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UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Claudefranklin Monteiro Santos (Org.)

Alailson Pereira Modesto

Patrícia dos Santos Silva Monteiro

Raylane do Nascimento Santos

Gráfica Editora J. Andrade Ltda. Aracaju-SE

2008

C 2008 by CLAUDEFRANKLIN MONTEIRO SANTOS (ORG.)

FICHA TÉCNicr

Organização, Edição, Revisão, Capa e Contracapa

Claudefranklin Monteiro Santos

Imagens.da Capa

Dionísio Machado, Ribeirinho, Artur Reis, Dr. João Rocha, José Vieira, José Raimundo Ribeiro, Valmir Monteiro e Jerônimo Reis (alto)- montagem.

José Vicente de Carvalho, Artur Reis, Dr. João Rocha, Ribeirinho, Dr. Onório, Dom Coutinho, Seu Dionísio e Adalberto Fonseca (baixo - anos 60).

Comemoração da Vitória de Dr. João Almeida Rocha e Elizeu do Cachimbo - Praça da Piedade - Anos 70 (centro).

Imagens da Contracapa

Artur Reis, Monsenhor Jason e Ribeirinho - Povoado Cidade Nova-Anos 60 (alto).

Mulheres Lagartenses comemoram vitória de Dr. João Rocha no alto do Trio Elétrico da Prefeitura - anos 60 (baixo).

Impressão - Gráfica J Andrade

Tiragem - 1.000 exemplares

Ficha Catalográfica Elaborada pela Bibliotecária Ilmária Chaves Sena de Carvalho - CRB- 3/1307 5ª Região (BJJAV)

94:32(813.7)

M691c

Uma cidade em pé de guerra: Saramandaia X Bole-Bole. Alailson Pereira Modesto, Patrícia dos S. S. Monteiro, Raylane do Nascimento Santos; organização de Claudefranklin Monteiro Santos.- Aracaju : Gráfica J. Andrade, 2008. 150 p. il.; 29,7 cm. Inclui bibliografia, tabelas e ilustrações.

1. História política. 2. Sociedade - Lagarto. I. Santos, Claudefranklin Monteiro (org).II. Título.

O ORGANIZADOR

Claudefranklin Monteiro Santos - Professor, Historiador e Escritor Lagartense. Graduado em História e Mestre em Educação pela UFS. Professor da Rede Pública Estadual de Sergipe, Coordenador e Docente do Curso de Licenciatura em História da Faculdade José Augusto Vieira, é autor dos livros: Centrifugação (Poesia - 1999) e Nove Contos (Conto - 2003). Entre 2006 e 2008, foi professor substituto do DED da UFS. Articulista da imprensa local, é correspondente da Revista Perfil e Membro da Associação Sergipana de Imprensa.

O AUTOR

Alailson Pereira Modesto - Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política), Sociólogo, Mestre em Sociologia pela UFS (Universidade Federal de Sergipe), Pós Graduado/Atualização em Metodologia Quantitativa em Ciências Sociais pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Professor de Sociologia da Rede Pública Estadual de Educação/Sergipe, Professor de Cultura Brasileira, Sociologia e Responsabilidade Social da FJAV, Coordenador Geral de Pesquisa do Dataforrn - Departamento de Pesquisa do Jornal CINFORM.

ASAUTORAS

Patrícia dos Santos Silva Monteiro - Professora das Redes Públicas

Estadual e Municipal, há aproximadamente 1Oanos, tem experiência em Pesquisa Histórica na área de análise das relações sociais no âmbito da política sergipana e na Prática de Ensino de História. Desenvolve projetos pedagógicos interdisciplinares na vivência da docência em História. Possui graduação em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Sergipe (1999) e Pós-Graduação em Gestão Escolar pela Faculdade Pio X. É professora de Estágio Supervisionado da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV).

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Raylane do Nascimento Santos-:- Professora Graduada em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Sergipe, Na Rede Municipal

na Escola

Monsenhor João· B. de C. Daltro, onde iniciou seus trabalhos como professora de História no ano · de 1997. Leciona também no Colégio Estadual Prof. Abelardo Romero Dantas.

de Ensino de Lagarto exerce a função de .Diretora Adjunta

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SARAMAMBOLE

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Reis, rios ribeirinhos; Recheados de sujeira fétida

Dos coronéis de lá do centro.

E

tudo e todos se esvaem,

E

de podres, caem!

"-

E governo?"

- Terá nunca!

O centro triunfa. ·

Na praça hora,

O

"Café Planeta".assobiou

O

grunhido, o passarinho.

Agora o rio ribeirinho

Tentava novamente transbordar.

"- E os coronéis?"

- Um assedia com a família Rindo na fossa, O outro assobia Com a cara na bosta.

Alessandro Silva

Poeta, Professor e Filósofo Lagartense (09/07/2002).

SUMÁRIO

Apresentação - Claudefranklin Monteiro Santos

Coronéis, Coronelismo(s) e Mandonismo Local -Alailson

16

Brasil - Golpe sobre Golpes: Uma Conjuntura Histórica

(Anos 60) - Raylane do Nascimento Santos

Uma Cidade em Pé de Guerra - Patrícia dos Santos Silva

Pereira Modesto

13

27

Monteiro

Saramandaia x Bole-Bole: Aspectos Político-

32

Administrativos - Alailson Pereira Modesto

46

Rosendo Ribeiro Filho (21/abr/63 a 12/set/66)

48

Gentil Monteiro de Carvalho (12/set/66 a 30/mar/67)

53

Dionísio de Araújo Machado (30/mar/67 a 30/jan/71)

55

José Ribeiro de Souza (31/jan/71 a 30/jan/73)

57

João Almeida Rocha (31/jan/73 a 31/jan/77)

60

José Vieira Filho (01/02/1977 a 14/05/1982)

65

Artur de Oliveira Reis (05/02/83 a 01/01/89)

69

Referências Bibliográficas

75

Anexos - Entrevistas

,

84

João Almeida Rocha (1)

 

79

Rosendo Ribeiro Filho

108

João Almeida Rocha (II)

129

Artur de Oliveira Reis

134

José Cláudio Monteiro Santos

139

José

Nonato Santos

141

Adalberto Fonseca

:

146

LISTA DE TABELAS

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

 

01-Foto do Congresso de Vereadores em Fortaleza (1984)- José

01

- Relação dos Prefeitos de Lagarto de 1890 a 1962

33

Cláudio Monteiro e José Eurides Pinto (Acervo Cláudio Monteiro

 

- in memorian)

36

02

- Relação dos Prefeitos e Vice-Prefeitos de 1962 a 1982

34

02 - Foto de Dr. João no famoso Trio Elétrico da Prefeitura (Anos

03

- Atos Administrativos Ribeiro Filho

 

53

70)-Acervo Rinaldo

Prata

40

 

03 - Foto de Cabo Zé, Ribeirinho e Artur Reis na Inauguração da

04

- Atos Administrativos Gentil Monteiro de Carvalho

54

Capela N. Sra. Aparecida (Povoado Cidade Nova) - Anos 60 -

 

Acervo Artur Reis

 

47 '

05

-

Resultado da Eleição para Prefeito 1967

56

04 - Foto de Ribeirinho e Artur Reis na Inauguração do Armazém

06

- Atos Administrativos Dionísio de Araújo Machado

57

da Cidade Nova (Anos 60)-Acervo Artur Reis

47

 

05 - Foto de Ribeirinho (Anos 60) -Acervo Artur Reis

48

07

- Resultado da Eleição para Prefeito de 1970

58

06 - Foto do Comitê Político de Dionísio Machado (Anos 60) -

 

Acervo Maninho de Zilá (in memorian)

56

08

- Relação dos Vereadores Eleitos na em 1970

58

07 - Foto de Zé Ribeiro Coletor (Anos 70) - Acervo José Correa

09

- Resumo dos Atos Administrativos do Prefeito José Ribeiro de

Sobrinho

 

57

Souza

 

60

08

-

Foto de Reunião Política na Residência de Seu Dionísio

 

(Anos 70) - Acervo José Correa Sobrinho

59

10

- Resultado da Eleição para Prefeito em 1972

63

 

09

- Foto de Dr. João Rocha (Anos 70) - Acervo Próprio

60

11 - Relação dos Vereadores Eleitos em 1972

 

63

10-Foto da Festa de Comemoração da Vitória de Dr. João Rocha

 

(Anos 70) - Acervo Luzia Pires e Emerson Carvalho

62

12 - Resultado da Eleição para Prefeito em 1976

68

11 - Foto do Bole-Bole à Época de Seu José Vieira Filho (Anos

13 - Resultado da Eleição Para Prefeito em 1982

71

80) - Acervo Alailson Pereira Modesto

66

 

12 - Foto de Artur Reis (Anos 80/90) - Acervo Próprio

69

14 -

Vereadores Eleitos na Eleição de 1982

71

13

- Foto da Visita do Presidente Figueiredo (Anos 80) - Acervo

15 - Resultado da Eleição para Prefeito em 1988

74

Artur Reis

 

70

 

14 -Foto das Eleições de 1986-Acervo Artur Reis

72

AGRADECIMENTOS

À Fundação José Augusto Vieira e a Faculdade José Augusto

Vieira na pessoa de sua Presidente, a Sra. Josete Reis Vieira.

Ao Núcleo de Tecnologia Railton Faz, em nome de seu Presidente o Sr. José Railton Souza de Lima.

Ao jovem casal de empresários Charles e Euciane, por meio dos quais estendemos nossa gratidão à André Barbosa e Jorge, responsáveis pelo Espaço Cultural Charles Brício.

À baluarte da cultura lagartense, a professora e poetisa Angélica Amorim, estendidos à Prefeitura Municipal de Lagarto e à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Lagarto.

Ao Jornal Cinform, especialmente ao Sr. Antônio Moura Bomfim, seu Diretor-Superintendente.

À FM Eldorado, nas pessoas de Alex Dias, Júnior Ribeiro e

Adriano Alves.

Ao Sistema Progresso de Comunicação, nas pessoas de Emerson Carvalho, José Hora, JC, Marcos José e Reginaldo Pereira.

Aos nossos alunos, que nunca deixaram de acreditar nesse projeto.

Aos ausentes e aos que quiseram ajudar, e por algum motivo não puderam.

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DEDICATÓRIA

Ao povo lagartense pela paciência, pela expectativa e pela força,

sobremodo às figuras anônimas que nos paravam na rua para

saber notícias do livro. Valeu à pena! .

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APRESENTAÇÃO

Das poucas coisas boas que se pôde e se permitiu fazer durante a Ditadura Militar, certamente uma marca, em grande medida, os amantes da televisão dos últimos trinta anos: a série "O Bem Amado". Maneira sutil e perspicaz de driblar a censura, a atração global mais assistida entre as décadas de 70 e 80 retratou a

realidade de muitos municípios brasileiros que viveram por anos,

e ainda vivem, sob a hilária figura de um Coronel Paraguaçu.

Líderes políticos que se perpetuam no poder a custa da ingenuidade de um povo que por natureza é tacanho política e socialmente. Figuras emblemáticas da falta de govemabilidade, de ética

e de moral que por séculos grassaram a vida pública brasileira. Homens carismáticos, sem sombra de dúvidas, alguns até honrados, mas a mais perfeita representação de um povo e de uma nação futebolísticamente apaixonada em suas decisões que deveriam ser cidadãs. Gente que consegue transfigurar clássicos de futebol, como um Vasco e Flamengo, em acirradas disputas partidárias ou por que não dizer, de guetos e famílias.

A comédia da vida pública brasileira decidida numa

bipolaridade burra, mesquinha, à sombra de um regime político falido e uma história cruenta, longe de ser cordial e hospitaleira (Darcy Ribeiro).

As agruras, as manhas, os discursos e o peixe, o sabonete, a

rapadura: o pão e o circo refeitos. Rugas de uma história carcomida e dilacerada ao bel prazer de caciques semi-analfabetos

e até mesmo letrados. É assim, foi assim, por muito tempo a marca identificatória da vida política brasileira nos seus muitos interiores espalhados nesses enormes rincões de terra, lama e estradas. Cidades em pé de guerra, capitaneadas por seus líderes

sedentos de poder, fortuna e realização pessoal. Tão insípidas são

e foram suas ações em prol do povo, que o gesto supremo da

escolha vira apenas uma questão de lado, posição, estigma, marca.

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Recorrente na historiografia brasileira, o bipartidarismo sempre exerceu especial atenção. Não só por seu aspecto social, mas por sua tangência histórica, sua marca representativa e explicativa da formação de um povo. Herança resistente da época dos monarcas, a polarização política no fundo, no fundo, foi sempre um engodo epistemológico e axiomático. Um sofisma para justificar posições espúrias e maquinações popularescas. No final dos anos 90, três jovens estudantes lagartenses (um de Ciências Sociais e duas de História) foram motivados a tentar entender esse fenômeno político sob o ponto de vista da academia. Certamente não se estava diante de uma tendência social- historiográfica, mas de uma constatação embrionária. Nascidos e criados nesse cenário bipolarizado, os jovens universitários procuraram fazer um exercício macunaímico de volta as origens, conhecer o organismo doente pelas entranhas (Manoel Bomfim). Suas famílias, assim como a cidade, foram personagens co- participes dos efeitos nocivos dessa praga chamada atraso, ou porque não dizer, limitação organizacional. O que se pode dizer de algo que se originou de uma novela brasileira de televisão (Saramandaia, Rede Globo, 1976 - Dias Gomes, Walter Avancini, Roberto Talma e Gonzaga Blota)? Que respeitabilidade e base ideológica se podem identificar em algo que é motivado única e exclusivamente pela paixão? Três monografias de final de curso 1 da Universidade Federal de Sergipe, três visões acadêmicas de um estigma, que é mais peja do quê identidade do povo lagartense das últimas três

1 Alailson Pereira Modesto (1998) - Saramandaia e Bole-Bole: Ainda Coronelismo? Estudo de Caso de Dominação Local no Município de Lagarto (1964-4988) sob a orientação do Prof Dr. Zé Maria - Patrícia dos Santos Silva Monteiro (1999) "Uma População em Pé de Guerra

Rivalidades, Acordos e Festas na Escolha dos Chefes Políticos

":

Locais (Lagarto-SE, Década de 1970), sob a orientação do Prof Dr. Antônio Lindvaldo Souza - Raylane do Nascimento Santos (2000) -

Em Busca da Imagem Perfeita

do Poder Público Local (Lagarto-SE, Década de 1960), sob a orientação do Prof Dr. Antônio Lindvaldo Souza.

Imagem, Legitimidade e Representação

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, 1, l Idas. Olhares que se cruzam nesse livro para revelarem a face , 1, umu gente carente de progresso, bem-estar social, cultura e , d11utc;tfo, vitimada por algo que é mais do quê local, é a essência da história política brasileira. A tarefa foi relativamente fácil. Os estudos se completam numn análise quase que perfeita da vida social e política do 1111arto engendrado sob a égide da Ditadura Militar.

A História e a Sociologia mais uma vez se somam para dá

lume às coisas dos homens. Suas suscetibilidades, suas imprevisibilidades e contextualidades, que dá a certeza das Inexatas ciências humanas.

Longe de pretender ser a visão acabada e definitiva da saga político-partidária do Saramandaria e Bole-Bole (pois seu estudo vai até 1988), é antes de tudo uma provocação às velhas e novas 1erações. Um convite à reflexão, à tomada de consciência de um povo tão capado quanto o imaginado por Capistrano de Abreu. De uma gente que é o resultado da dilaceração de caráter, de uma perda de identidade e memória que o persegue há anos, e que o mata enquanto povo e história.

A fotos que ilustram a capa e a contracapa, bem como todo

o trabalho, são parte dos acervos de Dr. João Almeida Rocha, Artur de Oliveira Reis, Luzia Pires e Emerson Carvalho, Maninho de Zilá e José Cláudio Monteiro Santos (in memorian), Rinaldo Prata, José Corrêa Sobrinho e Alailson Pereira Modesto, a quem agradecemos e rendemos homenagens.

A mim coube a responsabilidade de reunir, sistematizar e

organizar. Não há nada, de minha parte por acrescentar. Que falem os autores e que degustem seus leitores de seus esforços acadêmicos.

Claudefranklin Monteiro Santos

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CORONÉIS, CORONELISMO(S) E MANDONISMO LOCAL

Alailson Pereira Modesto

A figura do coronel típico: chefe político; proprietário de terras, de imóveis; comerciante, médico, advogado, funcionário público etc.; homem rico, poderoso, abastado financeiramente; chefe de milícia particular; coronel da Guarda Nacional; homem do campo; rude; em alguns casos sem muita instrução formal; esperto, inteligente, "astucioso", "raposa política"; homem mais importante da localidade; bastante reconhecido, prestigiado socialmente, seja ou não através do poder coercivo; uma espécie de juiz na localidade; quase sempre na agremiação partidária da situação; representante do poder público na localidade, mediador "legitimo" entre a população local e o poder público; indivíduo que conduzia a novidade da cidade para o campo; detentor do monopólio da informação, da regra social, da oferta de emprego, principalmente no serviço público (municipal, estadual e federal); autoridade-mor de uma determinada parentela; retórica dirigida ao "povo pobre", classe popular; "representante dos pobres", serviço de rico~ho espiritua} de ~m ~masiado número de pessoas; aquele que financiava os estudos "dos jovens" em outras cidades; uma espécie de credor que emprestava dinheiro aos amigos, doava lotes de terras etc.; religioso; presente nas solenidades festivas, esportivas, funerárias; dono de curral eleitoral, do voto-de-cabresto; representante da política do assistencialismo, do clientelismo, da prestação irrestrita de serviços; patrono político. Suas residências estavam quase sempre repletas de pessoas estabelecendo com estas diversas relações:

assumindo promessas, realizando-as, dando-lhes alimento, dinheiro, material de construção, brinquedos para as crianças, vestimentas, cachões de defunto, dentaduras, remédio, assistência médica, emprego, proteção etc.; fazendo diversos tipos de ameaças, pedindo fidelidade, trocando favores, compromissos. Figura carimbada na literatura, no teatro, cinema e televisão,

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16

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principalmente, além destes, como mulherengo, violento,

intempestivo, demagogo, ilícito, antiético,

Esse tipo ideal de coronel já é de existência rara na contemporaneidade. Mais difícil ainda seria encontrá-lo atendendo seus "dependentes - eleitores" nos apartamentos das grandes cidades, congestionando o interfone do condomínio ou mesmo o seu celular. Inúmeras transformações econômicas, políticas, jurídicas, sociais e culturais ocorreram, condenando decisivamente as suas práticas. Mas nem se imaginou isso, afinal a história é dinâmica. E os fenômenos sociais também. A questão, contudo, que se coloca é averiguar o teor e a intensidade da transformação, da incorporação de elementos novos, e/ou da sofisticação do velho, nos fenômenos sociais. Mas, não tanto dificil será a existência de líderes políticos preenchendo ou exercendo algumas destas características. O fenômeno como um todo parece que ainda não está definitivamente acabado, ou melhor: algumas de suas características ainda continuam a modelar a práxis política brasileira. Para evidenciar tal aspecto basta uma rápida observação, por exemplo, nos noticiários jornalísticos, nos "diários" das entidades representativas, tanto do executivo quanto do legislativo, ou mesmo na vida cotidiana, e constatará um universo não imune a certas características da política tradicional; vê-se, ainda, a utilização de muitas práticas políticas e sociais comuns àquelas, inclusive sendo usadas pelos atuais políticos das cidades. Estas teorias afirmaram que as transformações da sociedade brasileira não suportariam mais a existência desse fenômeno. Mas, então, o que dizer de determinadas dominações políticas existentes em tantas localidades brasileiras que utilizam na conquista do eleitorado práticas coronelistas? Como definir os políticos contemporâneos que se perpetuam na representação . política mediante o esquema explícito da troca mútua de favores e de compromissos, do aliciamento dos eleitores e na corrupção eleitoral? Como caracterizar a corrupção eleitoral, que é uma característica bastante marcante do coronelismo? Ainda é possível, apesar das transformações estruturais, a existência do coronelismo, ou algo muito parecido com ele? Estas e tantas

corrupto etc

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outras indagações continuam a incomodar muitos Cientistas Sociais, Historiadores, Juristas etc. Alguns estudiosos, no entanto, acreditam que o coronelismo ainda vive. Outros são mais singelos, afirmam que ele se redefiniu, se sofisticou, mais ainda permanece, mesmo que numa nova roupagem. Outros, não obstante, são incisivos: o processo de modernização, o crescimento dos partidos, a centralização administrativa, as alterações das relações de trabalho, entre outras, colócaram definitivamente o sistema coronelista em ruínas. O Fenômeno Coronelismo 2 é objeto de interpretação para muitos estudiosos, nacionais ou estrangeiros. Há uma considerada quantidade de trabalhos publicados, há outros tantos "esquecidos" nas bibliotecas universitárias, restrito aos círculos acadêmicos. O que demonstra ser o coronelismo um fenômeno com proporções amplas. Muitos deles abordaram sob uma perspectiva global, outros se concentram em estudá-lo numa dada comunidade. No primeiro caso estavam presentes os grandes coronéis da política nacional: o barão do café, o senhor de engenho, o grande fazendeiro etc. No segundo incluem-se os chamados pequenos coronéis, circunscritos ao seu mundo local, mas intimamente relacionados àqueles. Daí surge, talvez, o princípio fundamental

2 O vocábulo coronelismo utilizado para designar o fenômeno a seguir advém semanticamente da patente de coronel da Guarda Nacional. Essa Guarnição, criada a 18 de agosto de 1831 pelo então Ministro da Justiça Padre Diogo Antônio Feijó, tinha em seus batalhões diversas patentes, capitão, major, coronel, tenente-coronel etc. A patente de coronel, no entanto, geralmente ocupada pelo chefe político da localidade, passou a ter bastante prestígios social e militar. E, de alguma forma, quase todos os chefes políticos de reconhecido destaque logo passaram a ser denominados pela população como coronéis, independentemente de ocupar ou não o correlato posto na Guarda Nacional. Quase a totalidade dos municípios brasileiros possuiu regimentos dessa guarnição e, certamente, o tratamento de chefes políticos como coronéis. E, mesmo após a sua extinção, nas primeiras décadas do século XX, muitos chefes políticos ainda eram assim denominados. Maiores detalhes sobre essa transposição semântica ver nota de roda pé do filólogo e historiador Basílio de Magalhães, apud LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada

e Voto , p. 19-21.

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da estrutura coronelista: a formação de clientela que mediante uma cadeia hierárquica mantém a forma de dominação existente. Dentre os principais trabalhos que se tomaram clássicos e têm contribuído para o estudo dessa nuança da história política brasileira podem-se mencionar: Coronelismo, Enxada e Voto (1949) de Victor Nunes Leal; Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro (1958) de Raimundo Faoro; Coronel, Coronéis (1965) de Marcos Vinícios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque; Dos Velhos aos Novos Coronéis (1974) de Maria Auxiliadora Ferraz de Sá; A Política Tradicional Brasileira: uma interpretação das relações entre o centro e a periferia (1974) de Antônio Octavio Cintra; O Coronelismo: uma política de compromissos (1981) de Maria de Lourdes Mônaco Janotti; Os Camponeses e a Política no Brasil (1981) de José de Souza Martins; Coronelismo e Dominação (1987) de José Ibarê Costa Dantas; O Coronelismo numa Interpretação Sociológica (1989) de Maria Isaura Pereira de Queiroz, entre tantos outros. Das interpretações anteriores, uma das mais citadas é a obra de Victor Nunes Leal - Coronelismo, Enxada e Voto (l 949). Este

parte do princípio de que o coronelismo é produto da superposição de uma estrutura agrária decadente a um sistema político modernizado. Sua idéia central, portanto, repousa na conceituação do fenômeno como um sistema político dominado

por "um compromisso, uma troca

p. 20), entre o poder público instituído e em crescente "modernização" e o poder privado representado pelos senhores de terras em processo de "decadência" E isso ocorre a partir da

abolição da escravatura e da instalação do regime republicano que coloca um contingente demográfico em nova situação e amplia o

direito político.

de proveitos

] " (Leal: 1993

É nesse período que o fenômeno atinge a sua

forma pura. Segundo a interpretação de Nunes Leal o coronelismo é um fenômeno eminentemente republicano. Contudo, os seus elementos constitutivos remontam ao período colonial. Segundo o autor, os aspectos que condicionaram o poder público a estabelecer a relação de compromisso com o poder privado inserem-se na limitação do regime representativo, durante todo o período colonial, somente à composição das câmaras municipais e

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à eleição de representantes à coroa portuguesa. Esta administrava a Colônia através da nomeação de autoridades e pela ampla concessão à iniciativa privada, dando pouca importância à questão eleitoral. Deste modo, a metrópole portuguesa se submeteu ao senhorio rural ou mesmo entrou em acordo com este para empreender a colonização do vasto território expropriado dos silvícolas. A incapacidade, afirma Leal, de exercer a plenitude das suas funções administrativas permitiu ao poder privado o exercício das atribuições de responsabilidade pública. Aqui repousa o berço do fenômeno.

O coronelismo não se caracteriza, portanto, como uma mera

sobrevivência do poder privado no momento histórico do fortalecimento do poder público, mas, sobretudo, como um compromisso entre ambos: esse é o eixo central da tese de Victor Nunes Leal. É o que ele chama de sistema de reciprocidade, o princípio fundamental segundo o qual repousa o fenômeno e que se estruturava da seguinte maneira: a população mantinha uma relação de troca mútua, de compromissos com o coronel, o chefe político local, este com o Governo Estadual que por sua vez mantinha o compromisso com o governo central. Forma-se, assim, a cadeia hierárquica coronelista da dominação. Sustentada pelo seu caráter situacionista, tudo pela manutenção, essa cadeia repreendia explicitamente a existência de opositores. O que permitia a subordinação do coronel ao governo estadual era a falta de autonomia municipal. Em troca da irrestrita adesão do chefe político local o governo estadual entregava em suas mãos a municipalidade, que ao seu juízo "mandava e desmandava", perseguindo seus adversários e dando amplas concessões aos aliados. Tudo isso contribuía para limitar a

autonomia municipal e, por sua vez, manter a forma de dominação.

A obra de Raimundo Faoro, Os Donos do Poder (1958), tão

clássica quanto à de Nunes Leal, é também indispensável para o estudo sobre o coronelismo. Ao tipificar sociologicamente os coronéis, fazendo uso corrente ao referencial teórico weberiano, Faoro, baseando-se na empiria, afirma que

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Eles são, essencialmente, honoratioren, pessoas que, graças à sua situação econômica, podem dirigir um grupo como profissão acessória não retribuída, ou mediante retribuição nominal ou honorária, sustentados pelo apreço, de modo a gozar da confiança do seu círculo social. (Faoro: 1976, p. 636).

A origem do J?Oder doJillQJ.d~al de cor~

desse autor stãfúndamentada no prestí io e

tradicionalmente

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h_owa

~ocial

reconhecido.a não

\lendo ser emendida como -

CJJIO~arcal. P~rª considerar a origem do s~ poder como d riva ão do atriarcalismo ele acredita e deveria existir o vínculo à economia familiar. Inexistindo tal aspecto o · acatãmento ao presflgw ocupou esse espaço, apesar de considerar

que as ntei entre

s

dois

aspectos são b

fluí

s.

Neste sentido, discorda da idéia segun o a qual a origem do poder

dos coronéis repousa, exclusivamente, na sua situação econômica. Citando Hobbes, Faoro escreve o seguinte sobre o poder

coronelístico: "Trata-se de um poder de homem a homem, não racional, pré-burocrático, de índole tradicional". (Faoro: 1976, p.

633).

A exemplo de Leal, Faoro considera o sistema de reciprocidade um aspecto fundamental ao sistema coronelista. Os coronéis se encarregam de dar ao governo estadual toda a votação da sua fiel c 1entela inclusive se encarregando com as despesas eleitorais, em roca os empregos públicos do município ficam sob seu controle, bem como tantas outras funções públicas não

institucionalizadas. É o

chamado . compromisso, a troca de

proveitos, entre o chefe político local e o governo do Estado, anunciada por Victor Nunes Leal. Por outro lado, afirma Faoro, apesar do coronel utilizar os serviços públicos para fins particulares, o saldo dessa relação não é muito favorável a este, principalmente, pela precariedade financeira da localidade que

comanda.

Escreve:

"o

coronel

não

se

apropria

das

oportunidades econômicas, como seria de esperar do sistema, por

falta de recursos do próprio campo onde se expande". (Faoro:

1976, p. 637).

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Neste sentido, não é muito difícil encontrar casos, em muitos municípios brasileiros, de chefes políticos que tiveram durante muito tempo o controle municipal, exibindo, por essa razão, poder, prestígio e um belo patrimônio. Quando o seu poderio fora ameaçado, o seu patrimônio foi reduzindo sensivelmente em virtude de campanhas sem sucesso, gastando-o para su.stentar o jogo de favor. Enquanto estava no poder tal jogo era sustentado pelo erário público. Ao perder o controle político municipal tivera que sustentar com seus próprios recursos. É o caso do líder do grupo bole-bole em Lagarto, Ros~ Filho, que chegou a possuir dez fazendas, uma boa quantidade de gãêfo e outros imóveis no município 3 , e graças a campanhas políticas sem sucesso, principalmente as de 1982 e a de 1988, teve seu patrimônio reduzido4. Por outro lado, o seu maior adversário político, Artur de_Oliveira Reis, líder do ,.g_rupo saramandaia, também se queixa de ter perdido muito dinheiro na política e em relação ao que ele era antes de entrar para a vida pública considera-se um homem pobre. Na República, os municípios, cenário do coronelismo, já se configuravam como feudos políticos, cujos domínios eram transmitidos por um tipo de herança info Para esse fim atuaram os grupos_ge parentela, cons1 era ela autora como a origem d estrut a corone--:-~pois possibilitaram, atravéJ das :rêfações vertic~horizomaL~m e-ª manutenção~ forma ~~ca dominante. As "heranças" de uma forma geral eram mantíêlàn:te'gerãção a geração. Segundo Isaura Quf,:!iroz o coronelismo fundamenta-se nos poderes econômico e político do chamado coronel. Tais poderes

3 Conforme afirmou ao Jornal da Cidade em 2 de março de 1997, em

entrevista a uma emissora de rádio de Aracaju em maio de 1998 e em

depoimento ao autor em 11 de abril de 1998. Neste último disse: "

eu

já tive mais de dez fazendas e vendi gastando tudo na pólítica. Eu tinha

muito gado também, gastei tudo na política [

rico, mas rico mesmo

4 Na eleição para Prefeito Municipal em 1982 ele foi derrotado pelo líder

do grupo saramandaia, Artur de Oliveira Reis e na eleição de 1988 perdeu para José Rodrigues dos Santos (Zezé Rocha).

.] Eu já fui um homem "

}

Hoje eu sou um homem pobre

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' · 22 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

tê~ suas origens nos grupos de parentela através das relações ~

sol~cfg_riedadq vertical

diversa~J:xistentes entre classes sociais disffiilãs - e nas relações _

de so]jdqrie ade horizontal -rela õ;s _e_xistentes no interior de uma mesm~elas o cor9I!el é.,_ também, o chefe de uma parentela, escreve:

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.P9.E

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co~

O termo coronel nomeava então, na maioria dos casos, não apenas o indivíduo que detinha uma grande soma de poder econômico e político, como também o que se encontrava na camada superior dos grupos de parentela". (Queiroz: 1989 p. 166).

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O coronel é, então, o ~or de uma determinada\'( parentela. E esta, além de contribuir para a origem do fenômeno, ".ç é um dos ?'ê~anais ~anutenção do coronelismo, os outros ~ dois são a'-fyrtunà e o'q~mé~io. (Queiroz: 1989, p. 178). Questão ~

central na interpretaçãõ- ãessa autora para o entendimento do

coronelismo é a atuação das parentelas. ~ O trabalho de José lbarê Costa Dantas, Coronelismo e Dominação (1987)5, é outra importante abordagem para melhor ~ compreender a complexidade do fenômeno coronelismo. Percorrendo um trajeto histórico explicativo diferentemente daquele seguido pelos teóricos tradicionais, sua interpretação iria t distinguir-se dos demais trabalhos anunciados. Ao interpretar o C fenômeno a partir de um ponto de vista estrutural da sociedade, afirma ser "um produto de uma tripla fundamentação econômico- social, ideológico e político". (Dantas: 1987, p. 15). Os fundamentos sócio-econômicos são originados através da grande propriedade fundiária, da relação de trabalho por ela estabelecida, que determinam um tipo de dominação que acaba encobrindo a condição de exploração. Como conseqüência a esse processo

,t,,.

~

l

5 Neste trabalho o autor analisa o coronelismo á partir do poder coercivo na cidade de Itabaiana/SE. Ver também sobre esse momento da história do mandonismo em Itabaiana o trabalho de SANTOS, Antônio Carlos dos. Poder Local e Relação de Dominação: o caso de Itabaiana (1945/1963). Aracaju, 1993. Monografia (Especialização em Soci<?logia)- Universidade Federal de Sergipe.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 23 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

resulta o atrelamento das massas camponesas aos senhores de terras, aos patrões "dominantes e benfeitores". No âmbito político e ideológico, que por sua vez correlaciona-se com o econômico e social, a dominação ocorre quando o "coronel" se coloca como "verdadeiro intermediário" entre o campesinato e a sociedade política, o que faz, também, exercer o controle da informação. Neste sentido, como decorrência, o controle da informação na forma de representação política contribui ideologicamente para a manutenção da dominação, pois determina certa cultura de submissão moldada no predomínio de princípios sistemáticos de idéias e valores que cultuam a existência de uma sociedade subserviente, de dominantes e dominados, predominando como elemento central o interesse do setor dominante. Segundo o autor,

em todas as fases do coronelismo, a presença do grande proprietário de terra, mantendo relação de produção não capitalista com os trabalhadores e o atrelamento ideológico desta para com o senhor, apresentam-se como traços marcantes para caracterização do fenômeno coronelista. (Dantas: 1987, p. 15)

Tal postura contraria a literatura tradicional, tanto aquela que contextua o coronelismo como derivação exclusiva do poder econômico, quanto àquela que atribui como elemento fundamental da estrutura coronelista a clientela política e o controle do voto dos camponeses pelos proprietários de terras. Dantas, ao contrário, elege o poder, o controle coercitivo como elemento essencial no reconhecimento social do poder e do prestígio do coronel, para isso, funcionaram as milícias particulares, agremiações militares privadas controladas e sustentadas pelos senhores de terras. A partir daí apresenta a sua hipótese de trabalho:

nossa hipótese é a de que na primeira república o controle da coerção pelos proprietários rurais apresenta um papel muito mais significativo, como fonte de prestígio e poder, de que o controle do voto, enquanto tal.(Dantas: 1987, p. 14).

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

24

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Ao resgatar historicamente o fenômeno, Dantas conclui que

apresentou variações históricas, diz:

o

mesmo

de

significado em suas

fases

o coronelismo se fundamenta

no controle das massas e na legitimação da sociedade política, a partir da força de sua milícia particular, num segundo momento, quando sua força coercitiva se torna desgastada, passa a explorar seu prestígio construído através de uma tradição de mando. "Somente numa terceira fase o voto passa a ter papel primordial dentro do coronelismo ". (Dantas: 1987, p. 16).

Se num primeiro momento

Assim, na visão do autor, os elementos constitutivos do coronelismo são a propriedade fundiária, o controle coercivo, o prestígio socialmente construído e por fim o controle do eleitorado, cada um exercendo papéis determinantes nas diversas fases de evolução histórica do fenômeno. Mas a fonte do poder do mandatário é a base fundiária e o controle da coerção, este

exerceu papel determinante para o reconhecimento do prestígio e

do poder do mandatário. Através desta perspectiva apresenta a

seguinte conceituação sobre o coronelismo:

uma forma de representação política exercida por determinados proprietários sobre os trabalhadores rurais, ao tempo que se impõe como intermediário entre as massas do campo e as oligarquias estaduais, tendo como objetivo a manutenção da estrutura de dominação". (Dantas: 1987, p. 18).

Parece que o coronelismo plantou uma espécie de cultura política que vem sendo irrigada há remotos tempos e apesar dos abalos estruturais sofridos suas características elementares ainda são evidenciadas, ou mesmo criando filhotes, em determinadas regiões do país, inclusive em centros urbanos e através de políticos vistos como modernos. Portanto, percebe-se, que se o processo de modernização não for assentado rigidamente em ~rincípios éticos que condenem explicitamente e se as mudanças acorridas não forem amplas, estruturais, algumas práticas político-

não forem amplas, estruturais, algumas práticas político- UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA , , 25

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

25 ,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

soc1a1s do coronelismo, dificilmente se decomporão na sua plenitude. Desse modo, partimos, portanto, do postulado de que o coronelismo é um fenômeno econômico, social, ideológico e político, caracterizando-se, sobretudo, como uma ação de dominação e manipulação, em forma de representação política, de um se~mento social, caracteristicamente possuidor de bens passíveis de reproduzir relações sociais diversas sobre o eleitorado, impondo-se como intermediário legitimo entre este e as instituições públicas. Entre as principais práticas peculiares utilizadas para concretizar a dominação caracterizando, dessa forma, o fenômeno coronelismo, destacam-se: a manipulação de resultados eleitorais; os métodos fraudulentos em disputas econômicas e políticas; o empreguismo de apadrinhados nos serviços públicos; o clientelismo generalizado; o controle dos votos dos eleitores; o controle coercivo como fonte e imposição de prestígio e poder; a prática política paternalista e assistencialista; a prestação de serviços diversos à população, seja utilizando recursos próprios ou públicos, tais como: conduzir enfermos aos hospitais, a distribuição gratuita de remédios, materiais de construção, brinquedos para crianças, vestimentas, próteses dentárias, gêneros alimentícios etc.; o custeio de despesas com alistamento eleitoral e demais documentos; uma administração pública sustentada na prepotência e na pouca diferenciação entre público e privado; o patrimonialismo. Enfim, são as práticas fundamentadas na ideologia do favor e do compromisso recíprocos e na imposição de poder que estão profundamente arraigadas na vida social e política brasileira. Enquanto forma de dominação política o coronelismo tem- se constituído um sistema eficiente rígido de exclusão social, avesso à cidadania, forte instrumento de legitimação de miYi.1.égios_ugilaterais e um grande empecilho para -a construção e/ou consolid~ uma sociedade justa e democrática. Numa sociedade de natureza coronelista o direito social apresenta-se bastante parcial e a característica elementar dessa sociedade é a injustiça social, à medida que privilegia apenas a quem participa do pacto coronelista, somente aqueles que estão inseridos no esquema da troca de favo

~

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 26 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

BRASIL - GOLPE SOBRE GOLPES UMA CONJUNTURA HISTÓRICA (Anos 60)

Raylane do Nascimento Santos

No âmbito Nacional, as relações de poder institucionais antes e depois do Golpe Militar de 1964, sofreram muitas

Porém, no interior dos Estados brasileiros, estas

relações pouco se alteraram com os efeitos do Golpe 7 , pois nos interiores, informações que chegavam sobre o que estava acontecendo no país eram transmitidas de forma distorcida e as pessoas pouco se envolviam com os problemas de caráter nacional, estavam mais preocupadas com os problemas locais, onde o mandonismo dos ainda chamados coronéis era predominante. Entretanto, devemos lembrar que estes chefes políticos locais estavam sempre a observar o que estava acontecendo no País, para saber que rumo deveriam tomar e de que forma usariam isto para manterem-se no poder. Dentro deste contexto, (lembrando que essas agitações foram mais fortes em alguns Estados, como por exemplo: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, fazendo-se sentir seus reflexos no restante do País).

A década de 1960 foi muito tumultuada com relação à política, começando já no seu início, quando a UDN elegeu um Presidente da República (primeiro e único na história desse grande partido brasileiro 8 - Jânio Quadros).

mudanças

6

6 Mudanças como a instauração do Regime Militar e Ditatorial, que ia de encontro a democracia, censurando as pessoas por não pensarem e agirem de acordo com suas normas.

7 Segundo depoimentos de pessoas que vivenciaram a época que moravam no interior, o Golpe foi um acontecimento qualquer, sem muito estardalhaço, não modificando em nada, as vidas das pessoas.

8 Ver afirmação feita por Skidmore, Thomas. Brasil de Tancredo, Paz e Terra - Rio de Janeiro, 1988. Pg.: 28.

Castelo e

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA"' 27 "' SARAMANDAIAX BOLE-BOLE

Tratava-se de um modesto ex-professor do Estado de São Paulo, detentor de um enorme carisma e que já tinha administrado com muito êxito em São Paulo. Elegeu-se prometendo erradicar a inflação e racionalizar o papel do Estado na Economia. Jânio Quadros foi um verdadeiro fenômeno em matéria de conquistador de votos. Foram 5.600.000. Um feito jamais obtido noutros pleitos. Mas sua vitória foi totalmente pessoal, pois seu companheiro de chapa, Milton Campos, não conseguiu eleger-se, perdendo para João Belchior Goulart, que era candidato da oposição à vice-presidência (nessa época era permitido o voto em candidatos de partidos diferentes). Quando Jânio Quadros assumiu o Governo Brasileiro em 1961, esperava-se muito dele, em especial por ele ter um enorme prestígio político. A classe política e, especialmente, os militares, depositavam nele grande esperança, como afirma Skindmore:

"Pois há muito desejavam que surgisse alguém capaz de desfechar uma cruzadc~ moral contra o que consideravam políticos sem princípios e oportunistas." (SKIDMORE, 1988;

p.:28)

Este encanto foi logo quebrado, quando o excêntrico Jânio começou a procurar adesão e simpatia da parte esquerdista do Brasil, concedendo a Che Guevara 9 a Ordem do Cruzeiro do Sul, a maior condecoração Brasileira conferida a estrangeiros. A partir daí, o clima começou a ficar sombrio, pois se temia muito que o Comunismo se infiltrasse no .Brasil. As atenções de Jânio ao Governo de Cuba foram o bastante para Carlos Lacerda, a voz mais poderosa e estridente da UDN, pudesse lhe dirigi insultos. Jânio não respondeu às críticas e pressões de toda parte, mas tomou uma decisão que abalou toda a Nação: Renunciou ao cargo de Presidente da República Federativa do Brasil, no dia 25 de Agosto de 1961, deixando milhões de Brasileiros perplexos com sua atitude, não se sabendo precisamente, até hoje, o que o fez renunciar a Presidência. O fato é que o País caiu num clima de incerteza sobre o que poderia vir a acontecer futuramente.

9 Líder revolucionário e guerrilheiro &rgentino, que participou ao lado de Fidel Castro da Revolução Socialista Cubana de 1959.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 28 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Através de um manifesto, os Militares (ansiosos pelo poder desde o suicídio de Vargas) se pronunciaram contra João Goulart, onde expressavam todo o receio de que, uma vez Presidente, João Goulart promovesse a entrada definitiva do Comunismo no País. Eles queriam impedir que Jango assumisse a Presidência. A classe política dominante e os militares (que nessa época tinham bastante prestígio e participavam das mais importantes decisões do país) não queriam aceitar que o vice-presidente João Goulart tomasse posse, pois este tinha estreita ligação com o mundo comunista. Fato agravado, pois na época da renúncia do Presidente Jânio Quadros, Jango encontrava-se em visita à China Comunista.

Entretanto, os grupos aliados da esquerda apoiados na Constituição, com o intuito de fortalecer a democracia, conseguiram que João Goulart tomasse posse, contrariando muitos políticos da direita e a militares. Porém as agitações na esfera Nacional continuaram com relação ao novo Presidente.

era que João

Goulart teria seus poderes reduzidos. O Congresso aprovou a emenda que tomava o Brasil uma República Parlamentarista. Apesar de João Goulart não aceitar a medida, acabou concordando. Mas as inconstâncias do Primeiro Ministro, próprio do Parlamentarismo, que tumultuavam a vida do País e faziam surgir vários atritos, fizeram com que se realizasse um Plebiscito Nacional que lhe devolveu o Sistema Presidencialista. O Presidente João Goulart, atendendo a pedidos da esquerda, começou a fazer vários comícios pelo Brasil no intuito de conseguir o apoio da população e pressionar o Congresso na aprovação de suas medidas, o que não aconteceu. Os comícios continuaram pelo País, aumentando as tensões políticas e a conspiração militar- civil ficando cada vez mais forte, ocasionando um golpe de Estado, que depôs o então Presidente da República Federativa do Brasil, João Ferreira Goulart, de tal cargo em 1 º de Abril de 1964.

A

solução

encontrada para esse

impasse

O golpe recebeu um esmagador apoio da imprensa, que salientou a atuação dos Civis. Governadores de vários Estados e Parlamentares em menos evidência, também se manifestaram em

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 29 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

fav or do Golpe, e receberam com isso, o beneficio de valiosa publicidade. A destituição de Goulart foi, sobretudo, uma operação militar, onde as forças civis contrárias ao seu Governo não puderam impedir a sua guinada para uma estratégia nacionalista radical , que era de encontro aos seus interesses, como reforma agrária e a militância sindical que segundo os militares levariam o País a uma Guerra Civil. Nesses primeiros anos da década de 1960, as relações

políticas ficaram restritas às conspirações, pois o medo de perder o poder era muito grande, e muito maior era o "medo" que a população se levantasse, em busca dos seus direitos, já que o Brasil vivia um período de grande inflação, falta de moradia, saúde e educação. Os problemas sociais eram muitos e poucas eram as suas soluções. Os políticos estavam mais preocupados com seus próprios interesses. Ao assumirem o Poder, os Militares, implantaram no Brasil um Governo Ditatorial, chefiado por eles próprios. Segundo os militares, o Golpe foi dado com o objetivo de eliminar o perigo do Comunismo, que rondava a Nação; acabar com a corrupção, a inflação e preservar a democracia. Os militares procuravam reprimir a oposição formada por políticos, intelectuais, estudantes, líderes sindicais e padres progressistas. A repressão foi conseguida com a conqentração de poderes nas mãos dos chefes militares, para isso, eles utilizaram os chamados Atos Institucionais, que alteraram a constituição, tomando legais as medidas ditatoriais, que fortaleciam o Poder Executivo. Os Atos Institucionais tomaram ilegais os partidos políticos de esquerda e todos os meios de oposição ao Governo, esvaziando o Poder Legislativo e Judiciário. Na prática, eles acabaram com as instituições democráticas brasileiras. O País passou a viver num clima de medo, as pessoas perderam a liberdade e a Democracia foi extinta. Na política, muitos foram os políticos que tiveram seus mandatos cassados e foram exilados do País. O Brasil passou a ter . somente dois partidos políticos. O primeiro, articulado pelo próprio Governo, para garantir-lhe sustentação no Congresso,

chamava-se ARENA

(ALIANÇA

RENOVADORA

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,_,

30 ,.,,, SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

NACIONAL). O segundo era organizado por políticos da oposição moderada, e recebeu o nome de MDB (MOVIMENTO

militares

após 1964 desencadearam uma espécie de golpe sobre o golpe, pois são afastadas as lideranças civis como: Carlos Lacerda e Aldhemar de Barros, que cavaram suas próprias sepulturas, por acreditarem que poderiam utilizar a força militar em próprio proveito. Após o Golpe, todas as decisões políticas tinham que ter o aval do núcleo militar, que controlavam e supervisionavam toda a atividade política das várias administrações: desde as nomeações para os cargos de alguma significação, até as autorizações para as manifestações públicas. Quem diz que uma determinada demonstração estudantil deve ser permitida ou não, não são as autoridades políticas do Estado, mas o Coronel responsável pelo setor respectivo. As autoridades locais limitavam-se a cumprir ordem, que muitas vezes, nem mesmo através do Ministro da Justiça, vem por via telefônica. Um Governo - Federal, Estadual ou Municipal, por menos democrático que seja a sua origem, é politicamente responsável por seus atos, nestes casos eles não poderiam fazer nada, só acatar, pois acima de tudo, estava em jogo sua manutenção do Poder.

DEMOCRÁTICO

BRASILEIRO).

Na verdade,

os

Esse período com certeza foi um dos mais terríveis da história brasileira, principalmente nos grandes centros urbanos. A década de 1960, nessa esfera, foi muito tumultuada com relação, as relações políticas institucionais, que sofreram bastantes

transformações,

deixaram

de

ser democráticos para serem

ditatoriais.

UMACIDADEEMPÉDEGUERRA ,_ 31 ,_ SARAMANDAIAXBOLE·BOLE

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA

Patrícia dos Santos Silva Monteiro

Como nas outras regiões do país, no Nordeste brasileiro,

Como nas outras regiões do país, no Nordeste brasileiro, encontramos a pessoa do coronel, que é

encontramos a pessoa do coronel, que é remanescente dos ciclos econômicos que foram desenvolvidos no Brasil, tais como os do açúcar e do café. Em Sergipe, apesar de na década de 70 o coronelismo está em baixa, ou seja, está em sua fase de decadência, as práticas políticas estão imbuídas de características que fundamentam este tipo de poder, como o assistencialismo e o paternalismo. Na cidade de Lagarto, por exemplo, isso não se pauta apenas nessa década em estudo, mas remete-se ao início do século XX, com os chamados pebas e cabaús. A história do coronelismo na cidade de Lagarto provém deste período, se consolidando a 'Cada dia, tomado corpo e como diz Dantas, referindo-se ao coronel de uma forma geral: "ocupam os espaços dos partidos políticos, controlam os grupos subalternos, através de relaçãp de dependência e dominação

através de relaçãp de dependência e dominação pessoal " 10 O poder nesta cidade sempre esteve

pessoal

"

10

O poder nesta cidade sempre esteve centrado nas mãos de duas facções, sem dá espaços a uma terceira força. Começando com os cabaús e pebas, ou conservadores e liberais representados respectivamente pelo Coronel José Cirilo e a família de Silvio Romero. Posteriormente assume o poder, ainda representado os pebas e cabaús a família Garcez e Hipólito Emílio dos Santos. Com o passar do tempo (década de 60) a representatividade sofre alterações, ficando a cargo de Acrísio D' Ávila Garcez e Dionísio de Araújo Machado, o primeiro representando o PSD (Partido Social Democrático), já o segundo estava a representar a UDN

(União Democrática Nacional).

10 DANTAS, Ibarê. Coronelismo e Dominação. Aracaju: UFS. 1987. p.

37.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 32 ,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Tabela 01 Relação dos Prefeitos de Lagarto de 1890 a 1962 11

Data

1890/1893

Nome

Monsenhor Daltro

1893/1897 José Cirilo de Cerqueira 1897/1902 Sebastião da Avila Garcez 1902/1906 Filinto Martins Fontes 1906/1910 José Cirilo de Cerqueira 1910/1912 Gonçalo Rodrigues da Costa

1912/1913 Filipe Jaime Santiago 1913/1917 Antônio Oliva 1917/1921 Joaquim da Silveira Dantas

1921/1925 Joaq uim de Carvalho Leó 1926/1930 Acrízio da Avila Garcez 1930/1934 Porfírio Martins de Menezes 1934/1938 Rosendo Barreto machado

* Artur Gomes

* Armando Feitosa Horta

* José Marcelino Prata

* Aldemar Francisco de Carvalho

1946/1950

José da Silveira Lins

1950/1954

Alfredo Batista Prata

1954/1958 Dionísio de Araújo Machado

1958/1962

Antônio Martins de Menezes

*Interventores durante o período que vigorou o Estado Novo

Na década de 70, as denominações são alteradas, os grupos políticos passam a ser identificados como Bole-Bole e Saramandaia, em que os representantes ainda detinham características fortes do decadente coronelismo.

11 Fonte: MODESTO, Alailson Pereira. Saramandaia e Bole Bole:

ainda coronelismo? Estudo de caso de dominação local no município de Lagarto (1964/1988). UFS. 1998. p. 57

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 33 "" SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Tabela 02 Relação dos Prefeitos e Vice-Prefeitos de 1962 a 1982

Período

21/04/1963/

12/09/66

12/09/1966/

30/03/67

30/03/1967/

30/01/71

31/01/1971/

30/01/73

31/01/1973/

31/01/77

01/02/1977/

14/05/82

Prefeito e Vice-Prefeito

Rosendo Ribeiro Filho

Partido

PRT

Profissão

P. Rural/Pecuarista

Gentil

Monteiro de

Carvalho Dionísio de Araújo Machado e Agenor de

ARENA

ARENA

Comerciante

P. Rural/Pecuarista

Souza Viana José Ribeiro de Souza e

Funcionário

Porfirio Martins de Menezes

ARENA

Público

João Almeida Rocha e

ARENA

Dentista/Tabelião/

Eliseu Silva Martins

II

P/Rural

José Vieira Filho e José Vicente de Carvalho

ARENA!

P.

Rural/Comerciante

Fonte: Prefeitura Municipal de Lagarto.

Com o Golpe Militar, efetuado na década de 60, o cenário político brasileiro passa por grandes transformações, uma delas girou em tomo das eleições - tomando-se indireta para governador - e dos partidos políticos. Ocorreu a extinção dos partidos existentes, como o PSD e a UDN, dando espaço para o surgimento de outras denominações partidárias. Assim surge a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido representado pela situação, o qual dava sustentação ao governo e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) partido de oposição. Em Lagarto, nesse período, podemos afirmar que o MDB não teve quase nenhuma influência, pois a oposição encontrava-se dentro da própria ARENA. Representada pelos antigos chefes político que dominavam a cidade. Assim, surgem a ARENA I e ARENA II, representadas respectivamente por Acrísio D'Avila Garcez e Dionísio de Araújo Machado que posteriormente serão representados por Rosendo Ribeiro Filho e Artur de Oliveira Reis. Como forma de separar as "Arenas" a população busca uma nova

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA """ 34 """ SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

identificação para tais partidos, que seriam o Bole-Bole (ARENA 1) e o Saramandaia (ARENAII). Posteriormente esses nomes passariam a identifica, como afirma Cláudio Monteiro e o Artur Reis:

O pessoal mais fino, mais educado, o Saramandaia. Já

o Bole-bole, que eles chamavam mexe-mexe, é aquele que fazia mais auê, mais zueira. (Cláudio Monteiro) 12

) na novela Saramandaia quem era Bole-bole era

Bole-bole. É uma tradição queJá vem quando o menino

nasce, já Bole-bole ou Saramandaia. Às vezes muda por razões que eles apresentam, alegam. Muitas vezes não

foi atendido o que ele pediu

" ( Artur Reis) 13

O que nos chama atenção são os líderes políticos, chefes

políticos locais que usam dos meios paternalistas e clientelistas para adquirir os votos da região. Não é de se estranhar já que existia, ainda remanescentes coronelistas na cidade. Pessoas possuidoras de bens e influência política era quem davam as ordens para seus subordinados. Segundo Weber:

)

A

obediência dos

súditos é condicionada por

motivos extremamente poderosos, ditados pelo medo ou

pela esperança - seja pelo medo de uma vingança das

potências mágicas ou dos detentores do poder, seja a esperança de uma recompensa nesta terra ou em outro

mundo. A obediência pode,

igualmente condicionada

por outros interesses e muito variados". 14

A política apresenta-nos dois elementos extremamente importantes: a situação e a oposição. Um prepara toda uma imagem, enquanto a outra mostra-nos sempre o reverso, os pontos negativos de tudo o que já foi mostrado, e até, às vezes com extremismos. Nosso caso de estudo, não é exceção.

12 Ver depoimento em anexo.
13

Ver depoimento em anexo
14

1989.p.58

WEBER, Max. Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo: Cultrix.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 35 ,.,,,, SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Encontramos dois chefes políticos que se opunham. E nessa política de encontros e desencontros existiu também a construção e destruição de imagens. Lagarto sempre possuiu eleições "quentes", as quais, depender dos seus resultados traziam conseqüências drásticas, como insultos e perseguições às pessoas simpatizantes e apaixonadas pelos partidos perdedores. Segundo o Sr. Cláudio

a

M

onteiro

.

15

·

O outro grupo sempre persegue o grupo que perde no

Na minha familia mesmo, houve

ano da eleição.

(

)

perseguições no sentido de bombas nas portas da gente,

na porta da casa do meu avô, ali, soltaram bombas porque o nosso partido na época havia perdido, como na casa do Sr. Nousinho, Ursulino . Você amanhecia o dia com as bombas nas portas. Estourava mesmo. Bombas horríveis, de arrancar as portas.

16

15 Cláudio Monteiro era formado em História pela universidade Federal de Sergipe. Falecido em 11 de julho de 2005, à época da entrevista era

professor de redação da EPSG Frei Cristóvão de Santo Hilário e diretor

_Ex-

da EPSG Prof. Abelardo Romero Dantas na cidade de vereador na legislação 1983-1989.

Lagarto.

.

16 Segundo depoimento dado. Ver entrevista em anexo.

UMA CIDADE EM PÉ DE

GUERRA ,

,

36 ,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Além desses insultos havia perseguições morais, a busca do denegrir imagens. Geralmente a oposição buscava o lado pessoal para deixar nódoas na imagem fabricada ou não do político, a qual muitas vezes cai como uma bomba na vida desses. A perseguição na maioria das vezes era usada como uma forma de punir aqueles que contrariavam as intenções de alguns grupos.

"(

)

Também nas administrações dos executivos,

prefeitos ou governadores, existia muito a perseguição.

Se era um professor eles transferiam de uma cidade para a outra, aquela covardia, aquele império. Porque era adversário, não tinha votado com ele, era .funcionário do Estado, tirava de Lagarto e ia botar em Itabaiana". 17 (Artur Reis)

Essas perseguições em geral ocorriam com mais freqüência no período eleitoral, como também as brigas entre os apaixonados dos grupos políticos. Eram freqüentes também as relações de paternalismo nesse período, a qual para nós, dá margem ao surgimento de paixões pelos grupos políticos da época; no caso, a Arena I e a Arena II.

"Durante o período eleitoral o coronel rega o seu

eleitorado assistindo-o paternalisticamente, mantendo

os laços de dominação e dependência pessoal.

nessa fase que cresce em importância a figura do cabo eleitoral, misto serviçal e líder, dentro do coronelismo. "
18

) É

O cabo eleitoral, nesse caso, passa a ser uma das figuras chaves desse período. Esse deve manter à fidelidade ao coronel ou chefe político, mantendo também o seu lado carismático com

17 Artur Reis foi prefeito da cidade de Lagarto na década de 80, atualmente articula nos bastidores, como conselheiro político do grupo iue ajudou a fundar. Ver depoimento em anexo. 1 DANTAS, Ibarê. Coronelismo e Dominação. Aracaju: UFS. 1987. p.

3Z.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

3 7 ,

,

SARAMANDAIA X BOLE·BOLB

a população, que muitas das vezes precisa de agrados para deixar acesa a sua paixão ou simpatia pelo grupo.

"Sentido cada vez mais a valorização do seu colégio eleitoral, os coronéis no processo das eleições apoiam determinados candidatos, mas passam crescentemente a mercantilizar o voto". 19

O que podemos perceber dentro do período da eleição são as relações paternalistas, o amor pela política dos partidários e um ponto extremamente importante: a imagem do político que chama a atenção do eleitorado. As obras durante o mandato também são importantes, pois ajuda ao leitorado nas análises, se é que alguns diante da tradição de votar em um grupo ou em outro consegue fazer análises. Mas é de grande importância, já que os "obreiros" conseguem eleger o seu sucessor. Outro ponto que merece destaque são as vésperas das eleições, nas quais os candidatos preocupavam-se em agradar o seu eleitorado, servindo do almoço completo e com farturas até umas ajudas de custo para qualquer eventualidade. Nos comícios políticos observamos que não deixavam de estar presentes as grandes lideranças políticas e um show musical, para um maior entretenimento dos eleitores. Os ditos "coronéis" não detinham o cargo político em suas mãos. Entretanto, estes não só influenciavam como patrocinavam os seus sucessores, já que para ser candidato era preciso Ter muito dinheiro, como declarou o Sr. João Almeida Rocha2°:

"A campanha eleitoral era na base do dinheiro. Quem tivesse dinheiro se elegia, quem não tivesse não se elegia. Do meu grupo eu recebia muita ajuda do Sr.

19 DANTAS, Ibarê. Coronelismo e Dominação. Aracaju: UFS. 1987. p.

32.

20 João Almeida Rocha nasceu no dia 09.10.1920, na cidade de Lagarto. Formou-se em Odontologia em 1945 e aposentou-se em 1977. Exerceu os cargos de Diretor do ginásio Laudelino Freire e da Maternidade, Oficial do Regime Civil e prefeito da cidade no período de 72- 76. Ver depoimento em anexo.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 38 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Dionísio, Artur Reis, Antônio Martins e eu tinha algum

recurso,

Toda semana eu vendia

gado para custear a campanha".

eu tinha fazendas.

A utilização do paternalismo e do assistencialismo, por si só não eram suficientes, vez por outra fazia-se necessária uma aparição pública, corpo-a-corpo ou através da imprensa escrita. Mostra as habilidades do candidato tornou-se fundamental para uma maior persuasão daqueles que ainda estavam indecisos, e até mesmo, a confirmação da paixão existente em seus eleitores. Não podemos ignorar a propaganda, trampolim para o sucesso. Meio de convencimento de que o candidato fosse ideal e tivesse todos os aspectos necessários para ocupar o cargo disputado. Nesta encontramos todos os pontos positivos do candidato, como mostra o Jornal da Cidade:

Conheça um candidato - João Rocha

conhecido dentista da

cidade de Lagarto, é candidato a Prefeito do prospero

município sergipano, e tem grandes possibilidades de vitória por ser pessoa bem quista na cidade. Formado pela faculdade do Rio de Janeiro, o Dr. João de Almeida Rocha é profundo conhecedor dos problemas lagartenses, onde reside Já há anos. Foi diretor por

Sr. João de Almeida Rocha,

muitos anos, do Ginásio Comercial Laudelino Freire e foi também oficial do registro civil. Fundador do curso de contabilidade do ginásio Laudelino Freire, foi

onde

prestou assistência por longos anos. Presidente da comissão pró-construção do parque Agropecuário Nicolau Almeida, o Dr. João de Almeida, o Dr. João de Almeida Rocha tem sido um dos maiores entusiastas do progresso agropecuário de Lagarto. Colaborou também na construção do asilo dos pobres do Santo Antônio.

presidente

da

Maternidade

Zacarias

Júnior,

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA"' 39 "' SARAMANDAIAX BOLE·BOLB

O Dr. João Rocha é professor do gznasw local e recentemente obteve apoio dos _estudantes de sua cidade para candidatar-se a prefeito. Apoiado pelo ex- governador Dionisio Machado, João de Almeida Rocha acredita na vitória por que quer pacificar o município lagartense 21

'0

·

~

,

Dt. Joio Rocha o hlm""o Trio ENll1oo d1 PML 4noe 10, DNtaque, i lftl91111, pll'II R1n11do Prata.

A propaganda não só mostra a conceituação de João Rocha, mas busca todos os seus feitos para apresentar-se como um homem progressista, capaz, e além de tudo, pacifista. Isso porque de acordo com algumas fontes, as eleições em Lagarto eram, como citamos anteriormente, "quentes" Em contrapartida, eram utilizadas, também, propagandas desfavoráveis, na sua totalidade pela oposição. Essa, sem receios denigre a imagem do candidato, meio muito utilizado nesse período. Na imprensa escrita identificamos através dessa nota:

22

.

Tudo faz crer, que o atual vice-prefeito da cidade de Lagarto que aparecer. Agora mesmo achou que devia lançar um manifesto, inclusive chamando um prefeito de traidor, seu colega de chapa. Nós é que

21 Jornal da Cidade: 19.10.72 -n.º 195, página 10. 22 O termo "quentes" refere-se a eleições bastante disputadas, concorridas , em que os candidatos utilizavam-se de todas as formas possíveis para chegar ao poder.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,_,

40 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

perguntamos, não teria sido êle o traidor? E ainda mais: segundo o que se comenta na cidade, o tal manifesto foi redigido por um ex-funcionário da Prefeitura ( )

23

Como já foi dito anteriormente, na política lagartense estavam presentes o paternalismo e o assistencialismo, características presentes no coronelismo. Essas práticas exercidas contribuíam para que a população simpatizasse com mais facilidade com o político. Essas atitudes seriam uma forma de agradecer a tendência por determinados candidatos ou não, já que poderiam servir como forma de conquista de um maior número de pessoas para o seu grupo. Observamos isso claramente no depoimento do Sr. José Nonato:

jogava

sabonete no povo, jogava besÚira. Dava enxada, foice,

esses negócios. Ribeirinho sempre dava essas coisas. Eliseu do Cachimbo distribuía balas pros meninos, essas coisas nos comícios. Se fazia de Papai Noel e dava presentes para a criançada". 24

)

distribuíam

sabonetes,

enxadas,

)

Além da distribuição de brinquedos, existia a distribuição de dinheiro, prática freqüente, entretanto obscura, já que não era permitida. Às vezes, com alguma ousadia, essa ação era feita à luz do dia, nos comícios, causando o maior tumulto. Como podemos observar nessa nota a seguir:

) O acidente aconteceu Domingo à noite em uma

das praças de Lagarto, no momento em que se realizava um comício da Arena 1. Era grande multidão que assistia os pronunciamentos dos políticos quando de repente houve um grande tumulto em ocorrência da

' 1 Jornal Tribuna de Aracaju: 23.09.72 -n.º 14, página 04. ' 1 José Nonato dos Santos nasceu em 1936 na cidade de Lagarto. Filho de Raimundo Nonato e Eutímia Benvinda, passou sua fase estudantil na cidade de Aracaju, onde serviu o exército. Em 1972 retomou para a cidade de Lagarto, onde fixou-se como residente no Povoado Colônia rreze. Atualmente é funcionário público aposentado. Ver entrevista dada o autora em anexo.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,_,

41

,

,_,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

distribuição de dinheiro por parte de um dos oradores.

)"2s

Por outro lado, o acusado defende-se, afirmando que esse tipo de atitudes não foi tomada por ele, já que ele conhecia a lei que proibia tal postura, como ele afirma no Jornal da Cidade:

) Negou inicialmente José Ribeiro, que estivesse a

distribuir entre os presentes a um comício, cédulas de cinco e dez cruzeiros. Disse José Ribeiro que é estudante de Direito e não desconhece o artigo 299 do Código Eleitoral e, por conseguinte não iria

6

deliberadamente transgredi-lo.

(.

./

Segundo os entrevistados, essa prática de distribuição de dinheiro em comícios não chegou ao conhecimento deles. Para eles, seria mais fácil que isso ocorresse à noite, e não pelo dia. Como afirma o Sr. Nonato:

Dinheiro mesmo nunca vi não. Nunca me deram. Dessas eleições prá cá nunca peguei. O povo dizia que botava o dinheiro debaixo das portas e a gente, quando amanhecia ia olhar se amanhecia de um lado ou do

outro. 27

Na época das eleições a cidade ficava em "pé de guerra". As pessoas dividiam-se em grupos e cada um desses ia buscar a vitória dos seus chefes políticos. Foi na busca dessas vitórias que os conflitos surgiam, refiro-mo às brigas entre os partidário, já existia uma paixão exorbitante dentre os componentes dos partidos da Arena I e Arena II.

É como um jogo de futebol . Não tem aquelas torcidas:

flamengo

Nonato) 28

e vasco?

Cada um

tem

o seu

lado.

(José

25 Jornal

26 Jornal da Cidade: 28.10.76- n.º 1254, página 02 27 De acordo com o depoimento fornecido à autora

Gazeta de Sergipe: 28 . 10.76- n.º 5567, página 01

28 Idem

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA,

,

42 ,

,

SARAMANDAIAX BOLE-BOLE

Em nossa análise, encontramos presente em meio a essas paixões o carisma que o chefe político exercia. Esse foi de vital importância para a permanência deles no poder.

E se esses homens forem mais presunçosos

aproveitadores do momento, viverão para o seu trabalho e procurarão realizar uma obra. A devoção

dos seus discípulos, dos seus seguidores, dos militantes

orienta-se exclusivamente para pessoas e para qualidades dos chefes. A história mostra que chefes carismáticos surgem em todos os domínios e em todas as épocas. Revestiram, entretanto, o aspectos de duas figuras essenciais: de uma parte a do mágico e do profeta e , de outra parte, a do chefe escolhido para digerir a guerra, a do chefe de grupo, de condottiere.

Próprio do ocidente e, entretanto - e disso nos interessa

mais especialmente

a figura do livre "demagogo " 29

A pessoa do demagogo pode ser encontrada facilmente na

política, pois é de promessa que este vive, alimentando as paixões populares, e remediando as necessidades básicas com simples paliativos. A vocação dele para a política é nata. Na década de 70, também existiu esse tipo de político, preocupado apenas em conquistar o povo através da demagogia.

A população por sua vez, ligada às tradições deixava-se

levar por tais atitudes, deixava-se enganar. Pois por ser de um grupo ou de outro, refiro-me ao Bole bole ou Saramandaia o povo ainda alimentava as paixões, brigando, lutando, torcendo pelos representantes dos seus grupos. Como afirmamos anteriormente, o que mais contribui para que haja esse apego pelos grupos, diga-se de passagem, independente de partidos políticos, são as ca características do C'oronelismo, entre elas o assistencialismo e até mesmo o tilhotismo, a pessoa humana dessa forma deixa levar-se por tais "caridades", achando que tudo isso não deixa de ser o lado

''' WEBER, Max. Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo: Cultrix. 1989 .p. 58

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 43 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

humano do político, esquecendo ou não sabendo que há todo um jogo de interesses por trás dessas atitudes. Além desses aspectos, devemos levar em consideração o fator tradição. Nesse caso ela também fala alto. Se o avô, o pai votou, ou sempre esteve ao lado de determinado grupo, o filho sente-se influenciado por tal situação e acompanha os seus familiares, os acompanhando para os comícios, para as carreatas, levantando a bandeira em prol do seu chefe político. Como afirma o Sr. Adalberto Fonseca:

) (

Se seu pai era saramandaia, você não queria fazer

parte do bole-bole. Se achava um partido amolecido, cheio de tudo que não presta, não dá valor a nada, mesmo contra a sua vontade, continuava na obediência.

) (

A tradição domina. 30

As perseguições sempre vinham, só que após às eleições. Caso o seu grupo perdesse, e os familiares tivessem algum vínculo com empregos municipais, ou estaduais, estaria a um passo de perdê-lo ou até mesmo ser transferido. Outra prática que muito acontecia eram prisões desnecessárias, ou seja abuso de poder. Como podemos observar no depoimento do Sr. João Rocha:

) Eram perseguidas sim. Prisões por qualquer coisa,

armavam, encenavam um negócio prá qualquer motivo o delegado prender, e o delegado prendia. Havia muitas

prisões. 31

Apesar de todas as perseguições, de todos os abusos de autoridade dificilmente alguém ficava "em cima do muro", pois, em sua maioria, a cidade estava imbuída de todo um

30 Adalberto Fonseca nasceu em 1917, foi membro da Marinha até 1934, fazendo parte depois da Coletoria. Aposentado como auditor da Receita Federal, foi um auto-didata em história. De acordo com o depoimento dado a autora. Vê-lo em anexo.

31 Ver depoimento em anexo.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

44

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

tradicionalismo, o qual perdurou de longas datas. Não obstante, essa paixão moldou a política lagartense, de forma que não se via siglas partidárias sem o acompanhamento do Bole-Bole ou Saramandaia, ou ao menos uma eleição sem os insultos, sem os xingamentos, isso, principalmente depois da Eleição em que disputaram os Srs. José Vieira e Porfírio Martins. Nesse momento aparece uma figura que vai representar com mais vigor o grupo Saramandaia, o Sr. Artur de Oliveira Reis com o símbolo de gavião, e o Bole-Bole continua ser representado pelos irmãos Ribeiro, tendo como símbolo um "pinto pelado". O coronelismo deixou sua marca através dos tempos, que ainda tem seus remanescentes. O amor pelos grupos perpassa nas práticas coronelíticas, como também no tradicionalismo imbuído nessa população que não se contentou apenas com a identificação com cada grupo, mas sim, em lutar, fazer representar-se por cada um deles, passando de geração em geração.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

45

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE 32 ASPECTOS POLÍTICO-ADMINISTRATIVOS

Alailson Pereira Modesto

Como já fora salientado, a história política de Lagarto é a história das disputas políticas, estritamente polarizadas, entre somente duas agremiações partidárias. A cada momento histórico, efetivamente, apenas duas facções têm-se apresentado

32 Denominações circunscritas aos dois grupos locais, inspirados nas novelas O Bem Amado e Saramandaia, de autoria do dramaturgo Dias Gomes exibidas pela Rede Globo de Televisão em meados da década de

70. Tais denominações simbólicas, já que não consta registro legal, têm

validade no imaginário coletivo para substituir as siglas partidárias que ora possam ser integrados. Mas, no entanto, esse hábito de dar nomes a grupos políticos, não é uma característica apenas do município de Lagarto, em outros municípios sergipanos, tal peculiaridade também se · evidencia. Na cidade de Arauá, por exemplo, são goiaba e leite, em Pedrinhas pardal e morcego; em Simão Dias jacaré e crocodilo; em Ribeiropolis, na última eleição, peru e guiné. Mas, também, isso não ficou restrito apenas ao universo municipal, o Estado de Sergipe, por exemplo, já houve denominações com abrangência ampla, foram os casos de pebas e cabaús. E em outros Estados brasileiros também há registro sobre isso, no Estado do Paraná, por exemplo, logo após a proclamação da república surgiram os maragatos (ou federalistas; adversos ao novo regime) e os pica-paus (ou legalistas; defensores do novo regime). De qualquer maneira, é em Lagarto que a denominação simbólica é muito forte e bole bole e saramandaia são símbolos de identificação, tão forte quanto o partido, muitos moradores, inclusive, não sabem qual o partido do seu líder político, identificando, apenas, por essa denominação simbólica. Por outro lado, ao passo que são tomados pela população como ícones de identificação fica mais fácil para os detentores do mando dessas agremiações se perpetuarem na representação política, pois torna-se muito mais difícil um elemento

externo tirar-lhe no voto essa representação, já que esse elemento não está inteiramente identificado com bole bole ou saramandaia. Talvez, aí se justifique a polarização política local.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 46 "" SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

como as unrcas detentoras do monopólio da dominação local.

trinta anos,

evidenciou-se a saga saramambolista, através dos governos que

municipal,

ocuparam

e

60 e por mais

Entre o final

dos

anos

de mais

abaixo

de

o

executivo

relacionados

descriminados.

-

' I

f

m

~

-··

Inauguração e Benção Apostólica do Armazém da Cidade Nova -Anos

_

~~

60. Ribeirinho (o Prefeito) e Artur Reis (o Empresário) - amigos de

agora, inimigos de amanhã.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 4 7 "" SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Rosendo Ribeiro Filho (21/abr/63 a 12/set/66)

Há 21 de abril de 1963 toma posse frente ao executivo municipal Rosendo Ribeiro Filho, despontando-se naquele momento como uma terceira força política' na cidade. Era a chamada ala independente, apesar de sua origem referir-se diretamente à liderança de Dionísio Machado, líder mor da UDN em Lagarto, mas alheia, a partir de então, aos dois líderes políticos tradicionais. Ribeirinho, como era mais conhecido, iniciou sua vida pública na eleição municipal de 1954, quando Dionísio de Araújo Machado (UDN) candidatara-se a prefeito e o convidara para ingressar na política, primeiro acompanhando-o em eventos políticos e depois se candidatando a vereador 33 Nessa eleição ambos saíram vitoriosos: Ribeirinho foi eleito vereador e Dionísio prefeito. Na eleição seguinte, 1958, ainda pela UDN, aos trinta anos

de idade, Ribeirinho resolve ir mais além à política candidata-se a deputado estadual, juntamente com seu líder mor de então que pleiteava o cargo de vice-governador do Estado. Mais uma vez os dois conseguem êxitos: Ribeiro Filho vai para a assembléia legislativa e Dionísio é eleito vice governador e no período de

31 /01/1963 assume em definitivo o executivo

estadual, em decorrência da desincompatibilização de Luís Garcia que se candidataria a senador na eleição de 7 de outubro

06/06/1962 a

de 1962 3 4.

A sucessão municipal de 1962 iria reunir alguns atrativos até então não muito comuns no município, o principal deles, sem

33

Conforme

RIBEIRO

FILHO,

Rosendo .

Depoimento

ao

autor.

Lagarto , 11 de abril de 1998.

34 Ver DANTAS, José Ibarê Costa.

(1889/1964). Rio de Janeiro, Ed. Tempo Brasileiro, 1989, p. 255 - 256 e

p. 317.

·

Os Partidos Políticos em Sergipe

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

48

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

dúvida, foi o surgimento de três candidatos a prefeito, quebrando, desse modo, uma tradição partidária bipolar. Para se ter uma noção exata da especificidade desse acontecimento, basta mencionar que além da eleição de. 1962, onde três candidatos concorreram, somente na eleição de 1988 foi que a sucessão municipal foi decidida por mais de dois candidatos. Nesta, além das candidaturas dos dois grupos tradicionais surgiram as candidaturas do PT e do PDT (recém criados no município).

Os três personagens que se apresentaram como candidatos a

prefeito nesta eleição dispunham de reais instrumentos que lhes credenciavam a possibilídade de vitória: um, José Monteiro de Carvalho (UDN), foi apoiado por Dionísio Machado e o então prefeito Antônio Martins de Menezes (UDN), aliado de Dionísio; o outro, Pedro Batalha de Góis (PSD), era apoiado pelo influente

coronel Acrísio Garcez; e o terceiro candidato era Rosendo Ribeiro Filho, discípulo político de Dionísio que acabara de romper relações com este e integrara-se ao PRT. Ribeiro Filho,

através de retórica objetiva e com bastante apelo popular, pregava o discurso de renovação na política municipal, dizendo ser "a salvação do povo " e estava tendo eco após dois sonoros mandatos: vereador (1454/1958) e deputado estadual (1959/1962). A eleição prometia ser bastante tumultuada, o que levou o TRE a determinar o envio de tropas federais para garantir a

realização do pleito 35

Ribeiro Filho reagiu a essa notícia com

certo clima de alegria, já que dias antes na Assembléia teria dito

"estar sendo enxovalhado" pelos seus opositores, e se não fosse enviado reforço policial, temia maiores complicações durante a realização do pleito 36

A trajetória política de Ribeiro Filho foi, até aquele

momento, amplamente vitoriosa. Após conseguir, em duas eleições consecutivas, se eleger como vereador e como deputado estadual, entraria para essa disputa, no mínimo fazendo muito barulho e com "muita agilídade política". E sua presença

35 Conforme notificou o Jornal Gazeta de Sergipe na edição de 30 de setembro de 1962. Mas o envio de tropas não foi apenas para Lagarto, como também em outros municípios sergipanos. 36 Ver Jornal Gazeta de Sergipe edição de 02 de outubro de 1962.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

49

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

também se fazia sentir na imposição da força, "homem valente,

muito sabido, uma raposa (

que, pelo menos no imaginário coletivo, ele também se impusera

sobre esse aspecto. Posteriormente, corroborou para essa fama a

eu

aparteei um deputado lá, que eu não me lembro quem foi o

deputado, eu disse que tinha vinte mil homens armados aqui em

Lagarto

cassação. Tudo isso contribuiu para expansão da fama de ser um político polêmico. As previsões de um processo eleitoral complicado realmente se concretizaram. O resultado da eleição foi decidido dias após a realização do pleito através de julgamento do TRE, confirmando a vitória do candidato udenista José Monteiro de

" 38 , afirmação que, segundo ele, foi a causa da sua

)"

37 De qualquer forma, o fato é

sua afirmação na AL no seu segundo mandato de deputado: "

Carvalho que ganhou a eleição com apenas trinta votos de vantagem sobre Ribeiro Filho.

37 Afirmação feita por moradores, em conversas informais, referindo-se às afirmativa que Ribeirinho já teria atirado em muita gente e que tinha um grupo armado. Falam que na década de 60 "ele teria arrancado a orelha de um com um tiro". No Dossiê do então Serviço Estadual de Informação consta também que Ribeiro Filho atentou com seu veículo contra seu irmão (3 l/mai/64), Júlio Modesto, ferindo-o Tal fato, posteriormente, endossou as justificativas usadas pelos militares para cassar o seu mandato de deputado estadual. Na época foi aberto inquérito policial (05/nov/1964) e este foi enviado em 04/dez/70, à pedido, para a Secretaria de Segurança Pública. O deputado Pedro Batalha na segunda metade da década de 60, também, declarou na ALS que ele teria dado "uma rajada de metralhadora" numa kombi que transportava o filho de Lourival Batista que na época era candidato a deputado federal. Numa das sessões de junho de 1968 os dois discutiram muito sobre isso e a sessão chegou a ser interrompida, voltando normalmente em seguida; no conteúdo dessa discussão incluem-se acusações mútuas de delator, cangaceiro e comunista, cf. Gazeta de Sergipe.05/jun/68. Em depoimento ao autor, 11 de abril de 1998, evitando delongas, negou a veracidade desse incidente. 38 Conforme RIBEIRO FILHO, Rosendo. Depoimento ao autor. Lagarto, 11 de abril de 1988.

UMACIDADEEMPÉDEGUERRA"' 50 ,

,

SARAMANDAIAXBOLE·BOLE

O PSD também entraria na discussão e em 6 de dezembro

1962 entra com recurso junto ao TRE contra a diplomação do

a vitória da UDN na

sucessão municipal. Mas mesmo após a diplomação de José Monteiro e a confirmação da sua vitória pelo TRE as discussões em tomo da lisura da eleição continuavam calorosas. E poucos dias da posse José Monteiro de Carvalho não suportou as

de

prefeito eleito 39 , mas este tribunal ratificou

pressões e veio a falecer (21/01/1963). Os mais exaltados aliados do grupo de Dionísio Machado alegam que a morte foi provocada em virtude do "terrorismo verbal" de Ribeiro Filho que não se conformou com o resultado 40 Mas Ribeirinho, no entanto, contesta essa interpretação e afirma que a causa da morte de José Monteiro não foi a sua reclamação diante do resultado, para ele a

virtude

irregularidades

ocorridas naquele pleito 4 1 De qualquer forma, com o falecimento de José Monteiro de Carvalho o TRE convocaria uma nova eleição para o dia 14 de abril. E para a vaga deixada assumiu interinamente a prefeitura o presidente da Câmara de Vereadores Pedro Menezes Dória (0 1/fev/ 1963 a 20/abr/63) até o prefeito a ser eleito no novo pleito viesse assumir o cargo. Nessa nova eleição concorreram os dois candidatos que tinham sido derrotados no pleito anterior Pedro Batalha de Góis (PSD) e Rosendo Ribeiro Filho (PRT), na nova composição de forças este último consagra-se vitorioso com uma di ferença de 1.525 votos 42 , diante de uma população com cerca de oito mil eleitores. Assumindo a posição de prefeito uma semana após só deixa-a em setembro de 1966 quando retomaria à Assembléia Legislativa.

reclamação

era justa em

de

algumas

111

Ver Jornal Gazeta de Sergipe, Aracaju, 07/12/ 1962. Conforme notificaram em conversas informais alguns moradores do município 11 que presenciaram de perto essa questão.

Depoimento ao autor.

Conforme

RIBEIRO

FILHO,

Rosendo.

~agarto: 11 de abril de 1998. Ver Jornal Gazeta de Sergipe, Aracaju, 17/04/ 1963. Mas o mesmo Jornal não notifica a quantidade de votos que cada candidato obteve, nem tio pouco divulga o resultado geral dessa eleição.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 51 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Entre os seus atos administrativos destacam-se a construção

do Mercado Municipal, mudando-se do centro da cidade para uma área mais afastada, nas proximidades da Igreja do Rosário, local onde ainda hoje funciona; no lugar do antigo mercado foi

construída a Praça Philomeno Hora 43 ; a construção de trinta e

cinco grupos escolares, incluindo aí escolas de corte e costura; a

o orgulha bastante, a

construção do Palace Hotel 44 ; e um fato que

43 O nome é em homenagem ao então juiz de direito da cidade, · Philomeno Vasconcelos Dantas Hora, que no dia 08/dez/1902 foi assassinado nesse lugar, "em virtude da instalação da nova casa do mercado". Ver HORA, Philomeno de Vasconcelos Dantas. Memórias. Rio de Janeiro: s. n., 1966/1975 e ARQUIVO DO JUDICIÁRIO. Aracaju, Livro de Registro de Acórdãos, ex. 02. Nessa nova construção foram erguidos dois monumentos: um em homenagem à "Revolução de 1964" e um coreto em designer moderno. Mas, durante a administração de Artur de Oliveira Reis (05/fev/1983 a Ol/jan/1989) a praça passou por uma ampla reforma e o coreto foi totalmente destruído o que levou a calorosas discussões na AL de Ribeiro Filho com o filho do então prefeito, Jerônimo de Oliveira Reis, que na época era deputado estadual. No lugar do coreto foi construído um espaço para shows. Durante a gestão de José Raimundo Ribeiro, irmão de Ribeirinho e mais conhecido como Cabo Zé (01/jan/1993 a 01/jan/1997), a praça passou por uma outra reforma e no lugar da "concha acústica" que foi destruída ergueu- se uma fonte luminosa. E mais recentemente, julho/1997, o prefeito Jerônimo Reis, alegando a necessidade de uma outra reforma na praça, a fonte luminosa também foi destruída sob os olhares atentos de muitos curiosos, entre os quais alguns exaltados defensores do grupo saramandaia que aplaudiram a cena da destruição da fonte luminosa, enquanto o grupo opositor contestava veementemente. Tais atitudes dão, cada vez mais, históricos ingredientes à rivalidade de bole bole e saramandaia enquanto o dinheiro público gasto nessa construção- destruição é relegado a plano secundário. 44 O hotel construído levou o seu nome Rosendo Palace Hotel e funcionou até por volta da década de 80, quando durante a gestão de Artur Reis foi abandonado. Durante a gestão de Cabo Zé ele foi cercado sob a alegação do prefeito que ia ser reformado e reaberto, mas isso não se realizou. E durante a atual administração o prédio do hotel foi leiloado, sendo arrematado (jan/97) pelo cunhado do prefeito José Augusto Vieira, deputado estadual (83/89) e proprietário do grupo

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

52

,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

doação de lotes de terras no Povoado Brasília, citando-o comoum

exemplo de reforme agrária: "

quando houve o processo

revolucionário de 64 a prefeitura chegou a comprar três ou quatro mil tarefas de terra e eu fiz a doação de graça ao povo

(

) o povoado Brasília quase todo foi terra doada por min " 45

Tabela 03 - Atos Administrativos Ribeiro Filho

Resumo dos Atos Administrativos do Prefeito Rosendo Ribeiro Filho segundo Contratação e Demissão de Funcionários 46

Nomeação e/ou

Contrata_ç_ão

Exoneração

209 74

I

Transferência

13

Fonte: Arquivo da Prefeitura Municipal de Lagarto.

Já a Câmara de Vereadores estava composta pelos seguintes

membros: Pedro Menezes Dórea; Gentil Monteiro de Carvalho; José dos Santos Oliveira; Agenor de Souza Viana; José Rosendo

dos Santos; João Nogueira da Silva; Santiago Bispo; Raimundo Alves de Carvalho; Eliseu de Oliveira 47

Gentil Monteiro de Carvalho (12/set/66 a 30/mar/67)

A eleição que escolheria o novo prefeito do município

deveria ser realizada em novembro de 1966, mas a articulação de interesses da oligarquia regional e o governo militar impôs restrições a sua realização, adiando-a para março do ano seguinte, colocando Sergipe como o único Estado brasileiro a não ter tido a

empresarial Maratá-Plastil-Maracar que investe em diversas ramos de atividade, agricultura, indústria e comércio, sendo, portanto, o maior sustentáculo financeiro do grupo saramandaia.

45 Conforme RIBEIRO FILHO, Rosendo. Depoimento ao autor. Lagarto: 11 de abril de 1998.

46 Este aspecto da presente pesquisa foi desenvolvido de forma precária e está sujeito a alguns equívocos quanto aos dados apresentados. 47 Arquivo da Câmara de Vereadores de Lagarto.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

53 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

primeira eleição para prefeito do regime militar em 15 de novembro de 1966 48 Para o lugar de Ribeiro filho, que saiu em 12 de setembro para concorrer a uma vaga na Assembléia Legislativa, assumiu a chefia do executivo um interventor. E o escolhido foi o então vereador Gentil Monteiro de Carvalho (UDN), comerciante de fumo e homem da inteira confiança de Dionísio de Araújo Machado, o que demonstra a harmonia deste último com as esferas dominantes. O governo de Gentil Monteiro é caracteristicamente de transição, seu papel seria o de preparar o terreno para uma composição que agrupasse os interesses das três forças: a do prefeito que saíra, Ribeiro Filho, que estava com sua popularidade em pleno crescimento e emergira como uma terceira força; a do velho Acrízio Garcez e seus aliados, que apesar do delicado estado de saúde era bastante prestigiado; e os interesses do seu patrono político, Dionísio Machado. E isso foi comprovado na eleição de 12 de março de 1967, onde Dionísio foi o candidato único, sendo tranqüilamente eleito num universo de pouco mais de oito mil eleitores.

Tabela 04 - Atos Administrativos Gentil Monteiro de Carvalho

Resumo dos Atos Administrativo do Prefeito Gentil Monteiro de Carvalho segundo Contratação e Demissão de Funcionários 49

Contrata ão e/ou Nomeação

05

Dis ensa e/ou Exonera ão

21

Fonte: Arquivo da Prefeitura Municipal de Lagarto.

48 Ver DANTAS, José lbarê Costa. A Tutela Militar em Sergipe , 1964/ 1988. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. Pág. 65. 49 Este aspecto da pesquisa foi desenvolvido de forma precária e está sujeito a alguns equívocos de dados.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 54 ,

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Dionísio de Araújo Machado (30/mar/67 a 30/jan/71)

O Líder da UDN em Lagarto entra para a eleição de 12 de março como candidato único, agora na recém criada ARENA, sendo apoiado pelos aliados de Acrízio Garcez e por ele próprio e recebendo um apoio brando de Ribeiro Filho, que a essa altura estava na Assembléia Legislativa, ao lado de outro representante do município Pedro Batalha, um aliado de Acrízio. Com este Ribeiro Filho travaria muitas discussões nas sessões em plenário, algumas delas bastante tumultuadas 50 . O acordo firmado para essa eleição incluía um aliado de Acrízio Garcez como candidato a vice-prefeito e o escolhido foi o vereador eleito na eleição de 62 o comerciante e amigo íntimo de Acrízio Garcez Agenor de Souza Viana. A escolha de Agenor Viana só foi confirmada, e este era o pacto, depois que Lourival Baptista assumiu o governo do Estado. Foi apresentada uma lista com três nomes e o escolhido foi aquele preterido pelo "velho Acrízio", conforme relatou Agenor Viana todo o desenrolar desse pacto:

esse acerto foi feito na Fazenda Piauí: tavam Zé Leite, Lourival Batista, aquele professor Acrísio Cruz, Manuel

aí então nesse

convite ficou certo que seria eu, mas esse negócio não era para sair daqui, ele disse: veja quem são as pessoas que estão aqui que essa história não vai sair. E

Ribeirinho, quase todo dia, que ele era meu adversário,

hoje nós somos correligionários, mas Ribeirinho sempre dizia: rapaz Dionísio disse isso, Dionísio disse

aquilo, fulano de tal disse sobre você e tal e tal

Quando foi outro dia, da posse de Lourival Batista, eu

encontrei com Ribeirinho ali em frente ao cine, (Cine

Pálace) (

Eu digo não. Vim saindo do palácio agora e Dionísio não lhe aceita nem pelo amor de deus. Eu digo: Dr.

Cabral Machado e tantos outros (

)

(.

.)

)

e ele disse: Agenor sabe o que aconteceu?

5 °Conforme notificou o Jornal Gazeta de Sergipe em 05/jun/1968 onde os dois deputados trocaram ofensas. Segundo o jornal o fato só não piorou devido a "turma do deixa disso".

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "" 55 "" SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Lourival já tomou posse? Já, acabou de tomar posse agora. Aí eu digo: então eu vou lhe dizer, sabe quem é

) até meia hora antes eu

não lhe dizia, mas agora eu digo sou eu o primeiro vice prefeito de Lagarto. E fui " 51 .

o vice prefeito de Lagarto?

Era a primeira vez que o cargo de vice-prefeito fazia parte de uma chapa.

Comll6 Pdlllco de SÍÍUÕlonllllodeAtiÕ!jÕMácllado:Moe eõ.

Praça FIiomeno Hola

Tabela 05 - Resultado da Eleição de 1967

Resultado da Eleição para Prefeito em 12 de março de

1967

Candidato

Partido

Votos

Dionísio de Araújo Machado

ARENA

4.521

Nulos

e brancos

-

1.095

Fonte: Jornal Gazeta de Sergipe 16/03/ 1967.

51 Conforme VIANA, Agenor de Souza. Depoimento ao autor. Lagarto 4 de junho de 1998.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,.,

56 ,

,.,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

O Legislativo Municipal compôs-se dos seguintes vereadores: Antônio Ferreira Filho; Santiago Bispo; José Batista Prata; Manoel Rosendo dos Santos; Eliseu de Oliveira; José

Correia

Dórea; Donato Batista; José Filho 52

Sobrinho;

José

dos

Santos

Oliveira;

Pedro

Menezes

Tabela 06 Atos Administrativos Dionísio de Araújo Machado Resumo dos Atos Administrativos do Prefeito Dionísio de Araújo Machado segundo Contratação e Demissão de funcionários 53

Fonte: Arquivo da Prefeitura Municipal de Lagarto.

José Ribeiro de Souza (31/jan/71 a 30/jan/73)

O pacto político firmado na eleição

Se,

naquela eleição a chapa foi composta por Dionísio Machado e um aliado de Acrízio Garcez, Agenor Viana; nesse novo pleito concorreriam um aliado de Acrízio Garcez (José Ribeiro de Souza (11/mar/1915 - 27/dez/1995), mais conhecido como Ribeiro Coletor, em virtude do cargo que exercia, modernamente era uma espécie de auditor fiscal, como candidato a prefeito e o seu vice Porfirio Martins de Menezes Filho (Porfirinho), aliado de Dionísio. E mais uma vez a candidatura foi única.

de 67 agora ocorria de forma inversa.

53 52 Arquivo da Câmara de Vereadores de Lagarto. Este aspecto da pesquisa foi desenvolvido de forma precária e está sujeito a alguns equívocos quanto aos dados apresentados.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,.,

5 7 "' SARAMANDAIA X BOLE•BOLB

A essa altura Rosendo Ribeiro Filho já estava com seus direitos civis e políticos cassados pelo regime militar. O fato ocorreu no final da década de 60 quando o mesmo era o Presidente da Assembléia Legislativa, assumindo o cargo na vaga deixada por Gilton Garcia que tinha sido cassado anteriormente. Mas tal fato não o impediu de dar apoio ao seu irmão Ribeiro Coletor, mesmo que fosse um apoio discreto, já que ambos eram de posições políticas diferentes.

Tabela 07 - Eleição de 1970

Resultado da Eleição para Prefeito em 15 de novembro de

1970

Candidato José Ribeiro de Souza Brancos e nulos Total de Votantes

Partido

Voto

ARENA

4.110

-

3.135

-

7.245

·

Fonte: Arquivo do Tribunal Regional Eleitoral/SE.

Percebe-se

nessa

tabela

um

grande

número

de

votos

brancos e nulos perfazendo um percentual de 43 ,27% dos votantes. A abstenção nessa mesma eleição foi de cerca de 31 %,

ou seja, para um eleitorado de 10.515 votaram 7.245. Para a Câmara de Vereadores a ARENA consegue eleger a maioria dos seus membros, conforme demonstra a tabela abaixo:

Tabela 08 - Vereadores em 1970

Relação dos Vereadores Eleitos na Eleição de 15 de novembro de 1970

 

Candidato

Eliseu

Silva Martins

Santiago Bispo Josefren do Nascimento José Alberto de Souza

José Corrêa Sobrinho

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,,,

58 ,

Partido

Voto

ARENA

690

ARENA

513

ARENA

409

ARENA

367

ARENA

315

,

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Antônio Rosalvo dos Santos

ARENA

308

Edmundo Mesquita ARENA

28 1

Donato Batista de Santana

ARENA

264

José Gilson Menezes

MDB

247

Isaú Pereira de Souza

ARENA

205

Rubem Teixeira ARENA

193

Eremitas Francisco de Jesus

ARENA

188

Antônio Rodrigues do

Santos

MDB

153

José Batista Prata

ARENA

132

Brancos e nulos

-

2.4 10

Fonte: Arquivo do Tribunal Regional Eleitoral

Reunião PollUca na residência de Dlonfsio de Araújo Machado. José V,cen1e de Carvalho fala ao& presentes, entre eles o empresário e fundador do PFL em Lagarto, José Corres Sobrinho - Anos 60.70.

Para a Câmara Federal a ARENA também obteve

esmagadora diferença, alcançando 3.532 votos contra 399 do MDB. Idem para a Assembléia Legislativa, onde a ARENA

obteve 4. 764 votos

contra 522 votos do MDB . Para deputado

estadual os dois candidatos mais votados foram: José Raimundo Ribeiro (ARENA) com 2.457 votos e Pedro Batalha de Gó is

(ARENA) com 1.138 votos 54

~Fonte: Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 59 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Tabela 09 - Atos Administrativos José Ribeiro de Souza Resumo dos Atos Administrativos do Prefeito José Ribeiro de Souza segundo Contratação e Demissão de Funcionários 55

Nomea_ç_ão

101

Exonera.2_ão

17

Alguns ícones municipais foram criados durante a administração de Ribeiro Coletor, como por exemplo a bandeira e o hino municipais, ambos de autoria de Adalberto Fonseca, um pesquisador natural da cidade de Campo do Brito que há muito tempo vive no município e durante essa administração também desenvolveu uma pesquisa sobre a história de Lagarto.

João Almeida Rocha (31/jan/73 a 31/jan/77)

A eleição de 15 de novembro de 1972 traria de volta ao município as disputas políticas, ausentes nas duas eleições municipais anteriores que foram decididas através de candidaturas únicas. Desta feita já estava tornando nítida a nova existência da polarização partidária, definindo-se os novos chefes políticos locais: de um lado estava Ribeiro Filho e seu grupo e que recebera o reforço de alguns antigos aliados de Acrízio, já que este não plantou um sucessor direto, após sua

55 tal aspecto da pesquisa foi desenvolvido de forma precária e está sujeito a alguns equívocos quanto aos dados mencionados nessa tabela.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA _, 60 _, SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

morte os seus discípulos enfileiraram-se em alas de outras lideranças, não trilharam um caminho político exclusivo; do outro estava o grupo de Dionísio, com a insipiência da influência de Artur de Oliveira Reis, até então bastante discreto nos processos eleitoras, sua participação era, principalmente, um auxílio financeiro, já que era um próspero proprietário rural, era o início du transferência da liderança de Dionísio para Artur Reis. Formadas as chapas, João Almeida Rocha (mais conhecido como Dr. João), um próspero dentista e tabelião que já havia sido convidado em duas vezes para candidatar-se, mas isso não veio a concretizar-se 56 ,e Eliseu Silva Martins (mais conhecido como Eliseu do Cachimbo), um proprietário de terras e comerciante de fumo em notória ascensão econômica. A exemplo de Ribeiro Filho, o Homem do Cachimbo tinha o hábito de presentear os eleitores que buscavam seu auxílio com materiais de construção, caixões de defunto entre outros objetos; durante o natal doava brinquedos às crianças no natal, para esse evento usava o estádio de futebol Governador Paulo Barreto de Menezes onde fazia uma grande festa; e no período da semana santa doava peixes, ncompanhado de uma cesta de alimentos, em sua residência. Estes concorreriam com José Vieira Filho, proprietário de terras e comerciante no ramo de movelaria, que tinha sido secretário particular de Ribeiro Filho quando este era o prefeito municipal, cxercendo uma fraterna relação de amizade, e o candidato a vice prefeito, Agenor de Souza Viana, um antigo aliado de Acrízio Garcez, que tinha sido vereador e vice prefeito na segunda gestão de Dionísio Machado. Após a morte daquele, Viana passou a integrar o grupo de Ribeirinho. Ambas as chapas pertenciam aos quadros da ARENA que foi subdivida em ARENA II e ARENA I, respectivamente.

5 ~ Em 1962 desistiu da candidatura, deixando a vaga para o seu sogro José Monteiro de Carvalho e na eleição de 1970 cedeu o lugar a José

Ribeiro de Souza.

autor. Lagarto 04 e 22 de junho de 1998.

Depoimento ao

Conforme ROCHA, João Almeida.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA _, 61 _, SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Come moração da vitória dlt Dr.

JolO Rocha para Prefeito da Lagarto - Ano • 70.

Em dHtaque , ao centro. a Prof" ~la Plrff

A eleição foi marcada, também, por um certo ar festivo da política, consolidando esse estilo de se fazer política no município iniciado, sobremaneira, por Ribeirinho na eleição municipal de 1962 e na eleição extraordinária para prefeito de 1963, mas não muito presente nas duas eleições seguintes. Colaborou para isso o incremento da urbanização, que toma números expressivos durante essa década, aliado ao decréscimo da população rural. Posteriormente mais um fato iria engrossar esse conteúdo carnavalesco da política local, quando da exibição da novela O Bem Amado, que tinha em seu enredo a irrestrita obstinação do prefeito da fictícia cidade do interior da Bahia, Sucupira, que tentava a todo custo inaugurar um cemitério por ele construído e no final acabou ele mesmo sendo o defunto a inaugurá-lo. Assim, entre os atos administrativos de João Rocha foi a construção de um cemitério no povoado Rio da Vaca, cuja inauguração não ·se realizou para evitar as brincadeiras que já rondavam a cidade em virtude dessa semelhança, conforme ele mesmo anunciou:

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 62 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

quando eu construir o cemitério do Rio da Vaca eu não inaugurei porque tinha um tal de Odorico Paraguaçú que nunca inaugurou eu também não

inaugurei. Então eu construir um cemitério lá no Rio

Para não tomarem na

da Vaca mas não inaugurei(

brincadeira. Mas era tanta brincadeira, tanta

)

, d

pia a

,,57

.

Tabela 10 - Eleição de 1972 Resultado da Eleição para Prefeito em 15 de novembro de 1972

Candidato

Partido

Votos

João Almeida Rocha

ARENA II

4.459

José Vieira Filho

ARENA!

3.456

Fonte: Arquivo do Tribunal Regional Eleitoral/SE.

Para a Câmara de Vereadores, mais uma vez, o partido governista consegue uma maioria esmagadora, , como se vê na tabela abaixo:

Tabela 08 - Vereadores 1972

Relação dos Vereadores Eleitos na Eleição de 15 de novembro de 1972 segundo o partido e a quantidade de votos

Candidato

Aloísio Conceição ARENA 539

Partido

Votos

José Almeida Monteiro

ARENA

501

Paulo dos Santos Barbosa

ARENA

487

Santiago Bispo

ARENA

458

Antônio Rosalvo dos Santos

ARENA

424

Antônio Ribeiro de Souza

ARENA

417

Divaldo Santos Andrade

ARENA

406

Isaú Pereira de Souza ARENA

330

57 Conforme ROCHA, João Almeida. Depoimento ao autor. Lagarto 04 e 22 de junho de 1998.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA ,

,

63 ,_ SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Eremitas Francisco de Jesus José Erinaldo Nascimento Donato Batista de Santana Silvano Santiago dos Santos Edmundo Lino Mesquita Antônio Simões Filho

ARENA

287

ARENA

273

ARENA

259

ARENA

212

ARENA

200

MDB

327

Fonte: Arquivo do Tribunal Regional Eleitoral/SE

Entre as principais realizações de sua administração podem- se destacar: a abertura de sete estradas de rodagens, construídas em condições adversas; a construção de 36 grupos escolares; a arborização do centro da cidade, obra que segundo ele foi sabotada pelos seus opositores que no dia seguinte arrancavam as árvores; a pavimentação de dezenove ruas no centro da cidade; a regularização das dívidas da prefeitura, principalmente as referentes ao BNH e ao INPS. João Rocha queixa-se bastante de na sua administração ter sofrido todo o tipo de injúria e calúnia em virtude do clima de rivalidade entre os dois grupos que dominam a política no município e principalmente por não pactuar da forma como se faz a política no município. Para ele, também, uma característica marcante na política local é a relação da compra do voto, quando perguntado sobre isso respondeu: "É a mais comum aqui em

pelo favor, é o

município mais, é o eleitor mais corrupto, só dá o voto em troca

" 58 E, segundo ele, muitos eleitores sabendo da

existência dessa relação levam tal fato como uma fonte de renda explorando com muita veemência. Quando indagado sobre o que mudou nesse quadro daquele período que era o prefeito para os

Lagarto. Em tudo aqui, aqui é troca do voto

do dinheiro

dias atuais disse:

Continua a mesma coisa, a mesma coisa continua. É tanto que eu tive muito aborrecimento com isso e respondia com educação àqueles que votavam em meus

58 Conforme ROCHA, João Almeida. Depoimento ao autor. Lagarto 04 ·

e 22 de junho de 1998.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 64 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

aliados; àqueles que votavam contra e eram exploradores era a quem eu dava essa resposta: não sou chefe político, não sou cabo eleitoral, não sou candidato nem quero ser candidato, portanto procure seu candidato. Eu a estes ·eu respondo com esta grosseria " 59 .

José Vieira Filho (01/02/1977 a 14/05/1982)

A eleição de 15 de novembro de 1976 marca o momento das denominações bole bole e saramandaia. A definição dos candidatos foi bastante concorrida em ambos os grupos. Pelo grupo bole bole cogitavam-se os nomes de José Vieira, José Raimundo Ribeiro e a preferência de Ribeirinho por um filho seu, José Augusto Ribeiro. No saramandaia: Dionísio Machado, Porfírinho e Artur Reis. Até aquele momento tudo indicava que haveria um grande racha, mas na acomodação de interesse os candidatos foram os seguintes: no primeiro grupo, representado pela ARENA I, estavam José Vieira Filho, derrotado na eleição anterior, e José Vicente de Carvalho; no segundo, ARENA II, estavam Porfírio Martins de Menezes Filho, um representante de uma das famílias mais influentes na política local até aquele momento, e José Correia Sobrinho, um outrora correligionário de Acrízio Garcez. A posição de Ribeiro Filho nessa eleição iria ser bastante decisiva, apesar de estar com seus direitos políticos cessados. A sua política assistencialista e o seu discurso de ser o "representante do povo pobre" estavam se consolidando. A Associação Maria Acácia Ribeiro, criada anos antes em um bairro pobre da cidade, Aldemar de Carvalho, mais conhecido como Campo da Vila, vinha explorando bastante essa política da caridade. Não é atoa que até o momento atual um dos seus maiores redutos eleitorais é esse bairro. Por outro lado, ele

59 Conforme ROCHA, João Almeida. Depoimento ao autor. Lagarto 04 e 22 de junho de 1998. Mais detalhe sobre isso ver em ANEXO I a fntegra da sua entrevista, escolhida aleatoriamente como modelo.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA "' 65 "' SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

intensificava cada vez mais as suas doações de objetos diversos. Sua residência, por exemplo, durante a semana santa, era transformada em um posto de doação: desde o amanhecer da Sexta feira uma grande quantidade de pessoas aguardava receber o bacalhau acompanhado de uma cesta de alimento. Para ele o que motivava a fazer isso era o problema social,

e naquela época existia fome muita e era difícil só existia o bacalhau. E só o bacalhau era o rico que podia comprar, o pobre não podia comer, como ainda hoje o pobre não tem condições de comprar bacalhau.

às pessoas carentes com

Então

nós

damos feixes

recursos próprios " 6

E esse hábito iniciou-se a cerca de 30 anos, conforme ele mesmo afirmou, e ainda hoje mantém essa tradição e não só o peixe, como também, por exemplo, a distribuição de enxadas para os agricultores assim que inicia o inverno.

6 ° Conforme RIBEIRO FILHO, Rosendo. Depoimento ao autor. Lagarto 11 de abril/1998.

UMA CIDADE EM PÉ DE GUERRA -

66

-

SARAMANDAIA X BOLE-BOLE

Mas, essa política do presentinho chegaria ao extremo durante essa eleição. Na noite de Domingo 24 de outubro, numa das praças da cidade, uma multidão assistia ao comício da ARENA I (bole bole) quando um dos oradores, o ex. deputado estadual José Raimundo Ribeiro (Cabo Zé), no palanque central, começou a jogar dinheiro para a multidão provocando um grande tumulto, pois centenas de pessoas dirigiram-se à frente do palanque com o intuito de pegar o dinheiro que estava sendo jogado. Mas, subitamente, alguém (não identificado) direciona

um caminhão contra a multidão que estava na frente do palanque ferindo várias pessoas, uma delas saiu-se gravemente ferida e foi conduzida para Aracaju vindo a falecer no dia 27 na UTI do Hospital das Clínicas Augusto Leite 6<