Você está na página 1de 88
REVISTA DE JORNALISMO CIENTÍFICO E CULTURAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA ANO I | EDIÇÃO
REVISTA DE JORNALISMO CIENTÍFICO E CULTURAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA
ANO I | EDIÇÃO 01 | COORDCOM | ISSN 2238-0728
dimensão territorial.
As
relações
fronteiriças
e vão
além
No extremo
norte
do
Brasil,
pesquisas
apontam
que
possibilidades
integrações
econômica,
cultural,
social,
étnica
científica
as defrontam-se da
com
de as
divergências
de
discursos,
os
desafios
do
desenvolvimento e o desconhecimento das realidades regionais
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
1
06/02/2012
18:24:00
J a r d i n s I n t e r n o s
J a r d i n s I n t e r n o s
J a r d i n s I n t e r n o s

J a r d i n s I n t e r n o s Jardins Internos

Sala de tradução simultâneaJ a r d i n s I n t e r n o s O

O maior auditório do Estado - Cs I n t e r n o s Sala de tradução simultânea 2 Salão de

2

Salão de 100m para eventos eI n t e r n o s Sala de tradução simultânea O maior auditório do

Estrutura adaptada p/ pessoasI n t e r n o s Sala de tradução simultânea O maior auditório do

de 100m para eventos e Estrutura adaptada p/ pessoas tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012
de 100m para eventos e Estrutura adaptada p/ pessoas tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
2
2
06/02/2012

06/02/2012

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
18:24:00

18:24:00

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
para eventos e Estrutura adaptada p/ pessoas tepuy primeira ed - Revisão2.indd 2 06/02/2012 18:24:00
Cinema com 126 lugares Lojas Comerciais - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as
Cinema com 126 lugares Lojas Comerciais - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as
Cinema com 126 lugares Lojas Comerciais - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as
Cinema com 126 lugares Lojas Comerciais - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as

Cinema com 126 lugaresLojas Comerciais - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as com necessidades especiais

Lojas ComerciaisCinema com 126 lugares - Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as com necessidades especiais

- Capacidade para 1.200 lugares. os e cerimônias as com necessidades especiais

lugares. os e cerimônias as com necessidades especiais tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012
lugares. os e cerimônias as com necessidades especiais tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
3
3
06/02/2012

06/02/2012

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
18:24:00

18:24:00

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
os e cerimônias as com necessidades especiais tepuy primeira ed - Revisão2.indd 3 06/02/2012 18:24:00
Universidade Federal de Roraima Reitor Roberto Ramos Vice-reitora Gioconda Martinez Chefe de Gabinete Eloá Coutinho
Universidade Federal de Roraima
Reitor
Roberto Ramos
Vice-reitora
Gioconda Martinez
Chefe de Gabinete
Eloá Coutinho
Pró-Reitoria de Administração e Desenvolvimento
Manoel Bezerra Júnior
Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento
Institucional
Gioconda Martinez
Pró-Reitoria de Extensão
Geyza Pimentel
Pró-Reitoria de Ensino e Graduação
Ednalva Dantas
Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
Luiz Alberto Pessoni
Assessoria Jurídica
Aldir Menezes
Coordenadoria de Comunicação Social
Éder Rodrigues dos Santos
Coordenadoria de Relações Internacionais
Américo de Lyra
Ouvidoria
Maria Rosiney Santana Marques
ISSN 2238-0728
1º semestre de 2012
EXPEDIENTE
Coordenação Editorial
Éder Rodrigues
Conselho Editorial
Éder Rodrigues, Elói Senhoras, Júlia Camargo, Regi-
naldo Gomes, Sandra Gomes, Willame Sousa
Editores
Éder Rodrigues
Willame Sousa
Reportagens
Aline Padilha, Cristina Oliveira, Éder Rodrigues,
Greick Alves, Johann Barbosa, Willame Sousa
Fotografia
Lanne Prata, Roberto Caleffi
Projeto Gráfico
Hefrayn Lopes, Israel Mattos
Diagramação e Editoração
Israel Mattos
Revisão
Antônio Benício de Sales, Johann Barbosa
Estagiárias de Jornalismo
Aline Leão, Patrícia Sifuentes
Secretaria
Katiane Feitosa
Colaboradores
Elói Senhoras, Júlia Camargo, Maurício Zouein,
Rafael Oliveira, Reginaldo Gomes, Shirlei Martins
Coordenador de Comunicação Social
Éder Rodrigues
Chefe da Divisão de Relações Públicas
Greick Alves
Chefe da Divisão de Atendimento à Imprensa
Aline Padilha
Chefe da Divisão de Fotografia
Roberto Caleffi
Chefe da Divisão de Criação e Arte
Israel Mattos
Fones: (95) 3621-3106 / (95) 9976-0871
E-mail: coordcom@ufrr.br
www.ufrr.br
4
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
4

O desafio de divulgar a ciência e a cultura na fronteira norte

de divulgar a ciência e a cultura na fronteira norte D ivulgar o conhecimento produzido pela

D ivulgar o conhecimento produzido pela academia é um papel desafiador para aqueles que atuam na área da Comunicação. Conside-

rando as especificidades de cada área es- tudada, o papel da comunicação torna-se imprescindível para levar até a sociedade informações valiosas da ciência.

No Brasil existe interesse pela Ciência. No entanto, poucos brasileiros entendem o que é divulgado e, muitas vezes, não conse- guem fazer ligação direta com seu coti- diano, como na economia ou na política

nacional. Por isso, é papel do comunicador, como emissor, ter habilidade em conduzir

a mensagem para fora dos muros acadêmi- cos atingindo o receptor, sem ruídos.

Neste processo, a atenção aos detalhes apresentados pelos estudiosos e a lin- guagem coloquial do jornalismo preci-

sam levar, com maior fidelidade possível

e simplicidade, a conexão da ciência

como parte do dia-a-dia das pessoas povo. Uma ciência que está mais pró- xima do que se imagina. Ela se faz pre- sente quando, por exemplo, as pessoas dominam uma máquina, alimentam-se, tem suas interações sociais e culturais, etc. Isto porque a ciência precisa estar a serviço da humanidade.

Do ponto de vista regional, a Universi- dade Federal de Roraima vem criando mecanismos que permitem o conheci- mento científico. A Coordenadoria de Comunicação da UFRR e o conselho Editorial da REVISTA TEPUI são sabedo-

res de que juntos podem contribuir com

a popularização da ciência.

Mas é preciso desenvolver a capacidade de promover o acesso ao pensamento e estudo para os mais diversos públicos. Por meio dos produtos jornalísticos, po- de-se fazer chegar a públicos distintos, uma fração de conteúdo de temas que muitas vezes são debatidos em eventos que envolvem a Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), por exemplo.

Sendo assim, como obra inicial no cam- po do jornalismo local, comprometido

em expor as ideias nas áreas da Ciência e da Cultura, a REVISTA TEPUI chega para ser uma peça jornalística de valorização às pesquisas e às ações que fomentem

a democratização do acesso ao conhe-

cimento científico. Pela complexidade

destes temas, é evidente que se tenha

o apoio de estudantes, pesquisadores e

divulgadores da ciência em geral. Preo- cupação também desta obra.

O tema Fronteiras foi escolhido para

abrir o primeiro número da TEPUI. O periódico traz discussões atuais desta realidade complexa que não se limita às questões territoriais. As fronteiras so- ciais, econômicas e culturais existem em larga escala na nossa região e recebem luzes inéditas da ciência praticada no Brasil. Nesta publicação, temos a grata satisfação de permitir que novos olhares

sejam lançados, podendo despertar o interesse do leitor para cada tema abor- dado. Caso isso ocorra, nossa missão foi cumprida. Boa leitura.

Os editores 06/02/2012
Os editores
06/02/2012
para cada tema abor- dado. Caso isso ocorra, nossa missão foi cumprida. Boa leitura. Os editores

18:24:10

A UFRR dispõe de duas bibliotecas universitárias: a Biblioteca Central (BC), situada no Campus Paricarana
A
UFRR dispõe de duas bibliotecas universitárias: a Biblioteca
Central (BC), situada no Campus Paricarana e a Biblioteca
Setorial do Centro de Ciências Agrárias, localizada no
campus Cauamé.
Na Biblioteca Central você encontra:
Cerca de 60 mil livros no acervo
Mais de 13 mil periódicos
253 trabalhos de pós-graduação
Salas de estudo individual
Setores de multimeios e teleconferências
Rede Wireless
Biblioteca Virtual com mais de 12 mil periódicos
Portal CAPES com mais de 60 mil teses e dissertações digitais.
A
Biblioteca Setorial têm de mais de 3.500 livros, 940 periódicos e
193 trabalhos de pós-graduação.
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
5
06/02/2012
18:24:16

Artigos

Expedição

Entrevista

08 Desigualdade e democracia nas fronteiras brasileiras Professor Argemiro Procópio, da Univer- sidade de Brasília (UnB), analisa os desafios amazôni- cos, seus impactos globais e as relações brasileiras com paí- ses vizinhos.

6 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

com paí- ses vizinhos. 6 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 6 14))
com paí- ses vizinhos. 6 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 6 14))

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 6 14)) MIGRAÇÃO Reportagem traz perso- nagens
6
6
SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 6 14)) MIGRAÇÃO Reportagem traz perso- nagens da

14))

MIGRAÇÃO

Reportagem traz perso-

nagens da China, Síria

e

Cuba e revela que o

extremo norte do País

mais plural do que se imagina.

é

56

Rafael Oliveira Brasileiros e garimpos no Suriname

58

Júlia Camargo

Fronteira e novos

olhares

60

Shirlei Martins Dinâmica territorial e resistência indígena

62

Reginaldo Gomes Tríplice fronteira e as trilhas indígenas

64

Elói Senhoras

Dinamismo Fronteiriço

e

as cidades-irmãs

66

Maurício Zouein

O limiar da imagem na

fronteira do olhar

Maurício Zouein O limiar da imagem na fronteira do olhar 28)) PESQUISA Kuwai Kîrî e a

28))

PESQUISA

Kuwai Kîrî e a experi- ência amazônica dos índios urbanos mostra que a diversidade cul- tural indígena não está limitada ao contexto das reservas demarcadas, mas permanece viva no dia a dia das cidades.

32 100 anos da viagem do alemão Theodor Koch Grümberg de Roraima ao Orinoco Os trabalhos de campo do etnólogo nas fronteiras brasi- leiras têm ampliado o conhecimento de pesquisadores, so- bretudo, da história e antropologia.

brasi- leiras têm ampliado o conhecimento de pesquisadores, so- bretudo, da história e antropologia. 06/02/2012 18:24:20
brasi- leiras têm ampliado o conhecimento de pesquisadores, so- bretudo, da história e antropologia. 06/02/2012 18:24:20

06/02/2012

brasi- leiras têm ampliado o conhecimento de pesquisadores, so- bretudo, da história e antropologia. 06/02/2012 18:24:20

18:24:20

Foto: Jorge Macêdo

Tráfico de Pessoas

Cultura

Linguistica

Foto: Jorge Macêdo Tráfico de Pessoas Cultura Linguistica 38)) ELDORADO? A sombra do mito do Eldorado

38))

ELDORADO?

A

sombra do mito do

Eldorado persiste na ima- ginação de muita gente.

A

cobiça histórica pelos

minérios encontrados, sobretudo, no noroeste de Roraima e os discur- sos que surgem do im- bróglio se assemelham a um filme de ficção com final apocalíptico.

34 Oralidade e escrita juntos no IV Encontro da Felicidade Dias de festa e des- taque para a cultura Ingarikó na maloca do Manalai, Terra Indígena Raposa Serra do Sol

na maloca do Manalai, Terra Indígena Raposa Serra do Sol tepuy primeira ed - Revisão2.indd 7
na maloca do Manalai, Terra Indígena Raposa Serra do Sol tepuy primeira ed - Revisão2.indd 7

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

Raposa Serra do Sol tepuy primeira ed - Revisão2.indd 7 68)) TV PÚBLICA As fronteiras da
7
7
Raposa Serra do Sol tepuy primeira ed - Revisão2.indd 7 68)) TV PÚBLICA As fronteiras da

68))

TV PÚBLICA

As fronteiras da televi- são pública na região norte do país. É pela TV Universitária que o Bra- sil e o mundo têm visto a realidade da tríplice fronteira norte.

24

Exploração sexual Estudantes indí- genas denunciam comércio sexual na fronteira com a Vene- zuela e desenvolvem trabalhos didáticos na UFRR

26

Diagnóstico BRs 401e 174, que dão acesso a Repúbli- ca Cooperativista de Guyana e Venezuela, são consideradas áreas de incidência de tráfico de pessoas, diz pesquisa da UFRR

de incidência de tráfico de pessoas, diz pesquisa da UFRR 82)) CINEMA Realizadores de á0udio visual

82))

CINEMA

Realizadores de á0udio visual nas trilhas sagra- das do mito Makunaima. O cinema etnográfico ganha força e adeptos, formando plateia e divulgando a riqueza cultural de Roraima.

72

Ensaio Fotos que falam de cultura e paz

71

Rádio da UFRR

A FM 95.9 é a rádio

da UFRR. Reforço na comunicação pública

que começa a exercer

o papel democrático

e social no estado de Roraima.

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

que começa a exercer o papel democrático e social no estado de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE /
que começa a exercer o papel democrático e social no estado de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE /

06/02/2012

7

que começa a exercer o papel democrático e social no estado de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE /

18:24:27

TEPUI UFRR 8)) Entrevista Argemiro Procópio Desigualdade e diplomacia em pauta nas fronteiras do Brasil

TEPUI UFRR

8))

EntrevistaTEPUI UFRR 8)) Argemiro Procópio Desigualdade e diplomacia em pauta nas fronteiras do Brasil O professor

Argemiro Procópio

Desigualdade e diplomacia em pauta nas fronteiras do Brasil

O professor doutor Argemiro Procópio realiza, há mais de 30 anos, pesquisas dedi- cadas a entender a realida- de dos povos da Amazônia

e os impactos da região no contexto

mundial. Depois do exílio na Europa na década de 70, professor Argemiro, já no Brasil, inicia importantes trabalhos de pesquisas na Amazônia Legal. Ele é pro- fessor titular da Universidade de Brasília (UnB) e atua na área de Relações Inter- nacionais, contribuindo também com ações da UFRR. Entre as mais recentes está a criação do doutorado interinstitu- cional em Relações Internacionais.

Publicou 18 livros, com destaque para o recém lançado Diplomacia e Desigualdade

e a mais destacada obra do autor denomi-

nada Subdesenvolvimento Sustentável. Este último entrou para a quinta edição em

2010. Professor Argemiro conversou com

a reportagem da REVISTA TEPUI numa

manhã de sábado, depois de lançar sua nova obra na noite anterior na Universida- de Federal de Roraima.

ÉDER RODRIGUES

Revista Tepui Professores e estudantes sempre falam sobre a importância de suas obras, sobretudo por reunir suas vivências no campo, atreladas às luzes provenientes das Ciências Sociais, Relações Internacio- nais, Economia e Direito. Quando iniciou suas ações de campo para compreender a realidade amazônica?

Argemiro Procópio – Eu comecei este tra- balho de campo na Região Amazônica em

1980. Depois do exílio na Europa, assumi

como docente as atividades na Universida- de de Brasília e trabalhava com Sociologia Rural. Naquele tempo ninguém falava

sobre as questões ambientais ou quando se falava, era muito pouco. As questões ambientais eram tratadas pela Biologia.

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 8
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
8
pouco. As questões ambientais eram tratadas pela Biologia. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 8 06/02/2012 18:24:30
pouco. As questões ambientais eram tratadas pela Biologia. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 8 06/02/2012 18:24:30
06/02/2012
06/02/2012

06/02/2012

06/02/2012 18:24:30
18:24:30
18:24:30

18:24:30

06/02/2012 18:24:30
Mas já em Berlim, na Alemanha a questão ambiental, estava bastante presente na pauta da
Mas já em Berlim, na Alemanha a questão
ambiental, estava bastante presente na
pauta da Academia. Eu resolvi, então, fazer
um estudo sobre educação ambiental.
Já existia o campus avançado no médio
Araguaia e eu fui pra lá.
Do médio Araguaia, eu fui para Rondô-
nia. Por quê? Porque começou uma crise
agrícola e esta crise agrícola coincidiu em
1985/86 com a chamada‘febre dos garim-
pos’. O movimento de garimpagem ocorreu
uma vocação muito melhor, instrumentos
muito melhores que outros estados. Em
que pese a posição estratégica do estado.
O
estado está muito próximo do Caribe. Ele
num período um pouco anterior. Mas
está próximo de um‘cardume’de países.
A
gente diz: um bando de andorinhas!
Era na cidade de Aragarças, divisa com
Mato Grosso e Goiás. Lá tinha Barra do
Garças, mas do outro lado era o Aragarças
e
o campus ficava em Aragarças. Uma re-
gião em que os índios xavantes trabalham
e
começou ali uma exploração de arroz.
Estavam os primórdios da febre da soja no
Brasil. Começamos a observar o número
eu diria que este foi o auge do garimpo
no Brasil, no qual com a crise econômica
nas cidades frente a democracia, afinal
os militares já haviam entregado o poder,
havia uma desorganização administrativa,
uma corrupção entrou no Brasil. Muitas
pessoas mudaram de casaca da noite
para o dia. Eram pessoas articuladas com
a
ditadura militar e no outro dia começa-
de agrotóxicos utilizado nestas plantações.
A
igreja Luterana já estava protestando. As
crianças estavam nascendo sem cérebro,
havia enormes números de enfermida-
des. O próprio hospital da cidade recebia
médicos da universidade e nós testemu-
nhamos esta realidade. A conclusão foi de
que parte da causa destas crianças que
nasciam sem cérebro se dava por conta do
“(
)
esta região goza de
trabalho com os agrotóxicos.
Estes agrotóxicos eram manejados de
forma indevida, eles simplesmente mistu-
ravam o veneno com a mão ou com um
pau, depois colocavam numa espécie de
trator e saíam por aí aspergindo. Essa agri-
cultura extremamente nociva somadas às
chuvas, as enxurradas que caíam nos rios,
gerava grande mortalidade de peixes. Os
índios xavantes tinham o peixe como base
de alimentação e foram obrigados a com-
prar carne de boi, porque o peixe já estava
cada vez mais raro por causa da mortalida-
de. O peixe boiava no rio envenenado de-
pois das chuvas. Foi aí que iniciamos um
trabalho de educação ambiental. Houve
denúncias sobre a atuação destas multi-
nacionais e ocorreram vários processos na
Justiça. As denúncias foram se repetindo e
de pouco em pouco somaram-se ao apoio
das igrejas, dos sindicatos, de universida-
des, das escolas - uma vez que a popula-
ção se sentia vitimada. Então começou um
trabalho de educação ambiental, o que
já era muito comum na Europa. No Brasil,
esta educação ambiental chegou quase
50 anos depois. Esta foi a primeira experi-
ência na região do Araguaia. Que de certa
maneira me influencia até hoje. Pra mim,
esta produção ojeriza a uma produção de
commodities que está de certa maneira
desindustrializando o Brasil. Exportamos
produtos sem valor agregado ou de bai-
xíssimo valor agregado.
vantagens estratégicas
tremendas, mais do que
outras partes do Brasil
para colocar os produtos
agrícolas no hemisfério
norte. Isso Roraima tem e
ninguém pode contestar.”
Porque todos eles votam em conjunto nas
Nações Unidas. Nenhum deles tem uma
agricultura sólida, por conta das mudanças
climáticas; são áreas abaixo da linha do mar;
tem tido inundações, ou seja, a situação
agrícola é miserável. Mas tem dinheiro, tem
turismo. Eles precisam importar gêneros de
primeira necessidade. Os Estados Unidos
são um grande importador também e a
sua produção agrícola não sai de Miami.
Ou seja, em linha reta, esta região goza de
vantagens estratégicas tremendas, mais do
que outras partes do Brasil para colocar os
produtos agrícolas no hemisfério norte. Isso
Roraima tem e ninguém pode contestar. É
um aspecto comercial geopolítico.
No entanto, a questão é que o mundo
tem ensinado que países que dependem
da agricultura patinam (quase que 90%
das exportações são agrícolas). É como
ram a levantar a bandeira do PT. Era uma
tristeza. Um oportunismo político, aliado
a
uma recessão e inflação virulenta que
começava a surgir. Por isso muitas pessoas
desempregadas do meio urbano passaram
a
acreditar que o Eldorado estava no mato,
onde estava o ouro.
RT – Em outras visitas a Roraima, o senhor
disse que o estado está na fronteira com o
hemisfério norte e que tem vocação para
desenvolver-se, mas ainda não conhece
os instrumentos para desenvolver esta
vocação. Que instrumentos poderiam ser
vislumbrados?
tico-tico no fubá: ciscam e ciscam e ficam
onde estão. Agricultura tem sim que
ser mantida, mas não só este latifúndio,
não é só este plantation. Aqui tem novas
vocações. Por exemplo, imagine: porque
não transformar isso aqui em um pólo de
ciência e tecnologia? De alta mecatrôni-
ca. Daí precisa investir. Mas o Brasil não
investe. O Brasil só investe na faculdade de
Direito. É o país que tem mais advogados
na face da terra! Nenhum país do mundo
tem tanto advogado como no Brasil e não
há nenhuma lei que proíba isso. Apesar
da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)
pedir “pelo amor de Deus, chega! Já tem
demais!” É uma indústria de advogados.
AP – Há um conjunto de fatores que leva
o
Brasil a pensar que a nossa vocação é
aquela do tempo colonial. Os portugue-
ses e holandeses nos obrigaram a plantar
café e açúcar. Portanto, há um complexo
de inferioridade. A falta de acreditar em si
mesmo leva ao Brasil a achar que vai tirar
tudo da terra e vender como no período
Por isso tudo aqui é lei e o linguajar jurí-
dico é pior que bula de remédio. A gente
lê, relê (e olha que eu sou doutor, hein) e
não entendo, às vezes, o que estou lendo.
Às vezes eu penso: será que sou analfabe-
to? Aliás, encontro muitos erros de latin
deles. Tudo errado. Ou seja, não é apenas
o
linguajar jurídico, é a presença extrema-
colonial. Ou seja, nós vamos na contramão
da história. Eu não sou contra a produção
agrícola. Mas nós temos aqui em Roraima
mente grande do setor jurídico que mata
outros setores. Não temos professores de
física, de matemática, química, biologia.
Mas também o professor de física ou quí-
mica vai ganhar metade que um policial
militar no Brasil. É um desprestígio que se
dá à educação. É estrutural.
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
9
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
9
06/02/2012
18:24:31
Para mudar a situação de Roraima, ter um estado que pensa à educação e etc,
Para mudar a situação de Roraima, ter
um estado que pensa à educação e etc,
temos que mudar estas bases todas. No
entanto, é um estado que tem vocação
podendo ser um lugar produtor de ciência
tecnologia. Aqui tem ouro. E esse ouro
vai para onde? Por que não criar um
e
muito lentamente na questão ambiental.
Ela precisa ser mais propositiva. E apesar
do discurso ‘lulista’ da diplomacia presen-
cial, ela também não foi propositiva neste
período e, aliás, se caracterizou, nesta fase,
com problemas que nunca tivemos antes
na nossa diplomacia.
centro de ourivesaria. Diamante rola aqui,
todo contrabandeado. Por que não criar
um centro de polimento? Aí a jóia tem o
valor multiplicado em 200% ou 300%. É
um serviço que gera muita mão de obra e
“O brasileiro com pro-
é um trabalho limpo, não é poluente. Isso
é parte do que poderia ser mandado para
blemas dentários recebe
tratamento de médicos
cubanos a custo zero na
Venezuela. Chega lá com
Amsterdã, Nova York ou Tel Aviv. É preciso
repensar a vocação que existe. Mas para
o
tanque do carro vazio
ter educação necessária, a universidade
precisaria ser prestigiada. E ela não é.
e
paga centavos na ga-
nos, de tráfico de drogas, que aumentou
enormemente nos últimos anos. As
prisões brasileiras, abarrotadas de pesso-
as ligadas ao narcotráfico, revelam este
descuido e o insucesso da política ‘lulista’,
que pode ser medido nos assassinatos
nas ruas, no número de prisioneiros nos
presídios, na violência armada e no con-
sumo de drogas pelas crianças (porque
já não são só mais os adolescentes que
estão consumindo). Esta política antidro-
gas foi um caos. E sabe-se que o Brasil
não planta a cocaína, nós somos um país
consumidor. De trânsito ou corredor,
passamos a ser um país consumidor. Meu
livro também adverte para esta questão
da política antidrogas.
RT – O senhor lançou na UFRR o livro
Diplomacia e Desigualdade e afirmou que
esta obra é um grito pelo Brasil e uma críti-
ca aos erros diplomáticos. Em determinada
solina. Este pessoal não
pode dizer: o Chavez é um
desgraçado. Tem que dizer
‘muchas gracias’!”
RT – O senhor atribui esta atenção especial
do governo Lula dedicada à Venezuela a
quais fatores?
altura do livro é dito que a diplomacia
internacional precisa ir além das questões
de comércio, discutindo questões como, por
exemplo, o meio ambiente e as desigualda-
des sociais. Por quê?
AP - Neste ponto foi uma grande esperte-
za e sabedoria política. O Brasil passou a
Tivemos enormes problemas com o
Paraguai. Tivemos enormes problemas
com o Equador e com a Bolívia, que são
ser o interlocutor, de certa maneira, entre
a
Venezuela e os Estados Unidos. Os EUA
países amazônicos. Ou seja, neste período
são um grande importador do petróleo
venezuelano. Quase 15% do que atende
o
AP - Por que a política exterior abrange
a questão da cooperação tecnológica,
a questão militar, a questão ambiental,
Lula foi muito infeliz. Tivemos problemas
como nunca anteriormente. Alguns deles
graves. Como é o caso da invasão das
tropas bolivianas na empresa Petrobrás.
dentre outras. O leque da ação diplomá-
O
gasoduto também custou caro e foi o
tica é muito grande. O que ocorre é que
a
Amazônia é apenas, formalmente, uma
preocupação da diplomacia brasileira.
Apesar de ter mais da metade do territó-
rio. Eu denuncio isso no meu livro.
segundo maior investimento que pesou
nos cofres do governo brasileiro. Passamos
por momentos difíceis. Portanto, a política
latino-americana, que juravam no Gover-
no, que seria prioridade, foi muito infeliz.
Quer dizer, em oito anos de Governo Lula:
às necessidades internas dos EUA vêm da
Venezuela. Qualquer loucura que o Hugo
Chavez fizer terá repercussões enormes. É
bom lembrar que o Chavez estava quase
caindo quando o Lula mandou os téc-
nicos da Petrobrás abrirem as torneiras
no primeiro momento e evitou a queda
do Chavez. O Chavez ficou eternamente
agradecido. O Chavez agradeceu ao Brasil
com um cheque.
Primeiro veja pela própria composição: a
Amazônia tem quase metade do território
brasileiro, mas quantos são os diplomatas
de origem amazônica? A minoria. Quantas
visitas do pessoal das relações exteriores
temos aqui? Pouquíssimas. Em virtude da
omissão da política externa em relação à
Amazônia, vão sendo criadas as ‘paradi-
um ano ele passou dentro do avião; e sete
anos passou fora do Brasil.
Graças ao Chavez muitas indústrias brasi-
Poucos presidentes viajaram tanto
quanto ele, mas sempre voltava de malas
vazias, sem resultados concretos desta
diplomacia presidencial. Na propaganda
leiras não fecharam as portas. Até porque
as indústrias brasileiras não concorrem
mais com os produtos chineses. O Chavez
é
fiel e continua comprando produtos
plomacias’. Onde o Itamaraty se omite, vão
surgindo ONGs para fazer o trabalho dele.
O
Itamaraty se omite na questão comer-
cial: vem os contrabandistas e fazem o tra-
balho dele. E pior: a diplomacia brasileira
sempre é pouco propositiva.
era bem divulgado, ele pode ter sido elei-
to o presidente simpatia (que é!), mas em
termos de resultados concretos realizou
muito pouco. E na Amazônia sua partici-
pação foi particularmente pequena, com
exceção da Venezuela. É verdade. Com
brasileiros. A imprensa brasileira, em vez
de colocá-lo no inferno, deveria fazer um
monumento para ele. Muitos dos anun-
ciantes que sustentam a imprensa brasilei-
ra com grandes lucros estão vivos graças
aos bons negócios com o Chavez. Então
não é hora de jogar ovos no Chavez. É
hora de construir um monumento pra ele
a Venezuela ele soube conduzir bem
e
colocar um buquê de flores em baixo e o
a diplomacia e mais do que nunca, as
Ela remedeia situações. Não se antecipa
multinacionais brasileiras ganharam com
aos problemas que existem. Ela anda e
reage muito lentamente. Reage um ou
o presidente Hugo Chavez.
Brasil agradecer! Sem contar a diplomacia
informal que ele fez lá na Venezuela. O
brasileiro com problemas dentários chega
lá e recebe tratamento de médicos cuba-
dois anos depois. Reagiu muito lentamen-
A Guyana e o Suriname são países esque-
nos a custo zero. O brasileiro chega lá com
te
na política de direitos humanos. Reagiu
cidos. Têm problemas de direitos huma-
o
tanque do carro vazio e paga centavos
10
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
10
06/02/2012
18:24:31
DO SUL BRASILRÚSSIAÍNDIACHINAÁFRICA na gasolina. Este pessoal não pode dizer: o Chavez é um desgraçado.

DO SUL BRASILRÚSSIAÍNDIACHINAÁFRICA

na gasolina. Este pessoal não pode dizer:

o Chavez é um desgraçado. Tem que dizer muchas gracias! (risos)

RT Como o senhor define apartheid social

e as implicações na Amazônia?

AP - O estado de Roraima é um estado artificial. É um estado de funcionários públicos. É um estado que depende de Brasília. Há uma ‘brigaria’ terrível. Tem tantas disputas na Justiça, mas nenhum deles paga o advogado. O Estado é quem paga. Então é um estado muito pouco produtivo. É uma burocracia. E a história tem demonstrado que esta burocracia não cria bases sustentáveis de desenvol- vimento. São funcionários muito bem pagos e de uma altíssima ineficiência! Em nenhum país do mundo ocorre isso. Roraima não é uma colônia. Dentro desta perspectiva, o estado deveria ter ativida- de produtiva para que se autossustente. Agora a minha esperança é de que esta autossustentação venha de tecnologia, de projetos, de descobertas.

RT Como senhor avalia a possível legaliza- ção de extração mineral em terras indígenas brasileiras, sobretudo em Roraima, que tem territórios indígenas que fazem fronteiras com outros países e onde existem miné- rios localizados próximos às nascentes de águas? Como podem ser discutidos melhor estes megaprojetos para a Amazônia?

AP - O Brasil tem que aprender (desculpe

a sinceridade) com as nossas burrices

históricas. Se o Brasil engarrafasse água, como a França faz, e vendesse esta água, nós lucraríamos muito mais que qualquer minério que vá sair daqui. É uma grande burrice, colocar mineradoras que podem acabar com estas fontes de água. Exporta- se. A “água amazônica” já é um marketing. Ganha-se muito mais sem destruir a na- tureza. Então vamos transformar o estado de Roraima em um exportador de água

e não de minério. Vai ganhar muito mais,

empregar muito mais, sem deixar buraco.

É claro que a água é uma metáfora aqui. É preciso a criatividade.

RT Em linhas gerais, o que é o “século

BRICS” (sigla para Brasil, Rússia, Índia, China

e África do Sul)?

AP - São estes países baleias. Mas existem diferenças entre estes países. A China está

baleias. Mas existem diferenças entre estes países. A China está PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 11 06/02/2012
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 11 06/02/2012 18:24:33
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
11
06/02/2012
18:24:33
países. A China está PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 11 06/02/2012 18:24:33 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 11
tepuy primeira ed - Revisão2.indd 11
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd 11

11

países. A China está PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 11 06/02/2012 18:24:33 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
países. A China está PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 11 06/02/2012 18:24:33 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
tecnologicamente talvez meio século adiante do Brasil. Um país com problemas muito maiores que o

tecnologicamente talvez meio século adiante do Brasil. Um país com problemas muito maiores que o Brasil está, hoje, 50 anos na frente. Mas a China passou por reformas estruturais. O Brasil ainda não chegou a este pacto. O brasileiro ainda não tem conscientização.

O brasileiro, por exemplo, só faz greve

para aumentar salário. Não tem uma greve aqui que se fale de qualidade de vida. Não tem uma greve para melho- rar a segurança. É só aumentar salário. Chegou-se ao um absurdo no Brasil de corporações que dizem que o funcionário trabalha 24 horas! É uma mentira históri- ca, porque ninguém consegue trabalhar 24 horas, depois folga 48. É uma farsa na qual se usa a bandeira da democracia. Ou seja, é um procedimento pior que qualquer ditadura, utilizando a bandeira da democracia. É a chamada indústria da democracia que arruína o país. É o abuso do nome que falseia a democracia,

porque democracia não é isso.

A Índia, também, caminha, sobretudo,

com a indústria de alta tecnologia, tec-

nologia de terceira geração. O Brasil não.

O Brasil prefere a exportação de com-

modities. Está na hora do Brasil repensar

isso e sair desta herança terrível. O Lula deixou uma herança maldita. A herança da “exportação de commodities”! Tudo é commodities. Herança maldita que precisa ser revertida. Se possível com exportação com valor agregado. Lem- brando que o País tem inteligência sim!

É preciso apoiar esta inteligência. Nós não apoiamos.

RT O senhor abordou temas muito atuais na publicação O Brasil no Mundo das Drogas, lançado em 99. Que apontamentos podem ser feitos, considerando nossas fron- teiras e as dimensões da região Norte?

AP - As Igrejas católica e evangélica no Brasil têm prestado muito mais atenção a esta causa do que o Estado. Mas a questão das drogas tem a favor dela a mídia. Indiretamente existe a propaganda da droga muito bem feita. O mundo passa por um período de hedonismo, que é a busca pelo prazer. E o hedonismo combi- na perfeitamente com droga. A droga é egoísta. A droga é fruto de uma sociedade egoísta. O Brasil é egoísta. O estudante brasileiro não trabalha em equipe. O

12 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 12
12
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
12
não trabalha em equipe. O 12 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 12
não trabalha em equipe. O 12 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 12
06/02/2012
06/02/2012

06/02/2012

06/02/2012 18:24:34
18:24:34
18:24:34

18:24:34

06/02/2012 18:24:34
trabalhador brasileiro é corporativo, ele quer o salário o mais alto possível, o resto que
trabalhador brasileiro é corporativo, ele
quer o salário o mais alto possível, o resto
que se dane! A famosa frase: “não sou eu
que ganho demais. É o outro que ganha
mal”, é resultado de um País que coloca
certas categorias salariais entre as maiores
salários do mundo, entre elas, a diploma-
cia. Outra coisa, nenhum País do mundo
remunera-se tão bem suas forças de
repressão quanto a diplomacia brasileira.
Para reverter isso, você tem que repensar
o
Brasil antes que seja tarde demais.
RT – Como estudioso de temas diversos,
sobretudo, de problemas sociais brasilei-
ros e questões amazônicas, percebemos
que o senhor utiliza bibliografia também
abrangente em suas obras, convergindo
autores de áreas como a filosofia, econo-
mia, sociologia, direito entre outras. Qual
a importância e os desafios da transdisci-
plinaridade para o diplomata?
“Muitos estudam a região Amazônica pelo índio. Mas a Amazônia não tem só questões indígenas a serem estudadas”, diz Procópio
AP - É porque “todos nós temos razão”.
E
aqui podemos falar sobre a famosa
fábula dos cegos e do elefante. Che-
gou o primeiro cego e abraçou a perna
do elefante e disse: isto aqui é uma
grande coluna. O segundo pegou o
rabo e disse: que nada isso é um fio. O
terceiro estava agarrado no marfim e
disse: vocês estão loucos! Este negó-
cio é pontudo, não tem nada disso. O
quarto deu uma gargalhada, pegando
na orelha do elefante e disse: vocês são
bobos, isto aqui é um leque. O último,
que estava nas costas do animal, disse:
que nada! Isto aqui parece uma mesa.
Então todos riam e ironizavam a situa-
ção, mas nenhum deles estava errado.
Por isso é necessário muito mais que a
interdisciplinaridade, mas sim de uma
visão holística. Transdisciplinar.
Balsas de garimpo no rio Uraricoera (RR): “mas a Amazônia não tem só questões sobre mineração,” diz Procópio
Quanto a Amazônia, estudam-se a
Região pelo índio. Está certíssimo! Mas
a
Amazônia não é só índio. Como o
‘Procópio’ antigamente que estudava
só o garimpeiro. Mas a Amazônia não
é só garimpeiro. A Amazônia também
é cidade. A maior parte da população
amazônica vive na cidade. Se eu esque-
ço da cidade e falo só da selva, eu não
estou falando da Amazônia. A Amazônia
é
água, mas eu não posso ficar só na
água. Tem que lembrar que a mineração
a agricultura poluem a água. Esta é a
visão que tenho.
e
“O consumo de drogas é fruto de uma sociedade egoísta”, afirma Procópio
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
13
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
13
06/02/2012
18:24:38
Foto: Revista Manchete/ano 89Foto:
Éder Rodrigues

TEPUI UFRR

TEPUI UFRR Migração 14)) Roraima elo de imigrantes na fronteira norte do Brasil Espanhóis, ingleses, holandeses,

Migração

14))

Roraima elo de imigrantes na fronteira norte do Brasil Espanhóis, ingleses, holandeses, chineses, venezuelanos,
Roraima
elo de imigrantes na fronteira norte do Brasil
Espanhóis, ingleses, holandeses, chineses, venezuelanos, árabes, judeus, haitianos e africanos.
Estes são alguns grupos de imigrantes que vivem em Roraima e que, por meio de um projeto de
extensão da UFRR, tiveram espaço para compartilhar suas experiências.

GREICK ALVES

D urante seis meses de 2009, a equipe composta pelos professores Thiago Gehre Galvão e Júlia Faria Camar- go, do curso de Relações

Internacionais, Carla Monteiro de Souza, de História, e João Nackle Urt, do instituto Insikiran, usou a história oral e relatos autobiográficos como metodologia cientí- fica para o projeto de extensão “Vivências Internacionais”. Nele, os estrangeiros con- vidados deram seus relatos na forma de palestras, que foram seguidas por debates abertos ao público, mediados pela partici- pação de professores dos departamentos de Relações Internacionais e de História.

O projeto apontou como objetivo geral trazer ao público roraimense relatos originais de experiências de vida de cidadãos estrangeiros falando sobre a realidade de seus países e/ou regiões de origem, para, dessa forma, fomentar o di-

álogo entre estrangeiros e brasileiros; tra- zer narrativas pessoais sobre a realidade estrangeira, produzindo conhecimento não mediado por meios de comunicação de massa; e trazer relatos de cidadãos de diversas regiões do planeta.

Naquele momento, os professores reuni- dos vivenciavam os relatos de tragédias, conflitos e dificuldades passadas pelos imigrantes. Pessoas de lugares longín- quos que no Brasil encontraram aco- lhimento e respeito ao modo de viver. Entre os imigrantes entrevistados estão o sírio Fadel Nagm, a chinesa Peggy Fung e o cubano Tomás Hernández, que hoje fazem da Universidade Federal de Roraima (UFRR) a extensão da casa.

Em 2010, os três participantes foram procurados pela TEPUI, com o apoio dos professores do curso de Relações Internacionais, e aceitaram o convite de

reviver aqueles colóquios. Dividir suas impressões em relação ao Brasil, e mais precisamente Roraima, possibilitou a Fadel, Peggy e Tomas a oportunidade

de externar mais uma vez suas vivências

e dificuldades de adaptação num lugar

onde o Brasil encontra as Repúblicas da Venezuela e Cooperativista da Guyana.

PERSONAGENS

Por meio de relatos espontâneos e apai- xonantes, imigrantes vindos de países como a China, Cuba e Líbano falam como encontraram no extremo norte do Brasil, sobretudo no estado de Roraima,

a motivação e o ambiente necessários a

realização dos sonhos interrompidos por motivos peculiares a cada um deles, mas que encontraram aqui um porto seguro

para o recomeço de suas vidas.

Impressões de cidadãos do mundo que

o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd
o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd

14

o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd
o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd

06/02/2012

o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd
o recomeço de suas vidas. Impressões de cidadãos do mundo que tepuy primeira ed - Revisão2.indd

18:24:43

de formas diversas deixaram para trás trabalho, família, amigos e território. Alguns deles empurrados pelas
de formas diversas deixaram para trás
trabalho, família, amigos e território.
Alguns deles empurrados pelas circuns-
tâncias social, religiosa e política no país
de origem para as fronteiras além mar.
Os imigrantes, como muitos de nós,
escolheram Roraima para edificar a vida.
O que essas pessoas de cultura, etnia,
religião e língua tão diferente têm em
com um, além do fato de escolherem
Roraima para viver?
Essa e outras perguntas foram respondi-
das por três imigrantes que fazem parte
da cultura local, que à primeira vista,
passam a impressão de serem apenas
mais alguns estrangeiros de passagem,
porém, quando observados com um
pouco mais de atenção, têm-se presen-
te vivências de fragmentos da cultura
inserida no território brasileiro.
fragmentos da cultura inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE /
fragmentos da cultura inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE /

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 15 06/02/2012
15
15

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

15

inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 15 06/02/2012
inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 15 06/02/2012

06/02/2012

inserida no território brasileiro. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 15 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 15 06/02/2012

18:24:47

A viagem de férias que uniu um brasileiro e uma chinesa em matrimônio O encontro

A viagem de férias que uniu um brasileiro e uma chinesa em matrimônio

O encontro inesperado com este brasileiro que curtia férias na Coreia do Sul des- viou a trajetória da Chinesa Peggy Fung para Roraima

em 1992. A época, recém-formada no curso de Comunicação de Massa, ela optou em trabalhar no ramo de relações exteriores, na área de comércio entre Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul, Esta- dos Unidos e Europa

A facilidade de falar a língua inglesa, uma vez que Hong Kong, até então, era colônia britânica, lhe permitiu possuir visto de cidadã inglesa. Ela viajava dentro e fora da Ásia realizando negó- cios comerciais. Em uma dessas viagens, Fung encontrou o brasileiro Jorge Perei- ra de Almeida. Após um breve namoro se uniram num casamento coletivo e concorrido, com mais de 1200 casais, ocorrido na Coreia do Sul.

Em seus relatos, Fung lembra que na cultura chinesa os filhos homens são preferidos. Explica que somente eles possuem o nome no livro da árvore ge- nealógica da família. Esse fato da cultura

16

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

família. Esse fato da cultura 16 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 16
família. Esse fato da cultura 16 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 16

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 16 chinesa contribuiu na decisão de Fung
16
16

chinesa contribuiu na decisão de Fung vir para o Brasil, além do sentimento e afeto ao marido brasileiro. Porém, antes de sair da terra natal, ela deu a luz ao pri- meiro dos quatro filhos. Hoje, um jovem com 18 anos. Todos moram em Roraima.

AS DIFICULDADES EM TERRAS BRASILEIRAS

Falante fluente das línguas inglesa e mandarim, Fung revela que passou por dificuldades em se comunicar com outras pessoas no Brasil. “No início, a comunicação entre eu e meu marido era em inglês. Superei as dificuldades no momento em que resolvi lecionar inglês em casa. Naquele momento houve uma troca, permuta, entre mim e os alunos”. Eles aprendiam o inglês e eu aprendia o português. Hoje a minha dificuldade está em assimilar a cultura local. Aqui os brasileiros se cumprimentam de maneiras mais afetivas. Diferentes de nós chineses. Lá somos mais reservados”, explicou Peggy Fung.

Na carteira de identidade de Peggy, por conta da burocracia brasileira, está

assinalada a palavra estrangeira. Ela explica que por várias vezes tentou adquirir a naturalização brasileira, mas sempre esbarrou nas dificuldades com a documentação. “Antes de vir ao Brasil já tentei adquirir a nacionalidade. Porém, sempre diz (as autoridades) que falta do- cumento”, detalhou a dificuldade Peggy.

Do país de origem, Peggy revela que tem mais saudades da família e dos amigos. Por muitos anos, ela manteve contato apenas por meio de cartas e

telefone. Com a facilidade da internet e

o surgimento das mídias sociais, hoje re- encontra os amigos e parentes do outro lado do mundo. “Desde que deixei meu país, há 17 anos, não via meus parentes

e amigos. Até que em fevereiro deste

ano (2010) retornei a Hong Kong e pude ver meu pai pela última vez antes de morrer”, disse Peggy.

A adaptação da estrangeira chinesa em

terras roraimenses ocorreu com certa facilidade. O fato se deu devido ao aco-

lhimento dispensado pelo povo local. Peggy confessa que apesar das diferen- ças das culturas orientais e ocidentais

pelo povo local. Peggy confessa que apesar das diferen- ças das culturas orientais e ocidentais 06/02/2012
pelo povo local. Peggy confessa que apesar das diferen- ças das culturas orientais e ocidentais 06/02/2012

06/02/2012

pelo povo local. Peggy confessa que apesar das diferen- ças das culturas orientais e ocidentais 06/02/2012
pelo povo local. Peggy confessa que apesar das diferen- ças das culturas orientais e ocidentais 06/02/2012

18:24:49

nunca foi hostilizada e nem preterida nos ambientes em que frequenta. “O povo brasileiro (leia-se roraimense) é amigável. O brasileiro no bate-papo do

dia a dia, fala qualquer assunto, sendo

a pessoas estranhas ou não”, diz Peggy

que mesmo após 17 anos em Roraima confessa que a maior dificuldade ocorre na interação social.

Superar barreiras de interação sociais, do tipo: abraços, beijos aperto de mão, leva tempo, já que lá na China, o cum- primento e a intimidade são conquistas que requerem anos de conhecimento.

UMA CRISTÃ NASCIDA NO PAÍS DE TRADIÇÃO BUDISTA

Diferente da maioria dos chineses que seguem o budismo ou o taoísmo, Peggy se professa cristã. Em seus relatos, a chinesa fala que o encontro com a fé cristã ocorreu durante a faculdade. Ensinamentos que até hoje mantém. Para Peggy, o maior estranhamento com

a cultura local aconteceu quando ela

se deparou com a realidade de famí-

lias roraimenses, na qual filhos vivem apenas com a mãe ou apenas com o

pai.

constituídas com o modelo clássico de família: pai, mãe e filhos, juntos.

Segundo ela, as famílias devem ser

O OLHAR DE QUEM CONHECE O MUNDO

Com a autoridade de quem já percor- reu o mundo fechando negócios in- ternacionais, Peggy enxerga a posição geográfica privilegiada do estado de Roraima. Para ela, estar entre a Repú- blica Cooperativista da Guyana e a Venezuela é estar às portas do Caribe, da América do Norte e até da Europa. Ela acredita no potencial comercial do estado de Roraima e prevê o fortale- cimento das relações internacionais. “Aqui é o início do Brasil. Temos ao lado a Zona Franca de Manaus. E creio que a implantação da Zona de Livre Comércio fortalecerá nossos laços com o mundo”, segundo Peggy.

fortalecerá nossos laços com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE
17
17
fortalecerá nossos laços com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE
fortalecerá nossos laços com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17
com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17
com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

17

com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17
com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17

06/02/2012

com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17
com o mundo”, segundo Peggy. 17 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 17

18:24:56

Foto: Nadia e Marcel Nagm
Foto: Nadia e Marcel Nagm

Soldado árabe deixa as armas e vem ao Brasil em busca de paz e liberdade

E m

da

1982, Fadel Nagm deixa a

Síria e vem ao Brasil, cansado

guerra e da persegui-

ção do governo no país de origem. Em solo tupiniquim,

ele encontra a paz necessária para professar a religião espírita na qual era coibida entre os parentes que viviam em sua terra natal. “Sou espírita, e não podia nem comentar entre os amigos, pois havia o risco de ser preso ou coisa pior. Infelizmente, o fundamentalismo religioso tem “fechado” o pensamento dos líderes na Síria. Não suportava a perseguição imposta a mim, então

deixei meu país em busca de paz e liberdade”, desabafou Fadel.

Antes de firmar moradia em Roraima, Fadel residiu um curto período de tem- po na cidade de São Paulo. Lá na capital paulista, o árabe não se adaptou a selva de pedra e saiu depois de encontrar um conterrâneo e ser convidado a vir à terra de Macunaima. Uma vez em solo roraimense, Fadel estruturou a vida e ao lado da mulher Nádia Nagm, brasi- leira de nascimento e filha de libaneses com quem teve três filhos.

18

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

com quem teve três filhos. 18 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 18
com quem teve três filhos. 18 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 18

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 18 Hoje o casal Fadel e Nádia,
18
18

Hoje o casal Fadel e Nádia, são próspe- ros cidadãos roraimenses e orgulhosos de ter escolhido o estado como moradia. “Em Roraima as pessoas são mais recep- tivas do que em São Paulo. Não gostei de estar lá. As pessoas de São Paulo nos tratam com indiferença. Os roraimenses são pessoas boas e sempre estão dispos- tos a ajudar”, acrescentou Fadel.

Nos últimos anos, a família Nagm entrou na Universidade Federal de Roraima, pai esposa e filhos consagram-se no ensino superior. A primeira a se formar foi à matriarca no curso de Comunica- ção Social, em 2008, Nádia Nagm. Em seguida, a filha mais velha, Lucy Nagm no curso de Medicina. Em 2010, foi a vez do filho do meio, Marcel, se formar em Ciência da Computação. Em 2011, será

vez de Fadel e da filha caçula, Soraya, que estuda Arquitetura e Urbanismo na UFRR

e participa do programa de Mobilidade

Estudantil do Santander, em Viçosa (MG).

Não diferente dos demais entrevistados,

o domínio da língua portuguesa tem

sido um obstáculo na adaptação. “Eu pretendo lecionar a disciplina de Histó-

ria. Já ministro aulas como substituto na universidade, mas o domínio da língua portuguesa ainda me deixa um pouco confuso. Atrapalho-me na escrita, já que

é muito diferente da árabe. Aos poucos

vou me adaptando com a escrita, pois

a compreensão necessita de uma boa interpretação”, explicou Fadel.

O PÃO ‘ÁRABE’ DE CADA DIA

O nosso entrevistado Fadel Nagm rece-

beu a reportagem em um dia rotineiro de trabalho. Na ocasião, ele preparava a massa para produzir cerca de 200 esfir-

ras e 100 folheados. O calor intenso do forno não afugentou o hábil Fadel que nos proporcionou a degustação de um de seus quitutes.

O homem de sorriso largo e afetuoso

revela que há oito anos se dedica à fabri- cação e venda de massas árabes na ca- pital roraimense. A técnica exigida para

o preparo de esfirras, kibes, folheados,

etc, veio das cozinhas da Síria onde ele

trabalhou depois de deixar o Exército. No entanto, confessa que nem sempre foi assim. No início da vida morando em

de deixar o Exército. No entanto, confessa que nem sempre foi assim. No início da vida
de deixar o Exército. No entanto, confessa que nem sempre foi assim. No início da vida

06/02/2012

de deixar o Exército. No entanto, confessa que nem sempre foi assim. No início da vida
de deixar o Exército. No entanto, confessa que nem sempre foi assim. No início da vida

18:24:57

São Paulo, Fadel relatou que trabalhou de mascate e caixeiro viajante.

Por fim, o anfitrião lembrou que em 2007,

voltou à Síria para reencontrar a família,

e se entristeceu ao ver que houve muito

pouco avanço no regime político. “Voltei à

Síria há três anos e vejo que lá está de mal

a pior. Quando o país laico não conseguiu

resolver o problema da população síria, o radicalismo religioso voltou ao poder com Estado Teocrático. Eu não acredito nessa forma de poder e agradeço estar aqui em Roraima”, refletiu o árabe Fadel.

Em relação a estar morando num Estado de fronteira, Fadel relata que antes de vir a Roraima trabalhou na Venezuela e por uma semana esteve na Guyana enquanto aguardava o visto perma- nente brasileiro. Na atualidade, possui nacionalidade síria e brasileira, mas nem de longe diz haver comparação entre os países. “Não gostei de viver na Vene- zuela. Fiquei na Guyana apenas pelo período de espera do visto permanente. Esses países não se comparam ao Brasil. Eu amo esta terra”, declarou Fadel.

As Montanhas de Golan na Síria foram ocupadas durante a Guerra dos Seis Dias. Em
As Montanhas
de Golan na Síria
foram ocupadas
durante a Guerra
dos Seis Dias. Em
1980, Fadel em
destaque na foto,
posa ao lado dos
compatriotas em
cima do tanque
blindado sírio,
responsável pela
guarnição na
fronteira norte
do país
responsável pela guarnição na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE
19
19
pela guarnição na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE /
pela guarnição na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE /

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19
na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19
na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

19

na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19
na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19

06/02/2012

na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19
na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19
na fronteira norte do país 19 tepuy primeira ed - Revisão2.indd PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 19

18:25:09

Roraima é a terra que ‘por acaso’ encantou um cidadão cubano C ansado do “velho”

Roraima é a terra que ‘por acaso’ encantou um cidadão cubano

C ansado do “velho” regime so- cialista, o nosso entrevistado saiu de Cuba para não mais voltar enquanto a situação política e econômica não

mudar. Nas palavras de Tomás Hernán- dez, aquele país carece de uma reforma ideológica capaz de aliar os louros do Capitalismo, como a mobilidade econô- mica, às conquistas obtidas no regime socialismo cubano, como, por exemplo, a educação e a saúde pública.

Diferente de muitos compatriotas, Tomás pode retornar a Cuba a hora que bem entender. Porém, de sua vontade, não nos dias atuais. Os motivos em deixar a terra natal perduram ainda hoje, apesar da mudança de governo. “Deixei meu país para prosperar na vida. Em Cuba a situação é difícil. Faltam opor- tunidades profissionais e econômicas”, esclareceu Tomás, que teve sua forma- ção Superior em Educação Física na Universidade de Cuba.

Em Roraima, se tornou professor de língua espanhola e hoje ministra aulas no NUCELE/UFRR. Graças ao seu empe-

20

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

Graças ao seu empe- 20 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 20 nho
Graças ao seu empe- 20 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 20 nho

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 20 nho e dedicação, superou a dificuldade

20

nho e dedicação, superou a dificuldade da língua portuguesa e hoje realiza o sonho de cursar o mestrado em Letras pela própria UFRR.

Para Tomás, a adaptação em solo brasi-

leiro foi tranquila, já que as característi- cas culturais latinas se assemelham no geral cultural, apesar da diferenciação linguística. Tomás conta que morar em Roraima surgiu ‘por acaso’. Reflexivo, explica que a vinda do pai, pianista,

à cidade venezuelana de Santa Elena

de Uairén e, posteriormente, à capital Boa Vista, propiciou o ingresso dele ao

Brasil. “Um acaso me trouxe a Roraima. Meus pais vieram trabalhar aqui e com

o tempo foi minha vez”, justificou o cubano.

A COMUNIDADE CUBANA EM RORAIMA

Fora de Cuba desde 2003, Tomás relembra dos tempos de infância e juventude. Lá ficaram os amigos e os familiares. Uma história hoje contada entre rodas de amigos cubanos resi- dentes em Roraima.

Hernández revela que muitos cuba- nos residentes em Roraima se reúnem nos fins de semana. Nos cálculos dele, Roraima possui cerca de dois mil cuba- nos. Nesses encontros, as conversas se direcionam ao apoio necessário à

pessoa que está fora de sua terra natal. Mas o calor humano do brasileiro alivia

a distância e ajuda a superar as dificul- dades. “Somos todos da mesma raiz latina, onde as alegrias do povo cubano

e brasileiro se igualam”, explica.

Na visão do cubano, estar na fronteira com dois países distintos proporcio- na uma oportunidade única, já que

a diversidade linguística, política e

culturais praticadas entre Roraima, Guyana e Venezuela são laboratórios ainda inexplorados.

e culturais praticadas entre Roraima, Guyana e Venezuela são laboratórios ainda inexplorados. 06/02/2012 18:25:11
e culturais praticadas entre Roraima, Guyana e Venezuela são laboratórios ainda inexplorados. 06/02/2012 18:25:11

06/02/2012

e culturais praticadas entre Roraima, Guyana e Venezuela são laboratórios ainda inexplorados. 06/02/2012 18:25:11
e culturais praticadas entre Roraima, Guyana e Venezuela são laboratórios ainda inexplorados. 06/02/2012 18:25:11

18:25:11

UFRR: Política de internacionalização e apoio aos exilados políticos

A UFRR foi a primeira instituição federal de

ensino superior da Região Norte a aprovar uma resolução que permite o ingresso de

alunos na condição de refugiados políticos no país. Em 2008, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) aprovou a resolução com base na solicitação dos representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que em 2006 visitaram Roraima. Segundo

o comissariado, Roraima faz parte de uma

rota utilizada por muitas pessoas que en- tram no Brasil e encontram-se na situação de refugiado político.

Relações Internacionais e a Coordenadoria de Relações Intenacionais como parte da construção deste processo.

Conceito

Conforme a Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados é considerado “re- fugiado” ou “refugiada” toda pessoa que é perseguida devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, que se encontra fora do seu país de origem e que, por causa dos temores, não pode ou não quer regressar a nação.

A

internacionalização universitária prepara

a

comunidade para o convívio com culturas

Números

e

povos distintos, além de levá-la a um

novo olhar sobre sua própria realidade. A UFRR está inserida neste processo uma vez que oportuniza o aprendizado, aproximan- do estudantes e professores do conceito de humanidade ao retirar-lhe seu sentido abstrato e distante.

A UFRR, por exemplo, criou o curso de

Relações Internacionais (único oferecido por uma Instituição de Ensino Federal da Região Norte); o Núcleo de Pesquisas em

Segundo dados da Pastoral da Igreja Católica em Boa Vista, até 2008, Roraima registrou a passagem de vários imigrantes vindos de países diversos. Os números mostram que em 2006, registrou-se 21 venezuelanos, um espanhol, dois japone- ses. Em 2007, 33 venezuelanos, quatro afri- canos, um português e dois espanhóis. Em 2008, 12 venezuelanos, cinco espanhóis, três holandeses e sete ingleses.

cinco espanhóis, três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE /
cinco espanhóis, três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE /
cinco espanhóis, três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE /

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21

21

três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21
três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21
três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

21

três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21
três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21

06/02/2012

três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21
três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21
três holandeses e sete ingleses. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 21 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 21

18:25:19

Do século XVI à atualidade: a imigração em

Roraima e as redes de informação

a imigração em Roraima e as redes de informação Carla Monteiro de Souza Doutora em História,

Carla Monteiro de Souza

Doutora em História, professora do Curso de História e do Mestrado em Letras da UFRR. Autora de “Gaúchos em Roraima” e de “Migrantes e Migrações em Boa Vista”.

22

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

e Migrações em Boa Vista”. 22 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 22
e Migrações em Boa Vista”. 22 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 22

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 22 É sabido que desde o século

22

É sabido que desde o século XVI as caravelas europeias trafegavam pelo Caribe em busca do famoso Eldorado (do original El Dorado). A

origem dessas aventuras remontam às épocas coloniais e abriram o caminho para todo tipo de viajantes que che- garam ao extremo norte em busca de oportunidades nesses territórios ainda a serem explorados, impulsionados pelas promessas de riquezas minerais, provenientes das lendas indígenas.

Em diferentes momentos e mais acen- tuadamente na década de 1980, em função da febre dos garimpos de ouro, Roraima recebeu pessoas oriundas de outros estados do Brasil e de países limítrofes, como Venezuela, República Cooperativista da Guyana, Suriname, Guyana Francesa.

Porém, o interesse em Roraima decorrente da febre do garimpo foi efêmero e após o seu fechamento, em 1991, o êxodo se confirmou. Mas mui- tos permaneceram aqui e trouxeram famílias e amigos. Esse fenômeno fez com que Roraima seja hoje o lar para muitos imigrantes.

Para a professora doutora Carla Mon- teiro de Souza, do departamento de História da UFRR, que também trabalha com História Oral como metodologia na construção de fontes de pesquisa científica, o deslocamento de famí-

lias pode ser entendido a partir das chamadas “redes de informação”. Este

é um fenômeno que se repete em

praticamente todos os deslocamentos populacionais. “A rede é um processo de circulação de informações. Nela uma pessoa dá notícia do lugar onde está a outra pessoa. Dessa forma, o migrante trás a família e os amigos de outras regiões”, detalhou a professora.

Segundo a professora, o fato de o Brasil ser considerado um país emergente, tem contribuído para incentivar o des- locamento do imigrante para Roraima. Nota que essa imigração atual traz uma diversificação de pessoas, inclu- sive aquelas com melhor qualificação profissional, como é o caso de Peggy, Fadel e Tomás.

Porém, Roraima também serve de corredor de passagem para aqueles que hoje direcionam suas ambições para os garimpos. “O garimpo é uma atividade secular, primária. Por isso tem gerado o deslocamento de brasileiros e estrangeiros que passam por Roraima com destino à Venezuela e Guyanas”, ressaltou Carla.

Outro fato apontado pela professora

é a tradição do Brasil em ser recep-

tivo ao imigrante e por não ter uma legislação que impõe empecilhos à entrada e permanência deles. Essa constatação é evidenciada desde a colonização portuguesa.

à entrada e permanência deles. Essa constatação é evidenciada desde a colonização portuguesa. 06/02/2012 18:25:22
à entrada e permanência deles. Essa constatação é evidenciada desde a colonização portuguesa. 06/02/2012 18:25:22

06/02/2012

à entrada e permanência deles. Essa constatação é evidenciada desde a colonização portuguesa. 06/02/2012 18:25:22
à entrada e permanência deles. Essa constatação é evidenciada desde a colonização portuguesa. 06/02/2012 18:25:22

18:25:22

Diversidade: a alta migração encontrada em Roraima faz o mercado escolher pessoas com melhor qualificação,
Diversidade: a alta migração encontrada em Roraima faz
o mercado escolher pessoas com melhor qualificação,
como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
23
qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23
qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23
qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23

06/02/2012

qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23
qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23
qualificação, como são os casos de Peggy, Fadel e Tomás tepuy primeira ed - Revisão2.indd 23

18:25:29

24)) Tráfico de Pessoas Exploração Sexual nas fronteiras: um breve diagnóstico da situação Ser um

24))

Tráfico de Pessoas

Exploração Sexual nas fronteiras: um breve diagnóstico da situação Ser um estado de fronteira traz
Exploração Sexual nas fronteiras:
um breve diagnóstico da situação
Ser um estado de fronteira traz temáticas passíveis às discussões nos âmbitos
nacional e internacional. Este é o caso dos estados das regiões norte, centro-
oeste e sul do País, que sofrem com as estatísticas da exploração sexual.
ALINE PADILHA
ÉDER RODRIGUES
T emas como a
violência, tráfico
sexual pelo ICMPD. Geralmente estas
vítimas possuem baixa escolaridade; têm
e
exploração
sexual de jovens
entre 20 e 30 anos e expectativa reduzida
de ascensão social. Este é o resultado de
e
crianças estão
constantemente em pauta nas
discussões sobre as proble-
máticas sociais, sobretu-
do de países fronteiriços.
No final do mês de
maio de 2011, por
exemplo, foi realiza-
da, em Brasília (DF),
três estudos feitos com base em entrevis-
tas com vítimas do tráfico e pessoas que
se prostituíram realizados no Brasil, em
Portugal e na Itália pela ICMPD.
descarta a possibilidade de assinar con-
vênios com outras nações para a troca de
informações, tecnologias e também para a
capacitação de agentes de repressão e de
prevenção, a exemplo do que já foi feito en-
tre a Argentina, Espanha, Portugal e o Brasil.
De acordo com as informações coletadas
pela ONG, o processo de recrutamento pa-
rece ter evoluído, em alguns casos, do mo-
delo clássico, que utiliza as características
conferência
com o tema
Prevenção e
Resposta ao
Tráfico de Se-
res Humanos
do Brasil para
os Estados
Membros da
União Europeia,
uma parceira
entre a Organi-
zação Não Go-
vernamental
europeia Centre
for Migration
Policy Development
(ICMPD) e a Secretaria Nacional
de Justiça (SNJ), do Ministério
da Justiça, na qual participa-
ram especialistas nacionais e
internacionais no assunto.
a
típicas do tráfico de seres humanos (como
o engano, o rapto, a ameaça ou até mesmo
a violência física) para uma abordagem
aparentemente mais negociada, na qual
as vítimas percebem-se como parceiras do
negócio em relação aos recrutadores.
Para ele, o Ministério da Justiça tem traba-
lhado com uma política de enfretamento
ao tráfico de pessoas, seguindo três nortes
principais: primeiro, a ideia de repressão
dos crimes; a segunda é a repressão. Por
último, ao identificar as vítimas é feito o
trabalho de assistência e apoio. O Governo
pretende dentro de quatro anos criar, nos
estados, núcleos ou postos avançados de
enfrentamento ao tráfico de pessoas, com
apoio dos governos locais e da sociedade
civil. “O plano brasileiro de algum modo já
é
BRASIL
referencial para os países da América do
Sul,”completou o ministro.
A
parte do estudo feita no Brasil aponta
que, nos últimos três anos, houve um
aumento contínuo no recrutamento de
PESQUISA DA UFRR REVELA
REGIÕES VULNERÁVEIS
transexuais e mulheres, em áreas periféricas
A
exploração sexual na tríplice fronteira
e
pobres do país, diretamente nas localida-
des de origem, onde pouco se sabe sobre o
fenômeno do tráfico de seres humanos ou
sobre os direitos dos migrantes e não mais
em grandes centros urbanos. Segundo
norte do Brasil fez o estado de Roraima
ser considerado, pelas autoridades,
estudiosos e pesquisadores, como um
corredor do tráfico de mulheres e crian-
ças para fins de exploração.
o
levantamento, os principais estados de
origem das vítimas são Paraná, Goiás, Minas
Gerais, Pará, Piauí e Pernambuco.
O
secretário Nacional de Justiça, Paulo
Durante o evento foram divul-
gados dados que mostraram o
perfil das vítimas da exploração
Abrão, disse que há uma relação entre o
crime do tráfico humano e outros delitos.
Segundo ele, o Ministério da Justiça não
As BRs 174 e 401 conectam a região
Norte do Brasil a Venezuela e a República
Cooperativista Guyana, respectivamente.
São áreas de fronteira constituídas pelas
cidades de Pacaraima (Brasil) e Santa Elena
de Uairén (Venezuela) e também Bonfim
Fronteira: Brasil e Venezuela
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
24
06/02/2012
18:25:37
TEPUI UFRR
Posto de Fiscalização na fronteira Brasil e Venezuela (Brasil) e Lethem (da Guyana). Estas cidades

Posto de Fiscalização na fronteira Brasil e Venezuela

(Brasil) e Lethem (da Guyana). Estas cidades

e outros vilarejos nas circunvizinhanças das zonas urbanas estão em áreas de incidência de tráfico de pessoas.

Cidades fronteiriças, como é o caso destas que têm interconexão na tríplice fronteira norte do País, preocupam as autoridades e são também o alvo de campanhas e ações de combate ao tráfico e a exploração sexual infantil, como é o caso do Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfren- tamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil no Território Brasileiro (PAIR).

O PAIR é uma ação do governo federal que faz parte do Programa Nacional de Enfren-

tamento à Violência Sexual contra Crianças

e Adolescentes da Secretaria Nacional de

Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

É um programa com uma metodologia

própria, com objetivo de integrar políti- cas para a construção de uma agenda de trabalho entre os governos, a sociedade

civil e organismos internacionais, visando

o desenvolvimento de ações de proteção

a crianças e adolescentes vulneráveis, e

ainda, às vítimas de violência sexual e ao tráfico para fins sexuais.

Elaborado em 2002, o programa é subsi- diado pela Constituição Federal (art. 227), pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pelas normativas internacionais assinadas pelo Governo Federal e Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes. Diz o artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente que “É dever da família, da

sociedade e do Estado assegurar a criança

e

ao adolescente, com absoluta prioridade

o

direito à vida, à saúde, à alimentação, à

educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberda- de e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação exploração violência, crueldade e opressão”.

Em 2003 foi posto em prática, em fase de experiência pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Em seguida foi feita uma seleção de locais para a implantação do PAIR, que teve como base os maiores índices da violência sexual em regiões de fronteira seca nos países da América Latina e Caribe.

UFRR

Dentro deste contexto, a Universidade Fe- deral de Roraima apresentou um projeto de extensão abordando os municípios de Boa Vista, Bonfim e ainda Caracaraí, município roraimense que também é considerado um dos locais mais vulneráveis à exploração sexual por ser localizado às margens do Rio Branco e ser cortado pela BR174.

Na lista de ações do PAIR estavam os

trabalhos de visitação, articulação política

e institucional, questionários aplicados e a formação de comissões que contaram com

a participação de vários órgãos. O material

analisado serviu de subsídio para orientar o

processo de capacitação previsto.

O projeto foi aprovado no final de 2005,

e entre 2006 e 2008 foram desenvolvi-

das pesquisas, encontros de formação e articulação de rede, elaboração dos planos operativos locais, o mapeamento do fenô-

meno nos municípios investigados (Boa vista, Bonfim e Caracaraí) coordenados pelo Instituto de Geociências (Igeo) da UFRR.

PESQUISA

Em Roraima, as ações foram colocadas em prática com auxilio dos professores Flávio Corsini, Elivânia Bezerra de Oliveira, Fábio Luiz Wankler, Geyza Alves Pimentel, Tatiana Saldanha, Rafael Oliveira e Paula Adelaide Mattos Santos. O resultado dos trabalhos junto ao PAIR resultou no livro Violência Sexual Infanto Juvenil – experiências do Enfrentamento em Roraima, publicado em 2009. Foram trabalhados seis eixos: Análise da Situação, Mobilização e Articulação, Defesa e Responsabilização, Atendimento, Prevenção e Protagonismo Juvenil.

Além dos docentes, estiveram envol- vidos gestores, policiais, conselheiros tutelares, assistentes sociais, psicólogos, agentes de saúde, líderes comunitários, indígenas, taxistas, funcionários de empresas privadas, militares, pessoas ligadas ao setor de turismo da Capital e outros segmentos da sociedade.

Pelo PAIR, foram entrevistadas, 2007 a 2009, mais de quatro mil e trezentas pessoas, entre mulheres (62,5%), jovens

de 15 a 25 anos (48,4%), adultos entre 26

e 60 anos (48,8%) e pessoas com mais de sessenta anos 2,8%.

Os dados da pesquisa feita em Roraima mostraram que 10% dos participantes não concluíram o ensino fundamental, 29% não concluíram o ensino médio, 26,5% concluíram o ensino médio e 11,4% tinham o ensino superior comple- to. O número de participantes com especialização foi de 4,6. 5% não res- ponderam. A pes- quisa considerou os municípios de Bonfim, Caracaraí

e Boa Vista.

considerou os municípios de Bonfim, Caracaraí e Boa Vista. Escola que Protege capacita mais de 1300
Escola que Protege capacita mais de 1300 pessoas em Roraima O Programa Escola que Protege
Escola que Protege capacita mais de 1300 pessoas em Roraima
O Programa Escola que Protege pretende
lência identificadas ou vivenciadas nos sistemas
Vista, de 2008 a 2010 e capacitou 1.100 pro-
prevenir e impedir a violência contra crianças e
adolescentes no Brasil, contando com a ajuda
de profissionais capacitados e incentivando a
discussão e o debate sobre as situações de vio-
de ensino.
O trabalho prioriza ainda projetos
apresentados por instituições públicas de ensino
superior. A UFRR desenvolveu o programa tam-
bém nos municípios de Bonfim, Caracaraí e Boa
fissionais de diversas áreas ligadas a Educação
no sistema presencial. Ainda foram capacitadas
mais de duzentos por meio do sistema virtual.
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
25
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
25
06/02/2012
18:25:44
Indígenas são vítimas de exploração sexual e de tráfico humano em Roraima Estudantes do Instituto

Indígenas são vítimas de exploração sexual e de tráfico humano em Roraima

Estudantes do Instituto Insikiran de Educação Superior Indígena denunciam exploração sexual de mulheres indígenas na fronteira do Brasil e Venezuela

JOHANN BARBOSA ÉDER RODRIGUES

O táxi intermunicipal apanha

primeiro uma professora.

Logo depois outra mulher

embarca no transporte que

tem como destino a BR-174

Norte, sentido Brasil-Venezuela. Em seguida são feitas escalas em diferentes bairros da cidade no entorno da fronteira e em cada uma dessas paradas, jovens mulheres entram no carro. Uma delas desiste mo- mentos antes, causando irritação naquela que parecia a mentora das outras. Veículo lotado, as jovens com passaporte em mãos seguem viagem com destino à fronteira. A professora observa atentamente a conversa entre as demais:“- Ela está lá, mas a situação não é muito boa”.“- Temos que chegar logo senão a fronteira vai fechar”.

Pouco mais de 100 km depois, numa comunidade indígena do município

26

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

indígena do município 26 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 26 de Amajari
indígena do município 26 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 26 de Amajari

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 26 de Amajari (RR), a professora desceu.
26
26

de Amajari (RR), a professora desceu. Chegou ao seu ponto final com algu- mas certezas. Aquelas mulheres seriam exploradas sexualmente no país vizinho. Ela tinha consciência de não se tratar de um caso isolado. Sabia também que na comunidade onde dá aulas, bem como em outras próximas, existem casos de exploração e abuso sexual de indígenas, inclusive crianças.

A situação do táxi despertou na professora

a vontade de fazer algo para combater uma

prática revoltante. O despertar ganhou fôle- go no trabalho da turma de Licenciatura Intercultural Indígena com habilitação em Ciências da Natureza, do Instituto Insikiran da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

São 22 acadêmicos que ministram aulas em diversas comunidades indígenas do

Estado e assim como a professora citada

anteriormente, conhecem casos e se pre- ocupam com o crescente abuso sexual de crianças indígenas. “Juntando esse problema ao alcoolismo e à falta de um material para se trabalhar a prevenção, pensamos nessa atividade para encerrar

o curso”, explicou a professora Jovina Mafra, que coordenou os trabalhos.

DIDÁTICA

O grupo se empenhou em expor essa pro-

blemática de maneiras diferentes. Além de uma carta que já circulou pela Internet em sítios de grande acesso, a turma produziu uma história em quadrinhos, um artigo e um vídeo de animação contando a histó- ria relatada no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula.

no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula. 06/02/2012
no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula. 06/02/2012

06/02/2012

no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula. 06/02/2012
no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula. 06/02/2012
no início desta matéria. Tudo isso foi levado às comunidades onde os acadêmicos dão aula. 06/02/2012

18:25:52

“Agora vamos analisar o que pode ser me-

lhorado e discutir como usar esse material educativo da melhor maneira possível. To- dos mostraram interesse no trabalho, uma vez que é um tema delicado para morado- res das comunidades Macuxi, Wapichana

e Ingarikó . Muitas vezes as crianças não têm noção de que são vítimas de abusos sexuais”, acrescentou Mafra.

Esse trabalho significa um passo importan- te para combater um crime, no qual as víti- mas costumam se isolar. Ficam em silêncio, por medo, tornando o combate ao abuso um trabalho difícil. Por isso, o interesse dos professores, figuras que fazem parte do co- tidiano de muitos indígenas, vem cumprir um papel fundamental para que os jovens possam identificar e combater abusos que deixam sequelas por toda a vida.

APOIO

A carta publicada pelos estudantes foi

postada em diversos sítios pela Internet recebendo apoio de entidades que lutam pela defesa dos Direitos Humanos, indí- genas vítimas de exploração doméstica e sexual e de tráfico humano em Roraima. Em março deste ano, os representantes da Pastoral Indigenista e da Sociedade Civil Organizada de Roraima, do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Comissão Internacional de Encontros de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana, manifestaram apoio à ação dos estudantes do Insikiran. “Defendemos a vida e somos contra todo tipo de violência e escravidão”, explica o documento também publicado na web. “Apoiamos a iniciativa do Instituto Insiki- ran e afirmamos que as denúncias que os alunos dessa instituição relatam na carta são verdadeiras. A escravidão e a injustiça contra os povos indígenas ainda existem neste Estado”.

O documento revela que nos últimos

anos, o número de casos de vítimas da exploração doméstica e sexual e do trá- fico humano tem aumentado e existem casos de jovens indígenas que são explo- radas, aliciadas por pessoas da Guyana e da Venezuela e traficadas para os Estados Unidos da América. O estado de Roraima foi identificado como rota caribenha, onde as meninas são levadas também para a Europa.

onde as meninas são levadas também para a Europa. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 27 Carta
onde as meninas são levadas também para a Europa. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 27 Carta

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

também para a Europa. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 27 Carta Aberta do Instituto Insikiran: Indígenas
27
27
Carta Aberta do Instituto Insikiran: Indígenas União dos Povos contra o tráfico de Roraima seres
Carta Aberta do Instituto Insikiran:
Indígenas
União dos Povos
contra o tráfico de
Roraima
seres humanos em
Nós alunos do curso de
do Instituto
Insi-
Licenciatura Intercultural
povos
e Ingari-
Macuxi, Wapichana
kiran – UFRR, pertencentes aos
có, entendemos que o
tráfico humano é
uma questão grave, que tem
acontecido em Roraima, sob
aliciando
nossos olhos,
meninas indígenas
e barbaramente
Os aliciado-
que são traficadas
exploradas sexualmente.
res conquistam a confiança
das famílias
fazendo-se passar por pessoas
oferecendo-lhes carona,
generosas, boazinhas,
empregos lucrativos que
As ofertas de
em Manaus,
envolvem viagens.
trabalho geralmente são
ou Suriname.
Guiana, Venezuela
e pensamos que
tráfico
para enfrentar o
Por isso, nos organizamos
que existe
uma
de pessoas é necessário, sobretudo,
ousadia e mostrar
de proteger suas
sociedade organizada capaz
crianças, adolescentes e
e expropriação de
sua dignidade humana.
mulheres contra a exploração
dos levantamentos que apontam
Ro-
Não podemos nos
omitir diante
do Tráfico, onde a
população indígena
raima como rota internacional
educadores e iremos agir
aparece com maior vulnerabilidade! Somos
atividades para mobilizar
as populações indígenas para
fazendo diversas
essa realidade.
dos
nossas
não índios, nós
Antes da chegada
riquezas naturais e
podíamos desfrutar de
tivéssemos
sem que
das belezas aqui existentes,
a
exploração e o trafico de pessoas. Hoje, os
que nos preocupar com
aliciadores usam os sonhos de
falsa riqueza, as ilusões criadas pela po-
e fortalecida
feliz
pela televisão de que uma vida
pulação não indígena
da família e de
sua Terra Mãe.
é uma vida com muito dinheiro, longe
Com simpatia, seduzem
as pessoas e as levam
para longe onde desa-
e as
parecem… Eles aprisionam
escravizam
as pessoas, roubam seus documentos
maneira desumana.
nossa Terra
Já lutamos e de conquistamos
Mãe Livre! Agora lutaremos
mulheres
que são
o
isso,
nosso futuro. Para
por nossas crianças, jovens e
escrevemos
que lideranças,
escolas, comunida-
essa carta que propõe
o
des saibam o perigo que
tráfico de pessoas
representa e se organizem,
denunciem e protejam
seus jovens.
aos dados de
Tráfico
maior atenção
Solicitamos das autoridades
e à Secretaria de Estado
de Educação de
de pessoas em Roraima
prioritária
dessa temática
como meta
no Plano
Roraima a inclusão
Estadual de Educação.

“Afirmamos também a dificuldade das autoridades competentes, quanto à abertura do processo investigativo, seja pela deficiência de estrutura e incompe- tência, para dar uma resposta efetiva à sociedade roraimense, devido à ausência de provas suficientes. Além de Rorai- ma encontrar-se entre duas zonas de fronteiras, Guyana e Venezuela, ambos os países possuem garimpos ilegais, locais de prostituição e drogas, sendo fácil o acesso aos dois países”, complementa o texto, assinado pela Pastoral Indigenista de Roraima, Sociedade Civil organizada de Roraima, Comitê Nacional de Enfrenta- mento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes Comissão Internacional de Encontros de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana.

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

27

de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 27 06/02/2012
de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 27 06/02/2012

06/02/2012

de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 27 06/02/2012
de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 27 06/02/2012
de Fronteiras das Igrejas Católicas de Brasil, Venezuela e Guyana. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 27 06/02/2012

18:25:56

28)) Pesquisa Índio urbano deixa-se a aldeia, preservam-se os hábitos Estudo traça perfis reconhecidos pelos
28))
Pesquisa
Índio urbano
deixa-se a aldeia, preservam-se os hábitos
Estudo traça perfis reconhecidos pelos próprios indígenas que vivem em bairros
da periferia de Boa Vista e que deixaram as aldeias
WILLAME SOUZA
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
28
06/02/2012
18:26:02
Arte sobre gravura de Amazoner Okaba
TEPUI UFRR
“ T udo índio, tudo parente”. O verso da música “Tudo Índio”, composta pelo artista
“ T
udo índio, tudo parente”. O
verso da música “Tudo Índio”,
composta pelo artista rorai-
mense Eliakin Rufino, retrata
bem a profunda ligação entre
comunidade de Sucuba, no município de
Alto Alegre, a cerca de 90 km da capital.
Ela se autodefine como índia da cidade.
os indígenas que deixaram a aldeia e
vieram morar em Boa Vista. Na música,
uma alusão aos índios que vieram viver
na cidade, os hábitos permanecem, inse-
ridos nesse novo contexto cultural não é
tão simples assim.
O habitual é conceituar os indígenas
Isso porque, conforme o professor
Reginaldo Gomes, a jovem pertence ao
povo indígena Wapixana, que, a exem-
plo dos Macuxi, habitava os arredores da
fazenda Boa Vista no começo do século
XIX. Instalada por volta de 1830 às mar-
gens do rio Branco, essa propriedade é o
marco inicial da povoação da área onde
hoje se localiza a capital do Estado.
como o índio que vive na cidade e o
que mora na aldeia. Porém, em um
estado como Roraima, onde, conforme o
Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de
Geografia Estatística (IBGE), 11,02% da
população se declaram indígena, essas
caracterizações vão mais além, e os pró-
prios índios residentes em Boa Vista, de
certa forma, têm consciência disso.
“A fazenda incorporou esses indígenas
dessas aldeias e os transformou em cabo-
clos ou cidadãos urbanos. A Constituição
de 1988 levou esses indígenas a refletir
a sua trajetória histórica, sua etnicidade.
Então, eles se identificam como índio da
cidade, por serem indígenas dessas aldeias
que já estavam presentes antes do surgi-
mento de Boa Vista”, explica o professor.
Tanto é que nas oficinas culturais do
projeto de extensão Kuwai Kîrî – a ex-
periência amazônica dos índios urbanos
de Boa Vista, coordenado pelo profes-
sor doutor da UFRR Reginaldo Gomes,
surgiram autodefinições ainda pouco es-
tudadas pela academia. Eles percebem
diferenças entre o índio da cidade e o
índio na cidade, que, no fim das contas,
são definidos como índios urbanos.
Ser indígena na cidade, algo que a
enquadra como urbana, não a torna
menos índia. Inserida em um contexto
em que 2,14% dos habitantes se decla-
ram indígenas, segundo o IBGE, não é
difícil preservar alguns hábitos da aldeia.
Denise fala wapixana e pratica a língua
materna com a avó. “Precisamos valori-
zar nossa cultura. Não podemos deixá-la
morrer”, acrescenta.
O projeto do professor, que atua na linha
de etnohistória, foi realizado em parceria
com a Organização dos Indígenas da
Cidade. O objetivo da iniciativa, que cul-
minou com a publicação do livro Projeto
Kuwai Kîrî – a experiência amazônica dos
índios urbanos de Boa Vista - Roraima, era
discutir novas abordagens e interpreta-
ções desses povos que moram na capital.
Por meio de estudos, depoimentos e
pesquisas realizadas durante conversas
com indígenas de várias etnias que resi-
dem em bairros da periferia da capital,
Gomes percebeu diferenças ainda pouco
abordadas pelos pesquisadores.
Na casa de Denise, ao contrário do ha-
bitual café oferecido ao visitante pelos
não índios, o que se oferece aos colegas
indígenas é o chibé, que consiste em fa-
rinha de mandioca misturada com água.
A damorida, peixe cozido com bastante
pimenta, tucupi e folhas, também é
alimento comum no dia-a-dia dela.
“Se eu sou filha de uma índia e de um
índio Wapixana, meu sangue é índio, é
Wapixana. Sempre vou carregar isso. Eu
não tenho como negar. Não vou deixar
de ser índia porque vivo na cidade”, diz.
A estudante Denise descende de Wapixana, etnia que, a
exemplo dos Macuxi, habitava a área onde está situada
Boa Vista, detalhe que a faz se considerar “índia da cidade”
DA CIDADE: ‘ENGOLIDOS’
PELO SURGIMENTO DE
BOA VISTA
NA CIDADE: ENTRE O RU-
RAL E O URBANO
Denise Wapixana tem 29 anos, é estu-
dante do curso de extensão no Insikiran.
Ela nasceu em Boa Vista e é filha de pai e
mãe indígenas. Ela viveu na aldeia até os
oito anos, após ir recém-nascida para a
Alex Makuxi, 20 anos, nascido na comu-
nidade São Jorge, localizada no muni-
cípio de Pacaraima, a cerca de 220 km,
estudante do 7º semestre de História na
UFRR, veio para Boa Vista em 2008. O
objetivo é obter uma graduação e retor-
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
29
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
29
06/02/2012
18:26:14
nar à aldeia para contribuir com a edu- cação dos parentes. Ele, que é bolsista
nar à aldeia para contribuir com a edu-
cação dos parentes. Ele, que é bolsista
do PET (Programa de Educação Tutorial),
vive na casa de uma irmã, que deixou a
comunidade e veio viver na cidade.
poder me manter e estudar. O horário é
feito pelos outros. Lá é mais tranquilo.
Aqui há o trânsito, que é um vai e vem
sem parar. Temos que andar prestando
atenção. Na comunidade o ar corre mais
solto”, afirma Alex Makuxi.
A
cada dois meses, Alex Makuxi visita a
comunidade onde morou. Ele mantém
contato direto com os moradores da al-
deia. “Toda vez que eu vou para a comu-
nidade, me pinto com uma tintura feita
com jenipapo. São pinturas que usamos
nas assembleias e festejos comemorati-
vos, dos quais sempre participo”, diz ele.
O
objetivo dele é, após o término do
curso, em 2012, retornar a São Jorge.
Mas, após cinco anos, afirma querer
retornar à capital e fazer um mestrado. O
vai e vem continuará.
O
estudante se enquadra na definição
PRECONCEITO: A NÃO
ACEITAÇÃO PARTE DE
ÍNDIOS E NÃO ÍNDIOS
Alex Makuxi veio morar em Boa Vista em 2008 e preten-
de retornar após se graduar em História. Essa questão
e o contato constante com aldeia o coloca dentro do
conceito de índio da cidade
de índio na cidade, ou seja, transita entre
aldeia e capital de forma constante, ao
contrário de Denise Wapixana, que já se
estabeleceu na cidade e não tem planos de
retornar a viver em comunidade indígena.
“Os índios na cidade são parentes desses
que já estão na cidade, mas que têm
uma ligação muito forte ainda com os
parentes do que a gente chama de área
rural ou das aldeias. Eles estão lá e cá.
Eles participam de trabalhos da farinha-
da, da limpeza da mata para plantações
na aldeia e também de jornadas de
trabalho coletivas na cidade, como a
assistência de parto, construção da casa
ou cavar poços para abastecimento de
água. Esses indígenas se deslocam cons-
tantemente no território. Uma hora na
parte urbana, outra hora na parte rural”,
explica o professor Reginaldo Gomes.
Denise Wapixana, de fala mansa e sorriden-
te, não esconde que muitas vezes é difícil a
convivência na cidade. Em Boa Vista, disse
ela, sofre preconceito por ter características
indígenas. Na aldeia, a discriminação, em-
bora branda, parte dos próprios parentes.
O
tratamento diferenciado na capital é
percebido em lojas ou outros lugares
frequentados por Denise. E não é de hoje
que ela passa por tais problemas. Assim
que retornou de Sucuba, comunidade de
Alto Alegre e ingressou na escola, perce-
beu que ser proveniente de uma cultura
diferenciada traria problemas a ela.
Realidades como essa de Alex Makuxi são
comuns em Boa Vista. Muitos são aqueles
que, em busca de oportunidades, deixam
a
maloca para viver na cidade. No novo
ambiente, os hábitos sofrem alteração e
o
impacto é algo a ser considerado. O es-
tudante, que escolheu o curso de história
por discordar da forma como os materiais
didáticos relacionados ao tema tratam o
papel dos povos indígenas na construção
do Brasil, disse que se adaptar à nova
rotina não foi fácil.
“Quando retornei da comunidade para a
cidade, vi crianças zombando de mim na
escola, porque eu tinha características in-
dígenas. Ficavam rindo. Certa vez, quando
eu tinha 10 anos, estava na escola e uma
colega, não sei se por ódio, me jogou no
meio da lama. A diretora chamou a me-
nina e perguntou qual o motivo. Ela disse
que fez aquilo porque eu era índia. Eu me
senti com o coração dolorido. Não me
sentia diferente delas, eu me sentia igual”,
relembra Denise.
Na comunidade indígena, as primeiras
atividades pela manhã eram regar plan-
tas, pescar ou ir para a roça. Na cidade, é
se deslocar até o trabalho para terceiros,
onde há carga horária a ser cumprida.
“Na aldeia trabalho para mim e paro
na hora em que eu quero. Na cidade,
tenho que trabalhar para os outros para
Para o professor da UFRR, Reginaldo
Gomes, o preconceito existe por falta de
conhecimento do processo histórico do
Estado, cuja população é marcada pela
miscigenação. As demarcações de terras
indígenas, disse ele, também contri-
buíram para acentuar a discriminação
contra os indígenas.
“É
preciso entendermos a história dessa
região. Temos um multiculturalismo,
inclusive linguístico, na comunidade indí-
gena que vive na cidade. Nessas oficinas
30
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
30
06/02/2012
18:26:24
Yekuana Ingarico Yekuana culturais, havia momentos que um grupo falava Wapixana, Macuxi, Wai-Wai, Pata- mona,
Yekuana
Ingarico
Yekuana
culturais, havia momentos que um grupo
falava Wapixana, Macuxi, Wai-Wai, Pata-
mona, Inglês e Português. Fazemos parte
de um contexto histórico muito específico
da América do Sul, porque somos a única
região que tem como vizinhos povos de
colonização espanhola, inglesa, holandesa
índio porque não pinta o corpo com
urucu, como faz quando está nas festas
da maloca, nem usa as vestimentas do
parixara”, afirma ele.
certos grupos de não índios discriminem
tais povos. Além de aumentar esse sen-
timento, disse o professor, essas ações
contribuíram para o acirramento de
ânimos entre índios e não índios.
Yekuana
I ngarico
e francesa. Entender as trajetórias destes
povos indígenas, que fazem parte da cons-
trução histórica desses estados nacionais,
é muito importante para reduzir esse
preconceito”, opina o pesquisador.
A discriminação desse indígena que
Denise sabe bem como é isso. Mesmo
vivendo na cidade, ela ainda mantém con-
tato com familiares que vivem em Sucuba.
“Eles dizem que não sou índia, sou branca.
Eu digo: ‘negativo. Sou parente como
vocês. Se vocês forem para a cidade não
vão deixar de ser índios’. Nós, mesmo na
cidade, não deixamos de ser índios. Tenho
orgulho de ser indígena”, explica.
reside na cidade não se resume aos não
índios. O próprio professor reconhece
que nas comunidades indígenas há uma
resistência quanto aos parentes que
residem nos núcleos urbanos.
O estudante do curso de História, Alex
“O índio que está na maloca diz que o
índio que mora na cidade não é mais
Makuxi, também afirma que o pre-
conceito existe. Porém, no caso dele,
seria ainda mais acentuado. O indígena
chegou a Boa Vista no período em que
arrozeiros questionavam na Justiça a
validade constitucional da homologação
da Raposa Serra do Sol.
Conforme ele, no início do povoamento
de Boa Vista, fazendeiros e indígenas
convivam de forma harmônica, embora
isso não signifique que não havia discri-
minação nessa época. “Nesse momento,
entre a casa da fazenda e a maloca não
existia a cerca. Era um terreno democrá-
tico, em que você poderia transitar, onde
os trabalhadores da fazenda tinham pas-
se livre para ir pescar e ir para o pasto
tocar o gado. A partir do momento em
que começam a demarcar com as cercas,
se iniciam os conflitos, porque há essa
proibição de ir e vir. As demarcações das
terras indígenas também acentuaram as
questões dos conflitos indígenas entre a
população indígena e não indígena em
Roraima”, afirma ele.
Alex Makuxi é da comunidade São Jorge,
localizada nas terras da Raposa. Segundo
ele, as informações repassadas pela mídia
no Estado acentuavam a discriminação
já existente. “Até mesmo na universidade
algumas pessoas questionavam: ‘Por
que os índios querem muita terra? Eles
não produzem nada, porque querem
tanta terra?’ Era o que diziam. Acho que
de certa forma é um preconceito, sim. [A
demarcação] era algo garantido para nós
na constituição”, explica ele.
O livro Projeto Kuwai Kîrî, surgido após projeto de extensão
coordenado por Reginaldo Gomes, organizador da publi-
cação, aborda as vivências de índios que deixaram a aldeia
para viver na cidade
Para o professor Gomes, as demarca-
ções de terras indígenas em Roraima,
que totalizam 32, contribuem para que
Entretanto, não é essa forma de tra-
tamento que fará com que os Makuxi
esqueçam as próprias raízes. Morar na
cidade, acrescenta o indígena, não o
faz menos índio. “Estar em Boa Vista
me torna mais índio ainda. Ser índio
é ter as características, ter aquilo de
coração, é eu assumir minha identidade
de índio, independente do meu Rani
[Registro Administrativo de Nascimento
Indígena], independente dos meus há-
bitos, do que eu conheço e aprendo na
cidade. Está no meu sangue, na minha
forma de falar e na forma de lidar com
as pessoas”, conclui ele.
ngaricoI
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
31
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
31
06/02/2012
18:26:33
32)) Expedição TEPUI UFRR
32))
Expedição
TEPUI UFRR

Da Alemanha para Roraima até o Orinoco

O trabalho de Koch Grünberg completou 100 anos em 2011 e seus efeitos são percebidos nas recentes e importantes pesquisa realizadas na UFRR

ÉDER RODRIGUES

O alemão, Theodor

Koch-

Grünberg foi um dos mais

destacados etnólogos e

exploradores da América

do Sul. Há 100 anos, Grün-

berg escolheu, em especial, as fron- teiras do Brasil, Venezuela e República Cooperativista da Guyana para desen- volver estudos que trariam ao mundo novas visões desta rica região.

Fez quatro visitas ao Brasil, entre 1896 e 1924, e se notabilizou pelos trabalhos escritos sobre os índios dos rios Negro e Branco, pelas coleções etnográficas e pelos registros sono- ros, fotográficos e cinematográficos realizados em suas expedições. O acervo, datado entre os anos de 1911 a 1913, facilita os estudos da realidade indígena da época e que, até os dias

estudos da realidade indígena da época e que, até os dias As observações e relatos de

As observações e relatos de viagem de Grünberg constituem uma importante fonte para a antropologia, a etnologia e a história indígena

atuais, contribuem com a ciência, nas mais diversas áreas.

“(

)

Inúmeros cupinzeiros pontiagu-

dos, que têm duas vezes a altura de um homem ou são até mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e

mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32
mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32
32
32
mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32
mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32

06/02/2012

mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32
mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32
mais altos, estão es- palhados pela savana. Pode-se pensar, e tepuy primeira ed - Revisão2.indd 32

18:26:33

algum etnólogo de gabinete talvez ainda chegue a essa conclusão, que os índios copiaram a forma de suas casas dessas pequenas e engenhosas moradias, tão

parecidas entre si.” A frase extraída da ver- são portuguesa da obra Do Roraima ao Orinoco (Editora Unesp, 2005), escrita por Grünberg e publicada há mais de 90 anos em alemão, pode soar despretensiosa e bem humorada, mas carrega um signi- ficado cheio de reflexões de Grünberg, exímio observador da região de fronteira

e dos povos tradicionais, destacando

sempre o valor da experiência de campo.

O também antropólogo alemão, Erwin

Frank (falecido em 2008), foi professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRR. Doutor Erwin contribuiu com re- levantes estudos baseados na vida e na obra de Grünberg. Em artigo denomina- do Objetos, imagens e sons: a etnografia

artigo denomina- do Objetos, imagens e sons: a etnografia Para Erwin Frank, Grünberg foi além de

Para Erwin Frank, Grünberg foi além de pesquisador, exímio fotógrafo e um dos pioneiros da cinematografia etnográfica

de Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), ele destaca que no Brasil, Grünberg é lembrado, principalmente, pelos seus relatos de viagem, nos quais resumiu os resultados de duas das suas quatro vi-

sitas a este país: aquela de 1903 a 1905, que o levou à região do alto rio Negro e Yapurá, e a terceira, de 1911 a 1913, na região entre as bacias do rio Branco, no atual Roraima, e os rios Caura, Paráguas

e Venturari, na Venezuela.

“Muitos lembram também que ele foi um incansável colecionador de etnogra- fia, milhares dos quais enchem, ainda hoje, as vitrines e reservas técnicas de vários museus alemães e do Museu Goeldi. Por outro lado, poucos sabem que foi também um experiente fotógra- fo e um dos pioneiros da cinematografia etnográfica, ou que, na sua expedição de 1911-1913, ele gravou inúmeras peças musicais (canções, danças dos povos Macuxi, Taurepang, Wapixana e Maiongong [Yekuana]) em um gramofo- ne trazido da Alemanha”, assinalou.

em um gramofo- ne trazido da Alemanha”, assinalou. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 33 Registro de
em um gramofo- ne trazido da Alemanha”, assinalou. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 33 Registro de

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

Alemanha”, assinalou. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 33 Registro de meninos Taurepang, 1912 No final das
33
33
assinalou. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 33 Registro de meninos Taurepang, 1912 No final das duas

Registro de meninos Taurepang, 1912

No final das duas principais expedições, Grünberg encaminhou coleções para a Alemanha, compostas por milhares de peças. “Contudo, como o próprio

Grünberg esclarece: (

objetivo principal da minha viagem não era o de um colecionador. Frequente- mente demorando-me semanas, até meses em cada tribo, e em cada aldeia, participando intimamente da vida dos indígenas, eu pretendia essencialmente conviver e aprofundar mais a visão das suas concepções, pois o visitante que passa rapidamente pela região de suas pesquisas consegue apenas impressões passageiras e frequentemente falsas” (Koch-Grünberg, 2006b, p. 7), reproduziu Frank em um de seus artigos.

) para mim, o

O professor Alexandro Namem, do De- partamento de Ciências Sociais da UFRR, reitera a importância histórica das reflexões do pes- quisados alemão para as Ciências Sociais. “Com a forma simples como levou a vida, escrevendo também uma vasta obra, ele nos mostrou todas as potencialidades do trabalho de campo de longa duração, sobretu- do quando realizado por pessoa com formação erudita, pois, não esqueçamos:

por pessoa com formação erudita, pois, não esqueçamos: ele era capaz de fazer inclusive notações musicais”,

ele era capaz de fazer inclusive notações musicais”, destaca Namem.

O professor e Coordenador do Núcleo His-

tórico Socioambiental da UFRR (NUHSA), Carlos Cirino, explica que a principal con- tribuição de Koch-Grünberg para a Ciência foi o legado deixado para conhecimento da região amazônica e, principalmente, para a região do rio Branco (estado de Ro- raima), sobretudo no campo da etnogra- fia. Ele diz que a contribuição dos alemães para a antropologia brasileira vem sendo estudada e tem sido tema de debate em vários encontros de antropólogos no Bra- sil, nos quais Grünberg é colocado entre os mais importantes.

“Os trabalhos de Koch-Grünberg têm sido, nos últimos anos, uma leitura obrigatória para os alunos de Ciências Sociais, principalmente de Antropologia

e História. Vislumbramos o interesse

por outras áreas do conhecimento que mantêm um diálogo com essas ciências.

Hoje, todos os pesquisadores que se vol- tam para o estudo dos grupos indígenas de Roraima tomam como leitura básica

a obra de Koch-Grünberg”, reforça Cirino, que defende a ideia de que as obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima.

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

33

obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 33
obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 33

06/02/2012

obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 33
obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 33
obras sejam direcionadas também às escolas de ensino médio de Roraima. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 33

18:26:34

Linguística34)) TEPUI UFRR Da tradição oral à escrita Povo Ingarikó faz homenagem à pós-doutora em

34))

TEPUI UFRR
TEPUI UFRR

Da tradição oral à escrita

Povo Ingarikó faz homenagem à pós-doutora em Linguística, Maria Odileiz Souza Cruz, que é a responsável por produzir a gramática deste povo, transpondo a oralidade para o texto impresso

CRISTINA OLIVEIRA

A professora Maria Odileiz Sousa Cruz, coordenadora do Pro- grama de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal de Roraima (UFRR),

foi homenageada no IV Encontro da Felicidade do povo Ingarikó, na maloca do Manalai, localizada na porção alta da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. O evento foi realizado no mês de março de 2011 e marcou também a formatura de alunos Ingarikó no Instituto Insikiran de Educação Superior Indígena, mantido pela UFRR.

O Encontro da Felicidade é o ponto de

encontro dos Kapon (Ingarikó, Patamona,

Akawaio) que habitam uma região dividi-

da entre o Brasil, Guyana e Venezuela nos

arredores do Monte Roraima. Em 2011 foi realizada a quarta edição do Encontro da Felicidade, com apoio do Prêmio Culturas Indígenas, do Ministério da Cultura, e da Prefeitura Municipal de Uiramutã.

da Cultura, e da Prefeitura Municipal de Uiramutã. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 34 A cerimônia
da Cultura, e da Prefeitura Municipal de Uiramutã. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 34 A cerimônia

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

Municipal de Uiramutã. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 34 A cerimônia de formatura dos alunos do
34
34

A cerimônia de formatura dos alunos

do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena e a homenagem à

professora Maria Odileiz Sousa Cruz foram realizadas no segundo dia do evento. A igreja foi toda decorada

e uma exposição com fotografias

tiradas durante o trabalho de campo de Odileiz para o doutorado, há 12 anos, foi montada no local. Alunos formados no Ensino Médio e Ensino Fundamental também foram homena- geados durante a celebração.

A professora Odileiz iniciou o trabalho

com os Ingarikó em 1996, quando foi contratada pela Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Desportos (SECD) para auxiliar Dilson Ingarikó, então aluno da 7ª série do Ensino Fundamen- tal, com aulas de Português. “Ele tinha dificuldades com o idioma, então fui acompanhando seus estudos e apren-

dendo com ele sobre a cultura do povo Ingarikó”, conta a professora.

Dessa forma, surgiu o interesse em fazer uma pesquisa sobre a língua Ingarikó. No entanto, relata Odileiz, foram neces- sários dois anos de preparação para que ela tivesse condições de morar em uma comunidade Ingarikó.“Até então eles nunca haviam recebido um não-índio para morar com eles, então precisavam saber quem eu era. Em 1997 eu vim no Manalai pela primeira vez e, em 1998, eu saí para fazer meu doutorado na Holanda. Nesse mesmo ano, eu levei o Dilson para lá, para conhecer a Europa”, conta a professora.

Segundo ela, a experiência foi marcante. “É uma troca muito rica, um aprendizado de ambos os lados. Com eles, você não olha para o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma Odileiz.

o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma
o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma

06/02/2012

o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma
o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma
o passado, nem para o futuro. Você vive o que as pessoas podem te proporcionar”, afirma

18:26:37

A pesquisadora viveu um ano e meio no

Manalai, em períodos distintos. Durante

o trabalho de campo, ela teve a opor-

tunidade de conhecer outras malocas da mesma etnia. Com eles, aprendeu os costumes e a língua Ingarikó. “Viajamos muito durante esse período, de barco e a pé mesmo. É uma região muito bonita. E

vai muito além do ‘exótico’. Viver no meio deles faz com que você reprograme a sua vida, a noção de tempo, o trato com

a natureza, você descobre outros valores,

muito mais de potencialidade do que de dependência das coisas. Por exemplo, a memória deles é fantástica, é uma das coisas que mais me encanta. Eles apren- dem as coisas com muita facilidade, não há bloqueios, as novidades são assimi- ladas muito rapidamente em termos de percepção, o que não significa que eles queiram imitar o outro”, ressalta Odileiz.

As fotografias expostas durante o Encontro da Felicidade marcam uma

memória de 12 anos de convivência en- tre os Ingarikó. “Muitas dessas meninas que tinham 7, 8 anos na época, hoje são

mães de família. É interessante que elas

se vejam”, diz. A exposição já foi exibida

na Holanda, em 2010, e na Alemanha, este ano, na cidade de Würzburg. Os vínculos entre Würzburg e Roraima se dão através de Koch-Grünberg que fez seu doutorado nessa cidade em 1912

com os índios brasileiros Guaikuru e que registrou algumas palavras da língua In- garikó no papel. “Koch-Grünberg docu- mentou cerca de 200 palavras Ingarikó.

O meu trabalho foi criar uma gramática

Ingarikó”, explica a professora.

O trabalho de Odileiz é o primeiro

registro escrito integral da língua Ingarikó. “Há a gramática Akawaio, feita na Guiana. É muito próxima a dos Ingarikó, mas tem suas peculiaridades próprias”, diz. A pesquisadora distribuiu 40 exemplares de sua tese para lide-

pesquisadora distribuiu 40 exemplares de sua tese para lide- Encontro da Felicidade tem rituais como o

Encontro da Felicidade tem rituais como o banho de espírito (acima) e o Aleluia (abaixo)

como o banho de espírito (acima) e o Aleluia (abaixo) tepuy primeira ed - Revisão2.indd 35
como o banho de espírito (acima) e o Aleluia (abaixo) tepuy primeira ed - Revisão2.indd 35
como o banho de espírito (acima) e o Aleluia (abaixo) tepuy primeira ed - Revisão2.indd 35

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

e o Aleluia (abaixo) tepuy primeira ed - Revisão2.indd 35 ranças e professores das comunidades Ingarikó,
35
35

ranças e professores das comunidades Ingarikó, como material de apoio. “A língua é viva, ela se modifica constante- mente. Então, é interessante perceber que, quando os mais jovens observam a gramática, comentam que determina- dos termos hoje são utilizados de outra forma. É um exemplo de que a língua é um processo dinâmico, vivo. Registrá- la no papel é um processo de registro da memória, que pode ser utilizado no futuro”, ressalta Odileiz.

Ela afirma que se sente gratificada pelo carinho e acolhida recebidos dos Inga- rikó. “Me sinto gratificada com a vida por ter proporcionado esse reconhe- cimento da parte deles. Mesmo tendo terminado a tese, continuei ajudando as comunidades, dando um retorno social para eles”, explica a professora, que atualmente orienta quatro alunos Ingarikó do Instituto Insikiran em proje- tos de iniciação científica e monografia.

em proje- tos de iniciação científica e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó

Formandos são professores nas comunidades Ingarikó

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

35

e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 35 06/02/2012 18:26:45
e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 35 06/02/2012 18:26:45

06/02/2012

e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 35 06/02/2012 18:26:45
e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 35 06/02/2012 18:26:45
e monografia. Formandos são professores nas comunidades Ingarikó PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 35 06/02/2012 18:26:45

18:26:45

Comunidade participou da montagem da exposição de fotografias O trabalho de Odileiz com os Ingarikó

Comunidade participou da montagem da exposição de fotografias

O trabalho de Odileiz com os Ingarikó vai muito além de projetos de pesqui- sa ou horários de aula. É um trabalho comprometido com a vida desse povo. “Isso não cabe em um projeto. São atitudes, iniciativas que eu tenho com eles em momentos diversos de suas vidas. Eles sabem que podem contar comigo no intuito de tornarem-se independentes, autônomos. Tanto é que são eles os professores. Eu repasso orientação metodológica, mas quem ensina são eles”, destaca.

FORMATURA SIMBÓLICA MARCA REGRESSO DOS FILHOS À COMUNIDADE

A formatura, a primeira celebrada em uma comunidade Ingarikó, teve a pre- sença de lideranças políticas e religiosas das comunidades, tuxauas e o profes- sor do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, Daniel Rosar. A cerimônia, especialmente para os alunos concluintes do curso de Licenciatura In- tercultural, marcou a presença da UFRR

entre o povo Ingarikó. “A nossa intenção é marcar a presença da universidade nas nossas comunidades. Antigamente, se falava que a universidade estava dis- tante das comunidades e agora ela está vindo, tanto é que o Instituto Insikiran está acompanhando o IV Encontro da Felicidade”, afirma o vereador Dilson Domente Ingarikó (PT), formando da primeira turma de Licenciatura Inter- cultural do Instituto Insikiran, em 2009. Segundo ele, levar uma cerimônia de formatura até a comunidade é um mo-

uma cerimônia de formatura até a comunidade é um mo- Professora Odileiz e professor Daniel, do

Professora Odileiz e professor Daniel, do Insikiran, participaram da formatura ao lado dos alunos

36

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
36
36
da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd

06/02/2012

da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd
da formatura ao lado dos alunos 36 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd

18:26:51

Dilson Ingarikó, formado em licenciatura intercultural pela UFRR, foi o responsável por levar a cerimônia

Dilson Ingarikó, formado em licenciatura intercultural pela UFRR, foi o responsável por levar a cerimônia de formatura para o Manalai

mento de alegria para o povo Ingarikó.

“É uma felicidade para a comunidade

porque ela participa desse processo, construindo um processo educacional próprio, diferenciado e em conjunto. Para nós, um sistema educacional dife- renciado é isso: é conviver, é respeitar o outro”, destaca o vereador.

O IV Encontro da Felicidade reuniu 460

pessoas de 13 comunidades, divididas en- tre Brasil e Guiana. Na maloca do Manalai só se chega de barco ou de avião, mas o isolamento não foi problema. Moradores de comunidades até 100 quilômetros de distância, já em território guianense, tam- bém participaram do encontro.

Dilson e Odileiz, homenageados pelo trabalho em prol da valorização e do reconhecimento do povo Ingarikó, vestiram toga e prestaram juramento durante a cerimônia de formatura. “A homenagem para a professora Odileiz, que trabalhou em seu doutorado a produção da gramática Ingarikó, é pela

seu doutorado a produção da gramática Ingarikó, é pela tepuy primeira ed - Revisão2.indd 37 sua
seu doutorado a produção da gramática Ingarikó, é pela tepuy primeira ed - Revisão2.indd 37 sua

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

Ingarikó, é pela tepuy primeira ed - Revisão2.indd 37 sua contribuição em ajudar nosso povo a
37
37

sua contribuição em ajudar nosso povo a registrar suas histórias em sua própria língua. A contribuição dela tem um valor muito alto, por isso essa homena- gem”, explica Dilson.

Ao final da formatura simbólica, Dilson, representando todos os alunos, teve a toga retirada pelo tuxaua, marcando o regresso dos filhos à comunidade.

PRINCIPAL RITUAL DOS INGARIKÓ É CELEBRADO DURANTE O EVENTO

Durante os três dias do encontro foi celebrado o Ritual do Aleluia, o prin- cipal ritual dos Ingarikó, no qual por meio de uma série de cantos e danças cadenciadas, canta-se os vários seres e instrumentos que descerão do céu para conduzir, sustentar e acompanhar os participantes do ritual para o patamar superior por meio de um banco de luz, isto é, um messias chamado kîray, Jesus Cristo ou simplesmente Cristo.

A cerimônia é de uma beleza ímpar,

unindo quase uma centena de indivídu- os em um só ritmo, com passos lentos

e bem demarcados. Entre os agradeci-

mentos no ritual, estava a inauguração da Igreja Coração do Mundo na parte central da maloca do Manalai e a fartura de comida e bebida servidas durante os três dias de festa.

Durante o encontro, também foi celebrado o casamento de 13 casais e membros das comunidades ainda rece- beram o banho de espírito, às margens

do rio Ponari. O banho consiste em lavar

a cabeça e o corpo de integrantes da

comunidade que tiveram entes queridos falecidos recentemente. No banho é utilizada a água do rio, enquanto o líder religioso e o público que assiste entoam orações como forma de renovar o espíri- to daqueles que recebem o banho.

A jornalista Cristina Oliveira viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

37

viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING PRIMEIRO SEMESTRE /
viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING PRIMEIRO SEMESTRE /

06/02/2012

viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING PRIMEIRO SEMESTRE /
viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING PRIMEIRO SEMESTRE /
viajou para o Manalai à convite do Conselho do Povo Ingarikó - COPING PRIMEIRO SEMESTRE /

18:26:56

38)) El Dorado? Manoa do El Dorado: Sonho ou Pesadelo? Se por um lado o
38))
El Dorado?
Manoa do El Dorado:
Sonho ou
Pesadelo?
Se por um lado o mito europeu do El Dorado (a cidade de ouro) é uma página virada para o
mundo, por outro, encontrar minérios na “Amazô
ônia Caribenha” já é realidade para milhares
de aventureiros. O barril de pólvora aparece qua ando aumenta a cobiça por minérios como o
urânio, molibdênio e o nióbio, reg gistrados em áreas indígenas.
ÉDER RODRIGUES
Q uando sir Arthur Conan Doyle
escreveu o romance “O Mundo
Perdido” (The Lost World, 1912),
no qual descrevia as aventuras
de cientistas ingleses no extremo
o
príncipe El Dorado. “Juan Martinez foi o único
sobrevivente de uma expedição comandada por
Don Pedro Malaver da Silva, por volta de 1530,
que explorou a região do rio Orinoco. (
)
algumas
norte do Brasil, fez importante menção aos
índios que aqui estavam. Mas Conan Doyle
(também autor dos livros do famoso persona-
gem Sherlock Holmes) não imaginava que estes
mesmos amazônidas pisariam a Europa quase
cem anos depois. Lá, buscariam apoio para pre-
servar a terra, áreas que hoje chamam a atenção
do Brasil e do mundo por ter uma das maiores
jazidas de ouro e diamante do planeta, além de
minérios como o nióbio, molibdênio e o urânio,
mineral radioativo e principal fonte de energia
para usinas nucleares.
notas explicaram a captura de Martinez pelos ín-
dios do tronco linguístico karib. Disseram que ele
foi levado com os olhos vendados para a cidade
de Manoa, onde conheceu o príncipe El Dorado.
Depois de liberto, Martinez chegou à Ilha de Mar-
garita e Trindad e espalhou essa fantástica história
aguçando o imaginário do homem europeu em
busca de tesouros no interior da costa da Guyana,
popular costa selvagem”, assinala professor Go-
mes, que desenvolve estudos com pesquisadores
brasileiros e das Guyanas, discutindo, entre outros
temas, a existência de uma “Amazônia Caribenha”
e
a geopolítica roraimense.
O
pesquisador do instituto Nacional de Pesqui-
sas da Amazônia (INPA), Reinaldo Barbosa, que
estuda os impactos ambientais decorrentes do
aumento da atividade humana na Região Ama-
zônica, e Efrem Ferreira, também pesquisador
do INPA, publicaram em seu trabalho denomi-
nado Historiografia das Expedições Científicas e
Exploratórias no Vale do Rio Branco, que nesta re-
gião havia uma acirrada disputa territorial entre
portugueses, espanhóis, franceses, holandeses
e
ingleses, que somou-se à “fértil imaginação do
período colonial que acreditava que no interior
destas terras encontrava-se o lendário ‘Lago Pa-
rima’ ou ‘Eldorado’, com suas grandes riquezas”.
O
professor e historiador da Universidade Federal
de Roraima (UFRR), Reginaldo Gomes, publicou
artigo na edição de número 11 da Revista de
Filosofia e Ciências Humanas da UFRR (Tex-
tos e Debates, 2006), sob título Notas sobre os
Holandeses na Amazônia no Período Colonial, no
qual relata que os espanhóis só começaram o in-
teresse pelas terras do Atlântico Norte quando o
explorador espanhol Francisco Pizarro encontro
ouro na área indígena dos Incas, no Peru.
A
ficção The Lost World, do
autor inglês Conan Doyle, narra
Foi nesse período que eles ouviram também
uma história lendária sobre a cidade de Manoa e
extremo norte brasileiro e o
fascínio europeu pela terra
o
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
38
06/02/2012
18:26:57
TEPUI UFRR
Mineração: Estátua criada em homenagem aos garimpeiros, no centro de Boa Vista. Terras em Roraima
Mineração:
Estátua criada em homenagem aos garimpeiros, no centro de Boa
Vista. Terras em Roraima nunca deixaram de ser alvo da mineração e
da garimpagem. Esperança para poucos, pesadelo para muitos.
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
39
06/02/2012
18:27:01
Foto: Emmily Cruz
Roland Stevenson: Apesar do destaque internacional por conta da sua obra, suas pesquisas são questionadas
Roland Stevenson: Apesar do destaque
internacional por conta da sua obra,
suas pesquisas são questionadas na
academia
Sir Walter Raleigh veio para as regiões das guianas em busca do El Dorado no
Sir Walter Raleigh veio para as regiões
das guianas em busca do El Dorado no
fim do século XVI

40

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

El Dorado no fim do século XVI 40 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed -
El Dorado no fim do século XVI 40 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed -

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 40 MISTÉRIOS Outros relatos históricos revelam que

40

MISTÉRIOS

Outros relatos históricos revelam que

as fronteiras do norte sempre foram

uma terra rica em minérios cobiçados há muitos séculos. Com o livro Uma Luz nos Mistérios Amazônicos, o autor e também pesquisador chileno, Roland Stevenson, desenvolve a teoria de que o ouro destinado ao resgate do imperador Inca, Atahualpa, exigido pelos invasores espanhóis, saiu de Roraima. O relato é polêmico e divide opiniões.

Stevenson ressalta os aspectos físicos Incas nos povos indígenas que habitam o norte do Brasil. Ele, que trabalha há quase 30 anos com o tema, catalogou informações que revelariam um caminho Inca que se estende do Peru às serras de Roraima, de onde o ouro seria extraído.

“Foi um impacto incrível quando me deparei com os índios Yanomani em 1979, observando que alguns deles pos- suíam rostos semelhantes aos quêchuas do Peru. Então me assaltou a ideia de que talvez a lenda do El Dorado tivesse fundamento histórico, e os Yanomani alguma relação, apesar dos 1400 km de distância do Império Inca”, conta Ste- venson, em entrevista publicada no site arqueologiamericana.com.br

O inglês Walter Raleigh tornou-se escritor

reconhecido devido, em grande parte, à sua célebre obra épica The Discovery of the Large, Rich and Beautiful Empire of Guiana, Which the Spaniards Call El Dorado, na qual ele declara ter descoberto o El Dorado no extremo norte do continente sulamerica- no, com terras que correspondem na atua- lidade ao estado de Roraima, República da Guyana e Venezuela.

Três séculos depois, outros aventureiros estiveram ligados à busca pelo El Dora- do. Dentre eles, destaca-se o americano Alexander Hamilton Rice, que esteve em Roraima com sua expedição e fez uma jor- nada ao Parima. Em 1924, Rice, que era um milionário cientista, utilizou o que havia de mais eficiente em tecnologia para a época, como técnicas fotográficas, registros audiovisuais, um hidroavião e pequenas embarcações, chegando ao seu objetivo com ajuda dos índios. Os relatos foram inseridos no livro Exploração na Guiana Brasileira, obra que contribuiu para a fun-

dação do Instituto de Exploração Geográfi- ca da Universidade de Havard.

No século XX, a atividade garimpeira foi progressiva em Roraima. A dissertação de mestrado da professora e pesquisadora Francilene Rodrigues, vinculada ao depar- tamento de Ciências Sociais da UFRR, sob tema Garimpando a Sociedade Roraimense - da Conjuntura Sóciopolítica, registra esta cronologia recente. A periodização da história da mineração, segundo o estudo, divide-se em três momentos: o período da descoberta das primeiras jazidas (1912 a 1965); o segundo, que empreende certo aprimoramento técnico na garimpagem dos minérios (1966 a 1979); e o último que engloba as descobertas dos novos garimpos e a corrida do ouro, que se fortalece a partir dos anos 80. A febre do ouro se prolonga até meados dos anos 90, quando, por determinação do Governo Federal, os garimpos são fechados e pistas clandestinas são explodidas.

CONFLITOS

No artigo (Des) territorialização e Conflitos Sociais na Luta por Espaço em Roraima, publicado na edição 5, na Revista de Filosofia e Ciências Sociais (Textos e Debates), a professora Francilene tam- bém lança luzes sobre a participação de diversos atores sociais no processo de conquista pelo território com vistas a exploração dos recursos naturais, sobre- tudo os minerais, considerando também os jogos, negociações e lutas pelo do- mínio sobre o espaço territorial. “Alguns grupos ou atores sociais, militares, índios, missionários, estiveram presentes no contexto sociopolítico de Roraima desde o período colonial, enquanto outros, fazendeiros, pecuaristas, garim- peiros, empresários e parlamentares não tão recentes, emergiram no início do século e outros, organizações não- governamentais surgiram nos últimos anos. Todos estes atores vêm lutando para conquistar e garantir espaços no cenário roraimense”, assinala.

Para ela, a problemática da mineração tem sido o pano de fundo do desenca- deamento dos conflitos em Roraima nos últimos anos. Roraima se apresenta como espaço não plenamente estruturado, gerador de realidades novas e dotado de elevado potencial político. “Dentre esse

estruturado, gerador de realidades novas e dotado de elevado potencial político. “Dentre esse 06/02/2012 18:27:02
estruturado, gerador de realidades novas e dotado de elevado potencial político. “Dentre esse 06/02/2012 18:27:02

06/02/2012

estruturado, gerador de realidades novas e dotado de elevado potencial político. “Dentre esse 06/02/2012 18:27:02

18:27:02

novo potencial político configura-se um Estado que tem as especificidades nas

múltiplas fronteiras: geográfica, demográ-

fica, econômica e étnica. (

ção da mineração enquanto fenômeno

social se constitui na chave para explicar

) Esta concep-

o

significado político dos conflitos sociais

e,

consequentemente, a realidade rorai-

mense”, conclui a professora.

LOCALIZAÇÃO

Nas regiões onde há ocorrências de minérios em Roraima, os números surpreendem. Mapas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), produzidos em 2005, confirmaram a existência de 26 áreas ativas ilegais de garimpo de diamante na reserva Rapo- sa/Serra do Sol (RR). A exploração mine- ral em terras indígenas não é permitida, por falta de regulamentação do artigo 231 da Constituição, que condiciona a pesquisa mineral em áreas indígenas à autorização do Congresso Nacional.

O Projeto RADAM-Brasil (Radar na Ama-

zônia), desenvolvido pelo Ministério das Minas e Energia (MME), foi responsável nos anos 70 e 80 pelo levantamento dos recursos naturais de todo o território brasileiro (totalizando 8.514.215 km2). As pesquisas registraram em Roraima jazidas de ouro, diamantes, cassiterita e urânio, este encontrado com alto valor de pureza na região da Serra dos Surucucus, no oeste de Roraima. Os outros minerais existentes no estado identificados pelo levantamen- to são: ágata, ametista, barita, cobre, cassi- terita, calcário, diamante, diatomito, ferro, molibidênio, caulim, ouro, thório, topázio, turfa, titânio, zinco e nióbio/tântalo.

Como grande parte dos minérios está nas áreas indígenas de Roraima, a pos- sibilidade de mineração legalizada vem provocando inflamadas discussões sobre os riscos ambientais e sociais, a exemplo do que ocorreu (e ainda ocorre) com os grandes projetos nacionais. É o caso das hidrelétricas de Tucuruí (PA), Balbina (AM), Jirau e Santo Antônio (RO) e Belo Monte (PA), esta última localizada à beira do rio Xingu, projetada para ser a segunda maior do país e a terceira maior do mundo.

As amargas lições provenientes de mega empreendimentos brasileiros já implantados, como as hidrelétricas, sob

brasileiros já implantados, como as hidrelétricas, sob tepuy primeira ed - Revisão2.indd 41 pretexto de
brasileiros já implantados, como as hidrelétricas, sob tepuy primeira ed - Revisão2.indd 41 pretexto de

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

as hidrelétricas, sob tepuy primeira ed - Revisão2.indd 41 pretexto de “progresso a qualquer cus- to”,

41

pretexto de “progresso a qualquer cus- to”, preocupam estudiosos, ambientalis- tas e organizações de defesa dos povos tradicionais no Brasil e no mundo.

No caso da mineração, as perguntas são muitas. Todas sem respostas ou repletas de especulações. Como a natureza será tratada se houver ex- ploração mineral? O que ganhariam e perderiam os povos indígenas com tal prática? O que está por trás do interes- se internacional nas regiões ricas em minérios, água limpa e biodiversidade?

DISCURSOS E ESPECULAÇÕES

No país, existem 488 terras indígenas deli- mitadas, que somam mais de 105 milhões de hectares, segundo a Fundação Nacio- nal do Índio (FUNAI). Isso significa 12,41% do território do país. Em Roraima existem 32 terras indígenas que ocupam 46,4% do território do Estado, segundo o antropólo- go Carlos Alberto Cirino, coordenador do Núcleo Histórico Sociambiental da UFRR (NUHSA). Todas as áreas estão homologa- das e registradas pela FUNAI.

Para entender melhor o clima provocado com a provável liberação da mineração em terras indígenas, é preciso expor os pontos de vista provenientes de parcelas da sociedade que marcam o imbróglio há décadas e varrem grande parte da imprensa. Um deles é o da defesa da soberania nacional, resultado do pensa- mento militar vigente nos anos 60 e 70 no Brasil. Deste pensamento, resulta a ação idealizada em 1985, no Governo Sarney, do programa Calha Norte, que previa a ocupação militar de uma faixa do territó- rio nacional situada ao Norte da Calha do Rio Solimões e do Rio Amazonas.

A área corresponde a um quarto da Ama- zônia Legal e a quase 15% da área total do país, atingindo as fronteiras com a Guyana Francesa, Suriname, República Cooperati- vista da Guyana, Venezuela e Colômbia. O argumento usado para a implementação desse projeto é“fortalecer a presença nacional” ao longo da fronteira amazônica, tida como ponto vulnerável do território nacional. Quem sobe neste palanque são, sobretudo, os militares da Amazônia.

Os proprietários de agronegócios em Roraima reforçam o alarde de internacio-

METAIS IDENTIFICADOS EM RORAIMA MOLIBDÊNIO O Molibdênio é um metal de transição externa de alto
METAIS IDENTIFICADOS
EM RORAIMA
MOLIBDÊNIO
O Molibdênio é um
metal de transição
externa de alto po-
tencial redutivo, ou
seja, é muito difícil
de oxidar (resistente à corrosão). É
muito duro, assim é utilizado em ligas
metálicas para aumento da resistên-
cia. É aplicado em ligas metálicas de
alta resistência mecânica e corrosiva;
como catalisador na indústria petro-
química (para remoção de enxofre);
em camadas condutivas de alguns
tipos de transistores; em filamentos
de componentes elétricos; peças de
aeronaves, automóveis, uso nuclear
entre outros.
NIÓBIO
Muito abundante
no Brasil é um
metal de transição
que, com o vaná-
dio e o tântalo,
integra o grupo Vb
da tabela periódica. Unido ao tântalo,
ocorre em minerais como a columbita
e a tantalita. Em estado puro, o nió-
bio é maleável e dúctil, de cor branca
brilhante, parece-se com o aço e,
quando polido com a platina. Embora
tenha ótima resistência à corrosão, é
suscetível à oxidação acima de 400º
C. É usado em ligas, imãs supercon-
dutores e, em pequenas quantida-
des, em aços inoxidáveis para evitar
corrosão intergranular.
URÂNIO
Metal branco-ní-
quel, pouco menos
duro que o aço e
encontra-se, em
estado natural, nas
rochas da crosta terrestre. Sua princi-
pal aplicação comercial é na geração
de energia elétrica, na qualidade de
combustível para reatores nucleares
de potência. É também utilizado na
produção de material radioativo para
uso na medicina e na agricultura.
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
41
06/02/2012
18:27:04
42 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 42
42
PRIMEIRO SEMESTRE / 2012
tepuy primeira ed - Revisão2.indd
42

nalização, na mesma linha do exército. O grito apocalíptico dos donos de inves- timentos rurais ficou mais alto com a iminente demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, no Governo Lula. Desta vez, o argumento usado era o de “atraso no desenvolvimento do estado de Roraima, além da miséria, fome e desespero” que inviabilizariam o estado.

Já a classe política divide-se em pelo

menos duas opiniões, polarizadas ainda no período da demarcação das terras indí- genas. Uma delas diz que, após as demar-

cações, deve-se iniciar a imediata minera- ção em terras indígenas para promover o desenvolvimento do estado. A segunda

é proveniente das alas que defendiam

os direitos dos fazendeiros e concordam com os militares. Esta critica tal Projeto de Lei, ao mesmo tempo em que demonstra lentidão na apresentação de propostas políticas concretas para a economia local, deixando de ouvir, em certa altura, as orga-

nizações indígenas e a academia, motivos pelos quais a proposta de mineração ganha fôlego no cenário político nacional.

Ainda há a presença do discurso de Orga- nizações Não Governamentais (ONGs) em defesa dos direitos dos povos indígenas.

O ex-coordenador do Conselho Indígena

de Roraima (CIR), Dionito José de Souza, que é índio macuxi, diz que só na reserva Raposa/Serra do Sol vivem em torno de 17 mil índios. Ele afirma que com a ex- ploração, a terra já ficaria para a empresa, porque tem minério em toda parte. “E os índios iriam para onde?”, pergunta.

SUSPEITAS

Mas esta mesma “presença” e interesse de ONGs levantam suspeitas por parte

de instituições de inteligência no Brasil.

A desconfiança excita a teoria cons-

piratória dos militares e de setores do investimento rural. Fato que pode ser atribuído, em parte, aos escândalos mundiais nas grandes corporações, como mostra o documentário canaden- se The Corporation (2003), dirigido por Mark Achbar e Jeniffer Abbott.

O motivo de tal desconfiança é que

boa parte das ONGs recebe patrocínio do capital privado estrangeiro para a produção social e para fazer marketing. Logo, a função social destas empresas

fazer marketing. Logo, a função social destas empresas sempre é gerar lucro. Quem aponta o problema

sempre é gerar lucro. Quem aponta o problema é filósofo e ativista político, Avram Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachussets (EUA). Ele explica que corporações pensam apenas no lucro dos acionistas, em curto prazo. “Estes, são poucos”, afirma.

Chomsky (foto abaixo), que publicou mais de 80 obras e desenvolveu uma teoria que revolucionou o estudo da linguística, lança seu arsenal ao tratar da relação dos EUA com os países em desenvolvimento, sobretudo, os sulame-

Foto: divulgação
Foto: divulgação

ricanos. “Por muitos anos, os americanos têm tentado restabelecer sua domina- ção. Existe uma posição tradicional do país que relembra sua fundação e que diz que os EUA precisam controlar a América Latina”, diz ele, que é autor do livro What Uncle Sam Really Wants (O que o Tio Sam Realmente Quer. Editora UnB, 1992). É este aspecto financeiro uma das razões que levam o alto escalão do exército a afirmar que as ONGs tem “uma força desproporcional”.

que levam o alto escalão do exército a afirmar que as ONGs tem “uma força desproporcional”.
que levam o alto escalão do exército a afirmar que as ONGs tem “uma força desproporcional”.

06/02/2012

que levam o alto escalão do exército a afirmar que as ONGs tem “uma força desproporcional”.

18:27:04

Produtores denunciam

ONGS e órgãos ambientais brasileiros

Mapa das áreas indígenas (cinza) e áreas de minérios (pontos vermelhos) Fonte: Iteraima/Governo do Estado
Mapa das áreas indígenas
(cinza) e áreas de minérios
(pontos vermelhos)
Fonte: Iteraima/Governo do
Estado de Roraima

A Associação dos Morado- res e Produ- tores Rurais da Serra da

Roraima, estão disponíveis para agricultu-

ra

1.121 hectares. A Associação alerta que

os

órgãos ambientais planejam criar mais

sete reservas que irão ocupar uma área maior do que restou para agricultura, um total de 1.315,69 hectares, sobrepondo outras áreas já reservadas. “Com isso, não irá nos restar mais nada, se já 93% do estado de Roraima está em forma de reserva”, diz o panfleto distribuído à sociedade.

O projeto para a criação do Parque

Nacional do Lavrado diz que toda a re- gião da Serra da Lua possui apenas três propriedades. A Associação contesta o número, afirmando que existem mais de mil moradores na área pretendida. Diz também que a proposta começou com 60 mil hectares e hoje tem 345 mil, que podem se juntar com a Raposa Serra do Sol e outras reservas indígenas.

“Dentre essas mil pessoas que moram na região, existem famílias há 106 anos com títulos expedidos pelo próprio Governo

Federal, trabalhando com agricultura e a pecuária de forma sustentável, mas sem energia, sem telefone, sem estradas pa- vimentadas, sem escolas, sem hospitais

e postos de saúde próximos”, finaliza.

Lua engrossa a militância contra a atuação de ONGs e órgãos ambientais brasileiros na Amazônia. O movimento social, criado em janeiro de 2010, pretende mobilizar

aqueles que defendem a região contra e extração das riquezas minerais em detrimento às famílias que hoje moram ali.

Diz o documento: “ONGs (

)

e órgãos ambientais brasileiros ameaçam a soberania nacional e desapropriam famílias centenárias com a criação de mais reservas no estado de Roraima. A Raposa Serra do

)”.

Sol será aumentada, com a criação do

Parque Nacional do Lavrado (

Conforme dados fornecidos pela Secreta- ria de Planejamento de Estado (SEPLAN/ RR) à associação, de pouco mais de 22 mi- lhões de hectares de terra do estado de

Parque Nacional do Lavrado Reserva Jauaperi
Parque
Nacional
do Lavrado
Reserva
Jauaperi

Como sinaliza o mapa, o pretendido Par- que Nacional do Lavrado na Serra da Lua está na região próxima à bacia do Tacutu e da serra do Tucano em que se locali- zam minérios. Na bacia do Tacutu já foi

confirmada a presença de petróleo, fato pesquisado por professores do Instituto de Geociências (IGEO) da UFRR. A região fica próximo ao município de Lethen, na República Cooperativista da Guyana.

Proposta de criação do Parque Nacional do Lavrado e reserva Jauaperi

criação do Parque Nacional do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO
criação do Parque Nacional do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 43
43
43

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

43

do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 43
do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 43

06/02/2012

do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 43
do Lavrado e reserva Jauaperi tepuy primeira ed - Revisão2.indd 43 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 43

18:27:06

Ânimos acirrados e Opiniões Divergentes ÉDER RODRIGUES R ecentemente, o alto esca- lão do Exército

Ânimos acirrados e

Opiniões Divergentes

ÉDER RODRIGUES

R ecentemente, o alto esca-

lão do Exército Brasileiro

na Amazônia divulgou que

organizações internacionais,

sobretudo europeias, têm

interesse nos minérios e fontes de água nas regiões habitadas pelos povos yano- mami desde a década de 70.

A hipótese alarmista propaga que ONGs

estariam por traz da desvinculação das

terras indígenas do território brasileiro e influenciando os índios a pedirem das Or- ganizações das Nações Unidades (ONU)

a constituição de uma “nação indígena”.

Assim, segundo os militares, as ONGs não teriam que enfrentar a burocracia brasi- leira e poderiam usufruir dos minérios.

Os dados do Instituto Nacional de

Colonização e Reforma Agrária (Incra)

e a forma como parte dos meios de

comunicação conduzem estas informa- ções junto à sociedade colocam mais pólvora no barril. O Incra registra mais de 50 mil propriedades em nome de estrangeiros na Amazônia brasileira, somando cerca de cinco milhões de hectares de terras na região.

44

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

hectares de terras na região. 44 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 44
hectares de terras na região. 44 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 44

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 44 É neste contexto que as polêmicas

44

É neste contexto que as polêmicas declarações do indigenista Orlando Villas Bôas, indicado duas vezes para o prêmio Nobel da Paz, por dedicar boa parte da sua vida à defesa dos povos indígenas, deixou o campo ainda mais minado. Antes de morrer em 2002, Bôas concedeu entrevista à jornalista Paula Saldanha, no programa televisivo Expe- dições, gravado em 2000 e exibido na íntegra em 2003, no qual “denuncia” o interesse de estrangeiros na Amazônia.

Bôas afirmou que as terras Yanoma-

mi (fronteira Brasil/Venezuela) com

apoio estrangeiro, virariam um Estado independente, acompanhadas de

intensa agressão ao meio ambiente. “As maiores reservas de urânio do mundo estão em Roraima, dentro da terra Ya- nomami. Há um minério com o apelido

de

‘Alexandrita’ (metal precioso), que só

foi

encontrado na América nas terras

Yanomami. Nós já sabemos (

10 a 15 Yanomami, os mais destacados

da comunidade, estão na América,

aprendendo inglês e política. (

vão voltar com outra mentalidade e vão pedir um território Yanomami desmem-

) que de

)

Eles

brado do Brasil e da Venezuela. E a ONU vai dar. Dar como tutora, no começo, esta gleba dentro do norte”, alardeou.

DISFARCES

Em Roraima, o juiz Alcir Gursen de Mi- randa, autor de vários livros sobre Direi- to e Amazônia, professor e pesquisador da UFRR, assegura em seus discursos, não ter dúvidas que estrangeiros estão agindo sob a imagem de pesquisado- res, religiosos e missionários para tomar a Amazônia ou parte dela. O apoio a essas ações viria de ONGs e governos, declara Miranda.

“Em 1850, os ingleses enviaram pessoas para estudar a Amazônia, alegando traba- lho de pesquisa. Na verdade, as informa- ções serviram para que invadissem e to- massem 19 mil quilômetros quadrados do território brasileiro. Passados mais de 150 anos, o mesmo está acontecendo. O cená- rio é idêntico”, defende o juiz.“Observamos uma verdadeira invasão de estrangeiros em nosso território. Isso não é coincidência. A situação atual é pior e se deixarmos, não se sabe aonde chegará”, polemizou.

coincidência. A situação atual é pior e se deixarmos, não se sabe aonde chegará”, polemizou. 06/02/2012
coincidência. A situação atual é pior e se deixarmos, não se sabe aonde chegará”, polemizou. 06/02/2012

06/02/2012

coincidência. A situação atual é pior e se deixarmos, não se sabe aonde chegará”, polemizou. 06/02/2012

18:27:07

CONTRAPONTO O antropólogo e pesquisador Ricardo Cavalcanti-Schiel, foi militar durante 15 anos e deixou o

CONTRAPONTO

O antropólogo e pesquisador Ricardo

Cavalcanti-Schiel, foi militar durante 15 anos e deixou o serviço ativo em 1995, como oficial de carreira da Marinha. Ele está atualmente vinculado ao Laboratoire

d’Anthropologie Sociale do Collège de France/ École des Hautes Études en Sciences Sociales

e publicou, em 2008, no jornal Le Monde

Diplomatique, o artigo denominado De Costas para Rondon. No artigo, Schiel afirma que, ainda que ambígua em seu conteúdo, a lógica da proteção do territó-

rio brasileiro significou o estabelecimen-

to de uma relação direta, necessária e

institucionalizada entre o Estado nacional

e

as populações indígenas.

“(

)

o modelo rondoniano da prote-

ção implicava, antes de tudo, em uma proteção “nacional”, que tomava as populações indígenas como parte de um patrimônio comum da nacionalida- de, que devia ser integrado no (e pelo) espaço político do Estado Nacional, a despeito do (e quase sempre contra o) particularismo dos interesses das oligar- quias regionais”, explica o pesquisador.

das oligar- quias regionais”, explica o pesquisador. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 45 No entanto, ao
das oligar- quias regionais”, explica o pesquisador. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 45 No entanto, ao

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

explica o pesquisador. tepuy primeira ed - Revisão2.indd 45 No entanto, ao fazer referências aos discursos
45
45

No entanto, ao fazer referências aos discursos dos ex-comandantes militares da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira e general Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, que alcançaram pro- jeção midiática por conta dos discursos feitos após as demarcações em Rorai- ma, o antropólogo dispara, dizendo que o maior problema do pensamento militar brasileiro contemporâneo con- tinua sendo a profunda ignorância do mundo social.

“Nisso, os militares não avançaram um centímetro desde os tempos da dita- dura. Não é casualidade que o ‘indige- nismo’ dos militares reitere, para o caso atual do embate de interesses em torno da demarcação da Terra Indígena Rapo- sa/Serra do Sol, os mesmos argumentos sobre a ‘ameaça à soberania’ (que as terras indígenas representariam) que já haviam empunhado à época do projeto Calha Norte e do debate em torno da demarcação da Terra Yanomami, duas décadas atrás”, assinala nos últimos parágrafos do artigo.

Reação antropológica

Especialistas dizem que a mineração implica em degradação social

E ntidades apontam o risco de perda de território se as mineradoras forem insta- ladas em terras indígenas. Os perigos vão

de doenças nas comunidades a desestrutura-

ção social.

Rogério Duarte do Pateo, antropólogo do

ISA (Instituto Socioambiental), explicou ao jornal Folha de São Paulo que, de acordo com

a magnitude da presença da mineradora e

a proximidade das aldeias, as populações

podem ter hábitos alterados. “Isso porque

o barulho das máquinas para a extração dos

minérios, por exemplo, assustaria animais num local onde a caça é o principal meio de

subsistência”, assinalou.

A lista dos problemas envolve: a degrada-

ção social; perda de território; extinção dos povos indígenas; dependência financeira (royalties), gerando reação em cadeia, na qual o indígena passaria a comer produtos industrializados, provocando doença como diabetes, colesterol e problemas dentários; impacto ambiental, já que implica uma área de ‘servidão’, onde vivem os funcionários da empresa; surgimento de cidades para dar suporte à atividade mineradora, alterando

o entorno devido à construção de estradas

para escoar a produção; desvios dos leitos

do rios; poluição das águas; etc.

“O maior dos males seria a perda da auto- ridade do índio sobre seu território, sendo os povos colocados em segundo plano

e podendo, inclusive, ter de sair de uma

aldeia por conta de uma jazida de minério”, argumenta o antropólogo Ricardo Verdum, assessor de políticas indigenistas do Inesc

(Instituto de Estudos Socioeconômicos).

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

45

indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 45 06/02/2012 18:27:08
indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 45 06/02/2012 18:27:08

06/02/2012

indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 45 06/02/2012 18:27:08
indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos). PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 45 06/02/2012 18:27:08

18:27:08

Mineração em terras indígenas: Legalizar ou não? ÉDER RODRIGUES A extração mineral é uma atividade
Mineração em terras indígenas: Legalizar ou não? ÉDER RODRIGUES A extração mineral é uma atividade
Mineração em terras indígenas: Legalizar ou não? ÉDER RODRIGUES A extração mineral é uma atividade

Mineração em terras indígenas:

Legalizar ou não?

ÉDER RODRIGUES

A extração mineral é uma atividade em pleno vapor na Amazônia, assim como na vizi- nha República Cooperativista da Guyana, no Suriname e na

Venezuela, países que registram alto índice de brasileiros trabalhando nas minas.

Do lado brasileiro está em curso o Projeto de Lei de nº 121/95, que prevê a explo- ração de recursos minerais em áreas indígenas. O projeto está na Câmara dos Deputados e aguarda reformas. O futuro das terras indígenas após a possível instalação da mineração legalizada é foco de conflitos, por isso chama a atenção de outros países, num jogo de interes- ses que discute também como será a distribuição da riqueza gerada, o uso do mercúrio, o assoreamento de rios e

igarapés, a diminuição da floresta e o re- florestamento, a eliminação da fauna dos rios, o extermínio das línguas indígenas

e muitos outros problemas socioambien- tais regionais de alcance global.

O senador Romero Jucá (PMDB/RR) foi

quem levou o Projeto de Lei em 1995 para avaliação no Senado da República. Ele explica que a Constituição de 1988 define a possibilidade de haver minera- ção em terras indígenas (TIs), uma vez que elas pertencem à União. “O que a Constituição diz é que uma lei especí- fica vai regular a forma de como vai se dá a autorização de mineração em TIs, inclusive com autorização do Congresso”, expõe.

O Projeto de Lei já foi aprovado no Senado,

por unanimidade, tramitou durante anos na Câmara dos Deputados e agora está pronto para votação, esbarrando apenas nas cons- tantes votações de medidas provisórias e outros protocolos da Casa. A matéria sendo aprovada na Câmara retorna ao Senado, para apreciação das modificações.

O autor da proposta avalia que a matéria

suscita debate e polêmica e que precisa ser discutida e resolvida. “Existem pesso- as que são contra. É natural. Há uma mo- vimentação no sentido do projeto não ser aprovado nos setores ambientalistas,

Senador Romero Jucá propôs o Projeto de Lei que está na reta final para a
Senador Romero Jucá propôs o Projeto de Lei
que está na reta final para a aprovação
Foto: Thiago Orihuela

setores de organizações não governa- mentais, que atuam junto às comunida- des indígenas. Há essa pressão. Mas há também a pressão da sociedade para que o projeto seja aprovado, porque é um projeto importante. No final das contas, a pressão para aprovação desse

46

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46
a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46
46
46
a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46
a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46

06/02/2012

a pressão para aprovação desse 46 PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 tepuy primeira ed - Revisão2.indd 46

18:27:11

projeto deverá ser maior e a matéria deve ser aprovada”, assinala Jucá.

O político explica que a Lei vai possibi-

litar a exploração mineral por meio de licitação, controle ambiental e acom- panhamento do Ministério Público. “Precisamos dar condições de tirar a riqueza do subsolo, e que essa riqueza

possa pagar impostos, ajudar os estados, a população, gerar empregos e ajudar

as comunidades indígenas, porque a

população vai receber os royalties com o resultado da mineração.” defende.

O economista e professor da UFRR, Ge-

túlio Alberto de Souza Cruz, afirma que na pauta dos interesses de Roraima, a exploração de minérios não deveria ser prioridade. Ele analisa que o mundo vive hoje um recuo na demanda por matérias primas minerais e esta exploração não seria capaz de alavancar a economia de Roraima. Além disso, não há números que apontem a quantidade de minerais que alcancem um mercado amplo.

a quantidade de minerais que alcancem um mercado amplo. Economista e empresário Getúlio Cruz: “Construção de

Economista e empresário Getúlio Cruz: “Construção de Hidrelétrica no Cotingo atenderia melhor aos interesses do Estado do que a mineração”

e

e
e
e
e

Para ele, é muito mais importante discutir temas como a implantação

da hidrelétrica no Cotingo, na qual a energia poderia ser melhor estimada

quantificada, do que a mineração. “A

exploração de energia elétrica limpa no Cotingo daria muito mais royalties às comunidades do que explorar, por exemplo, nesta área leste do estado que é uma área diamantífera, onde os diamantes são explorados nos leitos dos rios. No caso da energia elétrica, calcula-se que, por mês, ficariam pelo menos R$ 80 mil, em royalties para as comunidades”, afirmou.

Cruz disse ainda que a extração não vale a pena para Roraima nem para as

que a extração não vale a pena para Roraima nem para as tepuy primeira ed -
que a extração não vale a pena para Roraima nem para as tepuy primeira ed -

tepuy primeira ed - Revisão2.indd

para Roraima nem para as tepuy primeira ed - Revisão2.indd 47 Foto: divulgação Davi Yanomami tem
47
47
Foto: divulgação
Foto: divulgação

Davi Yanomami tem reconhecimento internacional pela luta em prol dos direitos indígenas

comunidades indígenas. “Antes de pen- sar na exploração o Estado brasileiro

dispomos para extrair. Há muita falácia

sarampo e malária, após contato com os brancos, sobretudo garimpeiros. “(

)

Em 2008, os Yanomami tomaram a

devia ter vergonha na cara e fazer um inventário com pesquisas nestas áreas para saber o que efetivamente nós

Se os brancos-espíritos-tatus-gigantes (mineradoras) entram por toda a parte sob a terra para retirar os minérios, eles vão se perder e cair no mundo escuro e

e

fantasia em torno desta questão. Mas

podre dos ancestrais canibais”, argu-

o

que tem de fato de minérios nestas

menta Kopenawa ao criticar o compor-

terras? Não se estima quanto. É uma aventura que eu não embarcaria”, apon- tou o economista.

tamento do ‘branco europeu’.

YANOMAMI

Mesmo sem o Projeto de Lei estar apro- vado, o registro da presença de estran-

geiros e brasileiros nas TIs em Roraima e

as últimas operações da Polícia Federal,

FUNAI e Exército realizadas desde 2009, confirmam que os garimpos mecaniza- dos nas reservas estão em pleno vapor. Um exemplo da exploração ilegal dos recursos minerais ocorre às margens do rio Maú, na fronteira do Brasil com a República Cooperativista da Guyana.

O índio Yanomami Davi Kopenawa, que

dirige a Associação Hutukara Yano-

mami, iniciou a militância em prol da preservação do seu povo e defesa da terra na década de 80. Em 92, recebeu

o convite da Comissão de Direitos

Humanos da ONU para proferir discurso representando os índios brasileiros. Ele afirma, na publicação Descobrindo os Brancos, que seu povo foi quase aniquilado por doenças como gripe,

frente da luta na defesa da terra, quando políticos em Brasília reacenderam a im- portância do mapeamento dos minérios em terra indígena, quando discutiam

o Projeto 1610/96. Os deputados que

faziam parte da Comissão do Congresso Nacional fizeram convites às maiores empresas de mineração do país para realizarem o mapeamento das potencia- lidades minerais das terras em questão.

O interesse, segundo a bancada, era

identificar minérios estratégicos para

o país, como Urânio e Nióbio, e depois

discutir o custo-benefício, envolvendo os povos indígenas na discussão. O problema é que os índios não foram comunicados da ação, segundo eles.

O fato gerou protestos das lideranças

Ywanomami que foram à Brasília (DF) visitar órgãos ligados à saúde e a Câ- mara dos Deputados. Ali, denunciaram que os parlamentares desrespeitaram os índios das aldeias visitadas com tal atitude e ainda sofreram tentativas de persuasão para apoiarem o projeto.

PRIMEIRO SEMESTRE / 2012

47

atitude e ainda sofreram tentativas de persuasão para apoiarem o projeto. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 47
atitude e ainda sofreram tentativas de persuasão para apoiarem o projeto. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 47

06/02/2012

atitude e ainda sofreram tentativas de persuasão para apoiarem o projeto. PRIMEIRO SEMESTRE / 2012 47

18:27:14

Fotos: arquivo pessoal/RCCaleffi
Fotos: arquivo pessoal/RCCaleffi

Fotos de garimpagem ilegal na região do Tepequém no municipio de Amajari (RR) em 1993

Foto: reprodução/Revista Manchete
Foto: reprodução/Revista Manchete

Mergulhador no rio Uraricoera (RR), em 1989: mesmo proibida em 91, a atividade garimpeira ainda continua nos mesmos moldes em várias regiões do estado

continua nos mesmos moldes em várias regiões do estado Outro texto fundamental para entender- mos o

Outro texto fundamental para entender- mos o processo de exploração mineral em TIs e o discurso ambiental dos Yanomami está no artigo científico O Ouro Canibal e a Queda do Céu, do pesquisador Bruce Al- bert publicado na obra Pacificando o Bran-

co (Editora Unesp, 2000). Citando palavras

de Davi Yanomami, o texto diz que “(

garimpeiros são hostis a nós porque são