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CAPíTULO

A ética

Questões filosóficas O que é a moral? Quais são os fundamentos da moral? Em que se funda a ação moral?
A ronda dos prisioneiros (após Doré, 1890) - Vincent van Gogh.

O que é a virtude? E o vicio? Somos livres para escolher uma ação? Qual é a causa do mal? Como viver para ser feliz? Existe livre-arbítrio? Conceitos-chave ética, moral, filosofia prática, ação, comportamento, valor, norma, coercibilidade, liberdade, consciência moral, juízo, escolha, bem, mal, responsabilidade, virtude, vício, determi nismo, violência, insti ntivismo, socioambientalismo, conflito ético, niilismo ético, permissivismo moral, racionalismo ético, ética do equilíbrio, ética do livre-arbítrio, ética do dever, fundamentação histórico-social, fundamentação ideológica, ética discursiva

Grande parte do que já estudamos vincula-se a questões teóricas sobre o ser e o saber. Agora nos concentraremos em um conjunto ligados ao de problemas que estão diretamente

fazer - isto é, à ação humana, ao comportamento das pessoas e às suas relações, entre si e com o mundo. Você tem dúvidas, às vezes, sobre o que deve fazer, ou se angustia pensando se agiu corretamente com alguém? Vejamos se as reflexões da filosofia prática - conhecida como ética ou filosofia moral - podem ser de alguma ajuda nesse sentido.

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Capítulo 17 A ética

ÉTICA E MORAL O problema da ação e dos valores
Em nosso dia a dia, deparamo-nos frequentemente com situações em que temos que tomar uma decisão. Muitas vezes elas dependem daquilo que consideramos bom, justo ou correto. Toda vez que isso ocorre, estamos diante de uma decisão que envolve um julgamento moral, a partir do qual vamos orientar nossa ação ou a ação de outras pessoas. Como afirmou o filósofo grego Aristóteles:
A característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais. (Política, p. 15).

usados como sinônimos, é possível fazer uma distinção entre eles. A palavra moral vem do latim mos, mor-, "costumes", e refere-se ao conjunto de normas que orientam o comportamento humano tendo como base os valores próprios a uma dada comunidade ou cultura. Como as comunidades humanas são distintas entre si, tanto no espaço quanto no tempo, os valores também podem ser distintos de uma comunidade para outra, o que origina códigos morais diferentes. Pertence ao vasto campo da moral a definição sobre questões fundamentais, como: • O que devo fazer para ser justo? • • • Quais valores devo escolher para guiar minha vida? Há uma hierarquia de valores que deve ser seguida? Que tipo- de ser humano devo ser nas relações comigo mesmo, com meus semelhantes e com a natureza? Que tipo de atitudes devo praticar como pessoa e como cidadão?

Assim, o ser humano age no mundo de acordo com valores, isto é, a partir daquilo que tem maior importância ou é prioridade para ele segundo certos códigos morais. Isso significa que as coisas e as ações que um indivíduo realiza podem ser hierarquizadas conforme as noções de bem e de justo compartilhadas por um grupo de pessoas, em um determinado momento. Em outras palavras, o ser humano é um ser moral: um ser capaz de avaliar sua conduta a partir de valores morais.

e ética? Embora os termos ética e moral por vezes sejam
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Distinção entre moral e ética o que é moral? E qual a diferença entre moral

A palavra ética, por sua vez, vem do grego ethikos, "modo de ser", "comportamento". Portanto, etímologicamente os dois termos querem dizer quase a mesma coisa. No entanto, ética designa mais especificamente a disciplina filosófica que investiga o que é a moral, como ela se fundamenta e se aplica. Ou seja, a ética estuda os diversos sistemas morais elaborados pelos seres humanos, buscando compreender a fundamentação das normas e interdições (proibições) próprias a cada um e explicitar seus pressupostos, isto é, as concepçôes sobre o ser humano e a existência humana que os sustentam.
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Joaquin Salvador Lavado (QUINO) Todo Mofo/do - Martins Fontes. 1991, p. 120.

CONEXÕES

t , Comente essa tirinha. Você concorda com a visão apresentada por Manolito? Por quê?

Unidade 4 Grandes áreas do filosofar

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ra do direito restringe-se a questões específicas nascidas da interferência de condutas sociais. O direito costuma ser regido pelo princípio de que tudo é permitido que se faça, exceto aquilo que a lei expressamente proíbe; • • a moral não se traduz em um 'código formal, enquanto o direito sim; o direito mantém uma relação estreita com o Estado, enquanto a moral não apresenta essa vinculação.

Nesse sentido, a ética é uma disciplina teórica sobre uma prática humana, que é o comportamento moral. No entanto, as reflexões éticas não se restringem à busca de conhecimento teórico sobre os valores humanos, cuja origem e desenvolvimento levantam questões de caráter sociológico, antropológico, religioso etc. Como filosofia prática, isto é, disciplina teórica com preocupações práticas, a ética orienta-se também pelo desejo de unir o saber ao fazer, ou seja, busca aplicar o conhecimento sobre o ser para construir aquilo que deve ser. E, para isso, é indispensável boa parcela de conhecimento teórico. Veremos a seguir algumas concepções fundamentais no campo da ética, bem como as discussões que despertam.

Moral e direito
Eis uma questão que talvez você esteja se fazendo: "Normas morais e normas jurídicas são a mesma coisa? Há diferença entre elas?" Sabemos que as normas morais e as normas jurídicas são estabelecidas pelos membros da sociedade, e ambas destinam-se a regulamentar as relações nesse grupo de pessoas. Há, então, vários aspectos comuns entre normas morais e jurídicas. Por exemplo: • apresentam-se como imperativos, ou seja, normas que devem ser seguidas por todos; • • • buscam propor, por meio de normas, uma convivência melhor entre os individuos; orientam-se pelos valores culturais próprios de uma determinada sociedade; têm um caráter histórico, isto é, mudam de acordo com as transformações histórico-sociais.
CONEXÕES

Estátua representando

a justiça, em Berna, na Suíça.

2. Observe os detalhes dessa estátua. Destaque os elementos simbólicos que, na sua interpretação, configuram a ideia de justiça. Justifique cada um deles

No entanto, a despeito dessas semelhanças, há diferenças fundamentais entre a moral e o direito: • as normas morais são cumpridas a partir da convicção pessoal de cada indivíduo, enquanto as normas jurídicas devem ser cumpridas sob pena de punição do Estado em caso de desobediência; • a punição, no campo do direito, está prevista na legislação, ao passo que, no campo da moral, a eventual sanção pode variar bastante, pois depende fundamentalmente da consciência moral do sujeito que infringe a norma; a esfera da moral é mais ampla, atingindo diversos aspectos da vida humana, enquanto a esfe-

De todas essas diferenças, talvez uma mereça maior destaque: a coercibilidade da norma jurídica, que conta com a força e a repressão potencial do Estado (através da ação da justiça e da polícia) para ser obedecida pelas pessoas. A norma moral, por sua vez, não é sustentada pela coerção do Estado, o que implica que ela depende, de certo modo, da aceitação de cada individuo para ser cumprida. Por isso, a norma moral costuma ser vinculada, por alguns filósofos, à ideia de liberdade.

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Capítulo

17 A ética

Moral e liberdade
Pode parecer estranho vincular a ideia de norma moral à ideia de liberdade, você não acha? Mas podemos explicar essa relação. Preste atenção. Conforme vimos antes (no capítulo 4), a consciência talvez seja a melhor característica que distingue o ser humano dos outros animais. Ela permite o desenvolvimento do saber e da racionalidade, que se empenha em separar o falso do verdadeiro. Além dessa consciência racional, lógica, o ser humano possui também consciência moral, isto é, a faculdade de observar a própria conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as intenções futuras. E, depois de julgar, tem condições de escolher, entre as circunstãncias possíveis, seu próprio caminho na vida. A essa possibilidade que cada indivíduo tem de escolher seu caminho, de construir sua maneira de ser e sua história, chamamos liberdade.

moral, a qualidade ou a ação que dignifica o ser humano. E qual é essa qualidade ou ação?

Liberdade

e responsabilidade

Assim, se consciência moral e liberdade estão intimamente relacionadas, só tem sentido julgar moralmente a ação de uma pessoa se essa ação foi praticada em liberdade. Quando não se tem escolha (liberdade), quando se é coagido a praticar uma ação, é impossível decidir entre o bem e o mal (consciência moral). A decisão, nesse caso, é imposta pelas forças coativas, isto é, que determinam uma conduta. Exemplo: tendo o filho sequestrado, o pai cumpre ordens do sequestrador. Sua ação está determinada pela coação do criminoso. Quando, porém, estamos livres para escolher entre esta ou aquela ação e fazemos uma escolha, tornamo-nos responsáveis pelo que praticamos e podemos ser julgados moralmente por isso. Observemos que o termo responsabilidade vem do latim respondere, "responder", e significa estar em condições de responder pelos atos praticados, isto é, de justificá-los e assumi-los. É essa responsabilidade, enfim, que pode ser julgada pela consciência moral do próprio indivíduo ou do seu grupo social.

As tentações de Santo Antão (c. 1500) - Hieronymus

Bosch. Nem sempre é fácil distinguir entre o que é bom e o que é mau. Até mesmo os santos não estiveram livres desse dilema, como Jesus e Antão. Ambos tiveram de resistir às tentações do diabo, que se multiplicavam à sua volta no deserto.

Virtude e vício
Uma propriedade que se costuma atribuir à consciência moral é a de que ela nos fala como uma voz interior que geralmente nos inclina para o caminho da virtude. Mas o que é virtude? A palavra virtude deriva do latim virtus, "força ou qualidade essencial", e significa, no contexto da

Há muitas interpretações sobre esse tema, mas podemos dizer, basicamente, que é a prática constante do bem, correspondendo ao uso da liberdade com responsabilidade moral. Assim, são consideradas virtudes a polidez, a fidelidade, a prudência, a justiça, a coragem, a generosidade etc. À ideia de virtude opõe-se a de vício, que consiste na prática do mal, correspondendo ao uso da liberdade sem responsabilidade moral. Assim, são considerados vícios a violência, a infidelidade, a insensatez, a injustiça, a covardia, a mesquinhez etc.

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Essa concepção encontra-se presente no pensamento de filósofos materialistas do século XVIII, tais como os franceses Helvetius (1715-1771) e Holbach (1723-1789).

Analisando essa relação entre responsabilidade e virtude, Erich Fromm concluiu que a responsabilidade primordial do ser humano está relacionada com a própria condição humana, isto é, com a realização de suas potencialidades de vida. Assim: da vida, o desenvolvimento das capacidades do homem. A virtude consiste em assumir a responsabilidade por sua própria existência. O mal constitui a mutilação das capacidades do homem; o vício reside na irresponsabilidade perante si mesmo. (Análise do homem, p. 30).

o bem é a afirmação

Ênfase na liberdade
Para essa via de interpretação, o ser humano é sempre livre. Embora os defensores dessa posição admitam a existência das determinações de origem externa, sociais, e as de origem interna, como desejos, impulsos etc., sustentam a tese de que o individuo possui uma liberdade moral que está acima dessas determinações. Assim, apesar de todos os fatores sociais e subjetivos que atuam sobre cada indivíduo, ele sempre possui uma possibilidade de escolha e pode agir livremente a partir de sua autodeterminação. A maior expressão dessa concepção filosófica acerca da liberdade é encontrada no pensamento do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), que afirmou que "o homem está condenado a ser livre" (O exístendalismo é um humanismo, p. 9). (Reveja sua argumentação no capítulo 16.)

Quão pré-determinadas são nossas vidas?

Dia/ética entre liberdade e determinismo
Segundo essa via de interpretação, o ser humano é determinado e livre ao mesmo tempo. Determinismo e liberdade não se excluem, mas se complementam. Nessa perspectiva, não faz sentido pensar em uma liberdade absoluta nem em uma negação absoluta da liberdade. A liberdade é sempre uma liberdade concreta, situada no interior de um conjunto de condições objetivas de vida. No entanto, embora nossa liberdade seja restringida por fatores objetivos que cercam nossa existência factual, podemos sempre atuar no sentido de alargar as possibilidades dessa liberdade, e isso será tanto mais eficiente quanto maior for nossa consciência a respeito desses fatores. Essa concepção é encontrada no pensador holandês Espinosa e nos filósofos alemães Hegel e Marx. À parte as muitas diferenças entre seus pensamentos, o ponto em comum é a ideia de que a liberdade é a compreensão da necessidade (dos determinismos) . (No final do capítulo você encontrará textos de alguns pensadores mencionados defendendo essas três posições filosóficas acerca da liberdade.)

Liberdade versus determinismo
Agora que explicamos por que alguns filósofos vinculam moral e liberdade, bem como liberdade e responsabilidade, talvez você se pergunte: "Mas somos realmente livres para decidir?", "E, se somos, que liberdade é essa?". Do ponto de vista da discussão filosófica, podemos sintetizar três respostas diferentes para esses problemas: uma que enfatizou o determinismo, outra que destacou o papel da liberdade e uma terceira que procurou estabelecer uma dialética entre os dois termos. Vejamos cada uma.

Ênfase no determinismo
De acordo com essa via de interpretação, a liberdade não existe, pois o ser humano seria sempre determinado, seja por sua natureza biológica (necessidades e instintos), seja por sua natureza histórico-social (leis, normas, costumes). Em outras palavras, as ações individuais seriam causadas e determinadas por fatores naturais ou constrangimentos sociais, e a liberdade seria apenas uma ilusão.

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Capítulo

17 A ética

Origens da violência e da maldade
Quando se fala em violência ou maldade, uma das primeiras coisas em que pensamos é, por exemplo, no ladrão de casas e carros, no assassino sanguinário, enfim, nos inúmeros criminosos que agridem pessoas e assaltam o patrimônio alheio. Podemos pensar também na violência dentro da família, geralmente contra mulheres e crianças. Menos comum é pensarmos na violência institucionalizada pelos sistemas de exploração social, isto é, a violência cruel dos salários de fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde pública, do descaso pela educação, do preconceito racial etc. Violências surdas que oprimem milhões de pessoas "sem vez" e ainda "sem voz". .

Temos também a violência do ser humano contra a natureza, provocando graves desequilíbrios ecológicos. E. por fim, há ainda a violência do indivíduo contra si próprio, em que o suicídio costuma ser apontado como exemplo extremo. Então, em um sentido amplo, podemos dizer que a violência ou a maldade são formas de desrespeito, agressão e destruição praticadas pelo indivíduo contra si próprio, contra outras pessoas (sociedade) ou contra a natureza. Mas quais são as causas do mal? Responder a essa questão não é tarefa fácil. Ela atormentou filósofos de todos os tempos, que nunca tiveram grande sucesso ao abordá-Ia. É possível, porém, identificar pelo menos duas respostas antagônicas sobre as causas da violência ou da maldade, fornecidas pela psicologia e pela psicanálise:

Eva no jardim do Éden {1885) - Anna Lea Merritt. De acordo com a Bíblia, a causa do mal no mundo foi a desobediência a Deus (o pecado original) de Adão e Eva ao comer o fruto da árvore proibida.

instintivista

- afirma que a violência humana, concretizada nas guerras, nos crimes. na opressão social.

na conduta autodestrutiva. é provocada por instintos inatos decorrentes da fisiologia básica do ser humano. Esse instinto agressivo sempre busca sua descarga e aproveita as ocasiões favoráveis para se manifestar. No grupo de pensadores partidários do instintivismo destacam-se o austríaco Konrad Lorenz (1903-1989). criador da etologia. e Sigmund Freud (1856-1939). criador da psicanálise. Há. entretanto. inúmeras divergências entre as concepções de Freud e Lorenz:

socioambientalista - nega que a violência seja um atributo inato do ser humano. Afirma que o comportamento humano (pacífico ou violento) é moldado pela influência do meio ambiente. isto é. pelos fatores sociais. econômicos. políticos e culturais. Assim. as diferenças de conduta entre as pessoas corresponderiam às diferenças socioambientais que teriam influenciado a personalidade dos indivíduos. No grupo socioambientalista destaca-se a corrente dos psicólogos behavioristas (do inglês behauior. "comportamento"). fundada pelo estado-unidense J. B. Watson (1878-1958) e desenvolvida pelo também estado-unidense B. F. Skinner ( 1904-1990).

Para os instintivistas. o ser humano reproduz os impulsos orgânicos de sua espécie. O indivíduo repete o passado filogenético. Para os socioambientalistas, o ser humano reproduz a influência do seu meio ambiente. O indivíduo repete o padrão cultural da sociedade em que vive. Além dos instintivistas e dos socioambientalistas. há outra posição que sustenta a tese de que o ser humano não é um títere. que só reage passivamente ao meio ambiente (socioambientalismo). nem um ser aprisionado pelos instintos filogenéticos (instintivismo). O ser humano é mais que tudo isso: é multideterminado. é um sistema complexo. Por isso. age e reage. cria e copia sentidos para a vida. E o problema da origem do mal segue aberto.

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Capítulo 17 A ética

Análise e entendimento
1. Embora sejam usadas muitas vezes como sinônimos, que significados específicos suem as palavras moral e ética? pos-

s.

Só faz sentido julgar moralmente a ação de uma pessoa se essa ação foi praticada em liberdade. Comente essa afirmação e dê exemplos.

2. Em sua opinião,

quais as grandes questões que a ética procura responder no mundo de hoje? Comente.

6. Discorra sobre a virtude e o vício. Analise-os,
compare-os e dê exemplos partir de seu cotidiano. para cada um a

3. Sintetize:
a) Em que são semelhantes as normas morais e as normas jurídicas? b) O que as distingue? c) A que campo de estudo pertence uma? cada

7. Como se expressa, no ãmbito da moral, a relação dialética entre o indivíduo e a sociedade? Quando ocorrem transformações nas normas morais?

8. Com base nas distinções feitas neste capítulo,
analise e compare as seguintes escolhas morais: a) a ação correta e ação incorreta; b) a ação incorreta flito ético; e a que expressa con-: ético.

4. Procure expressar

o que você entendeu da relação entre moral e liberdade, usando os seguintes conceitos: consciência moral, juízo, escolha, liberdade:

c) o niilismo ético e o permissivismo

Conversa filosófica
1. Liberdade versus determinismo O ser humano é determinado e livre ao mesmo tempo. Determinismo e liberdade não se excluem, mas se complementam. Liberdade é, em parte, a compreensão da necessidade. Você concorda com esse raciocínio? Por quê? Você se sente livre? Reflita sobre esse assunto e elabore uma dissertação sobre ele. 2. Vício ou conflito ético Hoje em dia, novas práticas, como as da engenharia genética, ou antigas proibições, como o aborto, têm gerado muitas discussões éticas. O que se observa é que, na maioria das vezes em que surge uma nova proposta de conduta, aqueles que se opõem a ela a veem como um "mal, vício ou corrupção". No entanto, passada a fase do "conflito ético", tal proposta pode se tornar moralmente aceita pela sociedade. Pesquise o assunto e identifique pelo menos três casos de práticas que foram um dia ou ainda constituem conflitos éticos. Depois apresente-os a colegas e faça seu juízo a respeito de cada um.

ÉTICA NA HISTÓRIA

Antiguidade: ética grega
A preocupação com os problemas éticos teve início deforma mais sistematizada na época de Sócrates, filósofo também conhecido como "o pai da moral". Vejamos o que disseram os principais filósofos gregos desse período sobre essa questão: • Os sofistas afirmavam que não existem normas e verdades universalmente válidas. Tinham, portanto, uma concepção ética relativista ou subjetivista.

Algumas concepções da filosofia moral
Vejamos, de forma resumida, algumas das reflexões éticas que marcaram os grandes períodos históricos. Para isso, retomaremos aspectos do pensamento de alguns filósofos estudados anteriormente. Daremos destaque às concepções de Aristóteles, na Antiguidade, Santo Agostinho, na Idade Média, Immanuel Kant, na Idade Moderna.

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Detalhe de Hércules em luta contra Hídra (1824) - François-Joseph Bosio. Os antigos gregos desenvolveram uma ética racionalista na qual a razão deveria prevalecer sobre as paixões e os desejos individuais. O mal, as paixões desenfreadas, a iniquidade, a que os gregos denominavam hvbris, eram representadas pelas personagens monstruosas que deveriam ser venci das pelos heróis.

Ao contrário dos sofistas, Sócrates sustentou a existência de um saber universalmente válido, que decorre do conhecimento da essência humana, a partir da qual se pode conceber a fundamentação de uma moral universal. E o que é essencial no ser humano? Sua alma racional. O ser humano é, essencialmente, razão. E é na razão que se devem, portanto, fundamentar as normas e costumes morais. Por isso, dizemos que a ética socrática é racionalista. O indivíduo que age conforme a razão age corretamente. Platão desenvolveu o racionalismo ético iniciado por Sócrates, aprofundando a diferença entre corpo e alma. Argumentava que o corpo, por ser a sede dos desejos e paixões, muitas vezes desvia o indivíduo de seu caminho para o bem. Assim, defendeu a necessidade de purificação do mundo material para alcançar a ideia de bem. Segundo Platão, o ser humano não consegue caminhar em busca da perfeição agindo sozinho. Necessita, portanto, da sociedade, da pólis. No plano ético, o indivíduo bom é também o bom cidadão. Depois do período clássico grego, o estoicismo desenvolveu uma ética baseada na procura da paz interior e no autocontrole individual, fora dos

contornos da vida política. Assim, o princípio da ética estoica é a apatia (apatheia), atitude de aceitação de tudo o que acontece, e o amor ao destino (amor fati), porque tudo faria parte de um plano superior guiado por uma razão universal que a tudo abrangeria. Desse modo atingia-se a ataraxia, ou imperturbabilidade da alma. • A ética do epicurismo, de forma semelhante, defendia a atitude de desvio da dor e procura do prazer espiritual, do autodomínio e a paz de espírito (ataraxia).

Ética do equilíbrio
Aristóteles também desenvolveu uma reflexão ética racionalista, mas sem o dualismo corpo-alma platônico. Procurou construir uma ética mais realista, mais próxima do individuo concreto. Para tanto, perguntou-se sobre o fim último do ser humano. Para o que tendemos? E respondeu: para a felicidade. Todos nós buscamos a felicidade. E o que entende Aristóteles por felicidade? Para o filósofo, a felicidade não se confunde com o simples prazer, o prazer das sensações ou o prazer proporcionado pela riqueza e pelo conforto material. A felicidade maior se encontraria na vida teórica, que promove o que há de mais especificamente humano: a razão.

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que se desenvolve no plano teórico, contemplativo, pode compreender a essência da felicidade e realizá-ia de forma consciente. Mas isso seria privilégio de uma minoria. Segundo o filósofo, a pessoa comum, aquela que não pode se dedicar à atividade teórica, aprenderia a agir corretamente apenas pelo hábito. Assim, agir corretamente seria praticar as virtudes. E o que seria a virtude? Em sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles explica: A excelência moral [virtude moral]. então, é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções, disposição esta consistente num meio-termo determinado pela razão. Trata-se de um estado intermediário, porque nas várias formas de deficiência moral há falta ou excesso do que é conveniente tanto nas emoções quanto nas ações, enquanto a excelência moral encontra e prefere o meio-termo. (p. 42). A coragem, por exemplo, seria uma virtude situada entre a covardia (a deficiência) e a temeridade (o excesso). Assim, o filósofo propôs uma ética do meio-termo, na qual a virtude consistiria em procurar o ponto de equilíbrio entre o excesso e a deficiência. É importante notar que, tanto em Piatão como em Aristóteles, a ética estava vinculada à vida polí-

Capítulo

17 A ética

o indivíduo

tica. Aristóteles refere-se mesmo à ética como sendo um ramo da política, já que a primeira trataria do bem-estar individual, enquanto a segunda se voltaria para o bem comum.

Idade Média: ética cristã
o que diferencia radicalmente a ética cristã da ética grega são dois pontos: • abandono do racionalismo - a ética cristã deixou de lado a ideia de que é pela razão que se alcança a perfeição moral e centrou a busca dessa perfeição no amor a Deus e na boa vontade;
.• emergência da subjetividade - acentuando a tendência já esboçada na filosofia de estoicos e epicuristas, a ética cristã tratou a moral do ponto de vista estritamente pessoal, como uma relação entre cada indivíduo e Deus, isolando-o de sua condição social e atribuindo à subjetividade uma importância até então desconhecida.

Os filósofos medievais herdaram alguns elementos da tradição filosófica grega, reconfigurando-os no interior de uma ética cristã. Santo Tomás de Aquino (século XIII), por exemplo, recuperou da ética aristotélica a ideia de felicidade como fim último do ser humano, mas cristianizou essa noção ao identificar Deus como a fonte dessa felicidade.
(

Os sete pecados mortais e os quatro novíssimos do homem Hieronymus Bosch. Para Nietzsche, a moral cristã é uma moral de rebanho, de vencidos que perderam a vontade de potência. Noções como pecado, culpa e inferno seriam apenas formas de dominação da força vital individual.

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Ética do livre-arbítrio
Santo Agostinho (século IlI) transformou a ideia de purificação da alma, da filosofia de Platão, na ideia da necessidade de elevação as cética para compreender os desígnios de Deus. Também a ideia da imortalidade da alma, presente em Platão, foi retrabalhada por Agostinho na perspectiva cristã. Mas a ética agostiniana destaca-se por outro conceito. Ao tentar explicar como pode existir o mal se tudo vem de Deus - e Deus é bondade infinita -, Santo Agostinho introduziu a ideia de liberdade como livre-arbítrio, isto é, a noção de que cada indivíduo pode escolher livremente entre aproximar-se de Deus ou afastar-se Dele. O afastamento de Deus é que seria o mal, de acordo com o filósofo. Com a noção de livre-arbítrio, de escolha individual, Agostinho acentuou o papel da subjetividade humana nas coisas do mundo. O livre-arbítrio é o meio pelo qual o ser humano realiza sua liberdade, mas, de acordo com a concepção cristã, cada indivíduo pode usá-lo bem ou mal- e é no mau uso que estaria a origem de todo o mal. De outro lado, o conceito de livre-arbítrio esvaziou a noção grega de liberdade como possibilidade de realização plena dos indivíduos em seu meio social. Em outras palavras, diminuiu a importância da dimensão social da liberdade, e esta passou a ter um caráter mais pessoal, subjetivo, individualista.

A Declaração dos Direitos Humanos, do século XVIII, expressa a concepção de uma natureza humana racional, desenvolvida na Idade Moderna.

A concepção mais expressiva do período moderno a respeito da natureza humana é a de uma natureza racional, que encontra em Kant sua formulação mais bem-acabada.

Ética do dever

Idade Moderna: ética antropocêntrica
Com o final da Idade Média, marcado pelo Renascimento, há uma retomada do humanismo, conforme vimos no capítulo 14. No terreno da reflexão ética, esse fato orientou uma nova concepção moral, centrada na autonomia humana. No Iluminismo, essa orientação fica mais evidente, pois os filósofos passam a defender a ideia de que a moral deve ser fundamentada não mais em valores religiosos, e sim naqueles oriundos da compreensão do que é a natureza humana.

Em seus textos Crítica da razão prática e Fundamentação da metafísica dos costumes, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) aponta a razão humana como uma razão legisladora, capaz de elaborar normas universais, uma vez que constitui um predicado universal dos seres humanos. As normas morais teriam, portanto, sua origem na razão. Embora, em Kant, as normas morais devam ser obedecidas como deveres, a noção kantiana de dever confunde-se com a própria noção de liberdade, porque, em seu pensamento, o indivíduo que obedece a uma norma moral atende à liberdade da razão, isto é, àquilo que a razão, no uso de sua liberdade, determinou como correto. Dessa forma, a sujeição à norma

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moral é o reconhecimento de sua legalidade, conferida pelos próprios indivíduos racionais. Kant reforça essa ideia ao dizer que um ato só pode ser considerado moral quando praticado de forma autônoma, consciente, e por dever. Com isso, acentua o reconhecimento do dever como uma expressão da racionalidade humana, única fonte legítima da moralidade. A clareza dessa ideia é assim expressa pelo filósofo: Age apenas segundo uma máxima [um princípio] tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal. (Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 59). Essa exigência é denominada por Kant de imperativo categórico, ou seja, é uma determinação imperativa, que deve ser observada sempre, em toda e qualquer decisão ou ato moral que venhamos a praticar. Em outras palavras, o que o filósofo quer dizer é que nossa ação deve ser tal que possa ser universalizada, ou seja, que possa ser realizada por todos os outros indivíduos sem prejuízo para a humanidade. Se não puder ser universalizada, não será moralmente correta e só acontecerá como exceção, nunca como regra. Vejamos como Kant se expressa a esse respeito: Se prestarmos atenção ao que se passa em nós mesmos sempre que transgredimos qualquer dever, descobriremos que, na realidade, não queremos que a nossa máxima se torne lei universal, porque isso nos é impossível; o contrário dela é que deve universalmente continuar a ser lei; nós tomamos apenas a liberdade de abrir nela uma exceção para nós. (Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 63). E por que realizamos atos contrários ao dever e, portanto, contrários à razão? Kant dirá que é porque nossa vontade é também afetada pelas inclinações, que são os desejos, as paixôes, os medos, e não apenas pela razão. Por isso afirma que devemos educar a vontade para alcançar a boa vontade, que seria aquela guiada unicamente pela razão. Em resumo, a ética kantiana é uma ética formal ou formalista, pois postula o dever como norma universal, sem se preocupar com a condição individual, em que cada um se encontra diante desse dever. Em outras palavras, Kant nos dá a forma geral da ação moralmente correta (o imperativo categórico), mas não diz nada acerca de seu conteúdo, não nos diz o que devemos fazer em cada situação concreta.

Capítulo 17 A ética

Idade Contemporânea: ética do indivíduo concreto
A reflexão ética na Idade Contemporânea (séculos XIX e XX) desdobrou-se em uma série de concepções distintas acerca do que seja a moral e sua fundamentação. Seu ponto comum é a recusa de uma fundamentação exterior, transcendental para a moralidade, centrando no indivíduo concreto a origem dos valores e das normas morais. Um dos primeiros passos na formulação de uma ética do indivíduo concreto foi dado por Hegel, em sua crítica ao formalismo de Kant.

Fundamentação

histórico-social

Como diversos autores contemporâneos, o fj'lósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) questionou o formalismo da ética kantiana. Para ele, ao não levar em consideração a história e a relação do indivíduo com a sociedade, a ética de Kant não apreende os conflitos reais existentes nas decisões morais. Kant teria considerado a moral apenas como uma questão pessoal, íntima e subjetiva, na qual o sujeito tem que se decidir entre suas inclinações (desejos, medos etc.) e sua razão. De acordo com Hegel, portanto, a moralidade assume conteúdos diferenciados ao longo da história das sociedades, e a vontade individual seria apenas um dos elementos da vida ética de uma sociedade em seu conjunto. A moral seria o resultado da relação entre o indivíduo e o conjunto social. E em cada momento histórico se manifestaria tanto nos códigos normativos como, implicitamente, na cultura e nas instituições sociais. Desse modo, Hegel vinculou a ética à história e à sociedade.

Fundamentação

ideológica

o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) entendia a moral como uma produção social que atende a determinada demanda da sociedade. E essa demanda deve contribuir para a regulação das relações sociais. Como as relações sociais se transformam ao longo da história, transformam-se também os indivíduos e as moralidades que regulam essas relações. Isso quer dizer que Marx compreende a moral como uma forma de consciência própria a cada momento do desenvolvimento da existência social. Assim, os valores que fundamentam as normas morais derivam da existência social e, portanto, não

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sua ética discursiva, ou seja, fundada no diálogo e no consenso entre os sujeitos. O que se buscaria nesse diálogo é a razão que, tendo sido reconhecida pelos participantes do diálogo, sirva como fundamentação última para a ação moral. Como vimos anteriormente (no capítulo 16), o conceito de razão em Habermas não é o mesmo do lluminismo. Trata-se de uma razão comunicativa, que não existe pronta nem acabada, mas que se constrói a partir de uma argumentação que leva a um entendimento entre os indivíduos. É uma razão interpessoal e não subjetiva; é uma razão processual e não definitiva e acabada. Para que essa argumentação leve a um entendimento real entre os indivíduos é necessário que o diálogo seja um diálogo livre, sem constrangimentos de qualquer ordem, e que o convencimento se dê a partir de argumentos válidos e coerentes. A ética discursiva de Habermas é, portanto, uma aposta na linguagem e na capacidade de entendimento entre as pessoas na busca de uma ética democrática e não autoritária, baseada em valores validados e consensualmente aceitos. A grande questão que permanece em relação a essa proposta ética é quanto às condições de realização de um diálogo livre e igualitário na sociedade de hoje, marca da pela desigualdade e pelo constrangimento.

são absolutos, não valem de forma universal para todos os indivíduos e para todos os tempos. A liberdade, por exemplo, embora seja um valor universal, teve conteúdos diferenciados ao longo da história. Com base no conceito de liberdade, Marx mostra como os valores morais, que são concebidos em meio a determinada forma de existência social, também refletem essa existência. A liberdade, de acordo com a Declaração dos Direitos do Homem, do final do século XVIII, é o poder que o indivíduo tem de fazer tudo o que não prejudique os direitos dos outros. Na análise do filósofo, esse sentido de liberdade, forjado pela modernidade, reflete a existência de indivíduos isolados, competitivos, ou seja, formados por uma sociabilidade que estimula a competitivídade e a concorrência como valores. Assim, a moral seria, para Marx, uma das formas assumidas pela ideologia dominante em sociedade, pois difunde determinados valores que são necessários à manutenção dessa sociedade. É a fundamentação ideológica da moral.

Ética discursiva
Outra busca de respostas e fundamentação para uma ética contemporânea desenvolveu-se no campo da análise da linguagem. O filósofo alemão Jurgen Habermas (1929-) é um dos maiores representantes dessa corrente, com

Crianças refugiadas no Chade, África (2009). Em termos de uma ética prática, segundo o filósofo australiano contemporâneo Peter Singer, "Devemos considerar as consequências tanto do que fazemos como do que decidimos não fazer. [...] o sofrimento dessas crianças, ou de seus pais, é tão terrível como nossa própria dor em situação semelhante; portanto não podemos fugir à responsabilidade por esse sofrimento pelo fato de que não tenhamos sido seus causadores. Onde tantos passam tanta necessidade, viver indulgentemente na luxúria não é moralmente neutro, e não basta que não tenhamos matado ninguém para que nos tornemos cidadãos decentes do mundo." (Writings on ethicallife, p. xvi).

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Capítulo

17 A ética

I

CARTA DA TERRA

Quais serão os parâmetros éticos do século XXI? Nos primeiros anos deste século, sob os auspícios da ONU, foi elaborada por uma corrnssao internacional de estudiosos a Carta da Terra, documento que pretende ser um código ético planetário, capaz de orientar pessoas e povos do mundo em busca de um desenvolvimento sustentável. Transcrevemos a seguir o preâmbulo dessa Carta e os itens principais de seus princípios (sem seus desdobramentos), em que se destacam valores éticos como a integridade ecológica, a justiça social e econômica, a democracia e a paz.

Preâmbulo Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo se torna cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forcas.para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a esse propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, para com a grande comunidade da vida e para com as futuras gerações. Terra, nosso lar A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos os seus sistemas ecológicos, de uma rica variedade de plantas e animais, de solos férteis, de águas puras e de ar limpo. O meio ambiente global, com seus recursos finitos, é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, da diversidade e da beleza da Terra é um dever sagrado. A situação global Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma maciça extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.
I

Desafios para o futuro A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.

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Responsabilidade universal
Para realizar essas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre, bem como com nossa comunidade local, Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual as dimensões local e global estão ligadas, Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos, O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade, considerando o lugar que ocupa o ser humano na natureza. Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, pelos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos e instituições transnacionais será guiada e avaliada.
Images.com/Corbis

Princípios

Mural com desenhos feitos por alunos de uma escola em São Paulo (2006). Se cada pessoa, cada cidade e cada país fizerem sua parte, é bem provável que o mundo melhore. Como assinalou o filósofo irlandês Edmund Burke (1729-1797), ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer pouco, pois tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam.

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Capítulo

17 A ética

I. Respeitar e cuidar da comunidade da vida
I. Respeitar a Terra e a vida em toda a sua diversidade. da vida com compreensão, compaixão e amor. 3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas. 4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações. '
2. Cuidar da comunidade

Para poder cumprir esses quatro amplos compromissos,

é necessário:

11.Integridade ecológica
5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida. 6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução. 7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário. 8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido.

11I.Justiça social e econômica
9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental. 10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável. I I. Afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, à assistência de saúde e às oportunidades econômicas. 12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e das minorias. ~ ~.

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S!._~E'I~

I

IV. Democracia, não violência e paz
13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-Ihes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à justiça. 14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um medo de vida sustentável. 15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração. 16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz. Disponível em: < http://www.vitaecivilis.org.br/ anexbs/Carta_da_ Terra.pdb. Acesso em: 10 fev. 20 IO.

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Análise e entendimento
9. Por que a ética do período clássico grego é
considerada racionallsta? Justifique com exemplos das concepções éticas dos filósofos desse período. seu Tratado de Metafísica (cap. 9): "Ser desprezado por aqueles com quem se vive é coisa que ninguém pôde e jamais poderá suportar. Talvez seja esse o maior freio que a natureza tenha posto nas injustiças dos homens". 14. Para Kant, a virtude é a força das máximas do indivíduo na realização de seu dever. Com base nessa afirmação, explique a ética kantiana. 1 S. Desde o início do período contemporâneo, a reflexão ética radicalizou a recusa de uma fundamentação transcendental para a moralidade. Seu ponto de partida passou a ser não o ser humano ideal, mas o indivíduo concreto e social, com suas necessidades, desejos, limitações e aberturas. Sintetize como se expressa essa tendência nas concepções éticas dos seguintes filósofos: a) Hegel; b) Marx; c) Habermas.

10. Aristóteles explicava a virtude como o meio-termo entre dois vícios. Com base nessa afirmação, explique a ética aristotélica. 11. Por que a ética do período medieval é chamada de cristã? Quais são os aspectos que a caracterizam como cristã e que a diferenciam da ética grega?

12. Para Santo Agostinho, a virtude é o bom uso
da liberdade de escolha, do livre-arbítrio. Com base nessa afirmação, explique a ética agostiniana.

13. Por que a ética da Idade Moderna pode ser
considerada uma ética antropocêntrica? Vincule sua resposta a uma interpretação da seguinte frase de um filósofo desse período, Voltaire, em

Conversa filosófica
3. Ética global "Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. [...] Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global, baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz." (Preâmbulo da Carta da Terra). Que momento crítico é esse? Você sente que pode escolher o seu futuro? Você acredita que sua escolha pode afetar o futuro do mundo? Está disposto ou disposta a somar forças com o resto da humanidade? Como? Você acredita nos princípios propostos pela Carta da Terra? Por quê? Reflita sobre todas essas perguntas e discuta sua opinião e suas sugestões com colegas.

Sugestões de filmes
• A Lista de Schindler (1993, EUA, direção de Steven Spielberg) Filme sobre industrial alemão que salva centenas de judeus poloneses durante a Segunda Guerra Mundial. Mostra como o componente moral de um indivíduo pode interferir nas suas decisões e escolhas, levando-o a ações fundamentais em sua vida e nas vidas de outros seres humanos. Pulp Fiction (1994, EUA, direção de Quentin Tarantino) Filme polêmico sobre o mundo do crime, retratando a gratuidade da violência na atualidade. A violência torna-se banal, mata-se por qualquer motivo. Pode ser visto como uma crítica da perda dos valores morais na sociedade contemporânea. Central do Brasil (1998, Brasil, direção de Walter Salles Jr.) Filme que mostra a amizade entre uma mulher e um menino em busca de seu pai. Parte da apatia e da indiferença moral que caracteriza o Brasil de hoje, buscando recuperar a importância dos atos individuais no resgate de nossa cidadania.

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• Poderosa Afrodite (1995, EUA, direção de Woody Allen)

Capítulo 17 A ética

Comédia centrada na relação de um homem (casado) com uma prostituta que, no passado, deu o filho para adoção. Ele deve decidir se conta ou não a ela que foi ele quem adotou a criança. Mostra ainda, de forma divertida, a prostituta de maneira não preconceituosa e a difícil relação no casamento, marcada pelo amor, pelos conflitos e pela rotina .

O jardineiro fiel (2005, EUA, direção de Fernando Meirelles)
Diplomata britãnico investiga a misteriosa morte de sua esposa no Quênia e acaba descobrindo a existência de pesquisas não éticas de indústria farmacêutica com a população pobre desse país. Interessante para descobrir questões de bioética.

Leia com atenção os três blocos de textos que seguem. São textos nos quais estão expressas concepções diferentes sobre a liberdade. Pesquise os autores e depois responda às questões propostas.

"Os homens não são maus, mas submissos aos seus interesses ... Portanto, não é da maldade dos homens que é preciso se queixar, mas da ignorância dos legisladores, que sempre colocaram o interesse particular em oposição ao geral. [...] Até hoje, as mais belas máximas morais não conseguiram produzir nenhuma mudança nos costumes das nações. Qual é a causa? É que os vícios de um povo estão, se ouso falar, sempre escondidos no fundo da legislação. Na Nova Orleans, as princesas podem, quando elas se cansam de seus maridos, repudiá-los para se casarem com outros. Neste lugar, nâo encontramos mulheres falsas, porque elas não têm nenhum interesse em ser falsas."
HELVETIUS,

em

MARX

e

ENGELS, Sagrada família,

p. 130.

fTA' relação entre liberdade e.detérmlnlsmo
"Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado."
MARX,

O 18 Brumário de Luís Bonaparte, p 329.

3. A liberdade,
"Dostoievski escreveu: 'Se Deus não existisse, tudo seria permitido'. tida do existencialismo. Aí se situa o ponto de par-

Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe; fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si. nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, nâo será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.

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É O que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que, por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa sua paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a Terra, e que o há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a inventar o homem."
SARTRE,

O existencia/ismo

é um humanismo, p. 9.

1. Destaque, no texto do primeiro bloco, as ideias que podem ser consideradas como defesas do determinismo absoluto nas ações humanas.

2. Destaque, no segundo bloco, as ideias que podem ser consideradas defesas da existência de
uma relação dialética entre liberdade e determinismo nas ações humanas.

3. Destaque, no texto do terceiro bloco, as ideias que podem ser consideradas como defesas
da liberdade absoluta nas ações humanas.

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