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EDITORIAL

SUMÁRIO
congresso missionário maio 2008/04

S
eguindo nosso percurso rumo ao 3º Congresso Missionário
Americano CAM 3 - 8º Congresso Latino-Americano Comla
8, chegamos ao 2º Congresso Missionário Nacional (1º
a 4 de maio), em Aparecida, SP. O tema de estudo “Do
Brasil de batizados ao Brasil de discípulos missionários
sem fronteiras” e o lema “Igreja do Brasil: escuta, segue e
anuncia” projetam uma Igreja comunidade discípula de Jesus, guiada 1 - Mãe peruana com criança às
pelo Espírito e Missionária para a humanidade. Há tempo, forte é o costas. A missão é para
apelo para sair dos nossos círculos caseiros e ir além das fronteiras, toda a humanidade.
Foto: stockxpert
tendo toda a humanidade como chão missionário. Os Congressos
Missionários realizados ao longo dos últimos 30 anos foram importantes 2 - Ana Ortiz Luna.
para o amadurecimento da fé da Igreja e sua conseqüente prática Foto: Alfonso Berger
missionária Ad Gentes. Com muito custo percebemos que depois
de receber tanto, temos o dever de dar mais, pois a fé se fortalece
quando é transmitida. Se olharmos para os números, veremos um  Mural-----------------------------------------------------04
Brasil, o maior país católico do mundo, com cerca de 1.900 missio- Diretrizes da Evangelização da CNBB
nários e missionárias além-fronteiras. Seguimos confirmando uma  OPINIÃO--------------------------------------------------05
outra vocação “deitado eternamente em berço esplêndido...” Esse Mãe, mulher e família
Maria da Penha Almeida Prado
dado mostra que possuímos um conceito de missão fechada, local,
paroquial. Desse total de missionários, 98,5% pertence a Institutos  PENTECOSTES-------------------------------------------06
ou Congregações religiosas: 78,89% (1.500) são mulheres e 19,04% Quando "baixar" o Espírito
Dirceu Benincá
são homens. Apenas 12 são padres diocesanos, nove são leigos e
dois são bispos. Os dados estão dispo-  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
níveis no site www.alemfronteiras.org.br O plano de Deus para mim
Rosa Clara Franzoi
que apesar de carecer uma atualização
mais sistemática, serve de referência para  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
Notícias do Mundo
a nossa reflexão. BBC / Fides
Encontrando-se além-fronteiras, não
significa que os missionários atuem em  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
Orai sem cessar pela unidade
situação de primeira evangelização ou José Carlos Stoffel
entre os povos não evangelizados. A
grande maioria encontra-se em ambien-  TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Diálogo e respeito como solução
tes cristãos, na pastoral de manutenção, Giancarlo Bossi
estudando ou até mesmo, a serviço de
 FÉ E POLÍTICA -------------------------------------------14
suas ordens religiosas (250). Sabemos que embarcar na Missão Quanto vale a cidadania?
além-fronteiras implica sair do ambiente sociocultural e geográfico Humberto Dantas
da paróquia, diocese, país ou continente, num trabalho que pode ser
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
de primeira evangelização, Ad Gentes, mas também entre cristãos, Medellín 40 anos
no diálogo ecumênico e inter-religioso, ou em situações de exclusão Estevão Raschietti
e pobreza. Então vejamos a presença dos brasileiros por continente:  Juventude missionária ----------------------------19
Américas 36,96% (703); África 29,65% (564); Europa 26,24% (499); Será que não estamos exagerando?
Ásia 4,94% (94) e Oceania 0,63% (12). Os países com maior número Patrick Gomes Silva
de missionários brasileiros são: Itália 332 (17,46%), Moçambique  DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
190, Angola 118, Bolívia 114 e Argentina 109. Com 15, o Timor Leste Raposa Serra do Sol segue invadida
abriga o maior número na Ásia. Redação
Ante essa situação é importante ressaltar o papel dos delegados  AÇÃO SOCIAL ------------------------------------------22
que participam do Congresso Missionário. Essas lideranças têm o Pastoral Afro
dever de multiplicar a reflexão com iniciativas locais coordenadas pelos Michael Mutinda
Conselhos Missionários. Isso se tornaria mais fácil se contássemos  infância missionária ------------------------------24
com o poderoso auxílio dos meios de comunicação. Vamos mudar de canal?!
Roseane de Araújo Silva
Uma Igreja com forte consciência missionária demonstra ser,
com palavras e obras, uma comunidade discípula de Jesus, guiada  ENTREVISTA ANA ORTIZ LUNA------------------------26
pelo Espírito e missionária para a humanidade. O “paroquial” se Jornada dos mártires, dom Romero e Marianella
Arlindo Pereira Dias
transforma por força desse espírito. Nela os cristãos procuram ter
as mesmas atitudes de Jesus, que via as dores do povo e sentia  ATUALIDADE----------------------------------------------28
compaixão. A Igreja, povo de Deus, vive o mesmo discipulado de Amazônia e o populismo: questão nacional?
Emerson Quaresma
Jesus. Ora e escuta o amor e o sonho de Deus, sua compaixão por
toda a humanidade. Não temos mais desculpas. “Igreja no Brasil:  volta ao brasil---------------------------------------30
CNBB / Notícias do Planalto / Zenit
escuta, segue e anuncia”. 

- Maio 2008 3
Mural do Leitor
Ano XXXV - Nº 04 Maio 2008 Diretrizes da Ação Evangelizadora
Diretor: Jaime Carlos Patias Na sua 46ª Assembléia Geral, realizada irmãos, especialmente os mais sofredores,
de 3 a 11 de abril, em Itaici, Indaiatuba, SP, na perspectiva, portanto, da opção prefe-
Editor: Maria Emerenciana Raia a CNBB assumiu o desafio de concretizar rencial pelos pobres”, comentou. De acordo
uma evangelização inspirada na Conferên- com o arcebispo, o encontro com Jesus
Equipe de Redação: Patrick Gomes cia de Aparecida. Os bispos aprovaram o conduz a “nos tornarmos seus discípulos
Silva, Cristina Ribeiro Silva, Rosa Clara documento das Diretrizes Gerais da Ação e missionários”, em uma perspectiva que
Franzoi, Júlio César Caldeira, Michael Evangelizadora da Igreja no Brasil, texto “nos abre para a realidade que nos envolve,
que norteará as estratégias de apostolado para que, em Cristo, nossos povos tenham
Mutinda e Corrado Dalmonego
nos próximos três anos. vida em abundância, em dignidade, com
O secretário-geral da CNBB, dom seus direitos respeitados, com cidadania
Colaboradores: José Tolfo, Vitor
Dimas Lara Barbosa, explicou que as dire- exercida na sua forma mais plena”.
Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz
trizes não são propriamente um projeto ou Dom Dimas Lara acrescenta que no
Balsan, Roseane de Araújo Silva, Hum-
um plano de pastoral. “São grandes linhas texto aprovado pela CNBB se faz “um
berto Dantas, Luiz Carlos Emer, Dirceu
básicas a partir das quais as dioceses olhar sobre a realidade para tentar detectar
Benincá e Ricardo Castro
vão depois organizar os seus planos de qual é o grande desafio e, depois, qual é a
pastoral”, disse. resposta cristã”, para assim, em seguida,
Agências: Adital, Adista, CIMI,
O presidente da CNBB, dom Geraldo lançar “pistas pastorais”. Ao recordar que
CNBB, Fides, IPS, MISNA, Radioagência Lyrio Rocha, considera que a principal cada diocese traçará, a partir do texto das
Notícias do Planalto e Vaticano característica das novas Diretrizes “é assi- diretrizes, suas estratégias de apostolado,
milar as contribuições da Conferência de dom Dimas explica que isso se deve à
Diagramação e Arte: Cleber P. Pires Aparecida. O próprio tema da Conferência diversidade regional brasileira. “Uma coisa
acabou se transformando no grande lema é fazer pastoral na Amazônia, outra é fazer
Jornalista responsável: que vai se repetindo como se fosse um no Rio Grande do Sul”, afirma.
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) refrão: ‘Discípulos e missionários de Je- O documento aprovado pelos 300
sus Cristo, para que n’Ele nossos povos bispos na Assembléia passará agora por
Administração: Eugênio Butti tenham vida’”, enfatizou. Então esse eixo uma revisão lingüística antes de ser pu-
central “se desdobra em muitos aspectos. blicado em livro. O texto deve chegar às
Sociedade responsável: Toda a questão do encontro com Jesus, livrarias em dois meses.
Instituto Missões Consolata na Palavra, nos sacramentos, na vida da
(CNPJ 60.915.477/0001-29) comunidade eclesial, no encontro com os Fonte: CNBB

Impressão: Edições Loyola


Fone: (11) 6914.1922 Campo Grande celebra Jubileu
Colaboração anual: R$ 45,00 O Jubileu da arquidiocese de Campo diocese pelo papa João Paulo II, em 27
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 Grande está sendo comemorado em diver- de novembro de 1978, quando foi criada a
Instituto Missões Consolata sas paróquias com celebrações especiais Província Eclesiástica de Campo Grande.
(a publicação anual de Missões é de 10 números) durante o ano de 2008 e, no dia 13 de Seu primeiro bispo e arcebispo foi dom
junho haverá a celebração principal na Antônio Barbosa que ficou à frente da
Missões é produzida pelos Praça do Papa, localizada no Bairro Santo Igreja durante 28 anos, até 1986, quando
Missionários e Missionárias da Consolata Amaro. Segundo o padre Ubajara Paz assumiu dom Vitório Pavanello. Tendo
Fone: (11) 2256.7599 - São Paulo/SP de Figueiredo, a arquidiocese de Campo como padroeira Nossa Senhora da Abadia,
(11) 2231.0500 - São Paulo/SP Grande comemora seus 50 anos de vida atualmente a arquidiocese é formada por
(95) 3224.4109 - Boa Vista/RR com a caminhada das Santas Missões 37 paróquias situadas em cinco setores
Populares (SMP). Em um encontro com (foranias), mais duas capelanias militares,
Membro da PREMLA (Federação de Imprensa os missionários das SMP, no dia 2 de os vários serviços pastorais organizados
Missionária Latino-Americana) e da UCBC março, foi feita uma reflexão sobre os no âmbito diocesano em torno das áreas
(União Cristã Brasileira de Comunicação Social) passos dados até agora, buscando for- de Evangelização, Celebração e Carida-
talecer cada um na missão de prosseguir de, três seminários para a formação do
Redação com o programa de Evangelização da
arquidiocese. Para o padre Ubajara, as
clero diocesano local e do Estado, oito
congregações religiosas masculinas e 23
Rua Dom Domingos de Silos, 110
02526-030 - São Paulo Santas Missões Populares são como "um femininas, 14 associações e movimentos
Fone/Fax: (11) 2256.8820 marco vivo do gosto de ser evangelizado de fiéis leigos e leigas.
Site: www.revistamissoes.org.br e de evangelizar." A diocese de Campo
E-mail: redacao@revistamissoes.org.br Grande foi criada no dia 15 de junho de Cecília Soares de Paiva
1957 pelo papa Pio XII e elevada à arqui- Jornalista / Oeste l

4 Maio 2008 -
Mãe, mulher e família

OPINIÃO
A maternidade é uma obra divina. o homem faz e nesta luta insana vai aos extremos. Outrora, o
casamento para a mulher era um meio de assegurar uma vida
tranqüila, muitas vezes combinado entre as famílias, até de uma
de Maria da Penha Almeida Prado forma negociável, ignorando seus sentimentos. Hoje, ela pode
escolher não só seu parceiro, como seu status social: executi-

N
va, provedora do lar, símbolo sexual. E esta escolha a obriga a
os últimos 50 anos, temos nos deparado com ser sempre jovem, bela, ter um corpo perfeito, de acordo com
mudanças nas relações familiares, que ocorrem os padrões da moda; e aquela mulher que era a rainha do lar
numa velocidade que desafia constantemente nossa começa agora a ter um papel totalmente divergente. E então, o
capacidade. A sociedade é extremamente compe- que acontece com a educação dos filhos?
titiva, globalizada. Até à mo- Dizia o poeta Coelho Neto: “A vida é
dernidade, família e sociedade obra divina. Educar é colaborar com Deus,

Divulgação
influenciavam-se mutuamente. Atualmente, completando-lhe dignamente a obra”. Os
observa-se um declínio avassalador da profissionais da educação, percebem um
influência familiar, que tende a se tornar fenômeno social resultante deste novo
mera repetidora de valores ditados pela contexto histórico da mulher no mundo.
sociedade. Resultado: a família adquiriu A figura materna antigamente seguia um
uma nova configuração. A família tradicional, padrão, a educação seguia regras seme-
moderna, pós-moderna, reestruturada, ain- lhantes em todas as famílias. O “não” era
da continua sendo importante, necessária “não”, o “sim” era “sim”. A mãe orientava,
e indispensável, para a formação psíquica acompanhava o filho em todas as suas
do indivíduo. A mãe que ficava em casa e atividades. Sempre sabia aonde ele ia,
que era o esteio da família, que transmitia com quem andava e o que estava fazendo.
segurança e acompanhava o desenvolvi- A mulher mãe, que não pode ficar com o
mento da criança, agora trabalha fora e, filho e delega a função para a avó, babá ou
em boa porcentagem, é arrimo de família. empregada, acaba, na maioria das vezes,
Quando chega do trabalho está cheia de ficando com sentimento de culpa e o pouco
culpa pela ausência e para minimizar esse tempo de que dispõe para a criança é para
sentimento se torna permissiva e não es- fazer tudo que ela quer. Os filhos acabam
tabelece limites. Esta ausência, na maioria se tornando pessoas prepotentes, egoístas
das vezes, é preenchida pelo mundo virtual, e comodistas. Ou então, aquela mulher
através da internet, que permite contatos que abriu mão de sua carreira profissional,
com companhias que nem podem ser avaliadas porque não se frustra-se por não ter evoluído e quer viver a vida dos filhos e
sabe quem são. Ultimamente, a figura feminina vem galgando se realizar através deles.
novas posições, rompendo velhos preconceitos, adquirindo novo
status e novos papéis sociais. A mulher deixou de ser aquela E então, o que fazer?
figura mitológica, a heroína de fábulas e contos, demonstrando A mulher tem demonstrado em várias oportunidades que é
capacidades intelectuais, acadêmicas, sem necessariamente, o “sexo forte”. Chegou o momento de perceber que é preciso
destruir seus dons naturais. reconstruir também o seu papel de mãe neste novo contexto
mundial. Se a mulher foi capaz de enfrentar uma sociedade ma-
A mãe e a família chista, de provar e comprovar que é tão capaz quanto o homem,
Entre as espécies dos seres vivos, o recém-nascido mais também tem que deixar aflorar seus dons de maternidade. Não
desprovido da capacidade de sobreviver sozinho é o ser humano. ter medo de enfrentar as surpresas que o “educar” traz. Deve
E a pessoa destacada pela própria natureza, na sua existência, continuar acompanhando seus filhos. Se não pode ficar com
é a mãe. É ela quem lhe dá a vida, o alimento e o acompanha eles o dia inteiro, quando este encontro for possível, que seja
nas suas primeiras ações e reações. Ela é quem lhe cura os um tempo de qualidade. Deve aproveitar para viver e conviver
primeiros ferimentos, conta histórias; prepara o alimento mais com eles; brincar, ler histórias, interessar-se por aquilo que eles
gostoso, conhece suas preferências, suas manhas, “pega no querem contar. Deve ouvi-los e respeitá-los. Deve procurar
pé”, dá bronca, põe de castigo, beija e abraça e está sempre por conhecê-los ao máximo, mesmo que para isto tenha que ler,
perto oferecendo um colo amigo e aconchegante. Esta é a mãe estudar, aprender sobre as ações e reações características das
de 50, 60 anos atrás... Esta é a mãe, cujo principal objetivo da crianças da idade deles. A mãe deve amar realmente seus filhos.
vida é o filho. Mas, a vida da mulher mudou. A evolução histó- Parece até uma contradição dizer isto, pois qual a mãe que não
rica trouxe-lhe outros ideais, outros conceitos, outros objetivos. ama seus filhos? Mas o amor é igual ao sal, em grande dose
Agora ela tem que lidar com uma diversidade de papéis: ser estraga o paladar; em pequena dose deixa o alimento insosso.
mãe eficiente, mulher bonita e bem aparentada, profissional, e É preciso saber amar. 
tudo isso em um grau de excelência que sobreponha o homem.
Ditadas pelo feminismo, as regras da competição entre os sexos Maria da Penha Almeida Prado é pedagoga, Orientadora Educacional e Mestra em Educação,
se tornaram ferrenhas. E a mulher se dispõe a fazer tudo o que Colégio Consolata, Imirim, São Paulo.

- Maio 2008 5
Quando “baixar”
o Espírito!

Jaime C. Patias
Deixar o Pentecostes se realizar é tarefa para
católicos corajosos.
de Dirceu Benincá

C
ostuma-se dizer que o Espírito de Deus sopra onde,
quando e como quer. Desse modo, não temos controle
sobre Ele. Mas, mesmo assim, sempre há tentativas
de “discipliná-lo”. Nos tempos atuais, podemos obser-
var que o Espírito Santo é captado de formas muito
diversas, desencadeando inúmeras, divergentes, e
até esquisitas manifestações. Não é raro encontrar pessoas
sofrendo de doenças religiosas tais como: infantilismo, beatice,
apatia, fobia, escrúpulo, melancolia etc.
A Bíblia fala que o Pentecostes se deu em forma de vento forte,
fogo e barulho. Tudo para ressaltar que aquele acontecimento
foi marcante na história do cristianismo. Transformou discípulos
medrosos em missionários corajosos. Agora, uma das grandes desestimulando a participação direta, comunitária, comprometida.
questões eclesiais está ligada ao modo de entender a ação do Enquanto os anjos sobem e descem no altar, o povo continua
Espírito nas pessoas, na Igreja e no mundo. A diversidade de crucificado, cada um no seu canto.
compreensões determina a multiplicidade de práticas. Por outro lado cresce também a Igreja da piedade popular,
Na perspectiva do poder tradicional da Instituição Católica, que se empenha de corpo e alma na libertação de todos os tipos
viver o Pentecostes significa retornar ao tempo em que a Igreja de males (doenças, desemprego, medo, insegurança...), quase
tinha grande visibilidade, influência política e privilégios. Importa, sempre identificados com a figura do demônio. Aqui, muitas vezes
então, fortalecer o modelo triunfalista, centrado nos sacramentos a religião assume uma conotação mágica e até comercial, onde
e no ritualismo; mais preocupado com o número de adeptos, se negocia o mal pelo bem em troca de um sacrifício pessoal.
com a performance dos ordenados, com as vestes, símbolos e Assim, o Pentecostes pode se configurar basicamente como
linguagem. Uma Igreja que volta à Idade Média, mas não chega realização de milagres e curas individuais.
até as primeiras comunidades cristãs. Na visão da Igreja da libertação (Pastorais Sociais, CEBs...),
Para os movimentos e grupos carismáticos em geral, que o Pentecostes representa a força nova capaz de mover para a
pululam por toda parte, o Pentecostes implica buscar uma revi- organização, para a vida comunitária, a luta por direitos e digni-
vificação e um “repouso” no Espírito. Muitas vezes, são regidos dade para todas as pessoas, grupos, etnias, povos... Trata-se de
por um forte intimismo, fundamentalismo, espiritualismo e até uma Igreja profética e missionária, empenhada com as causas
desembocam em “inflamações histéricas”. Por trás dessas sociais (terra, trabalho, ecologia, moradia, justiça...), em função
expressões está um desencanto e certo fatalismo diante da das quais muitos se tornaram mártires. Mas, também aqui há
realidade, normalmente amparados na compreensão de que é riscos, lacunas e perigos de limitar a ação do Espírito Santo ao
impossível transformar o mundo. Daí a alternativa é “sair” desse alcance da ação social e política.
mundo em “barquinhos de salvação”. Vivemos tempos de crise, diante do que, em síntese, há
três grandes tendências: 1) Fechar-se sobre si mesmo, isolar-
A Igreja do espetáculo se, desacreditar de tudo e de todos; 2) Voltar para trás, para
Com características semelhantes, encontramos a Igreja do o berço, imitando e absolutizando o passado; 3) Ir para frente,
espetáculo ligada à mídia, de modo especial rádio e televisão. enfrentar os desafios, avançar para as “fronteiras”. A crise leva
É uma Igreja que se especializa em trabalhar com as massas, os medrosos ao berço e os corajosos à fronteira. A propósito,
buscando acima de tudo aumentar a audiência e apaziguar o quando “baixar” o Espírito, para onde nos levará? 
espírito. Alegrando e comovendo a uns; sensibilizando e conver-
tendo a outros, pode correr o risco de vender falsas expectativas. Dirceu Benincá é sacerdote, doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP e co-autor do livro
Ao acentuar uma religiosidade à distância e individualista, acaba CEBs, nos trilhos da inclusão libertadora, Paulus, 2006.

6 Maio 2008 -
O plano de Deus para mim

pró-vocações
Temos em quem nos espelhar: Maria.
e sempre será a mãe de Jesus e a mãe de todos aqueles que
se sentem irmãos Dele e parte viva da sua Igreja.

A vocacionada de Deus
Maria foi uma jovem como todas as do seu tempo. Não tinha
nada, aparentemente, que a pudesse distinguir das demais, a
não ser uma extrema bondade e grande proximidade com Deus.
Vivia na cidade de Nazaré, ajudava a família e se preparava
para o casamento; inclusive já tinha o seu pretendente: José, o
carpinteiro. Como todo o povo de Israel, ela também aguardava
a chegada de um Messias. Como jovem simples, jamais passou
pela sua cabeça, que um dia pudesse ser ela a escolhida de Deus
para gerar e dar à luz ao Salvador que todos esperavam.

Maria questiona, reflete e decide


Conhecemos a história da visita do Anjo Gabriel, da parte
de Deus, para fazer a Maria uma importante proposta: Lc 1, 26-
38. Das suas perguntas e respostas ao Anjo, Maria demonstra
de Rosa Clara Franzoi não ser uma jovem ingênua ou alienada. Ela sabe o que é ser
virgem; sabe o que é engravidar e conhece bem como é o pro-

P
cesso da vida; por isso, questiona, reflete e só depois dá o seu
ara que algo dê certo, é preciso que seja planejado, consentimento consciente e livre. Ela entende que a verdadeira
tenha um objetivo claro e um ponto onde se pretenda liberdade não é fazer o que se quer; mas é escolher o melhor,
chegar. A experiência nos mostra que quando co- aquilo que Deus planejou para a realização do próprio futuro.
meçamos a realizar alguma coisa, movidos apenas Este sim de Maria mudou totalmente os seus projetos pessoais
pelo entusiasmo, muitas vezes somos obrigados a em relação ao seu futuro. Ela sabe disso; mas sabe que Deus
parar e a repensar tudo. Olhemos para Deus. Os é maior e os seus planos devem estar sempre em primeiro lu-
seus projetos em favor da humanidade, os planejou com uma gar. E ela aceita a proposta: “Faça-se em mim conforme a tua
antecedência de milênios e milênios... Ele, o Senhor do tempo Palavra” (Lc 1, 37).
e da história, a inteligência suprema, não atropelou as coisas.
Ao longo dos séculos, sempre respeitou o passo das pessoas Nós e o projeto de Deus
e dos acontecimentos envolvidos na execução de seus planos. Todo ser humano é um vocacionado, isto é, chamado por
Esta simples introdução leva-nos a refletir sobre a vocação de Deus a realizar uma missão específica durante o tempo de
alguém que Deus foi preparando desde toda a eternidade, para sua passagem por este mundo. Pois bem, temos em quem
ser uma peça importantíssima na concretização do plano da nos espelhar: Maria. Ela nos ensina que sonhar o futuro é bom
Encarnação e da Redenção: Maria. Estamos em maio, mês em e importante. Querer concretizar esse sonho é fundamental;
que a Igreja, com orações, celebrações, hinos e cânticos, quer porém, desde que esteja de acordo com o projeto que Deus tem
prestar sua homenagem de amor e gratidão, àquela que foi, é, para cada um de nós. Só assim, estaremos construindo uma
vida que nos realizará. Sim, porque toda vocação não beneficia
só quem a recebe; mas, através da sua missão específica, o
Quer ser um missionário/a? vocacionado acaba tornando-se responsável por todos que
passam pelo seu caminho. 
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui Para refletir:
02611-001 - São Paulo - SP Querendo, continue a reflexão lendo o texto de Lc 1, 26-38 e
Tel. (11) 2231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br tente responder:
1. O que significa para nós a resposta de Maria ao Anjo: “Faça-
Centro Missionário “José Allamano” - padre Patrick Gomes Silva se em mim conforme a tua Palavra?”
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
02636-030 - São Paulo - SP 2. Olhando para a realidade, somos capazes de perceber a
Tel. (11) 2232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br presença de Deus que nos chama a fazer algo para melhorar
ou mudar alguma situação negativa que está prejudicando
Missionários da Consolata - padre César Avellaneda alguém?
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 3. Que planos temos para o nosso futuro?
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 3624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br Rosa Clara Franzoi, MC, é animadora vocacional.

- Maio 2008 7
Quênia
Impasses prolongam crise
No 8 de abril, os seguidores de Raila Odinga,
líder do Orange Democratic Party (ODM) e Primeiro
Ministro, entraram em conflito com a polícia, ao
protestarem por causa do impasse na formação do
novo governo. A calma parece ter voltado, mas no
plano político a situação piorou depois da decisão
do ODM de suspender as conversações com o
presidente Mwai Kibaki. O novo Poder Executivo
deve ser formado com base nos acordos de 28 de
fevereiro entre maioria e oposição, realizados com a
mediação do ex-Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan.
O entendimento prevê também a criação do cargo
África de Primeiro Ministro, confiado a Odinga. O princípio
O século da África e da Ásia que inspirou o acordo de fevereiro é o da partilha do
Investimentos, comércios, segurança energética, poder entre maioria e oposição. O problema nasce nos
mudanças climáticas, reforma das Nações Unidas detalhes, na distribuição dos cargos ministeriais mais
e manutenção da paz. Estes foram os principais importantes. A oposição acusa o presidente de não
VOLTA AO MUNDO

temas discutidos na primeira Cúpula entre Índia e querer respeitar o compromisso de partilhar o poder
África, ­realizada em abril, em Nova Délhi. Ao abrir meio a meio, como prevê o acordo, mas de querer
os trabalhos, o Primeiro Ministro indiano Manmohan desempenhar um papel privilegiado como Chefe de
Singh destacou a importância que seu governo atribui Estado. Kibaki rebate que o papel de Premier é limita-
ao incremento do comércio entre a Índia e a África, do, porque o cargo não está previsto na Constituição
anunciando que Nova Délhi oferecerá o acesso prefe- vigente. Segundo o presidente, somente com uma
rencial ao mercado indiano para as mercadorias de 50 reforma da Carta Constitucional será possível definir
países em desenvolvimento, 34 dos quais, africanos. com exatidão os poderes do Primeiro Ministro.
A Índia quer colocar à disposição da África o próprio
conhecimento no campo da Tecnologia da Informação, Tibete
da produção energética e na gestão de pequenas Um dilema para Pequim
e médias empresas, através do uso de parcerias A onda de violentos protestos no Tibete não
entre os setores público e privado. O Premiê indiano poderia ter acontecido em um momento pior para
destacou a necessidade para a África e para a Índia o governo chinês. A poucos meses das Olimpíadas
de transformar suas instituições internacionais, para de Pequim, os líderes chineses não querem que os
criar um sistema econômico mais justo. “O século XXI protestos dos monges se transformem na imagem
será o século da África e da Ásia” - auspiciou Singh. que define o país. Mas os manifestantes tibetanos
A Cúpula promovida por Nova Délhi se inspirou na parecem determinados a mostrar seu ponto de vista
precedente, entre China e África, realizada em 2006, enquanto todas as atenções estão voltadas para a
que teve a participação de delegações de 48 países China. Eles querem protestar contra o que vêem
africanos. como uma violação dos direitos humanos por parte
do país e querem mais liberdade, tanto política quanto
Taiwan religiosa, na região. Os governantes chineses vão
“Os heróis da grande muralha” tentar evitar qualquer situação que lembre o que
Assim são chamados os 679 missionários de aconteceu em Mianmar em 2007. Por outro lado,
Scheut (Congregação do Coração Imaculado de eles não querem dar espaço aos monges e a outros
Maria, CICM) que dedicaram as suas vidas à missão manifestantes por medo de que isso seja interpretado
na China. Segundo o Christian Life Weekly o boletim como um sinal de fraqueza e acabe levando a mais
semanal da arquidiocese de Tai Pei, o “Ferdinand protestos. O Tibete, juntamente com outros territórios
Verbiest Institute” - o Instituto da Universidade Católica que têm movimentos separatistas, como Xinjiang e
de Lovanio, que se ocupa exclusivamente do diálogo Taiwan, representa uma grande dor de cabeça para
entre Europa e China - publicou “Os Nomes dos Mis- os líderes chineses. O governo central tem investido
sionários Scheut na Terra da Missão Chinesa”. Trata-se rios de dinheiro na região numa tentativa de melhorar
de um valioso volume histórico sobre o catolicismo e a qualidade de vida dos tibetanos. Uma nova estrada
a missão na China, que inclui a biografia e as fotos de de ferro até a capital, Lhasa, foi usada como bandeira
679 missionários Scheut que trabalharam na China pelas autoridades como prova de que eles querem
entre 1865 e 1955. Os missionários Scheut chega- trabalhar pelo bem da população do Tibete. Mas os
ram à China em 1865 (três anos depois da fundação tibetanos reclamam que o investimento só beneficiou
da Congregação), guiados pelo seu fundador padre aqueles da etnia chinesa Han que trabalham na região
Theophile Verbist, que faleceu dois anos depois, de e que o efeito tem sido diluir - ou mesmo destruir - a
uma doença que contraiu na Mongólia, aos 44 anos. cultura tibetana. Houve tentativas do governo chinês
Dos 679 padres de Scheut que trabalharam na Chi- e do Dalai Lama de iniciar negociações sobre uma
na de 1865 a 1955, 248 missionários morreram em maior autonomia para a região, mas pouco progresso
missão. Até 1948, havia ainda 239 missionários que foi feito até agora. 
trabalhavam na China, dando uma grande contribuição
na evangelização e na área cultural. Fonte: BBC, Fides.
8 Maio 2008 -
INTENÇÃO MISSIONÁRIA
Para que a Virgem Maria, Estrela da
Arquivo IMC Venezuela

Evangelização e Rainha dos Apóstolos, assim


como os acompanhou no começo da Igreja,
guie também agora com carinho maternal os
missionários e missionárias do mundo.
do seguimento, de pôr-se nas pegadas de Seu Filho. A idéia
do seguimento de Jesus sempre foi muito cara para a Igreja e
para a espiritualidade missionária. Missionário é aquele que se
coloca a caminho, é aquele que anda na trilha do Mestre, não
como desbravador solitário ou heróico, mas como alguém que,
no aprendizado do seguimento, vai buscando nas pegadas de
Jesus, o itinerário da própria missão.
b) nas três narrações Maria fica em silêncio, não fala pratica-
Misisonários e missionárias em Nbasanuka, região do Delata, Venezuela. mente nada, mas contempla os acontecimentos. Parece que
ela está a nos dizer que, num mundo de tantos ruídos, é preciso
de Vitor Hugo Gerhard silenciar e saborear a presença de Jesus a partir de dentro
e não na exterioridade das coisas e dos fatos. O silêncio de

U
Maria diante de Zacarias, no caminho para o Egito e mesmo
m dos aspectos mais geniais da espiritualidade cristã em Jerusalém, nos pede ouvidos mais atentos e boca menos
e, de maneira especial, da espiritualidade mariana, é escancarada. Nas pegadas e no silêncio talvez se pudesse
aprender com os próprios gestos do protagonista e, encontrar mais facilmente o rumo da Evangelização.
em nosso caso de hoje, com os passos de Maria. c) nas três narrações, a proximidade física do menino em rela-
Após o nascimento de Jesus, Maria nos é apresentada ção aos outros personagens é flagrante. É como se estivesse a
pelos Evangelhos em três ocasiões muito originais, a saber: nos a dizer que não há missão longe D’Ele, não há vida cristã
na apresentação do menino no Templo, na fuga para o Egito e sem a experiência forte, dinâmica e permanente de Jesus, não
na peregrinação para Jerusalém, quando então Jesus tinha 12 há possibilidade de chegar ao Pai se não for pelo Filho. Por
anos. Nestas três ocasiões, alguns traços das narrações nos isso, a Eucaristia será sempre o centro da vida cristã e a mola
podem indicar algumas pistas para o tema em questão: mestra da missão. 
a) nas três narrações Maria se coloca fisicamente sempre
atrás do menino. Parece que ela está a nos indicar o caminho Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

O massacre de Eldorado dos Carajás


A Sagrada Escritura nos apresenta em Lc 7, 24-35 uma exigir a desapropriação de um latifúndio. O processo dos
fração do Evangelho sob o título “João e a presente geração”. comandantes da operação policial está parado nos tribunais
Lendo e refletindo, vimos que Jesus fala da atitude de João, superiores e ambos continuam em liberdade. A chacina dei-
o grande profeta, diante das lideranças. Atitude de coragem e xou 19 trabalhadores rurais mortos, centenas de feridos e 69
de imparcialidade. João é acolhido pelo povo e rejeitado pelas mutilados. Os sobreviventes do massacre além de conviver
lideranças do judaísmo o que acontece também com Jesus. com a injustiça da impunidade e com as mutilações físicas,
Essa rejeição se dá, pois as lideranças não aceitam mudanças não receberam as indenizações de direito. As 13 viúvas, cujos
que venham interferir em seus privilégios. Constatamos como é maridos foram executados naquele dia, também esperam da
atual esta palavra para nós hoje. Esta atitude de rejeição está no justiça as indenizações a que têm direito.
presente, em nossas lideranças e também nos nossos dias. A cultura da violência gera a cultura da impunidade. O Estado
O massacre de Eldorado dos Carajás, que ocorreu no Pará não foi capaz de criar instrumentos para corrigir o ocorrido. E
em 17 de abril de 1996 e que originou o Dia Nacional de Luta nós? Cristãos católicos nas situações do dia-a-dia, em nossa
pela Reforma Agrária, marcou negativamente o país e ganhou rua, nossa comunidade, nossa pastoral, assumimos a atitude de
repercussão internacional. É considerada uma das ações policiais João e de Jesus, ou buscamos proteger nossos interesses?
mais brutais da história recente do Brasil.
Sob ordens do governador do Estado, participaram da Maria das Graças B. Farias, “Santuário São Judas Tadeu”, Coordenadora da Região III. ­Publicado
operação 155 oficiais, divididos em duas tropas militares que no Informativo “Lá vem o trem das CEBs”, nº 33 - abril de 2008, diocese de São José dos
abriram fogo contra famílias sem-terra que protestavam para Campos, SP.

- Maio 2008 9
Orai sem cessar
espiritualidade

pela unidade
A origem da Semana
de Oração pela Unidade
dos Cristãos. Por uma
espiritualidade ecumênica
missionária.
de José Carlos Stoffel

J
esus na agonia do horto orou pela
unidade de todos os seus discípu-
los e discípulas. “Eu te peço para
que todos sejam um. Como tu,
Pai, estás em mim e eu em ti, que
eles estejam em nós, para que o
mundo acredite que tu me enviaste” (cf.
Jo 17, 21). Somos enviados pelo próprio
Cristo em missão pela unidade de todos
os que professam o mesmo Batismo e pela
unidade de todo gênero humano. Buscar
a unidade visível da Igreja é dimensão
intrínseca da evangelização e sua missão.
O que antes parecia algo inconciliável –
missão e ecumenismo – agora se torna
um imperativo pastoral. Compreende-se
que missão não significa uma empreitada
competitiva de aumento de prosélitos, e
ecumenismo não é estratégia de cooptação
de irmãos e irmãs de outras igrejas para
a “minha igreja”, ou simples unificação.
Como podemos anunciar Cristo dividido?
Como o mundo vai crer em Cristo e seu
projeto ao apresentá-lo nas mais diferentes
denominações, reivindicando para si a
hegemonia da salvação? provocaram o encontro entre cristãos de Espiritualidade do diálogo
Foi por causa desse desconforto que várias denominações.Amissão, poderíamos Como Jesus, Mestre da Palavra, junto
em 1910, representantes de várias socie- dizer, foi a mãe do movimento ecumênico. ao poço com a samaritana, vamos apren-
dades missionárias de matriz protestante, Por “movimento ecumênico” entendem-se as dendo a viver a mística do diálogo (Jo 4).
reuniram-se no 1º Congresso Missionário atividades e iniciativas que são suscitadas e O outro, ao menos água tem para dar de
Ecumênico em Edimburgo (Escócia), sendo ordenadas, segundo as várias necessidades beber. Ao beber da água da cultura, da
marco histórico do início do movimento da Igreja e oportunidades dos tempos, no experiência religiosa, da tradição confes-
ecumênico moderno, cuja maior expressão sentido de favorecer a unidade dos cristãos, sional de nossos irmãos e irmãs, vamos
é o Conselho Mundial de Igrejas - CMI, assim define o decreto do Concílio Vaticano crescer na nossa própria identidade cristã
fundado em 1948. Os desafios da missão II, a Unitatis Reditegratio. e eclesial. A convivência ecumênica é

10 Maio 2008 -
essencialmente dialogal. O diálogo implica grada. A conversão pastoral pedida em Constituição do CMI, em 1996, uniram-se na
na coragem de transpor fronteiras ecle­ Aparecida sugere uma nova postura diante promoção dessa prática de oração comum
siásticas e culturais. “A fronteira é o melhor do pluralismo eclesial e religioso. “Nesta entre os cristãos. No Brasil, o Conselho
lugar para adquirir conhecimento” (Paul nova etapa evangelizadora, queremos que Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC),
Tillich). O diálogo promove mais a firmeza o diálogo e a cooperação ecumênica se desde sua fundação, em 1982, assumiu
da própria fé. Pessoas de outras Igrejas, encaminhem para despertar novas formas a Semana de Oração pela Unidade dos
com toda a riqueza de suas tradições, e de discipulado e missão em comunhão. Cristãos. Desde então muitas pessoas
também de outras religiões, nos ajudam a Cabe observar que, onde se estabelece ajudaram na edição e adaptação dos
entender o Cristo em que cremos. Parte- o diálogo, diminui o proselitismo, crescem textos. Neste centenário, celebramos a
se do princípio de que o Espírito Santo é o conhecimento recíproco e o respeito, e Semana de 4 a 11 de maio.
derramado sobre todos; que Cristo morreu se abrem possibilidades de testemunho Aparecida nos alerta que às vezes
por todos nós (catolicidade da fé) e que comum” (DA 233). esquecemos que a unidade é, antes de
Jesus Cristo foi ressuscitado por Deus. tudo, um dom do Espírito Santo, e oramos
Entramos em diálogo porque a neces- Oração pela unidade pouco por esta intenção (DA 230). “Esta
sidade é nossa, e não dos outros. Nós é Paul Wattson - padre anglicano e co- conversão do coração e esta santidade de
que temos que tomar a iniciativa partindo fundador da Fraternidade Franciscana vida, juntamente com as orações particu-
de uma necessidade concreta para esta- da Reconciliação - de 18 a 25 de janeiro lares e públicas pela unidade dos cristãos,
belecer um diálogo. Quem participa do de 1908, em Graymoor (Garrison – Nova hão de se considerar a alma de todo o
diálogo deve ir como ouvinte. A mensa- York), realizou pela primeira vez uma movimento ecumênico e com razão pode
gem inicial é a do outro. O diálogo é um oitava de oração pela unidade dos cris- chamar-se ecumenismo espiritual” (UR 8).
processo que pode durar uma vida inteira tãos. Iniciou com a antiga data da Festa Portanto, é obra do Espírito Santo e nós
e é mais importante do que o resultado de São Pedro e terminou com a Festa da somos cooperadores (1Cor 3, 9-10).
em si. É mais uma postura (dando tempo Conversão de São Paulo. A semana de
ao tempo); um estilo de vida; um jeito de oração foi abençoada pelo papa Pio X, “Orai sem cessar”
viver a espiri­tualidade cristã que perpassa em dezembro de 1909. Esta passagem bíblica se encontra
vários níveis: o institucional, o inter-pessoal Em 1920, uma Conferência do Movi- em 1Ts 5, 17 e é o tema escolhido para
e o individual. No processo de diálogo, mento Fé e Ordem (hoje uma comissão a celebração do centésimo aniversário
construímos relações de confiança que do CMI), em Genebra, resolveu adotar da Semana de Oração pela Unidade dos
nos levam a viver e trabalhar em conjunto como “semana de oração pela unidade Cristãos. Oremos, pois, sem cessar, tendo
e exercer a missão pelo testemunho. cristã” aquela que termina com a Festa de os mesmos sentimentos de Jesus Cristo
Na Conferência de Aparecida, os bispos Pentecostes. Esta iniciativa disseminou-se (Fl 2, 5). A oração abre o coração para o
apontaram para a necessidade de mais pelo mundo. Em 1935, o padre francês reconhecimento da riqueza do outro, para
agentes de diálogo e mais bem qualificados Paul Couturier explicitou o objetivo da a conversão e a reconciliação.
(DA 231). Neste sentido, podemos falar unidade “como Cristo quer e os meios A unidade também é construída aos
de pessoas que exerçam o ministério do que ele deseja”. O Pontifício Conselho pés da cruz. “Quando eu for elevado da
diálogo em nossas Igrejas Particulares para a Promoção da Unidade dos Cristãos terra atrairei todos a mim” (Jo 12, 32). A
e nos diversos Institutos de Vida Consa- da Igreja Católica e a Comissão de Fé e cruz de Cristo e dos crucificados da his-
tória é caminho para a unidade. Na dor
e na oração solidária com os sofredores
José Altevir da Silva, CSSp

deste mundo, vamos rompendo barreiras


confessionais, para juntos elevar um hino
de louvor e esperança ao Deus Trino, em
nome do qual, todos fomos batizados! E
você caro leitor, é convidado a participar
desse movimento de oração e testemunho,
de cooperação e diálogo, com todos os
irmãos e irmãs das diferentes Igrejas que
formam esse belo mosaico da única Igreja
de Cristo. Enquanto esse dia não chega,
continuemos trabalhando e orando sem
cessar, fecundando nossa missão. 

Para refletir:
1. Você conhecia a origem da Semana
de Oração pela Unidade dos Cristãos?
Se a resposta for negativa, o que
achou?
2. Que gestos em favor do ecumenismo
você percebe em sua comunidade?
3. Como podemos agir para disseminar
a idéia do ecumenismo?

José Carlos Stoffel, fpm, é mestre em teologia, pesquisador


de temas ecumênicos, e pároco em Guaianases, São Paulo,
Representantes de várias denominações presentes na 46ª Assembléia Geral da CNBB, 2008. Paróquia São Francisco de Assis.

- Maio 2008 11
Diálogo e respeito
testemunho

como solução
de Giancarlo Bossi até surgiram suspeitas de conexão entre mas respeitoso e fraterno. Quando existe
este grupo e o Al Qaeda. Na ilha de Basi- o respeito, até o difícil se torna possível.

E
lan e em outras áreas onde o Abu Sayyaf
m 1987, quando cheguei em mantinha presença, os padres estrangeiros O motivo do seqüestro
Payo, nas Filipinas, os cristãos já não podiam permanecer. Sempre acre- Meus seqüestradores diziam que o mo-
estavam sendo expulsos. A is- ditei e continuarei acreditando no diálogo tivo de me manterem refém era que, sendo
lamização moderna na ilha de com todos, desde que seja realizado no eu italiano, portanto, estrangeiro, o meu
Mindanao conheceu duas fases. respeito à diversidade. Se faltar o respeito país se esforçaria pela minha libertação.
A primeira, em meados dos anos recíproco é difícil dialogar. Sempre me Eles estavam precisando de dinheiro para
80, que começou com a chegada de um esforcei neste sentido, procurando não a aquisição de armas. Faziam-me muitas
número expressivo de pregadores extre- perder as oportunidades de dialogar com perguntas a respeito da minha religião,
mistas islâmicos, vindos do Afeganistão, eles; tanto que no dia do meu seqüestro sobre o papa, por exemplo; e mostravam-se
fundando muitas “mandrasas”, ou seja, os muçulmanos rezaram por mim; isto surpresos ao ouvirem como ele exerce o
escolas muçulmanas baseadas no Alco- demonstra que eu não era considerado seu papel de pastor universal. No fundo,
rão. A segunda fase aconteceu por volta um inimigo. Por isso, ao ser libertado fiz eles percebiam que no islã não há alguém
do ano 2000 e teve como protagonista o questão de ir pessoalmente fazer-lhes que faça isso e que tenha a autoridade de
grupo Abu Sayyaf. Após o atentado de 11 uma visita de cortesia e agradecer-lhes dizer a última palavra. Ficavam admirados
de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o apoio. Foi um encontro muito simples, ao ouvirem que nós, cristãos, traduzimos o
Fotos: Editora Mundo e Missão

12 Maio 2008 -
O padre Giancarlo Bossi, missionário italiano do PIME,
foi seqüestrado em 10 de junho de 2007, na Ilha de
Mindanao – Filipinas. Fiéis do mundo inteiro rezaram pela
sua libertação. O papa e o governo italiano também se
mobilizaram e ele foi solto em 20 de julho.

irmãos missionários e todos haviam tido


um desfecho feliz. Isto me dava força
e me mantinha calmo, repetindo a mim
mesmo: confia, Ele te libertará! Posso
afirmar que em momento algum perdi a
tranqüilidade dentro de mim; e sou muito
grato ao Senhor que me sustentou.

As lições do cativeiro
A oração do Pai Nosso nos ensina
a chamar Deus de “Pai”. Se ele é o Pai
de todos, significa que nós e todos os
outros seres humanos que vivem sobre
a face da terra somos irmãos e irmãs.
Em meio àquele cenário, confesso que
não foi difícil deixar que aflorassem no
meu coração sentimentos de perdão. Eu
tinha e continuo tendo esta convicção:
se um missionário, um sacerdote, não é
capaz de perdoar, por pior que seja a sua
si­tuação, já fracassou na missão. Durante
o cativeiro muitas vezes eu tentava querer
entender o porquê daquele seqüestro. O
nosso livro sagrado, a Bíblia, nas línguas que Deus estaria querendo me mostrar
locais; enquanto que o Alcorão - livro através dele? São perguntas que continuo
sagrado deles - é escrito e lido somente fazendo a mim mesmo até hoje e talvez ficaram surpresos; talvez porque nunca
em árabe. Nós conversávamos muito. nunca consiga ter respostas. Porém, uma tivessem ouvido falar do grande amor que
Eles rezavam e eu rezava. Um dia eu lhes das lições que eu pessoalmente tirei do o Pai tem para cada um dos seus filhos,
disse: será que estamos rezando para o fato é esta: o Evangelho deve ser pregado portanto, para com cada um deles. O que
mesmo Deus, uma vez que vocês rezam com a vida, antes que com palavras, com aconteceu naquele momento inesquecível
com a metralhadora na mão direita e com autêntica simplicidade e infinita paciência. transformou-se para mim numa forte exi-
a esquerda me mantém refém? Será que Ainda agora eu fico pensando: eu me gência e espero tenha produzido o mesmo
é o mesmo Deus que quer todas estas tornei mais conhecido pelo seqüestro, efeito também neles. Embora de credos
coisas? E eles me respondiam: Alá está do que por tudo o que vivi e realizei em diferentes, o Senhor é o mesmo e essas
no coração, não nas escolhas da vida. termos de trabalhos pela missão. Quantos diferenças deveriam desaparecer.
Algumas daquelas respostas ainda estão missionários e missionárias como eu, O meu desejo é de o quanto antes,
vivas na minha mente e devo encontrar que trabalham na doação e no silêncio poder voltar à ilha de Mindanao e fazer
tempo para aprofundar-lhes o sentido. e ninguém os conhece. Mas, no fundo, da paróquia de Payo, o símbolo de um
sabemos que, o que nos dá sustentação é diálogo fraterno, possível e autêntico.
A força que vem de Deus mesmo a força do sonho que perseguimos, Eu não sei se consegui entender mais
Fui refém por 39 dias... É tempo sufi- feito de gestos de fraterna solidariedade e melhor os irmãos muçulmanos, mas,
ciente para se refletir sobre muitas coisas. e partilha de fé e vida. sem dúvida, esta experiência me ensinou
Por companhia eu só tinha os que me que os impasses, também em questões
haviam seqüestrado, e que no fundo eram Um mundo de paz e diálogo religiosas, se resolvem dialogando no
também meus irmãos, filhos do mesmo Olhando para o grupo dos seqüestrado- respeito mútuo. Espiritualmente falando,
Deus, paupérrimos, amedrontados, embora res, que afinal, estava apenas cumprindo esta experiência foi para mim uma grande
segurassem uma arma na mão. Digo a ordens, eu pedia a Deus que um dia, graça de Deus; embora deva dizer que foi
verdade, senti grande pena deles. Naquela eles pudessem regressar às suas casas muito dura e sofrida. 
situação tão precária em que todos nos e sentados à mesa com suas famílias,
encontrávamos, eu procurava não perder pudessem voltar a comer o pão em paz, Giancarlo Bossi é missionário do PIME, trabalhando há 20 na
a esperança. Ficava pensando nos vários em liberdade. Quando um dia eu lhes Ilha de Mindanao, Filipinas. Publicado no jornal Missão Jovem,
seqüestros já vividos por alguns dos meus manifestei este meu sentimento, eles nº 229, dezembro de 2007.

- Maio 2008 13
fé e política

Quanto vale a cidadania?


Marcello Casal Jr/ABr

A sonegação do Imposto
de Renda, a compra
de produtos piratas, o
consumo de bens ilícitos
e o não recolhimento de
taxas fazem parte dos
"delitos" cometidos pelo
sujeito comum.
Ato público contra a pirataria, Brasília, DF.

de Humberto Dantas

E
xiste um grande dilema na vida em sociedade, discu- uma nova ordem. Nesse caso, estabelecemos o que poderíamos
tido faz séculos pela Filosofia. Qual a melhor atitude chamar de leis paralelas, reforçadas pela ineficiência do Estado
a ser adotada por um cidadão? A cooperação com as chamado de oficial. Esse mesmo Estado que também é vítima
questões coletivas ou a busca desenfreada por vanta- daqueles que o governam. E se o exemplo não parte de quem
gens individuais? A teoria dos jogos, capaz de explicar pune, vivemos no mundo das exceções.
o comportamento humano por meio de exercícios de Em termos práticos notamos esse ambiente em nosso co-
lógica matemática, tem estudos que apontam para resultados tidiano, de maneira muito clara. O trânsito mostra o motorista,
interessantes. Ficou comprovado, por meio de uma série de simu- suposto cidadão, deixando de lado cálculos coletivos e legais
lações com grupos de indivíduos, que a ação coletiva resulta em em nome de vantagens individuais. A sonegação do Imposto
ganhos individuais significativos a longo prazo. Isso representa de Renda, a compra de produtos piratas, o consumo de bens
dizer que, se tivéssemos a consciência da vida em sociedade, ilícitos, o não recolhimento de taxas fazem parte dos "delitos"
e respeitássemos o conjunto, todos seriam capazes de ganhar cometidos pelo sujeito comum. Na vida pública, essa busca por
mais. Tal realidade, no entanto, necessita prazos maiores, o vantagens é chamada de corrupção. E a política é vista como
que representa dizer que o tempo é variável fundamental para a arena da corrupção. Situação e oposição, por exemplo, se
o sucesso coletivo. revezam em diferentes papéis no Congresso, nos mostrando que
A reflexão acima é quase um sonho para quem vive no Brasil. trocas momentâneas colocam de lado o interesse da sociedade.
Não somos capazes de compreender que a esperteza do momento, Esse modo de agir representa uma característica peculiar dos
a vantagem instantânea e o ganho individual não valem a pena. políticos? Ou reflete, tal como um espelho, o caráter mediano
Existe dificuldade expressiva em calcular o impacto de nossas de uma sociedade tão pouco educada e compromissada?
ações ilícitas sobre o todo. Acreditamos que somos únicos ao Qualquer cidadão parece capaz de indicar quem são os
errar, e que o peso desse erro representa pouco demais. Não corruptos, mas nesse momento deixa de lado as suas próprias
aceitamos a hipótese de que a honestidade seja característica ações ilícitas. Acusar alguém é tarefa simples, agir individualmente
comportamental padrão, ela é uma qualidade extraordinária. Assim, em desacordo com a lei é parte da cultura. Nesse caso, apenas
desconfiamos do próximo, talvez ba­seados em nossa capacidade colaboramos com a enxurrada de cálculos que põe em xeque
de transgredir ou em experiências passadas que comprovam o nossa vida em sociedade. Ainda temos a sorte de encontrar
quanto estamos distantes de agir coletivamente. cidadãos que calculam de acordo com as regras, esperando
os benefícios futuros. Mas a crescente corrupção e a falta de
A força da tradição uma Justiça eficaz nos apresentam o risco de um rompimento
As ações ilícitas terminam justificadas pela cultura, ou pela social. Quando isso ocorrer, perceberemos o quanto valeria ter
tradição. Roubamos, burlamos, atravessamos, desviamos, deixado de lado a vantagem instantânea. 
damos um jeitinho porque “sempre foi assim”, ou porque “todo
mundo faz”. A tradição, nesse caso, é reforçada pela história e Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universitário São Camilo. Co-autor do
pelo exemplo. Ela é tão marcante, que em determinados casos a livro Introdução à Política Brasileira, Paulus, 2007.
quebra do compromisso é legitimada, a tal ponto de se constituir e-mail: hdantas@usp.br

14 Maio 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Rumo ao CAM 3 - Comla 8

Medellín
40 anos
Para uma missão Ad Gentes a partir dos pobres.

Jack Guez
de Estevão Raschietti

U
ma das conferências duran-
te o 2º Congresso Missioná-
rio Nacional, em Aparecida,
de 1º a 4 de maio, discutirá
a opção pelos pobres e a
urgência da missão nos 40
anos de Medellín.
"A Igreja latino-americana, reu-
nida na II Conferência Geral de seu
Episcopado, situou no centro de sua
atenção a pessoa deste continente,
que vive um momento decisivo de
seu processo histórico. Assim sendo,
não se acha ‘desviada’, mas ‘voltou-se
para’ a pessoa, consciente de que para
conhecer Deus é necessário conhecer
a pessoa”. Estas palavras lapidárias
abrem o texto das conclusões da II
Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano, realizada de 26 de Cidade de Medellín, Colômbia, sede da II Conferência do Celam em 1968.
agosto a 8 de setembro de 1968 na
cidade de Medellín, Colômbia. Retomam Paulo VI para tornar efetiva a recepção arcebispo de Teresina e presidente do
ao pé da letra o célebre discurso de das diretrizes do Concílio Vaticano II Conselho Episcopal Latino-Americano
encerramento do Vaticano II de Paulo diante das necessidades da Igreja (Celam)���������������������������������
. No total, participaram 137 bis-
VI, e expressam toda a fiel recepção presente na América Latina. A temáti- pos com direito a voto e 112 delegados
da essência doutrinária do Concílio, ca proposta foi “A Igreja na presente eo­ bservadores.
reinterpretada agora no contexto latino- transformação da América Latina à luz
americano. A perspectiva da “missão do Concílio Vaticano II”. A abertura da Transformação
para a humanidade”, lançada pela Conferência foi feita pelo próprio papa, Transformação é uma palavra cha-
Constituição Pastoral Gaudium et Spes o que marcou a primeira visita de um ve para entender Medellín. Não está
e resgatada agora por ocasião do 3o pontífice à América Latina. somente no título, mas todo documento
Congresso Americano Missionário no A inauguração aconteceu na cate- conclusivo está permeado por esse
Equador (12 a 17 de agosto), encontra dral de Bogotá, no dia 24 de agosto, por anseio, a partir do qual os bispos to-
na Conferência de Medellín uma sua ocasião do 39o Congresso Eucarístico mam consciência da “vocação original”
original contextualização profética e Internacional. Dela participaram 86 da América Latina: “vocação de unir
pastoral. bispos, 45 arcebispos, seis cardeais, numa síntese nova e genial, o antigo e
Celebramos os 40 anos de realiza- 70 sacerdotes e religiosos, seis reli- o moderno, o espiritual e o temporal, o
ção dessa histórica Conferência Geral giosas, 19 leigos e nove observadores que outros nos legaram e nossa própria
do Episcopado Latino-Americano, de não-católicos, coordenados pelo car- originalidade” (DM, Introdução 7).
sua atualidade e de sua relevância para deal Antônio Samoré, presidente da O acento sobre a temática da
a missão da Igreja no continente e no Pontifícia Comissão para a América “transformação”, coincidia com uma
mundo. Ela foi convocada pelo papa Latina, e por dom Avelar Brandão Vilela, das principais linhas do Concílio: en-

- Maio 2008 15
focar as reflexões nas respostas que a
Igreja deve dar aos problemas que ela A Conferência de Medellín re-partidas para uma comunidade de
discípulos sempre mais missionária. E
encontra com sua presença no meio
do mundo. 1968 era época de grandes
considera que a situação de mais ainda: trata-se de marcas profun-
das da genuína identidade da Igreja no
mobilizações na sociedade mundial, pobreza é o maior desafio continente, o próprio DNA da missio-
sobretudo por parte da juventude. O nariedade da Igreja latino-americana,
Concílio sublinhava a importância da ao qual deve fazer frente o resgatado com fidelidade e esperança
leitura dos “sinais dos tempos” para
enxergar o projeto de Deus para a anúncio do Evangelho. pela Conferência de Aparecida.

humanidade. Agora, em Medellín, a "Ver, julgar e agir"


Igreja latino-americana abraça de vez a A primeira dessas marcas é a
causa da “necessidade de uma mudan- cias, advertências e incentivos, Medellín atenção dada à realidade dos povos
ça global nas estruturas” (DM, Justiça representa, como afirma Paulo Suess, latino-americanos que se expressou,
16), insistindo, porém, “na conversão “um novo querigma magisterial que particularmente, na adoção do método
da pessoa, que exige imediatamente até hoje não perdeu sua atualidade”. “ver, julgar e agir”. Quase todos os
esta mudança” (DM, Justiça 3). Com efeito, dom Cândido Padin, bispo 16 documentos que compuseram as
Já na Carta Encíclica Populorum de Bauru e, na época, presidente do conclusões da Conferência partem da
Progressio, de 1967, Paulo VI tinha Departamento de Educação do Celam, teologia dos “sinais dos tempos”, com
apontado para a necessidade de que “o lembrou que Medellín foi, antes de tudo, o estudo atento da realidade, tanto
desenvolvimento exige transformações um verdadeiro acontecimento histórico econômica, política e social quanto
audaciosas, profundamente inovadoras” que, daí para diante, mudou os rumos eclesial do continente latino-americano
(PP 32). Medellín se compromete com a da ação da Igreja em todo o continente. e caribenho. O segundo passo consistiu
defesa “dos direitos dos pobres e opri- “Para usar um termo bíblico – afirmou o em identificar as interpelações que
midos” (DM, Paz 22), com a denúncia prelado – podemos dizer que Medellín brotavam da realidade, analisando-as
da violência estrutural e primeira que foi para a Igreja latino-americana, um à luz da palavra de Deus, do Vaticano
gera miséria e injustiça social. Adverte segundo kairós, como foi o Concílio II, do magistério e da experiência de
contra o intervencionismo das “nações Vaticano II para a Igreja universal”. toda a Igreja. O terceiro passo foi o de
poderosas contra a autodeterminação De lá para cá, muitas coisas acon- propor pistas de ação pastoral, visando
dos povos fracos” (DM, Paz 32) e contra teceram. Houve importantes mudanças transformar a realidade atravessada por
a “política armamentista”. “A luta contra na sociedade, como também na Igreja. estruturas de pecado e pelo clamor e
a miséria é a verdadeira guerra que Sem dúvida, os tempos de hoje não esperança dos pequenos.
devem enfrentar nossas nações” (DM, são os da Conferência de Medellín. Na Mensagem Final aos povos
Paz 29). Ao incentivar a organização Contudo, a memória desse evento da América Latina, os bispos latino-
do povo (cf. DM, Paz 27) e sua cons- vem nos lembrar algumas pedras de americanos afirmam com muita clareza
cientização, através de catequese e toques, fundamentais para a caminha- a tônica de sua postura diante da reali-
liturgia e em colégios e universidades da missionária latino-americana, que dade do continente: “Nossa palavra de
(cf. DM, Paz 24-25), com suas denún- representam pontos de chegadas e de pastores quer ser sinal de compromisso;
como homens latino-americanos com-
partilhamos a história do nosso povo”.
Jaime C. Patias

E continuam: “Como cristãos, cremos


que esta etapa histórica da América
Latina está intimamente vinculada à
história da salvação (...) Cremos que
estamos numa era histórica. Exige cla-
reza para ver, lucidez para dia­gnosticar
e solidariedade para agir. À luz da fé
que professamos como fiéis, fizemos
um esforço para descobrir o plano de
Deus nos sinais de nossos tempos”.
Esse deixar-se interpelar pela reali-
dade constitui uma profunda mudança
de atitude para uma Igreja acostu-
mada a sentir-se “mestra”, a revelar
sua verdade aos outros, mais que a
aprender pela história, a proclamar
“sua” palavra, mais que a ouvir os
apelos dos povos, a sentir-se “luz do
mundo”, mais que enxergar pela luz da
fé a presença de Deus na vida das pes-
soas. Ver, compreender e reconhecer
CAM 2 - Comla 7, Guatemala, novembro de 2003. são novos desdobramentos essenciais

16 Maio 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

México, em 1979, retomou com vigor


Jaime C. Patias

essa posição profética, lembrou que


esta foi causa de tensões e conflitos
dentro e fora da Igreja: “acusaram-
na com freqüência, seja de estar do
lado dos poderes socioeconômicos e
políticos, seja de um perigoso desvio
ideológico marxista” (P 1139).
Mas é só reler o próprio Documento
de Medellín para entender do que se
trata. Em primeiro lugar devemos dis-
tinguir que “a pobreza como carência
dos bens deste mundo, necessários
para uma vida humana digna, é um
mal em si”. Em segundo, “a pobre-
za espiritual é a atitude de abertura
para Deus (...) embora valorize os
bens deste mundo, não se apega a
eles e reconhece o valor superior dos
bens do Reino”. Enfim, a pobreza é
também “compromisso, assumida vo-
luntariamente e por amor à condição
dos necessitados deste mundo” (DM,
Pobreza da Igreja 4).
Neste contexto, uma Igreja pobre,
Retrato da pobreza na Praça da Matriz, Porto Alegre, RS.
que faz a opção pelos pobres “denuncia
para a caminhada missionária, que Opção pelos pobres a carência injusta dos bens deste mundo
tornam a Igreja novamente discípu- A Conferência de Medellín consi- e o pecado que a engendra; prega e
la no meio dos povos, companheira dera que essa situação de pobreza vive a pobreza espiritual como atitude
e amiga que busca continuamente é o maior desafio ao qual deve fazer de infância espiritual e abertura para
aliados e interlocutores, e não meros frente o anúncio do Evangelho. A pro- o Senhor; compromete-se ela mesma
destinatários de sua pregação. Por clamação de um Reino de amor e com a pobreza material” (DM, Pobreza
este motivo, esse olhar à realidade paz é incompatível com a “violência da Igreja 5). Por isso que “a pobreza da
não é completamente neutro, mas é institucionalizada” em que vivem os Igreja e de seus membros na América
cheio de compaixão. É como o olhar pobres da América Latina (DM, Paz 16). Latina deve ser sinal e compromisso:
do próprio Deus, que vê a miséria do Não é possível, por conseguinte, ficar sinal do valor inestimável do pobre
seu povo no Egito, ouve seu clamor e “indiferente ante as tremendas injustiças aos olhos de Deus; compromisso de
conhece seus sofrimentos (cf. Ex 3, 7). sociais existentes na América Latina” solidariedade com os que sofrem” (DM,
É o mesmo olhar de Jesus que, vendo (DM, Pobreza da Igreja 1). Pobreza da Igreja 7).
as multidões, tem compaixão “porque Daqui nasce a intuição básica de O exemplo é do próprio Cristo que
estavam cansadas e abatidas como Medellín que é a “opção pelos pobres”. sendo “rico se fez pobre” (2 Cor 8, 9)
ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Nesse Clodóvis Boff esclarece: “Certamen- para salvar-nos. Portanto, “a Igreja,
sentido, discernir os sinais dos tempos te, essa opção não é uma novidade movida pelo Espírito Santo, deve seguir
conduz a Conferência de Medellín a ­absoluta na Igreja. Além de ter sido uma o mesmo caminho de Cristo: o caminho
olhar frente a frente para a realidade prática constante na história, embora da pobreza, da obediência, do serviço
de um continente que vive “sob o signo sob formas várias e até desencontradas, e da imolação própria até à morte,
trágico do subdesenvolvimento, que ela tem fundamentos perfeitamente morte de que Ele saiu vencedor pela
não só afasta nossos irmãos do prazer bíblicos. Mas foi um dos méritos (e não sua ressurreição” (AG 5).
de desfrutar dos bens materiais, mas dos menores, antes, possivelmente Quando a Conferência de Puebla
de sua própria realização humana” o maior) da Igreja da América Latina assumiu a herança de Medellín criando
(DM, Mensagem Final). ter desenterrado essa dimensão e ter a expressão “opção preferencial pelos
O subdesenvolvimento “é uma in- dado um lugar de honra na teologia pobres”, exatamente estas três palavras
justa situação promotora de tensões e na pastoral. Só por isso a Igreja – pobre, preferência, opção – remeteu
que conspiram contra a paz” (DM, do continente tornou-se credora da aos três conceitos distintos de pobreza
Paz 1), “uma dolorosa pobreza, que gratidão eterna não só dos pobres do material, pobreza espiritual e pobreza
em muitos casos chega a ser miséria mundo, mas também da parte da Igreja como compromisso. A missão da Igreja
desumana” (DM, Pobreza da Igreja 1). universal”. latino-americana vai se definindo então,
Essa miséria “se qualifica de injustiça Sobre a “opção pelos pobres” tan- em torno desse eixo fundamental: uma
que clama aos céus” (DM, Justiça 1) e to se falou ao longo destes 40 anos. missão a partir dos pobres (das vítimas
essa injustiça expressa “uma situação Quando a III Conferência do Episcopado da pobreza), que anuncia a Palavra que
de pecado” (DM, Paz 1). Latino-Americano, realizada em Puebla, se fez carne nos pobres, realizada por

- Maio 2008 17
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA
Arquivo IMC Venezuela
Missão mundial
A dimensão propriamente missio-
nária não encontrou um seu espaço
e nem se expressou num documento
específico na Conferência de Medellín.
Contudo, a “missão para a humanidade”
se sobressai de maneira preponde-
rante em todo Documento Final, fruto
de uma singular prática colegial de
16 comissões, que permitiu cruzar a
experiência pessoal dos participantes
com os dados apresentados, colocar
em comum a visão dos bispos, com a
prática de leigos e leigas, religiosos e
religiosas, peritos e teólogos, párocos
do clero diocesano e observadores
não-católicos.
Medellín fundamenta com exatidão
Missionários e missionárias que trabalham no Vicariato de Tucupita, região do Delta, Venezuela.
como há de proceder uma missão Ad
uma Igreja existencialmente pobre. Isso A reflexão latino-americana, porém, Gentes a partir da América Latina. A
se expressa também na estrutura das denunciava que o subdesenvolvimento opção pelos pobres implica para a
três grandes partes do Documento de e a exploração dos países pobres sus- Igreja um deslocamento fundamen-
Medellín: promoção humana, evange- tentava de fato o desenvolvimento e a tal, uma saída de si, em termos de
lização e Igreja. acumulação dos ricos. Não havia de- perceber e questionar a realidade do
senvolvimento nenhum para os países mundo do ponto de vista das vítimas
Libertação pobres, muito pelo contrário: a situação e dos injustiçados. Implica também e,
A opção pelos pobres é fundamen- de miséria, gerada e sustentada pelas sobretudo, a adesão a um projeto de
talmente uma opção pelo ser humano. nações ricas, era estrutural e permitia mundo global mais justo e solidário,
Uma opção para salvar a pessoa da de fato riqueza e desenvolvimento só significativamente “outro” daquilo que
dependência opressora e da domina- para uma parte do mundo, e retroces- temos diante dos olhos. Um mundo sem
ção injusta. A Conferência de Medellín so para a outra. A solução para esse pobres Lázaros e sem ricos Epulões.
convoca, então, os cristãos a se com- estado de injustiça estrutural passava “Uma família de mais ou menos todos
prometerem com a construção de uma inevitavelmente por um processo de iguais”, como pedia generosamente o
sociedade justa, sem marginalizados ruptura e de libertação. patriarca sertanejo da Ilha do Bananal,
nem oprimidos. O apelo para a ação Estando assim as coisas, uma citado por dom Pedro Casaldáliga.
é dramático: “não basta, certamente, “teologia da libertação” tornava-se Conseqüentemente, a preocupa-
refletir, conseguir mais clarividência e mais apropriada que uma “teologia ção com a dimensão universal dessa
falar. É necessário agir. A hora atual não do desenvolvimento” inaugurada pelos missão não passa despercebida, mas
deixou de ser a hora da ‘palavra’, mas documentos pontifícios. Ademais, o é afirmada pela necessidade primeira de
já se tornou, com dramática urgência, a conceito de libertação encontrava na reconhecimento do sujeito histórico do
hora da ação” (DM, Introdução 3). Bíblia um fundamento bem mais con- pobre, capaz de abrir-se a uma relação
Essa ação tomou o nome de “liber- sistente, que revelava de fato a ação fraterna com os demais: “Por vocação
tação”. Na época falava-se muito em de Deus na história. Com essa noção própria, a América Latina tentará ob-
“desenvolvimento”. Até documentos Medellín almejava o profundo resgate ter sua libertação a custo de qualquer
do magistério como a Mater Magistra da pessoa humana numa “libertação sacrifício, não para fechar-se em si
(1961), a Pacem in Terris (1963), a integral”, na qual se ofereçam “as ri- mesma, mas para abrir-se à união com
Gaudium et Spes (1965) e a Populorum quezas de uma salvação integral em o resto do mundo, dando e recebendo
Progressio (1967) falavam de desen- Cristo, o Senhor” (DM, Catequese 6). em espírito de solidariedade. De forma
volvimento em perspectiva humanista. Por isso, uma “verdadeira libertação” especial julgamos decisivo nesta tare-
Célebre se tornou a expressão de Paulo exige uma “profunda conversão para fa o diálogo com os povos irmãos de
VI: “desenvolvimento integral do ser que chegue a nós o ‘Reino de justiça, outros continentes que se encontram
humano e desenvolvimento solidário da de amor e de paz’” (DM, Justiça 3). em situações semelhantes às nossas.
humanidade” (PP 5). Mas esse conceito Com vista a essa libertação integral, Unidos nos caminhos das dificuldades
expressava inequivocadamente uma Medellín propõe “que se apresente e esperanças, podemos conseguir que
visão linear, dando por óbvio que povos cada vez mais nítido na América Latina nossa presença no mundo seja definitiva
e pessoas deviam se “desenvolver” ao o rosto da Igreja autenticamente pobre, para a paz” (DM, Mensagem Final). 
longo de um caminho traçado pelos missionária e pascal, desligada de
países ricos. Daí a distinção em países todo poder temporal e corajosamente Estevão Raschietti, SX, é mestre em Teologia Dogmática
desenvolvidos e subdesenvolvidos, comprometida com a libertação de com concentração em Missiologia. Assessor do Comina
avançados e atrasados, centrais e toda pessoa e de todas pessoas” (DM, e membro da equipe do Centro Cultural Guido Maria
periféricos. Juventude 15). Conforti, Curitiba, PR.

18 Maio 2008 -
Roteiro de Encontro
Tema do mês: “Exagero?”
Será que não estamos
exagerando?
a) Acolhida
b) Invocação do Espírito Santo
c) Dinâmica
d) Apresentação do tema,
questionamentos e debate
e) Compromisso mensal
f ) Oração conclusiva

Divulgação
Os desafios do mundo virtual
para nós, jovens.
de Patrick Gomes Silva

U
ma recente pesquisa de mercado apontou que os
usuários de celulares desejariam poder usar seus
aparelhos quando estão no chuveiro ou banheiro,
para assim poderem ficar batendo papo com amigos,
enviar um e-mail esquecido ou mesmo conversar
com alguém. Não demorou e um fabricante ofereceu
um celular à prova d'água, para que fosse possível realizar os
desejos dos consumidores. Fiquei pensando nesta pesquisa
e nesta necessidade de ter o celular presente em todos os
momentos... Hoje o aparelho passou a ser, para alguns, quase fiquei meio assustado, mas, depois de um tempo, me habituei à
que uma extensão do seu próprio corpo. Pergunto: será que idéia e acabei fazendo um jejum tecnológico. Dizem os médicos
não estamos exagerando? que o jejum é por vezes benéfico ao corpo, assim, foi também
Fiquei pensando no que o futuro poderá nos reservar bre- o jejum tecnológico daqueles dias. Fez-me despertar para uma
vemente neste campo. É possível que perderemos aqueles possível escravidão de todos estes meios que estão a nosso
pequenos prazeres da vida, como o de sentir a água quente serviço, mas que por vezes podem se tornar nossos “senhores”
escorrer pelo corpo; abraçar alguém, o prazer de encontrar um e nós os “escravos”. O perigo é evidente, chegando ao aeroporto
amigo, de conversar com ele, de soltar umas gargalhadas olhando de Manaus para regressar a São Paulo, avistei uma lan house,
nos seus olhos... Tudo isto me parece estar em perigo, temo a primeira reação era correr para lá para ver todos os e-mails
que chegaremos a um tempo quando nem vamos precisar nos que teriam chegado, porém, chamando a mim mesmo à razão,
encontrar com os amigos, mas apenas manteremos contato com resisti à tentação e não fui até lá, optei por esperar mais umas
eles por celular ou por bate-papo. Nossas relações passaram horas até chegar em casa.
a ser virtuais, temos amigos virtuais, uma vida virtual... Então Nós, jovens, somos mais abertos a estas novas tecnologias.
aqui vai de novo a pergunta: será que não estamos exagerando? Nossa facilidade em lidar com elas nos torna mais vulneráveis.
Convido você a fazer uma experiência pela qual passei nestes Temos que estar atentos para que elas não nos “roubem” as
dias. Antes de mais uma premissa, confesso que sou também coisas simples da vida. Na verdade, as maiores alegrias provêm
um adepto e um usuário destas modernas tecnologias, o celular dos prazeres menores e simples da vida, como, por exemplo,
e o computador fazem parte do meu dia-a-dia. tomar um bom banho depois de um dia de trabalho ou uma boa
conversa olhando nos olhos de um amigo de verdade. Talvez
Uma semana de jejum seja bom nos questionarmos se não corremos o risco de viver
Por causa de um encontro, tive que me deslocar de São apenas uma vida virtual. Esta vida virtual, creio que não vale a
Paulo a Manaus, onde permaneci durante uma semana. Logo pena viver, pois ela nada se compara à vida real de cada dia,
ao chegar ao local onde me hospedei, deu para entender que com suas alegrias e tristezas... 
a tecnologia não estaria presente por ali. Assim, durante uma
semana fiquei sem consultar e-mails, bater um papo com ami- Patrick Gomes Silva é missionário, membro da equipe de formação do Centro Missionário José
gos, e o celular ficou mudo. Confesso que nas primeiras horas Allamano, SP. E-mail: patrisilva@gmail.com

Para refletir: Compromisso Mensal:


1. A tecnologia faz parte do seu dia-a-dia? desligue seu celular e seu
2. Acha que é “escravo” do celular ou do computador? Por quê? computador durante um dia
3. Por quanto tempo seria capaz de viver sem estes meios? e aprecie a vida sem estes
instrumentos.

- Maio 2008 19
Raposa Serra do Sol
Destaque do mês

Nota de apoio da
CNBB

segue invadida
Nós, bispos do Brasil, reunidos
em nossa 46ª Assembléia Geral
em Indaiatuba, SP, solidarizamo-
nos, mais uma vez, com a diocese
de Roraima e os povos da Terra
Indígena Raposa Serra do Sol. No
dia 4 de abril, através da “Nota de
Campanha pela imediata retirada dos invasores da Raposa Serra do Sol.
Esperança”, tornamos público nosso

Roosewelt Pinheiro/ABr/Divulgação
apoio à Operação Upatakon 3, que
estava sendo realizada pelo governo
federal para a retirada dos ocupantes
não-indígenas da referida terra. Na
tarde de 9 de abril, por unanimidade,
o Supremo Tribunal Federal, conce-
deu medida liminar na Ação Cautelar
proposta pelo governo de Roraima.
Desta forma, ficam suspensos todos
os atos de desocupação da Terra
Indígena Raposa Serra do Sol até
o julgamento do mérito da primeira
ação contra a demarcação desta
terra, que também tramita no STF.
Em nosso entendimento, a de-
mora na retirada definitiva dos não-
índios que insistem em permanecer
na terra homologada tem contribuído
para o agravamento do quadro de
violência a que estão submetidos os O coordenador-geral do CIR, Dionito José de Souza, protocola na Polícia Federal denúncia de incêndio criminoso
povos Ingarikó, Macuxi, Wapichana, em aldeias na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Patamona e Taurepang. Não podem
da Redação invadiram uma escola; mantiveram reféns;
ser premiados os que violam sistemá-
e chamaram os sem-teto para participar

J
tica e impunemente a Constituição,
dos protestos, oferecendo em contrapar-
invadindo e ocupando de maneira á é sabido por todos que a si­ tida um pedaço de terra na RSS. Estas
ilegal, terras que não lhes perten- tuação da Terra Indígena Raposa ações em boa parte são incentivadas
cem a nenhum título, promovendo Serra do Sol (RSS), em Roraima, por arrozeiros opositores da demarcação
ali o garimpo, a extração ilegal de se arrasta por mais de 30 anos. da Terra Indígena. Eles têm anunciado
madeira, a pecuária e plantações de Desde o dia 15 de abril de 2005, um “derramamento de sangue”. De fato,
arroz, ao arrepio da lei, e afrontando quando a área foi homologada, a Polícia Federal encontrou na região
a Constituição Federal. No aguardo as comunidades indígenas aguardam a pontes derrubadas, escavações em es-
de que o STF possa julgar em breve retirada dos ocupantes não-indígenas, tradas com pregos espalhados, além de
o mérito da primeira ação contra a particularmente de um grupo pequeno, balsas e pistas de pouso interditadas. O
demarcação, pedimos ao Deus da porém, forte, de arrozeiros. No dia 27 de Conselho Indígena de Roraima calcula
Vida que oriente os caminhos a se- março de 2008 – quase três anos após a que a destruição de acessos deixou mais
rem trilhados pelos povos habitantes homologação – o governo anunciou ofi- de 10 mil índios isolados. Segundo José
do Estado de Roraima, para que cialmente o início da Operação de retirada, Maria Fonseca, superintendente da Po-
denominada Upatakon 3. A Polícia Federal lícia Federal em Roraima, os arrozeiros
não percam a esperança e possam
(PF) deslocou para Roraima cerca de 500 têm utilizado também coquetel molotov e
alcançar a Paz e a Justiça.
agentes comprometidos a completar a bombas, além de usarem índios, idosos e
Operação. A resistência organizada por crianças como escudo para se defender.
Itaici, Indaiatuba-SP,
um grupo de apenas seis rizicultores, “Todos devem ser rigorosamente punidos
10 de abril de 2008.
últimos invasores da RSS, tomou contor- pela lei”, afirmou Fonseca. A Polícia Fede-
Dom Geraldo Lyrio Rocha nos de uma verdadeira guerrilha. Ações ral admite que as táticas utilizadas pelos
Arcebispo de Mariana e Presidente da CNBB violentas são realizadas desde o dia 30 de líderes é uma evidência de que eles estão
Dom Luiz Soares Vieira março. Durante as últimas semanas, os recebendo algum tipo de treinamento.
Arcebispo de Manaus, Vice-Presidente da CNBB
arrozeiros e os seus aliados queimaram Toda essa tática tinha como objetivo criar
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, Secretário-Geral
pontes; jogaram uma bomba caseira contra instabilidade na região para empurrar o
da CNBB um centro comunitário machucando uma governo federal a suspender a Operação.
liderança indígena; bloquearam estradas; E eles ganharam mais uma vez. No dia 9

20 Maio 2008 -
de abril, o Supremo Tribunal Federal (STF), termos da Ação Cautelar, não providenciou a grande dívida histórica que o Brasil tem
por unanimidade, concedeu medida liminar os devidos e necessários esclarecimentos com os índios”. Dom Roque classificou de
na Ação Cautelar proposta pelo governa- aos ministros. Surpreendeu também que “prepotentes” as ações daqueles que estão
dor de Roraima, José de Anchieta Júnior o ministro Carlos Brito, em razão de ser na área pertencente aos povos indígenas.
(PMDB) suspendendo todos os atos de Relator de vários processos envolvendo “Pontes sendo queimadas, estradas sendo
desocupação da Terra Indígena Raposa a demarcação da Terra Indígena, tenha interrompidas por tratores e escavadeiras,
Serra do Sol até o julgamento do mérito submetido o pedido de concessão da me- bombas de artefatos sendo fabricadas aos
da primeira ação contra a demarcação dida liminar, sem prévia manifestação da olhos da polícia, na frente das câmeras
desta terra, que também tramita no STF. União e do Ministério Público, acolhendo de televisão, das máquinas fotográficas
Com isso, a retirada dos invasores será as alegações improcedentes do governo de jornalistas e tudo permanece impune”,
protelada por tempo indeterminado. de Roraima”. desabafou. Dom Roque deixou claro ainda,
Em nota, o Conselho Indigenista Mis- É incompreensível que o governo fede- que as pessoas devem ser responsabiliza-
sionário (Cimi), afirma que a decisão do ral tenha negociado por tanto tempo com das pelos atos que cometem. “Os povos
STF legitima a omissão do governo federal. pessoas que praticam atos de violência indígenas têm mostrado ao longo dos
Segundo o Cimi, “esta decisão já causou e que a Suprema Corte reconheça como anos a capacidade da não-violência, têm
preocupação aos que apóiam a luta dos legítimas e legais as exigências deste mes- acolhido os apelos das autoridades e têm
povos indígenas. Isto porque, uma anun- mo grupo. “Se nada for feito para reverter tido paciência, esperando que a lei seja
ciada “trégua” poderia representar uma as decisões tomadas, a Presidência da cumprida, mas infelizmente em Roraima a
manobra para se ganhar tempo, em vista República, o Ministério da Justiça e o STF lei não é cumprida e os povos indígenas são
dos esforços do governo de Roraima no estarão curvando-se diante da violência cada vez mais massacrados”, sublinhou.
STF para obter uma decisão favorável praticada pelos setores anti-indígenas de “A convivência pacífica entre os índios e
aos invasores da Terra Indígena”. Ainda Roraima, quando deveriam acabar com ela” não-índios não tem acontecido e os povos
segundo o Cimi, na sessão do STF, “chamou diz a nota. Segundo o bispo de Roraima, indígenas esperam ainda pelos direitos que
a atenção o fato do Procurador Geral da dom Roque Paloschi, “a situação da Ra- a Constituição lhes concede”, concluiu.
República não ter requerido a palavra para posa Serra do Sol preocupa a CNBB e a
se manifestar sobre o caso, tendo em vista sociedade brasileira que vem trabalhando Carta do CIR
a gravidade da situação. Da mesma forma, para que os direitos dos povos indígenas No dia 9 de abril, após a paralisação
percebeu-se que a União, embora ciente dos sejam respeitados como forma de pagar da Operação da Polícia Federal, as co-
munidades indígenas da Raposa Serra do
Sol se manifestaram, através do Conselho
Indígena de Roraima (CIR), afirmando que
Argumentos favoráveis há mais de 30 anos sofrem num doloroso
processo de reconquista de suas terras,
e contrários à demarcação que acreditavam próximo de se realizar,
principalmente após a homologação das
Prós terras pelo presidente da República. Com
● Índios reclamam sofrer humilhações e situações de desrespeito por parte a suspensão da Operação, afirmam que já
dos não-índios esperaram demais e que têm capacidade
● Índios afirmam querer recuperar sua cultura, o que não será possível com a para decidir sobre o seu futuro e tomar
presença dos não-índios no território providências, com a união dos povos
● Para a Igreja Católica, o conflito atual na Raposa Serra do Sol é alimentado indígenas para encabeçar a desintrusão
por um Estado anti-índigena e um grupo de empresários resistente dos invasores de suas terras.
● À época da homologação, o governo afirmou que a demarcação é uma grande As lideranças questionaram onde estão
conquista e lembrou da “dívida histórica” com os índios as autoridades? Os homens da Lei? Muitas
● A demarcação das terras é, além de um direito dos índios, determinada pela vezes os próprios índios fizeram o papel
Constituição das autoridades, pedindo paciência aos
● A demarcação não fraciona o território brasileiro, apenas delimita até onde companheiros. Acreditaram no governo,
os não-índios, com sua “volúpia desenvolvimentista”, podem se aproximar mas a lentidão das autoridades federais,
dos índios permitiu que os inimigos dos seus direitos
se manifestassem violentamente e conse-
Contras guissem inverter a situação, sacrificando
● Roraima pode diminuir de tamanho com as demarcações, pois o território os povos indígenas.
indígena é maior que o do Estado É inadmissível para os líderes indíge-
● A retirada dos não-índios da Raposa Serra do Sol afetaria, pelo menos, 6% nas que as autoridades tenham esperado
da economia de Roraima três anos e tenham permitido toda pressão
● Índios não são estrangeiros dentro do país, não podem ser tribos indepen- na Raposa Serra do Sol até que o Supremo
dentes pudesse mandar suspender a Operação.
● Demarcação contínua foi um erro geopolítico, pois deveria ter levado em Há um repúdio contra a atitude do governo
conta os interesses dos diversos estratos sociais presentes no local estadual que prefere sacas de arroz em
● ONGs e pessoas estrangeiras conduziriam a política indigenista brasileira detrimento da vida de 18.992 índios. O
● A reserva indígena está situada na fronteira do Brasil com a Venezuela e a CIR, em nome dos indígenas afirma que
Guiana, o que pode comprometer a segurança nacional a luta continuará até o último índio! 

Fonte: O Estado de S. Paulo, 11/04/2008 Com informações do CIR, CIMI, CNBB e jornal O Estado de
S. Paulo.

- Maio 2008 21
Promover a Vida

Ermanno Savarino
Projetos Sociais - IMC - MC

O
Instituto Missões Consolata e o Instituto Irmãs Missionárias
de Nossa Senhora Consolata, fundados pelo Bem-aventurado
José Allamano, em Turim, Itália, em 1901 e 1910, respecti-
vamente, têm por finalidade a evangelização e a promoção Boiadeiro, periferia de Salvador, BA.
humana como expressão do carisma missionário. Padres,

Lírio Girardi
irmãs, irmãos e leigos missionários trabalham em 23 países
de quatro continentes, privilegiando situações humanas menos favorecidas. No
Brasil, desenvolvem projetos com a colaboração de amigos e benfeitores.

Nas periferias
A grande maioria dos missionários está prestando serviço nas periferias
das cidades, como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde a violência, a
falta de emprego, a moradia precária e a insegurança são grandes desafios.
Evangelização e promoção humana através de obras sociais nas áreas da
saúde, educação e formação profissional proporcionam, principalmente aos Lideranças indígenas da Raposa Serra do Sol, RR.
jovens e mulheres, uma vida mais digna.

Livã Reis
Apoio à causa indígena
Desde 1948, o IMC colabora com outros organismos na defesa e promoção
dos direitos dos povos indígenas, particularmente na Região Amazônica. Como
muitas lideranças, alguns missionários deram a própria vida por esta causa.
Entre ameaças, invasões, raptos e mortes, juntos conquistaram algumas im-
portantes vitórias: a demarcação das terras indígenas e a sua autogestão.

Pastoral Afro
Crianças da Pastoral Afro, Salvador, BA.
O Brasil tem a maior população de origem africana do mundo. No entanto,
pesquisas revelam que, entre os menos favorecidos do país, além de sofrer com

Arquivo IMC
o racismo, os afrodescendentes são os mais excluídos da educação, da saúde
e do mercado de trabalho. A Pastoral Afro tem por missão resgatar a dignidade
deste povo apoiando ações afirmativas para sua inserção na universidade e
no mercado de trabalho. (ver matéria completa na pág. 23).

Creche Padre Bernardo Gora


Obra social do Instituto Missões Consolata, localizada no bairro Jardim
Peri, Zona Norte de São Paulo atende 100 crianças de 3 a 5 anos. A Paróquia
Nossa Senhora da Penha administrada pelos missionários, no mesmo bairro, Crianças da Creche Bernardo Gora, Jd. Peri, SP.
mantém outras três creches que atendem juntas cerca de 350 crianças, con-

Arquivo Centro Comunitário Consolata


tribuindo para a sua educação e formação.

Centro Comunitário Consolata


Criado pelas irmãs missionárias em 2004, na periferia dos municípios de
Itapevi e Jandira, em São Paulo, o Centro Comunitário Nossa Senhora Con-
solata dedica-se à promoção completa da pessoa: humana, social, cultural
e religiosa. O Centro está transformando a qualidade de vida, a cultura e a
prática religiosa de uma numerosa população. As missionárias acreditam no
potencial das obras sociais que desenvolvem em lugares mais carentes como
uma oportunidade para promover a vida. Centro Comunitário Consolata, Jandira, SP.

Centro Comunitário Nossa Senhora Aparecida


Ávaro Pacheco

Fundado em 1979 pelas missionárias da Consolata, no bairro do Jardim


Peri, Zona Norte de São Paulo, o Centro Comunitário Nossa Senhora Apa-
recida – CCNSA administra nove projetos sociais: Creche Consolata, Núcleo
Socioeducativo, Agente Jovem, Ação Família, Movimento de Alfabetização de
Adultos, Núcleo de Proteção Psicosocial Especial, Núcleo do Idoso, Fábrica de
Cultura e Programa Aprendiz Trabalhador-BB. Atendendo 2.010 pessoas de
todas as idades, o CCNSA administra ainda cursos de corte e costura, padaria
comunitária, salão de beleza e marcenaria. O objetivo é formar líderes que
assegurem a continuidade no atendimento à população, priorizando a inclusão Centro Comunitários N.S. Aparecida, Jd. Peri, SP.
e o acesso às políticas públicas. 

22 Maio 2008 -
Pastoral Afro

Livã Reis
Cultura negra: lugar da Revelação de Deus.

de Michael Mutinda

A
aplicação das orientações do Concílio Vaticano II
na realidade brasileira começou a acontecer a partir
de Medellín, 1968. Naquela Conferência ocorreu
uma releitura do Vaticano II, “à luz da situação do
continente latino-americano e de suas Igrejas”. A
partir deste acontecimento, a comunidade negra
católica começou a se organizar. Em 1979, na cidade de Pue-
bla, México, realizou-se a III Conferência Geral do Episcopado
Latino-Americano. A partir desta reunião, emerge no Brasil, enfim,
uma pastoral da população afrodescendente, afirmando que os
povos afros devem ser vistos no contexto da globalização, isto
é, compreendidos nos seus aspectos políticos, econômicos,
culturais, sociais e religiosos. Nos anos 80, a Pastoral Afro já
se estrutura melhor, com grupos de irmãs afrodescendentes e
outros movimentos. A organização, mobilização e reflexão da
comunidade negra católica foi tão importante e competente que
conseguiu sensibilizar a Igreja e fazê-la optar, na Campanha da
Celebração Afro durante ordenação diaconal de Afonso Amane, imc, Salvador, BA.
Fraternidade de 1988 pelo tema “O Negro e a Fraternidade” sob
o lema “Ouvi o clamor desse povo”. Embora tímida e incompreen- colocados os desafios pelos afrodescendentes, por clamarem
dida por alguns setores da Igreja, a Pastoral Afro ajudou milhares para ver respeitados seus valores, seus direitos, sua cidadania
de homens, mulheres, jovens e crianças a viverem hoje - como e lutarem para concretizar a fraternidade. Nestas paróquias, a
nota o padre Joakim Kamau, imc, pároco de Nossa Senhora Pastoral Afro é organizada para trabalhar com cinco eixos prin-
da Penha, Jardim Peri, São Paulo - a fascinante e desafiadora cipais: auto-estima, que busca valorizar o ser afrodescendente,
experiência de articular fé e negritude, fé e consciência negra. fraternidade, que desenvolve solidariedade com as populações
Amane Afonso (diácono da Consolata na Paróquia de São Brás, afro-brasileiras, formação integral, que procura o desenvolvimento
Salvador, BA) explica que a Pastoral Afro tem raízes bíblicas, da pessoa na sociedade (inclui grupos de educa-afro, de alfa-
teológicas e eclesiásticas. Bíblicas: a história dos negros liga-se à betização, de capoeiras etc.), lugar social, que pesca projetos
do povo de Deus. Teológicas: concebe as culturas negras também que favoreçam a ascensão dos afrodescendentes na sociedade
como um lugar da Revelação de Deus. Eclesiológicas: permite, e inculturação, que busca vivência do Evangelho a partir dos
à luz dos documentos, pensar a Igreja como Corpo Místico de elementos das culturas afros. No momento, os maiores desafios
Cristo no qual os mais pobres estão integrados. desta Pastoral nas missões são claros: a maioria da população
afro não se identifica como afrodescendente. Atualmente, a
Duas frentes liderança destas pastorais não se estabeleceu fortemente nas
Os missionários da Consolata optaram por trabalhar nes- mãos dos leigos, principalmente na Paróquia de Nossa Senhora
ta pastoral em duas frentes: na Paróquia Nossa Senhora da da Penha. Outro desafio é como programar um projeto que conti-
Penha, Zona Norte de São Paulo e na Paróquia São Brás, em nua tendo como alvo, grupos que estão em constante migração.
Salvador, Bahia. Padre Kamau explica que na Nossa Senhora da Porém, os missionários têm como expectativa estruturar melhor
Penha, a Pastoral Afro significa serviço, atividades, opções que esta Pastoral, focando em atividades espirituais e de promoção
consistem em despertar nas pessoas a auto-estima semelhante humana, fazendo animação para criar uma consciência negra
àquela falada por Jesus Cristo, o Bom Pastor. A Pastoral Afro missionária evangelizadora, para que as pessoas amem mais a
procura dar continuidade ao projeto de Jesus Cristo, explica o Igreja por sua diversidade, mas na unidade de fé. Padre Kamau
padre Kamau. Ela é Afro porque visa responder aos anseios e nos lembra que temos que fazer com que as nossas missões
compreender os desafios colocados pelas populações de origem se tornem missionárias e evangelizadoras em diversidade de
africana (afrodescendentes). Mas, para que serve a Pastoral culturas, cores, idades, status etc. Através de boa e profusa
Afro na missão do Instituto Missões Consolata? No momento, formação constata que a “educação é a chave da vida; pouco
ela tem por missão resgatar a dignidade deste povo, apoiando espaço para ela é perigoso”. 
ações afirmativas para sua inserção em diferentes áreas sociais.
Ela busca atender as necessidades que desafiam a Igreja. Nas Michael Mutinda é seminarista, cursando teologia no Seminário João Batista Bísio, Jardim
paróquias de Nossa Senhora de Penha e de São Brás, são Saúde, SP.

- Maio 2008 23
Vamos mudar de canal?!
Infância “Deus te salve, Maria de Maio! de Roseane de Araújo Silva

N
Missionária
Das mães, das novenas, dos cantos de
amor!” (Zé Vicente) os dias atuais assistimos a uma significativa transfor-
mação em nossas crianças. Ao observá-las, é cada
vez mais comum perceber o quanto está mais curto o
Divulgação

tempo de ser criança. É precoce também o estímulo e


manipulação dos nossos pequenos diante da televisão.
É notório o poder de persuasão deste veículo, principal-
mente junto às crianças e adolescentes. Um exemplo
disso é a exibição dos programas infantis, ao mesmo tempo em
que as emissoras veiculam conteúdo adulto em seus intervalos,
que vão desde as chamadas de novelas, propagandas de cerveja
e outros produtos que incentivam o consumo. Lembramos ainda,
dos clipes de música com letras falando de sexo, com dançarinas
seminuas. Todo este conteúdo chega aos lares controlados ou não
pelos pais, por isso coube ao governo uma orientação específica.
De acordo com a Constituição Federal, em seu artigo 227, “é
dever da família, da sociedade e do Estado colocar a criança e o
adolescente a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão”. Depois de um amplo
debate com a sociedade, se instituiu a classificação indicativa e
atualmente, respeita-se inclusive a hora local de cada município
na definição da faixa etária.

Banalização da vida
De qualquer maneira, a televisão continua influenciando
fortemente as nossas crianças e adolescentes. O consumo, a
violência, e o sensacionalismo banalizando a vida humana e o
erotismo precoce, são apresentados de maneira natural, quebran-
Sugestão para o grupo do intencionalmente uma etapa na formação emocional e física
destes pequenos. Em síntese, a TV ingressou no mundo infantil
Acolhida (preparar o ambiente com os símbolos missionários). como brincadeira e vem fomentando a erotização na infância. Cada
Motivação (objetivo): no mês das mães vamos refletir sobre vez mais cedo elas são “empurradas” à vida adulta e vimos, por
uma triste realidade dos nossos dias, que é a influência da exemplo, o censo de 2000 incluir a faixa etária de 10 a 14 anos nas
televisão em nosso comportamento, trazendo a violência, o
suas estatísticas de maternidade. No mês dedicado às mães e a
erotismo, causando situações difíceis para muitas crianças e
adolescentes.
Maria, apresentamos esta preocupação, trazendo à tona o fato das
Oração: Deus Pai, te pedimos por todas as crianças e ado- crianças e adolescentes dando à luz a outras crianças, isso sem
lescentes forçadas a um crescimento acelerado, influenciadas falar na disseminação de doenças sexualmente transmissíveis.
pelos meios de comunicação, pensadas a partir da lógica do Em suas pregações na montanha, Jesus falava de um mundo
consumo e da violência. novo: o mundo sonhado por Deus para todos nós (Lc 6, 17-19).
Partilha dos compromissos semanais. Este mundo novo ocorrerá quando a sociedade for justa e frater-
Leitura da Palavra de Deus: Lucas 1, 46-56 O cântico de
na, construída a partir da libertação dos pobres, famintos, aflitos,
Maria.
Compromissos missionários: Com o seu canto, Maria nos perseguidos, injustiçados (Lc 6, 20-26). No tempo de Jesus, as
recorda a presença do Deus que toma partido em favor dos crianças eram desvalorizadas e não tinham nenhuma significação
pequenos e desfavorecidos do seu Reino, que derruba dos social. Ao acolhê-las, Jesus adverte: “Deixem as crianças virem a
tronos os poderosos e eleva os humildes. Com o sim de Maria, mim. Não lhes proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas ”
Jesus veio até o nosso meio, apresentando a Boa Nova do Pai. (Mc 10, 14 e 16). É este o convite para cada um de nós: devemos
Organizar a encenação da Anunciação e do cântico de Maria estar atentos às diferentes programações que chegam às nossas
para apresentar na comunidade ou paróquia (ver com a equipe
crianças e adolescentes, impedindo que roube de cada um deles
de liturgia se o tema coincidirá com o Evangelho no dia da
celebração da IAM neste mês). Compromisso individual: durante o direito a sua vida de criança e adolescente. Que a Nossa Mãe
a semana, incluir na oração individual uma Ave Maria pelas Maria nos ajude a perseverar na bonita tarefa de “fazer amigos
crianças e adolescentes, que bem cedo se tornaram mães. para Jesus, tornando-nos missionários pelo serviço, testemunho
Momento de agradecimento a Deus Pai pela vida de nossos e palavras, partilhando a fé com os irmãos e irmãs” (Diretrizes e
pais e familiares. Lembramos também das crianças e adoles- Orientações da Infância Missionária). De todas as crianças do
centes sem lar e sem família. Peçamos que o Senhor abençoe mundo – sempre amigas! 
a cada uma delas.
Canto e despedida.
Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24 Maio 2008 -
- Maio 2008 25
Jornada dos mártires
Entrevista

recorda dom Romero


e Marianella Garcia
Mártires: sinais de justiça e igualdade; tão difíceis e
Fotos: Alfonso Berger

tão necessários em todo o mundo.

de Arlindo Pereira Dias jovens na paróquia Santo Antônio Abade,

A
em San Salvador. Na madrugada do dia 20
pós as celebrações da Páscoa, de janeiro, um tanque do Exército entrou
muitos cristãos em Roma fize- no bairro disparando por todos os lados.
ram memória dos 28 anos de O meu irmão saiu para ver o que ocorria,
martírio de dom Oscar Romero, foi baleado e o tanque passou sobre a sua
25 de Marianella Garcia e os cabeça. Os jovens se revoltaram e quatro
inúmeros mártires da caminhada deles também foram assassinados neste
ao redor do planeta. O evento, organizado mesmo dia. Octavio foi o primeiro sacerdote
por associações, igrejas e congregações ordenado por dom Oscar Romero.
religiosas contou com a presença de dom
Demétrio Valentin, presidente da Caritas Você teve contato pessoal com
Brasileira e bispo de Jales, SP, de Ana Ortiz dom Oscar?
Luna, líder das Comunidades Eclesiais Sim, eu o encontrei quando foi celebrar
de Base de El Salvador e um grupo de missa na Província de Liberdade. Minha
pessoas do mesmo país. A Jornada teve irmã trabalhava naquela cidade com um
início no dia 27 de março com a exibição padre belga, com quem mais tarde tam-
do filme “Romero” e apresentação de bém trabalhei por dez anos. Ali tive a
testemunhos de El Salvador no auditório oportunidade de conhecê-lo quando vinha
da Unicef em Roma, e foi concluída no dia para as festas do padroeiro. Ele tinha uma
5 de abril, com um convênio que recordou simplicidade que nem sempre se encontra
Marianella e seus irmãos, tendo por tema hoje. Aquele carinho, aquela amizade de
“Dar a vida pelos direitos humanos em El pastor com o povo simples. Muitas pessoas
Salvador”, na Universidade de Roma. que o conheceram dão testemunho desta
Ana Ortiz Luna vem de uma família relação fraterna com o povo pobre, com
camponesa cujo pai era catequista. O os humildes. Dom Romero era totalmente
irmão, Octavio Ortiz Luna, primeiro sacer- entregue e próximo das pessoas.
dote ordenado por dom Oscar Romero,
foi assassinado em 1979 pelas Forças Porque sua família teve que migrar
Armadas de El Salvador. Além do irmão para Honduras?
padre, foram assassinados outros qua- Em 1980 o Exército entrou em nossa
tro de seus irmãos durante o período cidade e iniciou um massacre. Eles diziam
da guerra. Ao participar da Jornada dos ser uma base de guerrilha, num tempo
mártires em Roma, Ana nos concedeu em que a guerrilha ainda não estava
uma entrevista. organizada naquele lugar. Em 1979 assas-
sinaram meu irmão Octavio, e em 1980,
Como se deu o assassinato de seu um outro irmão. Meu pai era catequista.
irmão, padre Octavio? Para o governo eram os catequistas que
No dia 19 de janeiro de 1979 ele esta- estavam incitando e instruindo as pes-
va realizando um retiro espiritual com 35 soas. Eles representavam perigo. Minha

26 Maio 2008 -
Missa presidida por dom Demétrio Valentini, na Basílica Santa Maria, Roma, fez parte da Jornada dos mártires.

família não pode continuar na casa onde considerada em toda a sua integralidade. a instituição utiliza essas “pandillas” para
vivíamos e fugiu para Honduras. Fizeram A pessoa humana está no centro, como reprimir os militantes políticos. Há um temor
uma caminhada de uma semana para imagem de Deus e temos que defender neste período pré-eleitoral porque mataram
chegar ao refúgio. seus direitos. um prefeito e uma trabalhadora por motivos
políticos. Teme-se que o estado também
Que sentimentos você tem com rela- Quais são os grandes desafios para utilize as “pandillas” para aterrorizar o povo e
ção à sua família, com tantos mártires? El Salvador hoje? possa gerar a mesma coisa que aconteceu
Sobretudo, um compromisso com a As CEBs (Comunidades Eclesiais de no ano passado na Guatemala.
causa de Jesus e dos nossos irmãos, que Base) fizeram toda uma trajetória, uma
não deve acontecer apenas pelo fato de história de ir mudando a mentalidade de Poderia nos falar um pouco de quem
termos mártires na família. Não temos que as coisas, os sofrimentos, devam ser foi Marianella Garcia Villas?
que esperar chegar a isso para adquirir aceitos com resignação porque essa é a Não a conheci pessoalmente, mas
consciência. Em El Salvador existe tan- vontade de Deus. Uma mentalidade que lendo sobre ela, a senti muito próxima. Os
ta gente que ofertou sua vida! Isso nos ainda prevalece, sobretudo nas pessoas testemunhos que ouvi causam admiração
inspira, nos motiva e nos dá forças para mais idosas. Há vários anos temos formado por sua posição firme na defesa dos direi-
seguir em frente nesta luta, neste caminho lideranças. Começou-se uma coordenação tos humanos das pessoas. Um trabalho
que aprendemos, de acompanhar o povo, mais ampla para a formação de catequistas levado a cabo por uma mulher que tinha
buscando soluções e fazendo prevalecer e agentes de pastoral das zonas rurais boas condições de vida. Despojar-se e
os valores do Reino de Deus, de justiça e porque muitas vezes a distância não assumir a causa dos pobres para mim é
igualdade; tão difíceis, mas tão necessários permite que os sacerdotes cheguem a um motivo de inspiração também. Todos
em todo o mundo. Com esta inspiração todas as pessoas, esquecidas não só pela somos chamados, ainda mais como cristãos,
cristã que trazemos queremos construir Igreja, mas também pelo governo. Assim, a defender a esses que Jesus defendia,
algo novo em nosso país. fortalecemos a esperança e damos sinais os pobres. Para mim, a ativista de direitos
através de pequenos projetos, pequenas humanos Marianella, assassinada em
O que mudou na vida de vocês a iniciativas que saem das próprias comuni- março de 1983, é motivo de inspiração,
partir da presença de dom Romero dades. São pequenas ações que ajudam de memória histórica que não podemos
como bispo? as pessoas a manterem viva a esperança. esquecer. Não podemos deixar de lado,
Antes de dom Oscar, a religião era No aspecto cristão ainda existem tentativas pois isso seria trair o sangue de todos os
concebida de outra forma. Ele nos ajudou de fechar os espaços que se abriram com nossos caídos. Marianella era uma mulher
a entender que ser Igreja não é somente dom Romero. muito valente que se propôs fazer algo até
freqüentar o templo, os sacramentos, o ponto de dar a própria vida. A isto esta-
mas, também estar no meio do sofrimento, Qual é a realidade de El Salvador mos chamados, a lutar, a sacrificar nossa
estar com o povo buscando alternativas, hoje? vida, a ver até onde podemos chegar. Não
construindo idéias e projetos que em Ainda prevalece a violência no país. devemos perder de vista o rumo, o caminho
meio ao sistema de morte gerem vida e O Instituto Médico Legal fala de oito a dez que devemos seguir. 
esperança às pessoas. Já não se faz uma homicídios por dia. Existe uma violência
separação entre fé e vida. Percebemos institucional, camuflada. Temos agora o Arlindo Pereira Dias é missionário do Verbo Divino. Membro
que temos que nos envolver em temas fenômeno das “pandillas” (quadrilhas). do Conselho Geral da Congregação, vive em Roma desde
relacionados à política. A vida deve ser Estamos em uma época pré-eleitoral e setembro de 2006.

- Maio 2008 27
Amazônia e o populismo:
Atualidade

questão nacional?
Ausência de políticas sérias sobre a Região causa
desmatamento e subdesenvolvimento.
de Emerson Quaresma

Beto Barata/AE
A
Amazônia enfim entrou no
noticiário da grande impren-
sa nacional. Bom seria se as
informações sobre a Região
tratassem verdadeiramente de
políticas públicas voltadas para
a floresta, sua diversidade e seus habitan-
tes, especialmente os povos tradicionais.
Mas o jornalismo brasileiro quer noticiar
sobre os nossos problemas, que não se
restringem ao tráfico de drogas no Rio
de Janeiro, nem tampouco ao sistemá-
tico caos da saúde nacional. Esse lado
fiscalizador da imprensa não deixa de ser
bom. Cumpre a função que a República
delega ao Legislativo, e esse atua quase
sempre como cúmplice do governo por
mero interesse político.
Não fosse a busca incansável dos
profissionais da notícia pelos fatos polê-
micos, o governo brasileiro talvez ficasse
calado frente aos últimos números do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe) sobre a Amazônia. O Inpe divulgou
no final de janeiro que entre os meses
de agosto e dezembro do ano passado,
o desmatamento da floresta amazônica
foi algo da ordem de sete mil quilômetros
quadrados. Entre os estados brasileiros
que integram a Amazônia Legal, Mato
Grosso, Pará e Rondônia apresentaram
os maiores focos de queimadas. O único
município do Amazonas incluso entre os
que mais desmataram é o de Lábrea (a
703 quilômetros de Manaus), localizado
ao sul do Estado.

Sem culpados
Com todo um discurso sendo cons-
truído frente à questão das mudanças
climáticas, que virou febre em todo o
mundo, o governo brasileiro foi colocado Árvores mortas em fazenda no município de São Félix do Xingu.

28 Maio 2008 -
contra a parede, uma vez que viu o maior

JF Diorio/AE
patrimônio florestal do mundo – que está
sob sua guarda – ser depredado sob seu
olhar inerte. Depois de acesa a chama,
de acordo com as agências de notícias, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse
que não se podia culpar “ninguém” pelo
desmatamento, nem mesmo a agrope­
cuária, os produtores de soja e os sem-
terra assentados.
Em resposta rápida às falas do presi-
dente, a ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva afirmou no dia 31 de janeiro que as
áreas ocupadas pela pecuária são as maio-
res responsáveis pelo desmatamento na
Amazônia. Disse ainda que Lula, o mesmo
que não queria culpar a pecuária entre
outros setores pela devastação, assinou
decreto estabelecendo sérias punições
para aqueles que estão contribuindo de
maneira ilegal para a destruição da Região.
Antes tarde do que nunca!
Durante a divulgação vergonhosa dos
números sobre a depredação, Lula até
criticou o Ministério do Meio Ambiente e
Desmatamento em fazenda situada próxima ao município de Marcelândia, MT.
as Organizações Não-Governamentais, e
duvidou dos números apresentados pelo o “Eldorado” do trabalhador. Esses es- ambientais para o mundo. A terceira zona
seu próprio governo. Que situação! O pe- tados, na verdade, são os dois maiores da tese de Mangabeira Unger é a mais
tista se mostrou despreparado quando o colégios eleitorais do Brasil. E quando sensível de todas. Além do seqüestro de
assunto é a Amazônia. Mas ele tinha que se trata de implementação de políticas carbono (absorção do gás carbônico –
falar algo e falou sem convicção, certo das públicas, o eleitorado fala mais alto, e a CO2 – presente na atmosfera), ao manter
suas incertezas, talvez, por ser um tanto desigualdade social no país é o resultado as florestas em pé, há a necessidade de
relapso com a Região. dessa conjuntura viciada. Lula veio para sustentar os habitantes dessas áreas,
Lula tem visitado os estados amazôni- mudar, como todos esperavam, mas há especialmente os povos tradicionais.
cos como nenhum outro presidente fez na forças “sobrenaturais” talvez que o levam Como fazer isso sem precisar desmatar
“história desse país”. Contudo, visita não a construir de acordo com a cartilha dos para desenvolver a agricultura para o
faz mágica, muito menos discurso é ação. governos anteriores. Um modelo que sustento é que é o “calcanhar e Aquiles”
E a preservação é algo novo no falatório parece ser difícil de ser quebrado. da humanidade.
dos políticos, e é ao mesmo tempo proble- A Amazônia virou notícia nacional nos O governador do Amazonas, Eduardo
ma quando o assunto é desenvolvimento últimos meses. Ela que sempre esteve às Braga, propôs o ‘Bolsa-Floresta’. Mais
econômico por meio dos setores agrário e margens do interesse nacional, tratada uma proposta de um clientelismo barato e
agrícola, especialmente o gado de corte desde a República (ou até antes) como marqueteiro, assim como o ‘Bolsa-Família’
e a soja, respectivamente. Na verdade, periferia do estado brasileiro. Assim como o do governo federal que causa dependência
por mais que se fale sobre a Amazônia, Nordeste, cuidada aos olhos dos coronéis do povo brasileiro ao Estado. Com bolsas
nos últimos cinco anos do governo petista de barranco. Velhos políticos que buscaram e mais bolsas dadas com facilidade ao
não se viabilizaram políticas mais sérias instalar suas dinastias arcaicas. A Região, povo, a União vai deixando de lado a ne-
de preservação e desenvolvimento da contudo, se olhada como prioridade de cessidade de investir em conhecimento,
Região e seus povos. Estado, com políticas de desenvolvimento que é o mais importante para desenvolver
Quando Lula disse que não se podia econômico sustentáveis, dará ao Brasil o a Região de maneira sustentável.
culpar “ninguém”, ele estava montando respeito internacional que tanto almeja. Para gerar conhecimento e crescer
sua autodefesa principalmente. E é bem Para isso o desmatamento não pode fazer como se almeja é preciso entregar as
verdade que não podemos culpá-lo pela parte do projeto amazônico. E isso já se ferramentas educacionais e científicas aos
selvageria que se fez com a Amazônia mostra possível. povos, e assim, permitir que eles como
nos últimos cinco meses de 2007. O pe- O secretário de Ações Especiais de defensores da floresta, possam extrair o
tista apenas faz parte de um conjunto de Longo Prazo, Roberto Mangabeira Unger, necessário da biodiversidade amazônica.
presidentes que já sentaram na cadeira até que está tentando colocar novos dis- Ir além do singelo artesanato, e buscar
mais importante na nação e centraram cursos sobre a Amazônia. Quando esteve verdadeiras curas para os males do plane-
suas políticas de Estado (a maioria delas em Manaus no mês de novembro do ano ta. Começar por priorizar as entidades de
fajutas) no Sul e Sudeste do País. passado para participar do I Simpósio pesquisa local como o Instituto Nacional
Amazônia e Desenvolvimento Nacio- de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Toda-
Biodiversidade nal, defendeu um plano de zoneamento via o populismo ainda impera na agenda
Para comprovar isso, basta olhar ecológico-econômico em três áreas da política brasileira. 
para o sofrido Nordeste que diariamente região: a área já desmatada, as áreas
perde seus filhos para o Rio de Janeiro de manejo controlado e sustentável, e Emerson Quaresma é repórter de Política do jornal A Crítica de
ou São Paulo, por acreditarem que lá é a floresta como prestadora de serviços Manaus, Amazonas, e estudante de jornalismo na Uninorte.

- Maio 2008 29
São Paulo - SP tados e, por isso também sofrem ameaças. Exigimos
35 anos do assassinato de Alexandre das autoridades competentes investigações sérias
Vannucchi e proteção para os ameaçados. Sua vida é preciosa
Há 35 anos era assassinado pela ditadura mi- para o povo que defendem e para nós que lhes somos
litar o estudante de Geologia da USP, Alexandre solidários. Basta de violência”, encerra a nota.
Vannucchi Leme. Nos porões do Destacamento de
Operações e Informações - Centro de Operações Cimi denuncia violência contra
de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, na rua indígenas
Tutóia, o militante da Ação Libertadora Nacional O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) apre-
(ALN) foi morto após inúmeras sessões de tortura. sentou no dia 10 de abril, o relatório bianual “Vio-
Leme foi preso em 16 de março de 1973 e, 24 horas lência Contra os Povos Indígenas no Brasil” em
depois, estava morto. Seus companheiros de cela entrevista coletiva durante a 46ª Assembléia da
relataram que Leme disse apenas o próprio nome CNBB, em Itaici, Indaiatuba, SP. Participaram da
aos torturadores. Em seu atestado de óbito, assi- coletiva o vice-presidente da CNBB e arcebispo de
nado pelos médicos agentes da repressão Isaac Manaus, dom Luiz Soares Vieira; o presidente do
Abramovitch e Orlando Brandão, constava que ele Cimi e bispo do Xingu, dom Erwin Kräutler; o bispo
havia se atirado sob um veículo. Utilizar a versão de Tefé, dom Sérgio Eduardo Castriani; e o bispo
de suicídio para justificar assassinatos brutais era de Roraima, dom Roque Paloschi. Dom Erwin fez
uma tática comum da ditadura militar brasileira. Ela um breve relato do número de índios mortos em
VOLTA AO BRASIL

também foi utilizada para mascarar o assassinato 2006 e 2007, afirmando que nesses anos houve
do jornalista Vladmir Herzog, morto em outubro de tentativa de suicídio de 22 índios, 82 tentativas de
1975. Leme foi enterrado sem caixão no cemitério assassinatos e 22 homicídios culposos. “As vítimas
de Perus. Cal virgem foi jogada sobre o corpo para são sempre os pobres que estão às margens da
acelerar o processo de decomposição. Sua família sociedade e fazem parte de um quadro dramático”,
só conseguiu transportar seus restos mortais para lembrou. “A violência contra os indígenas é voltada
Sorocaba, sua cidade natal, dez anos depois. Segundo ao patrimônio territorial e ao indivíduo indígena na
a Comissão dos Familiares de Presos Políticos Mortos discriminação racial, nas ameaças e nos assassinatos
e Desaparecidos, em Perus foram enterrados pelo por omissão do poder público”, explicam os dados
menos 19 corpos, dez deles com nomes falsos. A do relatório. Dom Erwin ressaltou que a omissão
vala clandestina foi localizada no mês de setembro do poder público se dá principalmente no âmbito
de 1990, com 1049 ossadas todas sem qualquer da saúde pública e num genocídio sem preceden-
identificação. Alexandre dá nome ao Diretório Central tes. “Nós temos os piores indicadores dos últimos
dos Estudantes (DCE) da USP, reconstruído pelos anos em relação aos indígenas, com 92 vítimas.
estudantes em 1976. Dessas, 53 são no estado do Mato Grosso do Sul”,
denunciou. O bispo de Tefé, dom Sérgio Castriani,
Indaiatuba - SP afirmou que o relatório é importante por ser um re-
Solidariedade aos bispos ameaçados flexo da omissão da sociedade brasileira. “O Cimi
de morte é importante para um povo e uma Igreja que vivem
O episcopado brasileiro expressou sua solida- num território onde há populações e comunidades
riedade aos bispos ameaçados de morte em seu indígenas que sofrem violência”, sublinhou. “Nós
trabalho pastoral no país, durante a Assembléia da comungamos um trabalho que defende a conquista
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunida dos direitos dos povos indígenas e toda mentalida-
em Itaici, SP. Sofreram diferentes ameaças de morte, de anti-indígena e que vem sendo arquitetado, em
seja por telefone, carta ou até pessoalmente, dom nível de país, para destruir as culturas indígenas,
Erwin Kräutler, da prelazia do Xingu, dom José Luiz além de ser contra os ideais da Igreja missionária”,
Azcona Hermoso, da prelazia do Marajó, e dom Flá- afirmou o bispo de Roraima, dom Roque Paloschi.
vio Giovenale, da diocese de Abaetetuba (todas no Lembrou ainda “que a situação dos indígenas das
estado do Pará). “Qualquer agressão a eles atinge terras da Raposa Serra do Sol é uma forma de abuso
a todos nós, seus irmãos no ministério episcopal, e generalizado” e classificou de “prepotentes” as ações
ao povo a quem servem com destemido zelo e co- contra os indígenas. Já a antropóloga da Pontifícia
rajosa profecia”, afirma em nota a CNBB. “Em Cristo Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),
somos um só com eles e com as pessoas que eles Lúcia Helena Rangel, coordenadora da pesquisa,
defendem: os povos indígenas; as mulheres, crian- explicou a situação dos indígenas no Brasil. “Trata-se
ças e adolescentes que o tráfico de seres humanos de um conjunto de violações de direitos dos povos
instrumentaliza, que a exploração sexual vende e as indígenas. A situação é um montante de um quadro
drogas matam. Apoiamos também seu empenho na dramático no campo da saúde, educação e racial”,
defesa do meio ambiente que a ganância devasta esclareceu. Para a antropóloga, “o índio é, lamen-
com nefastas conseqüências para a vida humana”, tavelmente, mal amado no Brasil”. Citando as obras
destaca o texto. De acordo com o episcopado, “suas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),
lutas são, portanto, as nossas lutas, seus sofrimentos do governo federal, Lúcia Helena afirmou que esses
são os nossos sofrimentos”. A CNBB expressa a trabalhos “vêm degradar mais a situação indígena
mesma solidariedade aos demais “bispos, padres, com o avanço das hidrelétricas”. 
pessoas consagradas, leigos que trabalham pelos
mesmos ideais de vida e de justiça em todo o Brasil
onde os direitos humanos são constantemente avil- Fontes: CNBB, Notícias do Planalto, Zenit.
30 Maio 2008 -
V
ivemos em uma sociedade do espetáculo, onde,
obedecendo às regras do mercado, a notícia
é vendida juntamente com outros produtos de
consumo e a informação, ao invés de gerar
conhecimento, proporciona entretenimento para
distrair. Hoje, mais do que nunca precisamos
comunicar para informar os cidadãos na sua capacidade de
refletir e entender a realidade.
Quando falamos de comunicação na Igreja não devemos
pensar apenas nos meios. Entendemos de maneira especial
o processo de comunicação nos espaços de reflexão para as
comunidades, as pastorais, os grupos, os movimentos, nas
diversas iniciativas que criam interação entre pessoas movidas
pelos valores do Evangelho.
A revista MISSÕES, editada pelos missionários e missionárias
da Consolata no Brasil, é um meio de informação e formação
que visa contribuir com a construção de um mundo mais justo
e solidário através de subsídios pastorais, espirituais, sociais
e culturais. Seu público alvo são as lideranças e os cidadãos
em geral, as famílias, os jovens e os agentes de pastoral das
comunidades cristãs. Neste sentido, MISSÕES apresenta
matérias sobre:

• Atualidade da sociedade e movimentos sociais


• Espiritualidade e temas pastorais
• Articulação de projetos sociais e ambientais
• Estudos sobre os desafios para a missão da Igreja
• Subsídios para uma pastoral missionária
• Testemunhos de vida e de experiência
• Reflexões para a juventude
• Trabalhos didáticos para as crianças, e muito mais.

Com isso, a revista MISSÕES deseja ajudar os seus leitores


a olhar para fora do próprio mundo, além das próprias fronteiras
eclesiais, culturais e geográficas.
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