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Doc.13-TRANSFORMAÇÕES.SEC.XVIII

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13-AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES NA EUROPA NOS SÉCULOS XVIII-XIX TRABALHO
O tema que vais estudar versa sobre um dos grandes momentos da História Europeia dos séculos XVIII-XIX em que se registaram transformações profundas a vários níveis. O Documento de Leitura que aqui se apresenta fornece-te informação sobre quatro áreas em que essas transformações se verificaram: na agricultura, na indústria, na demografia e nos transportes. Por serem de importância relevante vais estudá-las mais detalhadamente e efetuar um trabalho de síntese e compreensão, a fim de que possas perceber a dimensão dessas transformações, as relações de causalidade que tiveram entre si e as mudanças que provocaram na sociedade europeia da época. Preparação da Leitura – Antes de iniciares a leitura do documento sobre “As grandes transformações na Europa nos séculos XVIII-XIX”, efetua uma revisão aos elementos do Método da História. Não esqueças que na leitura deverás prestar atenção: Aos Factos Históricos referidos no Documento de Leitura; Aos Agentes Históricos relacionados com esses mesmos factos; Ao Tempo Histórico em que os factos decorrem; Ao Espaço Histórico em que os factos se enquadram; Ao Contexto Histórico em que os factos se situam; Leitura – Durante a leitura do documento: Assinala a informação principal, destacando-a a cor ou com sublinhado; Anota no teu caderno diário as informações que são mais relevantes sobre em causa; No final da leitura relê as notas e revê os destaques que assinalaste; Textos a elaborar – Depois de estares bem ciente do conjunto da informação que leste, deverá produzir três textos: • Primeiro Texto – deverás redigir um texto que resuma as principais transformações verificadas no século XVIII-XIX na Europa na agricultura, na demografia, na indústria e nos transportes: este texto deverá ter a extensão de três páginas do tamanho A4; • Segundo Texto – deverás redigir um texto em que relaciones a influência que cada uma dessas áreas de transformações teve sobre as outras: este texto deverá ter a extensão de uma página A4; • Terceiro Texto – deverás redigir um texto em que exprimas a tua opinião/perspetiva, devidamente fundamentada, sobre essas transformações e as consequências que delas resultaram para a Europa: este texto deverá ter a extensão de uma página A4. • Não te esqueças de que tens de assumir o teu papel de historiador(a). Portanto, os teus textos, apesar de serem a expressão do que tu pensas, têm de ser discursos históricos elaborados com objetividade. Deverás, por isso, evitar expressões que indicam palpite, como “eu acho…”, “eu gostei…” e apresentar sempre as razões e comprovação daquilo que afirmas. Os textos deverão ser apresentados em páginas brancas A4, com margem superior de 2cm, margem inferior de 2cm, margem esquerda de 3cm e margem direita de 2cm, tipo de letra Arial, corpo de letra 11 e espaçamento entre linhas de 1,5. Entrega do Trabalho – O trabalho poderá ser entregue através do email do professor ou entregue impresso em mão ao professor, até ás 17.30horas do dia 15 de maio de 2012. Não esqueças que o trabalho deve estar devidamente identificado com Folha de Rosto, na qual deverão constar: o nome da escola e o ano letivo; o título do trabalho e a disciplina a que diz respeito; a tua identificação completa: nome, ano de curso, turma, número.

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Dificuldades – Para a resolução de quaisquer dificuldades que encontres podes contactar o teu professor por email ou na sala de aula. Avaliação do trabalho – O teu trabalho será avaliado e contará como informação equivalente á de um teste de avaliação sumativa. Em breve ser-te-ão fornecidos os critérios e items de avaliação.

AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES NA EUROPA NOS SÉCULOS XVIII-XIX
Na Agricultura. Na Indústria. Na Demografia. Nos Transportes.

ADVERTÊNCIA: Tradicionalmente, estas grandes transformações foram vistas pelos historiadores como fenómenos que ocorreram repentinamente e que provocaram mudanças radicais, ou ruturas na sociedade Europeia, por isso foram apelidadas de Revoluções. Apesar de serem designadas frequentemente assim, estas transformações devem ser interpretadas sempre como processos de mudança lentos, iniciados com alguma antecedência, e que atingiram maior visibilidade ou dominância entre o início do século XVIII e o início do século XIX I - TRANSFORMAÇÕES NA AGRICULTURA No século XVIII, desenvolveu-se em Inglaterra, especialmente em Norfolk, uma nova agricultura. Um conjunto de grandes proprietários (landlords) insistiu preferentemente em práticas de cultivo, importadas da Holanda, que vinham já há muitas décadas a gerar maior produtividade. Tratava-se das designadas herdadesmodelo: enclosures. Este termo designa o movimento de renovação da agricultura, verificado na Inglaterra do século XVIII, que resulta na transformação da propriedade rural (enclosures), na introdução de novas espécies vegetais e animais (ou seu apuramento) e na aplicação de novas técnicas e processos de produção. A partir da segunda metade do séc. XVII e até aos inícios do séc. XX, a Inglaterra foi a potência mundial com mais esplendor económico, o centro da Economia Mundo. Inúmeras condições, a todos os níveis, resultaram na sua superioridade perante os outros países. Era, sem margem para dúvidas, a nação com mais prosperidade económica, devido ao sector agrícola, industrial, comercial, bancário, entre outros. Em primeiro lugar, existiram os progressos agrícolas - Revolução Agrícola. Se em países como a França existia somente a política mercantilista e a agricultura era esquecida, na Inglaterra aparecia uma nova teoria económica, o Fisiocratismo. Este engrandecia a agricultura, considerando-a a base económica das nações. No século XVII e XVIII, em países como a Inglaterra e a Holanda surgiram novas técnicas e novos instrumentos agrícolas, o que impulsionou a revolução que traria importantes consequências para o crescimento demográfico e para o comércio. Esta revolução começou na Inglaterra, onde os senhores das terras que possuíam extensas propriedades – os landlords – iniciaram um conjunto de mudanças proveitosas para o desenvolvimento da agricultura inglesa. A nobreza rural alargou ainda mais as suas propriedades, 2

através de terras comunais ou da compra a pequenos proprietários que se encontravam na falência sendo estas exploradas para o trabalho agrícola ou para a criação de gado. Os denominados openfields (campos abertos, sem vedações, ainda com a técnica do pousio) passaram a enclosures (campos fechados, com vedações, sem pousio). Apareceram novas técnicas agrícolas e métodos de cultivo inovadores, como o afolhamento trienal ou quadrienal, que evitava o pousio e renovava a terra, alternando as colheitas de cereais com as de leguminosas e também cultivando as plantas forrageiras como o nabo e o trevo. Outra inovação foi a drenagem de campos. Os dito cujos eram drenados através de calcário ou argila, que os secava, nascendo dos antigos pântanos terras férteis propicias à agricultura. Também bosques e florestas foram dizimados para serem utilizados como terrenos agrícolas. Introduziram-se novas culturas, passando-se a fazer a seleção de sementes e das cabeças de gado. A criação de gado era essencial nas novas práticas agrícolas. Como não existiam adubos químicos, o estrume dos animais era o fertilizante mais utilizado. Serviam também para o comércio a sua carne, o seu pelo e o seu leite. Alimentavam-se das forragens de nabo, feno, trevo, entre outras culturas. As forragens eram cultivadas essencialmente para aproveitar os solos e para alimentar os animais. Outra inovação foi o cruzamento dos animais reprodutores mais fortes para assim originar cabeças de gado mais resistentes. A introdução da maquinaria na agricultura foi essencial para todo este progresso. Os instrumentos, anteriormente elaborados a partir da madeira, passavam agora a ser feitos de ferro, o que os tornava mais resistentes e mais facilmente manobráveis. Também novas máquinas foram introduzidas como a máquina de debulhar. Como conseguimos perceber, a Revolução Agrícola está inteiramente relacionada com a Revolução Industrial, que abordaremos mais à frente. Toda esta maquinaria existente levava a que o número de mão-de-obra necessário diminuísse, o que resultava no êxodo rural. A população havia aumentado em larga escala e como a mecanização dominava agora o sector agrícola, as pessoas dirigiam-se para as cidades, à procura de trabalho. A Revolução Agrícola levou a um aumento considerável da produção, originando assim um Crescimento Demográfico. Existiam mais produtos agrícolas devido às novas técnicas, logo, existia mais abundância e consequentemente maior poder de compra por parte da população, devido à descida dos preços. Os corpos tornavam-se mais resistentes às doenças e a mortalidade diminuía. Contudo, a natalidade continuava alta, o que causava um crescimento demográfico considerável. Como referimos anteriormente, sem dúvida que esta revolução se apoiou na Revolução Industrial e viceversa. Tal como na maior parte das mutações operadas na Europa ao longo do século XVIII, também na Revolução Agrícola a Inglaterra foi o país de arranque. Dotada de uma 3

aristocracia latifundiária (nobreza detentora de enormes propriedades) politicamente ativa e cada vez mais preponderante no Parlamento, nela surge, na primeira metade do século XVIII, um corpo de leis visando uniformizar e regular a posse da terra de forma a facilitar o processo produtivo. Resultam essas leis de uma petição dos grandes senhores da terra para legitimar a ocupação e cerco de pequenas propriedades, de forma a aumentar a dimensão das suas e a aumentar com isso a produção e o lucro. Essas leis, favoráveis à aristocracia, avançam, assim, no sentido da expropriação de pequenas propriedades (minifúndios), da junção de parcelas dispersas e da apropriação de terras comunais, para além da liberdade de cercar as novas propriedades resultantes desse processo (em inglês, enclosures, campos fechados por sebes ou cercas). A aplicação da lei fez-se com base em pressupostos senhoriais: apesar de terem apresentado uma petição ao Parlamento, os latifundiários decidiram ocupar e cercar as terras sem qualquer aviso aos seus antigos donos, os pequenos proprietários, mesmo ainda antes da discussão e aprovação parlamentar. Recorrendo da decisão, os pequenos proprietários tentam comprovar documentalmente a posse da terra, o que é difícil - ou impossível - na maior parte dos casos. Perdem assim as terras e vão engrossar o êxodo de trabalhadores rurais - proprietários ou não - em direção às cidades fabris de Bristol, Birmingham, Manchester, Liverpool, Londres e Glasgow, entre outras. As propriedades confiscadas pelos agentes dos latifundiários são, entretanto, repartidas entre estes. Modifica-se então a paisagem rural inglesa: do openfield (campo aberto, sem vedação, tradicional em Inglaterra) passa-se para o campo fechado. Esta mudança será mais visível no Leste do país - em East Anglia, nas Midlands, no Yorkshire... Estas eram, antes da lei, regiões cerealíferas e forrageiras, bem como de criação de gado ovino (a lã era, aliás, uma matéria-prima importante para a florescente indústria têxtil inglesa). Os novos senhores - a que se juntarão mesmo ricos comerciantes das cidades (burguesia), interessados em investir na agricultura - promoverão, porém, a introdução de novas técnicas de cultivo, entre as quais a rotação de culturas sem pousio, de forma a retirar o máximo proveito das terras. Ao mesmo tempo, de forma a aumentar a dimensão das propriedades e da sua superfície cultivável, promovem a secagem e drenagem de terras pantanosas, o abate de florestas e a ocupação de baldios e terras comunais (as arroteias). No intuito de melhorar as espécies mais produtivas, a seleção de sementes e o apuramento dos efetivos pecuários são outras das marcas desta Revolução Agrícola inglesa setecentista. A introdução de máquinas e a melhoria dos transportes no espaço agrário são outras das características principais dessa mutação operada no mundo rural inglês. Os resultados não demoraram muito a aparecer: maior produção (na primeira metade do século XVIII, esse aumento é superior a 20%); capacidade do campo abastecer e 4

sustentar o crescimento urbano-industrial que se registava no país; melhorias significativas, não somente em quantidade, mas também em qualidade, permitem uma época de relativa abundância em produtos agrícolas essenciais (carne, leite e derivados, legumes, batata, cereais, etc.), com repercussões em termos demográficos. De facto, a melhoria gradual na dieta alimentar inglesa proporcionará uma maior esperança de vida, um aumento da natalidade e do crescimento natural da população, diminuindo-se a vulnerabilidade do homem face às fomes e pestes (menos comuns, porém). Com a diminuição crescente da mortalidade, conjugam-se uma série de indicadores positivos para que possamos falar de uma revolução demográfica, a par da revolução agrícola e da industrial. Todas estas alterações no espaço agrário inglês trouxeram também outras consequências, mais visíveis no espaço urbano. Para além do citado êxodo rural de minifundiários e assalariados rurais - devido à perda da posse da terra, à mecanização (que origina menos empregos rurais) e às novas técnicas e culturas -, assiste-se a um crescimento demográfico nas cidades, o que dispara os valores da taxa de urbanização inglesa e mesmo europeia. A expansão da Revolução Agrícola para o continente europeu - menos visível que a da indústria - fará, ao longo do século XIX, crescer a população europeia em mais de 100%, registo nunca alcançado na história da Humanidade. A rota de expansão da Revolução Agrícola inglesa na Europa e no Mundo será idêntica à da industrialização, ambas interligadas e perfeitamente complementares. Este processo gradual, ao longo do século XVIII, de racionalização da atividade agrícola, saldado no aumento da produção, quer de alimentos quer de matérias-primas vegetais e animais (transformadas nas fábricas que entretanto se redimensionam e aumentam), criará um conjunto de condições favoráveis ao eclodir de outras mudanças. A acumulação de capitais, obtida a partir dos lucros da exploração da terra em moldes modernos, proporcionará a sua canalização - sob a forma de investimentos - para outros setores da vida económica e produtiva, reforçando ainda mais a Inglaterra como primeira potência e como país de arranque das principais transformações operadas à escala mundial. II- TRANSFORMAÇÕES NA INDÚSTRIA Um motor a vapor de Watt, o motor a vapor, alimentado principalmente com carvão, impulsionou a Revolução Industrial no Reino Unido e no mundo. A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX. Ao longo do processo (que de acordo com alguns autores se registra até aos nossos dias), a era agrícola foi superada, a máquina foi suplantando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o motor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente. 1.Contexto histórico 1.1.As transformações econômicas e o novo perfil da sociedade nos séculos XVI e XVII. 5

Enquanto os monarcas ingleses dos séculos XVI e XVII procuravam se equilibrar no poder e se enredavam em dificuldades para ampliar seus poderes absolutistas, as forças econômicas e sociais espontâneas estavam vivas e atuantes.Como afirmara Adam Smith (1983), a Inglaterra teria progredido no período moderno mais do que qualquer outro país, apesar das dificuldades criadas pelo Estado inglês no seu afã de regulamentar a economia, a política e a religião. No começo do século XVI, a servidão havia praticamente desaparecido da Inglaterra: cinco sextos das terras estavam nas mãos de camponeses livres, os quais possuíam a propriedade sob os mais variados títulos.Parte das terras estava também nas mãos de arrendatários plebeus, os quais exploravam as propriedades pertencentes à nobreza abstinente, que migrara para as cidades ou permanecera em seus castelos, sem fazer quase nada. A nobreza e o clero tradicionais sobreviveram, mas ao preço de perderem praticamente toda a sua natureza feudal anterior e serem obrigados a coexistir com uma nobreza artificial e uma burguesia urbana emergente. Apesar das diferenças de classe, a tradicional nobreza inglesa, ao contrário da francesa, relacionava-se com a burguesia e outros setores emergentes de modo mais aberto e pragmático.Era menos preconceituosa e possuía poucos privilégios, se comparada à nobreza francesa.Misturava-se com a burguesia nos salões, criava sociedades mercantis e de outra natureza com burgueses, pagava impostos como qualquer outra classe e seus filhos e filhas podiam até mesmo se casar com pessoas oriundas das classes emergentes.Como afirmou Jules Michelet, nenhum outro povo além do inglês foi mais hábil em disfarçar em lorde o enriquecido filho do comerciante (MICHELET, 1988, p.130). Esse ambiente social mais democrático, equilibrado e integrado refletia-se na vida política e no funcionamento do Estado inglês, que agia, conforme já assinalamos, como uma espécie de árbitro e, dentro do possível, procurava trazer para o serviço público pessoas que não pertenciam apenas à nobreza e ao clero tradicionais. Isso ocorreu particularmente a partir do reinado da Rainha Elizabeth I. Nessas condições sociais e políticas, as forças espontâneas e o próprio dinamismo da sociedade inglesa desencadearam outra onda transformadora, que, começando na primeira metade do século XVI, prolongou-se pelos séculos seguintes. Assim, não é surpresa que, entre 1520 e 1640, a Inglaterra tenha vivenciado uma nova grande fase de transformações, cujo resultado foi uma expansão nunca vista da riqueza econômica e da população e uma grande fermentação política, religiosa, científica e cultural. No campo, com a adoção de novos métodos de exploração da terra, o uso de novos insumos, a drenagem dos pântanos e, finalmente, o cercamento (enclosures em inglês) das terras comunais e das propriedades camponesas, ocorreu um aprofundamento da chamada revolução agrícola. Destruiu-se, assim, a ordem econômica e social surgida logo após a dissolução do feudalismo, quando se tornou possível o aparecimento da pequena propriedade independente. A revolução agrícola transformou, definitivamente, a relação paternalista entre o proprietário da terra, o camponês independente e o arrendatário em uma relação baseada no dinheiro e no lucro. Ocorreu, na verdade, uma nova forma de concentração da 6

propriedade da terra, agora resultante da concorrência e da ação do Estado e dos grandes proprietários e arrendatários rurais. Essa nova forma de concentração da terra deu origem àquilo que o historiador inglês Lawrence Stone chama de padrão tripartido da sociedade inglesa, no qual existiam os proprietários rurais, os arrendatários prósperos e os trabalhadores sem terra, que seriam contratados como assalariados na agricultura, na manufatura e em outras atividades urbanas que surgiram no século XVI (STONE, 1999). 1.2. Surge uma nova classe proprietária rural: a gentry Esses novos proprietários rurais mencionados por Stone integravam a gentry, uma espécie de classe média abastada que, ao lado da burguesia comercial e manufatureira, foi a grande protagonista nos acontecimentos políticos e religiosos dos séculos XVI e XVII.Esta classe, embora tenha sido produto genuíno da modernização em andamento, só se consolidou como poderosa classe proprietária entre 1538 e 1563, quando apoiou a Reforma Protestante inglesa promovida por Henrique VIII e recebeu, como recompensa, boa parte das terras que foram expropriadas da Igreja Católica.Nesse sentido, em parte, foi um produto social e político da reforma religiosa e das estratégias da monarquia inglesa para construir uma nova base social e religiosa de sustentação do Estado absolutista. Além de terras, o Estado inglês vendeu títulos de nobreza para esses novos proprietários rurais com o objetivo de criar uma nobreza artificial e aumentar sua base de apoio.Desse modo, a gentry se projetou como uma nova nobreza e passou a conviver, nem sempre pacificamente, com a antiga nobreza de sangue azul, com o clero e com os setores burgueses tradicionais que tinham se expandido sob a proteção do sistema mercantilista inglês. Stone apresenta alguns dados numéricos que ilustram o crescente poder dessa nova nobreza inglesa de raízes basicamente rurais. Os dados referem-se ao número de plebeus pertencentes à gentry e a outros setores sociais que se enobreceram por meio da compra de títulos nobiliárquicos entre 1540 e 1640.Nesses cem anos, o número dos pares passou de 60 para 160; o dos barões e cavaleiros, de 500 a 1400; o dos squires, membros de uma nobreza menor, constituída de baixo para cima, passou de 800 para 3000 e o número dos componentes da chamada gentry com brasão, de 5000 para 15000 (STONE, 1999). Na passagem do século XVI para o XVII, a gentry também fortaleceu sua representação política no Parlamento inglês: o número de deputados na Câmara dos Comuns passou de 300 para 500.Simultaneamente a essa ampliação do Parlamento, a representação da gentry, que antes ficava com 50% dos assentos parlamentares, passou a ficar com 75%.Nessa mesma época, como as sessões do Parlamento ocorriam com maior frequência, seus representantes ganharam muita experiência e autoconfiança política.Foi o momento, segundo L.Stone, em que apareceram os primeiros líderes parlamentares e uma oposição formal determinada a desafiar a Coroa inglesa acerca de várias questões. 1.3. O desenvolvimento comercial-manufatureiro e o crescimento das cidades nos séculos XVI e XVII. Essa segunda onda transformadora dos séculos XVI e XVII, já mencionada anteriormente neste capítulo, envolveu também as cidades. Nelas, o comércio e as manufaturas se expandiram e se diversificaram, seja sob a proteção e o controle da política mercantilista inglesa, seja de modo espontâneo e à revelia da interferência estatal. 7

Beneficiados pela ausência de pedágios nos rios e nas estradas, pelas baixas taxas de juros, pela maior segurança jurídica nos negócios e pelas facilidades de criação de sociedades empresariais por ações, os novos setores comerciais e manufatureiros expandiram-se. A partir de 1540, a Inglaterra vivenciou uma onda de criação de novos setores produtivos que passaram a rivalizar com a tradicional manufatura de lã organizada com base no sistema das corporações.Foi o caso da produção de carvão de Newcastle, a primeira indústria de grande escala no Ocidente.Criaram-se, ainda, as manufaturas de arame e de sabão, que logo arrebataram a liderança tecnológica que pertencia ao sistema manufatureiro da Alemanha. Nessa nova expansão econômica predominou, no geral, a manufatura e o comércio de pequena escala, que surgiram e se desenvolveram fora do controle mercantilista do Estado inglês.Por isso, eles foram os responsáveis pela maior parte das reclamações encaminhadas ao Parlamento contra os monopólios econômicos, régios e privados, e contra as arbitrariedades e abusos tributários praticados pelo governo inglês. A expansão da população urbana e a concentração do desenvolvimento econômico nas cidades foi outra faceta importante do dinamismo da Inglaterra nos séculos XVI e XVII.De uma cidade com 60 mil pessoas em 1500, Londres passou a contar com 450 mil habitantes em 1640. No final do século XVII, passavam por Londres 80% das exportações e 70% das importações inglesas (STONE, 1999). 1.4. A mobilidade social e o rompimento do equilíbrio entre as classes tradicionais e as classes emergentes no século XVII. Assentado, portanto, sobre essa base econômica, social, política e religiosa complexa e heterogênea, o Estado absolutista inglês foi a caixa de ressonância das alianças que o sustentavam, mas também dos conflitos que o ameaçavam na primeira metade do século XVII.Aquele equilíbrio precário existente entre a nobreza tradicional decaída, a burguesia, a gentry e outros setores emergentes estava se desfazendo rapidamente no século XVII por causa do dinamismo e da mobilidade social.Por isso, os reis ingleses passaram a encontrar enormes dificuldades para fazer funcionar o chamado “mecanismo régio”, por meio do qual exerciam o papel de árbitros no Antigo Regime. É preciso assinalar que não houve, na primeira metade do século XVII, uma simples polarização entre nobreza, de um lado, e burguesia e demais setores emergentes, de outro.A própria burguesia estava dividida entre o setor tradicional, que não queria mudanças por estar se beneficiando dos favores mercantilistas do Estado absolutista, e os novos setores, que tinham surgido espontaneamente e reivindicavam o fim dos monopólios e mais liberdade econômica (STONE, 1999). A gentry estava também dividida em camadas mais e menos prósperas, o que a tornava uma classe sem coesão política.Até a nobreza tradicional, para não falar do clero, estava também dividida entre aqueles que apoiavam a conservação do Antigo Regime e aqueles que queriam mudanças por causa da hipertrofia do poder real absolutista. Os reis ingleses da primeira metade do século XVII, Jaime I (1566-1625) e Carlos I (1600-1649), da dinastia Stuart, moviam-se, assim, em um terreno político movediço.Eles eram obrigados a administrar não só as demandas da burguesia emergente, da gentry e da classe média letrada, mas também as frustrações e ressentimentos das classes tradicionais, a nobreza de sangue azul e o clero anglicano, que percebiam o declínio de sua riqueza e de seu status político e social.Precisavam também administrar os ressentimentos dos setores burgueses manufatureiros e comerciais que tinham crescido à sombra das políticas 8

mercantilistas e não queriam abrir mão de seus privilégios.Enfrentavam, ainda, as pressões dos puritanos que, espalhados por vários setores sociais, desejavam, desde o século XVI, um aprofundamento da Reforma Protestante na Inglaterra, de modo a expurgar o protestantismo inglês dos resquícios do catolicismo e livrá-lo das influências do Papa (STONE, 1999).A quantidade de textos políticos e religiosos publicados na Inglaterra, na primeira metade do século XVII, dá uma ideia do clima político e religioso reinante: vieram a público, aproximadamente, 22 mil textos, divididos entre sermões, discursos, panfletos e jornais.Isso evidencia o choque de ideologias, de ideias religiosas, de ideias científicas, de manifestações culturais, boa parte delas contaminadas por concepções radicais acerca de todos os aspectos do comportamento humano e de todas as instituições da sociedade (STONE, 1999). A diversidade de posições econômicas, políticas, religiosas, sociais, científicas e culturais, expressadas no conjunto dessas publicações, dá uma Ideia da complexidade e da heterogeneidade da sociedade moderna na Inglaterra dos séculos XVI e XVII.Apesar dessa diversidade, é possível agrupar as posições em quatro correntes ou componentes intelectuais que, de alguma maneira, contribuíram para o enfraquecimento da confiança nas instituições do Antigo Regime, a começar pela Igreja e pelo Estado. Antes da Revolução Industrial, a atividade produtiva era artesanal e manual (daí o termo manufatura), no máximo com o emprego de algumas máquinas simples. Dependendo da escala, grupos de artesãos podiam se organizar e dividir algumas etapas do processo, mas muitas vezes um mesmo artesão cuidava de todo o processo, desde a obtenção da matéria-prima até à comercialização do produto final. Esses trabalhos eram realizados em oficinas nas casas dos próprios artesãos e os profissionais da época dominavam muitas (se não todas) etapas do processo produtivo. Com a Revolução Industrial os trabalhadores perderam o controlo do processo produtivo, uma vez que passaram a trabalhar para um patrão (na qualidade de empregados ou operários), perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro. Esses trabalhadores passaram a controlar máquinas que pertenciam aos donos dos meios de produção os quais passaram a receber todos os lucros. O trabalho realizado com as máquinas ficou conhecido por maquinofatura. Esse momento de passagem marca o ponto culminante de uma evolução tecnológica, econômica e social que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média, com ênfase nos países onde a Reforma Protestante tinha conseguido destronar a influência da Igreja Católica: Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia. Nos países fiéis ao catolicismo, a Revolução Industrial eclodiu, em geral, mais tarde, e num esforço declarado de copiar aquilo que se fazia nos países mais avançados tecnologicamente: os países protestantes. De acordo com a teoria de Karl Marx, a Revolução Industrial, iniciada na GrãBretanha, integrou o conjunto das chamadas Revoluções Burguesas do século XVIII, responsáveis pela crise do Antigo Regime, na passagem do capitalismo comercial para o industrial. Os outros dois movimentos que a acompanham são a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa que, sob influência dos princípios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Para Marx, o capitalismo seria um produto da Revolução Industrial e não sua causa. Com a evolução do processo, no plano das Relações Internacionais, o século XIX foi marcado pela hegemonia mundial britânica, um período de acelerado progresso econômico-tecnológico, de expansão colonialista e das primeiras lutas e conquistas dos trabalhadores. Durante a maior parte do período, o trono britânico foi ocupado pela rainha Vitória (1837-1901), razão pela qual é denominado como Era Vitoriana. Ao final do 9

período, a busca por novas áreas para colonizar e descarregar os produtos maciçamente produzidos pela Revolução Industrial produziu uma acirrada disputa entre as potências industrializadas, causando diversos conflitos e um crescente espírito armamentista que culminou, mais tarde, na eclosão, da Primeira Guerra Mundial (1914). 2. O pioneirismo do Reino Unido O Reino Unido foi pioneiro no processo da Revolução Industrial por diversos fatores: Pela aplicação de uma política econômica liberal desde meados do século XVIII. Antes da liberalização econômica, as atividades industriais e comerciais estavam cartelizadas pelo rígido sistema de guildas, razão pela qual a entrada de novos competidores e a inovação tecnológica eram muito limitados.Com a liberalização da indústria e do comércio ocorreu um enorme progresso tecnológico e um grande aumento da produtividade em um curto espaço de tempo. O processo de enriquecimento britânico adquiriu maior impulso após a Revolução Inglesa, que forneceu ao seu capitalismo a estabilidade que faltava para expandir os investimentos e ampliar os lucros. A Grã-Bretanha firmou vários acordos comerciais vantajosos com outros países. Um desses acordos foi o Tratado de Methuen, celebrado com a decadência da monarquia absoluta portuguesa, em 1703, por meio do qual conseguiu taxas preferenciais para os seus produtos no mercado português. A Grã-Bretanha possuía grandes reservas de ferro e de carvão mineral em seu subsolo, principais matérias-primas utilizadas neste período. Dispunham de mão-de-obra em abundância desde a Lei dos Cercamentos de Terras, que provocou o êxodo rural. Os trabalhadores dirigiram-se para os centros urbanos em busca de trabalho nas indústrias. A burguesia inglesa tinha capital suficiente para financiar as fábricas, adquirir matérias-primas e máquinas e contratar empregados. Para ilustrar a relativa abundância do capital que existia na Inglaterra, pode se constatar que a taxa de juros no final do século XVIII era de cerca de 5% ao ano; já na China, onde praticamente não existia progresso econômico, a taxa de juros era de cerca de 30% ao ano. 3. O liberalismo de Adam Smith As novidades da Revolução Industrial trouxeram muitas dúvidas. O pensador escocês Adam Smith procurou responder racionalmente às perguntas da época. Seu livro A Riqueza das Nações (1776) é considerado uma das obras fundadoras da ciência econômica. Ele dizia que o egoísmo é útil para a sociedade. Seu raciocínio era este: quando uma pessoa busca o melhor para si, toda a sociedade é beneficiada. Exemplo: quando uma cozinheira prepara uma deliciosa carne assada, você saberia explicar quais os motivos dela? Será porque ama o seu patrão e quer vê-lo feliz ou porque está pensando, em primeiro lugar, nela mesma ou no pagamento que receberá no final do mês? De qualquer maneira, se a cozinheira pensa no salário dela, seu individualismo será benéfico para ela e para seu patrão. E por que um açougueiro vende uma carne muito boa para uma pessoa que nunca viu antes? Porque deseja que ela se alimente bem ou porque está olhando para o lucro que terá com futuras vendas? Graças ao individualismo dele o freguês pode comprar boa carne. Da mesma forma, os trabalhadores pensam neles próprios. Trabalham bem para poder garantir seu salário e emprego. Portanto, é correto afirmar que os 10

capitalistas só pensam em seus lucros. Mas, para lucrar, têm que vender produtos bons e baratos. O que, no fim, é ótimo para a sociedade. Então, já que o individualismo é bom para toda a sociedade, o ideal seria que as pessoas pudessem atender livremente a seus interesses individuais. E, para Adam Smith, o Estado é quem atrapalhava a liberdade dos indivíduos. Para o autor escocês, "o Estado deveria intervir o mínimo possível sobre a economia". Se as forças do mercado agissem livremente, a economia poderia crescer com vigor. Desse modo, cada empresário faria o que bem entendesse com seu capital, sem ter de obedecer a nenhum regulamento criado pelo governo. Os investimentos e o comércio seriam totalmente liberados. Sem a intervenção do Estado, o mercado funcionaria automaticamente, como se houvesse uma "mão invisível" ajeitando tudo. Ou seja, o capitalismo e a liberdade individual promoveriam o progresso de forma harmoniosa. 4. Principais avanços tecnológicos
Século XVII 1698 - Thomas Newcomen, em Staffordshire, na Grã-Bretanha, instala um motor a vapor para esgotar água em uma mina de carvão. Século XVIII 1708 - Jethro Tull (agricultor), em Berkshire, na Grã-Bretanha, inventa a primeira máquina de semear puxada a cavalo, permitindo a mecanização da agricultura. 1709 - Abraham Darby, em Coalbrookdale, Shropshire, na Grã-Bretanha, utiliza o carvão para baratear a produção do ferro. 1733 - John Kay, na Grã-Bretanha, inventa uma lançadeira volante para o tear, acelerando o processo de tecelagem. 1740 - Benjamin Huntsman, em Handsworth, na Grã-Bretanha, descobre a técnica do uso de cadinho para fabricação de aço. 1761 - Abertura do Canal de Bridgewater, na Grã-Bretanha, primeira via aquática inteiramente artificial. 1764 - James Hargreaves, na Grã-Bretanha, inventa a fiadora "spinning Jenny", uma máquina de fiar rotativa que permitia a um único artesão fiar oito fios de uma só vez. 1765 - James Watt, na Grã-Bretanha, introduz o condensador na máquina de Newcomen, componente que aumenta consideravelmente a eficiência do motor a vapor. 1768 - Richard Arkwright, na Grã-Bretanha, inventa a "spinning-frame", uma máquina de fiar mais avançada que a "spinning jenny". 1771 - Richard Arkwright, em Cromford, Derbyshire, na Grã-Bretanha, introduz o sistema fabril em sua tecelagem ao acionar a sua máquina - agora conhecida como "water-frame" - com a força de torrente de água nas pás de uma roda. 1776 - 1779 - John Wilkinson e Abraham Darby, em Ironbridge, Shrobsihire, na Grã-Bretanha, constroem a primeira ponte em ferro fundido. 1779 - Samuel Crompton, na Grã-Bretanha, inventa a "spinning mule", combinação da "water frame" com a "spinning jenny", permitindo produzir fios mais finos e resistentes.A mule era capaz de fabricar tanto tecido quanto duzentos trabalhadores, apenas utilizando alguns deles como mãode-obra. 1780 - Edmund Cartwright, de Leicestershire, na Grã-Bretanha, patenteia o primeiro tear a vapor. 1793 - Eli Whitney, na Geórgia, Estados Unidos da América, inventa o descaroçador de algodão. 1800 - Alessandro Volta, na Itália, inventa a bateria elétrica.Século XIX 1803 - Robert Fulton desenvolveu uma embarcação a vapor na Grã-Bretanha. 1807 - A iluminacão de rua, a gás, foi instalada em Pall Mall, Londres, na Grã-Bretanha. 1808 - Richard Trevithick expôs a "London Steam Carriage", um modelo de locomotiva a vapor, em Londres, na Grã-Bretanha. 1825 - George Stephenson concluiu uma locomotiva a vapor, e inaugura a primeira ferrovia, entre Darlington e Stockton-on-Tees, na Grã-Bretanha. 1829 - George Stephenson venceu uma corrida de velocidade com a locomotiva "Rocket", na linha Liverpool - Manchester, na Grã-Bretanha.

11

1830 - A Bélgica e a França iniciaram as respectivas industrializações utilizando como matériaprima o ferro e como força-motriz o motor a vapor. 1843 - Cyrus Hall McCormick patenteou a segadora mecânica, nos Estados Unidos da América. 1844 - Samuel Morse inaugurou a primeira linha de telégrafo, de Washington a Baltimore, nos

• Estados Unidos da América.

5. O motor a vapor As primeiras máquinas a vapor foram construídas na Inglaterra durante o século XVIII. Retiravam a água acumulada nas minas de ferro e de carvão e fabricavam tecidos. Graças a essas máquinas, a produção de mercadorias aumentou muito. E os lucros dos burgueses donos de fábricas cresceram na mesma proporção. Por isso, os empresários ingleses começaram a investir na instalação de indústrias. As fábricas espalharam-se rapidamente pela Inglaterra e provocaram mudanças tão profundas, que os historiadores chamam àquele período de Revolução Industrial. O modo de vida e a mentalidade de milhões de pessoas se transformaram, numa velocidade espantosa. O mundo novo do capitalismo, da cidade, da tecnologia e da mudança incessante triunfou. As máquinas a vapor bombeavam a água para fora das minas de carvão. Eram tão importantes quanto as máquinas que produziam tecidos. As carruagens viajavam a 12 km/h e os cavalos, quando se cansavam, tinham de ser trocados durante o percurso. Um trem da época alcançava 45 km/h e podia seguir centenas de quilômetros. Assim, a 12

Revolução Industrial tornou o mundo mais veloz. Como essas máquinas substituíam a força dos cavalos, convencionou-se em medir a potência desses motores em HP (do inglês horse power ou cavalo-força). 6. A classe trabalhadora A produção manual que antecede à Revolução Industrial conheceu duas etapas bem definidas, dentro do processo de desenvolvimento do capitalismo: O artesanato foi a forma de produção industrial característica da Baixa Idade Média, durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado por uma produção de caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possuía os meios de produção (era o proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalhava com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o acabamento final; ou seja não havia divisão do trabalho ou especialização para a confeção de algum produto. Em algumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante, porém não assalariado, pois realizava o mesmo trabalho pagando uma “taxa” pela utilização das ferramentas. É importante lembrar que nesse período a produção artesanal estava sob controlo das corporações de ofício, assim como o comércio também se encontrava sob controlo de associações, limitando o desenvolvimento da produção. A manufatura, que predominou ao longo da Antiguidade Clássica e na Idade Moderna, resultou da ampliação do mercado consumidor com o desenvolvimento do comércio monetário. Na Idade Moderna já ocorre um aumento na produtividade do trabalho, devido à divisão social da produção, onde cada trabalhador realizava uma etapa na confeção de um único produto. A ampliação do mercado consumidor relaciona-se diretamente ao alargamento do comércio, tanto em direção ao oriente como em direção à América. Outra característica desse período foi a interferência do capitalista no processo produtivo, passando a comprar a matéria-prima e a determinar o ritmo de produção. A partir da máquina, fala-se numa primeira, numa segunda e até terceira e quarta Revoluções Industriais. Porém, se concebermos a industrialização como um processo, seria mais coerente falar-se num primeiro momento (energia a vapor no século XVIII), num segundo momento (energia elétrica no século XIX) e num terceiro e quarto momentos, representados respetivamente pela energia nuclear e pelo avanço da informática, da robótica e do setor de comunicações ao longo dos séculos XX e XXI (aspetos, porém, ainda discutíveis). Na esfera social, o principal desdobramento da revolução foi a transformação nas condições de vida nos países industriais em relação aos outros países da época, havendo uma mudança progressiva das necessidades de consumo da população 13

conforme novas mercadorias foram sendo produzidas. A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do trabalhador braçal, provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades. Criando enormes concentrações urbanas; a população de Londres cresceu de 800 000 habitantes em 1780 para mais de 5 milhões em 1880, por exemplo. Durante o início da Revolução Industrial, os operários viviam em condições horríveis se comparadas às condições dos trabalhadores do século seguinte. Muitos dos trabalhadores tinham um cortiço como moradia e ficavam submetidos a jornadas de trabalho que chegavam até a 80 horas por semana. O salário era medíocre (em torno de 2.5 vezes o nível de subsistência) e tanto mulheres como crianças também trabalhavam, recebendo um salário ainda menor. A produção em larga escala e dividida em etapas iria distanciar cada vez mais o trabalhador do produto final, já que cada grupo de trabalhadores passava a dominar apenas uma etapa da produção, mas sua produtividade ficava maior. Como sua produtividade aumentava os salários reais dos trabalhadores ingleses aumentaram em mais de 300% entre 1800 até 1870.Devido ao progresso ocorrido nos primeiros 90 anos de industrialização, em 1860 a jornada de trabalho na Inglaterra já se reduzia para cerca de 50 horas semanais (10 horas diárias em cinco dias de trabalho por semana). Horas de trabalho por semana, para os trabalhadores adultos nas indústrias têxteis: • • • • • 1780 – cerca de 80 horas por semana 1820 - 67 horas por semana 1860 - 53 horas por semana 2007 - 46 horas por semana 2012 – 40 horas por semana

Segundo os socialistas, o salário, medido a partir do que é necessário para que o trabalhador sobreviva (deve ser notado de que não existe definição exata para qual seja o "nível mínimo de subsistência"), cresceu à medida que os trabalhadores pressionam os seus patrões para tal, ou seja, se o salário e as condições de vida melhoraram com o tempo, foi graças à organização e aos movimentos organizados pelos trabalhadores. 7. Movimentos operários Alguns trabalhadores, indignados com sua situação, reagiam das mais diferentes formas, das quais se destacam: 7.1. Movimento Ludista (1811-1812) Reclamações contra as máquinas inventadas após a revolução para poupar a mão-de-obra já eram normais. Mas foi em 1811 que o estopim estourou e surgiu o movimento ludista, uma forma mais radical de protesto. O nome deriva de Ned Ludd, um dos líderes do movimento. Os luditas chamaram muita atenção pelos seus atos. Invadiram fábricas e destruíram máquinas, que, segundo os luditas, por serem mais eficientes que os homens, tiravam seus trabalhos, requerendo, contudo, duras horas de jornada de trabalho. Os manifestantes sofreram uma violenta repressão, foram condenados à prisão, à deportação e até à forca. Os luditas ficaram lembrados como "os quebradores de máquinas". Anos depois os operários ingleses 14

mais experientes adotaram métodos mais eficientes de luta, como a greve e o movimento sindical. 7.2. Movimento Cartista (1837-1848) Em sequência veio o movimento "cartista", organizado pela "Associação dos Operários", que exigia melhores condições de trabalho como: particularmente a limitação de oito horas para a jornada de trabalho; a regulamentação do trabalho feminino; a extinção do trabalho infantil; a folga semanal; o salário mínimo. Este movimento lutou ainda pelos direitos políticos, como o estabelecimento do sufrágio universal (apenas para os homens, nesta época) e extinção da exigência de propriedade para se integrar ao parlamento e o fim do voto censitário. Esse movimento se destacou por sua organização, e por sua forma de atuação, chegando a conquistar diversos direitos políticos para os trabalhadores. 7.3. As "trade-unions" Os empregados das fábricas também formaram associações denominadas trade unions, que tiveram uma evolução lenta em suas reivindicações. Na segunda metade do século XIX, as trade unions evoluíram para os sindicatos, forma de organização dos trabalhadores com um considerável nível de ideologização e organização, pois o século XIX foi um período muito fértil na produção de ideias antiliberais que serviram à luta da classe operária, seja para obtenção de conquistas na relação com o capitalismo, seja na organização do movimento revolucionário cuja meta era construir o socialismo objetivando o comunismo. O mais eficiente e principal instrumento de luta das trade unions era a greve. Saúde e bem-estar econômico. Estudos efetuados sobre as variações da altura média dos homens, no norte da Europa, sugerem que o progresso económico gerado pela industrialização demorou várias décadas até beneficiar a população como um todo. Eles indicam que, em média, os homens do norte europeu durante o início da Revolução Industrial eram 7,6 centímetros mais baixos que os que viveram 700 anos antes, na Alta Idade Média. É estranho que a altura média dos ingleses tenha caído continuamente durante os anos de 1100 até o início da revolução industrial em 1780, quando a altura média começou a subir. Foi apenas no início do século XX que essas populações voltaram a ter altura semelhante às registradas entre os séculos IX e XI.A variação da altura média de uma população ao longo do tempo é considerada um indicador de saúde e bem-estar econômico. 8. A industrialização na Europa: a partir de 1815 Até 1850, a Inglaterra continuou dominando o primeiro lugar entre os países industrializados. Embora outros países já contassem com fábricas e equipamentos modernos, esses eram considerados uma "miniatura de Inglaterra", como por exemplo os vales de Ruhr e Wupper na Alemanha, que eram bem desenvolvidos, porém não possuíam a tecnologia das fábricas inglesas. Na Europa, os maiores centros de desenvolvimento industrial, na 15

época, eram as regiões mineradoras de carvão; lugares como o norte da França, nos vales do Rio Sambre e Meuse, na Alemanha, no vale de Ruhr, e também em algumas regiões da Bélgica. A Alemanha nessa época ainda não havia sido unificada. Eram 39 pequenos reinos e dentre esses a Prússia, que liderava a Revolução Industrial. A Alemanha se unificou em 1871, quando a Prússia venceu a Guerra Franco-Prussiana. Á exceção destas localidades, a industrialização ficou ligada: • às principais cidades, como Paris e Berlim; • aos centro de interligação viária, como Lyon, Colônia, Frankfurt, Cracóvia e Varsóvia; • aos principais portos, como Hamburgo, Bremen, Roterdão, Le Havre, Marselha; • a polos têxteis, como Lille, Região do Ruhr, Roubaix, Barmen-Elberfeld (Wuppertal), Chemmitz, Lodz e Moscou; • e a distritos siderúrgicos e indústria pesada, na bacia do rio Loire, do Sarre, e da Silésia. 9. A Expansão da Revolução Industrial pelo mundo (1830-1929) Após 1830, a produção industrial se descentralizou da Inglaterra e se expandiu rapidamente pelo mundo, principalmente para o noroeste europeu, e para o leste dos Estados Unidos da América. Porém, cada país se desenvolveu em um ritmo diferente baseado nas condições econômicas, sociais e culturais de cada lugar. Na Alemanha com o resultado da Guerra Franco-prussiana em 1870, houve a Unificação Alemã que, liderada por Bismarck, impulsionou a Revolução Industrial no país que já estava ocorrendo desde 1815.Foi a partir dessa época que a produção de ferro fundido começou a aumentar de forma exponencial. Na Itália a unificação política realizada em 1870, à semelhança do que ocorreu na Alemanha, impulsionou, mesmo que atrasada, a industrialização do país. Essa só atingiu ao norte da Itália, pois o sul continuou basicamente agrário. Muito mais tarde, começou a industrialização na Rússia, nas últimas décadas do século XIX. Os principais fatores para que ela acontecesse foram a grande disponibilidade de mão-de-obra, intervenção governamental na economia através de subsídios e investimentos estrangeiros à indústria. Nos Estados Unidos a industrialização começou no final do século XVIII, e foi somente após a Guerra da Secessão que todo o país se tornou industrializado. A industrialização relativamente tardia dos EUA em relação à Inglaterra pode ser explicada pelo fato de que nos EUA existia muita terra per capita (por pessoa), já na Inglaterra existia pouca terra per capita; assim os EUA tinham uma vantagem comparativa na agricultura em relação à Inglaterra e consequentemente demorou bastante tempo para que a indústria ficasse mais importante que a agricultura. Outro fator é que os Estados do sul eram esclavagistas (usavam escravos) o que retardava a acumulação de capital, como tinham muita terra eram essencialmente agrários, impedindo a total industrialização do país que até a segunda metade do século XIX era constituído só pelos Estados da faixa leste do atual Estados Unidos. O fim do conflito resultou na abolição da escravatura o que elevou a produtividade da mão-de-obra, aumentando, assim, a velocidade de acumulação de capital, e também muitas riquezas naturais foram encontradas no período incentivando a industrialização. A modernização do Japão data do início da era Meiji, em 1867, quando a superação do feudalismo unificou o país. A propriedade privada foi estabelecida. A autoridade política foi centralizada possibilitando a intervenção estatal do governo central na economia, o que resultou no subsídio à indústria. E como a mão-de-obra 16

ficou livre dos senhores feudais, ocorreu a assimilação da tecnologia ocidental e o Japão passou de um dos países mais atrasados do mundo a um país industrializado. 10. As consequências da Revolução Industrial A partir da Revolução Industrial o volume de produção aumentou extraordinariamente: a produção de bens deixou de ser artesanal e passou a ser maquinofaturada; as populações passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos em busca de trabalho. As fábricas passaram a concentrar centenas de trabalhadores, que vendiam a sua força de trabalho em troca de um salário. Outra das consequências da Revolução Industrial foi o rápido crescimento econômico. Antes dela, o progresso econômico era sempre lento (levavam séculos para que a renda per capita aumentasse sensivelmente), e após, a renda per capita e a população começaram a crescer de forma acelerada nunca antes vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a população da Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para 8,5, já entre 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões, devido à drástica redução da mortalidade infantil. A Revolução Industrial alterou completamente a maneira de viver das populações dos países que se industrializaram. As cidades atraíram os camponeses e artesãos, e se tornaram cada vez maiores e mais importantes. Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em um grande país, havia mais pessoas vivendo em cidades do que no campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres se aglomeravam em subúrbios de casas velhas e desconfortáveis, se comparadas com as habitações dos países industrializados hoje em dia. Mas representavam uma grande melhoria se comparadas as condições de vida dos camponeses, que viviam em choupanas de palha. Conviviam com a falta de água encanada, com os ratos, o esgoto formando riachos nas ruas esburacadas. O trabalho do operário era muito diferente do trabalho do camponês: tarefas monótonas e repetitivas. A vida na cidade moderna significava mudanças incessantes. A cada instante, surgiam novas máquinas, novos produtos, novos gostos, novas modas. 11. Segunda Revolução Industrial A Segunda Revolução Industrial, iniciada na segunda metade do século XIX (1850 - 1870), foi uma segunda fase da Revolução Industrial, envolvendo uma série de desenvolvimentos dentro da indústria química, elétrica, de petróleo e de aço. Outros progressos essenciais nesse período incluem a introdução de navios de aço movidos a vapor, o desenvolvimento do avião, a produção em massa de bens de consumo, o enlatamento de comidas, refrigeração mecânica e outras técnicas de preservação e a invenção do telefone eletromagnético. Esse período marca também o advento da Alemanha e dos Estados Unidos como potências industriais, juntandose à França e do Reino Unido. A Segunda Revolução Industrial é vista como apenas uma fase da Revolução Industrial já que, de um ponto de vista social e tecnológico, não houve uma clara rutura entre as duas. Ainda, é argumentável que ela se divide no meio no século XIX, com o crescimento de estradas de ferro, os navios a vapor e invenções cruciais como o processo de Bessemer e o processo de produção de aço de Siemens, com o forno Siemens-Martin, que resultaram no barateamento do aço, transporte rápido e menores custos de produção. Nos Estados Unidos a Segunda Revolução Industrial é comumente associada com a eletrificação de Nikola Tesla, Thomas Alva Edison e George Westinghouse e com o gerenciamento científico aplicado por Frederick Winslow Taylor. No passado, 17

o termo "Segunda Revolução Industrial" também era usado na imprensa e pelos industrialistas para se referir às mudanças consequentes da dispersão da nova tecnologia após a Segunda Guerra Mundial. III- TRANSFORMAÇÕES DEMOGRÁFICAS 1.Evolução da demografia do século XVII ao século XVIII 1.1. Principais factores da Regressão demográfica doséculo XVII

A fome, a peste e a guerra eram as principais causas da elevada mortalidade do Antigo Regime. É chamado o período da trilogia negra. Principais causas da trilogia: a falta de higiene pública e privada, a subalimentação; a miséria, as más condições de vida e habitação e a um atraso na medicina. Os lugares suspeitos de pestes, eram rapidamente isolados e fechados, com os doentes lá dentro. Os médicos são totalmente impotentes para curar esta doença. Uma vez instalada a peste, todos os grupos da sociedade, nobres e povo são tragicamente afetados. A peste vai afetar essencialmente crianças, adolescentes e adultos jovens, com forte proporção de mulheres grávidas.Com a peste morre muita gente, gente essa que era os braços para o trabalho da terra. Para além disso não nos podemos esquecer que os fatores climáticos vão influenciar as colheitas. Ora se essas colheitas são fracas, leva ao aparecimento de carências de alimentos. Aqui os ricos aguentam melhor as fomes, o pobre agricultor é que não tem dinheiro para comprar alimentos. O número de crianças abandonadas e de vadios aumenta. A guerra pode estar na origem de certas crises demográficas, não pela mortalidade entre os combatentes, mas pelas consequências diretas ou indiretas da guerra sobre os não combatentes. Os soldados vivem brutalizando as populações, ou mesmo matando, sobretudo os que não puderam fugir a tempo; queimando e arruinando tudo o que não podem usar ou levar consigo. Quando os camponeses voltam aos campos, é para encontrar as suas searas queimadas, as árvores de fruto abatidas, as vinhas arrancadas, os animais mortos, os celeiros vazios. Tudo isto significa, de imediato e para os anos seguintes, a miséria, a fome, a doença e a morte.

1.2.A morte no Antigo Regime Toda a gente conhece a imagem típica da morte no Antigo Regime, em que ela aparece representada na imagem de uma velha, quase bruxa, que aparece com 18

uma foice na mão. Simboliza o que a morte representa, para entender que a morte deveria ocorrer na velhice. O que nem sempre acontecia, e por outro lado o instrumento, a foice, de acabar com a vida, que copiosamente para a mentalidade popular era um simbolismo. É o como se afastar da mentalidade religiosa, que defendia uma vida para além da morte. Posteriormente esta imagem é modificada, agora a morte é representada com a imagem de uma velha, mas em esqueleto. Representa a fome. A morte chegava a todas as classes e a todas as idades. No entanto as crianças eram as mais lesadas uma vez que não resistiam facilmente às más condições de vida da época (falta de higiene, falta de comida). As estações do ano em que se morria mais eram no Verão e no Inverno (aqui os idosos são o grande numero). Por outro lado também se morre mais na cidade que no campo. A ideia de morte provoca na população em geral dois sentimentos: ode insegurança e o de medo. A igreja tenta esbater esses medos, prometendo o paraíso aos seus crentes. Nas camadas mais pobres o confessionário era a única forma de redenção dos seus pecados, ou seja possibilitava que a alma fosse para o céu. Nas camadas mais ricas a fórmula para obter a sua salvação era através dos testamentos que deixavam à Igreja legados fabulosos, tanto em dinheiro como em terras. A taxa de mortalidade era elevada (número de óbitos por cada 1000 habitantes, na ordem dos 35%.E por cada 100 crianças que nasciam, 25morriam antes de 1 ano de idade). 1.3.A natalidade no Antigo Regime Como já era intitulado na Bíblia: ‘’Crescei e multiplicai-vos”. A natalidade, sem restrições que não fossem as fisiológicas é, na prática, limitada por outras circunstâncias: a idade tardia do casamento, sobretudo nas mulheres, o que reduz o período de fertilidade para cerca de apenas 14 anos; a deficiente alimentação e as suas sequelas (saúde precária, frequência de abortos “acidentais” e fome); as más condições de vida e de trabalho das mulheres, o que lhes rouba disposição e tempo para os cuidados maternais; o aleitamento prolongado dos recém-nascidos – o que provoca o atraso na ovulação e diminuição da fecundidade; a fragilidade das uniões, muitas vezes ceifadas pela morte de um dos cônjuges – ocasionalmente elevado número de viúvos e principalmente viúvas e, consequentemente, redução da fertilidade e, possivelmente, pelo uso, ainda que diminuto, de práticas contracetivas primitivas. 1.4.A família/casamento no Antigo Regime Na sociedade do Antigo Regime havia três círculos de sociedade: a família, a comunidade e o Estado. E o círculo familiar é, de longe, o mais importante tanto a nível social, como económico. O casamento é o ato jurídico pelo qual se funda ou se forma um novo núcleo familiar. Representa assim um papel fundamental na estrutura social. Até ao século XVI o casamento era um sacramento e a Igreja a única entidade que sobre ele legislava. O casamento católico requeria o consentimento mútuo dos esposos, obrigava à fidelidade recíproca e era indissolúvel e perpetuavam também os laços de sangue e de linhagem, bem como, o património económico das famílias. Nos séculos XVII e XVIII o casamento adquiriu uma nova feição, a de um contrato em que os pais e as autoridades civis cada vez mais interferem. Casava-se tarde no Antigo Regime. Este casamento tardio consolidou-se como única resposta da população às dificuldades económicas dos tempos em que viviam e à crise demográfica. 19

Tanto na aristocracia como na burguesia letrada e mercantil, são os pais que regulamentam, pelo melhor, o casamento dos filhos. Era um casamento imposto, para salvaguardar a linhagem. Entre as classes populares a escolha pessoal, sobretudo do noivo, influencia mais frequentemente a decisão dos pais. No entanto era um casamento livre, estabelecido por afinidades entre os cônjuges, mas tardio. Em relação à família – os cônjuges – dois corpos, uma só vontade – a do homem. O homem é a cabeça, isto é, o ser pensante, o organizador, o chefe! A mulher é o corpo, executa as ordens da cabeça, obedecendo-lhe, respondendo em uníssono aos seus estímulos como se de um único organismo se tratasse. Só a partir do século XVII é que se começa a notar uma lenta suavização da autoridade da mulher, no casamento. Nas famílias rurais o número de filhos era superior. Era necessária mão-de-obra para trabalhar no campo. As meninas ficavam em casa aprendendo as tarefas domésticas, ao passo que os rapazes iam para o campo trabalhar. Por volta dos 18-19 anos eram normalmente recrutados para o serviço militar. Eram analfabetos. Nas cidades ou nos meios rurais e na alta sociedade os rapazes aprendiam a ler e escrever, ou em casa com um professor ou num mosteiro ou convento. Aprendiam para além da educação normal, aprendiam também atividades específicas para a nobreza, como era o caso de montar a cavalo, a caça e o serviço militar. No entanto as raparigas eram educadas em casa para serem futuras esposas e a saber organizar festas. Aprendiam também a ler e a escrever, e normalmente uma língua estrangeira, o francês. Aprendiam também a tocar piano. 1.5. Crescimento demográfico do século XVIII A partir do século XVIII, estas crises parecem acalmar. Acredita-se que este crescimento da população deveu-se a uma acentuada diminuição da mortalidade. A explicação para este fenómeno reside, talvez, no clima. O século XVIII terá correspondido a um período favorável, farto em anos de boas colheitas e adverso à propagação das epidemias. Mas também devido a inovações da agricultura, os progressos da indústria, o desenvolvimento dos transportes e as conquistas da medicina. Mas oque é certo é que a fome e a doença diminuíram na Europa, provocando um acentuado crescimento demográfico. É possível que a tendência geral tenha sido uma diminuição da taxa da mortalidade como a que se verificou em Inglaterra, na Suécia e na França. No entanto, na Noruega a manutenção dos mesmos índices de alta mortalidade foi constante e na Europa de Leste os registos revelaram um aumento. No que diz respeito à esperança média de vida, verificaram-se também diferenças quando são comparadas as ocorrências nos vários países, nos diferentes extratos sociais e na população feminina e masculina - se para alguns países a média se situava nos47,6 (Genebra), noutros era ultrapassada; na Suécia o limite médio de idade para os homens era de 33,7 anos e de 36,6 para as mulheres entre 1750 e 1800.A baixa da taxa de mortalidade poderá ter a ver com uma melhoria geral das condições de vida e com uma franca diminuição de fomes e de epidemias, embora tenham ocorrido surtos esporadicamente (varíola em França, malária em Espanha e tosse convulsa na Suécia).A menor incidência da guerra é também considerada um fator de primeiro plano, pois teve consequências ao nível da diminuição da difusão das epidemias e da frequência de pilhagens que arruinavam a economia dos países envolvidos. As más colheitas do início do século já não se verificariam posteriormente, pois houve um melhoramento significativo das condições climatéricas, exceto no contexto da Europa de Leste, onde as fomes ainda provocavam grandes mortandades. A melhoria geral da quantidade e qualidade dos géneros alimentares foi importante para o abaixamento da taxa de mortalidade (torna-se comum o uso do milho e da batata e expande-se a produção 20

de gado) e foi igualmente significativo o facto de estas populações terem criado maiores resistências às doenças, ligadas quer ao desenvolvimento da agricultura e ao uso de alimentos mais nutritivos, quer à preocupação com a saúde e com a higiene. 1.6.Melhores condições de vida Relativamente à higiene, notaram-se novas conceções no que diz respeito aos esgotos, aos enterramentos de cadáveres, aos diagnósticos médicos e à utilização de novos medicamentos. Em traços muito simples a Inglaterra é bem o exemplo do abaixamento da mortalidade a partir de 1740/50, devido à melhoria significativa das condições sanitárias, à diminuição da incidência das pestes e ao aumento de produção. O incremento do nível de vida provocou um aumento da taxa de nupcialidade e da esperança de vida. A impossibilidade de aplicar os mesmos modelos de análise aos diferentes países da Europa é demonstrada pelo caso francês, cujo crescimento não foi tão espetacular como o inglês. A descoberta da vacina foi bastante notável. As práticas de vacinação apaixonaram a opinião pública e publicaram-se, sobre elas, milhares de brochuras e obras. Médicas, reis e grandes senhores mandaram vacinar publicamente os seus filhos, para dar o exemplo. O obstetra substituía a parteira, com mais formação e sensibilidade. Toda esta evolução reflete uma nova mentalidade relativamente è infância e ao seu valor. A criança torna-se o centro de atenções da família e a sua morte deixa de ser encarada como coisa corrente e inevitável. A criança deixa de ser enfaixada. Todos estes fatores fazem com que a população da Europa rejuvenesça. IV- TRANSFORMAÇÕES NOS TRANSPORTES 1.Transportes e comunicações do séc. XIX 1.1. O Caminho-de-Ferro (Século XVII-XIX)

Em meados do século XVIII, muitos engenhos e invenções começaram a surgir em Inglaterra, no que toca à agricultura, transportes, indústria, comércio e finanças. Novas patentes foram registadas. A baixa da taxa de juro que coincidia com a expansão dos mercados interno e externo, constituía um estímulo ao progresso. Estas invenções acabaram por se traduzir num aumento do rendimento do consumidor e dos produtos essenciais. As principais novidades técnicas incluíam, entre outras, teares mecânicos, máquinas de fiação e fundição de coque. Todo este processo originou a chamada Revolução Industrial, que se operou, primeiramente, na Inglaterra no século XVIII. Por volta de 1760, em Inglaterra, o sector têxtil algodoeiro conhecia um invento de grande importância: a máquina a vapor, de Watt (1769).A utilização desta nova fonte de energia tornou possível a substituição do "domestic system" pelo "factory system", isto é, o carácter da indústria modificouse: a fiação passou a fazer-se, na sua maior parte, em estabelecimentos fabris e não em pequenas oficinas artesanais. É evidente que tudo isto teve sérias repercussões: por exemplo, os tecelões rurais, ao verem o seu trabalho e receitas aumentados, abandonaram os campos e passaram a concentrar-se nas cidades. A invenção e constante aperfeiçoamento da máquina a vapor permitiram também o aumento da produtividade e custos reduzidos. A velocidade de rotação da máquina a vapor e o baixo custo da energia transformaram esta máquina num engenho de alta rendibilidade, a qual se tornou no símbolo da Revolução Industrial. Inicialmente 21

utilizada na bombagem de minas, a partir de 1785 passou a ser utilizada nas indústrias algodoeiras e metalúrgica. Embora a difusão da máquina a vapor fora da Inglaterra fosse incipiente, já se encontravam, nos começos do século XIX, no continente algumas unidades fabris com máquinas a vapor. A partir de 1840-50, a máquina a vapor conheceu novos aperfeiçoamentos e foi adotada em todos os países em fase de industrialização. Com a utilização do vapor, também a indústria siderúrgica se transformou, resolvendo os problemas da imigração e dispersão, devido às grandes concentrações fabris em locais rurais, quase sempre onde se produzia o carvão e o ferro. Para além da sua aplicação à indústria têxtil algodoeira, a máquina a vapor continuava a ser utilizada no transporte nas minas. A partir de 1760, tanto em França como em Inglaterra, os inventores tentaram descobrir o melhor meio para adaptar a máquina a vapor aos transportes. Assim, em 1803 surgiu uma locomotiva a vapor construída por Richard Trevithick (1771-1833), e que fez várias viagens pelas ruas de Londres. Porém, essas ruas mostraram-se impróprias para o tráfego de locomotivas, pelo que a experiência não surtiu efeito. A exploração dos caminhos-de-ferro está na origem do desenvolvimento de sistemas técnicos muito importantes no século XIX. Por exemplo, a partir de 1870, são adotados o carril de aço, a sinalização elétrica, o freio de ar comprimido, a manutenção hidráulica entre outros inventos que fazem do caminho-deferro uma das fontes de inovação do século XIX. Em 1814, William Hadley inventou a sua locomotiva a vapor Puffing Billy, que provou ser possível fazer aderir a locomotiva aos "rails". Nasceu, assim, o caminho-de-ferro. George Stephenson (1781-1848) viria a melhorar a locomotiva a vapor sobre carris, utilizada pela primeira vez nos transportes em 1829 e que ficou conhecida como "Rocket". A construção do caminho-de-ferro entre Liverpool e Manchester, associado à locomotiva, acabou por demonstrar as potencialidades do transporte a motor. No fundo, a locomotiva a vapor revelava-se o mais importante invento da revolução tecnológica. Os seus efeitos não só na vida económica inglesa como no resto do mundo foram profundos. Assim, os transportes terrestres sofreram um aumento significativo. Na segunda metade do século XIX, a indústria reestruturou-se adotando novos processos de produção e organização. A partir de 1860, entra-se numa nova fase caracterizada pela substituição do ferro pelo aço, do vapor pela eletricidade e pelo petróleo como principais fontes de energia; dá-se também um desenvolvimento da automatização das máquinas e da especialização do trabalho; a usar ligas de metais leves e novos produtos da química industrial; as mudanças nos transportes e comunicações são inúmeras; o aperfeiçoamento e adoção de novas formas de organização capitalista e a extensão da industrialização à Europa Central 22

e Oriental e ao Extremo Oriente são também marcas desses tempos. Nesta fase da industrialização, os transportes ferroviários desenvolveram-se rapidamente, o que virá facilitar a aquisição de matéria-prima e a distribuição dos produtos. As distâncias tornam-se mais curtas, facilitando a concorrência e acabando com o isolamento de certas regiões.Com o aumento da produção de ferro, que continua a crescer na segunda metade do século XIX, e o incremento da indústria siderúrgica, assiste-se a um forte desenvolvimento, produção de maquinaria, de meios de transporte e da engenharia civil; o caminho-de-ferro torna-se importante. Por volta de 1840 foram construídos muitos quilómetros de linhas férreas pelo Mundo. Cerca de 1850, as redes ferroviárias da Grã-Bretanha e da Bélgica estavam todas concluídas e na Alemanha a maior parte das linhas ferroviárias tinham já sido construídas. Entre 1850-60, em França registou-se um crescimento na construção de linhas com o impulso do governo de Napoleão III. Os caminhos-de-ferro construídos entre 1840-60 já abrangiam as regiões mais desenvolvidas, o que constituía um bom negócio. Fora da Europa, os caminhos-de-ferro penetraram e modificaram rapidamente os espaços: nos EUA, no Japão e na Rússia, onde a linha do transiberiano e transcaucasiano tornou possível a este país conhecer e explorar muitos dos seus recursos naturais. Em 1857, na Rússia os caminhos-de-ferro ligavam já Moscovo a São Petersburgo e, em 1862, São Petersburgo a Varsóvia e Moscovo a Novogrado. Moscovo encontrava-se, assim, rodeada por estas linhas. A ideia de que os caminhos-de-ferro podiam povoar os desertos e aumentar a riqueza nas zonas pobres levou a que estes fossem considerados um assunto da máxima importância para os respetivos Estados. A construção das linhas permanece até à Primeira Guerra Mundial como a primeira causa da exportação de capitais, pois funcionava como instrumento de valorização dos novos territórios. Entre 1891 e 1903 foram construídas as linhas intercontinentais. Os EUA já tinham construído cinco linhas transcontinentais, entre 1864 e 1890, entre o Atlântico e o Pacífico. Estes transcontinentais desempenham um papel muito importante no povoamento e aproveitamento de grandes espaços, tal como acontecera com o transiberiano, construído a partir de 1891.Em outras regiões iniciam-se novas redes ferroviárias: China, América Latina e colónias africanas. Na Europa, as vias férreas tentam numa primeira fase estabelecer os eixos nacionais. Ex.: Paris/Bruxelas; Antuérpia/Colónia; Frankfurt/Bâle; Viena/Praga/Berlim. Na segunda fase lançam-se as vias regionais que entroncam em grandes eixos. Numa terceira fase abrangem as vias secundárias que ligam as localidades mais isoladas. Os caminhos-de-ferro exigiam um grande investimento de capitais, o qual só foi possível graças à sua grande concentração nas mãos de sociedades modernas e empreendedoras. A construção dos caminhos-de-ferro, após os meados do século XIX, deveu-se ao aumento da procura de transportes, resultante da expansão industrial. Foram os próprios industriais que subsidiaram os primeiros investimentos. Chegou-se a recorrer à poupança nacional através da emissão de ações e obrigações. Os lucros que provinham da exploração dos caminhos-de-ferro atraíram o investimento privado. Assim, o Estado interferia cada vez mais neste domínio. No caso da Bélgica, os caminhos-de-ferro eram divididos entre o Estado e uma companhia privada, procurando o Estado salvaguardar os interesses nacionais relativamente aos estrangeiros, e deter o tráfego entre a Europa Central e o mar do Norte. Em França, a participação estatal teve muita importância no crescimento da rede ferroviária, já que tinha a seu cargo as despesas mais avultadas e só depois concedia a exploração a companhias privadas que no entanto ficavam sujeitas ao controlo estatal. Na Alemanha, os caminhos-de-ferro desenvolveram-se através da iniciativa privada e estatal. Na Grã-Bretanha e nos EUA, nos anos de 1860-1870 os privados tiveram um papel importante na expansão dos caminhos-de-ferro. A partir 23

do final do século XIX, todos os países se empenharam no controlo direto das linhas ferroviárias, acabando por nacionalizar as companhias privadas. 1.2.Transportes fluviais e marítimos (Século XVII-XIX) Sublinhe-se que a expansão do caminho-de-ferro não pode ser dissociada da navegação a vapor, tanto em rios como no mar. Ficava mais barato enviar as mercadorias por mar do que por terra. Assim, o crescimento da economia da Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, foi estimulado pelo tráfego intenso que se regista nos canais e nas rotas marítimas. Porém, o transporte das mercadorias por mar tinha também os seus inconvenientes. O transporte por rio tornava-se mais seguro e mais barato. Em 1838, quatro vapores britânicos atravessaram o Atlântico. A dinamização da navegação a vapor teve o seu impulso, principalmente, depois de meados do século XIX, devido aos progressos técnicos que permitiram reduzir o consumo do carvão, aumentar a tonelagem e a rapidez. Contudo, a expansão da navegação a vapor foi muito lenta já que a Inglaterra, onde se verificaram estes progressos, tinha uma grande frota de veleiros. Por outro lado, este tipo de navegação acarretava problemas quanto ao seu abastecimento, pois a máquina a vapor consumia muito combustível, tornando impossível o seu transporte. Por outro lado, a velocidade das embarcações a vapor não era vantajosa em relação aos veleiros. A partir de 1860, a aplicação da máquina Compound à navegação permitiu economizar combustível e fazer triunfar a navegação a vapor, isto é, procedeu-se à substituição da roda por uma hélice, que fez aumentar a sua velocidade. Por outro lado, o emprego do ferro na construção naval permitiu o aumento do tamanho dos steamers e da sua tonelagem. Assim, as vantagens do vapor sobre os veleiros tornaram-se mais do que evidentes nos finais do século XIX. Nesta altura, surgem os primeiros petroleiros a vapor e o barco "frigorífico" para transporte de mercadorias que se estragavam facilmente. Porém, os veleiros subsistem até 1890 sendo utilizados em distâncias longas. A partir de 1830, o vapor impõe-se também na navegação interior, possibilitando por um lado encurtamento das distâncias e permitindo por outro o aumento da tonelagem. No entanto, o desenvolvimento da navegação a vapor e o facto de se querer reduzir as distâncias entre o Ocidente e o Oriente levou à construção dos canais de Suez e do Panamá. Por exemplo a abertura do canal de Suez, em 1865, permitiu encurtar a distância entre a Europa e a Ásia, fomentando as relações comerciais entre estes dois continentes. A rota do Cabo, velha de 400 anos, era assim secundarizada, poupando-se 9000 km através do Suez. A abertura destes canais permitiu exercer um papel muito importante na navegação oceânica e no comércio intercontinental, diminuindo as distâncias e reduzindo o preço do frete. Por outro lado, o aumento do tamanho das embarcações e da sua tonelagem, possibilitado pelo vapor e pelo uso do ferro na construção naval, tornou necessário melhorar os portos marítimos. Os reflexos do caminho-de-ferro e da navegação a vapor na economia e geografia dos países possibilitaram o alargamento dos mercados e o aumento das atividades, estando ligada a estes a expansão de novos 24

países como os EUA, Argentina, Austrália e Rússia para a Sibéria. Estas duas invenções ou inovações provocaram também um aumento da concorrência, devido à descida das tarifas. A criação do barco a vapor dificilmente pode ser creditada a um inventor particular, pois a adaptação do motor a vapor para propulsão de embarcações foi tentada por vários projetistas, tanto na Europa quanto na América. Às vezes, essa honra é atribuída a Henry Bell, projetista do Comet, um vapor propelido a rodas que transportou passageiros no rio Clyde, na Escócia, em 1812. Antes disso, porém, várias tentativas haviam sido feitas e diversas patentes registradas. Algumas sugestões antigas não passavam de vôos da imaginação, mas já no final do século XVII o inventor francês Denis Papin esboçou planos para um barco a vapor com rodas de pás giratórias, acionadas por um simples motor a vapor. Em 1712, Newcomen projetou o motor a vapor que passaria a ser conhecido por seu nome, mas o invento não foi imediatamente adaptado para propelir barcos, pois seu grande peso e baixa potência constituíam um problema cuja resolução era muito difícil. Assim, em 1736, Jonathan Hull patenteou um rebocador movido por um motor de Newcomen e, embora esse barco nunca tenha sido construído, o projeto sobreviveu. A partir de meados do século XVIII, surgiram várias idéias e patentes, que abrangiam não apenas a fonte de energia, mas também o método de propulsão remos individuais, rodas de água, hélices e mesmo jatos de água. O primeiro êxito real ocorreu em 1783, quando o Pyroscaphe, um vapor equipado com rodas, navegou durante 15 minutos contra a corrente do rio Saône, na França. Seu projetista, o marquês De Jouffroy d'Abbans, havia construído anteriormente, sem sucesso, um barco propelido por um motor de Newcomen de dois cilindros. O Pyroscaphe apresentava projeto mais aperfeiçoado, possuindo um simples cilindro horizontal acionado por um pistão. Nos anos seguintes, inventores de diferentes partes do mundo apresentaram soluções diversas para o problema do mecanismo de propulsão. Na América, John Fitch construiu uma embarcação cujo motor a vapor aciona doze remos montados verticalmente, seis de cada lado. Esse mecanismo testado no rio Delaware em 1786, permitia uma velocidade de 5 km/h. Em 1787 outro inventor de origem americana, James Rumsey, projetou um barco propelido por jatos de água bombeados da popa. Também esse modelo funcionou, mas obteve pouca aceitação. 25

Em 1801, William Symington, projetou o Charlotte Dundas, rebocador com uma única roda de pá colocada na popa, propulsionada por um motor de Watt de dupla ação. Essa embarcação, que em março de 1803 rebocou duas barcaças carregadas ao longo de 31,4 km de um canal, tem sido frequentemente apontada como o primeiro barco a vapor realmente bem-sucedido. O sucesso comercial do barco a vapor viria finalmente no mesmo ano, com o projeto do americano Robert Fulton. De volta aos Estados Unidos, depois de haver construído um barco experimental na França, Fulton projetou o Clermont, com rodas de água laterais propelidas por um motor de Boulton e Watt. Em setembro de 1803, o Clermont navegou pela primeira vez levando passageiros ao longo do rio Hudson. Tinha esse vapor 50 metros de comprimento. O Clermont ia de Nova Iorque a Albany a um pouco mais de 8 km/h. Quando, nove anos depois, o Comet fez sua viagem, os navios a vapor já se haviam estabelecido como alternativas muito superiores aos outros tipos de embarcação. O desenvolvimento da navegação a vapor caracterizou-se depois disso pela construção de navios cada vez maiores e mais potentes. Em 1819, um barco a vela equipado com um motor a vapor atravessou o Atlântico. 1.2. Transportes em Portugal

No início do século XIX a população portuguesa vivia de certo modo isolada. As más estradas e os antiquados transportes assustavam o mais ousado viajante. Em Portugal só na segunda metade do século XIX é que se deram os primeiros melhoramentos e a modernização das vias de comunicação e meios de transporte. Fontes Pereira de Melo Nasceu em 1819 e morreu em 1887. Figura grada da política portuguesa da segunda metade do século XIX, integra o governo regenerador constituído em 7 de Julho de 1851. Criado o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, em 1852, é-lhe confiada essa pasta ministerial. Enceta uma política de desenvolvimento económico do País, que é habitualmente designada por fontismo. Ocupou vários cargos ministeriais, foi conselheiro de Estado (1866) e Par do Reino (1870). A política fontista incrementou a rede viária e ferroviária, o desenvolvimento da indústria, o crescimento económico, contribuindo para a modernização do país. Todo o progresso da segunda metade do século XIX só foi possível devido à modernização da rede de transportes e comunicações: estradas, caminho-de-ferro, pontes, túneis e portos. Um dos principais responsáveis por esta política de modernização foi Fontes Pereira de Melo, ministro de D. Maria II, D. Pedro V e D. Luís I. A introdução da máquina a vapor nos transportes foi uma das principais inovações que aconteceram.
"Grande acontecimento, o caminho-de-ferro! A vantagem da sua construção em Portugal fora discutidíssima [...].era curioso ouvir nos serões lá de casa as diversas opiniões [...] a Nação ia gastar montes de libras e um país que possuía o Tejo e o Douro não precisava de

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nada mais. Os transportes nos rios muito eram mais seguros e muito mais baratos. Outro dizia que só começassem os comboios onde acabassem os rios [...]. Em todo o caso a maioria era pelo caminho-de-ferro [...]. Chegou enfim, o solene dia da inauguração [...]. Murmurava-se insistentemente que a ponte de Sacavém não podia resistir ao peso. Finalmente avistámos longe um fumozinho branco [...]. Quando o comboio se aproximou vimos que trazia menos carruagens do que supúnhamos. Vinha, festivamente engalanado, o vagão em que viajava El-Rei D. Pedro V.O comboio parou um momento na estação de onde se ergueram girândolas de foguetes: Vimos El-Rei debruçar-se um instante e fazernos uma cortesia [...] Só no dia seguinte ouvimos contar certas peripécias dessa jornada da inauguração. A máquina, das mais primitivas, não tinha força para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram, e fora-as largando ao longo da linha. [...] Passaram muita fome os que ficaram pelo caminho. Esses desprotegidos da sorte, semeados pela linha, só chegaram alta noite a Lisboa depois de variadíssimas aventuras [...]. Até andou gente com archotes pela linha, à procura dos náufragos do progresso."

Testemunho da Marquesa do Cadaval, (Adaptado).

Em que consistiram esses melhoramentos nos transportes em Portugal com a obra de Fontes Pereira de Melo? 1823-Carreira regular entre Lisboa e Porto em barco a vapor 1853-Utilização de selos-postais 1856-Inauguração da linha de caminho-de-ferro - Lisboa Carregado 1856-Inauguração do Telégrafo elétrico 1858-Criação das primeiras carreiras regulares, a vapor, entre Portugal e Angola 1861-Inauguração da linha férrea do Barreiro a Setúbal 1863-Inauguração da linha férrea até Évora e da ligação com a Espanha 1864-Inauguração da linha férrea do Norte até Gaia e do Sul até Beja 1870-Inauguração da ligação entre Portugal e a Inglaterra por cabo submarino 1873-Inauguração da linha férrea até Estremoz 1874-Inauguração do transporte público - O Americano 1877-Construção da ponte D. Maria Pia 1877-Inauguração das primeiras comunicações telefónicas experimentais 1882-Inauguração da linha férrea da Beira Alta e do Minho 1882-Inauguração das primeiras redes telefónicas 1887-Inauguração da ponte de D. Luís 1887-Inauguração da linha férrea do Douro 1887-Inauguração da Companhia dos Telefones 1889-Inauguração da linha férrea até Faro

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