Você está na página 1de 200

Para meus pais e para Casey

Aqui, nestes derradeiros minutos, no fim do mundo, alguém aperta um parafuso mais delgado que um cílio, alguém com punhos delicados ajeita flores […]. “Another End of the World”, James Richardson

Sumário

Capa

Rosto

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

32

33

Agradecimentos

Créditos

1

Não percebemos logo de cara. Não sentimos nada. No começo, não notamos o tempo extra despontando nos contornos suaves de cada dia como um tumor crescendo sob a pele. Nessa época, o clima e a guerra distraíam nossa atenção. A rotação do planeta não nos interessava. Bombas continuavam a explodir nas ruas de países distantes. Furacões chegavam e passavam. O verão terminava. Um novo ano letivo começava. Os relógios tiquetaqueavam como sempre. Segundos pingando para formar minutos. Minutos se somando em horas. E não havia nada que sugerisse que essas horas, por sua vez, não estivessem mais se agrupando em dias com a duração fixa conhecida de todos os seres humanos. Mas houve quem, mais tarde, alegasse ter percebido o desastre antes de todo mundo. Aqueles que trabalhavam à noite, seguranças de cemitérios, os responsáveis por reabastecer as prateleiras, carregadores de caminhões, motoristas de carretas, ou ainda so edores dos mais diversos: pessoas insones, perturbadas, doentes. Aqueles acostumados à vigília. Através de seus olhos avermelhados, alguns de fato detectaram certa escuridão persistente nas manhãs que antecederam o anúncio, mas todos, erroneamente, encararam tal percepção como equívoco de uma mente solitária e agitada. No dia 6 de outubro, os especialistas fizeram o anúncio. Esse, claro, é o dia de que todos nos lembramos. Tinha ocorrido uma mudança, eles disseram, uma desaceleração, e foi assim que, a partir dali, passamos a tratar aquilo como a desaceleração. “Não temos como saber se essa tendência vai continuar”, declarou um tímido cientista barbudo, numa coletiva de imprensa montada às pressas, hoje tristemente célebre. Ele pigarreou e engoliu em seco. Flashes de câmeras apareciam refletidos em seus olhos. E então veio aquele momento, reprisado tantas vezes depois que a cadência particular da fala do cientista — suas hesitações e pausas, aquele olhar de esguelha do Centro-Oeste — ficou para sempre relacionada à notícia em si. Ele prosseguiu: “Mas suspeitamos que sim, vai continuar”. As noites haviam se alongado em cinquenta e seis minutos. No início, as pessoas ficavam paradas na rua e gritavam coisas sobre o fim do mundo. Orientadores apareceram para falar com a gente na escola. Lembro que vi o sr. Valencia, na casa vizinha, estocando pilhas de comida enlatada e garrafas d’água na garagem, como se estivesse se preparando, agora percebo, para um desastre bem menos grave.

Logo as mercearias estavam sem estoque, as prateleiras tinham sido sugadas até o osso, como a carne do frango. As rodovias ficaram imediatamente congestionadas. Ao ouvir a notícia, todo mundo queria fugir. Famílias amontoadas em minivans cruzavam as divisas entre os estados. Saíam em disparada para todos os lados como pequenos animais flagrados, de repente, pela luz de uma lanterna. Mas, claro, não havia lugar na Terra para onde ir.

2

A notícia chegou num sábado. Na nossa casa, ao menos, a mudança havia passado despercebida. Ainda dormíamos quando o sol surgiu naquela manhã, de modo que não percebemos nada de diferente no horário do alvorecer. Aquelas últimas horas antes de ficar sabendo da desaceleração permanecem na minha memória — mesmo tantos anos depois —, como se estivessem aprisionadas em um pote de vidro. Minha amiga Hanna tinha dormido em casa, e ficamos em sacos de dormir no chão da sala, onde, em outras centenas de noites, dormíramos lado a lado. Acordamos com o ruído surdo dos cortadores de grama, com o latido dos cães e com o ranger de um trampolim do qual os gêmeos, nossos vizinhos, saltavam. Dentro de uma hora, estaríamos ambas vestidas com uniformes azuis de futebol — cabelos presos, protetor solar passado, chuteiras ecoando no piso. “Tive um sonho muito estranho esta noite”, disse Hanna. Ela estava de barriga para baixo, a cabeça apoiada nos braços, os longos cabelos loiros embaraçados. Tinha uma beleza esbelta que eu gostaria de ter. “Você sempre tem sonhos estranhos”, eu disse. Ela abriu o zíper do saco de dormir e se sentou, puxando os joelhos contra o peito. De seu pulso fino pendia um bracelete de pingentes de ouro e prata. Um dos pingentes era a metade de um coração de latão. A outra metade ficava comigo. “No sonho, eu estava em casa, mas não era minha casa”, ela prosseguiu. “Estava com minha mãe, mas não era minha mãe. Minhas irmãs não eram minhas irmãs.” “Quase nunca me lembro dos meus sonhos”, eu disse, e levantei para soltar os gatos presos na garagem. Naquela manhã, meus pais faziam aquilo que, na minha memória, faziam todas as manhãs: liam o jornal na mesa da cozinha. Ainda consigo vê-los sentados ali: minha mãe de roupão verde, o cabelo úmido, passando rapidamente as páginas, enquanto meu pai, em silêncio, vestido para sair, lia as matérias, que apareciam refletidas em seus óculos, uma a uma, na ordem. Meu pai guardaria o jornal daquele dia durante muito tempo — preservado como uma relíquia, dobrado cuidadosamente ao lado do exemplar do dia em que nasci. Suas páginas, impressas antes da divulgação da notícia, relatavam um aumento nos preços dos imóveis da cidade, a erosão crescente em diversas praias, planos para um novo viaduto. Naquela semana, um surfista local havia sido atacado por um grande tubarão-branco; agentes da patrulha de onteira

tinham descoberto um túnel de quase cinco quilômetros de extensão, dois metros abaixo da terra, cavado para o transporte de drogas entre o México e os Estados Unidos; e o corpo de uma menina, desaparecida havia tempo, fora encontrado enterrado sob um monte de pedras brancas no deserto imenso e vazio a leste. Os horários do nascer e do pôr do sol naquele dia apareciam num quadrinho na última página, previsões que, claro, não se cumpriram. Meia hora antes de saber da notícia, minha mãe saiu para comprar pão. Acho que os gatos sentiram a mudança antes de nós. Eram dois siameses, mas de tipos diferentes. Chloe era dorminhoca, delicada e meiga. Tony era o oposto: uma criatura velha e ansiosa, possivelmente com alguma doença mental, um gato que arrancava o próprio pelo e largava aos montes pela casa, deixando pequenas bolotas à deriva pelo carpete. Naqueles minutos derradeiros, enquanto eu despejava comida nas tigelas deles, as orelhas dos dois começaram a girar incontrolavelmente na direção do jardim. Talvez sentissem, de alguma forma, uma mudança no ar. Eles conheciam o ruído do Volvo da minha mãe estacionando na entrada da garagem, mas fiquei me perguntando, mais tarde, se não perceberam também o giro mais rápido e incomum dos pneus, devido à pressa com que ela estacionou, ou o pânico demonstrado no estalo seco do eio de mão sendo puxado. Em pouco tempo, até mesmo eu já podia detectar a intensidade do estado de espírito dela pelas batidas de seus pés contra o chão da varanda, pelo chacoalhar desordenado das chaves contra a porta — ela tinha escutado aqueles primeiros comunicados, hoje célebres, no rádio do carro quando voltava para casa. “Liguem a televisão agora mesmo”, disse. Ela estava sem fôlego e suada. Largou as chaves na fechadura, onde ficariam o resto do dia. “Algo horrível está acontecendo.”

Estávamos acostumados à retórica da minha mãe. Ela aumentava tudo o que dizia. Empolgava-se. Exagerava. “Algo horrível” podia significar qualquer coisa. Era uma expressão que implicava mil possibilidades, como uma rede extensa, a maioria delas inofensiva: dias de muito calor, engarrafamentos, canos vazando

e filas longas. Até fumaça de cigarro, se chegasse muito perto, podia virar algo realmente horrível. Demoramos a reagir. Meu pai, que usava uma camiseta amarela dos San Diego Padres, permaneceu exatamente onde estava, à mesa, com uma das mãos

na xícara de café e a outra na nuca, terminando de ler um artigo do caderno de negócios. Avancei sobre o pacote de pão para abri-lo, rasgando o papel com os dedos. Até Hanna conhecia minha mãe o suficiente para continuar procurando

o cream cheese na prateleira inferior da geladeira.

“Vocês estão vendo isso?”, perguntou minha mãe. Não estávamos. Ela fora atriz um dia. Os velhos comerciais em que atuara — a maioria de produtos para o cabelo ou para a cozinha — jaziam numa pequena pilha de fitas de vídeo empoeiradas, ao lado da TV. As pessoas viviam me dizendo como ela tinha sido bonita quando jovem, e eu ainda conseguia vislumbrar essa beleza na pele conservada e nas maçãs pronunciadas do rosto, mas ela ganhara peso na meia-idade. Agora era professora no ensino médio, dividindo-se entre uma aula de teatro e quatro de história. Morávamos a cento e cinquenta quilômetros de Hollywood. Ela pisava nos nossos sacos de dormir, a meio metro da televisão. Quando penso nisso agora, imagino-a com uma das mãos em concha cobrindo a boca, do jeito que sempre fazia quando estava preocupada, mas, na hora, só senti vergonha por ela estar com as solas pretas do tênis de corrida em cima do saco de dormir de Hanna, daqueles bonitinhos, de algodão, rosa com bolinhas, feito exclusivamente para os carpetes macios de casas com aquecimento, e não para as dificuldades de um acampamento de verdade. “Vocês me ouviram?”, perguntou minha mãe, voltando-se para olhar para nós. Minha boca estava cheia de pão com cream cheese. Uma casquinha tinha se instalado entre meus dois dentes da ente. “Joel!”, ela gritou para meu pai. “Estou falando sério. É uma barbaridade.” Meu pai levantou os olhos do jornal, mantendo o indicador firme no ponto em que interrompera a leitura. Como poderíamos saber que as maquinações do universo justificariam, finalmente, os arroubos verbais da minha mãe?

3

Como californianos, estávamos acostumados aos movimentos da Terra. Entendíamos que o chão podia se mover e tremer. Mantínhamos pilhas em nossas lanternas e galões d’água em nossos armários. Aceitávamos o fato de que nossas calçadas podiam aparecer rachadas de repente. A água das piscinas às vezes vibrava como numa tigela. Éramos todos treinados a rastejar sob mesas e ficar alerta a vidro estilhaçado. No começo do ano letivo, cada um estocava num saco grande itens não perecíveis para o caso de sermos surpreendidos na escola pelo Grande Abalo. Mas nós, californianos, não estávamos mais preparados para aquela calamidade do que aqueles cujas casas se erguiam sobre solo mais estável. Quando finalmente compreendemos o que estava acontecendo naquela manhã, Hanna e eu corremos para fora a fim de conferir se havia alguma evidência do fenômeno no céu. Mas o céu era apenas o céu — normal, sem nuvens, azul. O sol brilhava inalterado. A brisa de sempre soprava do mar e o ar tinha o aroma costumeiro daquele tempo, de grama cortada, madressilvas e cloro. Os eucaliptos ainda se agitavam ao vento como anêmonas-do-mar e o chá gelado que minha mãe sempre fazia no verão parecia quase pronto. À distância, para além da cerca dos fundos, ecoava o ruído da rodovia. Os cabos de transmissão de energia zuniam. Se lançássemos uma bola de futebol para o alto, talvez nem reparássemos que ela caía mais rápido, que batia com mais força no solo do que antes. Eu tinha onze anos e morava no subúrbio. Minha melhor amiga estava ali, ao meu lado. Eu não conseguia perceber nada fora do lugar ou faltando. Na cozinha, minha mãe já inspecionava o que havia de itens básicos nas prateleiras, abria e fechava armários e conferia o conteúdo das gavetas. “Só quero confirmar se todo o material de emergência está aqui”, ela explicou. “Não sabemos o que pode acontecer.” “Acho melhor eu ir para casa”, disse Hanna, ainda com seu pijama roxo, os braços apoiados na cintura fina. Ela não tinha penteado o cabelo, que demandava cuidados, uma vez que não era cortado desde a segunda série. Por alguma razão, todas as meninas mórmons que eu conhecia tinham cabelo comprido. O de Hanna ia quase até a cintura e afinava nas pontas, parecendo chamas. “Minha mãe deve estar assustada também”, ela disse. A casa de Hanna era lotada de irmãs, mas a minha era de filha única, e os cômodos sempre pareciam muito vazios sem ela. Eu nunca gostava de vê-la ir

embora. Ajudei-a a enrolar o saco de dormir. Ela arrumou a mochila. Se soubesse quanto tempo levaria para que a gente se visse de novo, teria me despedido de uma maneira diferente. Mas apenas acenamos uma para a outra, Hanna e eu, e então meu pai a levou para sua casa, a três quadras dali.

Não havia imagens para mostrar na televisão, nada de prédios em chamas ou pontes caídas, nada de metal retorcido ou terra arrasada, nada de casas se equilibrando na laje. Não havia feridos. Não havia mortos. De início, era uma catástrofe quase invisível. Acho que isso explica por que a primeira coisa que senti não foi medo, mas excitação. Era emocionante — uma faísca repentina em meio ao ordinário, o brilho do inesperado. Mas minha mãe estava apavorada. “Como isso foi acontecer?”, ela repetia. Ela ficava prendendo e soltando o cabelo. Tinha um cabelo escuro, lindo, em parte graças à tintura. “Será que foi um meteoro?”, perguntei. Estávamos estudando o universo nas aulas de ciências, e eu tinha memorizado a ordem dos planetas. Sabia os nomes de todas as coisas que flutuavam no espaço. Cometas, buracos negros e agrupamentos de rochas gigantes. “Ou uma bomba nuclear?” “Não é uma bomba nuclear”, disse meu pai. Dava para ver seus músculos se contraírem na altura da mandíbula enquanto olhava para a televisão. Ele mantinha os braços cruzados e os pés bem separados. Não se sentava. “Até certo ponto, podemos nos adaptar”, um cientista estava dizendo na TV. O cientista tinha um pequeno microfone ajustado ao colarinho, e um repórter tentava arrancar as piores previsões dele. “Mas, se a rotação da Terra continuar a diminuir — e isso é apenas uma especulação —, eu diria que podemos esperar mudanças radicais no clima. Vamos assistir a terremotos e tsunamis. É possível que plantas e animais sejam extintos. A água do oceano pode começar a correr na direção dos polos.” Às nossas costas, as persianas farfalhavam com a brisa e um helicóptero zumbiu ao longe, a vibração de suas hélices reverberando para dentro de casa através da proteção nas janelas. “Mas o que poderia causar algo assim?”, perguntou minha mãe. “Helen”, respondeu meu pai, “sei tanto quanto você.” Todos nos esquecemos do jogo de futebol daquela manhã. Meu uniforme permaneceria dobrado numa gaveta pelo resto do dia. Minhas caneleiras ficaram intocadas no fundo do guarda-roupa. Soube mais tarde que só Michaela apareceu no campo, atrasada como sempre, com uma presilha nas mãos, o cabelo comprido desarrumado, os

cachos ruivos ao vento, entrando em sua boca enquanto subia correndo a colina até o campo, só de meias — para, por fim, constatar que não havia uma única menina aquecendo, uma única camiseta azul ondulando ao vento, uma única trança chicoteando o ar, um único pai, nem o treinador, no gramado. Nada de mães de viseira bebericando chá gelado, ou pais de chinelo andando perto da linha lateral. Tampouco caixas de gelo, cadeiras de praia, laranjas cortadas. O estacionamento de cima, ela deve ter notado então, estava vazio. Só as redes dos gols, vibrando silenciosamente, davam prova de que ali algum dia se praticara futebol. “E você sabe como é minha mãe”, diria Michaela dias depois, no almoço, recostada num muro com displicência, imitando a pose sexy das meninas da sétima série. “Já tinha ido embora quando voltei para o estacionamento.” A mãe de Michaela era a mais jovem de todas. Mesmo a mais descolada das outras mães tinha pelo menos trinta e cinco anos, e a minha já chegara aos quarenta. A de Michaela tinha só vinte e oito, fato que sua filha negava, mas que todos sabíamos ser verdade. Ela estava sempre com um namorado diferente. Pele lisa e corpo firme, seios empinados e coxas esbeltas — somando tudo, havia ali algo de escandaloso que percebíamos apenas vagamente, mas que certamente percebíamos. Michaela era a única criança que eu conhecia que morava em apartamento e não tinha um pai. Sua jovem mãe nem ficou sabendo da novidade. “Você não viu nada na televisão?”, perguntei a Michaela durante a semana. “A gente não tem tevê a cabo, lembra? Nunca ligo a televisão.” “E o rádio do carro?” “Está quebrado”, ela explicou. Mesmo em dias normais, Michaela sempre precisava de carona. No dia do anúncio da desaceleração, quando o resto de nós soube da notícia na própria sala, Michaela, extraviada no campo de futebol, ficou mexendo num antigo telefone público quebrado, havia muito esquecido pelo pessoal da manutenção — quase todo mundo tinha celular mesmo —, até que o treinador apareceu por lá para avisar a quem por acaso fosse que o jogo havia sido cancelado, ou pelo menos adiado, e a levou de volta para casa.

Por volta de meio-dia, as emissoras não tinham mais informações. Fatos novos estavam em falta, e mesmo assim os programas se sucediam, reavivando a mesma notícia. Não importava, estávamos hipnotizados. Passei o dia inteiro sentada no tapete, a poucos metros da televisão, com meus pais. Ainda lembro como me senti naquelas horas estranhas. Era quase uma necessidade física: saber tudo o que fosse possível. De quando em quando, minha mãe fazia a ronda das torneiras da casa, uma por uma, inspecionando a cor e a transparência da água.

“Não vai acontecer nada com a água, querida”, meu pai dizia a ela. “Não é um terremoto.” Ele segurava os óculos nas mãos e limpava as lentes com a camiseta, como se tudo não passasse de um problema de visão. Sem os óculos, os olhos do meu pai pareciam muito pequenos, e ele ficava meio vesgo. “Você está se comportando como se não fosse grande coisa”, respondeu minha mãe. As divergências entre os dois ainda eram pequenas àquela altura. Meu pai segurou os óculos contra a luz e, cuidadosamente, ajustou-os de volta no rosto. “Me diga o que você quer que eu faça, Helen”, ele pediu, “e eu faço.” Meu pai era médico. Para ele havia problemas e soluções, diagnóstico e cura. Para ele, preocupar-se era um desperdício. “As pessoas estão em pânico”, disse minha mãe. “O que vai acontecer com o sistema de água e a rede elétrica? E o abastecimento de alimentos? E se todos abandonarem suas funções?” “Tudo o que podemos fazer é não pensar nisso”, respondeu meu pai. “Ah, é um bom plano”, devolveu minha mãe. “É um plano realmente excelente.” Observei-a correr para a cozinha, os pés descalços estalando contra o piso. Escutei o abrir e fechar do armarinho das bebidas, o tilintar do gelo caindo no copo. “Aposto que tudo vai ficar bem”, eu disse, tomada por uma urgência de dizer algo animador — aquilo saltou da minha garganta como uma tosse. “Aposto que tudo vai dar certo.” Excêntricos e gênios surgiam em programas de entrevistas, brandindo trabalhos acadêmicos que as revistas científicas de renome haviam se recusado a publicar. Esses lobos solitários alegavam ter antecipado o desastre. Minha mãe voltou para o sofá com uma bebida na mão. Na parte inferior da tela da televisão, uma pergunta era alardeada em letras vermelhas. O fim está próximo? “Ah, por favor”, disse meu pai. “Isso é puro sensacionalismo. O que diz a televisão pública?” A questão se dissolveu no ar. Ninguém trocou de canal. Então, olhando para mim, ele disse à minha mãe: “Acho que ela não devia estar vendo isso. Julia, você não quer ir jogar bola?”. “Não, obrigada”, respondi. Não queria perder nem um segundo do noticiário. Eu tinha puxado meu moletom para baixo até os joelhos. Tony estava ao meu lado no tapete, com as patas esticadas e a respiração ofegante. Seu corpo era tão ossudo que dava para ver os nós da espinha dorsal dele. Chloe estava escondida debaixo do sofá. “Vamos”, disse meu pai. “Vamos jogar bola.” Ele foi buscar minha bola de futebol no armário do corredor e a apertou

entre as mãos. “Parece que está um pouco murcha”, disse. Fiquei olhando enquanto ele manuseava uma bomba de ar como se fosse um de seus equipamentos médicos, inserindo a agulha com a precisão e o cuidado de um cirurgião e, em seguida, bombeando metodicamente, como se usasse um respirador, sempre esperando que um sopro inflasse toda a bola antes de forçar o próximo. Meio a contragosto, amarrei as chuteiras e fomos para fora. Ficamos tocando a bola em silêncio por um tempo. Eu ainda podia ouvir os apresentadores de TV tagarelando lá dentro. Suas vozes se misturavam ao som claro das pancadas de nossos pés contra a bola. Os quintais vizinhos estavam desertos. Os balanços estavam imóveis feito ruínas. O trampolim dos gêmeos deixara de ranger. Minha mente vagava. Eu queria voltar para dentro de casa. “Esse foi bom”, disse meu pai. “Um toque preciso.” Mas ele não sabia muito sobre futebol. Chutava com a parte errada do pé. Meu passe seguinte foi forte demais e a bola desapareceu na madressilva em um canto do quintal. Depois disso, paramos de jogar. “Está tudo bem com você, não está?”, ele perguntou. Pássaros grandes começaram a circular no céu. Não pareciam o tipo de ave que voa nos subúrbios. Eram falcões, águias e corvos, cujas asas pesadas tinham mais a ver com as paisagens selvagens que ainda existiam a leste dali. Davam rasantes de árvore em árvore, seus gritos abafando o pio dos passarinhos que costumavam frequentar nosso quintal. Eu sabia que os animais muitas vezes sentem perigos que os humanos não percebem e que tratam de fugir nos minutos ou horas que antecedem um tsunami ou um incêndio de grandes proporções, muito antes das pessoas. Eu tinha ouvido falar que os elefantes são capazes de arrebentar correntes e seguir para terrenos mais altos. Serpentes chegam a percorrer quilômetros. “Você acha que os pássaros sabem?”, perguntei. Podia sentir os músculos do meu pescoço se contraírem enquanto os observava. Meu pai olhou para os pássaros, mas não disse nada. Um falcão pousou na copa do nosso pinheiro, bateu as asas e decolou novamente, seguindo a oeste, rumo ao litoral. Lá de dentro, minha mãe nos chamou pela porta de tela: “Estão dizendo agora que isso pode afetar a gravidade”. “Já vamos, só um minuto”, disse meu pai. Ele apertou firme o meu ombro, depois inclinou a cabeça para o céu como um agricultor que prevê chuva. “Quero que você pense em como os seres humanos são inteligentes”, disse. “Pense em tudo o que já inventamos. Foguetes, computadores, corações artificiais. Nós resolvemos os problemas, entende? Sempre resolvemos os maiores problemas. É o que fazemos.”

Em seguida entramos, passando pelas portas envidraçadas e chegando ao piso de lajotas. Meu pai insistiu que limpássemos os pés no capacho — como se lembrar nossos rituais garantisse uma travessia segura — antes de voltar à sala, onde estava minha mãe. Mas, enquanto andávamos e ele falava, eu sentia que, embora o mundo permanecesse intacto até ali, tudo ao meu redor estava prestes a ruir.

As horas seguintes seriam de preocupação e espera. Faríamos suposições, imaginaríamos e especularíamos. Aprenderíamos novas palavras e novos caminhos com os cientistas e porta-vozes desfilando em nossa sala, na tela da televisão e na internet. Vigiaríamos o sol no céu como nunca antes. Minha mãe bebia uísque com gelo num copo. Meu pai andava de um lado para o outro. Tentei ligar para Hanna, mas ninguém atendeu. O tempo correu diferente naquele sábado. O que se passara de manhã parecia ter ocorrido no dia anterior. No momento em que paramos para observar o sol se pôr atrás das colinas a oeste, tive a impressão de que vários dias haviam se passado naquele único, como se o dia tivesse se prolongado por mais do que uma única hora. No final da tarde, meu pai subiu as escadas até o quarto e, em seguida, reapareceu trocado, de camisa e meias escuras. Balançava um par de sapatos nas mãos. “Você vai a algum lugar?”, perguntou minha mãe. “Entro às seis, lembra?” Meu pai ganhava a vida trazendo bebês ao mundo, era especialista em partos de alto risco. Muitas vezes ficava de plantão, trabalhava no turno da noite do hospital e nos fins de semana. “Não vá”, pediu minha mãe. “Hoje não.” Lembro que tive esperança de que ela o convencesse a ficar, mas ele continuou a amarrar os sapatos. Meu pai gostava que os laços dos cadarços ficassem exatamente do mesmo tamanho. “Eles vão entender se você não aparecer”, ela disse. “Está um caos lá fora, o trânsito, o pânico e tudo mais.” Algumas das pacientes dele passavam meses no hospital só tentando segurar um bebê no ventre até que estivesse forte o bastante para sobreviver ao mundo. “Por favor, Helen”, respondeu meu pai. “Você sabe que não posso ficar.” Ele se levantou e bateu no bolso da frente. Ouvi o tilintar abafado das chaves. “Precisamos de você aqui”, minha mãe disse. Ela encostou a cabeça no peito dele — meu pai era trinta centímetros mais alto do que ela. “Não queremos que você vá, não é, Julia?” Eu também queria que ele ficasse, mas era uma especialista em diplomacia, como só uma filha única consegue ser. “Queria que o papai não precisasse ir”, eu disse, com cuidado. “Mas se ele

tem que ir

Minha mãe desviou a atenção de mim e, então, com uma voz mais suave, disse: “Por favor. A gente nem sabe o que está acontecendo”. “Ora, Helen”, ele respondeu, passando a mão pelo cabelo dela. “Não seja tão dramática. Não vai acontecer nada entre hoje e amanhã de manhã. Aposto que essa coisa toda não vai dar em nada.” “O quê?”, ela retrucou. “Como assim?” Ele a beijou no rosto e, já no hall de entrada, acenou para mim. Então saiu e fechou a porta. Em seguida, ouvimos meu pai dar a partida no carro na garagem. Minha mãe desabou no sofá ao meu lado. “Pelo menos você não vai me abandonar”, disse. “Vamos ter que cuidar uma da outra.” Minha vontade era fugir para a casa de Hanna imediatamente, mas eu sabia que aborreceria minha mãe se saísse. Vozes de crianças entravam na sala, vindas de fora. Dava para ver, através das cortinas, a família Kaplan andando pela calçada. Era sábado, o sabá, o que para eles significava que não podiam dirigir. Ali estavam os seis membros da família: o sr. e a sra. Kaplan, Jacob, Beth, Aaron e o bebê no carrinho. As crianças iam para a aula de religião, no norte da cidade, vestidas basicamente de preto, o que me fazia lembrar de personagens de filmes antigos, numa agitação de saias longas e calças escuras. Beth Kaplan tinha a minha idade, mas eu não a conhecia muito bem. Ela era reservada. Estava usando uma camisa de manga comprida, saia longa preta e reta, com sapatos de couro vermelho envernizado. Pensei que aqueles sapatos eram sua única chance de se mostrar. Enquanto passavam em ente de casa e o filho menor colhia dentes-de-leão do nosso gramado, percebi que talvez ainda não soubessem da desaceleração. Muito depois, Jacob me contou que eu estava certa: até o pôr do sol — quando terminava o sabá e a religião permitia que utilizassem a energia elétrica e assistissem à televisão — os Kaplan não sabiam que algo tinha mudado, que era um mundo diferente daquele em que nasceram. Para quem não tinha escutado a novidade, a paisagem parecia inalterada. Mais tarde isso mudou, claro, mas, naquele primeiro dia, a Terra ainda parecia a mesma.

Morávamos numa rua sem saída, num bairro de casinhas idênticas de estuque com teto e paredes de amianto, construídas na década de 1970 em lotes de pouco mais de mil metros quadrados. Uma oliveira retorcida ornava cada um dos jardins, a não ser por aqueles de onde tinha sido arrancada e substituída por uma árvore mais chamativa. Os jardins da nossa rua eram bem cuidados, mas não de modo obsessivo. Margaridas e dentes-de-leão pipocavam em meio à grama cortada. Arbustos com flores cor-de-rosa pendiam das laterais de quase todas as casas, tremulando ao vento.

Em mapas de satélite da época, a sequência de ruas sem saída parece ordenada e paralela, cada uma terminando num bulbo, como se fossem termômetros. A nossa rua era apenas uma na teia de ruas modestas encravadas no lado menos nobre de uma colina da costa californiana, cuja face mais cara dava para o oceano. As manhãs eram ensolaradas naquele tempo. Nossas cozinhas davam para o leste. O sol entrava pelas janelas enquanto cafeteiras borbulhavam, chuveiros

eram ligados, eu escovava os dentes ou escolhia uma roupa para ir à escola. As tardes eram escas e cheias de sombra porque o sol se punha atrás das casas mais chiques, no topo da colina, uma hora antes de mergulhar no oceano, do outro lado. Naquele dia, esperamos pelo pôr do sol com uma expectativa diferente. “Acho que se mexeu um pouco”, eu disse, apertando os olhos. “Com certeza está baixando.” Ao longo de toda a rua, portas de garagem abriam, acionadas eletronicamente. Carros utilitários surgiam, carregados de crianças, roupas e cães. Alguns vizinhos formavam grupos, em pé e de braços cruzados, nos gramados na ente das casas. Todo mundo observava o céu, como se esperassem um espetáculo pirotécnico começar. “Não olhe diretamente para o sol”, disse minha mãe, sentada perto de mim

na varanda. “Vai estragar os olhos.”

Ela estava abrindo uma embalagem de pilhas que tinha encontrado numa

gaveta. Três lanternas repousavam no chão ao lado, um pequeno arsenal de luz.

O sol permanecia alto no céu, mas minha mãe já estava obcecada com a

possibilidade de uma noite extraordinariamente longa. À distância, no final da rua, vi minha antiga amiga Gabby sentada sozinha no telhado. Eu não a encontrava mais desde que seus pais tinham decidido transferi-la para uma escola particular numa cidade pequena vizinha à nossa. Como de costume, ela estava inteira vestida de preto. O cabelo, tingido de preto, destacava-se contra o céu. “Por que ela pintou o cabelo daquele jeito?”, perguntou minha mãe, reparando em Gabby. “Não sei”, respondi. Daquela distância, os três brincos pendendo de cada uma das orelhas dela não eram visíveis. “Acho que deu vontade.”

Um rádio tagarelava e zunia ao nosso lado. Estávamos ganhando mais minutos a cada hora. Já se discutia sobre o “limiar do trigo” — nunca entendi

se o termo estava enterrado havia décadas nos glossários e manuais ou se fora

inventado naquele dia, uma nova resposta a uma nova questão: quanto tempo

as principais culturas agrícolas sobrevivem sem a luz do sol? Minha mãe ligava e desligava as lanternas, uma por uma, testando os fachos

na mão em concha. Tirou as pilhas velhas de cada uma e as substituiu por novas, como se recarregasse uma coleção de armas.

“Não sei por que seu pai não ligou”, ela disse. Ela tinha levado o telefone sem fio para a varanda, e ali estava ele, silencioso, ao seu lado. Bebericou quieta. Lembro-me dela do jeito que era então, o som do tilintar do gelo, água escorrendo nas laterais do copo, desenhando anéis que se interceptavam no cimento. Nem todo mundo entrou em pânico, claro. Sylvia, minha professora de piano, que morava do outro lado da rua, continuou normalmente a cuidar do seu jardim, como se nada tivesse acontecido. Observei-a ajoelhada na terra, calma, com a tesoura reluzente numa das mãos. Mais tarde, deu uma volta na quadra, caminhando lentamente, os tamancos ecoando na calçada, o cabelo vermelho escapando de uma trança feita depressa. “Oi, Julia”, ela disse, aproximando-se do nosso jardim. Sorriu para minha mãe, mas não a chamou pelo nome. Elas tinham mais ou menos a mesma idade, mas Sylvia, ao contrário da minha mãe, ainda tinha um jeito jovem. “Você não parece muito preocupada”, disse minha mãe. “Que sera sera”, disse Sylvia. As palavras saíram num longo suspiro. “É o que eu sempre digo. O que tiver de ser, será.” Eu gostava dela, mas sabia que minha mãe não. Sylvia era serena, ágil e cheirava a perfume. Seus braços eram esguios como eucaliptos e muitas vezes carregavam joias robustas com turquesas, que ela tirava ao iniciar nossas aulas de piano para poder conversar mais intimamente com o teclado. Sempre tocava descalça. “Ou talvez eu não esteja conseguindo pensar direito”, disse Sylvia. “Estou em pleno período de desintoxicação.” “Desintoxicação?”, perguntei. “Jejum”, ela explicou. Sylvia se inclinou para me explicar, e ouvi minha mãe ligando e desligando as lanternas atrás dela. Acho que minha mãe ficou então constrangida pelo medo que demonstrava. “Nada de comida, nada de álcool, só água. Por três dias. Tenho certeza de que sua mãe já fez isso.” Minha mãe balançou a cabeça. “Eu não”, disse. Lembrei-me do drinque que ela estava bebendo, do copo suado ali na calçada, ao lado dela. Passou um tempo sem que nada mais fosse dito. “Enfim”, disse Sylvia, começando a se afastar. “Não deixe essa situação toda atrapalhar os estudos, Julia. Vejo você na quarta.” Sylvia passaria as tardes seguintes podando rosas com um chapéu para se proteger do sol, arrancando ervas daninhas aqui e ali. “Não é saudável ser assim magra”, disse minha mãe depois que Sylvia retomou sua jardinagem. (Minha mãe mantinha um guarda-roupa cheio de vestidos um tamanho menor que o dela, cobertos por um plástico, esperando pelo dia em que teria perdido os cinco quilos a mais dos quais se queixava

havia anos.) “Dá para ver os ossos dela”, concluiu. E era verdade, dava mesmo. “Olhe”, eu disse. “As lâmpadas da rua acenderam.” Elas funcionavam com um temporizador, tendo sido projetadas para ligar ao entardecer. Mas o sol continuava a brilhar. Imaginei as pessoas do outro lado do mundo, na China e na Índia, àquela hora amontoando-se como nós na escuridão e esperando — mas pela alvorada. Mais minutos se passaram. “Ele pelo menos devia nos avisar que chegou em segurança”, disse minha mãe. Ela telefonou novamente, esperou, pôs o aparelho de volta no chão. Eu tinha ido ao trabalho do meu pai uma vez. Não aconteceu muita coisa enquanto eu estava lá. Mulheres grávidas viam televisão e comiam salgadinhos na cama. Meu pai fazia perguntas e verificava gráficos. Maridos rodeavam por ali. “Eu não pedi para ele ligar?”, ela perguntou. “Ele deve estar ocupado, só isso”, eu disse. Notei a certa distância que Tom e Carlotta, o velho casal que vivia no fim da rua, estavam sentados do lado de fora: ele vestia uma camisa tie-dye e jeans, ela estava de sandálias, com uma longa trança grisalha jogada sobre o ombro. Eles ficavam sempre por ali ao entardecer, com cadeiras de praia na calçada, margaritas e cigarros nas mãos. A porta da garagem estava aberta atrás deles, os trilhos do trenzinho de brinquedo de Tom expostos como vísceras. A maioria das casas da rua já tinha sido reformada àquela altura — ou pelo menos tinha recebido alguma manutenção ou uma camada de verniz, como um dente velho —, mas a casa de Tom e Carlotta permanecia intocada, e eu sabia, das vezes que fora até lá vender biscoitos para o grupo de escoteiras, que o carpete original, cor de vinho, ainda forrava o piso. Tom estava acenando para mim agora, com um drinque na mão. Eu não o conhecia bem, mas ele era sempre amigável. Respondi ao aceno. Era outubro, mas parecia julho: o ar era típico do verão, o céu também, ainda iluminado apesar de serem mais de sete horas. “Espero que os telefones estejam funcionando”, disse minha mãe. “Devem estar, não acha?” Desde aquela noite, adquiri muitos dos hábitos da minha mãe: a agitação persistente da mente em torno de um único assunto, a baixa tolerância à incerteza. Assim como os quadris largos e as maçãs do rosto salientes, essas eram características que se manteriam dormentes em mim por alguns anos ainda. Naquela noite, eu estava sem paciência com ela. “Você tem que ficar calma, mãe”, eu disse. Finalmente, o telefone tocou. Ela atendeu apressada. Vi que se decepcionou com a voz do outro lado da linha. Passou o aparelho para mim. Não era meu pai. Era Hanna. Saí da varanda para o gramado com o telefone no ouvido, os olhos um

pouco fechados por causa do sol. “Na verdade não posso falar”, ela disse. “Só queria dizer que estamos indo embora.” Eu conseguia ouvir as vozes das irmãs dela ecoando ao fundo. Podia imaginá-la de pé, no quarto que dividia com elas, as cortinas com listras amarelas que a mãe havia costurado, os bichos de pelúcia abarrotando a cama, os grampos de cabelo espalhados sobre a cômoda. “Para onde você vai?”, perguntei. “Utah.” Ela parecia assustada. “Quando você volta?” “Não vamos voltar”, Hanna disse. Senti uma onda de pânico. Tínhamos passado tanto tempo juntas naquele ano que os professores às vezes confundiam nossos nomes. Conforme eu soube mais tarde, milhares de mórmons se reuniram em Salt Lake City quando a desaceleração foi anunciada. Hanna tinha me dito, uma vez, que a igreja apontara o exato ponto, em Utah, onde Jesus retornaria à Terra. Eles mantinham um silo de grãos gigante lá, ela explicou, para alimentar os mórmons quando chegasse o fim dos tempos. “Eu não devia dizer essas coisas porque você não é da nossa igreja. Mas é verdade.” Minha família seguia um ramo sem graça do luteranismo — não guardávamos segredos nem tínhamos uma visão clara do fim do mundo. “Você ainda está aí?”, ela perguntou. Era difícil falar. Fiquei ali por um minuto, parada na grama, tentando não chorar. “Você está se mudando pra sempre?”, perguntei, finalmente. Ouvi, ao fundo, a mãe de Hanna chamá-la. “Tenho que ir”, ela disse. “Ligo mais tarde.” E desligou. “O que ela disse?”, gritou minha mãe da varanda. Um nó tinha se formado na minha garganta. “Nada”, respondi. “Nada?”, ela insistiu. Lágrimas escorriam dos meus olhos. Minha mãe não viu. “Queria saber por que papai não ligou”, ela insistiu. “Será que o telefone dele parou de funcionar?” “Pelo amor de Deus, mãe”, eu disse. “Você só está piorando as coisas.” Ela parou de falar e olhou para mim. “Não seja impertinente”, retrucou. “E não fale ‘Deus’ em vão.” Uma leve estática fez crepitar os alto-falantes do rádio, e minha mãe teve que achar a equência de novo. Um especialista de Harvard estava falando: “Se continuar assim”, ele dizia, “pode ser catastrófico para as culturas agrícolas de

todos os tipos, para o suprimento de alimentos no mundo todo”. Ficamos sentadas em silêncio por um momento. Então, vindo de dentro da casa, ouvimos um súbito baque, o estalo de algo mole se chocando contra o vidro. Pulamos as duas. “O que foi isso?”, ela perguntou. O inimaginável tinha sido imaginado, acreditávamos no inacreditável. Eu tinha a impressão de que o perigo estava à espreita em toda parte. Ameaças emergiam a cada ruído. “Não me parece coisa boa”, eu disse. Corremos para dentro. Não tínhamos arrumado nada e a cozinha estava um caos. Meu pão estava meio comido em um prato, exatamente onde eu o havia deixado oito horas antes, o cream cheese agora encrostado nas bordas. Um pote

de iogurte tinha sido virado pelos gatos e lambido até ficar limpo. O leite ficara fora da geladeira. Percebi, então, que Hanna abandonara a camisa de futebol dela numa cadeira.

A origem do som, enfim, era um passarinho, um gaio azul. Tinha se chocado

contra uma janela alta da cozinha e caído no quintal dos fundos, o pescoço

fino aparentemente quebrado, as asas espalhadas de forma assimétrica ao redor do corpo. “Talvez ele só esteja meio atordoado”, disse minha mãe. Ficamos junto ao vidro. “Acho que não”, eu disse.

A desaceleração, logo compreendemos, havia afetado a gravidade. A atração

da Terra ficou um pouco mais forte. Corpos em movimento tinham menos probabilidade de se manter em movimento. Estávamos, tudo e todos, mais suscetíveis à atração do planeta. E talvez tivesse sido essa mudança nas leis da física que fizera aquele pássaro voar direto contra o vidro.

“Talvez a gente devesse recolher o corpo”, eu disse. “Não quero você encostando nesse negócio”, disse minha mãe. “Papai pode resolver isso depois.” E, portanto, deixamos o passarinho exatamente como estava. Trancamos os gatos pelo resto da noite. Também deixamos a cozinha como a havíamos encontrado. Tinha sido reformada recentemente, ainda dava para sentir o cheiro de tinta no ar, mas esse odor químico se misturava com o de leite azedo. Minha mãe preparou outra dose: dois novos cubos de gelo estalaram e se acomodaram sob o uísque que vertia reluzente. Eu nunca tinha visto ela beber tanto num dia só. Ela voltou para a varanda. “Venha para cá”, ela disse. Mas eu estava cansada de ficar com minha mãe. Em vez de segui-la, fui até meu quarto e fiquei estirada na cama por um tempo.

Vinte minutos mais tarde, o sol finalmente desceu atrás da colina, prova de que a Terra continuava a girar, ainda que mais devagar.

De madrugada o vento virou, soprando do deserto, e não do mar, e ficou mais forte. Ouviram-se uivos e guinchos. Lá fora, os eucaliptos resistiam e arfavam, e as estrelas cintilantes indicavam que o céu estava limpo de nuvens — aquele era um vento oco, que não trazia tempestade. A certa altura, ouvi o ranger dos armários na cozinha, o chiado suave das dobradiças. Reconheci o arrastar de chinelos da minha mãe, um asco de comprimidos sendo destampado e, em seguida, um copo se enchendo de água lentamente na pia. Queria que meu pai estivesse em casa. Tentei imaginá-lo no hospital. Talvez ele estivesse trazendo bebês ao mundo naquele momento. Fiquei pensando o que poderia significar nascer justo naquela noite. Em seguida as luzes da rua se apagaram, levando embora o brilho aco que entrava no meu quarto. Normalmente isso indicaria o amanhecer, mas o bairro continuava submerso na escuridão. Era um novo tipo de escuridão para mim, espessa como no campo, desconhecida das cidades e dos subúrbios. Saí do meu quarto e caminhei no escuro até o quarto dos meus pais. Por baixo da porta, podia ver a luz azulada e débil da televisão, que vazava sobre o carpete do corredor. “Você também não consegue dormir?”, perguntou minha mãe quando abri a porta. Ela parecia encurvada e abatida na velha camisola branca. Feixes de rugas finas espalhavam-se por seu rosto a partir dos olhos. Sentei na cama ao lado dela. “Que vento é esse?”, perguntei. Falávamos em voz baixa, como se alguém ainda estivesse dormindo ali ao lado. A televisão estava ligada no mudo. “É só o vento de Santa Ana”, ela disse, acariciando minhas costas com a palma da mão. “É comum nessa época. Todo outono é assim, lembra? Isso, pelo menos, está normal.” “Que horas são?”, perguntei. “Quinze para as oito.” “Já devia ser dia”, eu disse. “E é”, ela disse. Mas o céu permanecia escuro. Nem sinal do amanhecer. Dava para ouvir os gatos na garagem, agitados. Eu os escutava arranhar a porta e podia identificar o lamento persistente e indeciso de Tony. Ele estava quase cego por causa da catarata, mas eu era capaz de afirmar que até ele sabia que algo estava errado. “Papai ligou?”, perguntei. Minha mãe fez que sim. “Ele vai ficar mais um turno, porque algumas

pessoas não apareceram para trabalhar.” Ficamos sentadas por um longo tempo em silêncio, o vento soprando ao redor. A luz da TV tremulava nas paredes brancas. “Quando papai chegar em casa, deixe que ele descanse, está bem?”, minha mãe pediu. “Ele teve uma noite muito difícil.” “O que aconteceu?” Ela mordeu o lábio e manteve os olhos na televisão. “Uma mulher morreu.” “Morreu?” Eu nunca tinha ficado sabendo de uma mulher que morresse aos cuidados do meu pai. Para mim, parecia tão impossível uma mulher morrer no parto quanto de poliomielite ou pela peste negra, parecia algo que tinha sido erradicado por engenhosos monitores e máquinas, poderosos desinfetantes e mãos limpas, medicamentos, curas e a vasta extensão do conhecimento. “Papai acha que isso jamais teria acontecido se estivessem com a equipe completa. Exigiram o máximo deles.” “E o bebê?”, perguntei. “Não sei”, ela disse, com lágrimas nos olhos. Por alguma razão, foi bem ali, e não antes, que realmente comecei a me preocupar. Rolei na cama de casal, e o cheiro do perfume natural do meu pai veio dos lençóis. Queria que ele estivesse em casa. Na televisão, uma repórter falava de algum deserto, o céu tingindo-se de rosa atrás dela. Eles vigiavam o nascer do sol como se fosse uma tempestade — tinha surgido no extremo leste de Nevada, mas ainda não havia sinal dele na Califórnia. Mais tarde, eu pensaria naqueles primeiros dias como o momento em que, como espécie, nos demos conta de que temíamos as coisas erradas: o buraco na camada de ozônio, o derretimento das calotas polares, o vírus do oeste do Nilo, a gripe suína e as abelhas assassinas. Mas acho que aquilo que preocupa mais nunca é o que acontece, no final das contas. As catástrofes reais são sempre diferentes — inimagináveis, desconhecidas, impossíveis de prever.

4

Finalmente, como uma febre, a noite cedeu. Era manhã de domingo, e o céu estava radiante, de um azul suave. Nosso quintal tinha ficado cheio de gravetos dos pinheiros por causa da ventania. Dois vasos com cravos-de-defunto tinham tombado no pátio, derramando terra. O guarda-sol e as cadeiras jaziam espalhados no quintal. Os eucaliptos tinham sido dobrados pelo vento. O gaio azul, morto, permanecia no mesmo lugar. Ao longe, uma nuvem de fumaça subia no horizonte, flutuando depressa para oeste, com o vento. Lembrei-me então que era temporada de incêndios também. O helicóptero de um canal de notícias voava em círculos em torno da fumaça, como uma mosca, e era reconfortante saber que pelo menos uma equipe ainda havia sido designada para cobrir aquele desastre dos mais comuns. Depois do almoço, tentei ligar de novo para Hanna, mas o telefone só tocou e tocou. Eu sabia que, para ela, as coisas eram diferentes: sua vida era animada, com as irmãs, a casa, um labirinto de beliches e pias compartilhadas, a máquina de lavar que não parava nunca, tentando vencer o ritmo com que vestidos se acumulavam a cada noite no cesto de roupa suja. Foram necessários dois carros para levar a família toda embora. Na minha casa, dava para ouvir o ranger do assoalho.

Quando meu pai chegou do hospital, no final da tarde, o vento tinha se acalmado e baixava um nevoeiro vindo da costa, obscurecendo o lento movimento do sol ao cruzar o céu. “Vim com os faróis ligados o caminho todo”, ele disse. “Não dava pra ver um metro à frente nesse nevoeiro.” Ele parecia exausto, mas foi um alívio vê-lo parado ali na cozinha. Comeu metade de um sanduíche de pé. Em seguida, recolheu do balcão os pratos do dia anterior e limpou tudo com uma esponja. Regou as orquídeas da minha mãe e parou na pia, lavando as mãos por um longo tempo. “Você devia dormir um pouco”, disse minha mãe. Ela estava enfiada na mesma malha cinza que usara no dia anterior. “Estou muito ligado ainda”, ele respondeu. “Você devia se deitar, pelo menos.”

Ele olhou pela janela, examinando o quintal dos fundos. Apontou para o pássaro morto. “Quando isso aconteceu?” “Ontem à noite”, eu disse. Ele assentiu e abriu a gaveta onde guardava um estoque de luvas cirúrgicas para os trabalhos domésticos. Saímos para o quintal juntos. “Que pena”, ele disse, agachado perto do passarinho. Um exército de formigas tinha descoberto o corpo e agora marchava de um lado para o outro do quintal, afundando nas penas e emergindo delas com pequenos pedaços do passarinho nas costas. Meu pai sacudiu um saco de lixo no ar até que ele se abrisse. “Vai ver foi porque a gravidade mudou”, eu disse. “Não ouvi nada a respeito”, ele disse. “Esses passarinhos sempre tiveram problemas com as nossas janelas. A visão deles não é muito boa.” Ele puxou as luvas cirúrgicas e colocou uma em cada mão. A borracha soltou um pó, que subiu no ar a partir do punho. Dava para sentir o cheiro de látex de onde eu estava. Com uma das mãos, meu pai envolveu o tórax do pássaro; suas asas ficaram caídas como galhos de árvore quando ele o suspendeu no ar. Dois olhos negros do tamanho de uma pimenta se mantinham imóveis na cabeça dele. Algumas formigas perdidas corriam em círculos frenéticos pelo pulso do meu pai. “Sinto muito pelo que aconteceu no hospital”, eu disse. “Como assim?”, perguntou meu pai. Ele deixou o pássaro escorregar da mão para dentro do saco. Um estalo ecoou no plástico. Ele soprou o pulso para se livrar das formigas. “Uma mulher morreu, não foi?”, eu disse. “Como é?” Ele olhou surpreso para mim. Compreendi que fora um erro mencionar aquilo. Meu pai ficou quieto por um momento. Eu podia sentir meu rosto ficando quente e vermelho. Ele usou dois dedos, como uma pinça, para apanhar a última pena solta no quintal e a colocou dentro do saco. Então coçou a testa com o lado de fora do punho dobrado. “Não, minha querida”, ele disse. “Ninguém morreu.” Era a primeira mentira que eu ouvia meu pai contar — ou a primeira vez que soube que ele estava mentindo. Mas não seria a última. Nem a pior. No lugar do quintal onde antes jazia a ave, centenas de formigas corriam em círculos, procurando por seu banquete perdido. Meu pai fechou o saco de lixo, amarrando-o firmemente na parte de cima. “Você e sua mãe se preocupam demais”, ele disse. “Falei para vocês que nada ia acontecer durante a noite, e olha só: nada aconteceu.” Levamos o saco até a lixeira do outro lado da casa. Enquanto andávamos, a

silhueta escura do pássaro transparecia no plástico branco, o corpo dobrado sobre si mesmo, o saco balançando no ritmo dos passos rápidos do meu pai. Ele puxou uma mangueira até o quintal e jogou água nas formigas e no sangue, mas uma mancha de gordura permaneceria durante semanas na janela, como a marca da derrapagem depois de um acidente de carro. Finalmente, meu pai subiu as escadas para ir dormir, e minha mãe foi com ele. Fiquei sozinha na sala um tempão, vendo televisão, enquanto meus pais murmuravam do outro lado da porta fechada do quarto. Ouvi minha mãe fazer uma pergunta. Meu pai levantou a voz: “Que história é essa agora?”, retrucou. Baixei o volume da televisão e fiz um esforço para ouvir o resto. “Claro que eu estava no trabalho”, ele disse. “Onde mais eu estaria, caramba?”

Estávamos vivendo com uma gravidade diferente, uma mudança sutil demais para ser registrada por nossas mentes, mas nossos corpos já sentiam a mudança. Nas semanas que se seguiram, conforme os dias continuavam a se expandir, os quarterbacks descobriam que a bola de futebol americano não voava mais tão longe quanto antes, rebatedores de repente não acertavam mais nenhum home run. Eu tinha cada vez mais dificuldade de chutar a bola longe. Pilotos teriam que reaprender a voar. Tudo descia mais rápido até o chão. Tenho a impressão, hoje, de que a desaceleração desencadeou outras mudanças também, menos visíveis à primeira vista, embora mais profundas. Trajetórias mais sutis foram perturbadas: os caminhos da amizade, por exemplo, ou as idas e vindas do amor. Mas quem sou eu para dizer se o curso da minha infância já não estava definido muito antes daquele evento? Talvez minha adolescência tenha sido comum, com aborrecimentos bastante normais. Existem, sim, coincidências: o alinhamento de dois ou mais eventos relacionados, aparentemente sem nenhuma conexão causal. O que aconteceu comigo e com a minha família talvez não tenha nada a ver com a desaceleração. É possível, acho. Mas duvido. Duvido muito.

5

Dois dias se passaram. Mais e mais minutos inundavam cada hora. Era segunda-feira. Não havia novidades.

Tive esperança de que as aulas fossem suspensas — todas as crianças tinham. Mas houve apenas uma alteração no horário. O início das aulas foi atrasado em noventa minutos, que era mais ou menos o quanto estávamos atrasados em relação à passagem normal do tempo.

O governo pedia que tocássemos a vida como sempre. Até então, nossos

líderes ainda comandavam os microfones, usando ternos escuros e gravatas vermelhas, broches com a bandeira americana brilhando na lapela azul-

marinho, embora não tenha permanecido assim. Eles falavam principalmente sobre a economia: continuem indo para o trabalho, gastem, mantenham seu dinheiro nos bancos. “Não estão nos contando tudo”, disse Trevor Watkins no ponto de ônibus, naquela manhã de segunda. Mais da metade das crianças que normalmente estariam naquela parada havia ficado em casa ou ido embora da cidade com suas famílias. Eu sentia a falta da Hanna como se um membro meu tivesse sido amputado.

“É

que nem com a Área 51”, disse Trevor, mastigando as alças pretas e gastas

de sua mochila. “Nunca contam a verdade pra gente.” Nossas vidas eram tranquilas naquela época. Éramos meninas de sandálias e vestidos, meninos de bermudas e camisas de surf. Crescíamos no lugar dos sonhos de um aposentado — trezentos e trinta dias de sol por ano — e, por

isso, fazíamos festa sempre que chovia. Assim como o mau tempo, a catástrofe provocava em todos nós uma excitação inquieta e verborrágica.

O eco de um skate se chocando contra o meio-fio partiu do outro lado do

terreno adjacente. Eu sabia quem era sem olhar, mas precisava ver: era Seth Moreno — alto e quieto, sempre sozinho. Ele saltava com cuidado do skate para a terra, o cabelo escuro caindo nos olhos quando se movia. Eu nunca falava muito com Seth Moreno, embora sentasse atrás dele na aula de matemática. Tinha desenvolvido uma estratégia de olhar para Seth sem parecer que estava olhando. “Acredite em mim”, Trevor continuou. Trevor era magro e não tinha amigos. Sua enorme mochila verde era tão pesada que o obrigava a pender para a ente, como um velho, para manter o equilíbrio. “O governo sabe muito mais do que está dizendo.” “Cale a boca”, disse Daryl. Daryl era o menino novo, o menino mau, o

menino que todos os dias saía na quarta aula para ir à enfermaria tomar uma dose de ritalina. Era o menino que todos tentávamos evitar. “Ninguém está escutando você, Trevor.” O ponto de ônibus era o ringue no qual começavam todos os nossos dias letivos, onde insultos eram lançados e segredos, revelados e espalhados. Estávamos no lugar de sempre, no mesmo pedaço de terra ao lado do mesmo terreno cercado, o sol da manhã mais ou menos na mesma inclinação de todos

os dias. Nossos relógios eram inúteis, mas a luminosidade parecia correta.

“Estou falando sério, pessoal”, disse Trevor. “É o fim do mundo”. “Se o ônibus não aparecer nos próximos dois minutos”, disse Daryl, “eu vou embora.” Ele se recostou desleixadamente no alambrado que cercava o terreno vizinho. Anos antes, a casa que ficava sobre esse lote tinha deslizado para o cânion com

um pedaço da encosta de calcário. Ainda dava para enxergar vestígios da casa lá embaixo, estilhaços de madeira presos aos arbustos, cacos de telha espalhados

na terra. Mas não tinha sobrado muita coisa da propriedade. Uma entrada para

carros rachada não levava a lugar nenhum. Mato crescia onde havia sido o gramado. Placas amarelas alertavam para a instabilidade da ribanceira. “O que vai acontecer é o seguinte”, disse Trevor. “Primeiro, as lavouras vão desaparecer. Depois, todos os animais vão morrer. E então, os seres humanos.” Naquele momento, eu me preocupava mais com minhas próprias ansiedades:

sem Hanna, eu me sentia esquisita, sozinha ali naquela calçada. Mesmo num dia normal, o ponto de ônibus era um lugar ruim para quem não tinha amigos. Os encrenqueiros reinavam. Não havia supervisor. Decidi ficar ao lado de Michaela, pois tínhamos sido colegas nos primeiros anos da escola, embora nossos laços já fossem tênues. “Ei, Julia”, ela disse quando me viu. “Você, que é inteligente, acha que esse negócio com a Terra pode estar bagunçando meu cabelo de alguma forma?” Ela

estava refazendo um rabo de cavalo grosso, encaracolado e ruivo. “Ele está bem louco hoje.” Michaela parecia pronta para ir à praia, de minissaia e blusinha. Chinelos com lantejoulas adornavam seus pés. Minha mãe nunca teria me deixado ir de chinelo à escola. “Não sei”, eu disse, infeliz com minha roupa prática: tênis branco de lona com cadarço e calça jeans básica. “Talvez.” Os lábios de Michaela estavam sempre brilhantes, por causa do gloss. Seus quadris estavam sempre balançando. Ela se maquiava para todos os treinos de futebol e falava de uma multidão de meninos — era difícil acompanhar aquele desfile de Jasons, Brians e Brads. Como eu poderia confessar a ela meu próprio

e modesto desejo? Como poderia explicar que havia meses estava na

expectativa de falar com um único menino, que, naquele momento, esperava o ônibus com a gente, do outro lado do terreno cercado, rolando seu skate

lentamente, para lá e para cá? Seth Moreno — como um letreiro piscando na minha cabeça. “Sério”, disse Michaela, segurando a ponta esfarrapada do rabo de cavalo. “Olha só como está crespo.” Toda vez que ela mexia nos cabelos um perfume de xampu de fruta exalava. “Ai”, ela disse, virando para trás como se tivesse sido picada por uma abelha. Era Daryl puxando a alça do sutiã dela. “Pare com isso, Daryl!” Aquele sutiã não tinha muita utilidade. Michaela não tinha peito nenhum, assim como eu. Mas usava a peça de qualquer maneira, um símbolo animador do que estava por vir. Visíveis através do algodão branco da blusinha de alça, aquelas duas conchas vazias sustentavam a possibilidade de seios, na falta da coisa propriamente dita, e acho que só a expectativa, a ideia, o simples sonho de um corpo feminino, era o suficiente para Michaela atrair os meninos. “É sério”, ela disse, quando Daryl atacou novamente. Dava para ouvir o estalo do elástico na pele. “Você está me irritando.” À distância, vi Seth Moreno atirar uma pedra no cânion por cima do alambrado. Tinha a sensação de que ele se preocupava com coisas importantes. Sua tristeza era sempre aparente. Revelava-se na chicotada raivosa do pulso com que jogou a pedra. No movimento cansado da cabeça. No jeito como olhava o céu, mesmo tendo que apertar os olhos por causa da luz. Seth sabia o que era um desastre: sua mãe estava doente, e já fazia algum tempo. Eu o tinha visto com a mãe uma ou duas vezes, na farmácia, ela com um lenço vermelho enrolado em volta da cabeça, já sem cabelo, as pernas magras terminando num par robusto de sapatos ortopédicos. Câncer de mama:

ela tinha fazia anos, desde sempre, parecia, mas eu tinha ouvido dizer que agora, de fato, ela estava para morrer. De repente senti, nas costas, um puxão na camiseta. Virei. Daryl estava atrás de mim. Ria com crueldade. “Que horror!”, ele disse, voltando-se para os outros. “Julia está sem sutiã!” Minhas bochechas ficaram quentes. Hanna saberia o que fazer. De nós duas, era ela a líder, a porta-voz, a chefe. Sabia ser má quando necessário. Talvez porque tivesse irmãs. Ela teria interferido e dito a Daryl exatamente o que devia ser dito. Mas eu estava por minha conta naquele dia, totalmente despreparada. Alguns meses antes, eu tinha ido com minha mãe à seção de lingerie de uma loja de departamentos. A atendente perguntou se gostaríamos de dar uma olhada num sutiã para meninas. Minha mãe olhou para a moça como se ela estivesse falando de sexo. Fitei o chão da loja. “Ah”, disse minha mãe. “Acho que não.” Daryl olhava para mim. Ele tinha a pele muito branca, pálida, e um nariz sardento enorme. Dava para sentir as outras crianças olhando para a minha cara, atraídas pela crueldade como moscas pela carne fresca.

Eu ansiava por ouvir o ronco do ônibus da escola que me salvaria, mas não ouvia nada, só o murmúrio baixo dos insetos entre as flores do cânion e o rolamento monótono do skate de Seth se chocando contra o meio-fio repetidamente. Os fios de luz zumbiam acima das nossas cabeças, como de costume, o fluxo de corrente elétrica inalterado pela desaceleração. Mais tarde, fiquei sabendo que todas as máquinas provavelmente continuariam a funcionar por um tempo ainda que todos os seres humanos desaparecessem. Uma mentira tomou forma na minha boca. Caiu como um dente mole. “Estou usando, sim”, eu disse. Um carro prata virou a esquina, seguiu em frente e foi embora. “Ah, é?”, disse Daryl. “Então mostra.” Todos, menos Seth, olhavam para nós agora. Os meninos mais velhos, da oitava série, haviam interrompido sua competição de empurrões para ver. Até Trevor tinha parado de falar. Diane nos observava também, roçando com dois dedos a cruz de prata que sempre levava pendurada no pescoço gordinho. Os gêmeos Gilbert olhavam com seus olhos silenciosos. Eu sentia a presença de Seth, o único que permaneceu distante. Esperava que ele não tivesse notado o que estava acontecendo. Seth estava de pé sobre o skate agora, virado na outra direção, os rolamentos mastigando a terra, de lá para cá, do outro lado do terreno. “Se você está usando sutiã”, disse Daryl, aproximando-se, “então prove.” Eu brincava com meu colar. Presa numa delicada corrente em volta do meu pescoço, havia uma pequena pepita de ouro, desenterrada sessenta anos antes pelas mãos do meu avô, quando ele trabalhava nas minas do Alasca. Para mim, era a mais preciosa das coisas dele. “Deixe Hanna em paz”, disse Michaela, finalmente, mas sua voz era muito frágil e chegara tarde demais. Meu entendimento da vida, até ali, era de que havia os intimidadores e os intimidados, os caçadores e os caçados, os fortes, os mais fortes e os acos, e eu nunca me encaixara em nenhum dos grupos — era apenas uma entre os demais, uma menina quieta de rosto comum, apenas uma pessoa numa multidão inofensiva e intocada. Mas pareceu, de repente, que esse equilíbrio havia mudado. Um pensamento cruel me passou pela cabeça: aquele não era meu lugar; era o tipo de coisa que deveria acontecer a uma das meninas mais

feias, Diane, Teresa ou Jill. Ou Rachel. Onde estava Rachel? Ela era a mais nerd de todas. Mas sua mãe a havia obrigado a ficar em casa também, preparando-se

e

orando — elas eram testemunhas de Jeová e estavam convencidas de que era

o

fim dos tempos.

Com tantas crianças faltando no ponto de ônibus, as hierarquias estavam mudando. Outro carro virou a esquina. Dessa vez era meu pai, a caminho do trabalho em seu carro verde. Ele acenou ao passar. Eu não queria que me visse naquela

situação, embora ele não pudesse ver na cena comum que presenciava sinais de que havia algum problema. “Ou você mostra”, disse Daryl, “ou eu mesmo faço isso por você.” Conforme apontam abundantemente as pesquisas, as taxas de homicídio e outros crimes violentos tiveram picos nos dias e nas semanas seguintes ao anúncio da desaceleração. Havia alguma coisa no ar. Era como se a desaceleração tivesse abrandado nosso julgamento, relaxando as inibições. Mas sempre achei que o efeito deveria ter sido o contrário. Uma coisa, certamente, é verdade: depois da desaceleração, cada ação requeria força um pouco maior do que o normal. As leis da física haviam mudado. Tomemos, por exemplo, a resistência ligeiramente maior para que uma mão movesse uma faca, para que um dedo puxasse um gatilho. Dali em diante, todos tínhamos um pouco mais de tempo para decidir o que não fazer. E quem sabe quanto demoramos para mudar de ideia? Quem já mediu a velocidade exata do arrependimento? O novo regime de gravidade não foi suficiente para suplantar outras forças, mais poderosas, menos conhecidas — nenhuma lei da física leva em conta o desejo. Ouvi o barulho do ônibus dobrando a esquina na nossa direção, os eios rangendo, o ruído do motor. Foi quando Daryl agarrou minha camiseta e a puxou para cima. Eu tentei me soltar dele virando, mas era tarde demais. Vi Seth, os braços longos balançando a cada passo, caminhando na nossa direção, bem a tempo de ver meu peito nu. Depois disso, lembro-me apenas do branco da camiseta cobrindo meu rosto, de uma lufada de ar úmido no esterno e nas costelas, em toda a superfície plana do meu peito, dos gritinhos excitados das outras crianças. Daryl me segurou naquela posição por alguns segundos enquanto eu me debatia e rodava, nós dois atracados numa dança perversa. Eu podia sentir o ar io na minha pele, a corrente do colar cutucando a parte de trás do meu pescoço. Por fim, Daryl soltou a minha camiseta. “Mentirosa”, ele disse. “Eu sabia que você não estava usando sutiã.” O ônibus parou junto ao meio-fio, à espera. O cheiro leve e doce do diesel encheu o ar. Senti que fraquejava. Pisquei, segurando as lágrimas. “Pelo amor de Deus, Daryl”, disse Seth, dando-lhe uma ombrada. “O que é isso?” Meses depois, a mãe de Michaela, com um mapa astral diante de nós, explicaria para mim que a desaceleração tinha alterado os signos de todos. A sorte havia mudado. Personalidades foram alteradas. Os azarados passaram a ter mais sorte. Os sortudos, menos. Nosso destino, durante tanto tempo escrito nas estrelas, fora reescrito no espaço de um dia. “Não se preocupe”, sussurrou Michaela enquanto subíamos as escadas e entrávamos no ônibus. “Ninguém viu nada.” Mas eu sabia que esse era o tipo de coisa que se diz quando ocorreu o exato oposto: todo mundo tinha visto tudo.

Seth foi o último a subir no ônibus. Deu um sorriso amarelo quando passou por mim, a caminho, como de costume, das fileiras do fundo. O que vi no rosto dele, quando cruzou comigo, dava mais medo do que a expressão de Daryl pouco antes. Nos olhos escuros de Seth e em seus lábios grossos, apertados, vi alguma coisa diferente, algo pior: vi pena. Pensei em fugir correndo do ônibus ali mesmo, mas não dava mais. As portas estavam fechando. “Aposto que já estão tratando de mandar o presidente e os cientistas mais inteligentes para a estação espacial, onde ficarão em segurança”, disse Trevor do banco da ente, como se sua fieira de teorias não tivesse sido interrompida. Ao menos daquela vez fiquei contente que ele estivesse falando. O ônibus se afastou do meio-fio. O motorista, um homem gordo com um cinto preto, grosso, parecia agitado e distraído. Ficava olhando para cima, pelo para-brisa, procurando o sol. Apalpei em busca do meu colar e notei que ele tinha caído. A pequena pepita de ouro do meu avô fora lançada em algum lugar no chão de terra. “Meu colar”, eu disse, virando para Michaela. “Cadê meu colar?” Mas ela não me ouviu. Já estava entretida falando ao telefone. “Estou falando para vocês”, continuou Trevor. “É o fim dos tempos.” Antes daquele dia, isso nunca havia me preocupado muito, mas agora se revelava, como uma iluminação: Hanna era minha única amiga de verdade. Eu precisava dela.

*

Já na escola, fomos instruídos a ignorar o sinal, agora errático, pois o sistema tinha se descolado do tempo real. Sem o sinal a nos guiar, perdemos o rumo e ficamos confusos. Crianças vagavam de um lado para o outro, uma debandada de passarinhos. A multidão estava mais selvagem do que o habitual, mais difícil de arrebanhar. Falávamos alto, ansiosos. Escondi-me pelas beiradas do grupo, enquanto os professores tentavam, em vão, nos enquadrar. Suas vozes acas eram abafadas pelo oceano formado pelas nossas. Eram os últimos anos do ensino fundamental, a idade dos milagres, o período em que as crianças crescem sete centímetros e meio durante o verão, seios desabrocham do nada, vozes desafinam. Nossos primeiros defeitos começavam a surgir, mas eram corrigidos. Vista embaçada podia ser consertada, de forma invisível, com a mágica das lentes de contato. Dentes tortos eram endireitados com aparelhos. Pele manchada podia ser clareada quimicamente. Algumas meninas começavam a ficar bonitas. Alguns meninos estavam ficando altos. Eu sabia que minha aparência ainda era a de uma criança.

Àquela altura, a neblina fora embora, dando lugar a um céu radiante e claro. As bandeiras ao vento chicoteavam o mastro da escola. Um forte rumor já percorria o aglomerado de crianças mais à ente. Por esse mesmo canal, em outras ocasiões, circularam notícias sobre as explorações ilícitas dos dedos de Drew Costello e sobre as acrobacias da língua de Amanda Cohen, sobre o saco de maconha encontrado escondido na mochila de Steven Galleta e, tempos depois, sobre os detalhes da vida dele no acampamento para meninos problemáticos de Mount Cuyamaca. Em meio à falação de sempre, surgia agora um tipo diferente de fofoca, de fonte igualmente duvidosa: em 1562, um cientista chamado Nostradamus havia previsto que o mundo acabaria naquele dia, exatamente. “Não é assustador?”, disse Michaela, dando um cutucão em mim com o ombro. Eu estava ansiosa para escapar. Queria me embrenhar na multidão, mas tinha medo de sair do lado de Michaela. “Acho que ele era algum tipo de vidente ou algo assim”, ela disse. Ainda dava para ver as marcas, na minha camiseta, do que acontecera no ponto de ônibus. “Ei”, ela disse, olhando ao redor. “Cadê a Hanna?” “Em Utah”, eu disse. Mal consegui pronunciar as palavras. “A família inteira foi embora.” Imaginei dezenas de primos dormindo em carros no deserto de Utah, formando um grande círculo em torno de um silo de grãos gigante. “Caramba”, disse Michaela. “Assim, para sempre?” “Acho que sim.” “Que estranho”, ela disse. Então Michaela pediu para copiar minha lição de casa de história. “Achei que não teríamos aula hoje”, disse. “Então nem fiz nada.” Mas eu sabia que Michaela não fazia a lição de casa havia algum tempo naquele ano. Ela andava desenvolvendo outras habilidades. Havia muito o que aprender sobre cuidados com o cabelo e com a pele. E a maneira correta de segurar um cigarro. Uma menina não nascia sabendo como masturbar um menino. Eu emprestava minha lição de casa sempre que ela pedia.

Na aula de ciências, construímos novos relógios de sol para substituir os que tínhamos feito na primeira semana do ano letivo. Sentia-me feliz por estar numa sala de aula cheia de crianças que não tinham presenciado o incidente do ponto de ônibus. “A adaptação é uma necessidade na natureza”, explicava o sr. Jensen, depois de ter nos passado os novos padrões horários. Ele juntava e separava as mãos enquanto falava. “Tudo isso é perfeitamente natural.”

Estávamos nos batendo para colocar palitos em moldes de argila úmida. O

truque era inserir o palito no ângulo preciso. Já estava claro que a maioria dos nossos relógios indicaria horários inúteis e descuidados. “Pensem nos dinossauros”, continuou o professor. “Eles morreram porque não conseguiram se adaptar a um ambiente que havia se alterado.”

O sr. Jensen tinha rabo de cavalo e barba. Usava sempre camisetas tie-dye. Ia

de bicicleta para a escola, e corriam rumores de que preparava suas refeições

nos bicos de Bunsen que havia no fundo da sala de aula e passava as noites num saco de dormir debaixo da mesa. Dava aula todos os dias usando botas de

caminhada. Tinha-se a impressão de que ele era capaz de sobreviver por muitos meses no deserto apenas com uma bússola, um canivete e um cantil. “Mas, claro”, ele acrescentou, juntando as mãos, “somos muito diferentes dos dinossauros.” Era visível que o professor tentava não nos assustar, mas nós, crianças, não sentíamos o medo que deveríamos estar sentindo. Éramos novos demais para ter medo, estávamos imersos demais em nossos próprios mundos em miniatura, convencidos demais de nossa própria permanência. Outros rumores diziam que o sr. Jensen era, na verdade, um milionário, ou que tinha inventado algo importante para a Nasa e agora dava aula de ciências apenas por amor ao ofício. Era meu professor favorito naquele ano, e eu sabia que ele gostava de mim também.

O sr. Jensen montou uma urna de perguntas e respostas naquele dia, para

que depositássemos questões anônimas sobre o que estava acontecendo. “Nenhuma pergunta será considerada boba”, ele disse, enquanto coletava nossas questões numa caixa de lenços de papel adaptada para a função. Era a mesma caixa que havia sido usada no dia em que as meninas foram separadas dos meninos e a enfermeira começou a falar sobre nossos futuros. “Algo muito especial está para acontecer com vocês”, ela disse pausadamente, como uma cartomante. “O nome vem da palavra grega para mês, porque vai acontecer uma vez por mês, como o ciclo lunar.” Somente Tammy Smith e Michelle O’Connor se destacavam no grupo, remexendo-se em suas cadeiras, conscientes, seus corpos já em sincronia com a lua. Agora, o sr. Jensen enfiava a mão na caixa e tirava uma pergunta. Ele desdobrou o pedaço de papel com muito cuidado: “É verdade”, leu, “que um cientista previu que o mundo acabaria hoje?”. “Nostradamus não era exatamente um cientista”, disse o sr. Jensen. Evidentemente ele havia escutado o rumor que circulava pelos corredores. “Vocês todos sabem que ninguém é capaz de prever o futuro. Ninguém pode dizer o que vai acontecer amanhã, muito menos daqui a quinhentos anos.” O sinal da escola soou. Mas continuamos pregados a nossas banquetas no laboratório. Era o toque do almoço, fora de sincronia com o nosso horário. Lá fora, o céu permanecia claro. A luz do sol se derramava janelas adentro, batendo nas fileiras de recipientes e tubos de ensaio limpos, brilhantes como

taças de vinho nas prateleiras.

O sr. Jensen puxou outra questão da caixa: alguém perguntava se a

desaceleração podia ter sido causada pela poluição. A pergunta pareceu deprimi-lo. “Ainda não sabemos por que isso está acontecendo”, respondeu.

Ele tirou os óculos e es egou a testa com as costas da mão. Parou perto do tanque de peixes, vazio desde setembro, quando o sistema de filtragem deixara abruptamente de funcionar. Aconteceu num fim de semana. Na volta, na segunda de manhã, encontramos cinco peixes flutuando como folhas na superfície. Dava para ver o sangue sob as escamas em seus corpinhos. A água, aos nossos olhos, parecia limpa, mas tinha se tornado tóxica para eles.

“A atividade humana tem causado muitos danos a este planeta”, disse o sr.

Jensen, enquanto continuávamos a trabalhar em nossos relógios de sol. “Os

seres humanos são responsáveis pelo aquecimento global e pela redução da

camada de ozônio, além da extinção de milhares de espécies vegetais e animais. Mas é muito cedo para dizer se fomos a causa desta mudança também.” Antes do final da aula, o sr. Jensen atualizou nossa parede do sistema solar, na qual o espaço sideral era reproduzido em cinco metros e meio de papel preto e nove planetas de papel. Havia ainda um Sol e uma Lua de papel- alumínio em nosso mapa. Espalhados nos cantos, pinos das cores do arco-íris representavam todos os planetas a serem descobertos. Era provável que houvesse milhares deles. Milhões, talvez. Até hoje me deixa estarrecida como sabíamos pouco sobre o universo.

Na marcação acima da Terra, o sr. Jensen substituiu 24 horas por 25h37, mas

escreveu o novo número num post-it, de modo que pudéssemos atualizá-lo de novo, se necessário.

As salas de aula ficaram meio vazias o dia todo, ou meio cheias, dependendo

do ponto de vista. Dezenas de cadeiras ficaram vazias, as folhas de chamada, em

grande medida, permaneceram em branco. Era como se algumas crianças tivessem mesmo sido sugadas da terra para os céus, como alguns cristãos esperavam que aconteceria, deixando o resto de nós ali, abandonados; nós, os filhos de cientistas e ateus ou de gente simplesmente menos devota. Nossos professores tentavam evitar que acompanhássemos o noticiário durante as aulas, mas um dos meninos estava com um rádio e todos tinham celular. Os primeiros surtos de mal da gravidade já pipocavam por todo o globo. Centenas de pessoas apresentavam sintomas como tontura, desmaio e fadiga. Na aula de educação física, algumas crianças se livravam da corrida levando a mão à barriga, queixando-se de náuseas e dores misteriosas. “Não tenho culpa”, diziam. “É o mal da gravidade.”

Os professores fingiam não ligar. Mas, na hora do almoço, todos assistiram ao noticiário na sala dos professores. Pudemos ver suas expressões, os olhos cansados, as testas enrugadas, o medo exposto em seus rostos.

Não vi Seth Moreno até a quinta aula. Fazíamos matemática juntos. Seth sentava bem à minha ente, e todos os dias eu ficava ansiosa para estar perto

dele. Conhecia perfeitamente a parte de trás daquela cabeça — o redemoinho no cabelo, a curva da orelha, a linha reta acentuada da mandíbula. Gostava que ele cheirasse a sabonete, mesmo no final da tarde. Nunca conversamos. Eu jamais havia pronunciado o nome dele em voz alta, nem mesmo para Hanna. “Vamos”, ela costumava sussurrar, no escuro da sala de casa, quando nós duas estávamos enfiadas nos sacos de dormir. “Deve ter alguém”, ela dizia. Mas eu sempre sacudia a cabeça, mentindo. “Não”, eu sussurrava em resposta. “Não há ninguém.” Semanas a fio esperei que Seth olhasse para mim, mas não naquele dia. Ele já tinha visto demais no ponto de ônibus.

A sra. Pinksy estava tentando dar uma aula inspirada na desaceleração. Na

lousa, tinha colocado o desafio matemático do dia. A duração de um dia na Terra aumentou noventa minutos em dois dias. Considerando-se uma taxa constante de

acréscimo, em quanto tempo um dia terá a duração de dois dias atuais? E de três dias? E de uma semana? “Temos mesmo que fazer isso?”, perguntou Adam Jacobson, largado na cadeira. Ele sempre fazia a mesma pergunta. “A única coisa que você tem que fazer nesta vida é morrer”, respondeu a sra. Pinsky. Era uma de suas frases favoritas. “Todo o resto é questão de escolha.”

A sra. Pinsky era mórbida e assustadora. Se alguma criança tivesse soluço na

aula, ela mandava ir até sua mesa. No momento em que chegava à ente da sala, a criança não soluçava mais — funcionava tão bem quanto qualquer outro susto. “Não basta chegar à resposta, demonstrem”, ela disse, indo e vindo entre as fileiras. As pregas de seu vestido laranja farfalhavam contra as pernas cromadas das nossas carteiras. “E nada de chute. Façam as contas.” As paredes da sala de matemática eram revestidas com cartazes de incentivo:

NUNCA DIGA NUNCA, ESPERE O INESPERADO, O IMPOSSÍVEL É POSSÍVEL.

A sra. Pinsky chamou alguns de nós para escrever a resposta na lousa. Seth e

eu fomos escolhidos e ficamos lado a lado, transcrevendo o que tínhamos feito em nossos cadernos. Lembro-me da consciência de ter o braço direito dele perto de mim, esticado para escrever as respostas, os números se sucedendo, o giz arranhando a lousa. Eu sentia o desgastado carpete marrom, já enrijecido, sob meus pés. Fazia trinta anos que alunos da sexta série resolviam problemas de pé exatamente naqueles lugares.

Seth bateu dois apagadores. A poeira o fez espirrar. Até o espirro dele era cativante. Tinha mãos maravilhosas. Dava para ver a força dos punhos nas veias e nos tendões que lhe trespassavam as costas das mãos. Sua mãe estava em casa, morrendo. Mas ali estava Seth, mais forte a cada dia. Conferindo a tarefa, notei que a resposta que ele escrevera estava errada e senti uma pontada aguda, um impulso de protegê-lo. Queria consertar a reposta dele, ou dizer algo, mas Seth já largava o giz na borda da lousa e caminhava de volta à sua carteira. Pelas janelas abertas da sala de aula, ouvimos o guincho de um carro de bombeiros correndo para algum lugar. Um momento depois, um segundo carro partiu na mesma direção. Mas esses ruídos eram comuns durante a aula. Havia um posto dos bombeiros do outro lado da rua. Sirenes soavam o dia todo. O barulho me incomodava de início, aquela emergência constante envolvendo desconhecidos, mas eu tinha me acostumado. Todos se acostumavam.

A mudança no ar foi quase imperceptível a princípio: um desbotamento. A

sensação que se tem quando uma nuvem encobre o sol. “Alguma coisa estranha está acontecendo lá fora”, disse Trevor do fundo da sala. Ele estava brincando com um compasso de metal, que largou sobre a carteira com um tilintar. “Alguma coisa muito estranha.” “Se você quer falar, Trevor, levante a mão, por favor”, disse a sra. Pinsky. Ela estava preparando uma transparência para o restante da aula. Uma brisa mais esca tinha começado a soprar. Eu podia ouvir o barulho da caneta da professora no plástico, o zumbido da ventoinha do projetor. Ela preferia a velha tecnologia aos computadores, que todos os outros professores já usavam àquela altura.

“Caramba”, disse Adam Jacobson, cuja carteira ficava mais perto das janelas. “Puta merda.” “Adam, cuidado com a língua”, disse a sra. Pinsky. Dava para ouvir a excitação de vozes vindas das salas vizinhas. “Venham ver”, chamou Adam. “Está ficando escuro.” As janelas ficavam em um dos lados da sala, e todo mundo correu para lá, como objetos deslizando pelo convés de um navio tombando. Eu não conseguia ver muita coisa por sobre as cabeças das crianças mais altas, mas senti a luz mudando. Uma sombra estranha se movia, como uma tempestade chegando, mas não havia tempestade. Não havia nuvens no céu, que estava claro.

O resto aconteceu rapidamente — em trinta segundos.

“Voltem aos seus lugares”, disse a sra. Pinsky. Mas ninguém obedeceu. “Eu disse para voltarem aos seus lugares.”

Então ela mesma saiu para ver o que estava acontecendo. De volta à sala de aula, adotou o procedimento de emergência. “Certo”, ela disse. “Certo. Mantenham a calma. Todos mantenham a calma, só isso.” Ela apanhou o apito e o megafone, as chaves e os walkie-talkies. Eram os materiais usados nas simulações de incêndio, terremoto e atiradores na escola. Todas as cores tinham se reduzido a uns poucos tons escuros de cinza. A sala fora tomada por uma palidez. Era a luz dos instantes finais de um dia, a estreita faixa de tempo logo após o sol se pôr, mas pouco antes de a primeira lâmpada ser acesa. Um pôr do sol repentino — em alta velocidade. Eram 13h23. Crianças começaram a deixar as salas de aula, um fio d’água de início, depois uma enxurrada. Alguém agarrou meu pulso. Levantei a cabeça. Fiquei chocada ao ver que era Seth, seus traços acentuados ainda mais lindos à meia-luz. “Vamos”, ele disse. A palma da mão no meu pulso parecia transmitir eletricidade. Meu estômago estava revirado, mas mesmo assim senti o calor da mão suada dele no meu braço. Saímos juntos. “Voltem aqui”, disse a sra. Pinsky, mas ninguém estava prestando atenção. A professora repetiu a ordem, dessa vez gritando no megafone. Nenhuma criança voltou para o lado dela. Corríamos em todas as direções, a maioria apressando- se para chegar à colina gramada atrás da escola. Passados poucos segundos, estava escuro como se fosse crepúsculo lá fora, e continuava a escurecer. O céu ganhou um tom azul noturno e desagradável. Um brilho alaranjado circundava todo o horizonte. Seth e eu nos atiramos na grama, sentindo que era mais seguro ficar no chão. “Talvez seja o fim”, ele disse. A voz dele parecia estar embargada. Todas as crianças ao redor estavam gritando. Ouvi alguém chorando no escuro. Câmeras de celulares clicavam e piscavam na escuridão. Já dava para ver as estrelas no céu. Na estrada ao lado da escola, dezenas de carros tinham parado. Motoristas postavam-se nas ruas, as portas de seus carros escancaradas feito asas, faróis ligados no escuro. Todos os olhos miravam o céu. Uma brisa noturna e esca começou a soprar sobre o gramado. Ao pé da colina, o sr. Jensen gritava da porta do laboratório de ciências. Acenava com a mão. Eu não conseguia escutá-lo por causa dos gritos do pessoal, mas podia ver que ele estava nervoso. Se até o sr. Jensen estava em pânico, que chance haveria de o resto de nós manter a calma? Seth pegou minha mão, nossos dedos entrelaçados. Eu nunca tinha dado a mão para um menino daquele jeito. Quase não conseguia respirar. Meu celular vibrou no bolso. Tive esperança de que fosse Hanna, mas, quando vi que era minha mãe, ignorei.

“E se a morte for isto?”, sussurrou Seth. Ele soava sério. Não parecia estar

com medo. À medida que corriam os segundos, fomos ficando em silêncio, apaziguados pela escuridão e pelo escor no ar. Percebi que dezenas de cães estavam latindo, uivando em seus quintais. Minutos se passaram. A temperatura continuava a cair. Uma oração vaga saiu da minha boca: por favor, por favor, que a gente fique bem. Naquele dia, não éramos diferentes dos antigos, temerosos do próprio firmamento.

Sabemos agora que a escuridão durou quatro minutos e vinte e sete segundos, mas pareceu se estender por muito mais tempo. O tempo corria diferente naqueles primeiros dias. Não fossem os registros — centenas de pessoas filmaram o evento — eu ainda seria capaz de jurar que pelo menos uma hora se passou até que a primeira centelha de luz reaparecesse no céu. “Olhe”, ouvi Seth dizer. “Olhe lá. Olhe.” Um brilho sangrava e se espalhava exatamente sobre nossas cabeças, um

pedaço de sol que nos era devolvido, como que por milagre. Podíamos ver todo o seu contorno, um círculo fino de luz com uma protuberância ofuscante de um dos lados, como um diamante num anel

Vi o sr. Jensen correndo no meio da multidão. Quando chegou até nós,

finalmente ouvi o que ele estava gritando. “Escutem”, ele dizia. “É só um eclipse. É inofensivo. É apenas a sombra da Lua tapando a luz do Sol.” Conforme descobriríamos nas horas que se seguiram, o sr. Jensen estava certo: um eclipse total do Sol estava previsto para acontecer no meio do Oceano Pacífico. Só seria visível dos conveses de navios que estivessem passando por ali e de um punhado de ilhas pouco povoadas. Mas a desaceleração tinha mudado as coordenadas de todos os eclipses previstos — os cientistas costumavam ter todos os eclipses previstos, o minuto exato em que ocorreriam. Aquele nos pegou de surpresa. Foi visto apenas numa faixa estreita do oeste dos Estados Unidos. Senti um alívio no corpo inteiro. Estávamos bem. E lá estava eu, deitada na colina com Seth Moreno. Seth pareceu decepcionado com a notícia. “Era só isso? Só um eclipse?” Permanecemos juntos na colina, observando o sol ressurgir. Lado a lado, deitados de costas na grama, apertávamos os olhos mirando o céu. Estávamos tão próximos que eu conseguia enxergar os pelos do braço dele. “Você já desejou poder se tornar herói?”, Seth perguntou. “Como assim?”, perguntei.

“Eu queria salvar a vida de alguém, um dia.” Pensei na mãe dele. Meu pai tinha me explicado uma vez como funciona o câncer, tinha falado de como nunca desiste, de como é preciso matar até a última das células cancerígenas. E de como nunca se tem certeza de tê-lo vencido. Ele sempre pode voltar. E, na maioria das vezes, volta. “Talvez eu seja médica.” Era apenas meia verdade. Não sabia, realmente, se era capaz de fazer o que meu pai fazia. Não sabia se tinha estômago para todo aquele sangue e toda aquela tristeza. “Sempre que estou num banco”, disse Seth, “meio que fico esperando que um ladrão chegue correndo com uma arma, eu seja o único a reagir e salve todo mundo.” Por um tempo, vendo de fora, parecia que a mãe de Seth não morreria. Ainda no ano anterior, ela levara brownies para vender e ajudara a juntar dinheiro para o presente de Natal da sra. Sanderson. Estava tão animada que chegava a parecer que o câncer era apenas uma condição com a qual ela tinha de conviver, como estar acima do peso ou ficar grisalha. Mas eu não a via havia algum tempo. O céu voltava a ganhar cor, de maneira lenta, mas sólida, como o rosto de uma pessoa que se recupera de um desmaio. “Vou ser um Ranger quando crescer”, contou Seth. “É a elite mais graduada do Exército.” “Legal.” As pessoas voltavam a seus carros. Buzinas soavam. Cães continuavam a latir. Algumas crianças retornavam à sala de aula. Outras simplesmente se afastavam, para fora da escola e de volta ao mundo, agitadas demais para obedecer a qualquer regra ou rotina. Seth e eu ficamos onde estávamos, na colina. Um silêncio se alongou entre nós, mas era um silêncio agradável. Éramos parecidos, pensei, do tipo quieto e pensativo. Observei-o olhando o céu. Uma nuvem de aparência ágil vinha do oeste, a primeira e única nuvem do dia. Eu queria dizer algo importante e sincero. “Sinto muito mesmo por sua mãe”, eu disse. “O quê?”, ele disse. Seth se virou para mim. Parecia confuso. De repente foi difícil olhar nos olhos dele. Então não olhei. Simplesmente voltei a mirar o céu. “Sinto por ela estar doente”, eu disse. “Deve ser bem difícil.” Seth sentou e bateu as palmas das mãos no jeans. “E o que você sabe sobre isso?”, ele disse. Seth estava de pé agora. O sol aparecia quase inteiro de novo e brilhava muito forte, impedindo-me de olhar para cima — era difícil ver o rosto dele na luz. “Você não sabe nada da minha mãe”, disse Seth. A voz dele falhava. “Não fale

dela. Nunca fale da minha mãe. Nunca mais fale dela.” Cada palavra era uma agulhada. Tentei me desculpar, mas estava atordoada demais. Seth já tinha ido embora, correndo para fora da escola, de volta ao mundo. Eu o vi atravessar a rua, parecia enfurecido, imprudente com o tráfego, esquivando-se enquanto caminhava, escapando para cada vez mais longe de mim. Àquela altura, o céu tinha voltado à aparência daquela hora da tarde, em seu azul mais pronunciadamente azul. Sentada, descobri que era a única ainda na colina. Comecei a caminhar lentamente de volta para a sala de matemática. No caminho, cruzei com Michaela. Ela ia na direção da saída da escola com um grupo de crianças mais velhas que eu não conhecia. “A gente está indo pra praia”, ela disse ao passar por mim. “E a próxima aula?”, perguntei. Lamentei ter dito isso assim que as palavras saíram da minha boca. Michaela riu. “Meu Deus, Julia”, ela disse. “Você já fez alguma coisa errada na vida?”

Naquela tarde, o treino de futebol foi cancelado. Minha mãe me pegou na escola. Estava furiosa. “Por que você não atendeu o telefone?” Embarquei no banco do passageiro e bati a porta, silenciando de vez as vozes desembestadas e estridentes do ponto de ônibus. “Foi só um eclipse”, eu disse. Travei o cinto de segurança e me recostei no banco. Minha mãe manobrou o carro. “Você devia ter atendido”, ela disse. “Devia ter me ligado de volta.” O ar-condicionado do carro estava no máximo. O rádio não parava de dar notícias sobre o eclipse. “Você está me ouvindo?”, ela disse, levantando a voz, enquanto esperávamos numa fila lenta de carros, todos aguardando permissão dos guardinhas para sair do estacionamento da escola. Eu observava um enxame de crianças pela janela. De repente pareciam distantes, lá fora, no pátio. Risquei o vidro do carro com o dedo. Aquelas crianças, compreendi subitamente, não eram minhas amigas. Nenhuma delas. “Hanna se mudou para Utah”, eu disse. Sabia do fato havia dois dias, mas era a primeira vez que o mencionava para minha mãe. Ela se virou para mim. A expressão dela se abrandou. Uma Mercedes vermelha tirou uma fina do nosso carro. “Ela se mudou?” Confirmei com a cabeça. “Ah, Julia”, disse minha mãe. Ela estendeu a mão e apertou meu ombro.

“Sério? Você tem certeza de que ela se mudou de vez?” “Foi o que ela disse.” Seguimos na direção da estrada. Podia sentir minha mãe olhando para mim enquanto dirigia. Ela baixou o volume do rádio. “Sinto muito”, disse. “Eles provavelmente vão voltar.” “Acho que não”, eu disse. “As pessoas estão com medo agora”, ela respondeu. “Não estão pensando direito.” Quando chegamos em casa, descobrimos que as lixeiras de rodinhas que

meu pai tinha levado para fora de manhã continuavam lá, na calçada, acumulando lixo. O lixeiro não tinha aparecido para a coleta, mas as formigas

e as moscas estavam trabalhando. O passarinho continuava ali. Devolvemos as

lixeiras ao pátio lateral de casa e descarregamos as compras do carro. Minha mãe tinha comprado várias caixas de comida enlatada e seis galões de água. Ela suspeitava que logo haveria escassez de produtos — e não era a única.

Naquela noite, meu pai garantiu que havia se dado conta imediatamente de que era só um eclipse e nada mais. “Você está me dizendo que não ficou com medo nem por um segundo?”, perguntou minha mãe. “Na verdade, não”, ele disse, desamarrando os sapatos junto à escada. “Eu sabia o que era.” O noticiário da noite foi monopolizado pela história e mostrou alguns aficionados por eclipses que, antes de a desaceleração começar, tinham viajado para uma remota ilha do Pacífico, um dos poucos pontos em terra firme de onde seria possível visualizá-lo. Essas pessoas haviam levado equipamentos de filmagem caros na bagagem, filtros especiais projetados para capturar imagens do sol diminuindo de tamanho. Mas a parafernália se mostrou inútil. Os filtros especiais eram desnecessários, os óculos de proteção permaneceram nos bolsos

das camisas, jamais utilizados — o eclipse, afinal, ocorreu sobre a costa oeste. Naquela noite, as finais do beisebol seguiram sem interrupção — continuar

o jogo em face da incerteza parecia, para os americanos, a única coisa a fazer.

Mas a partida daquela noite foi horrível. Desafiar a gravidade era mais difícil

do que nunca. Ninguém ainda se habituara às novas leis da física. Sete lançadores foram eliminados. Ninguém conseguia rebater. A cada hora que passava, todo e qualquer pedaço de matéria sobre a Terra se tornava mais suscetível à gravidade. E parecia que o mercado de ações também estava sujeito à mesma força, pois despencava, em baixa recorde. O preço do petróleo, por outro lado, disparava. Na hora em que fui para a cama — fazendo um grande esforço para apagar o dia que tivera na escola da minha mente — já tínhamos ganhado outros trinta

minutos. Todas as emissoras de televisão haviam adotado uma perpétua tarja no pé da tela para informar, em vez de preços de ações, mudanças na duração de um dia na Terra: vinte e seis horas, sete minutos e contando.

6

Os dias foram passando. Mais e mais pessoas abandonavam nosso bairro. Fugiam para o lugar de onde tinham vindo, qualquer que fosse. Estávamos na Califórnia — quase todos eram de outro lugar. Mas minha família ficou. Éramos de lá. Estávamos em casa. No terceiro dia, depois da aula, minha mãe e eu pegamos o carro e fomos à casa do meu avô. “Ele diz que está tudo bem”, explicou minha mãe enquanto dirigia. “Mas quero ter certeza.” Era pai do meu pai, mas minha mãe se preocupava mais que ele. Eu tinha começado a me preocupar com ele também — meu avô vivia sozinho fora da cidade. Paramos num posto de gasolina no caminho e encontramos uma longa fila de carros esperando para abastecer. Dezenas de minivans e utilitários formavam uma fieira que atravessava o pátio do posto e dobrava a esquina. “Jesus”, disse minha mãe. “É uma fila de uma zona de guerra.” Uma mulher com um vestido rosa florido corria entre os carros colocando panfletos nos limpadores de para-brisa enquanto as pessoas dentro dos carros

olhavam para o outro lado. O FIM ESTÁ PRÓXIMO! ARREPENDEI-VOS E SERÃO SALVOS!

Evitei os olhos dela, alucinados e cheios de certeza, quando se aproximou, mas ela procurou os meus, parou junto à janela e gritou através do vidro: “E o Senhor disse: ‘Farei o sol se pôr ao meio-dia e escurecerei a Terra’”. Minha mãe travou as portas. “Isso está na Bíblia?”, perguntei. “Não me lembro”, respondeu minha mãe. Avançamos um pouquinho. Eu tinha contado dezenove carros à nossa ente na fila. “Pra onde vai todo mundo?”, quis saber minha mãe. Coçou a testa e soltou um suspiro. “Existe algum lugar para onde ir?”

Meu avô morava em um conjunto habitacional de luxo. Sua casa velha era uma fortaleza contra o novo. Tomando uma das saídas da estrada, seguimos por um conjunto de ruas recém-asfaltadas, a cada esquina uma faixa de pedestres branca e cintilante. As placas de sinalização eram novas. As lombadas eram novas. Tudo ali era novo. O meio-fio permanecia intocado. Hidrantes brilhavam, livres de ferrugem. Fileiras de mudas cresciam a intervalos

espaçados ao longo das calçadas, que reluziam, literalmente. Todas as casas tinham um gramado farto. Em meio a tudo isso, a propriedade empoeirada do meu avô resistia, invisível, como um pedaço de matéria escura: era possível afirmar sua existência porque ruas a contornavam, mas não dava para vê-la: apenas se deduzia que estava ali. O empreiteiro responsável pela vizinhança circundante plantara pinheiros de troncos largos cercando o lote do meu avô, de modo que os vizinhos pudessem ser poupados de olhar para a propriedade. Entramos pelo portão de madeira aberto, a partir do qual o asfalto liso se transformava em cascalho grosso sob nossos pneus e os espaços verdes cuidadosamente planejados do condomínio davam lugar à paisagem natural da região: desordenada e seca, árida, marrom, sem graça. Meu pai tinha crescido naquela propriedade numa época em que ali havia galinhas e cavalos. Mas o último cavalo tinha morrido muito tempo antes, e o estábulo restava como uma relíquia de um tempo antigo. As estacas da cerca branca, atravessadas por tábuas, empalideciam ao sol. O galinheiro estava vazio. Meu avô tinha oitenta e seis anos. Todos os velhos amigos dele estavam mortos. A mulher dele estava morta. Ele se ressentia da própria longevidade. “Torça pra não herdar meus genes, Julia”, ele me disse muitas vezes. “Uma vida longa é uma maldição.” Eu gostava de como ele sempre dizia exatamente o que pensava. Anos antes, empreiteiros tinham tentado comprar a propriedade do meu avô. Mas ele se recusou a vender. “Danem-se”, disse. “Tenho coisas enterradas aqui.” Eu sabia, com certeza, que pelo menos dois gatos haviam sido enterrados atrás da pilha de lenha e suspeitava que ao longo dos anos ele enfiara debaixo daquela terra objetos de valor. Os empreiteiros seguiram adiante com seus planos, abrindo ruas e colocando fundações em torno, erguendo casas e placas de trânsito por todos os lados. O novo bairro foi erigido ao redor da terra do meu avô, como uma inundação cercando um terreno alto. Minha mãe e eu entramos na cozinha sem bater. Quando alguém se movia dentro daquela casa, as prateleiras sacudiam de leve, bugigangas oscilando sobre cada superfície. Meu avô vestia um moletom vermelho e estava sentado à mesa, com o jornal e uma lupa à sua frente. “Oi, Gene”, disse minha mãe. “Como você está?” “Eu disse no telefone que estou bem”, ele respondeu, sem levantar a cabeça. “Chip esteve aqui.” Chip era um vizinho, um adolescente que ajudava a manter a casa funcionando. Usava camiseta e jeans pretos todos os dias e tinha um piercing que fazia seu lábio inferior pender ligeiramente. Os dois formavam uma dupla improvável, mas acho que Chip odiava o condomínio tanto quanto meu avô, embora morasse com os pais numa das casas novas. “É tudo uma bobagem, de qualquer maneira”, disse meu avô.

“O que é uma bobagem?”, perguntou minha mãe. “Acho que é um truque para desviar nossa atenção do Oriente Médio.” Ele tinha os olhos azuis mais claros que já vi, como os do meu pai, mas ainda mais claros. Pareciam estar desbotando à medida que ele envelhecia, como um tecido que é deixado muito tempo ao sol. Uns poucos tufos de cabelo branco caíam aqui e ali sobre sua testa. “Ora, Gene. Como é que alguém poderia ter armado tudo isso?” “Só estou dizendo: como você sabe que é verdade? Você já mediu? Conseguem fazer qualquer coisa hoje em dia.” ”

“Você vai ver. Tem alguma coisa aí. É tudo o que sei. Estão bagunçando os relógios ou algo assim. Só estou dizendo que não acredito nesse negócio. Nem por um segundo.” O celular da minha mãe vibrou e, pela voz dela, eu sabia que era meu pai do outro lado da linha. Ela saiu para falar com ele. Sentei à mesa — era a mesma em que meu avô e eu costumávamos ficar jogando cartas por horas, mas a vista dele piorou tanto que ele nem conseguia mais ver quais cartas tinha na mão. Eu tinha saudades daquele tempo. “Então, Julia”, disse meu avô. “Quer levar alguma coisa daqui?” Ele apontou as prateleiras com vidros antigos, as fileiras de garrafas estropiadas de coca com cem anos de idade, o jogo de chá de prata, as coleções de dedais decorativos e minúsculas colheres prateadas da minha avó, e as figuras de estanho e porcelana que ela havia combinado com toalhinhas de renda em outros tempos, tempos melhores. “Não tenho como carregar nada disso comigo, sabe”, ele continuou. “Você devia pegar o que quiser agora, porque, quando eu morrer, Ruth vai levar tudo.” Ruth era a irmã mais nova da minha avó. Ela vivia na Costa Leste. “Não, obrigada, vovô”, eu disse. Só esperava que ele não percebesse que eu não estava usando meu colar com a pepita de ouro, agora perdido. “O senhor deve ficar com o que é seu.” Antes de so er de artrite, ele costumava passar as manhãs na praia com um

detector de metais, que passava sobre a areia, caçando moedas e tesouros nas dunas. Mas, agora, estava ansioso para se livrar de suas coisas, como se o peso daquelas posses o mantivesse preso a este mundo e ao entregá-las ele pudesse cortar as amarras. Ele se levantou da cadeira e se arrastou até o balcão em busca de outra xícara de café. Parou na janela por um momento. Minha mãe andava de um lado para

“Gene

o

outro lá fora, fazendo movimentos com as mãos enquanto falava ao telefone.

O

vento soprava seu cabelo todo para um lado, e ela o tirava do rosto. “Já contei que uma vez vi um cara ser morto aí fora, no quintal?” “Acho que não.”

“Ele não tinha mais do que dezessete anos”, ele disse, balançando a cabeça. “Um cavalo passou por cima dele.” “Que horrível”, eu disse. “Com certeza foi.” Meu avô fez um ligeiro movimento de cabeça, como que para sublinhar o pensamento. Ele mantinha uma vasta memória de coisas terríveis. Dava para ouvir uma torneira pingando em algum lugar mais para os fundos da casa. “Essa coisa toda me faz lembrar de quando trabalhei no Alasca”, ele disse. O Alasca era um de seus temas favoritos. “Fazia sol o dia inteiro e a noite inteira no verão. Mesmo às duas da manhã. O sol nunca se punha. Semanas a fio. E depois, no inverno, ficava escuro o dia inteiro, todos os dias, durante dois ou três meses.” Meu avô parou de falar. Notei uma antena de televisão por satélite balançando num telhado próximo, escondida atrás dos pinheiros. Dava para sentir um leve cheiro de fumaça no ar. “Essa coisa toda é uma bobagem, acredite em mim”, ele disse. “Só não consigo descobrir como estão fazendo.” “O senhor acha mesmo?” Ele me olhou fixo, sério. “Você sabia que, em 1958, o governo dos Estados Unidos iniciou os testes de um programa nuclear secreto bem aqui, neste condado? Estavam testando os efeitos de substâncias nucleares em pessoas normais”, ele contou. “Colocavam urânio na água e depois monitoravam as taxas de câncer. Você sabia disso?” Neguei com a cabeça. Em algum lugar sob aquele quintal, um abrigo contra bombas jazia abandonado. Meu avô o havia construído nos anos 1960. “Claro que você não sabe”, ele disse. “Eles gostam que seja assim. É exatamente isso que eles querem.” Uma rajada de vento zuniu nos fundos da casa, carregando um saco de papel que passou pela janela. “Sua mãe e seu pai têm levado você à igreja?”, ele perguntou. “A gente vai às vezes”, eu disse. “Tem que ir toda semana.” Ele apanhou um par de botas minúsculo, envolto numa embalagem prateada manchada. “Quer isto aqui?” “Não, tudo bem”, respondi. “Estes sapatos são meus, de quando tinha quatro anos de idade. Você não quer nada daqui?” Eu podia ouvir seus pulmões trabalhando enquanto ele respirava, o som do ar que passava assobiando por vias estreitas. “Espere um minuto. Sei de uma coisa que você vai gostar.” Ele apontou para um armário baixo do outro lado da cozinha e me mandou ajoelhar no chão. “Agora ponha a mão lá no fundo”, disse meu avô, guiando-me. “Achou?” “O quê?”

Eu estava enfiada até o ombro no armário. O linóleo do chão, com seus desenhos em relevo, pressionava minhas rótulas. Não queria mais procurar, mas também não queria decepcioná-lo. “É um fundo falso, viu?”, ele explicou. “Abra para a direita.” Na casa do meu avô, uma caixa de cereal nunca tinha cereal dentro; latas de

sopa quase sempre continham uma substância mais preciosa do que sopa. Não era de admirar que ele acreditasse tão ardentemente em forças ocultas. Atrás do fundo falso do armário havia uma fileira de latas de café, tão velhas que não reconheci as marcas. “Me passa aquela lata de Folgers”, ele pediu. Trêmulo, meu avô forçou a tampa. Ele parecia mais fraco do que o normal. “Eu faço isso.”

A tampa saiu facilmente nas minhas mãos, mas, por causa dele, tentei fazer

parecer uma tarefa mais difícil do que era. A lata estava recheada de camadas de jornal amassado. No fundo, havia uma caixinha de prata dentro da qual repousava numa cama de veludo um relógio de bolso de ouro fosco, sua corrente serpenteando por trás do mostrador fechado. “Era do meu pai”, contou meu avô. “Você dá corda e ele diz a hora. Vai durar para sempre. Essas engenhocas são de boa qualidade. Era como se costumava fazer as coisas, sabe, com boa qualidade. Aposto que você nunca viu nada tão bem-feito.” Eu não queria o relógio. Acabaria na pilha de outros objetos que meu avô tinha me dado, todos antigos e obscuros: moedas comemorativas de um dólar que não chegaram a circular embaladas em plástico, quatro pares de velhos brincos de pressão da minha avó, mapas emoldurados da nossa cidade de cem anos atrás. Mas ele insistiu, e eu não podia confessar que perdera a única herança dele que amava de verdade: havia procurado na terra, perto do ponto de ônibus, o colar com a pepita de ouro, mas não consegui descobrir onde tinha ido parar. “Obrigada”, eu disse, segurando o relógio. “É lindo.” “Vai ficar ainda mais lindo depois que for polido”, ele disse, e es egou a tampa do mostrador com a manga do moletom. “Cuide bem dele, Julia.”

A porta de tela bateu e minha mãe entrou na cozinha. Ela reparou no relógio

de bolso na minha mão. “Ah, Gene, não fique dando todas as suas coisas.” “Deixe que ela fique com ele”, respondeu meu avô. “Não tenho como levar comigo.” “Você não vai a lugar nenhum”, minha mãe retrucou. Ele a ignorou com um aceno de mão. “E leve isso também”, sussurrou meu avô quando estávamos de saída, passando uma nota de dez dólares para mim. Um sorriso ligeiro cruzou seu rosto, uma imagem rara e preciosa. Pude ver o contorno dos dentes falsos contra a gengiva.

“Divirta-se com isto”, ele disse.

Apertei a mão dele e confirmei com a cabeça.

“E Julia

Não acredite em tudo o que ouve, está bem? Você é uma menina

inteligente. Sabe ler nas entrelinhas.”

Na volta para casa, pegamos o que costumávamos chamar de rota panorâmica: estradas secundárias com menos tráfego. Ouvíamos o noticiário no rádio. Repórteres de todo o mundo descreviam as reações locais. Vinha da América do Sul a maior parte dos relatos sobre o mal da gravidade. O Centro de Controle de Doenças estava investigando. “Jesus”, disse minha mãe. “Me avise se você começar a sentir qualquer coisa.” “Essa doença parece estar afetando algumas pessoas mais do que outras”, disse um funcionário do governo. Comecei a me sentir tonta enquanto ouvia. “O nome dela é paranoia.” De acordo com o rádio, grupos de cristãos renascidos faziam os preparativos finais, esperando, a qualquer momento, o chamado, deixando para trás casas vazias e pilhas de roupas amarrotadas onde antes estavam seus corpos. “Não entendo”, eu disse. “Por que não levam as roupas?” “Não sei, querida”, disse minha mãe. “Você sabe que não acreditamos nessas coisas.” Éramos um tipo diferente de cristão, aquela espécie tranquila e razoável, que se envergonha à menção de milagres. Agora entrevistavam um evangélico da TV. “Os sinais da revelação estão aí há anos”, ele dizia. “Sabíamos que aconteceria, desde a restauração de Israel.” Numa curva da estrada, pude ver um pedaço do oceano brilhando entre duas montanhas à ente. Todas as casas à beira-mar tinham sido evacuadas àquela altura — ninguém sabia o que poderia acontecer com as marés. Lá fora, conjuntos habitacionais passavam pela janela, um após outro, as casas e os terrenos diminuindo de tamanho à medida que nos aproximávamos da costa. A terra era tão valiosa perto do mar que algumas casas ficavam dependuradas ao longo das encostas dos cânions, apoiadas, de um dos lados, sobre pilares gigantes. Chegamos a uma placa de “pare” e, enquanto minha mãe girava a cabeça à direita e à esquerda, verificando se o cruzamento estava livre, observei a estreita trilha grisalha que aparecia, às vezes, no cabelo dela, a raiz surgindo sob a tinta escura. Ela começou a ficar grisalha com trinta e cinco anos, e nunca me agradou olhar para aqueles primeiros sinais de seu declínio físico. Senti, naquele mesmo momento, uma onda de solidão. Ocorreu-me, talvez pela primeira vez, com o solavanco do carro que seguia em ente, que, se alguma coisa acontecesse à minha família, eu estaria sozinha no mundo.

Passávamos agora pelo local da feira do condado. A inauguração estava programada para dali a uma semana. Hanna e eu tínhamos planejando ir à abertura, mas isso não seria mais possível. Normalmente, o pessoal da construção trabalhava sem cessar, todos os dias, para instalar e fazer funcionar os brinquedos do parque de diversões. Mas, quando passamos, vi que o trabalho estava parado. Imaginei que os operários e os funcionários do parque teriam ido embora para suas cidades também — todos queriam estar perto de suas famílias. Agora, ali estavam as montanhas- russas, montadas pela metade, esqueletos coloridos ao vento. A montanha- russa aquática, incompleta, sugeria um salto suicida. A roda-gigante tinha sido apenas parcialmente erguida: uma única cesta vermelha pendia de uma haste também solitária, como a última uta do verão, ou a derradeira folha do outono.

7

Durante algum tempo, os dias ainda pareciam dias. O sol nascia e se punha. A escuridão era seguida de luz. Lembro-me da onda esca da manhã, do fogo lento da tarde, da lassidão do crepúsculo. Um manso crepúsculo que se estendia por horas até desaparecer, finalmente, na noite. O tempo, cada vez mais lento, passava preguiçosamente. A cada nova manhã ficávamos menos sincronizados com os relógios. A Terra continuava a girar e os relógios continuavam a andar, mas em tempos diferentes. No espaço de uma semana, meia-noite já não caía necessariamente em uma hora de escuridão. Os relógios talvez mostrassem nove horas da noite no meio do dia. Meio-dia, por vezes, coincidia com o pôr do sol. Foram dias caóticos, transitórios. Toda manhã as autoridades anunciavam os minutos acrescentados durante a noite, como pingos de chuva recolhidos em panelas. Os números variavam muito, nunca sabíamos o que esperar. O horário de início das aulas era decidido ao nascer do sol, a cada dia — era sempre um horário diferente, e me lembro de assistir ao canal de notícias locais com minha mãe, pela manhã, para ouvir o que haviam decidido para aquele dia. Mais e mais crianças pararam de ir à escola. Horas extras se infiltravam entre os turnos de trabalho dos empregados. Aviões pararam de decolar por dias a fio e os trens ficaram estacionados nos trilhos até que novas escalas de horário pudessem ser boladas e postas em prática. Cronogramas tinham de ser jogados fora e reinventados todos os dias. Improvisávamos. Adaptávamos. Fazíamos dar certo. Aos poucos, minha mãe encheu nossos armários de suprimentos de emergência. Acumulou-os gradualmente, uma maré crescente de leite condensado e ervilhas em lata, utas secas e conservas, quatro dúzias de sopas enlatadas. Ela nunca mais voltou para casa sem um pacote de pilhas debaixo do braço, uma caixa de velas, mais comida desidratada embalada em plástico ou alumínio — não perecível, infindável, sem prazo de validade. Enquanto isso, meu time de futebol, na maior parte do tempo, treinava como de costume, e os alunos de teatro da minha mãe continuaram a ensaiar sua produção de Macbeth. Em todo o país, coisas assim eram, em sua maioria, realizadas como o planejado. O show precisava continuar. Nós nos agarrávamos a qualquer coisa previamente agendada. Cancelar pareceria imoral, significaria que tínhamos desistido ou perdido a esperança. Mais minutos surgiam por toda parte. Tornara-se mais difícil matar tempo

naqueles dias. O ritmo de vida parecia lento. Há quem diga que a desaceleração nos afetou de mil outras maneiras desconhecidas, da vida útil das lâmpadas aos pontos de derretimento do gelo e de ebulição da água e à taxa de reprodução e morte das células humanas. Há quem diga que nossos corpos envelheceram menos rapidamente nos dias que se seguiram, imediatamente, à desaceleração, que os moribundos tiveram mortes mais lentas, que os bebês demoraram mais a nascer. Há, sim, alguma evidência de que os ciclos menstruais se alongaram muito ligeiramente naquelas duas primeiras semanas. Mas tais efeitos eram, sobretudo, material para histórias, não para a ciência. Na verdade, segundo os físicos seria o oposto:

é o homem dentro do trem em alta velocidade que sente o tempo mais lento, e não o contrário. Até onde eu pude constatar, a grama continuava a crescer normalmente, o pão embolorava no mesmo prazo e as maçãs na árvore do sr. Valencia, nosso vizinho, amadureciam como em qualquer outono, depois caíam ao chão, apodrecendo entre as ervas daninhas numa velocidade que parecia normal. E, nesse tempo todo, os relógios continuaram a andar. Relógios de pulso seguiram com seus toques aquinhos. Os relógios antigos do meu avô badalavam suas velhas badaladas. Em todas as cidades dos Estados Unidos, os sinos de igreja soavam de hora em hora. Uma semana se passou, depois foram duas. Toda vez que o telefone tocava em casa, eu esperava que fosse Hanna. Ela ainda não tinha ligado. O fluxo de novos minutos continuava. A extensão de nossos dias logo se aproximava das trinta horas. Que exóticos passaram a nos parecer os velhos relógios de vinte e quatro horas, com suas duas séries idênticas de doze, elegantes como uma casca de noz. Então nos perguntávamos: o que nos levou a acreditar em coisas tão simplórias?

8

Na segunda semana após o anúncio da desaceleração, alguma coisa começou a acontecer com os pássaros. Encontrávamos pombos se debatendo nas calçadas, arrastando as asas, as penas raspando o pavimento enquanto andavam. Pardais caíam nos gramados. Bandos de gansos eram vistos caminhando grandes distâncias. Cadáveres de gaivotas rolavam na água rasa nas praias. Aves eram encontradas mortas em nossas ruas e sobre nossos telhados, em nossas quadras de tênis e em nossos campos de futebol. A fauna aérea despencava por terra. Isso acontecia no mundo todo. Sempre que encontrássemos um desses pássaros mortos, devíamos, supostamente, chamar o controle de animais, mas meu pai se recusava a fazê- lo. Eram muitos, ele disse, de modo que simplesmente os jogávamos fora, como havíamos feito com aquele primeiro passarinho morto que apareceu em nosso quintal. Lembro-me daqueles pássaros tão bem como de qualquer outra coisa daquele tempo: as penas apodrecendo e os olhos de uva passa, os fluidos que manchavam nossas ruas.

Sylvia, minha professora de piano, tinha pintassilgos de estimação. Eram pequenos, gordos e viviam numa gaiola de metal em forma de sino, que ficava em um canto da sala da casa dela. Ali eu passava meia hora nas quartas-feiras à tarde, aprendendo — não conseguindo aprender, eu diria — a tocar piano. E ali, poucos minutos depois de mim, Seth Moreno ia se sentar, na aula imediatamente depois da minha, seus dedos roçando as mesmas teclas que os meus haviam roçado, seus pés pressionando os mesmo pedais que os meus, tão pouco tempo antes, haviam pressionado. Muitas vezes eu passava a aula toda pensando nele. Mas, naquele dia, os pintassilgos é que estavam tirando minha concentração: eu procurava sinais do mal da gravidade em cada som que eles emitiam. “Você não tem praticado, não é?”, perguntou Sylvia. Eu tinha feito uma tentativa lenta e hesitante de Für Elise. Sylvia sentou ao meu lado no banco preto reluzente, os pés magros e descalços pousados perto dos pedais de metal. Ela usava um vestido branco de linho e um colar de grandes contas de madeira em volta do pescoço. Aquele visual me agradava. Sylvia também era professora de ioga.

“Um pouco”, eu disse. Era sempre assim que minhas aulas começavam. Se eu soubesse que aquela era uma das últimas vezes que sentaria naquele banco, talvez tivesse me esforçado um pouquinho mais. “Como é que você vai melhorar se nunca pratica?” Um dos pintassilgos de Sylvia gritou de dentro da gaiola. Eles não cantavam exatamente, quase guinchavam, cada trinado parecendo o barulho repentino de uma dobradiça enferrujada. As autoridades relutaram, a princípio, em atribuir as mortes das aves à desaceleração. Não havia evidências, disseram, de que os dois fenômenos estivessem ligados. Especialistas apontaram para causas mais comuns, como doenças: a gripe aviária, uma pandemia mundial. Mas todos os testes deram negativo. A população, é claro, não precisava de mais provas. Não acreditávamos em falsas correlações. Rejeitávamos o acaso. Sabíamos que os pássaros estavam morrendo por causa da desaceleração, mas, a exemplo do fenômeno em si, ninguém conseguia explicar por quê. “Você deveria estar praticando mais do que nunca”, disse Sylvia, pressionando de leve a palma da mão na parte baixa das minhas costas, para endireitá-la. Minha postura sempre arriava à medida que a aula avançava. “A arte prospera em tempos de incerteza.” As aulas de piano tinham sido ideia da minha mãe. Eu não gostava muito de piano, mas gostava de Sylvia e da casa dela, que era igual à nossa no projeto, mas, por dentro, irreconhecível para mim. O piso de madeira se espalhava por todos os cômodos, em vez de carpete. Plantas ondosas floresciam por todo canto. Sylvia não acreditava em produtos químicos ou ar-condicionado. Sua casa tinha cheiro de chá, alpiste e incenso. “Vou tocar uma vez”, ela disse. “E quero que você feche os olhos enquanto toco e memorize como a música deve soar.” Ela ajustou o metrônomo para determinado andamento, acionando uma cadência suave de tique-taques. Nunca fui capaz de alinhavar corretamente minhas notas àquela batida limpa e firme. Sylvia começou a tocar. Tentei ouvir, mas não conseguia me concentrar. Estava preocupada com os pintassilgos. Eles pareciam mais quietos do que o normal, e um pouco menos gordos. Tinham sido batizados com termos musicais, e o que se chamava Forte parecia oscilar no poleiro, os pés alaranjados e rústicos instáveis e incertos. O menor, Adágio, se movia lentamente pelo jornal que forrava o chão da gaiola. Os arautos do fim do mundo interpretavam a morte dos pássaros como mais um sinal de desgraça. Naquela manhã, eu assistira a um corpulento evangélico debatendo o assunto em um programa de entrevistas. Para ele, aquela peste era um aviso de Deus, e era apenas uma questão de tempo para que a doença se

espalhasse entre os seres humanos. “Você está de olhos abertos”, disse Sylvia. Ela sempre ficava genuinamente surpresa quando eu não cumpria o combinado. Era parte do seu charme. “Desculpe.” Ela me pegou olhando para a gaiola. “Não se preocupe”, disse. “As aves domésticas não foram afetadas, só as selvagens.” Na época, isso era verdade, mas os criadores de aves do país tinham sido alertados para observar quaisquer sintomas estranhos em suas granjas. Especialistas discordavam sobre o que estava causando a síndrome. Alguns culpavam a ligeira alteração na gravidade. Talvez tivesse interferido no equilíbrio dos pássaros e, assim, prejudicado o voo e a navegação. Ou então o problema era com o ritmo das vinte e quatro horas; o senso de dia e noite dos pássaros so era uma ruptura com a mudança, bagunçando seu metabolismo. Eles teriam perdido a noção de quando dormir e de quando comer. Estariam famintos ou com falta de sono, confusos e menos alertas. Mas os especialistas em aves, os ornitólogos, mantinham-se em silêncio: era muito cedo para afirmar qualquer coisa. “Está tudo bem com eles”, disse Sylvia. “Certo, rapazes?” Os pintassilgos ficaram em silêncio. O único som vindo da gaiola eram as batidinhas fracas de uma garra pequena cutucando uma das camadas de jornal. Algo semelhante, aparentemente, havia acontecido certa vez com as abelhas — apenas alguns anos antes da desaceleração. Milhões delas morreram. Colmeias foram encontradas abandonadas, inexplicavelmente vazias. Colônias inteiras pareciam ter sido varridas pelo vento. Ninguém nunca identificou a causa real do colapso. “Quer saber o que eu acho?”, perguntou Sylvia. Ela tinha olhos escuros e sérios, e nunca usava maquiagem. Sua pele era lisa e bronzeada, os braços eram pontilhados de sardas, do tipo que parecem submersas debaixo da pele, como migalhas afundadas no leite. “Acho que a desaceleração da Terra é apenas a gota d’água para os pássaros. Faz anos que envenenamos o planeta e suas criaturas. E finalmente estamos pagando por isso.” Eu tinha ouvido esse argumento na televisão também, de que as causas da morte das aves eram múltiplas, de longa data, culpa nossa: pesticidas, poluição, mudanças climáticas, chuvas ácidas, radiação proveniente das torres de telefonia celular. A desaceleração, diziam alguns, simplesmente fizera a balança pender para o lado errado, tornando os pássaros mais vulneráveis a todas as ameaças do homem, às quais tinham sobrevivido por anos. “Acredito que o planeta está desequilibrado há um longo tempo, e essa coisa toda é o jeito que arrumou de se corrigir”, continuou Sylvia. Ela era uma pessoa que cultivava os ingredientes para um suco de clorofila numa estufa

nos fundos de casa. “Tudo o que podemos fazer é aceitar. Temos que deixar que a Terra nos guie.” Eu não sabia o que dizer em resposta. Mas a maçaneta da porta sendo girada lentamente trouxe outro incômodo — o aluno seguinte estava chegando, e eu sabia quem era. Não tinha voltado a falar com Seth Moreno desde o eclipse. Um sino feito de conchas soou ao vento e ecoou na varanda, seguido da porta sendo fechada, o som suave de seu encaixe no batente. Eu podia ouvir meu coração latejando na cabeça. Normalmente, Seth e eu ficávamos juntos ali apenas por um momento, quando passávamos um pelo outro rapidamente no hall de entrada e fazíamos pequenos acenos de cabeça que significavam “oi”. “Eu não tinha certeza de quando vir”, disse Seth. Seus tênis guincharam no chão de madeira. Ele jogou a cabeça para a direita para afastar as madeixas desalinhadas sobre os olhos. Seu cabelo ainda estava úmido, Seth tinha acabado de sair do banho, e, eu soube depois, de um treino de futebol. “Por causa dos relógios e tudo mais.” Um relógio de pêndulo de nogueira alardeou pela sala o absurdo horário de dez horas — mas estávamos no meio da tarde. Eu tinha aprendido a ignorar todos os relógios àquela altura. “Então, eu meio que chutei”, ele disse, passando as partituras de um braço para o outro. “Não tem problema, Seth”, disse Sylvia. “Só vamos levar mais alguns minutos.” Seth se sentou numa poltrona de couro gasto no canto próximo à gaiola. Acima da cabeça dele, uma samambaia pendia do teto, suspensa por um macramê. Deve haver alguns detalhes do interior daquela casa de que já não me lembro, mas, quando fecho os olhos, parece que a casa inteira e o que havia dentro dela permanecem intactos até hoje na minha memória, preservados como a cena de um crime, exatamente como era então. Sylvia pigarreou e voltamos à lição. “Für Elise”, ela disse, ligando o metrônomo. “Mais uma vez, do começo.” Toquei apenas as primeiras notas e o telefone tocou na cozinha. Sylvia o ignorou, mas ele tocou de novo. O som pareceu exasperar os pintassilgos, que gritaram e chamaram de sua gaiola. Sylvia levantou para atender, mas a secretária eletrônica entrou antes, espalhando pela casa os primeiros esboços de uma voz de homem. Sylvia pegou o telefone e desligou a secretária. Ela parecia saber quem estava ligando. “Estou dando aula”, disse, parecendo irritada. “Lembra?” Mas ela parecia feliz e envergonhada, seu rosto adquiriu a expressão de uma mulher muito mais jovem. Sylvia tinha uns quarenta anos na época. Eu nunca a havia visto com um homem. Imaginei um aventureiro todo sujo de poeira, com rabo de cavalo e barba, ligando de um celular numa picape ou

van. Sylvia colocou o telefone no ombro e fez sinal para mim e para Seth de que logo voltaria. Então subiu as escadas, o telefone de volta ao ouvido, a bainha do vestido branco de linho roçando a parte de trás de suas pernas em movimento. Seth e eu ficamos sozinhos na sala. Nenhum de nós se moveu. Ele reorganizou as partituras no colo, fazendo as páginas deslizarem umas sobre as outras. Fiquei no banco do piano, estudando as teclas. Depois de um tempo, Seth puxou o celular do bolso e começou a jogar com os polegares. O telefone irradiava uma musiquinha, feito os sons de um carnaval distante. Imaginei que era assim que ele passava o tempo nos hospitais, enquanto os médicos operavam sua mãe ou injetavam substâncias químicas no sangue dela. Tirei o elástico do cabelo e refiz o rabo de cavalo, desembaraçando-o. Minha respiração estava acelerada, mas eu tentava disfarçar. Dava para ouvir os gritos das crianças pequenas lá fora, ao longe, e as batidas de uma bola de borracha na calçada. Tive a impressão de ver, pela janela, alguma coisa escura cair do céu. Um dos pintassilgos de Sylvia soltou, de repente, um grito alto. Seth se virou para a gaiola. Observou os pássaros por alguns segundos. A musiquinha do jogo continuava. Por fim, eu disse: “Eles parecem bem?”. Seth encolheu os ombros e não disse nada. Deslizei do banco do piano e fui conferir eu mesma. Na gaiola, uma tigela de maçã picada permanecia intocada, o miolo da uta escurecendo. Duas minhocas, que, Sylvia tinha me contado, também faziam parte da dieta dos passarinhos, circulavam livremente na mesma tigela. “Eles não estão comendo”, eu disse. “Talvez ela tenha acabado de dar comida”, Seth disse. “Talvez seja o mal da gravidade.” De perto, Seth cheirava a sabão, mas sua camiseta estava bem amassada — como se, na casa dele, dobrar roupas tivesse se tornado uma arte esquecida, um costume ultrapassado tornado obsoleto pelo sofrimento. Eu escutava o ranger dos passos de Sylvia de um lado para o outro lá em cima. O metrônomo continuava ligado, dividindo o tempo à maneira antiga. Adágio estava sentado como uma pequena galinha sobre o jornal do fundo da gaiola. “Aquele parece bem mal”, eu disse. Seth deu algumas batidinhas com o dedo nas barras da gaiola. “Ei, carinha”, ele disse. “Aqui. Oi.” As batidas perturbaram o pássaro mais saudável, cuja cabeça se moveu depressa na direção do barulho, mas Adágio não reagiu. Seth olhou para trás por cima do ombro, vendo se Sylvia não voltava. Então

destrancou a porta da gaiola e a abriu. Enfiou a mão lentamente lá dentro,

tocando o pássaro de leve nas costas. Ele oscilou como um ovo sob seu dedo, e Seth tirou a mão. “Merda”, ele disse. “Está morto.” “Tem certeza?”, perguntei. “Absoluta.” “É o mal da gravidade”, eu disse. “Talvez”, ele disse. “Talvez não. Ele pode ter ficado doente por qualquer motivo e ter morrido.” Ouvimos a porta do quarto se abrir no andar de cima. Seth fechou a portinha da gaiola. Olhamos um para o outro, mas não dissemos nada. Selamos um acordo imediato de silêncio.

O outro passarinho permaneceu no alto da gaiola, batendo as asas

inutilmente. Senti pena dele, sozinho em seu mundo. Ouvimos os pés de Sylvia na escada, a mão no corrimão, o telefone sem fio voltando ao suporte no balcão da cozinha. “Que foi?”, ela perguntou ao reaparecer, soltando o cabelo para prendê-lo novamente. “Nada”, disse Seth. Ele se sentou na velha poltrona de couro, os braços longos pendendo nas laterais. “A gente estava olhando os seus passarinhos”, eu disse. “Pare de se preocupar.” Ela acenou com a mão como se espantasse um inseto. “Eles estão bem.” Sylvia pediu desculpas por terminar mais cedo minha aula, mas achava melhor começar a de Seth. Enquanto arrumava minhas coisas, tentei captar o olhar de Seth, mas ele se recusava. Juntei meus livros e saí, sem saber, naquele momento, que cruzaria aquela porta poucas vezes mais na vida.

Eu estava me acostumando à visão de coisas sem vida. Estava aprendendo,

desde a desaceleração, a reconhecer as características de um cadáver, a forma como o corpo morto de um pássaro murcha depois de alguns dias, seca, ficando cada vez mais delgado, até que sobrem somente as penas e os pés.

Lá fora, o céu era de um azul puro, obstinado, rajado por duas nuvens

delicadas. Na aula de ciências, tínhamos começado a estudar a atmosfera, e eu havia memorizado os nomes dos diferentes tipos de nuvens. Aquelas duas eram cirros, as mais delicadas, que ficam mais alto. Ainda mais alto do que as nuvens, trezentos e vinte quilômetros acima da minha cabeça, eu sabia que seis astronautas — quatro americanos e dois russos — estavam presos numa estação. O lançamento do ônibus espacial que ia buscá-los fora adiado indefinidamente. Os cálculos complexos para aquele gigantesco estilingue cósmico, que durante décadas servira para enviar e trazer

de volta nossos astronautas, tinham se tornado perigosos demais. Sempre que eu olhava para o céu, por aqueles dias, pensava nas famílias dos seis astronautas, à espera de que voltassem à Terra. Enquanto andava até o outro lado da rua, uma brisa marinha atravessou os eucaliptos e os pinheiros. Um pardal solitário cruzou o céu. Peguei um dente- de-leão do jardim e o agitei ao vento; nosso gato Tony dormia de barriga para cima na varanda. As calçadas brilhavam sob o sol. Em algum lugar, um cachorro latia. Fiquei imaginando o que Hanna estaria fazendo em Utah àquela hora. Foi uma das últimas tardes quase normais.

9

Sempre houve regiões da Terra onde não se podia tomar o sol como parâmetro, em que os dias não eram medidos pelo alvorecer e pelo crepúsculo dessa estrela. Em certas coordenadas remotas, o sol sempre se pôs em dezembro e não se levantou mais ao longo de toda a estação. Lá, os verões sempre foram um ciclo contínuo de luz do dia, o sol implacável no céu das noites de junho. Era difícil viver nesses lugares. As árvores se recusavam a crescer. Lugares como as antigas colônias de pescadores do norte da Escandinávia, as encostas geladas da Sibéria, as aldeias de esquimós do Canadá e do Alasca. Para seus habitantes, dia e noite sempre foram algo abstrato. Nesses lugares, manhãs não necessariamente traziam consigo a luz. E nem todas as noites eram escuras. Quem vivia em latitudes mais baixas estava prestes a experimentar um estilo de vida estranho, mas havia muito familiar na terra do sol da meia-noite.

Esse anúncio aconteceu à noite, catorze dias após o anúncio da desaceleração. Programas foram interrompidos por noticiários em caráter extraordinário. Lembro-me do toque de trombetas — a musiquinha dos boletins especiais da televisão — cortando o barulho da torcida do sétimo jogo das finais de beisebol. “Jesus”, suspirou minha mãe. “O que será agora?” Estávamos assistindo ao jogo durante o jantar, com pratos de pizza fumegando no colo. Tinha sido um bom dia: naquela tarde, eu finalmente tive notícias de Hanna — ela havia me mandado um cartão-postal todo animado, com uma imagem desértica no verso. Minha mãe finalmente relaxou um pouco. Meu pai estava bebendo uma cerveja. Um sorvete de cookies nos esperava no congelador. Um estranho passando pela nossa janela naquela noite poderia ter medido nossos humores pelos sons: o estalo límpido de uma bola sendo rebatida e o aplauso sincronizado dos meus pais. Estávamos felizes. Mas agora minha mãe tirava o prato do colo e o colocava sobre a mesinha de centro. Afastou o cabelo do rosto, como que para escutar melhor as notícias. Eu tinha certeza de que a raiz do cabelo dela estava ficando mais grisalha a cada dia. Ela se esquecera de sua ida mensal ao salão — e a desaceleração do planeta não interferia, absolutamente, na velocidade de crescimento do cabelo humano. Meu pai se sentou no sofá ao lado dela, os lábios subitamente apertados.

Percebi que ele mordia a bochecha. Tomou um lento gole de cerveja.

Lá fora, o céu ainda estava claro, já que os dias duravam mais de trinta horas. “Talvez tenham descoberto como corrigir o problema”, eu disse, deitada de barriga para baixo no chão com os gatos. Ninguém disse nada. Rumores devem ter surgido em certos círculos antes do anúncio oficial. Boatos antecipados devem ter se espalhado, sem confirmação. As grandes novidades não acabam sempre vazando antes do tempo? Segredos não são, em geral, espalhados? Fontes anônimas adoram falar. Mas, se houve alguma conversa anterior sobre aquilo, não chegamos a saber.

O noticiário passou a transmitir ao vivo da Casa Branca, onde o presidente

aguardava atrás de uma enorme e lustrosa escrivaninha, as mãos juntas e tensas sobre ela. Havia uma grande bandeira americana pendendo em dobras ao lado dele. Uma série de reuniões entre os líderes do Congresso, funcionários da Casa Branca e os secretários do Comércio, da Agricultura, do Transporte e do Interior resultara num plano radicalmente simples: diante daquela mudança global, eles pediam que nós, o povo americano, continuássemos a viver exatamente como vivíamos. Em outras palavras, permaneceríamos no ciclo de vinte e quatro horas.

Minha primeira reação foi não acreditar. O decodificador da televisão a cabo mostrava onze horas, em números verdes, mas era o fim do dia. Já havíamos aprendido, àquela altura, a desconsiderar os relógios. “Não entendo”, eu disse. “Como vamos fazer?”

O governo chinês havia tomado a mesma medida radical. A União Europeia,

esperava-se, também a seguiria. A alternativa, fomos informados, seria o desastre. “Os mercados precisam de estabilidade”, disse o presidente. “Não podemos

continuar assim.”

É preciso certo tipo de coragem, suponho, para se optar pelo status quo. Há

certa ousadia na inação. Mas me parecia que estavam nos pedindo para realizar o impossível, uma estratégia tão improvável quanto se tivessem proposto lançar cordas ao sol e arrastá-lo pelo céu. Esperei a reação da minha mãe, mas ela apenas soltou um suspiro alto. Voltei-me para olhá-la e a vi como era: uma mulher num sofá, parecendo cansada. Havia um limite além do qual não era possível ficar mais chocado, nem mesmo ela. “Isso nunca vai dar certo”, minha mãe disse. Meu pai não disse nada. Essa era uma de suas especialidades, fui aprendendo, a capacidade de permanecer em silêncio em todos os momentos cruciais, de encarar as crises com uma tranquilidade simples e resoluta. Posso ver agora

que herdei um pouco desse hábito dele. Meu pai retomou seu jantar. Ele comia pizza de garfo e faca, com um guardanapo de papel metodicamente colocado sobre os joelhos. O verde do campo de beisebol voltou a preencher a tela da televisão. Por mais óbvios que tenham se mostrado mais tarde, os efeitos do plano não ficaram imediatamente claros para mim. O que logo se tornou evidente foi:

sairíamos de sincronia com o sol quase que de imediato. A luz ficaria desvinculada do dia, e a escuridão, da noite. E nem todo mundo aceitaria seguir esse plano.

10

A adesão era voluntária, claro. Não éramos obrigados a espremer nossos dias

em meras vinte e quatro horas. Nenhuma nova lei fora aprovada ou passara a vigorar. Eram os Estados Unidos. O governo não podia ditar o modo como vivíamos nossas vidas. Mas na semana seguinte ao anúncio do presidente, com os dias tendo aumentado para uma duração recorde de trinta e duas horas, funcionários de vários escalões e de diversas especialidades passaram a trabalhar para nos convencer das virtudes do plano — e da necessidade de colocá-lo em prática com urgência. O Horário do Relógio é a única solução viável, eles diziam. Era uma questão de estabilidade econômica, insistiam os políticos, de vantagem competitiva, e até mesmo de segurança nacional, garantiam alguns. Sei, agora, que o plano suscitou um complexo debate nacional — com dissidentes da extrema esquerda e da extrema direita gritando da mesma maneira —, mas, na minha lembrança, aconteceu tudo de uma vez, uma mudança clara de maré, súbita e completa. As escolas públicas entraram no esquema de imediato. Escritórios do governo também. Todas as redes de televisão decidiram aderir. As empresas com certeza seguiriam o mesmo caminho — perdiam milhões a cada semana com a baixa produtividade e o pagamento de horas extras. Mas a qualquer americano era permitido ignorar o Horário do Relógio, seguir ajustando o próprio horário com o da luz do dia ou com aquilo a que alguns já se referiam como tempo real. Continuávamos livres para organizar nossas vidas de acordo com as aparições do sol, se quiséssemos, mas não demorou muito e aqueles que arriscaram fazê-lo estavam perdendo seus empregos ou sendo obrigados a se demitir. Na prática, seus filhos não podiam mais estudar em escolas públicas. Estariam perpetuamente fora de sincronia com a sociedade. Recusar o plano teria sido como escolher ficar numa cidade evacuada, com prédios e ruas ainda ali, mas sem a cidade em si.

E assim foi: voltamos aos relógios. Os de pulso retornaram aos pulsos. Pilhas

foram trocadas. Retirei os livros da mesinha de cabeceira para voltar a enxergar

meu despertador da cama. Tirei o relógio de bolso do meu avô de uma gaveta e o posicionei sobre a escrivaninha.

O Horário do Relógio teve início às duas da manhã de um sábado, a exemplo

da passagem para o horário de verão. Escolheram um dia em que o sol

nasceria mais ou menos sincronizado com os relógios. Nessa época, dias

sincronizados como aquele se repetiam a intervalos de algumas semanas, como

a lua cheia. A diferença aumentaria conforme o dia passasse, mas a ideia era

que fizéssemos a transição lentamente. Naquela manhã, o sol nasceu às 7h02 do Horário do Relógio. O jornal de domingo aterrissou na entrada dos carros com um baque. Meu pai fez café e torradas cedo. O sol brilhava como de costume na face leste da casa. Sentiríamos, de fato, as diferenças somente no dia seguinte, quando nós, como os relógios, ficaríamos completamente fora de sincronia com o sol. “Isso não pode ser saudável”, disse minha mãe, de roupão felpudo verde, com os olhos apertados e o cabelo revolto da noite de sono. Eu estava sentada, de pijama de flanela, confeccionando uma pulseira para Hanna. O aniversário dela era dali a poucas semanas, e eu planejava mandá-la de presente. “É a menos pior das alternativas”, disse meu pai, à mesa. Os gatos andavam para lá e para cá aos meus pés, famintos. De passagem, Tony roçou minhas canelas com a cauda ossuda. O sol brilhava na cozinha, batendo nas panelas de cobre que pendiam, reluzentes, acima da pia de inox. “Quais são as alternativas?”, eu quis saber. Minha mãe estava enchendo com água uma lata de cobre para regar as duas orquídeas que ficavam na janela da cozinha. Seus cuidados com as plantas eram cada vez maiores desde a desaceleração, como se de alguma forma nossa sobrevivência dependesse delas. Ou talvez fosse algo totalmente diferente: a beleza pode ser muito reconfortante. “Sabe o que eu acho?”, disse minha mãe. “Que essa história toda de relógio é uma bela merda.” Tony saltou sobre o balcão. Agarrei-o e o coloquei de volta no chão de lajotas. “Vamos sobreviver”, disse meu pai. Por ser médico, ele já trabalhava durante a noite e dormia de dia, era um

parteiro noturno. Meu pai era uma criatura cujo corpo se habituara, anos antes,

a ignorar o ritmo das vinte e quatro horas diárias.

“E quanto ao problema em si?”, disse minha mãe. “Que providências estão

tomando?”

Meu pai continuou lendo o jornal, virando as páginas lentamente. Nele, claro, não estavam os detalhes de um plano ainda mais audacioso, ultrassecreto, mas em enético processo de concepção por cientistas e engenheiros nos laboratórios do governo. Em breve saberíamos mais do malfadado e infame — além de arrogante — Projeto Virginia. Apesar de absurdo, é preciso admirar o espírito de ação, o senso agressivo de possibilidade e o otimismo destemido necessários para se imaginar que alguma engenhosidade humana fosse de fato capaz de controlar a rotação da Terra.

“Espere aí”, disse minha mãe. Ela apontou um pote de manteiga de amendoim perto do meu pai. “Você abriu isto?” Na outra mão, segurava a prova, uma faca. O lado mais afiado brilhava com uma camada da pasta. Meu pai, à mesa, deu uma mordida gigante na torrada. “Droga, Joel”, ela disse. “Droga. Eu estava guardando.” Mantive os olhos na pulseira que estava confeccionando e esperei a briga passar. Concentrava-me no desenho complicado que tinha escolhido, usando as

cores favoritas de Hanna. Entrelaçar aqueles fios, um após outro, tinha algo de reconfortante, o desenho emergindo da ponta dos meus dedos de modo ordenado, controlado, lento. Meu pai mastigou, engoliu, tomou calmamente um gole de café. Ele era contra os estoques da minha mãe. “Helen, tem seis potes aí.” “Você acha que é uma brincadeira?”, ela perguntou. “Um cara disse na CNN que talvez seja questão de algumas semanas para tudo se acabar.” Em meio ao ataque de fúria, minha mãe tropeçou na tigela azul de cerâmica com a água dos gatos. “Merda”, ela disse. Uma onda em miniatura se espalhou pelas lajotas. “O que é que vai se acabar?”, perguntei. “Eu não ouvi nada parecido com isso”, disse meu pai. A voz da minha mãe desceu para um tom mais grave e sério: “Bom, talvez você não esteja prestando atenção”.

Se meu pai chegou a responder, não ouvi, pois escapei lá para cima. É mais

provável que ele tenha simplesmente voltado ao jornal.

O que se passava naquela cabeça? Eu logo entenderia que ele manifestava

apenas uma ação dos pensamentos que flutuavam atrás daqueles olhos. Nada estava nem de longe tão claro e tranquilo como parecia. Outras vidas habitavam aquela mente, mundos paralelos. Talvez todos sejamos assim, pelo menos um pouco. Mas a maioria de nós dá indicações disso. Deixa pistas. Meu pai era mais cuidadoso. Quando lembro agora aquele momento na cozinha, um pensamento quase inacreditável me vem à cabeça: houve um tempo em que aquelas duas pessoas — aquele homem debruçado na mesa e aquela mulher gritando de roupão — foram jovens. A prova eram os retratos pendurados na sala, uma garota bonita e um cara estudioso, um pequeno apartamento num prédio caindo aos pedaços em Hollywood, com vista para um pátio e uma piscina em forma de rim. O período mítico de antes do meu nascimento, quando minha mãe não era uma mãe, mas uma atriz que, quem sabe, faria sucesso algum dia, a qualquer momento, talvez em breve, uma garota séria com um rosto lindo. Como a vida seria mais doce se tudo acontecesse ao contrário, se, após décadas de decepções, finalmente se chegasse a uma idade na qual ainda não se tivesse aberto mão de nada, em que tudo ainda fosse possível. Gosto de pensar em meus pais quando

a vida ainda reluzia diante deles, meio escondida, como ouro debaixo da terra. Naquela época, o futuro seria o que eles imaginassem — mas eles jamais haviam imaginado aquilo. Será que todas as épocas parecem ficção quando já passaram? Depois de um tempo, certos vestígios de palavras são tudo o que resta. Décadas após a invenção do automóvel, por exemplo, continuamos a alertar uns aos outros para não colocar a carroça na ente dos bois. Da mesma forma, ainda temos dias de cão e noites em claro, e as primeiras horas da manhã, de acordo com os relógios, ainda são conhecidas coloquialmente (se bem que de modo cada vez mais obscuro) como o raiar do dia. E meus pais, mesmo cada vez mais distantes, nunca deixaram de chamar um ao outro de “amorzinho”.

Meus pais se evitaram a tarde inteira. Minha mãe ficou corrigindo exercícios dos alunos no quarto de hóspedes. Meu pai foi ver meu avô. Não perguntou se eu queria ir junto, como costumava fazer. E não me ofereci. Um silêncio sufocante baixou sobre a casa. Uma coisa é certa em relação àquele primeiro domingo no Horário do Relógio: o tempo voou. Tínhamos nos acostumado a longos dias preguiçosos. Mas a manhã passou a jato. O meio-dia veio e foi a uma velocidade desumana. As horas se sucediam rapidamente, uma após outra, como se deslizassem ladeira abaixo — e de repente eram tão poucas! Num outro domingo qualquer, eu teria escapulido para a casa de Hanna. Em vez disso, fui até onde morava minha antiga amiga Gabby. A casa dela ficava três casas rua abaixo, e crescemos juntas, mas eu não a via mais com frequência desde que ela começara a se meter em encrencas. “Acho que o Horário do Relógio vai ser legal”, disse Gabby depois de subirmos para o quarto dela. Sentada na cama desfeita, ela passava uma segunda camada de esmalte preto nas unhas. Ofereceu o asco para mim, mas balancei a cabeça, recusando. Era um preto brilhante medonho, e algumas gotas tinham caído no carpete felpudo cor creme. “Gosto de sair na escuridão”, ela disse. Seu cabelo tingido de preto ficava caindo no rosto. Os olhos estavam pintados com um delineador em tom carvão. Minúsculas tachinhas de prata na forma de crânios humanos cintilavam em suas orelhas. Ela estava quase irreconhecível. “Queria poder estudar de novo na nossa escola”, ela disse. “Você odiava nossa escola”, eu disse. Quando ela começou a fumar e matar aula, seus pais a transferiram para um rígido colégio católico. “É, mas todas as meninas da minha escola são umas vadias anoréxicas”, ela disse. No verão, costumávamos nadar na piscina da casa dela e comer batata ita

sentadas em cadeiras no gramado, a água de nossos rabos de cavalo pingando

nas costas. Mas agora Gabby jamais usava maiô; tinha engordado bastante. Estava sempre encrencada. Hanna não tinha autorização para ir à casa dela. “Minha mãe está com medo que todo mundo morra”, eu disse.

O quarto cheirava a removedor de esmalte e baunilha — uma vela grande e

branca queimava em cima da mesa. Duas saias xadrez, plissadas, pendiam do encosto de uma cadeira. Eram do uniforme de Gabby. “A gente vai morrer”, ela disse. “Algum dia.” Uma música que eu não conhecia tocava: a voz cristalina e aguda de uma mulher enfurecida era lançada no quarto por dois grandes alto-falantes pretos. “Mas ela acha que a gente vai morrer por causa disso”, eu disse. “E em breve.” Gabby soprou as unhas e, levantando uma das mãos, conferiu o resultado.

Uma lata de refrigerante diet borbulhava e chiava pousada no tapete. “Você acredita em vidas passadas?”, ela perguntou. “Acho que não.” Gabby havia coberto com um lenço vermelho a única lâmpada acesa, e o quarto estava escuro e abafado. Ela mantinha as persianas fechadas, mas raios de sol ainda assim brilhavam pelas frestas. “Tenho certeza de que vivi outras vidas”, ela disse. “E tenho essa sensação de que, em todas elas, morri jovem.” Ultimamente, eu não sabia o que dizer às outras crianças. Não sabia mais como responder. Não conseguia pensar em nada para falar. “Ei”, ela lembrou. “Quer fazer uma tatuagem? Aprendi como fazer na internet.” Ela apontou para uma agulha de costura e um asco pequeno com tinta preta, dispostos ao lado da vela, no chão, como se fossem algum material cirúrgico primitivo. “Você só precisa passar a agulha na chama, depois riscar a pele com o desenho que quiser e derramar tinta no corte.”

A casa de Gabby era igual à nossa, mas ao contrário. O quarto dela era igual

ao meu, tinha exatamente as mesmas dimensões. Durante quase doze anos, dormimos entre paredes erguidas pelas mesmas equipes de construção e enxergamos a mesma paisagem de uma rua sem saída através de janelas de tamanho idêntico. Criadas em condições similares, tínhamos nos tornado

muito diferentes, dois espécimes de meninas agora opostos. “Vou fazer os contornos do sol e da lua no meu pulso”, ela disse. “Faço no seu também, se você quiser.”

O disco chegou ao fim. Um súbito silêncio encheu o quarto.

“Acho que não”, eu disse. “Acho que tenho que ir para casa, de qualquer maneira.” Talvez tivesse começado antes da desaceleração, mas só depois fui me dar conta: minhas amizades estavam se desintegrando. Tudo estava desmoronando.

Foi uma travessia difícil aquela, da infância para uma próxima vida. E, como em qualquer outra dura jornada, nem tudo sobreviveu.

Naquela noite, com o sol ainda brilhando, meu pai chegou em casa com um

telescópio. “É para você”, ele disse, no meu quarto, tirando o papel de seda amarfanhado. “Quero que você aprenda um pouco mais sobre ciência.” O telescópio veio numa reluzente caixa de mogno, dentro da qual havia um tubo prateado e um tripé de titânio que cintilavam ao sol. Parecia ter custado caro. Meu pai montou o equipamento no meu quarto e o apontou para um céu ainda claro. Minha mãe o observava da porta, de braços cruzados. Estava sempre irritada com meu pai por aqueles dias, e parecia que mesmo aquele presente — na linguagem criptografada vigente entre eles — era, de alguma forma, uma afronta a ela. “Lá está Marte”, disse meu pai, fechando um olho, o outro encaixado no telescópio. Ele fez sinal para eu olhar. “Você vai conseguir ver ainda melhor quando escurecer.” Marte tinha aparecido no noticiário pouco tempo antes, depois da revelação, na internet, de planos secretos para algo chamado Projeto Pioneiro. Com financiamento privado de um grupo de bilionários anônimos, era um plano para a construção de uma colônia humana em Marte, com biosferas de temperatura controlada e abastecimento de água reciclável. O Projeto Pioneiro era um plano de evacuação da Terra. Se necessário, um grupo de seres humanos poderia, supostamente, sobreviver naquele planeta, uma colônia, uma cápsula do tempo, espécie de lembrança viva da vida como nós, um dia, a conhecêramos na Terra. Pelas lentes do telescópio, Marte não me pareceu grande coisa, apenas um ponto gordo e vermelho, embaçado nas bordas. “Algumas das estrelas que você está vendo aí nem existem mais”, disse meu pai, girando devagar os botões, para a ente e para trás, com o polegar. As engrenagens rangiam de leve. “Algumas delas estão mortas há milhares de anos.” “Vocês dois vão ficar aí a noite toda?”, perguntou minha mãe. Meu pai limpou a lente com uma tira preta de feltro que tinha vindo na caixa. “Você vai ver nesse telescópio não as estrelas como são hoje, mas como eram milhares de anos atrás”, ele continuou. “Elas estão tão distantes que sua luz leva séculos para chegar até nós.” “Se vamos jantar”, suspirou minha mãe, às nossas costas, “acho bom começar agora.” Meu pai não respondeu, mas me apressei em acalmá-la. “Já estamos

terminando aqui”, eu disse. Eu gostava da ideia de que o passado pudesse ser preservado, fossilizado nas estrelas. Agradava-me pensar que em algum lugar, na outra ponta do tempo, alguém, uma criatura do futuro distante, pudesse estar olhando para uma imagem minha preservada, com meu pai, no meu quarto, naquele exato momento. “Será que é possível?”, perguntei a ele. “Assim, daqui a centenas de anos?” “Pode ser”, ele respondeu. Mas não parecia estar escutando. Eu passaria muitas horas daquele ano olhando as estrelas, mas usei meu telescópio para vigiar corpos mais próximos também. Logo percebi que conseguia enxergar dentro de outras casas da rua. Dava para ver os Kaplan sentados à mesa de jantar. Dava para ver Carlotta, no final da nossa rua sem saída, bebendo chá na varanda, a longa trança balançando, as mechas visíveis

através das lentes do meu telescópio, e lá estava Tom, atrás dela, despejando um balde com restos da cozinha no monte de compostagem.

A casa que se via com mais nitidez era a de Sylvia. Era a nossa casa refletida

num espelho, e eu podia enxergar tudo na sala dela — as teclas do piano, as tábuas de madeira do assoalho, as páginas do jornal que ainda forravam a gaiola, agora vazia.

Naquela noite, dormiu-se com o sol ou não se dormiu. Durante semanas, eu fora para a cama antes de escurecer, naqueles primeiros dias intermináveis, naquelas noites eternas; em quase todas, adormeci antes de as estrelas surgirem. Mas daquela vez foi diferente, o descompasso estava maior do que nunca. Aquela foi a primeira das noites brancas. Mais tarde, aprenderíamos a nos proteger, construir pequenos abrigos de escuridão em meio à luz, mas aquela noite no Horário do Relógio estava radiante, como se o sol nunca tivesse brilhado tão intensamente. No teto do meu quarto, havia uma coleção de adesivos fosforescentes de estrelas, que eu havia tentado remover pouco tempo antes. Minha mãe me impediu: “Tem amianto nesse teto, deixe isso aí”. Mas minhas estrelas de teto estavam invisíveis naquela noite, assim como as estrelas de verdade, cada uma delas ofuscada por aquela que nos era mais próxima e mais cara. “Tente dormir”, disse meu pai. “Vai ser difícil acordar para ir à escola no

escuro.” Ele se sentou por um momento ao pé da minha cama, olhando pela janela para o céu azul flamejante antes de baixar a persiana. “Estes são tempos interessantes”, ele disse. “São tempos bem interessantes estes que estamos vivendo.”

O sol finalmente se pôs, em algum momento depois das duas.

11

Nossa escola seguia o Horário do Relógio, então as aulas começavam às nove. Isso significava que a espera no ponto de ônibus seria no escuro, nossos rostos iluminados por uma lâmpada de rua amarela distante — que, como todas as lâmpadas de rua em nosso bairro, fora projetada especialmente para nos deixar na escuridão, pois luzes acesas prejudicavam a visão através do enorme telescópio da universidade, havia trinta anos posicionado sobre uma colina mais a leste. Poluição luminosa, era o que se dizia. Mas o que estariam observando aqueles astrônomos, se agora a verdadeira ação acontecia ali? Minha mãe esperou no carro, estacionado junto ao meio-fio, até que o ônibus chegasse, convencida de que o perigo, como as batatas, brota no escuro. Mas, para mim, o ponto de ônibus não parecia oferecer mais perigo àquela hora do que à luz do dia. Eu procurava ficar longe de Daryl, e ele me ignorava, agindo como se não tivesse feito nada de errado. Era provável que em algum lugar daquele chão escuro, pensei, estivesse meu colar com a pepita de ouro. Seth continuava na dele, como um sobrevivente solitário, soprando as mãos de um jeito atraente, autossuficiente, um pé sobre o skate, outro na calçada. Eu podia enxergar a casa de Hanna à distância, abaixo na mesma rua, e pensei ter visto uma luzinha brilhando perto da porta da ente, naquela manhã. Senti um lampejo de esperança de que ela tivesse voltado. Mas era só a luz da varanda, provavelmente deixada acesa sem querer quando eles foram embora e que passava despercebida à luz do dia. Estávamos todos mais silenciosos do que o normal naquela manhã escura. Tínhamos sono, preguiça e estávamos confusos. Até Michaela parecia ter se rendido, pois acordara muito tarde para lavar os cabelos ou se maquiar. Ninguém fazia provocações nem conversava. Ninguém dizia nada. Apenas esperávamos juntos no escuro, com o capuz do moletom puxado sobre a cabeça, os dedos enroscados dentro da manga. Estava io, talvez fosse o momento mais io da noite, mas meu relógio marcava oito e quarenta da manhã. A lua era uma fatia fina brilhando no horizonte. As estrelas cintilavam, claras. É difícil acreditar que tivesse havido um tempo — e nem fazia tanto tempo assim — em que grossos almanaques eram impressos a cada ano listando, entre outros fatos, a hora precisa, no Horário do Relógio, de cada nascer e de cada pôr do sol com um ano de antecedência. Acho que perdemos algo mais quando fomos privados desse ritmo decidido, perdemos uma crença geral

compartilhada de que podíamos contar com certas coisas. Naquela manhã, por todo lado ao nosso redor, o ruído dos grilos era impressionante, o chiado e o lamento de tantos novos corpos no escuro — eles se multiplicavam desde a desaceleração. O mesmo valia para todos os insetos. Com tão poucos pássaros, qualquer população de bichos menores prosperava. Mais e mais aranhas cruzavam nossos tetos. Besouros emergiam de ralos. Minhocas rastejavam no concreto dos quintais. Um treino de futebol foi cancelado porque um milhão de joaninhas aterrissara no campo de uma vez. Mesmo a beleza, em abundância, torna-se assustadora.

Quando o ônibus chegou à escola, descobrimos que operários estavam instalando luzes de estádio em toda a área. Sob os holofotes, as paredes verdes desbotadas, pintadas, dizia-se, com tinta que havia sobrado da construção da base da Marinha na costa, pareciam de uma prisão. Eis uma lição que aprendi com o Horário do Relógio: muita coisa que parece inofensiva à luz do dia se torna imponente no escuro. E a gente acaba se perguntando: o que mais não seria apenas um truque de luz? Já era hora do almoço quando o sol finalmente apareceu, a escuridão desvanecendo como neblina. Alvorada: 12h34. Estávamos todos lá fora quando ela veio. Estávamos na Califórnia — fazíamos refeições ao ar livre em qualquer estação. À medida que o céu a leste ganhava um tom rosa pálido e promissor, Michaela foi mexer com os meninos que estavam por ali, ao passo que eu executava a manobra inversa: mantinha-me quieta, tentando não ser notada. Lentamente os campos de futebol começaram a se destacar ao longe. Eu mirava, com os olhos apertados, na direção do nascer do sol. E foi então que reparei, no extremo oposto do pátio, a silhueta de uma menina que se parecia muito com Hanna, só que não podia ser ela, porque, se Hanna tivesse voltado para a cidade, eu saberia. A menina estava sentada sozinha, numa mesa perto do laboratório de ciências, a cabeça apoiada no braço magro, de mau humor à luz pálida. Quando cheguei perto, vi que era verdade. Era Hanna. Ela estava ali, sentada sozinha numa das mesas de almoço, sem almoço. “Você voltou”, eu disse. “E aí?”, ela disse de um jeito casual. Estava bonita, de jeans escuro e blusinha rosa. Argolas prateadas pendiam de suas orelhas. Seu cabelo estava preso numa trança frouxa. “Tivemos que voltar pra casa por causa do trabalho do meu pai.” Ficamos em silêncio por um momento. Esperei que Hanna dissesse algo mais. Ela não disse. O grito desembestado de uma menina partiu da fila para o almoço atrás de nós. “Estou tão feliz que você voltou”, eu disse, finalmente. Larguei minha mochila no chão e me sentei à mesa. “Estava começando a odiar ter que vir

para a escola.” “Em Utah não precisávamos ir para a escola”, ela disse. Seus olhos azuis acompanhavam alguma coisa às minhas costas. “Todo mundo estava meio que esperando o fim. Mas meu pai cansou de esperar.” Fazia anos que éramos amigas, mas uma nova timidez surgia agora entre nós. Senti como se ela fosse uma prima de segundo grau, as duas obrigadas a ficar numa reunião de família, com uma ligação tênue entre si, mas nenhuma ideia do que dizer uma à outra. Para todo lado, ao nosso redor, o bramido das crianças subia e descia como marés invisíveis. Hanna fitou a mesa. Começou a cutucar um pedaço da pintura que descascava. Então não aguentei: “Por que você não me disse que estava de volta?”. “Acabamos de voltar, chegamos ontem”, ela disse. Mordeu a pontinha da unha do dedão. “Ou, sei lá, anteontem.” Algumas estrelas persistiam no horizonte, mas, minuto após minuto, o dia clareava. Tive de apertar os olhos para ver os olhos de Hanna. “Por que você não estava no ponto de ônibus de manhã?”, perguntei. “Dormi na casa da Tracey.” “Quem é Tracey?” “Tracey Blair.” Ela apontou para outra garota mórmon, que reconheci vagamente de algumas aulas, mas que eu não conhecia. A menina agora caminhava em nossa direção, sua figura embaçada à luz do amanhecer. Trazia dois burritos e duas garrafas d’água. Quando se aproximou, ficou claro que estava usando uma roupa igual à de Hanna, blusinha de alça da mesma cor e argolas de prata iguais, uma trança idêntica balançando às costas. De repente, fiquei tensa. “Vocês são gêmeas”, eu disse. “A gente nem combinou”, disse Hanna. “Não é engraçado?” “Oi”, disse Tracey. Ela tinha enormes olhos castanhos que pareciam nunca piscar. Deduzi, pelo passo cuidadoso e pelos calos nas mãos, que era algum tipo de ginasta. “Tracey ficou em Utah por um tempo também”, contou Hanna. “Oi”, eu disse. Tracey cuspiu o chiclete e se sentou. Fez um dos burritos chegar até o outro lado da mesa, ao lugar de Hanna. “Está vendo?”, disse Hanna, apontando o aglomerado de crianças por todo o pátio. “Agora você entende o que eu quero dizer?” “Total”, respondeu Tracey. Ela inclinou a cabeça para trás para mostrar o grau extremo de sua concordância. “Total.” “O quê?”, perguntei. “Nada”, disse Hanna.

Ficamos sentadas por um tempo, enquanto o sol percorria sua trajetória ascendente no céu. Hanna me falou um pouco sobre Utah. A vida lá não era nem de longe a desolação que eu havia imaginado. Contou uma história complicada, envolvendo um menino mórmon, vizinho da tia dela. Uma noite, esse menino apareceu na janela e subiu para o quarto de Hanna. Os dois tinham ficado se beijando enquanto as irmãs dela dormiam. “Uau”, eu disse. Não consegui pensar em mais nada para dizer. “Até agora não posso acreditar nisso”, disse Tracey. “Como é que ninguém acordou?” “Pois é”, disse Hanna, as faces vermelhas, de repente. Ela estava sorrindo, mas tentando não sorrir. “E a gente estava na cama de cima do beliche.” Por fim, Hanna perguntou como eu estava. Havia muito o que contar, claro. Nada ia bem. Mas, naquele dia, Hanna não parecia Hanna para mim, e Tracey ficou estalando os dedos. “Ah, sei lá”, eu disse. “Vou indo.” Os olhos inchados e brilhantes de Tracey me observavam de perto. A intervalos de poucos segundos, soava o estalo de suas pequenas articulações. “Sou muito flexível”, ela explicou, começando a estalar a mão esquerda. “Na verdade”, eu disse, “as coisas estão ótimas por aqui. Ótimas mesmo.” As duas trocaram um rápido olhar. O sinal tocou e Hanna gemeu. “Cara, queria estar em Utah, você não?” “Total”, concordou Tracey. “Total.” Ficamos de pé e colocamos as mochilas de volta nas costas. As duas começaram a se afastar da mesa. “Até mais”, eu disse, mas elas não me ouviram — ou pareceu que não. Já estavam a caminho do laboratório de ciências, juntas, os passos em sincronia. Eu ia naquela direção também, mas fui pelo caminho mais longo, sozinha.

No treino de futebol daquela tarde, Hanna chegou atrasada e mal falou comigo. Era o mesmo campo onde fofocávamos sem parar entre exercícios, mas ela pronunciou meu nome somente uma vez naquele dia, apenas na condição de uma atacante se dirigindo a uma meio-campista no meio da partida: “Julia”, ela gritou, quando recebi a bola. “Aqui, na ponta.” Mais tarde, enquanto esperávamos, suadas, com o rosto vermelho, que nossas mães fossem nos buscar, Hanna brincava com o celular. “Quer ir lá em casa neste fim de semana?”, perguntei. “Não posso”, ela disse. Não gostei do fato de ela nem ter tirado os olhos do telefone enquanto falava. Tinha certeza de que estava enviando mensagens para Tracey, que, sem dúvida, respondia de imediato. “Por que você está agindo desse jeito?”, eu quis saber.

“Como assim?”, ela perguntou. Hanna sorriu um pouco e mordeu o lábio inferior, a longa trança loira jogada no ombro. Não me olhava nos olhos. “Não estou fazendo nada.” Alguma coisa na expressão contida de seu rosto parecia familiar. Na hora me veio à mente uma ruiva pálida, chamada Alison, que fora a melhor amiga de Hanna antes de mim. Isso anos atrás, na quarta série, mas eu ainda me lembrava de quando essa Alison nos rondava no parquinho às vezes, e de como Hanna a ignorava enquanto treinávamos nossas acrobacias nas barras, onde só havia espaço para duas. “Estou tão de saco cheio dela”, Hanna me dizia sempre que via Alison se aproximando — e olhava para ela com o mesmo sorriso falso que agora exibia para mim. Fiquei chateada demais para conseguir pegar no sono naquela noite. Saí da cama e picotei a pulseira que estava fazendo para ela. Em seguida, atirei os pedaços, junto com o bracelete enfeitado em ouro e prata que ela tinha me dado, dentro de uma caixa de sapatos que enfiei no fundo do guarda-roupa. Depois disso, não me senti nem um pouco melhor.

Os dias se passaram. Manhãs e noites no Horário do Relógio. Trevas e luz cruzavam o céu feito tempestades, sem ter mais ligação com nossos dias ou nossas noites. O crepúsculo chegava, às vezes, ao meio-dia; outras vezes, o sol não se levantava até o entardecer e atingia o zênite no meio da noite do relógio. Dormir era difícil. Acordar, mais ainda. Insones andavam pelas ruas. E a Terra continuava a girar, cada vez mais lentamente. Enquanto minha mãe estocava velas e manuais de sobrevivência, desenvolvi habilidades diferentes para sobreviver: estava aprendendo a passar o tempo sozinha. “Por que você não vai visitar Hanna?”, perguntava minha mãe no meio da tarde. “Tenho certeza de que ela adoraria ver você.” Mas Hanna estava sempre com Tracey aqueles dias. “O Horário do Relógio não vai durar”, disse Sylvia na minha aula de piano daquela semana. A sala dela brilhava na escuridão. Eram três da tarde e, lá fora, estava um breu. Seth não apareceu para a aula naquele dia. Eu não soube por que, Sylvia não disse. “Você vai ver”, ela disse. “Vamos retornar ao tempo real em algum momento. Confie em mim.” Mas eu não estava convencida disso. Sentia, ao contrário, que um dia, se sobrevivêssemos, contaríamos histórias sobre como era a Terra em outros tempos.

Uma coisa que me impressiona, quando me lembro desse período, é como nos adaptamos rapidamente. O que tinha sido familiar algum dia tornava-se

cada vez menos. E, com o tempo, pareceu-nos extraordinário que antes nosso sol funcionasse tão previsivelmente quanto um relógio. Pouco mais tarde, era miraculoso pensar que eu tinha sido, alguma vez, uma menina feliz, menos solitária e menos tímida. Mas acho que toda era do passado ganha ares de mito. E, com um pouco de persuasão, qualquer coisa rotineira pode parecer anormal à nossa mente. Consideremos o seguinte lance brutal de magia: um ser humano desenvolve um segundo ser humano num espaço dentro de sua barriga; faz crescer um segundo coração e um segundo cérebro, dois olhos e, mãos e pés, um conjunto completo de cada parte do corpo, como se fossem peças sobressalentes, e, depois de quase um ano, expele aos gritos esse segundo ser humano da barriga para o mundo, vivo. Esquisito, não é? Isso é só para dizer que, por mais estranhos que parecessem aqueles novos dias num primeiro momento, os velhos muito rapidamente pareceriam ainda mais.

12

Algumas pessoas vinham sinalizando havia décadas, desde as primeiras gotas de chuva ácida, desde o primeiro e sutil desgaste da camada de ozônio, desde Chernobyl e da central nuclear de Three Mile Island, desde a crise do petróleo na década de 1970. As geleiras estavam derretendo e as florestas tropicais eram alvo de queimadas. A incidência de câncer estava em alta. Imensas quantidades de lixo navegaram nossos mares durante anos. Antidepressivos eram receitados a torto e a direito — e nossa corrente sanguínea estava tão poluída quanto os cursos d’água. Que a desaceleração ainda não pudesse ser explicada não vinha ao caso. Já era mais do que hora. Aquelas pessoas estavam assumindo uma posição. Eram elas que se recusavam a cumprir o Horário do Relógio. Eram naturalistas, herbalistas e entusiastas da saúde holística. Eram curandeiros, hippies, veganos, wiccanos, gurus e filósofos New Age. Libertários, anarquistas, ambientalistas radicais. Ou ainda fundamentalistas, ermitãos, que já viviam na natureza, desobedecendo as regras. Eram hostis às empresas. Eram céticos em relação ao governo. Eram do contra por natureza ou credo.

Nem sempre se sabia quem eram, não de cara, pelo menos. Alguns se mantinham clandestinos pelo tempo que pudessem. Mas outros se anunciavam. Ao final de uma das minhas aulas de piano, Sylvia me entregou um envelope fino e branco. “Entregue isto para sua mãe”, ela disse. Seth Moreno também estava na sala com a gente, esperando para começar a aula dele. Ele olhava pela janela, mas virou na nossa direção quando Sylvia mencionou o envelope. “O que é isto?”, perguntei. Os dois pintassilgos tinham morrido. A gaiola estava vazia. Os únicos sons vinham do sino na varanda. “Não posso continuar”, ela disse. “Sinto que é uma mentira.” Na carta, Sylvia explicava que desistira de seguir o Horário do Relógio. “Vamos achar outro professor”, disse minha mãe ao ler a carta. “Mas eu não quero outro professor”, eu disse. “Por que ela não pode continuar com Sylvia?”, perguntou meu pai, que fazia

a

triagem da correspondência ali ao lado, mandando a maior parte direto para

o

lixo.

Sylvia explicava, por escrito, que faria o possível para acomodar todos os alunos que viviam segundo o Horário do Relógio. “Nunca gostei do estilo de vida dela”, disse minha mãe. Ela espalhava molho de tomate sobre uma massa de pizza pronta. Era uma daquelas raras noites em sincronia com os relógios, em que realmente estava escuro. Dava para ver nossos reflexos nas portas envidraçadas. “Que estilo de vida?”, perguntou meu pai. Ele ainda estava com a roupa do trabalho, camisa branca e uma gravata amarela a ouxada, mas tinha arregaçado as mangas até os cotovelos. Eu podia sentir o cheiro de sabonete de hospital em suas mãos. “Você sabe o que quero dizer”, disse minha mãe. “Essa porcaria toda New Age.” “O que você acha, Julia?”, quis saber meu pai. O crachá de médico ainda pendia na ente do bolso da camisa: uma foto antiga oscilava por trás do plástico, um jovem de cabelo abundante me encarava, logo abaixo de um homem mais velho que me encarava também. “Você gosta de Sylvia?” “Não quero outro professor,” eu disse. “Espere um pouco, Joel”, disse minha mãe. “Foi você quem disse que essa

coisa toda dos relógios era a alternativa menos pior, e que a gente ia se adaptar

e não sei mais o quê.” “Não é da nossa conta como ela escolhe viver a vida dela”, disse meu pai. “Vou achar outro professor pra você”, insistiu minha mãe. “Fim de papo.” Nem todo mundo parou de ter aulas com Sylvia. Seth, por exemplo, continuou indo toda semana por um tempo. Eu nunca sabia exatamente quando ele ia aparecer, mas às vezes dava para ouvir do meu quarto o som do skate arranhando a calçada quando ele chegava à casa dela, e então eu dava um jeito de ir até nossa caixa de correio no momento em que ele saía, ou então, casualmente, ficava molhando o gramado de óculos escuros e trança no cabelo. Às vezes, Seth acenava para mim ao passar. Outras vezes, não. Nunca nos falávamos.

Tom e Carlotta, nossos vizinhos do final da rua, declararam-se adeptos do tempo real imediatamente. Acho que não foi nenhuma surpresa que resistissem ao Horário do Relógio — tinham um telhado cintilante, com uma dúzia de painéis solares, e andavam em duas caminhonetes cobertas de emblemas da paz descascando e adesivos velhos e desbotados nos para-choques proclamando, entre outros sonhos otimistas, FAÇA AMOR, NÃO FAÇA GUERRA . Tom era um professor de artes aposentado que usava um colar de cânhamo e jeans esfarrapados e manchados de tinta. O cabelo de Carlotta, comprido e grisalho, chegava quase à cintura, uma sombra, eu suspeitava, de quando era mais jovem

e mais sexy. Poucos dias depois do retorno ao Horário do Relógio, uma nova placa apareceu num canto do gramado na ente da casa deles. Era pequena e branca, no estilo da que havia no jardim do sr. Valencia, alertando aos passantes que aquela casa estava protegida pelo Sistema de Segurança Safelux. A placa de Tom

e Carlotta trazia uma mensagem diferente: ESTA CASA SEGUE O TEMPO REAL. “Minha mãe acha que eles são traficantes de drogas”, disse Gabby, cuja casa ficava bem ao lado da deles. Sua mãe, uma advogada, circulava estalando os saltos altos, em terninhos azul-marinho. “Ela acha que eles plantam maconha em casa.” “Você também acha?”, perguntei. Eu tinha dado uma passada na casa de Gabby naquele sábado por não ter mais nada para fazer. Estávamos no quarto dela. “É uma bobagem total, claro”, ela respondeu. “Minha mãe pensa que todo mundo que é diferente é criminoso.” Duas crostas haviam se formado no pulso direito de Gabby, na forma de um sol e de uma lua crescente perfeita. Quando viram as cicatrizes, seus pais a mandaram a um psiquiatra, com quem agora ela tinha consultas semanais. “Adivinha só”, ela continuou. “Conheci um cara na internet que acha que vai acontecer uma revolução.” “Como assim?”, perguntei. “Ele acha que milhões de pessoas vão en entar o governo por causa desse negócio do Horário do Relógio.” Enquanto o resto de nós comprava lâmpadas ultravioletas e instalava cortinas blecaute para conseguir dormir nas noites brancas, vários milhares de americanos tentavam permanecer em sincronia com a luz do dia. O corpo humano podia se adaptar ao ritmo da Terra, argumentavam. Seu próprio ritmo de vinte e quatro horas já se ajustava, eles relatavam, esticando gradualmente, feito um elástico. Eles simplesmente dormiam mais, ficavam acordados por mais horas, faziam uma quarta refeição no final da tarde. Eu costumava ouvir os barulhos de Tom e Carlotta lá fora, às vezes no meio das nossas noites. Eles mexiam no jardim enquanto o resto da rua tentava dormir nas noites de sol. Lembro-me do tilintar metálico das tesouras de jardinagem, do arrastar de sandálias na calçada, das vozes cruzando o ar tranquilo. Era como uma assombração: duas dimensões do tempo ocupando o mesmo espaço.

Nas aulas de ciências daquela semana, as borboletas saíram dos casulos. Aconteceu na quinta aula, a última do dia, mas o sol estava apenas começando

a subir. Tínhamos aprendido que as borboletas quase sempre nascem na parte da manhã.

“Estão vendo?”, disse o sr. Jensen, com a caneca de café na mão. “Não dá para enganá-las. Elas sabem que é de manhã.” Assistimos às borboletas saindo e se agitando, depois voando para o céu. Sabíamos, claro, algo que elas não sabiam: que suas vidas seriam breves e difíceis. Lembro que os olhos do sr. Jensen estavam vermelhos e lacrimejantes naquele dia. Ele parecia exausto, seu rabo de cavalo estava mais desgrenhado do que o normal, sua barba, um pouco mais revolta. Na segunda-feira seguinte, ao chegar à aula de ciências, encontramos atrás da mesa de metal do sr. Jensen uma moça de terninho cinza. Ela tinha escrito seu nome na lousa: srta. Mosely. Uma substituta. “Por um tempo”, ela disse. “Provavelmente pelo resto do ano.” Isso acontecia às vezes — as pessoas simplesmente desapareciam. Algumas das coisas do sr. Jensen ficaram no laboratório: sua garrafa térmica de inox, um par de botas enlameadas, um blusão azul enfiado numa prateleira. Alguns de nossos relógios de sol continuariam no parapeito da janela até junho, sempre indicando horários malucos. Um dos casulos de borboleta permaneceu fechado, tranquilamente, no terrário, e sua moradora jamais sairia de lá, porque, semanas mais tarde, a srta. Mosely o removeu do teto com um bisturi e o jogou no lixo junto com os cacos de um recipiente quebrado. Não fomos informados da razão da partida do sr. Jensen. Mas espalhou-se o boato de que ele se transformara num adepto do tempo real. E, ao contrário de rumores anteriores, segundo os quais o professor passava as noites num saco de dormir debaixo de sua mesa, senti que esse novo rumor era verdadeiro.

Nunca mais vimos o sr. Jensen, mas eu ainda via Sylvia na nossa rua. Ela logo perdeu a maioria dos alunos, o que me deixou preocupada. Mas parecia bem alegre à distância, sempre acenando para mim da entrada de sua casa, enquanto descarregava do carro sacos de lona da loja de alimentos orgânicos ou saía para correr, seu cabelo vermelho flutuando na brisa atrás dela. Mas eu sabia que sua vida, naqueles dias, devia estar complicada. Afinal, quase tudo obedecia aos relógios. Não apenas as escolas, mas os médicos, os dentistas, os mecânicos, os supermercados, as academias, os restaurantes, os cinemas e os shoppings. Inevitavelmente, Sylvia e os demais adeptos do tempo real precisaram ajustar certos aspectos de suas vidas às nossas — ou então simplesmente não teriam tudo isso. E deve ter se tornado mais difícil a cada semana que passava, com a Terra em ritmo cada vez mais lento e os dias cada vez mais longos.

13

Nas primeiras semanas do Horário do Relógio, as vendas de pílulas para dormir tiveram um pico. Os fabricantes de cortinas blecaute não conseguiam vencer a demanda. Máscaras de dormir ficaram meses em falta. Houve uma corrida por raízes de valeriana e outros remédios naturais para distúrbios do sono. Alguns mercados ficaram sem chá de camomila. As vendas de álcool e cigarros também aumentaram. E há alguma evidência de que o Horário do Relógio estimulou grandes negócios no setor de drogas mais pesadas também. Os departamentos de polícia das cidades relataram aumentos acentuados no preço de qualquer coisa capaz de derrubar uma pessoa. Em algumas partes do país, houve quem passasse a dormir em porões nas noites brancas com maior claridade, mas a maioria das casas na Califórnia fora construída sem eles, o que nos obrigava a ficar na luz. Algumas noites nos relógios ainda coincidiam com a escuridão, claro, mas um alinhamento perfeito era raro. Sempre que havia uma noite completa sem luz dormíamos tanto quanto possível. Mas nunca era suficiente. Éramos como andarilhos no deserto, abençoados com uma chuva rara, mas sem poder estocar a água.

Minha mãe nunca dormiu com facilidade. A insônia corria em suas veias. No Horário do Relógio, ela só conseguia descansar quando estava realmente escuro. Tarde da noite, nas noites claras, eu costumava ouvi-la na cozinha, a chaleira assobiando, o som abafado da televisão em um volume baixo. Às vezes ela passava a noite toda limpando os banheiros, e o cheiro de pinho e alvejante se infiltrava por baixo da porta do meu quarto. Eu também ficava acordada em algumas dessas noites. O contorno fino de um quadrado de luz brilhava nas bordas das colchas afixadas para cobrir as janelas do meu quarto. Mas a gente sempre sabia quando era dia lá fora. Simplesmente sabia. Meu pai, por outro lado, dormia bem. Ele comprou todo o tipo de quinquilharia para os problemas da minha mãe. Um dispositivo especial, parte luz ultravioleta, parte despertador, supostamente imitava o efeito do pôr do sol, com uma lâmpada que se apagava lentamente. O novíssimo aparelho de som à cabeceira emitia os sons suaves de ondas do mar e cachoeiras, da brisa farfalhando nas árvores. Mas nada funcionava para minha mãe.

Não sei como ela ficava acordada para dar aula ou comandar os ensaios da produção de Macbeth. A pele sob os olhos dela tinha se tornado uma sombra cinzenta. E ela chorava pelas coisas mais ínfimas. “Não sei por que estou chorando”, dizia, enquanto recolhia uma taça de vinho quebrada ou es egava o dedo do pé depois de uma topada. Enxugava os olhos com as costas dos punhos. “Não estou chateada, na verdade.” Certa vez, eu a peguei soluçando no banheiro, debruçada sobre um asco de base que se espatifara no azulejo branco, o conteúdo sangrando lentamente pelo chão. Ela arqueava e tremia a espinha dorsal ao chorar. Era a vigésima hora de luz daquele dia.

Enquanto isso, os pássaros continuavam a so er. Eu nunca tinha pensado sobre quantos deles viviam entre nós até que começaram a despencar do céu. Certa vez, um bando inteiro de estorninhos aterrissou para a morte numa rua perto da nossa escola. O tráfego foi desviado, enquanto uma equipe especial retirava os cadáveres. Moscas ficaram por ali durante horas. Quando, numa tarde escura, descíamos do ônibus escolar, encontramos um pardal pequeno, moribundo, no meio da calçada. Alguns se agacharam em torno dele, o ônibus já se afastando. O passarinho respirava, mas, fora isso, permanecia imóvel. Inclinei-me para tocar as costas do pardal. Fiz-lhe o mais delicado dos carinhos. Podia sentir a sombra das outras crianças perto de mim, de pé, observando. “Talvez ele precise de água”, disse alguém atrás de mim. Fiquei surpresa ao ouvir a voz de Seth Moreno. Normalmente ele se afastava em seu skate assim que descia do ônibus. “Alguém tem água?”, perguntou Seth. “Eu tenho.” Puxei da mochila uma garrafa pela metade, feliz porque, naquele momento, pude dar a Seth exatamente o que ele queria. Nossos dedos roçaram quando lhe entreguei a garrafa. Ele pareceu não notar. Trevor sacrificou o estojo de seu aparelho dentário, que Seth encheu de água para dar ao pássaro. Olhamos para o pardal. Esperamos. Ele continuava a respirar, um tremor ligeiro e irregular, mas não fez menção de alcançar a água. Não fez nenhum movimento. O sol se punha às nossas costas, e a luz alaranjada brilhava cintilante em suas penas. Observei Seth enquanto ele observava o pássaro. Estava a apenas alguns centímetros de distância de mim, mas eu sentia como se houvesse um abismo enorme entre nós. Não conseguia imaginar o que ele estava pensando. Então Daryl chegou apressado à rodinha. Talvez a ritalina em suas veias fosse incapaz de aplacar seus desejos. Pegou o passarinho, deu meia-volta com ele na

mão e saiu correndo. “Daryl”, gritamos todos. “Pare!” Seth correu atrás dele, na direção da beirada do cânion, a toda a velocidade. Tudo aconteceu rapidamente: antes de Seth poder alcançá-lo, Daryl jogou o braço para trás como um arremessador de beisebol e atirou a ave ao céu, para além da ponta da ribanceira. Aquela foi uma época da minha vida em que todos os dias aconteciam coisas que teriam parecido impossíveis um dia antes — e essa foi mais uma delas. Ainda me lembro da longa elipse traçada pelo pássaro no céu. Fiquei esperando que suas asas se abrissem e ele pegasse o embalo do vento. Mas caiu no cânion feito uma rocha. “Vai se foder, Daryl”, gritou Seth. “Ele já estava morrendo mesmo”, disse o garoto. Foi quando Seth arrancou a mochila de Daryl com um puxão e a atirou para o cânion na mesma direção do pássaro. Assistimos à mochila subindo no ar, depois caindo, suas alças esvoaçantes na queda, exatamente como acontecera com o pássaro. Daryl parou na beirada do vale por um momento, olhando para baixo. Fiquei muito grata a Seth. Tentei pensar em algo para dizer, mas ele saltou sobre o skate e voou, fazendo decidido a curva que o levaria de nossa vista. Logo o resto do pessoal se dispersou também. A cada dia nos acostumávamos mais aos pequenos horrores da vida. Não havia o que fazer senão voltar para casa. Mais ou menos por esses dias, soubemos que o câncer da mãe de Seth havia se espalhado para os ossos, e ele parou de ir à escola. Ouvi dizer que ela morreu em casa, em uma longa noite branca. Escrevi uma mensagem de pêsames em uma página do bloco de anotações de aula da minha mãe — na capa, brilhava A noite estrelada, de Van Gogh. Queria comunicar algo importante e direto. Mas logo estava riscando tudo que tinha escrito e puxando um novo cartão da caixa de materiais de escritório. Dessa vez escrevi uma única ase, com apenas duas palavras: Sinto muito. Assinei e coloquei no correio.

14

Lá pelo final de novembro, nossos dias já duravam quarenta horas. Foi uma época de extremos. O sol brilhava por mais tempo cada vez que aparecia, cozinhando nossa rua até o chão ficar quente demais para que se pudesse andar descalço. Minhocas itavam nos quintais. Margaridas murchavam em seus canteiros. E os períodos de escuridão, quando chegavam, eram tão lentos quanto os de luminosidade. Durante as vinte horas da noite, o ar ficava io como a água do fundo de um lago. Por toda a Califórnia, uvas congelavam nas parreiras, laranjais secavam na escuridão, abacates escureciam sob as geadas. Dezenas de biosferas experimentais foram desenvolvidas para o cultivo de produtos essenciais, e as sementes de cerca de mil espécies mais ágeis foram levadas para um banco de sementes na Noruega. Alguns cientistas se esforçavam para prever a velocidade futura da desaceleração e mapear seus efeitos em cadeia, enquanto outros argumentavam que o mundo ainda poderia voltar ao normal. Mas alguns não arriscavam dizer absolutamente nada, comparando essa nova ciência à previsão de terremotos ou tumores cerebrais. “Será que vamos acabar como os pássaros?”, questionou um velho climatologista entrevistado no jornal da noite. Seus olhos escuros se aninhavam em dobras espessas de pele manchada de sol. “Pode ser”, ele disse. “Eu não sei.” Mas o efeito da adrenalina, como o de qualquer outra droga, passa. O pânico, como qualquer inundação, tem que ceder. Seis ou sete semanas após o início da desaceleração, certo tédio se instalara. A contagem diária de novos minutos desapareceu das primeiras páginas dos jornais. E as reportagens de TV sobre o assunto mal se destacavam em relação às notícias ruins e corriqueiras que, amplamente ignoradas, jorravam em nossas salas.

As poucas pessoas que haviam rejeitado o Horário do Relógio seguiam em ente, vivendo como brotos de feijão, reagindo à luz do sol quando ele aparecia e adormecendo sempre que a parte da Terra em que moravam entrava na escuridão. Àquela altura, os adeptos do tempo real já pareciam muito diferentes de nós, e seus hábitos eram incompatíveis com os nossos. De maneira geral, eram considerados aberrações. Não nos misturávamos. Naquele ano, os poucos que moravam na nossa rua foram deixados de fora

da lista de convidados para a festa comunitária da primavera, realizada anualmente no final da rua sem saída, na véspera do Dia de Ação de Graças. Panfletos foram deixados em todas as portas, menos nas deles. Mais tarde, naquela mesma semana, o alvorecer revelou uma centena de tiras de papel higiênico penduradas na oliveira em ente à casa de Sylvia. Com a casa de Tom e Carlotta acontecera o mesmo. Assisti do meu quarto enquanto Sylvia cuidadosamente retirava o papel de suas roseiras. Ela descansou por um instante, com as mãos nos quadris, olhando em volta por debaixo da aba larga do chapéu de palha, como se os culpados pudessem ainda estar à espreita nas proximidades. Ela pegou uma escada na garagem, mas mesmo assim não conseguia alcançar todo o papel higiênico. Durante semanas, pedaços esfarrapados continuaram alojados nos galhos mais altos. A família Kaplan acabou sendo excluída. Eles tentaram manter em segredo que viviam dessincronizados do relógio por conta do sabá, respeitado entre um pôr do sol e o seguinte a cada sete dias. Mas, uma vez que a notícia se espalhou pela vizinhança, Beth, a filha mais velha, nunca mais foi chamada a tomar conta do bebê dos Swanson. E passamos a conviver com a família ainda menos do que antes. Enquanto isso, eu passava um tempão observando Sylvia pelo telescópio. Nas noites brancas, via como ela molhava suas rosas à meia-noite ou colocava macarrão numa panela às três da madrugada. Às vezes ela saía andando sozinha no meio da noite silenciosa. Parecia ainda mais isolada do que os demais adeptos do tempo real. Estava sempre sozinha. Algumas vezes, quando não conseguia dormir, eu a observava tocando piano. Estava certa de que podia detectar certa tristeza persistente na leve curvatura de seus ombros ao tocar e em como parecia sustentar a própria cabeça com dificuldade. Ela parecia solitária através das lentes do meu telescópio, como uma daquelas estrelas distantes, ainda visíveis aos nossos olhos, mas que na verdade não estavam mais lá. Sylvia parecia ainda mais solitária do que eu.

Certos desastres se transformavam em atrações. De vez em quando, meu pai e eu íamos de carro até a costa para ver o que o mar tinha feito com as casas à beira dele, evacuadas desde que a desaceleração, misteriosamente, fizera subir as marés. Na maré alta, as ondas quebravam sobre os telhados, cujos contornos formavam uma linha costeira geométrica. Mergulhadores vasculhavam secretamente seus interiores em busca de tesouros. Na maré baixa, aquelas mansões pingavam e rangiam, como navios nau agados em exposição. Eram casas magníficas, de estrelas de cinema e milionários. Mas o oceano as havia feito envelhecer em alta velocidade. Todas as janelas tinham sido arrebentadas e, um dia, os cacos na areia, arredondados no constante vaivém de água,

acabariam se misturando às conchas. As praias estavam fechadas desde o anúncio da desaceleração. Mas meu pai gostava de se aventurar na maré baixa.

“Vamos lá”, ele disse num domingo, vendo-me hesitante à entrada da garagem de um chalé abandonado. Dezenas de metros de fita de isolamento da polícia se agitavam ao vento. Não havia mais ninguém por perto. Até as gaivotas tinham desaparecido, exterminadas pela doença.

A casa era enorme. A amurada tinha sido deformada pela água e a porta da

ente, arrancada. Dentro, a maior parte das coisas tinha sido levada pelas

ondas. Tudo era cinza. Uma parede inteira estava faltando, de modo que a sala dava para o mar, como uma garagem aberta. “Veja isto aqui”, disse meu pai. Ele estava agachado no carpete encharcado, observando caranguejos se enterrarem na lama que se acumulara ali. “Quer pegar um na mão?” Ele parecia um catador de moluscos, com as calças arregaçadas até os joelhos. “Não, obrigada”, eu disse.

A maré, extremamente baixa, levara a água centenas de metros para fora da

praia naquela manhã. Dava para ver que começava a voltar. Pequenas ondas começavam a alcançar o que restara da varanda dos fundos. “A maré está subindo”, eu disse. “Temos tempo”, respondeu meu pai. “Vamos.”

Aquela casa estava cheia de vida. Estrelas-do-mar se agarravam à bancada de granito e anêmonas viviam nas pias. “Cuidado com o degrau”, disse meu pai enquanto percorríamos um corredor.

O chão estava repleto de troncos, algas marinhas e vidro.

“Estive nesta casa uma vez, anos atrás”, ele contou. Apertava os olhos à luz do sol. Só recentemente eu havia notado a quantidade de rugas que tinham se

formado ao redor dos olhos dele quando sorria. “Vim numa festa de Natal aqui com uma ex-namorada. Era a casa dos pais dela.” Uma onda espumosa invadiu o quarto. Logo ficamos com água pelos tornozelos. Minhas sandálias pesavam por causa da água fria. “Pai, por favor”, eu disse, olhando para trás no corredor. Uma camada de água branca rodopiou no piso de madeira. Pouco tempo antes, dois adolescentes tinham se afogado exatamente daquele jeito, numa das casas que ficavam mais para cima, na costa. “A gente pode ir agora?” “Tinha uma enorme árvore de Natal bem aqui”, apontou meu pai, movendo ambas as mãos para indicar a largura. Ele estava quase gritando agora, para conseguir ser ouvido por cima do barulho da água. “E um piano grande ali. Nós quase nos casamos, aquela garota e eu. Isso foi antes de eu conhecer sua mãe, é claro.”

A água subia a cada nova onda. Uma garrafa plástica apareceu, à deriva, no

quarto. “Pai,” eu disse. “É sério.” “Você vai ver, quando for mais velha”, ele continuou. “Não vai acreditar como os anos passaram rápido. Eu me sinto exatamente como era quando estive aqui, mas isso foi há vinte anos.” A maré tinha subido até a altura das minhas panturrilhas. Eu sentia o forte empuxo da água contra minha pele, e isso me assustava. “Podemos ir agora, por favor?”, repeti. “Está bem”, ele disse. “Vamos embora.” Chapinhamos juntos o caminho de volta, até a entrada para carros. Meu pai avistou uma gaivota quando subíamos para a estrada. “Veja”, ele disse, apertando os olhos. Fazia semanas que não víamos um pássaro vivo. Parecia mesmo incrível, àquela altura, que em algum momento tivesse existido uma criatura capaz de voar. Meu jeans estava colado nas minhas coxas. O carro inteiro fedia a água salgada. “Você costumava ser muito mais corajosa, sabia?”, disse meu pai, ligando o motor. “De verdade. Está começando a ficar medrosa como sua mãe.” E ele estava certo: eu havia me transformado numa pessoa amedrontada, numa menina permanentemente na defensiva contra catástrofes grandes e pequenas, contra as decepções que agora sentia à espreita ao nosso redor, bem à vista de todos.

15

Aconteceu na escuridão: faróis em varredura, portas de carro fechando depressa, luzes vermelhas piscando silenciosamente no fim da rua. Da minha janela, vi três policiais estacionarem seus carros numa fila torta em ente à casa de Tom e Carlotta. De início, por alguma razão, tive medo de que alguém tivesse sido assassinado. Pelo meu telescópio, vi a mãe de Gabby de terninho, braços cruzados e rosto iluminado pelas luzes vermelhas, parada na entrada da garagem enquanto observava o que acontecia na casa ao lado. Ajoelhei-me no tapete e esperei. Minutos se passaram. Eram quatro da tarde no Horário do Relógio, mas, pelo relógio da natureza, era o meio da noite. O céu estava negro, mas iluminado pela lua em sua forma mais delgada e delicada. Os grilos zumbiam, um cachorro latiu, a brisa agitava os eucaliptos. Por fim, uma mulher de branco, com a aparência de um fantasma, saiu da casa: era Carlotta, de camisola, o cabelo comprido e grisalho solto sobre os ombros. Dava para ver um dos oficiais andando ao lado dela, levando-a pelo braço. Tom seguia atrás, arrastando-se, com os cabelos brancos desgrenhados de quem estivera dormindo. Os dois haviam sido algemados. Só mais tarde os detalhes do crime foram revelados à vizinhança. No dia seguinte, uma equipe da polícia passou três horas tirando dezenas de vasos de plantas da casa rústica de Tom e Carlotta e colocando-os num enorme caminhão branco. As plantas eram ondosas e verdes, anormalmente saudáveis. Haviam passado sua existência inteira recolhidas, nutridas por lâmpadas ultravioletas que, soubemos depois, eram alimentadas pelos painéis solares que brilhavam nos desníveis do telhado. Policiais iam e vinham pelo gramado, empacotando tudo o que podiam, até o monte de compostagem, retirado com uma pá para dentro de sacos pretos bem grandes. Quando terminaram o serviço, notei que a pequena placa no jardim havia sido arrancada e agora exibia sua mensagem para o céu: ESTA CASA SEGUE O TEMPO REAL. Segundo o boato que circulou após as prisões, Tom e Carlotta cultivavam maconha havia anos. Mas, pouco tempo antes, a polícia recebera uma denúncia anônima de um vizinho. Dado o momento da denúncia, é inevitável imaginar se a pessoa responsável não foi motivada, ao menos em parte, pela escolha de modo de vida de Tom e Carlotta. Não havia como disfarçar: os adeptos do tempo real faziam as demais pessoas se sentirem desconfortáveis. Eles muitas vezes dormiam enquanto trabalhávamos. Saíam de casa quando todo mundo estava dormindo. Eram uma ameaça à ordem social, diziam alguns, os

primeiros desmoronamentos de uma desintegração que viria a seguir. Eu me preocupava cada vez mais com Sylvia. Enquanto isso, um fluxo de adeptos do tempo real havia começado a abandonar as cidades e os subúrbios. Alojavam-se em massa em comunidades improvisadas nos desertos e nas florestas do país. Naqueles primeiros dias, eram uma pequena minoria pouco organizada, uma sombra dispersa de sociedade, os primeiros ativistas de um movimento.

16

No início de dezembro, três semanas antes do Natal, os dias já duravam quarenta e duas horas. Mudanças tinham sido detectadas nas correntes dos oceanos. Geleiras estavam derretendo ainda mais rápido do que antes. Alguns vulcões havia muito adormecidos recomeçaram a borbulhar e fumegar. Havia relatos de que baleias que geralmente migravam estavam deixando de fazê-lo, permanecendo nas águas ias do norte. Uns poucos especialistas diziam que nos restavam apenas alguns meses de vida, mas eram sumariamente rejeitados como extremistas — como se nada tão extremo pudesse ser verdade. Mas as luzes coloridas de Natal piscavam como de costume nas fachadas do bairro, e o sr. Valencia havia instalado em seu gramado a mesma reprodução em tamanho real e com movimentos da cena da manjedoura, como todos os anos nessa época. Florestas de árvores de Natal brotavam nas feiras e nos estacionamentos dos mercados. Todas as canções tradicionais ecoavam pelos

corredores de farmácias e shoppings, em meio a preocupações sobre o vigor da temporada de compras natalinas. Minha mãe e eu passamos uma tarde inteira assando biscoitos açucarados no formato de enfeites de Natal.

bom fazer algo normal”, ela disse, enquanto abria a massa com um grosso

rolo de macarrão. Uma mecha de cabelo escuro ficava caindo de trás de sua

orelha. Fiquei feliz que o cabelo da minha mãe tivesse voltado ao tom normal novamente. Ela o havia tingido afinal, encobrindo todos os fios brancos.

“É

O Natal tinha deixado minha mãe mais alegre. Mas senti que havia certo

exagero em seu interesse, naquele ano, pela escolha da árvore ideal, pela colocação dos enfeites, pela preparação dos presentes, pela checagem diária do calendário do advento. Sob esse bom humor havia uma corrente de medo, como se realizássemos cada um daqueles nossos rituais anuais pela última vez. Eu sentia isso na maneira como ela não parava de alisar a toalha da mesa de jantar preparada para o feriado, no fato de ela ter colado um pote de porcelana com desenhos de Papai Noel que permanecera quebrado no armário por anos, na forma como se agachou no chão para procurar, numa prateleira bem baixa, as bolinhas prateadas que usávamos, todos os anos, como confeito, mas que não eram mais fabricadas. “As coisas mudam”, ela comentou. “Mas nem tudo precisa mudar.” Quando a última remessa de biscoitos saiu do forno, enchemos uma lata inteira para meu avô e, então, dividimos o resto para entregar a professores e amigos. “Vamos levar um pouco para Sylvia também”, eu disse, apoiada no balcão,

com um pedaço da massa amanteigada dissolvendo em minha boca. A última fornada de estrelas esfriava. “Acho que não”, respondeu minha mãe. Ela embalava cada conjunto de biscoitos em papel celofane verde e vermelho, os dedos trabalhando com cuidado para preservar a cobertura branca. “Por que não?”, eu quis saber. “Não é uma boa ideia.” Os dois gatos de repente surgiram na porta da cozinha e começaram a arranhar furiosamente o vidro. Gostavam de doces, e não os deixávamos entrar

até que as tigelas tivessem sido lavadas, os cortadores de biscoito estivessem limpos e as bisnagas de confeiteiro tivessem sido esvaziadas e guardadas. “Mas por quê?”, perguntei de novo. “Não fizemos biscoitos o suficiente para dar a todos os nossos conhecidos.” Minha mãe não havia me proibido de falar com Sylvia ou com qualquer outro dos adeptos do tempo real. Isso nunca foi dito explicitamente. Mas não era necessário. Eu sabia muito bem que devia manter distância deles, de Sylvia especialmente. E, na maior parte do tempo, foi exatamente o que fiz. Mas eu estava com pena de Sylvia e, por isso, mais tarde naquele dia, quando

o forno já tinha sido desligado, a cozinha estava limpa e minha mãe dormia no

sofá, peguei um pacote da despensa, passei uma fita vermelha em volta e saí. Esperei um tempão na porta da casa dela, até que, finalmente, a maçaneta

girou e a porta se abriu, revelando, recostada ao batente, uma Sylvia sonolenta usando um roupão de seda roxo, magra como uma bailarina e com o cabelo puxado para trás num coque ruivo ouxo. Era quase hora do meu jantar, mas

o sol estava alto no céu, naquela manhã do dia natural.

“Feliz Natal”, eu disse, e entreguei os biscoitos. “É muita gentileza, Julia”, ela respondeu, numa voz à qual eu não estava acostumada, arranhada, profunda e grave. “Desculpe”, ela disse, e então ficou

um bom tempo pigarreando. “Desculpe. É que ainda não falei com ninguém hoje.” Para mim, era mais uma prova do quanto ela andava sozinha, como se, por estar durante muito tempo isolada de outros seres humanos, a pessoa não só não tivesse necessidade de falar, mas talvez nem conseguisse. Pareceu-me que mesmo seus movimentos, assim como seus dias, tinham se

tornado lentos, o pulso sem pressa que se erguia para afastar um fio de cabelo,

a maneira ponderada como movia a cabeça para cumprimentar. Então me dei

conta de que estava vivendo quase dois dias para cada um dela. Com o tempo, se continuasse assim, Sylvia ficaria meses atrás de nós, depois anos. Olhei por cima do ombro dela, para o interior da casa. “Você não tem uma árvore de Natal?”, perguntei. “Ah”, ela disse. “Não tive disposição de lidar com isso este ano.” O sino feito de conchas balançou suavemente acima da minha cabeça.

“Obrigada mais uma vez”, ela disse, fechando a porta. “Cuide-se, Julia. E lembre-se de praticar piano.”

Alguns dias depois, um caminhão de entrega estacionou em ente à casa de Sylvia. Dois jovens com grossas luvas verdes abriram a porta de trás e retiraram uma árvore de Natal, que cautelosamente desceram por uma rampa. Era de verdade. Vinha num vaso de terracota e deveria ser plantada no quintal depois de usada. Sylvia colocou sozinha a árvore para dentro. Posicionou-a junto à janela da sala e a deixou lá, apagada e sem decoração. Mas parecia melhor do que nada. A casa ficou com uma aparência um pouco menos triste. Nesse mesmo dia, Tom e Carlotta voltaram para casa, soltos após o pagamento da fiança. Eles estavam aguardando julgamento. “Quanto tempo eles vão ficar na cadeia?”, perguntei aos meus pais naquela noite. Meu avô tinha ido jantar com a gente. “Depende”, disse minha mãe. “Provavelmente um bom tempo.” “O que eles fizeram?”, quis saber meu avô. E tomou um gole de leite, trêmulo. “Deviam deixar aqueles coitados em paz”, disse meu pai. Era seu dia de folga, mas ele estava bem-vestido: barba feita, camisa de colarinho. “Ainda não sei o que eles fizeram”, disse meu avô, mais alto do que antes. Ele pôs uma grande garfada de salmão na boca e olhou para mim, esperando uma resposta enquanto mastigava. “Você sabe, Julia?” “Drogas, Gene”, disse minha mãe. “Eles estavam cultivando drogas.” Meu avô tossiu e cuspiu alguma coisa no guardanapo. Então ergueu uma pequena espinha, fina como um filamento, contra a luz. “Estavam fazendo mal a alguém?”, meu pai perguntou. “Você não viu o tanto de maconha que tiraram daquela casa”, disse minha mãe. Ela estava olhando para mim. “É ilegal.” Meu pai enfiou o resto do salmão na boca sem levantar a cabeça. Minha mãe se serviu de um copo de vinho tinto. Nossa árvore de Natal cintilava ali ao lado, e, no silêncio que se seguiu, pude ouvir o funcionamento interno daquelas luzes, um clique metálico quase imperceptível. Depois de levar meu avô em casa, meu pai foi chamado às pressas ao trabalho: um parto complicado, e o hospital estava com falta de pessoal. Minha mãe e eu ficamos sentadas no sofá por um tempo assistindo a um programa de televisão sobre uma das últimas tribos não contatadas da Amazônia. Os índios haviam se rendido, pouco tempo antes, às autoridades brasileiras nos confins da floresta, convencidos de que aqueles homens, os brasileiros, detinham não apenas o poder de voar — fazia décadas que aviões cortavam os céus da tribo —, mas também o domínio sobre o Sol e a Lua. Minha mãe se reacomodou debaixo dos cobertores. Era uma noite escura. A

casa estava fria. “Acho que nós devíamos conversar mais”, ela disse. Congelei no meu lugar. “Como assim?”, perguntei. Ela apontou o controle remoto para a televisão e o volume foi diminuindo. “E os meninos?”, perguntou. “O que é que tem?”, retruquei. Ela olhou para mim, e eu desviei o olhar. Uma vela de Natal com cheiro de canela estava acesa na mesa de centro, então mantive os olhos na chama. “Nunca ouço você falar sobre os meninos da escola.” “Por que eu falaria sobre eles?”, perguntei. Eu não via Seth Moreno já fazia algum tempo e tinha medo de que ele pudesse ter ido embora para sempre. Michaela ouvira falar que, depois da morte da mãe, ele e o pai tinham se mudado para uma colônia de adeptos do tempo real. “Você conversa com os meninos?” “Mãe”, eu disse. “Você está pirando.” “Gosta de algum deles?”, ela pressionou. As pessoas estavam fazendo coisas malucas ao redor do mundo. Todos se permitiam correr novos riscos, grandes riscos. Mas eu não. Fiquei quieta. Sabia guardar muito bem os meus segredos. “Estou muito cansada”, eu disse. “Vou para a cama.” “Espere”, disse minha mãe. “Fique aqui comigo mais um pouco. Podemos falar de outra coisa.” Ela fez uma pausa. “Por favor.” Eu não conseguia mais lembrar como eram os olhos da minha mãe antes da desaceleração. Será que sempre tinham sido tão avermelhados ao redor das bordas? Certamente as bolsas cinzentas sob os cílios inferiores eram novas. Ela ainda não estava dormindo bem, mas talvez fosse apenas a idade, uma mudança gradual que, até então, eu não percebera. Às vezes, eu pensava em ver fotografias recentes dela, para localizar o exato momento em que começara a parecer tão cansada. Alguns dos adeptos do tempo real insistiam que o tempo os afetava de forma diferente daquela que afetava o resto de nós, que os corpos envelheciam mais lentamente no tempo real em relação ao Horário do Relógio. A ideia foi criando raízes em Hollywood, e virou um tratamento antienvelhecimento conhecido como Cura pelo Tempo Lento. Tinha algo a ver com o metabolismo. Eu às vezes me perguntava se esse tratamento não funcionaria com a minha mãe. Mais tarde, quando finalmente subi para o quarto e olhei pela janela, fiquei feliz de ver que Sylvia tinha decorado a árvore de Natal. Dezenas de pequenas luzes brancas agora brilhavam nos galhos. As cortinas estavam fechadas, mas não totalmente. Com meu telescópio, eu

podia ver pela esta que ela estava lá dentro. Sylvia era uma saia esvoaçante, uma boca aberta, um vestígio de cabelo cor de morango passando pela janela. E dessa vez não estava sozinha: um braço masculino oscilou brevemente no campo de visão, a manga arregaçada até o cotovelo. Vi quando ele pousou uma estrela de prata reluzente no topo da árvore. O homem passou o braço ao redor da cintura fina dela. Eles deram um beijo rápido. Fiquei aliviada por vê-la sorrir. Fora, só havia o carro dela na entrada da garagem, como se aquele homem tivesse surgido do nada, simplesmente aparecido na sala em um passe de mágica. Observei-os por mais um momento. E então aconteceu: percebi, quando ele se voltou, que conhecia a boca daquele homem. Conhecia o ângulo acentuado da mandíbula, a linha longa do penteado. E reconheci sua camisa azul — ainda me lembrava bem de quando, no Dia dos Pais, em um restaurante, ela saiu da caixa prateada da loja de departamentos novinha, engomada e dobrada, onde havia também um cartão roxo, feito por mim.

17

Cinco mil anos de arte e superstição poderiam sugerir que a escuridão nos assombra mais, que à noite a mente humana fica mais suscetível a perturbações. Mas dezenas de experimentos realizados depois da desaceleração revelaram que, na maior parte dos casos, não é a escuridão que mexe com nosso humor — é a luz. À medida que os dias aumentavam em duração, en entamos um fenômeno novo: alguns dias começavam e terminavam, nos relógios, sem que o sol chegasse a nascer — ou começavam e terminavam antes que o sol pudesse se pôr. Os cientistas havia muito sabiam dos efeitos negativos da incidência da luz do dia prolongadamente sobre a química do cérebro humano. Taxas de suicídio, por exemplo, sempre foram mais altas acima do Círculo Ártico, onde o número de ferimentos autoinfligidos por arma de fogo aumentava a cada verão, quando a constante luz do dia levava algumas pessoas à loucura. Com os dias se aproximando da duração de quarenta e oito horas, quem vivia em latitudes mais baixas, como nós, começou a so er com essa exposição à luz implacável. Estudos logo registraram um aumento da impulsividade durante aqueles longos períodos de luz. Tinha algo a ver com a serotonina — ficávamos todos um pouco loucos. Jogos de azar on-line eram cada vez mais acessados ao longo de qualquer período de luz diurna, e há evidências de que negociações de ações importantes eram feitas com mais equência em dias claros do que nos escuros. Taxas de homicídio e outros crimes violentos também tinham picos quando o sol estava em nosso hemisfério. Rapidamente descobrimos os perigos das noites brancas. Corríamos mais riscos. Desejos eram menos regulados. Era cada vez mais difícil resistir às tentações. Alguns de nós tomaram decisões que, em outras circunstâncias, não teriam tomado. E gosto de pensar que foi assim que começou aquilo entre meu pai e Sylvia. Eu o imagino chegando em casa do hospital, depois da meia-noite, como sempre fazia, em uma daquelas longas noites brancas, e encontrando Sylvia de chapéu, ocupada podando o jardim ou lendo um livro no gramado, enquanto as demais pessoas tentavam dormir. Talvez ela tenha acenado para meu pai quando ele saía do carro. Talvez eles tenham conversado por um tempo. Talvez tenha havido dezenas de noites como essa, os dois apertando os olhos à luz do sol, todas as cortinas da rua fechadas porque era noite. Talvez, naquela luz

excessiva, ambos tenham sentido que podiam ser um pouco mais imprudentes do que o normal, pensar um pouco menos antes de agir. Mas nesse ponto minha mãe interromperia meu raciocínio. “Você não pode jogar a culpa de tudo na desaceleração. As pessoas são responsáveis por suas próprias ações.”

Na manhã seguinte, meu pai entrou pela porta da ente como se fosse o mesmo homem que eu sempre conhecera. Eu estava sentada à mesa, com um pote de iogurte à minha ente. Minha mãe pegava uma xícara de café. Eu não tinha contado a ela o que sabia. De início, não contei a ninguém. “Bom dia”, disse meu pai. Ainda estava escuro lá fora. O io se apressou a entrar atrás dele. Meu pai limpou os pés no capacho. Pendurou as chaves no chaveiro da cozinha. Beijou minha mãe no rosto e fez um carinho na minha cabeça. “Pronta para a prova de matemática?” ”

Eu cutucava meu iogurte para lá e para cá na tigela. Não conseguia comer. “Verdade”, ele disse. “Desculpe. Eu me confundi.” Odiei meu pai naquela hora, invadindo nossa casa de jaleco branco como se não tivesse acabado de vesti-lo, momentos antes de abrir a porta. “Como foi o trabalho?”, perguntou minha mãe. Ela parecia uma velha, sentada à mesa de roupão, sem maquiagem. “Tudo bem”, ele respondeu. Encostou-se na parede. Descascou uma laranja. Isso foi o pior: ele parecia relaxado. “Estou exausto”, disse. “Preciso dormir um pouco.” Subiu lentamente a escada, comendo a laranja no caminho, cuspindo as sementes na palma da mão em concha. Ouvi a porta do quarto se fechar. Eu estava de novo a sós com minha mãe. Não sabia para onde olhar. Ao longo de dias depois disso, um amontoado de pensamentos mágicos passou pela minha mente. Por exemplo, parecia de algum modo surpreendente que as horas continuassem a passar apesar do que eu sabia. Era quase chocante, na verdade, que o tempo não tivesse parado. Em vez disso, nossa vida continuou. Meu pai saía e chegava. Nossos corações continuavam a bater. Eu ia à escola, como de costume, esperando todos os dias que Seth Moreno voltasse. Comemoramos o Natal, e o mundo continuou a girar.

“Foi ontem”, eu disse. “Nossa

Seis dias se passaram: era véspera de Ano-Novo. Nunca entendi por que a desaceleração não afetou a órbita do planeta imediatamente ou por que, no último dia daquele primeiro ano, estávamos aproximadamente na mesma posição no sistema solar do último dia do ano anterior. A Terra completara seu giro de costume em torno do Sol, repetido

quatrocentos bilhões de vezes. Foi uma das muito poucas coisas, naquele ano, que manteve seu curso. Na véspera de Ano-Novo, o sol nasceu às três da manhã na Califórnia, e ainda apertávamos os olhos contra a luz dezenove horas mais tarde, às oito da noite, quando minha mãe girou a chave na ignição e deu ré no carro para sair da garagem. Estávamos indo para a casa do meu avô, onde eu passaria a noite para que meus pais pudessem ir a uma festa sem preocupações. “Eu podia ficar em casa sozinha”, disse. Eu levava uma mochila roxa no meu colo. “Já conversamos sobre isso”, disse minha mãe. “Só se você tivesse outro lugar para onde ir.” “Eu posso ir para a casa de Michaela”, disse. “Você sabe que não pode ir a um lugar sem um adulto responsável.” Michaela não tinha exatamente me convidado. “Você pode aparecer, se quiser”, ela havia dito no dia anterior, no treino de futebol. Seguimos para oeste, afastando-nos da costa pela velha estrada de mão dupla, sob um céu amplo e resplandecente. Era a vigésima primeira hora de luz do dia. Meu pai ainda estava no trabalho — ou ao menos era o que ele tinha dito —, mas planejava encontrar minha mãe mais tarde, naquela noite, já na festa. Íamos num carro prata, embora o relatório posterior da polícia o tenha descrito como azul. “Qual é sua resolução de Ano-Novo?”, minha mãe me perguntou quando passávamos pelo autódromo. Tínhamos brindado na cozinha antes de sair:

cidra espumante na minha taça, champanhe na dela. “Ninguém consegue cumprir resoluções de Ano-Novo”, eu disse. Passamos rápido pela lagoa, lá fora. “Você parece seu pai falando.” Ela estava entusiasmada e falante, num vestido preto sem alças. Tinha perdido peso desde o anúncio da desaceleração, e se espremia num daqueles vestidos que não usava havia anos. “Por que você está tão mal-humorada?”, ela perguntou. Eu tinha evitado meu pai durante toda a semana. Parecia perigoso pronunciar o nome dele, como se o simples estrépito do “p” de ”pai” pudesse, de alguma forma, transparecer minha raiva ou revelar o que eu tinha visto. “Uma das minhas resoluções é me preocupar menos”, ela disse. Minha mãe olhou para o próprio reflexo no espelho retrovisor. Alisou uma das sobrancelhas com um dedo. “E viver o momento.” Passamos por uma grande casa branca numa colina, onde os convidados de uma festa desembarcavam de carros caros e lavados. Dois homens de smoking entraram pela porta da ente enquanto estávamos paradas num semáforo, e uma jovem loira num vestido dourado fumava, reluzente, no jardim, o salto alto afundado no gramado.

Um carro buzinou atrás de nós. O sinal tinha ficado verde. Minha mãe não dormia desde o nascer do sol, na noite anterior, e, conforme fartos registros, longos períodos de luz podem diminuir os reflexos de uma pessoa. Alguns estudos demonstraram que o prejuízo para os sentidos é mais ou menos o equivalente ao efeito de duas doses de álcool. “Mas aqui vai minha resolução principal”, ela disse, e pressionou o pedal do acelerador. “Você está escutando?” Concordei com a cabeça. “Vou voltar a atuar.” Na curva da estrada, passamos pelo reservatório da cidade, que estava obstruído havia semanas com aves mortas. O nível da água estava mais baixo do que o normal, e algumas pessoas culpavam a desaceleração pela falta de chuva e pelas margens expostas do reservatório, revelando camadas de lama negra — por alguma razão, de forma indecorosa — e as raízes emaranhadas das árvores próximas, desacostumadas à vida fora d’água. “Estou falando sério”, ela disse. Seus brincos de cristal balançaram no ar quando ela se virou para mim. “Liguei para meu antigo agente e tudo.” Seus ombros nus cintilavam levemente à luz, por conta de um novo pó bronzeador que ela salpicara na pele. Uma mancha de batom lilás brilhava num dos dentes da frente quando ela sorria. E foi aí que me ocorreu: talvez ela já soubesse sobre Sylvia. Seguimos por alguns minutos mais. Minha mãe parou de falar. A estrada ficou mais estreita. O sol batia em nossos olhos. Lembro-me das árvores passando como chicotes na janela, os galhos negros contra o céu claro e azul. Ela descreveria depois a sensação como uma espécie de tontura, um estreitamento súbito de seu campo de visão, mas disse muito pouco na hora em que aconteceu. Esfregou a testa. Piscou os olhos com força. “Não estou me sentindo muito bem”, disse. No momento seguinte, apagou. Eu nunca tinha visto uma pessoa desmaiar. Lembro-me do súbito relaxamento do corpo, da cabeça pendendo, do modo como suas mãos abandonaram o volante. Mais tarde, estimou-se que estávamos a pouco mais de setenta quilômetros por hora.

*

Testemunhas relataram ter visto um homem barbudo, trajando um manto e alardeando as escrituras à beira da estrada. De acordo com esses relatos, um carro se aproximou vindo da direção oeste aproximadamente às 20h25. As opiniões variavam em relação à velocidade no momento do impacto, mas todos concordaram que o homem pulou de repente na ente do veículo, movido pela tentação de um suicídio ou de um milagre. Seis outros carros haviam conseguido desviar dele. O nosso era o sétimo.

Só o vi por um instante, ao mesmo tempo que tentava alcançar o volante, de repente fora do controle da minha mãe, de modo que não posso ter certeza se me lembro corretamente, mas dizem que o tempo anda mais lento nas horas de perigo — a gente enxerga mais. De qualquer forma, recordo o seguinte: o olhar do homem no momento em que sua expressão mudou de uma espécie de certeza para medo, e em seguida a reação animal — no último momento, ele se virou e recolheu os braços em torno da cabeça. Lembro-me do ruído seco no capô e dos pneus gritando quando minha mãe voltou a si e pisou no eio — ela ficou apagada por menos de dez segundos. Seu rosto ganhou vida de novo rapidamente. Meu cinto deu um puxão. O carro arquejou. Paramos. Senti uma súbita brisa atingir meu rosto e o fedor que trazia do fertilizante dos campos de polo nas proximidades. O para-brisa tinha quebrado. Uma fina cortina de vidro pendia estilhaçada da moldura. Mas o sangue derramado não chegara a manchar o vidro. Minha mãe respirava com dificuldade. Alguém gemia. Cacos de vidro tremeluziam no meu jeans. “Você está bem?”, ela perguntou. Agarrou meus ombros com as duas mãos. Um filete de sangue escorria ao longo da linha do cabelo dela, chegando ao ouvido. “Você está bem?”, perguntei. “O que aconteceu?” Dois surfistas saltaram de uma van nas proximidades, seus chinelos estalando no pavimento, suas roupas de borracha baixadas até a cintura. Passaram correndo pelo nosso carro até um ponto da estrada à nossa ente, onde se agacharam em conferência. Atrás deles, um homem com roupa de corrida começou a orientar o trânsito. Sirenes gritaram ao longe. Minha mãe se inclinou para fora da janela, em direção ao local onde estavam os surfistas, de cócoras, e o corredor, que ficava olhando para trás. “Ah, meu Deus”, ela disse. Colocou uma mão em concha sobre a boca, mas continuou falando. “Ah, meu Deus”, ela dizia, por entre os dedos. “Ah, meu Deus.” Os surfistas bloqueavam parcialmente minha visão do rosto dele, mas eu podia ver a metade de baixo do corpo, as pernas abertas, as mãos com as palmas voltadas para cima, o corpo absolutamente imóvel. E me lembro de mais uma coisa: um dos joelhos estava dobrado para o lado errado. Fiz uma resolução naquela hora, ou algo mais simples, uma oração: se aquele homem sobrevivesse, eu nunca mais reclamaria de nada. Panfletos se dispersavam a partir de um ponto no chão, ao lado dele, flutuando para longe como pétalas de dentes-de-leão. Um deles voou para dentro do nosso carro pelo para-brisa aberto e caiu no meu colo. Era a cópia

da cópia de um bilhete manuscrito: ATENÇÃO TODOS OS PECADORES: AS TROMBETAS ESTÃO SOANDO, O FIM ESTÁ PRÓXIMO. ARREPENDEI-VOS OU ENFRENTAREIS A IRA DE DEUS.

Dois carros de polícia e um dos bombeiros surgiram na curva e pararam à beira da estrada. Duas ambulâncias apareceram, suas luzes piscando. Uma torrente de lágrimas turvou minha visão. Estranhos corriam em socorro de um estranho. De acordo com o relatório policial, o homem foi levado para o Hospital St. Anthony’s, a pouco mais de três quilômetros do local do acidente. Mais tarde, naquela mesma noite, catorze membros de uma seita suicida entrariam pelas portas daquela mesma sala de emergência, em catorze macas diferentes, inconscientes e respirando superficialmente, suas unhas já ficando azuis com o arsênico que circulava em suas veias. Convencidos de que o mundo estava acabando, tinham colocado veneno em seus copos de vinho ao soar da meia- noite. Enquanto outros trocavam beijos e bebiam champanhe, aquelas catorze pessoas morriam ao som das músicas comemorativas. Na parte traseira de uma ambulância, um jovem paramédico limpou o corte de minha mãe e, em seguida, examinou suas pupilas para checar se havia sinais de concussão. Uma policial com um caderninho fazia perguntas. “A que velocidade a senhora estima que estava indo?” “Ele está morto?”, minha mãe perguntou. Ela olhava ao redor. Cones haviam brotado do asfalto. Uma fita amarela de alerta se debatia na brisa. Nosso carro permanecia parado na pista, os espelhos brilhando ao sol. “Estão cuidando dele”, disse a policial. “Setenta quilômetros por hora? Sessenta?” “Mas ele vai morrer?” O vestido da minha mãe ficava escorregando para baixo na altura do peito. Um hematoma escuro estava se formando na testa, perto do corte. Ela tinha batido a cabeça no volante. “Ele estava consciente?”, ela quis saber. “Estão fazendo tudo o que podem, minha senhora.” Anos mais tarde, ouvi a seguinte estatística: antes da desaceleração, um pedestre atropelado por um veículo a uma velocidade de cerca de setenta quilômetros por hora tinha dez por cento de chance de sobreviver ao impacto. Após a desaceleração, a taxa de sobrevivência caiu pela metade. Não foram apenas as bolas que passaram a cair mais rápido e com mais força depois da desaceleração; qualquer corpo em movimento era tragado cada vez mais violentamente ao chão. Por fim, minha mãe foi levada ao hospital para fazer exames. Os paramédicos suspeitavam de uma concussão. Ilesa, esperei pelo meu pai no banco de trás de um carro de polícia. Enquanto isso, mediam as marcas da derrapagem. Um guincho chegou. Alguém varreu o vidro. A brisa virou vento, e os eucaliptos que margeavam a estrada de ambos os lados começaram a chicotear o ar, revelando, à medida que balançavam, um nítido recorte de uma lua branca, baixa, dependurada no

horizonte claro. O céu ainda estava azul e o sol se mantinha alto quando meu pai abriu a porta do carro de polícia. “Você está bem?”, ele perguntou. “Não bateu a cabeça, bateu?” “Não”, eu disse. Imaginei-o vindo da casa de Sylvia. Intuía a despedida apressada na varanda, um beijo rápido na entrada, ela puxando o cabelo num coque enquanto acenava para ele. Era assim que eu imaginava que as coisas tivessem se passado. Na verdade, eu não sabia de nada. Talvez ele realmente estivesse vindo do trabalho. “Não está tonta?”, ele quis saber. Neguei com a cabeça. Ele examinou um dos meus olhos, depois o outro, e eu o examinava também: em busca de provas. Mas o colarinho estava direito e a gravata cinza, no lugar. O crachá do hospital estava perfeitamente pregado ao bolso da frente. “Vamos”, ele disse, pegando a minha mão.

Meu avô trabalhava em algum projeto quando chegamos. Tinha aberto todos os armários, expondo seus interiores. As prateleiras estavam livres das antigas relíquias e as bugigangas haviam sido retiradas dos parapeitos. A despensa fora esvaziada, e as gavetas da cozinha, escancaradas, pendiam na direção do chão de linóleo. “Que rápido”, disse meu avô ao me ver. A porta de tela se chocou contra o batente às minhas costas. Ele girou com força a tranca. Nunca o tinha visto travar aquela porta. “Você está bem?” “Acho que sim”, eu disse. Lá fora, os pneus do carro do meu pai avançaram sobre o cascalho da entrada. Ele iria até o hospital para ficar com minha mãe. “Nem um arranhão”, disse meu avô. Seu cabelo, de um branco leitoso, estava espetado, feito tufos de erva daninha, e ele estava usando o que costumava chamar de roupa de trabalho: macacão jeans desbotado e uma camisa de flanela verde. “Se estiver com fome, posso fazer algo para você.” O dia continuava radiante, mas a casa do meu avô estava escura. As cortinas estavam fechadas, poucas lâmpadas amarelas iluminavam mal o interior. Ele caminhou na escuridão, arrastando os pés, até a sala de jantar, onde o conteúdo da casa inteira jazia espalhado sobre cada superfície plana disponível. O tampo escuro da mesa de jantar estava repleto de tesouros organizados em fileiras, como se postos à venda. Uma série de caixas de papelão cheias ocupava o chão. “Você está indo para algum lugar?”, perguntei. Ele tinha tomado um lugar à mesa e folheava uma pilha de cartões-postais antigos.

“Se estou indo para algum lugar?” Ele olhou para mim, os olhos acos e

aguados, de um azul opaco. “Para onde eu iria?” Na mesa estavam suas coleções de garrafas antigas de coca, cacos de vidro trabalhados pelo mar e moedas achadas na areia. O jogo de chá de prata da minha avó, fosco pela falta de polimento, estava rodeado de um grupo de estatuetas de porcelana empoeiradas, ao lado das quais jazia uma faca decorativa do Alasca, o cabo esculpido na presa de uma baleia. No outro extremo da mesa, torres de moedas em edição limitada que nunca circularam brilhavam nas embalagens. “Então o que você está fazendo?”, perguntei. Ele pressionou com força uma lupa sobre o rodapé de um cartão-postal desbotado. Havia anos que seus olhos se anuviavam, reduzindo sua visão a fragmentos. “Me faça um favor”, ele pediu, dando batidinhas no cartão com um grosso dedo indicador. “Leia pra mim o que diz aqui.”

A fotografia tinha sido colorida artificialmente, as encostas pintadas de verde,

os telhados, de um vermelho meio irreal. “Childer, Alasca”, li em voz alta. “Mil novecentos e cinquenta e seis.” “Está vendo este morro aqui?”, ele disse, seguindo o traçado de uma protuberância de terra que pairava acima de um aglomerado de casas e torres. “Um ano depois, o topo desabou inteiro numa tempestade.” Em algum canto distante do bairro, fogos de artifício começaram a assobiar e estourar — era véspera de Ano-Novo, afinal de contas. A luz do dia ainda irradiava pelas bainhas das cortinas. Ali dentro, o ar cheirava a poeira e Listerine. “Eu estava num casamento quando aconteceu”, ele continuou. “Vinte e três pessoas foram enterradas vivas.” Meu avô tinha vivido dois de seus oitenta e seis anos no Alasca, primeiro

trabalhando em minas de ouro, depois em vários barcos de pesca. Mas aqueles dois anos haviam se expandido feito uma esponja em sua memória, absorvendo a maior parte do resto. Ele passara décadas na Califórnia sem colecionar uma única história digna de ser contada.

“Tive sorte”, ele continuou. “Estava na parte de trás da igreja. Mas a noiva e o noivo, seus pais, seus irmãos e o pastor não tiveram. Foram todos engolidos.” Ele balançou a cabeça. Um leve som sibilante passou entre seus lábios. “Rapaz”, disse. Meu avô passou a ponta de um dedo sobre o cartão. “Está vendo esta casa aqui?”, disse. “O irmão do noivo trabalhava num barco de pesca de salmão, por isso ele perdeu o casamento. Foi o único que restou da família. Mais tarde, ele se enforcou bem ali, na mesma casa.”

A cadeira rangeu sob o meu peso. Eu podia ouvir o tique-taque dos relógios;

meu avô tinha uma coleção deles, todos antigos, inclusive dois que chegavam à

altura dele e soavam de hora em hora, sempre fora de sincronia. “Parece que um monte de coisas ruins aconteceu quando o senhor esteve no Alasca”, eu disse. Ele riu e esfregou os vincos róseos que tinha na testa. “Eu não diria isso. Não aconteceram mais coisas ruins lá do que em outros lugares.” Meu avô virou o cartão-postal na mão. Não havia nada na parte de trás, exceto por uma mancha vermelha brilhante num dos cantos. “O senhor está sangrando?”, perguntei. Sempre me assustava como ele sangrava com facilidade. Meu avô estudou os próprios dedos. “Droga”, ele disse. Levantou-se e marchou para a cozinha, devagar. Sua pele tinha ficado mais fina nos últimos anos. A coagulação do sangue tinha ficado mais lenta. O corte produzido por um papel era capaz de verter sangue por muitos minutos. Enquanto ele passava o dedo na água ia, explorei as caixas que se espalhavam pelo chão da sala. Dentro havia álbuns de fotografias em preto e branco dos meus avós usando chapéus elegantes e casacos de pele, do meu pai bem pequeno ou um pouco mais velho, trajando um uniforme de beisebol, apoiado numa bicicleta ao lado de um para-lama arredondado enorme. Havia um álbum inteiro dedicado a mim, a única neta, do dia em que nasci à minha foto mais recente da escola, na qual meus olhos apareciam semicerrados, prestes a piscar, o que transformou em perda de tempo a demorada escolha da malha, com gola creme, que usei no dia da foto. Numa caixa de sapatos empoeirada, encontrei quatro bastões grossos de ouro maciço, embalados como barras de chocolate. “Ei”, disse meu avô. Um band-aid torto agora coroava seu polegar. “Você não devia ter mexido nessas aí.” Eu havia pescado uma das barras de dentro da caixa. Senti-a ia e pesada na minha mão. Ele a tomou de mim e a colocou com as outras. “Mas, já que mexeu, vou dizer uma coisa importante para você.” Ele fechou a caixa e a recolheu a um canto. “Ouro é a coisa mais segura que existe. É melhor do que dólar, melhor do que o banco. Lembre-se disso.” Percebi o sol finalmente se pondo por trás das cortinas. O brilho róseo do crepúsculo vazava pelas estas. A escuridão duraria até pelo menos a noite seguinte. “Isso é real, sabe”, disse meu avô. “Eu não acreditava no começo. Mas está acontecendo mesmo.” Em outras casas, eu imaginava, estouravam champanhe, taças borbulhavam, chapéus de festa eram colocados. Eu tinha ouvido falar que Hanna fora para Palm Springs com a família de Tracey. Fiquei imaginando o que Seth Moreno estaria fazendo naquele exato momento. “E ninguém está prestando atenção”, prosseguiu meu avô. “Fazem a gente voltar a seguir os relógios e acham que resolve o problema, mas ninguém está

tomando uma providência que seja para se preparar para o que está por vir.” Ele suspirou pesadamente e levantou da cadeira. “Pense nos pássaros”, disse. “Eles sempre foram mensageiros. Depois do dilúvio, foi uma pomba que avisou Noé de que as chuvas haviam terminado, levando um ramo de oliveira para ele. Foi assim que ele soube que podia deixar a arca. Pense nisso. Nossos pássaros não estão carregando ramos de oliveira. Estão morrendo.” Meu avô voltou sua atenção para o velho rifle de caça que mantinha no armário do corredor. Estava coberto por uma camada de pó que ele retirou com as costas da mão. Não o usava fazia anos. “Da próxima vez que você vier, me lembre de mostrar como atirar com uma arma de verdade.” “Com uma arma de verdade, vovô?”, perguntei. “Estou falando sério”, ele disse. “Esse negócio é sério. Estou preocupado por todos nós.” Mais tarde, na grande televisão do meu avô, vi cenas dos fogos de artifício lançados horas antes em Tóquio, Nairóbi e Londres, à medida que o novo ano fluía em direção ao Ocidente em todo o planeta. Tinha havido algum debate sobre a hora da virada. Tecnicamente, estávamos um dia atrasados, por conta do tempo que passáramos fora de sincronia com os relógios. Mas uma solução rápida havia sido criada e adotada pela maioria dos governos ao redor do mundo: simplesmente ignoramos o dia trinta de dezembro, um salto em caráter extraordinário, somente daquela vez, para compensar o tempo perdido. Entre um e outro show de fogos de artifício, o noticiário da televisão mostrava alguns líderes religiosos que haviam reunido seus rebanhos dentro de igrejas, temendo ou esperando que o último dia do ano da desaceleração pudesse também marcar o fim do mundo. Adormeci numa poltrona antes da meia-noite. Sonhei com sangue e vidros quebrados, com um carro balançando até parar. Horas depois, acordei com a luz azulada da TV, os dentes cerrados, o pescoço duro por causa do braço da poltrona. O sol tinha finalmente descido, e meu avô fora para a cama. Eu passara a virada do ano dormindo. Um novo ano começava no escuro. Tudo parecia possível naqueles dias. Qualquer previsão podia acabar se confirmando. O que me incomodou de um jeito diferente: eu não sabia o que o próximo ano traria.

De manhã, meus pais passaram para me pegar no caminho do hospital para casa. Não havia novidades sobre o homem atropelado. Minha mãe ainda estava usando seu vestido de festa preto, agora amassado. Segurava os brincos de cristal na palma da mão. Uma pulseira de identificação

do hospital pendia de um de seus pulsos. Meu pai a guiou devagar até dentro de casa, como se seus olhos estivessem vendados, ligando os interruptores de luz com uma mão enquanto apoiava a parte de baixo das costas dela com a outra. O hematoma desapareceria. O corte fecharia. Todos os ossos do corpo dela estavam intactos. Com a ajuda de uma ressonância magnética, os médicos haviam rastreado seu cérebro atrás de danos ocultos que não encontraram. Mas aquela máquina não era capaz, é claro, de investigar sua mente. E, naqueles dias, quase nada se sabia sobre a síndrome.

18

De início, nós a chamávamos de mal da gravidade, depois de síndrome da desaceleração, e chegaria a um ponto, mais tarde, em que não era preciso mais do que mencionar a síndrome para que todos entendessem o que queria dizer. Os sintomas eram abrangentes, mas relacionados: tontura, náusea, insônia, fadiga e, às vezes, como foi com minha mãe, desmaios. Apenas algumas pessoas foram afetadas. Um homem tropeçava na rua. Uma mulher desabava num shopping. Em algumas crianças pequenas, os efeitos incluíam o sangramento excessivo das gengivas. Algumas vítimas ficavam fracas a ponto de não conseguir sair da cama durante alguns dias. A causa exata era desconhecida. Minha mãe ficou em casa, sem ir para o trabalho, na primeira semana após o acidente. Passou aqueles dias à caça de notícias sobre o homem atropelado, enquanto o corte em sua testa formava uma casca e começava a cicatrizar. A tontura ia e vinha. Ela se movia lentamente pela casa, sempre se apoiando num corrimão ou numa parede. Assim que se sentia melhor, focava sua atenção no homem atropelado. Ligou para o hospital, mas não conseguiu nenhuma informação. Mandou flores “para o homem que foi atropelado por um carro na Samson Road na véspera do Ano-Novo”. Implorou ao meu pai que descobrisse se estava vivo ou morto, mas ele relutava em nos envolver naquilo. “Vamos acabar sabendo”, disse. Minha mãe dormia ainda menos do que antes, desperta nas noites escuras tanto quanto nas iluminadas. Eu acordava, certas noites de breu total, e a encontrava fuçando sites locais e blogs policiais, com os olhos vermelhos e lacrimejantes, a luz branca da tela dando aos traços de seu rosto um relevo desagradável. Numa dessas noites, ela desmaiou outra vez. Caiu da cadeira, simplesmente, e mordeu a língua, que sangrou. Parou de dirigir e comia cada vez menos. Eu imaginava que sintomas teriam prenunciado a morte da mãe de Seth Moreno. Eram doenças diferentes, eu sabia, mas às vezes ficava preocupada, achando que o desfecho pudesse ser o mesmo. Ninguém sabia em que poderia resultar a síndrome da desaceleração.

Seth Moreno voltou para a escola numa manhã radiante e clara. Seu cabelo escuro tinha crescido um pouco mais, e ele desenvolvera um novo método de afastar as mechas do olho, usando o polegar, mas de resto parecia o mesmo, com aquele olhar cansado no rosto, o andar lento, o skate

debaixo do braço. Eu não o via desde que a mãe dele tinha morrido. Senti um io na barriga quando Seth apareceu no ponto de ônibus naquela manhã. Eu me perguntava se ele teria recebido meu cartão. Diversos boatos sobre seu paradeiro depois da morte da mãe chegaram até mim: ele estava hospedado com um parente no Arizona, mudara-se para uma comunidade de adeptos do tempo real no Oregon, fora para um colégio interno na França. Mas ali estava ele no ponto de ônibus. Não falou com ninguém naquela manhã. Simplesmente ficou sozinho, como sempre. Eu queria falar com ele, mas não disse nada. Queria estar perto dele, mas fiquei à distância. Na aula de matemática, voltei a olhar em silêncio para a parte de trás da cabeça de Seth Moreno.

Nesse meio-tempo, os oceanos se alteravam, a Corrente do Golfo diminuía e Gabby raspou a cabeça. Ela me chamou, uma tarde, para ir à casa dela. O sol tinha se posto. O negrume do céu era de um tom claro. No caminho até a casa de Gabby, cruzei com um grupo de crianças mais novas brincando de caça-fantasmas na rua, algumas agachadas atrás de carros estacionados ou troncos de árvores, outras procurando em duplas, agarrando-se umas às mangas das outras e sussurrando enquanto se moviam na penumbra. “Olha isso”, disse Gabby. Estávamos no quarto dela. Gabby segurou uma mecha espessa de cabelo tingido de preto e levou uma tesoura à altura da raiz. “Você vai cortar o próprio cabelo?”, perguntei. Lá embaixo, pedreiros golpeavam uma parede. A cozinha estava sendo reformada. Os pais de Gabby estavam no trabalho. “Primeiro vou cortar tudo”, ela disse, e uniu as lâminas da tesoura. “Depois vou raspar.” A mecha de cabelo caiu e pousou sem ruído no carpete. “Mas por quê?”, perguntei. Ela cortou outra mecha. “Vai demorar séculos pra crescer de novo.” Sobre a cômoda, o celular de Gabby vibrou anunciando uma nova mensagem. Ela checou o visor e sorriu. Então largou a tesoura em cima da mesa e trancou a porta do quarto. “Tenho um segredo para te contar”, ela disse. “Você tem que prometer que não vai contar a ninguém.” Prometi. “Sabe aquele cara que eu conheci na internet?” Concordei com a cabeça. Os faróis de um carro que passava inundaram o quarto e, em seguida, desapareceram.

“A gente tem se falado todo dia”, ela continuou. Senti uma pontada de ciúme. O menino era mais velho: tinha dezesseis anos. Vivia a uns cento e cinquenta quilômetros, numa das novas colônias que brotavam da areia no deserto. “O nome do lugar é Circadia”, contou Gabby. Dava para ver que ela gostava de dizer a palavra. “Eles têm escola, restaurante e tudo mais.” Eu tinha ouvido falar de assentamentos semelhantes surgindo em todos os estados, construídos por excêntricos que rejeitavam a obediência aos relógios. Nas casas e ruas dessas comunidades, o sol ainda ditava o dia e a noite, e acho que o ritmo de vida era realmente mais lento, o tempo andando a passos de formiga, como uma onda avançando devagar. “Muitas meninas de lá raspam a cabeça”, Gabby acrescentou. Ela digitou uma mensagem de texto em resposta. O preto polido de suas unhas brilhou à luz da luminária. Gabby retomou a tesoura e continuou a cortar o cabelo, as mechas se acumulando no carpete creme ao lado do uniforme da escola amarrotado. Ela usou o barbeador elétrico do pai dela para fazer o resto. Pouco a pouco, a arquitetura de seu crânio começou a emergir, curvas e buracos antigos foram revelados. “Puta merda”, ela disse, quando se olhou no espelho. “Sensacional.” Gabby girou a cabeça para um lado e para o outro, correndo os dedos pelo que restara do cabelo. Parecia uma pessoa doente em tratamento. Ela se sentou na cama. Um conjunto de calcinha e sutiã de renda preta estava exposto sobre o edredom. Ela me viu olhando para ele. “Gostou?”, quis saber. “Acho que sim”, eu disse. “Comprei pela internet.” Uma das velas sobre a penteadeira tinha derretido até virar uma poça de cera. A chama crepitou e apagou, deixando uma nuvem fina de fumaça branca no ar. “Ei”, disse Gabby, mudando de assunto de repente. “Será que sua mãe matou mesmo o cara no Ano-Novo?” Olhei para ela. “Não sabemos se ele morreu”, eu disse. Lá embaixo, os pedreiros derrubaram alguma coisa pesada no azulejo. “Soube que ela atropelou alguém.” “Ela está doente”, eu disse. Gabby se voltou para mim. “O que ela tem?” “A gente não sabe.” “E ela pode morrer dessa doença?” “Não tenho certeza.” “Merda”, Gabby disse. “Sinto muito”.

Ela tinha pintado as paredes de um marrom escuro, e ainda dava para sentir o cheiro de tinta no ar, misturado à baunilha das velas. “Tenho que ir para casa”, eu disse. “Pega aqui”, ela disse. Entregou-me um saco plástico abarrotado de grampos de cabelo e bobes. “Fica com isso. Não vou mais usar.” Recusei com um movimento de cabeça. Não queria as coisas dela. Lá fora, um par de faróis se aproximou enquanto eu caminhava para casa. Era o BMW preto da mãe de Gabby. Ela acenou para mim do volante, e eu acenei de volta. Vi quando embicou na garagem e esperou que a porta automática se abrisse. Sabia que aqueles poucos minutos prenunciavam as consequências de raspar a própria cabeça. O BMW deslizou para dentro da garagem. A porta se fechou novamente atrás do carro. Ouvi o motor ser desligado, as primeiras batidinhas suaves do resfriamento. Eu viria a saber depois que Gabby foi imediatamente proibida de usar o computador e o celular, o que a impossibilitava de se comunicar com o garoto de Circadia que andava mandando poemas para ela.

Naquela noite, passei horas espiando a casa de Sylvia pelo telescópio, buscando um vislumbre do meu pai. Os hábitos dela foram ficando mais bizarros à medida que os dias se estendiam. Sylvia sumia para dentro de casa a cada período de escuridão e, enquanto as janelas dos vizinhos passavam o dia todo iluminadas, ela deixava as dela escuras, como se tivesse aprendido a dormir por vinte horas ou mais seguidas. Um estranho passando em ente àquela entrada de carros numa tarde escura talvez achasse que a casa estava vazia ou que o proprietário tinha saído da cidade. Muitas vezes dois jornais eram jogados ali até que o sol voltasse a aparecer. Mas, nas noites brancas, Sylvia voltava à vida. Eu podia ver seus dedos finos deslizando sobre as teclas do piano muito tempo depois de os vizinhos terem ido para a cama. Ela tirava as ervas daninhas do jardim à meia-noite. Saía para correr enquanto os demais ainda sonhavam. No silêncio de uma noite radiante, eu a vi carregar a árvore de Natal até a calçada, sob o sol, e o ruído do vaso sendo arrastado era o único som na rua adormecida. Alguns países da Europa tinham tornado mais ou menos ilegal viver como Sylvia. Naquele continente, os adeptos do tempo real eram, em sua maioria, imigrantes do Norte da Á ica e do Oriente Médio, fora de sincronia com os relógios por razões religiosas. Toques de recolher haviam sido decretados em Paris. Seguiram-se motins. Um membro do nosso conselho municipal propusera proibição similar. A pequena cidade vizinha adotara com sucesso um toque de recolher baseado nos relógios, mas a medida logo foi derrubada pelos tribunais. Na mesma semana, a luz foi cortada em algumas casas da nossa rua.

Televisores desligaram sem aviso. Máquinas de lavar roncaram até parar. A música cessou nos alto-falantes e as luzes se apagaram nas mesas de jantar. Mas apenas três casas foram afetadas: a dos Kaplan, a de Tom e Carlotta e a de Sylvia. Não por acaso. Os adeptos do tempo real eram o alvo. Alguém tinha cortado suas linhas de transmissão. Policiais apareceram para examinar as marcas deixadas nos fios. Interrogaram os vizinhos. Ninguém tinha visto nada. Foram necessárias seis horas para que a empresa responsável religasse os adeptos do tempo real à rede elétrica. Os sabotadores jamais foram identificados.

19

Na escola, dissecamos rãs, praticamos corrida, tivemos a coluna examinada para ver se tínhamos escoliose. A temporada de futebol avançou sobre janeiro por causa de todos os jogos cancelados no outono. Mas eu tinha perdido o interesse pelo esporte. Qual era a graça agora? De que importava? “Mas você gosta de futebol, não gosta?”, disse meu pai certo dia, enquanto eu, emburrada, ia com ele no carro a caminho do treino. Ele tinha alterado sua agenda para poder me levar, porque minha mãe estava doente. “Como você sabe se eu gosto ou não?”, respondi. Ele se virou para mim. Eu nunca tinha falado com ele daquele jeito, e isso pareceu surpreendê-lo. Lá fora, o céu era um laranja afogueado, com o sol nascendo no fim da tarde. “O que está acontecendo com você ultimamente?”, ele perguntou. Meu pai parecia cansado. Seu cabelo, de um castanho pálido, começava a rarear. Uma barba incipiente, espetada, ficara em seu queixo aquela manhã. Eu me perguntava se ele intuía que eu sabia sobre ele e Sylvia. “Nada”, eu disse. “Só não quero mais treinar.” Meu pai não respondeu. Seguimos na direção do campo. Daquelas tardes, lembro-me principalmente dos momentos em que o time dos meninos passava correndo perto de onde treinávamos. Eu os avistava ao longe e já procurava a camisa de Seth. Podíamos ouvi-los ofegantes, à medida que se aproximavam, o baque sincronizado de suas chuteiras no asfalto. Dava para sentir o cheiro de suor dos uniformes. Seth sempre corria na lateral do grupo, perto da dianteira, e nunca olhava na nossa direção. Os olhos de todos os outros, quando passavam, procuravam Michaela — e ela acolhia a atenção deles com um grande sorriso. Nunca entendi como ela sabia o que eles queriam. Ao contrário dela, eu evitava, na maior parte do tempo, olhar para os meninos quando eles iam chegando mais perto, até que o som da corrida se tornasse abafado e finalmente sumisse no caminho de terra à beira do campo. Era aí que eu dava uma última olhada para Seth, antes que ele e todos os meninos desaparecessem entre os eucaliptos que separavam o campo de treinamento masculino do feminino. Chegamos ao estacionamento e meu pai parou junto ao meio-fio. “Escute aqui”, ele disse. “Você não vai desistir do futebol.” Saí devagar do carro, minha mochila de treino balançando no ombro. Bati a porta. O estacionamento ficava a uma boa distância do campo, e andei o mais

lentamente possível. Reconheci ao longe, no campo, a silhueta magra de Hanna. Odiava o fato de que nossa antiga proximidade continuasse a pairar sobre nós como um mau cheiro não reconhecido, mas sempre no ar. Uma ideia surgiu na minha mente: eu não tinha que ir para o treino, poderia simplesmente ir embora. Meu pai já havia partido com o carro àquela altura. Ninguém mais estava por perto. Talvez a desaceleração estivesse afetando minhas emoções também: eu me sentia corajosa e impulsiva naquele dia. Comecei a me afastar do campo, primeiro devagar, em seguida mais rápido, até que, em pouco tempo, já descia correndo uma encosta íngreme e ajardinada, esmagando a grama sob minhas chuteiras. Fui parar no estacionamento do shopping vizinho. A primeira coisa que vi foi uma loja de produtos naturais que atendia a adeptos do tempo real. Era fim de tarde, mas acabava de abrir as portas naquele dia, expondo fileiras de vitaminas, couve desidratada e ervas medicinais para distúrbios do sono. Ao lado, o pessoal entrava e saía empurrando carrinhos da farmácia enorme onde eu às vezes comprava remédios com minha mãe. Estavam fazendo uma promoção de sobrevivência: uma pilha gigante de enlatados se destacava na frente da loja, junto a um cartaz. SUA FAMÍLIA ESTÁ PREPARADA?, dizia. Circulei por ali, consciente do ruído das chuteiras no linóleo, como se elas pudessem me denunciar, mas ninguém pareceu notar. Dava para ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes, a música clássica insípida fluindo dos alto-falantes no teto. Sempre que ia até a farmácia com minha mãe, algumas seções pareciam um pouco proibidas para mim, e eu estava ávida por explorá-las sozinha. No corredor de cosméticos, quinze metros de estantes exibiam, em embalagens reluzentes, todos aqueles pós, esmaltes, cremes, batons, lápis de olho, pinças, tesouras e giletes que, eu começava a suspeitar, poderiam me transformar numa menina mais bonita e amada se aplicados nas proporções corretas. No outro extremo do corredor, uma menina mais velha, com os cabelos pretos perfeitamente aparados e as chaves do carro chocalhando na mão, destampava esmaltes para testar as cores em suas unhas. Lembro-me do tilintar agradável dos ascos batendo uns contra os outros. Eu invejava a forma casual com que ela largava na cestinha de compras aqueles de que tinha gostado. Atrás dela, pendurada num suporte circular, eu sabia que havia uma pequena seção de sutiãs. Tímida demais para me aproximar dali enquanto a outra menina estivesse por perto, circulei para cima e para baixo no corredor por um tempo, pegando batons e em seguida colocando-os de volta no lugar. Quando ela foi embora, esgueirei-me até a arara dos sutiãs. Eram apenas uns cinco ou seis modelos, e

um parecia muito mais legal que os demais. Ainda me lembro da aparência

daquele sutiã, ali pendurado, de um branco nítido e brilhante, com bolinhas azuis, alças feitas de cetim azul e laços minúsculos na altura do bojo. Tendo me certificado de que ninguém estava por perto, segurei-o na altura do peito.

A etiqueta dizia oito dólares e noventa e nove centavos. A nota de dez dólares

do meu avô estava na mochila do futebol.

Quando meu pai parou em ente ao campo, eu estava sentada no meio-fio como de costume, com a mochila no colo e o sutiã ali dentro, bem no fundo. As outras meninas do time estavam começando a se mover na direção do

estacionamento, pequenas figuras ao longe, parando aqui e ali para esticar as pernas ou arrumar o rabo de cavalo, suadas do exercício que eu havia perdido. Entrei rápido no carro. “Como foi o treino?”, perguntou meu pai. Eu dava grandes goles na minha garrafa d’água. A mentira, como a álgebra, era uma habilidade que eu tinha desenvolvido recentemente. “Bem”, eu disse. “O que vocês fizeram?” Temi que ele tivesse descoberto. “Sempre fazemos exatamente a mesma coisa, pai”, respondi. “É por isso que é tão chato.”

E o mais incrível é que ele acreditou em mim.

Assim que chegamos em casa, fui para o banheiro do quarto e me tranquei. Sentia a excitação de que algo talvez estivesse finalmente começando para mim, de que aquilo poderia ser um novo começo. Senti todas as preocupações — todas as coisas mais importantes — rapidamente saindo do meu caminho. Já podia imaginar como ficaria a alça no meu ombro, despontando por debaixo

da camisa, como Michaela sempre fazia na escola. Mas, quando o coloquei, depois de brigar com o fecho durante muitos minutos, descobri que uma transformação terrível tinha acontecido entre a farmácia e a chegada em casa: o que eu trouxera era um sutiã barato para menininhas. As alças de cetim eram azuis e brilhantes demais. Uma das costuras já estava se soltando. Aqueles dois bojos ondulando sobre meu peito eram ainda pior, pareciam dois balões d’água vazios esperando para ser enchidos. Ouvi os passos da minha mãe na escada. “O que você está fazendo aí?”, ela perguntou do outro lado da porta. Somente sua proximidade já me deixava nervosa. “Nada”, eu disse. “Você está doente?”, ela perguntou alto. Tinha começado a se preocupar que eu desenvolvesse a síndrome também. “Seu pai me falou que você está aí já faz

quase meia hora.” Eu podia sentir seu desejo de abrir a porta. Podia sentir sua mão procurando a maçaneta. Tirei o sutiã e vesti a camiseta. “Estou bem”, eu disse, também alto. “Já saio, num segundo.” Mais tarde, quando ela estava dormindo e meu pai fora para o trabalho, enterrei o sutiã bem fundo numa das latas de lixo estacionadas no pátio lateral, de modo que ninguém jamais descobrisse como eu entendia pouco daquilo que, para as outras meninas que eu conhecia, parecia tão óbvio.

20

Fevereiro. As horas de escuridão pareciam, de alguma forma, mais escuras do que antes, e as de luz, mais radiantes do que nunca. O calor era tão extremo que dava para enxergá-lo subindo do asfalto em ondas. Para mim, era cada vez mais difícil dormir. A doença da minha mãe variava descontroladamente. Certos dias, ela estava bem: ia trabalhar, dava conta de pequenas incumbências, fazia o jantar. Outras vezes, nós a perdíamos para a força de um novo sintoma. Voltei para casa da escola, um dia, e a encontrei enrolada em três cobertores, mas ainda assim tremendo e batendo os dentes. Era a décima oitava hora de luz do dia, estava quase trinta graus lá fora. “Não se preocupe”, ela disse, balançando enquanto falava. “Vai passar.” Mas fiquei preocupada. Sempre que podia, dava uma olhada para ver como ela estava. Àquela altura, havia quem suspeitasse que a síndrome fosse de natureza psicológica, que os sintomas pudessem ser causados não pela mudança na gravidade, mas por uma força ainda mais poderosa: o medo. “Talvez seja só ansiedade”, disse meu pai, quando chegou do trabalho na mesma noite. Minha mãe respirou fundo. “Você acha que estou inventando isto?” “Não foi o que eu disse, Helen.” Meu pai colocou uma pizza congelada no micro-ondas para o jantar. Sempre que minha mãe ficava doente, ele fazia tudo o que precisava ser feito. Mas eu sentia que havia algo de falso nisso, que a mente e a alma dele estavam em outro lugar, mesmo quando suas mãos me serviam um copo de leite, quando sua boca pronunciava as palavras apropriadas: “Como foi a escola?” ou “Já terminou o dever de casa?”. “Só estou dizendo”, ele prosseguiu, “que você está passando por muito estresse.” Ela balançou a cabeça. “Não”, disse minha mãe. “Isto é real.” “É, pai”, eu disse. “É real.” Eu sempre ficava do lado da minha mãe. Mas, secretamente, a teoria dele me atraía. Não era possível morrer de estresse. Na noite seguinte, tivemos o primeiro lampejo de boa notícia em meses:

ganháramos apenas seis minutos no dia anterior, menos do que em qualquer

outro dia desde a desaceleração. “Isso é bom”, eu disse. Meus pais não disseram nada. “Certo?” “Pode ser tarde demais”, disse minha mãe. O cabelo dela estava achatado. Percebi que ela não o lavava havia algum tempo. “Helen, por favor”, retrucou meu pai. Em seguida olhou para mim. “É claro que é bom.” Uma brisa fria sacudiu as cortinas às nossas costas. “A negação não ajuda em nada”, disse minha mãe. Não tive certeza se meu pai concordava com isso. As ideias dele sobre a verdade eram um pouco diferentes. “É uma boa notícia”, ele repetiu. Ficou de pé e apertou meu ombro. Minha mãe desligou a televisão. “Melhor você saber a verdade, Julia”, ela disse. “Isso tudo vai acabar em merda.”

Seguiu-se uma sucessão de dias tensos. Meus pais se falavam cada vez menos. Depois de horas de espionagem ao telescópio, finalmente peguei meu pai com Sylvia novamente. Dessa vez foi de manhã, depois que ele saiu para trabalhar, enquanto minha mãe cochilava no sofá. Ele tinha saído de carro, mas voltou pela rua a pé. Virou a cabeça uma, duas, e ainda mais uma vez na direção da nossa casa, antes de desaparecer pelo portão lateral da casa dela. Eu intuía muito pouco de como esses dramas funcionavam. Preocupava-me mais e mais que meu pai um dia fosse nos abandonar para sempre. E, então, uma noite, ele contou uma nova mentira. Não era a primeira, e não seria a última. Era apenas a melhor e mais ousada. Simples e sucinta. Uma ficção elegante e extraordinária. Uma única frase falsa. Aconteceu num sábado, um dia com luz: o sol se levantou pela manhã e brilhou durante toda a tarde. Uma brisa salgada fazia farfalharem os eucaliptos, enquanto os gêmeos espalhavam água pulando na piscina da casa vizinha. Minha mãe, sentindo-se melhor do que de costume, lia uma revista, com um copo de chá gelado suando gotículas ao pé dela; no céu, vagava uma ota de balões de ar quente. Os passageiros acenavam das cestas que flutuavam sobre nosso telhado. A temperatura era de cerca de vinte e cinco graus. Jamais alguém adivinharia, olhando a cena, que seis astronautas permaneciam presos numa estação espacial, centenas de quilômetros acima daqueles balões, seus estoques de comida minguando. Naquele momento, em particular, não parecia que também estávamos presos. Eu estava na cozinha quando o telefone tocou. Meu pai estava lá em cima. Minha mãe virou a cabeça na direção da casa ao ouvir a chamada, mas deixou tocar. Aconteceu de eu pegar a extensão da cozinha logo depois de meu pai ter atendido a ligação lá em cima.

“Joel?”, disse a voz no telefone. “É Ben Harvey, do St. Anthony’s.” Cobri o bocal com a mão e fiquei ouvindo.

“E então?”, disse meu pai.

Prendi a respiração e permaneci parada, com os pés descalços na lajota. “Não é o que você gostaria de ouvir”, disse o outro homem. Ele fez uma pausa. Tomei um pouco de ar rapidamente.

“O cara já chegou morto ao hospital”, disse o homem.

Meu pai soltou um suspirou pesado. “Fratura do crânio, vértebras esmagadas, hematoma subdural”, ele disse. “Aparentemente, era algum tipo de andarilho. Não apareceu nenhum parente próximo.” Não sei explicar por que ainda acreditávamos que o homem atropelado pudesse, de alguma forma, ter sobrevivido. Minha mãe e eu tínhamos visto seu corpo estirado no asfalto, afinal de contas, parecendo sem vida, a morte sugerida até mesmo na maneira como estava deitado; os vivos não ficam daquele jeito. E, no entanto, ainda tínhamos esperança. Não ouvi mais nada do que eles conversaram no telefone. Simplesmente fiquei ali, encostada ao balcão da cozinha, sentindo uma aqueza no corpo. Quando a conversa finalmente terminou, desliguei o mais suavemente que pude e então ouvi meu pai se movendo na direção da escada. No quintal, minha mãe virou uma página da revista e tomou um gole de chá gelado. Eu não queria estar lá quando ele contasse a ela.

Desci até a casa de Gabby, mas não tinha ninguém. Sentei sozinha na varanda por um tempo, observando nuvens brancas gordas deslizando para leste lá no alto. Era mais ou menos o horário em que Seth, às vezes, ia para a aula de piano com Sylvia, e pensei que talvez ele estivesse ali. Fiquei atenta a algum som do piano dela, mas não ouvi nada. No final da rua, avistei um caminhão de mudança que bloqueava a entrada da garagem dos Kaplan. Havia um colchão encostado na porta da ente, e o gato da família uivava em sua gaiola, na varanda. Uma placa de venda tinha aparecido na ente da casa deles três dias depois do corte de eletricidade. Os dois meninos mais novos estavam brincando com as caixas de mudança, no jardim, enquanto dois carregadores e o sr. Kaplan enchiam o caminhão com um sofá marrom comprido. Dava para escutar suas vozes ao longe. A brisa levava a discussão daqueles homens até mim.

A família se mudaria para uma das colônias de judeus, onde todos

concordavam com a observância do sabá: de um pôr do sol até o seguinte, a cada sete dias. Os dias dos Kaplan, claro, estavam completamente fora de sincronia com os nossos àquela altura, e nossos sábados não coincidiam mais. Eu tinha feito os cálculos durante uma noite branca em que não conseguia

dormir: os adeptos do tempo real já estavam dezenas de dias atrasados em relação a nós, e esses dias, com o tempo, virariam anos. Do outro lado da rua o estalo e o rangido de uma porta se abrindo soaram. Levantei a cabeça: não era Seth. Era só Sylvia, de chapéu e tamanco, uma colher de pedreiro balançando numa das mãos. Ela acenou. “Lindo dia”, gritou do jardim. E depois perguntou como eu estava. “Bem”, respondi. Eu não sentia mais pena dela. Agora Sylvia só me deixava nervosa, como se fosse eu quem tinha algo a esconder. Ela se ajoelhou ao lado das roseiras, que tinham começado a murchar nas semanas anteriores. Sylvia, por outro lado, parecia estar florescendo. A maioria de nós andava por aí com olhos sonolentos e mentes vagarosas — minha mãe afirmava não sonhar havia meses —, mas ela parecia descansada, tranquila e alerta. Era difícil não reparar em como estava bonita, muito mais bonita, naqueles dias, do que minha mãe. Comecei a ter esperança de que Sylvia se mudasse, como faziam os Kaplan e tantos outros adeptos do tempo real naquela época. Ou que nós pudéssemos ir para longe. Eu ficava imaginando as colônias criadas no deserto. Gostava de pensar que o tempo realmente passava menos rápido lá do que onde vivíamos. E, se era assim, se cada evento demorava um pouco mais para acontecer, será que as consequências também demoravam mais para chegar?

Quando voltei para dentro, encontrei meus pais juntos no quintal. Pela janela da cozinha, a cena não se parecia com a que eu esperava. Minha mãe ria e balançava a cabeça. Meu pai pressionava uma das mãos no joelho dela. Ao me ver na janela, minha mãe acenou para que eu me juntasse a eles. Eu poderia afirmar, antes mesmo de abrir a porta envidraçada, que meu pai ainda não havia contado a ela a novidade. “Adivinha”, disse minha mãe assim que fechei a porta às minhas costas, o trinco da maçaneta de bronze voltando ao encaixe. “O quê?”, eu disse. Ela protegia os olhos do sol com a mão. Virou-se para meu pai. “Conte para Julia”, disse. Ela estava sentada na cadeira com os joelhos perto do queixo, como uma adolescente. “Diga para ela.” Meu pai olhou bem nos meus olhos. “Sabe o homem do acidente?” Atrás dele, uma brisa suave balançou a madressilva, agora seca. “O que tem ele?”, perguntei. E então veio a mentira, nítida, suave e clara: “Descobri hoje que ele sobreviveu”.

“Recebeu alta do hospital”, disse minha mãe. Ela continuou a se remexer em sua cadeira. “Só teve alguns ossos quebrados”, prosseguiu. “Nada mais. Dá para acreditar?” Senti um lampejo de raiva do meu pai. Ela merecia saber a verdade. Mas minha mãe parecia melhor do que tinha estado ao longo de meses. Sua postura estava relaxada. As linhas de riso tinham ressurgido. Seu rosto inteiro parecia diferente — seus olhos pareciam meio estrábicos, suas bochechas estavam salientes, seus lábios entreabertos mostravam os dentes, em um sorriso. Tudo o que eu queria fazer naquele momento era corresponder ao sorriso dela. De início, aquilo não me pareceu correto. Senti-me um pouco culpada. E espero que meu pai também. Mas era impossível resistir àquela mudança de humor. A mentira melhorava tudo. Minha mãe foi buscar umas taças de cristal e abriu uma das garrafas de vinho tinto especial que meus pais guardavam no suporte acima do armário de bebidas. Ela preparou macarrão com os tomates secos que os dois tinham trazido da Itália alguns anos antes, colhidos no pé e conservados em azeite de oliva muito antes da desaceleração. De sobremesa, comemos abacaxi em calda. Foi a última vez em nossa vida que comemos abacaxi. Sentamos no quintal sob o sol, com a barriga cheia. Gostaria de poder me lembrar de mais noites como aquela. O sol estava alto. O ar estava quente. A Terra seguia girando. Mas, uma vez ao menos, não nos preocupávamos com nada disso. Minha mãe estava feliz, sua consciência estava limpa. Eu sabia que jamais ia contar a verdade a ela. Meu pai estava feliz também. Eu o observei olhando para minha mãe. Talvez ele a amasse. Talvez a amasse de verdade. Ele deve ter salvado centenas de vidas ao longo de sua carreira no hospital, mas nunca antes, nem depois, fez um homem morto voltar à vida.

21

Cynodon dactylon, também conhecida como grama-bermudas, cuja variedade principal é comum no Arizona: uma variedade de grama rústica, resistente ao calor e à seca, e, portanto, popular tanto para gramados residenciais quanto para campos de golfe em todo o sudoeste dos Estados Unidos. Mas a Cynodon dactylon requer sol abundante. Não pega na sombra, nem suporta longos períodos de escuridão. E, portanto, quando os dias se estenderam para além das cinquenta horas, milhares de jardins, inclusive o nosso e os de outras sete pessoas da rua, começaram a so er. A grama rareou, ficou marrom e depois morreu. O sr. Valencia substituiu seu gramado por pedras vulcânicas. Acordei uma manhã com o barulhão das pedras que dois operários despejavam na caixa rasa onde antes havia grama. Coberturas de relva artificial logo passaram a adornar a ente de algumas casas. Lâmpadas ultravioletas gigantes brotaram nos quintais de outras. Enquanto meus pais discutiam o que fazer com nosso jardim, o gramado ficou completamente careca. A terra virou lama. Minhocas rastejavam pela superfície, escapando em busca de território melhor, para acabar tostando no pavimento da entrada da garagem, cozidas pelo sol, e então achatadas pelos pneus dos carros. Nossa madressilva também murchou. Os arbustos pararam de produzir flores. Em toda a América, estufas gigantes ocupavam o lugar dos campos ao ar livre nas nossas fazendas. Hectares e mais hectares eram colocados sob vidro. Milhares de lâmpadas de vapor de sódio forneciam a luz necessária a nossos tomates, batatas e morangos, nossas batatas e espigas de milho. “Os países em desenvolvimento serão os mais atingidos”, declarou um diretor da Cruz Vermelha a um programa matinal. Epidemias de fome estavam previstas para a Á ica e algumas regiões da Ásia. “Esses países simplesmente não têm os recursos financeiros para se adaptar.” Mas, mesmo para nós, as soluções eram temporárias. Fazendas industriais devoravam energia elétrica a um ritmo insustentável. As vinte mil luzes que pendiam do teto de uma estufa eram capazes de consumir, em meia hora, a mesma quantidade de eletricidade que a maioria das famílias usava num ano inteiro. Áreas de pastagem rapidamente ficaram muito caras — a carne logo se tornaria uma iguaria. “Temos que seguir na direção oposta”, disse o diretor de uma grande

entidade ambientalista entrevistado no noticiário da noite. “Precisamos reduzir, e não aumentar, nossa dependência de culturas que necessitam de tanta luz.” Bananas e outras utas tropicais já haviam desaparecido do mercado. Bananas! Como uma palavra pode soar estranha, quando já não se ouve alguém pronunciá-la em voz alta há séculos. Cientistas competiam para achar uma solução. Havia esperança na engenharia genética. Falou-se de um arroz milagroso. Alguns pesquisadores voltaram sua atenção ao chão coberto de musgo das florestas tropicais e às profundezas sem sol dos oceanos, onde certas plantas havia muito tempo sobreviviam com muito pouca luz; esperavam conseguir uma liga entre os genes dessas espécies resistentes e os daquelas que forneciam alimento ao mundo. Em alguns momentos ficávamos angustiados; em outros, não. A ansiedade vinha em ondas. O humor nacional era contagiante e mudava rapidamente. Às vezes, semanas se passavam em relativa calma. Mas qualquer má notícia provocava uma correria aos enlatados e à água engarrafada. O estoque de suprimentos de emergência de minha mãe continuava a crescer. Eu chegava a encontrar velas armazenadas no armário dos casacos, latas de atum na garagem. Cinquenta potes de manteiga de amendoim se enfileiravam debaixo da cama dos meus pais. E a desaceleração prosseguia. Os dias se esticavam. Um a um, os minutos se acumulavam — e até uma gota, conforme viríamos a saber, poderia acabar causando uma inundação.

22

Mas não há força na Terra capaz de desacelerar a marcha progressiva do sexto ano. E assim, apesar de tudo, aquele também foi o ano das festinhas. Sempre que o aniversário de uma das minhas colegas se aproximava, convites eram enviados por e-mail para uma lista seleta de meninos e de meninas. O tempo das festinhas de um único sexo tinha passado. Agora DJs eram contratados e pistas de dança eram alugadas. Luzes estroboscópicas e globos de discoteca eram pendurados em tetos de porões, cercas de quintal ou, no caso de Amanda Cohen, aos beirais do salão de baile de um hotel. Michaela costumava descrever para mim essas ocasiões festivas enquanto esperávamos o ônibus da escola, certas manhãs. Mas às vezes nem era preciso me contar: em determinada segunda-feira, todas as meninas bonitas apareceram na escola confortavelmente enfiadas em moletons cor-de-rosa com o nome e a data de nascimento de Justine Valero pregados às costas em pedrinhas brilhantes que imitavam diamantes, lembrança da festa do sábado. Era considerada sortuda aquela cujo aniversário caísse numa noite escura, já que o clima romântico era consideravelmente favorecido pelo luar e pelas estrelas. Mas, quanto ao que acontecia exatamente nesses eventos, não sei dizer. Nunca fui convidada. “Tenho certeza de que Justine simplesmente se esqueceu de convidar você”, disse Michaela. Uma nova anja avermelhada e lisa pendia bem acima de suas pálpebras. “Ela deve ter se esquecido, só isso.” Hanna estava encostada numa cerca nas proximidades, vestindo um conjunto de moletom verde e com uma trança no cabelo loiro. Ria falando ao celular. Não tínhamos nos falado nas últimas semanas. “Além do mais”, prosseguiu Michaela, “você não teria se divertido mesmo. Você é muito tímida. Aposto que ia acabar ficando num canto.” “Isso não é verdade”, eu disse. “Eu ia dançar.” Meu próprio aniversário chegaria em apenas algumas semanas. Não haveria festa. Não haveria dança. “Você, dançar?”, disse Michaela. “Sério?” Estava escuro naquela manhã, o ar úmido do nevoeiro brilhava sob as lâmpadas da rua e debruçava-se para dentro da cratera do cânion, onde, como em qualquer outro lugar, dezenas de espécies de plantas nativas morriam lentamente por falta de luz. “Fiquei dançando uma hora com Seth Moreno, no sábado”, continuou Michaela. “Foi intenso.”

O nome de Seth incendiou minha cabeça.

“Ele estava lá?”, perguntei. “Ele é demais de pertinho”, ela disse. Ela estremeceu em sua minissaia. “Até senti o negócio dele.” Logo em seguida, Seth encostou junto ao ponto de ônibus com seu skate e Michaela parou de falar.

Nossa escola havia perdido um quarto dos alunos desde o anúncio da desaceleração, mas quinhentos e quarenta e dois de nós permaneciam. Todas as manhãs, antes de soar o primeiro sinal, a voz dessas quinhentas e quarenta e

duas pessoas saía dessas quinhentas e quarenta e duas gargantas. Quinhentas e quarenta e duas bocas lutavam para ser ouvidas, o bramido aumentando à medida que os ônibus despejavam carregamento após carregamento de crianças no pátio. Rumores passavam de grupo em grupo — havia panelinhas dentro de panelinhas dentro de panelinhas. Levas de risos em alto volume explodiam no ar constantemente. Quinhentas e quarenta e duas vozes batiam e ecoavam na parte externa do estuque das paredes, acompanhadas pelo toque de quinhentos e quarenta e dois telefones celulares. Alguém estava sempre chocado com algo que acabara de ouvir. Alguém estava sempre gritando. De onde eu ficava, na ponta mais extrema da multidão, os sons pareciam tão sem sentido quanto se todas aquelas vozes estivessem falando línguas diferentes, num grande bate- papo incompreensível. Nesse ambiente, o silêncio era a morte. A conversa mandava. Não valia a pena ser do tipo quieto.

A cada dia de aula eu ansiava pelo pouso suave da tarde, pelo clique da chave

na fechadura da porta de casa, pelo silêncio da casa vazia. Minha mãe tentava continuar trabalhando e, portanto, não estava na maior parte das tardes — ou

ficava no andar de cima, dormindo. Num desses dias, eu estava lendo quando ouvi uma batida firme na porta.

O autor que estávamos estudando na aula de inglês era Ray Bradbury, e a leitura daquele dia era um conto sobre um grupo de crianças em idade escolar que vivia em Vênus, onde, segundo a história, o sol conseguia atravessar as nuvens densas só uma vez a cada sete anos, e por apenas uma hora.

A campainha tocou duas vezes antes de eu chegar à porta. Do lado de fora

estava Gabby, ainda com o uniforme do St. Mary’s: saia xadrez verde e camisa polo branca, suéter azul-marinho amarrado à cintura. Abri a porta. “Seus pais não estão em casa, estão?”, perguntou. Ela es egava as mãos e olhava para trás, na direção da rua. Seu cabelo tinha crescido um pouco, mas não muito. Uma penugem marrom cobria seu couro cabeludo. “Eles ainda estão no trabalho”, eu disse.

Ela entrou e fez sinal para eu fechar a porta. “Preciso checar meus e-mails no seu computador”, disse baixinho, como se a casa pudesse estar grampeada.

Fazia duas semanas que estava proibida de acessar a internet, ela contou, e seu celular permanecia trancado dentro de uma gaveta na escrivaninha da mãe. Ela tivera pouco contato com o menino da colônia naquele tempo, mas, claro, essas eram as exatas condições para que o amor entre eles se desenvolvesse plenamente. Em ente ao computador, ela trabalhou rápido. Um estrépito de unhas batendo nas teclas, uns poucos cliques no mouse. Então ela se levantou. “Provavelmente não vamos nos ver por um tempo”, disse. “Por que não?” “Vou dar o fora desta porra. Amanhã Keith vai me pegar na escola e vou morar com ele em Circadia.” Não era a primeira vez que ela ameaçava fugir. Gabby estava sempre planejando e sonhando. Mas eu sabia que nunca tinha ido até o fim.

“E seus pais?”, perguntei.

“Melhor você não dizer nada pra eles.” “Eles vão pirar”, eu disse. Ela andava para lá e para cá no hall de entrada. Seus sapatos, parte do uniforme da escola, rangiam a cada passo. “Tudo aqui é uma porcaria, de qualquer jeito”, ela disse. Gabby fez um movimento amplo com a mão. Ao lado dela, nossa figueira definhava no vaso. Plantas caseiras se saíam ainda pior do que as variedades cultivadas ao ar livre. “Você está falando sério mesmo?”, perguntei. “Acho que não devia ter contado”, ela disse. “Você é muito certinha pra entender.”

“Espere”, eu disse. Gabby abriu a porta e saiu para a varanda.

“Keith tem razão”, ela disse. “Todo mundo está meio dormindo por aqui. O Horário do Relógio é só outra forma de a sociedade nos enganar e nos manter entorpecidos.”

O sol desceu atrás da colina. O céu estava cor-de-rosa. Os crepúsculos

sempre foram bonitos onde morávamos, mas pareciam ainda mais dramáticos naqueles dias, por terem ficado duas vezes mais raros. “Por favor, não conte para ninguém”, ela pediu. Qualquer um que conhecesse Gabby como eu conhecia teria imaginado que ela não ia a lugar nenhum. O plano, se houvesse um, provavelmente desabaria. Alguma coisa mudaria: a mente dela se alterava rapidamente, seu humor, ainda mais. Eu tinha certeza de que Gabby voltaria da escola para casa, como de costume, no dia seguinte. Dormiria em sua cama e passaria imediatamente a

outro plano improvável de fuga. Ela me deu um rápido abraço e disse adeus. Voltei para a minha lição de casa. Ainda me lembro de como terminava aquele conto de Bradbury: no dia em que o sol finalmente brilha em Vênus, depois de sete anos afastado, um menino convence as outras crianças a trancar uma menina num armário. Quando o sol surge, todas as crianças correm para fora para sentir o sol em seus rostos pela primeira vez na vida. O sol brilha por apenas uma hora. A menina permanece presa no armário. No momento em que alguém se lembra dela, o sol já se deslocou para trás das nuvens, onde ficará por mais sete anos.

Ainda estava escuro quando cheguei da escola no dia seguinte. A alvorada só viria dali a várias horas. Fui direto para a casa de Gabby, e tive cala ios ao passar em ente à entrada de carros de Tom e Carlotta. Eles ainda viviam ali, mas a casa estava às escuras, claro, pois era madrugada para eles. Poucos meses depois, ambos foram condenados e sentenciados, e a casa foi vendida para pagar o processo judicial. Quando cheguei em ente à garagem de Gabby, vi que a casa estava escura demais. A luz da varanda brilhava solitária. Toquei a campainha. Ninguém respondeu. Toquei de novo. Pela janela da cozinha, eu podia ver uma fileira de eletrodomésticos novos, em aço inoxidável, brilhando ao luar. Cresci ouvindo histórias sobre os riscos específicos que as meninas têm de en entar. Sabia onde os corpos eram encontrados: nus em praias ou cortados em pedaços, algumas partes congeladas em eezers, outras enterradas sob o cimento. Tais histórias nunca foram mantidas em segredo para nós, meninas. Ao contrário, eram espalhadas como histórias de fantasmas, na esperança de que, pensavam nossos pais, o medo tivesse o efeito que nosso julgamento talvez não produzisse. Hoje, vejo a situação de Gabby sob essa mesma luz: uma menina de doze anos fugiu de casa com um homem que ela conhecera três semanas antes na internet. Ele afirmava ter dezesseis anos, mas quem saberia dizer? Supostamente, vivia numa das colônias sincronizadas com a luz do dia, mas eu nem mesmo sabia seu sobrenome. Narrativas como essa não costumam terminar bem e, desde o anúncio da desaceleração, se tornavam mais e mais equentes. As taxas de todos os tipos de crimes violentos estavam subindo, explicadas, em parte, por razões fisiológicas. A insônia criava uma espécie de desespero, acho. Diminuía a probabilidade de reprimir certos impulsos. A angústia começou no meu estômago, um aperto que se espalhou para o peito e os ombros, até alcançar a parte de trás do pescoço. Esteve latente durante toda a tarde, e fiquei surpresa que meus pais não a notassem no meu

rosto. Naquela noite, minha mãe levantou o assunto do meu aniversário. “Temos que fazer alguma coisa”, ela disse. “Por que não damos uma festa?” Mas eu não queria uma festa. Não tinha quem convidar. Minha mãe não tinha como saber que eu passava todos os intervalos na escola fingindo me comunicar com alguém pelo celular. A mudança tinha acontecido rápido, como uma alteração numa duna. E agora Gabby também tinha ido embora. “Em tempos como estes”, disse minha mãe, “é ainda mais importante celebrar as coisas boas.” Acabei concordando com um jantar. “Mas só nós três e vovô”, eu disse. “Vamos convidar Hanna, pelo menos”, disse minha mãe. “Faz meses que não a vejo.” “Não”, respondi. “Não vou convidar Hanna.” Perto da hora do jantar, todo o meu corpo queimava de culpa por não ter feito nada em relação a Gabby. A culpa parecia irradiar da minha pele, como feromônios, fumaça, ou algum sinalizador químico com poderes para atrair a mãe dela até nossa varanda, o que aconteceu logo depois das oito horas. Ela queria saber se tínhamos visto sua filha.

Minha mãe, à porta, parecia tentar se justificar. “Não”, ela disse. “Você já tentou os outros amigos dela?”

A mãe de Gabby olhou direto para mim. Ela usava um paletó com saia e

salto alto. Um lápis contornava seus lábios, remanescente da jornada de trabalho, mas o batom tinha desaparecido. “Por favor, não diga para ela que eu contei.” “Você sabe onde ela está?”, perguntou minha mãe. “Acho que ela foi para Circadia”, eu disse, e fiz uma pausa. “Com um menino.” “O que é Circadia?”, perguntou a mãe de Gabby. Ela usava lentes de contato, que ressecavam seus olhos. Piscava o tempo todo, e piscou ainda mais naquele momento, enquanto lágrimas invadiam seus olhos escuros. “É uma dessas colônias de adeptos do tempo real”, eu disse.

A mãe de Gabby chamou a polícia. Ela e o pai de Gabby seguiram para o

deserto de imediato, batendo de porta em porta a noite toda, com o sol brilhando no céu — era dia em Circadia. Todo mundo lá estava acordado. Pela manhã, Gabby tinha sido encontrada bebendo vinho num churrasco com Keith, um menino mais velho, também fugido da casa dos pais, que ficava em outra região do estado. Ela passou apenas uma noite em Circadia. Nunca mais foi a mesma depois daquilo. De volta à nossa rua, andava à toa,

atordoada e desiludida, uma viajante forçada a retornar de uma terra exótica e iluminadora. “Você contou para minha mãe que eu estava lá?”, ela me perguntou. “Não”, eu disse. Gabby voltou a cabeça na minha direção, cética. “Mesmo?” “Juro”, eu disse. “Vou voltar para lá algum dia”, ela disse. Uma nova sabedoria se revelava em sua voz. “É difícil explicar, mas Circadia é como um daqueles lugares, sabe, como é que se chama? Uma utopia. Todo mundo é completamente maduro. E o pessoal te trata como adulto. Ninguém se importa com a aparência ou com a roupa que você está usando.” A história de Circadia foi breve, algo que só fui saber depois. Aquelas fundações de cimento tinham sido colocadas a cerca de cento e cinquenta quilômetros da cidade um ano antes de a desaceleração ser anunciada por um empreiteiro que sonhava que a expansão selvagem das cidades costeiras da Califórnia em breve penetraria aquele trecho específico do deserto. Mas ele foi à falência seis meses antes do anúncio. As obras pararam. Durante meses, as casas ficaram vazias, erguidas pela metade — até que um grupo de adeptos do tempo real comprou a terra e tudo o que havia nela, batizando-a em homenagem a seus relógios internos, ainda funcionando nos ciclos circadianos de vinte e quatro horas. Gabby me descreveu uma terra dourada, o negativo de onde morávamos. O tempo realmente fluía de forma diferente, ela insistiu. Cada hora parecera um dia inteiro para ela. Corações batiam menos por minuto. As pessoas respiravam mais profundamente. A raiva demorava séculos a florescer. Eles viveriam mais tempo, ela jurou. E tudo durava: uma boa refeição, um crepitar de riso, os olhos dela nos de Keith, depois de se beijarem pela primeira vez. “Viver assim muda as pessoas”, ela disse. “Eles são muito melhores que as pessoas daqui.” Na Circadia do relato de Gabby, os habitantes eram uma nova leva de pioneiros pacíficos, trabalhadores, mas bem descansados — eles dormiam por vinte e quatro horas seguidas e, depois, ficavam acordados por todo esse tempo ou até mais, sem cansar. Não parecia possível para aqueles de nós que víamos de fora, mas a ciência já começava a respaldar a ideia: o ritmo circadiano se mostrava muito mais maleável do que se pensava anteriormente. As lembranças que Gabby guardou de Circadia me marcaram. Eu gostava da ideia de ir para um lugar distante. Às vezes, nas noites brancas, com a luz do sol atravessando minhas cortinas, eu tentava me lembrar qual era a sensação de dormir em sincronia com o sol. Que estranha e pacificadora soava a ideia de sonhar todas as noites no escuro. E que silenciosa devia ser a escuridão espessa do deserto, com apenas as estrelas a iluminar a terra. Lá não havia o zunido das estradas. O zumbido das linhas de transmissão de energia. Talvez eu nunca

tivesse ouvido um silêncio como aquele. Nem mesmo o tique-taque dos relógios podia acordar alguém — porque ninguém tinha relógios em Circadia. Assim que o cabelo de Gabby cresceu o suficiente para passar por um corte bonitinho, repicado curto, ela foi mandada para um internato a cento e cinquenta quilômetros de casa. Era a última amiga que me restava — e, sem mais nem menos, tinha ido embora.

23

Na roda da fortuna que se seguiu à desaceleração, a maior parte de nós saiu perdendo. Estávamos majoritariamente em pior situação do que antes. Alguns ficaram doentes, outros entraram em depressão. Um grande número de casamentos terminou por estresse. Bilhões de dólares foram drenados do mercado. E perdíamos alguns valores também: nosso modo de vida, nossa paz de espírito, nossa fé. Mas nem todo mundo estava so endo. Uns poucos sortudos saíram ganhando. Michaela e a mãe dela, por exemplo. Michaela tinha começado o ano letivo, seis meses antes, morando num apartamento alugado com vista para um estacionamento, no extremo mais

distante do bairro. Uma escada preta enferrujada agarrava-se à parte externa do prédio, e, ao bater no 2B, ouvia-se o ruído da corrente de segurança que Michaela destrancava por dentro. Mas, em fevereiro, um visitante somente chegaria à porta da ente de Michaela mostrando a identidade a um segurança numa guarita. Ele então interfonaria pedindo autorização antes de abrir o portão elétrico. A mãe de Michaela começara a namorar um cara rico, e as duas tinham se mudado para a casa dele. Fiquei chocada com o convite para ir lá no sábado. Ninguém me convidava para nada havia meses.

“E traga roupa de banho”, Michaela dissera ao telefone. “Tem uma piscina e

uma jacuzzi no quintal.”

Já do lado de dentro do portão, meu pai e eu seguimos em silêncio, passando por uma dúzia de casas grandes, todas afastadas da rua e adornadas, na ente, por fontes ou lagos. Estábulos e quadras de tênis se espalhavam em todas as direções. “Olha só esse lugar”, disse meu pai. “Quem é esse cara com quem ela se casou?” Minha mãe estava em casa, so endo um de seus acessos. Não havia como prever quando o nevoeiro baixaria sobre ela. “Eles não são casados”, eu disse. “Mas acho que ele abriu uma empresa.”

O céu surgia reluzente, num tom de laranja extraordinário, enquanto

avançávamos com o carro. Havia um incêndio no campo aberto a leste, e a fumaça escapara para a costa. Não era época de incêndios, mas o fogo se alimentava dos restos de plantas mortas ou em vias de morrer. Dava para sentir o cheiro de queimada no ar. Era possível perceber uma diminuição da

luminosidade. Tudo o que fosse branco ganhava um tom levemente âmbar. No endereço que Michaela havia me passado, uma entrada de carros circular rodeava um enorme gramado artificial. Aquela grama parecia quase real, não havia ali duas folhas iguais. E era feita de alguma coisa macia, numa textura projetada para enganar os pés. O cheiro também era real. Algumas das marcas mais caras vinham com aquele aroma, moda que não durou muito, acho, já que nos lembrávamos cada vez menos claramente do cheiro de grama de verdade. A casa era grande, térrea e arejada, espalhando-se por todo o terreno feito um banhista estirado à beira de uma piscina. Uma robusta aldraba de ferro adornava a porta da ente. Michaela apareceu antes que eu chegasse a tocar a campainha. Já estava de roupa de banho, o biquíni rosa aparecendo por baixo da blusinha branca de alças. Tiras cor-de-rosa pendiam-lhe do pescoço. “Entra”, ela disse. No interior da casa, uma mexicana baixinha fechava o zíper da bolsa perto da porta. No ar, um cheiro doce. Havia alguma coisa no forno. “Alma fez biscoitos pra gente”, disse Michaela. “Obrigada, Alma”, gritou uma voz de outro cômodo. Reconheci a voz da mãe de Michaela. “Até amanhã.” Uma trilha quase infinita de lajotas em terracota levava, por fim, à cozinha, pouco visível, ao longe. “Pode deixar suas coisas aqui”, disse Michaela. Minha mochila e meu saco de dormir formaram uma pilha ordenada junto à parede. Na cozinha, todas as superfícies eram inoxidáveis, pouco usadas, novas em folha. E, na minha memória, a mãe de Michaela tinha a mesma aparência, reclinada sobre o balcão, vestindo um roupão de seda pêssego. Seu rosto estava pesadamente maquiado. Um delineador prateado brilhava em suas pálpebras e nos cantos dos olhos. O cabelo loiro tinha sido alisado até parecer uma folha acetinada e reluzente. “Meninas, querem que eu leia o horóscopo de vocês antes de ir?”, ela perguntou. Um mapa astral foi aberto sobre a bancada de mármore. “Leia o de Julia”, disse Michaela. Na bancada, reluzia uma tigela de vidro funda, cheia de uvas verdes. Desde antes do Natal eu não via uvas. “Meio quilo destas uvas custa uns cem dólares”, disse Michaela, enfiando uma na boca. “Não é louco?” Foi a última vez que senti o gosto de uma uva. Uma série de pequenas explosões soou na sala adjacente. Num sofá de couro branco, um menino um pouco mais velho que nós tinha um controle de videogame nas mãos. “Aquele é Josh”, sussurrou Michaela. “Ele é filho de Harry.”

Harry era o namorado da mãe dela. Aquela era a casa dele. “Julia, querida, você sabe seu signo?”, perguntou a mãe de Michaela. Eu não sabia. “Quando é seu aniversário?” “Sete de março”, eu disse. “Está chegando então”, ela disse. “Você vai fazer uma festa?” “Acho que não”, respondi.

A campainha tocou e Michaela saiu saltitante pelo corredor. “Você devia fazer uma festa”, disse a mãe dela. Então voltou sua atenção para ”

o mapa. “Se você é de peixes e nasceu no mesmo ano que Michaela

correu os dedos sobre o papel até as pontas vermelhas de suas unhas se encontrarem num dos cantos. “Huuum”, disse. E franziu o cenho. Dava para ouvir a risada distante de Michaela na frente da casa. “É ruim?”, perguntei. “O importante não é tanto seu horóscopo, é o que você faz a partir dele”, disse a mãe de Michaela. “E, de qualquer maneira, a desaceleração alterou totalmente os mapas. Está tudo um pouco instável neste momento, por isso não dá para confiar, necessariamente.” Michaela se aproximava. Ouvi uma voz de menino. “Mas tome cuidado, está bem?”, disse a mãe dela. Seus olhos brilharam quando piscou para mim. “Se eu fosse você, só tomaria um pouco mais de cuidado do que o normal por um tempo.” Michaela voltou à cozinha com um garoto que reconheci da escola. Kai era um ano mais velho e meio havaiano. Ele me deixou encabulada pelo jeito como ficou ali parado, sem sorrir, esperando que lhe proporcionassem alguma diversão. Sua pele exibia um bronzeado claro, seus dentes eram de um branco nítido. Ele mantinha os dois polegares enganchados nos bolsos da bermuda azul e olhava para a mãe de Michaela em seu roupão. “Sete horas já?”, disse a mulher. “Merda, é melhor eu me arrumar.” Ficamos só nós três na cozinha. Um silêncio se seguiu à partida da mãe de Michaela. O único som era de água corrente, vindo das duas fontes em forma de cisne na piscina, lá fora. Mas a musiquinha do videogame finalmente ressurgiu às nossas costas. “É Street Avenger?”, perguntou Kai. Foram as primeiras palavras ditas por ele, que partiu em direção à sala, arrastando os chinelos na lajota. “Ele não é demais?”, Michaela sussurrou para mim enquanto o seguíamos. “Não é bem meu namorado, mas é mais ou menos.” “Alguém mais vem?”, perguntei. “Não”, ela disse. “Por quê?” Josh e Kai jogaram três rodadas de Street Avenger enquanto eu e Michaela ficamos assistindo. Tentei demonstrar espontaneidade, o tempo todo cruzando

Ela

e descruzando as pernas. Com equência, naquela época, tinha a sensação de estar sendo observada, mas acho que era resultado de condições exatamente opostas. A mãe de Michaela reapareceu num vestido reluzente e com sapatos de salto. A seu lado, Harry trajava um casaco esporte marrom. Ele era magro e atlético, mas devia ser uns vinte anos mais velho do que ela. Os dois tinham se conhecido apenas três meses antes. “Divirtam-se, crianças”, disse a mãe de Michaela. “Mais tarde voltamos.” Minha mãe não teria me deixado ir se soubesse que ficaríamos sozinhos. “Josh”, disse Harry ao filho, ao sair da sala. “Você toma conta da casa.” Os estalos dos saltos da mãe de Michaela seguiam rápidos pelo corredor, e logo ouvimos o barulho da porta da garagem abrindo e fechando, depois o ronco do carro, que foi desaparecendo à medida que se afastava. “Estou cheia desse videogame”, disse Michaela. “Vamos lá para a jacuzzi.” “Primeiro”, disse Josh, “precisamos de algumas cervejas.” “Vocês bebem cerveja?”, perguntou Kai. Tentei simular a aparência de uma garota que não se espantava com umas cervejas. “Vão perceber se a gente pegar”, disse Michaela. “Não se a gente pegar do quarto de segurança”, garantiu Josh. “O que é isso?”, perguntei. Josh pulou do sofá e atravessou o corredor depressa. Nós o seguimos. Ele era mais velho — tinha treze anos —, um garoto alto e magro, só membros. Parou em ente a um espelho de corpo inteiro pendurado em uma parede, em torno do qual havia uma moldura pesada de mogno. Correu os dedos pela lateral e, depois de um momento, puxou-a para fora. O espelho tinha dobradiças secretas e se abriu como uma porta. Na parede atrás dele, ficava embutida uma segunda porta, metálica. “Isto aqui é de aço”, disse Josh enquanto digitava uma senha no teclado ao lado. Ouvimos o som de uma trava sendo liberada. “E tem quinze centímetros de espessura.” Eu nunca tinha visto nada parecido. Estava escuro do outro lado da porta. Um toque no interruptor de luz revelou uma sala enorme abarrotada de prateleiras de madeira, cada uma, por sua vez, abarrotada de suprimentos: dezenas de caixas de velas, centenas de pacotes de pilhas, caixas cheias de latas de uta em conserva e de atum, vegetais enlatados, suco em lata, leite condensado e leite em pó, vinte e cinco potes de manteiga de amendoim. Havia um conjunto de caixas transparentes de plástico contendo aveia, cereais e arroz. Uma pilha de embalagens prateadas e finas brilhava sob as luzes. “Refeições desidratadas e congeladas”, explicou Josh. Centenas de galões de água mineral se empilhavam de três em três numa

prateleira. Havia uma pirâmide de papel higiênico e um barril enorme, verde, etiquetado em letras grandes: COFRE DE SEMENTES DE SOBREVIVÊNCIA. Vários sacos de dormir enrolados se amontoavam perto de um rádio a manivela e de um fogareiro de acampamento. Acima de nossas cabeças, caixas de atadura, gaze, sabão e ascos de remédios organizados em fileiras: antibióticos, vitaminas, iodo. “Puta merda”, disse Kai. Ele olhava para um gabinete envidraçado na parede oposta, dentro do qual estavam à mostra duas espingardas e sete facas. Seis caixas de balas se empilhavam debaixo das armas. “O que é tudo isso?”, perguntei. “O que parece que é?”, disse Josh. Ele distribuiu as cervejas. Segurei a minha com dois dedos, pelo gargalo. Nem sabia como manusear a garrafa. “O pai dele acha que o fim do mundo está próximo”, disse Michaela. “Então colocou todas essas coisas aqui.” “Temos comida suficiente para sobreviver durante um ano”, contou Josh. “E esta sala é arquitetonicamente invisível, ninguém imagina que ela existe. Então, quando todo mundo ficar sem comida, ninguém vai entrar aqui pra roubar a nossa.” Comparados com aquilo, os estoques da minha mãe não eram nada. O quarto de segurança não era a única característica especial da casa. Tudo, naquele lugar, havia sido adaptado. As luzes de todos os seis quartos contavam com reguladores sofisticados, programados em sincronia com os relógios para imitar o nascer e o pôr do sol. Persianas blecaute, com a tecnologia mais avançada, eram capazes de bloquear completamente a luz natural nas noites brancas, e a cama de bronzeamento artificial do banheiro principal, que Michaela chamava de solário, reproduzia em vinte minutos os efeitos de um dia inteiro de sol, para quando ele nem chegasse a aparecer no horizonte. Uma estufa totalmente funcional, na qual cenouras e espina es eram cultivados, ficava escondida junto à cobertura da piscina, nos fundos. E um gerador movido a energia solar estava a postos. “Vocês vão ver”, disse Josh. “Um dia, a gente vai chegar no supermercado e as prateleiras vão estar vazias.”

A jacuzzi esquentava tanto que doía. Sentamos na borda por um tempo, as pernas balançando, acostumando com a água, antes de finalmente entrar, um a um. Michaela sentou no colo de Kai. Ele enrolava uma mecha do cabelo dela enquanto conversávamos. Josh sentou bem perto de mim na água. Bebi um pouco de cerveja. Tinha um gosto horrível. Mas comecei a me sentir mais solta, sentada ali com aquelas crianças, de biquíni novo, o vapor subindo no

meio da gente. Enquanto isso, o sol brilhava — enevoado e esmaecido de fumaça — e o vento soprava cinzas que pousavam ali em torno, no pátio, feito neve. Os incêndios ao longe só faziam aumentar nosso prazer. Significavam que estávamos vivendo tempos importantes. “A gente já mostrou a casa dos cultos?”, perguntou Michaela. Ela se virou e apontou para uma das mansões vizinhas. Não havia cercas ali, por alguma razão, e dava para ver os fundos de uma casa a partir do quintal de outra. Aquela se parecia com todas as demais, dois andares, com garagem para três carros. Mas havia sido ali, entre aquelas paredes, que catorze pessoas se mataram com vinho envenenado na véspera do Ano-Novo. “Mas um cara não estava em casa quando eles fizeram isso”, contou Michaela. “Então ele mora lá sozinho, agora.” O pé de Josh roçou o meu debaixo d’água. Decidi que ele se parecia um pouco com Seth Moreno. Tomei um golinho de cerveja. Um amontoado de eucaliptos se agitava acima da piscina. Pareciam extremamente saudáveis, aquelas árvores, mantidas assim — eu soube mais tarde — por lâmpadas ultravioletas ocultas entre os galhos.

Pedimos pizza com queijo extra. Comemos ainda de roupa de banho, molhando o sofá com a umidade que passava através de nossas toalhas. Deixamos rastros de cinzas molhadas que chegavam ao interior da casa, e a porta dos fundos ficou aberta. Assistimos a tudo o que pudemos achar na televisão; paramos numa longa cena de sexo em alemão. Comemos biscoitos e sorvete, e abrimos mais cervejas. Rapidamente recuperei o velho sentimento de estar enturmada. Josh sugeriu um jogo do qual eu nunca tinha ouvido falar. “Mas só é divertido no escuro”, disse Michaela. Eram dez horas de uma noite branca, o pôr do sol estava pelo menos seis horas distante. “Dá pra fazer com as janelas fechadas”, disse Josh. “Olha isso.” Ele digitou uma senha em outro teclado na cozinha. A uma sequência de bips curtos seguiu-se um zumbido mecânico suave que se irradiava de todas as direções. Folhas de metal cinzentas baixaram lentamente sobre as janelas atrás de nós. “Que porra é essa?”, disse Kai. A luz do sol desapareceu rapidamente à medida que as persianas deslizavam para o chão. Michaela acionou um interruptor de luz antes que a casa ficasse às escuras. “Essas persianas são feitas de aço também”, explicou Josh. Paramos ao redor da única lâmpada acesa, como uma fogueira de acampamento, um brilho amarelado em nossos rostos. “E elas não funcionam apenas contra a luz.

Protegem das pessoas também.” Parecia que eles estavam se preparando para uma temporada de monstros, mas pensavam na verdade nos vizinhos, alguns talvez até amigos deles. Michaela explicou as regras da nova brincadeira enquanto corria os dedos pelo cabelo preto de Kai. Era como esconde-esconde, disse, só que, ao encontrar a pessoa, você se juntava a ela no esconderijo. O último a encontrar os outros perdia. Tiramos a sorte para ver quem se esconderia primeiro, e fui a escolhida. Os outros se fecharam no quarto de Michaela para me dar tempo de achar um esconderijo. Depois de contar até vinte, apagariam todas as luzes e começariam a procurar no escuro. Escondi-me no quarto de segurança, que tinha sido deixado aberto. Fiquei agachada perto do estoque de papel higiênico, no fundo do cômodo. Passado um momento, vi as luzes se apagarem. Ouvi o som de risos distantes. Esperei que meus olhos se acostumassem à escuridão, mas isso não aconteceu. Nenhum resquício de luz do dia passava através daquelas persianas. Restava apenas escuridão, uma espécie de cegueira. Tudo ali estava, como costumávamos dizer antes, escuro como a noite. Depois de alguns minutos, ouvi passos do lado de fora, o ranger da porta se abrindo, som de respiração. Alguém estava no quarto comigo. Algumas latas foram derrubadas. “Merda”, disse a voz de um menino. Eu poderia afirmar que era Josh, embora não pudesse vê-lo, nem mesmo um contorno, uma sombra, nada. Ele tateou pelo cômodo até esbarrar com as mãos no meu ombro. “Achei”, sussurrou. E fiquei feliz. Ele se sentou ao meu lado no chão. Tocou meu ombro de novo, como que por acidente. Adquirimos um novo poder, milagroso: a invisibilidade. “Você estava bonita de traje de banho”, ele disse. “Obrigada”, respondi. Sorri um sorriso invisível. Talvez tivesse sido a primeira vez que um menino dizia gostar da minha aparência. Ficamos ali sentados, sem falar, por um longo tempo. “Nunca beijei uma menina”, ele sussurrou. Existem criaturas, no fundo do oceano, que são capazes de viver sem luz. Evoluíram a ponto de prosperar onde outros animais morreriam. As trevas também nos dotaram de certas habilidades especiais. O que era possível na escuridão nunca teria funcionado à luz. Fiquei quieta e esperei que algo acontecesse. Senti a respiração dele no meu rosto e permaneci imóvel. Segundos se passaram. E então, senti os lábios dele pressionados contra o meu queixo — no escuro, ele tinha se confundido. “Tudo bem”, eu disse.

Ele não respondeu. Pigarreou. “Podemos tentar de novo?”, perguntou. Mas eu perdera a coragem. “Estamos no meio do jogo”, eu disse. Quando senti que ele se inclinava para mim outra vez, eu me inclinei para trás. “Vamos”, ele sussurrou. “Estaremos todos mortos em um ano ou dois, de qualquer maneira.” “Ninguém sabe o que vai acontecer”, eu disse. Eu prestava atenção, buscando ruídos de Kai e Michaela, mas não ouvia nada. “Quando acabar a comida, vai haver guerra”, ele disse. “Uma grande guerra.”

Ele tentou me beijar mais uma vez, mas dei um pulo, batendo numa das prateleiras atrás de nós. Alguma coisa caiu no chão. Em caso de catástrofe, eles teriam um pote de geleia a menos. “Tudo bem”, Josh disse. “Eu devia mesmo ter percebido que você era uma chata.” Ouvi-o ficar de pé e se arrastar na direção da porta, no escuro. Um cheiro de morango flutuou no ar. “Michaela só convidou você porque a mãe dela a obrigou”, ele disse. “Ela não ia deixar que a filha trouxesse o namorado aqui a menos que alguém responsável viesse também.” Assim que ele disse isso, eu soube que era verdade — aquela noite toda ali era apenas uma ilusão de óptica, o que agora ficava claro. Michaela não tinha me convidado para mais nada o ano todo.

A porta rangeu ao abrir e fechou com um clique. Eu estava de novo sozinha

na escuridão. Fiquei encolhida ali por mais um tempo. A única opção parecia ser continuar a brincadeira. Mas ninguém apareceu, e logo uma fenda de luz

surgiu debaixo da porta do quarto de segurança. Tinham acendido as luzes da casa — ou levantado as persianas. No corredor, precisei apertar os olhos para enxergar. Meus olhos demoravam para se adaptar à luz. Michaela e Kai tinham voltado a ver televisão, suas pernas entrelaçadas no sofá. Michaela comia bombons de uma caixa. Josh não estava com eles. “Aí está você”, ela disse. Estava só de biquíni. O cabelo ainda estava bagunçado depois da jacuzzi. “Não conseguimos te achar em lugar nenhum.”

A luz azul da televisão cintilava no rosto dela. Kai mantinha os olhos na tela.

“Vocês pararam de procurar?”, eu quis saber. “Não conseguíamos te encontrar”, ela explicou. Voltou a olhar para a televisão. “Josh disse que checou o quarto de segurança e você não estava lá.”

Mais tarde, adormeci de jeans no sofá. Acordei duas vezes: uma quando a mãe de Michaela e Harry passaram por ali, entrando em casa — os saltos dela estalando, os dois rindo —, e de novo, mais tarde, com os ruídos de um dos garotos, Josh, acho, vomitando no banheiro. Fui a primeira a acordar pela manhã. Uma caixa de pizza estava aberta sobre o balcão e, ao lado, havia um pote cheio de sorvete derretido. Mas alguém tinha retirado as garrafas de cerveja. O sol tinha se posto durante a noite. Estava escuro e io, e continuaria escuro o dia inteiro. Liguei para casa e minha mãe mandou meu pai me buscar. Saí sem me despedir. Alguém deve ter atendido o interfone quando o guarda da guarita chamou, porque o carro do meu pai logo apareceu na entrada circular, com os faróis acesos. “Por que ligou tão cedo?”, ele perguntou quando entrei no carro. “Algum problema?” O ar tinha um cheiro forte de fumaça. Os aviões de combate a incêndios não podiam voar sem luz, de modo que o fogo comeria solto por horas. O rádio do carro dava a notícia de mais uma história estranha: um terremoto havia atingido a parte rural do Kansas. Era o primeiro daquela magnitude registrado ali. “Só estava a fim de voltar para casa”, eu disse.

24

Dois dias antes do meu aniversário de doze anos, um grupo de baleias chegou na costa. Residentes das proximidades acordaram, certa manhã, e as encontraram na areia, contorcendo-se, acas, enquanto a maré recuava sem levá-las de volta. Dez criaturas do mar estavam presas à terra. Encalhes em massa estavam se tornando comuns em todo o mundo. Na Austrália, duas mil baleias-piloto e mil e duzentos golfinhos chegaram de uma vez na praia. Na Á ica do Sul, foram orcas. Em Cape Cod, oitenta e nove jubartes. Teorias abundavam. Mas eram escassas as evidências. O oceano estava so endo alterações — até aí já sabíamos. As correntes estavam mudando. As marés variavam. A cada maré alta, o mar subia mais. A cada maré baixa, recuava para mais longe. A cadeia alimentar se en aquecia, e novas zonas mortas haviam se formado em certas águas. Baleias morrendo de fome acabavam por se aventurar em águas rasas em busca de comida. Mas havia quem tivesse uma visão mais conservadora. “Esses eventos vêm ocorrendo ao longo da história”, dizia a srta. Mosely, a nova professora de ciências, enquanto nos remexíamos em nossos bancos no laboratório. Depois da chegada dela, paramos de atualizar a parede do sistema solar do sr. Jensen. O papel de embrulho preto tinha começado a esmaecer. Os planetas também de papel enrolavam nas bordas, e a Lua tinha caído do céu. Abaixo da palavra TERRA, ainda se lia na etiqueta 28 HORAS E SEIS MINUTOS, embora a duração de um dia natural tivesse mais do que duplicado desde então. A srta. Mosely se debruçava sobre um laptop na ente do laboratório, de saia justa cinza e camisa branca de colarinho, para nos mostrar fotografias na internet de centenas de baleias encalhadas numa praia no século XIX. “Estão vendo?”, dizia. “Esses encalhes de agora podem não ter nada a ver com a desaceleração.” Mas não nos deixamos enganar. Sabíamos o que estava por vir.

Eu passara a ficar na biblioteca no horário de almoço, onde Trevor Watkins ficava debruçado sobre um computador, abastecendo uma nave espacial com o combustível gerado pela resolução correta de problemas de álgebra, e Diane Kofsky lia um romance água com açúcar enquanto beliscava salgadinhos de queijo tirados da mochila — não era permitido comer nem falar na biblioteca.

A única boa desculpa para alguém escolher ficar na biblioteca no horário de

almoço era se tivesse que fazer lição de casa para a aula seguinte. Mas minha lição de casa estava feita. Tentei então ler — eu estava lendo um romance sobre um menino que acabava perdido, sozinho, nos confins do Canadá —, mas não conseguia me concentrar nas palavras. A sra. Marshall lia o jornal em sua mesa, levantando o olhar de vez em quando para observar os movimentos de Jesse Schwartz. Talvez todos estivéssemos na biblioteca contra a vontade, mas Jesse fora parar ali como castigo por alguma in ação desconhecida, mas facilmente imaginável. Ele estava sentado sozinho, numa mesa distante,

inquieto e olhando para o pátio, que era seu lugar, seu habitat natural. Os sons chegavam de lá até nós como um murmúrio fraco debaixo d’água. Transcorrida mais ou menos metade do horário de almoço, a porta de vidro da biblioteca se abriu. O barulho lá de fora aumentou de volume, mas foi rapidamente cortado de novo quando a porta bateu. Quando vi quem era, tive a sensação de que meus pensamentos o haviam atraído até ali. Ele era diferente das pessoas que estavam na biblioteca — mais bonito, mais amado. Seth Moreno: nunca antes eu o vira ali no horário do almoço. Sentou a duas cadeiras de distância de mim. Fiquei me perguntando por muitos minutos se aquela proximidade tinha sido acidente ou proposital. Ele apoiou o skate contra a cadeira. Diane levantou os olhos de seu livro. Não se viam muitos skates na biblioteca. Da mochila, Seth tirou um caderno espiral e uma lapiseira. Abriu numa página nova e a alisou com a palma da mão. Começou a desenhar com cuidado num caderno pautado. Eu podia ver a forma de um pequeno pássaro voando, surgindo lentamente da ponta do lápis, as asas dobradas nas laterais. Ele desenhou um segundo pássaro, alguns centímetros mais alto no céu. Passou a esboçar um terceiro, apagou, começou de novo. Os sons da biblioteca eram: o rangido das cadeiras ao ritmo de nossas respirações, a digitação de Trevor nas teclas do computador, o triturar abafado dos salgadinhos de queijo sob a força dos dentes de Diane, o virar das minhas páginas — e o roçar agradável e macio do lápis de Seth no papel. Lá fora, alguém bateu na janela. “Cara”, Seth sussurrou para mim. “Não aguento ficar no pátio, sabe?” Ele olhou na minha direção e, em seguida, baixou os olhos para o desenho novamente. Os cílios formavam uma franja espessa quando ele piscava. “Eu sei”, eu disse, finalmente.

O sinal tocou. Começamos a arrumar nossas mochilas. Diane lutava com o

zíper da sua. Trevor continuou debruçado sobre o computador. “Trevor”, disse a sra. Marshall da mesa onde estava. “O sinal tocou.” E, de repente, alguém estava parado perto de mim: era Seth, e ele dizia

alguma coisa. Seth estava dizendo alguma coisa para mim. “Ei”, ele disse. Há certo tipo de choque que só é possível quando se é jovem. Pensei que ele pudesse estar falando com outra pessoa. “Obrigado pelo cartão”, ele disse. “Ah”, respondi. “De nada.” “Você soube das baleias?”, ele perguntou. Eu tinha que olhar para cima para ver os olhos dele. Temia dizer algo de errado, então não disse nada por um momento. “Sim”, eu disse. Ele esperou que eu falasse alguma outra coisa. Eu podia sentir meu rosto ficando vermelho. Bandeiras de todos os países do mundo se agitavam dependuradas no teto da biblioteca. “Talvez alguém possa ajudar as baleias a voltar para a água”, eu disse. Mas Seth balançou a cabeça. “Elas provavelmente encalhariam de novo”, disse. “Meu pai é cientista. Ele me disse que, quando as baleias vêm dar na praia, é por algum motivo.” Outras crianças começavam a chegar à biblioteca — dessa vez eram os alunos com atestado médico dispensando-os de fazer educação física. “Vou até a praia depois da aula ver as baleias”, disse Seth. As rodas do skate giravam devagar quando ele o trocava de uma mão para a outra. “Quer ir?” “O quê?”, perguntei. De todos os fenômenos estranhos que se abateram sobre nós naquele ano, talvez nada tenha me surpreendido mais do que o som daquela simples pergunta saindo da boca de Seth Moreno: “Quer ir?”. Ainda me lembro da estampa de losangos vermelhos do carpete da biblioteca, de como o abrir e fechar da porta fazia as bandeiras no teto esvoaçarem. “Está bem”, respondi. “Certo”, ele disse. E foi isso. Ele se virou e foi embora.

No caminho para casa, sentamos separados no ônibus. Desembarcamos no ponto, os dois, com as outras crianças de sempre. A vizinhança estava quente e enevoada. Uma poeira soprava através do terreno baldio. Os demais se espalharam. Apressei o passo na direção de Seth. Achei que ele podia lançar o skate no asfalto e voar morro abaixo sem mim. Talvez eu tivesse entendido errado. Podia ter sido alguma brincadeira. Mas não, ele se virou, apertando os olhos, e disse: “Podemos deixar nossas mochilas na minha casa, no caminho”. Andamos em silêncio. A comunicação se dava por nossos pés, os meus

seguindo os de Seth pela calçada cintilante até a casa dele. Não contei aos meus pais aonde estava indo. Eles não chegariam do trabalho nas próximas horas, de qualquer maneira.

Seth morava a duas ruas de distância de nós, numa casa térrea e arejada, com uma cesta de basquete enferrujada na entrada da garagem. O jardim tinha virado terra. Ali havia uma fileira de vasos em terracota sem flores.

A porta da ente estava destrancada e entramos direto, deixando as mochilas

na sala, que estava cheia de jornais e de roupas vindas da lavanderia. Colchas grossas serviam de blecaute improvisado nas janelas. Um tubo de oxigênio e as mangueiras que o acompanhavam jaziam enrolados como destroços a um canto. A mãe de Seth tinha morrido naquela casa. “Quer uma coca?”, ele perguntou. “Pode ser.” Bebemos na mesa da cozinha. O pai dele estava no trabalho, Seth contou, ele trabalhava o tempo inteiro. Com bioengenharia, explicou, num novo tipo de milho. “Se funcionar”, Seth disse, “vai ser possível fazer o milho crescer sem luz.”

Seth conhecia um atalho até a praia pelo cânion. Era uma trilha íngreme e arenosa, cheia de pinhas pelo chão e sombreada por penhascos calcários. O cheiro do lugar era o mesmo de sempre, de terra e artemísia, mas as cores da Califórnia se tornavam mais duras. Tudo que era verde estava desaparecendo. Morria de tudo um pouco. Ainda assim, no cânion, zumbiam besouros, mosquitos e moscas — qualquer coisa que um dia os pássaros tivessem comido continuava a prosperar. “Cuidado com as cobras”, disse Seth. Gostei do jeito como ele andava: solto e sem pressa, um menino que sabia o caminho a seguir. Eu era a menina que andava com ele, então caminhei igual.

A trilha fez uma curva e a praia surgiu diante de nós. A maré estava baixa, e

eu nunca a tinha visto tão baixa assim. A desaceleração estava atrasando as marés. Centenas de metros do fundo do mar ficavam expostos, a areia rajada de preto com pedaços de ferro. Eram as entranhas do oceano reveladas. Ficamos parados na trilha por um momento, lado a lado, só observando o mar. Nossas mãos estavam tão próximas que quase se tocavam. Atravessamos a via costeira, passamos por debaixo da fita de alerta e cortamos o espaço entre duas mansões em ruínas, ainda molhadas da última maré alta. Uma casa tinha desabado. Suas paredes estavam revestidas de crustáceos. Anêmonas-do-mar acarpetavam os degraus da frente. Abaixei-me para tirar os sapatos. “Olha”, disse Seth.

E lá estavam elas: as baleias, escuras e imóveis, de tamanho pré-histórico.

Uma pequena multidão estava reunida na praia. Bons samaritanos jogavam água salgada nas baleias. Outros voluntários voltavam da maré distante, cambaleando com baldes cheios de água fresca do mar. Podíamos ouvir a respiração dos bichos, um lento sobe e desce. Escutamos. Observamos. Eram criaturas sociais, o grupo todo se estressava pelo estresse de qualquer uma delas. Era óbvio que estavam morrendo. Mas não podíamos evitar: estávamos hipnotizados. Seth pegou dois copos de plástico vazios da areia. Eram lixo velho. Entregou um para mim. “Temos que fazer alguma coisa”, ele disse. “Vamos.” Corremos descalços até a água, com os copos na mão. Era um longo percurso. Nossos pés eram sugados pela lama. Criaturas invisíveis deslizavam sob meus dedos. Peixes mortos brilhavam ao sol enquanto meu cabelo chicoteava ao vento. Quando finalmente chegamos às ondas rasas e olhamos para trás, quase não dava para ver as pessoas na praia. Seus braços e pernas fininhos flutuavam silenciosamente ao redor das baleias. O único barulho era o do movimento do oceano. Enchemos nossos copos com água rapidamente; em seguida, atravessamos correndo de volta toda a faixa de lama espessa. Procuramos pela baleia mais seca, por aquela que estivesse mais necessitada. Fomos encontrá-la na periferia do grupo, parecia que era mais velha do que as outras. Sua pele estava rajada de cicatrizes brancas. Enxotei as moscas dos olhos dela, um de cada vez. Seth derramou nosso minguado carregamento de água na cabeça e na boca do bicho. Acariciou a lateral do seu corpo. Senti uma urgência parecida com o amor. “Ei, crianças”, alguém chamou às nossas costas. Era um homem com um chapéu de praia, um balde branco vazio balançando numa mão. Uma rajada de vento abafou o que tinha dito, então ele gritou novamente: “Essa aí já está morta”.

Voltamos circunspectos pelo cânion. Estávamos exaustos e com calor. Era a vigésima terceira hora de luz do dia. O sol não dava sinais de que ia descer. “É o campo magnético que está fazendo isso”, disse Seth. “O quê?” Um vento forte soprou pelas encostas, levantando poeira e folhas secas. “É por isso que as baleias estão vindo para a praia. Elas usam o campo magnético pra se orientar, e a desaceleração o alterou.” Olhei para o céu, de um azul suave e sem mácula. “Não dá para ver”, disse Seth. “É invisível.” Aquelas foram apenas as primeiras baleias. Centenas de outras em breve aportariam na costa da Califórnia. Depois milhares. Dezenas de milhares. E

mais. Com o tempo, as pessoas pararam de tentar salvá-las. “Não são só as baleias que precisam do campo magnético”, disse Seth quando chegamos ao final do cânion e demos os primeiros passos em terreno pavimentado. “Nós também. Meu pai me disse que todos os seres humanos morreriam sem ele.” Mas, naquele dia, eu mal conseguia prestar atenção ao que ele dizia. Minha mente estava em outro lugar. Eu estava apaixonada. Tinha passado uma tarde inteira com Seth Moreno.

25

O eucalipto foi trazido para a Califórnia, inicialmente, na década de 1850. Importadas da Austrália, as sementes cruzaram oito mil quilômetros de mar aberto até chegar ao solo do nosso estado. O tronco era, supostamente, madeira milagrosa, perfeita para uma centena de diferentes finalidades, dormentes de estrada de ferro em especial. Mas a madeira acabou por se mostrar inútil. Ondulava ao secar e rachava ao ser pregada. A indústria de eucalipto do estado foi à falência antes mesmo de se desenvolver. Mas as árvores permaneceram e se espalharam. Estavam por toda a parte na minha juventude, e na do meu avô também. Suas silhuetas delgadas algum dia dançaram ao longo das encostas do litoral, dos penhascos da praia, dos campos de futebol. Suas longas folhas boiaram em piscinas e calhas. As árvores enfileiraram-se ao longo das margens de lagoas de água salgada. Por mais de cento e cinquenta anos, o eucalipto floresceu na Califórnia, sobrevivendo a toda e qualquer calamidade: terremotos, secas, a invenção do automóvel. Mas agora as árvores estavam so endo em massa. Suas folhas perdiam a cor. Uma seiva alaranjada escorria de rachaduras nos troncos. Pouco a pouco, foram morrendo.

Na manhã do meu aniversário de doze anos, eu estava deitada no escuro, acordada, lembrando detalhadamente todos os momentos e eventos do dia anterior: o jeito como Seth apertava os olhos enquanto caminhávamos ao sol pelo cânion, a delicadeza de sua mão ao acariciar os dorsos das baleias, o som de sua voz no final do dia e aquelas palavras — até mais — quando virou as costas e saltou sobre o skate, impulsionando forte com um pé para, em seguida, deslizar para um lado e outro morro abaixo, a camiseta branca ondulando ao vento atrás dele. Eu precisava ficar lembrando que tinha realmente acontecido: ele tinha me convidado. Meu quarto estava escuro. A casa estava em silêncio. Dali a algumas horas, eu encontraria Seth no ponto de ônibus, e queria dizer exatamente a coisa certa quando o visse, adivinhar as palavras, quaisquer que fossem, que me levariam a passar uma segunda tarde ao lado dele. Foi quando escutei um estrondo alto do lado de fora. Lembro-me do barulho de vidro quebrado e dos alarmes dos carros disparando. Corri para a janela e olhei para fora: o eucalipto mais alto da rua tinha atravessado o telhado de Sylvia, destruindo um canto da casa.

Com o tempo, passei a acreditar em presságios. Mas me pergunto se não poderia ter desenvolvido uma mente mais estritamente racional se tivesse vivido numa época anterior à desaceleração. Talvez, em algum outro tempo, ciência, em vez de superstição, pudesse ter me bastado. Meus pais correram para fora, minha mãe de roupão de banho, meu pai sem camisa. Era uma noite escura, nublada, sem estrelas. A árvore jazia em diagonal no jardim, bloqueando a porta da ente da casa. As raízes tinham ficado expostas, penduradas no ar, feito as de um molar arrancado da gengiva. Uma parte do telhado de Sylvia tinha desmoronado. Ao longo de toda a rua, luzes se acendiam nos quartos, portas se abriam, vozes de vizinhos emergiam dos jardins. Mas a casa de Sylvia estava escura e silenciosa. Alguns dos homens, de pijamas, correram naquela direção, mas meu pai foi o primeiro, entrando apressado pelo portão lateral, sem ser visto. Minha mãe estava com os braços cruzados no meio da rua. Fiquei ao lado dela, tremendo, só de camisola. “Ela devia ter cortado aquela árvore”, minha mãe disse. Dois dos nossos eucaliptos já tinham sido removidos. Por todo o bairro havia tocos, e as equipes de homens trajando uniformes fosforescentes trabalhavam constantemente nas ruas, derrubando as árvores, uma a uma, e depois levando embora os pedaços. “A gente devia cortar o resto das nossas também”, ela prosseguiu. Minha mãe deu alguns passos na direção da casa, ficou na ponta dos pés, procurando um ângulo de visão melhor. “Onde ele se meteu?”, perguntou. Eu costumava pensar que minha mãe soubesse pelo menos tanto quanto eu sobre meu pai e Sylvia, e que cada pergunta que ela fazia era, na verdade, um código para outra coisa. Mas talvez ela apenas intuísse a coisa toda. Ela também tinha seus segredos. Estava escondendo um novo estoque de suprimentos de emergência no armário do quarto de hóspedes. Acumulava centenas de latas de comida e as escondia do meu pai. E tinha encomendado uma estufa sem contar para ele. Por fim, meu pai emergiu do portão lateral. Sylvia vinha junto, apoiada no ombro dele, mas caminhando, descalça e vestindo uma camisola branca curta. Meu pai a conduziu até nossa varanda, onde ela ficou sentada com a cabeça entre as mãos. “Ela está bem”, ele disse. “Só está abalada.” Minha mãe trouxe água, embora tenha se mantido à distância quando lhe entregou o copo. A camisola de Sylvia deixava suas costas inteiramente expostas. Na ente, a forma de seus seios pequenos aparecia sob o algodão fino. Ela permaneceu sentada ali por um longo tempo, encurvada nos degraus, feito uma menina. Poucas vezes vemos adultos chorando do jeito que ela chorou naquela noite,

sem ter vergonha, entregue, abertamente. “Caiu em cima do piano”, contou meu pai, baixinho. “Não foi um acidente”, disse Sylvia, limpando o nariz com as costas da mão. Os outros vizinhos tinham voltado aos poucos para casa. As luzes se apagavam. Eram cinco da manhã de uma noite escura. “A árvore estava doente”, disse meu pai. “Não”, disse Sylvia. Ela balançava a cabeça. Tinha o pescoço finíssimo de um cisne. Os nós de sua coluna vieram à tona quando virou o pescoço. “Alguém fez isso.” Sylvia era a última adepta do tempo real na nossa rua. Os Kaplan tinham ido embora. Tom e Carlotta também; uma jovem família havia se mudado para a casa deles e iniciado uma reforma. “Estou dizendo, Joel”, prosseguiu Sylvia. O jeito como ela pronunciou o nome do meu pai não era o jeito como uma vizinha pronuncia o nome de um vizinho. Minha mãe escutou também. Olhou para meu pai e ajeitou melhor o roupão no pescoço. Sylvia continuou: “Estão tentando me expulsar”. Mais tarde, tentei dormir a hora que me restava antes de o despertador tocar, mas não consegui. Enquanto isso, meus pais discutiam a portas fechadas, no quarto deles. Não pude ouvir o que foi dito, mas a raiva que estava sendo expressa irradiava através da porta.

Era tradição entre as meninas da minha escola dar à aniversariante do dia um balão. Sempre o mesmo tipo de balão, desses que podem ser comprados em lojas de festa. E a gente o levava o dia inteiro na mochila, flutuando às costas, inflado e encantador, nas aulas de matemática, inglês, ciências, educação física. Cada um dos balões do dia se destacava acima do mar de cabeças nos corredores, uma boia marcando a localização exata de uma menina feliz e amada. A tradição não havia mudado com a desaceleração. No ano anterior, Hanna tinha me dado o balão, mas aquilo era uma vida passada, de outra pessoa, uma primavera pregressa e descomplicada. Dessa vez, eu tinha certeza de que meu aniversário passaria despercebido na escola. Tentei nem pensar nisso, mas não pude deixar de me sentir triste quando vi que, naquela manhã no ponto de ônibus, Hanna, sentada no muro, o celular pressionado com força contra o ouvido, nem me deu oi. Fiquei ali parada, meio deslocada dos demais no ponto, esperando na escuridão que Seth chegasse. Eu tinha passado um tempão escolhendo o que vestir, decidindo finalmente pela malha creme que eu havia usado no dia da sessão de fotos na escola e por uma saia jeans na altura do joelho. As estrelas brilhavam. Faróis cintilavam. Crianças iam chegando a pé de várias direções. Algumas emergiam do banco do passageiro de carros apressados, com as mochilas balançando nos braços. Seth não era uma delas.

Minutos se passaram. Comecei a tremer. Mudei o peso do corpo de um pé para o outro, e então descobri, para meu horror, que os pelos das minhas pernas reluziam sob as luzes da rua. De repente senti vergonha, parada ali, a poucos metros de distância das panturrilhas lisas e depiladas de Michaela, que, naquele exato momento, se movia atraente num par de sandálias pretas de salto, rindo ao cochichar alguma coisa para um dos meninos da oitava série. Finalmente ouvi o som de rodas de plástico arranhando o asfalto ao longe, o estrépito de uma prancha de madeira no meio-fio. Meu coração se acelerou. Lá estava ele: Seth Moreno. Seth desceu do skate. Enfiou-o debaixo de um dos braços. Eu queria dizer a ele que tinha ouvido falar a respeito de outro grupo de baleias encalhadas a poucos quilômetros mais acima, na costa. Mas não tinha certeza de como começar. Aquilo era novo para mim, a interação especial que conectava meninos e meninas. O ônibus encostou e as crianças começaram a subir, mas permaneci na calçada esperando que Seth me indicasse o que fazer. Nossos olhares se cruzaram. Ele me cumprimentou ligeiramente com a cabeça. Eu ensaiara aquele momento durante horas e havia esboçado uma centena de diferentes cenários. O sr. Jensen, certa vez, tentou nos convencer de que existia, em algum lugar, um conjunto de universos paralelos, inalcançável, mas real, onde qualquer alternativa era possível; o que não acontecia aqui, acontecia em outro lugar, cada alternativa se desdobrando num universo separado. Mas, neste mundo ao menos, as coisas naquela manhã ficaram reduzidas, por fim, à versão que se segue. Seth ficou parado na calçada por um momento, desviando os olhos. Não sorriu. Não falou. Então, passou por mim e seguiu em ente, como se fôssemos dois estranhos, simplesmente duas crianças que nem mesmo se conheciam. Embarcou no ônibus e não olhou para trás. Não sei quanto tempo se passou depois disso — trinta segundos, talvez mais —, mas me dei conta, em certo momento, de que o motorista do ônibus gritava para mim da cabine. “Ei, você”, chamou, erguendo a voz acima do zumbido do motor. “Não vai subir?” Todas as outras crianças já tinham embarcado àquela altura. Algumas olhavam para mim pelas janelas manchadas, sorrisos debochados se formando em seus rostos. Eu era uma menina parada sozinha, num chão de terra, vestindo uma malha creme e uma estúpida saia jeans. Era difícil respirar. Tive a ideia — mas tarde demais, depois de finalmente embarcar no ônibus e já estar acomodada na parte da ente, a quinze fileiras de distância de Seth — de que podia ter me jogado no cânion e ninguém teria notado.

Passei o intervalo entre as aulas no banheiro. Passei outro almoço na biblioteca. Diane estava lá, como de costume, a cruz dourada no pescoço reluzindo sob as luzes fluorescentes. Trevor fazia estalar as teclas do computador, ocupado com o mesmo jogo de sempre; detinha todos os recordes de pontuação dele. A sra. Marshall devolvia alguns livros às prateleiras — podíamos ouvir o gemido das rodas do carrinho no carpete, as capas amarfanhando a cada livro que deslizava de volta ao lugar. Toda vez que a porta se abria com um rangido, eu tinha esperança de que fosse Seth Moreno — vindo pedir desculpas ou se explicar. Um pensamento sombrio começou a borbulhar na minha mente: talvez ele não quisesse ser visto comigo na escola. Detrás das janelas fervilhavam os guinchos abafados das outras crianças, correndo soltas no pátio. Por onde andassem, elas nunca circulavam sozinhas. Christy Casteneda passou despreocupada do lado de fora da biblioteca — era aniversário dela também, e não um, mas dois balões se agitavam, presos em seu pulso delicado, com dedicatórias carinhosas em letra cursiva do lado prateado e sem estampa do balão. No primeiro dia do curso preparatório para álgebra avançada daquele ano, a sra. Pinsky tinha desenhado um gráfico em forma de funil na lousa para ilustrar o processo de seleção que iniciávamos ali. “Vocês estão todos na mesma classe por enquanto”, ela disse. “Mas o número de crianças que conseguem acompanhar matemática a partir de agora vai encolher a cada ano.” Era esse o momento que vivíamos: talentos começavam a emergir, pontos acos se revelavam, descobríamos que tipo de pessoas seríamos. Alguns seriam bonitos, outros engraçados, outros ainda tímidos. Alguns seriam inteligentes, outros mais inteligentes. Os gordinhos provavelmente seriam sempre gordinhos. Os amados seriam amados por toda a vida, eu achava. E temia que o mesmo acontecesse com os solitários. Talvez a solidão estivesse impressa nos meus genes e, depois de adormecida durante anos, entrasse agora em plena floração. Fingi que estava lendo. O relógio andava. Seth não apareceu. Em dias escuros como aquele, as janelas da biblioteca pareciam iluminadas como um aquário, seus habitantes em exposição para que todas as demais crianças os vissem: ali estavam os peixes mais exóticos, os solitários, os mal- amados, os esquisitos.

À noite, o eucalipto de Sylvia tinha sido cortado em pedaços, que foram empilhados depois feito ossos na entrada da garagem. Um plástico branco agora cobria o buraco no telhado, farfalhando toda vez que o vento soprava. O sol ainda não tinha aparecido. Meu pai passou um longo tempo naquela noite inspecionando o último dos

eucaliptos que restava em nosso quintal. Metade dele ainda produzia folhas, mas a outra metade estava morta, e a morte parecia estar se espalhando. Ele chamou o serviço de remoção de árvores antes de sairmos para meu jantar de aniversário. Minha mãe voltou para casa com um presente para mim: um par de sapatilhas douradas com acabamento plissado. As outras meninas da escola usavam sapatilhas assim fazia meses. Enfiei-as logo nos pés. Guinchavam no chão de lajota. Meu pai me deu um livro. “Era meu livro favorito quando eu tinha a sua idade”, ele disse. Na capa, uma sequência de montanhas, um vale, uma lua. As páginas cheiravam a poeira e mofo. “É sobre um garoto que está completamente sozinho no mundo. Ele fica muito solitário por um longo tempo. Mas então, bem, você vai ver.” Lembrei-me do mesmo livro circulando na sala de aula dois ou três anos antes. Eu não o havia lido, mas já tinha passado da idade. “Obrigada”, eu disse, e pressionei o livro contra o colo. Ele deu um apertão no meu ombro. Saímos para jantar. “Sorte eu não estar doente no seu aniversário”, disse minha mãe; seguíamos para o leste, em direção à casa do meu avô. Íamos pegá-lo no caminho do meu restaurante preferido. Eu estava ansiosa para vê-lo. A voz dele conseguia se sobrepor a todo o resto. “Ainda acho que devíamos ter dado uma festa”, disse minha mãe. “Temos que celebrar as coisas boas.” “E estamos celebrando”, disse meu pai. Ele olhou para mim pelo retrovisor. “É o que ela queria fazer.” A paisagem lá fora parecia ainda menos viva do que da vez anterior em que fizéramos aquele trajeto. Não eram apenas a grama e os eucaliptos. Havia sinais mais sutis também. Eu tinha certeza de que a margem da lagoa estava mais marrom do que costumava ser, de que as tifas e os juncos estavam menos abundantes do que antes. Evitávamos dizer isso em voz alta — tínhamos as estufas e as lâmpadas ultravioletas para garantir nossa comida por enquanto —, mas era difícil ignorar que as plantas iam sumindo cada vez mais, numa devastação furtiva. Só Deus sabia o que estava acontecendo em continentes menos afortunados. Mas, quando passamos por ele, o campo de golfe pareceu melhor do que em qualquer época, mais exuberante, novíssimo como nunca na vida. Todo o verde antigo tinha sido substituído por uma sofisticada relva artificial, e carrinhos circulavam lentamente pelas colinas: era o paraíso dos campos de golfe. “Não sei por que não convidamos Hanna”, disse minha mãe. Ela se virou para mim do banco da ente, o cinto de segurança atravessado no pescoço. “Vocês duas eram tão amigas.” “É, mas não somos mais”, eu disse.

A propriedade do meu avô parecia pior do que o normal. Ele se recusava a cortar os eucaliptos. Alguns estavam sem folhas e pareciam sombrios contra o céu. Outros tinham caído. Mas os pinheiros, pelo menos, resistiam, e assim mantinham a casa oculta da rua e do desenvolvimento em torno. Avançamos pela entrada da garagem. Pulei para o cascalho, corri até a porta. Meus pais esperaram no carro, com o motor ligado. Ele não atendeu, então toquei a campainha de novo. Bati. Mosquitos flutuavam ao redor da luz da varanda. Atrás de mim, o céu negro finalmente cedia a uma leve luminosidade. Era o nascer do sol que começava, lento. Tentei a maçaneta: a porta estava trancada. Voltei para o carro, minhas sapatilhas estalando alto no cascalho. “Ele não está atendendo”, eu disse. “Talvez ele tenha se esquecido de colocar o aparelho auditivo”, disse meu pai. Desligou o carro e seguiu atrás de mim até a casa. Minha mãe abriu a porta do passageiro para deixar um pouco de ar entrar. Meu pai tinha as chaves da casa. Destrancou a porta e entramos. “Pai?”, ele chamou. A casa estava calma, fazia calor ali dentro. O único som era o tique-taque dos relógios. A única luz vinha da luminária da cozinha. “Chegamos.” As janelas estavam fechadas e as prateleiras estavam vazias, como da última vez em que eu o visitara. “Onde estão todas as coisas?”, perguntou meu pai. Ele correu o dedo ao longo de uma prateleira vazia. Deu uma olhada através do vidro de um armário de mogno, vazio de suas entranhas de porcelana e cristal. “Ele estava fazendo uma arrumação no Ano-Novo”, contei. “Como assim?”, perguntou meu pai. Levávamos meu avô para jantar na maioria dos domingos. Ele geralmente esperava por nós na varanda, pronto para entrar no carro, insistindo que estávamos atrasados. “E também colocou umas coisas dele em caixas”, eu disse. “O quê?” Um traço de preocupação faiscou no rosto do meu pai. “Mas falei com ele ainda ontem à noite.” As caixas tinham sumido. A mesa estava limpa. Todas as coisas com algum valor tinham desaparecido. Fomos para o quarto e encontramos a cama vazia e desfeita. Abrimos o guarda-roupa: pelo menos metade das roupas estava faltando, além de alguns pares de sapatos. Na cozinha, descobrimos uma pilha de boletins informativos e folhetos obscuros. Um jornalzinho alardeava a seguinte manchete: O QUE ELES NÃO

QUEREM QUE VOCÊ SAIBA: A VERDADE SOBRE O HORÁRIO DO RELÓGIO. Pregada à geladeira,

uma charge política mostrava pessoas vagando pela rua, com os olhos vidrados. A legenda dizia: ZUMBIS DO RELÓGIO. Minha mãe surgiu às nossas costas.

“Onde ele está?”, perguntou. “Não sei”, respondeu meu pai. “Ai, meu Deus”, disse minha mãe. “Parece que este lugar foi assaltado.” “Julia disse que viu meu pai preparando a mudança.” Alguma coisa fervilhava nele, uma corrente ligeira sob o gelo. “Não exatamente preparando a mudança”, eu disse. Minha mãe se virou para mim, agitada. “Você precisa parar de guardar segredos, mocinha.” Lá fora, meu pai chamou por meu avô, gritando à luz da alvorada: “Papai, você está aqui fora?”. Pela janela, observei suas buscas no velho estábulo, no quintal, na floresta moribunda às margens da propriedade. Meu avô não podia mais dirigir. Nem tinha um carro. Não podia ter ido embora sozinho. Dependia de nós e de Chip, o adolescente que morava na mesma rua, para se virar com mantimentos e saídas. “Ele está velho demais para viver sozinho”, disse minha mãe. “A gente devia ter pensado nisso.” Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Meu pai correu até a casa de Chip, uma das mais novas no condomínio. Minha mãe começou a ligar para os números colados à geladeira do meu avô. Eram, na maioria, de membros da igreja, dos grupos comunitários, da carona solidária. A casa ainda tinha o cheiro dele, exalava Listerine e papel velho. Um relógio antigo na sala soou sete badaladas. A voz de minha mãe aquejava quando ela deixava seu número de celular com as pessoas, para o caso de ele aparecer. Meu pai logo retornou com a notícia: Chip tinha abandonado a escola e ido embora. “Para onde?”, quis saber minha mãe. Meu pai es egou a testa e piscou devagar. Um naco de sol se elevara acima do horizonte e brilhava através das janelas, iluminando a poeira que flutuava por toda parte naquela casa. Nessa época, a chegada do sol vinha acompanhada de certa euforia, geralmente — depois de tantas horas de escuridão —, mas mal a notamos naquela noite. Simplesmente apertamos os olhos contra a claridade. “A mãe dele me disse que ele foi para aquele lugar no deserto”, contou meu pai. “Circadia. Partiu ontem à noite.”

26

Circadia não existia em nenhum mapa. Tínhamos ouvido falar que aparecia numa seção do guia de ruas, mas encontramos apenas uma faixa de espaço em branco, um leve vinco na página, uma mancha bege representando o deserto. De modo que parecia que estávamos indo para um lugar fictício, uma terra imaginária, sonhada ou inventada. E, em certo sentido, estávamos. Chegando ao

deserto, sairíamos da estrada duplicada para outra, estreitinha, que, segundo o mapa, era um beco sem saída, mas mais adiante conduziria a uma segunda estrada, não pavimentada e muito nova para constar em qualquer mapa. Era assim que chegaríamos a Circadia. “Você acha que ele realmente está lá?”, perguntou minha mãe. A luz do sol jorrava através do para-brisa. Ela ajustou o protetor acima da cabeça. “Talvez”, disse meu pai. Ele estreitava os olhos contra o sol nascente. Eram nove horas da noite. “Talvez não.” Chamáramos a polícia da casa do meu avô, mas ele não era uma pessoa desaparecida. Velho e excêntrico, mas não senil, tinha empacotado os próprios pertences antes de partir. Pegamos de imediato a estrada em direção ao deserto, ignorando o jantar. A estrada seguia em curva pelas montanhas, algumas delas escurecidas pelos incêndios recentes. A temperatura subia a cada quilômetro rodado. Lá fora, a vida vegetal sempre precisara lutar para sobreviver, de modo que a terra parecia menos devastada do que nas regiões costeiras. Uns poucos arbustos maltrapilhos resistiam nas encostas rochosas, sem que parecessem mais minguados do que o habitual.

“É

tão difícil imaginar seu pai aderindo a qualquer coisa”, disse minha mãe.

“Ele pertence a uma igreja”, eu disse do banco de trás. Linhas de energia passavam chicoteando à beira da estrada, ondulando de poste a poste. “Você não acha que é algo difícil de imaginar?”, perguntou minha mãe.

“Helen”, disse meu pai. Ele estava sentado ereto em seu lugar, as duas mãos no volante, os olhos fixos à frente. “Eu não sei.”

O rádio caiu em ruído estático quando o último dos subúrbios ficou para

trás. O tráfego diminuiu. O terreno aplainou. O deserto se abria por todos os

lados ao nosso redor, e o céu azul pendia rente ao chão. O sol pairou durante horas no horizonte.

A superfície da estrada ficava turva sob o calor, e comecei a sentir o cheiro

do couro dos bancos do carro que cozinhavam ao sol. Minha mãe ligou o ar.

À medida que as horas passavam, começamos a bocejar. Meu pai es egou a

ponta do queixo, onde uma camada de barba curta havia se formado desde aquela manhã. Passamos pelas ruínas de um antigo posto de gasolina. Ainda havia uma bomba vermelha enferrujada ali. Ao lado dele, erguia-se uma construção modesta, atingida pelo sol, inclinada para um dos lados e sem telhado. Havia certa tristeza naquela cena. Alguém tinha construído aquelas paredes. Alguém, algum dia, alimentara a esperança de um futuro naquele lugar. Mas agora era possível ver o céu do outro lado pelas rachaduras nas paredes. Acabei adormecendo, com a cabeça encostada no vidro. Sonhei que nos mudávamos para Circadia, mas levávamos nossa casa conosco — apenas a paisagem e os vizinhos mudavam.

Acordei um pouco depois das dez com um solavanco do carro na terra. “Vá mais devagar”, disse minha mãe. Ela estava segurando com força a alça presa ao teto do carro. Seguíamos em linha reta para o sol.

Através da névoa, pude ver o contorno de telhados ao longe, fileiras de casas brancas cercadas por um oceano de dunas de areia ondulando deserto afora.

A placa original da empreiteira ainda era visível na entrada, uma laje pesada

de granito, à ente da qual havia uma fonte seca e um pedaço de grama morta. Gravadas em letra cursiva destacada, as palavras CASAS DO RANCHO DOMINGO DEL SOL. Acima da placa, uma faixa improvisada tremulava entre dois postes: BEM- VINDO A CIRCADIA. Abaixo da frase, alguém tinha escrito: TERRA DE GENTE LIVRE. Eu estava secretamente excitada. Tinha a noção, a partir do relato de Gabby, de que aquele talvez fosse um lugar onde a vida era mais justa. As ruas tinham nomes como Alameda Rosa do Deserto e Caminho das Dunas. Algumas eram pavimentadas. Outras, não. O Passeio do Céu Claro tinha

asfalto por algumas centenas de metros, mas desaguava num chão de terra, como se registrando o momento preciso no tempo em que a empreiteira ficara sem dinheiro. “Dá para imaginar viver aqui?”, disse minha mãe. As casas estavam em diferentes estágios de construção. Algumas não tinham garagem. A outras faltava telhado. Algumas eram apenas estruturas de madeira, despidas de paredes e argamassa, os caibros começando a se deteriorar no ar quente e seco. Mas era possível perceber qual tinha sido o objetivo da empreiteira: doze ruas que aspiravam à condição de um subúrbio. O mercado mais próximo ficava a uma hora de distância. Apesar de serem dez e meia da noite, Circadia estava despertando. Vinte e cinco horas de luz se estendiam à nossa ente. Martelos ecoavam ao longe. Em algum lugar, uma serra zumbiu. Um homem vestindo uma camiseta azul desbotada e um chapéu de abas

largas estava agachado numa entrada de cascalho, derramando tinta branca

numa bandeja. Ao lado dele, havia uma escada apoiada numa casa. Meu pai desacelerou o carro, baixou o vidro. Era difícil respirar o ar do deserto. “Com licença”, ele chamou pela janela aberta.

O homem se virou, apertando os olhos para enxergar.

“Estou procurando meu pai. Ele tem uns oitenta anos e se chama Gene. Você

o viu?”

O homem caminhou até o carro. Seu rosto estava bastante queimado de sol e

um princípio de barba negra crescia em suas bochechas e em seu queixo. “Ele disse para o senhor que estava vindo pra cá?”, perguntou o homem, aproximando-se da janela do meu pai. Eu imaginava que o povo de Circadia tinha não apenas escapado do controle

dos relógios como, de alguma forma, caído fora do próprio tempo. Procurei, no rosto do homem, evidências de que era diferente de nós, de que tivesse, de algum jeito, se modificado. Mas a transformação poderia ser mais profunda, molecular, como se cada átomo em seu corpo estivesse, ali mesmo, girando a uma velocidade um pouco mais lenta do que os átomos em nossos corpos. O suor escorria na linha dos cabelos. Mostrava-se através da camiseta. “Deve ter chegado na noite passada”, disse meu pai, que ainda estava usando sua camisa branca de colarinho. O relógio de pulso dele brilhava ao sol. O ar- condicionado lutava contra o calor que vinha flutuando no ar. O homem olhou para mim pela janela. Mordeu o lábio inferior. Eu tinha consciência da marcha do relógio no painel do carro, registrando em neon a passagem de mais um minuto, nosso Volvo um universo à parte no qual o tempo corria em alta velocidade. “Talvez ele tenha vindo para cá com um garoto de dezessete anos”, disse minha mãe, inclinando-se sobre o banco do motorista. “O menino se chama Chip.”

O homem es egou a testa com as costas de um dos punhos. Tocou a aba do

chapéu. “Se ele não avisou que estava vindo para cá”, disse, “talvez não quisesse que vocês soubessem.” Desistimos e seguimos em ente, mas o homem permaneceu junto à garagem por um tempo, com as mãos nos quadris, observando nosso carro se afastar rua abaixo. Chegamos a uma bifurcação e viramos à direita, onde encontramos uma mulher levando um labrador amarelo para passear. “Desculpe”, ela disse. “Não o vi.” E continuou andando. “Não é lá um pessoal muito amigável”, observou minha mãe. Passamos por uma série de estufas. Para todo lado que olhávamos, lençóis

tremulavam em varais. No final de um beco sem saída, chegamos ao que deveria ter sido, obviamente, a piscina do condomínio, sem dúvida alardeada na divulgação original do projeto. Mas agora era apenas um buraco seco no chão, fundo de um lado, raso do outro, e ainda sem cimentar. Ao lado da piscina, havia um parquinho. Uma menina de vestido verde estava sentada num dos balanços, seus cabelos castanhos ao vento. Reconheci-a do futebol: era Molly Kopachek. “Pare aqui”, eu disse. Baixei meu vidro. “Molly?”, chamei. Ela levantou os olhos, tirou o cabelo do rosto e improvisou um coque. Tínhamos jogado juntas como zagueiras, um ano, mas ela não era do tipo competitiva. Costumava ficar colhendo dentes-de-leão na grande área no meio dos jogos. Molly saltou do balanço e caminhou até minha janela, as sandálias rangendo no chão de terra. “Você está se mudando para cá também?”, ela perguntou. Às costas de Molly, havia uma estrutura, um esqueleto em madeira sugerindo a forma de uma casa. “Só estamos procurando meu avô”, eu disse. Ela não o havia visto, mas, quando falei de Chip, apontou para o outro lado da rua. “Talvez tenha um cara chamado Chip naquela casa ali”, ela disse. Meu pai puxou o freio de mão. O exterior da casa era revestido de estuque cinza, inacabado. Latas de tinta se espalhavam nas proximidades. Um fiapo de menina, vestindo uma blusa branca, fumava um cigarro em ente à casa. Esquálida e pálida, ela tinha a cabeça raspada e olhou para nós, que nos aproximávamos da casa, pelas lentes desproporcionais dos óculos escuros. Dava para ver o céu nas lentes. Aquele céu estava em todo lugar — por algum motivo, sua amplidão era maior no deserto, era mais visível ali do que em qualquer outro lugar da Terra. “Vocês são os pais dele?”, ela quis saber quando meu pai perguntou por Chip. De dentro da casa, acordes de violão flutuaram, em ondas, até onde estávamos. Alguém cantava. Fazia tanto calor que eu mal podia respirar. “Só queremos falar com ele”, disse minha mãe. A menina inspirou longa e lentamente, depois soltou o ar. Segurava o cigarro com dois dedos perto do quadril. A fumaça tinha um cheiro diferente:

de cravo. “Acho que ele está lá atrás”, ela disse. Meneou a cabeça na direção da porta da frente, mas não se moveu. “Está destrancada.” Dentro, encontramos uma sala sem móveis, mas forrada de sacos de dormir,

e pelo menos um deles estava ocupado. Um ventilador de teto girava, circulando o ar quente, mas não era o suficiente. “Olá?”, disse meu pai. Ele olhou ao redor. Parecia não saber onde ficar. A

lixeira havia transbordado no corredor. Garrafas de vinho vazias jaziam como pinos de boliche sobre o piso de madeira.

A música vinha da cozinha, onde duas meninas — ambas tão esbeltas quanto

a da ente da casa — se sentavam em cadeiras descombinadas, ouvindo um

rapaz sem camisa que tocava violão.

O menino foi o primeiro a nos ver. A música parou.

“Pois não?”, ele disse. As meninas se voltaram lentamente na nossa direção. Seus olhos estavam lacrimejantes e vermelhos. Riram assim que nos viram. Minha família estava na cozinha de estranhos.

“Estamos procurando por Chip”, disse meu pai. Suas palavras — nítidas e ágeis — cortaram o ar, constrangedoras. Imaginei mesmo poder sentir, ali, a lentidão da casa em torno, o ritmo vagaroso com que o tempo se desenrolava naquele lugar. As meninas olharam para fora, para os fundos da casa. “Ei, Chip”, chamou o rapaz. “Seu pai está aqui.” As meninas riram e ele voltou a tocar. Eram jovens universitários, ou haviam sido — eu tinha ouvido falar que milhares abandonavam seus cursos, roubando relógios das salas de aula e, em seguida, quebravam todos nas ruas. Lá fora, Chip parecia o mesmo de sempre: camiseta, bermuda e tênis pretos, cabelo tingido de preto. Lia à sombra de um guarda-sol maltrapilho, sentado numa cadeira de praia desbotada. Ficou surpreso ao nos ver. “O que vocês estão fazendo aqui?” “Meu pai veio para cá com você?”, perguntou meu pai. Mas, àquela altura, a pergunta soava ridícula. Meu avô não estava naquela casa. “Não”, disse Chip. Pousou o livro aberto no colo. “Por quê?”

A poucos metros de distância, um jovem casal enlaçava-se numa cadeira de

jardim. Não perceberam nossa presença ou não se importaram. Beijaram-se por

um longo tempo, e minha mãe, teatral, colocou uma das mãos na lateral do rosto, bloqueando a visão. Meu pai mostrou a Chip os folhetos que havíamos encontrado na casa do meu avô. “Eu sei que ele concorda que o Horário do Relógio é uma besteira total”, disse o rapaz. “Mas, se não está em casa, não sei onde está.”

A área dos fundos não tinha cerca. Não havia quintal. Dali se abria para o

deserto, onde um vasto campo de painéis solares brilhava ao sol.

“É daí que tiramos eletricidade”, contou Chip, ao me ver olhando para lá. A rede elétrica não chegava ali. A água tinha de ser levada por caminhões. “Você devia pensar em se juntar a nós aqui”, disse Chip. “Sabe como é, rolar e deitar.” “Deitar e rolar”, corrigiu minha mãe. Ainda teatralmente, ela se abanava com uma revista que tinha tirado da bolsa. “Vamos”, disse. Meu pai anotou seu número de celular num pedaço de papel e o entregou a Chip. “Se meu pai aparecer ou você souber dele”, disse, “por favor, ligue.” Chip nos conduziu de volta até a ente da casa. As meninas ainda estavam rindo quando passamos. Pareciam não conseguir parar. “Vocês provavelmente estão pensando que somos um bando de sonhadores iludidos”, disse Chip. A menina ao lado dele acendeu outro cigarro. “Mas é exatamente o contrário. Somos os únicos que não estamos em negação.” O vento soprava mais forte, espalhando e levantando poeira e lixo em pequenos círculos na rua. Em breve deixaríamos aquele lugar, e eu ouviria as batidas do meu coração, tentaria acompanhar sua correria. “Nós somos os realistas”, Chip acrescentou. “Vocês é que são os sonhadores.”

27

Certa vez, um tio do meu avô desapareceu no Alasca. Era 1970, início do verão perto do círculo ártico, com vinte e duas horas de luz por dia. Ele era um pescador que fora da Noruega para o Alasca três décadas antes e que havia se tornado uma lenda ao longo de determinado trecho de litoral, conhecido por sua habilidade em prever onde haveria mais salmão a partir da desova. Morava sozinho numa pequena ilha a poucos quilômetros da costa. Vivia ugalmente. Dormia numa cabana de um cômodo sem água corrente nem eletricidade, e enterrava o dinheiro que ganhava num local secreto da ilha. Meu avô passou duas temporadas trabalhando para esse tio e, durante décadas depois disso, guardou uma pequena fotografia dele de calça e botas de pesca e boné preto de malha, uma rede emaranhada dobrada entre grossos nós dos dedos. Um dia, esse tio partiu sozinho em seu barco de pesca. Era uma viagem curta, do porto à ilha. O céu estava claro. O mar, calmo. Ele nunca mais foi visto. “Foi em junho”, meu avô costumava contar, como se tivesse estado lá naquele dia. Em 1970, ele já voltara para a Califórnia, mas, sempre que contava essa história, fazia um gesto com a palma da mão para ilustrar a superfície plana do oceano no dia em que seu tio desapareceu. “O tempo estava perfeito”, dizia. “Nem um pingo de vento.” O velho pescador foi dado como perdido no mar. Mas meu avô nunca acreditou nisso. Nenhuma das várias buscas na propriedade do tio foi capaz de encontrar e desenterrar sua fortuna. “Rolf podia en entar qualquer coisa na água”, meu avô costumava dizer. “De jeito nenhum aquele barco afundou.” Quinze anos se passaram. Ninguém sabia do tio. E então meus avós fizeram uma viagem à Noruega — isso foi anos antes de eu nascer. Estavam andando de ônibus na parte norte do país, onde viviam parentes do meu avô. Quando o ônibus parou numa pequena vila de pescadores, um velho embarcou. “Soube que era ele assim que o vi”, contava meu avô. Nesse momento da história, ele balançava a cabeça lentamente, fechava os olhos e assobiava baixinho, satisfeito pela prova em carne e osso de uma verdade havia muito pressentida. “Eu sempre soube que ele estava vivo”, dizia. “Sempre soube.” Meu avô uma vez perdeu a aliança de casamento — voou de seu dedo e caiu

num banco de neve no Alasca —, mas encontrou o anel, meses depois, na primavera. A neve tinha derretido. A aliança de ouro jazia no chão de terra. Voltara ao dedo a que pertencia. Meu avô gostava de qualquer história em que o improvável acabasse por acontecer de verdade. “Mas por que Rolf desapareceu, afinal?”, eu sempre perguntava. Para meu avô, porém, isso não era algo fundamental na história. Ou talvez as razões para que um homem abandonasse sua vida eram evidentes demais para que ele as enumerasse. “Eu sei que ele me reconheceu naquele ônibus”, prosseguia a história. “Mas não disse nada. Na parada seguinte, apenas se levantou e saiu. Nem olhou pra trás.” Meu avô nunca mais voltou a ver o tio. Ele simplesmente desapareceu dentro da floresta à beira da estrada. “Era bem a cara de Rolf”, meu avô costumava dizer, com certa admiração embargando-lhe a voz. “Bem a cara dele.”

Só fomos chegar em casa, voltando de Circadia, depois da meia-noite. Nossa rua estava iluminada e tranquila, quase todo mundo estava dormindo. Era a madrugada sem vida de uma cintilante noite branca. Nossa rua sem saída parecia ter sido evacuada. Nem mesmo Sylvia estava fora de casa. A batida das portas, assim que saímos do carro, ecoou no estuque. Algumas nuvens deslizavam ligeiras na brisa, seguindo para oeste. O único sinal de vida era um gato siamês magro, de olhos pequenos ao sol, que se arrastava no gramado artificial dos Peterson. Meus pais passaram a noite toda acordados, ligando para hospitais. Baixei minhas cortinas e tentei dormir. Tiras de luz solar riscavam o carpete. Meu despertador tiquetaqueava sobre a cômoda, e de repente me dei conta de sua rapidez: tique-taque, tique-taque, tique-taque. Minutos voaram. Horas voaram. Dormi pouco. Tive sonhos intranquilos. Dias, meses, anos, vidas inteiras — tudo se precipitava na direção do fim. Na hora marcada, meu despertador irrompeu: hora de levantar e ir para a escola. Acordei com o coração acelerado, sem fôlego e suada. Mais tarde, naquela manhã, a polícia ligou com a notícia de um homem idoso que havia sido encontrado perambulando, desorientado, num mercado das proximidades. Meu pai se dirigiu à delegacia de polícia para confirmar o que já sabíamos: não era ele.

28

Três dias se passaram. Nada do meu avô. E era como se Seth Moreno tivesse desaparecido da minha vida também. Ele chegava cada vez mais tarde ao ponto de ônibus todas as manhãs. Não falava comigo na escola. Não trocamos uma única palavra desde o dia em que fôramos ver as baleias. Eu passava um tempão na sala de aula me perguntando o que tinha feito de errado. Enquanto isso, os dias continuavam a aumentar, as noites se estendiam. Falava-se em pontos de inflexão, movimentos circulares, limites irreversíveis. Mais tarde, naquela mesma semana, a Nasa anunciou que os astronautas estavam voltando — apesar do risco. Ninguém sabia exatamente como a desaceleração afetaria o retorno, mas a comida tinha acabado na estação espacial. Mil cálculos foram feitos, alguns deles meros palpites. Tínhamos sido informados de que o ônibus espacial Orion cruzaria o céu do sul da Califórnia no horário de quatro horas e três minutos, a caminho da base Edwards da Força Aérea. Planejei observar sua passagem do meu telescópio, sozinha.

Estava quente e luminoso lá fora quando desembarquei do ônibus naquela tarde. O sol brilhava havia vinte e poucas horas. O asfalto reluzia. Uma brisa quente carregava folhas e lixo pela vizinhança. Enquanto caminhava para casa, ia pensando nos astronautas: longe durante oito meses, eram os últimos humanos que ainda não tinham experimentado um dia com extensão maior do que vinte e quatro horas. Quando cruzava um terreno baldio, fiquei surpresa ao ver Seth sobre seu skate. Ele havia desaparecido de imediato do ponto de ônibus, mas fizera uma parada ali, e usava o meio-fio para executar manobras perto de um hidrante. Ainda caminhando, resisti ao impulso de olhar na direção dele. Eu podia ouvir o estalo nítido do skate batendo na calçada repetidamente. Continuei andando. Quando virei na direção da minha rua, o ruído parou. No lugar das batidas na calçada, escutei o som mais inacreditável: meu nome sendo gritado ao vento. “Oi?”, eu disse. Um nó se formou de repente na minha garganta. As outras crianças já haviam se dispersado àquela altura. Éramos só nós dois

ali, e a poeira do terreno que levantava pela rua. “Você vai assistir à passagem do foguete?”, ele perguntou. Protegia os olhos do sol com uma das mãos. Nossas sombras se misturavam na calçada. “Talvez”, eu disse. Minha atitude era arisca e tímida. “Vou assistir do meu telhado”, ele disse. Soprava uma brisa. Segundos se passaram. “Vamos lá.” Talvez eu devesse ter ficado com raiva pela maneira como ele tinha agido antes, mas só me lembro do aceno de sua mão fazendo sinal para segui-lo, do jeito como pronunciou as palavras exatas, aquelas que meus ouvidos mais queriam escutar. Da garagem entulhada da casa dele, arrastamos duas cadeiras de praia enferrujadas para dentro e em seguida pela escada até o sótão e para o telhado. Colocamos as cadeiras lado a lado numa parte plana, revestida de material impermeável e fiação, com montes ancestrais de cocô de passarinho. Seth levou duas cocas e pretzels, e então nos reclinamos e ficamos esperando o Orion zunir sobre nossas cabeças. O céu estava claro. O ar, quente. As cadeiras cheiravam a protetor solar e sal. Eu podia sentir a presença dele ao meu lado. Podia ouvir sua respiração ali perto de mim. Durante um tempão não dissemos nada. Seth quebrou o silêncio. “Por que você estava agindo daquele jeito outro dia?”, perguntou. Senti uma onda de pânico. “Agindo como?”, eu disse. Ele não olhou para mim. Tomou um gole de coca e a pousou de volta no impermeabilizante. Dava para ouvir os carros passando em velocidade na estrada ao longe. “Sei lá”, ele disse. “Você estava meio estranha no ponto de ônibus, na semana passada.” Meu estômago se apertou. Agarrei o braço de metal da minha cadeira. “Eu não estava estranha”, eu disse. “Você é que estava.” Ele teve o cuidado de não olhar na minha direção. Percebia seu nariz de perfil, a linha esquerda da mandíbula, uma orelha, um olho, Seth olhando sempre para a ente, em direção às montanhas que se erguiam a leste. Estava mais atraente do que nunca. Ele pigarreou e acrescentou: “É que parecia que você não estava a fim de falar com ninguém”. “Isso não é verdade”, respondi. “Não é verdade mesmo.” Dizem que nós humanos somos capazes de ler uns aos outros de uma centena de maneiras sutis, que podemos detectar mensagens nos mais leves movimentos de um corpo, na mais breve das expressões de um rosto, mas, naquele dia, por alguma razão, eu havia comunicado com incrível eficiência o exato oposto do que mais queria no mundo.

“E você estava toda arrumada e tal”, ele continuou. “Por que você estava tão arrumada?” Eu mal conseguia respirar, mas senti um leve arrepio. Ali estava a prova de que ele tinha pensado um pouco em mim. “Você é que estava estranho”, eu disse. “Nem cumprimentou.” Ele se voltou para olhar para mim pela primeira vez em vários minutos. Seus olhos eram castanho-escuros, seus cílios pareciam uma anja espessa e ele não tinha nem uma sarda. “Você também não disse nada”, ele retrucou. Em seguida, sua boca se abriu num sorriso largo e vi então que os dentes da frente dele eram um pouco tortos. “Era meu aniversário”, eu disse.

“Ah

Bom, feliz aniversário.”

Quem poderia saber o que aconteceria depois? Mas estávamos juntos por ora, bebendo nossas cocas e olhando para o céu. Eu estava feliz. “Peraí”, disse Seth, sentando reto em sua cadeira de praia. “Que horas são?” Ele foi o primeiro a perceber: o ônibus espacial estava atrasado. “Alguma coisa está errada”, disse. Seus olhos escuros, semicerrados, examinaram a amplidão do céu. Esperamos mais alguns longos minutos, mas o céu permaneceu de um azul perfeito, ameaçadoramente livre de aeronaves e rastros de fumaça. Foi como se soubéssemos, ali mesmo, o que tinha acontecido. Vimos na televisão de Seth os detalhes sobre o destino final do Orion. O ônibus espacial se desintegrara a mais de trezentos quilômetros da costa da Califórnia, e a causa era desconhecida. Os oito astronautas a bordo morreram. Seth e eu, de costas eretas em lados opostos do sofá, assistimos à torrente de notícias que desaguava na sala. As emissoras já estavam mostrando fotos dos astronautas no dia em que tinham deixado a Terra, meses antes, seus rostos dispostos e felizes, as roupas brancas nítidas e brilhantes ao sol, os gigantescos capacetes reluzentes debaixo de seus braços enquanto acenavam — muito diferentes de como apareciam em imagens mais recentes, depois de terem ficado tão mirrados e ágeis no espaço que parecia quase natural que, quando falavam com Houston via link de satélite, flutuassem, sem peso. Não dissemos nada por um tempo. Eu me remexia no meu lugar. O sofá rangia com o meu peso. Havia furos no couro. Seth foi o primeiro a falar. “Você preferiria morrer numa explosão”, perguntou, “ou de uma doença?” Deixei a resposta em suspenso. A mãe dele tinha morrido ali. Eu não queria dizer a coisa errada. “É melhor numa explosão”, ele disse. “Leva só um segundo.”

29

Depois disso, Seth e eu começamos a passar o tempo juntos com frequência. Nossa proximidade foi algo súbito, do tipo possível apenas entre jovens ou pessoas em perigo. O tempo correu de forma diferente para nós naquela primavera: uma série de longas tardes pareceu um ano inteiro. Não ficávamos mais na biblioteca no horário de almoço; em vez disso, deitávamos debaixo de uns pinheiros mortos no extremo mais distante do pátio, de onde assistíamos às nuvens deslizarem no céu. Seth passou a reservar um lugar no ônibus para mim todas as manhãs e tardes. De início, eu ficava atenta às outras crianças nos observando. Podia senti-las olhando para nós o tempo todo. Intuía o que falavam. Mas logo deixei de reparar. Parei de me importar com o que pensavam. “Ele parece um bom menino”, disse minha mãe. “Vamos convidá-lo para jantar.” Mas eu só queria ficar sozinha com Seth. Não queria ninguém por perto.

Eu estava com ele no dia em que ultrapassamos o limiar do trigo. Agora era oficial: não se podia mais cultivar trigo no planeta sem a ajuda de luz artificial. Observamos do alto de uma encosta os carrinhos de compras abarrotados de comida enlatada ziguezagueando pelo estacionamento do supermercado. O pânico havia retornado. Dava para sentir no ar um formigamento, algo no fundo da garganta. “Você preferiria morrer de fome”, disse Seth, “ou de sede?” Aquela tinha se tornado uma de nossas brincadeiras. Éramos crianças sérias, e ainda mais sérias por conta dos tempos. “De fome”, respondi. “E você?” “Sede”, ele disse. Chutou uma pedra ladeira abaixo, levantando um rastro de poeira. A pedra desapareceu num amontoado de folhas ressecadas. Seth sempre escolhia a morte mais rápida. Ele estava lá em casa quando a estufa de minha mãe foi entregue. Vimos os entregadores montá-la no quintal. Os vidros reluziam enquanto as lâmpadas ultravioletas eram instaladas e a terra, colocada. Observamos um cabo elétrico laranja ser desenrolado e, em seguida, um conector ser inserido numa tomada externa. Fomos uma das últimas famílias da nossa rua a comprar uma. Minha mãe a havia encomendado sem consultar meu pai, que ficou só observando de dentro de casa, com os braços cruzados na mesa da sala de jantar, enquanto ela

aterrava uma série de pequenas plantas. Depois subiu as escadas. Até o fim do dia, tínhamos duas fileiras de pés de feijão-verde e três de morangos crescendo na estufa. “Morangos são um desperdício”, disse meu pai. “Se é pra cultivar alguma coisa, que sejam cogumelos. Não dependem tanto de luz.” Uma onda de crimes em noites brancas também se abateu sobre a cidade. Os adeptos do tempo real foram apontados como culpados. Quem mais estaria na rua tão tarde? O carro de Sylvia teve as janelas quebradas na entrada da casa dela. Sua garagem não demorou a ser pichada em letras graúdas, com tinta escorrida: FORA DAQUI. Eu ficava imaginando como meu pai se sentia a respeito disso, mas não perguntei, e ele não disse.

Tive a impressão de que o tempo passou em alta velocidade naquela primavera. O cabelo de Seth voltou a crescer e começou a cair sobre os olhos dele. Deixei minha anja mais comprida e Seth disse que gostava dela daquele jeito. Passei a raspar minhas pernas e comprei um sutiã de verdade — um que me servia dessa vez. Numa tarde escura, Seth me ensinou a andar de skate, e ainda me lembro de como foi sentir a mão dele nas minhas costas enquanto corria ao meu lado à luz das lâmpadas da rua e eu bamboleava nas rachaduras da calçada, feliz. Depois da escola, íamos até as encostas em busca de esqueletos de pássaros — estavam por toda parte, uma profusão de ossos e penas, tão abundantes quanto conchas. Fomos atrás do último eucalipto vivo, o qual encontramos à míngua, à beira de um penhasco calcário perto do oceano. Coletamos as últimas folhas de grama do bairro. Cuidamos das últimas de margaridas, de malmequeres, de madressilvas. Guardamos pétalas entre as páginas de dicionários. Enchemos nossas prateleiras de relíquias da nossa época — “Olha só”, nós nos imaginávamos dizendo algum dia, “este aqui a gente chamava de bordo, esta aqui, de magnólia, este, de álamo, este outro, de carvalho”. Em dias escuros, Seth desenhava mapas das constelações, como se aqueles corpos também pudessem, em breve, desaparecer. O pai dele quase sempre estava no laboratório. Saía de casa cedo. Voltava do trabalho tarde. Sua presença estava na xícara de café na pia da cozinha, nos cigarros no cinzeiro lá fora, nos fundos, no jaleco pendurado no corrimão. Ele era um nome nos envelopes que se acumulavam, fechados, numa enorme pilha ao lado da porta, uma voz ao telefone dando instruções para Seth pedir pizza e comer sem ele. Meus pais nunca souberam que o pai de Seth quase nunca estava em casa quando eu ia lá. Estávamos sozinhos na casa no dia em que a eletricidade foi cortada. A televisão se apagou, as luzes também, agarrei a mão de Seth no escuro.

Eram quatro horas da tarde. Um silêncio inundou a casa, como se fosse parte da escuridão. Faltavam dezesseis horas, talvez mais, para o sol voltar a nascer. Juntos, andamos até a porta da ente, que abrimos: estava escuro lá fora também, uma escuridão pré-histórica, um brilho silencioso de estrelas. Minha mãe chamou do trabalho no meu celular: “Fique onde você está”, ela disse. “Apenas fique onde está. Tranque as portas e não deixe ninguém entrar.” Vasculhamos a casa atrás de lanternas. Esbarrávamos um no outro, cegos, e batíamos contra as paredes. Quebramos uma lâmpada e ficamos rindo um bom tempo. Seth acendeu velas com um dos isqueiros do pai dele. Nós as carregamos feito tochas, nossos rostos sombrios à luz das chamas. Perguntávamo-nos se duraria para sempre a idade pós-eletricidade. Por fim, sentamos no piso de madeira da sala, nossas velas em redor, cintilantes. Seth veio com um baralho. “Olha isso”, ele disse. Começou a construir um castelo, três cartas de cada vez. A casa estava tão silenciosa no escuro que eu podia ouvir o som das cartas roçando umas nas outras enquanto ele trabalhava. Seth parecia mais velho à luz de velas. Fiquei olhando para ele por um longo tempo. “Experimente”, Seth disse, e me passou algumas cartas. Seus olhos brilharam. Mas minha mão ficou trêmula. Temi derrubar a construção toda. “Tudo bem”, ele disse. “O segundo andar é muito mais difícil que o primeiro.” Fazia semanas que eu queria contar a Seth sobre meu pai e Sylvia — e ali, na penumbra, finalmente pareceu possível dizer aquelas palavras em voz alta. Respirei e engoli em seco. “Vou te contar um segredo”, eu disse. Seth parou o que estava fazendo e olhou para mim. “Vi o meu pai na casa de Sylvia.” Eu percebia nitidamente o silêncio, a geladeira que não roncava, o decodificador da televisão a cabo que não emitia luz, os relógios digitais que falhavam em tiquetaquear. “Como assim?”, ele perguntou. “Vi os dois, sabe”, fiz uma pausa. “Juntos.” Agora que tinha falado, os fatos pareciam mais reais do que nunca. Seth não disse nada, de início. Esperei. Então ele apenas concordou com um movimento da cabeça, como se tivesse se conformado a esperar da vida esse tipo de coisa mesmo. Nunca falava da mãe — e eu havia aprendido a jamais perguntar —, mas eu às vezes sentia a ausência dela em suas reações a certos acontecimentos, como se ele já soubesse da existência de uma dor universal. “Sua mãe sabe?”, ele enfim perguntou. “Acho que não”, eu disse. “Não tenho certeza.” Ele encaixou duas novas cartas no castelo. A estrutura inteira se moveu de

leve como consequência, e então Seth parou as mãos no ar por alguns segundos, como se comandasse uma força invisível capaz de manter as cartas na mesma posição. Pareceu funcionar: o castelo permaneceu de pé. “Não é justo com sua mãe”, ele disse. “Odeio injustiça.” Concordei com a cabeça. “Eu também.” Não dissemos mais nada, mas o segredo zumbia entre nós. Sentia-me bem por ter contado. E também por conhecer aquele menino. Mais tarde, depois que as cartas tinham desmoronado e as velas tinham queimado até desaparecer, colocamos nossos trajes de banho e entramos na água escura como breu da piscina dele. Não víamos nada, exceto as estrelas. Nossas pernas roçavam sob a superfície. Seth se inclinou e me beijou. Correspondi. Havia muito tempo não me sentia tão feliz. Duas horas depois, a eletricidade voltou. Autoridades culparam as lâmpadas ultravioletas e as estufas pela queda de energia — estariam sobrecarregando a rede elétrica. Foi quando o racionamento começou. Nenhuma luz depois das dez da noite. Nada de ar-condicionado, a menos que a temperatura passasse dos trinta graus. Mas as estufas industriais seguiram consumindo energia. Toda a demanda por comida estava sendo suprida por lâmpadas de vapor de sódio. Todas as fazendas do país dependiam, àquela altura, de períodos de sol artificial. Um dia, no meio daquela primavera, um envelope gordo, cor-de-rosa, apareceu em todas as caixas de correio, anunciando em letras brilhantes os detalhes da festa do aniversário de doze anos de Michaela, no Hotel Roosevelt. Era a primeira vez que me convidavam para um daqueles grandes bailes, e me perguntei se era por causa de Seth. Se tivesse aberto aquele envelope apenas alguns meses antes, meu sentimento seria de gratidão e alegria. Mas Seth e eu logo decidimos não ir. “Odeio essas coisas”, ele disse. “E Michaela me dá nos nervos. Em vez disso, vamos assistir a uns filmes na minha casa.” “Você não vai?”, perguntou Michaela no dia seguinte, na escola. “Está brincando comigo?” Ela havia convidado uma centena de outras crianças. Muita gente ia. “Não é meu tipo de programa, só isso”, eu disse. Ela apertou os lábios. “Isso significa que Seth também não vai?” Senti uma explosão de orgulho por ela pensar que tínhamos alguma ligação, Seth e eu. “Acho que não”, eu disse. Ela mordeu os lábios com força e colocou as mãos nos quadris. “Tudo bem”, disse. “Tanto faz. Não me importo se os dois perdedores vão aparecer ou não.”

Não me interessava o que ela estivesse pensando ao se afastar, a minissaia farfalhando, as sandálias cintilantes estalando no pavimento.

O calor, em determinados dias, estava ficando perigoso. Ainda era abril, mas fomos advertidos a ficar dentro de casa sempre que a duração da luz do sol excedesse as vinte e cinco horas. Com equência eram batidos recordes de temperatura naqueles dias. No entanto, o clima podia oscilar com a mesma violência no outro sentido também. Acordei, certa manhã escura, e tive uma visão milagrosa. “Puta merda”, disse minha mãe, de roupão verde. Olhei pela janela: neve. Era a Califórnia, ao nível do mar, na primavera. Cerca de doze centímetros e meio haviam se acumulado enquanto dormíamos, e continuava a nevar. As temperaturas caíam mais e mais à medida que os períodos de escuridão se estendiam por mais tempo. E o bairro agora reluzia, azulado, ao luar: carros salpicados de açúcar, cercas brancas de gelo, os telhados em terracota incrustados de neve. As calçadas pareciam revestidas de pavimento novo. Os gramados artificiais tinham sido engolidos, durante a noite, por uma única cobertura lisa e limpa, de um branco cremoso. Nossa rua brilhava. Seth apareceu na nossa varanda usando uma parca de esquiar vermelha que eu nunca tinha visto antes e, assentado torto na cabeça, um gorro puído de malha. Flocos de neve derretiam sobre seus ombros. “Temos que ir andar de trenó”, ele disse. E ergueu no ar a prancha azul que trouxera de casa. Peguei um casaco e saí atrás dele pela rua branca. “Espere”, chamou minha mãe, da porta. “Não sei se quero que você vá lá fora.” “Helen”, disse meu pai. “É só neve.” Éramos crianças de praia, criadas ao sol. Não conhecíamos as peculiaridades da neve. Eu jamais a vira cair, não sabia que, de início, parecia tão macia, nem que cedia sob os pés com facilidade, fazendo aquele som peculiar de algo sendo esmigalhado. Não sabia, até então, que a neve tornava tudo quieto, silenciando, de alguma forma, todos os ruídos do mundo. Nossas garagens não guardavam pás ou removedores de neve. Nossos carros não tinham pneus de neve. O arado para neve mais próximo estava nas montanhas, a mais de cento e cinquenta quilômetros de distância. E foi isso:

estávamos debaixo de neve. As aulas foram suspensas, e meu pai teve um dia de folga. Não havia mais nenhuma opção que não fazer anjos de neve, bonecos de neve, ou deslizar de trenó ladeira abaixo do morro mais próximo que pudéssemos encontrar. Todas as crianças do bairro saíram às ruas. Aparamos

flocos de neve na língua e nos cílios, deixamos que derretessem nas palmas de nossas mãos. Vimos Tony, nosso gato do sul da Califórnia, descobrir a neve — ele odiou, sacudiu a pata e se recolheu para dentro de casa. Meu pai riu ao vê-lo fazer isso, era talvez a primeira vez que ria desde o desaparecimento do meu avô. Ele passava todos os fins de semana visitando as várias colônias de adeptos do tempo real à procura do pai. A visita a uma colônia equentemente o levava a outra, ainda mais escondida no deserto, ou então em algum lugar nas montanhas. Havia dezenas delas espalhadas por todo o estado. Meu pai distribuía panfletos informando sobre a pessoa desaparecida aonde quer que fosse. Seis semanas se passaram e nada. Era difícil imaginar que meu avô ficasse tanto tempo sem nos escrever — eu começava a temer que algo tivesse acontecido a ele, mas guardava esses temores para mim. “Espero que ele esteja vendo isso”, disse meu pai, dobrando o corpo para tocar a neve. “Onde quer que esteja.” Ele pegou um punhado, fez uma bola e jogou na minha direção. Mais tarde, ele nos ajudou a construir um boneco no quintal. A neve derreteria toda com a volta do sol, dois dias depois. Mas, por ora, naquele dia, a beleza havia sido momentaneamente devolvida ao nosso mundo. Prestei atenção apenas vagamente à minha mãe naquela manhã, uma sombra periférica de preocupação. “Isso não está certo”, ela repetia, a voz quase inaudível por causa dos gritos das crianças brincando. Ela nem tinha se aproximado da neve. “Aqui é a Califórnia”, disse. “Isso não está certo.”

30

Um dia ouvimos um som estranho no céu: parecia papel sendo amarfanhado

e despedaçado, celofane farfalhando ao vento. Vinha de todas as direções. Durou três minutos. Foi ouvido — alguns disseram sentido — da Cidade do México a Seattle. Nada foi visto. O que quer que tenha se passado na atmosfera, naquele dia, permaneceu invisível aos olhos humanos. Durante o período seguinte de escuridão, observou-se um grande fluxo de luz verde ondulante no horizonte. Milhares de câmeras registraram o movimento no céu, como o de chamas. Ao mesmo tempo, sistemas de navegação falharam. Alguns satélites perderam a comunicação. E minha mãe so eu uma de suas piores crises até então, desabando no chão da cozinha quando tentava se equilibrar, como se estivesse no convés de um navio a pique. Ela não conseguia ficar de pé nem por um momento. Quando o sol voltou a aparecer, a notícia era oficial: alguma coisa estava acontecendo com o campo magnético da Terra.

Antes da desaceleração, pouco se sabia sobre o efeito dínamo. Mais teoria do que realidade, era apenas uma elegante hipótese matemática que, como a teoria

das cordas, transitava na onteira entre ciência e fé. Não testada e não testável,

a teoria do dínamo era uma especulação imaginativa segundo a qual o campo

magnético da Terra talvez dependesse, de alguma forma, da rotação constante do planeta. Por milhões de anos, o campo magnético vinha protegendo a Terra da radiação solar, mas, no oitavo mês após o anúncio da desaceleração, começou a minguar. Uma enorme brecha, batizada como anomalia da América do Norte, abriu-se sobre a metade ocidental do continente. Aquela não era a primeira vez que eu ouvia a palavra radiação, mas, se me pedissem para defini-la antes daquele dia, eu a teria relacionado à história, à bomba atômica e às guerras de um século anterior. E agora éramos informados de que a radiação penetrava nossa atmosfera. Rotas de aviões e satélites foram alteradas em toda a região. O governo insistia que a ameaça aos seres humanos era mínima, mas fomos aconselhados, em todo caso, a evitar qualquer exposição ao sol. Levaria tempo para determinar o verdadeiro risco. De modo que, com os dias se estendendo por até sessenta horas, parques de

diversão e shoppings de rua passaram a fechar durante o dia. Alguns eventos esportivos foram cancelados ou transferidos para estádios fechados. Coberturas foram providenciadas para as estufas industriais — a radiação era capaz de matar células vegetais tão facilmente quanto as nossas. Depois disso, as plantações passaram a sobreviver inteiramente de luz artificial. Na época, claro, esperávamos que tais medidas fossem temporárias. As autoridades repetiam a mesma coisa: “cuidados redobrados”. Somente mais tarde é que eu pensaria naquela mudança não apenas como mais um fenômeno estranho, mas como algo diferente, decisivo. Minha mãe levou a sério as advertências sobre a radiação, assim como meu pai. As escolas fizeram o mesmo. Nossos percursos ao ar livre durante o dia foram imediatamente limitados ao necessário para pegar o ônibus escolar e descer dele, o qual, por sua vez, foi equipado com blecautes nas janelas. Mantínhamos nossas cortinas eternamente fechadas. Só saíamos na escuridão. Toda vez que o céu começava a clarear, corríamos para casa e fechávamos as portas para evitar a radiação solar. Ingeríamos comprimidos de vitamina D para compensar o que perdíamos pela falta de sol. Nós nos recolhíamos à espera do sinal de que estava tudo bem de novo. Os dias claros eram terríveis. Passavam lentamente para mim. Minha mãe não me deixava sair de casa, a não ser para ir à escola, de modo que Seth e eu nos víamos muito menos. Eu ficava o tempo todo sozinha no quarto, desejando a liberdade da escuridão. Os crepúsculos assumiram nova importância para mim, viessem quando viessem. Sempre que o sol sumia detrás da Terra, eu escutava uma batida à porta minutos depois: e lá estava Seth, parado na nossa varanda ao pôr do sol. “Oi”, ele dizia. “Oi”, eu respondia, e acenava para que entrasse. Nos dias escuros, passávamos quase o tempo todo juntos.

Eu não tinha mais visto Sylvia nas últimas semanas. As cortinas dela ficavam sempre fechadas. Meu telescópio era inútil. Eu não saberia dizer o que se passava na casa dela. Suas rosas, como todo o resto, estavam mortas, mas ela nada havia feito para retirar o que sobrara delas. Ao contrário, as roseiras, esqueléticas, permaneciam junto à garagem. Ela tampouco tomara alguma providência em relação ao gramado, como tinham feito todos os outros vizinhos àquela altura. Não havia relva artificial cercando sua casa. Uma poeira fina subia permanentemente da entrada dos carros. Ela parecia nunca sair de casa. A pichação fora apressadamente coberta com uma mão de tinta marrom, em contraste com o branco da garagem. O buraco no telhado permanecia lá, escancarado, o plástico branco que o cobria escurecendo aos poucos a céu

aberto. Multiplicavam-se superstições a respeito dela entre as crianças mais novas, que agora atravessavam a rua para evitar passar em ente à sua casa ou desafiavam umas às outras a tocar a campainha, mas ninguém tinha coragem suficiente para fazê-lo. Certo dia, observei que umas testemunhas de Jeová, paradas na calçada, examinavam a casa de Sylvia: seguiram em ente sem bater, deixando de transmitir sua mensagem. Se alguma vez meu pai voltou a entrar ali, não vi. Até onde podia dizer, ninguém entrara ali. E, aparentemente, ninguém saíra. “Talvez ela só saia nas noites brancas”, disse Seth. “Quando todo mundo está dormindo.” Estávamos esparramados em sofás separados, na sala da casa dele, comendo sorvete em cumbucas de metal e curtindo as últimas horas de escuridão. Pelas janelas, vimos o céu se incendiar — a aurora polar havia descido até quase a linha do equador, mais um efeito das mudanças no campo magnético. Havia agora um novo nome para o fenômeno: aurora mediana. “Talvez”, eu disse. “É o que eu faria se fosse ela”, comentou Seth. “Talvez ela tenha se mudado para algum lugar”, eu disse. Seth considerou a possibilidade. A colher de sorvete tilintou em seus dentes da frente. “Sem o carro?”, disse. Tínhamos reparado que os jornais de Sylvia nunca formavam pilhas muito grandes antes de desaparecer da varanda. A caixa de correio nunca transbordava. “Acho que ela ainda está lá”, concluiu Seth. As luzes da sala piscaram. Acontecia cada vez mais equentemente. Estávamos consumindo cada vez mais energia. “Já sei o que a gente deve fazer”, disse Seth. Ele se sentou de um pulo e pôs sua cumbuca vazia na mesa de centro. Um naco de barriga bronzeada reluziu nesse movimento. Eu gostava daquele osso do quadril se projetando por sobre o cinto. “Vamos dar uma escapada no meio de uma noite branca e ver se ela sai.” Assim que ele falou, tive certeza de que faríamos aquilo na mesma noite. A ideia era irresistível. Sylvia era mais um espécime raro para observar: o último adepto do tempo real na vizinhança. Liguei para minha mãe e disse que passaria a noite na casa de Hanna. Estava ficando mais fácil mentir. “Ah, que bom”, ela disse. Parecia sonolenta ao telefone. “Eu sabia que uma hora vocês voltariam a se dar bem.” Pelos segundos de intervalo entre suas palavras, eu poderia afirmar que ela se recuperava de outra crise de tontura. Nunca teria acreditado em mim se

estivesse bem. Fazia meses que eu não ia à casa de Hanna. “Mas Julia”, ela disse, “por favor, fique longe do sol.” “Vou ficar”, eu disse. “Prometo.”

Mas, naquela noite, ignoramos todas as recomendações. Seth e eu passamos o tempo todo sozinhos na piscina, observando o sol subir de trás das montanhas — fazia semanas que eu não olhava para ele diretamente. Antes, o nascer do sol nunca era assim prazeroso, mas agora essa ocasião mais rara — e proibida — chegava como uma bênção, o gatilho de alguma química: a euforia da luz do dia. O pai de Seth chegou em casa por volta das nove. “Acho que é hora de Julia ir para casa”, ele disse, já se encaminhando para a cama. “Ela já está indo”, respondeu Seth. Fiz que sim com a cabeça. O pai do Seth, à porta, coçava a barba. Parecia exausto. “Boa noite, então”, disse, e desapareceu para dentro do quarto. Mas não fui embora. Em vez disso, colocamos cadeiras no gramado lá fora, Seth e eu, esperando à sombra, esperando e esperando e esperando que o sol tocasse nossa pele. E, quando ele finalmente veio, deixamos que aquecesse nossos corpos até nos sentirmos fracos e, aos tropeços, delirantes, voltarmos para a sombra. Soube mais tarde que a radiação era mais perigosa para crianças do que para adultos. Nossos corpos eram menores, ainda em formação. Tínhamos mais tempo pela ente para que os danos às células se transformassem em câncer. Nossos cérebros estavam em desenvolvimento. Regiões inteiras ainda não estavam completamente formadas, principalmente, conforme fomos entender mais tarde, o córtex ontal, reino das tomadas de decisão e da previdência, das considerações sobre custos e consequências. Em outras casas, os doentes ficavam mais doentes. Novos casos da síndrome pipocavam em toda a região. As projeções para o futuro foram se tornando mais e mais terríveis. Mas Seth e eu nos sentíamos bem. Estávamos mais do que bem. Às vezes, a morte é apenas uma prova da vida. Às vezes, a decadência aponta para certa vivacidade. Éramos jovens e estávamos famintos. Ficávamos cada vez mais fortes, explodindo de saudáveis. À meia-noite, saímos da casa dele. Era uma noite radiante. Na minha memória, era uma noite mais radiante que o normal, mas não podia ser verdade — a radiação era invisível aos olhos humanos. Uns quinhentos quilômetros ao norte, o Parque Nacional de Yosemite estava queimando. Árvores mortas dão boa lenha. A fumaça descia para o sul, na nossa direção, diluindo-se numa névoa esbranquiçada que produzia um sol

incomum no céu: ainda brilhante, mas difuso. As ruas estavam silenciosas. Nada se movia. Todas as janelas de todas as casas estavam escuras, protegidas do sol, e éramos os únicos a estar ali fora àquela hora tão tardia. Não demos bola para as calçadas naquela noite — em vez delas, preferimos andar pelo meio da rua. Era como se a época dos carros tivesse passado. “A gente pode fazer qualquer coisa que quiser a esta hora”, disse Seth. Ele se ajoelhou no meio da rua e, em seguida, deitou de costas no chão, encarando o sol da meia-noite. Deitei ao lado dele, meu cabelo em torno da cabeça, o asfalto quente contra a minha pele. “Feche os olhos”, ele sussurrou, e obedeci. Ficamos deitados na rua por vários minutos, cegos e vulneráveis. Tinha certo ar romântico o cheiro acre do asfalto, uma sensação agradável de perigo. Por fim, um ruído nos fez levantar de um pulo. Meus olhos se abriram — era só um gato correndo na calçada. Passamos pelo ponto de ônibus, empoeirado e deserto, e pelo shopping, as lojas fechadas porque era noite. Vagamos pelo estacionamento do centro comercial, o estacionamento mais silencioso do planeta — vazio — e nos imaginamos visitantes neste mundo estranho: para que serviria aquele vasto espaço aberto pintado com aquelas linhas paralelas? Então corremos morro abaixo até minha rua, nossas sombras alongadas à primeira luz da manhã. Logo chegamos à casa de Sylvia. Meu pai tinha ido trabalhar durante a noite, mas minha mãe estava em casa dormindo — ou sem conseguir dormir, logo ali, do outro lado da rua. Eu tinha medo de ser descoberta, de modo que nos agachamos atrás de um carro estacionado. De perto, ainda se podia ler, por baixo da nova pintura, a pichação na porta da garagem dela, os garranchos ainda alardeando FORA DAQUI. Fiquei me perguntando como estaria o interior da casa agora, se ela havia levado o piano ou se o deixara ali, no chão, em pedaços. Imaginava tudo em ruínas: o assoalho cedendo, prateleiras derrubadas, o macramê cujos fios havia muito tempo se desfaziam. O único som era do aco zumbido dos fios elétricos correndo sobre o telhado. Reparamos que o portão lateral estava aberto, revelando um emaranhado espinhoso de arbustos mortos no quintal. “Vamos lá atrás”, sussurrou Seth. Antes que eu pudesse argumentar, ele correu até o portão. Era agradável vê- lo sob aquela luz intensa, com a parede de estuque ao fundo, correndo; em seguida, com os olhos pequenos na luz, virando a cabeça e sinalizando que o seguisse, o que fiz, claro. Encostados na lateral da casa de Sylvia, rimos o mais baixo que pudemos, nossos ombros chacoalhando, sem poder respirar. Éramos crianças, e era verão. Éramos transgressores apaixonados.

Tentamos espiar por uma janela, mas as cortinas estavam fechadas. Nem sinal de Sylvia. A extensão de um dia natural chegara às sessenta horas: quase dois dias de escuridão seguidos de dois dias de luz. Se Sylvia ainda morasse ali, não era possível que passasse dormindo todo o período de escuridão, ou que ficasse acordada ao longo de um período completo de luz do dia, mas não sabíamos ao certo. E queríamos descobrir — saber tudo o que houvesse para saber. Poderíamos ter ficado horas esperando naquele quintal sem chegar a vê-la, mas a porta se abriu de repente, e lá estava ela no pátio lateral, magra como nunca num vestido de linho laranja e descalça. Ficamos escondidos atrás de uma fileira de latas de lixo e a observamos caminhar na direção da calçada. Ela olhou para um lado e outro da rua, e repetiu o gesto. Agia furtivamente, como um ladrão. Carregava duas caixas de papelão lacradas com fita adesiva. Colocou-as na garagem e voltou para dentro. “Você estava certo”, sussurrei. “Acho que ela ficou por aqui esse tempo todo.” Seth concordou. Levou o dedo aos lábios. Sylvia retornou com mais duas caixas e se dirigiu novamente à entrada dos carros. Saiu do nosso campo de visão, mas ouvimos um barulho de chaves lá na frente, o porta-malas do carro abrindo e depois fechando. Seth tossiu baixinho. Colocou a mão na boca, tentando abafar o acesso seguinte, mas a tosse veio no momento em que Sylvia voltava ao pátio lateral. Ela olhou na nossa direção. “Jesus Cristo”, disse, com a mão no peito. “Vocês me assustaram. O que estão fazendo aí atrás?” Descobertos, ficamos de pé, mas não dissemos nada. Tínhamos sido apanhados. Sylvia olhou para a porta lateral. Seus gestos normalmente suaves, outrora tão graciosos, agora eram substituídos por braços cruzados, tensos. Ela mordia o lábio inferior, nervosa. “E então?”, ela perguntou. Continuamos sem falar. “Acho que vocês dois deviam ir para casa”, ela disse. “Agora.” Nunca tinha ouvido Sylvia falar daquele jeito. Como professora, era infinitamente paciente e calma. “Vocês não deveriam estar aqui”, continuou, subindo o tom. Ouvimos o rangido da porta lateral sendo aberta atrás dela. Sylvia fechou os olhos. E ali estava ele: meu pai, carregando duas malas marrons, uma em cada mão. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa com a visão dele saindo da casa dela, mas fiquei. Ele parou quando nos viu. Ouvi sua respiração brusca, acelerada. Pousou as malas no pavimento.

“O que vocês estão fazendo aqui?”, disse. Olhou para Seth, depois de volta

para mim. Um par de óculos escuros pendia de sua camisa.

Eu estava atordoada demais para responder.

“Pensei que você estivesse com Hanna”, disse meu pai. Ele estava prestes a acrescentar alguma coisa, mas Seth o cortou. “E ela pensou que você estivesse no trabalho.” Parecia ofendido, pronto para uma briga. “Não fale assim comigo”, disse meu pai. “Estou falando com Julia.” De repente, meu pai notou o portão aberto e pareceu assustado: se minha

mãe acordasse e olhasse para fora, ela nos veria no pátio lateral com facilidade. “Merda”, ele disse.

Vi ali, pela primeira vez, que havia uma distância inevitável entre pai e

homem. Era um homem ustrado aquele, parado ali. Um estranho teria reconhecido, de longe, os sinais, a maneira como meu pai correu para fechar o portão, os movimentos bruscos de um ser humano furioso. “Aonde você vai?”, perguntei. “A lugar nenhum”, disse meu pai. Mas as malas se destacavam como provas concretas contra ele. “Diga a verdade”, ordenei. Sylvia começou a se afastar da cena. Flutuava, quase imperceptivelmente, em direção à porta lateral. “Quero que você vá para casa agora”, disse meu pai. Ele apontou nossa casa, que mal se podia ver, por causa do portão, mas que parecia tão triste e bonita do outro lado da rua, o modesto estuque branco quase brilhando ao sol. Era o nosso lar. “Não”, respondi. Sylvia então entrou. Ouvi a porta se fechar suavemente atrás dela. “Agora”, disse meu pai. Permaneci onde estava. Talvez porque Seth estava ao meu lado, talvez por causa da luz do sol — dizem que, de fato, a luz do dia nos torna mais impulsivos do que a escuridão. “Não vou para casa”, eu disse. Seth agarrou minha mão. “Ele não pode te obrigar”, disse Seth. “Você pode contar para sua mãe agora mesmo.” O rosto do meu pai se iluminou de raiva — raiva e descrença. “Sua mãe e eu já conversamos sobre isso”, ele disse. “Não acredito em você”, respondi. Comecei a chorar de ódio. Senti a mão de Seth nas minhas costas. “Se você não vai voltar para casa, então vá para a casa de Seth”, meu pai disse. Estava pedindo agora. Era algo que eu nunca o vira fazer antes. “Por favor”, ele disse. “Não é seguro ficar por aí tão tarde, e você não devia estar no

sol.” Após alguma discussão, concordamos, mas nos recusamos a deixar que ele nos levasse. Ele seguiu, com o carro, nos acompanhando, no ritmo lento dos nossos passos. Seth me levou pela mão o tempo todo. Minha sensação, enquanto caminhávamos, era de estar vislumbrando a encenação do mundo de alguém mais velho, os estranhos dramas que só podem acontecer no meio da noite. Quando chegamos na casa de Seth, meu pai me chamou. “Julia”, ele disse. “Não vou contar para sua mãe que você mentiu dizendo que ia dormir na casa de Hanna.” Fez uma pausa. A ventoinha do motor começou a chiar. “Está bem?” “É você quem está mentindo aqui”, eu disse. “Julia”, ele repetiu, mas não respondi. Não sabia quando voltaria a ver meu pai. Seth e eu cruzamos de mãos dadas o chão de terra onde antes ficava o gramado. Subimos os degraus até a porta da ente e entramos furtivamente para não acordar o pai dele. Ali dentro, ficamos um tempo sentados no sofá da sala. A luz estava aca, por causa das cortinas. Era tarde, quase duas. “Você devia contar para a sua mãe”, disse Seth. Ele bocejou e se estirou no carpete. Deitei no sofá e mirei o teto. Alguns minutos se passaram. Em algum lugar uma torneira estava pingando. A geladeira ronronava. Lá fora, o sol castigava a terra. “Ela vai descobrir de qualquer jeito”, eu disse. Quando me virei para olhar Seth, descobri que ele estava dormindo. Enrodilhado no chão, de camiseta e bermuda. Por um tempo, fiquei escutando o som reconfortante da respiração daquele menino ali ao meu lado. Observei a leve agitação das pálpebras enquanto ele sonhava. Não bastava apenas estar perto dele. Eu queria poder ver o que sonhava naquele momento. Eu viajaria até lá com ele.

31

Somente quando acordamos, na manhã seguinte, é que percebemos as queimaduras. As piores queimaduras de sol das nossas vidas. Estávamos com febre e sede, nossos corpos inteiros reluziam, vermelhos. Doía dobrar os joelhos. Doía virar a cabeça. Seth correu para o banheiro e vomitou. Lembro-me até hoje da aparência dele depois, ainda tossindo quando se deitou no sofá. Em seus olhos, vi um princípio de choro e de algo mais:

medo. Minha mãe ficou horrorizada quando cheguei em casa. Pedaços de pele branca já se soltavam do meu rosto. “Jesus”, ela disse. “Eu pedi para você não sair no sol.” Ela voltou a se animar naquele dia, como se minhas queimaduras de sol, para ela, fossem uma cura. Passou um longo tempo espalhando babosa nas manchas que tinham surgido na minha cara. O toque de seus dedos — a dor terapêutica que causavam — fez com que eu me sentisse uma menininha de novo. “Essa ideia foi sua?”, ela quis saber. “Ou de Hanna? E onde diabos estavam os pais dela?” Eu não conseguia olhar nos olhos dela. “Quero que seu pai dê uma olhada nisso assim que chegar em casa”, ela disse. Pequenos flocos de pele caíam, colados às mãos dela. Eram visíveis sob a luminária. “Ele deve chegar do trabalho em uma hora.” Minha esperança era de que ela estivesse certa, mas eu sabia que uma guinada ocorrera naquela noite, uma mudança definitiva que resultara, por fim, em duas malas arrumadas no porta-malas do carro de Sylvia. Ela e meu pai talvez estivessem em Nevada àquela altura, ou tivessem percorrido metade do litoral da Califórnia rumo ao norte. Mas não disse nada para minha mãe. Apenas aguardava que a verdade se revelasse. Ela se inclinou para mim, inspecionando meu rosto. De perto, parecia mais velha, as rugas ao redor dos olhos pareciam mais profundas, o rosto lembrava as pétalas secas de flores que Seth e eu havíamos recolhido naquela primavera. Ela me virou, levantou a parte de trás da minha camiseta. Eu estava usando o sutiã branco que, em segredo, comprara numa segunda e mais bem-sucedida incursão à farmácia. Fechei os olhos e esperei que ela dissesse algo sobre aquilo. Mas ela não mencionou o sutiã. Em vez disso, ouvi apenas o som de sua respiração ofegante ao ver minha pele:

“Meu Deus”, ela disse. “Você estava sem camisa?”

O sol havia desenvolvido uma nova e alarmante capacidade: tinha nos queimado através de nossas roupas.

Naquela mesma manhã, um caminhão de mudança apareceu na ente da casa de Sylvia. Por trás das minhas cortinas, vi caixa após caixa passando nos braços de dois carregadores sobre a terra do que fora um gramado. Eles transportavam luminárias, tapetes felpudos, duas cestas de vime, metros e mais metros de macramê. Em seguida, a mobília: a mesa rústica da sala de jantar, o sofá de veludo marrom, duas poltronas estofadas, a estrutura da cama, uma gaiola de passarinhos vazia. O carregamento levou a manhã toda, mas Sylvia não apareceu. O carro dela não estava lá. Uma mancha de óleo secava no chão na entrada da garagem. Depois de um tempo, o caminhão partiu. O meio-dia chegou e passou, e nem sinal do meu pai. Minha mãe tentou o celular dele. Nada. “O turno dele já devia ter terminado”, ela disse. Fiquei calada, mas o que eu sabia ia formando uma tempestade — eu podia ver o futuro: meu pai não voltaria. E esse fato, em si, parecia apontar para outros, e mais outros: o amor se desgasta e os seres humanos acassam, o tempo passa, certas eras chegam ao fim. Em torno de meio-dia e meia daquele dia, as luzes piscaram. Poucos minutos depois, apagaram. “Merda”, disse minha mãe. “De novo não.” Todas as janelas da nossa casa estavam cobertas com cortinas blecaute, mas um pouco de sol ainda passava, de modo que não ficou um breu total na cozinha, onde nós duas esperávamos, preocupadas, como mulheres de outro tempo, mais antigo, minha mãe a acender velas na escuridão. Es eguei o rosto com as palmas das mãos. Pequenos flocos de pele queimada pelo sol caíram no chão. “Não faça isso”, minha mãe disse. “Vai ficar pior.” Pouco tempo depois da queda de energia, os gatos começaram a berrar. Eu nunca tinha ouvido os dois fazerem aquele ruído. Chloe gemia. Um rastilho de pelos se eriçou em suas costas. Tony andava para lá e para cá na cozinha, suas orelhas girando. Soltou um rosnado baixo. Quando cheguei perto, ele sibilou. Logo os cachorros da vizinhança começaram a latir. Uivavam e uivavam, o som subindo como uma maré. Um dogue alemão passou correndo rua abaixo, sua coleira chicoteando às costas. Nas áreas rurais vizinhas, o gado atacou; cavalos derrubaram cercas. Nós, humanos, não sentimos nada. O céu parecia azul e simples. Quando tentamos o rádio, os alto-falantes emitiram apenas estática. Nenhuma voz em nenhuma equência. Só mais tarde perceberíamos o que

parece tão óbvio em retrospecto: era a primeira das supertempestades solares, desencadeada pelo definhamento do campo magnético. Minha mãe ligou para meu pai mais uma vez. Nada. O grito da nossa gata, Chloe, virou um lamento, uma nota trêmula e implacável. Minha mãe a trancou no quarto de hóspedes e saiu pela casa fechando as janelas, para isolar o ruído. Ligou de novo para meu pai. Desta vez, a chamada caiu direto no correio de voz. “Onde ele está?” Acho que ela sabia que aquilo era mais do que um atraso. Alguma coisa tinha mudado, e ela sabia disso. “Talvez você devesse economizar bateria”, eu disse. Ela parecia à beira do choro. Uma hora se passou, depois duas. Nenhuma notícia do meu pai. Minha mãe ligou no hospital. Ele não estava lá. Tentou o celular novamente. Lembro-me dos bips ligeiros dos números sendo teclados, várias vezes, com maior urgência a cada uma delas, sons suaves de uma causa perdida. Antes da desaceleração, ninguém poderia prever que meu pai fosse do tipo que abandonaria esposa e filha. Ali estava um homem que estava sempre presente, um homem que trabalhava e todas as noites voltava para casa. Ali estava um homem que administrava crises e pagava suas contas em dia. Muitos estudos se dedicaram a medir os efeitos físicos da síndrome, porém muito mais vidas do que a história jamais registrará acabaram transformadas pelas sutis mudanças psicológicas advindas da desaceleração. Por razões nunca totalmente compreendidas, o fenômeno, ou seus efeitos, alterou a química cerebral de algumas pessoas, perturbando notadamente o ágil equilíbrio entre impulso e controle.

32

A uns cinquenta quilômetros dali, um drama diferente se desenrolava. Tudo começou com um golden retriever. Também se poderia dizer que a história começou antes, muito antes, sessenta anos antes, no ano de 1961, quando os americanos receberam as primeiras instruções sobre como construir um abrigo antiaéreo no quintal, numa época em que todos sabiam quantos centímetros de cimento eram necessários para proteger um ser humano da catástrofe nuclear. Mas os acontecimentos daquele dia, especificamente, começam com o golden retriever. Como os demais animais do bairro, o cachorro estava assustado com a tempestade solar. Ele pulou a cerca do quintal e saiu correndo. Correu por dez quarteirões, cruzou entradas de garagens, passou por tocos de árvores e gramados artificiais. Aquele era um bairro planejado, ainda novo na época, e empenhado em manter a aparência, tanto quanto possível, de que nada havia mudado. As encostas estavam nuas, já sem árvores, claro, mas as casas tinham vista para o mar distante, uma paisagem que se estendia livre de obstáculos por quilômetros. Por fim, o golden retriever galgou veloz uma colina e irrompeu num pedaço de terra que ficava um pouco além da área mais desenvolvida, um naco de terreno árido que, por acaso, pertencia ao meu avô. Quando os donos conseguiram recapturá-lo, o cachorro tentava cavar um pedaço de metal enterrado na lama atrás de uma pilha de lenha. Era um alçapão enferrujado rente ao chão de terra. Os donos do cachorro logo chamaram a polícia.

Alguns dizem que o amor é o mais doce dos sentimentos, a forma mais pura de alegria, mas não é verdade: esse não é o amor — é o alívio. Lembro-me do tom exato da voz da minha mãe quando me chamou do andar de baixo. “Ele chegou”, ela dizia. “Ele chegou.” Nosso futuro inteiro foi reescrito pelo som do motor do carro do meu pai sendo desligado na garagem. “Desculpe”, ele disse, acenando com o telefone no ar. “Tentei ligar.” Só mais tarde descobrimos que a tempestade solar havia derrubado os satélites de telefonia celular. Naquele dia, um milhão de chamadas desesperadas cruzaram o espaço sem encontrar seu destino. “Onde você estava?”, ela perguntou. Mas eu não me importava mais. Ele estava em casa. Estava ali. Perdoei meu

pai no mesmo instante. Não percebi de imediato o olhar de angústia em seu rosto. Devia saber, àquela altura, que os desastres nunca são aquilo que previmos — mas o que ninguém esperava. Havia um motivo para o atraso do meu pai naquele dia. Ele tinha estado na casa do meu avô.

Atrás da pilha de lenha, onde algum dia flores silvestres tinham crescido, havia um alçapão antigo, rente ao chão, enferrujado. Era a entrada para o abrigo subterrâneo que meu avô construíra seis décadas antes, para o caso de uma guerra nuclear. Eu não sabia do abrigo. Meu pai se lembrava de sua existência, dos tempos de juventude, mas mal conseguia recordar a localização no quintal. Na verdade, ele diria mais tarde, tinha para si que o esconderijo desmoronara anos antes. Mas, nos meses anteriores ao seu sumiço, sabíamos agora, meu avô estivera secretamente reformando o espaço por temor daquela nova era. Media uns três metros por três e setenta, as paredes revestidas por mais de trinta centímetros de cimento. Dentro havia fardos de água engarrafada, fileiras de comida enlatada, duas espingardas e um rádio a manivela. Havia quatro sacos de dormir e o mesmo número de catres — um para cada um de nós. Havia várias caixas da minha barra de cereais favorita. Muitas das coisas que sumiram da casa também foram encontradas no abrigo. Num canto, estavam várias caixas de fotografias e objetos de valor, caixas de sapato cheias das barras de ouro que eu o vira empacotando na sala de jantar. Um calendário cobrindo um período de dois anos estava pendurado numa parede. Aquele esconderijo fora projetado para a espera: pelo desmoronamento da sociedade e tudo o que viesse em seguida. Tinha sido projetado para ser usado não apenas por meu avô, mas por nós, pelos meus pais e por mim. Acho que, no fim das contas, ele não estava tão ansioso assim por escapar do confinamento desta vida. Espalhado pelo chão havia o conteúdo da bagagem final do meu avô: um baralho, uma edição antiga de Banco Imobiliário, um tabuleiro de damas. Todos esses itens estavam jogados sobre o cimento. No piso do abrigo, uma escada de madeira jazia num ângulo incomum. De acordo com o relatório policial, o corpo do meu avô fora encontrado ali. Ele havia sido um homem rústico, mas a primeira coisa que pensei, ao saber da notícia, foi em como sua pele se tornara delicada, em como ele sangrava facilmente, e com frequência. No futuro, eu passaria muito tempo obcecada com regras de causa e efeito, com o fato de que o tombo daquela escada representava apenas um evento em uma longa cadeia. E se o piso do abrigo fosse revestido com carpete, em vez de cimento? E se o fabricante da escada tivesse colocado borracha nos degraus, para maior aderência? Talvez essa outra escada não tivesse escorregado tão

facilmente. Não fosse o envio, pelos soviéticos, de mísseis nucleares a Cuba, em 1962, meu avô nunca teria construído um abrigo. Tivesse a rotação da Terra continuado normal, ele jamais o teria reformado. Eu costumava ficar acordada à noite, enumerando todas as coisas que poderiam ter evitado a morte do meu avô, mas, no momento em que a escada balançou, as possibilidades se estreitaram: a cabeça dele bateu no cimento, o sangue de suas veias vazou para o cérebro, o coração parou de bater e ele foi embora deste mundo para sempre. Mais tarde, estimou-se que ele havia morrido no dia em que desaparecera, dois meses antes, no meu aniversário. No momento da queda, usava calça cinza, sapatos de couro e casaco esporte de veludo. Ele estava vestido para o jantar. A polícia suspeitou que a descida ao abrigo acontecera menos de uma hora antes de chegarmos naquela noite, e que, provavelmente, meu avô tinha a intenção de transportar uma última carga de suprimentos para o esconderijo antes de sairmos juntos. No bolso do casaco, encontraram um envelope azul- claro com meu nome escrito na letra trêmula dele. Dentro, havia um cartão de aniversário que, aberto, revelava uma nota de vinte dólares dobrada e uma mensagem curta, manuscrita: “Feliz aniversário, Julia. Deus te abençoe”. Um detalhe até hoje me enche os olhos de lágrimas: os jogos de tabuleiro que meu avô levava empilhados nos braços quando caiu, naquela noite, eram os que ele sabia que eu mais gostava.

33

Não costumava chover onde morávamos, mas choveu no dia do enterro do meu avô. Realizamos a cerimônia no escor seguro da escuridão. Eu nunca tinha visto meu pai tão calado como no cemitério. Minha mãe chorava baixinho atrás de mim. O caixão preto brilhava sob os refletores, gotas de chuva rolavam pelos lados, e eu não conseguia acreditar que ele estivesse ali dentro, meu avô, morto. Ainda podia ouvir o som da sua voz nos meus ouvidos. Ainda podia ver seu rosto. Era a primeira vez que eu ia a um enterro. Não demorou para que a terra virasse lama e a chuva se transformasse em granizo. Em algum lugar, do outro lado do planeta, o sol brilhava e as pessoas estavam escondidas da luz. Lembro que, vestida com a minha parca naquele dia, tremendo, eu me perguntava sobre a diferença entre coincidência e destino. Tinha me recuperado rapidamente das queimaduras, mas Seth estava doente havia semanas. A pele dos braços dele criou bolhas e descamou. Ele teve febres sucessivas. Não tinham certeza se isso se devia às queimaduras de sol ou a outra coisa. Ele ficou sem ir à escola. Passávamos as tardes juntos, mas ele falava pouco e muitas vezes pegava no sono. Horas passadas em outros tempos voltaram a se abrir como cicatrizes — retornei à biblioteca nos meus horários de almoço, ansiosa e sozinha. Cada vez menos crianças iam às aulas. Seth finalmente se recuperou, mas eu temia, mesmo assim, que algum mal já estivesse feito. Carregamos certas coisas que acontecem quando se é jovem pelo resto da vida, e especialistas já começavam a prever uma onda de câncer que se aproximava. Abril rapidamente virou maio, e maio foi o mês em que os terremotos começaram — eram leves àquela altura, mas equentes, um ribombar diário. No mesmo mês, montamos uma segunda estufa no quintal e colocamos protetores à prova de sol em nossas janelas. Minha mãe comprou cadeados para todas as portas da casa. Meu pai, uma arma. Passados sete crepúsculos, entramos em junho.

O último dia daquele ano letivo foi o mais calmo último dia de aula de que tenho memória. Não tínhamos a alegria habitual. Foi, em parte, a escuridão que nos emudeceu, a lua fina em forma de foice, mas foi outra coisa também:

uma nova percepção do tempo, acho — de como ele se esvai rapidamente. Mais tarde, tentei explicar a Seth como me senti naquele dia — ele ainda estava

doente em casa —, mas era difícil capturar a atmosfera em palavras. Havia um sentimento, naquele último dia, enquanto fechávamos os zíperes de nossas mochilas e empilhávamos nossos livros no depósito, de que talvez nunca retornássemos àqueles corredores. Setembro surgia adiante, a apenas três meses dali, mas tínhamos desistido de prever o futuro. Os recados nos anuários foram levados mais a sério naquele ano. Da caneta de cada um fluía nostalgia. Fazia meses que eu não falava com Hanna, mas ainda assim ela insistiu em assinar a página do meu exemplar em que aparecia sua fotografia, tirada numa época em que ainda éramos amigas. Nunca mais a vi. Ela e sua família voltaram para Utah, naquele verão, à espera do que quer que estivesse a caminho. A tarde definhou. A lua sumiu de vista. Os professores de inglês entregaram as listas com as leituras de verão: A revolução dos bichos, Tom Sawyer, O diário de Anne Frank. Jamais os guinchos de nossas cadeiras no linóleo, o ruído de um pincel atômico na superfície de uma lousa haviam nos confortado tanto. Mas os relógios seguiam na velocidade de sempre, de modo que o fim do dia chegou na mesma hora. Os ônibus escolares arfavam, encostados ao meio-fio, faróis brilhando no nevoeiro. O sinal soou. Alguns se abraçaram. Outros choraram. Todos nos dispersamos. Nunca antes a ansiedade pela chegada do verão fora tão pequena.

As tempestades solares duraram toda a estação. Seth e eu acompanhávamos de perto as ocorrências. Não as sentíamos, mas danificavam cabos no mundo todo, com equência provocando incêndios a partir da rede elétrica. Mais e mais radiação adentrava a atmosfera. Era possível percebê-la na presença de fantásticos arcos de luz da aurora cruzando o céu sempre que escurecia. Nunca sabíamos quando a eletricidade podia ser cortada. Um aumento súbito das partículas magnéticas era capaz de derrubar a rede de energia a qualquer momento, de modo que continuamos a manter por perto e a postos lanternas e velas. Ainda nos mantínhamos longe do sol. Àquela altura, muito do que saía da boca dos cientistas era ininteligível para o resto de nós. Mas compreendíamos certos fatos gritantes. O mesmo vento solar que agora castigava nossos céus, algum dia, muito tempo atrás, dizimara os oceanos e a atmosfera de Marte. “Observamos efeitos como esse no campo magnético outras vezes”, afirmou um cientista, “mas nunca em escala tão grande. Deve levar milhares de anos para que esse tipo de deterioração aconteça.” As declarações dessas pessoas, por vezes, entravam no campo da poesia. A imaginação corria solta. Houve quem especulasse sobre o envolvimento de uma terceira força, ainda desconhecida.

“O que estamos vendo aqui”, disse um pesquisador, “mina toda a nossa compreensão da física.”

A doença da minha mãe tinha altos e baixos, mas ela aprendeu a prever suas

crises de tontura a partir de um leve gosto metálico na boca, mais um sintoma que seu médico não conseguia explicar. Notei que meu pai começou a cuidar dela com renovado carinho. Observava a interação entre os dois à distância, mas sentia uma nova proximidade entre eles. Alguma coisa tinha mudado, embora a causa fosse um mistério para mim. Estudei-os de longe naquele verão, com o método pelo qual, conforme aprendêramos na escola, os astrônomos são capazes, às vezes, de detectar um planeta distante — sem vê-lo, mas medindo o quanto sua massa turva o trajeto da luz emitida pelas estrelas. As pistas estavam no ângulo em que o braço do meu pai envolvia os ombros da minha mãe, no tom mais suave da voz dela. Algumas vezes, minha mãe emergia de uma crise de náuseas num estado quase de alegria, e jogávamos Banco Imobiliário ou damas por um tempo, meus pais bebendo uma cerveja. Uma vez, ela se sentiu bem por uma semana inteira, e todas as noites os dois ficavam até tarde juntos, falando baixinho, rindo aqui e ali. “Está vendo?”, lembro-me da voz do meu pai, insistindo. “Você vai ficar bem.” Quanto mais tempo passava, menos eu entendia a ligação entre eles, mas comecei a suspeitar de que o tombo da escada no abrigo antibomba do meu avô havia mudado o curso do casamento deles. Nunca vou saber a ordem exata dos eventos, ou que decisões foram então tomadas. Nunca vou saber se meu pai realmente estava planejando ir embora com Sylvia naquele dia ou não. Só sei que ele não nos deixou. Só sei que ele ficou.

Nunca mais vi Sylvia. Não sei se meu pai a viu novamente. Houve ocasiões, naquele verão e depois, em que o ouvi falando ao telefone tarde da noite, mas nunca vou saber com quem conversava ou o que era dito ali. Quando não estava no trabalho, meu pai passava horas catalogando os pertences do meu avô. O velho relógio de carvalho agora tiquetaqueava em nossa sala. As colheres em miniatura da minha avó estavam penduradas na parede amarelo-limão da nossa cozinha. Os sapatinhos de bebê do meu avô, preservados em sua embalagem prata durante oito décadas, passaram a enfeitar a prateleira da sala. Meu pai nunca mencionou diretamente Sylvia. Juntos, fizemos um esforço árduo, naquele verão, para imaginar que certos acontecimentos nunca haviam ocorrido. A mente é uma força poderosa; duas mentes, mais ainda.

A certa altura de junho, o relatório da polícia sobre o acidente da minha mãe

surgiu em nossa caixa de correio. Certamente mencionava o desfecho para o

atropelado — falecido —, mas tive apenas um rápido vislumbre do documento no momento em que meu pai o amassava e jogava na lareira no meio dos jornais que estava usando para acender o fogo. Era como se nós dois tivéssemos aprendido a viajar no tempo, para um lugar mais simples, onde as leis da cronologia e das consequências, de ação e reação, eram diferentes, mais difusas, menos determinadas. Uma única vez ele mencionou Sylvia. Era uma noite de céu limpo e negro, com três quartos de lua cheia. Estávamos andando até a escola — ideia dele — para jogar bola. “Sei que nem tudo faz sentido para você”, ele disse, enquanto caminhávamos. Alguns poucos postes iluminavam o caminho. Fiquei com medo do que ele diria em seguida. “Você sabe o que é um paradoxo?”, ele perguntou, depois fez uma pausa e es egou a testa. As silhuetas das casas próximas, formando um conjunto, brilhavam contra o céu escuro. “Na verdade, não”, respondi. Lembro-me de como sentia minhas mãos naquela noite, encolhidas e apertadas nas mangas da parca. Ainda estava me acostumando com aquilo, com o quanto os longos períodos de escuridão podiam ser frios. “Um paradoxo”, ele continuou, “é quando duas coisas contraditórias são verdadeiras.” Ele ergueu a cabeça para o céu. Um início de calvície se abria na parte de trás da cabeça dele; eu começava a perceber que elas estavam por toda parte — as nítidas evidências do tempo. “Só se lembre de uma coisa, está bem?”, acrescentou meu pai. “Nem tudo é tão claro.” Chegamos ao estacionamento e encontramos um buraco no alambrado. Lembro-me da relva artificial estalando sob as chuteiras. Àquela altura, todas as plantas que viviam ao ar livre no bairro estavam mortas. A bola de futebol brilhou à luz da aurora. Meu pai assumiu o gol, eu chutava. À medida que os meses se passavam, foi ficando cada vez menos prazeroso chutar uma bola, cada vez mais difícil fazê-la decolar, cruzando o campo — não era, na verdade, um problema de aumento da gravidade, mas da força centrífuga. A bola pesava no meu pé. “Você soube que encontraram outro planeta que talvez seja parecido com a Terra?”, perguntou meu pai, quando caminhávamos de volta até a rua. “Sério? Onde?” “Bem longe daqui”, ele disse. “A vinte e cinco anos-luz.” Uma fileira de carros passou na rua, faróis revelando, por um momento, uma sequência de tocos de árvore na frente da escola. “Então não serve para a gente”, eu disse. “Não”, ele disse. “Para a gente não.” Caminhamos em silêncio por um tempo. Puxei o zíper da parca até o

pescoço. Minhas chuteiras estalavam no asfalto. “Aposto que você vai conseguir entrar para o time que vai excursionar este ano”, disse meu pai. Estrias verdes e violetas incendiavam o céu. “Talvez”, eu disse. Mas acho que nós dois sabíamos que não haveria excursão do time naquele ano. De todas as direções, ecos de martelos flutuavam pelo ar, assim como o chiado de serras circulares, de aço sendo cortado. Centenas de abrigos contra a radiação pipocavam no subsolo. E os dias continuavam a se estender. Chegamos a setenta e duas horas no Quatro de Julho.

Nos dias escuros daquele verão, Seth e eu vagávamos à luz das lâmpadas da rua, pálidas criaturas, ainda em crescimento. Seth parecia saudável de novo. Estava bem. Revezávamos sobre o skate dele ladeira abaixo pelo bairro. Comprávamos doces, tomávamos re igerantes na encosta da praia. Mantínhamos vigília sobre as baleias que morriam. Uma tarde, o nariz de Seth começou a sangrar. Algumas gotas salpicaram sua camiseta. “Não é nada”, ele disse, limpando o nariz com as costas da mão e puxando um lenço do bolso. Estávamos andando perto do oceano, que estava escuro e barulhento. Seth inclinou a cabeça para trás, apertando a base do nariz. O sangue rapidamente se espalhou pelo lenço. “Isso acontece às vezes”, ele disse. “Acontece?”, perguntei. “Talvez meu pai devesse dar uma olhada.” “Não é nada de mais”, ele disse. Depois de alguns minutos, o sangramento parou. Não reparei em mais nada. Ele escondia bem os sintomas. A casa de Sylvia permanecia vazia. Havia uma placa de vende-se no jardim, mas o teto ainda estava parcialmente destruído e envolto em plástico. Nunca apareceu nenhum comprador para vê-la. Certo dia, em nossas peregrinações, Seth e eu espiamos por uma janela. O piso de madeira era um pouco mais escuro no local onde ficava o piano, e o sino feito de conchas tilintava suavemente à brisa. Eram os únicos vestígios de que Sylvia tinha morado ali algum dia. Às vezes eu me perguntava para onde ela teria ido. Naquele ano, um dos canais de televisão levou ao ar um especial sobre as colônias de adeptos do tempo real, e procurei, cena por cena, algum vislumbre dela, mas não a vi. Em Circadia, no mesmo verão, três pessoas morreram de insolação num só dia, depois que quarenta e uma horas de luz solar elevaram a temperatura a cinquenta e sete graus no deserto. Com o tempo, quase todas as colônias

acabaram. À medida que os dias se estendiam, cada vez mais ficou provado que era impossível para o corpo humano se adaptar. A promessa de um tempo mais lento, em grande medida, não se cumpriu. Para os adeptos do tempo real, os longos períodos sem dormir começaram a interferir em certas funções cognitivas. Alguns desistiram e se juntaram ao resto de nós, seguindo os relógios. Muitos daqueles que persistiram nas colônias foram enlouquecendo. Um grupo de Idaho foi encontrado quase passando fome, seus membros delirantes e alucinados — o grupo todo tinha parado de comer, embora seus armários estivessem abarrotados de comida enlatada. Aquele foi também o verão da escassez de alimentos e dos cultos suicidas. Parecia que a cada dia um novo grupo de pessoas era encontrado morto, com veneno inundando suas correntes sanguíneas. Produtos escos ficavam mais e mais difíceis de encontrar. Em julho, o governo lançou a campanha Jardim da Vida, para incentivar as pessoas a cultivar os próprios alimentos em estufas cobertas. Kits de instrução foram distribuídos com pacotes das sementes mais resistentes. Tentamos cultivar cenouras, mas elas saíram bichadas e pequenas. A pouca luz de que dispunham vinha de nossas luzes artificiais. Cogumelos eram a única coisa encontrada em abundância. Tomávamos um bocado de vitaminas para compensar. Mas logo elas começaram a escassear. O estoque de comida enlatada da minha mãe cresceu rapidamente naquele verão. Já ocupava a sala de jantar. Seth e eu passávamos um tempão imaginando como ficaria o mundo quando os humanos desaparecessem. Ouvimos dizer que tudo que fosse de plástico duraria mais que o resto, então imaginamos as casas da minha rua reduzidas a um amontoado de tubos de PVC, Lego, potes, baldes de praia, chips de computador, celulares e aparelhos de barbear. Garrafas de todo tipo formariam uma torre sobre tudo mais, os rótulos se apagando e o plástico rachando sob a força de um sol violento e sem vida. “Pense em todas as escovas de dente”, disse Seth. Uma vez, ficamos apreciando o pouso de um mosquito numa lâmpada da varanda. “Olha”, ele disse. Os olhos dele pareciam grandes e lacrimejavam. O mosquito voou para longe. Assim que se foi, pareceu a nós delicado e elegante. “Olha! Olha!” Estávamos convencidos, por um momento, de que aquela era a última criatura selvagem da Terra. Certa noite, passeamos pelas encostas com lanternas. De quando em quando espiávamos o sol por debaixo de nossas cortinas. Deitávamos de barriga para cima na escuridão e observávamos a aurora como outras crianças, algum dia, olharam nuvens. À noite, às vezes, passávamos um tempo nos beijando na entrada de casa. Ainda lembro como era sentir seus lábios nos meus, o gosto doce do chiclete de morango que ele mascava.

Às vezes parecia que nossas memórias nos abandonavam. Achei que já não conseguia lembrar claramente os contornos do rosto do meu avô ou de como minha mãe era antes de ter ficado doente — eu tinha certeza de que a pele dela havia desbotado um pouco, tornado-se mais áspera, mas era difícil dizer ao certo. O som do piano de Sylvia tinha desaparecido completamente da minha cabeça. O mesmo acontecera com sensações como a da luz do sol no meu rosto, o gosto de morango, uma uva sendo mordida. Foi ficando mais difícil recordar aquelas manhãs antigas, quando o sol ainda se levantava certeiro como um relógio, as camadas de nevoeiro sendo lentamente dissipadas, uma luz encantadora, o início do dia. Mas, às vezes, uma brisa ou determinado cheiro podiam me fazer lembrar como eram as coisas. O horizonte talvez voltasse a parecer perfeito de repente — e eu me perguntaria, por um momento, o que tinha acontecido com as árvores. Uma súbita sensação de silêncio de vez em quando invadia meus ouvidos, e eu então recordava o que tínhamos perdido: o canto de todos os pássaros. Em outros continentes, a fome se espalhava. Tentávamos ter sempre em mente que éramos mais afortunados do que a maioria.

Em agosto daquele ano, a companhia de energia fez escavações na nossa rua. Algo a ver com os terremotos, um reparo relacionado a isso. Trabalhadores de colete laranja e britadeiras abriram um trecho da calçada para chegar aos cabos que serpenteavam sob a rua. Poucas horas depois, quando o trabalho estava terminado, aplicaram dois novos quadrados de cimento sobre a calçada para substituir os que haviam destruído. O cimento ainda estava molhado quando os operários foram embora, isolado apenas por dois cones e um pedaço de fita amarela. Seth e eu nos ajoelhamos junto ao cimento esco, ansiosos por deixar nossa marca ali, mas sem saber o que escrever. Eu estava consciente da proximidade do corpo dele enquanto nos agachávamos sob as luzes da rua e confabulávamos. “Qualquer coisa que a gente escrever vai durar um tempão”, ele disse. Olhou fixamente para o cimento e mordeu o lábio — era um de seus hábitos. Eu conhecia todos os hábitos dele àquela altura. Seth olhou para mim. “Talvez dure por toda a nossa vida.” Senti uma tristeza vaga nessa hora, a premonição de um sentimento futuro. A superfície de cimento esco era suave como neve recém-caída e cheirava a sal marinho. Passamos um longo tempo decidindo o que escrever, nosso raciocínio apenas ligeiramente mais rápido do que a velocidade com que o

cimento fresco seca ao ar livre.

A Terra continuava a girar, os dias passavam e as constelações feriam o céu.

Aos poucos, aprendemos a dormir fora as noites brancas, nos abrigos contra a radiação que todos cavamos em nossos quintais, onde o ar cheirava a terra e a rocha, de modo que nunca esquecíamos que estávamos debaixo da terra. Pouco a pouco — e depois de uma vez — aquele verão se foi.

O que aconteceu depois está bem registrado por aí. Mas duvido que o nome

de Seth tenha aparecido em qualquer outro relato além do meu. Não dava para ele esconder para sempre. Estávamos voltando da praia, uma tarde, a luz dos faróis passando por nós. Era o início de um período de escuridão e a lua brilhava baixa no céu, pouco visível acima dos telhados da vizinhança. Dividíamos um pacote de doces enquanto caminhávamos. Seth olhava as estrelas. “Se os seres humanos pudessem mesmo ir embora para Marte”, ele disse, “você ia querer ir?” Eu adorava o jeito como ele pensava sobre essas coisas. “Acho que não”, respondi. “Eu teria muito medo.” “Eu iria”, ele disse. “Adoraria fazer algo assim.” Não mais do que alguns segundos depois, ouvi o som do pacote caindo da mão de Seth. Lembro-me do leve baque do plástico na calçada e dos doces se espalhando pela rua. Quando me virei para ele, senti seu corpo se apoiar, pesado, no meu ombro. E então ele foi de cabeça na calçada. Acho que eu soube que nada seria igual depois daquilo. Gritei o nome dele. Olhei nos seus olhos: estavam semiabertos e vazios. Sua cabeça oscilava para a ente e para trás. Seu corpo inteiro tremia sobre o pavimento. Corri o que me pareceu uma longa distância, da calçada até a porta da ente da casa mais próxima, num passo que me faz lembrar, agora, de um sonho que às vezes tinha naquela época e ainda tenho, no qual o chão despenca onde quer que eu pise. E logo estava batendo à porta de estranhos com as duas mãos. No momento seguinte estava gritando com a mulher que morava ali. Em seguida ela chamava uma ambulância, a voz de alguém tão em pânico quanto eu. “Ai, meu Deus”, ela berrava ao telefone. “Tem um menino tendo uma convulsão aqui na rua.” Fiquei grata àquela mulher nos primeiros segundos, mas depois queria que ela fosse para longe da gente, e não que ficasse agachada perto de mim como fez enquanto Seth se contorcia na calçada, sua cabeça batendo, meus braços jovens incapazes de manter seu corpo imóvel, minha mente ainda mais inútil.

Aquele momento era íntimo demais para ser presenciado por uma estranha.

A convulsão cedeu, finalmente, mas Seth passou aquela noite no hospital. Quando voltou para casa, no dia seguinte, ligou para me contar o que eu já tinha adivinhado. “Estão achando que é a síndrome”, ele disse. Eu podia sentir aquelas palavras pressionando o meu peito. “Eu sei”, respondi. Não dissemos nada por um tempo. Dava para ouvir a respiração dele do outro lado. “Mas não estou preocupado”, disse. Não acreditei. “Quero dizer, sua mãe não tem esse negócio e se sente bem uma boa parte do tempo?”

“Mais ou menos”, eu disse. Não contei a Seth, na ocasião, que o caso dele parecia muito mais grave que

o da minha mãe.

Ele foi perdendo as forças rapidamente depois disso. Não demorou e já passava a maior parte do tempo na cama. Depois da aula, eu corria para a casa dele, e assistíamos a filmes juntos, jogávamos cartas, ou simplesmente olhávamos as estrelas da janela do quarto. “Quando eu melhorar”, ele dizia, “vamos construir um forte no quintal e instalar seu telescópio lá fora.” “Está bem”, eu respondia, concordando vigorosamente com a cabeça. Mas me assustava a aparência magra e pálida que seu rosto começava a ganhar. Havia momentos em que ele fechava os olhos por alguns segundos, espantando uma súbita dor de cabeça. O nariz sangrava e sangrava. Ele falava cada vez menos. O skate ficava silencioso em um canto do quarto. Logo ele mal conseguiria andar. Senti que ia sendo levado, como gelo no

mar. O pai de Seth nunca chegou a desenvolver o milho no qual vinha

trabalhando, uma variedade que sobreviveria sem luz. Desistiu e fechou seu laboratório. Um dia, naquele outono, decidiu que ele e Seth se mudariam para

o México, onde a radiação, diziam, era mais fraca.

Ainda me lembro da tarde em que Seth me contou que eles estavam indo embora, e de como, desesperada, eu me apeguei às palavras que ele disse em seguida: “Mas aposto que a gente volta”. Lembro-me do dia em que carregaram a van, o pai levando Seth nos braços,

e de como as pernas dele balançavam, pernas finas que um dia tinham sido tão

fortes. Eu tinha ajudado Seth a empacotar suas coisas, e ele me dera o skate, já que não podia mais usá-lo. “Guarde para mim”, disse, já no banco do passageiro. Passei os derradeiros minutos chorando tanto que não conseguia falar. Lembro-me do pai de Seth

evitando meus olhos enquanto carregava a van. “É só por alguns meses”, Seth disse, tocando meu rosto com a mão. Sua pele tinha perdido a cor, mas os olhos continuavam os mesmos de sempre, escuros. “Você vai ver: a gente vai voltar.” Lembro-me de ter ficado olhando enquanto a van se afastava de mim, o

rosto dele recuando ao longe. Fiquei ali parada, na rua escura, um longo tempo depois disso, segurando o skate contra o peito e esperando, como se existisse alguma ínfima possibilidade de que a van mudasse de rumo e começasse a voltar no tempo em vez de seguir em ente, ao passo que, ao meu redor, tudo mais na vida continuava a avançar numa só direção. Seth me mandou um e-mail curto no dia seguinte, com poucas e preciosas palavras: “O México é estranho”, ele contava, “e quente! Sinto sua falta!”.

Li a mensagem muitas vezes naquele dia e no dia seguinte. Podia ouvir o eco

da voz dele nas palavras.

*

Dois dias depois, toda a América do Norte ficou às escuras, na maior queda de energia da história. Durante setenta e duas horas, sobrevivemos à luz de velas e racionamos nossos suprimentos. No continente todo, os cultivos ficaram sem as luzes artificiais. Temíamos ficar sem comida. Saqueadores circulavam pelas cidades e pelos shoppings. Pela primeira vez, até onde me lembrava, meu pai não foi trabalhar. Nós três nos amontoamos no abrigo contra radiação. Meu pai trancou as portas com uma corrente. Minha mãe estava preocupada achando que nossa água não seria suficiente, então a consumíamos o mais lentamente possível. Contamos as horas, depois os dias. No meio da segunda noite, ouvimos tiros distantes na escuridão. Não dormimos nada. Finalmente, no terceiro dia, as luzes voltaram a se acender. Mas nem tudo voltou ao normal. Os imensos servidores que mantinham em funcionamento nossas redes de computadores, sistemas de e-mail e a maioria dos principais sites foram temporariamente desligados para economizar eletricidade. Todos os usos não essenciais de energia ficaram em espera.

E, como se sabe, os servidores jamais foram religados.

Eu não era a única a ter perdido contato com alguém que amava. Ainda me lembro dos panfletos que apareceram nas agências dos correios e nos mercados; nomes e fotos de pessoas logo surgiram afixados aos mesmos locais que anunciavam animais de estimação perdidos. SE VOCÊ VIR ESTA MULHER, POR

FAVOR, DIGA A ELA QUE DANIEL A PROCURA. SE VOCÊ ESTIVER POR AÍ, J.T., AQUI VAI O MEU

NÚMERO. Os relacionamentos mais recentes eram os menos propensos a sobreviver — milhões de novas relações foram interrompidas em pleno florescimento. Pense em todos aqueles amores potenciais agora perdidos, num

planeta de estranhos. Eu não tinha o telefone de Seth, mas ele me passara um endereço postal em Baja. Comecei a enviar cartas. Escrevi uma por dia durante semanas. Talvez não fosse o endereço certo. Talvez houvesse algo de errado com os correios. Às vezes as histórias mais tristes são as que exigem menos palavras: nunca mais ouvi falar de Seth Moreno.

34

Ainda me espanta como, na verdade, sabíamos tão pouco. Tínhamos foguetes, satélites e nanotecnologia. Tínhamos braços e mãos de robôs para cavar a superfície de Marte. Nossos aviões não tripulados, controlados remotamente, eram capazes de detectar vozes humanas a quase cinco quilômetros de distância. Éramos capazes de fabricar pele, de clonar ovelhas, de bombear sangue do coração de um homem morto para o corpo de um estranho. Estávamos fazendo grandes progressos nos domínios do amor e da tristeza — contávamos com drogas para estimular o desejo, para diluir a dor. Operávamos todos os tipos de milagres: conseguíamos fazer os cegos enxergarem, os surdos escutarem, e todos os dias médicos, como que por encanto, faziam surgir bebês nos úteros de mulheres inférteis. Na época da desaceleração, pesquisadores de células-tronco estavam próximos de encontrar a cura de paralisias — certamente os aleijados logo teriam conseguido voltar a caminhar. E, no entanto, o desconhecido ainda assim superava o conhecimento. A causa da desaceleração nunca foi determinada. A fonte de nosso so imento manteve- se um mistério eterno.

Eu tinha vinte e três anos quando os planos para o Explorer foram anunciados. Um novo tipo de foguete, projetado para deslocamentos em alta velocidade, mas não levaria seres humanos na bagagem. Era uma mensagem numa garrafa, uma lembrança da Terra, talvez nossa última comunicação. Levaria, em sua jornada, um disco de ouro contendo informações sobre nosso planeta e sua população, para o caso de, em algum reino distante do universo, vida inteligente cruzar o caminho da nave.

Uma equipe especial foi montada para decidir o que incluir no disco. Entre os conteúdos finais estavam o som das ondas quebrando na praia, vozes humanas dizendo saudações do mundo todo, imagens da flora e da fauna extintas, um diagrama da localização exata da Terra no universo. Alguns fatos básicos foram gravados em símbolos na parte externa do disco, com a meta de registrar em hieróglifos toda a história do século XXI, transmitindo, no menor número possível de traços, a história do nosso tempo. Ficaram de fora do material o cheiro de grama cortada em pleno verão, o

sabor de uma laranja nos lábios, a sensação da areia sob os pés descalços, nossas definições de amor e amizade, nossos temores e sonhos, nossa compaixão e nossa bondade, nossas mentiras.

O Explorer acabaria por viajar distâncias tão grandes que só é possível medi-

las em tempo. Um pedaço de urânio no meio do disco funcionaria como um relógio radioativo, de modo que um dia — talvez daqui a sessenta mil anos, quando o Explorer pela primeira vez chegar perto de outra estrela, a mais próxima — seres diferentes de nós possam ser capazes de determinar a idade da nave. Também vão descobrir, pelo disco, que, na época do lançamento do Explorer, nossos estoques de comida estavam acabando e a escuridão se aprofundava. O ritmo da desaceleração tinha diminuído ao longo dos anos, mas nunca parara. O estrago já estava feito, e começamos a suspeitar que estávamos morrendo. Mas talvez o disco também informe que seguimos em ente. Resistimos, mesmo quando a maioria dos especialistas nos dava apenas mais alguns anos de sobrevida. Contamos histórias e nos apaixonamos. Brigamos e perdoamos. Bebês continuaram a nascer. Ainda tínhamos esperança de que o mundo voltasse ao normal.

A doença da minha mãe não avançou tanto quanto a de Seth. Ela continuou

a dar aulas em meio período, até que, alguns anos atrás, a escola fechou porque tinham perdido crianças demais. Meu pai ainda trabalha no hospital. Os dois vivem na mesma casa onde cresci, mas está tudo muito diferente, hoje, em relação a como me lembro do lugar. A grama e os arbustos se foram há muito tempo, claro, e espessas chapas de aço agora revestem as paredes externas para impedir a entrada da radiação. Persianas à prova de sol bloqueiam a vista que eu costumava ter da janela do meu antigo quarto. Do

outro lado da rua, a casa de Sylvia foi demolida. O que um dia foi a varanda dela virou um terreno baldio.

Minha mãe diz que gasto tempo demais pensando no passado. Devemos olhar para a ente, ela diz, para o tempo que resta. Mas o passado é longo e o futuro é curto. No momento em que escrevo este relato de uma vida comum, nossos dias já têm a duração de semanas, e é difícil dizer, hoje, qual dos períodos é mais perigoso: se as semanas de escuridão gelada ou as de luz. É apenas uma questão de tempo até que o combustível que nos mantém vivos se esgote. Tento, sim, tanto quanto possível, seguir adiante, fingir que realmente temos décadas de vida pela ente. Decidi tentar me tornar médica, apesar de algumas universidades terem sido fechadas. Ninguém sabe o que será do mundo quando eu terminar meus estudos.

difícil, penso, não projetar tempos melhores. Deitada de madrugada, em

É

certas noites radiantes durante as longas semanas de luz, fico acordada, sem conseguir dormir. Minha mente voa e eu me lembro de Seth. Às vezes me pego acreditando que talvez ele volte algum dia. Comecei a colecionar histórias sobre retornos improváveis: o súbito reaparecimento do filho há muito perdido, o pai encontrado, amantes reunidos depois de quarenta anos. De vez em quando acontece de uma carta cair atrás de uma mesa, na agência dos correios, e ali ficar durante anos até ser finalmente descoberta e entregue no endereço certo. Indivíduos com aparente morte cerebral às vezes acordam e começam a falar. Estou sempre em busca de uma prova de que aquilo que é feito às vezes pode ser desfeito. Seth e eu gostávamos de imaginar como pareceria nosso mundo aos olhos de supostos visitantes, algum dia no futuro, talvez milhares de anos à ente, depois que todos os seres humanos tivessem desaparecido, com todo o asfalto do planeta descolado, arruinado. Nós nos perguntávamos o que esses visitantes encontrariam aqui. Gostávamos de palpitar sobre o que duraria. Aqui, entalhes sugerindo uma vasta rede de estradas. Ali, depósitos de ferro onde estruturas gigantes de aço algum dia haviam formado, ombro a ombro, em fileiras, uma cidade. Acolá, restos de roupas e louças, cemitérios, montes de terra que tinham sido as casas das pessoas. Mas, dentre os artefatos que provavelmente nunca serão encontrados — dentre os objetos que se desintegrarão muito tempo antes que alguém de fora chegue aqui —, há um remendo na calçada de uma rua da Califórnia; ali, certa vez, numa tarde de verão escura no finalzinho do primeiro ano da desaceleração, duas crianças se ajoelharam juntas no chão io. Mergulhamos nossos dedos no cimento fresco e escrevemos a coisa mais simples e verdadeira que sabíamos — além de nossos nomes e da data, duas palavras: ESTIVEMOS AQUI.

Agradecimentos

Agradeço aos meus professores, que foram todos essenciais: Aimee Bender, Nathan Englander, Mary Gordon, Sam Lipsyte, Dani Shapiro, Mona Simpson e Mark Slouka. Estarei sempre em dívida com Alena Graedon, Nellie Hermann, Nathan Ihara e Maggie Pouncey. Sua amizade, perspicácia e disposição para ler meus escritos com tanta equência nos últimos dez anos moldaram a minha pessoa e o meu trabalho. Agradeço a Colin Harrison, por seus sábios conselhos para a vida e a literatura. Agradeço a Rivka Galchen, Tania James, Susanna Kohn e Karen Russell, por suas leituras e sugestões cruciais. Agradeço a Eric Simonoff, por sua confiança, paciência e visão. Agradeço a Laura Bonner e Cathryn Summerhayes, por me representarem tão bem no mundo. Ainda da WME, agradeço a Tracy Fisher, Alicia Gordon, Britton Schey e Kate Hutchison. Agradeço à minha grande editora, Kate Medina, da Random House. Sua atenção a essas páginas e suas ideias me impressionaram repetidamente. Agradeço a toda a equipe da Random House, especialmente Gina Centrello, Susan Kamil, London King, Lindsey Schwoeri e Anna Pitoniak. Agradeço a Suzanne Baboneau, Ian Chapman, Jessica Leekee e toda a equipe da Simon & Schuster UK por seu entusiasmo sem limites. Pela assistência crucial a inúmeras crianças em inúmeros momentos, agradeço a Jonathan Karp, Alice Mayhew, Carolyn Reidy, Dan Scolnic, Michael Maren, Hannah Tinti, Antonio Sersale e Carla Sersale. Por aprimorar minhas ideias sobre os livros de maneira consistente e divertida, agradeço a Brittany Banta, Jenny Blackman, Meena Hartenstein, Paul Lucas, Finn Smith, Pitchaya Sudbanthad e Devin McKnight. Pela amizade e pelo apoio moral ao longo dos anos, agradeço a Kate Ankofski, Shiloh Beckerley, Kelly Haas, Heather Sauceda Hannon, Sara Irwin, Samantha Martin, Carrie Loewenthal Massey e Heather Jue Northover. Pelo amor e entusiasmo, agradeço a Liz Chu, Kiel Walker, Cheryl Walker, Steve Walker e Chris Thompson. Agradeço principalmente a meus pais, Jim e Martha Thompson, por tornar tudo possível. Em particular, por encorajar meu interesse pela escrita — mesmo contra seu melhor juízo.

E,

finalmente,

agradeço

a

Casey

Walker,

meu

primeiro

leitor.

Sua

inteligência, sua generosidade e seu amor aperfeiçoaram não só estas páginas, mas os meus dias, de um modo profundo demais para ser nomeado. Obrigada, Casey.

Copyright © 2012 by Karen Thompson Walker Todos os direitos mundiais reservados a Karen Thompson Walker

A Editora Paralela é uma divisão da Editora Schwarcz S.A.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

TÍTULO ORIGINAL The Age of Miracles

CAPA Juliana Vidigal

ILUSTRAÇÃO DE CAPA Carlo Giovani

PREPARAÇÃO Renato Potenza Rodrigues

REVISÃO Larissa Lino Barbosa e Juliane Kaori

ISBN 978-85-8086-368-0

Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S.A. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 www.editoraparalela.com.br atendimentoaoleitor@editoraparalela.com.br