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o Rio Gran

Luiz Alberto Grijó Fábio Kuhn Cesar Augusto Barcellos Guazzelli Eduardo Santos Neumann

Organizadores

EDITORA

O dos autores Ia edi~ão:2004

Direitos reservados desta edicão:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Capa: Carla M. Luzzato Revisao: Maria da Glória Aln~eidados Santos Editoração eletronica: 1,uciane Delani

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C244 Capítulos de história do Rio Grande do Sul / organizado por Luiz Alberto Grijó, Fábio Kuhn, César Augusto Barcellos

Guazzelli e Eduardo Santos Neumann ; Ileleri Osório al.]. - Porto Alegre: Editora da UFKGS, 2004.

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Prefácio de I--IelgaIracema Landgraf Piccolo.

Inclui referências.

1. História. 2. Rio Grande do Sul - História. I. Crijó, I,uiz Alberto. 11. Kuhn, Fábio. 111.Guazzelli, César Augusto Barcellos. IV. Neumann, Eduardo Santos. V. Título.

CIP-Brasil. Dados Internacionais de (:atalogação na Publicaç5o. (Ana Lucia Wagner - CRB I O/ I 396)

~

Sumário

Apresentação

'i

Prefácio

I I

HeLp Iracema I,nndLgqf Piccolo

Uma fronteira tripartida: a formação do continente do Rio Grande - século XVIII

25

Eduardo Sanlos Neunzann

Gente da fronteira: sociedade e família no sul da América portuguesa - século XVIII

4'7

 

fibio fihn

Estai~cieirosque plantam, lavradores que criam e comerciantes que charqueiam: Rio Grande de São Pedro, 1'760-1825

'75

ITelen Os b?io

O

Rio Grande de São Pedro na primeira metade do século XIX:

Estados-nações e regiões províncias iio rio da Prata

91

Cesar Azipsto Bmellos Gziazzelli

Brasileiros na fronteira uruguaia: economia e política no século XIX

121

Susana Bleil de Souza e fibrício f'ereim Prado

Feiticeiros, venenos e batuques: religiosidade negi-a no espaço urbano (Porto Alegre - século XIX)

14'7

l'aulo 1-obertoStaudt Moreira

A construção de uma Porto Alegre imaginária - uma cidade entre a memória e a história

1'79

Sandra.Jatal~yPesavcnIo

O

movimento operário rio Rio Grande do Sul: militantes,

instituiçoes e lutas (das origerls a 1920)

209

Silvia 12eginn I;enoazI'plers~ne Benilo Ui~soSchmidl

Porto Alegre, início do século XX: imprensa, "iiiisia de civilização" e memores de rua

247

Anderson Zule-ru,skiVurgas

O Rio Grande do Sul e as elites gaúchas na Primeira República:

guerra civil e crise no bloco do poder

273

Claudia Wnsserman

Uma cena campeira na avenida Central: políticos rio-grandenses e a Revolução de 30

291

Lz~izAlõerto Cmjó

O

fascismo extra-europeu: o caso do integralismo no Rio

Grande do Sul

321

Carla Brandalise

O

Rio Grande do Sul de 1937 a 1964: historiografia

347

Xené Emnini Gertz

A região metropolitana e as "cidades-operárias" Xegina Weõer

369

Sobre os autores

395

Apresentação

Nada mais aborrecido do que aquelas apresentações enormes. Ao longo de várias páginas os organizadores iniciam lembrando de seu tempo de graduação, das venturas e desventuras de anos de trajetória profissional que findam por coroar com a elaboração da obra que orga- nizaram e colocam orgulhosamente à disposição do público. Agrade- cem à infindável número de parentes, amigos e mestres, arrolando es- crupulosamente seus títulos ao lado dos nomes. Não te preocupes, lei- tor, não precisas saltar esta seção, seremos breves. Este livro surgiu da idéia de um então recém-concursado profes- sor do Departamento de História da UFRGS, lá pelo ano de 2000. O Fábio conversou com o Neumann e um dos dois comentou com o Grijó. Fim de tarde no Campus do Vale. Uma mesa no bar do Antônio "de cima". Fábio, Neumann e Grijó sentaram-se para o cafezinho e para discutir a idéia. Chegou o Guazzelli com sua meia-taça preta, o cigarro ainda apagado e o isqueiro distribuídos entre as mãos. Resolvemos le- var adiante o projeto: um livro que pudesse reunir trabalhos já realiza- dos ou em andamento dos professores do Departamento. Nada siste- mático em termos de esgotamento das temgticas e da cronologia. Não uma "História do Rio Grande do Sul" no sentido tradicional. Pensamos em algo diferente. Queríamos reunir trabalhos que tivessem em co- muni enfocarem aspectos pontuais da história do nosso Estado e que propusessem temas, visões ou interpretações novas.Já que a maioria de nós tem pesquisado questões relativas à história do Rio Grande do Sul, por que não convocar os colegas, sugerir-lhes a idéia e, como resultado da primeira e das outras tantas reuniões que n6s quatro fizemos, pro- por-lhes o projeto de publicação? Pois bem, eis aqui o resultado. Três anos depois podemos apre- sentar aos profissionais, estudantes de história e iriteressados em geral este Cap~tulosde história do Rio Grande do Sul. Estão aqui reunidos quatorze

artigos sobre o assunto, escritos por profcssorcs do Departaniento de História da UFRGS. "O Paulo Moreira não é da UFRC:S9',podem obje- tar os que são do nieio. Hoje não niais, está lia Uiiisinos e no Arquivo Histórico, mas contamos com ele, como nosso colega, ria qualidade de professor substituto. Por outro lado, há aqiii ausências dignas de nota, as dos colegas aposentados, alguns dos qiiais coiitiiiuam a se dedicar com o mesmo afinco e excelência à história quanto o faziam antes do jubilamento em nossa instituição e a quem prestamos nossa homena- gem e reconhecimento de alunos que fomos e de colegas que nos tor- namos. Não se trata de nenhum esquecimento de nossa parte, mas de uma opção por incluir apenas os professores-pesquisadores que se eii- contravam no exercício efetivo de suas funções na UFRGS quando da idealização do livro. Os trabalhos aqui contemplados, pois, não visam esgotar os temas abordados e nem o conjunto dos textos dá conta de todos os aspectos da matéria em termos de conteúdos e cronologia. Há, porém, uma se- qüência cronológica formal na distribuição dos artigos, segundo a qual os temas e conteúdos são organizados a partir dos mais antigos até os mais recentes. Ao final, constituem um quadro que é o aprofundamento de especificidades e, ao mesmo tempo, uma visão geral dos principais e atuais questionameritos e produtos da pesquisa histórica na área. O encadeamento temático, feito de modo a seguir a seqiiência cronológi- ca, permite que o livro possa dar conta dos principais aspectos e proble- mas que envolvem a produção do conhecimeiito histórico em questão, apresentando um amplo panorama destes temas e respectivos proble- mas em termos de fontes e estratégias de abordagem. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar o que consideramos um diferen- cial importante nesta publicação, ou seja, as diferentes abordagens teó- rico-metodológicas empregadas pelos autores, bem como o uso inten- sivo de fontes primárias de vários tipos. Alguns objetos tradicionais na historiografia, como os de história política, recebem um tratamento diferente devido a novos instrumentais teórico-metodológicos e temas pouco explorados ganham luz a partir do uso de fontes até hoje não muito consultadas, como os dociimentos eclesiásticos, processosjudici- ais e a iconografia. Queremos, por fim, agradecer à Editora da Universidade na pes- soa de sua diretora, professora Jusamara Vieira Souza, qiie prontamen- te e com entusiasmo acolheu a proposta de publicar este livro e logo encamiiihou os originais para os trâmites necessários. Agradecemos igualmente a todos os colegas e amigos que coiitribiiíram para a sua

realização e, especialmente, à professora Ilelga Piccolo que aceitou o convite para escrever o prefácio que se segue. Receiiternente homena- geada com o título de professora emérita da UFRGS, gostaríamos que este trabalho seja incluído como parte do reco~lhecimentoe gratidão que todos nós temos para com a Helga que, com sua competéncia e dedicação, foi responsável direta ou indireta pela formação intelectual e profissional de grande parte dos atuais pesquisadores e professores de história de nosso Estado.

Fabio, Grijó, Gucezzelli e Neumann

Prefácio

Helga Iracema L,andgraf Piccolo

Quando recebi o honroso convite para prefaciar a obra coletiva que, no Departamento de História, estava sendo pensada por diversos professores, não tive como recusá-lo. Mas não imaginei que a tarefa com a qual eu me comprometera fosse tão difícil. A dificuldade não residiu na leitura dos quatorze artigos, elaborados com uma linguagem

acessível, mesmo para alguém de fora da Academia e não versado em História do Rio Grande do Sul. A dificuldade residiu em articular os textos que se distinguem entre si, por recortes temáticos e cronológi- cos e por abordagens teórico-metodológicas. Sem duvida, estamos diante de um livro de História (visto como

Gran-

de do Sul, mas sobreo Rio Grande, com análises e/ou narrativas densas, pontuais. Leia-se, de Peter Rurke, "A História dos acontecimentos e o renascimeiito da narrativa", no livro,clássico, por ele organizado A escrita da História. Novas per~pectivas,~para entender o que estou que- rendo dizer. Pode ser dito que foi elaborado um amplo painel (longe de ser abrangente e muito menos conclusivo) sobre o processo histórico do Rio Grande do Sul que, no conjunto da obra, ganha outra dimensão. Não se trata de uma síntese da História do Rio Grande do Sul, uma vez que muitos temas e/ou acontecimentos não foram contemplados. Não houve preocupação em estabelecer relaçóes lineares (como de causa e conseqüência, tão comuns na chamada liistoriografia tradicional) en- tre os diversos artigos que, croiiologicamerite, estão referidos a distiri- tos momentos do processo histórico. Se é visível, por parte dos autores, uma preocupação com as estruturas, percebe-se, no entanto, que algu- mas conjunturas sigiiificativas estão ausentes, decorrência das temáticas que foram objeto dos trabalhos. Velhos objetos ganharam novas abor- dagens que, ao lado de novos objetos, enriquecem a historiografia sul- rio-grandeiise. Minha leitura não encoiit.rou nerihum artigo filiado a uma escrita da história que partisse de rígidos modelos a priori elaborados; nenhu- rna teoria do coiihecimento com sua respectiva concepção de História foi contemplada ortodoxamerite. Percebe-se um certo distancianieiito

área de conhecimento, ou seja, como ciência). História não do Rio

1 Biirke, Peter: A esr~ztnda Hi~lómn.Novas Perspectivas. São Paiilo: Ed da UNESI',

1992.

de pressupostos teóricos marxistas que, lia Academia, foram até pouco tempo atrás dorniiiaiites, quase hegemônicos. Alguns artigos primam pela sua a1)soluta.ausência. Se a chamada Nova História Cultural não assumiu totalmcrite o espaço antes ocupado pelo marxismo, ela, no entanto, está muito bem representada em alguns artigos onde foram apropriados conceitos por ela formulados. Uma análise da bibliografia utilizada pelos autores permite dimeiisionar até que ponto o marxismo continua, teórica e principalmente metodologicamente, sendo apro- priado e em que medida a Nova História Cultural ganhou espaço. E ficou, para mim, a pergunta para a qual não encontrei resposta: qual a dimensão da influência da Escola dos "Annales" na produção do co- nhecimento histórico feita no Departamento de História da UFRGS? Um dado para mim significativo foi que o leque bibliográfico usa- do como suporte, aponta para um resgate de historiadores e cronistas, expoentes de uma historiografia tradicional, para não dizer positivista, que enfatizou o factual. Moysés Vellinho, Marisueto Bernardi, Pandiá Calógeras, Walter Spalding, Alfredo Varela, Dante de Laytano, Alcides Lima,João Maia, Guilliermino César,José Feliciano Feriiandes Pinhei- ro, Arthur Ferreira Filho, Henrique Oscar Wiederspaliii, entre outro^,^ tiveram textos seus apropriados, rios quais foram buscadas inúmeras e preciosas iiiformações que, assim, estão sendo recuperadas e valoriza- das. Q~iandotextos de ícones da chamada historiografia tradicional são resgatados e aproveitados, talvez mellior fosse chamá-los de clássicos. Questioná-los faz parte, hoje, do ofício do historiador que, em vez de uma história factualista (ou ernpirista) linear e cronologicamente ela- borada, dá às informações recolhidas um novo tratamento, no qual a interpretação ociipa o lugar da mera descrição. O que quero dizer é o que artigos da coletânea ora prefaciada apontam: uma historiografia mais moderna, mais inovadora, não precisa, necessariamente, rejeitar a historiografia tradicional. Iiiovação e tradi~ãopodem caminhar lado a lado lia prática do historiador, sem que, ao assim proceder, fique com- pronietido o valor intrínseco dc sua obra. Viajarites como Saint-Hilaire, Nicolau Dreys, Arsène Isabelle e brazilianistas cornoJosepli Lovc, de coiisulta obrigatória, respectivamcii- te para quem traballia sobre a primeira metade do século XIX e sobre a Primeira Repíiblica no Rio Grande do Siil, tamk~émintegram o elen- co de autores citados ria bibliografia. se foi o tempo ern que críticas eram kitas a obras coletivas devi- do à heterogeneidade no tratamento liistoriográfico, pela falta de uma

2 Ver

para niaiores detallics B'lrreto, Al~eil~ircl.B/bl~ogjrrJiaSul /Izogin~~d~~cs~-2 V. Rio de J'ii-ieiio:

Conselho Fediral dc (:riltiira, 1973.

unidade teórico-metodol6gica etc., o que, lembro-me muito bem, acoii- teceu nos inícios e no decorrer da década de 60 do século XX, quando começaram a ser publicados os diversos tomos da História Geral da civilização brasileira. Hoje, obras coletivas, com temáticas e abordagens as mais diversas, enriquecem a historiografia brasileira. Sem a pretensão de fazer um levantamento exaustivo e abrarigente, aponto, aqui, para algiins exemplos recentes (cronologicamente falan- do, editados nos últimos cinco anos), tendo consciência de que outros títulos significativos poderiam e deveriam ser citados. Entre as obras coletivas que tiveram os quinhentos anos do chamado "descobrimen- to" do Brasil como referência, destaco: as duas obras organizadas por Carlos Giiilherme Mota e editadas em 2000 pela Editora Senac, ou seja, Viagem incompleta. A experiência brasileira ( 1500-2000). Formação: "histó- rias" e Viagem incompleta: a experiência bra,sileira(1500-2000): a pnde tran- saçúo.%ary de1 Priore organizou Revisão do j)araiso. Os Drasilein)~e o Estado em 500 anos de Hittóri~,~também publicadado em 2000, pela Edi- tora Campus. E Maria Beatriz Nizza da Silva organizou Brasil colonização e escravidão,' piiblicada em 2000 pela Nova Fronteira. Em 2001 foi publicada, pela Argos, Cliapecó, Santa Catariiia, a obra coletiva organi- zada por Maria Bernadete Ramos, Élio Serpa e Heloisa Paulo e intitulada O beijo atra~ié,~do Atlrintico. O lugar do Brasil no panlusitanismo," Mais uma vez Maria Reatriz Nizza da Silva organizou a obra coletiva De Cabra1 a D. Pedro I, publicada também em 2001 pela IJniversidade Portucalerise Infante D. Heiirique, Lisboa.' Obras sobre teoria e metodologia e liistoriografia mostram corno os historiadores procuram enfrentar a crise dos paradigmas, através de discussões que eiivolvem a crise da história. Se cito Domínios da História. ensaios de teoria e nzetodolopa, organizada por Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfds" His~oriografiebrasileira em perspectiva, organizada por

3

Mota, Carlos <'.~iilherme.Vzcrgen~incompleta. A exflem'inciclD~nsileira(1500-2000).São Paulo: Edito- ra Senac São Paulo, 2000, 2 v.

4

Priori, Mary Del. Ke~i~6odo j)a,-aísa Os 01-nszkirose oI:ststndo enz 500 anos de História. Rio de Janeiro:

Editora Campiis, 2000.

5

Silva, Maria Beatri~Nizza da. Ljrasil coloniznçcioe escmvid6o. Rio deJaileiro: Nova Fronteira, 2000.

6 Ramos, Mal-iaBeriladete. Sei-pa, Élio e Paulo, I-leloisa. (Org). O beijo através do Atliintico. O lugar do Brasil no paiiliisitaiiismo. Clialit:có: Argos, 2001. 7 Silva, Maria Beatriz Ni~zada. De C:abral(zD.Y~(l1-oI. Lisboa: Universidade Portiicalense Infarite D. Meiiriqiie, 2001.

8 Cardoso, Cii-oFlainarioil. e V4INF'AS, Konaldo. (Org) Dontítzios da História. Eilsaios de 'Ièoria e Metodologia. Rio de Jaiieiro: Ediioi-a Campi~s,1997.

Marcos Cezar Freitas,%ão posso deixar de eiifatizar a importância da obra organizada por César Augusto Guazelli, Sílvia Regina Ferraz Petersen, Benito Bisso Schmidt e Regina Célia Lima Xavier, a primeira obra coletiva que partiu recentemente do Departamento de História, especificamente do Setor de Teoria e Metodologia, com o título de

Questões de teoria e metodolopa da História.l0 Além de professores pesqui-

sadores do Departamento de História, foram "convocados"professores de fora da IJFRGS para dar conta de uma complexa problemática. Somaiido-se a essas e muitas outras obras coletivasjá publicadas por este Brasil afora, surge a obra que ora prefacio, cujo diferencial reside no fato de apresentar ao grande público exclusivamente artigos sobre temas relacionados com o processo histórico sul-rio-grandense, elaborados por autores consagrados, todos pertencentes à Academia no Rio Grande do Sul. Divulga-se, assim, o que na Universidade vem sendo recentemente produzido, seja em dissertações de mestrado e te- ses de doutorado, seja através de projetos de pesquisa desenvolvidos e aprovados, ou não, institucionalmente. Repito, não é uma História Geral do Rio Grande do Sul. Trata-se de uma obra sobre história regional, sem o ranço de um regionalismo tacanho, mal resolvido e, portanto, mal interpretado, tão presente, por vezes, em textos de uma historiografia dita tradicional. Fica evidente que a História do Rio Gran- de do Sul não pode ser explicada e, muito menos, compreeiidida por si só, pelos acontecimentos que no seu território ocorreram. Ela não se fecha em si e sobre si. O regional aparece articulado não só ao nacio- nal, mas também, como não poderia deixar de ser, articulado com

o platiiio. O Prata ganha expressão em muitos artigos, mostrando que

o que é hoje, em termos territoriais, o Rio Grande do Sul, teve no seu processo histórico diversos espaços fronteiriços construídos, havendo confrontos e também interações com um "outro": o espanhol (ou o hispano-platino) e o indígena, atores de urn processo de uma relativa longa duração. Portanto, cabe aos historiadores resgatar estes espaços fronteiriços que não foram estáticos: assim como avançaram, também recuaram. O resgate destes espaços fronteiriços, isto é, o caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul, vem sendo feito cada vez mais sistematicamente na historiografia. Neste seritido, não posso deixar de citar outra obra coletiva, organizada por Luiz Roberto Pecoits 'Targa: "Breve Inventário de Temas do Sul", publicada em 1998.

9 Freitas, Marcos Cezar. t-l'istom'ograjia(,r-nsiLci?-aem/)m-sl,eclivn.((:Ira). São Paulo: (2011 texto, Univer- sidade São Francisco, 1998.

10 Petersen, Silvia (Org). Qu~stõesd~ teonn P metodolopa da História. Porto Alegre: UFKGS, 2000.

Se, no "fazer História9',as fontes são imprescindíveis, algumas con-

siderações sobre elas devem ser feitas. Neste sentido, os artigos provam

o quanto houve de inovação. Além de fontes escritas, civis, eclesiásticas

e militares, oficiais ou privadas, falaram indivíduos, falou a imprensa. Enfim, discursos diversos foram usados. Entrevistas e/ou depoimentos também comparecem, não se discutindo, aqui, se a técnica usada foi a da História Oral. Documentos notariais, inventários, processos-crime, apontam para fontes produzidas pelo poderjudiciário que estão sendo privilegiadas. Se foram feitas - como não poderia deixar de ser - revisões biblio- gráficas pertinentes às temáticas desenvolvidas, muitas das revisões mostraram ser fontes para a obtenção de informações. Nguiis temas, como também algumas abordagens, se tornaram inteligíveis ao serem enfatizados dados empíricos, sem que isto significasse a volta a uma

história factual, meramente informativa e/ou

dos foram feitas novas perguntas; em relação a eles, novas questões fo- ram formuladas. Enfim, os fatos têm um espaço diferenciado daquele que tinham na chamada historiografia tradicional. Comprovam os artigos o milito que já foi feito. E, ao apontarem para novas temáticas, apontam para o muito que ainda está por ser feito. As possibilidades são infinitas. Eduardo Neumann, tem as MissõesJesuíticas, especialmente os 7 Povos estabelecidos no território que é hoje o Rio Grande do Sul, seu campo de pesquisa, resgatando a importâiicia histórica da fronteira indígena (uma das três fronteiras de que o texto fala) que foi desarti- culada com o Tratado de Madrid. Não prescindindo de uma biblio- grafia pertinente, faz uma cuidadosa revisão historiográfica sobre como

a sociedade indígena foi vista. O resultado é uma instigante re-leitura da organização social missioneira, destacando os efeitos sobre ela da alfabetização. O significado que a escrita adquiriu entre os guarani, não se restringiu à existência de uma elite indígena letrada, mas como, através dela, os índios verbalizaram sua forma de resistência. O valor histórico dos documentos escritos por indígenas missioneiros, "impli- ca em romper com a visão tradicional e mesmo colonizada de froiitei- ra que habitualmerite trabalhamos, pois além dos povoadores ibéri- cos, os índios letrados das reduções também foram capazes de escre- ver a sua versão a respeito dos acontecimentos e conflitos em que estiveram envolvidos". No texto produzido por Fábio Kuhn, a situação de fronteira da então capitania de São Pedro também é abordada ao deter-se na "gente de Viamão" - e é este o seii objeto - para analisar a "sc)ciedadee famí- lia no extremo sul da Aniérica Portuguesa". O artigo enquadra-se tan-

narrativa. A fatos resgata-

to numa História Demográfica como numa História Social. Objctivou não só quantificar a população de Viamão usando, para isso, diversas fontes, algumas inéditas, como o "rol dos confessados", de 1751, mas ver sua condição social, chamando a atenção para o expressivo percentual de escravos. Tomando como referência dois clãs fainilia- res, isto é, a gente de Jerônimo de Ornellas e de Francisco Pinto Ban- deira, o autor analisa as estratégias familiares de reprodução e trans- missão patrimonial, destacando a importância de alianças matrimoni- ais quando os dotes serviam para "atrair bons genros". Não se trata da recuperação de trajetórias individuais procurando enaltecer a ação de alguns grandes homens, mas sim "inseri-los no contexto mais am- plo de relações sociais, economicas e políticas da segunda metade do século XVIII, período fundamental para a corifiguração dos territóri- os lusitanos na América do Sul, e particularmente para a região que viria a se tornar o Rio Grande do Sul". Constitui-se o trabalho da professora Helen Osório no único arti- go que aborda significativos aspectos econômicos do Kio Grande do Sul luso. Mesmo sendo um trabalho sobre a história econômica, ele também deve ser inserido dentro de parâmetros de uma história soci- al. Preocupada com a coiistituição da sociedade colonial, a autora o faz considerando o território da então capitania de São Pedro como um espaço fronteiriço. O texto é calcado na sua tese de doutorado, cujo título aponta para a constituição de uma sociedade onde diver- sos grupos sociais se estruturaram. Destacando que a maior parte dos produtores também eram lavradores, a pesquisa dá outra dimensão socioeconôrriica ao Rio Grande do Sul do século XVIII, ao questionar a visão tão presente na produção do coiihecimerito histórico, ceiitra- lizada nos grandes estancieiros. Um amplo leque de situações confi- gura as relações de trabalho, sobressaindo a escravid50. Mas a socie- dade não se configurou apenas em torno de proprietários de terra. Ao serem analisados os circuitos mercantis em que o Rio Grande do Sul estava inserido, destacou-se o dorníiiio de grandes negociantes do Rio deJaneiro, aos quais os negociantes locais estavam subordinados, o que não impediu que o grupo mercantil local se constituísse lia elite economica da Capitania de São Pedro, possuindo patrimônios superiores aos dos grandes estancieiros. A distiiição ocupacional eii- tre estancieiros e negociantes teria importantes desdobramentos no processo histórico sul-riograndense, refletindo-se em posicioiiamentos quando da Guerra dos Farrapos. César Augusto Barcellos Guazzelli tem como objeto temas de- senvolvidos em sua tese de doutorarnento. Mais urna vez o espaço f1-011- teiriço tem sua historicidade resgatada conio território de caudillios,

tanto sul-rio-graiideriscscoriiu orientais que ali agiam com milita aritoiio- mia, "incompatível com uma subordinação passiva aos governos cen- trais". No artigo, as articulações entre eles estabelecidas desde o movi- mento artiguista até a derrota de Oribe são centrais. Evidente é que alianças (inclusive chanceladas com a assinatura de tratados) foram conjuntiirais nos 40 anos que medeiam entre 1811 e 1851. Elas não foram lineares, modificando-se a sua composição conforme as circuns- tâncias. 0s senhores guerreiros sul-riograiidenses, ao lutarem junto a militares reinóis e depois imperiais, contribuindo tanto para a derrota de Artigas como a de Oribe, comprovaram que havia sólidos interesses

a defender. A ocupação luso-brasileira do território oriental propiciou

à elite proprietária sul-rio-grandense uma significativa apropriação de terras, confrontando-se, assim, com interesses da oligarquia cisplatiiia.

Soluções diplomáticas decididas pelo alto, como foi o caso da Converi- ção Preliminar de Paz de agosto de 1828,não propiciaram uma existên- cia incoiiteste para o então criado Estado Oriental do Uruguay. Lutas entre caudilhos platinos pelo poder; mobilizações de senhores guerrei- ros sul-rio-graiidenses que não eram neutros nessas lutas, explicam, em boa parte, a Guerra Graiide e a intervenqão brasileira de 1851. Susana Bleil de Souza e Fabrício Pereira Prado são os autores de outro artigo em que a fronteira, no caso a uruguaia, é cenário e, desta vez, para a ação econômica e política de sul-rio-grandenses durante o século XIX. Trata-se de um estudo sobre a presença de proprietários sul-rio-grandenses em terras situadas ao norte do rio Negro. A "brasileirização" desta região foi um processo com avanços e recuos conjunturalmente explicados e, vista como uma ameaça à soberania nacional, levou as autoridades uruguaias a pensarem em estratégias que resultassem na "orieiitalização" da fronteira. Contra a base pastoril que caracterizava as propriedades brasileiras, pensou-se iiuni povoamento com o deseiivolvimento agrícola, objetivaiido desviiicular a fronteira norte da economia sul-rio-grandense. De certa forma, seria a retomada de idéias já formuladas por Fklix Azara na sua Memória mral do rio da Prata, redigida em 1801. Confrontando discursos pronunciados no Par- lamento do Estado Oriental com outros pronunciados ria Assembléia Legislativa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, vê-se como

a presença brasileira na fi-onteira uruguaia era distintamente analisada

no seu significado eronômiso e/ou político. Com muita propriedade, os autores afirmam que "entretarito os chefes políticos regionais manti- nham-se constantemente alertas à importância da prese1i';a brasileira no país. Afiilal, as sólidas redes de relações políticas, econ6micas c até mesmo familiares entre orientais da froiiteira e os estancieiros

riogi-andeiises perrnancsiam". A R<:voluçãoFedcralista dc 1893 a 1895

o comprovou.

Dos cinco artigos que tiveram espaços fi-oiiteiriçoscomo locus pri- vilegiados, passa-se para dois artigos ern que um espaço urbano - Porto Alegre - é o cenário. Paulo Koberto Staudt Moreira há muito vem fazendo dos negros - fossem eles escravos ou fossem eies livres - os atores privilegiados de suas pesquisas, nas quais sempre aproveitou obras de autores consagra- dos como especialistas (no que ele também se transformou) em ques- tões relacionadas com a escravidão e a abolição (aí incluindo os cami- nhos existentes e/ou usados para a obtenção da alforria). Mais uma vez, como em outros textos por ele produzidos, vale-se de uma enorme gama de fontes depositadas principalmente em dois Arquivos: o Públi- co e o Histórico, para elaborar um artigo sobre um negro liberto, con- siderado feiticeiro, acusado de fornecer a uma escrava, substâncias que, ministradas ao seu senhor, o levariam à morte. Seduzir ou induzir es- cravas domésticas, fazendo-as ministrar doses homeopáticas de veneno aos seus senhores era uma prática que se constituía em forma de vin- gança. Não é de estranhar que a comunidade negra inspirasse medo aos brancos. A "onda negra" e o "medo branco" eram as duas faces de uma situação criada pela opressão inerente ao cativeiro. O artigo não se desenvolve de forma linear, pois diversos entrecruzamentos são fei- tos e que informam sobre outros negros (escravos ou não), sobre auto- ridades constituídas e, especialmente, sobre práticas como a religiosi- dade, próprias da comunidade étnica a que pertenciam os "homens de cor". O réu, que foi inocentado, zombou, no processo, da ignorância dos brancos sobre a cultura que ele, como negro, dominava. Enfim, o saber do curandeiro foi confroiitado com o saber do médico que ainda não dispunha de espaços de legitimaçao. SandraJ. Pesavento, ao redigir mais um texto que tem como obje- to Porto Alegre (no caso em tela, a Porto Alegre de aiitanho), mostra como a cidade a seduz em termos de pesquisa. O artigo se insere na História Cultural, com a qual a autora se identifica, sendo ela, no De- partamento de História da Uiiiversidade Federal do Rio Grande do Sul, a sua mais renomada representante. Lembro, de passagem?que a His- tória Cultural ganha, cada vez mais, espaço nas pesquisas acadêmicas e, embora em outros artigos, conceitos desta História tenham sido apro- priados pelos seus autores, o artigo da professora é o único em stricto sensu de História Cultural. Como se lê nesse artigo, um dos campos de âmbito da História Cultural que mais vem sendo desenvolvido é o que diz respeito h cidade. Assim, o artigo é o de uma História Cultural ITr- bana "que busca estudar e eiiteiider a cidade através das representa- ções que sobre ela se coiistruíram ao longo do tempo". Neste sentido, nada poderia ser mais pertinente do que a escollia feita como fonte de

referência dos dois literatos que sobre Porto Alegre escreveram: o memorialista Antonio Álvares Pereira Coruja, com seu clássico Antiguallzas e o autodenominado historiador Augusto Porto Alegre, com A fundaçúo de Porto Alegre. Os distintos caminhos seguidos pelos dois autores são minuciosamente analisados pela professora que se vale de um conceito central para a História Cultural que é o imaginário "processo mental de recriação do mundo através de textos e imagens". Arrisco-me a dizer que no artigo em que é trabalhada uma Porto Ale- gre "iiiveiitada" por dois autores, também foi feito um cruzamento en- tre História e Literatura, no que a professora também é especialista. O movimento operário gaúcho não poderia estar ausente de uma coletânea sobre o processo histórico sul-rio-grandense. E ninguém melhor para redigir um artigo pertinente do que a professora Sílvia Regina Ferraz Petersen que tem neste empreendimento, como co- autor, o jovem pesquisador Benito Bisso Schmidt, que também está se firmando como especialista na temática. Embora seja dito no artigo que não há preocupações teórico-metodológicas, é perceptível uma fundamentação marxista que vem caracterizando a produção dos dois professores. A ampla bibliografia indicada, atualizada no que diz res- peito a questões relacionadas direta ou indiretamente ao movimento operário,é suficiente para justificar a inclusão do artigo na coletâ- nea. O objetivo do artigo, claramente apresentado, procura articular "as diferentes conjunturas ou temáticas particulares da história do mo- vimento operário gaúcho", oferecendo ao leitor uma espécie de "fio condutor" da trajetória deste movimento. Mobilização operária, a heterogeneidade da militâiicia, a imprensa operária, as correntes ide- ológicas, aspectos da cultura operária são tratados e, embora sinteti- camente, dão uma visão do movimento operário suficientemente abrangente. O artigo prova que a chamada crise de paradigmas, atu- almente tão invocada, não coiiseguiu liquidar com uma boa produ- ção historiográfica ancorada em pressupostos teórico-metodológicos marxistas. A dialética, como a teoria do coiihecimento com sua con- cepção de história, continua de pé. Falando metaforicamente, embo- ra com sinais trocados, não houve uma "queda da Bastillia", riem o "Muro" caiu.

assinado por Anderson Zalewski Vargas, é a imprensa

que se destaca como fonte. É ela que fala e esta fala o autor analisa. Há uma evidente preocupação em teorizar sobre o papel da imprensa, que não é vista apenas como transmissora de iniormações. Ojornal, a partir

do qual o artigo foi elaborado, é O Independente, que circulou em Porto Alegre rias duas primeiras dccadas do século XX e no qual atuaram indivíduos para os quais o Estado era o "único instrumento de traiisfor-

No artigo

maca0 da realidade". A êiifase iio "social" e na "nioralização" do povo cujo comportamento era considerado, de certa forma, alitiético, apro- xima o joriial, ideologicameiite, de uma visão comteana do que deveria ser a sociedade. O artigo, que pode ser vinculado a uma História Social urbana, tem, como corte temático, os "menores de rua" não na visão que hoje o problema encerra. Aponta, pois, para um possível estudo comparado da questão em distintas conjunturas. É visível a incoerência do jornal que se dizia popular. Embora boa parte de seus redatores e colaboradores fosse de origem social humilde, seu posicioiiamento em relação aos meninos de rua (incluindo as terapias sugeridas para os garotos) revela um peiisamen to elitista. Sem serem necessariamen te delinqüentes e/ou abaridonados, os meninos de rua preocupavam pela transformação que poderiam sofrer por viverem no espaço público. Superestimando fatos que registrava, o joriial, agindo corno "dono da verdade", também inventava, no seu afã de denunciar a ameaça qiie esses meninos representavam para aqueles (leia-se membros da elite) que eram responsáveis pelo futuro do país. Tendo como marco croiiológico a chamada Primeira República rio Rio Grande do Sul, isto é, o período que se estende de 1889 a 1930,

Claudia Wassermaii é autora

foi muito privilegiado na Academia. Hoje, outros recortes cronológicos

estão muito mais presentes. Trata-se de um artigo que se enquadra numa

perspectiva narrativa onde os

ganham espaço. É um texto de História Política com algumas articula- ções com dados economicos. A Bibliografia Básica discriniinada é irite- grada por obras na sua quase totalidade de História Política e que-já são obras clássicas que não podem faltar numa revisão sobre como a Pri- meira República foi vista pela Ilistoriografia. Isto deve ser tomado em consideração qiiaiido da leitura do texto que eiifntiza a luta iiitra-elites rias duas guerras civis que assolaram o Rio Grande do Sul; a articulação entre elas no filial da década de vinte e o papel do Partido Republicaiio Riograiideiise, com seu discurso positivista quando a conjniitura crítica

assim o exigia. O artigo do professor Luiz Alberto Grijó constitui-se de um texto de uma História Política clássica que eiifatiza a ação e o papel político desempenhado por determinados indivíduos, no caso os integrantes da chamada "geraçào 1907" ((J qiie foi o objeto de sua dissertação de mestrado). Destaco o conjunto cle fontes escritas usadas, entre as quais, além de obras clássicas como O regionalismo gaúclzo, de Joseph Love,"

do único artigo sobre este período que

acoiitecimentos dispostos liiiearmente

11 I,ove,Joseph. O r~g.lounbvt~ogo~crritho.São Paulo: Perspectiva, 19%.

avultam textos produzidos por participantes dos acontecimentos que se desenrolavam em torno da Revolução de 30. A profissão de fé regionalista que transparece da leitura daqueles autores sociais de pro- cedência sul-rio-graiideiise gaiilia, na sua fala, uma outra dimensão, com um significado nacional. Daí o resgate da historicidade do tão co- nhecido refriio "O Rio Grande, de pé, pelo Brasil". Gaiilia destaque a liderança de Getúlio Vargas que, de certa forma, correu paralela à autoiiomização dos integrantes da geração de 190'7,frente a Borges de Mcdeiros qiie, embora fora do poder desde 1928e de ter-se posicioiiado contra a Revolução armada, ainda era forte em distritos interioranos onde sempre haviam mandado "coronéis" sobre os qiiais o velho chimango parecia não ter perdido a influência. A centralidade política passava por Getúlio Vargas, apesar de todas as suas vacilações (que coii- fundiram o goveriio federal) diante de unia possível revolixção que se- ria "pequenai' sem ele e sem Borges de Medeiros, mas seria "grande" com os dois, na avaliação deJoão Neves da Fontoura. E a Revolução foi grande, trazendo o que Carlos E. Cortés chamou de "gauchização da política iiacioiial". Integra o bloco com artigos de História Política o texto de autoria da professora Carla Brandalise sobre o integralismo no Rio Grande do Sul, baseado na sua dissertação de mestrado. Visto como um movinien- to fascista extra-europeu que, ao contrário de outras experiêiicias 110 coiitiiiente americano (leia-se a bibliografia pertinente citada no arti- go) eiicoiitrou possibilidades no Brasil para a sua expansão. Sendo o conceito de fascisiiio polissêniico, isto implicou em questionamentos sobre que países coirhecerarri movirricritos fascistas. um certo cori- senso em torno da Ação Integralista Brasileira ter sido o movimento de carater fascista mais significativo porque, na América, o Brasil reunia circiiiistâiicias sócio-históricas suficieiites para a sua emergência. Se o movimento aqui existiu, ele, no eritaiito, não chegou ao poder. Portaii- to, coiiliecidos são discursos, mas não a prática, para sc saber se ria administração os integralistas sêriarn diferentes de outros que eles criti- cavam. No %o Graiide do Sul, o movimento encontrou receptividade, especialnieiite nas áreas de co1onizac;ãoalemã e italiana, exatameiite as áreas, em terrnos étnicos, identificadas com países europeus, onde o Pdscismo chegou a ser iiistitiicionalizacio.Mas sua organização e expan- são não foram pacíficas: teve avaiiqos e recuos, enfrentou difici~ldades e despertou reações. Fica para o observador ilão especialista no sssuri- to, corno eu) iirria, entre tantas perg-iiiitas possíveis: Sendo o t:,iscisino aiitiiiidividualista, será que o associativismo, tão arraigado iiris árcas coloniais do Rio Graiide do Siil, iiifluiu para a peiietração da AIB?

Embora em todos os artigos tenham sido feitas referências historiográficas, o único trabalho específico sobre historiografia com um marco cronológico definido, é o artigo do professor René Ernaini Gertz, que deve ser parabenizado pela coragem de enfrentar o desafio. É evidente que todos os leitores do artigo vão notar a falta de determi- nados textos, o que é natural e não invalida a importância do levanta- mento feito. Razão tem o professor em assinalar quão difícil é eiicoii- trar textos sobre a História mais recente do Rio Grande do Sul. Eu acres- cento outras dificuldades que se constituem ern extrapolações que a leitura do artigo me levou a fazer. Parto do princípio que é difícil fazer um levantamento mais ou menos completo de tudo o que se escreveu sobre o Rio Grande do Sul, incluindo o produzido fora do Estado, mesmo que a ênfase se restrinja à produção acadêmica. Além do que, se a historiografia é mais do que um mero arrolamento bibliográfico, mas implica numa análise crítica da produção do conhecimento histó- rico, outra dificuldade se antepõe de natureza epistemológica: asseve- rar o que é História e o que não é. E há, por vezes, um outro obstáculo a enfrentar: o acesso a textos produzidos. Sabendo que o professor Gertz é um especialista não só em imigração alemã, mas no estudo do Estado Novo, que é um dos parâmetros do artigo, exemplifico com uma tese de doutorado, cujo autor é Sérgio Bairon Blanco Santana. O título já é

um desafio: História Palinódica (sipificações culturais de uma regzonalidade

Euto-Brasileira).'* A tese, que é interdisciplinar, relacionando a História com a psicanálise, o autor impôs dificuldades de acesso, proibindo a sua reprodução. Ao público interessado é, assim, vedado o conheci- mento do conteúdo da pesquisa feita. O artigo da professora Regina Webei-, que trata da Região Metro- politana de Porto Alegre (RMPA) é o texto que mais avança para os fins do século XX em termos cronológicos, encerrando a obra coletiva. Além de fontes escritas, aí incluindo uma bibliografia pertinente e jornais, foram feitas entrevistas com habitantes de Cacl-ioeirinha,que iestemu- nharam suas experiências e viv?iicias. (Lastimo que sobre alguns auto- res citados no texto ilão haja as necessárias referências bibliográficas). O artigo busca relativizar tanto a idéia de cidades-dorniitórios, quanto à de cidades iiidustrializadas, elaborando a idéia de cidades operárias para núcleos urbanos da RMPA. Algumas questóes muito atuais são dis- cutidas no texto e entre elas destaco: o desconipasso entre local de moradia e local de trabalho; a crise na agricultura e o êxodo rural, fazendo surgir vilas irregulares sem infra-estrutura; a falta de moradia

12 Santatla, Skrgio

Bairori Blailco. I-lis~órin/)nlinódicn (sigtzz/icni6esc~uùu.,-ni.~(/e z~~nnregioncrlidntle

teuto-brc~sibiru).'Tese de doiitorado, USP, 1991.

gerando um aumento do número de subhabita~õese a iilvasão de coii- juntos habitacioiiais; a precariedade do transporte coletivo. A criação de Distritos Iildustriais levou a autora a fazer algumas perguntas: Por que foram escolliidos Caclioeirinha e Gravataí para sediá-los?Até que ponto geraram progresso e postos de trabalho coricretizando previsões

implícitas quando é assirialado o au-

men to do desemprego; a deficiente infra-estrutura para uma popula- ção que crescia vertiginosamente em face da expectativa de emprego e, mais especificamente, as críticas dos ecologistas quanto à poluição, a violência, a ocupação de áreas verdes com a conseqüente degradação do meio ambiente. Entendo que o artigo aponta para a necessidade de serem repensadas políticas públicas. Concluindo, eu diria que os artigos, ora apresentados a um píibli- co maior do que o acadêmico, indicam outras possibilidades de pesqui- sa quanto a temáticas e abordagens. Certamente de outros olhares so- bre os textos resultarão leituras diferentes da que eu fiz. E espero que os artigos elaborados pelos diversos professores sejam estímulos para novas reflexões sobre o processo histórico sul-rio-grandense. A impor- tância do empreendimento será medida por sua repercussão. Está de

parabéns o Departamento de História da UFRGS por ter-se engajado na produção de uma obra coletiva. Outras virão? Espero que sim.

otimistas feitas? As respostas estão

A fronteira tripartida:a formação do continente do Rio Grande -

I11

Eduardo Sandos Neumann

A formação histórica do atual Estado do Rio Grande do Sul está

intrinsecamente relacionada à questão fronteiriça existente entre os domínios das duas coroas Ibéricas na Arrierica meridional. Desde o século XVIII esta região foi cenário de constantes disputas territoriais entre diferentes agentes sociais. Atritos que não estiveram restritos,

apenas as lutas travadas entre luso-brasileirose hispano-americanos pelo domínio do Continente do Rio Grande.

A historiografia brasileira e particularmente a sul-rio-grandense,

no século XX quase sempre procurou legitimar a expansão luso-brasi-

leira em terras meridionais. Apresentando argumentos sustentados na interpretação da diplomacia lusitana a respeito do Tratado de Tordesilhas (1494) que, devido a dubiedade dos limites meridionais

estipulado pela linha imaginária,justificava a expansão portuguesa em direcão 2s terras próximas ao estuário do rio da Prata; ou defendiam que foi de Portugal, através de seus súditos, a primazia em ocupar de fato o Continente.

O debate a respeito do direito sobre estas terras reapareceu a pai--

tir da ft~ndação,em 1680, da Colônia do Santíssimo Sacramento. Essa praça lusitana, iiistalada na margem esquerda do rio da Prata, foi palco de muitas disputas entre as moilaryuias Ibéricas. As autoridades envi-

adas para garantir os interesses lusitanos na região afirmavam que a

"[ Coroa de Portugal tem direito irrefragável ao domíiiio dessas ter-

de Silvestre Ferreira

da Sylva.' Nas primeiras páginas da sua Iielação do sítio da Nova Colhia do Sacramento, este cronista apresentou corno justificativa o argumento de que Portugal, desde 1501, tem coiiservarlo, sem interrupção, sua pi-eseiiça na região. Os autores sul-riograndenses, no século passado, em geral trata- vam de advogar a tese da lusitariidade do continente de São Pedro,

ras, pela mais antiga posse [

I

]",conforme a opinião

1 Sylva, Silvestre Fe1.reii.a da. Ilt?lncfiodo Sitio dn Nova Coldnin do Snn.n~ne~zt«.Porto Alegre: Aicano 17,

1993 (Fac-similar da obra de Silvestre Ferreira da Sylva, l,isboa, 1748)

para assim vincular a colonização dessas terras às prerrogativas da Amé- rica portuguesa. Quem rnelhor expressou esta concepcão riacionalista quanto a ocupação do Rio Grande do Sul foi Moysés Velliiiho na sua obra Fronteim. Considerada, inclusive, como a obra-síntese desta ver- tente historiográfica (matriz lusitana) .* Os autores que se posicionaram de maneira favorável à presença espanhola, apoiando o argumento de que as primeiras ações colonizadoras nestas terras ocorrerani a serviço de Espanha, eram os defensores da chamada matriz platina. Argumen- tavam que a ocupação e colonização da América meridional esteve con- dicionada pela presença hispano-americana na região adjacente ao rio da Prata.3 Uma das poucas exceçõesna historiografia brasileira quanto à ação de Portugal na América é a obra de Moniz Bandeira, que reconhece, no título o caráter "dilatador" da colonização portuguesa no extremo Mesmo diante do reconhecimento desta ação expansionista. ain- da permanecia a questão de uma disputa bipartida, expressa na polari- zação de interesses eritre Espanha e Portugal, situação esta que condicionava todo o debate intelectual que se apresentava previamen- te determinado por conta desta bipolarização entre as metrópoles ibé- ricas. Entretanto, ocorre que esta interpretação, mesmo avançando em relação aos demais esquemas explicatGos, desconsiderava a existência de uma outra fronteira, no caso a indígena. Refiro-me ao empenho dos

-

cl

I

- guaranis das missões em garantir a sua primazia sobre estas terras, situ- ação cristalizada diante da celebração do Tratado de Madri (ou de Li- mites), em 1750, pelas coroas Ibéricas e de reflexos imediatos entre os índios missioneiros. As terras situadas ao oriente do rio Uruguai ("Sierras de1 Tape") foram alvo da catequese jesuítica 110 início do século XVII. Em decor- rência dos ataques dos mamelucos de1 brazil (bandeirantes), a primeira tentativa de catequese nessas terras fora iiiviabilizada depois de apro- ximadamente uma década (16261637).Ao filial desse período osjesuítas foram obrigados a orientar os guaranis ao trarislado para a outra rnar- gem do rio Uruguai. Com a investida portuguesa em direção ao rio da Prata no final do século XVII, concretizada na fundação da Colônia de Sacramento (1680), iniciava uma nova fase de ocupação dessas terras orientais pelos guaranis missioneiros, determinando a reinstalação de

2

Vellinho, Moyses. fiorzt~ira.Porto Alegre: Editora Globo, 1973

3

Gutfreiild,

Ieda. A ro?z~t?up7od~ z~~rzazd~nlzclnde:n

hzsloizqyrafin ~ul-rzopanden~~(lp 1924 n 1975

Sâo Paulo: USP, 1989.

4

Bandeira, Moniz. O ex/)c~nrionismo6rasilei10:o pn/!d do Brclsil n,n bncin do I'mta. Iiio de Janeiro:

reduçoes na margem oriental do rio Uruguai." reocupação dessa área (Tape) elevou a trinta o núrnero de reduções estabelecidos na Provín- cia Jesuítica do Paraguai, e desde a época colonial essas são alvo de inúmeras polêmicas devido principalmente a sua organização interna e inserção na sociedade rio-platense. Aos índios dessas reduções ficou estipulada a tarefa de ocupar e patrulhar toda a extensão da área conhecida no período colonial como banda Oriental, ficando a cargo dessas reduções a serem instaladas des- de a sua "fundação o Ônus integral de defesa da extensa região circuns- crita entre o Uruguai, o Prata e o litoral Atlântico" conforme assinalou Aurélio Port~.~A movimentação de tropas portuguesas e111 direção ao Prata gerou um clima de atrito permanente com a população oriental

pois estavam os guaranis inseridos na área de fronteira sujeita às dispu-

tas entre as coroas Ibéricas. Igualmente as terras orientais abrigavam a Vaqueria de1 mar, um manancial de gado bovino seguidamente saquea- do pelos moradores da cidade de Buenos Aires (acioneros) e lusitanos da cidadela de Colônia, acentuando as divergências entre as três partes envolvidas. O roubo de gado dessas estâncias era uma constante, obri- gando os índios ao patrulhamento periódico. As reduções orientais, por sua condição de fração mais exposta à expansão lusitana, colocavam os índios em contato frequente com os

portugueses, situação que contribuiu para a elaboração de uma identi- dade fortemente contrastada com a dos lusitanos. Concebo que diante da presença dos agentes portugueses no Prata forjou-se junto aos guaranis orientais uma identidade regional atribuída, 110 caso a identi- dade Tape. Esta ideiitidade étnico-cultural manifestou-se a partir do confronto com a "gente lusitana9' o que possibilitou ordenar grupos que passaram a ser vistos e se reconheceram dentro dessa dinâmica, identificando-se com os acoiitecimentos protagonizados no Tape.' A atitude manifesta pelos guaranis decorria da própria situação colonial, determinando uma nova relação da sociedade com a região onde estavam instalados, deflagrando o processo de territorialização, quando uma coletividade organizada formula uma identidade própria

5 Ekas rediiçóes começaram a ser f~indadasem 1682 (São Bor:ja), posteriormeilte em 1687 foram transladados da outra margem do rio Uruguai para a Baiida Oriental 3 rediiçóes: São Miguel, Sáo Nicolau e Sáo Luis Gon~aga.Em 1691 a partir da divisão de Santa Maria Ia Mayor tiliida-se

Loureiiço. Em 1697 dividiu-se São Miguel, devido 3 superpopillação, f~iiida-seSão João.

São

Ern 1707 será instalado o último dos Sete Povos: Saiito Arigelo.

6 Porto, Aiirélio. Hislólicc das n/liss&v 01-ientai.sdo IJrupai. Porto Alegre: Livraria Selbacli, 1954, p.

27

7 Neumann, Eduarcio. "Froi~teirae identidade: coi~frontosIiiso-guarani lia Banda Orieiital -1680/

instituindo mecanismos de tomada de decisões r de representação, reestruturando suas formas c~ltiirais.~A territorialidade sempre foi a base da identidade dos povos indígenas. Este foi o caso registrado entre as reduções orientais diante da decisão das monarquias ibéricas, em 1750, de permutarem sete dessas missões pela Colônia de Sacramento. Apesar de toda oposiçáo e resis- tência local ao TI-atado,ambas as coroas empenharam-se na sua execu- ção, pois configurava-seem uma tentativa de definir uma fronteira en- tre os domínios ibéricos no Prata. Como mecanismo de protesto diante das decisões metropolitanas, sete reduções, através dos índios princi- pais de cada cabildo, redigiram cartas ao governador de Buenos Aires expondo toda a contrariedade dos guaranis a esta permuta.

A elite missioneira

Nas reduções guaranis do Paraguai colonial, os jesuítas sempre procuraram ceritrar suas atenções para formar uma elite como fica corn- provado no esforço desses padres em cooptar os caciques e seus des- cendentes diretos, definindo os mediadores, os intermediários entre a população reduzida e os padres. O primeiro a perceber esta estratégia foi Antonio Riiiz de Montoya, no início do século XVII.

Os índios orientados pelosjesuítas estavam submetidos a um forte dirigismo, e os padres selecioiiavam nas reduções os mais aptos, apro- veitando-os para o "bem comum". Através do ensiiio ministrado nas escolas de "ler-escrever de música e dança" os jesuítas acompanhavam

o desempenho dos guaranis iniciados nas artes y ofcios. Desde a infdn- cia selecioiiavam e orieii tavam os mais capazes para o exercício de algti- mas atividades especializadas,como as de tocar instrunientos, ler, escre- ver e mesmo copiar documentos. As habilidades letradas e musicais geralmente apresentavam-se associadas nas missões e os íiidios selecio- nados para estas atividades circulavam por espaços dentro da redução que não erarn franqueados a tocios, como o colégio e a biblioteca (con- seqiientemente aos livros). A aquisição e iiso frequeiite da escrita (alfabktica)por uma socieda- de até então ágrafa (giraraiii) é uma situação ímpar iio mundo colonial hispano-americano. A rápida difusão e aceitação da tecnologia do escri-

to entre os índios das rnissões despertava novas formas de sociabilidade e

mesmo de relações corri o poder. A redução gramatical da língua guararii

8 Oliieii-a. Joao Pacl-ieco. 'Ilrria etiiologia dos "íiidios inisroi-ados"? Sitilaç5o coloiiial, teri-itoi-ializaçãoe fl~ixosciiltiii-ais". 111: ibfnnn 11.4, 11.1, p, 47-77, 1998.

e siia diciotiarizac$io poteiicializararn a transição de utn regime de re- gistro para outro nas reduções, e iia maioria dos casos análogos conhe- cidos esta passagem def'lagrou uma diferenciação nos níveis sociocultiirais pristinos. A alfabetização promovida nas reduções facultou a alguns índios e particularmente aqueles que integravam os cabildos, espécie de conse- lho de cada redução, a redação de atas dessas sessões, entretanto o iní- cio do registro das reuiii6es é considerada tardia nas missões." Cada cabildo contava corn um corregedor, principal autoridade civil nativa, secundado por um tenente corregedor, que atuavam coii- juntamente com os demais oficiais e o secretário. Estas magistraturas eram definidas pela própria condição colonial, pois o léxico da língua guarani pré-contato não contemplava uma denominação para estas funções, visto inexistirem estas categorias nas sociedades indígenas. Assim foram gerados neologismos a partir da língua guarani para desig- nar estes ofícios no cabildo.1° Todos que participavam dessas reuniões

(cabildantes), e havia um secretá-

rio responsável pelas atas e documentos. Confornie a observação do jesuíta José Cardiel, que atuava nas

eram conhecidos como cabildoipara

I

rriissões em meados do século XVIII, compareciam a "[ escuela 10s hijos de 10s caciques, de 10s cabildantes, de 10s músicos, de 10s mayordomos, de 10s oficiales mecánicos; todos 10s cuales componian Ia nobleza de1 pueblo en su modo de concebir y también vieiien otros si

lo pide sus padres [ estes erarri os índios princifiais de uma redu-

ção, personagens fundamentais no processo de mediação entre jesuí- tas e a população missioiieira. Portanto, havia por parte dos padres um tratamento diferencial aos indios de re~pectoy benemeritos, ou seja, aos corregedorcs, caciques, capitães, alcaides maiores e os componentes dos cabildos das redu- ções (cabildantes), todos os quais podemos assim identificar como parte de uma elite indígena das missões. Certamente esta elite niio se

I","

9 Segiiildo R4oririigio. a pi-ova de seu argumento é o fato cle qiie "alg~insdocunientos relatam sucessos milito antigos, o qiie quer dizer qtie 110 momento em qiie este acoiiteciam iião foram comililicados pelos cabildos 5s aiitoiidades competentes como era de esperai--se, poi-qiie aiiida iião estavam oficialmelite coiistitiiitios". In: Moriiiigio, Marcos. "Sobre I»s cabildos iiidígeilas de Ia misioiies". 111: Rm,i.s/cl de Ln Acnrllemin de Entre Iiios, I, Parariá, 1946, p. 29-37.

10

Conforme Montoya no sei1 Tesoro de la 1,eilgua Guaraiii: "[

Itampoco

tenia ilombres con

que clesigiiarlos, pero Ilegaroii 2 sei. ~locabiiloscorrientes en Ias doctriilas, porque ya desde

e1

pi-iilcipio a1 establecer 10s cargos hiit)iei-on de darles 10s hlisioiieros ilomhre acomodado a1 gt'iiio de Ia lengiia, 6 10s niisn-ios índios se lo aplicaroii a cada iiiio". In: Hei-nai-idez, I'ablo.

Otgnniznción social de 10,s (Io(.lriu(~sGun)ar~irs,Rarceloiia: C;iista\lo

Ciili, 1913, vol I, p. 110, nota 2.

1I

(hrdiel, .José. "Breve i-elación tlc Ias ii~isioiiesde1 Paraguay". 1913, vol. 11, 11.557.

Iii: Iieiilandez, I'ablo.

O/).rit,

apresentava de maneira lioinogênea nem rnesmo todos íiidios que a integravam eram letrados. A consulta à documentação indígena, in- dica que existiram caciques "agráfos", ou melhor, incapazes de assi- nar o próprio nome. Os íiidios principais de cada redução, quando habilitados na escrita, costumavam indicar a sua patente, atitude que pressupõe uma valorização dessa hierarquia pelos índios. As distintas atribuições exercidas aparecem especificadas na documentação. O próprio corregedor, principal magistratura nas reduções costumavam iniciar as atas lavrando o seguinte termo: Che correpdor haé Cabildo (Eu o corregedor e o cabildo). Essa elite letrada estava em contato direto com as autoridades da administração colonial, envolvida em vários assuntos desde a organiza- ção interna de cada redução até a participação em ações bélicas e nas negociações de paz. Um indício dessa atuação pode ser visualizado na celebração dos tratados de paz. Os caciques guaranis envolvidos nas negociações em torno da Colôiiia de Sacramento no ano de 1680 parti- ciparam do Conselho de Guerra, subscrevendo alguns documentos. As assinaturas desses caciques revelavam suas origens: nomes compostos a partir de uma designação latina ou cristã, seguido do sobrenome, ge- ralmente guarani.l2 Esses índios possuíam as condições de fixar os acontecimentos atra- vés da escrita, expressando um pensamento que não é mais apenas in- dígena ou europeu, mas fruto da ocidentalização.'" As adaptações e reapropriações esboçadas pelos índios diante do fascínio do ocidente (escrita, livros e imagens) determinaram a reestruturação do imaginá- rio, deflagrando a mestiçagem ~ultural.'~ Eram os integrantes dessa elite que vocalizavam as ordens e repas- savam as decisões aos demais índios, partilhando dessa forma com os não leitores as informações que chegavam por escrito às missões guarani. O papel desempenliado por essa elite nativa, pode ser mensurado nas funções administrativas existentes em cada redução e os mecanismos de cooptação acionados para o êxito da ação missioiiária. Afinal, cada redução contava apenas com um ou dois jesuítas para atender uma

12 Doc 160 "Consejo de Guerra eeii e1 qiie 10s-jefes Indios opinaii por la translación de1 ejercito a1 rio SanJuan y porque se apresuren las opeiaciones, Saii Gabl-iel, 23 deji~liode 1680".Ao filial do ctociimeiito os capitáes índios assinaram pelos demais: D. Francisco Ureta; D. Christobal Capiy; D. Ignacio Ainanclau; D. Jiiaii Aiigiia; D.Migiie1 Arabe e D. Geronimo Giiarubay, i11 Cci??~/~alind~lBrasil. Antec~d~nlp~Colomnles. Tomo I (15.15-1749)Bueiios Aires: Gmo. Ihaft, 1931,

p.218.

13 Çriizinski, Serge. Lii colo~z~aiziinde lo iniq@nn7>o. Sorieilailes ind(qen,ns y oc~iiLen~~nlimciór~rTz el n/II;xico~rf1n6ol.Siglos X'ITI-X'I/IIl. México: Forido de Ciiltilra Ecoliomia, 1991.

14 C;rnziiiski, Serge. 1,n penset; nzetisse. Paris: Fayard, 1999.

população que variava entre dois a três mil índios; sem a colaboração desses índios principais, seria impossível a organização e o controle das atividades em geral. Esses guaranis atuavam como mediadores diretos entre os jesuítas e as demandas da sociedade missioiieira. As funções dessa elite não estavam circunscritas apenas às questões capitulares, muito pelo contrário, abrangiam do gerenciamento material às mani- festações religiosas e culturais de cada redução. Alguns Guarani chegaram a apresentar excelente domínio das "prá- ticas letradas"," como foi o caso do cacique da redução de Santa Maria La Mayor, Nicolas Yapuguai. Este índio ilustrado, escritor e músico, é um dos exemplos mais célebres da elite pretendida e formada nas re- duções pelosjesuítas. Em 1727,Yapuguai recriou em língua Guarani o

livro Swmones y ejemplos en lenpa Guarani.'"

Foi nesse coiitexto de domínio das práticas letradas que em julho

de 1753 os guaraiiis externaram seu ponto de vista, por escrito, na sua língua, procurando anular ou impedir a execução do Tratado de Ma- dri.17Argumentavam os cabildantes quanto aos seus direitos históricos sobre essas terras, direitos reconhecidos pelo próprio Rei de Espanha, em diversas Reais Cédulas, enfatizando exatamente as funções de guer- ra prestadas contra os portugueses. Como as reivindicações dos índios principais das reduções não foram atendidas, esses decidiram pela insurreição armada. Em 1754 eclodia uma rebelião colonial conhecida na historiografia como guer- ra guaranítica (1754/ 1756).Essa era uma guerra em defesa do interes- se indígena em detrimento das prerrogativas metropolitaiias, sendo um dos temas mais recorrentes sobre as missões guaranis, e historicamente

a maior crise da Província Jesuítica do Paraguai; desencade-

significou

ando o processo de desestabilização do espaço missioiieiro a partir de meados do século XVIII. Entretanto, as manifestações escritas dos índios, em defesa de seus interesses, não estiveram restritas unicameiite a estas sete cartas. Ou- tros documentos foram redigidos, procurando resguardar a fronteira indígena e evitar o avanço dos exércitos ibéricos. Nas reduções era essa

15 As "praticas letradas" remetem as a~iálisesde João Haiiseii, forjadas a partir do ponto de vista da retcíiica. Haiiseii, J. "Leitiiras coloniais", In: I,eitzu-as, Izislól-ia e história cln leitura. Abreu, Márcia (Org).Carnpiiias, SP: Mercado de Letras; Associação de Leitura do Brasil, S.P: Fapesp, 1999; "A civilização pela palavra". In: 509 anos deEdz~cnceono Brasil. Iapes, Eliaiie; M. T, Filho, Liiciano. M. F, Veiga, Cyntliia, G (Org). Belo I-Iorizoilte: Aiitêiltica, 2000.

16 Yapugiiay, Nicolas. S~~~~~o~zny qe~tlf~lorelt kngua Guarn?ti.Buenos Aires: Editora Giiarania, 1953 (Edicióii fac similar de l'li'i),

17 Arquivo l-listórico Nacioiial (Madri) Lepjo 120j, Atado I.

elite quem reuiiia as melliores condições para expressar suas posi(i0es quanto aos acontecimentos em curso. Assim, foram rios cabildos das missões, pela prática e familiaridade no manuseio da palavra escrita que surgiram as maiores oportunidades de comuriicação escrita, em guaraiii.

A reação escrita guarani

A produção histórica sobre as missões Guarani durante muito tem-

po esteve condicionada por uma concepção de que esses índios aldeados não produziram, durante a sua vida em redução registros escritos, dei- xando de expressar, portanto, o seu ponto de vista. O relato lavrado pelosjesuítas seria, assim, o único testemunho dessa experiência. Atualmente os historiadores têm localizado nos arquivos e biblio- tecas um número cada vez maior de correspoiidências, relatos e mes- mo livros redigidos pelos próprios índios. Um caso de destaque é o registrado nas missões Guarani do Paraguai colonial diante da

sobreposição de inovações, pois além da alfabetização e do acesso a cultura escrita esses índios conviveram com o advento da imprensa.'"

A grande profusão de documentos redigidos pelos guaranis ocor-

reu em meados do século XVIII, e estão relacionados com o início dos trabalhos de demarcação dos novos limites na América meridional. A celebração do Ti-atado de Madri desencadeou a "reação escrita" nos guaranis. Como mecanismo de protesto redigiram sete cartas na sua Iíiigua,l9estes documentos foram lavrados pelos integrantes dos cabildos das reduções e manifestavam ao governador de Buenos Ares, José de Aiidoriaegui, toda a contrariedade dos índios á execução da troca das missões orientais pela Colônia de Sacramento. Esses documeiitos indígenas foram publicados, em meados do sé- culo XX, ria Espanl~a.'~A divulgação dessas cartas despertou inúmeras polêmicas em toriio da real motivação que os levou a escreverem ao governador. Para alguns autores europeus pairava a suspeita de que os giiaranis foram meros marionetes dosjesuítas, expressando nesses textos apenas a opiiiião da Companhia de Jesus e não a dos próprios

18 Pla,Josefina.E1 Ocrnoro ki~/)nno-G7~nt-mi.Asuiicióri: Editorial de1 Centeiiário, 1975.

19 As cartas por serem erri níimero de sete são facilnieiite associadas aos chamados "Sete Povos das Missões", rnas tlessas recluções orieiitais o cabildo de São Borja não expediu neiihunia missi~a,seiido que iima dessas ca-tas foi eiiviatfa da reduçâo de Coiicepción, e esta assiilada apeiias pelo corregedor Nicolas Ne~igiiirti.

20 .Mateos, Fianci5co. S.J." Carla de Iiidios Ci-istiaiiosde1 Paragilay", l\/l~~sronnL~nIfi~j)clr~!tn,hldciiid. ,4110 VI. N.16, 1949, p. 547-572.

índios, posiçàio da qual discordamo^.'^ Aceitar este argumento como correto, implicaria em desconsiderar o fato de que rnesrno depois de se dirigirem ao govei.iiador de Buenos Ares, os guaranis orientais mani- festariam novamente, por escrito, sua decisão de ri50 acatar as ordens recebidas. As fontes históricas indicam que a prática da escrita foi uma ati- vidade comum entre os íiidios letrados das 'edu~ões,como demons- tram vários exemplos: o diário, em língua Guarani, de um índio ano- nimo (provavclmeiite um secretário de cabildo), por ocasião do se- gundo cerco à Colonia de Sacramento, entre os anos de 1'704e 1'705.'2

A prática da cultura letrada despertou lia elite missioneira a preocu-

pação em toriio da redação de memórias e narrativas, pratica acentu-

ada nos momentos de crise, quando experimentavam situações ex-

cepcionais. Como aconteceu

em 1'754 com os íiidios principais da re-

dução de Yapeju. Nesste ano iniciou-se a redação de um livro media- no, escrito em pergaminho, narrando os fatos recentes em que a re- dução esteve envolvida, destacando os conflitos com o exército espa- nliol nas margens do arroio Daymal.'" partir de exemplos como estes é possível afirinar que as fontes de origem indígena, apesar de rarefeitas em relação as b'foi~tesoficiais", não estão restritas uriicamente 2s sete cartas guaranis. Pois mesmo diaiitc de uma alfkbetizaç%olimitada, como a pra-

ticada nas missões, e dif~liididade forma restrita a uma elite, irradiava efeitos sobre toda a sociedade. A questão central, portanto, reside ria

possibilidade de avaliar os efeitos da alfabetizaçáo sobre a orgaiiização social, independente do grau de domínio da população sobre esta modalidade de registro." Inclusive porque a circillação dos textos esta-

va condicionada pela oralidade diante da decisão adotada pelo Vaticano

no Concílio de TI-eiito, encerrado em 1563, de valorizar a Truditio (a tratismissão da verdade canôiiica seria feita pela palavra oral divulgada no púlpito por pregadores inspirados pelo Espirito Santo).

Certamente os íiidios letrados que possuíam a siia disposição anais, cartas e dociimeiitos em geral, podiam alimentar uma idéia mais

21

Becker, Felix. "L.,a gilcor.ra giiaraiiitica desde uiia iiueva pei,spectiva: histhria, ficcióil e historiografia", 12obtivz Ami.ricn,zisln, 32 (Barceloiia, 1983),pp.7-37.

22

Melia, Bartonie~i."'IIii g~iaranireportero de giierra" iii Acciht,, Revista paraguaya cle reflexión y ciial<igo,Níiinero 308, Oi~tiibiode 2000, p,20-23.

23

"Ti-ad~iccióiide iiii libro mediano de dirz Sox;ts eii pergamiíio esci,itas eii idioma G~iaraniqiie

se hallo entre 10s tiespojo de los l'i'iidios de I'apeyii [

I

i,! I,'oleccio',i F7rtLc::cioEs,hclLtet: ((&')ias do

i1t-rhiuo (IP I~rtlicrs,Sf-nilhn).Gol)i~)-)/ode D. L/o.rf;,Jonqui??~d~ I'iclrzcc, Tomo 111 ( 1'749-175G), 19%.

24

Goody, Jack. '4 lbyirn (LI e.sc.,i/nP n o,;qarzizcr(.ciodcr .socif:dntb~.1,isboa: Edições 70, 198'7.

clara, orientada a partir de unia distâiicia liistórica, elaboraiido rcla- ções entre os diferentes momentos.2Essesapresentavam as melhores condições de fixar o passado através da escrita, atribuindo desta for- ma um sentido histórico, na acepção ocidental, para os acontecirneii- tos. Como assinalou o historiador Roger Chartier "a escrita [ dota de competências culturais populações que antes estavam excluídas

do muiido do texto [ alçando dessa forma os guaraiiis a coiidi-

ção de homens letrados capazes de manusear os códigos retóricos do colonizador. Os documentos produzidos nessa época iiidicam que a popula- ção das reduções mobilizou-se em torno dos cuidados com os proce- dimentos letrados, possivelmente por haver conferido crédito a es-

de

manifestar por escrito suas opiniões legou aos historiadores documen- tos que permitem avaliar o elevado grau de iiisatisfação e a mobilização desses íiidios, explicitaiido sobretudo a importância atribuída a cul-

tura escrita nesta sociedade. O fascínio despertado pelas tecnologias do ocidente (escrita, livros, imagens) alterou as formas de organiza- ção social dos g~iaranis.~"

A importância da escrita, independente da modalidade gráfica desenvolvida, reside no fato de que cria um novo meio de comunica- ção entre os homens, preservando através do tempo informações, em coii trapon to à transitoriedade da oralidade. A escrita permite salva- guardar informações básicas através do registro gráfico, atuando como um arquivo da memória; desse modo, tanto influencia as lembranças quanto produz os esquecimentos, apresentalido uma nova possibili- dade de recompor, de narrar o acontecido. Segurido Micliel de Certeau, escrever é uma prática mítica "moderna", pois reorganizan- do aos poucos os domínios por oiide se estendia a ambição ocidental

de fazer sua história e, assim, fazer história. Nesse sentido, a " I

gem não é mais aquilo que se narra, mas a atividade miiltiforme e murmurante de produtos do texto e de produzir a sociedade como texto". Assim, a escrita é vista como uma forma de progresso, possibi- litando um afastamento, um apartar-se do muiido mágico das vozes e da tradicão. Dessa maiieira se esboça lima fronteira (e urna frente) da

I

I","'

ses trâmites junto a administração ~olonial.~'A decisão dessa elite

]ori-

25 Gruzinski, Serge. LAL coloniznrión de lo imn@~~rir-io.p.235.

26 Chartiei; Kogei: "As práticas da escrita", 111: £fi.rto/indn Vida /)127)cldn3: da Rennsc~n~.nno Séc.ulo

dn~Luzes (01-g.lioger Chartier). Sáo Paiilo: (:ia

das Ixtras, 1991.

27 Oiig, M'altei

28 C;oody, Jack. A rionl~rlltnçtiodo/jel~co~~r~nto~.~l-r~(lgemLisboa: Editorial Preseriça, 1988. (1- c-dic;iío inglesa, 1977)

01-nlb(in(LeP ~L~zLI-nesnltn: n iec.17~ologiznç60da /jnln-orn. Siio Paulo: Papii-us,1998.

cultura ocideiital."' Com isso, uma nova forma de configurar as dife- reiiças culturais se impõe, pois altera as possibilidades de registro dos acontecirncntos. Certamente o grau de confiança atribuída aos registros escritos foi variável de sociedade para sociedade, e inclusive, mesmo em meios admiiiistrativos. O estudo de Clancliy, para a Ingla- terra do século XII fornece provas de quanto a oralidade podia se prolongar mesmo na presença da escrita.g0Assim as culturas letradas e orais ri50 apenas coexistiam, como interagiam entre si. Mas foi o domínio das práticas letradas que permitiu aos guaranis ilustrados, em momentos de crise, recorrerem ao expediente da comu- nicação escrita, enviando cartas ou afixando bilhetes com mensagens hostis a presença das comissões dernarcadoras. Nessas epístolas argu- mentavam a respeito do seu direito histórico sobre as terras e sua ancestralidade em relação a este território. A materialidade desses es- critos é que poderia variar, o conteúdo não, como indicam as inscrições localizadas em papel, cruzes de madeira e mesmo escritos em pedaços de couro. Uma fonte privilegiada para a acompanhar as ações desta elite, são os diários dos oficiais militares das comissões ibéricas, como os de Ja-

cinto Cuiiha e José Custodio de e Faria pelo lado

Francisco Graell e José Joaquim Viana, pelo lado de Espanlia. Nas aiio- rações de canipo além da informação militar típica, como a movimen- tação de tropas e descrição do relevo, foram reproduzidas algumas car- tas e bilhetes escritos pelos índios. Os exércitos ern marcha na região encontraram no percurso várias mensagens em guarani que depois de traduzidas pelos "línguas" foram transcritas iiesses diários. A importância atribuída pelos índios à informação escrita esta di- retamente relacionada a presença dessas comissões demarcadoras na América meridional, como é possível constatar através da documeiita- ção ora apresentada. Este conjunto de documentos sugere algumas iiidagações a respeito da natureza desscs escritos. Por acaso, estavam os índios, nessa época preocupados em esclarecer aos deniais eiivolvidos no conflito os motivos de sua resistência? Estariam através dessas cartas justificando sua atitude? Esses escritos explicitam claramente a posição dos guaraiiis quanto a permuta de suas reduções, e avisavam sobre qual seria a reação diarite da decisão metropolitana. Os comunicados em toni de pregação cristã, indicam o domínio dos códigos retóricos e avi- sam aos espanhóis e sobretudo aos portugueses que 1150 prcteiidiam

de Portugal e o de

20 Cei-tcaii, Micliel. A zrzi)~r~çtodo tol~din~~o.Petrópolis: Vores, 1999, [I. 224.

30 Cl,tiicliy, 1979,p. 230, apud Ong, MCilter. OlcrlztlndeeCZL/~IL)(Ipscntn.Sáo Parilo: Papyriis, 1998,p.

112.

ceder as exigências irlipostas pelas Coroas Ibéricas. As reiteradas niani- festações iiidígeiias remetiam aos direitos adquiridos e confirmados recentemente pelo rei de Espaiiha ria Xeul Cidula de 1743.As epistolas, em geral, apreseiitavam como modelo retórico a coiicepção de Cicero,

a Izistón'a magzstra vilae, ou seja, a escrita correspondia a recolher exem- plos com o objetivo de instruir as novas gerações, recordando os acon- tecimentos anteriores como base para a argumentação a ser desenvol- vida. O passado serve de exemplos e de orieritação para o í'ut~iro. Os documentos produzidos pelos índios sublevados durante os anos de conflito permitem repensar as rela<;õesestabelecidas por esses com

o passado e com território oriental e sinalizam uma discrissão pouco

referida pela historiografia sul-rio-grandense, ou seja, a existência da defesa por escrito do ponto de vista indígena, neste caso dos guaranis missioneiros. Estes textos permitem resgatar do anonimato os agentes sociais nativos que estiveram relegados ao esquecimento pela historiografia tradicional. Através desses documeiitos torna-se possível

repensar a coiistrução histórica do atual estado sul rio-grandense, e incluir no debate a questão de uma fronteira indígena que existiu no tempo e no espaço, e que a partir desses textos escritos pelos guaranis

passa a ser recuperada pela historiografia sensível as demandas nativas. Por exemplo, em 1754, o exército luso-brasileiro, acampado no passo doJaciii, enfrentava sérias dificuldades, obrigando Gomes Freire, comissário português, a negociar com os giiaranis a retirada de suas tropas. Nessa ocasião alguns índios missioneiros estabeleceram uma trégua com Freire, principal autoridade designado por Portugal para acompanhar os trabalhos de demarcação na América do Sul.

A correspondência de Freire, enviada ao seu superior, Sebastião

de Me10 (futuro Marquês do Pombal) descreve com detalhes o eiicoii- tro que manteve com uni índio ilustrado. Ao inforniar sobre o acerto

de uma trégua com os guaranis, expressou sua opiiiião a respeito da conduta do seli iiiterlocutor, o Corregedor da reduçáo de São Luís,

Francisco Guacú.

afirmou Freire que

este homem 1ié mais racional, e fino do que cabe lia creação de

<:om certa admiração e espanto

I [

semelhante gente [ comentário bastante elogioso. O recoiilieci-

rrieiito às qualidades de um g~iaianimissioneiro 6 surpreendente diaii- te da imagem negativa dos cronistas lirsitaiios a rcspeito dos índios re- duzidos, e reflete a atuação dessa elite no decorrer da rebelião.

I,"

31 "Demarcaçáo do sul do Brasil", (:artas escritas da Fortaleza do Kio Partlo i.c,metidas por l-iuin Alfères da Guarniçcbo de Saiita (htai-ii-iapara o Rio de.J;liieiro. 111: R(í7~i.>(ndo iirqz~i7~11'1íóliro hlin~iro.Belo I-Ioi-izonte, 1928, p. 302.

Assim, em novembro de 1754, bi celebrada uma convc1i(;ão de paz coni o 013jetivo de suspensiio das armas. Esta convenção definiu que seria o i-ioJacuí o limite para a circulação dos giiaraiiis e lusitarios. Os termos do armistício foram redigidos eni "língua castellaila e tape" e ao final do encontro cinco caciques guaranis e os demais oficiais ibéricos preseiites à negociação subscreveram o doc~imento.~' Os integrantes dessa elite em determinadas ocasiões procuraram negociar acordos com os demarcadores ibéricos visando preservar seus interesses. Na convenção de 1754, por exemplo, decidiram que a par- te norte das terras, tomando como referência o eixo do Jacuí, seriam proibidas aos índios das missoes, e que ao sul não se permitiria a presença de portugueses, estando todos s~;jeitosa castigos por qual- quer infração. Estavam os guaranis definindo uma linha de fronteira que procurava salvaguardar a territorialidade das missões, mesmo que para tanto fosse necessário efetuar acordos que reconhecessem a pre- sença dos portugueses nas imediações das reduções orientais. A con- venção suspenderi temporariamente às hostilidades dos índios para com os lusitanos. Em 1'755,o governador de Moiitevideo,José Joaquim de Viaria, foi nomeado por Aiidoiiaegui seu imediato para atuar lia segunda campa- nha contra os índios rebeldes. Ao conduzir a tropa hispânica na dire- ção das iiiissões, os soldados corriaridados por Viana, localizarani no percurso duas cartas afixadas em palanques pelos guaranis. A cópia traduzida de uma dessas cartas esta reproduzida no cabeçalho do diá- rio dessa expedição. O título é o seguinte: "Copia de carta traducida de la lengua Guarani, que e1 exercito nuestro halló en un palo en la imediacióii de1 pueblo de Sta Tecla", datada de 30 de junho de 1'755.

Esta

mos 30 pueblos, y ya savemos lo qrie hemos de hacer [ ", o documen- to iiidica a suposta tomada de rima posição coletiva por parte de todas

reduções e refere a existência de muitas dúvidas em relação a tregua

estabelecida com

desse plenipotenciário portrigu6s os distúrbios e dificuldade que esta- vam eiivolvidos.

niissiva é apócrifa, e esclarece qiic 110 ano de 1754 " L nos junta-

]

]

Gomes Freire."' Os guai-anis atribuíam à presença

32 "(:opi;~tia Coilvençâo celebratfa eiitrt: Gomes Fi-eirc de Andi-ade e os caciques para a stispen-

são das ai-iuas" em 14 de Nov 1754. Oar-npo de1 Iiio.Jaciii, iii IZPlnçCo AOtm~indnI<e/)uOlicnque os ?eligio.sosdas P,.oui,?cinsde /'ou./ ug01 P ~írs,,t~~lri/1~e.\ln/)ekr.mEo.Lisboa, 1737,p 80.

33 "Dlaiio de Ia Segtii-ida Ex~)edicióiitie Misioiies 511 m,irclia, acahicimentos y reiiditioii c-{c10s

Piical-,105. Ilc-clio por e1 coronel D11 Josc*l~liJo'lqiiiin de \'i,in'i,

hlonte\itlco. In lipulrtn I+~tó~lcn.hlIontivideo, Tonio VII, 11. 11, 1914, p. 204/205.

goberi-ia(ioi cle Ici I'lata

tle

Nos seus escritos recordavam os índios todo o ernpeiilio da po- pulação das reduções em garantir o domínio dessa área ao rei de Espaiiha. Estariam por acaso nessa época produzindo os índios uma versão prbpria sobre estes acontecimentos? Uma leitura atenta do con- junto desses documentos tem permitido repensar a interpretação tra- dicional quanto a formação histórica do Rio Grande do Sul e a ocupa- ção das terras meridionais, que não estiveram restritamente unicamen- te às desavenças entre colonizadores ibéricos.

A guerra guaranitica:algumas interpretações e personagens

O Tratado de Limites, de 1'750,repercutiu de forma muito acentri- ada na América meridional, e a batalha de Caiboate. registrada em fe- vereiro de 1'756,colocava um limite à resistência dos guaranis, mas não encerrava as manifestações de contrariedade a entrega das reduções orientais. As várias polêmicas suscitadas nesta negociação geraram uma bi- bliografia bastante variada e ampla, sendo igualmente muito tendencio- sa, pois esta tentativa de definir as fronteiras meridionais detonou a suspeita sobre o envolvimento dos jesuítas ou de alguns deles como responsáveis no incitamento dos índios das reduções à rebelião. Esta polêmica sempre ocupou um lugar central no debate referente a "guerra guaranítica". Entretanto, o principal óbice a execução da demarcação dos no- vos limites foi a negativa por parte dos índios em abandonar as suas reduções. Essa resistência rapidamente transformou-se em uma rebe- lião que, apesar de lião ter sido estimulada abertamente pelosjesuítas missioneiros, também é certo que estes nada, ou pouco fizeram para impedi-la. Alguns padres, inclusive, são acusados de apoiar e participar dessa rebelião, atitude que não reflete a posição conjunta adotada por parte da Companhia de Jesus nessa polêmica. Assim, de uma marieira sumária e muito esquemática, poderíamos dividir os estudos existentes em dois grandes grupos: um representado pelos historiadores da Companhia de Jesus, que tentam de alguma maneira isentar osjesuítas da eclosão do conflito, onde se destacam os trabalhos de Hernaridcz, Kratz e Matteos; r uni outro grupo de pesqui- sadores, os autores laicos, interessados nos ternas missioneiros, mas que procuram repensar as raízes do conflito a partir da pesquisa docu- mental. O texto de Hernandez procura esclarecer as circunstâncias da ex- piilsão dos jesuítas dos domínios esparilióis, e para tanto refere-se as implicações negativas para a Companhia deJesiis qiiaiito a repercussão

provocada pela rebelião indígena." Suas interpr<.taçòes são apologéticas, procurando defender os seus colegas diatite da persegui- ção a qiie estiveram submetidos.

O trabalho de Kratz, publicado originalmente em alrrnão, e tra-

duzido para o espanhol em 1954, inscreve-se dentro do amplo pro- jeto de reconstrução do contexto histórico de expulsão dos jesuí- tas.'"endo que a causa imediata apontada para a catástrofe em que se precipitou a Ordem Iiiaciaiia é o Tratado de Limites (1750) e todas as suas conseqiiências. A pesquisa, amparada preferencialmente

em documentação inédita, foi realizada na sua maioria rio acervo do Arquivo de Simancas (Espanha).E o resultado dessa pesquisa é ape- nas uma defesa, bem documentada, das ações dosjesuítas para faci- litar as negociações.

O esforço mais surpreendente em esclarecer os anos cruciais das

reduções é o conjunto de monografias de Francisco Matteos, publicadas no periódico espanhol MiirsionaliuHi.r~anica.'~stítulos dos vários arti- gos expressam com propriedade os diversos períodos da rebelião indí- gena. A pesquisa esta apoiada principalmente em documentos do Ar- quivo Geral de Indias (Sevilha),mas também localiza e divulga docu- mentos indígenas inbditos, existentes no Arquivo Historico Nacional (Madrid). Os trabalhos de Kratz e Mattteos são o resultado de uma revisão histórica geral, empreendida por historiadoresjesuítas, visando apurar os motivos presentes a expulsão e na posterior extinção da Com- panhia de Jesus no século XWII. As pesquisas recentes dos autores regionais (nãojesuítas) têm pro- curado desfazer alguns mitos e exageros sobre as missões. Esses têm analisando, entre outros temas, o impacto do Tratado de Madri nas reduções, procuraiido avaliar os efeitos das decisões metropolitanas juiito à população missioneira. O trabalho de Rejane Several insere o coi~flitona dinâmica das relações metropolitanas e como a região plati- na estava suscetível a essas riegociações.Entretanto, o texto pouco acres- centa ao debate pois rião aponta nenl-iuma hipótese explicativa quanto a eclosão do conflito.37

:34

I-Ieriiandez, Pablo. EL exir.niinmie,~tode lo.rjes7citcls (Iel rio de Ln I'lntn y ([elns ~nision~s(de1j)nrnç-uny por- drc~eto(de (,'a,-Los III. Madrict: Victoi-iano Suarez, 1908.

35

Ii-atz, Guilleimo. El tratndo his/)ccno-l)rugusde

limites de 1 E0 y .sus corzsecuencin~.E.~tudiosoD?-eLn

aOoLieión de ln Conzj~clfiiclde Jesus. Koma: I.I-I.S,I,

1954.

36

h4ateos, Fraricisco S. J. "Avaiices poitiigiieses y rnisiones espafiolas eii la America de1 Siir", hlissiotlnlin his/)n~aicn,5, Madiid, 1948, ~1:).459-505; "E1 tratado de limites entre I!:spcifia y Portu- gal de 1750 y las misioncs de1 Paraguay ( 1751-1753)", Missionnli« Hi.sj)n~/,icn,6, 1949. pp. 313- 373, além cle otitros artigos liesta rivista.

37 Several, Rejane. A g-u~r-~c~p~clrnnillcts.Porto Alegre: Martins Livreiro, 1995.

O extenso trabalho de Tau Golirn, é f~~iidameiitadoquase que ex-

clusivaniente ilo Diúr;?'oda expediçuo e denza~caçãoda Amh-ica Meridional e das campanha.^ D'Mi.rsões do Rio IIruCpayescrito por José Custódio de

e Faria, funcionário a serviço de Portugal. O texto apresenta muitas novidades do ponto de vista factual, diante das inúmeras informações contidas neste documento." Esse diário redigido u -f>oshioli,está basea- do em observações pessoais e nas informações partilliadas com os de- mais oficiais, e o exame dos conflitos bélicos ocupa espaço significativo nas anotações de José Custódio de Sá e Faria. Entretarito, a perspectiva teórica esta ausente nesta pesquisa histórica, sendo mais uma recons- trução pormenorizada dos acontecimentos, do que uma interpretação com caráter explicativo. O processo histórico das missões foi analisado por Julio Quevedo com o objetivo de recuperar as raízes desta rebelião indígena, contextualizando-a na conturbada diplomacia Ibérica e os seus desdo- bramentos no rio da Prata."" partir do vínculo estabelecido pelos ín- dios com a terra e as alterações impostas ao espaço missioneiro diante do Tratado de Madri, Quevedo discute o papel do guarani inserido nas reduções, enfatizanclo o desagrado e posterior desacato desses índios à ordem de mudanca. A pesquisa, apesar de estar amparada em fontes impressas, não acrescenta novidades ao quadro factual, e trata de ma- neira muito generalizada os efeitos da vida em redução (não distin- guindo, por exemplo, a diferença eirtre urn guarani letrado e um iletrado). Um trabalho que corre em faixa própria é o do historiador alemão Félix Recker, que piiblicou sua tese doutoral abordaiido a rebelião giiarani e as controvérsias em torno da fábula de Nicolas I, rei do Paraguai.l0 Nesse livro, Becker considera os chefes guaranis rebeldes como meras marionetes dosjesuítas. A pesqi~isa,realizada em siia grande maioria em arquivos europeus, desconhece a realidade regional que analisa, e descoiisidera a capacidade das lideraiiças indígenas envolvi- das. O autor apresenta uma intricada argumentação, na qual procura esclarecer os motivos da perda de poder da Companhia de Jesus, mas acaba por alimentar mais preconceitos ern relação ao tema.

38 G~lirn,~I:~iii.A guer7-ng~~nlnniticn.C,'onlo os exkrrilos de Po7 tupl e esf~nnl~nclrst~-uirnv~os Sele I'ovos dos

jesi~iinse ítzdios g~,int.nn,i.rno Rio GI-~IL~~do Srtl (I 750-1761). £'ns.ro I+knclo: filiuf,JI

Ediifrgs, I!IOfi,

G24p.

Porto Alegre:

39 Que\etio,Julio. Guet IPLJOS P~P\~L~~(LJ176 utoj~indo Pmtn Raiirii: Ediisc, 2000

Becker, Félix.

40 1122/0 Jr\~iiíl(o:AJ/ro/c~s1 19 (1~1I->tnguny.A~iiiicióii:Carlos Sclia~irn~in.Editor,

1987.

Recentemente, foi publicado em Portugal o livro O Tratado de fi- dri e o Brasil nzwidional, com atenção voltada para a forma como se pro- cedeu à demarcação nas terras envolvidas nos novos limites." 0 traba- lho analisa a ação das 'Par-tidasdo Sul" e se baseia na análise da carto- grafia e de documentos gerados por ocasião das demarcações. Pesquisa minuciosa amparada em farta documentação, mas que pouco acres- centa ern relaç20 ao coiihecimentojá existente a respeito do tema. O interesse 110 estudo das sociedades indígenas durante as últimas décadas determinou uma revisão quanto ao papel dessas na história, implicando em uma reconsideração de determinadas categorias utili- zadas na sua análise. A guerra é uma delas. A guerra indígena, ou me- lhor as guerras, tal como a conhecemos historicamente estão relacionadas ao processo de conquista e colonização de grandes proporções empre- endido na Arnéri~a.~' Nesse contexto de revisão teórico-metodológica os episódios rela- cionados a "guerra giiaranitica" também merecem uma releitura, prin- cipalmente a partir do aporte e empréstimo de categorias oriundas de outras áreas de conhecimento, particularmente da Antropologia. No que tange às manifestações indígenas um fator f~i~idarnentalé se ater às suas formas e que para captar as estratégias nativas é necessário aliar uma certa sensibilidade antropológica is iiiformações inéditas que sur- gem, em fragmentos e séries documentais outrora esquecidos nos ar- quivos e bibliotecas de diferentes países. A historiografia tradicional ao analisar os conflitos nas missões, somente concedeu espaço a dois índios, no caso o alferes de São Miguel, de nome José Tiaraju, o Sepé, e o corregedor da redução de La Concepción, Nicolás Nenguiru. O destaque coiiferido a Sepé, por sua atividade "militar", despertou em alguns pesquisadores regionais o iii- teresse em alçá-lo à condição de símbolo da resistência iridígena.'%na- lises históricas preocupadas com a heroicização desse personagem, tem eclipsado outras individualidades guerreiras, como a do próprio Neiiguiru.

41

Ferreii-a, Mário Olímpio Cleineilte. O Trntnrlo de A'lndrid e o Brasil Meridionnl. Os trnbnlhos de~nnrcncloresdas Pc~rticlnsdo Sol e sua produ~ciocnr~oqhjicn(17491761). 1,isboa: Comissão Nacio- nal para as (:oinemoraçóes dos Descobi-imeiitos Portiigueses, 2001.

42

Fausto, Carlos. Irtimig-o,~fipleisalzistól-ia, I;rzlem e xnrnnnismo nn An~nzo~zicl.São Paulo: Edusp, 2001.

43

Berilardi, Mai~siaeto.O primeiro caiidillio sul-riograiiclense. IZer~i.rtn(luMus~uAI-q,uivoPúOLiro do

I?S. Porto Alegre, 11. 20, p. 107-220, 19%.

O p~imeirocnucllill~o7io-grc~nden.se:/isiono?tzin do

v~issioneimSrj~é72n1.nju.Porto Alegre: Globo, 1957, 18Gp.

44

"<:artu de Pascital 17agiiapo pai-a 10s íildios cliie han de avistar cor1 10s espalloles sobre lo qiic

Esses dois guaraiiis letrados, certameiite, iião foram os ííi,ic«s protagonistas dessa sublevação, visto que os demais índios que inte- gravam a elite missioneira, também estiveram eilvolvidos na rebelião até o desfecho final em Caiboate. Um índio que apresentou ativa par- ticipação iiesse período foi o alferes de São Miguel, Pasqual Yaguapó. Em 1'155 chegou a redigir urna carta, na forma de iim manifesto iriter- calada com um possível diálogo, instruindo os índios quanto aos ar- gumentos que deveriam apresentar caso encontrassem as comissões demarcadoras. O conteúdo dessa instrução indica que o texto, muito provavelmente, foi concebido com a finalidade de leitura coletiva, servindo de instrução geral a população quanto aos argumentos que os índios deveriam apresentar aos espanhóis. Nessa missiva recordava Yaguapó às recomeiidações do governador para que os guaranis cui- dem "[ bien de vuestras estancias, que rio eiitre ningún espaiíol, mulato, ni negro, quanto mas en la estaiicia alçun Portugues, nos dijo que se mudasen 10s soldados, y se mantuviesen siempre corriendo 10s

Campos [

I

I""

e que esses, diante das razões apresentadas, não esta-

vam dispostos a atender a ordem de abandonarem às suas reduções. O depoimento de um índio de São Luís, Cristoval Reu, informa que logo depois da morte de Sepé Tiaraju, no dia 7 de fevereiro, foi Pasqual Yaguapó quem estimulou os demais para um eiifrentamento direto com os exércitos ibéricos, agora coligados. A leitura dos documentos históricos tem indicado que Nicolas ~en~uirue Pasqiial Yaguapó foram os principais responsáveis pela manutenção do estado de guerra após a morte de Sepé, e que ambos opinaram favoravelnierite pelo confroilto aberto, em campo de bata- lha, abandoiiando a tática de guerrillia adotada até o momento. Assim, no dia 10 de fevereiro, sob o comando de ~eii~uiru,iiidicado às pres- sas como substituto de Sepé, foi registrado o maior confronto eiitre a milícia guaraiii e o cxéi-cito coligado luso-espaiihol. Esse episódio ficou conhecido ila liistoriografia sobre o tema como a Batalha de Caib~ate.'~ E seguiido Fraiicisco Graell, oficial espaiiliol, em seu diário, o ernbate durou uma hora e um quarto e dele participaram índios egressos de nove reduções. Ao final da luta aprc)ximadamente 1.500 guaraiiis esta- vam m~rtos.~"

liari de decir, a fiii de qiie lo oigan toeios los caciques y cdbildos. Sai1 Miguel, 16 de jui~iode 1755. 111:Pastells, Vol. VIII, 1949, (clocrirneiito 4.728).

45 Assis Brasil. Gal. Bc~inl/lndo Cn/OocclP.Porto Alegre: (;lobo, 1935.

46 O iiiiinero de guaraiiis rnortos nesse combate varia muito coiiforine a fonte corisirltada. Uma

tabela coml~ai-aiidoas difere13tcs cifras dados pode sei- consiiltatlo i11 C:olirn, 'r'ari, ii í;~rertn giccrrnridirn. O/).cit, p. 436. (Mortos lia batalha tie (:ait)oaté).

O padre Tadeu IIenis, siispeito de apoiar os rebeldes, anotou iio seu diário que a notícia da batalha somente chegou à redução de São Miguel dias depois, através de Bernabé Parabé, íiidio miguelista, que havia abandonado o teatro das operações de guerra e retorilado a sua redução de origem. Na sua volta descreveu o combate com traços bastante funestos. Esta iriformação foi posteriormente confirmada por outros "sugetos iiobles veciiios de1 mismo lugar9'conforme mencionou o jesuíta em seu diário." Passados alguns dias do conflito em Caiboaté, um grupo de guaranis suspeitos de atuarem na rebelião foram capturados e subme- tidos a um interrogatório. Através dos depoimentos prestados por es- ses índios é possível identificar os nomes e sobreiiomes das demais lideranças Guarani nos momento decisivos.4gEstes testemunhos pos- sibilitam resgatar do anonimato muitos integrantes dessa elite, parti- cularmente os da redução de São Miguel, uni dos focos de oposição ao Tratado. Em 1759 as comissões demarcadoras retornaram às proximidades do local onde ocorreu o conflito do dia 10 de fevereiro, para concluir os traballios de demarcação, e encontraram iio local urna cruz de ma- deira com uma inscrição em guaraiii. Era uma narrativa fúnebre, iiis- crita lia própria cruz em memória à Sepé e aos demais soldados mortos em Caib~até.~" breve iiai-rativa, que indica com exatidão o dia dos acontecimeritos derradeiros, e está assinada por Miguel Mayra, um dos principais articuladores da resistência missioneira.

47 "Di6rio redigido pelo padre Tacleii Xavier IHeiiis, a pedido do padre Nusdorffer, de meados deJaneiro de 1754 a 13 ele h4aio ele 17.56", i11At~c~isdn Bil)lioteca Nacional clo Rio deJnneiro, 1930, Volume 52. Docuinentos sobre o TI-atadode 1750.ITolI, 11.532.

48 Coin a derrota Guaraiii em Caiboaté, 127 índios foram aprisionados e por ordem de Ai~clonaegui iiitei.1-ogactos.Nos eiepoimentos de alguns fica evidente o reciirso 2 palallra escrita como meio cie coniiinicação durante a Guerra: ''[,,.I qiie el cacique Zepe escrivio a

1V.~tit1~0i~iode Ias Infinnariottes nctundns ettz

si1 Corregidor llamudo Francisco Chaca [

vi,-tucl de 0,-dei~esde los L;x,rzo,s Secores Don Josef'h de Andonclegz~iy (Lor~l'edro rle Cevallos, sie?itdo (;ob-c~e~rzcrc/or.de 13uenos Aila.~,sobra aue~i~p~nrlos motivos que hubo !)ara no vereijica,.ln r?zlrega de lus

Pueblos de iLlision,es de Iradios Gunt.rr?iís, con/ònlie n Ias lienles Orclenes. " Moritevideo, Tomo VII, N 19, 1914. pp. 732, 740.

I

in,

111: Revista I-listol-ira.

49 '2fio de 1756. A 9de I'èl,mo//j,he o~?~clttOco~7~pdorJo.~elie~l,tl~~a7lk7uynyúCi2ceu.inij)ipl:scibndo rolno. A I O de Febrero f)i/~eojin gunt-irzi glcc~sli 7nnries pi/re, 9 TecOn Ut,uguny rebqiih 1500 soldndos re0~hnebeictere. iWu7.11bichh r& omcrnó 6ngo n/x. A 4 de n~n7zo/)i/~qya/)o.~~,rn6ngn ro Cruz ~nomngc~tú.Don ibliguel iVlccyrci solclndos ntn ul~r.?i-adiição: Ano tle 1756 - A 7 de fevereiro morreu o corregedoi- José Tiamju em unia hatallia que l~oiiveem dia de s5bado. A 10 do niesrrio, ern lima terça, liouve urna graiicle batallia ein qiie morrei-am, neste Iiigar, 1500 soldaclos e setis oficiais, pertei~c~ii- tes aos 9 Povos de) lii.iigiiai. A 4 cle março rnaiicloii Migiiel Mayrá fazer esta cruz pelos solda-

dos. Ver, Uemn?ra~ciodo RI-nsil,Biblioteca Nacioiial, Kio de Jaiieiro,

I, 1,1, 20.

Esse índio iriiguelista, ficou conliecido como uni dos opositores mais ferrenhos à transmigração e entrega das redii~ões.N~Sdepoi- mentos, Mayra é apontado como um dos principais interlocutores com os índios infiéis (charruas e minuanos). Mesmo diante dos anta- gonismos passados com os guaranis, estes índios auxiliaram na guer- ra, atuando como espias, vigias e informantes à favor dos rnissioneiros; mas não participaram dos enfrentamentos armados coritra os exérci- tos iberico~.~~

A atuação desses índios letrados e o intenso recurso a comunica-

ção epistolar pode ser confirmada, tanto nos depoimentos prestados pelos índios, como nas relações elaboradas pelosjesuítas. O diário de Beriiardo Nusdorffer, superior das missões e responsável pela negoci- ação de traslado junto aos índios é repleto de passagens narrando a vigília guarani quanto a circulação de documentos durante as negocia-

çÕe~.~l

A missiva do administrador Valentim Ibarengirá é exemplar a este

respeito. Esta carta é uma das que foram encontradas na algibeira de Sepé, quando este foi atingido e executado em campo de batalha, no dia '7 de fevereiro. No texto, Ibarenguá solicitava ao capitáo das tropas

guarani rapidez no repasse de informações, e agregava as seguintes re- comendações: "Se os ditos vos mandarem alguma carta, despachai-a

imediatamente ao Padre Cura [

cessitarem alguma coisa "[

acrescentava que no caso de ne-

I escriban iiimediatanientr, y que todos 10s

días escriban 10 que hubiere de novo sin falta".'? Os cuidados adotados com a informação epistolar e o domíiiio dos códigos retóricos ocidentais permitiram aos guaranis, através da sua oposição escrita e armada, reduzir praticamente a nada o famoso Tratado de Limites.

Iv,e

50 Acosta y Lara, Eduardo. h,n Guelra cle loj Cl~nt~utcrpn ln bnndn Onentnl jpe~-íodoIzcs/ja)zzco). Montevideo: Montever de y (:ia S. A, 1961. (Capitulo VII: L,os charriias y Ia G~aeri'aG~iaranitica. p. 97-108).

51 XV- Kelaçáo do padre Bernardo Niisciorfkr sobre o plano de rnutiaiiça dos 7 povos desde 1750 ate fins de 1755. I11 M~IZUSC~~~OSda Cole~:6ocle Arcg~lis. Vol VII. Do tratado dc Madri à coiiquista dos 7 povos 1750/1802. Kio deJaiieiro: Biblioteca Nacional/Divis,'io de Piiblicução e Divulgação, 1969, p. 139-300

52 Tratliiccióii de la cal ta

por e1 mayordonio (te1 pueblecito di

esciiu a1 corregi(lorJos6: 'Tiaiayii

Saii.Ja~.iei;Valentíii Ibai eiiguá. SaiiJaviei; 5 de fe\ei.iii o de 1756, iii P;tseells, 'Ibmo V111, I)oc.

4.758. 13. 243.

Concluindo

Assim, pelos exemplos já apresentados, é que proponho repensar

a formação histórica do continente do Rio Grande no século XVIII a

partir de uma tripla determinação, procurarido dessa maneira resgatar

a fronteira indígena que foi desarticulada a partir do Tratado de Madri.

A simples consulta à documentação colonial (civil,militar ou eclesiásti- ca) sobre o passado dessa região já indica diferentes maneiras de desig- nar esta mesma porção territorial. As terras circunscritas pelo rio Uruguai na sua face oriental eram conhecidas pelos índios de fala guarani como tape, osjesuítas no sécu- lo XVII mantiveram a mesma nomenclatura; os colonizadores espaiihóis, por sua vez, referiam-se a essas terras como otra banda de1 Urupay, e por último a parte leste, delimitada pelo rioJacuí recebeu no século XVIII, dos luso-brasileiros a denominação de continente de Rio Grande. A existência de três topoiiimias para uma mcsnia regi50 histórica indica os diferentes interesses e disputas presentes em um mesmo espaço, e esclarece quanto as origens dos agentes sociais envolvidos. A perspectiva indígena ficou registrada na atuação dessa elite missioneira que diante da ocidentalização em curso nas reduções apre-

sentou papel de destaque nas negociações, legando para a posteridade uma versão nativa sobre essa rebelião iiidígeila. Uma luta marcada pela posse de um território e dirigida contra as decisões metropolita- nas. Essa rebelião colonial contrariava a decisão das coroas ibéricas,

através da manifestação escrita dos índios procurando defender seus direitos conquistados liistoricameiite, garantidos e confirmados coiis- tantemente, em diversos documentos, pelo Rei de Espanha.

A exist2iicia de uma gama de tipos de escritos serviu de rxperiên-

cia no momento de reagir as decisões tomadas na Península Ibérica, como na reaç%oao Tratado de Limites de 1750.Após dÇcadas maiiusean- do textos c mesmo produzindo obras, a elite missioneira demonstrava grande familiaridade com os diferentes níveis das práticas letradas, ex- perimentado essas competências um elevado grau de deseiivolviniento nessas reduções. A alfabetização praticada nas reduções, mesmo restri- ta a uma elite, promovia sociabilidades inéditas, permitirido novos modos de relação com os outros e os poderes. Devido a preocupação com as iriforniações que circularam ria so- ciedade colonial iicsse período 6 que os índios egressos dessa elite missioneira valorizaram o modo escrito de comuiiicação, trocando di- versas cartas c bilhetes com colegas de outras reduções. Analisar a rebe- lião guarani a partir da perspectiva da memória coletiva e do sentido atribuído pela cultura escrita como criterio de ordenamento das dife- renças culturais, pode possibilitar algumas explicações razoáveis qiian- to às atitudes indígenas.

As formas de registro e temporalidade dos guaraiiis fixam altera-

das nas reduções diante das práticas letradas. Estas práticas redcfiniram as formas de mensurar o tempo e os suportes da memória eiitre os índios, em contrapartida estas transformações atuavam como reforço a uma tradição cultural nativa, a da guerra. Nessa época determinadas "lembranças" foram postas por escrito e operaram como iiistrumeiitos de ordenamento do passado. Durante a fase de rebelião, nos seus escri- tos, os índios recordavam frequentemente as vitórias obtidas contra os portugueses à serviço do rei de Espanha, informações que poderiam ser obtidas facilmente através da consulta aos documentos e mapas guardados nos arquivos de cada redução. As gerações que conviveram com a codificação e padronização lingiiística do guarani, pelo domínio escrito que apresentaram de sua língua nativa, recorrem com grande facilidade a este expediente, principalmente nos momeritos de crise nas missões.

O conhecimeiito da língua, seja através da leitura oii da escrita, e

sobretudo pela conjugação dessas competências forneceu aos índios letrados um instrumento importante para explicitar o seu desagrado diante das formas de convívio iiitercultural a partir do domínio dos códigos retóricos. Quando os cabildoipara escreveram as cartas ao governador de

Buenos Ares, o fizeram de um ponto de vista muito particular, ou seja,

o de poder explicitar suas insatisfações a partir de categorias construídas na sua própria língua. A familiaridade e o domínio da escrita favorece a uma maior emancipação com relação as foi-mas tradicionais de existên- cia, e principalmente diminui a dependência em relação aos intermediadores obrigatórios, como interpretes ou leitores.

O recoiiliecimento do valor histórico desses documentos implica

em romper com a visão tradicional e mesrno colonizada de fronteira

que habitualmente trabalhamos, pois além dos povoadores ibéricos os índios letrados das reduções tambi-m foram capazes de escrever a sua versão a respeito dos acontecimentos e conflitos que estiveram eiivolvi- dos. A froiiteira na América meridioiial em meados do século XVILI apresentava-se tripartida, dividida entre os iritcresses das duas Coroas ibéricas e a luta guarani pela autodeterminação. A missões orieiitais somente rio início do século XIX foram defiiii- tivamente anexadas aos domínios da America p«rtuguesa, conferindo ao Rio Graride do Sul a sua atual geografia. A incorporação dessas sete

reduções, em 1801, por

na historiografia sul-rio-granderise como a tomada das missões orien- tais do Uruguai; surgiam assim os "Sete Povos das Missões", refletindo

as divisões iiacionais a que foram submetidas às trinta rediiçõcs Guaraiii do Paraguai.

Borges do Canto e Manuel Pedroso é referida

Gente da fronteira: sociedade

ia no sul da portuguesa - sécu

érica

i4aõio Kuhn

Este texto pretende abordar algumas questões relevantes para a compreensão da formação da sociedade sul-rio-grandeiise durante um período crucial para a configuração do espaço colonial lusitano na re- gião platina. Ele se apresenta dividido em duas partes, sendo a primeira dedicada à caracterização da sociedade sul-rio-granderise do século XVIII, particularmelite o caso de Viamão, uma das regiões de povoa- mento inicial do atual território do Rio Grande do Sul. A partir dos dados demográficos tornou-se possível entrever uma sociedade típica do Antigo Regime português nos trópicos, baseada na existência de unia nítida hierarquia social e marcada pela presença expressiva da es- cravidão. Longe do cenário que enxerga o passado coloriial como terra de gaúchos, vivendo envoltos em lides guerreiras, o que se descortiiia é uma sociedade extremamente excludente, onde uma peyueiia mino- ria de famílias detém unia grande parte da riqueza existente, fosse lia forma de terras, gados ou homens, A segunda parte do texto procurajustameiite entender como se davam as estratégias familiares desta primeira elite colonial sul-rio- grandense que se formou lia região dos Campos de Viarnão. Dentre as estratégias de reprodução das elites coloniais, as alianças matrimo- iiiais apresentam-se como uma das mais importaiites, senão a mais relevante delas. No séciilo XVIII, era comum a prática dos casameii- tos eiitre filhas de estancieiros e conierciantes advei~tícios,a tal ponto que a traiismissão patrinioiiial se dava muitas vezes via rnatriliiiear, em detriniento dos fillios homeiis. Aqui também encontrarnos elemen- tos de uma sociedade de Antigo Regime, onde estes arranjos matri- moniais podem ser entendidos ronio forma de ascensão social para o genro comerciante, que adquire .stutusao se "afazeridar", casaiido com a filha de um estancieiro.

I - Uma sociedade de Antigo Regime

A relativa carência de estudos demográficos para o período colo- nial motivou a realização desta bieve aproximação ao problriria do tipo de povoameiito inicial que se constituiu nesta região. Dilraiite muito

tempo, qualquer estudo desta natureza deveria assentar-se basicameii- te nos registros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos, dada a inexistência de lista nomiiiativas como as existentes para São Paulo co- lonial por exemplo.' No entanto, a utilizagáo de outros documentos de origem eclesiástica - os róis de confessados - possibilitou a compreen- são mais exata do processo formativo da sociedade do extremo sul do Brasil. Com efeito, apesar das lacunas e omiss0es destes róis (como a ausência de dados sobre a produção econômica), eles lançam alguma luz sobre este período fundamental para a manutenção das pretensões colonialistaslusas nas terras do Continente do Rio Grande de São Pedro. Basta lembrar que até o Tratado de Madri, celebrado em 1750, não havia qualquer definição efetiva sobre as possessões meridioiiais portu- guesas, sendo que a partir daí define-se o eiiraizamento dos interesses econômicos e políticos da Coroa sobre esta região, atualmente conhe- cida como Rio Grande do Sul. Os dados traballiados permitiram reavaliar a importâiicia da po- pulação escrava na formação da sociedade colonial sul-rio-grandense, ao evidenciarem a expressiva presença de cativos de origem africana dcsde o seu período formativo, além de lançarem alguma luz sobre as diversas formas de apropriação de mão-de-obra (escravos,admiiiistra- dos, camaradas e agregados) na economia colonial do extremo sul da América portuguesa. Nesta primeira parte, o estudo baseia-se fuiida- mentalmente em alguns remanescentes de recenseamentos paroquiais (os róis de confessados), valendo-se também de levantamentos populacioiiais determinados pelas autoridades metropolitanas nas duas últimas décadas do século XVIII, mas da mesma forma coligidos, con- forme acreditamos, a partir das informações paroquiais. A análise dos dados empíricos possibilitou, por outra parte, avaliar alguiis indicado- res relativos à estrutura de posse de cativos e sobre a presença c difusão da família escrava iiesta região da Colônia. As dificuldades existentes em teiitar captar a dinâmica populacional de Viamão no século XVIII começam pela heterogeiieidade das fontes. Em alguns casos temos somente o número de fogos (que também cha- maremos de UC, as unidades de censo), ao passo que outras vezes dispomos do número de fregueses e mais raramente do número total de habitantes da freguesia, incluindo os "inocentes". A grande "arran- cada" no povoamento de Viamão se deu entre finais da década de

1 Ver Maria 1,uiza Bertiiliili Qi~eiróz.A Vila do Rio Grclnde (te ,760 Pedro (1737-1822,).Rio Grande:

Editora da FIJKG, 1987, p. 70. Neste livro a aritoi-a se valeu hasicanieilte dos registros paroquiais de eveiitos vieais pura tei~tai-recoiistitiiir a população ria primeira vila sul-rio-gi-ailcleilse.

1740 e priiicípios da década de 1750, quaiido o número rlcfogos mais

do que duplicou, em um período ainda anterior às rnigrajiirs açoria- nas, que modificariam completameiite o padrão dernográfico da fre- guesia. Entre 1741 e 1756 a capela e depois freguesia de Viarnão pas- sou por um rápido crescimento populacional, que praticamente sextiiplicou o número de fogos (ver Quadro I).Vários motivos podem ter contribuído para que a região se tornasse atraente aos olhos de muitos povoadores: o relativo esvaziamento econôrnico de IAaguna, que provocou a migração de alguns de seus moradores para Viamão;

a fundação da vila de Rio Grande em 1737, ponto de referêricia para

os povoadores portugueses de Viamão, que para lá se deslocavam para batizar seus filhos, por exemplo; ou ainda a própria dinâmica econô- mica da região, cada vez mais integrada aos mercados coiisumidores

de gado do sudeste brasileiro.

Quadro I: Viamão - E\~oluçãodemográfica

(1741-1811)2

O rol dos confessados de Viamão, datado de 1751, coristitui-se em

um documeiito de grande riqueza informativa, apesar de suas lacunas

e omissõesjá apontadas. Dado seu péssimo estado de coriservação, al-

guiis outros fogos apreseritarn iriformações incompletas, o que nos im- pede de fazer estimativas demasiadamente exatas. Porérri, algumas in-

formações relevantes são apreendidas com a análise das portes legíveis

2 Fontes: 1 741 : AHU-KS, cx. 1,

doc. 38. il/In/)n das Jnz~ndn~povoccdas dp gado

no 1t20 C:ranrl~d~ S6o

P~dto;1746: BNKJ, mss. I, 1, 32, 2, 0; 1751, 1736 e 1778. AI-ICMf'A, Rol dos (;onfessado5 de Vidrnão.; 1780. BNKJ, ctidice 9,4,$4e AII(:MPi4, Kol de Coilfessactos de Viamão, 1798. AE-TIJ-RS, 9, doc. 43 n/le~/)c[dp /odor os hnbztar~tprdn Ca/)~/arz?n.; 181 1. ACMKJ "Iiifoi nid~Boda Visi ta

cx

Geid do Coiltiiieiite do Si11 [ estim,iti\a.

I".

Obs, O niimero de ll,~bit'1nte5pala o ano dr 1751 6 urria

do documeiito (cerca de 85% do total). No filial do dociimeiito, o es- crivrio padre Tliomas Clarque anotou que haviam 132 fogos com mais de setecentas almas. No entanto, a quantia total de fregueses está cor- roída, impedindo qiie saibamos com exatidão esta cifra. Uma extrapolação pode ser feita se coiisiderarmos a média de moradores por fogo em torno de 6 pessoas, chegando a um número entre 750 a 800 pessoaq se incluírmos os "andaiites" (pessoas em trânsito pela fre-

guesia). Na verdade, uma análise atenta permite verificar que não havi- am 132 mas sim 136 fogos na freguesia, dos quais não temos informa- ção alguma para 18 deles. Assim, dos 118 fogos em que foi possível extrair informações, chegamos ao número de 631 pessoas, com uma média de 5,35 fregueses por unidade de censo. Se talvez houvesse em

torno de mais 90 pessoas nos

dos 74 aridaiites que foi possível contahilizar, chegamos a um cifra pró- xima àquelajá aventada (631+90+74= 795). Na Tabela I podemos visualizar a estratificação social da popula-

ção viamonense em 1751. Os dados encontrados surpreendem pelo elevado número de escravos em um período tão recuado da coloniza- ção lusa. De fato, passadas somente duas décadas do início do seu povo- arrielito, a freguesia apresentava rnais de 42% da siia população com- posta por- cativos de origem africana. Os cativos indígenas perfaziam sorriente cerca de 3% da população de Viamão em 1751, o que iios indica o virtual desaparecimento da "administração particular" entre os povoadores da freguesia.

18 fogos dos quais não temos dados, além

Tabela 1:População de Viamão conforme a condição social -1'751"

Condição social

I N~essoasI

%

Homens escravos

1

204

132,4

Homens livres

1

197

131,2

Mulheres livres

1

108

1

17,1

Camaradas

I

14

1

2,2

índios

14

1

22

Total

1

631

1100

3 Foii tt.: Al-I(:MPA. Kol dos (:oilfcssados de Viamão - 1751.

No total, mais de 45% da popiilaçáo era cativa, uni perceiitual muito elevado, scmelhaiite ao eiicoiitrado rias zonas rniiieradoras ou de planlation e náo muito adequado à uma região voltada ao mercado iii-

terno. Para efeitos cornparativos, podemos citar a zona rural de Buenos

"cor", cativas ou não, perfaziam somente 15,4% de Sorocaba em 1772, oiide apenas 15,6% da

população era composta por escravos. Todavia, os números de Viamão iião parecem tão discrepantes quando comparados ao Piauí colonial, outra conhecida região de pecuária. Em 1762, segundo um levanta- mento da população das fazendas do Piauí, havia cerca de 2.400 mora- dores, dos quais mais de 1.300 eram escravos. Ou seja, 55% do total de moradores.* Outro dado significativo para a compreensão da estrutura de posse de escravos em Viamão refere-se ao fato de que em 74 dos fogos analisados (62%) havia cativos, indicaiido uma grande dispersão no padrão de posse de escravos nesta freguesia do Rio Grande do Sul coloiiial. Isto também se reflete lia relativamente baixa posse média de

cativos por fogo, equivalente a 4 escravos por unidade doméstica (conside-

rando-se o

Aires, oiide as pessoas de

em 1744 ou ainda a vila

conjuiito de fogos onde haviam traballiadores servis).

Dentre os maiores proprietários de escravos ria paróquia, destaca- se Fraiicisco Pinto Bandeira, um dos mais relevantes membros da elite local e dono de 20 cativos neste recenseamento. Outro dado que revela uma precoce conceritraçáo da escravaria nos grandes proprietários in- dica que os doze maiores seriliores - com 8 ou mais cativos - detêm coiijuiitamente 132 escravos, ou 46 % do total da freguesia, com uma posse media de 11 cativos por plantel, típicos do padrão dos estanciei- ros. Os demais fogos possuidores de escravos, no total de 62 unidades domésticas, detinham 54 % dos cativos, com Lima posse média de 2,5 escravos por proprietário, típica do padrão dos lavradores. Outras pes- quisas, traballiaiido com iiiventários, chegaram a números muito senie- lhaiites: 3,3 escravos em média no grupo dos lavradores e 11 escravos em média rio grupo dos estaricieiros.'

4 Joie 1,iiis Moreno, "Población y sociedad eii e1 B~iei-iosAires iurul a fines de1 siglo XVIII". 111:

(comp.) J. C. Gara\agliil

ç J

L. Moreno. Pohlnczón, vocz~/ln(l,fninzlza y ?nzpccizo/r~ren d es/)nc~o

26; Chi los de Almeidu Prado

B,icellar. Fi~1rr2ie soczeclade num fro?zonaznd~ nhnd~czme17toz~tle~na-- So?otnOn, skculor XW P XIX.

"05 íiidios e a peciidri't lias

~~of)lnterrr~.Siglos XVIII y XIX. Biienos Aii es, Ciiitaro, 1993, p

Sdo Paulo, Tese cie doritorarri<-ilt»/LJSI', 1994, 11. 74; I.uís Mott

fc1l/iilduscie çudo do Piuuí coloilial". 111: Ii'evzrtn rl~Anl~o/)olo~yz/l_JSP,separata do vol.

XXII,

1979, p. 71.

5 Iielen Oscírio, C,lrínrií.i,-».r, j/rli?.nrio~ese cot1ierc-itcl7,tetna rot/slitlciç&oda Irki?p,trclil~rrn/~or%ccguerolan

I\ t?/ki.icn:Rio (;Iw~~Pde %O

158.

i'cciro,

1 737-1822. Ni tercíi. Tese de chutoi-ai~i~ii~<~/uFI;,19519, p. 1.57-

O levaiitamento paroquial de 1751 permite entrever uma socie- dade fortemente dependente da mão-de-obra cativa, especialmente africana. A escravidão indígena aparece de forma residual, na exis- tência dos 20 administrados dispersas nos plantéis da freguesia. Ou- tros tipos de traballiadores também são encontrados, como os cama- radas e agregados; os primeiros são certamente de condição social mais baixa, pois em cerca de um terço dos casos listados aparecem juntamente com os escravos. Quanto aos agregados, existentes em muito pequeno número, são encontráveis quase todos na estância de José Leite de Oliveira, um dos genros do povoador Jerônimo de Ornellas. Além destes, encontramos um pequeno número de índios, supostamente livres, pois não são administrados, porém certamente submetidos a alguma forma de servidão. O único dado que causa cer- to espanto no rol é a presença minúscula de pardos forros, o que é muito discrepante com a realidade étnica efetiva da freguesia. Supo- mos que a maioria dos "pardos forros" tenham ficado encobertos na

listagem, em meio ao grupo de homens livres. Este foi o caso de Inácio José de Mendonça, o fundador da Capela de Santo Antônio, pardo forro assim mencionado em outros documentos, mas que aos olhos do "reccnseador" paroquial não mereceu esta distinção.

nos revela o grande desequilíbrio existen-

O rol de 1751 também

te entre os sexos, tanto entre os escravos quanto entre os livres. Para o primeiro grupo, a razão de sexo chegou a 329, ultrapassando a propor- ção de 3 homens para cada mulher cativa. Uma sociedade na qual se desenvolvia com dificuldade a família escrava, muito embora ela exis- tisse, principalmente nos plaritéis dos maiores proprietários. No total, foi possível computar 24 famílias escravas em 17 UC, ou seja, apenas 23% dos fogos escravistas api-csentavam famílias cativas, decorrência sem dúvida da alta taxa de rnasculiiiidade entre a população servil, as- sociada à predominância de pequenos proprietários de escravos. No que se refere à população livre a taxa chega a 182, denotando a grande quantidade de indivíduos solteiros, dentro do padrão típico de uma região de fronteira. Mas aqui também temos a formação das estruturas hmiliares, tanto aquelas geradas pelas grandes fazendas ou estâncias, como aquelas originadas nos sítios e chácaras dos lavradores pobres ou remediados. A extensa freguesia aparece dividida em dez "distritos" ou "bair- ros riirais", na verdade as diversas localidades que compiinham os vas- tos Campos de Viarnão. O rol inicia provavelmente com os fogos situa- dos no Arraial, mas cabe lembrar que dos treze primeiros fogos se per-

localidade de "Morro de Saiita Atina" existiam

deu toda informação. Na

20 fogos, o que demonstra que Jerônimo de Oriiellas não estava sozi- nho na sua sesinaria. Mais do qiie isso, revela a importância das redes familiares dentro de cada "bairro rural": quase metade dos fogos do Morro de Santa Anna estavam de alguma forma interligados. Assim, além do fogo de Jerônimo de Ornellas, estavam ali situados o seu gcnro Francisco Xavier de Azambuja, seu cunhado Dionísio Rodrigues Meii- des e ainda os fogos de João Brás e seus 4 filhos, núcleo parenta1 estrei- tamente ligado ao sesmeiro de Santana. Mais adiante retornaremos a falar da importância destas redes. Na localidade denominada "Beira-Rio"temos apenas 8 fogos, den- tre eles o da quase legeridária estancieira Ana da Guerra, proprietária de muitos (para o padrão local) índios e índias administradas. Nas "Lom- bas" existiam outros 8 fogos onde residia, por exemplo, Cláudio Guterres, filho do espaiiliol Agostinho Guterres, um dos pioneiros lagunenses de Viamão. Nas "Estâncias de Fora" eiicoiitramos dezoito fogos, dentre eles, um dos maiores proprietários de escravos da fregue- sia, Francisco Pereira Gomes. A localidade mais numerosa em termo de fogos era a "Guarda de Viamão", com 31 unidades domésticas. Aí esta- vam coiicentrados os maiores plantéis de escravos, sendo que no total existiam 104 cativos, ou 36% do total computado da freguesia. Quatro "bairros rurais" do rol abrangiam a região dos rios dos Sinos, Caí e Taquari, onde havia 22 fogos. Seis anos depois esta região se desmembraria da freguesia, constituindo-se iia rica paróquia de Tririri- fo. Finalmente, mais ao norte, "Em Cima da Serra", encontramos onze fogos, entre fazendas habitadas por famílias e aquelas geridas somente por capatazes e alguns escravos. Os 3 maiores "bairros rurais", Guarda de Viamão, Morro de Santa Anna e Estâncias de Fora concentram 51% dos fogos ou 69 UC, que possuíam 202 escravos, ou seja, mais da meta- de do total de cativos computados na fregriesia. Se os dados do rol de 1751 podern ser considerados inexatos, e por isso mesmo colocam dúvidas quanto aos iiúmeros apresentados, o rol de 1778 é extremamente bem-feito, incluíndo também a quantida- de de "inocentes" livres e escravos existentes em cada unidade domésti- ca. Desta forma, torna-se possível calcular a pop~ilaçãototal da fregue- sia - todos os moradores - e não apenas os fregueses. Ademais, devido ao seu bom estado de conservação, meiios de 3% da população recenseada não pode ser devidamente classificada (a ilegibilidade im- pede que saibamos seu sexo, mas não a sua condição de livres ou c-ati- VOS).A Tabela 2 rijo dá lima idéia aproximada das transformações ocor- ridas na estrutura social de Viamão em iirn período de cerca de urn quarto de séciilo.

Tabela 2: Popula~áode Viamão coiiforme a coildi(ão social -1778

Os dados apresentados pelo censo paroquial de 1778 não deixam de ser surpreeiideiites no qiie se refere ii manutenção de um elevado percentual de cativos no conjunto da população total. Se eni 1751 esta taxa chegava a niais de 45%, passados 27 anos o percentual tinlia sofri- do apenas um ligeiro decréscimo passando a 40,5% do número total de habitantes. Segundo o rol em questão, existiam 656 iiidivíduos submeti- dos ao cativeiro, coiitaiido aqui a somatória dos homens e mullieres es- cravas, os inocentes cativos e mais 19 fregueses que indubitavelmente são escravos, entre aqueles 45 iiomcs que computamos enquanto ilegíveis (quanto ao gi-nero do recenseado). Este elevado percentual de escravos em Viamáo toriia-se aiiida mais impactaiite na medida em que comparamos este número com outras regiões do Brasil iio final do período colonial, cotiformc os da- dos compilados no Q~iadro11. Somente em Minas Gerais e no Piauí encontramos percentuais de população escrava superiores ao eiicori- trado em Viamão, qur siiplantava em termos relativos aquelas regiões tipicamente vinculadas à econornia de plantation, corno o Rio de Janei- ro ou a Bahia. Em Viamão, segundo o rol de 1778, também encoiitranios uni ele- vado número de fogos que apresentam a existência de cativos: cerca de

6 Fonte: AHCMI'A, Kol de (:oiifessatios de Viarnão - 1778.

dois terços das unidades domésticas estão iiesta situaçâo, em flagrante (:«litraste com oiitras regiões vinculadas ao mercado interno, como o Paraná oii Sorocaba, eni São Paulo. Neste aspecto em particiilar, os números de Viamão apresentam notável semelhaiiça com aqucl(:s en- contrados lia Capitania da Paraíba do Sul, no Rio deJaneiro. IJina pos- sível explicação para este aparente paradoxo seria a maior vinculação destas regiões (Viamão e o norte flumiiiense) coiii as redes do tráfico atlântico sediadas no Rio de Janeiro, iiesta ocasião o maior porto ini- portador de cativos do Brasil.

Quadro I1 - Indicadores demográficos e estrutura de posse de cativos - Brasil (skculo XVIII e priiicípios do século XIX)'

I

I

7

Região (local/ano)

MG(1718-1804)

1

5% escravos na populaçáo total

1786 = 47,9X

18(J8=34,35a

1

% fogos com escravos

Posse

médía por

40.9% - 18041 (Vila Rica 1 3,7 a 6,5

Forites: Bacellai; í:arlos (ir.Nineida Pi.ado. ("001) I'iuere.rol,izvilic.rei,i uiun uiln cok,,~2itl-~<;opornDa, siculos Xk'JJJ e XJX. São Paiilo: Aiiiiabltimc/Fapesp; C:uiikrez, Horacio. (1988) "Crioiilos e africanos 110 P;~i-aiiá,1'798-1830". 111:Ker~i~lnt2rnsileii.n (/eHi~tórin,v. 8, n. 16, p. 161-188; L,iii~;i, Fiancisco Vitiai. (1981) lbliirns (kixis: esc?-níio.re seniaoi-es - Aizh/i.sr da esti7~~uro/)opliLc:il(.iot~nIP eto~zciirriccl(/P nlg1it7~rer~Iiu.s~/i~?,rr~~/Ó>jo.~(1/plh-I804).São I'aiilo, IPE/USP; Rlotta, .Jose F'lá~,io. (1999) (~OI-~~WS"SCI-;IV~S,vontades livi-es- Posse cie cativos e família escrava em Bai-~;~nal(1801- 1829). São Paiilo: F~4PESI'/Aiiiiahlitme; Pai~,a,Eduardo França. (19!15) ELsr~izzto.re bjheito~IZ(LJ

Se compararmos o dados de 1778 corri os de 1751, veremos que passado mais de um quarto de século, verificou-se de certa forma uma estagnação no processo de concentração da mão-de-obra cativa na fre- guesia, sendo que a posse média por fogo cresce para apenas 4,l cativos por unidade doméstica. Diferentemente de regiões em expansão eco- nômica, em Viamão iião há um aumento perceptível no número de cativos possuídos, em média, por cada proprietário. Isto faz com que a média encoiitrada em Viamão seja uma das mais baixas do Brasil colo- nial, conforme os dados também constantes do Quadro 11. Mas continuam a existir em Viamão os grandes proprietários, que concentravam significativa parcela da mão-de-obra cativa da freguesia.

O maior deles em 1778 era um dos parentes colaterais mais importan-

tes do já citado Francisco Pinto Bandeira: se tratava de Antônio José Piiito, seu concunhado, pois ambos tinham o mesmo sogro, muito embora tivessem trajetórias um tanto quanto diferentes. Com efeito, no caso deste Antônio Pinto, temos uma origem diferenciada (Colônia de Sacramerito e não Laguna ), além de um outro círculo de relações sociais, vinculado ao Rio de Janeiro. Quando se casou, em 1757, com

24 aiios, ele afirmou que "de idade de 16 anos saíra da compaiihia de seus pais e viera para o Rio de Janeiro na companhia do tenente-coro- nel Domingos Fernarides e de lá viera ria mesma companhia para estes Campos de Viamão". Não se trata pois de um negociante, mas sim de

um indivíduo desde o princípio ligado à atividade pecuária, tornando-

se grande fazendeiro. Certamente era próspero, pois em 1767 temos

um registro de uma criança exposta lia sua casa, indicativo praticameil-

te certo de sua coiidição social e econômica privilegiada. Neste mesmo

ano, Pinto também era vereador lia Câmara de Viamão, mais um indí- cio de sua destacada posição social. De fato, cliegou a ser o maior pro- prietário de escravos de Viamão em 1778,possuindo 20 cativos iiacliiele ano. Na Relação de Moradores (1785) aparece a sua viúva, Felícia

Antônia de Oliveira, que estava de posse da "Estância Grande", a qual "foi doada ao dito Antônio José Pinto por Domingos Ferriaiides de Oli-

Minas Gej-cri5do séc~uloX1TII- Es~rntiginsde ?-e,si,stêncinalriivés dos testnvzentos. São Paulo: Aniiabliime; Schwartz, Stuart B. (1988) Segtedos inlernos -Enger~hose ~SC~CC~IOSnn sociedade coloninl. São Paulo:

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n6niici~i10 pr,.ín(/o ioloninl São Paulo:

Hucitec/Fapesp, 11. 123-159; Silva, Maria Beatriz Nizza

da. (1998) Ifistri~indnjiznzilin n~oB,-n.ril colonicil. Iiio de Janeiro: Nova Fi.c,riteira; Sleiies, Iiobei-t

M ( 1!)99). Na sr~~,znin,u~iln/1or e~s,i)e~~n?zç(~se recordn~6e.rn,n ,fi,~rr~nçcioiln fi~))lilineso-clim. Kio de

Jaiieiro: Nova Fi-oiiteira;Riilrii, Fábio. (2001) "liio Graiiclc de S5o Pedi-o: popiilaqão e socie- dade ira Segiiiida metade do sicolo XVIII", Pi~pei-apresçiitado iio 2' Seiiiiiiário de tlistúria Qiiariiitativa e Serial, Belo I-lorizoiite.

veira, que a possuía a muitos anos aiites cla doação, e qiiase 30 anos está no domíilio do doiiatário"." Este reduzido grupo de grandes proprietários detililia cxpressiva parcela da escravaria em Viarnão. Se tomarmos os 20 maiores proprie- tários (de um total de 160),todos com 8 ou mais escravos, temos que eles coiicentram 230 cativos, ou cerca de 35% do total de escravos da freguesia (conceiitração menor do que em 1751, no entanto).A estru- tura de posse de escravos revela, contudo, que a grande maioria dos proprietários se situava na faixa de 1 a 4 escravos (104 em 160),ou s-ja, 65% do total dos seriliores eram pequenos escravistas. Em 1751 a presença da família nuclear escrava se fazia sentir ainda de forma tímida, mas com o desenvolvimento da coloiiização eni Viarnão, aparentemente as condições tornaram-se mais propícias para

o surgimeilto de relações familiares entre os cativos. De fato, o rol de 1778 indica que o número de famílias escravas cresceu, mesmo que apenas de fornia indireta. Das 160 UC que tinham pelo menos um cati- vo, apenas 16 (10%) explicitamente indicavam a presença de famílias escravas. No entanto, em 58 (36%)das 160 UC escravistaseiicontramos plantéis compostos por inoceiites escravos, o que indica que talvez o pároco tenlia registrado sornerite os casais de cativos c~?jaunião tivesse sido celebrada pela Igreja. Naqueles caso de uniões conserisuais - cer- tamente a maioria entre os cativos - o recenseador paroquial omitia a existência de uma famíliaformalmente coiistitiiída, o que não quer dizer que ela não existisse. Talvez se os dados de 1751 também iiicluíssem os inocentes o percciitual por nós encontrado pudesse ser alterado, pro- vavelmeilte iio sentido de um acréscimo.

O rol de 1778 evidencia a transformação ocorrida lia composição

do contingente de traballiadores existeiites em Viaiiião. Eni primeiro

lugar, a escravidão indígena desapareceu definitivameiitc, certamente

8 AHCMPA, Aiitos tleJustiticaçiio cle Matrirnoiiio, 1757,ii"; lql,ivrode Óbitos de Viarnão (1748- 1777) e Rol de Coiifessatlos de 1778;Anais do AHPA, vol. 5, 1992, 11. 15-17;AIJKS, Kelaçio de R.lorac1oresde Viarnão, 1785. Dorniiigos Fernaiicles de Oliveira era iim homem de iiegócios do Kio de Jaiieii-o,praça lia qual estava raclicado e atiiava tias campaiilias do sul desde o final da tlbcada de 1720, onde rnantiiilia atividades comerciais lia C;oloiiia cle Sacrainei~toe na Bancla Orieiital. Para lima descrição siimár-ia de suas ati~~itiadesiia região ver Pracio, Fabrício Pei-eii-a. (:ol611in do ,Y(~i-rn~n)nerz/o:cor)ié7xio e sot iedrzde nn fbnteirti /)lLii7ln (1716-175'53).Porto Alegre, PPG- E-Iistcíria/UFKC;S (tliss. Mestrado), 2002, Parte 4. Algiiiis aiios depois, ern 1741, Oli\"eirarece- beu lima coiicess5o tle sesrnai-ia, "um campo de 3 légiias tle compritlo e urna de lai-go, na pai-a- gem chamada Viamào,jiii~to(ias cabeceiras do Rio Graiitle". Qi~ancloos registros pai,oqitiais cte Viamão come~ai-ania sei realizados, a parti1 de 1747, corneçarn tanibéin os registros cle batis- mos de seus escravos, "moi~adoiescla estiiiicia grande". Foi esta pi-oprietlade - wja carta de coiiiii. i~iaçáot: de 1756 -que cle dooii ao sViiprotegjcio, Aiit6iiioJosé Ijinto. AI-ILJ-KJ,11"1$181$)-10H29>e AFI ;h11'14. 1' Z,ivro de IjnLi,s~t~os(1.e14(?))l&o(I 747-1758).

sob o impacto das restrições formais operadas durante o período pornbalino. De qualquer forma, a administração indígena já era uma instituição em decadência no início da década de 1750?sendo muito mais importante o uso da mão-de-obra indígena aldeada diirante as dí-cadas de 1760 e 1770. Seguiido, também desaparece neste ceriso a figura dos "camaradas", presentes em 1751.É possível que esta catego- ria tenha sido incorporada àquela dos "agregados". Estes indivíduos, sujeitos a alguma forma de subordinação pessoal, nunca chegaram a se constituir em uma categoria muito expressiva, soniando poiico mais de

3% da população total. E, por último, permanece pouco significativa a presença de indivíduos forros ria composição geral da população, não

ultrapassando meros 1,576. Mais uma vez, uma suposição viável é pen-

sar que houve um subregistro dos "'pardos forros", vistos como "bran- cos",já que militas vezes o recenseador mencionava explicitameiite que se tratavam de "pretos forros". Um outro aspecto relevante que pode ser apreendido do rol de 1778 refere-se à substancial queda verificada na razão de sexo, tanto entre os livres, assim como entre os cativos. No caso da população livre, os números mostram uma sociedade fortemente arraigada em um pa-

drão de colonização familiar. Se em 1751 a taxa chegava a 182, iiidican- do uma supremacia masculina, em 1778 ela caiu substancialmente, che- gando a 104. Ou seja, havia uma distribuição equilibrada entre mulhe- res e homens livres em Viamão neste momento, o que pode ser parcial- mente explicado pelo "envelliecimento" de algumas famílias de povoadores originais: um indicativo é a presença de m~ilheresviúvas em 20 das 245 UC. No caso dos escravos também ocorre uma diminui- ção da taxa, com uma queda relativamente mais abrupta: ela passou de

329 em 1751 para somente 172 em 1778. Aqui temos oiitro indício

qiie a coiifiguração da população escrava poderia oferecer melhores condições para o deseiivolvimento familiar, cornojá apontamos." Por último, ainda com referência ao ceiiso paroquial de 1778, cabe retornar à questão das redes familiares. Mesmo que este rol riao esteja dividido em "bairros rurais" como 110 caso de 1751, fica patente qiie a ordem de recenseamento seguia, de alguma forma, a ordem espacial. Em outras palavras, "esta domiiiâiicia da família nuclear deve ser matizada, quanto aos seus efeitos sobre as relações sociais, pelo fenomeno da estreita proximidade espacial que permitia o fiiiicio-

de

C) Os cii1c~iIosdas taxas de rnasculiiiicla<le iião forarn realizados a partir da popiilaçao total cla freguesia, visto qiie o rol nào especifica o sexo cios "iiioceiites". Desta forma, descoiltados os 307 iiiocentes mais os 45 casos ilegí\.eis tios qiiais c1.a inipossí~,elcletermiilai-o sexo dos receiiseados, o riúrriero o total de intlivíciiios fi)i de 1267 (785%dci populaçáo totíil).

namciito de redes familiares horizontais muito extensas em um espa- ço relativaniente próximo"."' Este parece ser o caso da "rede" de Dioiiísio Rodrigues Mendes, um dos primeiros povoadores de Viamão. Ern 1'778, ela envolvia além do próprio Dionísio, sua mullier, neta, escravos e agregados (moradores todos da mesma unidade domésti- ca), mais outros 3 "fogos7',um do seu geiiro José Machado da Silva e outro dois compostos por seus fillios Francisco Roiz e André Beriiardes. No seu conjunto, estas 4 UC continham 21 pessoas livres, 3 agregados

e 25 escravos. Passemos agora aos recenseamentos de cunho oficial, deixando de lado, por um momerito, os róis de confessados. O primeiro recensea- mento determinado pelo governo colonial ocorreu somente em 1780, no início da administração do governador Sebastião Xavier Cabra1 da Câmara. O detalhe é que, ao que tudo indica, este censo foi realizado com base nas iiiformações paroquiais. Em carta-circular, datada de 5/ 6/1780 e dirigida aos párocos das freguesias do continente, o próprio

governador ressaltava que era "conveniente ao Real serviço que eu seja instruído do número de moradores de que se compóem o Continente do Rio Grande, que vim governar, com declaração das diferentes cir- cuiistâncias em que se acharem, por exemplo, honieris, mullieres, ve- lhos, sujeitos capazes de pegar em Armas, meninos, casados, solteiros, escravos e escravas C ". No entanto, as coisas não se apresentam de forma tão simples ao

]

o censo de 1780. No caso de Viamão,

o rol de 1780 nos dá um total de 1691 fregueses, serido que destes 312

são "menores só de coiifissão". Não consta o nílmero de "inocentes", como em 1778.no censo oficial, a população de Viamão no mesmo ano é de 1891 habitantes (s~ipostameiiteiieste número incluem-se os inocentes), sendo que os meninos e meninas '6decoilfissão" são 317. Não sabemos de que forma explicar estas discrepâncias: talvez no caso dos inocentes os párocos tenham eiicaminliado esta informação em separado para o goveriiador. O que causa certa estrarilieza é a propor- ção relativamente baixa de inocentes em relação à população total em 1780, de apenas 10,6%.Para efeitos comparativos, eiri 1778 os iiiocen- tes compunham 19% da população total da fi.egilisia.

cotejarrnos os dados dos róis com

10

Cai 'n.aglia, Judri (:,ri

10s. (1090) f'autor ~u y 1ahtntlo)e~.Una hzrlo, zn np ana rl~La ccctn/)cc6a hor1c~~li.n,P

1 1

(1 700-1830).Biiiiios Alies: IEIIS/Etlicioiies de Ia Floi, p. 73. AHKS. Cód. A. 1 O6 - (;o1 I espoiidêiici'i Expedida (1780-1784), fl 4

Feitas estas ressalvas clriaiito à corifiabilidade deste ceiiso de 1780, podemos tentar analisar alguns aspectos da evolução demográfica da freguesia. A população escrava decresceu ligeiramente em relaçrio a 1778, mas coiitinuava elevada: 39,676. Aliás, das 14 freguesias então existentes, Viamão era terceira colocada quanto às pro~orc;õesde es-

someiite para Ti-iuiifo (50,1%) e Vaca-

ria (43,4%).Na média de todas as freguesias, a população escrava cio Rio Graiide de São Pedro era equivalente a 28,5% do total. O censo de 1780 também permite que comparemos as taxas de mascilliiiidade da população livre e cativa. Neste aspecto, novamente verificou-se um decréscimo: no caso dos livres ela caiu de 104 em 17'78 para 100 em 1780 e no caso dos escravos a queda foi ainda maior, pas- sando de 172 para 142. Como o ceiiso 1120 trnz maiores detalhes sobre a pop~ilaçãoescrava, os dados para análise ficam bastaiite liinitados. Por seu turno, os dados do ceiiso de 1798,o último do século XVIII, são bem mais completos, abrangendo homens e mullieres "de todas as condições, estados e idades". O primeiro indicador a ser analisado refe- re-se ao número total de escravos na populaçrio total. Para o continente como 11111 todo, este índice cresce eritre 1780 e 1798. Neste ultimo alio ele chega, na média, a 37%. Mas, mais iima vez, eni Viamão, a tendêii- cia é decliiiaiite, o que nos levaria a pensar numa inexorável decadêii- cia da escravidão africana na freguesia lia medida em que nos eiicami- iihamos para o século XIX. Todavia, não é exatamente este cenário que se descortiria quando observamos os núineros dispoiiíveis, confornie dados do Quadro 111. Em outras palavras, pode-se dizer que h5 um recru- descimerito do escra\iisino em Viamao, sendo que eiri 1830 o percentual cle cativos supera aquele existente eni meados do seculo XVIII.

cravos na popiilação, perdendo

Quadro 111- População escrava eni Viamão (1751-1830) "

12 Fontcs: ,4I1(:r\II'i?l, i(íi5 tle coiifeas,itlou clc 1751, 1778 e 1830; BNKJ, cód. 9, 4, 9 c AI IIJ-RS, cx. 9, doc. 43 e 44.

A teiidêiicia de i~eversãotambéin passa a aparecer nas taxas de

masculinidade, sendo que tanto livres como escravos apresentam au- merito no iiúmero de homens. A população livre, que estava equilibra- da em 1780, passa a ter unia taxa de 114, ao passo qiie a população escrava ascende para 178, talvezcomo reflexo da retomada das aqui- sições de riovos escravos, inajoritariameiite do sexo masculino. Eiifirn, este celiso de 1798 também permite vislumbrar algo sobre a família escrava, ou ao menos, sobre o acesso ao casamento formal entre os cativos. Em Viamão, somente 6% dos homens escravos eram legalmente casados, eiiquanto entre as mulheres este iiúmero subia para meros 1176. Estes perceiituais modestos de casamentos entre escravos mostram as dificuldades no acesso ao sacramento do matrimônio para os cativos de Viamão. Ao que tiido indica, o priiicipal entrave era a pi-ópria estrutura de posse de escravos da freguesia, onde, conlo vimos, preponderavam os peqiieiios escravistas.

I1 - Gente da fronteira: estratégias familiares dos primeiros povoadores

As elites coloniais no Brasil vêm sendo objeto de inúmeros estudos

por parte da historiografia receiite, a partir dos mais diferenciados erifoques. Uma destas novas interpretações abraça urna perspectiva que subverte os princípios básicos do quadro teórico do 'kiitigo sistema colonial" (Fragoso e Floreiitiiio) , dernoilstraiido a relativa autoiioniia ecori6mica das elites nativas - no caso, do Rio dcJariciro - diaiite das pi-cteiisões coloiiialistas metropolitanas. Outra corrente é represeiita- da por aqueles trabalhos de história social lios quais os grupos domi- nantes são arialisados em relação aos demais grupos formadores da so- ciedade coloiiial. Este é o caso das abordagens de Schwartz e Faria, respectivamente sobre os seuliores de engenho baiaiios e do iiorte fl~imiiiense.Existem tamlléni autores que se prendem ao estudo espe- cífico das Pziniílias de elite, nomçadameilte para o caso de São Paulo coloiiial (Bacellar, Costa e Metcalf). Temas como os sistemas de lieran- ça e as estratégias familiares de reprodução patrimonial são alguns dos aspectos que sobressaein iieste tipo tle ariálise.'Wo entanto, com exce-

FI-agoso,.]oâo1,rtís. I-~«J~~P?Is~C~J~SSCIf~?lelllll,~.r~:~czL)~~I~~oc(I»P Ili~rr~ryleiaHCI /)~a(cr,)l~,rfi~llil((o[<i» tlP

J~ln~i).o(I790-1830).Rio de-Iaiicii-o:(:i\,iliza~áoBrasileira, 1098 (1.etl.); Floi-entiito, Manolo.

EJIIcostrr.~7irg~ns:~rnrn/~islr.ji.indo Ircifico d~ P.\O.(IVOSe12tre n Á/jj,'a P O Rio (IP,J~LM?~Ju(.s~~lll0.551'1ll e ?il.Y). Sâo I'a~ilo:(lia. clas 1,cti-as, 1997: Scli~vai-t~,Sl.iiar.t 13. Seg~v(lnrI~IL~P).IIOJ:PI/~P'~PIL/~O.Se /<SC~.~/UOS

ncr socierlndr c.o/o?/irll.Sáo Paiilo: (:ia. das 1,eti-as,1988;Fai-ia, Slieila rle

ção da tese de Osório sobre os hzendeiros e comerciaiites do Mio Grari- de do Sul colonial, não existern traballios específicos para esta região particular da América portuguesa. Todavia, não foi objeto de sua aten- ção a questão das estratégias familiares deste grupo dominante, aspec- to que consideramos fundamental para a própria reprodução econô- mica deste estrato social, qiie estava iiitimamentc viiiculada à questão da transmissão patrirnonial.14 Antes de iniciarmos a análise das estratégias de duas das princi- pais famílias do período coloiiial, devemos prestar aqui um breve escla- recimento conceitual quanto ao que entendemos por farnllias de elite. Em primeiro lugar, o termo "elites" será utilizado de forma muito am- pliada, sendo elas "definidas como grupos superiores, [ segundo três critérios: statw, poder e riqueza".lWertameiite não faltaram os 3 atri- butos referidos por Burke nestes pequenos potentados dos confins do Império luso-brasileiro. No caso particular do Brasil colonial, somente a posse de (muitos) escravos possibilitava uma distinção socioeconômica que poderia projetar um indivíduo em direção aos es- tratos superiores da hierarquia social. Mas iião era somente a riqueza que definia este grupo, mas também o acesso a cargos públicos ou nier- cês, também importantes na defiiiição de um stat~csdifereiiciado na sociedade colonial. Neste sentido, este griipo (a elite colonial), mesmo não tendo autonomia em relação aos imperativos metropolitanos, foi de fuiidamelital importâiicia para a garantia e a manutenção dos irite- resses portugueses na América meridional.'" Não se trata aqui, diga- mos logo, de recuperar trajetórias iildividuais com um intento de eiialtecer a ação de alguns "grandes homens", mas sim inserí-10s no

]

Castro. A colhia em t~io7~imen/o:fo~tz~i7,aejkmilia n,orotidinno co/o~lial.Rio deJaneiro: Nova Fron- teira, 1998; Bacellai; Cai-lostle Almeida Pi-ado. Os senhoizs da íerrn: faniília e sistema sucesscírio enti-e os senhores de engeiiho do oeste paulista, 1765-1855.Campii~as:Centro de MemGria/ Uiiicainp, 199'7;Costa, nora Isabel Pailia da. Hernn,ça e ciclo de vida: iim estudo sobre família e populaçáo. Campiiias: Sáo Paulo, 1765-1850. Niterói, PI'GHistória/UFE; 1997; METÇALF, Alicla. Fainily antl Froiitier i11 Colonial Brazil: Santana de P~I-iiaítja,1580-1822. Berkeley, Uiiiversity of Califòrilia Press, 1992.

1.5

Biirke, Peter. Iktzeza e Anzster(L6: um 1991, p. 16.

estudo das elites do século XVII. Sáo Paulo: Rrasilieilse,

16

"A expaiisáo e a coiiêj~iistade novos tri,ritórios permitiram à coroa portiigiiesa atribuir ofícios e cargos civis e militares, conc:eder privilégios comerciais a iiicIi\lídiios e grupos, dispor de no\.os rendimeritos L Tais coricess6es eram o desdobi-airicrito de uma cadeia de ~wclere de recles de hierarquia que se esteildiarn desde o reiiio, propiciando a expaiisão dos interesses ineti-opolit;tnos, estabeleceildo vínciilos estratégicos coiii os colonos" in:João Fragoso, hlaria

]

Fei-naiitia Ricallio e Maria cte F5tima Silva (;oi~\-ea,organizaclort.s. O Anl& I<cgirnt!11,05 3-ól,ifos:

a diiiáriiica imperial portugtirsa (sCciilos ><VI-XVIII).Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 200 1, p. 23.

coiitexto mais arnplo de rela~óessociais, ecoiiómicas c pollticas da se- gunda metade do século XWI1, período fundamental para a configura- ção dos territórios lusitanos na América do Siil, e particular-mentepara a região que viria a se tornar o Rio Grandc do Sul. A análise dos casamentos não é arbitrária, pois os rnatrimôiiios constitiiíam não apenas urn importante momento para o cstabeleci- mento de aliaiiças, nias marcavam também o estabelecirnei-itode um novo núcleo e a garantia dc manutenção do ciclo familiar. Através do estudo do comportamento matrimoiiial, elemento fuiidame~italdas es-

tratí-giasfamiliares, torna-se possível, como afirma Levi, "tirar para dan- çar [ a sociedade inteira". Nossa concepção de família é apropriada da vertente microhis~brica,pois a compreendemos no seritido de "gru- pos não-co-residentes mas interligados por vínculos de parentela consaiiguínea ou por alianças e relações fictícias qiie aparecem ria iie- bulosa realidade institticional do Antigo Regime, corno cunhas estruturadas que serviam de auto-afirmação diante das incertezas do

I

]".I7

mundo social [ Portanto, não tratamos da família nuclear someii-

te, mas sim de sua "versão ampliada", que abrange além do núcleo fun- dador origiiial, o coiijuiito de iiúcleos familiares associados.Assim, para designar este grande griipo familiar, composto pelo "fundador da li- nhagem", seus parentes diretos, colatei-aise por afinidade, ~itilizaremos o termo "iiúclco parental", c~iiihadopor Levi. Trata-se de expressão

perfeitamente adequada à realidade por iiós estudada, conio rio caso

das famílias de Jerónimo

de Ornellas e Francisco Pinto Bandeira, am-

bos represeiitaiites da primeira elite colonial sul-rio-graiidense. Jerônimo de 01-nellas de Menezes era um dos mais aiitigos povoadores dos Campos de Viamâo, com sesniaria rio atual Morro Santalia. Seguiido o seu próprio dcpoinieiito7'~stabe1eceu-seem Viamâo por volta de 1734, tendo constituído uma extensa família, com 10 fillios legítimos, sendo 8 mulheres. Para felicidade deste madeirelise, nascido rios filiais do séciilo XVII, o fato de ter tido muitas filhas foi decisivo na estratégia de reproducão deste grupo familiar, O casanieiito

17 L,evi, Giovatiiii. Centro e/)e7*!/erindi u~co.~/aloas.solulo. Toi-iiio: Roseii berg e

Sellier, 198.5, p. 152

e il herança imnreric~l:t~njetói-iade uln exorci.rta no I->ie)~zo~zte(10 sic~~loXVIl. Rio deJanciro: (~i\~iliz~i-

çáo Brasileira, 2000, p. 98-99.

bem lenibratlo estou

qrie no ano de 1'732estando Vossa h4ei,cê com seus animais 113 Ferreira ao pé da Guarda, eu e Sebastião Francisco o trouxernos a \/assa Merc6 para dentro e Ilie demos esse campo aonde V.

18 Em uma cai-ta dirigida à Miguel Bi-cis,Jeronirno

declarou qiie "[

Imilito

Mercê assiste e veio I! Mei,cê somenie a po\roá-lo [ e passados dois aiios ti.ouxe eu a miiiha

Este docii-

nieii to encontra-se i-eprocliiziclo ?rn Joi-ge C;. Felizardo. O sesr,i,eiro do Mol-,-o (JP kYaf~l>I 110. Sáo I'aulo: Empreza Gi-apliica da Kevist;~dos ?i-ihunaes, 1940, p. 41.

família para iniiilia fàzt.iic!a e depois ti.ouxe 1'. A4ercG seu I'ai e seiis iriiiãos

I

I".

desta filhas com adventíciosrepreseiitoii a possibilidade de alavaiicagem ecoiiômica deste iiíícleo pareiital, seiido que alguns dos herdeiros des- ta família serão proprietários de enormes fortunas nos princípios do século XIX. A história da família de Jerônimo de Ornellas pode ser dividida em duas fases distintas, uma ligada ainda a Laguna (os 3 primeiros gen- ros) e outrajá associada ao estabelecimento em Viamão e depois Triuii- fo. De fato, os matrimônios das 3 filhas mais velhas de Jerônimo iiidi- cani que ele se valeu, em urn primeiro momento, do seu circuito de relações ligado ao tropeirismo.José Leite de Oliveira, Francisco Xavier de Azambuja e Manuel Gonçalves Meirelles foram todos tropeiros, à semelhança do próprio Jerônimo, que teve filhos ilegítimos com mu- lheres oriundas das Minas e de Curitiba, pontos cruciais da rota dos tropeiros de gado. Esta filiação bastarda, aliás, nos revela um pouco a respeito dos caminhos percorridos pelo sesmeiro do Morro Santai~a.~" Por outro lado, se tomarmos outra fonte, como os registros notariais, podemos reconstruir um pouco das redes comerciais e de sociabilida- de de Jerônimo de Ornellas. Em janeiro de 1764, o velho sesmeiro apre- seiitou-se "em pousadas" do Tabelião Ignácio Osório Vieira, onde regis- trou uma procilração, riomeaiido representantes seus em diversas loca- lidades: na própria freguesia de Viamão, na freguesia nova (Triuiifo), em Rio Grande, na ilha de Santa Catarina e no Rio de Jaiieiro. Dos 17 procuradores que nomeou, 4 eram seus geiiros, o que demoiistra a importância dos maridos de siias filhas como herdeiros e representan- tes de seus negócios. Assim, iia fase filial da sua vida, aparecem ligações com outras regiões, em particular algumas cidades portuárias, difereii- temente das regiões iiiterioranas anteriornieiite citadas e percorridas pelo sesnieii-ode Santa Aniia, lia fase tropeira de sua vida.") Q~iaiitoaos outros 5 geiiros que compõem a pareiitela imediata de Jerôiiinio, podenios perceber uni outro perfil, especialmeiite quaii- to ao tipo de ocupação. Nenhum deles tiiiha sido tropeiro e neni todos tinham concessões de sesmarias. Dois eram militares de carreira, sendo o ííltimo genro provavelmeiite lavrador e o menos aquinlioado de to- dos. Q~iaiitoà origem geográfica, pei-mancceo predomínio rninli~to~~ (3 dos 5 geiiros em questão), havendo um origiiiário de Coimbra e outro da Madeira. A fami'lia Orliellas também incorporou dois cornc:r-

19

Estas i11fi1rrnaç6essáo retiradas de dois termos de batismos de netos deJerÔnimo tle Oriiellas.

Vt:i- AI-Ií;h/lPh. 1qI,izi~ode Bnli.rmos

dp 17innz~o(1747-1759), fls. 60 e 84.

20

XI'KS -

1" Notariado de Porto Alegre, I,i\,ro 1 (176~3-17(i6),fls. 18v-1'3.

ciaiitcs, que provavclmeiite não eram de grossos cabedais, ao iiúcleo parental, que se via beneficiado pelo seu provável acesso a algumas das redes comerciais que iam se constituindo nesta região da América Por- tuguesa. Mesmo que tenham sido mercadores de menor expressão, certamente aportaram algum capital ao circuito familiar, toriiando-se eles próprios também fazendeiros. Na verdade, em termos de estratégi- as matrimoniais, Jerônimo foi extremamente bem-sucedido, pois coii- seguiu realizar pelo menos 7 casamentos (num total de oito) que im- pulsionaram o desenvolvimento do núcleo pareiital. Aprofundando ainda mais a análise do núcleo parental de Jerônimo de Ornellas podemos perceber os efeitos das estratégias fa- miliares sobre o grau de acumulação e nível de prosperidade dos seus membros. De fato, não parece ser casual que entre as 10 maiores for- tunas iiiveiitariadas rio Continente entre 1765 e 1825, duas fossem pertencentes a indivíduos ligados à família do sesmeiro de Saiita Aniia. Estes são os casos de Antônio Xavier de Azambuja, neto de Jerônimo e Antônio Ferreira Leitão, marido de uma neta sua.22Esses dois indi- víduos são represeiitativos do topo da escala social, que seriam consi- derados como membros da "elite" em qualquer lugar do Brasil colo- nial. Tomemos o caso paradigmático de Antônio Leitão como o da trajetória de um membro típico desta elite que estamos definindo. Natural da vila de Peniche, cidade litorânea da Estremadura portu- guesa, ele nasceu em torno de 1730, tendo iiiiciado sua vida como marinheiro lia frota que fazia a rota Lisboa - Rio de Janeiro. Eni uma destas viageris, acabou ficando ria futura capital do vice-reiiiado, onde "se pôs a navegar para a vila do Rio Grande e para a dita cidade [do Rio de Janeiro] e algumas vezes para esta freguesia de Viamão, onde está morador iiesta freguesia nova [ ".Acabou se estabelecendo em Triuiifo, ondejá em 1760 tiiilia "sua casa com vários gêneros de fazen- da" e acabou se casando neste mesmo alio com Maria Meirelles de Menezes, filha de Manuel Gonçalves Meirelles, genro de Jerôiiimo. Não se tratava de mercador de restritas relações, pois possuía procu- radores em Viamão, na ilha de Santa Catarina, rio Rio de Janeiro, em Lisboa, além da sua cidade natal, Peiiiche. Todavia, como muitos outros comerciantes coloniais, Antônio Leitão acabou gradualmeiite abandonando os negócios e dedicando-se à atividade de estancieiro, que lhe conferia um stutus social mais elevado, dentro desta socieda- de de Antigo Reginie, onde a rnercância estava associada ao "defeito meciiiiico", não coiií'eriiido prerrogativas de nobilitação àqueles que

I

se dedicavam a esta atividade.Assim, na Relação de Moradores (1784)

ele constava

grande criador de mulas, pois possuía 48 echores. Como uma elite não se define somente pela riqueza, inas também pelo poder, vamos

encontrá-lo por esta mesma

mara em Porto Alegre, conduzindo processos criminais. Enfim, no seu inveiitário, datado de 1810, consta um vultoso monte-mor de mais de 43 contos, sendo que ele possuía cinqiieiita escravo^.'^ Jerônimo de Ornellas morreu em 1771, tendo convivido corn to- dos os membros da sua parentela que foram mencionados até agora, mas o inventário foi aberto somente no ano seguinte por sua viúva, Lucrécia Lemes Barbosa. Observamos no seu caso, uma discrepância em relação ao padrão das estratégias familiares verificadas entre os se- nhores de engenho paulistas, por exemplo. Diferentemente das famíli- as da elite caiiavieira, que acabavam privilegiando deterininado herdei- ro na hora da partilha, nesta família de estancieiro a partilha foi, ao menos em tese, rigorosamente igualitária entre os herdeiros. Seria esta uma prática comum do conjuiito das famílias da elite sul-rio-grandeiise? No momento não é possível ainda responder esta questão, mas indí-

cios de que pode ter havido um padrão senielhaiite ao de São Paulo no século XVIII em alguns casos, como o da família Pinto Darideira. Francisco Pinto Bandeira era certamente um dos próceres da

primeira elite colonial sul-rio-graiidense, quaisquer que sejam os cri- térios da avaliação utilizados. Para exeniplificai-,a cornparação das for- tunas (montes-mores) constantes nos inventários de Jerônimo de Ornellas e Francisco Pinto Baiideira nos dá bem a iiiedida das dife- renças de cacife entre os dois fdzeiideiros. Coincideritemerite, arnbos faleceram no mesmo ano (1771), o que favorece a perspectiva com- parativa: 1:522$860 reis era a fortuna do sesineiro de Saiitaiia, en- quanto a de Piiito Baiideira a1canc;ou o total de 12:997$040, ou seja um patrimoiiio 8,5 vezes rnai~i-.'~ Francisco Pinto Bandeila nasceu em Laguna (1701),sendo neto

irI como fazendeiro, dono de mais de 7 iiiil animais e
d

época (1782) como juiz ordinário da Câ-

de Francisco Brito Peixoto e uma índia carijó. Seu pai, José Pinto

Ban-

2:3

AI ICA/I[-'A,Hfl/jilitn~ciol~intri~~zoninlele An!c?~?,ioP?j.1-c.il-nI,eit6o &? hinr-ic~iZ/lei~ellesde A~fenezrs.Eieiiifo,

17(jO,n"7;

APKS, IWotariado, L,ivi.o 1, fls. 89-90 (19.01.17(35)e Cartót-io do Júri - Sirmários,

Maço 1, 11"

(1782);AlIIIS, Relnç6o de i\/lo~~ntlol~(h Siz~nfò,1784; e

Osório, 11. o/). cil. 11. 242.

24

''Inyen tario cle.Jerfitiiino tfr Ori~ellasMeiieses e

Va,qcoi~celos".In: He-oisln do I~islilrlloWisió1iro

GeoguíJico do Rio G~.nnde(/o SILI,80, 11. 3.57.-416, 1940. O valor do monte-mor está lia p. 390; Itiventái-io tle Francisco Piiito B;~licleira.111: Silva, A~igilstocla. Ii'qli~elPij~toBcindeircl:tle t)aiido-. leiro a ISo\rcrtl;iclor- Kelaqões eiiti-e os poderes pt-ivado e píiblico eni Rio Grande tle Sáo Pedi-o. Porto Alegre, PI>C;-I-Iistória/IJI.'lIC;S,1<)90,p. 158-174. O \ialor do monte-~norvsiá tia t). 169. 0s valores aciina citados referem-se ao rilomeiito eni cluc. f'oi fèito o ":i~itotle partill-ias" de cada iiiveiitArio, o que se dvii eiii 1782 t. 1772, respc.cti\,aniente.

dcira era portugues e sua mãe, <:atarilia de Brito, era fillia mestiça de um paulista (Brito Peixoto) com uma indígena. Apesar de seu nome estar associado a diversos feitos heróicos da história inicial do Rio Gran- de, envolvendo as coriquistas portuguesas (Colônia e Rio Grande) e as disputas com esparihóis e índios missioiieiros, preferimos, por detrás da legenda, eiifocá-I« como exemplo clássico de um patriarca do Anti- go Regime português nos trópicos, o que pode nos ensinar algo sobre o modo de vida e as estratégias familiares de um destacado membro da elite socioecoi~ômica. A presenca de Francisco Pinto Bandeira em Viamão remonta pelo menos a 1739, quando estava "governando a guarda de Viarnão". Ape- sar de seu primeiro filho, Rafael, ter nascido (na verdade, foi batizado) ainda em Rio Grande, é indúbitável que a residência da família já fosse na estância de Gravataí, o qiie é confirmado pelo Mapa das Fazendas (1741), onde Pinto Baiideira aparece deiitre os estancieiros de Viarnão. Dez anos depois, em 1751, no primeiro rol de confessados que dispomos para Viamão, ele tem dezenove escravos africanos, além de iim índio cativo. No seu inventário, executado em 1772, o seu plante1 de escravosjá havia praticamente duplicado, serido neste momento de 37 cativos. Indício claro da capacidade de acuinulação deste meinbro da elite colonial, que através de estratégias diversas, como a apropria ção privada de terras ou as corridas de gado,2%oiiseguiu multiplicar sua riqueza em um período particularmente conturbado da coloniza- ção lusitana 110 Rio Grande, coiiio foram as décadas de 1760 e 1770, niarcadas pelos conflitos com os espanhóis. Assim como Jerônimo, o estancieiro de Gravataí também teve uma numerosa descendência, totalizaiido oito fillios, sendo 4 liomens e 4 mulheres. Nos deteremos priiicipalniente nesta parentela direta de Francisco Piiito Bandeira, com exceção do caso de Rafael Piiito Ban- deira, q~iedispõe de um documeiitado estudo feito por Augristo da Silva. No caso desta fimília de elite, parece que realmente o herdeiro privilegiado foi o priniogênito, apesar das leis igualitárias de sucessão em vigor no direito português. A partir de uma "lierança pouco coiivin- cente", lias palavras do biógrafo de Rafael, o filho mais velho de Fran- cisco pode constituir rima das maiores fortunas do Continente, tlasea-

25 Isto foi declai-ado pelo próprio Fraiicisco Pitito Bandeira, como depoente de iim pt-ocrsso de

crisarnento:" I., ] hat.er.5três ai-ios qiie o jiistificat~te[tioi\~o]aiida corn ele testemiiiilia indo \,irias vem à cainpan ha, a coi.t-idas de g;icion.AI-Ií;A/IPA. Ll(zDi/ifc~~cio~rrcllri~iro~zinlr/? Fj;in~zcisco

Ar~lc?)riode il~1io1711~U Isnhrl (hrrricl cio

cni Vianiâo erii 1739 tanibini 6 dacla 11~10pt-ópi-ioKai-ideira, cni oiitra li;ibilitaç,'io, datada de

h-crtlo, Viaii-iiio, 1760, n"

9. A ii-ifòi-i-iiaçãotle que estaria

1753. Cf: Neis, IPiiheri. Gun~dnkll~lrde I'in~rldo.1'01-to Alegre: Stilii~a,1075, 13. 7(i.

da em negócios lícitos e ilícitos e que poderia certarnciite coiistar de qualquer listagem dos mais destacados patrimonios sulinos."' Da rnesma forma que na família de Jerônimo, neste riiicleo parental também percebemos o importalite papel exercido pelos geii- ros. Nos referimos a dois militares, também comerciantes, respectiva- mente Bernardo José Pereira e Custódio Ferreira de Oliveira Guirna- rães. Pereira era natural da vila de Provezende, arcebispado de Braga (Portugal),tendo casado com Maurícia Aiitônia de Oliveira, fillia de Fraiicisco Pinto Bandeira e Clara Maria de Oliveira. Na vila do Rio Grande foi alferes de ordenanças em 1760 e ajudante de ordens do governador Ignácio Eloy de Madureira até a invasão espaiiliola. Com a tomada de Rio Grande pelos castelhanos em 1763veio para Viamão, onde acabou ligalido-se ao núcleo parental de Pinto Bandeira. Quan- do contraiu matrimonio com a segunda filha de Francisco, Pereira recebeu como dote um campo de 3 por uma léguas, afazendando-se em Triuiifo, tornando-se morador na "Ilha do Rio dos Sinos". A traje- tória de Bernardo José Pereira é significativa, pois é de certa forma modelar, iio que tange ao processo de ascensão social de alguns emi- grantes portugueses que acabaram se constituíndo em membros da elite regional duraiite o século XVIII. De modesto caixeiro, passou a bem-sucedido negociante, ao mesmo tempo que exercia fuiições mi- litares. O próximo passo foi o casamento, que lhe guindou a uma posição destacada no núcleo parental dos Piiito Bandeira e lhe abriu possibilidades de compor com a elite fuiidiária local. A etapa final da sua trajetória está marcada pelo ocupação de cargos no aparato admi- nistrativo colonial, o que evidencia mais uma vez sua posição de desta- que social. 6 desta forma que o encontramos no cargo dejuiz ordiiiá- rio, conduziiido "devassas" em 1786 e 1793; 110 primeiro caso iiivesti- gaiido a fabricação de moeda falsa rias vizinhanças de Rio Pardo, "as- sim de moeda castelliana, como de 640 rCis, moeda portuguesa [ ", enqiianto no segundo devassou um caso de assassiiiato de uma escra- va em Pir-atini, que resultou em um "auto de sequestro de bciis" do senhor criminoso que havia cometido o homicídio.*' O percurso social de Custódio Guimarhes, outro genro impor- tante de Fraricisco Pinto Bandeira, guarda muita semclliaiica corri o de Bernardo Pereira, anteriormerate esboçado. Casou-se com Desideria Maria Bandeira tarnbéni no ano de 1763, quando declarou ter idade de 29 anos e scr natural da freguesia dc Nossa Senhora de Oliveira,

]

26

Augiisto cla Sil~a.01).czt. 1,.

43-54.

27

AI'KS.

(:ai-t(íi io do Jtíii - Sii~riáiios, Rllaço 1, 1iV3e 20

Guimarães, arcebispado de Braga. No seu depoiniento afirmou que vivia de neg6cios de fazendas e "viera de sua pátria para a cidade do Rio de Janeiro de idade de 12 para 13 anos [ ; veio embarcado do mesmo Rio de Janeiro para a Praça da Colonia do Sacramento e daí se passou para o Rio Grande e se transportou às Missóes na comitiva do Exército e lia retirada ficou morador nestes continentes de Viamão aonde tem residido há nove anos". Após o casamento também afazendou-se no distrito do Rio dos Sinos, onde era graiide proprietá- rio de escravos. Paralelamente a sua atividade de estancieiro, Guima- rães também permaneceu ligado à carreira militar, chegando ao pos- to de capitão da Cavalaria Auxiliar em 1'782. Era personagem de rele- vo na freguesia de Triunfo, aparecelido até mesmo como testemunha em um processo inquisitorial referente a um caso de bigamia ocorri- do na década de 1'790.28 Apesar de nos determos em apenas duas famílias de elite, pude- mos perceber algumas difereiiças em relação aos padrões básicos da elite dos senhores de engenho. Em primeiro lugar, não parecia ser im- presciiidível o favorecimento de um determinado herdeiro, em fuiição da própria natureza da atividade agropecuária aqui praticada. Difereii- temente da terra dos engenhos, onde a unidade produtiva não poderia ser dividida, a propriedade fuiidiária e os rebanhos eram bens que po- deriam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre os lier- deiros. Este parece ter sido o caso de Jerôiiimo de Oriiellas, que coii- templou cada um dos seus filhos com um pequeno qiiinhão do seu pati-imôiiio, ernbora nos dotes dados às suas íillias não coiistassem ter- ras. Mas, no caso de Francisco Piiito Bandeira, apesar da divisão iguali- tária do patrimôiiio entre os lierdeiros, de Fato houve o favorecimento do filho mais vellio, Rafael. Isto não sigiiifica, rio entanto, que alguiis genros também rião pudesseni ter sido favorecidos, como mostramos no caso de Bernardo José Pereira. Isto nos remete ao segundo aspecto das estratégiasfamiliares, que trata da política de dotes benevolente para atra~ãode "bons" genros, principalmente cornerciaiites. Aqui temos uma aparente similaridade nos padrões cornpoi-tamentais da elite estiidada, pois tanto no caso de Jcrôiiimo, quanto no caso de Francisco Pinto Bandeira, vemos que cm algurria medida esta cstrategia foi adotada. No caso do iaúclco parental de Ornellas, ciicontranios esta prática sendo utilizada tanto por

I

28

AI-Ií:MI'A,

H(ctluh~i~~cz.Viam%), 1763, 11" 2; Aiiais clo AI-IIIS, \ 11, 11. 2.31. F1245, 32-32v; ANT'II Iiiqiiisicão de Lisboa, processo 11" 62.58.

Ii(~cr(,iliincZorti,a/ri~)~,orzinldt? Clrsthtlio filizi)a (/P Oliveira (:IL%IPL(LI.(C~S & L)(~si~k~).i(~iV1a)la

I.

Jerôiiimo, que casou duas de suas filhas com iiegociaiites, qiiaiito por alguiis de seus genros (Azarnbuja e Meirelles), que tambéni procilra- ram atrair pai-a o grupo familiar alguiis mercadores ligados às redes conierciais do centro da Colônia, especialmeiite do Rio deJaneiro (este é o caso de Antônio Ferreira Leitão, que se tornaria um dos rnais ricos proprietários da capitania no início do século XIX). Também a família Piiito Bandeira se valeu da estratégia de atrair homens qrie viviam de seu "iiegócio" para se tornarem maridos de suas filhas. Aqui eiicontra- mos ao menos dois casos importantes, ojá citado Bernardo Pereira e o poderoso coronel Custódio Guimarães. Como miiitos oiitros homens de negócio do seu tempo, ao se casarem estes também foram abando- nando gradualmente a atividade mercaiitil, tornando-se prósperos es- tancieiros. Parece que aqui temos a recorrência de um padrão comum na América Portuguesa, identificado por certos autores, corno Joáo Fragoso e também por Sheila Faria: o comerciante procurava se afastar da atividade mercantil, visto que em termos de status social esta nâio era enobrecedora, ao contrário do ser senhor-de-engenho ou grande fa- zendeiro ou estancieiro. Quanto a uma estratégia de migração dos herdeiros desfavorecidos, visando o desbravamento de iiovas zonas de fronteira agrícola, aqui te- mos uma dificuldade adicional na teiitativa de comparação entre os casos de São Paiilo e Rio de Janeiro e o caso do Rio Grande do Sul. Diferentemente dos casos de Campinas ou Campos de Goitacazes, por exemplo, na região de Vianião e adjacêiicias existia um elenieiito complicador. Não se tratava de iiicorporar simplesmente novas áreas para plantio de canade-açúcar, coiistit~iíiidonovos eiigenlios. A expari- são da coloiiização lusa nesta região, que tanibém demaridava terras para a criação de animais e para agricultura, estava limitada pela exis- tência de uma situação de fronteira muito mais complexa do que um mera fronteira agrícola ou ganadeira. Na verdade aqui temos uma fron- teira entre os dois impérios ibtricos, além de uma fronteira iiidígena (todo o território ao sul do Jacuí era denominado como bgTerrade Ta- pes" ainda na década de 1750).Não era possível aos colonizadores irem simplesmente se expaiidindo pelas terras iricultas, pois haviam litígios quanto a posse das áreas de expansão. Coiiflitos estes que poderiam ser tanto com os viziiilios castelhanos, quanto com os indígenas, fossem eles "selvagens" ou missionriros. 'Todavia, durante os períodos de paz foi possível a expansão em dircção ao sul, garaiitirido aos dorníriios lusos territórios que origiiialmente pertenceriam aos domínios rspa- rihóis. Não é possível percrber o uso da estratégia de migra<;ãodos

i10 caso da família de Jer6iiini0,~jáquc todas

as siias fillias se casani c prrmaiiecem em Viamão ou crn Triunfo. E

herdeiros dcsfavorecidos

verdade que José Raymiindo "migra" para São Paulo, para cobrar dívi- das da família segundo a versão oficial, coiistaiite do inventário, mas provavelmeiite para também escapar àJustiça colonial, devido ao seu envolvimento no caso de um homicídio de iim açoriaiio. Esta estratégia torna-se mais evidente rio caso dos Piiito Bandeira, em que vemos que alguns dos irmãos maisjovens de Rafael acabam se instalarido em Tri- uiifo, fazeiido uni movimerito que caracterizava a ocupação de uma zona de fronteira,que o território desta freguesia era ainda conlieci- do como "Terra de Tapes" na década de 1'150. Neste caso particular, é possível pensar que, dado o favoreciniento do primogêiiito, os irmãos mais novos acabaram procurando terras em outra freguesia, adjacente à de Viamão. O que fica claro nestes casos analisados é a impossibilidade de se pensar as estratégias familiares desta elite iiiseridas eni um modelo sucessório previamerite coiicebido, fosse ele igualitário ou iião. A historiografia que tratou da questão específica das práticas s~icessórias conceiitrou suas análises sobre as elites canavieiras do sudeste. Neste grupo social foi possível identificar pelo menos dois padrões distiiitos, iim matriliiiear - onde a transmissão da herança se fazia pelas filhas, havendo uma sobrevaloriração dos gciiros - e outro patriliiiear, onde a traiismissão patrimoiiial se fazia pelos filhos, embora alguiis genros pudessem ser escolliidos."' O que deve ser destacado aqui é que deiitro de uma mesnia elite poderia existir mais de uin modelo ou padrão sucessório. Para Bacelar, isto se deveria a iima tlifereiiciação na situação ecoiiômica das regióes açiicarciras, algumas rnais diiiâmicas, como o Oeste paulista e outras, onde a atividade caiiavieira passava por algu- mas dificuldades (especialmeiite o eiidividaiiieiito crônico dos sciiho- res de engerilio), como a rcgiáo dos Campos de Goitacases. Segundo este autor, riem sempre seria um privilégio Iierdar um eiigciiho, dcpeii- deiido das condições ecoiiôniicas mais ou menos adversas em que ele se eiicontrasse.") Esta discussao sobre a pliiralidadc dos rriodelos nos remete a uni tema caro aos praticaiites da micro-história, iim certo ceticismo quanto à validade analítica das tipoloçias coristrriídas a firiori. Se to-

29 Na priiiiril-a pprispec~ivaestào os tial~alliosclr Slieila Faria ( 1998) e Alicia Metc;iit (1983). Os

relxexntailtes c-la stagiinclavertente são Racellar (I 997) e Dora Costa (1997). Faria

clcswcani ;i inipoi-íiiici;i (Ir iini parll-jo de tr;iiismissão ni;itrilii-i<:ai-da Iie~iiiça,oiirle os geiiros

~lesernpeiili;inium papel central lias estratégias Eimiliares. Por seii (iiriio, Bacellar e Costa apon tarn cluc as piriticas s~icessói-iasda elite cailavieira p~itilistanao sc dava pela \,i;i niatriliiieat; 1ia1,eiidotiniu opção pr<:l:reiicial pelos honir~rs,enihora iilgiiiis grlil-ost;inibCoi piidessei~iser cscolliiclos Sei-ia iim sisiciria siicess6i-io do tipo "lieicir)g(~iro'~,privilegiiiiiclo 01-21 (3s fillios, ora as filliíis. \'(.i. Bacellar. O~r.s~r/lro~~~rdn /PI.I.{L. I CIO/, p. Ir>.-l6"

e hletcalf

30 Bacellai; o/). cil. 1). 15

18.

marmos as Ordennçóur Filzpinas, veremos que a legislação atribuía unia igualdade na partilha de bens entre os herdeiros. Todavia, este mo- delo "legal" poucas vezes parece ter sido cumprido fielmente, o que nos indica a possibilidade de uma multiplicidade de práticas sucessórias. Isto não significa que não existisse modelo algum, mas antes sugere que os modelos que usamos podem ser pouco aplicá- veis. Giovanni Levi destacou a importâiicia de se repensar a utiliza- ção dos modelos de análise social e nas suas investigações a intenção era construir modelos que dessem conta do caráter processual e generativo de seus objetos, ou seja, "modelos que pretendiam com- preender processos e não apenas realidades estáticas e que para isso deveriam incluir nos seus parâmetros internos as variações, a reali- dade individual". Numa crítica aos modelos estruturais/ funcionalistas, ele passou a resgatar as estratégias individuais e de grupos, no sentido de compreender de que modo engendravam-se nas situações singulares os processos sociais de grande escala. Daí decorre o uso da metáfora da rede - influência de Barth - para des- crever o tecido social: "O conceito de rede conduz de fato, antes de tudo, a procurar definir quais são as ligações reais que sustentam os grupos sociais e quais são os conteúdos profuridos que neles são ne- gociados". Esta negociação implica em admitir a existência de "es- tratégias" individuais e de grupo que podem ser reconstituídas, de- volvendo ao historiador a inteligibilidade dos comportamentos ~ocinis.~' Não se trata de reconstruir situações típicas, mas como afirma o historiador italiano, "revelar os elementos constitutivos de um mode- lo". Como destacou Lirna i?" "a crítica aos macro-modelos estáticos ba- seava-se antes de tudo em uma recusa do seu pressuposto básico, isto é, a concepção de que a estrutura social ampla era constituída de iim modo totalmeilte homogêneo e respondia a uma coerência iriterila que ex- plicaria por si só todas as variações". Esta perspectiva, assentada em uma descorifiança em relação aos grandes esquemas abstratos dc cxplicação histórica e na recusa de ur;ia causalidade meca~iicistao levou a tentar entender as formas familiares a partir de uma tipologia construída a posteriori. Não se tratava de tima "simples descrição de forrrias", mas sim da construção de um rnodelo processual ou generativo onde aparece- ria a eriunciação dos seus "priiicípios de fun~ionamento".~~Quais seri-

31

Lima FY,Heiirique Espada Kodiigiies, Miiiortoiio: rsrolor, indirior r siriguLulriiidni1rs. (hmpinas:

Uiiica~np,19914 (Tese de cioiirorado), p. 25" 258-2.59. A iclkin origiiial dos "modeios geiiei-ativos" vem tarrih6rri da iiiiluêsicia tjarthiaa sobre t,evi.

i2

l.evi, 01). rii p. 99: I.inia F", o/>. rii p

257 r Koseiir~l,Paiil-,411drk. "Cuiisti~iiiio inacro prlo

niicro: Fiedei-ik Bartli e a riiicrostoi.ia". 111:Jogos tle c.st.c~ln,s.Rio de Janeiro: Editora cla F(;l',

1998, p. 164-166.

am, então, os elementos constitutivos de um modelo sucessório em uma sociedade de Antigo Regime que não estava viilculada à agroexportação!

Esta era uma sociedade que supostamente se diferenciava das socieda-
I

I des da região canavieira do sudeste, especialmente pelo fato da trans- missão das heranças não envolver o problema da indivisibilidade dos engeiihos. Considerando o que foi observado nas nossas histórias de família,pode-se elencar os sepintes elementos de um modelo sucessório que possa dar conta das realidades sociais do extremo sul da América Portuguesa durante a segunda metade do século XVIII:

As formas de transmissão patrimonial não apresentavam u.m padrão per- feitamente definido, prevalecendo uma tendência matrilinear, matizada pela possibilidade de favorecimento de alguns filhos;

.A concessão de dotes era uma prática fundamental, significando a for- mação de novas alianças familiares, com arranjos matrimoniais envol- vendo, quando possível, genros comerciantes ou indivíduos que tives- sem alguma posição social de destaque;

.A ascensão social dos comerciantes que ingressavam nas fdmílias terratenentes passava, na maioria das vezes, pela ocupação de cargos na Câmara ou postos nas Ordenanças, sendo que o caminho mais comum era o negociante tornar-se fazendeiro após o casamento;

.A migração de alguiis dos herdeiros excluídos para uma região de fron- teira era prática recorrente, sem que esta opção se configurasse necessa- riamente como desfavorável, na medida em que possibilitava o acesso a recursos materiais importantes (como a posse da terra, por exemplo).

A transmissão das heranças podia assumir formas muito diferen- tes. No caso da família Pinto Bandeira, encontra-se um aparente igiialitarismo entre os herdeiros, mas na prática foi beneficiado o primogênito Rafael, além dos genros casados com as 3 filhas mais ve- Ilias de Francisco. O seu filho Rafael foi beneficiado por ter herdado a condução direta dos negócios do seu pai e os genros por terem recebi- do vultosos dotes, bastaiite superiores às legítimas que teriam direito. Aqui não houve predomínio de uma transmissão matrilznearou patrilinear, mas antes uma combinação de ambas as formas. Houve um certo privi- légio de um herdeiro nesta sucessão, rnas certamente nesta estratégia familiar foi importantc a fiiiição do dote, na medida em que possibili- tou o ingresso de pelo merios dois genros que ocuparam posição de destaque naquela sociedade. Os seciliidogênitos foram aparentemente preteridos, sendo que efetivamente os filhos mais novos acabaram mi- grando para áreas de fronteira, como era, naquela coi:juntura, a fre- gilcsia de Triunfo.

A família de Jeroiiinio de Ornellas mostra uni caso de rigoroso igualitarisrno, aléin de uma opção pela transmissão matrilinear (em função da inexistêricia de herdeiros masculiiios habilitados). Todos os genros foram dotados, mas os valores dos dotes foram baixos e não tinhani terras. Curiosamente, neste caso em que houve uma opção cla-

elas filhas, os dotes não foram os maiores atrativos, embora nãoc. possamos menosprezar a importância dos meios de produção que to- ram transmitidos (escravos e gado). Não houve neste núcleo familiar uma opção explícita por genros comerciantes, nias a maioria era bem posicionada socialmente e muitos deles eram proprietários de terras e homens da governança. Como nesta família não houve herdeiros pre- teridos, a estratégia de migração simplesmente não se verificou. Estes casos demoiistram a fragilidade analítica dos modelos descritivos das estratégias familiares e nos indicam a necessidade de novas pesquisas que possam confirmar a extensão dos elemeiitos constitutivos do mo- delo anteriormente enunciado.

ra

I

Estancieiros que p que criam e comerciantes @e charqueiam: Rio Grande de São Pedro, 1760-1825

Este texto apresenta várias conclusões da tese de doutoramento

Estancieiros, lauradores e comerciantes na constituição da estrernaduraportugue-

São Pedro, 1 737-1822,' relativas à caracteri-

za~ãodas estruturas agrárias e dos principais grupos de produtores exis- tentes no Rio Grande do Sul colonial. Abandonando o uso quase exclu- sivo das sempiternas memórias e relatos de viajantes, debruçamo-nos sobre outros tipos de fontes, seriadas, que são mais adequadas para o estudo das estruturas agrárias e das unidades produtivas. Inventários, tes- tamentos e censos agrários foram utilizados para delinear uma paisa- geni agrária e para traçar um perfil destes grupos, esseiicialmeiite em seus aspectos relacionados à produção. O resultado da investigação contradiz em alguiis aspectos a visão mais difundida e simplificada do campo gaiícho, no qual existiriam apenas grandes propriedades, lati- fiíiidios, dedicados exclusivamente à pecuária, e que a experiência agrí-

cola teria se resz~midoao núcleo de migrantes açorianos.

sa na América: Rio Grande de

Um segundo problema que nos colocamos foi o de tentar deter- minar quem constituiu o núcleo charqueador nos primórdios da capi- tania e depois província do Rio Grande de São Pedro. Dada a irnpor- tância ecoiiômica desta atividade, com seus desdobramentos sociais e políticos, a resposta a esta questão pode contribuir para o avanço da histoi-iografiaacerca da primeira metade do século XIX.

Urna primeira aproximação

Iniciamos a investigação tentando perceber o que significavam as deriomiiiações de "estancieiro", "criador" e "lavrador" para os habitari- tes do Rio Grande de São Pedro, a partir da década de1760. Uma fonte preciosa foi a base para este estudo: a "Relação de moradores que tem

I íb(irio, Hilcli.

I</nirriuiriis. I~ziiiniLomc roi>ie~iiniiiesn,n cu),>isiit~iiçrio(10 &rc>iin(k~iinpoii~~~w~snTrn

i\iiri;l.ictr:Rio (;raiidi cl<:Sào Peclro, 1f37-1822 Nitei-cíi, Gse ele rioutomdo api-c:seiitaclaao PPC;H

do 1F'C:I-1 da LJ~iiversiciadeFederal Fluiniiiense, 1990.

campos e aiiimais no Coiitiiieiite", mandada i.ealizar pelo Vice-rei do Brasil, Luís de Vasconcelos e Souza, ao Provedor da Fazeiida do Rio Grande, Diogo Osório Vieira, no início de 1784 com o objetivo de co- nhecer a real situação da distribuição de terras no extremo sul.' Este documento ímpar constitui-se numa verdadeira lista nomiiiativa dos possuidores de terras no Rio Grande, ou um "tombo de terras", para utilizar uma expressão de época. Através dele podemos estudar o ritmo da ocupação do território, as formas através das quais os habitantes obtiveram a posse dos terrenos, a ocupação priiicipal a que se dedica- vam e o tamanho do rebanho possuído. Portanto, fornece-nos dados que permitem esboçarmos a estrutura agrária da região, em um dado momento, que foi o da rápida apropriação de terras, 7 anos depois da reconquista da vila de Rio Grande. As razões da ordem do Vice-rei deviam-se à "grande desordem, com que tem sido distribuídos os terrenos dos diversos distritos", e a irregularidade na obtenção e venda de sesmarias.' O provedor realizou a relação de cada distrito e freguesias a partir dos títulos comprobatórios eiiviados pelos possuidores, após seu requerimento através de edita1 e, na falta destes, das informações dos capitães de tropas auxiliares de cada localidade. A "Relação" (como a denomiriaremos a partir de ago- ra) de cada freguesia foi sendo enviada, uma a uma, ao Rio de Janeiro desde agosto de 1784 até fevereiro de 1786. Enquanto os borradores são encontrados no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, os "origi- nais" estão depositados no Arquivo Nacional, Rio de Janeiro." Ocorre que não foram enviadas à capital as relações de <:onceição do Arroio, Santo António da Patrulha, Caí e Lombas. Para estas freguesias utiliza- mos as relações existentes no primeiro arquivo, o que representou um acréscimo de 272 registros5 ao universo de 1555, perfazendo um total de 1827 terrenos. Destes, apenas 3 não são de "particulares": 1iá uma Fazenda Real, do Bojuru, que abrigava animais do exército, um campo pertencente à igreja matriz da freguesia de Estreito e um campo, utili- zado como potreiro da Irmandade do Santíssimo Sacramento da frc- guesia de Rio Pardo.

2

Ofício do Vice-rei do Brasil ao Provedor da Fazenda Keal. Kio deJaiieiro, 7/3/1784. ANIIJ,cód. 104, v. 6, fls. 562-563.

3

"Desta notável iiregularidade procede a ma f6, com que rniiitos requerem as mesrnas sesmai-ias e logo as traspassain e vendem para preteiider outras até por interpostas pessoas, de modo que

[

I

se fiz manifesta a irisofrivel desigualdade, corri qiie uns claeios de ambição iilsaciável ties- friitam, alienam e traspassam a maior parte dos terrenos, ficando outros, coiiseqiieiltemente, privados dos quais podem c~iltivarcom maior utilidade tlo Estado e mais conhecida vantagem dos rentlimentos". Idem,

4

No ANKJ, cõd. 104, v. 6, '7 e 8; iio AI-IKS, F1198 A e B.

5

Vei-ificainos a repetiçâo de alguns registros, iiicliiídos tanto em Viarnão (ANIIJ) e 1,ornbas

(AI-ilIS),e Triiinfi) (ANKI) c

(AHKS), qite forarn devielameiite eliiniilados.

Cada registro especifica o nome do ocupante, os títulos de propri- edade que possui, ou não, o nome de antigos proprietários, a atividade à qual se dedica e à espécie e riúmero de animais que possui. A represeritatividade da fonte é muito alta, e foi verificada através do con- fronto do número de sesmarias listadas na "Relação", que são 116,com o do conjiiiito de sesmarias obtidas em diversos arquivos, para o perío- do de 1738 a 1784, que foi de 117. Estamos, portanto, frente a uma fonte extremamelite fidedigna.

Iniciaremos a análise pela ocupação declarada para cada um dos propri- etários de terrenos. A base de registros diminuiu para 1.564 porque vári- as pessoas detinham mais de uma propriedade e consideramos cada nome apenas uma vez.

O Vice-rei ordenara que o provedor indicasse "qual é o iiegócio em que se empregam os seus moradores, se na lavoira, se em criação de animais". Nem sempre os capitães auxiliares que realizaram as relações, em primeira instância, cumpriram tal determinação. Por isso o número significativo de ocupações "não informadas". Por outro lado, como não consta nenhuma outra referência à agricultura que a declaracão de ocupação, optamos por considerar apenas as grandes categorias e igno- ramos os casos de difícil classificação, que demonstram as diferenças de critérios dos elaboradores das relações. Estes casos estão agrupados em "oiitros". De qualquer forma, as 4 primeiras categorias listadas, "lavra- dor", "criador", "criador e lavrador" e "mais lavoura que criação" - qiie passaremos a denominar abreviadamente por "mais lavoura" - repre- seiitani 79,2% das ociipações. A primeira constatação que a "Relação" possibilita é a de que no Rio Grande, região comumente considerada como o "reino da pecuá- ria", o número de possuidores de terras dedicados à agricultura predo- minavam amplamente sobre os criadores de gado. Se considei-armosos "lavradores" e aqueles que se dedicavam "mais à lavoura do que à cria- ção" de aiiimais, temos um coiitigente de 56,7% dos censados o que equivale dizer, das unidades produtivas existentes.Eliminando-seos casos não informados do número total de registros, este percentual chega a 67,6%,contra 26,8% dos "criadores" e "criadores e lavradores" soma- dos. A iniportância numérica deste grupo na configuração da paisa- gem agrária e produtiva do Rio Grande fica aqui evidenciada. Das 19 freguesias existentes, não forarn listados "lavi~adorcs"em apeiias diias, ambas fronteiriças, de recente ocupação e com as maiores médias de aiiimais por freguesia: Cerro Pelado e Encriizilliada. Nelas dorninani largamente os "criadores" e "criadores e lavradores", e 112

uma pequena iricidencia dos "mais lavoura". Os lavradores, portanto, estão disseminados por praticamente todo o território da capitania. Desenha-se assim uma paisagem agrária bastante scmelhante a que vem sendo estudada para a região do rio da Prata, ria qual pequenos e médi- os proprietários constituíam-se no maior contigente ocupacional da carn- panha de Buenos Aires, seg~iiidocensos de população da metade do século XVIII e início do XIX," com maior concentração nas áreas mais próximas do grande mercado que se constit~liulia cidade de Buenos Aires. Por exemplo, no distrito de Areco Ar-riba,um censo de 1815 apontava que, de 259 pessoas com ocupação conhecida, 134 eram "labradores", 67 "estancieros" e 53 "jornalero~".~

Quadro 1 Ocupação dos possuidores de terras, 1784.

I

Fonte: "Kelação de nioradores

a: iricluídos 5 casos "vive pobremente" b: iilcliiídos 10 casos '\vive de seu negócio e estailcia" c: incliiídos 7 casos "criador e planta para seu susteilto"

d: incliiídos 22 casos "planta para o sustento cle sua casa", G ''~liveda produção de sua fazeiidu", 17 "vive de seli riegócio",

"ANKJ,c6d.

104,vols. 6,7 e 8;AI-IKS, F1198A e E.

I

10 "vive de sua agência", 16 virios tipos de artesanato e 1 "capataz"

Quase a metade dos "lavradores" (46,8%) e dos "mais lavoura" (48,676) forarn identificados como "casais do iiúniero". Ou seja, eram casais açorianos originalmente enviados para povoar o Rio Grande

6 Morcrio, J. 1,. L.u eçtructura social y ocupacioria1 de Ia campafia de Btieiios Aires: tili aixílisis comparativo a traves tle 10s padr.c,ii<:sde 1744 y 1815.111:Garavaglia,~J~iaiiCarlos e Morei~o,José

 

Lrii.;. (comp.). Poblnciórl, socierlnd, juttziCn y r~zigt~lciorzese72 e1 es/)ncio t-iof~klerse.Siglos

XC7111 y XIX.

Bueiios Aires: (;ántaro, 1093, 11.