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HISTÓRIADA CULTURA MATERIAL – NOTAS SOBRE UM CAMPO HISTÓRICO EM SUAS

RELAÇÕES INTRADISCIPLINARES E INTERDISCIPLINARES1

José D’Assunção Barros2

Resumo
Busca-se esclarecer e discutir alguns aspectos relacionados à História da Cultura Material,
definida enquanto modalidade historiográfica que coloca em primeiro plano a vida material de
uma sociedade e que se desenvolve em interrelação com outros campos historiográficos e
outras disciplinas externas à História. O artigo remete a obra recentemente publicada pelo
autor deste texto, cujo principal objetivo é o de elaborar uma visão panorâmica das diversas
modalidades da História nos dias de hoje.
Palavras-chave: História da Cultural Material, Arqueologia, objetos materiais.

Abstract
This article attempts to clarify and discuss some aspects related to the History of Material
Culture, defined as an historical modality that brings in first plain the material life of the
society, and as an historical field that is developed in interaction with other historical fields
and disciplines external to History. The article refers to a recently publicized work of the
author of this text, witch principal subject was to elaborate a panoramic view of the various
fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays.
Key Words: History of Material Culture; Archeology, material objects.

Quando estendemos sobre a historiografia ocidental do século XX um olhar


panorâmico e crítico, talvez um dos fenômenos mais significativos a serem percebidos seja a
crescente especialização do historiador moderno, que passou a se auto-representar a partir de
inúmeros campos, abordagens e domínios historiográficos. Assim, se até o século XIX o
historiador pôde construir uma imagem de si mesmo até certo ponto una, é um dado bastante
sintomático deste “século de especializações” o de que a partir daqui começam a se definir
como domínios bem próprios e específicos as mais diversas modalidades internas ao Campo
Histórico. Setores do saber historiográfico como a História Econômica, a História Social, a
História das Mentalidades, a História Regional, a Micro-História e inúmeros outros irão como
que requisitar de aqui em diante os seus próprios especialistas. Esta hiper-especialização do
conhecimento histórico tem sido na verdade simultaneamente objeto de culto e objeto de
crítica – e refletir permanentemente sobre o que significa cada um destes inúmeros campos

1
O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado pelo autor, e que se refere a um
estudo das várias modalidades da História. Referências: José D’Assunção Barros, O Campo da História –
Especialidades e Abordagens, Petrópolis: Vozes, 2004, 222pp.
2
Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor da Universidade Severino
Sombras (USS) de Vassouras, nos Cursos de Mestrado e Graduação em História, nos quais leciona disciplinas
ligadas ao campo da Teoria e Metodologia da História. Publicou, nos últimos anos, os livros: O Campo da
História (2004). O Projeto de Pesquisa em História (2005); Cidade e História (2007) e A Construção Social da
Cor (2008).

1
que hoje se abrem ao profissional de História tem surgido como uma tarefa
particularmente importante para o próprio historiador que reflete sobre o seu ofício.
Neste artigo abordaremos um campo histórico que se refere mais particularmente à
interação do Homem com a própria materialidade que envolve mais diretamente a sua
existência: a História da Cultura Material. Antes de mais nada, será bastante útil situar este
campo histórico na rede mais ampla de modalidades historiográficas que se desenvolveram a
partir do século XX, cumprindo notar que aqui teremos não apenas contrastes, mas também
um diálogo muito vivo da História da Cultura Material com algumas destas várias
modalidades.
A História da Cultura Material deve ser classificada como uma modalidade
historiográfica relacionada às diversas dimensões da História que são trazidas a primeiro
plano pelo historiador em sua análise. Para entender este aspecto, valerá lembrar aqui uma
proposta ensaística recente, cujo objetivo foi o de avançar na compreensão mais sistemática
dos critérios que presidiriam a divisão do saber historiográfico nas suas diversas
modalidades3. Falaremos aqui de três tipos fundamentais de critérios geradores de
modalidades historiográficas: as dimensões, as abordagens, e os domínios.
O primeiro critério gerador de divisões da história em modalidades mais específicas
refere-se ao que chamaremos de dimensões, correspondendo àquilo que o historiador traz para
primeiro plano no seu exame de uma determinada sociedade: a Política, a Cultura, a
Economia, a Demografia, e assim por diante. Desta maneira, teríamos na História Econômica,
na História Política, ou na História das Mentalidades campos do saber histórico relativos às
dimensões ou aos enfoques priorizados pelo historiador. Apenas para dar um exemplo, um
historiador cultural estuda em primeiro plano os fatos da cultura, na mesma medida em que
um historiador político estuda o poder nas suas múltiplas formas e um historiador
demográfico orienta o seu trabalho em torno da noção que lhe é central de “população”. Desta
maneira, a História Cultural, a História Política ou a História Demográfica – com toda a
amplitude de possibilidades que pode envolver cada uma destas sub-especialidades da
História – devem ser mais adequadamente localizadas no campo das dimensões
historiográficas.
Um segundo grupo de critérios para estabelecer divisões no saber histórico é aquele
que chamamos de abordagens, referindo-se aos métodos e modos de fazer a História, aos

3
José D’Assunção BARROS, O Campo da História, Petrópolis: Vozes, 2004.

2
tipos de fontes e também às formas de tratamento de fontes com os quais lida o
historiador. São divisões da História relativas a abordagens a História Oral, a História Serial,
a Micro-História e tantas outras. A História Oral, por exemplo, lida com fontes orais e
depende de técnicas como a das entrevistas; a História Serial trabalha com fontes seriadas –
documentação que apresente um determinado tipo de homogeneidade e que possa ser
analisada sistematicamente pelo historiador. A Micro-História refere-se a abordagens que
reduzem a escala de observação do historiador, procurando captar em uma sociedade aquilo
que habitualmente escapa aos historiadores que trabalham com um ponto de vista mais
panorâmico, mais generalista ou mais distanciado. Também a História Regional poderia ser
classificada como modalidade historiográfica ligada a uma abordagem, no sentido de que
elege um campo de observação específico para a construção da sua reflexão ao construir ou
encontrar historiograficamente uma “região”. Examinando um espaço de atuação onde os
homens desenvolvem suas relações sociais, políticas e culturais, a História Regional viabiliza
através de sua abordagem um tipo de saber historiográfico que permite estudar uma ou mais
dimensões nesta região que pode ser analisada tanto no que concerne a desenvolvimentos
internos, como no que se refere à inserção em universos mais amplos.
Para além das modalidades relacionadas a dimensões e abordagens, podemos pensar
finalmente nas divisões da História que chamaremos de domínios, e que se referem a campos
temáticos privilegiados pelos historiadores. Vários domínios da História têm surgido e mesmo
desaparecido no horizonte de saber desta complexa disciplina que é a História. Estaremos
falando de domínios quando nos referimos a uma História da Mulher, a uma História do
Direito, a uma História de Sexualidade, a uma História Rural.
Os domínios da História são na verdade de número indefinido. Alguns domínios
podem se referir aos ‘agentes históricos’ que eventualmente são examinados (a mulher, o
marginal, o jovem, o trabalhador, as massas anônimas), outros aos ‘ambientes sociais’ (rural,
urbano, vida privada), outros aos ‘âmbitos de estudo’ (arte, direito, religiosidade,
sexualidade), e a outras tantas possibilidades. Os exemplos sugeridos são apenas indicativos
de uma quantidade de campos que não teria fim, e qualquer um poderá começar a pensar por
conta própria as inúmeras possibilidades.
Tal como dissemos, os critérios de classificação que estabelecem domínios da História
referem-se primordialmente às temáticas (ou campos temáticos) escolhidas pelos
historiadores. São já áreas de estudo mais específicas, dentro das quais se inscreverá a

3
problemática constituída pelo ato historiográfico. A maioria dos domínios históricos
sintoniza-se com os trabalhos que se referem às diferentes dimensões históricas, e certamente
abre-se às várias abordagens. Mas existem domínios que têm mais afinidade com
determinada dimensão, dada a natureza dos temas por eles abarcados. Assim, a História da
Arte ou a História da Literatura podem ser eventualmente consideradas sub-especialidades da
História Cultural (embora se deva chamar atenção para uma História Social da Arte, ou uma
História Social da Literatura, que não deixam de ser possibilidades dentro da História Social).
Alguns domínios surgem e desaparecem ao sabor das modas historiográficas –
motivados por eventos sociais e políticos, ou mesmo por ditames editoriais e tendências de
mercado. Outros surgem quando para eles se mostra preparada a sociedade na qual se insere a
comunidade de historiadores (por exemplo, uma ‘História da Sexualidade’ não poderia surgir
na Inglaterra Puritanista, e uma ‘História da Mulher’ não poderia surgir senão quando, no
século XX, a mulher começa a conquistar o mercado de trabalho e surgem os movimentos
feministas e de valorização social da mulher). Outros domínios, por fim, são quase tão antigos
quanto a própria História – como é o caso da História Religiosa e da História Militar – e
tendem a ser perenes na sua durabilidade.
Dentro deste quadro mais amplo, poderemos agora nos deter mais especificamente
neste campo histórico habitualmente denominado História da Cultura Material. Este é um
campo que, de acordo com a tripartição de critérios acima descrita, definiremos como uma
‘dimensão’ historiográfica. Quando avalia uma sociedade do ponto de vista da Cultura
Material, o que o historiador está trazendo a primeiro plano é uma dimensão tão importante
como a Política, a Cultura, as Mentalidades, o Imaginário, ou as várias outras dimensões que
dão origem a campos históricos desta natureza. A História da Cultura Material é deste modo
uma modalidade historiográfica definida por critérios similares àqueles que presidem a
geração de modalidades como a História Política ou a História da Cultura. Se nestas
modalidades o historiador traz a primeiro plano, respectivamente, as relações de poder
(história política) e a cultura em sentido amplo (a história cultural), a História da Cultura
Material traz para primeiro plano a própria vida material dos homens que vivem em
sociedade, incluindo os objetos e materiais que constituem a base desta cultura material gerida
e organizada socialmente.
A História da Cultura Material, desta maneira, pode ser definida como o campo
histórico que estuda fundamentalmente os objetos materiais em sua interação com os aspectos

4
mais concretos da vida humana, desdobrando-se por domínios históricos que vão do
estudo dos utensílios ao estudo da alimentação, do vestuário, da moradia e das condições
materiais do trabalho humano. A noção fundamental que atravessa este campo é a da
“matéria” (ou do ‘objeto material’, que pode ser tanto o de tipo durável, como no caso dos
monumentos e dos utensílios, como do tipo perecível, como no caso dos alimentos)4.
Contudo, este campo deve examinar não o objeto material tomado em si mesmo, mas sim os
seus usos, as suas apropriações sociais, as técnicas envolvidas na sua manipulação, a sua
importância econômica e a sua necessidade social e cultural. Afinal, a noção de “cultura”
também não deixa de atravessar este campo.
Desta forma, o historiador da cultura material não estará atento apenas aos tecidos e
objetos da indumentária, mas também aos modos de vestir, às oscilações da moda, às suas
variações conforme os grupos sociais, às demarcações políticas que por vezes se colam a uma
determinada roupa que os indivíduos de certas minorias podem ser obrigados a utilizar em
sociedades que aproximam os critérios da “diferença” e da “desigualdade”. Com relação aos
alimentos, o historiador buscará não um exaustivo inventário dos vários gêneros alimentícios,
mas uma compreensão dos seus modos de consumo, dos regimes alimentares que
predominam nos diversificados grupos sociais e profissionais, das expectativas simbólicas de
cada alimento; das formas de armazenamento e intercâmbio dos gêneros alimentícios. Da
variedade de habitações, procurará extrair uma compreensão da vida familiar, das relações
entre público e privado, da segregação social que pode ser estabelecida a partir de
determinadas configurações de espaço, dos regimes imaginários que podem estar associados a
certos padrões habitacionais, da correlação entre os vários tipos de bens imóveis e os grupos
sociais a que pertencem os seus possuidores.
Ao perceber a materialidade de uma cidade – os seus monumentos, os seus espaços
de circulação, os seus espaços de trancafiamento, os seus compartimentos lícitos e ilícitos – o
historiador estará buscando perceber os modos de vida da sociedade que a habita, as
expectativas dos seus habitantes. Ao examinar uma cidade murada, como aquelas que eram
tão típicas da Idade Média e do princípio da modernidade, tentará compreender o que
significa este tipo de “viver murado”, que medos aparecem a reboque desta espécie de
enclausuramento urbano ou, na contrapartida, que sensações de segurança contribuirão para o

4
Tal como se disse, todas as modalidades historiográficas definidas a partir de “dimensões” trazem por trás de si
uma noção muito forte: na História Política é o Poder, na História Cultural é a Cultura, na História Demográfica

5
alívio do habitante murado frente aos riscos de invasão externa. A cidade aberta, com
outros tipos de problemas, inspirará reflexões distintas, e darão dar a conhecer outros tipos de
sociedades. O historiador da cultura material que trabalha com a História Urbana tem muito a
perceber dos seus objetos citadinos.
Móveis, objetos decorativos, ferramentas, máquinas, matérias primas que darão luz a
objetos manufaturados, veículos que os transportarão ao longo de grandes avenidas e estradas,
com destino a determinados grupos de consumidores que por estes bens terão de pagar em
moeda sonante ... tudo pode ser objeto de uma História da Cultura Material. Pode-se perceber
que, além da noção de “materialidade”, uma outra noção marcante que muito freqüentemente
atravessa este campo histórico é a de “cotidiano”. O historiador da cultura material estará
freqüentemente estudando os domínios da vida cotidiana, da vida privada, embora estes
domínios também possam ser partilhados por historiadores voltados predominantemente para
outras dimensões ou enfoques, como é também o caso da História das Mentalidades.
O estudo atento dos objetos da cultura material faz com que esta especificidade da
história esteja intimamente associada à Arqueologia, mas do ponto de vista da categorização
das modalidades historiográficas esta última designação refere-se preferencialmente a uma
‘abordagem’ relacionada ao levantamento e à decifração de fontes da cultura material, e não
tanto à ‘dimensão’ de vida social que é trazida por estas fontes. Por outro lado, vale lembrar
que, se tradicionalmente a Arqueologia vinha sendo tratada como ciência distinta da História,
gerando uma dimensão corporativa própria (a dos arqueólogos), é precisamente a entrada em
cena de uma História da Cultura Material (assim definida conceitualmente) o que atua mais
fortemente no sentido de incorporar a comunidade arqueológica na comunidade historiadora.
Rigorosamente, todo bom arqueólogo é também um historiador da Cultura Material, não se
limitando a coletar resíduos de civilizações. De qualquer modo, para considerar a tábua de
critérios que estamos utilizando para visualizar as partições internas ao campo historiográfico,
pode-se dizer que, ao se mostrar relacionada a um ‘modo’ de desvendar vestígios materiais e
de conectá-los para reconstruir a História, a Arqueologia vincula-se mais coerentemente a
uma segunda ordem de critérios que se definem pelas ‘abordagens’ utilizadas pelo historiador.
Neste sentido, para um historiador, a Arqueologia remete sobretudo aos ‘métodos
arqueológicos’ que eventualmente serão empregados para levantar fontes e dados empíricos
no decorrer da pesquisa – fontes e dados sobre os quais o historiador fará incidir depois um

é a População, na História do Imaginário é a Imagem, e assim por diante. No caso da História da Cultura

6
determinado enfoque que pode ou não ser o da História da Cultura Material. Mas, de
qualquer maneira, a História da Cultura Material e a Arqueologia freqüentemente andam
juntas5.
Também a História da Cultura Material pode atuar na conexão com campos
historiográficos definidos por outras dimensões ou enfoques. Assim, a “matéria” e a
“imagem” podem ser examinadas nas suas interrelações, e conseqüentemente um historiador
pode associar os campos da História da Cultura Material e da História do Imaginário.
Segundo Gaston Bachelard (1943), “a imaginação de um movimento reclama a imaginação de
uma matéria”6 A partir de um enfoque que não deixa de ser similar, os objetos e artefatos são
encarados como complexos de tendências ou “redes de gestos” por Leroi-Gourhan – que de
algum modo não deixa de ser simultaneamente um antropólogo da cultura material e do
imaginário que se dedicou mais particularmente às culturas paleolíticas. O vaso, por exemplo,
seria uma materialização da tendência geral de conter fluidos7. Relacionando gestos, imagens
e objetos materiais, Leroi-Gourhan analisa determinados objetos, como a “casca”, visando
estabelecer curiosas interconexões. “As tendências para “conter”, “flutuar”, “cobrir”
particularizadas pelas técnicas do tratamento da casca dão o vaso, a canoa ou o telhado. Se
este vaso de casca é cozido, implica imediatamente uma outra clivagem possível das
tendências: coser para conter dá o vaso de casca, coser para vestir dá a veste de peles, coser
para abrigar dá a casa de pranchas cozidas”8.
Estas divagações podem parecer demasiado abstratas à primeira vista, mas devemos
aprender com elas. As relações entre os objetos da cultura material e o imaginário podem ser
exploradas criativamente pelos historiadores de um ou outro destes campos. Independente de
ser um símbolo bélico, a ‘espada’ também se abre imagisticamente para o gesto do
‘ordenamento social’. Ela estende-se para o gesto que corta, que descrimina, que separa, que
compartimenta — que ordena o social, enfim. Neste sentido, o símbolo incorpora com a
sugestão do ‘ordenamento social’ mais esta outra função representativa, para além do

Material, enfim, teríamos a noção de “matéria”.


5
Jean-Marie PESEZ, “História da Cultura Material” In Jacques LE GOFF (org.) A História Nova, São Paulo:
Martins Fontes, 1990, p.202 [orig.: 1978].
6
Gaston BACHELARD, L’Air et les songes. Paris: Corti, 1943.
7
A. LEROI-GOURHAN, Evolution et Technique: L’Homme et la matière. Paris: A. Michel, 1943. p.18.
8
A. LEROI-GOURHAN, op.cit, p.340 sqs, apud. Gilbert DURAND, As estruturas antropológicas do
imaginário, Lisboa: Presença, 1989, p.38.

7
enfrentamento do inimigo. A espada torna-se um símbolo polissêmico, representação
da força mas também, da justiça9.
As interrelações mais imediatas da História da Cultura Material afirmar-se-ão
provavelmente com a História Econômica, que, conforme veremos mais adiante, terá como
um dos seus três setores básicos de preocupações o estudo da esfera da Produção. Neste caso,
os objetos materiais privilegiados para estudo serão as ferramentas, as máquinas, a matéria
prima – ou, para utilizar a terminologia marxista, os ‘meios’ e ‘instrumentos de produção’.
Sem contar as ‘técnicas’, que também se tornam objeto de interesse da História da Cultura
Material (usos que se incorporam a determinados objetos, ou que até mesmo os definem). Na
esfera econômica da Circulação, teremos como objetos da cultura material importantes as
“moedas”, pontos focais para estudos de cultura material, de história econômica e novamente
do imaginário (se o historiador ocupar-se também do estudo da simbologia de suas efígies).
Quanto aos objetos ligados ao Consumo, são infinitos.
Um exemplo de incorporação à análise historiográfica de enfoques relacionados à
História da Cultura Material foi concretizado por Braudel, em um dos volumes de Civilização
Material, Economia e Capitalismo (1967)10. Por outro lado, Marc Bloch pode ser considerado
um precursor, levando-se em conta que teria empreendido uma modalidade de História da
Cultura Material ao analisar a ‘paisagem rural’ na medievalidade francesa11.

Enfim, o tratamento historiográfico da Cultura Material pode ser identificado através


de um longo desenvolvimento, no decurso deste último século, que vai desde estas obras

9
A articulação entre Cultura Material e imaginário, simbologia, motricidade, técnicas corporais e gestualidade
também tem sido examinada por diversos outros pesquisadores no âmbito das Ciências Humanas, entre os quais
Jean-Pierre Warnier, Dominique Poulot e Françoise Choay, que têm buscado avançar para além das abordagens
semióticas já clássicas da cultura material tal como as que são encaminhadas por autores como A. Moles e Jean
Baudrillard. Para além da França e da Europa continental, também nos EUA e no mundo anglo-saxão surgem
contribuições extremamente importantes para o desenvolvimento dos estudos de Cultura Material, como as de
Thomas Schlereth, Arjun Appadurai, Steven Lubar, W. David Kingery, Baron Isherwood e outros. De igual
maneira, a consciência de que “cultura material” é sobretudo “cultura”, e portanto relacionada a sistemas
simbólicos, vem sendo enfatizada já há bastante tempo pela tradição antropológica, encontrando formulação
explícita em alguns de seus principais representantes, como Claude Lévi-Strauss, Clifford Geertz e Marshall
Sahlins, entre outros.
10
Fernando BRAUDEL, Civilização Material, Economia e Capitalismo, 3 vol. São Paulo: Martins Fontes, 1997
[edição francesa original: 1967].
11
Marc BLOCH, Les caractères originaux de l’histoire rurale française. Paris: A. Colin, 1952 (original de
1931). Existem também artigos de Marc Bloch que examinam os instrumentos e as técnicas utilizados pelos
camponeses medievais (“Avènement et conquête du moulin à l’eau” e “Les inventions médievales”, Annales
d’histoire économique et sociale, t.VII, 1935).

8
pioneiras até as obras mais recentes, como a História das Coisas Banais de Daniel
Roche12 – obra que examina para a sociedade européia do século XVII ao XIX diversificados
aspectos como a alimentação, o vestuário e aparência, o fornecimento de água, luz e
aquecimento, os móveis e utensílios e, de uma maneira geral, a produção de objetos e o seu
consumo. Eis aí, portanto, uma história do ocidente moderno através dos objetos e dos seus
usos, inscrevendo-os em uma teia de relações humanas que deve ser captada para que a
História da Cultura Material não se transforme em um mero inventário descritivo de bens
diversos e de suas formas de consumo.
No Brasil, registraremos o pioneirismo dos estudos de História da Cultura Material
com a obra Caminhos e Fronteiras (1956) de Sérgio Buarque de Holanda. Se em Visões do
Paraíso13 o sociólogo-historiador aborda o Imaginário, em Caminhos e Fronteiras 14
o seu
enfoque é precisamente a ‘vida material’ da região de São Paulo no período colonial. Na
verdade, Sérgio Buarque focaliza a vida material como meio para perceber a interação entre
colonizadores de origem européia e ameríndios (o confronto cultural é a sua preocupação
básica desde 1936, com Raízes do Brasil). Trata-se, portanto, de uma História da Cultura
Material motivada por uma preocupação típica da História Social da Cultura, compreendida
aqui no seu sentido mais específico. As técnicas rurais, a produção de alimentos, a paisagem
rural assinalada pelos trigais, a indústria caseira e o artesanato urbano, os utensílios (como a
rede de dormir) ou os instrumentos (como o arado utilizado no trabalho rural) ... eis aqui os
materiais para uma autêntica História da Cultura Material que procura reconstruir, a partir de
uma problematização sociocultural mais ampla, uma rede complexa que envolve objetos,
técnicas e consumo.
Para além da contribuição exemplar de Sérgio Buarque de Holanda, igualmente
fundamentais para a História da Cultura Material no Brasil foram as contribuições de Ulpiano
Bezerra de Menezes, um autor que certamente contribuiu enormemente para o
desenvolvimento deste campo no Brasil15. Mais recentemente, especialmente no que se refere

12
Daniel ROCHE, História das Coisas Banais – nascimento do consumo (sec. XVII-XIX), Rio de Janeiro:
Rocco, 2000.
13
Sérgio Buarque de HOLANDA, Visões do Paraíso, São Paulo: Brasiliense, 1994 [original: 1959]
14
Sérgio Buarque de HOLANDA, Caminhos e Fronteiras, São Paulo: Companhia das Letras, 2001 [original:
1957]
15
Entre outros textos, ver (1) MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da
História: a exposição museológica e o conhecimento histórico, I. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 2, n. 2,
p. 9-42, jan.-dez.1994a (Nova Série); (2) MENESES, Ulpiano Bezerra de. Fontes visuais, cultura visual, história
visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 23, n. 45, p. 11-36,
2003; (3) MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Entrevista: Para que serve um museu. Revista de História da

9
às relações entre Cultura Material e Arqueologia, emerge com especial destaque o
nome de Pedro Paulo Funari16, para além de outros importantes estudiosos das relações entre
História, Cultura Material, Memória e Patrimônio, tal como Mário Chagas, Myrian Sepúlveda
dos Santos e Regina Abreu.
Examinemos, em seguida, os lugares mais habituais onde o historiador da cultura
material poderá encontrar suas fontes e desenvolver a base principal de sua pesquisa.
Obviamente que, tal como registramos com o exemplo pioneiro de Sérgio Buarque de
Holanda, a cultura material pode ser estudada em fontes das mais diversas naturezas. Uma
coleção de catálogos de modas pode colocar o historiador diante do universo indumentário de
determinado período histórico, assim como um conjunto de receitas pode apresentar ao
historiador os hábitos culinários de determinado povo em certa região e temporalidade.
Contudo, se quisermos falar em fontes estritamente materiais – isto é, a matéria sem a
mediação do discurso escrito – teremos de recorrer de alguma maneira às já mencionadas
práticas arqueológicas, pelo menos para os períodos mais recuados da História. É neste
sentido que a Arqueologia se apresenta como a ciência co-irmã da História da Cultura
Material, tendendo a se confundir com ela em alguns casos.
Esta óbvia parceria, contudo, é relativamente recente em nosso país e no resto da
América do Sul. Se pudemos contar com as já mencionadas obras pioneiras que na
historiografia brasileira já se direcionavam para uma História da Cultura Material com
razoável grau de consciência, é inevitável ressaltar também que a História da Cultura Material
em sua associação mais estreita com a Arqueologia apenas começou a se desenvolver mais
recentemente no Brasil. Para visualizar alguns aspectos deste desenvolvimento mais recente,
seria possível mencionar alguns campos de interesse que têm se oferecido mais habitualmente

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 2, n. 19, abr. 2007, p. 46-51; (4) MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de.
A cultura material no estudo das sociedades antigas. Revista de História, São Paulo, n.115 (Nova Série), julho-
dezembro de 1983, p.103-117; (5) MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. Memória e Cultura Material:
documentos pessoais no espaço público. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: FGV, n.21, 1998-1 e (6)
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A cultura material no estudo das sociedades antigas. Revista de
História, São Paulo, n.115 (Nova Série), julho-dezembro de 1983, p.103-117.
16
Entre outros textos importantes, ver (1) FUNARI, P. P. A. (2001) - Os desafios da destruição e conservação do
património cultural no Brasil. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Porto. 41:1-2, p. 23-32; / (2) FUNARI, P.
P. A. Teoria e método na Arqueologia contemporânea: o contexto da Arqueologia Histórica. In FUNARI, P. P.
A.; DOMINGUEZ, L.; FERREIRA, L. M. - Patrimônio e cultura material. Campinas: Unicamp/IFCH, 2006. p.
15-22 / (3) FUNARI, P. P. A. (2005) - Fontes arqueológicas: os historiadores e a cultura material. In PINSKI, C.
B., Ed. - Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, p. 82-110 / (4) FUNARI, P. P. A.; PELEGRINI, S. C. A..
(2006) - Patrimônio Histórico e Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor / (5) Ver ainda, particularmente
esclarecedora para as relações entre Cultura Material e Arqueologia, os diversos ensaios de vários autores
incluídos em FUNARI, Pedro Paulo de Abreu (org). Cultura material e arqueologia histórica. Campinas,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ UNICAMP, 1998, 317 pp. (Coleção Idéias).

10
como cenário privilegiado para os historiadores que têm se dedicado ao estudo da
cultura material. Entre estes, os estudos da cultura material urbana – e mais especificamente a
arqueologia urbana – têm se mostrado como um campo de especial destaque. Em tempo: um
historiador da cultura material pode estudar a cultura material urbana a partir de fontes
diversificadas, inclusive a documentação de arquivo. Mas ele estará mais especificamente
atuando dentro do âmbito da Arqueologia Urbana no momento em que estiver lidando com os
processos e métodos mais típicos da Arqueologia, como por exemplo as escavações.
De resto, freqüentemente o historiador da cultura material que se dedica aos estudos
urbanos pode contar com um entrecruzamento eficaz de fontes materiais levantadas a partir de
escavação ou de outros procedimentos arqueológicos com fontes de natureza diversa, como
por exemplo as fontes documentais com as quais os historiadores lidam mais tradicionalmente
em seu ofício. Assim, se nem sempre é possível levantar com maior precisão o contexto
material de determinada espacialidade urbana em determinada época em vista da necessidade
de se contar apenas com uma escavação parcial (para que não se veja afetada a vida urbana
que se desenvolve na contemporaneidade do arqueólogo) este contexto material pode ser
contraponteado com o estudo de mapas antigos e de outros materiais iconográficos (pinturas
da época examinada que tenham tematizado cenas urbanas, fotografias para os períodos em
que já possuímos a fotografia, e assim por diante). De igual maneira, basta lembrar que existe
em arquivos tradicionais farta documentação descritiva que busca dar conta da espacialidade
nos sucessivos contextos temporais, narrando através das palavras a espacialidade e a
materialidade de determinada cidade ou de uma propriedade urbana mais específica. Aqui
teremos, em certo sentido, a materialidade filtrada através do discurso. Este trabalho
complementar de fontes, enfim, é um dado a se considerar.
Os procedimentos arqueológicos podem ajudar o historiador da cultura material
urbana, ou de qualquer outro ambiente, em níveis muitos diversos e com vistas à percepção
dos mais variados aspectos da vida social. Assim, para além da própria base material urbana
assinalada pelo traçado das ruas e pelas ruínas e evidências de prédios, uma escavação pode
trazer à tona desde fragmentos de cerâmica até restos de comida que permitam identificar um
determinado padrão de consumo alimentar. Desta maneira, de diversas maneiras o cotidiano
social que se desenvolvia sobre uma determinada espacialidade histórica pode ser trazido à
tona por escavações, e se for possível entrecruzar estes dados e análises interpretativas com
documentação de arquivo, será possível recuperar um quadro bem vivo da vida de uma cidade

11
em um período remoto. A possibilidade de lidar simultaneamente com as práticas
arqueológicas e com a documentação historiográfica mais tradicional é por isto mesmo um
dos desafios mais instigantes para os historiadores da cultura material.
Seguindo adiante com outros exemplos possíveis, as diferentes ocupações de uma
determinada localidade nas sucessivas temporalidades que se sucedem, trazidas à tona pelas
escavações arqueológicas, podem revelar processos migratórios ao historiador da cultura
material que trabalha em conexão com a História Demográfica. Os restos e fragmentos de
cerâmica, ou mesmo os restos de comida trazidos à tona em escavações arqueológicas,
também podem contar por exemplo a história de processos de aculturação – para pensar mais
especificamente no caso das culturas indígenas – e aqui teremos um diálogo destacado da
História da Cultura Material com a História Cultural propriamente dita ou com a História
Antropológica. A própria hierarquização social pode ser, por assim dizer, “escavada” – no
sentido de que as diferenças sociais existentes no interior de um mesmo conjunto humano
podem ser observadas a partir dos diversos níveis de cultura material que separam os grupos
sociais presentes em um mesmo espaço material. Os objetos, enfim, desde que examinados a
partir de uma leitura adequada, podem ser vistos como materializações de processos sociais –
e isto coloca a História da Cultura Material em direta conexão com a História Social.
Um objeto de cultura material é na verdade a materialização de uma sucessão de
processos sociais, políticos, culturais, econômicos e tecnológicos. Para não ir muito longe e
citar um exemplo dos mais conhecidos, o que é a passagem do machado de pedra ao machado
de bronze senão a materialização de uma série de transformações processuais que se deram
em diversas das dimensões da vida social de um determinado povo? A feitura de um machado
de bronze pressupõe simultaneamente uma estrutura social e uma estrutura econômica mais
complexa, indelevelmente entrelaçadas na sua matéria. Neste caso, a própria matéria fala por
si. O cobre e o estanho só mais raramente ocorrem juntos em uma localidade específica. A sua
junção para constituir o bronze – sem falar na tecnologia que será requerida para efetivação da
fusão – pressupõe que um destes dois componentes originais tenha sido importado ou que
tenha sido obtido em uma rede trocas mais ampla – o que pressupõe meios de transporte,
processos de comunicação, progressos discursivos relacionados à capacidade de obter
alianças. Da mesma maneira, a tecnologia da fusão do bronze requer uma especialização que
só pode ocorrer no seio de uma divisão mais complexa de trabalho, o que faz contrastar o
machado de bronze em relação ao machado de pedra quando pensamos que a feitura deste

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último – à parte a própria existência de todos os seus materiais no próprio local – pode
ser realizada no intervalo do plantio ou de outras formas básicas de trabalho. Dito de outra
maneira, a passagem do machado de pedra ao martelo de bronze tem muito a dizer ao
historiador da cultura material mesmo que só estejamos considerando os materiais envolvidos.
Este exemplo, bastante simples por sinal, deve ser entendido como metáfora para a
compreensão do que pode significar um objeto de cultura material em termos de
materialização de processos sociais, culturais, econômicos e tecnológicos17.
Prossigamos na reflexão sobre os lugares privilegiados para a busca historiográfica
de objetos da cultura material. Se o local passível de ser vasculhado arqueologicamente
fornece ao historiador da cultura material um campo por excelência para se aproximar da
sociedade que pretende investigar, outro universo significativo onde poderá encontrar as suas
fontes materiais é o Museu. Contudo, alguns cuidados devem ser tomados pelo historiador da
cultura material que adentra o Museu, pois esta instituição tem suas armadilhas no que se
refere às possibilidades de recuperação de um determinado contexto historiográfico.
O Museu tende a ser visto nas sociedades ocidentais como um grande documento, no
sentido de que os objetos de cultura material que nele são reunidos acabam se mostrando
como um grande resumo da sociedade. Mas de que resumo estaremos falando? Uma sala
destinada a recuperar determinado contexto sócio-material em um Museu reproduz
habitualmente a ‘leitura de uma sociedade’ que interessou a determinados poderes
institucionais vigentes – particularmente na época em que se decidiu transformar estes objetos
específicos em memória social – e depois disto sucessivas leituras podem continuar a se
desenvolver modificando de alguma maneira essa leitura pelo simples deslocamento de
objetos e mecanismos de classificação já no interior da instituição museológica. O Museu
mesmo, na sua situação contemporânea, introduz já a sua própria leitura e impõe os seus
próprios deslocamentos a uma leitura da sociedade que lhe foi anterior, sendo esta leitura ou
leituras primordiais uma construção sobre a qual se organiza uma outra.
Todo Museu foi construído ou instituído um dia, de certa maneira – pelo menos
como uma de suas funções mais primordiais – para induzir lembrança, concretizar memória
social, e orientar a construção de uma certa Identidade. A determinação do que deve ou não
deve ser lembrado atende por diversas vezes a poderes muito específicos, à preservação de
determinados interesses sociais, à glorificação ou depreciação de outros. Freqüentemente os

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museus, nascidos de coleções de objetos materiais recolhidos na natureza ou de
coleções de fragmentos vários do passado humano, de obras de arte ou de objetos de uso,
nascem envoltos por determinadas relações de poder e redirecionam-se logo em seguida como
um instrumento do poder importante. Essas relações de poder que presidem a constituição dos
Museus e das grandes coleções de objetos de cultura material precisam ser decifradas
adequadamente pelo historiador da cultura material que se empenha em recuperar algo da vida
de uma determinada sociedade através de seus objetos. Um historiador, enfim, não deve entrar
ingenuamente em um Museu. Ao penetrar no seu recinto, ele deverá partir da compreensão de
que a coleção que irá examinar foi construída por certas relações de poder, por certos
interesses de preservação da memória em uma, e não em outra direção. Um Museu, e uma
determinada coleção de objetos, carrega determinados silêncios dentro de si que devem ser
pacientemente perscrutados pelo historiador. Estes silêncios falam, gritam, materializam-se. O
Museu, enfim, é produtor de Discursos e, portanto, participa da construção do conhecimento
histórico não apenas como fornecedor de materiais e fontes para o historiador, mas como
agente que também produz as suas próprias leituras do conhecimento histórico. Neste diálogo
com o Museu (e não apenas com suas fontes) deve se inserir o historiador18.
Para além do sítio arqueológico onde se traz o objeto de cultura material através da
escavação, ou do Museu que traz de temporalidades anteriores uma coleção de determinados
objetos da cultura material que podem ser consultados em uma determinada ordem e relação
mútua, o historiador poderá encontrar os seus objetos nos lugares mais diversos, como por
exemplo nos ritos religiosos. Freqüentemente, um determinado objeto material é sagrado no
âmbito de um determinado rito religioso, e isto faz com que ele se transmita no tempo com
menores variações ou mesmo sem modificações substanciais. Em outros casos, são
precisamente as alterações – menos ou mais significativas – que serão examinadas pelos
historiadores como sinais evidentes de transformações sociais, políticas ou culturais no
sentido mais amplo. Os objetos de culto religioso, destas e de outras maneiras, podem trazer

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Para uma introdução à Arqueologia, ver (1) ORSER, C. E. Introdução à Arqueologia Histórica, Rio de
Janeiro, Oficina de Livros, 1992; e (2) FUNARI, P. P. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2003.
18
Sobre estes aspectos, ver a contribuição sempre importante de Myrian Sepúlveda dos Santos (A escrita do
passado em museus históricos, Rio de Janeiro: Garamond; MinC IPHAN, 2006), bem como os diversos ensaios
de autores vários publicados em BITTENCOURT, José Neves; TOSTES, Vera; BENCHETRIT, Sara (Org.)
História representada: o dilema dos museus. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2003. Para um estudo
de caso específico relacionado a um Museu Brasileiro, ver (1) ELIAS, Maria José. Museu Paulista: história e
memória. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 1996; e (2) OLIVEIRA, Cecilia Helena de Salles. Museu Paulista: espaço de evocação do
passado e reflexão sobre a História. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 10-11, p. 105-126, jan.-dez. 2003.

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ao seu modo um passado histórico que remete o historiador aos momentos onde o culto
foi instituído, ou aos momentos em que este sofreu algumas de suas modificações mais
significativas. Desta maneira, entrar em um recinto sagrado, seja um terreiro de umbanda ou
uma Igreja católica, pode se apresentar ao historiador como uma verdadeira viagem através do
tempo, para utilizar aqui a força de uma metáfora.
Aqui, por outro lado, o historiador da cultura material também deve enfrentar
conscientemente os desafios de buscar ler uma sociedade através dos seus objetos, porque
neste caso teremos várias temporalidades que se superpõem. Em que pese a pressão da
tradição e dos rigores do culto para que os seus objetos se conservem tal como nos primórdios
da tradição considerada, a verdade é que a transformação material de objetos de culto podem
ser influenciadas por diversos fatores. Entre tantos possíveis, deve se considerar a
possibilidade de escassez de matérias-primas tradicionalmente usadas para confeccionar os
objetos. De igual maneira, a intervenção de novas técnicas e materiais novos pode trazer suas
contribuições a esta superposição de temporalidades. Para além disto, em sua interação com a
sociedade envolvente, um culto pode ir se modificando e conseqüentemente imprimindo
novas modificações nos objetos de cultura material que utiliza, na maneira de utilizá-los, na
sua interconexão com outros objetos, na carga simbólica que carregam. As transformações
sociais, enfim, materializam-se nos objetos de cultura material – de modo que estes podem ser
examinados como sintomas das sociedades que os produziram. A tudo isto, enfim, deve estar
atento o historiador da cultura material que se aproxima de um culto religioso com o fito de
procurar entender a sociedade que instituiu as suas bases principais.
Para encurtar uma discussão que poderia seguir adiante indefinidamente, já que ao
historiador da cultura material apresentam-se inúmeros lugares, objetos e materiais prontos a
favorecê-lo em sua viagem de conhecimento histórico, lembraremos que para uma boa análise
historiográfica o objeto é sempre o ponto de partida na pesquisa, e não o resultado ou a
ilustração dela. Através do objeto, o historiador deve mostrar-se capaz de ler relações de
poder, identificar padrões de pensamento e processos de simbolização, perceber
hierarquizações sociais e funcionais, compreender as tensões que surgem entre a vida humana
e a sua apropriação dos objetos e materiais que os homens encontram na natureza para
transforme-los em seguida. Captar em um objeto simples toda a complexidade social, enfim, é
o grande desafio do historiador da cultura material.

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