a produção

filosófica foi múltipla e variada, como já havia

ocorrido no século anterior. Só que agora muitas

das certezas desmoronaram-se sucessivamente,

levando consigo várias esperanças contidas no

projeto da modernidade.

Como reagiram ou estão reagindo os filósofos

de nossa época? É o que veremos a seguir.

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA:

pensamento do século XX

Trem blindado em ação (1 9 15) - Gino Severini . Guerr a, futurism o, cubismo: marc a s do século X X.

Questões filosóficas

O que é existir?

Como é a vida? Existe liberdade na existência humana?

Qual é o sentido do ser? Quais são os pressupostos lógicos da linguagem?

O que é a sociedade de massas?

Como se origina e se organiza o poder? Qual é a relação entre linguagem e dominação?

Conceitos-chave

existencialismo, fenomenologia, fenômeno, ente, ser-aí/estar-aí, angústia, ente em-si, ente para-si, nada, não-ser, liberdade, condição humana, filosofia analítica, análise lógica, jogos de linguagem, Escola de Frankfurt, teoria crítica, sociedade de massa, razão instrumental, indústria cultural, arte, repressão, prazer, razão dia lógica, ação comunicativa, verdade intersubjetiva, pós-moderno, micropoderes, sociedade disciplinar, logocentrismo, desconstrução, hiper-realidade

J

SÉCULO XX

Uma era de incertezas

o século XIX foi um período marcado por gran - de s convicções. De modo ge r al, m ui tos f i lósofos es- tavam c o n f i antes no poder da razão, os cien t istas , entu s ia s mado s com o progresso tecnologíco, os ca -

p it ali s tas, r a diantes com as vantagens da expansão

i n d ust r i al, os român t icos, vibrando com a v a l oriza - ção da pátria e dos sentimentos nacionais, os socia - lista s , pregando ardo r o s amente a construção do so -

c i a li s mo , e a s s i m por dian t e. Pou c as des s as c onvicções sub s istiriam intactas no séc u lo XX, que f o i, por i ss o, caracterizado como uma era de i ncertezas.

A era da incerteza é o título de um livro do economista cana-

dense John Kenneth Galbraith que analisa e compara as grandes certezas do pensamento econômico do século XIX com as incerte-

zas com que os problemas foram enfrentados no século XX.

I s so c omeçou a ve ri f i car - se logo na pass agem do sécul o XIX para o XX, quando Freud fundou a psi -

c a n á l i se e su rgira m a s ps ic olog i as do inconsciente, colo c ando dúv i da s s obre a hegemonia da raz ão nos

a s suntos humanos (conforme v i mos no capí t ulo 4).

Q u a s e paralelamen te, Ein s te i n formulou a teoria da

relat ivi d a de e , al gum tem p o depois, Hei s enberg enun -

ci ou o princí pio da i ncerte z a, lançando as bases de

uma progressiva mudança de paradigmas na c iência

( t ema estudado brevemente no capítulo 5 e que voltará

271 I Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

a s er tra t ado mais detalhadamente no capítu l o 19). O

incer t o começa va a oc upar o espírito do mundo con - temporâneo a par t ir de seu maior baluarte : a ciência.

Mundo de contrastes

,

E como definir os p r incipais acontec i mento s do

século XX? Trágic o s ou maravilhoso s ? Giga n tesc o s eles foram, sem dúvida. Duas guerras mundiais derramara m sang ue em uma escala j amais vista na h i stória da humanidade.

A explosão da barbárie nazista aterror i zo u o m u n do.

A Revolução Russa impulsionou a ascensão d o s o -

cialismo em vários países , engatilhando o su rg imen -

to de uma guerra fr i a que polarizou grande par te d o

planet a e só terminou com o fim da Uniã o Sov i éti c a. Por outro l ado , depois da Segunda Guerra, a tec - nologia deu um sal t o vertiginoso . Telescópios hiper- potentes e x p l oraram os confins do univer s o . Nav e s espaciais iniciaram a conquista do cosmo. A enge - nharia gené ti c a r egistrou avanços antes restrito s ao s

livr o s de ficção . A tecno l ogia da informação e div e r- sos novos aparatos chegaram à vida cotid i ana de m i- lhões de usuários em t odo o mundo. Em contrapart i da, a tecnolog í a trouxe também a corrida armamen t ist a, o medo da destruição atômi c a

e a degradação ambienta l . E os avanço s tec n ológ í co s pouco con tri b u íram para diminuir as profundas desi- gualdades sociais no planeta. Calcula - se q ue 80% da renda mundial concentram -s e n as m ã o s d e 15% d a

população , en q u a n to mais da metade da humanida - de a i nda enfren ta pro b lemas de desnut r içã o , falta de

mo r ad i a , desamp ar o à saú d e e à edu c ação .

Corpos empilhados em campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, não se pode dizer que esse tipo de perseguição contra diversas minorias tenha chegado ao fim. Ainda hoje, muitas populações são vítimas do preconceito e, eventualmente, de massacres.

Unidade 3 A filosofia na história

1272

Impressões antagônicas

Por t udo is so, as i m pressões dos gr ande s int e lec -

t u a i s q u e viver am no século XX são d íspares e, por vezes , antagõni c a s . Alguns o veem como uma época

i nédita pela vastidão dos dramas h u manos, massa -

cres e g ue rras . Uma e s ti m ativa das gra n des violên -

c ia s do século XX m e n c io na 18 7 mi lh õ es de mortes

pr o vo cadas p or dec i s ão hu ma n a , o equi va l e n te a

mais de 10 % da p opulaç ão m u n di a l em 19 00

H OB S BAWM, Era dos extremos, p . 21) .

Ou t r o s p e n sadores r eco n hece m q u e, ape s ar das

vi ol ê n c i a s , o sécu l o XX foi também u m período de

progresso tecnocient í f i c o e de importantes tas so c ; i a is , e m que se des t acaram , e n t r e

(c f .

conq u is - o u tras, a

progressiva emanc i paç ã o femi n ina. S e não tivesse

h avido - d izem a l gu n s - , a po p ulação m undia l n ão

teria c r escid o m ais de três ve z es dura n t e o séc ulo

XX, p o is saltou

p e s s o as e m 1 9 0 0 para c e r ca d e 6 bi lh ões em 2 0 00.

d e, a proxim a d ame nte , 1,7 bi l h ão de

Análise e entendimento

Respostas filosóficas

Dev i do a essas contradições, d esenvolve u -se

no século X X - pri n cipalmente a partir de

ú l timas três d é cadas - uma mentalidade menos

arrogante quanto aos ben e fícios i nfalíveis da ra - cionalidade científica . Perce b eu-se que, destituí - das de valores éticos, a c i ência e a tecnologia ne m sem pr e contrib u em p ara o d e s en v o l v i mento h u- mano . Em certo s ca sos, pres t a m ser viço à t ira nia e à barbárie .

suas

Isso s e ref l etiu n a produção d a s diver s a s co r- rentes filosóficas surgidas nesse período, como o

existencialismo, a E s cola de Frankf u rt e o pen s a - mento pós - moderno (que serão e stu dados ne s te capít u lo). Assim , embora já estejamo s no s éc u lo XXI, co m

e con tra d ições, o s é cul o XX nã o

s u as i n certezas

po d e a ind a s e r fe cha do p a r a balanço . Pe rmanece aberto p ara q u em quiser c o rn p ree nd ê -l o.

1

l

1

1. x plique a caracteriza ç ão do século XX como

E

-se no século XX - p r inc i palmente a partir de

u

ma "era de i nce r tezas " .

s

u as últimas três décadas - um a mentali d a d e

2. Coment e a seg uint e a firm açã o : desenvo l ve u-

Conversa filosófica

1. Trágico ou maravilhoso?

me n o s arrogante q u a nt o aos b e n e f íc io s in falí-

veis da rac i o nalid ade c i e nt í fica.

Como você caracteri z aria o século XX? O que você v i v e n ciou de bom e de ruim dessa época? O que ainda se mantém e o que mudou? R eúna-se com colegas para comparti l h a r impressões e e x periê n c i as pessoai s e debate r os pon to s po l êm i co s.

EXISTENCIALISMO A aventura e o drama da existência

O t e rmo existencialismo d es i g na o co n j un to de

ten d ê n c i a s filosóf i cas qu e , embora d i verge n tes e m

vá r ios as p ectos , têm na existência hu mana o ponto

de parti d a e o objeto f u ndamental d e ref l exões. Por isso, podemos design á -I as mais propriame n te como filosofia s da exi s tência , no pl u ral .

Mas o que é e x ist i r? Se ref l etir m os s o b re o tem a, veremos que existir implica a relação d o ser h um a -

no consigo me s mo , com o u t r os sere s h u m anos, c om os ob j etos c ul t u ra i s e com a n at ur eza . Sã o r e l a çõe s múltip l a s , concreta s e d inâm ic a s . E t a mb é m r e la- çõe s determinad a s (aqu e l a s, por exemplo , que re- sul ta m de l ei s da f ís i c a) e in d e t e rminada s ( a qu e las

q u e re sul tam d a nossa l ib er d a d e o u d o a c as o , s e nd o passíveis o u não de a c ontecer) . Sobre esses temas, os filósofo s existencia l i sta s

e l aboraram diversas i n terpreta ç ões, c u jo denomi n a - dor com u m é uma cert a visão dram á ti c a da c ond içã o

humana. O filósofo e escritor francês Albert Camus (1913-1960) ilustrava bem essa interpretação quan- do dizia que a única questão filosófica séria seria o suicídio. Vejamos algumas concepções características do existencialismo:

• ser humano - é entendido como uma realidade imperfeita, aber t a e inacabada, que foi "lança- da" ao mundo e vive sob riscos e ameaças;

• liberdade

humana - não é plena, mas condi-

históricas da exis-

tência. Nesse sentido, querer não se identifica

com poder. Homens e mulheres agem no mun- do superando ou não os obstáculos que se lhes apresentam;

é um caminho seguro em

direção ao progresso, ao êxito e ao crescimento. Ao contrário, é marca da por situações de sofri- mento, como doença, dor, injustiças, luta pela sobrevivência, fracassos, velhice e morte. Assim,

cionada às circunstâncias

• vida humana - não

não podemos ignorar o sofrimento humano , a angústia interior, a exploração social. É preciso considerar esses aspectos adversos da vida e en- cará-los de frente .

As filosofias da existência propriamente ditas surgiram no século XX, mas sofreram grande influên- cia do pensamento de alguns filósofos do período anterior, considerados por isso pré-existencialis- tas. Entre eles destacam-se Schopenhauer , Kierke- gaard, Nietzsche e Husserl. Como já estudamos os três primeiros no capítulo anterior, veremos em seguida um pouco sobre H us- serl. Depois abordaremos dois grandes pensadores do existencialismo: Heidegger (embora este não aceitasse a classificação de filósofo existencialista) e Sartre.

Edmund Husserl

Edmund Husserl (1859-1938) nasceu na cidade de Prossnitz, situada na Morávia, região que pertencia ao império austro-húngaro (hoje República Tcheca) . Formulou um método de investigação filosófica co- nhecido como fenomenologia.

Método fenomeno/ógico

A fenomenologia surgiu primeiramente na at- mosfera rarefeita da matemática. Depois se desen- volveu na psicologia e na filosofia e acabou desem- bocando nas preocupações humanistas dos filósofos

273 I Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

Husserl é studou matemática, mas voltou-se para a filosofia por influência do filósofo alemão Franz Brentano (1838- -1917). Morreu aos 79 anos de idad e , proibido de lecionar e perseguido pelos nazistas devido à sua origem judaica.

existencialistas contemporâneos. Seria , por defini- ção, a ciência dos fenômenos . O que são os fenômenos? A palavra f enômeno vem do grego phaenomenon, que sign i fica "coisa que aparece". Assim , o método fenomenológico consis- te, basicamente, na obser v ação e descrição rigorosa do fenômeno , isto é , daquilo que a p ar e c e ou se ofe-

r ec e aos sentidos ou à consciência. Dessa maneira , busca-se analisar como se forma, para nós , o campo de nossa experiência, sem que o sujeito ofereça resistência ao fenômeno estudado nem se desvie dele. O sujeito deve, portanto, orien- tar-se para e pelo fenômeno. Sua consciência será sempre a consciência de alguma coisa. Em resumo, a fenomenologia apresenta-se como a investigação das experiências conscientes (fenô- menos), isto é , "o mundo da vida" (Lebenswelt, em alemão) como a denomina Husserl. Conforme analisou o filósofo francês Merleau- -Ponty ; Husserl tentou a reabilitação ontológica do sensível. I sso significou , na história da filosofia, uma

v olt a à s p ró p r i as co i sas , das quais o sujeito tinha se afastado.

Unidade 3 A f i lo sof i a na h i stór i a

Martin Heidegger

T a m bém fe n o m e n o l og i sta ,

pe ns ado r e s fun da m e nt a i s

d

e i d e gge r torno u - se

H

o s éc ul o X X.

um d os

1274

N as c id o e m Messk i rch, na reg i ão d e B a d en, Alema -

n h a , Mar ti n He id egger ( 1 889 -1 976 ) dese n vo l ve u s ua

fo rm ação f il osóf i ca na U ni vers i dade d e Fr e i b ur g , o nde

E d mund H u ss er l e r a prof ess or. Pub lic ou , e m 1 927 ,

um a d e s u as m a i s i mpo rt a nt es obr as , Ser e tempo. Com a a scensão de H i t l er ao p o d er , e m 1 93 3

a fastou - se d e se u ant i go mest r e e amigo Hu sser l ,

n o ssa ex i st ê nc i a p o r q u e é d e l a qu e, p rim e i rame n te,

te m os consc i ê nc i a . M a s u ma f il oso fi a qu e colocasse

ap

s eria a nt es um a a n t r op o l ogia . P o r i sso dizia q u e a

e r a a ex i stê n c i a d o

ser h u m a n o , e si m a qu est ão d o ser em se u conjun to

e e nqua n t o ta l . Es sa s u a i nten ç ão , no enta n t o, só fi- cou c l a ra a p ar ti r de 1 930 , qu an d o pub lico u Da es- sência da verdade.

qu

e n as o ser h u m a no co m o c e n tro d e preocupação

e stão qu e o pr e o cu pav a n ã o

H e id eg ger c ri tico u a q uil o que c onsi der ava u m a

con f usão e n tre en te e ser , oco r r i d a ao l ongo da hi s -

tór i a da filoso fi a. Pa r a e l e , o ente é a exi s tência ,

manifest aç ã o d o s m o d os de ser. O ser é essência ,

aqu i l o qu e f und ame n ta

modos de s e r. A p a r t ir d essa di fe r e n c i a ção é possí-

e i l u mi na a e x i stê n c i a o u o s

a

v e l est a b e l ecer du as f ases d a fi l oso fi a h ei d egg e r i a n a.

A

pr i m e ir a c a rac t e r iz a-s e p e l a busca do conheci-

m

e n to

do s e r p or me i o d a a n ál i se d o e n te h um ano ,

da e x i s t ê n c i a hu ma na . N a segun d a , o e n t e sa i d o

p r im e ir o pl a n o e o p r ó p r i o ser t or n a - s e a ch av e para

a com p ree n são d a ex i s t ên c ia .

Desperta r pela angústia

U m dos o bj e t i v o s básico s d e s u a obr a Ser e tempo

é

i n ve s t i gar o sentido do s e r . Para efet u ar tal tar e fa ,

H

e idegg e r com e ç o u p e l a a ná li se do s e r q u e n ós pr ó-

p r i o s s om o s . C r i an do um a te rm ino l og i a p r ópria , e

po r v ez e s o bscu r a , d e n o min o u o m o d o de ser do

ser humano , n ossa ex i stênci a , co m a p a l a v ra Dasein,

c u j o sentid o é ser - a í , e s ta r - a í.

A na li san do a v ida huma n a , o fi l ó s o f o d escrev e u

t r ê s e t a p as q u e m a rcam a e x i s t ê nci a e q u e , p ar a a

ma io ria d os in d i v í duo s, c u l min am em u ma existên- cia inau t ên t ica :

q

u e e r a jud eu . Não m uit o t e m po d ep o i s , p or é m , tal -

ato da e x ist ê ncia -

f

o s er hum ano é " l a n ç a d o "

v

ez po r t om ar co n sc i ê n cia d a s c r es c entes a tr o c i d a-

a

o mun do, s e m s ab er p o r q u ê. Ao des perta r pa ra

d

es nazi s t as, d emi t iu - se da U n ivers id a d e d e Fr e i-

a

consc i ê n ci a d a v i d a , já está aí , s e m t e r pedido

burg , da qua l era e n tão reito r , e i so l o u - se e m sua

p

a ra n ascer ;

cas a n as m onta n has d a F lores t a N eg r a , m an te ndo

de s en v ol v im e n t o da e x i stência - o ser hu ma-

pou cos co nt a t o s até s u a m o rte.

n

o esta b e l ec e r e la ç õe s co m o m u n d o (a mbie n-

te n at u r a l e s oc ia l hi s tori c a me n t e s itu a d o) . Para

Ente e ser

ex

i s t i r, pr oje t a s u a v id a e p rocura agir n o c a mpo

Rom p e n do com a t e n dênc i a do min a n t e d a filo - sofi a m o d er n a , qu e d esd e Desc a r t es est av a v o l ta da

e s u as po ssi b i l i d a d es. Mo ve um a busca perma - nent e p a ra r ea l i z ar a quil o que ai n d a não é. E m

d

p

ara a t e o r i a do con hec i m e n t o , He i d e g g e r r e t om o u

o

utr as pa la vras , exis t i r é c ons t ruir um proje to ;

a

qu estão da o nt ologia , a i nves t igação d o s er . P a ra

destrui ç ão

do eu - t e n t a nd o r ea li za r s e u pr o -

e

l e , o p rob l ema ce nt ral da f il o s ofi a é o ser , a e x i s t ê n -

j

e to , o ser h u m a n o sof r e a i nt erfer ê nc i a d e

uma

c

i a d e tud o.

s

é ri e d e fator e s a d ve r s os qu e o d esv iam d e s e u

O filósof o ne go u qu e f osse um e x i ste n c i a li s t a .

c

a min ho e x i st e nci a l . Tr a ta - se d o co nf r o nt o do

D evemos , seg u n d o af i rm a v a , co m eç a r i n ve s t i ga n d o

eu com o s outros , c onfront o no qu al o i n di ví du o

275 I Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

comum é, geralmente, derro t ado . O seu eu é destruído , arruinad o, dissolve - se na bana l idade do cotidiano , nas preocupações da massa huma- na. Em v ez de s e torna r s i - m es mo , torna-se o que os out r os são ; assim, o eu é absorvido no co m - a - o u tr o e p a ra - a -outro .

O s e ntimento profundo que faz o ser humano despertar da existência inautêntica é a a n g ústia , pois ela r eve la o quanto nos dissolvemos em atitu- des impessoais, o quanto somos absorv i dos pe l a ba- nalidade do cotidiano , o quanto an ul amos nosso eu para inseri - lo , alienadamente: no m u ndo do ou t ro .

o mundo surge diante do homem, aniquilando

apontando para o nada. O homem sente-se, assim, como um ser-para-a-morte.

todas as coisas particulares

que o rodeiam e, portanto,

A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa:

fugir de

novo para o esquecimento

de sua dimensão profunda,

isto é, o ser, e retornar

ao cotidiano;

ou supe-

rar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.

Aqui surge um dos temas-chave de Heidegger: o homem pode transcender, o que significa

o homem está capacitado

dizer que

a atribuir um sentido ao ser. (CHAUí, em HEIDEGGER,Conferências e escritos

filosóficos, p. 10).

A angústia e o nada

E por que é angustiosa a vida? A

angústia da vida tem duas facetas. De um lado, é necessidade de viver, é afã de viver, é anseio de ser, de continuar

sendo, para que o futuro seja presente. Mas, de outro lado, esse anseio de ser leva dentro o temor de não ser, o

a vida é, de um lado, anseio de ser e, de outro lado, temor do

temor de deixar de ser, o temor do nada. Por isso,

nada. Essa é a angústia. Pois o nada amedronta o homem."

"A angústia é o caráter típico e próprio da vida. A vida é angustiosa.

GARCíA MORENTE, Fundamentos de filosofia, p. 31 I.

A angústia é a exp e riên c i a existência human a .

d

o t e mpo, d a f i nitude

da

CONEXÕES

1. Observ e atentamente o ind i víduo na imagem ao l ado e descreva sua postura, sua expres - são, seu gesto. Depois recorde experi ências

de angús t ia que v ocê v iveu ou presenc i ou. O

que elas têm em comum com a i magem e o

que v ocê descreveu? É possíve l d i zer que a pessoa angust i ada está a me i o cami n h o en- tre o ser e o nada?

Jean-Paul Sartre

jean- P aul S a rtr e ( 1905 - 1980) , nascido em Paris,

F ra nç a , recebeu signi f icativa in f luência filosófica de

H e i degg e r . Durante os anos da Segunda Guerra Mun -

dial, participou da luta da resistência francesa contra

o nazi s mo . T ambém aderiu ao marxismo, conside-

r a ndo-o a filosofia d e sua época, embora , d i ante da intervenção so v iética na H ungria, e m 1 956, tenha rompido com o Partido Comunista, acusando-o de se

d e s v iar do sentido autênt i co do marxismo .

Unidade 3 A fi l os o f ia na h istória

1276

~ ente p ar a -s i . Es t e s e op õe ao en te em- s i , q ue r e pre-

~ sen ta a pl e nitud e d o ser. O e n te pa ra-si é o n a d a . Ou

l seja , p ar a Sar t re , a característi ca t ipicam e n te h um a -

] na é o n a da , u m " esp aço aberto " . I sso n ão significa

~

- sej a n ada . Es s e nada é nossa ca -

i rac t erís ti ca t ípi c a , s i ng ul ar , aq u ilo qu e f az d e n ó s <t um e nt e n ão est áti co , n ão co mp a ct o , acessíve l às

f in c l u i seu corpo

que a tota li dade do ser h u mano - qu e , p or exe mplo ,

j

possibi l idad es d e m udan ça.

Em 1 96 4 , Sartr e fo i ag r ac i a do

L

r eco nh ec e r a aut o r i d a d e

p r ê mi o ,

co m o P rê mio N ob e l d e

Nã o d es e j ava

ite r a tu r a ,

mas se rec usou a r ece b ê - lo ,

dos j u í zes qu e lhe of e r ece r a m

nem a d e r i r a essa i nstitui ção .

o

Sartre tor n ou - se o f i l ósofo m a i s co n hecido d a co r ren t e exist e n c ia l ista. No e ntanto , grande p a rte d e sua fama d e v e - s e não propriam e nte à s u a ob r a filo - sófica , m as às s uas pe ç as d e t ea tro e romances, d en -

tre os quai s se d estaca m A náusea, O muro, A idade da razão, O diabo e o bom Deus.

Ente em-si e ente para-si

A pri n c ip a l ob r a fi l osóf i ca d e Sartre é O ser e o nada, p ubl ica d a e m 1943 . N essa obra , e l e ataca duramen t e a t eo ria ar i stot é l ica da potência. Co m o v imos no ca pít ul o 1 1 , A ristót e l es ex plicou

as m ud a n ças d o se r p e l a p ass a ge m da pot ê n cia ao ato. P ara Sar t re , o se r é o que é. Tra ta-se, na lin -

g u age m sart r i a n a, d o e nte em - si . Esse en t e " nã o é

a t i v o n e m pa ssi v o, nem afirmação n em n egaçã o ,

mas s impl esme n te

r e p o u sa em s i , m aciço e ríg i-

d o " (B O C HE NS KI , A filosofia contemporânea ociden-

tal, p. 167 ) . Além d o ent e em - si , Sartr e co ncebe a ex ist ê n c ia do s er es p e c if ic amen t e h umano , d enominando - o

Não-ser e l iberdade humana

Se o ser h u mano fosse um ser cheio , total, p l eno,

c

om u ma e ssê ncia

defini d a , não poder i a ter n em

c

on sciê n cia nem lib erdade . Prime ir o , po rqu e a

co n sci ê n c i a é um espa ço a b erto a múlt ip l os co nt e ú-

d os e r e la ções. Seg und o, p o rqu e a lib erdade re p re -

sent a a pos s ibi l i da de d e esco lh a. Por int ermé dio d e

o indi v ídu o co nstró i a si m e smo e

t or n a - se r esp o n sáv e l p e l o que faz .

s u as e s c olh as,

A s s im , para Sartre, se o s e r hum a n o n ão ex pr es-

sasse esse " v azio de ser " , s u a co n sci ê n cia j á es t aria

pronta , fechada. E , nesse caso , não p ode r ia m a ni fes- tar l i ber d a d e , po i s est aria preso à r eal id ade es t á tic a do s e r p l eno , do ser e m- s i .

O ut ra conse qu ê n c i a d essa carac ter ís ti ca es p ec ífi-

ca d o n ã o - ser é qu e não p o d e m os fa l ar d a ex i s t ê ncia de um a nature z a hu ma na p rev i a ment e d e t e rmina - da. Ass i m , para S a rtr e , o qu e ex i s tiria é u ma co nd i -

ção hu m ana , isto

que esboçam a sua [ d o ser h uma n o ] si t uação f un da-

é , " o co n j unt o d e l imites a priori

m

e nta l n o U ni v erso " . E ac r e sce n ta:

 

As situações

históricas

variam:

o homem

pode nascer escravo numa sociedade pagã

-

ou senhor feudal ou proletário.

Mas o que

não varia é a necessidade

para ele de estar

no mundo, de lutar, de viver com os outros

de ser mortal. (O existencialismo é um hu- manismo, p. 16).

e

Po rt anto , um dos va l ores funda m e n tais da co n-

di

ç ão humana é, seg und o Sartre, a liberd a de . É o

exercíci o d a l iber d a d e, e m s i t u ações co n c r etas , qu e

move o ser h um a n o, qu e ge r a a incert eza, q u e l e v a à

p r o dução d e sentidos , qu e i m pulsiona a u l tra passa-

ge m d e c ertos l i mites.

Q uand o se t or nou m ais inf l u e nciad o p e l o mar-

x ismo , Sa r tr e recon h ece u q u e e r a d emas i a d a a e x -

t e nsão d a libe r da d e qu e atrib u ía às p essoas , p o i s t i -

nha e x agerado ao desp rezar o peso d as p ressões so -

c iai s e os v ínc u los c ul t u rais .

Análise e entendimento

3. Por que a fenomenologia de Husserl pode ser considerada uma "reabilitação ontológica do sensível" , conforme afirmo u o filósofo existen- cialista francês Merleau-Pont y ?

4. Discorra sobre dois aspectos da f ilosofia de

Heidegger:

Conversa filosófica

2. A vida e a angúst i a

Heidegger diz que o sentimento profundo que

faz o ser humano despertar da existência inau-

t êntica é a angústia. Você já sentiu angústia?

O que você entende por existência inautênti-

ca? Você crê que sua existênc i a é autênti ca?

O

que a exper i ênc i a da angústia nos reve l a?

Re

f li t a

so b re o tema e depois exponha suas

conclusões a um grupo de colegas.

3 . Condição humana

Há pensadores que defendem a i deia de que o ser humano tem uma essência, uma natureza

FILOSOFIA ANALíTICA A análise lógica da linguagem

Na virada do século

XI X para o XX , surgiu uma

corrente filosófica que, pela anális e ló g ica da lin - guagem , procurava esclarecer o sentido das ex- pressões (conceitos, enunciados , uso contextual) e seu uso no discurso linguístico. Por isso , ficou co- nhecida como filosofia a nalítica ou filosofia da linguag e m . De acordo com essa corrente , muitos dos proble- mas filosóficos se reduziriam a equívocos e mal-en- tendidos originados do uso ambíguo da linguagem. O desen v olvimento da filosofia analítica lançou luz sobre diversos aspectos da linguagem e influen- ciou filósofos de outros campos da filosofia, que passaram a atentar mais para o fenômeno da lingua- gem. Um dos filósofos contemporâneos que se vale

277 I Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

a) um que confirma sua recusa de ser um existencialista;

b) outro que o insere na tradição das filoso- '

fias da existência.

S . Relacione as três concepções características do exist encialismo apresentadas neste capítu- lo com aspectos do pensamento de Sartre.

própria, um conteúdo permanente que det er- mina aquilo que somos. Outros, como Sartre, afirmam que a existência humana precede a es - sência, isto é, que o ser humano não tem uma natureza f ixa e pronta (essência) que possa ser definida por algum conceito. " Isso significa que, primei r amente , existe o homem , ele se deixa encontrar, surge no mundo , e que ele só se defi-

ne depois. [

]

o homem é aquilo que ele faz de si mesmo." (O existencia/ismo é um humanismo, p. 24)

V ocê concorda com Sartre? Refli t a e discuta

esse tema com co l egas.

]

e ele será t al como ele se fizer [

dos resultados da filosofia analítica

ma s, pertencente à Escola de Frankfurt (que estuda- remos mais adiante) . O movimento da filosofia analítica passou por

v árias etapas, nas quais se voltou para questões es-

pecíficas em relação à linguagem. Surgiu com o re- conhecimento de que as questões sobre o senti do e a lin g ua g e m desempenham papel fundamental na filosofia. Essa preocupação te v e como precursor o lógico e matemático alemão joh an n G o ttlob F r ege (1848- -1925 ) . Percebendo que a linguagem comum con- tém expressões geradoras de equívocos , Frege pro- pôs a constituição de uma li ng ua gem f o r mal que restringisse os inconvenientes e imprecisões da lin- guagem comum. Outros nomes importantes da filosofia analítica foram Bertr an d Ru s s e ll e Ludwig Wit tgen stei n (que estudaremos em seguida), além dos britânicos

é Jur g en Hab er-

J o hn L a n gs h a w Au s t i n (1911-1960) e G ilber t Ryle (1900-1976).

Unid a de 3 A filosof i a na histór i a

Bertrand Russell

1278

Além de matemático e filósofo, Russell foi um grande defensor das causas humanitárias, liderando campanhas pacifistas pelo desarmamento nuclear. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1950.

Nascido no País de Gales (Grã-Bretanha), Ber- trand Russell (1872-1970) dedicou-se à matemática, à lógica e à filosofia em geral. Escreveu mais de ses- senta livros sobre temas como teoria do conhecimen- to, ciência, educação, política, lógica, matemática e história da filosofia. Participou ati v amente das ques- tões sociais de sua época, lutando em prol das liber- dades democráticas, da educação, da emancipação feminina, da paz mundial. Foi uma das personalida- des públicas mais influentes da Europa no século xx.

Desenvolvimento da filosofia analítica

A contribuição filosófica mais reconhecida de Russell deu-se no campo da lógica matemática e da filosofia analítica, que dominou o cenário filosófico inglês durante o século xx. Em coautoria com Al- fred North Whitehead, escreveu os três volumes de Principia Mathematica, publicados entre 1910 e 1913. Obra densa, rigorosamente técnica e dirigida a espe- cialistas, é considerada por muitos estudiosos uma das mais importantes contribuições à lógica , desde os trabalhos de Aristóteles. A tese central de Principia Mathematica consiste em demonstrar que "toda a matemática pura advém dos princípios da lógica pura". Portanto, há uma identida- de entre lógica e matemática. Posteriormente, Russell

ampliou essa tese procurando estabelecer os funda- mentos lógicos do conhecimento científico em geral. E, prosseguindo no projeto de apontar os pressupostos lógicos da racionalidade , desenvolveu a filosofia analí- tica submetendo a linguagem humana à análise lógica.

Erros de linguagem

Para Russell, grande parte dos problemas filosó-

ficos dissolvem-se em falsos problemas quando en- frentamos os equívocos, as ambiguidades e as im- precisões da linguagem cotidiana .

O problema fundamental consistiria em investi-

gar , em termos lógicos, as proposições linguísticas

para saber o que estamos realmente falando quando questionamos ou afirmamos isto ou aquilo.

A filosofia analítica promoveria uma espécie de

"terapia linguística" , desmontando as armadilhas ocultas da linguagem. Vejamos como Russell ilustra esse método analítico com um exemplo , embora res- salve que não aceita este argumento em particular:

Acontece com frequência de alguém se per- guntar quando tudo iniciou. O que deu par- tida ao mundo, de que início adquiriu o seu curso? Em vez de darmos uma resposta, exa- minemos primeiro a formulação da pergun- ta. A palavra central, na pergunta, é início.

Como se emprega essa palavra no discurso corrente? Para responder a esta indagação secundária, precisamos examinar o tipo de situação em que ordinariamente usamos essa palavra. Talvez pudéssemos pensar num con- certo sinfônico e dizer que o seu início será às oito horas. Antes do início, poderíamos jantar na cidade, e depois do concerto voltar para casa. O importante é observar que faz sentido perguntar o que aconteceu antes do início e o que ocorreu depois. Um início é um ponto no tempo, que marca uma fase de algo que acontece no tempo. Se retomarmos agora a questão filosófica fica claro que, neste caso, empregamos a palavra início de modo com-

pletamente

que jamais perguntássemos o que aconteceu antes do início de todas as coisas. Na ver- dade, explicando assim, podemos ver o que há de errado com a pergunta. Perguntar por um início sem nada que o preceda, é como perguntar por um quadrado redondo. Depois de compreendermos isso, deixaremos de fa- zer essa pergunta, porque compreenderemos que não tem sentido. (História do pensamen- to ocidental, p. 494-495.)

diferente, porque não se pretende

Ludwig Wittgenstein

Lu dw ig Wi t t g e n s tein ( 1889-1951) nasceu em

Viena , Áustria. V i v eu n a Ingla t e rr a por um longo período e foi dis c ípulo d e Russell. S eu per c urso filo- sófico pode ser dividido em d uas g ra ndes fases: a da

a nálise l ógic a e a dos jogos de linguagem.

Análise lógica

Na primeira fase, ma i s influenciada pelo pensa- mento d e Ru s sell e con fi gu r ada no Tractatus logico- -philosophicus, Wittge n stein i ntensificou a busca de uma estrutura lógica qu e pudesse dar conta do funcionamento da linguagem. Par a , o f i lósof o, a est r utu r a da linguagem deveria cor r esponder à realidade dos fa t os. Em seus pró- prios termos , " a totalid a de dos pen s amentos verda- deiros é uma figu r a do mundo". Ou sej a, a est r utura do mundo de t erminaria a estrutura da l inguagem , quando esta é verdad e ira.

Jogos de linguagem

Em sua segunda fase , W ittgenst e in deu um giro de 180 0 e afastou-se dessa compreensão de que a

v erd a de da proposição deve ser v eri f icada na e x pe- riência do mundo r e al. Pa s sou a afirmar a impossi- bilidade de uma redução legí t ima en t r e um conceito lógico (da linguagem) e um conceito empírico (da

realidade) . Em outras pala v ras , a linguagem não s e ria a cap- tura conceitual da realidade , isto é, n ã o s eria a re- produ ç ão do objeto , mas s i m uma a t ividade , um jogo . E os jogos de linguagem adquirem seu signi- ficado no uso social , nos difer e ntes m o dos de ser e de v i v er no qual a fala está inserida. Desse modo, é

a linguagem que passa a determinar, de certo modo ,

a concepção d a r e alidade. De acordo com Wi ttgenstein , a linguagem co- mum possui uma riqueza d e e spé c i e s e tipos de fra-

Análise e entendimento

6. Quando

Bert r and Russell di z qu e o maio r

desafio p a ra qualque r p e nsado r é e nunc i a r o problem a d e tal modo que p os s a p e rmitir uma soluç ã o , re ve la uma preocup a ção típica da filosofia a n a líti c a. Analise essa afi rmação, considerando aspec t os do pensamento do filósofo inglês e as carac t erística s d a filosofia analítica.

2791 Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

ses que são usadas em situações específicas (man- dar , pedir, relatar, descrever , inventar, agradecer et c.) e formam os " jogos de linguag e m " , que se pro- duz e m socialmente e não individualmente . Com essa perspectiva , o filósofo abandonou a in- tenção de fazer da linguagem comum a "pintura da realidade ", como ele mesmo havia dito anterior- mente. O termo linguístico não poderia mais ser e x - plic a do por meio de uma análise lógica , mas apenas a partir de seu uso soci al .

N a obra Investigações filosóficas, Wittgenstein com-

para a linguagem a uma caixa de ferramentas. Para ele , não se trata mais de considerá-ia falsa ou verdadeira, mas de saber usá-ia . Ou seja , a tar e fa da filosofia é usar adequadamente a linguagem, conhecendo seus limi- tes e calando-se diante do que não pode ser falado.

Para Wittgenstein, a linguagem é como uma caixa de

ferramentas: pode ser usada em situações diversos, formando "jogos de linguagem" discurso acadêmico e na gíria descontraída

rappers,

e contextos diferentes, como no de um grupo de

7. Interp r ete este comentário de Russell sobre Wittgenstein: "O Wittgenstein tardio [ ] pare- ce ter-se c ansado do pensament o sério e inven- tado uma doutrina que faria tal atividade des- necessá r ia. Eu não acredito por um momento que a doutrina que tem estas consequências preguiços a s seja verdadeira [ ]"

(Tradução dos autores. Disponível em: <www.archive.org/details/

myphilosophicald0001521 rnbp».

Acesso em: 10 novo 2009.)

Unidade 3 A filosofia na história

Conversa filosófica

4. Erros de linguagem

1 280

Segu n do B ertrand

mento de que são questões q u e surg ir am por um erro no uso da li nguagem e que, pela a n á l ise l ógica, desa -

p a r eceriam. De modo seme l ha n te, se ri a possíve l pensa r que muitos prob l emas em nossas v i das não passam

de imp rec i sões da li n guagem, isto é, problemas de interpretação das expe ri ências que tem o s da rea lid ade e de comuni cação e m nossas re l ações com o utr as pessoas? R e ú n a- s e co m co l egas para de bater essa q u estão.

Russe ll , grande parte dos problemas fi l osóf i cos constituem fa l sos prob l emas, n o e n tendi -

ESCOLA DE FRANKFURT

A teoria crítica contra a opressão

Es c ola de Frankfurt é o nome dado ao grupo de

pensadores a l emães do Instituto de P esquisa So c ial de Frankfur t, f un dado na década de 1 920. Sua pro - dução fico u conhecida como teoria crítica . Entre seus pensa d ores destacaram - se Theo d o r Adorno, Max Horkhe i mer, Wa l ter Benja min , Herbert Marcu - se e Jurge n Ha b er m as (q u e est u da r e m os em seg ui-

d a), a l é m d e E r i ch From m ( 1 900 - 1980), p s i canali s-

t

a te ut o -americano j á me n cionado nes t e li vro.

A

p esa r de g ran des dife r enç a s d e pen s am e nt o en -

t

re e sses autor es, id entificamo s ne l e s a pr eoc up ação

co mum d e es t ud ar aspec t os va ri a dos da v id a soci a l ,

d e m o d o a co m por um a teoria crítica da sociedade

como um todo. Para tanto, i nves ti ga ra m as relações

existe n tes e n tre os ca m pos da eco n o m ia, da psicolo - gia, da h is t ória e da antropo l og i a. Os po n tos de partida f un damentais d e s u as refle- xões foram a teoria marxista (na verda d e , u ma l e itu - ra orig i nal d o mar x ismo) e a teoria freudiana , que trouxe à t o n a elementos novos sobre o psiquismo das pessoas . Mas há também outras infl u ê n cias, como as de Hege l , Ka n t o u do sociólogo Max Weber.

A Escola de Frankfurt concentrou seu interesse

n a aná li se d a sociedade de massa, t ermo que busca

caracteriza r a sociedade at u a l , na qu a l o avanço tec - no l óg i co é colocado a serviço da repro d ução da l ó - gica cap i tal i sta, enfatizando o cons u mo e a diversão como fo r ma s d e garantir o apaz i g u a m e nt o e a d il ui - ção d os proble mas soc i a i s.

Theodor Adorno e Max Horkheimer

Na a n á li se d a sociedade de massa, q u e se desdo- br a em vár i os aspectos , u m tema m u ito presente é a

crítica da razão . De acordo com Max H orkheimer

( 1 895- 1 973) e Theo d or A d orno ( 1 9 0 6 -1 969), a ra -

zão iluminista , q u e visava a ema n ci p ação dos ind í v í -

duos e o progresso social , terminou po r levar a u ma crescente dominação das pessoas, e m v ir t ud e j u sta - mente do desen v o l vimento tecno l ógíco - í ndustr í al. Horkheimer acredita v a que o prob l e m a estava na própria razão controladora e instrume n tal , que busca sem p re a dominação , tanto d a n at ur eza quan- to do pró p rio ser humano. Assim esc r eveu e l e em

, 046 , em Eclipse da razão:

Pa re c e q ue enqua nto o conhecimento téc-

i co exp a n de o ho r i zo n te da ati v idad e e do p e n samento humano, a autonomia do homem enquanto indiv í duo , a sua capaci- dade de opo r resistência ao crescente me- ca n ism o d e man i pulação de massas, o seu

n

po der de imag i na ç ão e ° seu juízo i n de- pen dent e so f re r am u ma r e duç ão. O a v a n -

ç o dos re c urso s té c n ic o s de in for mação s e ac o mpanha d e um p ro cesso d e d e su man i - zação. (p. 6).

Em um texto de autoria conj u nta com Adorno , A dialética do esclarecimento, de 1947 , a m bos fazem dura crítica ao Iluminismo , que esti m ul ou o desen -

v olvime n to dessa razão controladora

que predomina na sociedade conte m porânea . De - nunciam também o desencanta m e nt o d o mu nd o, a deturpação d as consciências ind i v idu a i s, a assi m ila - ção dos i n di viduos ao sistema socia l d ominante . Em res u mo, Horkhe i mer e Ador no d en u nciam a morte da razão crítica, asfix i a d a p e l a s re l ações de pro du ç ão ca pi t a li sta. Se d en ún c ias sem e lh a nt es j á

hav i a m s i d o f ei t as n o campo d o mar x ism o, o que h á de ca r ac t e rí s t ico nesses filósofos d a E s c ola d e Frank -

f urt é a desesperança e m relação à p ossibili da d e

d e

transfo rm ação d essa realidade so ci al . Essa desesperança se dever i a ao di ag n ós tico d a ausência de consciência revo l ucionária no pro l eta -

e instrumental

ria d o , q u e te ri a s id o ass i m il a d o, absor v ido p e lo sis-

t e m a c api t a li s t a, seja p e l as co nqui stas tra b a l h i s t as al c a n çad as , s eja p e l a a liena ção d e su as co ns ciê n c ias,

p ro m ov id a pe la in dúst ri a cu l tura l . In d ústria cultural é u m t ermo difundido por Ador n o e Horkheim e r para d es ignar a indústria da diversão d e massa , ve i c u l a da pela t e le v isão, cin e ma , rádio , r ev i s t as, j orna i s , músicas , prop a ga n das e t c. (co nfor me v imos no ca pítul o 8 e veremos com ma i s d eta lh es no ca p í tu lo 20). A t rav é s d a indús t ria c ul tu - ral e da di v ersão se obteria a homogeneização dos comportamentos , a massif i cação das p e ssoa s .

A " i ndús t r i a

c u l tur a l "

expõe seu s prod uto s como qu a l qu e r

o

u t r o bem d e co nsum o .

É a ba n a l i za ção

comerc i a l

d a

c

u l t u ra.

A falta d e per s p e ct iv a d e t r a n s forma ç ão social l e - vo u A d orno a se r e fug i ar na teoria estética , po r e n-

t e nd e r qu e o ca m po da arte é o único reduto a u têntico

d a razão e m a ncipat ória e d a crí ti ca à opressão social .

Walter Benjamin

281 I Capítulo 16 Fil oso fia c ontemporânea: pen s ame n to do século XX

Enquanto , na visão d e Ador n o e H o r kheimer, a

c ultu ra veic ul a d a pe l os meios d e com un icação de

m a ssa não pe r m i te que as c l asses assa l a r i a d as assu - mam uma pos i ção c ríti ca e m r e l ação à rea lida d e, Benjamin acredita que a arte dirigida às mas s as po d e

s er v ir como instrumento de ' politização.

Al é m disso , desenvol v eu refle x ões nas quai s bus -

co u con c i liar a t e oria m ar x is t a com a tra di ção ju d a i - ca, d ando o rig e m a um pe n s am ento qu e muitos consi deram d e d i fíc il p ene tr ação, a i n d a qu e de grande b e leza literá r ia.

Herbert Marcuse

H e r ber t Marc u se (189 8-

- 1 979) dese n vo l ve u u ma o bra

marcada s i gnif i ca tiv a m e n te pe -

l as t e oria s freud iana e m a r x i s -

t a . Em Eras e dvilização, reto - mou o tema des e n vol v ido por Fre u d d a n ecessidad e de re - pres s ão d os i ns t i n tos para a m a n utenção e o d esen v ol v i - me n to da ci v i l i zação.

D e acordo com Freud , a

h i s t óri a soci a l do ser human o

é a histór i a d e s u a repressão,

d o comba t e ao livre pr azer e m

prol do trabal h o , d o a di amen - to do princípio do prazer

p ar a atender a o princípio da

realidade. S e m essa renúnc i a, a vida soci al seria i mpo ss í v el.

( R eveja a b reve e x p osiç ão d a

teo ri a fr e udiana cont i da no cap ít ulo 4. )

M a r c us e dá r a z ã o ao di ag nóstico de Fr e ud , po -

r é m di s corda d o f undador d a psi c an á lis e e m a pre - sentar essa situ aç ão c omo a lgo et e rn o, o u seja , que

é impossí v e l uma ci v i l i zação não repressiv a. Para

Mar c u s e, as im posiçõ e s r e pre ssi vas sã o a nt es p ro- dutos d e uma org a nização histór i co - soc i a l es pecíf i-

c a do qu e um a n e cessid a d e natural e eterna das soci e dad es.

W alt e r B e njamin ( 1 892- 1 940 ) distingue- s e d e

O

fil ó sofo apontou a po s sibilid a de d e uma civ i -

A d or n o e Hor kh e imer p or uma p ostura m ais oti - mista n o q u e d iz r e s peit o à i ndú stria c ultur a l e à

lização menos repressi v a, su r g i da do pr óprio de - senvolvime nt o t e cno ló gico , qu e criaria condiçõe s

ema n cipa ç ão pol í ti c a. Em se u t exto A obra de arte

para a l i bertaç ã o qua n to à obr i ga ç ão do trab a l ho e

na época de suas técnicas de reprodução, e le s e mo s -

o

con sequente a umento do tempo livre . N o en -

tra espe r an ç oso c om a possibilidad e d e que a a r te ,

ta

nto , i sso n ão s e dará , seg und o Marc u s e , s e m a

a pa r tir do desen v ol v imen t o da s t é c ni c a s d e r e p r o - dução ( discos , reprografia e proce ssos sem e lh a n -

inter v e n ç ão do ser humano para r e o r i e n t ar o rumo da t r aj e tória hi s tó r ica possibil i tad a po r esse de -

tes), to rn e - se acessível a todos.

sen vo l v ime n to .

U n i d a d e 3 A filoso f ia na história

1 282

Nesse ponto , a tarefa da filosofia seria anunc i ar essa possibilidade. Se isso não ocorrer, teremos o contrário, ou seja, a perpetuação do desenvolvimen-

to tecnocientífico a serviço da dominação e da ho- mogeneização dos indi v íduos. Tal situação criaria o que o próprio Marcuse chamou de h o m e m unidi-

m e nsion al, incapaz de criticar a opressão e cons- truir alternativas futuras.

CONEXÕES

2. Crie uma legenda para a ilustração acima. fornecendo uma interpretação filosófica da imagem.

Jürgen Habermas

Dentr e os teóricos da Escola de Frankfurt, o de maior influência atualmente é Jürg e n Hab e rmas (1929-). Em sua tese , ele discorda d e A dorno e Horkheimer no qu e se r e f e re aos conceitos centrai s da anális e r e alizada por esses dois filósofos: razão , verdade e democracia. Vimos que , de acordo com essa análise , A dorno e Horkheimer chegam a um impasse quanto à pos- sibi l idade d e uma ra zão ernancipatória , já que a razão estaria asfixiad a p e lo desenvol v imento do capitalismo .

Último racionalista

De acordo com Haberrnas , essa é uma posição perigosa em filosofia , pois poderia conduzir à uma

crítica r a dical da m o d e rnidad e e, em c on sequ e ncía, da razão , qu e le v ari a a o i r r a ci onalismo.

E m seu arti g o "Mo dernid a de versus p ó s-mod e r-

nidade ", ele enfatiz a esse p onto , a f irmando, contra a tendên c ia ao i r r a cionalismo pr e s e nte n a chamada filosofia pós - moderna (qu e v e remo s e m seguida ), que " o projeto d a modernidad e ainda não foi cum- prido " . Ou seja , o pot e nci a l para a r acionaliza ç ão d o mundo ainda n ã o e stá esgotado . P or isso Haberm a s costuma ser de s crito como "o ültimo g rand e racio- nalista" .

O f i ló s ofo t a mb é m discorda dos resultados pes- simi s t as da a n ális e de A dorno e Horkheim e r segun- do a qual a razão n ã o mais se realizaria no mundo ,

porque o capitalismo , e m sua comple x idade , teria con s egu i do n a r c otizar a consciência do proletariado

e , d e ssa fo r ma , perpetuar-se como sistema. Pa r a H a berrnas, exist e m alguns pontos falhos ness a a v aliação , cuja identificação permit iri a propor uma retomada do p r ojeto emancipató r io, porém em no v as bases. Na realidade , o filósofo rompe com a teoria ma rx ista em s e us p o ntos fund a mentais , tais

H abe rm a s p r o põe um novo c o n ce it o

razão c omun ica ti va,

emancip atório

de razão, a

co m o f o rma de ret om a r o p roj e to

da humanidad e e m no va s b a s e s.

co mo a c en t ralidad e do tr abalho e a i d e nti f icaçã o

d o pr o l etariado como age n te da transf ormação

s ocial (como v imos n o capít ul o a nt er i or ) .

Ação comunicativa

H a b erma s pr o p õ e ent ão, como n o v a p e rsp e ct i v a ,

o utr o c o n c ei to de razão : a razão dial ó g i ca , que br o -

ta d o diá l og o e d a a r g um e nta ção en tr e o s age nt es

i nt e ressad o s , em uma d e t ermi n a da situ ação . É a ra - zão qu e sur g e d a chamad a a ção comu ni cativa , d o uso d a li n guage m co m o m e i o de conse g uir o con -

senso . P a r a t a n t o, é n ec e s sá r i a uma a ç ã o so c i a l qu e

fo rta l eça a s e stru t uras cap azes d e p rom ove r a s co n-

d i ç õ e s d e l i b e rd a de e d e n ão c o n st r ang im e nto , im-

p r e scindí ve is ao di á l og o .

Verdade intersubjetiva

o con c e it o d e verda d e tam b é m s e mo di f ica em

f u n ç ão d es sa no v a p e r s pecti v a. H abe rm as p r o p õe

o e nt e ndi m e nt o da v e r dad e n ã o m ais c o mo um a

a d e qu a çã o d o pensam e n to à rea lid ade , m a s co m o

f ruto d a a ç ã o c o mun i cat iva;

não co mo ve rda d e

2831 Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

s ubjeti v a, mas co mo verdade in t ersubjetiva ( e n-

tr e s uj e i t os d ive r s o s ), q u e s ur g e d o d i á l og o entr e

o s i ndi ví duos . N esse d i á l o go a pli c a m-s e a l g um as

reg r as, co m o a não co ntr a d içã o , a c l a re z a de argu- men t ação e a f a lta d e co ns t r a ngim e nt os d e or d em socia l .

R az ão e v erdade d e i xa m , ass i m , d e co n s tituir

c o nteúd os o u va lores a b so lut o s e pa ss a m a s e r d e f i -

n idos consensualm e nte. E s ua v alid a d e se rá tan to maior qu an t o m e lhor es f o r e m as c o n d ições n a s qu ais se d ê o di á lo go , o qu e se cons e g u e c om o

a pe r fe i ço am e n to d a d e mocrac i a . O p e n samento d e H a bermas

senv o l ve r ef l exõe s pr o p os t as p e la f i lo so fia d a l in-

g u a gem . A ê nfase d ada po r e l e à r a z ã o co mu ni ca -

t i va p o d e s e r e n te nd ida

d e

t e nt a r " s a l var" a ra zã o , q u e t e ria c h ega d o a u m bec o s em saí d a. Ass i m , se o mund o c o nt e mporâ -

ne o é reg id o pe la ra zão in s trumen ta l ,

d

E s cola d e Fr a nkfu r t , p a r a Ha b er m a s c a b e ria à ra-

en f im , o pa p e l d e r esistir a e

r e or ie n tar essa r azão i n s tr u me n t a l .

zã o c om u ni ca ti va,

inco r p ora

e d e -

como u m a m a ne ira

co nform e

n a

e n un ci aram

os fil ósofo s que o an t ece d e r a m

8.

E

n co n tre n o te xto aspecto s do p ensam e nto

m q u e d i f e r e o pe n s a mento de B en j a m i n d o

E

d

e Ado r no e Ho rk h e im e r ?

r

ealidad e nã o é uma cond i ção necessár ia da

de A dorno e H orkheimer qu e caracte ri z am o que se poder i a definir como "pessimismo teó - rico" d e ss e s doi s f i lósofos .

vida social , c omo entend i a F reud . A nali s e e comente e ss a a f i rmação .

11. H a b er m as e x p ri me u ma v isã o m a i s oti m i sta

9.

que o s demais t eó r i c o s da E s c ol a d e F rank f u r t

em r e l açã o a t rês ques t õ es: a r a z ão, a v erd a-

 

d

e e a de mocrac ia. Di sc orra sobr e c ada uma

10.

M a rc u se de f e n de que o a di a m ento do prin -

d

e l a s .

c í p i o do p r aze r pa r a a t e n de r ao p r i n c í p i o d a

5 . Q uart o pode r

A l gu n s a n a l i s t as po lí t i co s

um q uarto po de r , a l ém do E xec uti v o , d o L eg i slati vo e do J u diciár i o . Iss o s e d e ve à e n o rm e

con s i d era m que os me i os de co mun icação de m assa co ns tit ue m , h o je em d i a ,

penet ração

q

u e têm em todas as camadas d e diversas s ociedades , com um g r ande p otencia l de " fa zer a cabeça" das

p

e ssoas , impor certos modelos de comportamento , certos gostos, certas "v e rdade s " . R eflita sobr e e ssa

Un i dad e 3 A f i losof i a n a h i stó ri a

1284

FILOSOFIA PÓS- -MODERNA

O fim do projeto da modernidade

N o campo da filosofia, o termo pó s - m ode rn o

t em sido apl i cado a um grupo de in telec t uais que

a pr esenta como ponto com u m a crítica ao projeto

da modernidade, ente n d i do como o projeto de ema n cipação humano - soc i a l p or meio do desen- volvimento da razão.

Esses pensadores partem da constatação dos de - sastres sociais e am b ientais aos quais a sociedade

contemporânea chego u : m i séria , des i gualdades so -

c i ais extremas, catástrofes ambientais , guerras, do - minação dos pa í ses econom i camente desenvol v idos

sobre os demais e a si t uação de barbárie q u e se v e ri -

f i ca e m a l gumas regiões do planeta .

P r ot e sto d i a n te da Cúpu l a das Nações Un i da s sobre

Mudanças C l imáticas ( CO P - 1S ), realizada em 2009 na

c i dade d e C op e n hag u e .

eco n ô m ico predom i nante n o m u ndo atua l , a l ém de não ter

da q u a l idade a in da a m e aça a

de vida da m aio ri a da pop ul ação

sobrev i vê n cia d e n osso p l a n eta .

co r respo n d i do

Segundo os ma ni fest a ntes, o mode l o

às ex p e ctativ a s d e melhoria

m und i al,

Es s a corrente de pensadores identifica , como o fi -

zeram Adorno e Ho r khe i mer, o fenômeno da assimi -

l ação dos ind i v íduos ao s i stema , i sto é, ao cap i tali s - mo, e a narcotização das consciências por intermédio da indústria cultural , o que al c ança todos os setores da vi d a social .

Essa tendência fortaleceu - se na segunda metade do sécu l o X X , após os sinais de degeneração das e x periên - cias sociali s ta s, que resultou no chamado socialismo autoritário . Com a falência de certo mod e lo de socia-

li s mo como al te rnati v a ao s istema capi t al i s t a, o mundo

t e ria se cur v ado à onipotência do status quo, sem qual- quer pe r sp e cti v a de transformação .

Debilitação das esperanças

De forma geral , esse é o quadro h e rdado pelos filósofos da p ó s-m o dernidade. Assim , o t ermo pós-moderno designa o fim do projeto da moder -

nidade, ou sej a , a d e sesperan ç a historicamente

c onstatada de que a razão te cnocientífica fa v ore ç a a emancipação humana. Um traço pr e sente e m fi l óso f os pós-modernos é

a debi l itação das esperanças - que um dia domi-

naram o mundo moderno - de

t r ansformação conjunta da v ida socia l. Diante das

compr e ens ão e de

frustra ç õ e s h i stórica s, restou

s e nsação d e que chegamos

~ a

.",

1 a um ponto em que o con-

global

s tá fora de n o s s o alcance e ,

; :; trole da economia

~ e

ª diante d i sso , os grande s pro -

je to s e m a ncipat ó rios p e rde-

~

ram o sen tido que um dia

ti v eram para orientar as i n i-

ci a tivas cole t ivas.

Visão fragmentária

Sem essa perspectiv a de uma transformação socia l ra-

dica l , a filo s ofia pó s -moderna pass ou a a nalisar os di v ersos aspectos da v i da social , prin - cipalmente aqu e le s em que se

v erifica maior racional i zação

rumo ao controle do s indivíduos , d e nunciando as for- ma s d e opressão que os acompanham em s ua vida co t idiana.

E s sa denúnc i a é feita de forma fragmentária, isto

é , aborda aspectos v a r iados e singulares do coti d i ano

e n ã o se estrutur a em uma vi são de conjun t o , uma v ez que a filosofia pós - mode r na abandonou a pretensão de total i dade que orientava o pensam e nto mod e rno . Podemo s diz e r, portanto , que os filósofos pós -

- mod e rnos desenvo l vem uma v isão fragment a da da

v i da c o tidiana e do s indivíduos também fragmenta-

dos . U ma v isão preocupada e m captar a s singulari-

dades, as parti c u l a ri dades e a s dive r s i dad e s d o rea l.

S e u m éri t o s e r i a a v aloriz ação das pluralidades cu l - turais , pel o re s p e ito à diferença do outro .

E n tre o s pen s adores p ós -moderno s m a i s s ignific a -

t i vo s estão os f ran c ese s Michel Foucaul t, jean Bau -

drillard ejacques Derrida ( qu e estudar e m o s e m se- gu id a), a l ém de jean - Fran ç o í s L y otard ( 1 9 24 - 1998 ) .

Michel Foucault

Segu n do Mich e l Foucault ( 1 926- 1 984 ) , as socie-

d ades mod e rnas ap r ese n tam uma nova organização

do poder que s e d e sen v o lv eu a par t ir d o sécul o X VIII .

N essa no va organizaçã o, o p o der não s e co n c entr a

apenas n o s e tor político e e m s u as form as d e re p r e s -

s ão , po i s está d isse m inad o p e l os v ários â mbitos da

vida soc i al . Para esse fi l ó sofo , o po d er fr ag m e n tou-se em m i cropoderes e t o r nou - se muit o mais eficaz . Assim , se m se d e t e r a p e nas no macro p o d e r co n -

c e ntr a d o no Esta d o , F o u c a u l t a n a li so u e s ses míc r o-

pode r es que se espa lh am p e l a s ma i s di ve rsas i ns t i- tui ç ões da v ida soc i al . I s t o é, os pod e r es exe rcid os por uma r e d e imensa d e p es s o as que in te ri or i z am e

c u mprem a s normas est a b e l e c i das p ela disciplina

social - os pais , os port e i ro s, os en fe rm e i ro s , os

professores , as secretárias , os guar d a s, os f is c ais et c .

A d o t ando essa pe r spe c ti v a de a n á l ise, conhe cid a

co m o microfísica do poder, af irm a q u e " o po d er está e m t od a parte , n ão p orque englob e tudo " e s i m

" por qu e pro vé m de to d os os l ugares ". Na v ida cot i -

diana , segundo o filó s ofo , es bar ra mo s m a i s c om o s

g uard i ões d o s micropod er es - os pequ e nos dono s

dos pode re s p er iféricos - do qu e com os d ete nt o re s dos macropod e re s . Em seu li vr o Microjísica do poder, Foucault ex p li c a:

Por dominação eu não entendo o fato de uma dominação global de um sobre os ou- tros, ou de um grupo sobre outro, mas as múltiplas formas de dominação que se po- dem exercer na sociedade. (p. 181).

Se u obj e ti v o , como fi l óso fo , foi o d e co l o c a r à mos t ra estruturas ve l ada s de p o der , t e ndo por in s pi - ração N i e t z sc h e . Tanto quanto es t e , Fou c ault afir - mo u a relação e n tre saber e pode r. Em suas pala v r as:

Vivemos em uma sociedade que em grande parte marcha "ao compasso da verdade" - ou seja, que produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que detêm, por esse motivo, pode- res específicos. (Microfísica do poder, p. 231).

2851 Capítulo 16 F i l osof i a contempo r ânea : pensam e nto do século XX

A disciplin a

ag e n te s , co m s e us mi cr op oderes , co mo o d e um f unc i oná rio

soc i a l é produ to

da ação d e um a i nfini dade

de

q

ue f i s ca li za

e pe rm i te ( ou n ão ) a e ntr a d a d e

pessoas em um

d

e termin ado ed if í c i o

medi a n t e a a p r ese n t açã o de doc um e n to

de identi d a d e .

Genealogia do poder

Fouc a ult t ambém d ese n v o l v eu se u método d e

p e squi sa à m a n e ira d e um a genealogia , c omo o f ez

N i e tzsch e . Se m e lhant e m e nte a o fil ó s o f o a l emã o ,

a do t a co m o po nto d e p a r t id a a no ção d e que o s va -

o r es - o be m e o mal , o ver d a de i r o e o falso, o ce r to

e o e rr a d o, o s a dio e o do e nt e e tc. - sã o c onsagrados

his t or i c am e nt e e m f u n çã o de inter e s se s r e l ativos a o poder d e ntro da soci e dade . Em outras pa l av r as, a def ini ção do q u e é bom , v er d a d e o u sad i o d e pe nde das instân c i as nas quai s o pode r se encontra.

E , n a v isão de Fou c ault , ess e pod e r não se ria e s-

l

s encialm e nt e d e repr ess ã o ou de c ensur a , mas s i m

criador , n o sentid o de qu e p ro duz a r e a -

lidade e seus c o nceit os. Em seu li vro

umagenealogia do poder, e l e ex pl i ca e ss e se u entendi-

mento d o qu e é o p o d e r:

u m poder

Vigiar e punir:

É preciso cessar de sempre descrever os efei- tos do poder em termos negativos: ele "exclui", "reprime", "recalca", "censura", "discrimina", "mascara", "esconde': Na verdade, o poder produz: produz o real; produz os domínios de objetos e os rituais de verdade. (p. 110).

N e ssa m esma obr a, F o u ca ult a co mp a nha a e v o-

lução do s m e can i smos de controle social e puni- ção, que se tomaram cad a v ez meno s v isív eis e mais rac i o n a li zados. Ca r act e riza a soci e d ade co ntemp o- rânea como uma sociedade disciplinar , na q ual

preva l ec e a pr o d u ção d e práticas di scip linares d e v i-

g ilânci a e co nt r oles co n s t a ntes, q u e s e e ste ndem a

t o dos os âmb it os d a v ida d os indi ví du os.

U ma d as fo rma s m ais ef i c ie ntes d e ss a v i g ilância e

di sciplina s e d á , n o s e u e nt e nd e r , p e l os di sc u r sos e

Unidade 3 A fi l osof i a n a história

1286

p

rát i cas c i en t í f icas apa r e n teme nt e neu t ras e racio-

n

ais , q u e procuram no r mati z ar o comportamento

d os indiv í d u os. Exemp l o di sso ser i a o t ratamen t o c i e n tífico dado à sex u alidade , no qual o compor t ame n to sexual é nor m at iz ado por meio do conve n cimento rac i onal dos indivíduos sobre os cu i dados necessários à sua

v

i da nesse âmbi t o . Desse modo, assum i ndo a face

d

o saber , o poder, seg un do Fo u cault, atinge os in -

i v i d u os em se u c o r p o, em se u co mp o r tame nto e em s e u s sen tim e nt os . Assim, como o poder encontra- se em mú l t i p l os espaços, a resistênc i a a esse estado de coisas não ca - beria, segundo o filósofo , a um part i do ou c lasse re- vo l ucioná ri a, pois estes se dirigiriam a um ún i co foco de poder . Ser i a necessária , portanto, a ação de múlt i p l os pontos de resistência .

d

Jacques Derrida

Jacques Der r ida (1930 - 2004), de origem judaica e na s cido na Argél i a , também critica o desen v olvimento

da r a z ão no Oc i dente , a partir do própr i o conceito de razão . Para ele, toda a filosofia ocidental pa rt ilha a

de i a d e um c e ntro , de algo que unifica e estrutura construção teórica . Deus, ser humano e verdade são exemp l os de noções que organizam o entendimento do mu ndo . A isso Derrida denomina logocentrismo . O fi l ósofo também chama a atenção para o fato de que a cada um desses c e ntros corresponde uma

sua

i

Derr i da assentou b oa parte d e suas r eflexões e m q u e stõe s co n temporâneas . Foi um dos g r andes p e nsadores da "geração d e 68", g ru po que reunia Ro l and Barthes, G i l l es D e leuze , Jacques Lacan, M i c h el Foucault e Lo ui s A l thusser, e nt re outros .

antítese , o seu oposto : D e us - diabo; homem- mu - lher; v erdade - mentira . Essa lógica das oposições que , segundo el e, te v e origem na Grécia, na oposi- ção entre logos (razão) e mito, foi prese r v ada pela fi l osofia o c idental .

Desconstrução

D errida propõe en tã o desconstruir o conceito de logos, n e g a r s u a s upremacia em r e lação ao seu par lógi-

c o , s e m o qual o logos não teria sentido. Em sua

interpretação , o pensamento filosófico ocid e ntal teria atribuído u m v alor absoluto a um dos e l ementos que compõem e ssa dualida de, c ri a ndo assim v erdades abso-

lutas. D errida nã o só n e g a e s sas v erdades , mas t ambém id ent if i ca n e las a c o ndi çã o d e construções culturais. Seria nece ssár ia, en t ão , a desconstrução desses centros d a filos o fi a o c i d e ntal, especia l mente a no- ção d e razão e d e sujeito, segundo o filó s ofo. E isso se fari a a pa rt ir da análise da linguagem, que ele

e ntende ser a est r utura essencial da cultur a . A desc o n st rução s e r i a, por t an t o , uma análi se que pretende mostrar :

• co m o s e dá a construção de certas noções - por

x emp l o , o conc e i t o de razão e os valores a ele

e

associados;

• como depois essas no ç ões pa s sam a ter fun ç ão

p re d o minante n a c ultu r a ocidental;

• e, p or úl t im o, co m o e l as podem s e r usadas como

f orm a de dominação .

Jean 8audrillard

Jea n B aud r illard (19 2 9-2007) dedicou seus estu- do s à compree n são da sociedade de massa . Anali - sou aspectos como a indústria cultural e o fenômeno do consumismo, que promo v em a massificação da soci e dad e . Segund o o filósofo , a socie dade atual não pode mais ser compre e ndida a partir de sua estruturação em class e s sociais , pois essas c lasses perderam sua identificação como tal . N o processo de massificação

ocorre uma neu t ralização das perspectivas de tra n s - fo r mação social , e os indi v íduos aderem à banali za - ção da v ida cotidiana .

E s s a ad e são é reforçada pelo que qualificou de

hiper - realidade , em r e f e rência à capacidade da mí-

d i a de criar um a r e a l id a d e vi rtual, que substituiria ,

para o s indi ví duos, a própria realidade . P ara ele, a soci e dad e cont e mporãnea é a sociedade do espetá - culo, da v ida v irtual v eiculada p e los meios de co- municação .

Análise e entendimento

12 .

E xp li qu e :

 

a)

o

sign i f i cado do termo pó s -moderno;

b)

as carac terí sticas pós - mod e r n a .

p r i n c i pais

d a f i l osof i a

13.

" Po r do minação e u n ão . entendo o f a t o de uma dom i n açã o global de um sobre os outros, ou de um g r u po sobre o outro, mas as mú l t i plas

287 I Capítulo 16 Filosofia contemporânea: pensamento do século XX

de dom i nação a que se refe r e F oucault nessa

afirmação, e xplic i tadas por ele na microf í sica do poder e na genealogia do poder?

,

1 4 . O q u e é o desco n st ru t i v is mo

pro p os to p or

D e rri da? Qua l é o ob j etivo d essa d e sco nstru-

ç ã o ?

15. B aud r il l a rd

entend e que a so c i eda d e atual

fo

r mas de d omin ação que se podem ex ercer

n

ã o po d e ma i s se r com p r e endida a p arti r d e

na soc i e d ade." Qu a i s s ão as m ú l t ipl as f o rmas

s

u a estru t u ra ção e m c l ass e s socia i s. P or quê?

Conversa filosófica

6. Socied a de d e massa

El abore um a ref l e xão q u e exp li que os seguintes conceitos r e l ac i o nados c om a soc iedad e d e massa : in -

dústria cultural (Ador n o e Horkh ei m e r ) . h omem un i d i mens i o n a l ( Ma rcus e) . hi pe r - re a li d ade (B audri l lard).

D epois apresen t e-a à c l asse p ara uma t roca de id e i as.

• O o vo d a ser p e n te ( 1 978, EUNA l e manh a ,

dire çã o

de I ngm a r B e r g man)

Fi l me q u e

se pa ssa no p er í odo a n te r io r à chegada

dos n a z i s t a s ao po de r. Demonst r a as es -

tr a t é gia s constru í da s pe l as d i v ersas i nstãn c ia s do s i stema soc i a l alemão p a r a a a ce it ação do

t er r or q ue v i ri a a seg u i r .

• Gu e rra n as es tr e l as ( 1 9 77 , E U A , d i reção

d e Geo rg e Lu cas)

Primeiro filme produzido p ara a sér i e e quarto n a s e quência desta saga. Apresenta todas as características de entret e nimento da in d ús t r i a cultu r a l . R eunindo os estilos heroicos do pas- sado - western, nove l a s de cava l ar i a com se u s fei t ic e iros, samu r a i s e os poderes da mente - ,

mostra b em o tipo de o bjet o d e des e j o d o p úb l i co m éd io .

• O tambor (1 9 79, dir eção de Volk e r Schlõndorf) Obr a em q u e u ma c ri ança d e três a n os , perant e

a fa l s i d a de do mundo do s adulto s, dec i de

n

ão ma i s

cre scer. Comenta c om se u tamb o r e s eus gr i tos es tri dent es a Alemanh a de H it l er

e

da Segu n da Gu er r a Mund i a l. D i a nte d a a n o r ma l i dad e

do mun d o, sua própr ia def i c i ência

mostra-se um gesto de re c u sa . Su a frag i l id ade

é s u a be l eza.

• O f a nt as m a da li berd ade

(1974, F rança, di reção de L u i s B uüuel)

F ilme surrealista que cr i t i ca o abandono da l iberdade pela sociedade burguesa, para colocar

em seu lug ar a irrac i o n a l id a d e, os bons cos t u me s e a sexua li dade culpada . O t í tulo re f ere-se

i med i ata m e n te às linh a s in icia i s d o M anifes t o

a Eur opa - o espectro do c o muni s mo " .

C o mun i s ta de Ka rl Marx : " U m espectro ronda

ensar

O trecho a seguir é parte de um texto em qu e Sartre expõ e o sentido do humanismo na perspecti v a

e x istencialista , ressaltando que é no abando n o de si mesmo, na liberdade do seu não ser que o indi v í - duo const r ó i a s i mesmo , q u e se f az ser huma n o . L e i a - o e re s ponda às questões propostas.

U nid a d e 3 A filosofi a na histó ri a

1288

o existen ci a lismo é um huma n ismo

"Na realidade, a palavra hu m a n is m o tem dois significados muito diferentes.

o h u man i s mo c l ássi co

Por humanismo pode entender-se uma teoria que toma o homem como fim e corno valor supe- rior. Neste sentido há humanismo em Cocteau, por exemplo, quando, na sua narrativa A volta ao mundo em oitenta horas, uma personagem declara, por sobrevoar montanhas de avião: o homem é espantoso. Significa isto que eu, pessoalmente, que não construí aviões, beneficiar- -me-ei destas invenções extraordinárias, e que poderei pessoalmente, na qualidade de homem, considerar-me como responsável e honrado com os atos particulares de alguns homens. Isso im- plicaria que poderíamos dar um valor ao homem segundo os atos mais altos de certos homens. Este humanismo é absurdo, porque só o cão ou o cavalo poderiam emitir um juízo de conjunto

sobre o homem e declarar que o homem é espantoso, coisa que eles estão longe de fazer, tanto

quanto eu sei

o homem. O existencialismo dispensa-o de todo julgamento deste gênero; o existencialista não

por fazer. E não devemos crer que há

tomará nunca o homem como fim, porque

uma humanidade à qual possamos render culto, à maneira de Augusto Comte. O culto da huma- nidade conduz ao humanismo fechado sobre si de Cornte, e, é necessário dizê-lo, ao fascismo. É um humanismo com o qual não queremos nada.

Mas, quanto a um homem, não se pode admitir que possa emitir um juizo sobre

ele está sempre

o human ismo ex i s t e nci al i s t a

Mas há um outro sentido mente fora de si mesmo,

e, por outro lado,

superação e não se apoderando

no coração, no centro desta superação.

universo da subjetividade humana. É a esta ligação da transcendência,

homem - não no sentido de que Deus é transcendente,

subjetividade, no sentido de que o homem não está fechado em si mesmo mas presente sempre num universo humano, é a isso que chamamos humanismo existencialista. Humanismo, porque

de humanismo, que significa no fundo isto: o homem está constante- é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem

é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir; sendo o homem esta

dos objetos senão em referência a esta superação,

ele vive

Não há outro universo senão o universo humano,

o

como estimulante do

mas no sentido de superação - e da

recordamos

ao homem que não há outro legislador além dele próprio, e que é no abandono que

ele decidirá

de si; e porque mostramos

que isso não se decide com voltar-se para si, mas que

é procurando

homem se realizará precisamente como ser humano."

sempre fora de si um fim - que é tal libertação,

tal realização particular

- que o

Sartre, O existencia/ismo é um humanismo, p. 21.

1. Em que sentido o existencialismo

é um humanismo

e em que sentido não o é?

2. "O culto da humanidade

conduz ao humanismo fechado sobre si de Comte, e, é necessário

dizê-Ia, ao fascismo." A que se refere essa afirmação de Sartre? Pesquise o que é fascismo.

Verifique se existem relações entre a obsessão pela ordem social e o fascismo.

3. Interprete a seguinte afirmação de Sartre: "recordamos ao homem que não há outro legislador além dele próprio".