Prosas Dispersas de Guerra Junqueiro

ÍNDICE:

O "Sacré-Coeur" Antero de Quental O Cantador Raul Brandão Sousa Martins Justino de Montalvão No centenário de Alexandre Herculano João de Deus Os Grandes Homens A festa de Camões Brasil-Portugal Notes sur la Suisse Notas sobre a Suíça Edith Cavell O monstro alemão

O "SACRÉ-COEUR"

É no alto de Montmartre, dominando Paris. Topografia simbólica, desafio da Igreja à Revolução. Daquela altura, a cidade fabulosa dir-se-ia o plano topográfico, a maqueta efémera duma Babilónia colossal. A cúpula de oiro dos Inválidos lembra, pela forma e pelas dimensões, um capacete persa flamejante, e os dois braços amputados das duas torres de Notre-Dame têm dez metros de altura, quando muito. Do estrondoso e estonteador brouhaha da vida de Paris não chega àquela iminência religiosa mais do que um largo murmúrio evaporado, como que o hálito longínquo, a ressonância extinta de alguma forja de ciclopes. O templo, enorme, é de arquitectura bizantina. O gótico fugitivo, esbelto e rendilhado, principiando num soluço, erguendo-se num ai, e ter minando, exânime, num grito de flecha agudo e lancinante, era pouco sólido. Na catedral quase que há mais alma do que mármore. Mesmo de granito, chega a ser incorpórea. As suas colunas, de uma tenuidade vertiginosa, sobem instantâneas, como o raio desce. São, por assim dizer, jactos de fé petrificados, troncos rectilíneos de palmeiras místicas, que se embebem sofregamente pelo azul, expluindo lá cima numa girândola de nervuras, numa ramaria côncava de abóbadas. A imponderabilidade extática e descarnada ergue-a da terra, mina-lhe o alicerce. E bela, é sublime, mas frágil. Um sopro a leva. O "Sacré-Coeur" é, como devia ser, uma fortaleza bizantina. Levantada ousadamente no alto de Paris, tem a defender-se de Paris. Os muros são de uma espessura de monumento egípcio. Há naquela arquitectura o quer que seja de engenharia militar. E um reduto de dogmas. Não está concluído. Falta-lhe o tecto por enquanto. A maciça obesidade inabalável dos enormes pilares ascende vagarosamente à força de monólitos, à custa de toneladas. Que diferença do templo gótico, por cujas agulhas, incisivas e aéreas, a alma se evade, como um fluido eléctrico, chegando-se a procurar lá no alto, no topo das torres, no ápice das flechas, crepitamentos de estrelas, santelmos de orações... Fui ao "Sacré-Coeur" em Junho, num domingo esplêndido. A luz um sorriso, o azul uma bênção. Havia nesse dia uma romagem. Cinco a seis mil devotos, pelo menos. Incorporei-me no préstito que, antes de entrar, deu uma volta à igreja imensa, entoando num coro, melancolicamente formidável, uma espécie de marselhesa do amor divino, um cântico abrasador de esperança e de piedade, em que havia ao mesmo tempo rugidos indómitos de oceano, reboadas de angústia, trinos de inocência, ais de viuvez. Primeiro desfilaram os homens, graves, modestos, respeitáveis, com aquele ar de nobreza fisionómica de quem possui uma crença, uma luz interior, uma alma simples. Depois as mulheres, esposas e mães, que vinham ali acrisolar a sua fé, bálsamo único para as lutas da vida, para as amarguras do destino.

Depois, como áleas ridentes de amendoeiras em flor, centenas de virgens virginais, o lábio puro, a fronte cândida, o olhar transparente, todas envoltas da cabeça aos pés em nuvens aéreas de musselina, de uma graça intacta, de uma alvura de pombas. Dir-se-iam corpos de açucenas vestidos em túnicas de luar. Por último, a infância, pequerruchos de 6 a 8 anos, botões de rosa, embriões de almas, a passinhos miúdos, num encanto de glória, num êxtase de sonho. E as vozes dos homens, másculas e robustas, casavam-se com as vozes plangentes e lagrimosas das mulheres, com a angélica e translúcida pureza do cântico das virgens e com o balbuciamento cristalino dos mil gorjeios infantis. Encheu-se o templo e começou o sermão. O tecto da igreja era o céu azul. As dalmáticas do clero e os estandartes dos peregrinos, tecidos a prata, bordados a oiro, dardejavam frementes. O pregador falava de ao pé de um altar provisório de madeira, coberto a damascos. Dezenas e dezenas. de borboletas brancas volitavam sobre a multidão ajoelhada, sobre a cruz do sacrário e sobre a teologia do pregador. A Igreja vive ainda e viverá, senti-o nessa hora, do cristianismo eterno que tem dentro. Por isso, a Igreja se não destrói, perseguindo-a, arrancando-lhe o oiro das arcas, os anéis dos dedos, os brocados do corpo. Nos dias sublimes e longínquos da sua infância maravilhosa, rota, sem pão, descalça, viveu em antros, gemeu nas galés, os tigres morderam-na, varou-a o ferro, queimou-a o fogo, trezentos anos a perseguiram, milhões de vezes a crucificaram, e, das contínuas mortes da sua carne, ergueu-se, ilesa e luminosa, a sua imortalidade espiritual. E quando mais tarde, dominadora e deslumbrante, no trono de César, foi a rainha única do Mundo, para quebrar-lhe a omnipotência, bastou a voz de um monge solitário. A dor eleva, a dor exalta, a dor diviniza. O cristianismo gerou-o o Amor e a Dor, nasceu, escorrendo sangue, numa cruz. A opulência pagã da Igreja foi o crime da Igreja. Quanto mais simples e mais humilde, mais vitoriosa e mais robusta. Também se não destrói a Igreja, destruindo Jesus. A essência do cristianismo é universal e é eterna, imanente à vida. Houve cristãos sem conta antes de Cristo, cada santo que surge é um continuador de Cristo que aparece, e todo o homem que, sendo deísta, se eleva a um alto grau de moralidade, torna-se por esse facto um cristão verdadeiro. Cristo é filho do Espírito Divino, porque é filho do ideal humano sublimado, e este é o reflexo directo do Espírito de Deus. Negar o cristianismo implica, pois, uma loucura monstruosa: negar Deus. Muitos o negam verbalmente, e a Ele se encaminham pela virtude e pelo

esforço. E outros, que se julgam íntimos de Deus, nem de longe o conhecem, porque a todo o momento o estão negando nos seus actos, embora o afirmem nas palavras, loucas umas vezes, outras vezes hipócritas. Deus é a infinita perfeição, porque é Amor Infinito, sentindo e vencendo a infinita dor. Os mais amorosos são os que mais se lhe chegam, e os mais egoístas, os mais afastados e os mais ímpios. O Mundo caminha para um cristianismo integral, puro e perfeito, que absolutamente harmonize coração e razão, ciência e fé, natureza e Deus. A escola sem Deus é o infinito sem rumo, é o Universo morto, decapitado.

1888. 1

ANTERO DE QUENTAL

O DRAMA DA SUA VIDA

I

Houve em gérmen, em Antero de Quental, um santo, um filósofo e um herói. Herói, isto é, o idealista trabalhador, o visionário homem de acção, o revolucionário ardente e generoso, cuja figura impávida se destaca com um relevo bélico de atleta e uma fulgurância juvenil de aventureiro iluminado. É o Antero da mocidade. Conheci-o ainda. Mostraram-me há dias um retrato dessa época. Era ele, lá estava a mesma cabeça resplandecente e vigorosa: a juba de oiro leonina, a testa curta de Hércules Farnésio, o olhar azul, cheio de intrepidez e de candura, e o lábio virgem, de uma pureza helénica, de uma frescura silvestre e matinal. Este Antero, impetuoso e combatente, alegre figura indómita de paladino, morreu novo. Filósofo, isto é, o espírito abstracto e metafísico, vivendo não a vida efémera e relativa das aparências e dos fenómenos, mas a vida invisível e íntima do Universo, interrogando não o como, mas o porquê da existência, librando-se, ávido de infinito, no Tempo e no Espaço, a contemplar até à morte o enigma eterno. Nas almas medíocres e superficiais actua sobretudo a realidade transitória

a alma para quem a virtude é o fim único da vida. Ao talento correspondia o carácter. a necessidade inexorável. aniquilada uma. consciência límpida. arquitectava outra. Em Antero foi inato e precoce. Há moralistas imoralíssimos. nem a filosofia. Antero aliou à grandeza intelectual a grandeza moral. e lá foi o aeróstato levado pelos ares. a acção equilibrou nele a contemplação. atingir o infinito. concordância plena. de curiosidade transcendente. Mais bela ainda que os seus livros. Mas nem o heroísmo. através de nuvens. porque o seu pensamento superior não podia exilar-se do infinito sem raias para a mesquinhez anedótica da estreita vida dos sentidos. A doença partiu o cabo. Enquanto novo e combatente. A doença. O santo. As teorias duravam-lhe meses ou semanas. eis para elas o martírio cruciante. inicialmente. nem a virtude criariam. são sempre subjectivas e metafísicas. que os apetites se extenuam. identificação ininterrupta do escritor com o homem. Desde moço ao fim da vida cravou os olhos hipnotizados no mistério supremo do au delà. de per si só. E à medida que os anos decorrem. As naturezas elevadas. imortalizou-o. através de raios. o motivo soberano da existência. a sua vida. Explicar a existência. o grande. A personalidade de Antero. que a animalidade se adelgaça.das linhas e dos sons. Razão vigorosa. irresistível e orgânico. mas. das formas e das cores. ao contrário. e a pletora de saúde e o movimento da luta não lhe deixavam derivar todas as energias anímicas para as regiões suprem as e vertiginosas da eternidade e do absoluto. esse dom de filosofia. através de estrelas. desdobra-se da seguinte forma: . Era um balão cativo. Em Antero. O poeta anterior era de segunda ordem. Quem operou então a maravilha? O sofrimento. onde as miríades sem conta de nebulosas e de mundos são argueiros invisíveis e fogos-fátuos instantâneos. num voo de águia alucinada e fabulosa. II Analisemos um pouco. até desaparecer e engolfar-se para sempre no abismo infinito. aniquilando-o. o imorredoiro poeta dos dois últimos livros dos Sonetos. isto é. mais o espírito idealista se vai libertando das exterioridades enganadoras do mundo tangível e material.

continuamente vacilando. levando. no organismo ligado às duas modalidades supremas. ora adormecido ou vencido.três momentos do mesmo ser. A consciência. E dominando-as. outra hora. deixando-as expandir livremente. é Nuno Álvares ainda maior poeta do que Camões e S. equilíbrio que de novo se destrói para de novo se encontrar. Mas no herói e no santo as ideias.Deus. naturezas de moralidade baixa e mentalidade superior. límpida. A ideia torna-se nele em condutora da vida. a dúvida. pelo cumprimento do dever. marcando. inquieta e perplexa. imóvel. e que só ao cabo de vinte anos definitivamente se realiza. três aparências da mesma realidade: O Espírito evolucionando para Deus. enfim. pois que. virtude . Razão metafísica. dada a sua nobreza moral. num jogo acorde e fecundo da consciência e da razão. não talvez um grande poeta. em norma da existência. agulha reveladora. intoxicando a vontade. sem que o elemento mórbido. o verbo faz-se carne. traduzem-se em actos. a alma divina subjuga e vence as suas almas inferiores. cristalina. Em tais criaturas. Porque não foi Antero um desses homens? Por duas causas: A influência deletéria do elemento mórbido e a disparidade continua da consciência e da razão. ou um grande santo. ora rebelde e venenoso. génio. Francisco de Assis maior poeta do que Nuno Álvares. Pensar é executar. o senso moral não desfalece nem hesita. por crises. meia louca. um princípio mórbido (almas inferiores). Há. o enigma da existência. um barco frágil a duas bússolas guiado. A vida de Antero. uma hora. ardentemente buscando o segredo do ser. paralelas ambas de fugida. hoje apontando o desalento.Consciência de justo. febril. lhe houvesse nunca dificultado ou modificado a trajectória. fechando cada período de ansiedade por um momento de equilíbrio. agoniando a razão. esta indicando sempre a única estrelinha do horizonte. mas antes um grande herói. a filosofia não significa apenas a curiosidade do intelecto. inquieta e desvairada. o seu norte . o destino do homem. e. conceber é realizar. na essência e verdadeiramente. inalterável. amanhã o desespero. a indiferença. Em Antero. dar-nos-ia decerto. As abstracções fazem-se sangue. numa tremura de angústia. desenrolando-se harmónica e luminosa. Em Antero. Não um grande poeta. logo diversas e . aquela. Heroísmo. como disse. ao heroísmo e à santidade. pela comunhão de toda a alma na luz absoluta da mesma fé. tomando a palavra no sentido restrito da literatura. A razão. logo que nascem. Por noite negra e mar tormentoso. mas nunca destruindo o brilho virginal e perene da consciência e do carácter. oscilando. ante o problema metafísico. dominam o Mundo. E.

mais profundo. eis o lugar.a Eternidade. que a eternidade não dilui. Nem pés para o andar. que electricidades genésicas. As versões anteriores. O choque das armas embebeda-o. e outras tantas o renova. eis. E que admira . Os dois últimos livros dos Sonetos são o drama definitivamente imortal. a Razão liberta-se. A consciência virtuosa do justo mais bela do que nunca. isenta de contágios. amargurada e patética. um Prometeu paralítico. pela ideia efémera que a vitaliza. a obra. crivado de golpes. a hora do sofrimento. e de cada vez mais intenso. pelo ardor momentâneo que a produz. o drama principia. Porém. agoniza imóvel. nem mãos para o palpar. Quase um cadáver. Ei-lo por terra.contrárias. por fazer dele um extraordinário desgraçado. na direcção unânime da mesma estrelinha redentora. mas diminui-lhe o alcance e a estabilidade. Dos elementos de um corpo ao corpo vivo. o Tempo. Drama genial. Várias vezes o escreve. para daí formar a estrela de um diamante ou a lágrima sanguinolenta de um rubim! Na obra imortal do poeta a centelha divina foi o Amor e a Dor. bórax. exaltada. Arte incompleta. das rimas faz lanças. O drama da Vida e do Destino. até se fixarem. E é nesse cenário formidável que o drama titânico vai desenrolar-se. a ausência daquela unidade psicológica característica dos grandes heróis e dos grandes santos. Mas que temperaturas prodigiosas. a terrível batalha espiritual que fez de Antero um homem de génio. Os entusiasmos do batalhador encurtam a visão do filósofo. cromato de potassa. das odes faz metralha. por último. a cólera exalta-o. Soldado bravio e generoso. daí. afinal. Tinha de o ser. que distância enorme! Que é um diamante? Carbone puro. A que horas? O quadrante da ideia marca uma única . mais largo. onde há páginas admiráveis. e o cisco da arena revolvida empana-lhe as profundidades do horizonte. O Espaço. evaporou-se. E o drama. só a razão e a consciência. o lutador. E que no poeta das odes agita-se ainda o revolucionário. eis o minuto. Imprime à sua arte um cunho indelével de nobreza moral. Daí. Onde estava? No Infinito. O mundo concreto. Chega a hora divina. A razão do filósofo. que combinações desconhecidas. O drama da Consciência e da Razão. não chegam ainda à grandeza épica e soberana que o tempo não amesquinha. Um rebelde exausto. não o gerariam ainda. em si. o mundo das formas. nem olhos para o ver. grandiosa e simples. E a forma do artista. aliadas à arte. Destruída aos dezoito anos a unidade da alma pela morte da crença. Em bocados a lança. o mais alto e veemente que no espírito humano se desencadeia e tumultua. Que é um rubim? Alumínio.

em vidas inumeráveis. mas defini-la só o canto. o amor e a dor. ser a voz da água e do vento. desde um infusório até um Buda. desde um mineral até um Cristo. faz um anjo. as electricidades criadoras! Cantar as formas e as essências. os fluidos radiantes. o olhar. o drama religioso do Universo. dos anjos para Deus! Cantar o Gólgota do Ser. matemática viva. do tigre para o homem. atribulando-o. dos infusórios e dos sóis. a óptica descreve-a. do espírito através da dor. da rocha e da floresta. Quer os glóbulos do sangue. a lágrima! Cantar o sangue impetuoso. Em vidas sem conta. quer os glóbulos astrais movem-se por música. o beijo. Os ritmos silentes do Universo traduzem-se pelo som nos ritmos do canto. O prisma decompõe-na. eis o revelador da natureza. as marés vitais. Ser o Cantador! não ter outro nome. dos homens e dos monstros. pode a alma vegetal da cruz atingir quase em perfeição a alma celeste do seu crucificado. linhas que desenham espíritos! Cantar a marcha heróica e resplandecente do lodo para o verme. Quem és? . números que dizem ideias. crucificando-o.o Cantador! O homem que canta! Este verbo cantar é sagrado. a dor. se ela quase produz a Divindade! De um justo. desde a cinza da urze ao pó dos astros infinitos. O CANTADOR (PREFÁCIO AO LIVRO DO CANTADOR DE SETÚBAL) Que titulo augusto. a língua suprema do Universo. enfim. Um sol é um órgão e a luz uma sinfonia esplendorosa. 1894. a cruz eterna e formidável que a natureza leva aos ombros! Cantar. do verme para o tigre. das nebulosas e dos átomos! Cantar o riso. O canto. que nome ideal para um vivente .que produzisse o Génio. Cantar é divinizar o som. O Cantador! Que nome ideal para um destino! Ser o cantador. e de um santo. do homem para o anjo. A evolução da natureza. as seivas genésicas. como o verbo florir ou o verbo resplandecer. E o drama do Universo cantá-lo ao Universo inteiro. a Paixão do Viver. pelo Amor e pela Dor. A vida inteira é harmonia inteira. faz um santo. não é mais que a infinita passagem do amor através do sofrimento.

fomes. Não sabendo ler nem escrever. Sob o esplendor de ocasos outonais. onde moras? Na vida imortal. E que são barcos senão harmonias flutuantes? Uns em águas cristalinas deslizam como ídolos. Ganhaste com o suor da fronte o pão de cada dia.O Cantador. harpas gigantes que flutuam. Nunca fiz mal a ninguém. pela inocência. a concha sinuosa. Falar-te-ei com simplicidade. meu pobre e humilde Cantador de Setúbal! Tu foste. Se mau pago tenho tido.. e tu andas florido. desastres. que Primavera! há mais de meio século. como epopeias. alegria clara. Canto de cuco. E o último suspiro mandá-lo à vida imortal. para dedos de sombra e misereres de luar. para que me entendas. pela ternura infantil do nosso coração. Bondade ingénua. que nasceu entre pedras. dizia eu. Não são navios. . O vício não te manchou. galeras melancólicas. a alma lírica e luminosa dos deserdados e dos simples. na misericórdia de Deus adormeceste. são harpas boiando. a voz amorosa e meiga dos seus desalentos e pesares. Foste o eco risonho das suas alegrias. à hora extrema. sulcam voragens e tormentas. Onde nasceste. iniquidades. aos olhos de Deus. exala-se das tuas cantigas sem arte. Arrancaram-te lágrimas piedosas os tormentos do Mundo. Amaldiçoaste a soberba. A raiz chupa ao lodo a flor que nasce na vergôntea. tranquilo. meu ignorante e ignorado Cantador de Setúbal. no seu último canto! Ah! como eu te invejo. pobreza santa. flagelos. sempre o mesmo canto. misérias. És o Cantador! És o Cantador! Por mais de meio século. és um grande poeta. do lodo da vida. Os grandes poetas são os grandes homens e a grandeza humana. como um aroma delicioso de um matagal inculto. recordo-me de ver em baías ermas. Quem te criou? A vida imortal. Se acaso fiz algum bem. poderão dizer o que tu dizes: Nunca fui mal procedido. Tu. ao ritmo do teu macete martelando no escopro. guerras. singelo e monótono! Embora. Mas agora dou fé que. meu velho. aparelhaste barcos e canções: barcos levando esperanças e misérias. e todas as noites. mede-se pela virtude. Harpas de sonho. Que fazes? Sou o Cantador. extraíste a canção que é a flor em música. os mastros nus e fugitivos. Bem poucos mortais. estou cantando e não percebes o canto. a tua bondade. na tua ignorância. eis o resumo simples da tua vida. canto a vida imortal. Mas a flor vem de ano a ano. sem o querer. as cordas leves e puríssimas. o crime não te desonrou. com a alma em Deus abriste o olhar a todas as manhãs.. Ora. cuspiste no dolo e na tirania. outros. canções levando lágrimas e risos. aereamente destacando. Não estou disso arrependido. à luz ideal. pelo sentimento verdadeiro da nossa alma.

Sim. Autobiografia espiritual. poucas o fui. coordena a idealidade do ser com as aparências do ser. plena. Venero em ti a beleza única. e eu. já consagrados pela história. querendo sê-lo muitas vezes.amor e beatitude. acaso pesarão mais as tuas cantigas de analfabeto que muitos poemas ilustres. com a matéria . na balança de Deus. Confissão verdadeira. Maior. obra dos sentidos. o Deus . Maior do que eu és tu. dilacerada e furiosa. a dos Pobres. 1901. demoníaca e santa. enfim? Não. manda-me de longe a tua bênção. Histórias diversas que se resumem numa história única: a da sua alma. da imaginação e da volúpia. em paga do meu afecto. de um coração que repercute a dor eterna da natureza. percorrendo vidas. Venero-te.São defeitos pessoais. transitando almas. mas que só ao cabo de oscilações. absoluta de um organismo que sente a música misteriosa do Universo. A sua. o espírito com as formas. . RAUL BRANDÃO (CARTA-PREFÁCIO AOS POBRES) O seu livro é a história patética de uma alma. na realidade. Não vejo diante de mim um poema estéril. Tu foste bom continuamente. a da sua vida.crime e sofrimento. de imensidade religiosa. porque és melhor. Na balança invisível da igualdade. blasfemadora e divina. a beleza moral. Todos seremos iguais No reino da eternidade: Na balança da igualdade Deus sabe quem pesa mais. dúvidas e desânimos. sem dúvida. Cantador velhinho. Cantador humilde. Qual? A do Gebo. a de Sofia. a da Mouca. Vejo um acto profundo. espontâneo. a de Luísa.

o material evapora-se. essas conservam aquela graça radiante. correspondem. Tudo vive. circulam desejos. penetram. tudo vive: o homem. E. no bronze mais compacto. tudo sonho. Desagregou-se. Vamos ver se a desenho com rapidez e precisão. beijam. Em cada bloco metálico latejam oceanos dormentes. deslumbramento. o fruto. quer equilibrar-se. estremece. eis a língua clara do Universo. deseja. o que sentiu? Assombro. e a luz do Sol. porque a morte criadora continuamente o desorganiza e reproduz em formas novas e diversas. Rigidez. dramas. aniquilaria cardumes de planetas. de fios móveis. a água. a fera. a seiva gerou.. Mas a esplêndida confissão das almas vertiginosas. braseiros de mundos. Fervedoiro de vidas insondáveis que o tempo não esgota. incerto. catálogo de ideias. cambiantes. como um aroma.. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. incorporeidade genésica do éter. o ar. Andou o infinito e lembra-se. de vagas fluidas. Como o fogo devorador dissocia o rochedo. sem ninguém ver o tecelão. infinitésimo. conta-nos a natureza a sua história. O inconsciente imenso não acorda. andará o infinito e já o sonha. enigma. As cordilheiras inabaláveis são redemoinhos dentro de enxovias. Tudo vive. nem muro a que se encoste?! Tudo impalpável. pavor. se tais almas se desdobram. E uma teia vertiginosa de fios sem fim. O homem é um resumo ideal da natureza.. O sonhador dos Pobres é um evocador atormentado e religioso. pavor. Se baixa os olhos do imenso ao grão de areia. da boca que tem dentes. aquela omnipresença espiritual que as deixam embeber. e o bloco obtuso. que é sol volatilizado. murmura e sonha. transidas de eternidade e de mistério. turbilhões de moléculas e vontades. a confissão dos críticos. a natureza denuncia-se. tudo voragem. Não a confissão mentirosa. deslumbramento! O homem vacila. não existem. e é lama. irradia no éter. cérebro que pensa. e é flor e fruto. E todas se cruzam.. solidez. electrizado. ilusório. se não há terra em que poise. aluviões de nebulosas. a personalidade rígida encarcera e coalha as personalidades voláteis e difusas. a confissão vulgar. resolve- .. dentro de um bloco duro. o grão de areia. No homem vulgar. a raiz tocou-lhe. existir na fraternidade cósmica e divina. há labaredas ignotas que dissociam as almas. Acordem-nos. Vidas infindáveis eternamente circulando numa vida única. olhando a natureza. O génio supremo é o santo. As almas emotivas dos grandes visionários. Assombro. É o sonho cativo num ovo hermético de bronze. rol de inteligência. corpo que caminha. na eternidade impenetrável. tudo vida. esplendor. palpita. mover. pesa menos que uma folha de rosa na mão de uma criança. impenetrável. As confissões augustas são as dos poetas e dos santos.. mas onde. alimento. O concreto dilui-se. invisíveis. Alma vibrátil e fugaz. inércia.. desagregando-se. carne que fala. a rocha. tombando. urdindo-se ela mesma. e é seiva. e o sangue vermelho. o alimento sangue.O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me.. ondeantes. porque está. para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-análise. Quando o génio explui. O Sol. fugaz. desmaia. O verbo santo. esplendor. Na fraga mais dura. Vede um penedo monstruoso: Parece firme. ilimitado. Natureza! Universo!. o lodo.

que é a vida? Chega à segunda fase. os intestinos de bronze. ao curso da bala. brigando. um desejo que sente.. sem principio nem fim. Articulou todas as línguas. o que não dirá o colóquio formidando de todas as vontades do Universo! Tem cada organismo a sua língua peculiar. das vozes mudas do incriado. e as bocas hiantes. e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente. foi nebulosa. o olhar de relâmpagos. Que é a vida? A vida é o mal. ilusórias. a luz à folha. O homem é a fera dilatada. Os que vivem mais próximos entendem-se melhor.se-lhe em vidas infinitas. no mesmo abismo devorador e criador. rasgam. Depois de ver o Mundo através dos sentidos. e delas conserva. rugindo metralha. o azougue é íntimo do oiro. um desejo que fala. Quer contemple o Universo. com as escamas de aço. tudo quer e tudo vive. foi gás impalpável. dilaceram. silenciosas. que é de vinte quilómetros. infinitamente caminhando. O Mundo resolve-se-lhe num jogo de forças. Tudo se move. Abismo de aparências ocultas. crisálida do anjo. vagas memórias dormitando. reagiu por três formas ou em três fases emotivas. Os orbes fraternizam. A expressão última da vida terrestre é a vida humana. abismo de vozes que se não ouvem. num conflito de vontades. A natureza taciturna exprime-se magicamente. O ar segreda à água. que é de dez metros. O léxicon. julga-o através da razão e da consciência. a alma engolfa-se. foi monstro e planta e verme e rocha e onda. perturba-nos. e raros com a intuição prodigiosa do meu amigo. .a emoção dinâmica. o pólen ao ovário. diante do Universo. enche-nos de terror. O homem.forças infinitas. alguém o ouviu que se recorde? Alguém. a quatro léguas. E no pélago vertiginoso da mobilidade universal é cada átomo invisível um desejo que nasce. Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de guerra. O Progresso. Mas. O oxigénio é íntimo do ferro. Abreviando: A sua alma. das línguas tácitas da natureza. num tumulto desordenado de egoísmos. A fera. Há fluidos que se casam. a dez passos. casando-se. estonteada. em línguas vagas. Por isso. pavorosas. obscuramente. os poetas adivinham. E quando num pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas há na Terra. e a vida dos homens cifra-se numa batalha inexorável de apetites. foi éter invisível. vomitando morte. os metais amalgamam-se. que se entrechocam. mastigando labaredas. Estudei a primeira . Desliza da emoção dinâmica à emoção moral.. quer examine um corpúsculo. raízes que se querem bem. a raiz ao lodo. O homem. para copular! Matéria infinita . transfigurando-se em aparências rápidas. marca-o a distância que vai do salto do tigre.

No cofre do banqueiro dormem pobrezas metalizadas. desastres. A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseráveis. O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinela. acendem fogareiros para morrer. visto os palácios devorarem pocilgas. o seu coração misericordioso de poeta inclinou-se espontaneamente para a Dor. As dinamites do químico estoiram montanhas. Vivem quadrúpedes em estrebarias de mármore. Uma víbora envenena um homem. Uns nascem para reses. crimes. Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na época secundária. sangrando. arrasta uma capital. O clamor atroador de todas as angústias não arranca um ai da imensidade inexorável. bulindolhe a asa de uma vespa. o mal e o bem. Maior abutre. roídos de vermes. usam anéis de brilhantes alguns cães de regaço. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores. rochedos hirtos e matagais. vestidas de trapos. por alfombras. e criaturas esplêndidas. igualmente cândidos e nevados. por falta de uma côdea. e as ervas gulosas não distinguem a podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc. E. como as vergônteas para a luz. Há criaturas lôbregas. aparecem na última. enquanto milhões e milhões de miseráveis caem de fome e de abandono. um megalossáurio é uma formiga. Enfeitam gargantas de cortesãs rosários de esmeraldas e diamantes.A pata pré-histórica do atlantossáurio esmagava o rochedo. com o homem. como os abutres o carneiro. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil. como o rochedo imóvel. Bendito o óxido de carbono que exala paz e esquecimento! E a natureza insensível ao drama bárbaro do homem! Guerras. Homens que têm impérios. ódios. . Reguem vergéis com sangue de Iscariote ou com sangue de Cristo. o riso e as lágrimas. tiranias. enfim. entre o amor e o ódio. mas um homem. A humanidade. e agonizam párias em alfurjas infectas. e algumas criaturas. o canhão Krupp rebenta baluartes e trincheiras. O matadouro é a fórmula crua da sociedade em que vivemos. radiando ao sol. e homens que não têm lar. todo o boulevard grandioso reclama um quartel. deixam-na tão indiferente e inconsciente. bem mais sinistros e lutuosos que rosários de crânios ao peito de selvagens. minando montes. Os homens repartem o globo. um cárcere e uma forca. sacrificados à soberba dos príncipes. e os pés vagabundos calcam. à mentira dos fariseus e à gula devoradora da burguesia cristã e democrática. outros são jantados. hecatombes. da besta sobre o anjo. Uns jantam. cobertas de oiro e de veludo. dos fortes sobre os débeis. Ao pé de um Napoleão. iniquidades. Os pés mimosos das princesas deslizam. como nozes. maior quinhão. e os lírios inocentes (estranha inocência!) desabrocharão. outros para verdugos. Os lobos da velha Europa trucidam algumas dúzias de viandantes. Há homens que ceiam numa noite um bairro fúnebre de mendigos. sozinho. é a vitória dos arrogantes sobre os humildes. Bebem champanhe alguns cavalos de desporto. luzentes de oiro. Se a presa do mastodonte escavacava um cedro.

. Olhos. E tudo vago. Quando uma chaga aterradora o surpreende. Louco de piedade. As suas figuras não constituem individualidades reais. E o seu mundo.. articulando a alma de um vidente. conglobados em duas ordens genéricas . no minuto e na rua. são bocas de visões. arquejam ralas estertorantes. ardem febres. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas. brancos. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. Conta-lhe os ais. hordas de monstros. coroadas de úlceras. Em vez de a analisar. por cadeias. cardumes de abominações e de agonias. minas. guarda-a no coração. E o mundo caótico da miséria. Busca-a. como entulhos. abismos hiantes. Chamei aos Pobres uma confissão religiosa. aglomerados e abandonados. o mundo dos pobres. não se desenham as formas. Madalenas lívidas. confuso num rumor longo e subterrâneo. fermentam promiscuamente. Explora desvãos. boqueirões de sombra.por hospitais. por alcoices. Falam a sua língua e contam-nos a sua história. gemem crianças vagabundas. Fareja-a de noite nos bairros leprosos. covas. reflectindo todos eles um único semblante. E do âmago dessas noites insondáveis pululam turbas espectrais de crucificados. que julgamos distinto. verdes ou azuis. caracteres verosímeis. indistinto. angústias. virtudes. decompondo-a. O poeta dos Pobres não é um romancista. Pesquisa dédalos caliginosos. nas roucas escuridões tumultuosas. onde crimes. esconderijos.a . como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer.. choram. por antros... Os seus pobres. não os micróbios. Não em galerias ou museus. no espaço e no tempo. O meu amigo colecciona dor. que a noite pútrida gerou e a noite soturna há-de engolir. que vem de Deus e para Deus caminha. gestos. não a envasilha num frasco. bandos de misérias. raivas. luzem gangrenas e podridões. tossem tísicos. vícios. Não se destacam. desesperos. meu grande visionário. regougam fauces patibulares. porque aparece deformado. Ululam tropéis disformes e sangrentos. Dir-se-iam espelhos. do homem sicrano.A dor é o seu deleite. analisa-a beijando-a. Não há dúvida. desejo febril! . Não a história. do homem infinito. relampeando na sombra. cloacas de humanidade. trapeiras. engolfa-se nas trevas mudas e soturnas. bocas. mas a história. planos. como esterqueiras. cafurnas sem fundo. cortadas de clamores. No drama dos Pobres há dúzias de actores e um só personagem: o dramaturgo. anavalhadas de blasfémias. logicamente arquitectados e definidos pelas inúmeras causas de existência.. bocas de escárnio crocitam sem dentes e sem pudor. que gotejam sangue. quase desconhecido e genial. vazadoiro de almas. A alma do evocador fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que ele evoca. Nada mais. Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. pávidas de gemidos. côncavos ou convexos. meu amigo.

por fatalidade fisiológica. ricos e maldosos. nos dois casos. ainda roubando ou esfaqueando. A miséria. Mas quem me leva a dizer que a natureza é iníqua? O sentimento do bem e da justiça. a natureza é o mal. Os seus ladrões. afirmação de todo o bem? A ideia do bem e da perfeição.herança e o meio. porque a lei que a rege assegura o predomínio e a sobrevivência do mais forte. tumultuosa e vária. A natureza. sendo a natureza o mal. de onde vem essa lei. uma lei monstruosa. eis os três . o nome verdadeiro de todos eles é um só: a Dor. santuários sagrados de tribulações e de martírios. o Universo de Deus? Chegamos à terceira e última fase do seu espírito: à fase religiosa. Logo. se resume logicamente em dois homens apenas: o algoz e a vítima. o complexo do simples. quem a impôs ao Universo? Quer a criasse. porque são vitimas dos primeiros. à emoção divina. Movimento infinito. existe também na natureza. eis o seu mister. todos solenes. cadeias e prostíbulos. Inevitável. Todos os ricos. para lhe descobrir a essência e natureza íntima. hirtos. afiguram-se-lhe à imaginação misericordiosa como templos de angústias. é já um princípio de virtude. nenhuma das prostitutas do seu poema resvalaram ao vício ou ao crime por vontade própria. são perversos. calcou-os a injustiça. onde se amontoam. desagregada em movimento. levada ao infinito. Os bons são os que padecem. 59) parecem-lhe "uma galeria de afogados. E as alfurjas. num horror tenebroso. os vícios alucinados e os crimes exorbitantes.. Desde que o meu amigo rasgou as máscaras enganadoras ao Universo. quer ela seja imanente ao Universo infinito. mesmo sinistra e delinquente. Golim . com o Universo. O nome real. não roubam. e todos os miseráveis. assassinos e meretrizes. a dor do enxurro canonizada e sublimada. negadora da suprema ideia do espírito do homem. Mas. amor infinito. Os retratos dos benfeitores do seu hospício (pág. A sua infâmia e a sua ignomínia são a avareza ou a luxúria dos homens opulentos e devassos. o homem que sofre e o homem que faz sofrer. ainda os caridosos. quem a gerou. uma vontade alheia. pois que eu sou natureza. Nenhum dos ladrões. a lei do amor e da justiça contraposta à lei da força e da violência. não matam. são criaturas boas. Luísa. é a ideia de Deus. visto os maus triunfarem e os bons sucumbirem. o mal do bem. Sofrer. toda a imensa humanidade. traduziu-se-lhe em dor e resolveuse-lhe em amor. a ideia do bem e da justiça. Obrigou-os a fome. Mas como harmonizar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como fazer sair a diversidade da identidade. como é que dela nasceu o mesmo Cristo. É um flos sanctorum da miséria. desenraizável do meu coração e do meu cérebro. Se Cristo morreu na cruz. e desde que a lei do Universo é o predomínio do mais feroz e do mais forte. dor infinita.pseudónimos. Mouca. não copulam: sofrem. é. Mas se a lei da natureza é iníqua e feroz. de lábios finos e ar de cerimónia". Gebo. Contradição inexplicável: A natureza é iniquidade.

vencendo a infinita dor. o sofrimento espiritualizado. satanás-universo. que vem de Satanás. a paz absoluta. Eu creio que. O seu livro não é a história dialéctica da razão de um homem. no sorvedoiro cósmico. evolutivamente. das energias infinitas. a dor das estrelas. ele é a infinita alegria. Se o homem foi tigre. dissecando-a. abstractamente. a glória eterna. Beleza de essência ou beleza de aparência. converteu-a em amor. hermeticamente inexorável. sistematizando e codificando a natureza. que nos leva ao Céu. cristalizou num ponto. à dor universal. A flor é a dor da raiz. É a confissão clamorosa. a história plena e formidável de um organismo inteiro . e tudo vive. a iniciá-las o mesmo horror e a mesma imperfeição. Mas o autor dos Pobres não desvendou. e a virtude ou o génio. não a formulou em teoremas ou equações. a bem-aventurança ilimitada. Sim. no fundo. o beijo foi dentada. O dinamismo atómico do Universo reduziu-o . Há em cada alma . É a história de um homem. gélido e penetrante. desdobrada em ideias. vencendo-a. Toda a alegria pura vem do amor. Não há pois evasiva? Há. como o corpo de Vénus entoa a vitória da linha viva e musical sobre a linha inerte. revelou o insondável. Almas inúmeras se agrupam na alma sintética e central. Desse Inferno sobe uma escada de chamas tenebrosas. a linha bruta e desarmónica. a história universal de um homem. da boca que reza e que tritura. cristalizando no homem. adquirindo voz. e do Purgatório uma espiral de luz radiante. retraindo-se. com ele interrogando. satânica ou celeste. Vida infinita igual à dor eterna. a luz. ao fim de um calvário inenarrável de milhões e milhões de séculos sem conta. nos olhos cada vez mais abertos da sua alma. que se lhe afigurou a essência íntima da vida e sua única expressão. Deus é. não era. A alma. o amor infinito.rostos da natureza no espelho cada vez mais profundo da sua consciência. A dor não era irredutível. Viveua. na eternidade e no silêncio. que vai ao Purgatório. agudo e claro. o segredo da natureza. não para que o Mundo lha oiça (então seria hipócrita) mas para que Deus lha escute. Pandiabolismo. A alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime. vencendo infinitamente a infinita dor.pavorosa síntese! -à dor sem fim. A alegria é o sofrimento amoroso. Não fez do cérebro um instrumento de visão. A dor. E. o fundo irredutível do Universo. O abismo insondável. Não a estudou como filósofo. e todo o amor inclui o sofrimento. e esse ponto. da alma do anjo que se encaminha para Deus. Do verbo odiar nasceu. das mãos que abençoam e que destroem. ao cabo. ancestralmente. dos olhos que choram e que fulminam. o verbo amar. Viver é sofrer. têm. furiosa e cândida. descarnando-a. o borbulhar infinitiforme da existência. do sangue e das lágrimas. Não há beleza esplendente que não fosse dor caliginosa. o substrato último da natureza. Não é a história de um encéfalo. pois. evolutivamente amalgamadas no mistério pávido de um homem. a explicação religiosa e íntima da vida universal. Um circulo infernal. gemida e rugida. a dor ascendente do éter luminoso. ideologicamente. adoramos o mesmo Deus. da alma do lobo. Não mediu a vida a compasso.da carne e dos ossos. eis a equação matemática da natureza. tudo sofre. dia a dia. virtude de Jesus ou formosura de Vénus. confessou o abismo. até lhe descobrir as leis inalteráveis e recônditas da sua estrutura evolutiva.

evaporam-se e fundem-se em harmonia mágica e perfeita. ora aproximando-se de um. que é Satanás. vai oscilar e flutuar a sua alma. catástrofes. Se a bondade e a paz lhe existem no coração. é o apetite. a meio . Desde a mais clara à mais crepuscular e tenebrosa. como as electricidades formam raios. Guerras. conforme as horas ou os dias. E umas tão horríveis e loucas. isoladamente. divinizada. tão férvido e tão lúcido. Não o descobre pela razão. ora imobilizando-se quase. mas vida viva . habitando connosco. O meu amigo não raciocina. ingénuas e vivas. entre Deus e o Diabo. Palpitam de vida. a natureza. bem no fundo. Só crê em Deus. em amor supremo. lutas. é Deus ou Satanás.infinidades de almas. sem ocultar uma única. O seu Deus é a expressão da sua emotividade. quando em si. Entre os dois pólos. As ideias brotam-lhe espontâneas. no âmago da alma. Ciclones de ais. a natureza resolve-se-lhe em Deus.no estado genésico. porque é o amor ilimitado. O seu Deus não é o último termo de uma cadeia lógica de silogismos. é na química que a explicação do Mundo lhe aparece. Gritam. da sua moralidade. Logo de começo. atinge-o pela emoção. Deus o redentor universal. a páginas 42. blasfemam. e não é já em Deus. O poeta dos Pobres conheceu-as e confessou-as todas. crimes. que. vista de Deus. Sobe-se ao amor pela dor. divinizou-se por encanto. momentaneamente o realiza ou tenta realizar. conforme o equilíbrio instável da sua carne e do seu espírito. que arrebata e deslumbra. ser só e livre. ululam. Qual a fonte do ser. não discorrem. de matéria bruta. Mas. rezam. reverte e regressa à sua forma demoníaca. Tal um Cristo. irradiou-as todas plenamente. como o sangue da facada ou a flor da haste. num paroxismo de dor e de misericórdia. Não falam. A vida é um calvário. Ou. é o amor. no estado nascente. É o ser infinito. que as escondemos para que as não vejam. gemem. sem apertos de mão. daí a instantes. de imprecações. e outras tão inconscientes e profundas. Mas logo adiante. ora aproximando-se do outro. não discursam. O meu amigo pensa. E a natureza tenebrosa. as não chegamos sequer a conhecer. só descobre Deus. Cristo é um redentor humano. com o encéfalo. a verdade da vida. Raciocina de chofre e com todo o corpo. desordens. uivam. retrogradou ao individualismo anarquista. a razão da vida? É o acaso. ao egoísmo feroz. pelo hausto indutivo das duas correntes antagónicas. de orações. forma juízos. que sonho!" Do altruísmo absoluto. sem conhecidos. do absoluto amor. define Deus abrasadoramente numa língua de chamas. "Ser só. de fúrias. de lamentos. e que. pela virtude. entre o bem e o mal. que é Deus. a páginas 29 e 30. o egoísmo invade-o. penosa e religiosamente escalando o calvário. num êxtase candente e lagrimoso. Fulgiu-lhe súbito. Do pólo positivo saltou ao pólo negativo. sem amigos. à redenção pelo sofrimento.

A oração é a canção angelizada. para o afecto dos meus parentes e meus irmãos. a aplainarmos cruzes. a cruz nos ombros. águas e árvores. o único verbo criador. fraterniza em Deus. entre o fogo ardente da batalha. claras e radiantes. Reze chorando. O frade tenebroso. na concha da mão exangue e paralítica. junto do meu pai humano. Reze o lodo e o sangue. Polarizouse em Deus. pobrezas. a obras futuras. e em Deus ficaram imóveis e serenos os olhos tristes da sua alma. o hospital. e as ondas. para o conchego do meu lar. Enganam-se os que vão para Deus.da encosta. varado de dor. Cantar não basta. desisto do Céu e volto para trás. sóis e nebulosas. na acção e na luta. retrocederia na encosta do sofrimento e da amargura. Ouve-a Deus. Reze o triunfo do amor. há-de salvar os outros. servirá de entrada e de prefácio. sangrando e chorando. O Universo absorve-a. orvalho vivo e criador. Rezar o Universo é polarizá-lo no infinito amor. Antes risonho e feliz. arrojasse a cruz dos ombros. A ascese egoísta é anticristã. para a ternura de minha mãe. ulcerada de sóis e de nebulosas. O seu poema é a história da escalada trágica do seu calvário. sofrimentos. voltando as costas à natureza.dois zeros. a marcha épica da vida pelo caminho eterno. Livre. ou a sacudiu exasperado. morto e crucificado. a terra trágica. Rezar é mais. Reze todas as dores. Não volte à servidão. Quietismo e niilismo . mas reze também a alegria. Quem se quiser salvar. Mil vezes o meu amigo tomou nos ombros a cruz da dor e da paixão. já lá no fundo. A arte vale mais ou menos. pedras e nuvens. como um hálito amigo. segundo a porção de amor que abrange e que revela. que é o verbo amar. Quem renegar a natureza. à escravatura negra e demoníaca. exclamando num ímpeto: "Basta! Se o caminho do Céu é um caminho abrupto. Rezar é o superlativo divino de cantar. com maior fé e maior ânsia. Rezar e chorar. O universo atómico. exausto. com o verbo infinito e perfeito. Rezar como Nuno Álvares. unifica-se em Deus. vagamente a percebem. que é carpinteiro. enfim! Libertou-se. ulcerada de mortes. que é dor vencida e desbaratada pelo amor. o ninho. . Mas por fim. misérias. as águas e os rochedos. Chegou a Deus. dois sinónimos. de vez e de vontade. Lágrimas de aurora. galgou a montanha do erro e do sofrimento. apagando o Universo. do que.homens e monstros. a alegria ascendente da natureza. e outras tantas a deixou cair. na glória infinita do meu divino Pai celestial!" E assim blasfemando. renega Deus. os homens escutam-na. mas heroicamente. Mantendo-se liberto. Reze a dor. com ais de desânimo. apaga Deus. e a noite côncava e fúnebre. voltar a subi-la novamente. lutos. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda . no Mundo e para o Mundo. uma inferneira íngreme. a enxovia. mas lágrimas fecundas que façam parir a Terra. que não tem fim. palpitar o seio e germinar a semente. para. o covil. partículas inúmeras e vagabundas. o cárcere. compreende-a. O quietismo beato. patética mas angustiosa e desigual. a obra de hoje. esvaído o ânimo e evolada a fé. cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. vastas. uma carícia branda e luminosa. a canção chorada e de mãos postas.

atravessando uma ponte. que é vicio ruim. Deu-a. o milagre é idêntico. mentem. na ordem bruta da natureza. Rezemos. Certas criaturas. que quanto mais a calcam. aos tristes. magnificamente. deixando-nos. vivificando e sublimando. 3 1902-3. que não pensam e vão para onde as levam. tem um globo de oiro constelado. Em Sousa Martins houve esse dom de taumaturgo. encanto. conjugadamente. É o milagre do amor. É o nada olhando o não ser. os que nos entendem. E se nos apedrejarem e ensanguentarem. SOUSA MARTINS Uma turba desordenada. a inflexível arquitectura de metais oscila e ondeia. O dom de levar aos corações o ritmo ardente e juvenil do seu coração prodigioso. ao termo de mil hesitações e desenganos. com todas as seivas do seu corpo e todas as labaredas do seu espírito. Portanto. alegria. mais ela se entranha no seio ardente que deseja. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a glória. muito melhor. Arte criadora. cravou as raízes para sempre num ideal de amor e de verdade. em vez de caveira. generosidade. melhor ainda. desviando de nós as multidões. que seja pão e seja luz. melhor. O monge radiante (S. como o Sol dá luz. Os outros. embora de longe. melhor. um olhar. Lesam-nos somente na vaidade. Tem o Universo e Deus. aos . os que nos amam. esperança. mais ela penetra no ideal que busca. prestam-nos favor. E a mentira só aos mentirosos prejudica. podem-na ferir e ensanguentar. Radiou amor. em balanço harmónico. não a faz oscilar. Os que nos querem. 2 Seja ele o tipo a que se encaminhe. Quando a alma. aos miseráveis. Se nos acusarem de hipócritas. ficarão connosco. deixá-los acusar. porque foi bom. E se nos perseguirem. podem calcá-la e torturá-la.sustenta uma caveira. Viveu a vida efusivamente. E se nos insultarem e injuriarem. melhor. grama que custa a deitar fora. com um gesto. abalos magnéticos de simpatia ou de heroísmo. melhor. a nossa fé e a nossa arte. Sousa Martins foi grande. aos revoltados. ao ritmo leve dos pés de uma criança. uma voz. E. Na ordem espiritual. determinam correntes. onde se ergue uma cruz. Francisco) na dextra poderosa.

E desposa a dor imensa da natureza. chegou. a crueldade.sonhadores. A sua mão guiou. A dor é a escada de fogo que nos conduz à vida eterna. Teve sorrisos para a graça. Não resplandecem mais os poemas de Dante do que as úlceras de Job. Ama os humildes e os cândidos. em bondade. Para onde? Para aquele outeiro verdejante. JUSTINO DE MONTALVÃO (APONTAMENTOS PARA UM RETRATO) Um cristão helénico. As lágrimas enternecem-no. que é o absoluto Amor. essencialmente cristão o belo. Tanto faz esculpi-la em bronze. E Sousa Martins. dos pobres e dos poetas. em simpatia pela dor. olhando a Terra. E. entra na vida verdadeira. onde as aves trinam e as águas murmuram e onde. a sua boca perdoou. um filho de Apoio. a dureza. às mãos-cheias. mas não a aguenta. gemendo e morrendo na cruz. vê nela um bloco de misérias. Viver é amar. na absoluta paz. comunga no grémio de Jesus. a hipocrisia. o admirável poeta dos Destinos. em certas horas. Viver é conviver. desvaira-o de pânico e terror. Um ai de mendigo pode valer todas as sinfonias de Beethoven. Abomina o orgulho. E. enlevos para a arte. Quem fraterniza com a dor. as desventuras comovem-no. na vida infinita. A tragédia divina e formidável abala-lhe a alma. A alma cristã resume-se em caridade. Foi o amigo. 1904. baptizado. Mas o cristão perfeito. a arrogância. como atirá-la. os deserdados e as vítimas. à vida eterna. lágrimas para a dor. Que é da sua obra? A obra dos homens é a porção de Deus que derramaram. pelo infinito amor. Eis a sua obra. desposa os braços duros do sacrifício. à sombra . os seus olhos choraram. Entra em Deus. pois. carinhoso e cândido. Justino de Montalvão detém-se a meia encosta do calvário. e em Deus descansa para sempre. inunda-o de lágrimas. Foge. por calabouços ou calvários. de onde nasce uma cruz.

cabeleira em anéis. Mas Deus invisível. a eternidade muda e tenebrosa. No céu de Vinci. O céu fica distante e os caminhos são ásperos. A Vida é divina porque é bela. dos teatros. ao orbe esplêndido. volta-se para o Mundo. de sonho e de certeza. com a manhã da graça e do desejo na boca ovante e virginal. as bocas das ninfas e as citaras edénicas dos deuses. nem ciência. o focinho do porco. Vivamos. O Universo é ritmo. o seu riso. nem fé.. brota o divino arcanjo adolescente. proclamam a divindade terrestre. Embriaguemo-nos de amor. De um fundo negro de mistério. o milagre da luz. indefinível. fantasma fúnebre. entoam o hino do amor e da existência as corolas dos lírios. Habita-o Deus? Talvez. Outros. não há alegorias nem evidências. cravando nos pomos áureos os dentes jucundos e gulosos. dos museus. sorrindo à natureza em flor. Olhemos a vida como beleza real. ignora Deus. amando a Terra. para a divindade nupcial da terra clara e criadora. Preguemos a vida na cruz voluptuosa dos abraços. polvilhados de oiro. eriçados de cardos e de rochas. O poeta cristão paganizou-se. exaltando a vida. Tremeu da morte. Mergulhemos em Deus. Justino de Montalvão nem oiro. a teologia é Estética.dos arvoredos frondosos. O Precursor de Vinci. Apolo divorciou-se de Jesus. das aldeias obscuras ou das cidades fabulosas. da Vida e da Beleza é o poeta dos Destinos um missionário ardente e vagabundo. Diante do milagre das coisas. indeterminação hermética e nebulosa. Na alma da maioria dos homens grunhe ainda. noite religiosa. em vez de fel. ébrio de força e de harmonia. A revelação é Poesia. impalpável e vago. rosto de enigma. haurindo. diante da flor. no esplendor da hora breve. olhos de encanto. buscando oiro. da cor. dos templos. a dextra audaz erecta aos abismos do Eterno e sorrindo. a natureza é música. das águas. do fruto ou da árvore. busca Beleza. O arcanjo aponta-o. baixo e voraz. adoremos Deus. Os seus olhos. João heróico da Beleza. ciência. A vida não é apenas um vale de lágrimas. Mistério calado. Da luz. Busca harmonia. à criação fecunda. Deus Ignoto. horrorizou-se da caveira. das montanhas. sonho insondável. da canção. Vénus fez-lhe esquecer Maria. dúvida e sombra. o néctar dos beijos e das ânforas. do beijo. da flor. sem temor. E o radioso arcanjo. Noite e mistério. O Mundo é uma sala de jantar e um quarto de cama. o S. do som. é também um vale de rosas e de frutos. quase ironicamente.. Desta religião do Amor. O santo cadavérico. perguntam apenas: quanto rende? Atravessam a vida. E o arquipélago de fogo no oceano vago do mistério. . Outros buscam a fé. de graça e de vitória. A Arte é o culto mágico de Deus. A Terra é a certeza clara do infinito obscuro. a realidade divina e palpitante. dos circos. amputando o desejo. transfigurando-a e sublimando-a em beleza ideal e criadora. eis o santo imortal.

Maria é estrela. infinita Paz. Mas na minha igreja e no meu templo todo o Universo está rezando. a vida olímpica. o ar.. tem vida. da pompa de todas as magnificências. Os orbes são divinos. a flor. que não é um erudito. a emoção a penetra. dos gritos de todas as tragédias. escorrendo lágrimas. escultor. todos os modos de harmonia. e as imensidades estreladas. em arquipélagos de zeros. a outra. lampejos e penumbras. criada na emoção. nem faz a arte nem a entende. a forma sinfónica da Beleza. água e ar. A oração de Jesus é a mais alta. aspiro Deus. reclama Deus. sentir é conhecer. rubor de manhã. E que a arte. linhas e sons. zeros sem conta. de uma profundidade extática. que vida entrelaçada. o maravilhoso artista! E este homem. cântico em Apoio. o lábio. E pintor. A crítica da arte é emoção viva de beleza. germinações. tem asas. o meu ideal de beleza ao do cantor da Vida Errante. em vozes de órgão religiosas. das lágrimas e do sangue de todas as misérias. cânticos. arquitecto e músico. absorvo Deus. sem fim. Murmúrio bruto na montatanha. de um lupanar ou de um sacrário. de uma religião ou de uma alcova. Não busca palavras inertes em dicionários. Sentir é compreender com todo o corpo. mas uma. carne de criança. húmido de sangue. a estátua. Nas suas paisagens panteístas. o beijo infinito. rígida e nua. eternamente escalando os seus calvários. Mundos sem fim. idealidade . como tudo o que desponta. ele arranca espontaneamente. A Voluptuosa é mãe dos homens. a água. avidamente. espírito. São martírios eternos. Frescas e novas. Exalta a Beleza. da intimidade múrmura das coisas. museus de sílabas. percebe-os num relâmpago. gomo de verdura. frémitos. em ritmos de orquestra e de Beleza. Não se ajusta. a pedra. Genesiam-se. E só pela infinita dor chegam a Deus -infinito Bem. sílaba na rosa. infinito Amor. olhando o quadro. o belo. Tem sangue. A sua língua é uma criação contínua do desejo estético.das arenas. O Mundo sem Deus converte-se-me em fruto oco. . cheia de graça. Na arte. que vida fluida. A natureza é um credo ascendente. ignora o pranto. por inteiro. Oh. o radiante. Na fronte do meu Apolo há um diadema de espinhos. Os seus cinco sentidos apreendem a vida. a Dolorosa é mãe dos anjos.espírito em Jesus. silêncios mortos. 4 Eu vejo o céu tão claro como o cristal ou como a nuvem. uma oração a Deus evolutiva. no coração da minha musa há sete espadas a sangrar. adivinha-os. que vida cósmica! Árvores e rochas. O arcanjo de Leonardo aborrece a dor. porque é o hino do Amor cantado pela Dor. da história ou da anedota. a vida heróica. Reza a luz. Lê-lhes a alma. A ideia. Sinto Deus. o monumento. conjugam-se e casam-se. evolam-se da natureza. embebem-se e embalam-se. Fundem-se na sua prosa todos os círculos da arte. porque nascem de Deus e voltam para Deus. Exalta a vida musical. pela magia única da Arte. Ambas deusas.. carne. Vénus é onda. A infinita grandeza pede a unidade.

envenenam o Mundo. As linhas duras idealizam-se. o sofrimento deforma. Acolho-o na minha igreja. Ponho-o à entrada. exala Deus. são expressões sagradas. enviado do Olimpo. Unge a natureza. é Puvis. a encarnação suprema da Beleza. santos. A tristeza amesquinha. eis a flor do Espírito mais cândida. sábios. para começo de culto e devoção.da hora e do lugar. que mãos humanas têm criado. A santa Genoveva de Puvis. religiosas. filósofos ou artistas. a dor que descansa. é o Homem-Deus da renascença. para exaltar o nosso espírito e purificar os . o cavador. O S. o profeta. quer o poeta. de um fundo de luz e de mistério. São outros os meus profetas. Abençoa e perdoa. Descobre-se o monge. a ideia da Pátria na ideia humana. mas como santo menor.. e esta na ideia cósmica e divina. Os gólgotas são úlceras ardendo. 1908. vivendo a vida instantânea . o sábio. É Mantegna. arauto de Pã.. porque na suprema bondade está incluída a verdade suprema e a suprema beleza. imortalizam-se como o santo. a vida que dorme. sem que o Universo lhe venha preso. com alma de eternidade e de infinito. infinitamente vencendo a infinita dor. é toda ela uma oração. tu és para mim o milagre da Arte. é toda alma. É dessa família augusta o vulto nobre de Herculano. Sente-se a visão magnífica do homem heróico e religioso. corroem a face augusta da natureza. Encarnou esplendidamente a sua existência individual na existência da Pátria. o soldado. e amar é padecer. Mas quer o sábio. Osculemos todos a sua memória. é Memling. tocadas de sonho transcendente. não arrancando uma folha de árvore. A mais alta é o santo. Não mexendo num grão de areia sem abalar o Mundo. Dos pés ao olhar é toda virgem. em lugar subalterno.plena de seiva e juventude. João de Leonardo. Todos os grandes homens. heróis. Chorar é pecar. NO CENTENÁRIO DE ALEXANDRE HERCULANO Viver é amar. é Angélico. A máscara robusta e grave do historiador emerge de uma penumbra ascética. os evangelistas do Senhor. Oh santa divina. Reza com todo o corpo. Deus é o infinito amor. como teólogo imperfeito.

e um cristão sem mancha pelo espírito. mas tudo medíocre. encarnando em música. pela carne. a mulher não se chama Laura. Anedotas. sem violência. unificase e resolve-se. deseja-a. Segundo grau: O desejo voluptuoso purifica-se. toca na essência. Mas. rasgando com um sulco de fogo. idealiza-se. traduzindo-a em cânticos celestes. quando grande. eterniza momentos.nossos lábios. passageiro. JOÃO DE DEUS (BIOGRAFIA ESPIRITUAL) A arte. na mulher. na graça da amante. Universaliza indivíduos. Arte efémera. A mística amorosa de João de Deus tem graus ascendentes de elevação e perfeição. mas sem brutalidade. porque nas horas puras e sagradas viveu a vida infinitamente e divinamente. exprime infinito. é religiosa e panteísta. a desenhar-se nas formas! Sim! a arte é Divindade. evapora números. 1910. ou Natércia. Sente infinito. mas a expressão suprema do Divino radia na beleza deslumbradora e fecundante. da mocidade à morte. Diante dele. Beatriz. o amor único à mulher única. continuamente idealizada e sublimada. um madrigal continuo. divinizado. Em João de Deus há um árabe voluptuoso. Primeiro grau: Vê a mulher. espiritualiza-se. Chega à unidade. o Universo maravilhoso. . João de Deus imortalizou-se. gracioso e mimoso. em melodias mágicas de luz. mistério esplêndido. Mas a poligamia da volúpia. ao cabo. Coisas lindas. a vida inteira. Um galanteio espontâneo e perpétuo. sugere infinito. Toda a mulher formosa lhe leva beijos e canções. a brilhar na cor. move-se em Deus. Não é a paixão singular e soberana. criado por Deus. O centro do mundo de Deus é o beijo de amor. Eucaristia sublime. florido e ridente. Deseja-a com lascívia. inefável! Deus a cantar no som. no Campo de Flores. numa só imagem espiritual. é bela.

. na viagem eterna. Augustos e luminosos. o beijo de duas almas para sempre! Quarto grau: A mulher alma desincorpora-se. criam espírito. a Virgem das virgens.. uma lacuna. sonha-a.. de leve. Terceiro grau: A mulher ideal. em Deus. vencendo a dor. O beijo de núpcias é o beijo infinito. amor. existirá em Deus eternamente. lá vai com ela para Deus. Ainda corpórea. Só chegam a Deus os que levam no coração. o Universo inteiro. 1910. diviniza-se. liberto do Mundo. Os grandes homens são descobridores e redentores. Possuí-la quando? Na eternidade. a caravana infinda. União verdadeira. libertam-se. progridem. Quem é Deus? Ideal perfeito realizado. na Glória. mais radiante e mais pura. E então o santo inclina-se para a natureza. exaltam a existência. fusão suprema? Não. Quinto e último grau: O poeta religioso. OS GRANDES HOMENS O HERÓI . e cantando e chorando e rezando. Na obra do poeta há ainda um vazio. vencendo a morte. agasalha no peito a infância humana. Quando sobem. santifica-se.e o frémito biológico termina em êxtase. deifica-se. ergue nos braços a humanidade. a dor infinita da natureza. cada vez mais bela. mulher anjo! Cantá-la como? Adorando-a. e a alma liberta. banhando-a de lágrimas. Bendito seja. piedade. dando a mão. na marcha do Mundo para Deus.. Os grandes homens avançam para Deus. conduzem como um rebanho. dor. quando o amor eterno vencer a dor eterna. no Céu.O FILÓSOFO Os grandes homens sobre-humanizam o homem. caminham à frente da evolução. sulcando a noite. . é Deus no feminino. Falta-lhe o berço. ajudam. É graça. infinito amor. tocam no âmago do Ser. lírio do Éden! Mulher estrela. mas não lhe toca.O ARTISTA . perde-se em Deus. Os que transportam no seu amor. não isolando-se e afastando os olhos das misérias da Terra. ergue-se a Deus. mas levando piedosamente no coração todos os gemidos da humanidade e todas as angústias da natureza. o desejo sonha-a.. misericórdia. uniu-se a Deus. A canção evola-se em oração. Os seus passos de luz. Quem há-de ousar?!. Jamais! Inviolável! E flor sagrada. como um filho gemendo. vida infinita. na asa do amor. libertando. desvendam mistério.. a Mãe de Cristo. E. a Mãe de Deus! É Deus em mulher.

como a vida da natureza só chega à síntese na ideia de Deus. mas a morte da carne em holocausto ao Bem acresce-lhe a vida verdadeira. a história ordenada dos encadeamentos da existência. aparece na obra do filósofo descrita por cálculos. aumenta-lhe a vida espiritual. fulva de luz. aos grandes artistas. para as consolar. bússolas radiantes. é o amor a cantar. Dá a vida pela vida dos outros. entrelaçada. imolando-lhes. O grau de amor é o grau de heroísmo. eis a norma do herói. que vai dividindo pela Terra. na acção e pela acção. cega de espantos. que o abrange.Eu chamo grandes homens aos grandes heróis. cria a mor. 1913. Deus. O filósofo observa e medita. a vida latejante de seiva. O herói máximo é o santo. a vida encontra a sua unidade e a clara explicação do seu mistério. A vida vertiginosa. Infinito Amor. Todas as grandes almas. A arte idealiza. E. e sacrifício do corpo. a própria vida. Mas o herói dá-nos o amor em acções. O sacrifício ao Bem. Um reza. converte-o em pão espiritual. ébria de beijos. porque só em Deus. A virtude do santo sublima-a no êxtase e na bênção. como a arte suprema. a arte suprema. se polarizam em Deus. é a arte cósmica e religiosa. divina e formidável. se o Universo é amor infinito. O herói também. da evolução do amor. mas aproxima-se dele. recolhendo com ardor contínuo as dores alheias. O artista. a vida eterna. na forma e no som. que é amor a vibrar. que nasce da vontade e da emoção. revelado em música. outro canta. O grande artista não iguala o santo. infinitiforme. criando beleza. patética. É um espelho que pensa. portanto gera amor. contínua. Francisco de Assis é o super-homem. A filosofia é a sociologia do Universo. amor no estado de beleza. aos grandes filósofos. ordenada por argumentos e por ideias. Sacrifício da alma. e a inspiração do poeta magnifica-a na música e no símbolo. na escala mais alta e no estado nascente. é claro que o santo ou o grande poeta conhecem melhor a vida do que o filósofo. tumultuosa. amor em sinfonia. incubada de sonho. porque a beleza é a expressão rítmica do Bem. será também religiosa. Os soluços sem termo da miséria do Mundo ecoam-lhe no coração como ais de filhos. . pois que eles mesmos são a vida espontânea e criadora. no verbo e na luz. e S. E a filosofia integral. que se ouve e que se vê. Mas. O artista faz dele um diamante quimérico de luz e de som. E então a arte ideal define-se deste modo: a natureza traduzida em cântico. trémula de morte e grávida de amor.

ébria de orgulho e de prazer. e os santos só nos ouvem quando estamos próximos. a estupidez. As línguas de fogo só descem quando se desejam. e nela morreu obscuramente. Foi Apoio na cruz. ovante de fortalezas. a mentira. Nessa imperial. nessa Jerusalém das Descobertas. Capital da Luz. dos que viveram no Mundo o breve instante. e o Universo em Deus. Não o deixam. Camões é Portugal. Semeou beijos e nasceram-lhe víboras. durante algumas horas. a alma da Pátria. grandiosa e maravilhosa Lisboa do século XVI. rainha esplêndida dos mares. lidou como um herói e acabou como um santo. E ao mesmo tempo que Luís de Camões. comungando no pão do seu espírito. Pôs na fronte da Pátria um diadema de estrelas. amou a beleza. fulva de pompas. de fome e de tristeza. divinizando-se na dor. palácios. a hipocrisia. amou a virtude. NUM BANQUETE DA COLÓNIA PORTUGUESA O nome sagrado de Camões junta-nos hoje aqui. o maior e o mais sublime dos seus filhos. bazares. a ferocidade . de solidão. nessa Lisboa babilónica. nadando em oiro. praças. agonizou abandonado e atribulado. E desse imenso amor fez colheita de luto e colheita de dor. cúpulas. e recebeu em galardão uma coroa de cardos. bardo e Redentor. O sangue do coração evaporou-se-lhe em génio e verteu-se-lhe em lágrimas. sem pão e sem lar. a festa de Camões. Cantou como um épico. Celebremos o herói religiosamente. Toda a sua existência de herói e de mártir é a escalada abrupta de um calvário. estaleiros. o gigante da raça. aedo e Messias. e ele amou e sofreu como poucos homens. louca de vícios. Amou a Pátria na humanidade. Adoremo-lo para nos sublimar. onde frotas de galeões bolsavam tesoiros fabulosos de países de sonho e de mistério. A vida resolve-se em dor e amor. mendigo e mártir. nessa Lisboa. catedrais. vasto empório do Mundo. chegava à imortalidade espiritual.bando de lobos e de hienas. de gentes estranhas e desvairadas. Viveu pela Pátria. o cantor dos Lusíadas. com olhos de eternidade e de infinito. Amou a justiça. o dia santo da nação. degradando-se. a idealidade da raça num herói. cobriu-a de glória. dilaceram-no. rasgam-no. Pertence ao grupo dos imortais. e. vivendo este dia na sua alma.A FESTA DE CAMÕES DISCURSO PRONUNCIADO A 10 DE JUNHO EM ZURIQUE. a humanidade no Universo. Camões é o génio lusitano. vão atrás dele continuamente. nessa Lisboa rútila e quimérica. em fraterno convívio. A inveja. o rancor. para que nos atraia e venha a nós. envenenada de .

Libertámo-nos. e a alma do povo e a do Poeta fundiram-se avidamente uma na outra. atrás da alma do Vidente. caía escrava e semimorta. candidamente. para Deus. em êxtase. amparando os inválidos como crianças. há trinta anos. é a voz de fogo de Camões quem de novo a desperta e desagrilhoa do cativeiro. à luz fecunda dos seus olhos. nos dias heróicos . O centenário. Dêmos corpo concreto e realidade ao que ontem foi sonho e aspiração. como dois beijos e dois relâmpagos. Nas datas grandes. Mas essa Pátria. no caminho do bem e do trabalho. Foram-se os abutres e emigraram os corvos. que ensine os ignorantes. nivelando as fortunas. vivendo piedosamente vida simples. Criemos uma Pátria ideal. as ruínas escuras do passado embargam-nos o trânsito. erguendo-a por vezes. no êxtase da imortal manhã de 5 de Outubro. que os beijos esplendam. A alma enoitecera-lhe em letargo. a alma divina de Camões. ajude os que trabalham. pura e cristã como a elegia. Camões revive e está presente. abrasou-a de amor. Banimos para sempre os fracos reis que fazem fraca a forte gente. acordou a nação. a fortalece nos desalentos e desmaios. indómita e nobre.o culto de Camões inflama-se. encheu-a de fé. sentia-se. e deixe entrar no coração. augusta e grande como a epopeia. Uma Pátria materna e carinhosa. límpida e ligeira como a canção. Sejamos uma nação de alegres marinheiros e de robustos lavradores. À volta de nós. ridente e viçosa como a égloga. A alma sonâmbula do Povo caminha de noite. ameigue os que sofrem. edificar. Partimos algemas. ordenar. Façamo-la heróica. Façamo-la nobre como a ode. mas brilhava e cantava imorredoira na voz ardente dos Lusíadas. armada de direito. aberta em flor de luz. 1820. Invocamos Camões para a libertar. mortas no chão. modelemo-la então à sua imagem. 1834 . A espingarda . os déspotas e os tiranos. magnânima e justa. É a voz messiânica do épico. É necessário erguer. Não basta. Criemos juntos. e siga livre. além de armada de direito. no trabalho comum. para a harmonia eterna. E na aleluia sagrada da vitória. Quero-a forte para que a respeitem. 1807. Que as searas germinem. e as almas se casem. bendiga os heróis. rezando e palpitando. lastimosa e chorando.oiro e de vileza. cuidando os criminosos como enfermos. como nos tempos belos da epopeia. cuja vontade Manda mais que a justiça e que a verdade. expulsamos verdugos. e quem durante os séculos pesados de uma noite de horror. vestida de verdade. destruímos cárceres. além de boa e jucunda. a guia na torva escuridão. ovante com denodo. eu quero-a estável e armada de força. a voz alada e luminosa dos passarinhos e dos poetas. irmanando as ideias. a Pátria Nova.1640. fulgente de sonho e de beleza. marchando no globo.

os nossos ideais. que.o amor da Pátria. por um instante. e digam com igual devoção. e fez. que é o dia heróico de Portugal. Unamo-nos todos. vivendo-as no fundo do coração com o mesmo espírito de amor. de fronte nua. se casam no centro e se amalgamam. discrepando na circunferência. religiosamente. Em nome de Camões. casando também no amor da Pátria.defenderá a charrua e. fraternizemos e trabalhemos. e ficará incólume. param no trabalho. Façamos variedades harmónicas dos antagonismos destruidores. Porque então a arma de morte criou amor e gerou vida. apenas o Sol de Deus chega ao zénite e vai em meio o dia de dor e de canseira. fazendo religiosamente o sinal da cruz. de um punhado de marinheiros e de . se ergam também em pé. À volta de nós. As ideias e crenças mais opostas. Cruzemos as linhas divergentes neste ponto comum . as cobiças espreitam. Separam-nos ideias e doutrinas? Embora. na história do globo. a boca negra do canhão. as nossas almas. do mesmo modo: Louvado seja sempre o nome eterno de Camões! Viva Portugal! 1912. que. imitando os jornaleiros da minha aldeia. o peito alvo da Justiça. as nossas vontades. dando-lhe o máximo de unidade. Santifiquemos hoje o dia de Camões. debaixo de neve ou luz ardente. e numa atitude imóvel de oração. abrem com o arado e com a enxada os sulcos das vinhas e dos trigais. convertem-se em raios de uma estrela. Os pobres da minha terra. entoam com voz profunda estas palavras: Louvado seja sempre nosso Senhor Jesus Cristo! Pois bem. sofregamente. BRASIL-PORTUGAL (DISCURSO PRONUNCIADO NA SESSÃO DEDICADA A OLAVO BILAC) Da essência ideal que imortalizou as nossas descobertas. Eu desejo que todos os Portugueses. Quando a arma que mata defende a liberdade. Dêmos à Pátria o máximo de resistência. erguem-se e descobrem-se. no dia Santo da Pátria. os santos choram mas não acusam.

vem o amor à minha casa. à luz que me deslumbra. isto é. Criámos Ésquilo e Prometeu. de Gama e de Camões. pelo amor à gleba. de Soror Mariana e de Bernardim Ribeiro. os de Santa Maria de Belém. O meu amor à Pátria começa nas amizades do meu corpo ao ar que respiro. lavrando.o nosso sangue. a eleita do Eterno. e o génio irmão. uma na acção. Há homens bons que se julgam ateus e são deístas rancorosos. de Fernão de Magalhães e de Gil Vicente. porque e a mãe divina do Condestável. O Brasil é a eucaristia sagrada dos Lusíadas. a igreja de Deus ao centro e o cemitério ao lado. pois. Portugal é uma Pátria esplêndida. reproduzíamos a Pátria maravilhosa que lhes deu alma. Viver é amar. de Nuno Gonçalves e de Fernão Lopes. com torrentes de vida .a nossa fé. o redentor e o cantor. quer dizer. o grau de fraternidade. Quem o não realiza não o adora. a do mármore. de armas na mão e de mãos postas. Mas. dos berços aos sepulcros. à água que bebo. A invocação não basta. de S.cavadores a maior Pátria do Mundo. Fizemo-lo à nossa imagem e semelhança. o amor à província. Depois. com estrelas de dor . A música da luz. Luísa Michel foi deísta e Torquemada foi ateu. uma epopeia. o amor a minha aldeia . a encarnação heróica do Divino. mais ou menos. conforme o seu grau de religião. Francisco Xavier e de Álvares Cabral. os de Camões. E ao mesmo tempo que gerávamos as duas grandes epopeias equivalentes. João de Castro e de Albuquerque. de Herculano e de Sá Nogueira. desde os avós aos netos. A Pátria mais perfeita será a mais local. Depois. Três Lusíadas: os de Nuno Gonçalves. que o traduz em música. o grau de amor. pelo amor ao Mundo. o herói ovante. a da palavra. e a mais universal. de D. de Miguel de Almada e de Pombal. três monumentos de beleza augusta nos ficaram: um retábulo. à região. no mundo novo. ao fruto que desejo. que liberta. a mãe do Infante descobridor e do Infante mártir. não vai para Deus quem traz unicamente nos lábios a sílaba suprema. Os homens e as pátrias valem. Depois.choupanas e cavadores. de Passos Manuel e .aos mortos. Fizemo-lo com beijos e canções. batalhando e rezando. os que mais honraram a humanidade. aos vivos e aos vindouros. João II. criando um novo Portugal.as nossas lágrimas. o do futuro. O grau de amor é o grau de vida. e a vida infinita chama-se Deus . a chama do meu amor espiritual beijará com mais devoção os que mais enobreceram a Pátria. Mas. ao pão que me alimenta. outra no cântico. Viver é conviver. de Fernandes Tomás e de Mouzinho. debaixo do novo céu. à Pátria toda . que são ateus e o não conhecem.infinito amor. um templo. com um hino de aurora . à flor que me embalsama. de Bartolomeu Dias e de D.

beijo o Brasil no coração. no porvir. tão abismado em sonhos e saudades. porque leva na alma. Desuniram os corpos. que. impregnado de Deus e de natureza. esplendoroso. a aliança humana e a aliança inglesa. vencemos o tempo que já foi. de José Falcão e João de Deus. da Terceira. novas enxadas e novas liras. em 20. de Montes Claros. eram irmãos. o seu grande poeta. E. melancólico. em vez de inimigos. 2 de Abril de 1916. Eis o povo que fez nas terras de Santa Cruz a Pátria irmã. E. o maior poeta de Portugal. honrando duas alianças. com novos heróis e descobridores. com novos santos e novos Orfeus. aclamando Olavo Bilac. Duplicando-se. Amando-nos através da história. foi logo Pátria: a nova Pátria portuguesa. para estreitarem as almas. de Camilo e de Antero. Amando-nos através das ondas. no riso e na dor. o arrasta à independência. em 1822. amoroso. acima de tudo. das Descobertas. criador imortal de heróis anónimos. semeiam serras. O Brasil não chegou a ser uma colónia. O Brasil em 1645 ergue-se grande como Portugal em 1640.de Garrett. Exaltemos em coro imenso a Pátria irmã. Foi logo nação.a alma bendita do Brasil. ardemos na mesma chama. hóstia sagrada . deixando gemer a alma numa frauta. ovante. com a imortalidade do nosso amor. do Buçaco. meigo. Fernandes Tomás e José Bonifácio. nos ais e nos beijos. Quando Portugal. beijando-lhe a fronte. Abrasou-nos o mesmo ideal. venceremos a morte. para melhor se casarem. vencemos o espaço. do povo de Aljubarrota. ela é a mãe do povo português. fraternizamos hoje como nunca. e de santos plebeus e pobrezinhos que guardam ovelhas. Na glória e no sonho. sente-se forte. e a mesma fé que nos conduz à revolução. do povo cândido e cristão. é o maior lírico do Mundo. O amor cresceu em beleza porque aumentou em liberdade. quiseram-se mais. dormem nos eirados e falam com os anjos. entra na falange das nações heróicas que se batem pela causa augusta do Direito imortal e da Justiça eterna. NOTES SUR LA SUISSE . da Rotunda. As nossas pátrias desligaram-se. Eu. Vivendo tão livres e distantes.

Le noble fusil de vos soldats. le nid et le berceau. Vous détestez la guerre.M. Vous aimez avec tendresse l'humanité et la nature. le droit est sacré. c'est le plus vertueux. qui autrefois se persécutaient au nom des dogmes. en observant vos moeurs. vos lacs. Votre radicalisme est conservateur et votre conservantisme est radical. En parcourant vos villes. celle qui réalise le plus de bien. (Journal de Genève). aujourd'hui se rapprochent et collaborent au nom de la paix des âmes et du bonheur de la patrie. Chez vous. et la nation la plus grande. qui a représenté son pays à Berne comme ministre plénipotentiaire. vos champs. toujours le mot "harmonie" me revient aux lèvres. c'est-à-dire le plus d'harmonie entre les hommes et entre les hommes et la nature. Vos croyances différentes. le plus fraternel. vos montagnes. ni le regard terrible et suppliant de la victime innocente et malheureuse. vous enterrez . comme une synthèse de clarté. le plus altruiste. (FRAGMENT) Pour moi. en étudiant vos codes. vous exécrez les conquérants. le plus individualiste et le plus national. Dans vos écoles merveilleuses on enseigne la vérité. ni la bouche cannibalesque qui blasphème. On les lira avec une émotion profonde et une reconnaissance infinite. vous irez jusqu'à la mort pour la défendre. Vous êtes un peuple extraordinaire. c'est une arme héroïque et religieuse qu'on peut présenter devant l'autel aux yeux d'amour de Jésus Christ. Guerra Junqueiro. l'homme le plus grand. mais comme auxiliaire indispensable pour la conquête du pain et de la vertu. en admirant le souple et ferme équilibre de votre organisme national. Nous les insérons non sans quelque confusion. Vous conservez à l'organisme de la nation tout ce qui est vivant. on donne l'instruction. ni l'échine misérable courbée sous le fardeau. veut bien nous envoyer les notes que voici. la justice est clémente et le crime est rare. la femme et l'enfant. l'illustre poète portugais. Je n'ai jamais vu en Suisse ni la main tremblante qui demande l'aumône. mais si l'on touche à votre indépendance. le plus désireux de progrès et le plus attaché à la tradition.

Et d'ou vient-il? Il vient de l'amour. de votre force morale. Un pour tous et tous pour un.C'est la servitude.Au nom de Dieu aujourd'hui.tout ce qui est mort. avant de les inscrire dans les codes. comme les Suisses. Mais les vrais citoyens. Ils divergent par les couleurs. par leur caractère et leur histoire. par la volonté et par l'amour. c'est l'esclavage. la force suprême de l'Univers. c'est le drapeau sublime de Schwytz. Les citoyens des peuples en décomposition disent humblement et lâchement . Avec de la division et de la discorde vous avez produit la solidarité et l'amitié. disent tout ensemble . . Et. parce que chez vous même les libres penseurs ont l'âme religieuse. Pour bien le comprendre. Et cette harmonie splendide et souveraine. c'est l'anarchie.moi et nous. Au nom du Seigneur . regardez la constellation flamboyante des 22 drapeaux de vos États. l'étoile divine qui est au centre. .il y a six siècles. Mais qui les assemble. 1913. Et cette formule. chose profonde.C'est l'égoisme violent. Berna. Avec une seule différence: La croix a grandi en devenant le coeur l'étendard. Et le drapeau chrétien de la Confédération. par les emblèmes. Votre devise.les autres. mon foyer et ma patrie. qui les enchaine comme des frères? Voyez l'étoile miraculeuse. Les citoyens farouches des peuples barbares disent toujours . vous l'avez obtenue entre des races différentes et des éléments antagonistes. ma liberté et mon devoir. le drapeau de la Suisse (Schwytz) c'est le plus ancien de votre histoire. dans l'extase idéale de l'innocence.moi. C'est le drapeau de la Patrie et le drapeau de Jésus Christ: sur le rouge du sang et de l'aurore la croix éternelle de l'amour se découpe dans la lumière candide de vos neiges. NOTAS SOBRE A SUÍÇA . elle est encore vivante. et les perfections nouvelles. Un miracle. vous avez fait le vrai miracle de votre civilisation resplendissante. votre dernière constitution et votre premier pacte commencent adorablement par la même formule: . Par la force du bien. vous les créez dans vos âmes et dans vos moeurs. qui sont devenus complémentaires.

que outrora se hostilizavam em nome dos dogmas. nem o olhar terrível e suplicante da vítima inocente e desditosa. o mais individualista e o mais nacional. (Jornal de Genebra). Conservais tudo quanto está vivo no organismo da nação. (FRAGMENTO) O maior homem para mim. a que realize mais largamente o bem. enterrais tudo quanto morreu . ilustre poeta português que representou o seu país em Berna. o mais altruísta. execrais os conquistadores. a justiça clemente. admirando o suave e firme equilíbrio do vosso organismo nacional. Sois um povo extraordinário. as vossas montanhas. teve a amabilidade de enviar-nos as seguintes notas. A nobre espingarda dos vossos soldados é uma arma heróica e religiosa que se pode apresentar. o vosso conservantismo é radical. a palavra "harmonia" acode-me constantemente aos lábios como uma síntese de claridade.O Sr. ireis até à morte para a defender. Guerra Junqueiro. o crime raro. Serão lidas com sentimento profundo e infinito reconhecimento. Amais com ternura a humanidade e a natureza. professa-se a instrução mas como auxiliar indispensável para a conquista do pão e da virtude. diante dos altares. observando os vossos costumes. hoje aproximam-se e colaboram em nome da paz dos espíritos e da felicidade da Pátria. As vossas diferentes religiões. o mais fraternal. estudando as vossas leis. os vossos campos. mas se alguém atentar contra a vossa independência. o mais ansioso de progresso e o mais intimamente ligado à tradição. Percorrendo as vossas cidades. Detestais a guerra. Publicamo-las não sem alguma comoção. nem a boca impura que blasfema. o ninho e o berço. é o mais virtuoso. como ministro plenipotenciário. isto é: mais harmonia entre os homens e entre os homens e a natureza. o direito é sagrado. nem o mísero dorso arquejando sob o fardo. Nas vossas maravilhosas escolas ensina-se a verdade. a mulher e a criança. aos olhos amorosos de Jesus Cristo. e a maior nacionalidade. Entre vós. os vossos lagos. O vosso radicalismo é conservador. Nunca vi na Suíça nem a mão trémula que pede esmola.

Pela elevação do bem. a bandeira da Suíça (Schwytz) é a mais antiga da vossa história. pelos emblemas. fizestes o verdadeiro milagre da vossa resplandecente civilização. Um milagre! De que deriva ele? Deriva do amor. é a bandeira sublime de Schwytz.os outros. humilde e cobardemente: . Os cidadãos ferozes dos povos bárbaros dizem sempre: . . contemplai a constelação flamejante das vinte e duas bandeiras dos vossos Estados. a estrela divina que está no centro. Berna. . Mas. E. Os cidadãos dos povos em decomposição dizem. como os Suíços. o meu lar e a minha Pátria. da vossa força moral. 1913. entre vós. a escravidão.há seis séculos. Um por todos e todos por um. É a bandeira da Pátria e a bandeira de Jesus Cristo: sobre o vermelho do sangue e da aurora.E o servilismo. A bandeira cristã da Confederação. . pelo seu carácter e pela sua história. a cruz eterna do amor recorta-se na cândida luz das vossas neves. Trad. E esta fórmula vive ainda porque. que se tornaram complementares. dizem conjuntamente: -eu e nós. de João Grave. a minha liberdade e o meu dever. quem as enlaça como irmãs? Vede a estrela miraculosa. pela vontade e pelo amor.Eis a vossa divisa. Para claramente a compreenderdes. transformando-se no coração do estandarte.e criais primeiro nas vossas almas e nos vossos costumes os novos aperfeiçoamentos antes de os inscreverdes nos vossos códigos. Com uma única diferença: a cruz cresceu. E esta harmonia esplêndida e soberana foi realizada por vós entre diversas raças e elementos antagónicos. Em nome do Senhor .eu. Mas quem as associa.Em nome de Deus hoje. é a anarquia. no êxtase ideal da inocência. os verdadeiros cidadãos. Com a divisão e a discórdia produzistes a solidariedade e o afecto. coincidência profunda.E o egoísmo violento. Divergem pelas cores. . a vossa última constituição e o vosso primeiro pacto começam adoravelmente pela mesma fórmula: . a suprema força do Universo. os próprios livre-pensadores têm uma alma religiosa.

o louco e pávido estrebuchar da bebedeira de sangue. com palavras de imortalidade e deslumbramento para as almas sem luz e sem guia que buscam Deus e o não encontram. E. de Krupp e de Bismarck. eu sinto e quero dizer aos homens que o patriotismo não basta: não devemos ter ódio nem azedume para ninguém. orgulho e omnipotência que fez da luminosa pátria de Gcethe e de Beethoven a caserna ciclópica e sinistra do Kaiser. mas de simples embaraço ou constrangimento. por isso. este período de repouso o julgo uma grande mercê. Mas no momento supremo. Já vi a morte tantas vezes. no "Eco de Paris": Em balde procurei nos jornais alemães. Aqui foram todos bondosos para mim. e. que ultimamente tenho lido. se a existência de Miss Cavell. não direi de remorso nem de pesar. dedicada aos que sofrem. à dor e ao amor. Dou graças a Deus por estas dez semanas de tranquilidade antes de morrer. que a não estranho. sobre a execução de Miss Cavell. a sua morte crua e esplendorosa foi mais . nem me assusta. O horrendo assassínio de Miss Cavell pelo império alemão é já a crise delirante da ferocidade teutónica e demoníaca. foi alta e foi bela. com olhos fraternos e celestes para os tristes que choram. Passei continuamente uma vida agitada e cheia de obstáculos." Palavras de Junius. Um deles resume com frieza a opinião dos outros: "Quando se trata de uma sentença. uma frase.EDITH CAVELL Palavras de "Miss" Cavell ao capelão inglês Gahan. cuidando enfermos piedosamente desde o raiar da alva até à noite. não nos colocamos no ponto de vista subjectivo". em face de Deus e da eternidade. com mãos de carinho e bênção para os desgraçados que gemem. Miss Cavell gastou a vida inteira nos hospitais. algumas horas antes de morrer: "Nada receio.

a sangue e a lágrimas. massacrando na debandada as multidões inermes. em súplica ardente. porque a dor que implora é religiosa. nem à cruz de perdão do Nazareno. sacrificando liberdade e vida à vida dos outros. traspassou-lhe de angústia o coração e correu a Bruxelas. engolfa-se em Deus. mas vive em Deus. silenciosos. podia iludir. desafiando a morte. chamavam-na ainda os cativos estóicos. Em transes desta ordem. quando as hordas sacrílegas da Alemanha. O heróico e sagrado holocausto desse pequeno povo. por Deus e por Satanás. onde há anos estava dirigindo virtuosamente. arrasando aldeias e cidades. Abrasada em amor e misericórdia. O norte da existência é o bem. nem à miséria. a moral humana justifica dissimulações e subtilezas. do espectáculo sobre-humano de um povo a bater-se pelo direito com a certeza prévia da derrota. esmagadora. estancando golpes. e até a dos monstros ecoa em Deus e comove os santos. exaltando-a e sublimando-a. realiza Deus. escarnecendo e fuzilando sacerdotes. igrejas e hospitais. brutalizando mulheres. e inunda de . aliviando tormentos. estilhaçando monumentos. tornou-a heróica e fê-la santa. A dor. numa onda de luz. os que pugnaram pelo direito e pela honra contra a iniquidade e contra a infâmia. Diante do drama horroroso e augusto do martírio belga. O homem sobrehumano. choupanas e palácios. curando chagas. os ais do verdugo e os ais da vitima. A moral transcendente. sem respeito nem a virtude. condenava-se. o acusador interrogou-a: .do que bela. com pureza cristã. numa raiva alcoólica e sangrenta de orgulho conquistador e canibalesco. nem à virgindade. e de lá baixou iluminada e perfeita para a obra de amor e de renúncia. enfim. que teve o martírio como epílogo. violando donzelas. nem à hóstia inocente dos altares. embebe-se em Deus. sem discriminar o soldado alemão do soldado belga. Encarcerada e julgada militarmente. diante. Mas. invadiram a Bélgica. aquela hecatombe demoníaca. que é hoje. ao coração de Deus. e um crime de morte perante o Kaiser. A virgem heróica não hesitou um minuto: obedeceu ao dever. além dos brados de angústia dos enfermos. Miss Cavell achava-se na sua Pátria. E é então que a figura celeste de Miss Cavell atravessa imortal. por dar evasão a prisioneiros. queimando bibliotecas. Podia mentir. o santo. na ordem espiritual. o amor. esparge Deus. O bem infinito. dia e noite percorre os hospitais de sangue. à liberdade do Mundo e à justiça eterna: a alma cristã de Miss Cavell ergueu-se instantânea. uma simpática escola de enfermeiras. Libertá-los era um dever sagrado perante Deus. inexorável.É certo? É verdade? Confessando. diante da avalanche execranda. Move-se ainda no Mundo. escrito a fogo. nem à velhice. foi divina. chamam-se Deus. enforcando o direito e apunhalando a honra. a moral divina repele-as. um dos maiores do Mundo. o amor infinito.

os fados do Universo. vida eterna. voltando-se contra ela. como Jesus responderia: . concluindo a tragédia. Mas. abençoando e perdoando. em nome do Kaiser. a miséria dos homens e do Mundo.amor e de piedade a dor eterna do Universo. O supremo direito é a suprema vontade da Germânia. através dos tempos. e ela esmagou-a como um verme. e o tribunal. injúrias. O direito é a força. organizada pelo Destino. Santificara-se. O Kaiser. super-homem. como uma filha. crucificará. A alma divina da mártir olhou-os sem ódio e sem temor. Pela dor e pelo amor vencera a morte. condenou-a à morte. sem misericórdia para os fracos e sem perdão para os rebeldes. A alma de Miss Cavell pairava já. Miss Cavell ergueu-se naquele instante à esfera mais alta e luminosa da perfeição humana.É verdade. E quando o bruto e bárbaro juiz lhe perguntou se a acusação era exacta. O corpo da santa desmaiou. andando. em meio século. O oficial. O evangelho novo há-de a Germânia triunfante ensiná-lo aos homens. levando no coração. extática e radiante. Nem todas as forças brutas da natureza. Mas. se é necessário para chegar a Deus.os seus apóstolos. Tocou o zénite da virtude. resplandecia. aos ais e a escorrer sangue. o Povo Clarão. submetendo à hegemonia olímpica do Kaiser a alma das nações. maquinalmente. na graça imortal da manhã divina. É o condutor. O crime executou-se. Altas horas da noite foram buscar a vítima. Exalava oração. a dolorosa e infinita marcha da humanidade.quatro soldados e o comandante. A legação de Espanha e a dos Estados Unidos intervieram inutilmente. em nome da lei e do Império. e a Germânia Mater o povo augusto. a mulher sublime. A ordem augusta vai fundar-se: Germânia . e o génio alemão criou-o Deus para dominar a Terra. e. iniquidades.imperatriz do . Perdoara afrontas. Contra o direito? Não. A Bélgica louca resistiu-lhe. indefeso se rende aos seus verdugos. Os anjos sorriram-lhe. que guiará na viagem do Eterno. o drama da história. estourou-lhe o crânio com duas balas. a Alemanha inteira. se dera fuga aos prisioneiros. Ia morrer pela verdade e pelo bem. E. a carne estava exausta. crivado de golpes e de ultrajes. para a conquista ovante do planeta? Máquina de morte e de triunfo que. o Povo Messias. se a alma era invencível. tranquilamente respondeu. sendo preciso. é Krupp. o povo eleito. gelidamente. é Moltke. e marchara em êxtase para Deus. A força alemã arquitectou-a o génio alemão. ia escravizá-lo. é um vice-Deus hereditário. o Mundo inteiro. Ficou serena. O direito é o Kaiser. Num pátio sombrio aguardavam-na os algozes . é o Redentor. Assassinou-a placidamente. a poderiam aniquilar. deslumbramento. em vez de crucificado como Jesus. rodando no globo. O Deus da Germânia é o Deus dos exércitos. é Bismarck. com a eloquência arrebatadora dos seus canhões . Pois o que era ele (estava-o dizendo a si mesmo) senão uma ínfima parte da prodigiosa máquina de guerra. encarando os algozes. Porque o direito da Germânia é o direito universal e o direito divino. Miss Cavell. acabar na cruz. expira em Deus. Deus admirou-a.

.. de embriões de loucuras e de crimes............... .............. O monstro espantoso será desfeito e aniquilado...... desse cadáver desprezado...Mundo............. satânicos....... levantaram-se exércitos.. quer dizer ........ Depois bebeu.. enquanto limpava e guardava o revólver cuidadosamente................. .............. a Alemanha ovante e formidável........ deitouse e repousou como um justo.................. ........... Ergueram-se heróis........... coruscando de dor e de vingança.. Baixou inexorável sobre a Alemanha patibular e execração do Mundo.. ... Eis o que esteve sonhando... com todas as chamas do seu orgulho e todo o esplendor do seu império.... A justiça de Deus vai proclamar-se na Terra................ a Alemanha rútila e soberba........ Mas. enquanto que a alma gloriosa da mártir brilhava em estrela espiritual da constelação edénica dos anjos. na insondável paisagem da eternidade... Lembrava-se tanto de Miss Cavell como se lembra um temporal de uma folha morta.... um grande génio.. Barca de Alva..... onde milhões e milhões de almas se inflamaram.... Outubro de 1915.... o executor feroz da grande mártir..... Génio. Berlim ... E no infinito de Deus................... de fermentos sacrílegos..... dessa folha morta............ O MONSTRO ALEMÃO ÁTILA E JOANA D'ARC À FRANÇA HERÓICA E REDENTORA À MÃE SUBLIME DE JOANA D'ARC Bismarck não foi um grande homem....capital do Universo!...... radiou no globo instantaneamente uma luz imortal.................. não era mais do que um montão de larvas negras............

. robusta e luminosa. por natureza. alcança e casa o máximo de existência. equilibradamente. Toda a arte sublime é religiosa. diviniza o Mundo. Os altos sistemas filosóficos resolvem-se. a teoria do amor. Um belo ideal político é uma quimera. O artista e o santo geram e vivem o amor. num poema épico de amor. grandeza. que o génio do homem de Estado se revela com o seu poder maravilhoso. Fulge na história.Cavour. É no globo terrestre o mais prodigioso e puro unificador. engrandeceu-lhe o corpo e sublimou-lhe o espírito. criação magnífica de amor. o seu apóstolo. com entusiasmo. o máximo de vida. Os enxertos não prendem sem afinidade. Todas as outras raças são grosseiras. O herói supremo é o santo. Mas um grande artista ou um grande herói é um taumaturgo. absorvendo Deus e espalhando Deus. Francisco. o amor. O heroísmo é génio. S. se as energias nacionais o não aceitam. Honrou a Itália e o género humano. pela vontade comum. Não se amoldando. O génio do filósofo. efusivamente. quer na perspectiva da Pátria. porque vivem a vida materialmente. irmana-se com o santo. absurdo e quimérico. A sua alma é a estrela do Bem.criação impetuosa de harmonia. Tornou-a mais forte. vive em espírito. Valem pelo amor que resumem. a um ideal soberano. a luz perpétua da Verdade. A alma alemã vive em ideal. mais heróica: mais italiana e mais humana. generosidade. audaz e criadora. faz a história raciocinada do amor. a vitória do amor. Há-de amoldar-se. o máximo de natureza. espontaneamente. ao corpo da nação. são inferiores. O grande artista genial. estudando o Universo e descortinando-lhe as leis. brilha no planeta. Só os grandes povos têm estadistas grandes. Cavour é nacional e universal. O génio do Bem e da Beleza têm ambos a mesma essência de infinito. E é quando a alma de uma pátria aspira ardentemente. para se afirmar. Joana d'Arc e Beethoven fazem milagres. o sol da Beleza. hierarquicamente. O sonho de Fichte. ao grau mais alto de harmonia e de amor que lhe é possível atingir. porque é a raça virtuosa. à primeira vista esplende nobreza. mais livre. Pregou-a com ardor. Gerando amor. Um grande pensador é um teólogo. A raça alemã é a raça eleita. forças de riqueza e forças espirituais. Cavour. todas as forças vivas da nação. quando a inspiração o deslumbra. pela quantidade de Deus que encarnam e comunicam. com eloquência. conquistando pela virtude o máximo de amor a que se eleva o homem. O santo. quer no horizonte da humanidade. e em vão. em teologias. a marcha do amor. a raça cristã por excelência. mais bela. E a nobre figura genial destaca-se. 5 A unidade alemã encontrou em Fichte o seu Messias. Tipo político perfeito . Unificando a Alemanha. O estadista de génio exalta e conjuga sinteticamente. Todos os actos de violência da sua obra se casam e se convertem num círculo augusto de harmonia. dizia ele. O filósofo descobre e encadeia os passos do amor. unificando a Itália. mais justa. na acção e no êxtase. não se realiza. a raça humanitária. O génio político do homem de governo paira mais baixo. e eleva a Pátria.

que os poetas e os apóstolos candidamente conceberam pela justiça e pelo amor. obediência. E. o sonho augusto de uma grande pátria. despertando. choram e sangram no cativeiro. e julgando-se quase vitoriosa. Em oito anos. A Inglaterra conquistou o Transval iniquamente. odiosa. eis o móvel eterno. A obra de Bismarck é uma vertigem. A Polónia prussiana abomina a Prússia. implacavelmente. O profeta replicava ao déspota. ao ideal unitário e democrático opunha-se ingenitamente o particularismo dos príncipes e dos nobres. O núcleo da unidade alemã está na Prússia. hipocrisia. o reino de Jesus. Exala furor. do espírito imortal de 89. invejosa e rancorosa. ao mesmo tempo que a Alemanha se emancipava de Napoleão. O Prussiano é o vândalo feroz. Hoje é família inglesa. atacou a Áustria e derrotou-a. Depois de a abater. pela traição e pelo crime. como Waterloo ia replicar a Iena. vivendo fraternalmente com a humanidade. Ou faz vítimas ou faz escravos. O misticismo militarista da Prússia é o imperativo categórico do orgulho bárbaro e sem lei. Fabrica-se por uma fórmula e desencadeia-se por um cronómetro. Mas. desvairado. exaltou um monstro. Fichte ardia em quimeras. dando-lhe a liberdade. e a Alsácia e a Lorena. a megalomania louca e monstruosa. só domina. E a unidade alemã. ordenadamente. criá-la pelo ferro e pelo fogo. A Prússia é uma caserna teológica. A obra de Bismarck resume-se nisto: engrandecer a Prússia e prussianizar a Alemanha. O evangelho de Fichte é um pangermanismo espiritual. cativou-lhe a alma. ao cabo de muitos anos de luta. mas que tem já em si. pela mentira e pelo ódio. E é o bárbaro que. automatizado e arregimentado. mas não assimila.constitui-se o reino de Deus. seduziu-o. dogma. o orgulho místico. criando em si um idealismo libertador e unificador. O ciclone educou-se e converteu-se em máquina. como um quadrilheiro. a . E. a Dinamarca indefesa. No idealismo e cristianismo de Fichte há ainda um bárbaro. Mas a voz do apóstolo sacudiu como um tufão as labaredas gigantes daquele incêndio de revolta. Devora. o Mefistófeles. mas. com a certeza algébrica Conquistar e devorar. A Prússia. como veneno de morte em fruto de oiro. a essência do pangermanismo bestial do nosso tempo. À volta do planeta futuro. a grande aspiração nacional. conquistará daí a meio século a unidade alemã. armou a Prússia até aos dentes. vai Bismarck. para salvar e guiar a humanidade. Arrasa uma nação. o instinto directo da brutalidade orgânica da Prússia. assaltou. Bismarck. guardou-a no coração. esmagando. abortava na inconsistência anárquica e doutrinária do parlamento de Francoforte. engrandecendo-a. A França conquistou a Alsácia e tornou-a francesa. A hegemonia desloca-se de Viena para Berlim. onde a águia dominadora de Bonaparte queimou as asas para sempre. tornando-se por um momento irresistível. Tiranos e lacaios. No fundo da alma desse redentor dorme ainda um Átila. agrilhoadas. contagiava-se da alma da França. dos velhos costumes e tradições.

Bismarck. a Alemanha rebelde. anexando a Alsácia e a Lorena. dominador. politicamente. Mede-se pelas garras e pelo alcance dos canhões. Goethe. a ruína futura da sua obra. saturado de . Como havia de resistir à avalanche tremenda a França decadente do imperador sonâmbulo. Não o condenava como injusto. Bismarck. Beethoven. no tempo e no espaço. e. desencadeia a guerra de morte com a velha inimiga secular. com habilidade satânica. Bismarck. criou um monstro na Alemanha.Áustria. e arrasta electrizada a Alemanha inteira. A alma da Prússia é estéril. Necessita-se uma Prússia forte e vitoriosa. a mesma vontade bárbara e diabólica. Bach. falsificando. atraiçoando. É antiprussiano porque é humano. não canta na luz. Intoxicou a Alemanha com a alma da Prússia. engrandecendo a Alemanha. Bismarck avalia bem a natureza antagónica do espírito alemão e do espírito prussiano. que descende de Hegel. burlou as nações. o Nassau. mentindo. inoportuno. desorientou os governos. forjou com mãos de ciclope uma Alemanha ovante. Mas. como infame. O seu ritmo lírico é a marcha mecânica e furibunda . criada por Bismarck. criou um monstro planetário. enlouquecendo-a. A obra é gigantesca. Bismarck executou-a. Se a Prússia de Moltke e de Bismarck lhe der a unidade. Leibniz. que acordará nas duas almas divergentes os mesmos impetos bárbaros e ancestrais. ávida de despojos e de grandezas. a Alemanha hesita. mas infernal. de Olivier e de Le Boeuf? Bismarck esmagou-a e mutilou-a. É já um monstro temeroso. A Alemanha não se juntou à Prússia contra a Áustria. É o mesmo desejo amoral e desenfreado.o passo de parada. e acaba unicamente onde a força acabou. a França de Morny e de Offenbach. Bismarck realiza-a. agita-se pavorosamente numa loucura infrene e colectiva que horroriza o Mundo. Francoforte. não vive no Universo. Não cria Beleza. Caserna torva e burocracia militar. na Alemanha. O psicólogo é prodigioso e o homem de acção. Idealmente era bom. O direito começa no desejo ímpio. Nietzsche desenvolve a teoria abstracta. O génio imortal da Alemanha chama-se Durer. a verdadeira Alemanha detesta a Prússia. engrandecendo a Prússia. e a Alemanha satânica. a unidade da raça. Nietzsche acabou doido. Dois inimigos aparentemente irredutíveis como hão-de casar-se e harmonizar-se? Ligando-os pelo mesmo desejo indómito e frenético. A filosofia de Nietzsche é o evangelho de Satanás. e. E depois. Espiritualmente. incorpora-lhe o Hanôver. gravitará como um satélite. Não há dúvida que Bismarck combateu sem descanso o pangermanismo exaltado e desvairado. Bismarck. O sonho candente da vitória submetê-laá. é parente próximo de Nietzsche. coruscante de orgulho e de ambição. era lógico. No fundo da SuperAlemanha de Bismarck há o super-homem de Nietzsche. mas praticamente. aturdiu o Mundo. apunhalou estupidamente e cobardemente a alma da França e da humanidade. humilhada. A unidade alemã estava feita. porque via nele a morte do Império. o titã. O super-homem é o supermonstro. Realizou em poucos anos o ideal teutónico de muitos séculos. a Alemanha de Fichte prussianiza-se.

duas vezes infernal. a espumar ódio! O kaiser juvenil. Sente que chegará. Na Alemanha imperial é um astro. bramiu oito anos furiosamente. sucedeu a Bismarck. governaria . O ciclone varreu o gigante e prosseguiu na marcha formidável. O pangermanismo é o bismarckismo integral Bismarck levado à última potência. O pangermanismo. que o faz tremer: a coalizão. exorta. O pesadelo de Bismarck era o do criminoso: a justiça. pela alma do autor e pelo carácter da nação. Sim. pangermanismo de agricultores. aí do império! Finis Germanite! Bismarck reage. O destino da Alemanha prussianizada não podia ser outro. levantou-lhe estátuas. O capacete prussiano deformou o cérebro da Alemanha. conhecia a obra que levantara e os perigos temíveis que a rodeavam. prussianizou-o. até à morte. admoesta. é inevitável. tinha de conduzir o Império irremediavelmente à espantosa tragédia a que chegou. A Alemanha encontrou nele o Imperador ideal. pangermanismo de sábios e de artistas. O titã. os instintos. os desejos. o coração da Alemanha. inevitável.Maquiavel. Oito anos. Devoremos o Mundo. A Alemanha. O pangermanismo não era uma seita numerosa de visionários e de fanáticos. nimbado de glória. quer conquistar e devorar a Terra.o sangue. pangermanizou-se. humilhado. pangermanismo de industriais. e o monstro gigante. do herói caduco. ergueu-lhe altares. A força da Alemanha é ilimitada. o pangermanismo glorificou-o. a carne. concluiu: A Alemanha é invencível. Para continuar a obra do semideus decrépito. Nas fornalhas de Krupp batia.o pangermanismo militar. A Alemanha. Krupp é o jurisconsulto do Império. deu-lhe o seu espírito. Tudo inútil. mas arrancou-lhe o poder. mas em vão. eleita de Deus. as crenças. Há uma ideia que o não larga. Ai dele. A essência da alma de Bismarck e da sua obra é esta: Quem tem a força tem o direito. O Mundo pertence-lhe. O orgulho místico e brutal. as ideias. como na flor a semente e na semente a árvore. satanicamente. foi um grande prussiano. que lhe rouba o sono. rutilante de orgulho. acorda e desencadeia-se com fúria no pangermanismo bruto e dominador. hiperbolizando-se. guerreiro e voraz. Bismarck não foi um grande homem. Bismarck criou o ciclone e quis detê-lo. na jaula de Varzin. frenético de pompas e de grandezas. era a Alemanha toda em corpo e alma . bestializou-o. filho de Bismarck. Criou o monstro. e que. Pangermanismo de teólogos e de filósofos. dilatando-se. latente no sangue. ébrio de orgulho e de furor. mais cedo ou mais tarde. Reventlow e Bernhardi incluem-se em Bismarck. monstruoso. desumanizou-o. na humanidade é um borrão de treva. A obra de Bismarck. luta. unificando-se. pangermanismo de comerciantes. radiando e convergindo para um centro único . O direito mede-se pela força.

a Alemanha única. sem unidade. O Deus do Kaiser é o superlativo do kaiser e da Alemanha. 6 Todas as energias ciclópicas do monstro alemão se distenderam para um crime: devorar o Mundo. este sonho execrando de canibais. A Alemanha ia dar o golpe. a sua demência horrenda e vertiginosa. não tinha organização. Com oito milhões de soldados obedientes e ferozes. a rodar no globo. de frouxa coesão. a resistência futura adivinhava-se. a infinita ambição. seria neutra por natureza. da Alemanha em delírio. A Alemanha invocando e adorando Deus. o infinito rancor. Era certa a vitória. amorfa e selvagem. A Alemanha satanizou-se. a sua doblez de lago debaixo do manto de Lohengrin. sem princípio nem fim. politicamente anarquizada. desagregar-se-ia imediatamente. o seu maquiavelismo estúpido e desconexo. um comando implacável e matemático. truculento e bárbaro. ávido de oiro e de negócios. a crueldade infinita Satanás. . Era nacional o seu orgulho despótico e fabuloso. na África. esta loucura negra e demoníaca! O imperador sintetizou a Alemanha. de equilíbrio instável. Trinta ou quarenta mil canhões de Krupp. era a síntese faustosa da loucura alemã. um laboratório imenso e uma fábrica imensa. A Alemanha organizou em quarenta anos a mais estupenda máquina de guerra que os séculos têm visto. o seu mercantilismo cúpido. tenebrosa e sonâmbula. submetida. nem tinha exército. à volta de uma caserna descomunal. Cartago não arriscaria nem um marinheiro nem um xelim. a infinita mentira. Revolução na Índia. uma esquadra gigante. Berlim capital do Universo! E toda a Alemanha vivia misticamente. antimilitarista e malthusiana. A França. alcoólica e mística. débil de corpo e alma. a sua cabotinagem pomposa. e em ódios religiosos. sem fé. o Hohenzollern incriado e criador.o Mundo pelo terror. sem governo. pregariam à humanidade. invencível no mar e invencível no espaço dominaria o Mundo. capitularia antes de um mês. Seria uma escola imensa. Os revolucionários e os Polacos haviam de agitar-se. A Rússia. Sob a avalanche teutónica. administrada por uma burocracia omnipotente e venal. O seu Deus é o seu infinito: o infinito orgulho. O kaiser não era um louco individual. é o kaiser absoluto. invencível na terra. prática. Mas as nações inquietas acordavam. enfática e ridícula. A Inglaterra egoísta. utilitária. finalmente. O seu desmedido império teratológico. de influência alemã. Não podia intervir ainda que quisesse. a cultura alemã e o direito alemão. O kaiser governaria o planeta. e. o colosso branco ficaria esmagado. uma artilharia de extermínio que arrasa cidades e fortalezas a sete léguas de distância. invoca-se e adora-se a ela mesma. no Egipto. religiosamente. a Alemanha grandiosa. o seu misticismo de caserna. a sua estética grotesca de caixeiro-viajante imperial. e um bando de zepelins vomitando fogo. debatendo-se em lutas de classes. a sua loucura sinistra.

ávidas de oiro e de conquista. combateria até à morte. sacrílega. protestando.A honra é vencer e aniquilar o inimigo. Heróica e dolorosa. Depois. . Justiça. o mais negro da história. até à morte. à Justiça imortal. .E a dignidade.Farrapos de papel. os velhos. quase inerme diante do monstro. a clara França gerada na luz. de morte e horror para a humanidade. em vez de abandonar a França.hecatombe. O monstro da noite ia devorá-la. devastação. bateu-se impavidamente pelo Direito com a certeza inteira da derrota. o meu exército. palavras mortas. ficou épica e grande num calvário. Não tardarás a descer da cruz. conquistando Paris. num furacão de orgulho e de vitória. a arder em fé. rainha da Ideia e da Beleza. E. um mar de lágrimas. A Bélgica neutra invocou o Direito. esquartejando a França. no elmo de oiro de Ateneia. violada. a alumiar o Mundo. em duas semanas esmagariam a França. A França agonizava. carnagem bruta e saturnal. suicidava-se. martirizada. divino e trágico!. e o Deus da Prússia e dos Exércitos. O génio latino ia . uniu-se-lhe logo. Dia de júbilo sem termo. cruciada. nação augusta. Átila. furiosa. Depois. já inúteis. sem hesitar. e o género humano escravo e desonrado. deitou-lhes a bênção da eternidade. A noite da história. Civilização. A Alemanha esbravejou. o kaiser imortal que está no Céu.. dominaria o Mundo. A Bélgica. escorrendo estrelas. nos olhos das mães e das noivas fulgiram lanças. um mar de sangue. os meus canhões. o Mundo escravo de Berlim. demoniacamente. os teólogos ergueram hinos ao Criador. a miséria. senhora da Graça e da Harmonia. alma com alma. O Anticristo venceria Jesus. Imperador do Mundo! Mas a Inglaterra. A Besta feroz omnipotente. desabrochou na Alemanha ovante uma primavera de almas e corações. inundou a Bélgica. A resistência era a morte. a honra? . dia de apoteose e de milagre! O sonho bárbaro de quinze séculos ia finalmente realizar-se. E nesse dia espantoso. e a águia de batalha do kaiser pousaria. Direito. assaltaram a França. Deu-se. declarou a guerra.. E a Bélgica heróica. ensanguentada. olhos em Deus. transpondo a Bélgica livremente. Tanto pior para Cartago. mensageiro de Deus. torrentes de ferro e fogo. E toda a Alemanha. em holocausto de fogo. O clamor indómito do povo atroou os ares. em dois meses desbaratavam a Rússia. A avalanche teutónica. A Alemanha. podia submeter-se. Átila. o triunfo completo e vertiginoso.E os tratados? . à Verdade eterna. os bardos cantaram. uma loucura. A guerra espantosa ia dar o balanço às forças morais da humanidade. encarnou em Átila. Átila retorquiu: O direito é a minha espada. mais formosa e mais livre do que nunca! As hordas bárbaras. a humanidade nas garras da Alemanha. o kaiser Imperador supremo do Universo! Como responderia a Átila o Universo? Momento de angústia. pilhagem. furibunda: Que surpresa! Era uma traição.O triunfo era evidente. mas era-lhe impossível resistir àquela avalanche de inferno . sentiram-se felizes. a doce França.. Os guerreiros de Átila invencíveis..

.... brotam lírios de fé.... chegou ao zénite de luz da vida heróica. das bocas voam preces.. de razão e de fé..... Agora emendei-o de novo. a imortalidade dos seus crimes..... inundada de sangue e orvalhada de lágrimas. Magnanimizou-se.. Triunfa na humanidade. de Átila com Joana d'Arc... 1 Este artigo foi escrito em 1888... Esta guerra é demoníaca e santa.. polarizada em Joana d'Arc! 7 E a França de Joana d'Arc.. vibrando-as ao infinito. ergueu-se. Horas imensas. convive com os anjos e perde-se em Deus.... Triunfa no Céu. e debaixo dos pés do género humano.... a vitória imortal não tarda a abrir as asas... numa batalha de milagre. satânica e monstruosa.. umas Inúteis ou deficientes. Barca de Alva..... .... é neste momento a sua eucaristia verdadeira... .. Veroduno! Que prodígio!. milagre do Povo de Joana d'Arc. . a onda exterminadora e gigantesca.... porque dez povos heróicos combatem ao seu lado. porque da Terra varada de dor..... Corrigi-o..... e.... todas as potências da sua alma.... 8 Ambicionou todas as pompas e riquezas do Mundo.. instantes sem fim.apagar-se. minutos de Deus!. lírios de chama..... salvando a França. varada de assombro... Milagre. uivará de dor.... E a França maravilhosa. Março de 1918... sim: milagre de heroísmo.... a França eterna.. Sonhou a glória imorredoira. das campas nascem cruzes. É a guerra da Iniquidade com o Direito.... E depois....... cheias de infinita angústia.. A Alemanha orgulhosa quis dominar a Terra. os joelhos dobram-se... abarca a humanidade. Quem vence? Joana d'Arc.... sobre-humanizou-se.. inflamaram-lhe o espírito.... E diante da bárbara Alemanha... Dez séculos de história imortal correram-lhe nas veias.. num ímpeto de vontade arrebatador e criador. A batalha do Mama. creio em 1904 e publiquei-o depois na Alma Nacional.. e ficará indigente. e tem de expiar.. tocou em Deus... e palpita por ela o coração do Mundo.. porque a Pátria. encarnada em Átila.. Triunfa Joana d'Arc! Joana d'Arc...infinito amor. conteve repentinamente. em labareda. encarna a Pátria.. de joelhos. a sua imagem épica e celeste. A espada fulgurante da Mulher Arcanjo traspassará de lado a lado o coração do monstro... através dos séculos... incendiou instantaneamente.. golfando sangue. Triunfa na Pátria.. a infinita paz!... salvou o Mundo... que resgatou e que a gerou. expressão culminante da França. da Besta com o Espírito. a glória única. as almas rezam....... só encontram em Deus ... outras condenadas hoje pelo meu espírito.... eliminando várias passagens..... deslumbradora e sublime.. bateram-lhe no coração..

Resulta da acção e gera-a de novo com mais ardor. ainda hoje inéditos. Contendo belas coisas. 6 O Satanás bismarckiano era Mefistófeles. A alma do santo embebe-se em Deus. e muitos vezes abominável. A Velhice do Padre Eterno é um livro da mocidade. a flor divina da raça. Havia nessa página. fortaleceu-a. Animou-o e ditou-o o meu espírito cristão. um racionalismo de ignorância. O poder temporal do papa era anticristão. mas cheio ainda de um racionalismo desvairador. Francisco e em todos os verdadeiros e grandes santos não é quietismo egoísta. se a resistência da Alemanha determinasse a invasão. devo declará-lo. católica ou não católica. No catolicismo existem absurdos. d um livro mau. as verdades de Deus. 7 Toda a França. 2 O êxtase em S. mas a Igreja com os Evangelhos cristianizou e salvou o Mundo. estreito e superficial.Eu tenho sido. 3 Cortei deste prefácio meia dúzia de linhas e uma página dos meus Ensaios Espirituais. e irradia-o depois. 5 A unidade da Itália não prejudicou a Igreja. Joana d'Arc é o símbolo augusto da Pátria. 4 A Virgem Mãe é uma criação do espírito. multo Injusto com a Igreja. Há na grandiosa história do catolicismo páginas de horror. é fonte de acção. O da Alemanha actual é o Porco Sujo. na humanidade. A força moral do catolicismo é hoje imensa. mas havia outras que rejeitei depois. A sua existência é ideal. não pode negar-se. se polarizou em Joana d'Arc. mas no âmago da sua doutrina resplandecem verdades fundamentais. 4 . em actos de amor. é hiperacção. não biológica. algumas ideias excelentes. verdades eternas. Não o escreveria já aos quarenta anos. que mantenho ainda. Não é letargo. 8 O que aconteceria.

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