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DIRECTOR SALAS NETO salasnetosa09@gmail.com Kz 250,00 EDIÇÃO 447 · ANO VII w w w .

DIRECTOR

SALAS NETO

salasnetosa09@gmail.com

DIRECTOR SALAS NETO salasnetosa09@gmail.com Kz 250,00 EDIÇÃO 447 · ANO VII w w w . s

Kz 250,00 EDIÇÃO 447 · ANO VII

www.semanario-angolense.com

SÁBADO  •  24 de dezembro de 2011

w w w . s e m a n a r i o - a n
CESÁRIA ÉVORA Foi-se a diva fica a música
CESÁRIA ÉVORA
Foi-se a diva
fica a música
PRIMÓRDIOS DO JUDAÍSMO O papel dos essênios na vida de Jesus Cristo
PRIMÓRDIOS DO JUDAÍSMO
O papel dos essênios
na vida de Jesus Cristo

Edson Leitão, porta-voz do Partido Popular, acusa

DAVID MENDES É TRAFULHA

porta-voz do Partido Popular, acusa DAVID MENDES É TRAFULHA Ele é o homem que liderou a
porta-voz do Partido Popular, acusa DAVID MENDES É TRAFULHA Ele é o homem que liderou a

Ele é o homem que liderou a «invasão» à sede do PP (caso de polícia que nada tem a ver connosco; aliás, como se vê, já «levou» por isso). Diz que o fez em jeito de protesto pela forma ditatorial como o causídico gere o PP, para pressioná-lo a dialogar. Na passada, faz revelações surpreendentes sobre DM: comprou o partido que lidera por 100 mil dólares, não terá provas para as acusações que fez ao PR, além de que buscará financiamentos externos para apoiar manifestações de confusão. Na resposta, DM desvaloriza o «opositor interno» e desanca sobre os jornalistas

PELA «PIMPA»

Katchiungo

ganha

«tacho»

os jornalistas PELA «PIMPA» Katchiungo ganha «tacho» • Página 6 BOMBEIROS «Motim» resulta em prisão •

Página 6

BOMBEIROS

«Motim» resulta em prisão

• Página 6 BOMBEIROS «Motim» resulta em prisão • Página 8 Na óptica do SA, a

Página 8

Na óptica do SA, a lista das personalidades que mais se destacaram, pela positiva e
Na óptica do SA, a lista das personalidades que mais se destacaram, pela
positiva e pela negativa, ao longo deste ano prestes a terminar

Até p‘ro ano!

À igual que a esmagadora

maioria dos seus confrades,

o SA vê-se também forçado a

encerrar as oficinas por «cul- pas» da quadra festiva, altura em que, quase inexplicavel- mente, o «negócio» não rende por cá. Assim, avisa aos seus leitores e público em geral

que apenas regressa às bancas

a 14 de Janeiro do novo ano.

Queiram desculpar-nos pelos transtornos, mas aceitem os nossos votos de Festas Felizes!

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Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

2 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

em Foco

2 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. em Foco Luz ao fundo do túnel T rês

Luz ao fundo do túnel

T rês anos depois do bastoná- rio da Ordem dos Advoga- dos de Angola (OAA), Raul Araújo, ter denunciado

publicamente que algumas decisões judiciais eram encomendadas, como resultado de uma espúria aliança entre juízes e advogados, nenhum jurista ou algum magistrado foi até à data apanhado e punido, por su- postamente ter se envolvido em tais «esquemas». A denúncia feita em meados de 2008 pelo causídico, embora tivesse causado um forte impacto nos meios judiciais, sobretudo entre os mem- bros do Conselho Superior da Magis- tratura Judicial, parece ter caído num saco roto. Além dos alegados casos de sen- tenças cozinhadas, tem estado a correr relatos de casos que envolvem determinadas figuras ligadas à Justi- ça, nos quais se destacam as práticas de abuso de autoridade ou de prisões arbitrárias. Infelizmente, têm sido vários os casos de violação sistemática dos direitos dos cidadãos, sobretudo dos mais fracos, que não têm como denunciá-los ou, quando emergem à luz do dia, acabam por não produzir os efeitos esperados, por desistência dos lesados ou aparente inacção dos órgãos encarregues de exercer a ac- ção disciplinar sobre os magistrados acusados de terem pisado o risco. Embora o Conselho da Magistra- tura Judicial defenda publicamente que, no exercício das suas funções, os magistrados judiciais devem apenas obediência à lei e à sua consciência, o facto é que a prática nem sempre tem sido condizente com esta vontade ex- pressa. No universo de casos de desman- dos e de actos de abuso de confiança, raros são aqueles que, depois de che- garem ao conhecimento dos órgãos afins, resultem em acções disciplina- res contra os acusados. Desde que foi institucionalizado

há pouco mais de uma década e meia quase não se tem memória de que al- gum juiz tenha sofrido uma «pesada sentença» que culminasse com a sua demissão, por actos de corrupção ou comportamento indecoroso. O afastamento há alguns anos de um juiz afecto ao Tribunal do Nami- be foi, no entender de alguns juristas, uma das poucas excepções à regra,

O afastamento há alguns anos de um juiz afecto ao Tri- bunal do Namibe foi, no entender de alguns juristas, uma das poucas excepções à regra, em contraste com as múltiplas de- núncias de casos graves de violação dos direitos dos cidadãos e de ex- cessos de autorida- des por parte dos magistrados, tanto os do Ministério Público, como os da Magistratura Judicial

em contraste com as múltiplas de- núncias de casos graves de violação dos direitos dos cidadãos e de ex- cessos de autoridades por parte dos magistrados, tanto os do Ministério Público, como os da Magistratura Judicial. No entanto, uma luz ao fundo do túnel parece estar a emergir depois da recente medida tomada pelo Con- selho Superior da Magistratura Judi- cial, que na semana passada decidiu suspender o juiz municipal do Hu- ambo, Orlando Rodrigues de Lucas. Este magistrado era acusado de um alegado abuso de autoridade contra um dos administradores municipais daquela província e de exercício de actividade comercial ilícita, incom- patível com a sua condição de juiz. Trata-se de uma medida que al- guns consideram inédita, já que ela determina um prazo, no caso con- creto de dois meses, para que seja

instaurado o respectivo processo dis- ciplinar contra o referido magistrado judicial. Consta que nunca esse órgão má- ximo da magistratura judicial havia fixado um prazo para a instauração

e conclusão de um processo discipli-

nar. Talvez por isso é que ganham al- guma consistência os relatos de que alguns juízes que tinham sido sus- pensos pelo Conselho da Magistra- tura Judicial, depois de acusados da prática de actos de corrupção, abuso de autoridade ou por outros crimes não menos pesados, acabaram por

ser «absorvidos», devido ao facto dos seus processos disciplinares terem prescrito. Daí que o processo disciplinar ins- taurado contra o referido juiz esteja

a causar uma certa expectativa, pelo

que se abre uma boa oportunidade para que esse órgão judicial arrede as suspeitas de ter agido no passado no sentido de favorecer os acusados, no quadro de um suposto corporativis- mo existente no seio da classe.

de um suposto corporativis- mo existente no seio da classe. Director: Salas Neto Editores — Editor

Director: Salas Neto Editores — Editor Chefe: Ilídio Manuel; Política: Jorge Eurico; Economia: Nelson Talapaxi Samuel Sociedade: Pascoal Mukuna; Desporto: Paulo Possas; Cultura: Salas Neto; Grande Repórter: joaquim Alves Redacção: Rui Albino, Baldino Miranda, Adriano de Sousa, Teresa Dias, Romão Brandão, e Edgar Nimi Colaboradores Permanentes: Sousa Jamba, Kanzala Filho, Kajim-Bangala, António Venâncio, Celso Malavoloneke, Tazuary Nkeita, Makiadi, Inocência Mata, e António dos Santos «Kidá» Correspondentes: Nelson Sul D’Angola (Benguela) e Laurentino Martins (Namibe). Paginação e Design: Sónia Júnior (Chefe), Patrick Ferreira, Carlos Inácio e Annety Silva Fotografia: Nunes Ambriz e Virgílio Pinto Impressão: Lito Tipo Secretária de Redacção: Manuela da Conceição Adminstracção: Marta Pisaterra Publicidade e Marketing: Oswaldo Graça António Feliciano de Castilho n. o 119 A • Luanda Registro MCS337/B/03 Contribuinte n. o 0.168.147.00-9 Propriedade: Media Investe, SA. República de Angola

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As opiniões expressas pelos colunistas e colaboradores do SA não engajam o Jornal.

colunistas e colaboradores do SA não engajam o Jornal. QUI 15 dez SeX 16 dez SÁb
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SÁb 17 dez
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SeG 19 dez
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Ter 20 dez
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QUA 21 dez
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AMARRADOS POR CABOS

O Brasil estará ligado a Angola por cabos de fibra

óptica. Objectivo: facilitar o tráfego de Internet entre os dois países. A empreitada começa em Março do próximo ano e, até 2014, estarão estendidos cerca de seis mil quilómetros de cabo. De momento, a ligação entre ambos os dois países depende da Europa.

SAMAKUVA DE NOVO

Isaías Samakuva foi reeleito presidente da UNITA, com 85,6 por cento dos votos – algo que era, mais ou menos, esperado. Uma das metas anunciada por Sa- makuva foi uma melhor prestação nas eleições que se avizinham. Para isso, vai contar com a ajuda do can- didato perdedor, José Pedro Katchiungo.

ANGOLA VENCEDORA

Depois do desaire em Cabinda, num dos jogos de preparação para o próximo campeonato africano, a nossa selecção conheceu, enfim, a vitória diante da Zâmbia. O tento foi marcado aos 60 minutos, por in- termédio de Love Cabungula. O próximo jogo será realizado na Huíla, frente à Namíbia.

ALFANDEGAS FACTURAM

Até Outubro, o Serviço Nacional das Alfândegas

já tinha arrecadado mais de 2,4 mil milhões de dó-

lares. No ano passado, as receitas foram maiores. O dinheiro é proveniente do pagamento de direitos de importação, os impostos de consumo e de selo e a taxa de emolumentos gerais aduaneiros.

BOAS NOVAS NA EDUCAÇÃO

O Ministério da Educação recrutou, em 2010, 20 mil professores, segundo o ministro MPinda Simão. Para o próximo ano, serão construídas cerca de 27 escolas, das quais 12 em Luanda. Em termos de cobertura, o sector cresceu cinco por cento. Um autêntico cabaz de boas en- tradas para o ano de 2012.

FNLA EM CONGRESSO

Mesmo colidindo com o acórdão do tribunal constituição, Ngola Kabangu realiza o terceiro con- gresso da FNLA. O conclave decorre sob o lema: « Juntos, unidos reafirmemos a nossa identidade po-

lítica e histórica » e nele participam 1452 delegados.

O que daí sairá?

PM DA GUINÉ-BISSAU EM ANGOLA

O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Carlos Go-

mes Júnior, era aguardado neste dia para uma visita oficial de dois dias ao nosso país. Sem revelar detalhes, a nota do Mirex informava que, com o presidente José Eduardo dos Santos, o governante iria falar sobre questões político-militares e outras.

PATRIMÓNIO MUNDIAL

Já terminou uma das fases de escavações na histórica cidade de Mbanza-Kongo, província do Zaire, que visam convencer a UNESCO de que a antiga capital do reino do Congo merece ser elevada a património mundial. A ministra da Cultura garantiu que, em 1012, serão intensi- ficados os trabalhos visando atingir tal desiderato.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 3 em Foco Após intervenção de mediadores (2) enviados

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

3

em Foco

Após intervenção de mediadores (2) enviados pelo MPLA

Terminada greve na Elisal

A capital correu sérios riscos de passar a quadra festiva mais suja de todos os tempos. Mas, felizmente, prevaleceu o bom senso

P rovavelmente, se não fosse a in- tervenção de uma equipa do comité provincial de Luanda do MPLA, mandatada expressa-

mente pelo seu 1.º secretário, Bento Bento, que é também o governador provincial, para aproximar as partes desavindas para se chegar a entendimento na Elisal, a estas

horas a capital do país estaria já a tresandar como nunca, por conta da greve geral que se registava nesta empresa pública de lim- peza até na última segunda-feira. Ao que soube o Semanário Angolense, os trabalhadores da Elisal puseram fim, nes- se dia, à greve que vinham observando há uma semana, depois que a equipa enviada por Bento Bento a partir da Vila Alice se sentou com a comissão sindical da empre- sa, a fim de a levar a convencer os restantes colegas a flexibilizarem as suas posições para que se chegasse a entendimento com a direcção de Antas Miguel, com quem reu- niu a posterior, no sentido de terminar com

a paralisação. Até então, as duas partes estavam relu-

tantes a fazê-lo, cada uma a pensar que era

a dona absoluta da razão. Além das habituais reivindicações, como melhorias salariais e de condições de tra- balho, que já têm barba, os ânimos entre os trabalhadores da empresa de saneamento básico de Luanda ficaram exaltados nos últimos tempos devido a uma questão que tinha a ver com… cabazes. Eles queixavam-se de que os cabazes de Natal comprados pela empresa não estavam em boas condições, pelo que preferiam re- ceber algum dinheiro em mãos como sub- sídio de Natal, ao passo que a direcção de Antas Miguel dizia que nada mais podia fazer em sentido contrário, uma vez que a compra já estava efectuada. Instalou-se então um «braço-de-ferro»

estava efectuada. Instalou-se então um «braço-de-ferro» bem rijo que resultou no despoletar da gre- ve que,

bem rijo que resultou no despoletar da gre- ve que, se continuasse, colocaria Luanda certamente entre as cidades mais nausea- bundas do mundo neste final de ano, em que, por sinal, a produção de lixo é muito mais acentuada do que no resto dos trezen- tos e tais dias que o comportam. «Isto seria catastrófico, não só para a saúde dos cidadãos, como para a imagem do próprio governo», disse uma nossa fon- te, referindo mesmo que se chegou a pen- sar em «sabotagem», numa altura em que a província acaba de trocar de governador. Como quem diz, Bento Bento, que ainda está a aquecer o novo posto, poderia sair

«chamuscado» dessa novela, caso ela con- tinuasse. Felizmente, a equipa que enviou, ao que se diz, a pedido dos militantes do seu parti- do na empresa foi suficientemente hábil nas negociações para obter o entendimento en- tre as partes. Em relação ao principal pomo da discórdia, ficou mais ou menos estabele- cido que só leva o tal «cabaz desconforme» quem o quiser. A nossa fonte diz que Antas Miguel se queixou de que não terá dinheiro em caixa para suportar este esquema, ao que lhe foi aconselhado a buscar financiamento para subsidiar os que não quiserem levar o ca-

baz com base numa «engenharia» que con-

sistiria na revenda dos «kibutos» natalícios

a empresas eventualmente interessadas, já

que há varias que pretendem presentear os seus trabalhadores, mas não conseguiram importá-los a tempo. «Ele que desenrasque,

mas esta é a melhor saída para o problema», comentou a nossa fonte. Em relação às restantes reivindicações básicas, ficou acertado que elas seriam sa- tisfeitas paulatinamente, dentro das possi- bilidades financeiras da empresa, que, por enquanto, não será das melhores. Está-se

a falar aqui de equipamentos de seguran-

ça laboral, subsídios de alimentação e de transportes, além da necessária assistência médica aos trabalhadores, dada a natureza especial do seu trabalho, que se desenrola em meio a substâncias tóxicas de todo o tipo. Facto curioso é que, antes de aceitar sen- tar-se com os representantes sindicais dos trabalhos, na presença dos mediados do MPLA, Antas Miguel exigiu que eles se re- tratassem dos «xingamentos» com que fora mimoseado dias antes no calor do levanta- mento, o que foi aceite e feito, para bem de todos. Os trabalhadores começaram a regressar ao trabalho na madrugada de terça-feira. À tardinha desse mesmo dia, data do fe- cho desta nossa edição algo especial por culpas do Natal, a nossa fonte nos garantiu que tudo corria sob feição pelas bandas da Elisal, não havendo então nada que pudesse evoluir em sentido contrário. Assim, ao que tudo indica, estava afas- tado o perigo de Luanda se vir a tornar na cidade mais suja do mundo por esta altura do ano. Saravá!

Lucas Adão

Cidadã detida por desenterrar cadáver

U ma cidadã, identifi-

cada por Joaninha

Gregório Gomes, foi

detida no último sába-

do de manhã pela Polícia, depois de desenterrar um cadáver no Cemitério da Mulemba, municí- pio do Cazenga, em Luanda. De acordo com o responsável do Go- verno Provincial de Luanda para os cemitérios e morgues, Filipe Mahuapi, o cadáver era de uma criança de seis anos, que tivera sido enterrada na quarta-feira da semana passada. A acusada justi- fica a sua acção com a alegação de

que teria poderes para ressuscitar a falecida. De acordo com o funcionário do GPL, Joaninha Gomes entrou

no cemitério como quem esti- gues regista, há conhecimento de

vesse a fazer uma visita normal à campa de algum parente, tendo conseguido mais tarde desenter- rar o caixão. Para ele, apesar da cidadã apresentar-se lúcida nos seus depoimentos, deverá ter dis- túrbios mentais. A criança falecida era filha de um casal amigo da acusada, tendo ela chegado a participar do fune- ral.

Apesar do funcionário cama- rário afirmar que este é o primei- ro caso do género que a direcção do GPL para cemitérios e mor-

práticas estranhas, protagoniza- das por algumas pessoas, que os trabalhadores daquele cemitério têm denunciado. Para além do vandalismo e profanação de campas, há pesso- as que exercitam, no interior do cemitério, sessões de bruxaria e recolha de ossos de defuntos, com destaque para os crânios.

exercitam, no interior do cemitério, sessões de bruxaria e recolha de ossos de defuntos, com destaque

4 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

4 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. em Foco Na «óptica» do SA Figuras do ano

em Foco

Na «óptica» do SA

Figuras do ano

T al como já é de tra- dição, o Semanário Angolense traz a cada ano, nessa al-

tura, uma selecção de figuras que, na sua «óptica», se des- tacaram, para o bem e para o

mal, nas mais diversas áreas da sociedade. É uma eleição da exclusiva responsabilidade do seu corpo redactorial, sem qualquer tipo

de pressão externa e que ape-

nas vincula o jornal. O método da selecção não tem segredos: cada editor ou jornalista sénior escolhe, numa primeira fase, quem são as per- sonalidades, quer individuais, como colectivas, que para si mereçam destaque, a que se juntam os nomes indicados pe- los nossos colaboradores mais participativos; esta lista é de- pois submetida a uma «filtra-

gem» final, feita colegialmente. Dizer também que o destaque tanto pode ser pela positiva, como pela negativa, ficando os eleitos em dois campos opos- tos: os dos «bons», de um lado,

e o dos «maus», doutro. As escolhas são baseadas num mínimo de objectividade, para se evitar favorecimentos por «amiguismo» ou por outro

interesse qualquer, num extre- mo, ou prejuízos decorrentes

de rancores ou algo do género,

no lado contraposto. Fizemos por garantir a maior imparcia- lidade possível. Como em qualquer eleição,

é certo que não se pode agra- dar a gregos e a troianos ao mesmo tempo, pelo que temos consciência de que as nossas escolhas podem deixar gente a pensar que foi injustiçada, em qualquer dos campos. Há certamente quem se jul-

gará ter sido merecedor de apa- recer entre os «bons» - coisa que está logicamente afastada em relação aos «maus» -, mas há que compreender que era impossível integrar todos que

o mereciam. É mesmo impos-

sível. Seja como for, estamos com

a consciência tranquila, por

pensarmos termos sido justos,

o que não afasta em absoluto a hipótese de alguma falha. Fiquem então, nas linhas que se seguem, com a nossa «selecção nacional» dos «me- lhores» e «piores» de 2011.

O Director

Os «melhores» de 2011

e «piores» de 2011. O Director Os «melhores» de 2011 Maria Eugénia Neto, escritora - A

Maria Eugénia Neto, escritora - A escritora Maria Eugénia Neto venceu, este ano, o Prémio Nacional de

Cultura e Arte, edição 2011, na categoria de Literatura.

A esposa do primeiro Presidente de Angola, Dr. Antó-

nio Agostinho Neto, foi galardoada pela sua contribui- ção e persistência na valorização da literatura infanto- juvenil, numa altura em que se procura, cada vez mais, promover e incutir no seio das crianças e jovens o gosto pela leitura, as- sim como pela reflexão e capacidade crítica. A escritora também cultiva o género lírico e a sua poesia, além de constituir uma saudosa e angus- tiante evocação da imagem do seu marido, mantém um forte vínculo de intertextualidade com a obra «Sagrada Esperança». Ela seria ainda alvo de uma merecedora homenagem da União dos Escritores Angolanos, não só pelo prémio conquistado, mas por ser uma pessoa que contri- buiu para a libertação de Angola. Maria Eugenia Neto é considerada a mãe da literatura infanto-juvenil em Angola.

considerada a mãe da literatura infanto-juvenil em Angola. Carolina Cerqueira, ministra da Comunicação Social - À

Carolina Cerqueira, ministra da Comunicação Social - À testa do pelouro da Comunicação Social há cerca de três anos, a ministra Carolina Cerqueira tem mostrado, com palavras e actos, que é, indubita-

velmente, a senhora certa no lugar certo e que tem tac-

to para lidar com todos, sejam eles órgãos públicos ou

não. Prova disso é que ela tem levado os responsáveis dos principais órgãos de Comunicação Social a todos os cantos do país para constatarem como andam as representações provinciais da im- prensa angolana sob sua responsabilidade directa. Foi assim com a rea- lização do Conselho Consultivo e também com as Jornadas Cientificas da Comunicação Social que não tiveram lugar em Luanda, em sinal de «descentralização». Afinal, o país não é só Luanda. Carolina Cerqueira preocupa-se também em apoiar os órgãos de Comunicação Social, in- cluindo alguns dos não-públicos, com os mais diversos equipamentos, como computadores e viaturas. A Rádio Ecclesia que o desminta. Tam-

bém tem sabido enfrentar com inteligência a campanha de intrigas de que tem sido alvo, da parte de gente que, acobertada no anonimato, lhe querem embaraçar o consulado. Apesar de disso, 2011 foi um bom ano para ela. Coragem!

Leila Lopes, Miss Universo 2011- Nunca uma ango- lana tinha chegado tão longe num concurso universal

de beleza. Leila Lopes foi a primeira, não só a chegar

à finalíssima, mas a atingir mesmo o cume. Teve ob-

viamente o apoio de muita gente cá em Angola, par- ticularmente ao nível do Comité Miss Angola. Ficou assim demonstrado que, quando queremos e quando nos unimos com um mesmo objectivo, podemos chegar longe. Que este exemplo seja seguido noutros campos de actuação, para que o nome de Angola seja ouvido e respeitado além fronteiras.

o nome de Angola seja ouvido e respeitado além fronteiras. Sebastião Martins, ministro do Interior -
o nome de Angola seja ouvido e respeitado além fronteiras. Sebastião Martins, ministro do Interior -

Sebastião Martins, ministro do Interior - Pelo di- namismo e pela visão estratégica imprimidos no Mi- nistério do Interior, com destaque para o Serviço de Migração e Estrangeiros (SME) e para os Serviços Pri- sionais. A humanização da actividade prisional é uma das imagens de marca do actual ministro. Aguarda-se que, em 2012, para além de prosseguir essas duas im- portantes tarefas iniciadas em 2011, garanta uma mais correcta acção

da corporação policial em todo o país, também com a devida punição dos agentes que cobram «gasosa» à vista de toda a gente e com o funcio- namento devido dos órgãos de inspecção interna. Pague-se bons salá-

rios aos agentes, mas garanta-se deles rigor e ética.

rios aos agentes, mas garanta-se deles rigor e ética. Augusto da Silva Tomás , Ministro dos

Augusto da Silva Tomás, Ministro dos Transportes - Pelo dinamismo introduzido no Ministério dos Trans-

portes, depois da letargia de vários anos a que os funcio- nários da instituição estiveram submetidos na gestão an- terior. Também pela dinamização das empresas do sector

e pela há muito ansiada modernização dos aeroportos.

Espera-se que, em 2012, actue no sentido de resolver os sérios problemas do trânsito rodoviário (particularmente em Luanda), dos transportes públicos, do trânsito ferroviário e do trânsito fluvial.

Paulo Flores, músico - Além de ser um dos mais perspicazes embaixadores da canção angolana, Paulo Flores é já um ícone da música que se produz no nosso país. Continua activo, continua modesto e continua a ser dos mais populares intérpretes angolanos. Em 2011, arrebatou pela primeira vez o «Top dos mais Queridos» da Rádio Nacional de Angola, que foi uma bonita ho- menagem por tudo o que já fez pelo desenvolvimento da nossa música. Que prossiga na mesma senda em 2012.

da nossa música. Que prossiga na mesma senda em 2012. Grupo de Teatro Henrique Artes -

Grupo de Teatro Henrique Artes - O teatro ango- lano continua a somar e a seguir e cada vez se está a internacionalizar mais. Desta feita, o grupo de teatro Henrique Artes prestigiou o país ao receber o troféu de Grupo Revelação no Festlip 2011, realizado no Rio de Janeiro a meio do ano, pela exibição da peça «Hotel Komarca». A peça narra a história de sete detidos que vivem emoções e paixões dentro de uma cela, onde o medo e a coragem pela sobrevivência andam de mãos dadas. Conscientes das dificuldades, os detidos lutam para se evadirem da cadeia, não temendo as represá- lias, nem o aparato de segurança. Esta foi a segunda vez que o grupo participou no Festival de Teatro de Língua Portuguesa - Festlip, depois de ter levado, em 2008, a peça «Côncavo e Convexo». O colectivo de teatro Henrique Artes foi fundado em Outubro de 2000 por estudantes. Em 2004, sagrou-se vencedor do Prémio de Teatro Cidade de Luanda, no qual foi distinguido com o título de melhor encenação. Em 2005, ocupou o segundo lugar da referida edição e arrebatou os troféus de melhor encenação e melhor actriz, atribuído a Matilde Kibambo.Grupo de Teatro Henrique Artes -

A selecção angolana de basquetebol feminino con- quistou, este ano, pela primeira vez, o ouro num cam- peonato africano, algo que ganha em importância por ter sido fora de portas (em Bamako, no Mali), além de acontecer após ninguém dar-lhe antes um chavo por ela, o que resultara num certo abandono. Destemidas, as angolanas, lideradas por Aníbal Moreira, técnico da casa, depois de uma trajectória irrepreensível, venceram na final o Se- negal, a quem destronaram, por 62-54, garantindo assim a presença, também inédita, nos jogos olímpicos (Londres 2012). Era uma saboro- sa desforra, após a derrota sofrida pouco dias antes na final dos Jogos Africanos de Maputo. Foi também uma espécie de compensação pelo desastre dos nossos homens em Mogadíscio, depois de um ciclo triunfal que durou mais de uma década.

depois de um ciclo triunfal que durou mais de uma década. Casimiro Carbono , estudante e
depois de um ciclo triunfal que durou mais de uma década. Casimiro Carbono , estudante e

Casimiro Carbono, estudante e activista cívico– este jovem saltou para a boca do mundo depois que fez parte de um processo judicial que acabou chumbado pelo Tribunal Supremo, por ter havido graves irregula- ridades no julgamento em primeira instância. Motivo:

participação numa manifestação de protesto contra a governação que descambou em pacandaria. No fundo, este desenlace acabou por ser um aprendizado para todos, no sentido de melhor lidar-se com um direito consignado na constituição, o direito à manifestação, ainda não bem compreendido pelas autoridades, mas também não bem exercido em alguns casos por quem o deve reivindi- car. Manifestação não é sinónimo de confusão. E isto tem de ficar claro, para que todos acabemos por saber qual o papel de cada um. No fundo, como já o dissemos, é um aprendizado que devemos aprofundar.

Siona Casimiro, jornalista – Num país onde há muita gente a falar e pouca gente a pensar e sobretudo a escrever de forma não facciosa (as suas memórias), é digno de se tirar o chapéu a alguém que gaste algum do seu precioso tempo para compilar os seus ensaios no sentido deles servirem de instrumento pedagógico (e não só) para as futuras gerações. É o caso do veterano jornalista Siona Casimiro que, para gáudio de investigadores e estudan- tes, lançou recentemente o livro «Maquis e Arredores - Memórias do jornalismo que acompanha a luta de libertação nacional». A obra reú- ne prosas do autor e de compatriotas seus companheiros, como André Massaki, Sam Luval, Ernesto Dimbu e Mavatiku, entre outros, escritas durante a época da luta de libertação nacional. Bom mesmo seria ver outros intelectuais da nossa praça a seguirem o exemplo do mestre Sio- na Casimiro. Parabéns pela iniciativa, cota!

ver outros intelectuais da nossa praça a seguirem o exemplo do mestre Sio- na Casimiro. Parabéns
Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 5 em Foco E os «piores» do ano José

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

5

em Foco

E os «piores» do ano

24 de Dezembro de 2011. 5 em Foco E os «piores» do ano José Maria dos

José Maria dos Santos, político do MPLA – O mais «meteórico» go- vernador de Luanda dos últimos tempos, se não é de sempre, assim que chegou ao «Palácio da Mutamba» começou logo a pensar em reforçar o seu pé-de-meia sem mais nem ontem. E se assim o pensou, assim começou por fazê-lo, ainda que para tal tivesse que atropelar quem quer que se cru- zasse no seu caminho. Resultado: levou um trambolhão daqueles quando menos esperava. Consta que José Maria dos Santos foi exonerado do cargo por ter tentado ganhar dinheiro de forma pouco transparente, acrescentando-se a isso o facto de pairar sobre si suspeitas de envolvimento indirecto no assassínio de uma jovem bancária com quem tivera uma relação afectiva, por razões ainda desconhecidas. Depois de se ter noticiado que ele tinha dado às de vila-diogo, eis que o «rapaz» voltou e anda por aí a passear-se em altos bólides pelas ruas da capital sem que a Justiça se apreste a esclarecer se ele está mesmo ou não envolvido nas «falcatruas» de que tanto se fala.

Abel Chivukuvuku, político da UNITA – Este jovem carismático do Galo Negro, que já se exercitou como jornalista, não é, politicamente fa- lando, assim tão maduro quanto parecia ser. Os últimos acontecimentos no seu partido demonstraram-no bem. Ou seja, o chamado «menino dos americanos» muito cedo entregou o ouro ao bandido ao ter manifestado publicamente a sua intenção de se de candidatar à presidência do seu par- tido muito fora do timing ideal. Resultado: os chamados «mais-velhos» do Galo Negro barraram-lhe o caminho, fazendo-lhe a cama. E tudo indica que não será tão cedo que o permitirão ascender ao «poleiro», por não ser politicamente conveniente para os verdadeiros «barões» do seu partido. Abel Chivukuvuku esqueceu-se que, na UNITA, ainda tem muitos degraus por galgar. Deitou assim quase tudo a perder por alguma inge- nuidade política. Por outra, onde é que está a tal «grande surpresa» que prometer anunciar ao país ainda este ano?Abel Chivukuvuku, político da UNITA

Emanuela Vieira Lopes, ex-Ministra da Energia e Águas - Além de ter metido água durante todo o ano de 2011, nos últimos mese, o Ministério da Energia e Águas fez-nos regressar ao século XIX, com valentes tesoura- das no abastecimento de energia eléctrica a Luanda. Numa altura em que se está a combater a pobreza, não se admite que, por falta de energia eléc- trica, se provoque a diminuição do rendimento familiar. E numa altura em que se pretende dinamizar a indústria, como é possível haver energia eléctrica a conta-gotas? Há quantos anos nos prometem resolver o assunto? Os angolanos estão fartos de promessas, daí que a saída da Ministra tenha pecado apenas por tardia.

que a saída da Ministra tenha pecado apenas por tardia. Luís Filipe da Silva, SE das

Luís Filipe da Silva, SE das Águas - Numa altura em que as pessoas se vão consciencializando do poder que têm e vão exigindo rigor e trans- parência na governação, não se admite que continue a haver governantes que metam tanta água, ao ponto de continuarem a prometer coisas que se sabe à partida que não vão poder ser oferecidas à população. Pois este governante prometeu, em 5 anos, resolver o problema da água em Angola. Não queremos dizer que não seja possível fazê-lo. O que se diz é que esta- mos fartos de promessas e de pessoas que só prometem. Os angolanos querem realizações. Venha a água para todos e, só depois, venham os louros. E as «bocas» triunfais…

e, só depois, venham os louros. E as «bocas» triunfais… João Teta, SE da Ciência e

João Teta, SE da Ciência e Tecnologia - De acordo com o «Jornal de Angola», este governante (que foi Reitor da Universidade Agostinho Neto durante 8 anos) afirmou que a UAN está entre as melhores instituições do género do mundo, quando em realidade não figura em nenhum dos muitos rankings do ensino superior e de investigação científica. Há quem continue a achar que se faz política com palavras, quando os angolanos precisam é de acções. Ao invés de declarações de intenções, que é o que to- dos sabemos fazer, tratemos de melhorar a qualidade de ensino. E como vêm aí os exames de admissão, tratemos de garantir rigor e transparência. Se isso permanecer como ainda vai indo, continuaremos a dizer adeus à nossa presença em tais rankings. E de nada nos valerão as intenções.

em tais rankings. E de nada nos valerão as intenções. Mpinda Simão, Ministro da Educação -

Mpinda Simão, Ministro da Educação - Outro sector a que demos algu-

ma atenção em 2011 foi o da Educação. Um aspecto particular que abordado teve a ver com a monodocência – um verdadeiro busílis que é apupado por professores e encarregados de educação em todo o país, porquanto, além de dificultar a transmissão de conhecimentos aos alunos, vem provocando uma séria diminuição da qualidade de ensino. Só mesmo alguns (a palavra

é intencional: alguns) funcionários do Ministério da Educação não vêem

o boomerang que é a monodocência, cujos efeitos nefastos veremos já daqui a menos de 10 anos. Se a intenção continuar a ser olhar para a quantidade apenas para embelezar relatórios, então temos de aconselhar demissões em bloco no Ministério da Educação.

aconselhar demissões em bloco no Ministério da Educação. David Mendes, advogado e político – Conhecido causídico

David Mendes, advogado e político – Conhecido causídico dos fracos e oprimi- dos, este homem, antigo operacional da «bófia», começou bem o ano, mas não teve «pernas» para fechá-lo com chaves de ouro como era suposto, desejável e possível, a julgar pelas últimas informações pouco abonatórias da sua conduta enquanto di- rigente político do Partido Popular que correm pelos becos e vielas da capital do país. Fica a nu agora a ideia de que David Mendes ter-se-á servido dos casos jurídi- cos mais mediáticos para retirar dividendos políticos, tal como o de se candidatar à Presidência da República, facto que confirma que ele, afinal, não é escravo da sua palavra, pois a nossa memória lembra-se ainda que no longínquo ano de 1996 jurou (quase que a pés juntos), em declarações ao «falecido» semanário «Comércio Actualidade» que nada mais queria com a política depois de vários amargos que teve ao tempo do extinto PAJOCA. Para piorar, tem agora alguns dos seus correligioná- rios do seu PP à perna, pelo seu alegado mau feitio.

rios do seu PP à perna, pelo seu alegado mau feitio. José Eduardo Agualusa, escritor –

José Eduardo Agualusa, escritor – Este homem de letras quase comprou uma

briga generalizada com a esmagadora maioria dos intelectuais angolanos de verda- de, ao voltar a destratar Agostinho Neto, a quem se convencionou considerar como

o «poeta-maior» do país. Depois de o ter considerado primeiro como um «poeta

medíocre», José Eduardo Agualusa, precisamente no mês do Manguxi, o que não deixou de ser estranho, subiu a parada e disse que o «Kilamba» sequer chegou a ser poeta, o que causou um «tsunami» de indignação de boa parte dos angolanos. Agualusa estava manifestamente a exagerar. As reacções não se fizeram esperar, quase todas com uma sustentação científica suficientemente competente para atirar as «blasfémicas» considerações do ho- mem por terra. Convidado a argumentar as suas declarações, Agualusa fugiu com o rabo à seringa, sob o pretexto infantil de que tinha mais que fazer. Ah, e não tinha mais que fazer antes? Balelas.

o rabo à seringa, sob o pretexto infantil de que tinha mais que fazer. Ah, e
o rabo à seringa, sob o pretexto infantil de que tinha mais que fazer. Ah, e

6 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

6 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. Política Isaías Samakuva, afinal, é bom recompensador «Pimpa» de

Política

Isaías Samakuva, afinal, é bom recompensador

«Pimpa» de Katchiungo valeu-lhe «tacho» de secretário para os… assuntos eleitorais!

E ncerrado o seu XI con- gresso, eis que começa agora uma nova fase para a vida do Galo Ne-

gro. E ela começa com a «dança de cadeiras» em curso no seio desta formação política. Mas como há «maninhos» que não sabem dan- çar (nem sequer um dois, um, dois), Isaías Samakuva achou por

bem abrir o salão e ensaiar os pri- meiros passos, acomodando, nes- ta ciranda de roda, todos aqueles que nunca o deixaram cair. Antes

e depois do conclave que o recon- firmou como líder da UNITA. O presidente da UNITA, Isaías

Samakuva, sabe, afinal, reconhecer os esforços daqueles que o ajudam

a levar a água para o seu moinho.

Por isso recompensou Estêvão José Pedro Katchiungo, pelo facto de o ter ajudado a legitimar a sua própria sucessão, com o cargo de titular

para os assuntos eleitorais, que até então eram da inteira e exclusiva responsabilidade de Daniel Domin- gos Maluca. Isaías Samakuva decidiu elevar- Vitorino Nhany, antigo secretário provincial do Galo Negro na cidade dasAcácias Rubras, para o cargo de Secretário-Geral em substituição de KamalataNuma, que foi afastado do cargo a seu pedido. Joaquim Ernesto Mulato foi re- conduzido para o cargo de vice-pre- sidente do segundo maior partido

da oposição, enquanto Raul Danda rende Silvestre Samy no cargo de lí- der parlamentar da UNITA. Samy, segundo soube o SA de boa fonte, será, daqui em diante, presidente do

Conselho Nacional de Jurisdição. Os novos membros da Comissão Política da UNITA tomaram posse no passado dia 17 de Dezembro, no final do XI congresso deste parti-

do realizado na vila de Viana, em Luanda. A nova Comissão Política é composta por 250 membros efec- tivos e 50 suplentes, segundo de- terminação dos estatutos do Galo Negro. A direcção da UNITA está -se- gundo Alcides Sakala, porta-voz do Galo Negro em declarações ao SA - engajada na criação de um «Governo-Sombra», que visa moni- torar as políticas do Executivo, bem como apresentar propostas com vis- ta a melhorá-las quando se afigurar necessário. De acordo com Alcides Sakala, Isaías Samakuva está, presente- mente, a efectuar consultas juntos de vários militantes no sentido de encontrar um nome que se respon- sabilizará pelo «Governo-Sombra» e que, segundo o porta-voz da UNI- TA, será uma espécie de Primeiro- Ministro.

da UNI- TA, será uma espécie de Primeiro- Ministro. ■ Miraldina, «galinha» preferida Um congresso do

Miraldina, «galinha» preferida

Um congresso do reencontro e reconciliação

T al como Isaías Samaku- va, Miraldina Olga Mar-

diferentes domínios como políticos, económicos, sociais, culturais e di- plomáticos. Jamba apelou ainda às militantes da sua organização no sentido de mo- bilizar mais mulheres a apoiar os ide- ais do seu partido, com vista a operar a mudança e se construir uma nação sólida e justa «onde cada angolano esteja no centro das atenções do Exe- cutivo, onde o crescimento económi- co corresponda ao desenvolvimento humano».

no centro das atenções do Exe- cutivo, onde o crescimento económi- co corresponda ao desenvolvimento humano».

O XI Congresso Ordinário da Uni-

ta, realizado em Luanda de 13 a 16

do corrente, para além de analisar

Condenado a morte pelos seus pares, Clarindo conseguiu fugir e refugiou-se na Zâmbia. Pos- teriormente foi para a Europa e reside desde meados dos anos 90 na Dinamarca, remoendo uma grande mágoa. Outra personagem é Francisca Tchilala, fi- lha de Armando Tchilala, antigo preso político em Tarrafal – Cabo Verde e um velho militante do partido, que também viveu uma frustração muito profunda que a levou a distanciar-se do Galo Negro. Segundo os militantes, neste congresso, a pedido de Samakuva, devia-se tratar a ques- tão dos indivíduos que morreram na mata sem explicação. Muitos foram mesmo assassinados por problemas internos é o caso, por exemplo, de Valdemar Chindondo e do general Bock, porém devido a apertada agenda não foi possí- vel tratar este problema. Contudo, neste congresso houve um gran- de reencontro de famílias e amigos. Muitos andam no exterior desde os anos 90. Outros, desde 2003, estão a estudar ou a trabalhar e foi muito bom ver o abraço fraternal, as lágrimas de saudades e a alegria por rever os conheci- dos. Como disse Isaías Samakuva, reeleito pre- sidente do partido por mais quatro anos, «os congressos unem e fortalecem, porque é uma reunião de militantes».

Sousa Jamba

cos Jamba foi reconduzida para o cargo de presiden-

te LIMA, organização feminina da UNITA, tendo tomado posse na ma- nhã de terça-feira em Luanda. Mi- raldina Jamba foi reeleita pelas 500 delegadas que participaram no II congresso ordinário da LIMA.Com duração de dois dias, o congresso teve como divisa «Mulheres Unidas rumo à Igualdade e Desenvolvimen- to para a Mudança». No seu discurso de abertura do conclave, Miraldina Jamba afirmou que o objectivo da organização que

lidera é a reivindicação universal pela igualdade do género, reiterando, por outro lado, que foi por essa razão que

a vida interna do partido, face às

crises que atravessava, traçar as linhas estra- tégicas para as eleições gerais de 2012 e eleger uma nova direcção, serviu sobretudo para a re- conciliação e retorno à casa de várias entidades desavindas e que se tinham afastado do parti- do por diversas razões, disseram ao Semanário Angolense militantes seniores daquela congre- gação política. Uma dessas entidades, que emocionou até às lágrimas quantos o conheceram e ouviram, foi Clarindo Kaputo, quando leu a mensagem dos militantes e amigos da Unita na diáspo- ra. Este homem foi um conhecido e apreciado músico nas zonas controladas pelo Galo Negro no tempo da guerra e um exímio locutor da «Rádio Worgan», ao lado de Papagaio Mussile, hoje na Rádio Nacional de Angola, e de outros. Quando a Unita veio para Luanda, depois dos acordos de Bicesse, para participar nas eleições de 1992, Clarindo e alguns compa- nheiros permaneceram na Jamba para manter a rádio, tendo que se deslocar por longas dis- tâncias para comprar gasolina. A sua irmã Clarisse Kaputo estava em Lu- anda, depois do descalabro dos «maninhos»,

quando ouviu que seu irmão estava a ser acu- sado de ter traído a Unita e se aliara ao MPLA.

a

LIMA subscreveu os «Objectivos de

Desenvolvimento do Milénio». Reafirmamos, salientou, que não pode haver desenvolvimento sem uma participação efectiva das mu- lheres em todos os sectores da vida da nação, acrescentando, por outro lado, que a contribuição da mulher para o desenvolvimento passa neces- sariamente pela sua participação nos

8 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

8 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. Política Saíram à rua para exigir melhores condições «Fogo»

Política

Saíram à rua para exigir melhores condições

«Fogo» nos bombeiros!

O «motim» desencadeado no segundo dia da semana que hoje termina é um incêndio que ainda tem muito por lavrar e que, de resto, deixou o ministro do Interior com a cabeça a arder

V inte e quatro efectivos (20 homens e quatro senhoras) do Serviço Na- cional de Protecção Civil e Bom- beiros (SNPCB) foram detidos

pela Polícia Nacional na manhã de terça-fei- ra, 20, por se terem «amotinado» na parte ex- terior do seu quartel-general, nas imediações da Praça da Independência, em Luanda. O «motim» teve como base as reivindica- ções apresentadas há cerca de seis meses ao titular do Ministério do Interior, Sebastião Martins, quando visitou as suas instalações para aferir o grau de prontidão dos efecti- vos da referida instituição e saber quais as dificuldades que eles enfrentavam. Uma das preocupações dos efectivos, que o ministro do Interior prometeu resolver, foi a questão do aumento dos ordenados e a criação de melhores condições de trabalho. Apesar das promessas, segundo fonte afecta ao SNP- CB, de lá para cá, a principal «dor de cabeça» não foi resolvida: o aumento dos salários. Depois de alguns meses de espera, al- guns dos efectivos da instituição entende-

de espera, al- guns dos efectivos da instituição entende- ram, por sua conta e risco, «amotinar-se»

ram, por sua conta e risco, «amotinar-se» nesta terça-feira. A taça de água começou a entornar a 30 de Novembro, dia do SNP- CB, quando foi realizado o concurso «Miss Bombeiro», que teve como vencedora uma «caloira» a quem foi atribuída uma viatura como galardão. Foi a partir desta data que os bombeiros, que se debatem com problemas de trans- porte para se deslocarem do serviço para casa e vice-versa, bem como para fazer o seu trabalho começaram a traçar a estraté- gia de desencadear o «motim» que se assis-

tiu na manha de terça-feira última à frente do quartel-general da corporação.

O SA apurou que depois da detenção dos

vinte bombeiros, o ministro do Interior ordenou a deslocação de uma equipa ao quartel dos bombeiros para apurar respon- sabilidades do «motim», uma vez que, sen- do o Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiros um órgão paramilitar, os seus agentes e oficiais estão inibidos, por lei, de desencadear qualquer tipo de greve.

Quando os elefantes lutam…

Birra entre Eugénio Laborinho e Gimbe não será alheia à crise

O Serviço Nacional de Protec- ção Civil e Bombeiros pode estar a viver um dos períodos mais críticos da sua existên-

cia, à conta de um suposto mau rela- cionamento entre o vice-ministro do Interior para a referida área, Eugénio Laborinho, e o director dessa institui- ção, António Vicente Gimbe. Há indicações de que a corrente entre os dois homens não passa há mais de seis meses, altura em que o comissário Vicente Gimbe foi indicado para director nacional do SNPCB, em substituição de Eugénio La- borinho, que antes acumulava essa função com a de vice-ministro do Interior para a área de Protecção Civil e Bombeiros (SNP- CB). Uma mudança que, pelos vistos, não foi pacífica, já que António Gimbe, um anti- go delegado do Ministério do Interior na Lunda-Sul, terá encontrado um «terreno altamente minado» pelo seu predecessor. «É como se tivesse sido dado um comando sem pilhas», ironizaram as fontes do SA, numa clara alusão ao reduzido campo de manobra de que dispõe o actual n.º 1 do SNPCB. Descrito como um «comandante autori-

tário», António Gimbe estará a atravessar um período conturbado no seu relaciona-

a atravessar um período conturbado no seu relaciona- mento, não só com o seu superior hierár-

mento, não só com o seu superior hierár- quico, como também com os seus subordi- nados. «Muitos não lhe conhecem o rosto, visto que ele nunca se deu a conhecer junto dos efectivos das distintas unidades», nota- ram as fontes. As relações entre as duas figuras terão azedado a partir de um dado momento, quando António Gimbe procurou ultra- passar pela direita Eugénio Laborinho, ao despachar directamente os assuntos cor-

Laborinho, ao despachar directamente os assuntos cor- rentes da sua instituição com o titular da pasta,

rentes da sua instituição com o titular da pasta, Sebastião Martins. Como resultado desse alegado mau rela- cionamento, dizem as fontes, o SNPCB tem estado a «pagar uma pesada factura que se reflecte não só na baixa qualidade dos ser- viços prestados aos cidadãos, como tam- bém nas condições de trabalho dos seus efectivos». Informações obtidas pelo SA dão conta que os efectivos de bombeiros carecem de

meios de trabalho básicos, tais como far- das, botas, máscaras e de meios rolantes para se movimentarem ou, nos casos mais caricatos, de combustível para abastecer as poucas viaturas disponíveis. Fontes afectas àquela instituição revela- ram ao SA que a falta de meios rolantes não se justificava, visto que o SNPCB dispunha de viaturas novas e que elas se encontra- vam, inexplicavelmente, a «apodrecer» num parque algures no Capolo. Ou, ainda, devido a uma alegada incapacidade de re- cuperar as que se encontram avariadas. Em relação à falta de combustível, disse- ram que assim acontece porque os stocks

estariam a servir mais para abastecer os ve- ículos dos responsáveis daquele organismo em detrimento das viaturas de serviço.

A crer nas mesmas fontes que, por ra-

zões óbvias, solicitaram o anonimato, os serviços prestados pelas ambulâncias eram de «péssima qualidade», já que esses meios de transporte sequer estavam dotados de equipamentos para prestar os primeiros socorros a bordo, devido à falta de oxigé- nio. «Com a saída de Eugénio Laborinho esperávamos que as coisas viessem a me- lhorar, mas hoje somos forçados a admitir que elas tendem a piorar», adicionaram as

fontes, com alguma frustração estampada nos rostos.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 9 Política Discrepâncias salariais C usta acredi- tar, mas

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

9

Política

Discrepâncias

salariais

C usta acredi- tar, mas é pura realidade: os bombeiros de

3.ª classe auferem salá- rios de 30 mil Kwanzas.

A alimentação que lhes

é servida tem sido pés-

sima, sendo, invariavel- mente, uma mistura de arroz mal cozido com pedaços de carne enla- tada, conforme denun- ciaram as fontes deste jornal. Segundo elas, «existe uma acentuada discre- pância em termos sala- riais entre os efectivos dos Bombeiros e os da Protecção Civil, já que estes «ganham muito mais» em relação aos seus colegas de farda. As assimetrias não estarão a restringir-se unicamente aos salários, mas também às condi- ções de trabalho, sobre- tudo na excelente quali- dade da alimentação que

tem sido servida aos ele- mentos afectos à Protec- ção Civil, a cargo de uma empresa cuja identidade

o

rar. Os efectivos quei-

xam-se de que têm vindo

a sofrer descontos nos

seus soldos que, segun-

do eles, se destinavam à Caixa de Providência da Polícia Nacional, uma instituição na qual não

se encontram inscritos. «Fomos apenas convi-

dados a inscrevermo-nos

na Caixa de Providência

da Polícia e, num re- pente, vimos os nossos

salários reduzidos», de- nunciaram alguns dos efectivos da SNPCB, que

se mostraram surpreen- didos com o gesto.

O SA soube que uma

parte das instalações centrais do quartel dos Bombeiros continua a ser usada supostamente para fins comerciais por pessoas próximas a Eu- génio Laborinho, onde, segundo as fontes deste jornal, têm sido dadas aulas de ginástica e de capoeira, sendo esta úl- tima modalidade minis- trada por um cidadão de origem brasileira. Este jornal tentou cruzar as informações, não tendo

sido bem sucedido nas suas tentativas.

SA não conseguiu apu-

Os POC em jeito de balanço do «ano político»

«Esperamos pelos próximos capítulos»

Kim Alves

N uma altura e que o ano de 2011 está a chegar ao fim, em jeito de ba- lanço, os Partidos Po-

líticos da Oposição Civil (POC), num encontro com jornalistas de diversos órgãos da Comunicação Social, falaram do momento que atravessam, desafios e perspecti- vas, bem como fizeram uma re- trospectiva sobre o processo de- mocrático no país e, em especial, a realização das eleições gerais previstas para o próximo ano. Como foi dito por um inte- grante da coligação, no tocante à sua situação interna, os POC vão bem, independentemente de cer- tas divergências, próprias numa organização onde fluem várias ideias para convergir numa única e onde reina a liberdade de pen- samento e de opinião, no quadro

dos marcos democraticamente aceites. «O ano que está a findar foi di-

fícil para os POC, motivados por dificuldades de vária índole, des- de as decorrentes do processo e outras impostas pelo cerco daque- les que temem por uma oposição forte, vigorosa e acutilante. Ainda

assim conseguimos revitalizar as nossas estruturas provinciais, estando neste momento represen- tado em 15 das 18 províncias do país», frisou Manuel Fernandes, presidente da Coligação. Para os POC, outras activida- des programadas foram cumpri- das a 50 por cento, mas, grosso

modo, a Coligação está em mar- cha, rumo à alternância credível

para Angola e para os angolanos. «O grito da mudança ecoa por toda Angola; os ventos da de- mocracia plena sopram noutras paragens, onde as mudanças dos governos, por defraudarem as expectativas da população, cons- tituem verdadeiros desafios de ci- dadania», referiu. Em seu entender, impõem-se aos actores políticos angolanos responsabilidades acrescidas, para corresponderem às expec- tativas do eleitorado rumo a uma alternância credível. «Nesta conformidade, olhando para os desafios eleitorais previstos para

Setembro próximo, urge a neces- sidade de adequarmos a dinâmica

funcional dos POC a este contex- to, através de um profundo deba- te sobre os constrangimentos e expectativas dos angolanos, para com clareza e realismo, idealizar- mos um programa alternativo, a ser submetido aos angolanos na altura das eleições», sublinhou o líder dos POC, anunciando que a realização da sua Convenção Na- cional terá lugar nos dias 15 e 16 de Fevereiro próximo. «Este conclave vai traçar as li- nhas mestras para a participação dos POC nas eleições, sobre as alianças eleitorais, sobre o cabeça de lista, sobre a manutenção ou não da sigla e finalmente sobre os documentos reitores da coligação e a renovação de mandatos dos órgãos internos», explicou. Relativamente ao término a 16 do corrente da primeira fase do processo de reconfirmação e actualização do Registo Eleito- ral, Manuel Fernandes disse que os partidos da sua agremiação acompanharam com muita pre- ocupação a fraca participação dos cidadãos junto dos postos de registo, que indica claramente a possibilidade de haver um eleva- do índice de absentismo nas pró- ximas eleições gerais. «Isto é mau

pelo mesmo eleitor, a primeira entregue’. Ora bem, o partido no poder está a recolher de forma arbitrária e para fins inconfessos os dados e cópias de cartões de eleitor dos cidadãos, até mesmo de militantes de outros partidos», acusou. «Não será que os nossos militantes e apoiantes, mesmo sem querer, já subscreveram a candidatura do partido no poder? Quem vai apurar as candidaturas é o Tribunal Constitucional atra- vés de técnicos mobilizados para o efeito, mas por solidariedade institucional, pode solicitar apoio técnico ao MAT. Quais são as ga- rantias de que eles trabalharão com isenção e transparência? O mais grave, é que as denúncias são feitas e eles continuam na mesma alçada. Nós, POC, estamos muito preocupados com esta situação», sublinhou. Manuel Fernandes referiu ain- da que o Conselho da República, na sessão do dia 20 do corrente, pronunciou-se acerca disso, mas

transforma num «bolo envene- infelizmente, não pediu explica-

ções, nem imputou responsabi-

lidades acerca dos dados já reco- lhidos. Quanto à composição da Co- missão Nacional Eleitoral (CNE),

o político afirmou que o figuri- no adoptado viola o plasmado

no artigo 107.º da Constituição

e a própria Resolução 118 da As-

nado». E explica porquê: «O n.º 5 do artigo 51.º diz: ‘Um eleitor não pode subscrever mais de uma candidatura, prevalecendo em caso de duplicidade de subscrição

para a democracia e para o nosso futuro, porque abstenção é apos- ta na continuidade; o voto é um dever cívico e um direito de cida- dania; todos os angolanos devem votar e estar vigilantes, porque cada eleitor deve ser um fiscal», alertou. Para o político, um dos elemen- tos que propiciou a fraca afluência às brigadas de registo foi a frau- dulenta recolha dos dados dos cartões de eleitor por parte do partido que suporta o Executivo, chegando ao ponto de se especu- lar sobre o possível voto antecipa- do e fraudulento. Quanto ao Pacote Legislativo Eleitoral, os POC congratulam- se com a aprovação unânime da Lei Orgânica das Eleições pela Assembleia Nacional, que é um indicador inequívoco de que as eleições terão mesmo lugar em 2012. Por outro lado, o líder dos POC considera, no entanto, que a norma contém certas arma- dilhas bastante perigosas que a

a norma contém certas arma- dilhas bastante perigosas que a sembleia Nacional, que continha as cláusulas

sembleia Nacional, que continha as cláusulas fundamentais para a elaboração da legislação eleitoral. «O modelo, ou figurino, adopta- do é misto ou participado e nunca independente, conforme a consti- tuição. Para nós POC, os nossos legisladores, incorreram numa inconstitucionalidade. Esta é a mais pura realidade. Diante dis- to, resta-nos apenas afirmar, que estamos atentos e vamos acompa- nhar as cenas dos próximos capí- tulos», realçou. Ao concluir a sua explanação, apelou à Assembleia Nacional para estudar os mecanismos que permitam aos partidos políticos sem assento parlamentar indicar os seus assistentes permanentes nos trabalhos da CNE, já que tal é omisso, conforme a alínea C do artigo 145.º da Lei Orgânica das Eleições, que prevê cinco repre-

sentantes dos mais de 60 partidos existentes.

10 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

10 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. Política Processo disciplinar será concluído em 2 meses Magistratura

Política

Processo disciplinar será concluído em 2 meses

Magistratura Judicial suspende juiz Orlando Rodrigues

O Conselho Superior da Magistratura Judicial decidiu na semana passada suspender o

juiz municipal do Huambo, Or- lando Rodrigues de Lucas, por alegado abuso de autoridade e

exercício ilícito de actividade co- mercial. Fontes convergentes revelaram ao Semanário Angolense que o órgão máximo da Magistratura Judicial determinou a suspen- são de Orlando Rodrigues, por 60 dias, um período fixado para conclusão do respectivo processo disciplinar. Trata-se de uma medida que, provavelmente, não surpreendeu

o visado, visto que ele próprio já

estava a ser acossado pela «Justi- ça» nas últimas semanas. Orlan-

do Rodrigues foi, primeiro, inqui- rido por juiz afecto ao Tribunal Supremo e, depois, por um outro magistrado ligado ao Conselho Superior da Magistratura Judi- cial. Conforme já havia sido noticia- do por este jornal, em Novembro,

o presidente do Tribunal Supremo havia decido enviar ao Huambo

um jurista daquele órgão judicial,

a fim de averiguar os eventuais

atropelos à legalidade nesse caso.

averiguar os eventuais atropelos à legalidade nesse caso. Soube-se na altura que o TS teria inclusive

Soube-se na altura que o TS teria inclusive «avocado» o processo em causa, por supostas irregula- ridades cometidas pelo Tribunal

de primeira instância. Segundo as fontes deste jor- nal, a «sentença» mais pesada

recaiu sobre o juiz municipal Orlando Rodrigues, nesse pro-

cesso no qual terão sido arro- lados mais quatro magistra- dos afectos ao Tribunal local, todos eles acusados de terem «cozinhado» a detenção e con- sequente condenação do admi- nistrador municipal daquela província, José Luís de Melo Luís Marcelino.

Uma detenção que, como se sabe, ocorreu em finais de Setem- bro, depois do edil municipal ter ordenado à demolição de uma obra ilegal que estava a ser execu- tada pelo juiz Orlando Rodrigues, num espaço público. Correm informações na ca- pital do Planalto Central que o

mais mediático juiz municipal do Huambo terá sido afastado do programa da recente visita de trabalho que o presidente do Tri- bunal Supremo, Cristiano André, efectuou àquela província há duas semanas. Recorde-se que o administrado do Huambo foi detido, no passa- do dia 27 de Setembro, quando se encontrava no seu local de servi- ço. Dois dias depois da detenção, foi levado à barra do tribunal e condenado a 2 meses de prisão, com pena suspensa. Numa queixa apresentada ao Conselho Superior da Magistra- tura, o Luís Marcelino diz que to- dos os actos por si praticados, em sede de um processo administra- tivo de embargo de obra do juiz Orlando Rodrigues foram feitos na sua qualidade de administra- dor municipal e não como cida- dão. Mas que essa qualidade de detentor de um cargo público, de responsável da Polícia Municipal do Huambo, «foram gravemente violados». O lesado, em função dos alega- dos desmandos de que terá sido ví- tima, apresentou em Outubro uma queixa ao Conselho da Magistratu- ra Judicial, por via do seu advogado Luís Paulo Monteiro.

Apresentada pelo advogado Sérgio Raimundo

CNCS considera injusta a queixa contra «A Capital»

O Conselho Nacional de Comunicação va, tudo quanto sabe sobre a vida clandestina desde Social considera improcedente a quei- que decidiu contar a verdade».

A deliberação dá conta que este órgão de comu-

o jornal «A Capital» sobre o caso Quim nicação social privado elaborou a sua contestação

Ribeiro, por, segundo aquele órgão, «não se consta- que deu entrada nos serviços de apoio do Conselho

tar violação da lei de Imprensa».

Nacional de Comunicação Social em 2 de Setembro

xa de Alberto Sérgio Raimundo contra

Esta decisão está contida numa deliberação do de 2011.

Segundo o Jornal «A Capital», o objectivo da

so, na qual chama a atenção do jornal A Capital entrevista não ser o advogado Alberto Sérgio Rai- para se abster de aditar em matéria de Direito de mundo, mas sim o “ Caso Quim Ribeiro”, assim Resposta quaisquer comentários, ainda sob a de- como em momento algum este jornal fez publicar

signação de Nota de Redacção.

Conselho que teve lugar na segunda-feira, 19 aces-

as suas opiniões sobre o caso, limitando-se apenas

De acordo com o documento, Alberto Sérgio ao relato de factos confirmados e à publicação da Raimundo alega que o Jornal em causa não publi- entrevista.

cou o seu Direito de Resposta, em consequência

Alega ainda que a chamada de capa, reclamada,

de uma matéria sob o título: « “Abriu a boca”, sem não faz sentido, já que na edição nº461 não foi pu-

medo, Augusto Viana Mateus, testemunha chave blicada, na capa, qualquer foto do advogado ou, ao do “caso Quim Ribeiro” fala em entrevista exclusi- menos, feita referência ao seu nome.

foto do advogado ou, ao do “caso Quim Ribeiro” fala em entrevista exclusi- menos, feita referência

12 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

12 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. Capa Edson Leitão, que se diz porta-voz do PP,

Capa

Edson Leitão, que se diz porta-voz do PP, acusa David Mendes, o presidente

«Ele comprou o Partido Popular e é um ditador de bom tamanho»

Jorge Eurico, N. Talapaxi

e Nunes Ambriz (Fotos)

A serem verdadeiras as decla-

rações que se seguem, da inteira

e exclusiva responsabilidade

de Edson Leitão, membro da

direcção e porta-voz do Partido Popular (PP), seremos forçados

a concluir que, afinal, David

Mendes é um homem que faz o

que não diz e diz o que não faz. Isto a julgar pelas revelações bombásticas feitas pelo nosso entrevistado, cuja «chaparia»

- pelo que pudemos observar

durante a conversa – estava um tanto quanto amolgada depois de ter sido fisicamente «repreen- dido» por alguns «compagnous de route» por integrar o grupo

de militantes da agremiação que invadiu a sede do próprio parti- do, sita na Avenida dos Comba- tentes, à busca sabe-se de lá de quê. Seja como for, o visado, em última instância, sempre será o presidente do partido, o homem que se serviu da advocacia para ganhar visibilidade pública e,

desta forma, regressar à política partidária activa (algo que já disse uma vez que não voltaria

a fazer) e consequentemente

candidatar-se às eleições presi- denciais em 2012. Para tal, segundo Edson Lei- tão, David Mendes começou por comprar a sigla de um partido por 100 mil dólares para depois «recrutar» os ex-militantes do PADEPA de Carlos Leitão para

os ex-militantes do PADEPA de Carlos Leitão para Semanário Angolense (SA) - Estamos perante um homem

Semanário Angolense (SA) -

Estamos perante um homem com hematomas e cicatrizes,

o que revela que o seu estado

de saúde, neste momento, não

é dos melhores. O que é que se passou?

Edson Leitão (EL) – O meu es- tado de saúde, de facto, não é dos melhores neste momento.

SA – Porquê?

EL – Porque o senhor David Mendes, a partir do exterior,

demonstrou atitudes de bandido, de marginal. Há provas factuais e

uma delas tem a ver com a infor- mação que nos foi revelada depois

da morte do jurista André Dambi, segundo a qual o malogrado era secretário nacional para os assun- tos jurisdicionais. Esta informação era até então apenas do domínio do senhor David Mendes.

SA

Foi

revelada

depois da

morte do jurista André Dambi?!

SA – Mas porquê às vinte e três horas?

EL - Precisávamos de reunir. Não arrombamos as portas da nossa sede, até porque são fáceis de serem abertas. A polícia quando apareceu com três colegas do par- tido, abrimos a porta e eles entra- ram para constatar se tinham sido arrombadas ou não.

SA – Antes esteve ligado ao PA- DEPA. Quando e como vai parar ao PP?

tes do PADEPA para abraçarem a sua causa, apresentando-se como presidente do Partido Popular.

SA – A troco de quanto?

EL - A troco de nada. A extinção do PADEPA começou a desenhar- se aquando da sua crise interna. Depois houve aquela situação em que o Tribunal Constitucional aceitou a candidatura do senhor Silva Cardoso e rejeitou a candida- tura de Carlos Leitão. E por não ter impugnado o congresso da ala de Silva Cardoso e visto que a maior parte da massa militante do PA- DEPA estava com Carlos Leitão, então o partido, já fragilizado, foi extinto. A experiência que obtive- mos no PADEPA e o clima que se está a viver no Partido Popular (PP) levou-nos a concluir que o se- nhor David Mendes está de má-fé e com o propósito de nos ludibriar. Outro facto que gostaria de refe- renciar é o seguinte: é que, nós, a nível da sede do Partido Popular (PP), não temos um computador, nem arquivo. Temos reuniões às terças, quintas e sábados, mas só temos cadeiras e secretarias.

SA – Quando se refere à com- pra do partido, fala de pagar os militantes que vieram do PADE-

o

seu novel PP. Entre as várias

orientou o senhor Benedito Sebas-

EL - E não só! Também consta-

EL – Estive, sim senhor, ligado

SA – Quer dizer que o PP é uma

EL - É sim, porquanto 90% dos

revelações feitas na entrevis- ta, Edson Leitão acusa o seu presidente de ter uma ambição desmedida pelo poder.

tião, nosso companheiro e membro da direcção do Partido Popular (PP), a arregimentar um grupo de indivíduos para agredir-nos fisi-

tamos que os grandes dossiers do partido eram elaborados pelo se- nhor David Mendes e por pessoas estranhas, fora da sede do partido.

ao PADEPA. Em Julho de 2009,se a memória não me atraiçoa, fui con- tactado pelo senhor David Men- des por intermédio de Francisco

 

O

interlocutor do SA reve-

camente. Este grupo foi pago para

«Não queremos bandidos no parti-

Manuel Neto, que também era do

la também que, afinal, David Mendes não tem provas mate- riais sobre as pretensas contas bancárias no estrangeiro que seriam tituladas pelo Presiden- te da República, José Eduardo dos Santos, algo que andou a

esgrimir nos últimos tempos na sua cruzada contra a alegada «má gestão» do país, em meio

tirar-nos à força da sede do PP onde nos encontrávamos a fazer uma vigília que tinha como divisa:

do!», sendo que 24 horas depois da vigília faríamos uma conferência de imprensa para revelar à comu- nidade nacional e internacional todos os problemas que o partido tem vivido.

Ele diz que a direcção também é composta por pessoas que estão na clandestinidade.

SA – A que horas vocês invadi- ram a sede do Partido Popular (PP)?

EL – Às vinte e três horas de do- mingo.

PADEPA. Depois disso, o senhor David Mendes contactou-me na minha residência, no Baleizão.

emanação do PADEPA?

membros do Partido Popular fo- ram militantes do PADEPA.

à

corrupção ao mais alto nível.

SA – Arrombaram a porta da sede do partido?

SA – Como foi que isso aconte-

E

disse mais: que o Partido

SA – Quem são os bandidos a

EL – Refiro-me particularmen-

EL - Não foi por via de arromba-

ceu?

Popular não tem um programa de Governo, sendo, aliás, uma formação política dirigida a trouxe-mouxe.

que se refere?

te ao senhor David Mendes, por- que ao longo desses últimos meses

mento. Há um segurança, de uma empresa de pescas que tem o escri- tório próximo da sede do partido, que nos deu acesso.

EL - O senhor David Mendes foi advogado de defesa do PADEPA. Quando ele comprou a sigla de um partido piscou o olho aos militan-

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 13 Capa PA ou de pagar pela constitui- ção

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

13

Capa

PA ou de pagar pela constitui- ção do partido?

EL – Refiro-me à aquisição da sigla. Ele comprou a sigla ao se- nhor Orlando Francisco Ngonga

no valor de 100 mil dólares e aco- modou-lhe como vice-presidente. Para além dos valores resultantes da venda da sigla, David Mendes propôs o seguinte a Orlando Ngon- ga: «Eu apareço como presidente do partido, tu vice-presidente, o teu primo outro vice-presidente

e a mulher do senhor Pedro Gil

fica secretaria-geral adjunta e o secretário-geral fica ao meu crité- rio». Foi assim que ele criou esse cenário. Simulou um congresso do Partido Nacional Progressista de Angola (PNPA), em que ele seria o presidente. E depois foi só remete- rem a documentação ao Tribunal Constitucional para a mudança

da sigla, que, sendo legítima,

se processa como que automa-

ticamente. O tal congresso, que não o considero como tal, foi um carnaval. Teve lugar em casa dele, em Viana. Chamou uma serie de pessoas e estas foram inventando várias assinaturas, mudando de caligrafia, alegan- do que eram delegados provin- ciais.

SA- Sabe qual é a origem dos

100 mil dólares que ele gastou para comprar o PNPA?

EL– Presumo que tenha vin-

do de fora.

SA – Porque é que só denun- cia isso agora?

EL - Só denuncio agora por- que só muito recentemente to- mei conhecimento deste facto.

O senhor David Mendes foi advogado de defesa do PADEPA. Quando ele comprou a sigla de um partido piscou o olho aos mi- litantes do PADEPA para abraçarem a sua causa, apresentando- se como presidente do Partido Popular.

Por exemplo, o senhor Orlando Francisco Ngonga e os dois vice- presidentes, que por desconten- tamento têm andado ausente da sede do partido, não aparecem nas reuniões há mais de dois meses. Dizem que não é ad- missível que David Mendes se ausente durante semanas e no seu regresso chegue e diga vamos fazer isto e aquilo. Um partido não se resume à distribuição de panfletos e ao pinchar de pare- des.

SA - Onde é que fica a sede do Partido Popular (PP), já agora?

EL - A sede do Partido Po- pular (PP) fica na Avenida dos Combatentes, prédio número 159, quinto andar. Nós fomos tendo algumas conversas entre

colegas e alertando a direcção do partido que as coisas não estavam bem. O presidente (David Mendes) disse que por questões de seguran- ça não poderia ter o material do partido na sede. Ainda tentamos demove-lo no sentido de se pautar por uma outra conduta, ele pura e simplesmente optou pela arrogân- cia e demonstrou um carácter de ditador.

SA – David Mendes é absoluto, enquanto presidente do Partido Popular?

EL - Tem um comportamento absolutista e arrogante. É daque- las pessoas que não ouve o que lhe dizem, apenas prevalece o que ele diz. No partido, ele é o detentor da razão e da verdade. Nós estamos ali apenas para dizer «sim» e cum- prir as suas orientações.

«O PP não tem provas das acusações feitas ao Presidente da República»

SA - Isso é que motivou a inva- são da sede do PP?

EL - E outros factos. Por exem- plo, um dia desses, ele mandou- me chamar em plena noite para nos encontrarmos na sede da «As- sociação Mãos Livres». Posto lá,

ele disse-me: «Tens de ir à ‘Rádio Despertar’ participar de um de- bate e assumir essa situação – as acusações de que o Presidente da República tinha desviado 37 milhões de dólares». Pedi-lhe as provas, queria vê-las para puder sustentar a acusação que haveria

de fazer. Ele disse-me: «Vai só. Não

tenho isso aqui porque podem as- saltar a sede da associação, mas tenho-as em minha casa. Não na em que eu vivo, mas numa das

minhas casas, porque eles podem assaltar e levar estas provas. Mas, entretanto, segue para a ‘Rádio (Despertar)’ e amanhã dar-te-ei

as provas para as leres». Ora, des-

de o dia 8 de Outubro que ele não me mostrou prova nenhuma. Eu disse-lhe: «Presidente, tenho que ter as provas, porque se isso não for um facto real, se o Presidente da República intentar uma acção judicial contra mim que assumi publicamente as acusações, vou sofrer as consequências».

SA – Acredita que essas provas existem ou não?

EL - Pelo que me consta, não.

Insisti para que ele me mostrasse

as provas e até agora não o fez.

SA – Acha que foi bluff de Da- vid Mendes?

EL - Creio que sim. Creio que foi uma cabala que ele tentou criar. David Mendes tem demonstrado que os grandes objectivos deles centram-se no seguinte: fazer uma oposição muito forte ao MPLA. Naturalmente que a democracia permite que os partidos políticos possam se opor, mas ele instiga-

nos a sermos hostis com o propósi-

to de fazer com que o regime tente

negociar com ele para que paute por uma politica mais suave.

SA – Quais serão as intenções?

EL – Económicas, obviamente.

SA - O que lhe faz dizer isso?

EL - Nos encontros que mantí- nhamos, David Mendes incentiva-

va-nos dizendo: «Vamos continuar

a distribuir panfletos. O MPLA

derrubou a FNLA com panfletos e escritas na parede. Vamos conti-

nuar. Mesmo nas instituições pú-

blicas podem pinchar, que é crime do ponto de vista jurídico. Um ou outro vai ser detido. Mas isso vai fazer com que ele (MPLA) se sen- te connosco para negociar». Mas, sempre defendemos para que não se vendesse o partido. Sempre dis- semos ao senhor David Mendes:

«Viemos do PADEPA e surgimos com uma consciência que se pren-

de com a mudança de regime. Não vamos compactuar com este tipo de situações que visam fins eco- nómicos». Foi neste âmbito que, ao longo desses últimos meses, fo- mos tentando persuadir para que ele fosse mais aberto em relação às verdadeiras intenções do parti- do. Com quem tem reunido para abordar as questões do partido, os dossiers do partido?!. Não se pode

conceber que de repente ele chegue e nos coloque à mesa a orientação:

vamos distribuir panfletos!

SA - Sentem-se manipulados?

EL - Estamos a ser manipu- lados. Mas tentamos resolver a situação com ele por via do diá- logo, sendo que no mês passado (Novembro) tentamos conversar de forma pacífica. Ele, arrogante- mente, disse que não tem tempo para nos aturar e ausentou-se do país. Fomos aparecendo na sede do partido, aguardando que ele regressasse. Depois do seu regres- so, tentámos contactá-lo por tele- fone. Mas não foi possível, porque ele quando via o nosso contacto desligava o telefone. Tentávamos contactá-lo novamente com nú- meros desconhecidos, ele atendia mas assim que desse conta que era um membro da direcção desligava o telefone. No entanto, surgiu em nós, membros de direcção do par- tido e outros militantes uma certa revolta. Na semana passada (já são passados cerca de quinze dias)

Na semana passada (já são passados cerca de quinze dias) fomos à reunião na terça-feira, na

fomos à reunião na terça-feira, na quinta-feira e no sábado. Ele não apareceu e achamos conveniente tomar a sede do partido no do- mingo com vista a levar a cabo um acto de protesto contra estes actos que ele tem protagonizado. Foi, como já disse, com o objectivo de fazermos uma vigília, que duraria 24 horas, e a posterior realizaría- mos uma conferência de imprensa onde faríamos alusão a todos os problemas que o partido tem vi- vido, e sobretudo, as constantes e flagrantes violações dos estatutos. Há dois anos que ele comprou o partido e não tem um comité cen- tral, um bureau político. Estes ór- gãos nunca reuniram. Aliás, como podem reunir se não existem? O único objectivo que o partido tem é apenas o de distribuir panfletos. Não tem um programa sério.

SA – Mas qual é a verdadeira causa do descontentamento?

EL - O descontentamento sur- giu quando tentamos chamá-lo à razão no sentido de mudar de comportamento. Tentamos con- versar várias vezes com o senhor David Mendes. Mas ele tentou sempre ludibriar-nos e criar uma certa divisão entre os militantes do partido. Ele próprio, nos últi- mos tempos, afastou-se, deixou de aparecer com frequência na sede do partido.

SA – Há quanto tempo é que isso acontece?

EL – Há mais de três meses.

14 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

14 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. Capa «O conflito só vai acabar com o afastamento

Capa

«O conflito só vai acabar com o afastamento dele»

Capa «O conflito só vai acabar com o afastamento dele» SA – Porque que tomaram de

SA – Porque que tomaram de assalto a sede do partido na au- sência de David Mendes? Não podiam resolver isso pacifica- mente, não havia outra forma?

EL - Tomámos a sede com objec- tivo de realizar a vigília no sentido de tentar persuadi-lo a ir à sede para conversarmos. Mas, mesmo assim, ele não apareceu. Pura e simplesmente apareceram dois indivíduos que também são da di- recção do partido e que tentaram conversar connosco. Lembro-me também de um facto, aquando da vigília, e na presença da polícia, que um dos colegas depois, porque eu é que dirigi a tomada da sede, um dos colegas chamou-me e dis- se: «O presidente está ao telefone, a partir da África do Sul, e quer falar contigo». Eu disse: «Não te- nho conversa e também o diálogo já está encerrado». Automatica- mente o colega disse: «O presidente quer fazer-te uma proposta finan- ceira». Eu disse: «Não, não há pro-

posta financeira. Nós estamos aqui a cumprir um dever para o bem do partido, da democracia e do país. Isso não significa dizer que a nossa luta, que é o de combater o regime vai parar. Mas nós vamos continu- ar porque nós já estamos nessa tra- jectória de combate ao regime de forma pacífica e é dessa forma que nós vamos defender os nossos ide- ais, as nossas convicções. Agora, se ele quer falar comigo no sentido de me fazer uma proposta financeira para evitar essa situação que cria- mos, não quero falar com ele».

SA – David Mendes diz num e- mail que disseminou que vocês estão ao serviço do regime e que invadiram a sede do parti- do na ausência dele para ver se encontravam as provas relativas às alegadas contas que o Presi- dente da República terá no es- trangeiro.

EL - Isso não corresponde à ver- dade. É uma pura aldrabice. Isso

mais uma vez demonstra que ele é uma pessoa sem escrúpulos. Na sede do partido não temos sequer um computador, não temos arqui- vos, só cadeiras e secretarias. Não temos mais nada.

SA – Com essa repressão de que foram alvo, qual é a ideia das pessoas descontentes no partido?

EL - É continuar a luta. Nós so- mos pela mudança.

SA - Como pensam confrontar a vossa atitude com a de David Mendes?

EL – Queremos o bem do par- tido e isso passa pelo afastamento do senhor David Mendes da direc- ção. A maior parte dos membros da direcção é desta opinião.

SA – Querem David Mendes fora da liderança do PP apenas por ele ter os documentos do partido em casa, por alegadas

razões de segurança?

EL- Não só por isso. Um dos factos, por exemplo, é o caso dele ter membros da direcção do parti- do na clandestinidade. O PP não é uma associação com fins «bandi- tistas». As coisas no partido devem ser transparentes e claras.

SA- Os membros da direcção na clandestinidade só são co- nhecidos por David Mendes?

EL- Sim, só por ele. Por exem- plo, só tomamos conhecimento que senhor André Dambi era membro da direcção do partido depois do seu falecimento. O senhor André Dambi nunca apareceu na sede do partido, nunca participou nas actividades do partido. Após o seu falecimento vem dizer-nos que foi nosso secretário nacional para os assuntos jurisdicionais? Isto não é aceitável.

SA- David Mendes tem uma agenda própria ou está a fazer

o jogo de interesses estrangei- ros?

EL- É bem possível que haja uma ingerência externa, não só pelas suas viagens ao estrangei- ro mas sobretudo pelo facto de

nos ter revelado que nos iria ar- ranjar valores financeiros para apoiar o Movimento Revolucio- nário de Estudantes de Angola (MREA) para puder desencade-

ar confusão e fazerem de Angola

uma Líbia, uma Tunísia para que o Ocidente venha também ao nosso país. O Sr. David Men- des tem defendido essas ideias.

E nós reprovamos esse tipo de

práticas. Não é essa a via que queremos.

SA– Porquê que David Men- des quer financiar o MREA para desencadearem manifes- tações?

EL- Porque é pela confusão, re- beldia. Essas são as características dele. É arrogante e ditador.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 15 Capa Frustração partilhada SA – Há possibilidade dele

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

15

Capa

Frustração

partilhada

SA – Há possibilidade dele candidatar-se como cabeça de lista do PP para as presidenciais?

EL- Não, não há possibilidades. O PP não tem condições para con- correr às legislativas, é um partido fragilizado.

SA- Esse seu sentimento de frustração é partilhado pelos ou- tros?

EL– Sim, também partilham da mesma frustração.

SA- Você é o porta-voz da corrente do partido descontente com David Mendes?

EL – Temos um porta-voz, que é o senhor Elias Francisco. Mas eu sou a pessoa que está a liderar este movimento de contestação.

SA- Esta confusão que se instalou no PP faz-nos lembrar a con- fusão que existiu no PADEPA. Não terão vocês transportado a génese da confusão do PADEPA para o PP?

EL- Olhe, só há pouco tempo tomamos conhecimento que o senhor David Mendes ficou feliz com o desaparecimento do PADEPA da cena política angolana. O senhor David Mendes era o advogado do PA- DEPA. Aquando do surgimento da divergência no PADEPA, e após o

senhor Silva Cardoso ter realizado um congresso, Carlos Leitão tinha que impugná-lo, mas David Mendes disse que não, que não devia impugnar porque o congresso que Carlos Leitão tinha realizado dois anos antes ainda estava dentro da normalidade. Enganou o senhor Carlos Leitão, o que se veio a comprovar quando o Tribunal Cons- titucional decidiu que aceitaria a lista subscrita pelo senhor Silva Cardoso e não a de Carlos Leitão pelo facto deste não ter impugnado

o congresso do seu opositor directo de então. David Mendes fez-lhe incorrer neste erro propositadamente. Tomamos conhecimento que ele colaborou no sentido de se destruir o PADEPA.

SA- Não temem que David Mendes intente uma acção judicial contra vocês pelo facto de terem «tomado de assalto» a sede do PP?

EL- Não temos receio. O que nos motiva é a mudança. Nós hoje

temos duas situações que se nos colocam: combater David Mendes e

o regime.

SA – Quem nos garante que vocês não estão ao serviço do regi- me para destruir o PP?

EL- Não estamos ao serviço do regime e vamos assumir as conse- quências que advirem dos nossos actos contra o Davd Mendes e o re- gime. Mesmo que ele volte a contratar marginais para nos agredirem ou matar, vamos preferir a morte do que viver as situações ditatoriais que temos vivido no partido.

as situações ditatoriais que temos vivido no partido. ■ David Mendes estará já de «todo»? «Alguns

David Mendes estará já de «todo»?

«Alguns de vocês (jornalistas) foram comprados para me prejudicarem»

vocês (jornalistas) foram comprados para me prejudicarem» C ontactado telefonica- mente, segunda-feira, 19, pelo

C ontactado telefonica- mente, segunda-feira, 19, pelo Semanário Angolense, no sentido

de reagir às acusações feitas por Edson Leitão, David Mendes deu um ar da sua (até há pouco tem- po desconhecida) arrogância, ao afirmar peremptoriamente que não comentava denúncias de um militante de base que, na sua óp- tica, deveria, a esta altura, estar a contas com a polícia, por ter, como disse, subtraído indevida- mente uma quantia em dinheiro dos cofres do partido, furtado do- cumentos da sede do PP.

Deontologia jornalística, David Mendes disse, sempre com sua arrogância de sanzala, que o SA deveria saber separar o «trigo do joio» e não dar espaço a um mi- litante que está há menos de doze meses no partido. De forma pouco urbana, diría-

mos mesmo indelicada, o causídi- co disse que Edson Leitão não faz parte da direcção do Partido Po- pular (PP) e nunca foi sequer seu porta-voz. Tal posição contrasta sobre- maneira com o posto assumido por Edson Leitão quando fez, no passado dia 08 de Outubro, como porta-voz do Partido Popular (PP), no programa «Raio X» da Rádio Despertar, quando fez as acusações de que o PR seria o ti- tular de contas bancárias no es- trangeiro com dinheiro que não era seu, mas sim do povo. E tudo indica que foi mesmo

Qual «professor» de Ética e nesta condição, mandatado por

David Mendes, como ele diz a dada altura da entrevista, que Ed- son Leitão mandou aquelas «bo- cas» sérias contra o PR na emisso- ra do Galo Negro. Por ter dado espaço a Edson Lei- tão, David Mendes acusou o SA de estar a fazer o jogo do poder para

atingi-lo, tendo mesmo adianta- do que está em posse de uma lista nominal de jornalistas avençados pelo empresário e político Bento dos Santos Kangamba, cuja tarefa é a de colocar o seu nome na lama em decorrência da acusação que o seu partido fez ao PR. Bem ao estilo de uma intimi- dação clara, não só aos jornalistas do SA, como à classe no geral, o ex-líder da Associação «Mãos Li- vres» prometeu revelar, nos pró- ximos dias, a lista dos jornalistas que estarão a soldo de Bento Kan- gamba para prejudicá-lo pública e politicamente. O SA manifestou-se aberto a publicar a dita lista dos jornalistas vendidos a Bento Kangamba para o prejudicar. Se isso não passar de um «bluff», David Mendes pode ter acabado de comprar uma bri- ga desnecessária com a classe jor- nalística, o que não é bom. Que venha a lista!

16 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

16 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. dossier Coisas e loisas à volta do nascimento e

dossier

Coisas e loisas à volta do nascimento e vida de Cristo

Os «Irmãos da Túnica Branca»

Kim Alves (*)

P ara se compreender e apreciar em pleno a his- tória e as circunstâncias reais do nascimento e da

missão do Mestre Jesus, é neces- sário saber, em princípio, alguma inteligência das organizações e das escolas antigas que contribu- íram par preparar a Sua vinda. Um século após Jesus, retirou-se da literatura religiosa numerosas citações referentes à Fraternidade Essênia e sobre as actividades des- ta comunidade na Palestina, justa-

mente antes e durante a vida de Je- sus Cristo. Grande número destas citações confirma as alusões feitas aos Essênios por eminentes his- toriadores, esclarecendo-nos me- lhor, hoje, sobre certas passagens obscuras das escrituras sagradas dos hebreus, tal como nos são re- transmitidas pela Bíblia cristã.

A questão das relações possí-

veis entre a Fraternidade Essênia

e as primeiras actividades cristãs,

não suscitou apenas o interesse de alguns homens da igreja e de au- toridades eminentes em matéria bíblica, mas levou também a que milhares de leitores da literatura mística levantassem a seguinte questão: «Porque é que a história dos Essênios e os seus documen- tos foram subtraídos ao conheci- mento do grande público?». A resposta é simples: os que co- nhecem a história da Fraternida- de Essênia entenderam dissimu- lar a sua existência sob um véu de mistério, a fim de proteger a sua actividade e afastar os seus ensi- namentos de qualquer discussão pública, porque poderiam susci- tar a crítica e o descontentamento dos que professam o cristianismo oficial, que, no passado, contri- buiu de forma vasta a tornar o mistério de Cristo e Sua doutrina ainda mais obscuros. De forma muito resumida, por- que não há espaço suficiente para se narrar tudo, é preciso dizer que os Essênios foram um ramo da Fraternidade Iluminada ou Grande Loja Branca que nascera no Egipto alguns antes do rei- nado do Faraó Amenhotep IV, o grande fundador da primeira re- ligião monoteísta, que encorajou

e ajudou materialmente durante

a sua existência uma fraternidade

secreta encarregada de ensinar as grandes verdades espirituais.

As diversas escolas místicas do

Egipto, que se reuniram numa só organização, constituíam a Gran- de Fraternidade Branca, que foi

constituíam a Gran- de Fraternidade Branca, que foi adoptando diversas designações em diferentes lugares do

adoptando diversas designações em diferentes lugares do mundo, conforme a linguagem do país, a mentalidade e as particularidades do pensamento religioso ou espi- ritual dos respectivos habitantes. É assim que, em Alexandria, os membros da Fraternidade adop- taram o nome de Essênios. A ori- gem verdadeira desta palavra foi alvo de muitas conjecturas por parte de cientistas. Muitas hipóteses pouco satisfa- tórias foram avançadas no passa- do quanto à sua etimologia, mas até hoje, para alguns cientistas, a dúvida continua. Contudo, esta designação provém originalmen- te da palavra egípcia «Kashai», que significa secreto. Há também uma palavra hebraica de conso- nância parecida, «chsahi», que significa secreto ou silencioso; esta palavra traduz-se natural-

mente por «essaios» ou «essênio»,

que quer dizer secreto ou místico. Algumas descobertas revela- ram que os símbolos egípcios de luz e de verdade são representa- dos pela palavra «choshen», que se traduz literalmente em grego pela palavra «essen». Foram en-

contradas também certas referên- cias históricas segundo as quais os monges dos antigos templos de Éfeso recebiam o nome de Essê- nios. Um ramo da Fraternidade, fundada na Grécia, considerava que o nome Essênio derivava da

palavra síria «asaya» que signifi- cava médico, que se traduzia em grego pela palavra «terapeuta», que tem o mesmo sentido. Muitos anos antes da era cristã, os Essênios, constituídos em gru- pos de trabalhadores activos, de- tinham dois centros principais. O primeiro encontrava-se no Egipto, nas margens do lago Maoris, onde nasceu, quando da sua primeira

encarnação conhecida, o

ilustre

Grande Mestre Moria-El. Foi lá que ele recebeu a instrução e a pre- paração necessárias para levar a cabo a sua alta missão. Foi lá tam- bém que ele instituiu o princípio e regra do baptismo como degrau espiritual que conduz à iniciação. O segundo centro da Fraternidade Essênia foi, em princípio, estabe- lecido na Palestina, em Engaddi, próximo do Mar Morto.

Todos os Essênios do Egipto e da Palestina, assim como os «te-

rapeutas», como passaram a ser chamados em outros países, eram obrigatoriamente de descendên- cia pura. Conhecer este ponto é muito importante para se com- preender os feitos sobre o nas- cimento do Mestre Jesus. Igual- mente estudavam o Zend-Avesta e observavam os princípios que eram ensinados, que insidiam particularmente na necessidade de desenvolver um espírito pode- roso num corpo são. Antes de ser um adepto da Fraternidade Essê- nia, toda a pessoa qualificada de- via ser preparada desde a infância por mestres e instrutores, por for- mas a obter um corpo são e devia passar vitoriosamente por provas em que lhes era exigido que usas- sem certos poderes mentais. Desde a iniciação, o adepto vestia uma túnica branca feita de uma só peça de tecido e só usava sandálias se o tempo ou as cir- cunstâncias o obrigassem. Eles se distinguiam de tal forma pelas suas roupas que o povo os chama- va de «Irmãos da Túnica Branca». O termo Essênio não era conheci- do pelo povo, mas somente pelos iniciados. Isto explica a ausência

de qualquer referência aos Essê- nios na maioria dos relatos e es- crituras da época. Eles viviam em comunidade em casas bem preparadas, geral- mente situadas no interior de um quintalão sagrado e bem protegi- do. Todos os assuntos correntes eram tratados por um conselho ou comité composto de juízes ou conselheiros, em número de cem, que se reuniam uma vez por se- mana para dirigir as actividades da comunidade e para ouvir os relatórios dos membros. Os desacordos, as queixas e os assuntos a julgar eram da com- petência do conselho e um dos seus regulamentos indica que eles eram sempre muito prudentes quando exprimissem a sua opi- nião uns sobre os outros ou sobre pessoas estranhas à sua organiza- ção. Nunca criticavam o modo de vida ou os actos das pessoas que tentavam reformar ou ajudar e se- guiam estritamente um dos seus princípios: «Nunca julgues, afim de nunca seres julgado».

(*) Com diversas fontes

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 17 dossier No país de Jesus A Palestina, onde

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

17

dossier

No país de Jesus

A Palestina, onde Jesus lei nem limites. Entretanto, a gião situada imediatamente ao

sul de Antioquia. Entretanto, por mais estranho que pareça, foi precisamente lá que a primeira igreja dos Gentios foi fundada e é lá que foram en- contrados os primeiros cristãos. Um pouco antes da vinda de Jesus Cristo, a Palestina, e Je- rusalém em particular, era com certeza uma terra pagã. Embora seja exacto que a religião judaica aí se estabeleceu, ela não chegou a atingir as multidões, nem a to- talidade das classes dirigentes. O judaísmo era, naquela épo- ca, extremamente complexo. Os Judeus consideravam os Essê- nios como uma seita e pode-se dizer que o judaísmo dividia- se, em si mesmo, em duas sei- tas principais: os Fariseus e os Saduceus. Mas estas duas seitas reivindicavam princípios opos- tos e odiavam-se, enquanto os Essênios não podiam ser natu- ralmente considerados parte de um ou de outro. Apenas um sentimento unia

Cristo terá nascido, não era uma nação homogénea, que fa-

maioria das pessoas que povo- avam o Nordeste era compos- ta de Sírios, Gregos e Pagãos. A Este e Oeste da Palestina, os ritos egípcios, fenícios e gregos disputavam a preponderância e, no próprio coração da Palestina, era a língua e os ritos gregos que dominavam. Na região nordeste da Pales- tina, conhecida por Alta Gali- leia, viviam gentes conhecidas pelo nome de Gentios. Tiberias era livre de qualquer influência judaica. Gaza tinha a sua pró- pria divindade. Jope, segundo os Judeus, sofria a influência de um culto pagão. Cesaréia, vila essencialmente pagã, era, para os Judeus, o símbolo de Roma, a Roma de Idumeia e, em con- sequência, devia ser destruída. Com efeito, aos olhos dos Ju- deus, era impossível que Jerusa- lém e Cesaréia coexistissem. Em toda a Palestina, as classes instruídas falavam grego. A lín- gua das tribos de Israel passara

lava uma só língua ou com in- teresses comuns que fizessem dos seus habitantes um só povo. Era, ao contrário, um país com populações diversas, com múlti- plas línguas e onde se opunham muitos interesses diversos. Ra- ças hostis espancavam-se entre si e os respectivos interesses não eram apenas diversos, mas sim a tal ponto inconciliáveis e opostos que a paz e a harmonia entre elas eram impossíveis. Os que professavam a fé judaica não eram todos Hebreus. Os He- breus eram Hebreus pela forma- ção de uma raça nova que data- va da época do Êxodo do Egipto. Um grande número entre eles tinham sangue ariano, nas suas veias por causa de casamentos mistos e, por tudo isso, resultou no sistema de castas. Eles acre- ditavam que Deus havia decre- tado as diferenças que eles pró- prios tinham estabelecido. No meio destas gentes, havia os pagãos, cujos templos se mul- tiplicavam rapidamente e cujos ritos e costumes se tornavam preponderantes. No Nordeste, encontravam-se os nómadas,

povo selvagem que vivia sem dadeira terra de Israel era a re- los Gentios.

por grandes transformações e, todos os povos da Palestina:

salvo nas academias e nas esco- las teológicas, o «velho» hebreu, como o chamavam então, cedeu o seu lugar ao dialecto aramaico. Os rabinos da religião judaica consideravam que a única e ver-

quer fossem de alta ou de baixa condição, instruídos ou igno- rantes, ricos ou pobres, pagãos ou judeus, governantes ou go- vernados, todos se uniam na imensa aversão que sentiam pe-

vernados, todos se uniam na imensa aversão que sentiam pe- Os pais do «Filho de Deus»

Os pais do «Filho de Deus»

O s pais de Jesus eram Gentios e os seus corações e espíritos es- tavam preenchidos pelos ensi- namentos da Fraternidade Es-

sênia. Eles tiveram o privilégio de receber os ensinamentos secretos da Grande Fra- ternidade Branca. Esta afirmação está confirmada na Bíblia Cristã, no Talmud e também em numerosas obras dignas de fé. Os pais de Jesus viviam na Galileia e não pode ha- ver contestação possível neste ponto. Eles eram, em consequência, autênticos Gali- leus. Em S. Mateus IV:15, pode-se ler: «Na Galileia dos Gentios». Por mais estranho que possa parecer, o leitor habitual da Bí- blia não repara nesta expressão e perde de vista o seu significado profundo. O pró- prio Jesus foi chamado o «Galileu». Con- sequentemente, é preciso compreender que Jesus era considerado pelo seu povo ou, pelo menos, pelo povo da Palestina, como um estrangeiro. Isto nos obriga a es- tudar a situação real e a questionar porque é que os Galileus eram Gentios e porque é

que os Gentios habitavam a Galileia. Mas isto é matéria para outra ocasião.

a Galileia. Mas isto é matéria para outra ocasião. Isto nos ensina que os Gentios da

Isto nos ensina que os Gentios da Ga- lileia, país onde viveram os pais de Jesus, eram discípulos do misticismo filosófico e Judeus por obrigação. Por outros ter- mos, depois do ano 103 antes de Jesus Cristo, os Gentios da Galileia deviam submeter-se à circuncisão e respeitar a lei de Moisés. Segundo esta lei, todas as crianças deviam, à uma determinada ida- de, aceitar a fé hebraica, apresentando-se solenemente na Sinagoga para solicitar a admissão no seio da igreja. Na época do nascimento de Jesus, a língua dos Gali- leus não era o hebreu. Uma outra questão prende-se com a genealogia de Jesus, tal como ela é des- crita nos Evangelhos, que se esforça em provar que ele descende da Casa de Da- vid. Esta genealogia da Bíblia aparece em dois locais diferentes, por dois autores diferentes e as árvores genealógicas não correspondem entre elas. É preciso não esquecer que jamais, durante a Sua vida, Jesus fez referências aos Seus antepassa- dos ou aos Seus familiares e nunca afir- mou aos Judeus que Ele era o Messias da Casa de David.

18 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

18 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. dossier A concepção divina A concepção e o nasci-

dossier

A concepção divina

A concepção e o nasci- mento divinos eram facilmente admitidos nos tempos antigos, ao

ponto de que logo que se ouvisse falar de alguém que se distinguis- se brilhantemente em assuntos humanos, atribuíam-lhe auto- maticamente uma ascendência divina sobrenatural. Mesmo nas

religiões pagãs, havia a crença de que alguns deuses haviam desci- do do céu para encarnar nos seres humanos.

A Índia conheceu um certo

para encarnar nos seres humanos. A Índia conheceu um certo número de Avatares e de Mensa-

número de Avatares e de Mensa- geiros Divinos que se encarnaram

por concepção divina; dois dentre eles têm o nome de «Krishna» ou «Krishna, o Salvador». Ora Krish- na foi posto no mundo por uma virgem casta chamada, por causa da sua pureza, a «mãe de Deus».

sabiam disso. A virgem Maria foi preparada para esse fim desde a mais tenra idade, por isso, um Grande Avatar como Jesus não poderia ter nascido de qualquer maneira. Os Magos a que a Bíblia se re- fere também não eram simples astrólogos ou filósofos amadores como os que se poderia encontrar entre os pastores dos campos ou dos homens comuns. Eram com efeito mestres eruditos e altos dig- nitários das grandes academias e das escolas místicas do Oriente. O título de Mago só era conferido às pessoas que atingiam os mais altos graus da iniciação nas esco- las de mistérios e que se tivessem revelado mestres completos no domínio das artes e das ciências. Eram místicos altamente evoluí- dos em todos os sentidos. Quando observaram a estrela simbólica, compreenderam logo a importância do seu significa- do, que era natural na sua época. Mas eles não detectaram a estrela a algumas horas antes do acon- tecimento divino, tendo deixado precipitadamente os seus santuá- rios e as suas ocupações para atra- vessar velozmente todos os países que os separavam da Criança Santa. Segundo documentos da épo-

Eram assim a gruta essênia ca, o movimento daquela estrela

muito particular foi observado

estábulo nos seguintes termos: para o nascimento da criança. durante meses antes do nasci-

onde José e Maria se acolheram

o rei dos Judeus que acabou de

nascer? Pois nós vimos a sua es-

a gruta onde Ele nasceu não era uma simples escavação na rocha ou no flanco de uma montanha.

E a história contém inúmeros ca-

sos iguais, um bocado por todo o mundo. E foi assim com Maria, mãe de Jesus, Deus feito Homem. Em geral não se imagina que talvez possa haver uma história muito interessante em relação ao lugar de nascimento da Criança Santa. O endereço exacto deste

lugar é, desde muitos séculos, su- jeito de numerosas controvérsias e

as mais altas autoridades ainda o

discutem actualmente. No Evan- gelho segundo S. Mateus, pode-se

ler que Jesus nasceu numa casa de Belém. Confira-se o texto: «Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, eis que os Magos do Oriente chegaram a Jerusalém e disseram: ‘Onde está

sênios escolheram as suas três grutas por serem espaçosas, bem situadas e bem protegidas de um eventual ataque de surpresa dos Beduínos ou de bandos errantes. Estas grutas situavam-se a uma

o adoraram».

trela no Oriente e viemos adorá- lo…’ Eles entraram em uma casa, viram a pequena criança com Maria, sua mãe, ajoelharam-se e

profundidade variando de seis a dezoito metros e chegava-se às divisões por escadas bem escul- pidas na pedra e bem iluminadas, com boa circulação de ar e com uma temperatura amena, sem ca- lor e também sem frio.

acompanha este texto que declara que Maria e a criança se encontra- vam numa casa. Esta divergência com outras versões passa geral- mente despercebida. O Evangelho segundo S. Lucas afirma clara- mente que a criança nasceu num

rosas em toda a Palestina e nos países vizinhos. Com efeito, nos primeiros tem- pos do cristianismo, quando se quis criar refúgios de protecção, de solidão e de segurança, julgou- se mais vantajoso preparar tais grutas do que construir vastos edifícios abaixo do solo. Os es-

A criança de Maria e José nasceu numa gruta essênia, sobre a gran- de rua, próximo de Belém. Os essênios possuíam casas de acolhimento e hospícios em dife- rentes regiões da Palestina. Três delas estavam devidamente pre- paradas em grutas, que, em geral, eram em parte naturais e no resto terminadas pela mão do homem. Grutas deste género eram nume-

Na Bíblia, nenhum comentário

«E ela deu à luz ao seu primeiro filho. Ela embrulha-o em panos

e o deita numa manjedoura, pois

não havia lugar para eles no alber- gue». Porque é que se considera de maneira quase universal que Jesus nasceu num estábulo, en- quanto existem duas versões di- ferentes sobre o caso? É algo que se explicará em outra ocasião. Mas para simplificar o assunto, pode-se dizer que S. Mateus qua-

se tivera razão quando disse que

Jesus nasceu numa casa, porque

Saliente-se que algumas dessas grutas eram preparadas para ser-

vir como hospitais e recebiam do- entes, feridos e indigentes, como nos hospitais actuais. Havia tam- bém grande preocupação com as mulheres grávidas e com os par- tos e pode-se dizer que algumas dessas grutas eram os protótipos das nossas actuais maternidades. Abre-se aqui um parêntesis para sublinhar que o Mestre Jesus era Filho de Deus e a Sua vinda

era esperada há bastante tempo. Os grandes mestres e os profetas

mento de Jesus. Várias semanas antes do nascimento, observações precisas e metódicas foram leva- das a cabo sobre o movimento da estrela e a hora provável em que manifestaria o seu verdadeiro significado. Foi por estas obser- vações que os representantes da Fraternidade Essênia e da Grande Fraternidade Branca, escolhidos entre os sábios das escolas místi- cas, partiram em viagem para a Palestina semanas antes do acon- tecimento, tendo chegado na hora precisa.

E se Jesus Cristo fosse «mbumbo»?

para enfatizar o domínio de

uns povos sobre outros, como C om esta retórica e aliás ficou demonstrado pela problemática per- Declaração de Paris, publica- gunta, o Semanário da por uma comissão consti- Angolense trouxe tuída por cinco estudiosos de

àestampa um assunto tão an- genética e seis antropólogos tigo, quanto polémico e que pertencentes a seis países dife-

continua a ser um grande tabu. rentes, que concluiu, em 1951, Ao faze-lo às portas vertigino- que nunca existiu tal raça e sas da quadra festiva alusiva muito menos a função de guia ao Natal, o SA abre uma boa da humanidade que lhe era oportunidade e circunstância atribuída.

para os seus leitores meditarem

sobre Cristo, na perspectiva da partida. Em qual dos três con-

vencionais grupos humanos

Na primeira perspectiva, a devemos inserir Jesus Cristo?

da fé, Jesus Cristo é o filho de Caucásica (branca), Mongólica um Deus Omnipotente, Om- (amarela) ou Negróide (negra)? nisciente e Omnipresente, que Bom, usando o critério lógico

é enviado para um mundo de- do «ius solis», faz todo o senti-

vasso e perdido, atolado por do que Jesus Cristo, o Deus que Satanás, com a missão de redi- se fez homem, incorporasse,

mi-lo, vertendo o seu próprio em princípio, os caracteres so- sangue. Nesta honrosa e espi- máticos do povo da região onde nhosa missão, Jesus Cristo ex- nasceu.

perimenta os horrores da mor-

te na cruz e desta forma vence cas dos hipotéticos arianos

a própria morte, garantindo a (nórdicos), tais como olhos

vida eterna a todos que neste azuis e cabelos loiros, não pas-

facto, pela fé, creem - 1 Jo. 4. 14. sam de uma infeliz atribuição Na perspectiva científica católica apostólica romana, podemos reflectir sobre Cris- que conforma um determi- to numa base sociológica, an- nismo racial, através do qual tropológica, psicológica e/ou se pretendeu classificar e por histórica. Achamos pertinente, via disso, subalternizar povos por exemplo, reflectir sobre os e nações, como infelizmente caracteres somáticos de Jesus até aconteceu.

Cristo, o filho de Deus homem,

É importante de facto saber

que viveu na terra, passou vi- quais eram verdadeiramente

cissitudes, foi ultrajado e humi- as características antropoló-

gicas tangíveis de Jesus Cristo

Porque historicamente, se enquanto ser social, cuja pas-

lhado até à morte.

As características somáti-

fé e da cientificidade.

Voltando à pergunta de

João Fernando (*)

o Deus feito homem, segun- sagem efémera revolucionou

do registos da época (há 2000 o modo de vida da humani- anos), nasceu e cresceu entre dade. Mas mais importante os homens, numa região que do que isto, é compreender- hoje responde pela Palestina, mos o objectivo da sua mis-

no Médio Oriente, logicamente são na terra e pela fé aceitá-lo que não faz sentido revesti-lo como único e suficiente Sal- antropologicamente de carac- vador. Feliz Natal! teres que não se enquadram

com a maioria dos habitantes

e povos daquela região. Muito

menos apresentá-lo com carac- terísticas físicas de uma raça inexistente, que no passado foi usada como instrumento para servir a aristocracia contra a democracia – os chamados arianos. Cientificamente chumbada,

a hipotética raça ariana teve por mentor o francês Gabineau (1835-55), que difundiu a dou- trina segundo a qual as mani- festações histórico-sociais do ser humano e os seus valores ou desvalores dependem da raça.

Em verdade e vigor científi- cos tal doutrina serviu apenas

(*) Docente universitário. Etnólogo

dependem da raça. Em verdade e vigor científi- cos tal doutrina serviu apenas (*) Docente universitário.
Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 19 dossier Edmond Szekely afirmou que Jesus Cristo era

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

19

dossier

Edmond Szekely afirmou que Jesus Cristo era essênio e vegetariano

Pesquisador búlgaro excomungado por «trair» confiança do Vaticano

E m 1923, o húngaro Ed- mond Szekely obteve permissão para pesqui- sar os arquivos secretos

do Vaticano. Estava à procura de livros que teriam influenciado São Francisco de Assis. Curio- so e encantado, «vagueou» pelos mais de 40 quilómetros de estan- tes com pergaminhos e papiros milenares. Viu evangelhos nunca publicados e manuscritos origi-

nais de muitos santos e apóstolos, condenados a permanecer escon- didos para sempre. De todas essas raridades, uma obra em especial lhe chamou a atenção. Era o Evangelho Essênio da Paz. O livro teria sido escri- to pelo apóstolo João e narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus Cristo, apresentado ali como o principal líder de uma sei-

ta judaica até então pouco comen-

tada - os essênios. Szekely não

perdeu tempo. Traduziu o texto

e publicou-o em quatro volumes.

Sentindo-se traída pelo pesquisa- dor, a Igreja o excomungou. Não foi uma punição tão grave. Considere o que aconteceu com o reverendo inglês Gideon Ouseley. Em 1880, ele achou um manus- crito chamado O Evangelho dos Doze Santos num monastério budista na Índia. O texto em ara- maico - a língua que Jesus falava

- teria sido levado para o Oriente

por essênios refugiados. Ouseley ficou eufórico e saiu espalhando que tinha descoberto o verdadeiro Novo Testamento. Afirmava que a Bíblia estava in-

correcta, pois Cristo era um essê- nio que defendia a reencarnação e

o vegetarianismo.

Se hoje essa tese soa estranha,

dizer isso na Inglaterra vitoriana do século XIX era blasfémia da pior espécie. Resultado: os con- servadores atearam fogo à casa de

Ouseley e o original foi destruído.

O mistério que envolve esses

dois textos e o tom místico que os descobridores deram aos seus

achados acabaram manchando o seu crédito diante dos historiado- res. Além do mais, teorias exóti-

Jesus nunca faltaram.

cas sobre

Em 1970, o pesquisador inglês John Allegro, que já havia estuda- do os essênios, tentou provar que

Jesus nunca havia existido e que teria sido uma alucinação colec-

havia existido e que teria sido uma alucinação colec- AS CAVERNAS DE QUMRAN , onde foram

AS CAVERNAS DE QUMRAN, onde foram encontrados os mais antigos textos bíblicos de que se tem notícia

tiva causada pela ingestão de co- gumelos. Por motivos óbvios, essa teoria não foi muito bem aceite

pelos seus colegas cientistas. Se- gundo eles, Allegro entendia mais de cogumelos do que de Cristo. Para os historiadores, os essê- nios seriam até hoje uma nota de rodapé na História se, em 1947,

dois pastores beduínos não tives- sem por acidente levado a uma das maiores descobertas arqueo- lógicas do século. Escondidos em cavernas próximas ao Mar Morto, em Israel, 813 manuscritos redigi- dos pelos essênios entre 225 a.C.

E o ano 68 da nossa era guarda-

va as mais antigas cópias do Anti- go Testamento, calendários e tex- tos da Bíblia. Perto das cavernas, em Qumran, estavam as ruínas de um monastério essênio e um cemitério com cerca de 1200 es- queletos, quase todos masculinos.

O achado deu início a um longo

e árduo esforço de tradução dos manuscritos por teólogos e cien- tistas de várias universidades no mundo. Milhares deles estavam em pedaços minúsculos, menores do que uma unha. «Hoje, 90% dos textos já foram transcritos», diz o teólogo Geza Vermes, da Univer- sidade de Oxford, que pesquisa os

manuscritos. O que já é suficiente para moldar uma imagem mais

precisa da história, da doutrina, da crença e dos hábitos essênios, que ficaram séculos a fio esqueci- dos nas ruínas daquele monasté- rio. O surgimento da doutrina es- sênia aconteceu em tempos con- turbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos es- trangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos ba- bilónios, habitantes da actual re- gião do Iraque. Por volta do sécu- lo II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura he-

lenista proliferava e a tradição he- braica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chega- da do Salvador poderia dar-se a

qualquer instante.

seguiam

tão à risca os preceitos religiosos e buscavam a ascese e a pureza com tal fervor que ficavam choca- dos com os hábitos mundanos dos gregos e a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros passe- ando pela cidade e pelos templos. Entre eles estavam os essênios.

Um dia, boa parte deles, liderados por um sacerdote, partiu para o

Os mais ortodoxos

que foi a origem de «bispo». No entanto, apesar das des- cobertas e polêmicas levantadas por Ouseley e Szekely, não há nos manuscritos encontrados nas ca- vernas do Mar Morto uma única menção a Jesus Cristo. É por isso que o maioria dos pesquisadores duvida da teoria de que Jesus te- nha se aproximado dos essênios. «Não existe nenhuma evidência concreta disso”, diz o historiador Nachman Falbel, da Universidade de São Paulo. Para o exegeta Val- mor da Silva, da Pontifícia Uni- versidade Católica de Campinas, Jesus pode ter recebido influência das mais diversas correntes do ju- daísmo, inclusive deles. «Mas não dá para garantir que ele tenha fre- quentado uma de suas comunida- des», defende. Afirmar que Jesus se alimenta- va apenas de vegetais é ainda mais complicado. «Eu duvido muito que Cristo tenha sido vegetariano, pois ele celebrou a Páscoa judaica, que envolve alimentos como ovo, patas de cordeiro e frango», diz Vanderkam. Fernando Travi, líder da pe- quena igreja essênia do Brasil, tem um ponto de vista oposto ao de Vanderkam. «Cristo pregava o amor a todos os seres vivos e não matava animais para aliviar a sua fome», afirma. Assim como ele, os seguidores de Szekely e Ouseley duvidam da veracidade das passagens do Novo Testamento em que Jesus se alimenta de carne. Eles acreditam que essas histórias não passam de invenções criadas pelo apóstolo Paulo, já na segunda metade do século I. A doutrina do vegeta- rianismo não seria bem recebida pelos judeus, acostumados a fazer sacrifícios e a comer carne, e Pau- lo teria modificado os evangelhos para tornar o cristianismo mais popular. Um exemplo dessas alterações estaria na passagem do Novo Tes-

mo sacerdote que teria guiado tamento em que Jesus multiplica

pães e peixes para alimentar uma multidão. O Evangelho dos Doze Santos, encontrado por Ouseley traz uma outra versão desse mi- lagre, na qual os peixes são subs- tituídos por uvas.

os essênios até Qumran. Ele era respeitado e cultuado por todos e logo virou uma entidade mítica. O guardião, por sua vez, presidia as refeições e decidia as questões a respeito da doutrina, justiça e pureza. Essa figura inspirou a formação da palavra grega «epis copus» (aquele que olha de cima),

In Internet

Deserto da Judéia (actual Israel) para orar, meditar e estudar as leis sagradas. Longe, bem longe, de tudo o que eles consideravam impuro. Surgia assim o monasté- rio de Qumran, uma das primei- ras comunidades monásticas do Ocidente. A região escolhida para a cons- trução do monastério é a de me- nor altitude no planeta -400 me- tros abaixo do nível do mar. As chuvas são raras e o mar é tão sal- gado que é impossível mergulhar nele, pois a enorme densidade da água mantém o banhista na su- perfície. Para prosperar, os bens individuais e as tarefas foram di- vididos entre toda a comunidade e regras de disciplina e de hierar- quia foram instituídas. A presen- ça de mulheres em Qumran, por exemplo, era proibida. Transgres- sões eram duramente punidas. A interpretação das leis e profecias cabia ao mestre da justiça, o mes-

20 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

20 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. dossier O dia-a-dia dos essênios É possível conhecer o

dossier

O dia-a-dia dos essênios

É possível conhecer o

dia-a-dia dos essênios a

partir do legado do his-

za do corpo também era sinal de pureza espiritual. Graças a essa organização toda,

fluenciou o baptismo e a confissão dos católicos», diz a historiadora Ruth Lespel, da Universidade de

devastadora investida do exérci- to romano que arrasou a Judeia e destruiu Jerusalém. O ataque

acampamentos romanos e peda- ços de cerâmica com inscrições dos nomes dos zelotes, utilizados

toriador judeu Flávio Jo- Qumran produzia tudo de que São Paulo. Outro ponto em co- era dirigido principalmente aos no dramático sorteio.

sefo (37-100). Aos 16 anos, Josefo recebeu lições de um mestre essê- nio, com quem viveu durante três anos. Os membros da seita acor- davam antes do nascer do sol. Per- maneciam em silêncio e faziam as suas preces até ao momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão

precisava. A dieta era vegetariana. Os essênios tinham um enorme respeito pela natureza. Nenhum homem poderia sujar-se comen- do qualquer criatura viva. A regra permitia uma única excepção. Eles podiam comer peixe, desde que fosse aberto vivo e tivesse o seu sangue retirado. As refeições

de

cada um. Trabalhavam duran-

eram frugais, com legumes, azei-

te

5 horas em actividades como

tonas, figos, tâmaras e, principal-

o

cultivo de vegetais ou o estudo

mente, um tipo muito rústico de

das Escrituras. Terminadas as ta- refas, banhavam-se em água fria

pão, que quase não levava fermen- to. Eles possuíam pomares e hor-

e vestiam túnicas brancas. Co-

miam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas ora- ções recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagra- da, e retornavam ao trabalho até ao pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimónia. Os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Josefo conta que um dos rituais comuns deles consistia em cavar um bura- co de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isola- do dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar. Diferentemente dos demais judeus, a comunidade usava um

calendário solar de 364 dias, ins- pirado no egípcio. O primeiro dia do ano e de cada mês caía sempre numa quarta-feira, porque, de acordo com o Gênesis, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia.

O calendário diferente trouxe vá-

rios problemas para os essênios. Outros judeus poderiam atacar

o monastério no shabbath – o dia

sagrado reservado ao descanso, no qual era proibido qualquer es- forço, inclusive o de se defender. A correcta observação das re- gras garantiria a salvação dos es- sênios quando chegasse o apoca-

lipse, que seria a vitória dos puros «filhos da luz» contra os «filhos das trevas». No mundo essênio, aliás, tudo era dividido segun- do uma visão maniqueísta que tornava possível até mesmo de- terminar quantas porções de luz

e de escuridão cada um possuía.

Um sectário de dedos rechon- chudos, coxas grossas e cheias de pêlos teria oito porções na casa das trevas para uma de claridade. No mesmo manuscrito, um outro membro obteve um placar mais favorável. Por ter olhos negros e brilhantes, voz suave, dentes ali- nhados, dedos longos e canelas li- sas, o seu espírito foi condecorado

com oito partes de luz para uma

de trevas. Para os essênios, a bele-

tos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias resumiam-se ao suco de frutas’ e «vinho novo», um extracto de uva levemente fermentado. No shab- bath, os sectários deveriam passar o dia inteiro em jejum. Os hábitos alimentares frugais e a vida metó- dica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Jo- sefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avan- çada. A água também era canalizada para os banhos rituais, que eles tomavam duas vezes ao dia para se redimir dos pecados e das im- purezas do corpo. O ritual con- sistia em relatar todas as faltas e então submergir. «Essa prática in-

mum entre os essênios e o cato- licismo seria a figura de São João Baptista, o profeta que baptizou Jesus Cristo. O santo promovia baptismos no Rio Jordão numa região próxima a Qumran. A sua postura messiânica era muito próxima à dos essênios. Há quem acredite que, quando foi baptizado, Jesus teria visitado o monastério e sido influenciado pela sua doutrina. Há outras relações entre es- sênios e cristãos. «Existem pas- sagens dos Manuscritos do Mar Morto, aqueles encontrados em 1947 nas cavernas de Qumran, que soam como as do evange- lho cristão», afirma James Van- derkam, da Universidade de No- tre Dame, Estados Unidos. Traços da doutrina dos primeiros segui- dores de Jesus - como o elogio de uma vida humilde, a proibição do divórcio e a invocação a Deus como um pai - têm ressonância na fé de Qumran. «É possível que essênios e cristãos tenham entra- do em contacto», diz o cónego Celso Pedro da Silva, do Mosteiro da Luz, em São Paulo.

O massacre de Massada

No ano de 68, o monastério de Qumran foi aniquilado numa

judeus zelotes, que se insurgi- ram contra o domínio romano. Qumran, que não era nenhuma fortaleza, foi presa fácil para as legiões do César. Mas nem todos os essênios morreram aí. Alguns fugiram para Massada, onde, aí sim, no ano de 73, descobriram o que é um final trágico. O escon- derijo, uma fortaleza zelote ao sul de Qumran, localizada no alto de uma colina, parecia impenetrá- vel. Mas 15 mil romanos fizeram um cerco que durou dois anos e metodicamente construíram uma rampa de terra e areia para alcan- çar o topo da fortaleza. Quando os soldados finalmente invadiram Massada tiveram uma surpresa:

todos os 1000 rebeldes estavam mortos. Num sorteio, os zelotes haviam escolhido um grupo de soldados para assassinar todos os habitan- tes da fortaleza e, em seguida, cometer suicídio. Eles preferiram morrer entre os judeus a se tomar escravos dos romanos. Sobraram para contar a história apenas duas mulheres e cinco crianças, que haviam se escondido nos reser- vatórios de água. O episódio foi relatado por Josefo e provou ser verdadeiro em 1965, quando ar- queólogos pesquisaram a região. Eles acharam as marcas dos oito

Segundo Josefo, os essênios existiam em grande número em diversas cidades da Judeia. Mas algumas variações da seita po- dem ter ocupado regiões ainda mais distantes. Uma comunidade egípcia do século 1, os terapeutas, possuía um modo de vida seme- lhante ao da seita de Qumran e a mesma divisão entre luz e trevas. Também é possível que ebionitas e nazarenos, duas das primeiras seitas cristãs, sejam descendentes dos essênios. Há quem acredite que os naza- renos formaram uma grande co- munidade em Monte Carmel, no norte da Israel atual, que seguia os ensinamentos de Qumran, mas com algumas diferenças. As regras seriam muito próximas da- quelas encontradas nos escritos de Szekely e Ouseley. Ao contrário de Qumran, eles não praticavam o celibato e até mesmo formavam famílias. Fanáticos pelo princí- pio de amar todos os seres vivos, eram muito mais rigorosos em relação ao vegetarianismo: não comiam peixes nem matavam os vegetais para comer (comiam fo- lhas de alface, por exemplo, sem arrancar o pé).

In Internet

alface, por exemplo, sem arrancar o pé). ■ In Internet UM POUCO antes do ataque romano

UM POUCO antes do ataque romano a Qumran, os essênios enterraram seus manuscritos em cavernas

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 21

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

21

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 21 Crise torna nebuloso o legado de Ben Bernanke Jon

Crise torna nebuloso o legado de Ben Bernanke

Jon Hilsenrath The Wall Street Journal

Em uma manhã fria de novembro, numa base militar do Texas, o presidente do Federal Reserve,

o banco central dos Estados

Unidos, Ben Bernanke, saudava os soldados americanos que retor- navam de sua última campanha no Iraque. Mais tarde, Bernanke lhes disse que eles estavam vol- tando para um campo de batalha diferente. “Para muita gente”, disse ele

durante o discurso em Fort Bliss, “eu sei, não parece que a recessão terminou.” Bernanke, de 58 anos ontem, provavelmente está entrando nos estágios finais e mais críticos de sua própria campanha como chefe do banco central. Seu segundo mandato de quatro anos acaba em janeiro de 2014, ou seja, restam apenas dois anos para que ele ter- mine o trabalho. Muitos amigos

e colegas duvidam que Bernanke

vá querer um terceiro mandato. Os republicanos já prometeram aposentá-lo. O candidato a pre- sidente do Partido Republicano, Newt Gingrich, quer demiti-lo. Bernanke, um historiador econô- mico antes de iniciar a carreira pública, está mais preocupado com o legado de longo prazo que

com a legião de críticos. Mas de- pois de dez anos em Washington, seis deles no comando do Fed, seu histórico é heterogêneo e seu legado, incompleto.

O banco central, sob sua lide-

rança, não foi capaz de antever a crise econômica. Quando a crise eclodiu, Bernanke agiu com deci- são para amenizar seu impacto, e pode ter conseguido evitar uma repetição da Grande Depressão. Ele teve um papel central na engenharia do plano de recupera- ção, embora até o momento seus resultados tenham sido decepcio- nantes. Um porta-voz do Fed diz que Ben Bernanke está “apenas focado em fazer o melhor trabalho possível neste momento”. Na reunião de ontem, os repre-

MARK WILSON / PRESS POOL

Na reunião de ontem, os repre- MARK WILSON / PRESS POOL Robert Ben Bernanke aperta a

Robert Ben Bernanke aperta a mão do então presidente George W. Bush, em 2005, ao lado do antecessor, Alan Greenspan

sentantes do Fed optaram por

não anunciar novas medidas, deixando o caminho aberto para 2012. As autoridades monetárias fizeram uma avaliação um pouco mais otimista da economia, em- bora tenham admitido que ainda há riscos. Para o futuro, Bernanke quer deixar a economia americana em uma posição mais sólida, com

desemprego mais baixo e inflação estável, apesar dos perigos no horizonte. Ele também quer transformar o Fed, tornando mais transparente o obscuro processo

de tomada de decisão. Bernanke está lidando com ques- tões econômicas que vão além do controle do banco central, por exemplo, o impasse sobre

a política fiscal no Congresso, o moribundo mercado imobiliário e

a crise da dívida na Europa.

Durante a semana do feriado do Dia de Ação de Graças, Bernanke participou de uma série de reu- niões telefônicas arranjadas às pressas para discutir os proble- mas do mercado financeiro euro- peu com outros líderes de bancos centrais. Os bancos europeus es- tavam com dificuldade para obter

empréstimos de curto prazo em

dólares, por causa da preocupa- ção com sua saúde financeira. No início daquela semana, eles haviam concordado em expandir

o programa do Fed que tornou os

empréstimos em dólares ampla- mente disponíveis internacional- mente via bancos centrais. Em conversas recentes com Mario Draghi, presidente do Banco Cen-

tral Europeu, Bernanke pediu que

o colega italiano responda agres-

sivamente à crise, a mesma men- sagem que passou ao antecessor de Draghi, Jean-Claude Trichet. Bernanke também revisou com Draghi os vários programas ini- ciados pelo Fed durante a crise de 2008, caso os problemas atuais se

intensifiquem.

Nos últimos meses, Bernanke tem enfrentado batalhas fora de seu

controle. Com regularidade, ele solicita ao Congresso, geralmente num tom acadêmico e suave, que adote melhores políticas orça- mentárias, sugestões estas que até agora não levaram a nada. Para lidar com os problemas do setor imobiliário, Bernanke criou uma força-tarefa dentro do Fed. Em setembro, eles demandaram

que os reguladores das agências Fannie Mae e Freddie Mac tentas- sem facilitar os refinanciamentos imobiliários, recomendando medidas que acabaram sendo

adotadas em outubro. Durante a crise financeira e os primeiros estágios da recupera- ção, o Fed comprou mais de US$ 1 trilhão em dívidas de hipote- cas, para reduzir os juros dos financiamentos. Com o mercado

imobiliário ainda fraco, algumas autoridades querem comprar ainda mais. Mas o Fed está dividido. Vários de seus representantes acreditam que não há muito mais o que o banco central possa fazer para

estimular o crescimento. Seus críticos temem a inflação, caso o Fed decida forçar a mão. Parte da estratégia atual do Fed

é revelar suas previsões para o

juros de curto prazo. Algumas autoridades preve- em que se o investidor souber por quanto tempo o Fed espera

manter os juros baixos, as taxas de longo prazo vão cair ainda mais, estimulando investimentos, gastos e contratações.

O Fed tomou uma medida nesse

sentido em agosto, quando disse que não esperava que os juros subissem antes de meados de 2013. As autoridades estão agora buscando uma forma sistemática de sinalizar suas intenções com relação aos juros. Bernanke também está conse- guindo progressos no objetivo que já vem buscando há muito tempo de fazer com que o Fed adote uma meta de inflação for-

mal, ao redor dos 2%. Isso exigiria mais explicações do Fed sobre sua posição em relação ao desempre- go, que estava em 8,6% em novem- bro. A maioria das autoridades acredita que o desemprego pode cair para 5% ou 6%, sem inflação. Muita gente está descontente com

o histórico de Bernanke. Seus crí-

ticos dizem que sua gestão será lembrada por erros estratégicos, como colocar muito dinheiro no sistema antes e depois da crise.

“Nós vamos ter inflação, é só uma questão de tempo”, disse Allan Meltzer, historiador de economia da Faculdade de Adminstração Tepper, da Carnegie Mellon. Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro e um aliado próximo a Bernanke durante a crise, diz que ele assegurou um lugar na histó- ria por ter conseguido evitar uma depressão econômica. Desde que assumiu o comando do Fed em 2006, depois de uma longa e dominante administração de Alan Greenspan, Bernanke tem tentando fazer com que a insti- tuição seja menos dirigida pelo seu presidente e mais por regras

e consenso. A transição tem sido

caótica em alguns momentos , mas Bernanke já deixou claro que vai manter a estratégia. Depois de dez anos no governo, Bernanke sabe que tem potencial

para se tornar muito rico quando sair. Mas os seus amigos dizem que ex-professor de economia não

é parte do cenário de poder social

de Washington. Segundo Paulson, a menos que você vá se sentar ao lado dele em um jogo de beisebol do Washing- ton Nationals, “ele não vai gastar

muito tempo batendo papo.”

sentar ao lado dele em um jogo de beisebol do Washing- ton Nationals, “ele não vai

22 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

22 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. The Wall Street Journal Laços que uniram a Europa

The Wall Street Journal

Laços que uniram a Europa agora estão desaparecendo

Stephen Fidler e David Enrich The Wall Street Journal, de Bruxelas

Uma moeda comum levou os in- vestidores aos confins da Europa, para depois afugentá-los.

A primeira década do euro entrela-

çou os sistemas financeiros do continente como nunca antes. Bancos e fundos de investimen- to de um país que usa o euro se empanturraram de títulos de dívida de outros países da região,

sem se preocupar com possíveis desvalorizações de moedas mais

suscetíveis, como o dracma, a lira,

a peseta e o escudo.

Mas conforme o risco da des- valorização diminuía, outro foi crescendo, quase despercebido pelos investidores: a chance de que os governos, agora sem o apoio de seus bancos centrais, pudessem deixar de pagar suas dívidas.

A primeira pista desse perigo

surgiu com os problemas do orça- mento da Grécia e, à medida que os investidores foram ficando mais cautelosos em relação à Grécia, as preocupações com a dívida se espalharam até colocar em mar- cha a ré o processo histórico de integração financeira da Europa — com consequências que agora se evidenciam. Bancos, seguradoras e fundos de pensão do norte da Europa cor- taram os empréstimos aos países mais vulneráveis para proteger o seu dinheiro. Muitos agora só se sentem confortáveis investindo dentro de casa ou nos mercados mais seguros, como a Alemanha. “Nós estamos vendo a desglobali- zação, a ‘deseurização’ da zona do euro”, disse Andrew Balls, diretor da administradora de carteira europeia da gigante americana de fundos de investimento Pimco. “Os investidores estão se voltando para seus próprios mercados. Eles ainda podem ter títulos de dívida em carteira, mas não da zona do euro em geral como tinham antes.” Se a imprudência fiscal em alguns lugares plantou as sementes da crise do euro, foram as decisões de investimento dentro da zona do euro que a aprofundaram, tornando-a intratável. Depois de bater em retirada, os grandes investidores do norte da Europa provavelmente não vão retornar tão cedo ao mercado de dívida da periferia da zona do euro, dizem participantes do mercado. Carsten Brzeski, um economista do ING Bank, em Ams- terdã, acredita que a propensão de investir no mercado doméstico vai persistir mesmo se os líderes políticos conseguirem encontrar uma solução imediata para a crise. “Investidores não esquecem facil- mente”, disse. “Todo mundo parou de inves-

facil- mente”, disse. “Todo mundo parou de inves- tir em certas partes da zona do euro”,

tir em certas partes da zona do euro”, disse Philippe Delienne, presidente e diretor-presidente da Convictions Asset Management, em Paris, que tem 776 milhões de euros em ativos sob gestão. Ele acrescentou, referindo-se aos

títulos de dívida soberana da Ale- manha: “Você não pode mais dizer

que a Itália é como o ‘bund’ [

Para nos proteger, estamos agora comprando ‘bunds’.” Para as nações muito endividadas que precisam emitir dívida para

quitar as que estão vencendo, a maré de baixa é presságio de uma longa batalha.

A escala da mudança sugere que a

zona do euro não está meramente

sofrendo uma crise de confiança de curto prazo mas que a tábua de salvação de alguns governos está se encurtando, e talvez fique pe- quena por muitos anos, deixando alguns países expostos e em risco de colapso financeiro. Na pior das hipóteses, o aperto poderia dar início a uma onda de moratórias que ameaçaria aleijar

o sistema bancário europeu,

provocando um profundo processo de recessão. Um resultado poderia ser a saída de um ou mais países da união monetária, ou mesmo a sua desintegração.

Esse recuo dos investidores não deu sinal de reversão depois da recente reunião de cúpula dos lí- deres europeus, que não produziu medidas que parececem capazes de resolver a crise.

A primeira década do euro foi

muito diferente. A moeda foi introduzida em 1999. Os investido- res — não mais preocupados com as desvalorizações cambiais — passaram a ver os títulos de dívida das economias mediterrâneas

]

como substitutos próximos para aqueles da Alemanha ou de outras economias sólidas, e se deixaram seduzir pelos retornos ligeiramen- te mais altos. Outra atrativo era que os fundos de pensão preferiam que seus investimentos estivessem denomi- nados na mesma moeda que suas obrigações, o euro. Incentivos regulatórios também contribuíram. O Banco Central Eu- ropeu permite que qualquer banco

da região deposite títulos de dívi- da soberana em troca de emprés- timos de curto prazo, dentro dos chamados acordo de recompra, ou

“repos”. Isso era rentável para os bancos, uma vez que o rendimento dos títulos excedia o custos dos empréstimos, e inicialmente foi um incentivo para a compra de títulos da zona do euro. As operações monetárias do ECB contribuíram para facilitar a tomada de empréstimos muito baratos pelas nações mais fracas.

E as operações estimularam a

visão de que nunca seria permitida

a quebra de um credor soberano

da zona do euro, dizem Simon Johnson, um ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internatio- nal, e Peter Boone, em um trabalho escrito para o Instituto Peterson para Economia Internacional. Como o risco de moratória era vis- to como zero, os bancos europeus não tinham que fazer reservas de capital contra os títulos sobera- nos da zona do euro que tinham

em carteira. Isso dava aos bancos uma razão a mais para comprá-los, especialmente depois que a crise financeira de 2008 corroeu os col- chões de proteção dos bancos. Um raro dissidente do clamor para investir nesses títulos de dívida foi

o fundo de pensão da Heineken NV.

Logo no começo de 2005, o fundo de desfez de dezenas de milhões de euros em títulos de governos menos sólidos. “A diferença de

rendimento [

comparada ao risco envolvido que nós decidimos vender tudo ao redor do Mediterrâneo e investir apenas em dívida soberana da Holanda e da Alemanha”, disse

Frank de Waardt, diretor-gerente do fundo de 2,2 bilhões de euros. “Nós vendemos Grécia, Itália, França e Portugal. Nós vendemos até Finlândia”, disse ele.

O desempenho do fundo foi pior

que o de seus pares, já que vários mergulharam em títulos de dívida de nações da periferia. Na Grécia, onde no passado a maioria da dívida emitida pelo go- verno estava nas mãos dos gregos, estrangeiros chegaram a ter 55% dela em 2003. No terceiro trimes- tre de 2009, a fatia chegou a 76%. Isso foi apenas semanas antes do

novo governo grego tornar público que o déficit orçamentário do país

era muito maior do que se acre- ditava. A crença de que os títulos soberanos da zona do euro eram quase intercambiáveis e que ne- nhum país entraria em moratória começou a ruir. Primeiro, a Grécia foi forçada a passar o chapéu para o FMI e para outras zonas do euro. Depois, a Alemanha deixou claro que não pretendia financiar indefinida- mente as dívidas daqueles países que considerava esbanjadores. As preocupações dos alemães se cristalizaram em regras da zona do euro. Em outubro de 2010, no resort francês de Deauville, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presi-

]

era tão pequena

dente francês, Nicolas Sarkozy, chegaram a um acordo de que qualquer resgate após 2013 neces- sitaria do envolvimento do setor privado, que precisaria aceitar uma redução no valor dos títulos soberanos em seu poder. Essa possibilidade levou os in- vestidores a correr de um grande número de governos, provocando um salto nos custos de captação que, em alguns casos, foi contido por compras de títulos de dívida pelo BCE. Desde então, a fatia de dívida soberana grega em poder de inves-

tidores estrangeiros caiu acentua- damente para bem abaixo dos 50%. Dados da agência Fitch Ratings mostram que os estrangeiros re- duziram sua exposição ao mercado de títulos soberanos das nações mais fracas da zona do euro, deixando os papéis nas mãos de investidores domésticos.

E não foi apenas no mercado de

dívida soberana que a integração financeira da Europa recuou. Ativos de diversas categorias,

incluindo dívida de emrpesas, em Chipre, Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha em poder dos bancos da zona do euro chegaram

a US$ 1,9 trilhão em 2007, seis

vezes mais que em 2001, mas des-

pencaram 44% , até 30 de junho, de acordo com o Barclays Capital. O Barclays fez os cálculos com base em dados do Banco Internacional de Compensações, o BIS.

O banco português BPI SA já foi

um ávido comprador de títulos so- beranos de outros países da zona do euro no passado. Em setem- bro, tinha cortado seu portfólio em cerca de 30%, de acordo com informes obrigatórios do banco às autoridades do mercado.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 23 The Wall Street Journal Agora, “nós provavelmente vamos

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

23

The Wall Street Journal

Agora, “nós provavelmente vamos investir em títulos alemães ou algo similar”, disse Fernando Ulrich, presi- dente do conselho do comitê executivo. Rebaixamentos pelas agências de crédito também detiveram os investidores, alguns dos quais têm limites em relação à quantidade de papéis de baixa classificação que podem ter em carteira.

Os títulos de dívida italianos por muito tempo se manti- veram estáveis. Os bancos franceses estavam comprando esses papéis no início do ano

e tinham 9% mais em meados

de 2011 que no fim de 2010, de acordo com dos dados do BIS. Mas a estabilidade não durou.

O mercado italiano se tornou

volátil em julho e agosto, depois de desentendimentos entre o então primeiro-mi- nistro Silvio Berlusconi e seu ministro da Fazenda, Giulio Tremonti, em relação a uma série de assuntos. Um divisor de águas para os investimentos na zona do euro ocorreu em julho. Líderes europeus, em negociação para expandir o resgate grego, con- firmaram que os investidores dos títulos de dívida do país teriam perdas. “Foi um chamado de alerta para o setor”, disse o execu- tivo de um importante banco francês, que logo começou a

se desfazer de seus títulos so- beranos italianos. O Deutsche Bank AG informou que reduziu significamente sua “exposição líquida” à Itália, vendendo títulos e comprando proteção para calotes. Medidas tomadas pelas autoridades europeias este trimestre também podem ter exacerbado os desinvestimen- tos entre países. Novas regras para garantir que os bancos da região poderiam aguentar ma- rés baixas podem tê-los levado

a se desfazerem de dívida mais arrsicada.

O Fundo de Pensão da Indús-

tria de Transportes da Holan- da vendeu divida grega no ano passado, e depois espanhola e, então, títulos de curto prazo da Itália, segundo seu diretor de investimentos, Patrick Groenendijk. Ele ainda detém alguns títulos italianos de longo prazo. Quando indagado se poderia voltar a investir no mercado

italiano, Groenendijk foi curto

e grosso: “Se você quer uma

resposta honesta, quando eles tiverem sua própria moeda”, disse ele.

(Colaboraram Brian Blacks- tone, Tom Lauricella, William Horobin e Laura Stevens.)

Rumo da China determina o destino

Liam Pleven The Wall Street Journal

Você quer saber para onde os mer- cados de commodities irão nos próximos anos? Então, é melhor que você tenha em mente uma palavra: China. Como a maior e uma das econo- mias que mais crescem entre as emergentes, a China se tornou uma voraz consumidora de com- modities industriais e agrícolas.

As mudanças em sua demanda são

hoje o principal motor dos preços de vários produtos. Os produtores costumam tomar decisões sobre

grandes investimentos com base na expectativa da demanda da China por seus produtos. Investi- dores fazem cálculos semelhantes para vender ou comprar contratos de commodities ou relacionados

a elas.

É por isso que nenhum outro fator,

provavelmente, terá um impacto mais abrangente sobre o mercado de commodities nos próximos anos que as transformações da economia chinesa, conforme a

evolução econômica do país. “Essa

é a grande questão”, diz Richard

do país. “Essa é a grande questão”, diz Richard Adkerson, diretor-presidente da Freeport-McMoRan Cooper

Adkerson, diretor-presidente da Freeport-McMoRan Cooper & Gold Inc. Se o consumo chinês de commodi- ties continuar crescendo no ritmo

do paládio, poderiam se tornar vulneráveis a fortes altas. Muitos analistas consideram o cenário de forte expansão como

materiais. A demanda de carvão também poderia despencar, diz ela, porque ele é muito utilizado na China para gerar energia.

rada que seria provocada por uma economia ardente. “Nós ainda vemos uma série de razões pelas quais o crescimento

dos últimos dez anos, isto é o que

improvável. O consenso é que a

Algumas commodities poderiam

deve continuar, mas com o tempo

o

mundo deveria fazer para aten-

China está caminhando para um

sofrer não porque a China as

a taxa de expansão vai se desace-

der à demanda em 2020 (conside-

crescimento econômico mais lento

utiliza mais que qualquer um, mas

lerar”, diz Jim Lennon, analista

rando que o apetite coletivo global não mudasse em nada):

que o visto entre 2001 e 2010, quando a taxa anual de expansão

porque o país tem sido o grande responsável pelo crescimento de

especializado no mercado chinês de commodities, do Macquarie

-

Extrair adicionalmente quase

variou entre 8,3% a 14,2% e alcan-

seus mercados. Por exemplo, em-

Group Ltd, uma das principais

o

mesmo volume de petróleo

çou dois dígitos em seis ocasiões,

bora a China responda por apenas

referências para os produtores de

ofertado atualmente pela Arábia

de acordo com o Banco Mundial.

cerca de 11% da demanda global

commodities.

Saudita;

Se o consenso estiver correto, a

de petróleo, de acordo com o Bar-

Mesmo em um momento mais

-

Produzir três vezes o volume

questão é em quanto o crescimen-

clays Capital, o país é responsável

lento, mas estável, a deman-

de soja que hoje sai do Estado americano de Iowa, que sozinho

to da China vai cair. Uma taxa de crescimento de 4% a

por 60% do crescimento dessa demanda.

da — e os preços — de algumas commodities podem dar saltos.

é

responsável por 5% da produção

6% seria de ótimo tamanho para

Da mesma forma, uma freada

Por exemplo, a China usa menos

mundial;

o

Brasil e outras economias. Mas

brusca poderia ser mais danosa

gás natural per capita que muitos

-

Retirar das minas quase três

não para a China. Essa é a faixa

para o mercado de soja que o

outros países, diz Neil Beveridge,

vezes mais a produção anual de

de expansão projetada para a

de milho porque a China é um

um analista sênior do banco de

cobre do Chile, que já produz cerca

economia chinesa para ao redor

grande importador de soja, mas

investimento Sanford C. Berns-

de quatro vezes mais que qualquer outro país.

de 2013 ou 2014 pela Roubini Global Economics LLC, empresa

produz quase todo o milho que consome, diz Kevin Norrish,

tein, em Hong Kong. Isso vai mudar, diz ele, à medida que mais

E

isso seria só para começar. Gran-

de consultoria e pesquisa sediada

diretor-gerente da área de pes-

pessoas usarem o combustível

des quantidades de suprimento seriam necessárias também para várias commodities. Os preços que dispararam para

valores recordes nos últimos anos, puxados pela demanda chinesa, poderiam voar até mais alto. Seria uma boa notícia para empresas que produzem essas commodi-

em Nova York. Shelley Goldberg, diretora de estratégia global para commodities e recursos natu- rais, considera isso uma “freada brusca”, ou “hard landing”, depois de uma expansão bem mais veloz na década passada. “Obviamente, não é um bom presságio para as commodities”, diz Goldberg.

quisa de commodities do Barclays Capital. A China já se tornou o principal destino das exportações brasi- leiras, e a soja é a segunda maior exportação para o país, atrás de minério de ferro, segundo o Mi- nistério do Desenvolvimento. Para muitos observadores da Chi-

para aquecer ou refrescar suas casas e volumes maiores sejam consumidos pela indústria. Ao mesmo tempo, a demanda por algumas commodities agrícolas deve crescer, mas pode diminuir por outras, diz Scott Rozelle, professor da Universidade de Stanford, que estuda agricultura

ties e para os investidores que

A

demanda por aço, cobre e outros

na, incluindo o Barclays, o mais

chinesa.

apostaram nelas — a menos que os preços altos, abruptamente reprimam a demanda ou estimu- lem os chineses e outros consumi- dores de commodities a buscarem produtos alternativos. Produtos que têm estoques aper- tados ou risco de restrições, como

metais industriais poderia enco- lher bastante se a China, de fato, estagnar, já que esses materias são muito na construção civil — que estaria em risco, no caso de um desaquecimento do mercado imobiliário chinês. A China nor- malmente responde por cerca de

provável é um cenário em que a economia continue se expandin- do fortemente, mas num ritmo menos acelerado. Isso se tradu- ziria em uma contínua pressão de alta para os preços da maioria das commodities, com algumas subindo bastante, mas na maioria

Afinal, a China é um mercado tão grande que qualquer aumento em consumo — mesmo uma expan- são econômica lenta, mas estável — cria um grande volume de demanda fresca e proporcional- mente estimula dos preços. Como diz Goldberg: “Eles ainda são 1,3

é

o caso do petróleo, do cobre e

40% da demanda global por esses

dos casos não atingindo a dispa-

bilhão de pessoas”.

24 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

24 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. The Wall Street Journal Superavião de Paul Allen lançará

The Wall Street Journal

Superavião de Paul Allen lançará satélites no espaço

Andy Pasztor e Dionne Searcey The Wall Street Journal

O cofundador da Microsoft Corp.

Paul Allen anunciou que vai gastar US$ 200 milhões ou mais de sua fortuna pessoal para construir o maior avião do mundo, que ser- virá como plataforma móvel para lançar satélites a baixo custo, algo que ele acredita que pode trans- formar a indústria espacial. Anunciado na terça-feira, o novo projeto concebido pelo famoso

projetista aeroespacial Burt Rutan procura combinar motores, trens de pouso e outras peças retiradas de velhos jatos Boeing 747 com uma aeronave recém-criada por Rutan, feita de materiais com- pósitos e um poderoso foguete a ser construído por uma empresa de propriedade do bilionário da internet e pioneiro da exploração espacial comercial Elon Musk.

O empreendimento, batizado de

Stratolaunch Systems e financiado por uma das entidades de capital fechado de Allen, procura fundir tecnologia aeronáutica com déca- das de existência com projetos de ponta para foguetes propulsores, resultando em um híbrido que ofereceria o primeiro sistema de

transporte espacial totalmente financiado com capital privado.

O objetivo final — buscado há dé-

cadas, sem sucesso, por cientistas

— buscado há dé- cadas, sem sucesso, por cientistas espaciais — é construir uma op- ção

espaciais — é construir uma op- ção confiável e flexível para lança- mentos a partir de uma aeronave, capaz de lançar satélites pesados como picapes em uma órbita baixa ao redor da Terra. Allen e sua equipe esperam poder

oferecem custos de lançamento bem mais baixos do que os atuais, que podem variar de US$ 30 mi- lhões a mais de US$ 200 milhões, dependendo do peso da carga e da altura da órbita. Allen disse que a Vulcan Inc., sua empresa de investimentos sediada em Seattle, no Estado de Washing- ton, não estaria disposta a um compromisso financeiro tão alto

“se nós não acreditassemos que teremos muitos clientes”.

O conceito quase parece ficção

científica. A base é uma gigantes- ca nave-mãe com duas estreitas fuselagens gêmeas, com seis mo- tores 747 da Boeing Co. acoplados

a uma envergadura recorde de

385 pés, ou 117 metros, mais um

pequeno compartimento para um foguete aninhado em baixo. O conjunto, que deve pesar cerca de

540 toneladas, teria peso mais ou

menos igual ao peso máximo de decolagem do maior superjumbo Airbus A380 totalmente carrega-

do, mas a envergadura das asas teria quase 40 metros a mais que a do Airbus A380. Voando a cerca de 10.000 metros de altitude, a embarcação lançaria

o foguete, que então usaria um

conjunto de quatro ou cinco

motores para impulsionar-se até a órbita desejada.

O enorme tamanho do conjun-

to apresenta sérios desafios de engenharia e produção. Embora há muito tempo os cientistas estudem os princípios do lança- mento de foguetes a partir do ar — Rutan se lembra que começou os trabalhos preliminares do projeto ainda em 1991 — a Stratolaunch ainda não definiu detalhes críticos do projeto. Ao contrário dos foguetes conven- cionais, que partem de uma plata- forma de lançamento, os sistemas de lançamento aéreo, semelhan-

tes ao que Allen quer criar, são projetados para lançar no espaço uma grande variedade de satéli-

tes, sem as limitações de clima ou de escolha de melhores horários

e locais para tentar atingir uma

determinada órbita.

Assim, o lema do projeto é “qual- quer órbita, a qualquer momento”,

e um grande argumento de venda

é que a nave-mãe pode percorrer

mais de 2.100 quilômetros sem re- abastecer, para procurar um local adequado para lançamento. Os custos devem ficar sob contro- le, em parte pela reciclagem de tecnologias aeronáuticas dos anos 1960 e em parte pela distribuição

dos custos de desenvolvimento e

operação dos foguetes por diver-

sas missões comerciais, militares

e civis.

Várias versões do foguete propos-

to, com diferentes tamanhos, já fizeram voos de teste e estão em desenvolvimento pela equipe de Musk para lançamentos governa- mentais e comerciais. Se tudo correr bem, os dirigentes da Stratolaunch preveem que os voos de teste do veículo espacial híbrido poderiam começar em cin-

co anos, e as operações comerciais no final da década.

O objetivo final é estimular o

voo espacial humano, embora os responsáveis pela empresa reco-

nheçam que os trabalhos estão em estágio inicial.

A Scaled Composites LLC, em-

presa de Mojave, Califórnia, que Rutan fundou e vendeu para a Northrop Grumman Corp. anos

atrás, deve construir a estrutura de compósito. Rutan se aposentou há alguns meses, mas concordou em participar do conselho da nova

empresa.

Desde que deixou a Microsoft em 1983, Allen participou de vários negócios. Ele é dono de um time de futebol americano e outro de bas- quete. O empreendedor também perdeu US$ 8 bilhões que havia investido na Charter Communica- tions, quando a empresa america- na de cabo entrou em condordata em 2009.

Empresas enfrentam desafios para usar o Twitter

Elizabeth Holmes The Wall Street Journal

Quem haveria de pensar que digitar mensagens tão curtas poderia ser tão complicado? Nestas alturas, até as empresas mais conserva-

doras já encontraram o caminho para o Twitter.

O serviço, que permite ao usuário enviar textos

de 140 caracteres, ou tweets, para as pessoas que se inscreveram para segui-los, já se revelou um meio eficaz para atingir os clientes mais

jovens e ajudar na construção da marca. Mas há o outro lado. O site, que já tem quase seis anos de existência, tornou-se um veículo extre- mamente público para reclamações, e tweets mal pensados, ou contas invadidas por hackers

já causaram muitos embaraços.

Em março a montadora Chrysler Group LLP cortou os laços com a agência que tinha sua conta no Twitter depois que esta enviou um

tweet onde se lia: “Acho irônico que Detroit seja conhecida como #motorcity, mas ninguém aqui sabe dirigir p. nenhuma”.

A Kenneth Cole Productions Inc. pediu descul-

pas depois de fazer uma piada em sua página do Twitter sugerindo que os manifestantes egípcios que derrubaram o governo do país no início do ano estavam, na verdade, suplicando pelas roupas da empresa. “Milhões estão em re- volução no #Cairo. O boato é que eles souberam que nossa nova coleção de primavera já está on-line”, dizia o tweet. Na semana passada, a American Airlines, da

AMR Corp., se viu no meio de uma discussão pública quando o ator Alec Baldwin desabafou

no Twitter por ter sido retirado de um voo da empresa. “A comissária de bordo da American me chutou para fora por jogar WORDS W FRIENDS”, disse Baldwin no tweet, referindo-se a um jogo para celular tipo palavras cruzadas.

A American respondeu via Twitter pedindo seu

contato. No dia seguinte, a American mandou este tweet: “Fatos sobre o passageiro retirado ontem”, com um link para um comunicado que dava um relato bem menos lisonjeiro do com- portamento do passageiro, sem mencionar o nome de Baldwin. O ator desativou sua conta no Twitter após o incidente e pediu desculpas aos demais passageiros do voo. As empresas estão adotando diversas estraté- gias para evitar as armadilhas do Twitter. Um dos maiores dilemas é para quantos funcio- nários confiar a conta da empresa. Se houver poucas pessoas com autoridade para postar tweets, a carga pode ser esmagadora. Se houver

muitas, o risco de acidentes se multiplica. Eis aqui como duas empresas muito diferentes lidam com a tarefa:

Southwest Airlines Cerca de 10 pessoas trabalham com a conta da Southwest, respondendo a perguntas sobre bagagens extraviadas, voos atrasados e cupons perdidos.

A Southwest abriu a sua conta, @SouthwestAir,

em 2007, inicialmente sob a supervisão do

departamento de publicidade, mas depois a pas- sou para o departamento de relações públicas, sob o comando da especialista em redes sociais Christi McNeill. McNeill logo viu que não tinha conhecimento ou autoridade suficientes para responder a alguns tweets.

Este ano o departamento de comunicações uniu-se à equipe de relações com o cliente para recrutar e treinar empregados para responder

a perguntas no Twitter. Pelo menos uma pessoa

de cada divisão monitora a conta, das 5 da manhã às 11 da noite, hora da região central dos Estados Unidos, cobrindo os horários de voos da Southwest. Best Buy

A grande varejista americana de eletrônicos

empregou um exército de colaboradores para lidar com suas várias contas no Twitter. A prin- cipal, @BestBuy, envia seus próprios tweets, mas também incorpora alguns de contas mais especializados, como a de promoções @Best- Buy_Deals e a de tecnologia @GeekSquad.

O braço do Twitter do departamento de aten-

dimento ao cliente da BestBuy, com o nome de perfil @Twelpforce, exemplifica a estratégia da empresa em relação à rede social: agir com força total. Os tweets dirigidos ao atendimento ao cliente são respondidos por um dos 3.000 funcionários que se inscreveram para a tarefa desde que o serviço foi lançado, há dois anos, diz Gina De- bogovich, supervisora das atividades de redes

sociais da empresa. Deixar que um grande número de funcionários participem possibilita à empresa cobrir muitas áreas de especialização, diz Debogovich. Em geral, as perguntas são sobre algum produto em que o cliente está interessado em comprar. “Muitas vezes não existe uma única resposta certa”, diz ela. Para fazer parte da @Twelpforce e outras ações de mídia social, a Best Buy exige que os funcionários se inscrevam através de um site que verifica sua situação na empresa e estabe- lece termos e condições. A empresa apresenta aos candidatos um vídeo interno e a sua política para redes sociais, e proíbe coisas como divul- gar dados financeiros não públicos e informa- ções pessoais dos clientes, explicando o que ela chama de diretrizes de utilização saudável para os participantes da @Twelpforce. “Lembre- se, sua responsabilidade para com a Best Buy não termina no fim do expediente,” dizem as diretrizes.

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Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 25 especial Cesária Cesária Évora sepultada terça-feira, em Mindelo

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

25

especial Cesária

Cesária Évora sepultada terça-feira, em Mindelo (Cabo Verde)

Ela foi-se mas fica a sua música!

Levou a morna, o sorriso e o calor de Mindelo, sua ilha natal, cujo marulhar era sua fonte de inspiração, para os quatro cantos do planeta. Terça-feira, 20, a nação cabo-verdiana curvou-se, de pés descalços, perante a sua maior Diva

C esária Évora, canto- ra cabo-verdiana, que morreu sábado último, ao 70 anos, no Hospi-

que morreu sábado último, ao 70 anos, no Hospi- a aclamavam já como «rainha da morna».

a aclamavam já como «rainha da morna». A independência de Cabo Verde, em 1975, coinci- de com o início de um «período negro» da cantora, que deixa de cantar, por ter problemas com o álcool e trabalha noutra área. Em 1985, a convite de Bana, proprietário de um restaurante

vivo em Lisboa, «Cize» vai à ca- pital lusitana e grava um disco

que passa despercebido à crítica, seguindo depois para Paris onde é «descoberta» e dali, como acon- teceu com outros cantores, partiu para os palcos do mundo. Em 1988, grava «La diva aux

music contemporânea, pelo disco «Voz d’Amor». «Cize» não pára e continua em sucessivasdigres- sões, regressando de quando em vez à sua terra natal. «Eu preciso dequando vez da minha da terra, do povo que sou e deste marulhar das ondas», confidenciou certa vez à Lusa. A cantora começou

saúde e alguns «sustos», como afirmava, mas regressava sempre aos palcos eaos estúdios com ale- gria. Em 2009, o Presidente francês Nicolas Sarkozy outorgou-lhe a medalha da Legião de Honra, de- pois de uma intervenção cirúrgica

O abandono

É vora, de 70 anos e cantora de fama in- po», disse Évora ao jornal francês Le Monde, ao

ternacional, abandonou definitivamen- anunciar o fim da sua carreira, no dia 23de Ou-

te os palcos há três meses por problemas tubro de 2011. Esta ex-cantora de bares na cida-

de saúde. A cantora sofria há vários anos de de Mindelo, na ilha de São Vicente, tornou-se

de diversos problemas e chegou a ser submetida subitamente uma celebridade mundial com o seu a sérias operações, incluindo uma cirurgia car- terceiro disco, Miss Perfumado, em 1992, e pou- díaca em Maio de 2010. «Não tenho forças, não co depois realizou dois shows triunfais em Paris. tenho energia. Gostaria que dissessem aos meus Embora o sucesso tenha chegado tarde para esta admiradores: sinto muito, mas agora preciso des- artista, que, na época, já tinha mais de 50 anos, cansar. Lamento infinitamente ter que me ausen- ele nunca parou de crescer. Depois de se retirar tar devido à doença, gostaria de dar ainda mais dos palcos, Évora comemorou com simplicidade

prazer aos que me seguiram durante tanto tem- os seus 70 anos no dia 27de Agosto de 2011.

um comunicado confirmando as declarações da «diva dos pés des- calços» e dando conta da tristeza que sentia por ter de o fazer. Nesse mesmo dia, ao princípio da tarde, a cantora é internada no hospital parisiense de Pitie- Salpetriere, por ter sofrido mais um acidente vascular cerebral (AVC). A Tumbao emitiu nes- se mesmo dia um comunicado, dando conta de que o diagnóstico clínico da mais internacional ar- tista cabo-verdiana era «reserva- do». Aos 70 anos, completados no passado 27de Agosto, e após uma curta visita a Lisboa, onde pediu para passear a pé pelo bairro de São Bento, Cesária Évora mor- reu em Cabo Verde. Ao longo da sua carreira, além das inúmeras digressões e actuações em televi- sões, gravou 24 álbuns, um DVD, «Live in Paris», e registou dezenas de colaborações em discos de ter- ceiros.

tal Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente (Cabo Verde) por «insuficiência cardio-respiratória aguda e tensão cardíaca elevada», foi a enterrar, terça-feira, 20, às 17 horas locais (18h em Luanda) no cemitério da sua ilha natal. Por toda a manhã de terça-feira, o corpo daquela que era apelidada de «diva dos pés descalços» per- maneceu na residência familiar de Mindelo, antes de ser levado ao cemitério onde repousam agora os seus restos mortais. Até terça-feira (altura do fecho da presente edição), as bandeiras estiveram a meia haste nos pré- dios públicos das nove ilhas ha- bitadas do arquipélago de Cabo Verde, localizado no Atlântico, a 500 km a oeste da capital do Sene- gal, Dakar. O governo cabo-ver- diano decretou, sábado último, luto nacional de 48 horas, depois da morte da cantora. O presidente da República, Jorge Carlos Fon- seca, disse que ela era «uma das maiores referências da cultura de Cabo Verde». A «diva dos pés descalços», como a imprensa internacional se referiu muitas vezes a Cesária Évora, nasceu há 70 anos na ci- dade do Mindelo, na ilha cabo- verdiana de S. Vicente, no seio de

uma família de músicos. Numa e uma discoteca com música ao music», fazendo parcerias com a enfrentar vários problemas de A sua promotora, Tumbao, emite

das muitas entrevistas que con- cedeu, certa vez afirmou: «Tudo

à minha volta era música». O pai,

importantes músicos e pisando os mais prestigiadospalcos. Uma carreira internacional que passou várias vezes por palcos portugue- ses cujas salas esgotavam para ou- vir, entre outros êxitos, «Sôdade». Em 2004, recebeu um Grammy para o Melhor Álbum de world-

que a levou a temer pela vida. Ce- sária voltou aos estúdios e anun- ciou não só uma digressão, como a gravação de um novo disco, que deveria sair no próximo ano. No dia 24 de Setembro, numa entrevista ao Le Monde, a canto- ra afirmou que tem de terminar a carreira por conselho médico.

pied nus», álbum aclamado pela crítica. Nesta fase da sua carreira, tem um papel fundamental, que se manteve até ao final, o empre- sário francês José da Silva. Em 1992, Cesária Évora gra- vou «Miss Perfumado» e aos47 anos torna-se uma «estrela» in- ternacional no mundo da «world

Justiniano da Cruz, tocava cava- quinho, violão e violino, instru- mentos que se tornaram caracte- rísticos daquelas ilhas; o irmão, Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza. «Cize» - como era carinhosa- mente tratada pelos amigos - tor- nou-se no nome mais internacio- nal de Cabo Verde, país donde o mundo conhecia já grandes mú- sicos, como Luís Moraes e Bana. Desde cedo que Cesária Évora se lembrava de cantar, como referiu numa das muitas entrevistas que deu: «Cantava ao ar livre, nas pra- ças da cidade, para afastar coisas tristes». Aos 16 anos, canta nos bares da

cidade e nos hotéis, começando

a ganhar uma legião de fãs que

26 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

26 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. especial Cesária Reacções à morte da diva Barroso e

especial Cesária

Reacções à morte da diva

Barroso e Coelho consternados

O presidente da Comissão Eu-

ropeia enviou uma mensagem

de condolências ao Presidente

da República, Jorge Fonseca,

e ao primeiro-ministro de Cabo Verde,

José Maria Neves, a lamentar o desapare- cimento de Cesária Évora, destacando o reconhecimento que a cantora «granjeou pelo mundo fora». «Com Cesária Évora de- saparece umaintérprete excepcional e sin- gular que encurtou «esse caminho longe» de Cabo-Verde até ao resto do mundo e do resto do mundo até Cabo-Verde», escreve Durão Barroso, na mensagem a que a Lusa teve acesso. De acordo com o presidente do executivo comunitário, «o reconhecimento que Cesária Évora granjeou pelo mundo fora é também um tributo directo a Cabo-

Verde, às suas gentes e às suas tradições o que muito orgulha todos os amigos do país e os admiradores da sua cultura». Quem também manifestou o seu pesar foi o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, salientando que tanto Cabo Verde como Portugal choram o falecimen-

to desta «excepcional» interprete. «Foi com

profunda consternação que tomei conhe- cimento do falecimento de Cesária Évora. Dirijo antes de mais uma palavra de con- dolências e profundo pesar à sua família e amigos próximos, bem como ao Governo e

à sua família e amigos próximos, bem como ao Governo e povo cabo-verdianos», refere Pedro Passos
à sua família e amigos próximos, bem como ao Governo e povo cabo-verdianos», refere Pedro Passos

povo cabo-verdianos», refere Pedro Passos Coelho. Segundo o primeiro-ministro por- tuguês, «não é apenas Cabo Verde que cho- ra o desaparecimento de Cesária, Portugal chora também com Cabo Verde». «Cesária foi uma artífice ímpar e uma intérprete excepcional das mais belas expressões da música cabo-verdiana. Com Cesária, a sau- dade (sôdade) ganhou uma nova profundi- dade enraizada nas mais belas prosas musi- cais que o mundo de expressão crioula e de

raiz lusófona jamais conheceu», sustenta o líder do Executivo português. Na perspec- tiva de Pedro Passos Coelho, Cesária Évo- ra, «foi também uma pessoa de bondade contagiante, que tocou corações e motivou tantos quantos tiveram a oportunidade de

a conhecer mais de perto». «Presto home-

nagem a esta grande artista que levou a morna e Cabo Verde aos mais recônditos lugares do planeta. Grande amiga de Por- tugal, Cesária, conhecida como ‘Rainha

da Morna’, ficará nos nossos corações para sempre também como uma diva mundial, que deixa uma infinidade de admiradores

e seguidores um pouco por todo o mundo.

É também a World Music, cujo mais alto

galardão recebeu em 2004, que fica mais pobre. O mundo acordou hoje (sábado) um pouco mais pobre», refere o primeiro-mi- nistro luso na sua mensagem.

Tristeza a rodos

F iguras políticas e do mundo da cultura de vários quadrantes associaram-se à tristeza causada pela morte da «diva dos pés des-

calços», ocorrida sábado na sua terra natal. Entre elas, seleccionamos as seguintes:

Basílio Ramos – A Assembleia Nacio- nal cabo-verdiana também expressou as condolências: «A diva dos pés nus morreu, mergulhando o país numa profunda dor, pois a perda é irreparável. Cabo Verde fica mais pobre com o desaparecimento físi- co da Cize, como ela era carinhosamente conhecida pelos cabo-verdianos», afirmou

o presidente da Assembleia Nacional de

Cabo Verde, Basílio Mosso Ramos. Mário Sousa - O ministro da Cultura de

Cabo Verde, Mário Lúcio Sousa, conside-

ra que «Cabo Verde perdeu uma das suas

principais vozes». E acrescentou: «O legado que nos deixou certamente que suplantará a dor. A Cesária tinha uma alma que nos representava a todos. Era uma espécie de anjo da guarda de toda a gente». Francisco Viegas - Foi «uma das vozes mais expressivas e originais da música mundial», classificou esta tarde o secretá- rio de Estado da Cultura, Francisco José

Viegas, numa nota de condolências. «A qualidade da sua voz era de alcance univer-

sal e o reconhecimento internacional que obteve comprovou isso mesmo». Cavaco Silva - Um comunicado do Pre- sidente da República português, Cavaco Silva, descreve-a como uma «artista singu- lar, que tão bem soube exprimir a cultura e a tradição musical da sua terra, muito para além das fronteiras da Língua Portuguesa». João Branco, director do Grupo de Tea- tro do Centro Cultural Mindelo - «A pri- meira vez que chorei em Cabo Verde, há quase vinte anos, foi por ter ouvido a voz de Cesária Évora, que se apoderou de mim como um furacão de alma e sentimento. Tinha acabado de chegar ao Mindelo e pela mão do músico Vasco Martins fomos a um bar de amigos, para um serão tranquilo de boa conversa. Estava sentado, distraído com uma qualquer leitura, quando aque- le espaço foi invadido por uma voz única, grave, possante. O disco era o «Miss Per- fumado», o CD que haveria de catapultar Cesária para a fama internacional, por via do mercado francófono e a transformaria na maior embaixadora da história do ar- quipélago, hoje no mapaglobal muito por responsabilidade do retumbante e espanto- so sucesso da sua impar carreira. No sau- doso Café Royal, da mítica Rua de Lisboa, para onde ela ia quase diariamente, numa

época em que ainda não tinha que viajar constantemente, com tournées que a obri- gavam a ficar tão longe da sua cidade queri- da, a sua chegada de carro, sempre com um condutor próprio, e a entrada com os pés descalços no estabelecimento, eram dignos de um cerimonial que nunca mais esque- cerei. A mesa onde se sentava Cesária ia-se enchendo e esvaziando, à medida que ela recebia amigos, familiares, conhecidos ou

curiosos. Pagava bebidas a todo o mundo, dava dinheiro aos pedintes, brincava cons- tantemente com aqueles que a rodeavam, muitos já adivinhando que ali estava uma fonte inesgotável de talento e projecção. Na sua casa, sempre tinha a porta aberta, com o mesmo espírito generoso, próprio de uma grande matriarca. Hoje, depois dochoque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda a cidade do Mindelo. Nas

de uma grande matriarca. Hoje, depois dochoque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda
de uma grande matriarca. Hoje, depois dochoque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda
de uma grande matriarca. Hoje, depois dochoque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda
de uma grande matriarca. Hoje, depois dochoque inicial, a voz de Cesária Évora ecoa por toda
Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 27 especial Cesária ruas, nos cafés, nos bares, nos

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

27

especial Cesária

ruas, nos cafés, nos bares, nos carros, nas vozes das pessoas. Um mendigo grita no centro histórico do Mindelo: Cesária

já morrê! Hoje, Cabo Verde, é

uma Nação que se curva, de pés descalços, perante a sua maior Diva». Mayra Andrade (cantora)

- «Cize, como na tela de um

quadro, a tua voz pinta estas paisagens perdidas e os sen- timentos que animam o povo das tuas ilhas. Agradeço à

vida o privilégio de te ter co- nhecido, tu que pela tua voz nos fizeste existir perante os olhos do mundo. Sentimos terrivelmente a tua falta. So- dade, sodade, sodade Tito Paris (músico) - «Re- cebi a notícia com profunda tristeza. Cabo Verde fica mais pobre, da mesma forma que fi- cou mais rica quando ela nas- ceu, porque nasceu uma estre-

la que não se apagará, ficará

sempre acesa, a brilhar através

da sua música.

Espero que todos os cabo- verdianos, sobretudo os mais

jovens, dêem valor ao queela nos deu; muitos não têm no- ção do que ela nos ofereceu.

A Cesária levou-nos de uma

parte do mundo para a outra, levou o nome de Cabo Verde por todo o mundo e, quando ela estava em palco, todo o cabo-verdiano estava lá com ela. Ela levou a morna, e o

sorriso, e o calor do Mindelo,

e ficará na nossa memória. Es-

tamos profundamente tristes. Que descanse em paz. Todo o mundo da música ficou mais pobre, mas um artista, um po- eta, nunca morre». José Eduardo Agualusa (es-

critor) - «É uma notícia triste, embora esperada. A Cesária já não estava bem há algum tem- po, mas quando a notícia che-

ga

nunca estamos preparados.

O

extraordinário sucesso in-

ternacional da Cesária mudou por completo a forma como a música cabo-verdiana passou

a ser acolhida no mundo e,

dessa forma, mudou a própria música cabo-verdiana. Mas

mais do que isso, julgo que ela foi muito importante para todo o mundo da música em Língua Portuguesa, porque ela abriu caminhos para todas

as outras culturas». Yuri da Cunha (músico) – «Lamento a morte da cantora cabo-verdiana CesáriaÉvora. A morte da «Diva dos pés des-

calços» é uma perca insubs- tituível quer para África,quer para o mundo. Cesária Évora representou a voz de Áfri-

ca pelo mundo fora,era para

nós, a nova geração e os po- vos lusófonos, uma referência

obrigatória,dona de uma voz incomparável».

Cize no mar azul dos céus

H um exercício inútil,

que alguns já se en-

tregaram, sem êxito:

á

a

encontrar «substituto»

para Cesária Évora. Ela nunca se incomodou com isso, talvez por- que soubesse que era tarefa im- possível. O mistério que sempre envolveu a sua voz de um timbre inigualável, a calma profunda

e melancólica que emanava das

suas canções, fossem elas mornas ou coladeras (género, mais ritma- do, a que dedicou o seu último disco, «Nha sentimento»), não tem nem terá paralelo noutras cantoras cabo-verdianas, mesmo nas melhores. Tal como Amália não teve nem terá paralelo nou-

tras fadistas, e tantas há e houve,

algumas geniais, também Cesária foi estrela de exemplar único no belo firmamento da música cabo- verdiana e também no da música universal. Musicalmente cresceu tarde, de Paris para o mundo, porque

o mundo não lhe abriu outras

portas antes nem noutros luga- res. Teve a ajuda de José da Silva, que percebeu o que nela havia de melhor, mas o resto só podia ter

sido dela: a voz, a alma, o gesto, a cabo-verdianidade. Ouvi-la, fosse em que palcos cantasse (e cantou em tantos, de modo incansável),

era ouvir e ver Cabo Verde. Dificilmente haverá disco tão belo quanto «Mar Azul» e difi- cilmente cada nova audição das suas escassas oito faixas deixará cada ouvinte imune à emoção. É certo que, em matéria de discos, a sua carreira teve altos (alguns al- tíssimos) e baixos, mas raramente cedeu à vulgaridade de se deixar desfigurar por modas a que era

alheia, mesmo nos duetos com

celebridades (de onde aliás se saiu bem),usando-os como tributo à sua arte. Sempre cantou (e falou) em

crioulo cabo-verdiano, deixando

a tarefa de entender o que dizia a

tradutores ou interlocutores mais sagazes. Sempre se divertiu nas entrevistas, mesmo quando pare- cia entediada, sempre falou pou-

mesmo quando pare- cia entediada, sempre falou pou- co porque preferia cantar muito, sempre tendeu a
mesmo quando pare- cia entediada, sempre falou pou- co porque preferia cantar muito, sempre tendeu a

co porque preferia cantar muito, sempre tendeu a desarmar quem queria fazer-lhe perguntas difí- ceis. O tabaco e o álcool foram du-

rante muito tempo seus compa- nheiros nessas conversas, até que, depois do AVC que a obrigou a parar em 2008, a travaram. No início deste mês de Dezembro era

já uma certeza: Cesária Évora não voltaria aos palcos. Recomenda-

vam-lhe repouso, muito repouso. por morrer, mas num hospital,

Na sua casa, no Mindelo, Ce- sária talvez já não esperasse nada. Mas em 2009, na última entrevis- ta que deu ao jornal português «Público» dizia: «Canto mais um tempo e depois stop!». Para lá dis- so, apenas um sonho: «Fazer uma

In Internet

casa no campo. E morrer lá»; no Mindelo, onde nasceu e acabou

aos 70 anos. Cize, era esse o seu «nominho», ficará agora a cantar na nossa memória e no mar azul dos céus.

JES também apresenta condolências

J osé Eduardo dos Santos - O Presidente da

República apresentou terça-feira, 19, em

seu nome pessoal, do Executivo angolano

e na qualidade de Presidente em Exercício

da CPLP, as «mais sentidas condolências» ao seu homólogo de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, ao povo e governo de Cabo Verde e à família enlutada,

pelo falecimento da cantora cabo-verdiana Cesária Évora. Na sua mensagem, José Eduardo dos Santos

classifica Cesária Évora como «uma grande expoente da música cabo-verdiana e ícone da música africana e universal». O Chefe de Estado angolano considera que a morte de Cesária Évora «constitui a perda ir- reparável de uma das expressões mais carismáticas da cultura cabo-verdiana, cujo talento ultrapassou as fronteiras do seu país, conquistando o apreço de milhões de ouvintes em todo o mundo e em especial nos países de língua oficial portuguesa».

conquistando o apreço de milhões de ouvintes em todo o mundo e em especial nos países

28 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

28 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião Como escrevo as minhas «Epístolas» O meu escritor

opinião

28 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião Como escrevo as minhas «Epístolas» O meu escritor
28 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião Como escrevo as minhas «Epístolas» O meu escritor
28 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião Como escrevo as minhas «Epístolas» O meu escritor

Como escrevo as minhas «Epístolas»

O meu escritor favorito,

George Orwell, tem um

ensaio intitulado «Why

I write» ou «Por que é

que escrevo». Já vi vários outros

escritores a escreverem ensaios do mesmo género. Achei este gesto altamente pomposo; para mim, escrever é, essencialmente, comu- nicar. Comunicamos para infor- mar, entreter ou mesmo provocar. Estou em Luanda e fiquei alta- mente surpreendido pelo número

de pessoas que têm lido a minha

coluna neste jornal. Fui reconhe- cido em vários sítios. Muitas pes- soas perguntam-me sobre a mi- nha inspiração, os temas que mais me interessam, entre outras. Gos- taria, um dia, quando voltar para Luanda, de ter uma sessão com os meus leitores, que são muito espe- ciais para mim. Vou tentar, desta vez, responder a algumas pergun- tas que varias pessoas – estudan-

tes, agentes da polícia, advogados, pastores, etc. – me fizeram quan-

do estive em Luanda.

Comecemos, então, com a mi- nha fonte de inspiração. Sempre admirei o jornalista e escritor Paul Johnson, que escrevia para

a revista «The Spectator», onde eu tive os meus primeiros trabalhos jornalísticos publicados. Nos anos 70, o Paul Johnson era da esquer-

da e chegou mesmo a ser director

da revista esquerdista «The New Statesman», para a qual também

já escrevi. Ele é um verdadeiro

polímato; ele escreveu biografias

e livros sobre vários assuntos. Ele escrevia, também, uma crónica semanal no jornal «The Specta- tor» que muito me impressionava.

O Johnson era capaz de escrever

sobre tudo -- a historia de engo- mar roupa; reflectir sobre a cama

em que ele foi concebido; a impor- tância da religião, etc. O Paul Johnson, que é católico, tinha audiências privadas com

o Papa. Como pessoa, o homem

não era perfeito; havia mesmo as- pectos da sua personalidade que repugnavam. Houve vezes que ele disse coisas completamente ab- surdas – como em caso de ser vio- lada, uma mulher branca preferia sâ-lo por um branco e não por um negro. Uma escritora branca, en- furecida, escreveu à revista dizen-

escritora branca, en- furecida, escreveu à revista dizen- do que preferia ser violada por um negro

do que preferia ser violada por um negro do que por ele. Depois surgiram informações de que o grande escritor tinha uma amante; todas as semanas ele encontrava-se com ela; segundo a amante, uma senhora com uma certa idade, o Paul Johnson ado- rava ser chicoteado e, de vez em quanto, vestir fraldas. Essas reve-

lações não diminuíram em nada o prestígio que ele tinha; muitos ingleses passaram mesmo a admi- rar-lhe mais. Tive o privilégio de conversar várias vezes com o Paul Johnson e ele sempre insistiu que

ser colunista era algo que requeria muita disciplina. Uma outra figura que muito me inspirou foi o jornalista António de Figueiredo, um colunista da BBC que faleceu em 2006. Tive a sorte de, a um certo momento, vi-

ver perto dele. Eu sempre ia à sua casa, onde, rodeados de livros, ele falava-me da historia africana. Ele conheceu bem muitos nacionalis- tas africanos – de Julius Nyerere e Joshua Nkomo a Mário Pinto de Andrade. Passamos, então, a ser tão amigos que ele me levava para vários encontros. O senhor António de Figueiredo era pro-

comprava, também, esses livros. Cheguei à conclusão que, para se conseguir escrever bem há que se ter uma imensa capacidade de ser solitário. Porem, ao mesmo tem- po, é preciso ser-se capaz de lidar com as pessoas. Temos o misan- tropo, que não gosta mesmo das pessoas, que prefere viver no seu próprio mundo. Mas, quem escre- ve algo de valor não pode ser um cínico. Em1987, o escritor britânico negro, Caryl Phillips, publicou

interessante que o George Orwell, um livro de viagens, intitulado me retirar, não só para escrever,

o escritor que muito admiro e já citei no inicio, também nunca ti-

nha ido a uma universidade. E ele também foi da esquerda.

mas também para contemplar. Eu não consigo escrever em casa ou muito perto da minha esposa:

«TheEuropean Tribe» ou a «Tribo Europeia», em que narra a reacção das pessoas quando diante de um negro ao longo da sua viagem de

país a país pela Europa. Na Rússia, ele encontrou uma senhora ango- lana com um berço a atravessar a neve. No seu livro ele vai medi- tando o que é que significará para

aquele bebé ter nascido na Rússia. Mutamba, no Hotel Mundial. Nas

o berro do meu filho; argumen- to das milhas filhas ou a outra a praticar o piano incomoda-me logo. Em Angola, eu teria muita dificuldade em me concentrar. Estou a escrever isto na zona da

com frequência é sobre como eu escrevo. Nas livrarias americanas, há dois tipos de livros a volta de dois temas que parecem ser muito popular: como ficar rico e como escrever um «best seller». Cada americano pensa que, se lhe de- rem a oportunidade, ele passaria logo a ser um Bill Gates, Warren Buffet ou Stephen King. Esses livros aconselham, em

dados casos, a comprar um certo tipo de lápis, etc. No passado, eu

últimas duas horas, já houve duas lutas num jardim que fica aqui perto. Eu queria tanto saber o que estava a por detrás de aquilo. Se residisse em Angola, teria mesmo a necessidade de ter uma pequena casa ao lado do rio Cutatu no meu querido Katchiungo.

O Phillips é daqueles escritores que tem uma certa obsessão com os detalhes, algo que partilho. Num encontro literário em Londres, per- guntei ao Caryl Phillips qual era a chave para se ser um bom escritor ou jornalista e ele disse-me que era preciso amar as pessoas. Isto

fundamente curioso. E ele tinha a sua crónica intitulada «Carta de Londres». Nos anos 90, ele dizia- me que escrevia a crónica sema- nalmente sem falhar. Notei que o senhor de Figueiredo lia muito. Interessantemente, ele não tinha uma formação universitária; ele pertencia àquela geração de auto- didactas, ligados à esquerda, para o qual o saber fazia parte da luta. Para o senhor António de Figuei- redo, o que mais contava era a va- lorização do mundo de ideias. É

significa que alguém tinha que ser curioso e ter mesmo interesse na sorte dos outros. Isto implica, tam- bém, saber escutar e incentivar as pessoas a contar as suas histórias. Mas antes de acolher essas histó- rias, impressões, etc., o jornalista ou escritor tem que ter a disciplina de esculpir tudo aquilo numa for- ma que pode ser apreciada. Mais algumas palavras sobre a disciplina. Sempre tive a sorte – na Inglaterra e nos Estados Unidos – de ter um local para onde posso

A outra pergunta que é feita

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 29 opinião E como fica a língua de sinais?

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

29

opinião

E como fica a língua de sinais? (fim)

de 2011. 29 opinião E como fica a língua de sinais? (fim) Nuno Álvaro Dala Jr.

Nuno Álvaro Dala Jr. (*)

O s surdos, em todos os lugares, e ao con- trário dos ouvintes, criaram um sistema

lugares, e ao con- trário dos ouvintes, criaram um sistema flexões, etc.) nem está aloja- Indubitavelmente,

flexões, etc.) nem está aloja-

Indubitavelmente, a Língua

tanto na perspectiva diacrónica como na sincrónica. O Dicionário da Língua Gestual Angolana, o uso da Língua Angolana de Sinais como idioma de ensino na maioria das escolas privadas com ensino

para surdos e os muitos cursos de LAS já realizados a vários níveis são evidências disso mesmo.

A Língua Angolana de Si-

tos um do outro, se pertencem». nais é plurinacional, pois, ela é

Certamente, o conceito de línguas nacionais não se deve restringir a dimensão oral. Não há nenhuma base científica para «depredar» as línguas de sinais da sua inerência de idiomas au- tênticos. De facto, para Nídia R. L. de Sá (2006), «as línguas de sinais, portanto, não são me- lhores nem piores que as demais línguas: são diferentes». Nas páginas deste reputado jornal, já asseverei que a Língua Angolana de Sinais não é menos língua que as demais línguas, que são todas orais. A Língua Angolana de Sinais tem sido estudada cientificamente de modo sistemático, e nos últimos 7 anos foi produzido considerável

solidação das línguas nacionais

O desenvolvimento e a con-

criação e inerência cultural de indivíduos oriundos das várias etnias (ou nações) que compõem o povo angolano.

cada pessoa. (…) A verdadeira substancia da língua é, por ex-

celência, o acto dialógico em seu acontecimento concreto (…) A história de qualquer língua tem o mesmo núcleo gerador de um enunciado particular, isto é, tem seu início na ‘faísca’ produzida pelas interacções sociais (…) Homem e linguagem são produ-

«línguas de Angola». Os surdos

bém devem usufruir do direito plasmado no artigo 87 da Cons- tituição, segundo o qual «os ci- dadãos e as comunidades têm direito ao respeito, valorização e preservação da sua identidade cultural, linguística e artística».

Na alínea 2, o mesmo artigo diz que «o Estado promove e esti- mula a conservação e valori- zação do património histórico, cultural e artístico do povo an- golano».

Só se pode perguntar: (1) Tem o estado, através das suas insti-

o Dicionário da Língua Gestual Angolana teria sido produto do trabalho do Instituto de Lín- guas Nacionais, e não o contrá- rio. Se tal diferença não fosse abissal, teriam sido da autoria de estruturas do Estado os vá- rios cursos de LAS, de elevado nível científico e metodológico, já realizados, os quais habilita- ram centenas de ouvintes no uso fluente da Língua Angolana de Sinais. Se tal diferença não fosse abissal, haveria no Instituto de Línguas Nacionais a noção da

e a preservação da identidade tuições competentes, promovido existência de uma língua gestual

nacional devem conformar um processo inclusivo. Excluir a lín- gua dos surdos angolanos invia- bilizará o desiderato menciona- do pela Ministra, de «que todos os cidadãos tenham as mesmas possibilidades reais de acesso ao ensino e assimilação de conhe- cimentos». «O Estado valoriza e promove o estudo, o ensino e a utilização das línguas de Angola», diz o ar- tigo 19, alínea 2, da Constituição

o estudo, o ensino e a utilização da Língua Angolana de Sinais? (2) O estado angolano reconhe- ce a identidade linguística e cul- tural dos seus mais de 2.000.000 de cidadãos surdos? (3) Tem o

de Angola. A marginalização da Língua Angolana de Sinais, propositada ou não – baseada na ignorância e no preconceito ou não –, é a alienação de uma parte da iden-

estado estimulado a conserva- tidade linguística e cultural de

ção e valorização do património histórico, cultural e artístico dos seus cidadãos surdos?

Angola – é a transformação dos artigos 19 e 87, de u ma expecta- tiva legítima dos surdos angola-

Infelizmente, é abissal a di- nos, em quase uma utopia.

ferença entre os artigos 19 e 87 da Constituição e a realidade.

(*) Linguista e Surdopedagogo

padronizado de gestos ou sinais regidos gramaticalmente, cons- truídos num paradigma viso- gestual (quanto aos ouvintes, estes realizam e consolidam o idioma através de um paradig- ma oro – auditivo). Segundo Tânia Felipe (1992), «todas as línguas possuem os mesmos universais linguísti- cos; é preconceito e ingenuida- de dizer, hoje, que uma língua

é superior a qualquer outra,

já que elas independem dos factores económicos e tecno- lógicos, não podendo ser clas- sificadas como desenvolvidas, subdesenvolvidas ou, ainda, primitivas». De acordo com Nídia R. L. de Sá (2006, apud Skliar 1998b), “a língua de sinais e a língua na modalidade oral não consti- tuem oposição; são, na verdade, línguas que se utilizam de ca-

nais diferentes para a recepção

e transmissão de capacidade hu-

mana de linguagem. Os estudos

científicos realizados na área da fonemas, nos morfemas, nas conhecimento científico sobre o da República.

seu extenso ‘corpus gestuae’, sua

a língua de sinais cumpre todas da no psiquismo individual de gramática, seu quadro evolutivo Angolana de Sinais faz parte das ria incluído no seu diploma a

as funções de uma língua natu-

ral. No entanto, persiste ainda

a ideia de sua desvalorização,

quando a língua de sinais é vista como mescla de pantomima e de sinais icónicos, ou como língua universal transparente, derivada da gestualidade espontânea dos ouvintes ou dos surdos, e um obstáculo para a aprendizagem». Para William Stokoe (1960, apud Skliar 1998b), «os trabalhos

da linguística pós–estruturalista

avaliaram o estatuto linguístico das línguas de sinais como lín- guas naturais e como sistemas a serem diferenciados das línguas orais: o uso do espaço como va- lor sintáctico e a simultaneidade de aspectos gramaticais são al- gumas das restrições levantadas pela modalidade viso– espacial, que determinam sua diferença estrutural e funcional em rela- ção as línguas orais». Indubitavelmente, e cito Regi- na de Souza (1998 apud Bakhtin 1992), «a ‘verdadeira substancia’ da língua não está no sistema

abstracto das formas linguís- ticas (no universo lexical, nos

Língua Angolana de Sinais. Se

e as comunidades surdas tam- tal diferença não fosse abissal,

linguística já determinaram que

Se tal diferença não fosse abis- sal, o Ministério da Cultura te-

30 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

30 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião O Estado e a necessidade dos cidadãos U

opinião

30 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. opinião O Estado e a necessidade dos cidadãos U

O Estado e a necessidade dos cidadãos

de 2011. opinião O Estado e a necessidade dos cidadãos U m dos problemas so- ciais,

U m dos problemas so- ciais, económicos e políticos que levanta a realização das necessi-

dades das populações pelos órgãos

e serviços do Estado é a correspon- dência entre a afectação dos meios

e a satisfação efectiva das popula-

ções. Embora um outro problema lateral se lhe acompanha: a falta de estudos prévios das condições concretas de satisfação das neces- sidades pelos serviços e órgãos do Estado. Tal como a não realização de serviços necessários para as po- pulações pelo Estado a realização não correspondente as necessida- des das populações produz o mes- mo resultado: a falta de satisfação efectiva das populações alvos. Atentemos a factos de grande valência na nossa realidade social:

populações removidas de certas zonas por demolição das respec- tivas casas que são transferidas

provisoriamente para as tendas

e as graves consequências higie-

nosanitárias, psicossociológicas e outras que desestruturam moral os indivíduos e as famílias com os problemas de degradação das condições mínimas de bem-estar, das dificuldades económicas que precipitam comportamentos de-

sastrosos como a criminalidade, a prostituição, a infidelidade no lar, a desobediência dos filhos so- cialmente exigentes para os pais economicamente impotentes; a construção de infra-estruturas sociais ou económicas que não in- teressam as populações visadas (o exemplo visivel é a instalação de certos supermercados com parti- cipação financeira do Estado em certos locais de Angola cujas po- pulações não têm hábitos de fazer compras – impera a permuta de- vido ao fraco uso do papel moeda entre outros milhares de exemplos semelhantes que denunciam a inoportuna intervenção do Estado na satisfação das necessidades das

populações.

Aqui nasce a necessidade de di- álogo entre a administração públi- ca e as populações beneficiárias de modo que situações como aquelas que surgiram em Luanda com a instalação de passagens aéreas em zonas de travessia impróprias le- vou a que os equipamentos insta- lados de nada servissem em bene- fício dos peões que não deixam de atravessar as estradas em locais de alto risco de vida e de grande em- baraço para o trânsito automóvel. É claro que os angolanos vivem uma era político-constitucional que dispensa a intervenção “to- talitária” do Estado na satisfação das necessidades das populações. Entre um Estado formal que se pretende de iniciativa privada e de livre concorrência e uma go- vernação orientada para o inter- vencionismo absoluto do Estado a maneira da governação de feições comunista o paradoxo instala-se aqui. Não faz qualquer sentido que num pais aberto a iniciativa

Mas não é este o ponto de aná- lise que interessa ao tema em de- senvolvimento já que o que está em causa é a efectiva satisfação das populações no momento da

com cargos de hierarquia média materialização dos esforços do

Estado nesse sentido. Na verdade a problemática da satisfação do interesse público prende-se com a proporcionalidade, i.é, com o pon- to de equilíbrio necessário entre o interesse satisfeito e a necessidade manifestada ou patente. Salvo raras situações em que o interesse satisfeito superou em muito as expectativas razoáveis dos cidadãos (o caso dos mora- dores do Prédio da Cuca transfe- ridos para as torres do Zango em Luanda), a maior parte dos es- forços de satisfação dos interes- ses das populações colocaram-se aquém das efectivas necessidades satisfeitas. Aqui falha um con- junto de mecanismos onde a falta de vontade política é o primeiro deles. Dixit.

privada e a livre concorrência os governantes estejam engajados em atribuir viaturas e moradias as populações ligadas ao funciona- lismo públicos, muitos dos quais

e superior. Tal como perde qual- quer sentido lógico a atribuição de créditos financeiros a certos ope- radores económicos com fundos públicos quando a banca comer- cial para nada serve a economia privada. Tais iniciativas só podem estar ligadas a uma gravosa neces- sidade de promover o clientelismo e a corrupção no aproveitamen- to de oportunidades públicas em prol de interesses de manuten- ção do poder político sustentado pelo regime vigente. Entretanto, são pontos de estrangulamentos nas relações socioeconómica en- tre o Estado e as populações que urge corrigir com uma verdadeira consciência de governação numa realidade que deve privilegiar a economia privada.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 31 Crónicas Aos leitores, Feliz Natal! P rogramei-me para

Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

31

Crónicas

Sábado, 24 de Dezembro de 2011. 31 Crónicas Aos leitores, Feliz Natal! P rogramei-me para não

Aos leitores, Feliz Natal!

P rogramei-me para não dizer nada neste Natal. Escrever, nem pensar:

talvez, continuar a con-

templar a nossa paisagem, linda, como nunca vi em lugar algum. Sou exageradamente angolano? Este ano, uma foto marcou-me bastante. A foto retrata um bebé africano, negro e rechonchudo, em Darfur, nos braços de um activista norte-americano, branco. Os dois parecem entabular um diálogo que simboliza, na minha leitura, a humanidade. As duas mãos do menino são

poesia, afinal. Uma delas acaricia

o rosto do seu protector e a outra o tenta abraçar, gentilmente. Há no

rosto do activista dos direitos hu- manos uma expressão que vale por mil palavras. Os leitores devem imaginar, facilmente, a mensagem que o fotógrafo captou, mas uma ima- gem há-de precisar, sempre, do concurso das palavras. Tenho dú- vidas: se uma imagem vale mais que mil palavras, e se conviermos,

o contrário é mais verdadeiro. O

estimado leitor está a seguir-me o

raciocínio?

Um jornal é um espaço útil à toda a comunidade. Não é assim justo que eu ocupe o vosso pre-

cioso tempo nestes dias agitados, véspera de Natal e de Ano Novo,

e vos faça perder a hora de ir ao

mercado. A mãe grande quer ir às

compras e o caro leitor continua aí … a ler o jornal! Vá, despache-se, homem. O jornal não é senão um monte de folhas com palavras escritas por uns senhores, que não são eleitos, mas dão «pitaco» em tudo quanto

é assunto. Se desejam reclamar da

qualidade dos jornais, pois então, as portas do INADEC estão aber- tas. Arrume as suas imbambas. Via- je com a família para longe daqui, se é que tem estofo financeiro:

senão, compre uma passagem de maximbombo e vá até ao Sumbe, ou qualquer outro lugar desta nos-

sa bela Angola, passar o ano novo. Como se não bastasse, a União

A União Europeia vai falir.

lhar a população de todo o planeta numa crise sem precedentes. As agências de «rating» recolherão todo «arame» disponível nos ban- cos e vão meter-se num barco no Mar Vermelho.

Papá Vimbe e do Pastor William Blake. Uma «trafulha» financeira e económica mundial vai mergu-

Uma «trafulha» financeira e económica mundial vai mergu- amigos e manda-os bugiar. Então, está bem: prepare

amigos e manda-os bugiar. Então, está bem: prepare o seu estômago para as notícias «maravilhosas» que o Mundo nos oferece nestes tempos «armadilhados». O Mundo vai acabar no dia 12 de 12 de 12. Muito bem: podem

único e indivisível. Os EUA des- moronarão.

tarão. Ninguém terá direito a veto, a não ser por plebiscito popular. Quem poluir o universo, por sua conta e risco, será banido do con-

No centro-sul do país, a indús- tria alimentar destinada a suprir o

Novas nações unidas ressusci- falem e ninguém censure nin- exército angolano de mantimentos

básicos foi instalada e, por arras-

Este ano tive um pesadelo: to, milhares de angolanos obtive-

ram empregos e moradia decente. Uma incipiente mas promissora indústria de materiais militares foi, igualmente, implantada. Dei- xamos de importar «latarias» que se sustentam à base de produtos nocivos à saúde dos cidadãos. Enfim! Não espero que o caro leitor continue a ler os meus pesadelos. Se mesmo assim continua aí, a ler o jornal, enquanto a mãe grande súplica, para irem ao mercado e fazer passear os miúdos no Bela Shoping, então… Feliz Natal e Ano Novo Próspero!

carrega. Amanhã, talvez, uma Arca de Noé permitirá que todos

guém.

Luanda deixou de se constituir no único pólo atractivo do país. Popr outro lado, foram criados enormes conglomerados indus- triais no «Kapa-Kapa». Passa- mos, então, a produzir ovos, galinhas, carne fresca, leite e yogurte, em quantidades sufi- cientes para não importar e dar, assim, emprego aos países de cujas importações dependemos. Os hospitais públicos e as clíni- cas, finalmente, começaram já a atender quem chega à urgência sem lhe meter, primeiro, a mão nos bolsos.

desprezar o aviso conjunto do certo das nações.

Enfim! Uma guerra mundial eclodirá pela disputa do petróleo e os cur- sos e caudais de água. Quem tiver o maior exercito, dominará sobre toda a face da terra. É um cenário macabro, mas provável, caro leitor. A única boa notícia: todos os países adoptarão a Declaração

Universal dos Direitos do Homem como sua própria constituição. Fica entre parêntesis, uma vez que esta é a única cruz que o Mundo

Africana vai ressuscitar o pro- jecto «trans-africano» de espaço

Ai sim?! Insiste na sua casmur- rice, de não ouvir os conselhos dos

32 Sábado, 24 de Dezembro de 2011.

32 Sábado, 24 de Dezembro de 2011. entrevista Sousa Jamba ao Discurso Directo da Rádio Ecclésia

entrevista

Sousa Jamba ao Discurso Directo da Rádio Ecclésia (Fim)

«Sou um homem do mundo, porque estou completamente à vontade»

Nesta segunda e última parte da entrevista à Rádio Ecclésia, Sousa Jamba crítica o com- portamento de certos jovens que, segundo ele, se limitam a absorver os valores da cultura oci- dental, em detrimento da realidade socio-cultural que os rodeia, assim como fala um pouco da sua actividade no mundo do jornalismo. Confessa que nunca abandonou a literatura e que tem no horizonte escrever mais romances.

SA- Para si, há algum senti- mento de responsabilidade nis- so?

SJ – …Não há sentimento de responsabilidade. O meu pai, em 1956 criou uma escola, que é a escola de Katchiungo, a 60 qui- lómetros do Huambo, porque os angolanos, os nativos não tinham acesso a uma boa formação. Havia lá muitas complicações, tudo para manter as pessoas em baixo. En- tão, o pai tinha essa responsabili- dade de criar uma escola, há fotos da escola do meu pai na Internet. No Huambo e no Katchiungo, as pessoas falam do professor Teodo- ro Tchitunda, falam do professor Enoque de Oliveira, não nos lem- bramos da marca da motorizada ou do carro que essas pessoas con- duziam, mas lembramo-nos do efeito do que eles deixaram. O meu pai, os pastores tinham uma certa responsabilidade para com a sociedade. Mas essa nova geração do «big brother» que es- tou a ver… existe esse processo de absorver os valores ocidentais, por exemplo, absorveu-se esse mate- rialismo crasso, o carro, o rolex watch e não sei quê e essa músi- ca popular celebra. E isto está a acontecer na Zâmbia, essa vaida- de do corpo. Você passou horas no ginásio e tem esses músculos e fica ali na Internet a mostrar os mús- culos às meninas. Não é o que elas podem fazer para a sociedade, os

meninas. Não é o que elas podem fazer para a sociedade, os valores, não, a vaidade,

valores, não, a vaidade, olha só para mim, é essa cultura.

 

RE

Mas

isso

é

um

cul-

to

celebrado

na

América?

SJ – Celebrado na América e que os africanos, porque há essa afini- dade entre os africanos e uma fai- xa da cultura americana, foram absorvendo, quase não criticam. Há atitudes de gangster, bandidos que aparecem aí nos telediscos que os nossos jovens absorvem sem cri- ticar.

RE – Mas o Sousa Jamba fala assim por ser cristão?

SJ – Sim, mas penso que é im- portante que haja entre as pessoas mais valores básicos, haja solida- riedade. o casamento celebra a união de duas pessoas e famílias para criar uma outra família. Mas vejo que, na África, nestes dias, o casamen- to é quem gasta mais dinheiro,

vejo isso na Tanzânia, na Zâmbia, África do Sul. No outro dia escre-

vi sobre o Malema, o amigo dele

casou-se nas Ilhas Seychelles, em que se gastou quase um milhão de dólares. Isso é celebração de amor? Duvido! O que seria uma celebra-

ção de é o (Walter) Sisulu, na Áfri-

ca do Sul, que faleceu e a mulher

estava a seu lado nos seus últimos momentos. Uma vida longa a que

o casal se dedicou, houve laços profundos.

RE – Acima de tudo, houve muitas privações, por causa da perseguição do apartheid?

SJ – Absolutamente, cadeias. Tenho aqui um amigo, uma pes- soa muito próxima a mim,