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Gregório de Nazianzo: Deus é o ser

Infinito

Autor: Sávio Laet de Barros Campos.


Licenciado e Bacharel em Filosofia Pela
Universidade Federal de Mato Grosso.
E-mail: saviolaet@yahoo.com.br

1.1) A Incognoscibilidade da Essência Divina

Platão afirma no Timeu que é difícil conhecer a Deus e impossível


enunciá-lo por palavras. Gregório inverte a ordem: é impossível enunciar algo
sobre Ele e mais impossível ainda conhecê-lo.1

1.2) A Existência de Deus nos é Cognoscível

Contudo, Gregório não é um agnóstico. O que desconhecemos de


Deus é a sua essência; a existência de Deus, no entanto, permanece cognoscível
aos homens: “Antes de mais nada, não é a existência de Deus que é
incognoscível, mas tão somente a sua natureza e essência.”2

1
Philotheus Boehner. História da Filosofia Cristã. p. 81: “Platão afirma no Timeu que é difícil
conhecer a Deus, e impossível exprimi-lo por palavras. Gregório prefere antepor a inefabilidade
à incognoscibilidade: é impossível enunciar a Deus por palavras, e mais ainda é conhecê-lo.”
2
Idem. Op. Cit.
1.3) Razão e Vantagens da Incognoscibilidade de Deus

A razão pela qual não podemos conhecer, positivamente, a essência


divina é clara: Deus é puramente espiritual3 e nós, mesmo dotados de alma
espiritual, estamos presos às coisas sensíveis. Por mais que nos desprendamos
das coisas corporais, por mais que nos apliquemos as espirituais, nossos
conceitos estarão sempre presos a algum dado sensível. Destarte, devido à nossa
natureza sensível, não podemos, mesmo tendo algum parentesco com os seres
puramente espirituais pela nossa alma, alcançá-los em sua essência4. Aliás, a
nossa impossibilidade de conhecermos a Deus de forma clara e distinta acaba se
revertendo em nosso próprio benefício: todo conhecimento que inspira
dificuldade e empecilhos é sempre mais ardentemente desejado e buscado; pelo
que, o fato de crermos em Deus sem, contudo, conhecê-lo não ficará sem sua
justa recompensa no além:

Aliás, este obstáculo (o de conhecer a Deus) não deixa de ter


suas vantagens, pois, quanto mais difícil se nos afigura algum
saber, tanto mais apreço lhe votamos; pois não costumamos
estimar o que apreendemos com facilidade. (...) E, enfim, o
nosso empenho pelo conhecimento não deixará de ter sua justa
recompensa no além.5

Como diz o ditado, ninguém salta por cima de sua sombra. Como o
olho precisa de luz e ar para ver e como o peixe precisa da água para poder nadar,
assim também os homens não podem chegar a Deus senão por meio de suas

3
Idem. Op. Cit: “Não possuímos um conhecimento distinto e positivo da essência divina, visto
ser ela puramente espiritual.”
4
Idem. Op. Cit: “(...) por mais que nos concentremos sobre nós mesmos e por grande que seja o
nosso desprendimento das coisas sensíveis, os nossos conceitos sempre incluirão algum
elemento corporal; e isto nos proíbe o acesso às realidades puramente espirituais e à Divindade,
a despeito dos laços de parentesco que a ela nos prendem.”
5
Idem. Op. Cit. (O parêntese é nosso).
criaturas.6 Incognoscibilidade para Gregório não é sinônimo de agnosticismo;
Deus é incognoscível por não podermos alcançar um conceito puramente
espiritual dEle7, mas isto não nos impede de saber de sua existência.

1.4) As Provas da Existência de Deus

Percebemos por um simples olhar para a criação que ela não encontra
em si mesma a razão da sua existência.8 Quem é o autor de tamanha ordem e
harmonia que impera no universo? Como explicar a reunião de tantos elementos
que possibilitam esta harmonia de que gozam as coisas criadas? Donde provém
este Logos que rege, por suas leis, todas as coisas e pelo qual elas não caem,
antes se conservam, numa unidade e beleza admiráveis? Será, pois, o universo,
obra do acaso? Se admitirmos que sim, como podemos explicar que o acaso,
além de criar tal ordem, a mantém e sustenta?9 Ora, é evidente que não podemos
retroceder, indefinidamente, atribuindo tudo ao acaso; pelo que devemos admitir
a existência de um soberano governador do universo, o qual é Deus.10 Daí que,
por meio da lei, da ordem, entranhadas na natureza das coisas, chegamos, com
certeza, a conhecer a existência de Deus:

6
Idem. Op. Cit: “(...) como o olho necessita de luz e ar para apreender as coisas externas, e
como o peixe precisa da água para poder nadar, assim também nós não podemos chegar a Deus
senão através das coisas corporais e sensíveis.”
7
Idem. Op. Cit. p.82: “Portanto, dizer que Deus é incognoscível equivale a admitir a nossa
incapacidade de formar quaisquer conceitos puramente espirituais acerca dele (...)”.
8
Idem. Op. Cit: “Um simples olhar para a criação nos convencerá de que não é nela mesma, e
sim em algo transcendente, que devemos buscar-lhe a razão de ser.”
9
Idem. Op. Cit: “Suponhamos, com efeito, que as coisas sejam um produto do acaso. (...) Tal
hipótese, porém, não suprime a questão de sabermos quem conversa e mantém aquela ordem.”
10
Idem. Op. Cit: “E’ óbvio que não se pode apelar indefinidamente ao acaso, e que é mister
atribuir a conservação da ordem do universo à influência de Deus.”
Desta forma o Logos, ou a lei da natureza, que tudo penetra e
domina, e que foi criada conosco mesmos, nos faz chegar a
Deus a partir das coisas sensíveis.11

Contudo, este argumento, Gregório não tarda em esclarecer, não nos


dá nenhum conhecimento da essência divina: “Gregório não deixa de acrescentar
que este argumento não nos permite saber o que seja a essência concreta de
Deus.”12

1.5) O Conhecimento Negativo da Essência Divina

Se não podemos conhecer o que Deus é podemos, entretanto, saber o


que Ele não é. Deus não é corpo, seus atributos mais essenciais atestam isto: sua
imensidade, sua infinitude, seu caráter inatingível e sua invisibilidade repugnam
qualquer pretensão a atribuir-lhe alguma propriedade corporal.13
Ademais, onde há matéria, há composição; onde há composição há
luta; onde há luta, há dissolução. Ora, a dissolução é incompatível a Deus. Daí
Deus não poder ser um corpo.14
Deus está em todo lugar e esta afirmação também nos basta para
provar a sua imaterialidade.15 A menos que concebamos que Deus se misture às
coisas corpóreas, tal como a água ao vinho, numa espécie de fragmentação de sua
substância, o que seria de todo um absurdo, não poderemos afirmar que Deus
esteja em todo lugar e ao mesmo tempo que seja um corpo.16 Além disso, se

11
Idem. Op. Cit.
12
Idem. Ibidem. p. 83.
13
Idem. Op. Cit: “Com efeito, Deus é imenso, infinito e sem figura, intangível e invisível.
Numa palavra, os seus atributos são diametralmente opostos às propriedades corporais.”
14
Idem. Op. Cit: “A dissolução, porém, é indubitavelmente estranha a Deus. Donde se conclui
que Deus não é um corpo.”
15
Idem. Op. Cit: “Deus está presente em todo o mundo, e por conseguinte é incorporal.”
16
Idem. Op. Cit: “A não ser que lhe atribuíssemos a capacidade de confundir-se com os outros
corpos e de coexistir lado a lado com eles, numa espécie de mistura, comparável à que resulta
Deus fosse um corpo que preenchesse todo o universo, não haveria lugar para as
outras coisas.17
No entanto surge a questão se seria legítimo atribuir a Deus um corpo
sutil, tal como dizem os peripatéticos ser o quinto elemento, dotado de
movimento circular. Gregório elimina esta possibilidade a partir do próprio
conceito de movimento tomado de Aristóteles. Supondo que exista uma
substância quase incorporal que se movimente como as outras coisas, esta
substância teria que derivar o seu movimento de uma outra substância que, por
sua vez, seria ou não incorporal e assim retrocederíamos ao infinito, o que é
impossível. Daí que, “Na opinião de Gregório o movimento corporal se reduz,
forçosamente, a algo incorporal.”18

1.5.1) Nossos Conceitos Acerca de Deus não nos Dizem o que Ele é

Nenhum conceito que formamos a partir das coisas sensíveis nos


atesta o que Deus é, mas tão-somente o que Ele não é. O fato de dizermos que
Deus seja incorpóreo, não-gerado, eterno19, luz, sabedoria, justiça, razão e
intelecto20 nada nos diz a respeito de sua essência que permanece velada. Com
efeito, quem de nós é capaz de compreender um espírito sem movimento,
absolutamente despojado de matéria? Como podemos imaginar uma luz que não
se misture com o ar? Ninguém pode imaginar o que seja um fogo sem matéria,

da água com o vinho. Ma, nesta suposição Ele se encontraria inteiramente fragmentado, pois
cada partícula de sua substância teria que insinuar-se entre duas partículas de outra
substância (...)”. (O itálico é nosso).
17
Idem. Op. Cit: “Fosse Ele um corpo a preencher o vazio do universo, já não haveria espaço
para as demais coisas.”
18
Idem. Op. Cit.
19
Idem. Op. Cit. p. 84: “(...) o fato de qualificarmos a Deus de incorporal não nos proporciona
a menor informação a respeito de sua essência. Como a incoporeidade, assim também o não-
ser-gerado, a carência de começo ou de fim são conceitos negativos.” (O itálico é nosso).
20
Idem. Op. Cit: “Também os conceitos de espírito, de fogo, de luz, de sabedoria, de justiça, de
razão e de intelecto nada nos dizem da essência divina.” (O itálico é nosso).
desligado de toda corporeidade! Nem a razão de Deus é da mesma ordem
daquela que existe no homem. A nossa noção de justiça, sabedoria e inteligência
também não estão totalmente despidas de imagens corpóreas. Donde, por elas,
não podermos conhecer a Deus, que é puro espírito:

O propósito de Gregório é dar a entender, em termos retóricos,


que os conceitos aplicados a Deus são produtos humanos, e por
isso inadequados. Todos incluem um elemento corporal, pois
não nos é possível abstrair totalmente da sensibilidade. Nestas
condições, como poderíamos conceber e enunciar com palavras
a espiritualidade pura de Deus?21

1.6) A Via Mística

Ao que tudo indica Gregório não chegou a formular, ao menos


explicitamente, o conceito de analogia; contudo, seus textos nos fazem pensar
que ele não ignorasse de todo tal conceito. Outrossim, o Deus de Gregório habita
em luz inacessível, nem mesmo os bem-aventurados o apreendem. Ele, ao
mesmo tempo em que está presente no mundo, o transcende. Embora seja a suma
beleza, excede toda beleza. Deus ilumina o espírito, mas este, na mesma medida
em que O conhece, O desconhece. Trata-se, na verdade, de uma dialética do
amor:

Gregório, ao que parece, não chegou a elaborar o conceito de


analogia, embora não o desconheça de todo, como se pode
concluir de certas passagens, onde se lê que nem mesmo os
espíritos bem-aventurados logram apreender a Deus, posto que
Ele habita numa luz inacessível. Claro está que Deus está
presente no mundo, mas ao mesmo tempo Ele o transcende;
Deus é toda a beleza, mas não obstante Ele excede toda a
beleza; Deus ilumina o espírito, mas por mais célebre e
21
Idem. Op. Cit.
alcandorado que seja o vôo da mente, ela é incapaz de alcançar a
Deus, pois Ele se subtrai a nós na mesma medida em que O
compreendemos; e assim, numa espécie de jogo amoroso, Deus
atrai a si aqueles que O amam.22

1.7) Aparente Aporia: Deus é o Próprio Ser.

Uma aparente aporia surge na filosofia do nazianzeno, a saber, ele


parece nomear Deus positivamente quando o chama de ser.23 De fato, Deus é o
próprio ser e este ensinamento colhemos da revelação que o próprio Deus fez a
Moisés. Quando este lhe perguntou o seu nome, Ele lhe respondeu: Eu sou
aquele que é. Como Aquele que compreende, em si, a plenitude do ser, Deus não
tem princípio e nem fim. Ele é imensurável e ilimitado na sua substância. Deus é
o próprio ser, sem nenhuma determinação, Ele é infinito:

Deus é o ser infinito; por isso, ao perguntar-Lhe Moisés pelo


nome, Ele respondeu, simplesmente: Eu sou aquele que é. De
fato, Deus compreende em si a plenitude do ser, e por esta razão
carece de princípio e de fim; antes, Deus é o seu próprio ser: um
oceano imensurável e ilimitado de substância.24

Da imensidade de Deus compreendemos que Ele excede todo espaço


e todo tempo. Ele excede todo espaço por ser incorpóreo e excede todo tempo
porque não foi e nem será, mas é e possui todo ser no presente. Deus é eterno:

22
Idem. Op. Cit.
23
Se nos dermos conta veremos que esta aporia é, de fato, apenas aparente. Com efeito, Deus é
o ser, mas esta afirmação indica apenas a sua mais completa incompreensibilidade ao espírito
humano. De fato, este só apreende o ser enquanto determinado e não o ser enquanto tal, sem
nenhuma determinação. Deus é o ser infinito, e, por conseguinte, não pode ser conhecido por
um espírito finito.
24
Idem. Op. Cit. p. 85
Não se pode dizer que foi ou há de ser, mas apenas que é, e que
nele se compreende todo o ser no presente; numa palavra: Deus
é eterno.25

25
Idem. Op. Cit.
BIBLIOGRAFIA

PHILOTHEUS BOEHNER, Etienne Gilson. História da Filosofia Cristã,


Desde as Origens até Nicolau de Cusa. 7ºed. Trad. Raimundo Vier. Rio de
Janeiro: VOZES, 2000. p. 80 a 86.
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