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Escola EB 2,3/S de Mora

Ano Lectivo 2009/2010 Biologia e Geologia – 10º ano

Situação-Problema:
A barragem de Assuão

O Egipto é um país que enfrenta um gravíssimo


problema demográfico devido a uma população que cresce a
um ritmo elevado; de dois milhões e meio de habitantes em
1800, passou a catorze milhões em 1920 e actualmente
conta com mais de setenta milhões. Os problemas daqui
resultantes são enormes, tanto mais que o Egipto se situa
numa zona desértica apenas amenizada pela presença do
Nilo, cujas águas criam aquilo que podemos considerar um
extenso oásis ao longo de todo o seu percurso (fig 88); a
população do país concentra-se por isso numa pequena
parcela do seu território, havendo actualmente quase 15
milhões de habitantes concentrados em torno da cidade do
Cairo.

Fig. 1 – O percurso do Nilo, incluindo a região do delta, está


sublinhado por abundante vegetação que contrasta com o deserto
envolvente (fonte: Visible Earth, NASA).

A necessidade de resolver os problemas daqui decorrentes, levou na década de sessenta à planificação de um


grande empreendimento, a construção da barragem de Assuão. Os objectivos a atingir com esta estrutura eram
basicamente:

 obtenção de água potável.


 regularização do caudal do Nilo, controlando as intensas inundações que se faziam sentir anualmente nos
meses de Agosto a Outubro, o que permitiria aumentar as áreas possíveis de serem afectas à urbanização e
à agricultura (apenas 2% da área do Egipto é formado por terras cultiváveis).
 irrigação das áreas desérticas.
 produção de energia eléctrica o que permitiria o apoio à industrialização do país.

Se compararmos a variação do caudal anual do Nilo antes e depois da entrada em funcionamento da barragem
(fig. 89) torna-se evidente que a regularização do caudal do Nilo foi plenamente conseguida, passando a existir uma
distribuição bastante mais uniforme das descargas do rio.

Fig. 2- Comparação dos caudais médios anuais do Nilo


para os períodos antes e depois da construção da
barragem de Assuão.
No entanto, a entrada em funcionamento da barragem viria a despoletar uma série de situações
inesperadas cuja dimensão não tinha sido correctamente prevista nos estudos prévios. Com efeito, a barragem
passou a constituir uma barreira extremamente eficiente à passagem dos sedimentos normalmente transportados
pelo rio; 98% dos sedimentos passaram a ficar detidos no lago Nasser, nome da enorme albufeira associada à
barragem de Assuão (fig. 3).

Fig. 3 – O lago Nasser, enorme albufeira criada pela


barragem de Assuão (fonte: Visible Earth, NASA).

A falta destes sedimentos induziu uma série de alterações catastróficas:

 a matéria orgânica que era transportada pelo Nilo constituía um fertilizante natural e gratuito que
anualmente era espalhado sobre os campos durante os períodos de cheia; a sua ausência obrigou à
utilização de adubos químicos que, não só eram caros mas que acabaram por levar à poluição dos solos e
das águas nas regiões onde são utilizados.
 com muito menos carga sólida transportada, as águas do Nilo passaram a circular com uma velocidade
muito maior, tendo por isso um poder erosivo muito maior, levando à distribução de numerosas pontes e
diques.
 a diminuição drástica da quantidade de matéria orgânica a chegar ao Mediterrâneo levou a percas
importante na quantidade de peixe capturado no litoral egípcio em virtude da diminuição de alimento
disponível para os peixex (perderam-se por ano cerca de 1/5 de todo o pescado entre os quais cerca de 16
000 toneladas de sardinha anuais).
 o delta do Nilo, região densamente povoada, tal como todos os deltas resulta de um equilíbrio delicado
conseguido ao longo de séculos entre a quantidade de sedimentos que é transportada pelo rio e a
quantidade que é erodida pela dinâmica do mar, neste caso, o Mediterrâneo; com muito menos
sedimentos transportados pelo rio, o delta passou a estar exposto a um intenso processo erosivo, com a
consequente diminuição das áreas habitáveis e obrigando a gastos importantes tendo em vista a sua
conservação.
Mas nem só a diminuição da carga sólida transportada esteve na origem de problemas; também a falta de
cheias anuais acabou por vir a ter consequências extremamente negativas:

 tendo o Egipto um clima extremamente seco, a elevada evaporação que aí se faz sentir leva à acumulação
de grandes quantidades de sais nos solos. A escorrência superficial associada às cheias periódicas "lavavam"
os solos dissolvendoos sais aí contidos que eram arrastados pelo Nilo para o Mediterrâneo. A ausência dos
períodos de cheia tem levado à acumulação dos sais nos solos tornando os solos impróprios para a
agricultura e por isso contrariando um dos objectivos iniciais da construção da barragem que era
justamente aumentar a quantidade de zonas cultiváveis.

 com o caudal regularizado deixou de haver períodos de seca. Estes períodos contribuíam para limitar o
crescimento da população dos caracóis de água doce, seres fundamentais no ciclo de vida do parasita
responsável pela bilharziose (esquistossomose). A propagação dos caracóis a jusante da barragem levou a
um incremento desta doença que passou a ser responsável por 1/10 das mortes que ocorrem no Egipto.

O que se passou com o Nilo ilustra bem o delicado equilíbrio que existe nos processos inerentes ao sistema
hidrológico, servindo de alerta para a necessidade de um enorme cuidado nos estudos associados à planificação de
qualquer obra de grande envergadura que possa vir a interactuar com a dinâmica do ciclo hidrológico. Esperemos
que a construção da barragem do Alqueva não venha no futuro a revelar a existência de problemas de grande
dimensão não previstos nos estudos prévios.

1 – Comente a necessidade de construir a barragem de Assuão.

2 – Quais os problemas que não foram previstos pelos engenheiros?

3 – Sugira algumas formas de minimizar os problemas encontrados.

4 – Discuta as vantagens e desvantagens da construção da barragem e procure fazer um balanço final.

5 – Sugira outras alternativas à construção da barragem


O Delta do Ebro

Um outro aspecto que é importante salientar é que, como ja foi referido, os deltas são regiões litorais
extremamente sensíveis. Com efeito, a sua manutenção depende de um equilíbrio muito delicado entre a
quantidade de sedimentos que é transportada pelos rios e a quantidade de sedimentos que é retirada pela acção do
mar. O delta do Ebro (fig. 4) constitui um bom exemplo da susceptibilidade destas regiões às alterações
antropogénicas.

Fig. 4 – Delta do Ebro; uma situação em evolução no NE da Península Ibérica.

Trata-se de uma região com cerca de 325 km2 de área emersa cuja altitude máxima não excede os 5 metros
e, na qual cerca de 50% da área está a cotas inferiores a 50 centímetros.

Este delta conheceu uma fase de grande expansão durante o século XVI e a primeira metade do século XVII,
pois a necessidade da construção de navios após a descoberta da América levou à desflorestação de extensas áreas
da bacia hidrográfica do rio Ebro; o acentuar da erosão inevitavelmente associada a este processo levou ao
crescimento do delta segundo valores da ordem dos 10 metros por ano.

Contudo, esta fase de crescimento inverte-se totalmente quando a necessidade de produção de


electricidade, de obtenção de água para a agricultura e do controlo das inundações leva à construção de numerosas
barragens ao longo de toda a bacia hidrográfica do Ebro. Os sedimentos passam por isso a acumular-se nas
albufeiras impedindo a sua deposição na zona do delta calcula-se que a quantidade de sedimentos que atinge o
delta seja actualmente apenas 1% do valor que existiria há um século; o delta entra assim num processo de
regressão a qual, nalguns anos atinge em determinados locais valores da ordem dos 100 metros/ano.

1 - Preveja quais as consequências para as populações caso a situação actual se mantenha.

2 – Proponha algumas medidas que se possam tomar para evitar essas mesmas consequências.

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