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DIRETORIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA - 2016-2018

Presidenta Christina Helena da Motta Barboza| MAST

10 Vice-presidenta Alda Heizera | JBRJ


20 Vice-presidenta Sandra Caponi | UFSC

10 Secretária Ana Carolina Vimieiro Gomes | UFMG


20 Secretário Gabriel da Costa Ávila | UFR

Tesoureira Gisele Sanglard | COC/FIOCRUZ


20 Tesoureiro Rogério Monteiro de Siqueira | EACH/USP

CONSELHO DELIBERATIVO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Conselheiros 2016-2018
Dominichi Miranda de Sá | COC/Fiocruz
Heloisa Maria Bertol Domingues | MAST
Márcia Helena Mendes Ferraz |PUC/SP
Rita de Cássia Marques | UFMG
Regina M. M. Costa Dantas | HCTE/UFRJ
Silvia F. de Mendonça Figueirôa | UNICAMP
Vanderlei de Souza | UNICENTRO-Paraná

Conselheiros 2017-2019
André Felipe Cândido da Silva | COC/Fiocruz
Antonio Augusto Passos Videira | UERJ
Ermelinda Moutinho Pataca | FE/USP
Maria Margaret Lopes | PPGCINF/UnB
Pedro Eduardo M. M. Marinho | MAST
Simone Kropf | COC/Fiocruz
Yonissa Marmitt Wadi | UNIOESTE
Comissão Organizadora
Iranilson Buriti de Oliveira – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Christina Helena da Motta Barboza – Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)
Gisele Sanglard – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Alarcon Agra do Ó – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Ana Carolina Vimieiro – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Azemar dos Santos Soares Jr. – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Eduardo Gomes Onofre – Universidade Estadual da Paraíba (PPGECM/UEPB)
Ermelinda Pataca – Universidade de São Paulo (USP)
Gabriel da Costa Ávila – Universidade Federal do Recôncavo Bahiano (UFRB)
Heloisa Meireles Gesteira – Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)
José Otávio Aguiar – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Pávula Maria Sales Nascimento – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Regina Coelli Gomes Nascimento – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Rogério Monteiro de Siqueira – Universidade de São Paulo (USP)
Rosemary Alves de Melo – Universidade Estadual da Paraíba (CEDUC/UEPB)
Rosilene Dias Montenegro – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Thomás A. S. Haddad – Universidade de São Paulo (USP)
Zélia Maria de Arruda Santiago – Universidade Estadual da Paraíba (PPGECM/UEPB)

Comissão Científica
Alda Heizer – Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ)
Ana Paula Bispo da Silva - Universidade Estadual da Paraíba (PPGECM/UEPB)
André Felipe Cândido da Silva – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
André Luiz Mattedi Dias – Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Angela de Castro Gomes – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPGH-UNIRIO/MAST)
Antonio Augusto Passos Videira – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Ermelinda Pataca – Universidade de São Paulo (USP)
Frederico de Castro Neves – Universidade Federal do Ceará (UFC)
Gildo Magalhães dos Santos Filho – Universidade de São Paulo (USP)
Gisele Sanglard – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Heloisa Maria Bertol Domingues – Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)
Henrique Cukierman – Universidade Federal do Rio de Janeiro (HCTE/UFRJ)
Indianara Lima Silva – Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Iranilson Buriti de Oliveira – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Ivan da Costa Marques – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
James Roberto Silva – Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
José Luiz Goldfarb – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)
Juciene Ricarte Apolinário – Universidade Federal de Campina Grande (PPGH/UFCG)
Luiz Carlos Soares – Universidade Federal Fluminense (UFF)
Magali Romero Sá – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Márcia Helena Mendes Ferraz – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)
Márcia Regina Barros da Silva – Universidade de São Paulo (USP)
Maria Amélia Mascarenhas Dantes – Universidade de São Paulo (USP)
Maria Margaret Lopes – Universidade de Brasília (PPGCINF/UnB)
Maria Rachel Froés da Fonseca – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Nelson Sanjad – Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG)
Olival Freire Jr. – Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Pedro Eduardo M. M. Marinho – Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)
Regina Horta Duarte – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Regina M. M. Costa Dantas – Universidade Federal do Rio de Janeiro (HCTE/UFRJ)
Rita de Cássia Marques – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Sandra Caponi – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Sergio Nobre – Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Silvia F. de Mendonça Figueirôa – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Simone Petraglia Kropf – Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Thomás A. S. Haddad – Universidade de São Paulo (USP)
Vanderlei de Souza – Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO-Paraná)
Yonissa Marmitt Wadi – Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)
Sumário

PARTE 1 Simpósios Temáticos


ST 01. 200 anos do Museu Nacional/UFRJ. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
ST 02. A diversidade e a historicidade das disciplinas nos PPGHC: capturando e debatendo suas facetas (Inter-Multi-Trans-In) disciplinares 21
ST 03. A investigação científica em História da Matemática no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
ST 04. A medida dos saberes e o saber da medida: estatística e construção dos fatos científicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
ST 05. Astronomia e transdisciplinaridade: um panorama atual da Arqueoastronomia no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
ST 06. Biomedicina e Sociedade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
ST 07. Ciência e techné na história: registro e comunicação de conhecimentos científicos e técnicos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
ST 08. Ciência e Tecnologia: a idéia de progresso e seus desafios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76
ST 09. Ciência, Desenvolvimento e Natureza nas Fronteiras. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
ST 10. Ciência, Educação, Sociedade e História . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
ST 11. Ciência, Intelectuais e Estado no Brasil (séculos XIX e XX). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
ST 12. Ciência, Saúde e Natureza em projetos de desenvolvimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
ST 13. Ciência, tecnologia e circulação de saberes em espaços imperiais modernos, séculos XVI-XIX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
ST 14. Discussões sobre Propostas e Ações acerca da História e Filosofia da Ciência no Ensino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
ST 16. Educação e História das Ciências no Brasil: Proposições teóricas e metodológicas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151
ST 17. História Cultural das Ciências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
ST 18. História cultural das Ciências: teorias, métodos e abordagens para o século XXI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166
ST 19. História da comunicação pública da Ciência no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169
ST 20. História da Saúde e das Doenças. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 174
ST 21. História das Ciências de Campo no Século XX no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184
ST 23. História e historiografia da assistência: outras leituras. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
ST 24. História, Filosofia e Geografia das Ciências Humanas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
ST 25. Intelectuais, Ciência e modernidade no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
ST 26. Mulheres e História da Ciência: registros e análises numa perspectiva interseccional. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
ST 27. Mulheres na ciência e tecnologia: Gênero, lugares de poder, tradição e transgressão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 230
ST 29. O processo histórico de constituição do saber profissional do professor de ciências no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 232
ST 30. Os saberes médicos e farmacêuticos no Império Português: práticas, circulação de ideias e trajetórias (XVI-XIX). . . . . . 237
ST 31. Patrimônio Cultural: Ciência e Conhecimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243
ST 32. Raça, espécie e as fronteiras do humano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
ST 33. Território, Ciência e Nação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
PARTE 2 Painéis de Iniciação Científica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265
PARTE I Simpósios Temáticos
ST 01. 200 anos do Museu Nacional/UFRJ

100 anos para comemorar 200: a Expedição à ilha da Trindade


do Museu Nacional do Rio de Janeiro

Maria Margaret Lopes (Universidade de Brasília)

Para comemorar os 200 anos do Museu Nacional, este artigo retoma o volume XXII de 1919, dos Archivos do
Museu Nacional do Rio de Janeiro comemorativo dos 100 anos da instituição. O volume é uma verdadeira peça de co-
leção. Inicia-se com o discurso de Affonso d’Escragnolle Taunay, diretor do Museu Paulista, encerrando as disputas que
marcaram as duas instituições nas gestões de seus diretores anteriores. Os artigos assinados pelos pesquisadores do
Museu e colaboradores trazem retrospectivas históricas e apresentam o estado da arte das diversas áreas de pesquisas
do Museu: Geologia, Botânica, Zoologia, Antropologia, ao longo do século de existência da instituição. O volume reúne
principais especialistas de cada campo como Edgar Roquette-Pinto, Alberto Betim Paes Leme, Alípio de Miranda Ribeiro
entre outros. Nesse volume, nem mesmo falta a primeira colaboração aos Archivos da reconhecida bióloga e feminista
brasileira Bertha Maria Julia Lutz, então ocupando o cargo de secretária da Instituição. Mas, fundamentalmente os Archi-
vos do Museu trazem a público a modernidade e atualidade de suas pesquisas. O destaque do volume são os trabalhos
dos cientistas do Museu Nacional relativos à Expedição à ilha da Trindade. Este artigo contempla considerações sobre
os diversos artigos do volume XXII dos Archivos do Museu Nacional e privilegia uma discussão sobre a Expedição do
Museu Nacional do Rio de Janeiro à ilha da Trindade, cujos os objetivos científicos associavam-se “à defesa da integridade
estratégica de nossa Pátria” nas palavras de Bruno Lobo, o então diretor do Museu Nacional. A discussão se apoia em
documentação e na idéia de ‘significant sites of cognition and critical reflection’, proposta pelo historiador das ciências
australiano Warwick Anderson, em 2012. O autor argumenta que há certos locais do mundo que de forma particular e
intensa foram e podem continuar sendo focos diferenciados de pesquisas, realizadas ao longo de muitos anos, muito
além de escalas locais ou regionais.

A coleção de botânica do Museu Nacional na Exposição Internacional


de Higiene do Rio de Janeiro em 1909 

Marta de Almeida (Museu de Astronomia e Ciências Afins)

Os intercâmbios entre o Museu Nacional e o desenvolvimento de pesquisas em temas da medicina já foram iden-
tificados em diversos trabalhos que, por ênfases diferentes, destacaram sua relevância na história da ciência do Brasil.
Por ocasião das comemorações dos 200 anos da instituição e pelo tema proposto neste simpósio, pretendo destacar
nesta comunicação a participação do Museu Nacional na Exposição Internacional de Higiene, ocorrida na cidade do
Rio de Janeiro em 1909, aberta ao público por dois meses e anexa ao 4º Congresso Médico Latino-Americano. Era um
evento de porte internacional e exigiu uma série de preparativos para seu funcionamento. Foram cedidos pelo governo
federal o Palácio dos Estados, o Palácio das Indústrias e o Palácio do Distrito Federal, os mesmos utilizados na Exposição
Nacional em comemoração ao centenário da abertura dos Portos, em 1908, na região da Urca. 
Diversas instituições científicas se fizeram representar e muitos dos congressistas eram profissionais das mesmas,
caso do Museu Nacional. Interessa aqui explorar a opção feita pelo Museu para participar da Exposição Internacional
de Higiene, através da apresentação de plantas secas medicinais e tóxicas da flora brasileira, pertencentes à Seção de
Botânica e à coleção do então diretor, João Batista de Lacerda. O mesmo também compôs a programação científica
do Congresso, apresentando duas comunicações: uma sobre a variedade de plantas tóxicas no Brasil, na seção de
Química, Física, História Natural e Farmácia e outra sobre a causa da febre amarela, na seção de Anatomia, Histologia,
Parasitologia, Bacteriologia e Veterinária. 

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O trabalho de organização e apresentação das plantas, com suas descrições, nomes científico e vulgar, bem como
sua aplicação ficou a cargo do botânico Amaro Ferreira das Neves Armond, membro da Seção de Botânica do Museu
Nacional desde 1887. A coleção foi muito elogiada pelos visitantes e levou o Grande Prêmio concedido pelo júri da
Exposição Internacional de Higiene, superior inclusive às medalhas de ouro distribuídas. 
Levando em consideração o processo crescente de especialização das ciências na virada do século XIX para o XX
e o papel atribuído às pesquisas do Museu Nacional neste período, busca-se problematizar o caminho escolhido pela
direção ao destacar o trabalho de Botânica na instituição quase que concomitante ao trabalho realizado pelo Jardim
Botânico, uma vez que o mesmo, através de seu diretor João Barboza Rodrigues, organizou uma exposição de plantas
justamente no ano anterior para a Exposição Nacional, com milhares de espécies e que também contava com muitas
plantas medicinais. A visibilidade e o mercado atrativo que se abria no âmbito médico-farmacêutico com relação ao
conhecimento mais aprofundado da flora e a manipulação em escala maior de medicamentos derivados das plantas eram
elementos constitutivos do fazer científico das instituições e estas relações necessitam estudos mais coordenados.

A História da Mulher através da análise da relação da Imperatriz


Leopoldina com as Ciências Naturais 

Maria Gabriela Evangelista Soares da Silva (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A história de um lugar, de um povo, sua cultura e seus acontecimentos era passada de uma geração para a próxima
através do registro oral. Nesse contexto, os mais velhos, homens ou mulheres, eram os principais elementos do grupo,
justamente pelo conhecimento que haviam acumulado. Contudo, o desenvolvimento da humanidade levou ao progresso
na forma de registro da história até culminar no surgimento da escrita. A escrita ao se tornar o método oficial da histo-
riografia, proporcionou uma seleção dos fatos relatados e, principalmente, dos personagens apresentados, contribuindo
para a exclusão da história da mulher. A História da Mulher somente ganha destaque no século XX com o movimento
historiográfico da Escola de Annales que defende um registro que vá além do ambiente público, político, econômico e
de guerra, no qual a presença feminina era ínfima; passando a focar no âmbito social. Essa mudança contribuiu para a
pluralização dos personagens da investigação histórica e dos cenários relatados, incluindo a vida privada, as práticas
cotidianas, a família, o casamento, a sexualidade, entre outros. Além disso, a aceitação de novos documentos como
fonte histórica também cooperou para a ampliação do escopo da própria história e permitiu que ela fosse recontada a
partir desses novos cenários e sujeitos. Nesse contexto, é relevante abordar a História da Imperatriz Leopoldina e sua
relação com as ciências naturais, pois esse foco historiográfico foi por muitas décadas e ainda é excluído dos registros
oficiais da história do Brasil. A mudança na metodologia da escrita da história e a admissão de cartas e diários como
fontes históricas legítimas estão permitindo desvendar uma nova face de Leopoldina que está diretamente relacionada
com o desenvolvimento científico do Brasil. A pesquisa da relação da Imperatriz com as ciências tem concluído que
seus estudos de mineralogia, botânica e zoologia, iniciados ainda na infância, foram continuados após a sua vinda para
o Brasil. As correspondências trocadas com sua irmã Maria Luisa, seu pai Francisco e outros personagens evidenciam
que durante todos os anos que aqui viveu, ela continuou a se dedicar aos conhecimentos das ciências, não só com a
leitura de obras relacionadas à História Natural, mas também com a realização das atividades de caça, coleta, taxider-
mia, catalogação, desenhos e envio de itens para seu país de origem, todas atividades atribuídas aos naturalistas. Além
disso, a presença de Leopoldina no Brasil, a sua relação com as ciências e a vinda da Missão científica Austríaca em sua
comitiva, contribuíram para a fundação do Museu Real, que é hoje a mais antiga instituição científica do Brasil e o maior
museu de história natural e antropológica da América Latina. Sendo assim, é preciso refletir os motivos que geraram a
exclusão desses relatos da história geral e, principalmente, é necessário recontar a história através da história dessa
mulher, concedendo-lhe o devido destaque no campo das ciências naturais.

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A Perseverança da Memória nos escombros do Esquecimento:
Constituições e construções históricas do Patrimônio
do Museu Nacional 

Mariáh dos Santos Martins (Universidede Federal do Rio de Janeiro)

Entre memórias e esquecimentos, as salas do trono e do corpo diplomático no Museu Nacional expressam a grande
relevância histórica desta instituição para as produções científicas e culturais brasileiras em suas constituições e (des)
construções nacionais. 
De fato, adentrar tais salas fascina a imaginação em busca de entendimento para símbolos e para significados
artisticamente expressos na arquitetura do palácio em seus contextos imperiais e republicanos; todavia, as modificações
urbanas na cidade do Rio de Janeiro, as transformações políticas e sociais do país e a prevalência das coleções de História
Natural enquanto protagonistas no fazer acadêmico dos setores tradicionalmente orientadores deste museu contribuem
para uma aparente indiferença pública sobre o palácio, suas construções e arquiteturas e suas obras artísticas. Torna-se,
portanto, imperativo entender o desenvolvimento histórico do Museu Nacional mediante as transformações sociais do
Brasil e também por meio de suas escolhas intelectuais, científicas, culturais e educacionais. 
Para tanto, utilizar-se-ão estudos sobre a memória em que esta não se restrinja a um artifício mental para resguar-
dar, armazenar e obter informações, mas perpassa as dimensões sociais e históricas nos diversos modos de expressão
e do agir humanos. Ao se destacar as formas artísticas e arquitetônicas das salas do trono e do corpo diplomático no
Museu Nacional, deseja-se sinalizar para os diferentes modos de compreensão das ritualizações e das representações
monárquicas ao longo deste bicentenário da Instituição, discutindo os processos de identificação nacional e os modos de
narrar a identidade brasileira nos períodos monárquicos, na jovem república e também em nossa vacilante democracia. 
A inserção e caracterização do Patrimônio Cultural enquanto identidade nacional, em formação aos símbolos me-
moriais, por meio de regulações e sua institucionalização no período republicano, se sobrepuseram ao Museu Nacional
como um robusto valorativo a sua responsabilidade científica, cultural e histórica, se unindo ainda à complexidade que a
instituição adquirira no cenário acadêmico e científico nacional. As ações e expressões sobre esses espaços no Museu
Nacional exemplificam formas da construção histórica nacional acerca de sua identidade e memória. 
Entre o atual esquecimento de instituições de representatividade nacional e a permanência dos signos e dos sím-
bolos a constituir nossa memória social, discutem-se os projetos nacionais nos escombros dos projetos políticos. Além
das salas, do Museu, do palácio e do paço imperial, o patrimônio nacional se tomba ao se superar o esquecimento e a
desatenção com a memória.

A sistemática de Fritz Müller nos Archivos do Museu Nacional


do Rio de Janeiro 

Flavia Pacheco Alves de Souza (Universidade Federal do ABC)

Fritz Müller (1822-1897), naturalista alemão residente no Brasil durante o século XIX, contribuiu com as Ciências
Biológicas com 264 artigos científicos e um livro, publicado na Alemanha em 1864, com o título de Für Darwin, consi-
derado uma das primeiras defesas abertas do darwinismo. De 1876 a 1891, Müller foi naturalista viajante do Museu
Nacional do Rio de Janeiro, período em que publicou artigos no periódico da Instituição, o Archivos do Museu Nacional.
O presente trabalho analisa os artigos publicados por Müller neste periódico no que concerne à sua importância para
a sistemática biológica, área de pesquisa relacionada à identificação, descrição e classificação dos seres vivos. Müller
buscou estabelecer padrões e relações para os diversos grupos de animais que estudou utilizando como premissa o
conceito de ancestralidade comum de Darwin. Estes artigos trouxeram grandes contribuições às ciências biológicas,
com a descrição de novos gêneros e espécies, bem como pela proposição de novos conhecimentos para diversos filos
de animais invertebrados.

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Na embriologia, Müller analisou um caso distinto de caranguejo que emergia do ovo como pequeno adulto, não
passando por qualquer estágio de metamorfose; também observou camarões que apresentavam metamorfose abre-
viada. Estes estudos sugerem que a premissa da ontogenia recapitular a filogenia – conforme considerava na época o
também naturalista alemão Ernst Haeckel – não era aceita de forma generalizada por Müller, já que ele acreditava que
a recapitulação era válida até certa medida, depois ocorrendo divergência dos descendentes.
Na ecologia, Müller foi pioneiro no estudo de ambientes fitotelmáticos, com a descoberta de um crustáceo que
tinha como habitat uma bromélia.
Iremos nos concentrar nos artigos publicados que trabalharam com princípios de classificação biológica, a saber:
“Sobre as casas construídas pelas larvas de insetos Trichopteros da Província de Santa Catarina”; “A metamorfose de
um inseto díptero”; “Descrição do Elpidium bromeliarum, crustáceo da família dos Cytherideos”; “Trichodactylus, siri de
água doce, sem metamorfose”; “O camarão miúdo do Itajahy, Atyoida Potimirim”; “O camarão preto, Palaemon Potiuna”;
e “Descrição da Janira exul, crustáceo isópode do Estado de Santa Catarina”.
Analisar a contribuição científica de Müller como naturalista do Museu Nacional torna-se algo complexo e inse-
parável de seu contexto histórico, social e político. Buscaremos contemplar tal cenário nesta comunicação, traçando
um paralelo do trabalho de Müller com o conhecimento científico produzido e vinculado ao Museu, os fatores sociais,
históricos e políticos inerentes à sua contratação e demissão bem como as influências diretas e indiretas de autores
ou teorias vigentes, as quais Müller utilizava em seus trabalhos, como meio de oferecer aos seus leitores credibilidade
científica e de problematizar ideias e concepções com as quais se debatia em sua época, tendo como espaço de divul-
gação o periódico do Museu.

Antropologia(s) no Museu Nacional: alianças e clivagens nos anos


de 1960 e 1970 através da trajetória da antropóloga física Marília
de Carvalho de Mello e Alvim 

Adriana T. A. Martins Keuller (USP)

Este trabalho procura investigar as disputas pela legitimidade político-acadêmica no campo da antropologia no
Museu Nacional do Rio de Janeiro nos anos de 1960-1970 através da trajetória da antropóloga física Marília Carvalho
de Mello e Alvim. Bacharel em História e Geografia pelo Instituto Lafayette em 1952 e pela Faculdade de Filosofia e
Letras da Universidade do Distrito Federal em 1953, Marília Carvalho de Mello e Alvim ingressou no Museu Nacional
em 1957 e tornou-se Doutora em Ciências e Livre Docente em Antropologia e Etnografia pela Faculdade de Filosofia da
Universidade do Estado da Guanabara em 1963. Foi assistente de Heloísa Alberto Torres, antropóloga e ex-diretora do
Museu Nacional, e se especializou com importantes antropólogos físicos da época, como Tarcísio Torres Messias (do
Museu Nacional), José Bastos de Ávila, Maria Julia Pourchet (ambos do Instituto de Pesquisas Educacionais do Rio de
Janeiro) e Álvaro Fróes da Fonseca (Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro). Tendo ingressado no Museu Nacional por
concurso em 1957, Marília Carvalho de Mello e Alvim tornou-se reconhecida especialista na análise de remanescentes
ósseos humanos de procedência arqueológica. Sua produção científica esteve vinculada sobretudo a investigações acerca
de material esquelético da região de Lagoa Santa, Minas Gerais e também da coleção Botocudos, orientando vários
arqueologistas e antropólogos físicos no Brasil. As análises se baseiam em entrevistas e diferentes fontes documentais,
incluindo os Arquivos do Seção de Memória e Arquivo do Museu (SEMEAR), do Setor de Antropologia Biológica e das
Bibliotecas do Museu Nacional e de diferentes periódicos científicos. Em particular, na contextualização das alianças e
clivagens que envolveram Mello e Alvim, consideramos a emergência da antropologia social na instituição com a criação
do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) em 1968, assim como o clima político da ditadura militar
que se instituiu a partir de 1964.

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As contribuições ‘geognósticas’ italianas nos 200 anos de história
do Museu Nacional/UFRJ

Antonio Carlos Sequeira Fernandes (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Desde sua fundação em 1818, o Museu Nacional recebeu inúmeras contribuições de instituições e naturalistas
italianos que enriqueceram substancialmente seu acervo geológico. As mais antigas correspondem a amostras de
minerais da coleção Werner, primeira coleção a compor seu acervo. Remessas vindas diretamente da Itália começaram
13 anos depois, com minerais e exemplares vulcânicos que chegaram em 1831 (procedentes de Gênova), 1834 e 1837
(do “Museu de Roma”, no Vaticano). Também fósseis, mas do Piemonte, foram enviados pelo paleontólogo Giovanni
Michelotti, numa tentativa frustrada de permuta por exemplares zoológicos brasileiros. Em 1843, seguiu-se outra proposta
de permuta por um senhor Lacaita, possivelmente de Nápoles, mas que não se concretizou. No mesmo ano, minerais
e lavas do Vesúvio foram doados ao Museu pelo médico cirurgião Joaquim Pereira de Araújo, da Armada brasileira. Ao
final do século XIX, foram incorporados diversos materiais pertencentes ao Museu do Imperador, coleção particular de
Dom Pedro II que passou à instituição em 1892. Entre os exemplares estariam os remanescentes da coleção mineraló-
gica herdada de sua mãe, a imperatriz Leopoldina, amostras do Vesúvio e de outras localidades vulcânicas italianas, as
medalhas produzidas com as lavas ainda fluidas de erupções do famoso vulcão napolitano, contendo imagens do busto
do imperador Napoleão III e do rei Vittorio Emanuele II, além de amostras de lavas resultantes de erupções do vulcão
siciliano Etna, enviadas de Catânia ao imperador pelo cônsul brasileiro. Ao longo do século XX novas doações foram
incluídas nas coleções geológicas do Museu Nacional. Em 1919, Afonso d’Angelo Visconti, irmão do famoso pintor Eliseu
d’Angelo Visconti, doou exemplares de peixes fósseis e frascos com óleo procedentes da região de Giffoni Valle Piana,
nas proximidades de Salerno. Em 1939, o barão Ottorino de Fiore di Coprani, docente italiano da Universidade de São
Paulo, doou ao Museu Nacional, minerais procedentes principalmente da Sicília e do Vesúvio e, em 1941, moluscos
recentes. Em 1971, o médico Luiz Roberto Tostes, aficionado colecionador de conchas, doou uma coleção de moluscos
fósseis pliocênicos provenientes de Castell’Arquato, da região da Emilia-Romagna e, em 1974, em uma permuta com
o comerciante Alberto Ponis, da cidade de Lucca, três novos exemplares da Sicilia e de Perticara foram incorporados à
coleção mineralógica do Museu. Finalmente, no despontar do século XXI, em 2007, fósseis piemonteses com procedên-
cias semelhantes aos enviados em 1836 por Giovanni Michelotti foram doados pelo Museo Geologico Sperimentale da
Sezione di Giaveno do Clube Alpino Italiano. (Apoio: CNPq, Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Proc. 303004/2016-9)

Contribuições para estudos sobre Heloisa Alberto Torres:


primeira diretora do Museu Nacional

Maria do Perpétuo Socorro Lopes de Sousa da Silva (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Desde a sua criação em 1808, o Museu Nacional foi considerado instituição chave cumprindo o seu papel políti-
co, fazendo ciência, estando engajado no processo de consolidação da base econômica, agrícola e industrial do país.
Considerada a Instituição científica mais relevante até o final do século XIX, iremos refletir sobre a inovação do Museu
em, ao longo do século XX, abrir as portas à participação das mulheres na promoção, disseminação e divulgação das
ciências no Brasil. 
É neste cenário que destacaremos a atuação da ex-diretora Heloisa Alberto Torres, que esteve à frente da institui-
ção no período de 1938 a 1955. Durante os séculos XIX e XX o Brasil era representado pela opulência das suas riquezas
naturais em cuja exploração científica resultou no colecionismo de objetos da natureza que fizeram a grandeza dos
museus de história natural no século XIX, entre eles o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que foi logo inserido na rede
internacional das ciências naturais, estabelecendo relações de trocas sistemáticas de material e de bibliografia congê-
neres do mundo inteiro. As mulheres participaram e contribuíram de forma relevante para o desenvolvimento científico,
porém, para fortalecer esta afirmativa, cabe destacar o papel de mulheres em ações até o momento desempenhada por
homens. Compreender como as mulheres se inseriram e se inserem nas ciências, significa entender como as caracte-
rísticas associadas ao feminismo influenciaram a estrutura das ciências. A trajetória de mulheres que optaram por atuar

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no campo das ciências poderá trazer à tona, além de suas histórias, a discussão sobre a profundidade dos mecanismos
em que a questão de gênero influenciou a produção do conhecimento. Acompanharemos os estudos da historiadora da
ciência, Londa Schiebinger, que sugere que a institucionalização da ciência é feita sistematicamente com o processo
de exclusão do feminismo e da mulher e apesar deste processo de exclusão, até mesmo pelos processos construídos
de invisibilização das cientistas na historiografia, elas em maior ou menor número estiveram presentes na história das
ciências. É neste cenário, que optou-se por refletir sobre a cientista Heloisa Alberto Torres e seu trabalho no museu como
gestora de uma das maiores instituições científicas do país, o que merece ser destacado nos 200 anos da instituição.

Louis Jacques Brunet: naturalista do Museu Nacional

Priscila Faulhaber (Museu de Astronomia e Ciências AFins/MCT), Rômulo José Benito de Freitas


Gonzales (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Este trabalho tem por objetivo investigar a relação entre o Museu do Ginásio Pernambucano e o Museu Nacional
através da contratação de Louis Jacques Brunet (1811 – c.1877) como naturalista viajante do Museu Nacional. O Ginásio
Pernambucano foi fundado em 1855 substituindo o antigo Liceu Provincial de Pernambuco fundado em 1825. A forma-
ção da coleção inicial do museu foi obra do naturalista Brunet que ocupou o cargo de professor de ciências naturais da
instituição no período de 1855 a 1863. Decidido a estudar a natureza das américas, Brunet aportou em Pernambuco no
início de 1852 onde iniciou suas pesquisas até ser convidado para lecionar no Ginásio. Entre 1860 e 1862, Brunet realizou
expedições científicas pelas províncias do Pará e Amazonas a fim a de ampliar as coleções do museu. Aproveitando a
passagem de Brunet pela região, em portaria do Ministério do Império datada de 21 de abril de 1860, Louis Jacques Brunet
foi nomeado viajante adjunto do Museu Nacional com a condição de coletar acervos de História Natural para ambas as
instituições. Aproveitando a presença do naturalista, as províncias do Pará e do Amazonas aproveitaram a oportunidade
para também reunir acervos de história natural. No período em que esteve no norte do país, Brunet contou com uma
intensa troca de correspondência oficial entre as três províncias (Pernambuco, Amazonas e Pará), no sentido de viabilizar
o seu trabalho. No século XIX, o cargo de naturalista viajante do Museu Nacional era indicado àqueles que, estivessem
habilitados para coletar e estudar e preparar coleções de História Natural provenientes das diversas províncias do Brasil,
para posteriormente serem incorporadas ao acervo do Museu. Em Após o término dos trabalhos, foram remetidos para
o Museu do Ginásio e o Museu Nacional diversos objetos coletados na expedição. Para este trabalho, foram analisados
periódicos de época e a documentação existente nas instituições envolvidas, onde foi analisada a colaboração entre o
Ginásio Pernambucano e o Museu Nacional através do trabalho de Brunet como naturalista da instituição.

Museu Nacional e Colégio Pedro II: o diálogo entre Casas Imperiais


dedicadas ao desenvolvimento científico

Vera Maria Ferreira Rodrigues (Colégio Pedro II)

O presente estudo tem como objetivo apresentar as relações institucionais entre o Museu Nacional e o Colégio
Pedro II desde o século XIX até os dias atuais através do projeto de iniciação científica denominado PIC-Jr. Trata-se de
instituições contemporâneas, criadas no século XIX, como marcos do projeto civilizatório do Império. O Museu Nacional
tem como origem o Museu Real criado por D. João VI em 06 de junho de 1818, e é marcado pela tradição da cultura
e do conhecimento científico. O Imperial Colégio de Pedro II, primeira instituição oficial de ensino secundário do país,
responsável pela difusão e formação da cultura e educação humanísticas, foi instituído em 02 de dezembro de 1837,
por iniciativa do Ministro do Império Bernardo Pereira de Vasconcellos, tendo sua origem no Seminário dos Órfãos de
São Joaquim, criado em 1766, e recebeu o nome em homenagem ao Imperador menino, que completava naquela data
doze anos de idade. Sob a proteção do Imperador D. Pedro II, as duas casas imperiais trazem em comum, entre outras
características, a guarda, preservação e divulgação do conhecimento científico. O Museu Nacional, principal instituição
científica do país dedicada às ciências naturais, comemora esse ano 200 anos de existência enquanto que o Colégio Pedro

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II comemorou 180 anos de sua criação em 02 de dezembro de 2017. Ambas as entidades são marcos da ciência, da
educação e da cultura do Brasil desde o século XIX, que atravessaram o século XX e alcançaram o século XXI confirmando
o seu caráter educacional e científico, contribuindo para a formação de gerações. O Museu Nacional, como um centro
difusor do conhecimento científico, mantinha com as instituições educativas uma comunicação profícua fornecendo,
quando solicitado, materiais pedagógicos para aulas práticas de laboratórios e, para o Colégio Pedro II, além de mate-
riais destinados ao ensino prático no laboratório de História Natural, enviava regularmente a revista Archivos do Museu
Nacional – órgão oficial de publicação do museu que tinha por objetivo principal o diálogo científico com outros museus
similares europeus – para o acervo da biblioteca do Externato. Essa relação é demarcada também pela passagem de
bacharéis do Colégio Pedro II que fizeram parte do quadro funcional do Museu como, por exemplo, três de seus diretores:
Domingos José Freire Junior, João Baptista de Lacerda e Luis Emygdio de Mello Filho. No ano 2000 surgiu o primeiro
programa de iniciação científica entre o Museu Nacional e o Colégio Pedro II denominado PIC Jr, que vigora até os dias
atuais. Para essa pesquisa, usaremos como metodologia a análise de fontes manuscritas (ofícios, relatórios), bem como
o arquivo que reúne a documentação do programa PIC Jr desde sua origem até o ano de 2013.

Museu Nacional, seus cientistas e práticas pós segunda


guerra mundial

Adriana T. A. Martins Keuller (USP), Gabriela Santos Marinho da Silva (MAST), Heloisa Maria Bertol


Domingues (MAST)

O ano de 1946 foi emblemático para o Museu Nacional. No ano em que acabava a segunda guerra mundial e, no
Brasil, a ditadura Vargas, o Museu Nacional passava ao âmbito da Universidade do Brasil, perdendo a relativa autonomia
política, que detinha desde a sua criação. No mesmo ano, no âmbito internacional, foi criada a UNESCO, a cuja orien-
tação científica o Museu Nacional identificou-se. A prática das ciências naturais, dominante então no Museu Nacional,
introduzia estudos sobre ecologia e a cultura social das populações no ambiente local. Tais trabalhos desenvolviam-se
em confronto com a política governamental de desenvolvimento do campo, que estimulou programas como o chamado
Revolução Verde para a agricultura, que visava a desmedida exploração do meio. Este trabalho, levando em conta o
contexto sócio-político da época, tem o objetivo de analisar a composição sócio-científica do Museu Nacional, no quartel
de século que se seguiu a 1946 e a respectiva produção científica. A análise será feita através de uma amostragem
de reconhecidos cientistas, das diversas especialidades da instituição (antropologia/etnologia, arqueologia, botânica,
geologia, zoologia, paleontologia), tirados do sistema de informação Prosopon. Metodologicamente, trata-se de um
ensaio prosopográfico que, usando os dados do sistema de informação sobre cientistas brasileiros que receberam
bolsas e auxílios do CNPq (em formação no MAST). O Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) foi instituido, em 1951,
pelo Governo, com a finalidade de promover e estimular o desenvolvimento da investigação científica e tecnológica em
qualquer domínio do conhecimento. Considerando tal princípio, objetiva-se aqui configurar nexos dos projetos e práticas
científicas dos cientistas, bem como a inserção de seus trabalhos na comunidade nacional e internacional da época.
Em última instância, visa analisar o desenvolvimento da produção científica do Museu Nacional e a atuação daqueles
cientistas entre os seus pares e como parte do contexto cultural e político daquele momento.

Museu Nacional, trama aberta

Anaildo Bernardo Baraçal (UNIRIO)

Museu Nacional, trama aberta.Resultando de processo de investigação iniciado, indiretamente, no final de 2015,
esta comunicação se desenrola da busca pelo conhecimento sobre a tecedura da política científica e cultural, no período
joanino e do primeiro Império, através da criação do Museu Nacional. Em um sentido horizontal, interessa compreender
as instituições congêneres de até 1818, em Paris, Madri, Coimbra, Filadélfia e Buenos Aires, por exemplo, e entidades
ligadas ao Museu, como a Sociedade de Auxiliadora da Indústria Nacional, a Escola de Artes e Ofícios – Academia de

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Belas Artes, o Jardim Botânico, a Escola de Medicina. O período focalizado, 1818 – 1831, corresponde ao da instituição,
formação dos acervos, entre eles o de origem real, de compras e coletas / remessas, tendo por termo a saída, em 1832,
das coleções de pintura para a Academia Imperial de Belas Artes. Na antiga sede, no Campo de Santana, as obras civis
facultam a abertura ao público, em seu pavimento térreo, em 1819, e ao segundo, em 1821. A ausência de iluminação
artificial ajuda a condicionar o horário de sua visitação. A Assembleia Constituinte de 1823 nela se instala, e seu mobiliário
remanesce em museus. Das peças entregues por D. João VI, algumas estão identificadas, no Museu Nacional e no Museu
Histórico Nacional. Quadros comprados a José Estêvão Grondona são do Museu Nacional de Belas Artes – MNBA. Os
comprados a Joaquim Lebreton, c. 1819, que fizeram escala no Museu Nacional, também se encontram no MNBA. D.
Pedro remete ao Museu os quadros da coleção real que ficaram no Rio, assim como os da coleção pessoal do regente
D. João, além de itens da sua família, como o palácio flutuante em marfim. Os tucanos do Museu serviram à realização
da murça com as penas amarelas de seus papos, para integrar o manto imperial, disposto no Museu Imperial. A coleção
egípcia, adquirida em 1826 a Nicolau Fiengo, tem a mesma origem da do Museu Britânico e da do Museu do Louvre,
enquanto, no mesmo ano, o segundo diretor do Museu publica seu livro relativo à Química, responsável, também, pela
iniciativa do primeiro laboratório dessa disciplina, que permaneceu no Museu até 1836. Saltando para o século XX, em
1922, com o surgimento do Museu Histórico Nacional, dá-se nova movimentação de acervos iniciais, dada a crescente
precisão das missões institucionais das organizações científico-culturais. Com a contribuição do cientista José Bonifácio
e da diletante Maria Leopoldina de Áustria, a trama dessa tecedura, hoje fragmentada, se dá aberta, por reconstituir-se
e ficar aberta em caminho de sua mais profunda compreensão.
Referências:
Fontes primárias, arquivos: Museu Nacional / UFRJ; Museu Nacional de Belas Artes / IBRAM / MinC; Museu
Histórico Nacional / IBRAM / MinC.
LOPES, Maria Margaret Juergen Richard. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais
no século XIX. 2.ed. São Paulo: Aderaldo & Rothschild; Brasília, DF: Ed. UnB, 2009.

O circuito expositivo do Museu Nacional: heranças institucionais


do século XIX em configurações curatoriais no século XXI

Sabrina Damasceno Silva (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)

A reflexão acerca da primeira instituição museológica brasileira no ano em que completa duzentos (200) anos, em
2018, baseia-se em sua relevância histórica, científica e cultural, evidenciada pela vasta produção acadêmica, recodifi-
cação, circulação e transmissão da informação sobre seu heterogêneo acervo de história natural e antropologia para a
construção da memória e do patrimônio da ciência.O presente estudo é fruto da análise do atual circuito expositivo do
Museu Nacional/UFRJ realizada em tese de doutoramento, onde se considera que suas narrativas expositivas pautam-
-se quando da compreensão das “formações discursivas”, advindas de interpretações da ciência moderna acerca da
natureza e dos artefatos oriundos dos diversos grupos sociais humanos através do tempo. A curadoria no interior dos
museus de história natural determina a formação, gestão e comunicação pública da ciência por meio das evidências
materiais do mundo sensível.
Afirma-se que as fragmentações curatoriais pautadas em especialidades científicas possuem vinculação com os
Regulamentos elaborados a partir do século XIX, e através do século XX, onde as Seções estruturadas seguiram as
singularidades das pragmáticas da pesquisa científica na instituição e estas, por sua vez, encontram-se espelhadas em
suas exposições. 
A breve historiografia do circuito expositivo ressalta seus pontos de emersão de novos processos curatoriais,
analisa-se o atual conjunto de exposições de longa duração no interior dos atuais enquadramentos institucionais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro considerando seu Regimento de 1971 e se entende que a comunicação pública
da ciência por meio das exposições museológicas relaciona-se às pragmáticas institucionais que balizam os fluxos in-
formacionais. Essas condicionantes curatoriais são modeladas pelas hierarquias existentes que conformam e modelam
a validação dos processos de recodificação dos produtos da ciência que serão publicizados.

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Desse modo, demonstra-se que as exposições de instituição, que possui mais de vinte milhões de itens em seu
acervo, constituem-se em espaço de convergência entre as heterogêneas concepções curatoriais, em circuito onde são
comunicados os enunciados oriundos dos produtos das pesquisas da ciência. Em muitos casos, percebe-se a ausência
de interconexão entre as curadorias, resultando em subcircuitos – sob a égide de uma mesma curadoria – como núcleos
de especialidades científicas que não se entrecruzam, como se a natureza ou o mundo fosse dividido em departamentos
em vez de apenas mais uma interpretação ou leitura cientifica redecodificada e comunicada.
Por fim, espera-se que este estudo contribua para uma desnaturalização das práticas cotidianas no que se refere
à informação e aos processos curatoriais que são muito mais complexos e permeados por atravessamentos, do que
meras seleções de objetos e confecções de textos e legendas. 

O Museu dá Samba: comemorações do bicentenário


do Museu Nacional/UFRJ

Regina Maria Macedo Costa Dantas (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Este artigo visa proporcionar reflexões sobre o papel social do Museu Nacional, apresentando como exemplo de
popularização das ciências, a relação do Museu com o Carnaval de 2018 em duas ações comemorativas as duzentos anos
da instituição. As comemorações oficiais do bicentenário do Museu Nacional/UFRJ foram iniciadas no Carnaval carioca
em fevereiro de 2018, na ocasião em que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense apresentou
seu desfile com o tema “Uma noite Real no Museu Nacional”. A experiência desta primeira ação: com a apresentação
da Sinopse; escolha do samba enredo; os croquis e protótipos (fantasias); acompanhamento dos carros alegóricos;
o incentivo e organização referente à participação da comunidade do Museu nas alas; e demais processos, deve ser
apresentada para registrar a atuação do Carnavalesco Cahê Rodrigues em todo o cenário de sua construção, por meio
do olhar da historiadora das ciências do Museu Nacional. Cabe ressaltar que a história da instituição foi apresentada na
maior manifestação cultural nacional- o Carnaval, de forte visibilidade internacional. A segunda ação comemorativa do
bicentenário também será apresentada, referimo-nos ao dia 18 de Maio do mesmo ano, por ocasião da 16ª Semana de
Museus, cujo tema é ressaltar os duzentos anos dos museus no Brasil. Nesta ocasião, o presidente do Instituto Brasileiro
de Museus inaugurou, no Museu Nacional, a exposição “O Museu dá samba: A Imperatriz é o Relicário do Bicentenário
do Museu Nacional”. Dessa forma, a instituição científica fez o caminho inverso, levou o Carnaval para as suas salas
expositivas do ambiente universitário. Foram apresentadas 30 fantasias idealizadas pelo Carnavalesco para contar os
200 anos do Museu Nacional, incluindo os personagens históricos de nosso país que: participaram da criação do Museu
Real, viveram no Paço de São Cristóvão e realizaram a ponte entre o governo imperial e as atividades científicas do
século XIX fortalecidas na instituição. As fantasias que representam as áreas do conhecimento desenvolvidas no Museu
Nacional, tais como: Antropologia; Botânica; Zoologia; Geologia e Paleontologia; foram expostas em diferentes salas
da exposição, relacionadas aos seus respectivos objetos de estudo e pesquisa. As duas ações juntas representam a
forma lúcida e interessante de coroar o bicentenário da instituição e de apresentar à população a história e as ciências
do Museu Nacional da UFRJ. 

O Museu Nacional, as Ciências e o Império: no Teatro de Marianne

Paulo Vinícius Aprígio da Silva (Colégio Pedro II)

O século XIX logrou às dinâmicas ocidentais de relação com o passado muitos elementos. O Museu enquanto espaço
de reverência dos tempos pretéritos, seus grandes acontecimentos, seus muitos espaços; a história disciplinar, nascida
das franjas dos antiquários e dos filósofos ganhava a autonomia necessária para justificar os ideais nacionais e toda os
seus signos e marcos fundadores; efemérides. Espaço de culto do pretérito e de sua presentificação, chegou ao século
XXI enquanto lugar de desejo de historiadores e memorialistas. Apesar de ainda estarmos atravessando as primeiras
décadas deste novo milênio é possível perceber o esforço de especialistas e leigos de dobrarem os joelhos frente ao

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panteão dos grandes nomes e grandes fatos, jubileus que trazem o já esquecido para a ordem do dia. O mesmo não se
pode dizer das comemorações dos 200 anos do Museu Nacional. Apesar de apresentar-se como efeméride não é festejo,
é resiliência e luta de uma instituição que desde a sua fundação ao hodierno mudou profundamente suas características
e vocações e hoje é um espaço de resistência. O trabalho que se apresenta é fruto de um esforço de pesquisa que tem
por finalidade a produção de reflexões que levem à compreensão do espaço que foi destinado ao Museu Nacional frente
ao ocaso da monarquia no país. Como é perceptível pelos enlaces do presente, é comum a regimes que se sucedem
o afastamento, o silenciamento, o apagamento das marcas mais vívidas nas tramas sociais e políticas dos marcos do
regime posto. Com as ciências, ao que se pode comprovar, tal conclusão é tanto possível quanto necessária. Diante do
acúmulo das produções que se dedicaram ao desenvolvimento das práticas científicas no Brasil oitocentista, e em especial
àquelas que se dedicaram a história natural, somado a um esforço de investigação em fontes bibliográfica e documental
primárias das mais diversas naturezas, aponta-se para a importância, e certo protagonismo, alcançado pela Instituição
nos quadros de pertencimento aristocrático que se constituiu durante o Império Brasileiro, e em especial durante o
reinado de D. Pedro II. Partindo da observação dos espaços ocupados pela memória monárquica pós-1930, assim como
as afetividades populares que a cercam, parte-se para a criação da Instituição no seio dos projetos luso-brasileiros que
se constituíam. Perene pós-Independência, a relação de pertencimento às estruturas aristocráticas mostrou-se positiva,
ao menos até a emergência da experiência Republicana e do esvaziamento dos projetos ligados ao regime anterior. Uma
lacuna, dentre as análises existentes, necessária de ser analisada. A investigação apresenta-se como uma contribuição
para o desenvolvimento de trabalhos no campo da história das instituições científicas brasileiras oitocentistas.

O Museu Nacional, o Império e a conquista dos povos indígenas


do Brasil

Michele de Barcelos Agostinho (UERJ/FFP)

Perto de completar duzentos anos de existência, o Museu Nacional abriga um dos maiores e mais importantes
acervos do país, cujo valor histórico e científico é inestimável. Muito já se escreveu sobre o fazer político-científico
daqueles que ocuparam funções administrativas e de pesquisa na instituição ao longo do século XIX e XX. Entretanto,
pouco sabemos sobre a relação do Museu Nacional com as populações representadas em suas coleções, sobretudo
nos oitocentos, quando o Império executava uma política de expansão territorial e de conquista dos povos indígenas.
O trabalho que apresentamos busca trazer contribuições nesse sentido. Partimos da análise dos colecionadores e de
suas práticas de colecionamento ao longo da década de 1870 e nos anos iniciais da de 1880, quando, por ocasião da
Exposição Antropológica Brasileira, coleções foram doadas ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde se realizou a
mostra no ano de 1882. Fizemos então dois tipos de análise: de caracterização do grupo de colecionadores em termos
de origem, formação, ocupação e locais por onde circulou; de narrativa histórica, que trata das condições de coleta de
algumas coleções exibidas na Exposição Antropológica. Percebemos no decorrer da pesquisa que os modos de aquisição
desses objetos foram marcados por violência, conflito, negociação e colaboração, experiências coloniais nem sempre
explícitas ou evidentes nos documentos graças ao uso de certas categorias no registro museológico, como doação, por
exemplo. Ademais, a difusão da crença no desaparecimento indígena, tido como inevitável diante do avanço da civiliza-
ção e do progresso nacional, motivou o colecionamento dos objetos de uso daqueles que, se não extintos, estavam por
extinguir-se. Aí, o colecionismo foi tomado como uma forma de organização do conhecimento: presumia-se ser possível,
por meio das coleções, fazer um inventário dos grupos humanos e, assim, ter acesso aos modos de ser, fazer e pensar
dos indígenas, contemporâneos e extintos. Portanto, identificar os colecionadores, suas trajetórias e as circunstancias
de coleta foi para nós imprescindível, pois nos permitiu analisar a história do contato entre índios e não índios tomando
a cultura material como matriz e mediadora de relações.

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O passado em camadas: o tombamento da antiga sede do Museu
Nacional, prédio sito à Praça da República, 26 – Rio de Janeiro

Ana Lúcia de Abreu Gomes (Universidade de Brasília)

O objetivo desta proposta de trabalho é discutir os usos do passado por meio da análise do processo de tomba-
mento federal de prédio sito à Praça da República, 26 na cidade do Rio de Janeiro. O prédio em tela abrigou diferentes
instituições ao longo de seus quase 200 anos de existência. Entretanto, por meio da análise dos pareceres técnicos e
jurídico que instruíram o processo de tombamento observa-se a seleção/construção de passados para o edifício em
tela, o de ter sediado o Arquivo Nacional e, especialmente, ter sido a primeira sede do Museu Nacional, hoje instalado
na Quinta da Boa Vista, como fatores suficientes para a defesa do seu tombamento. Um outro passado selecionado/
construído para o edifício é o de sua participação na própria construção daquele lugar, a Praça da República.
Deve-se destacar que o prédio em questão já havia sido tombado em instância municipal: primeiramente como
tombamento provisório em 1993 e depois, o tombamento definitivo em 2009. Apesar da Constituição Federal de 1988 e
o próprio Decreto-Lei 25/1937 não obstaculizarem o tombamento em diferentes instâncias, acreditamos que o processo
de tombamento em análise também é capaz de nos informar acerca da especificidade desse pedido em instância federal.
O pedido de tombamento foi requerido pela própria instituição detentora do prédio, qual seja, a Casa da Moeda do Brasil,
empresa pública criada há 324 anos, em 1694. O prédio e respectivo terreno são patrimônio da União que oficializou a
transferência para a Casa da Moeda em 1986 ( na verdade, ocorrera uma permuta na região: a Casa da Moeda cedia
para o Arquivo Nacional seu prédio na face imediatamente oposta na própria Praça da República e o Arquivo Nacional
cedia seu prédio para a Casa da Moeda. Essa cessão deveu-se à necessidade de expansão da Casa da Moeda: em
1984, fora inaugurado um novo complexo de 120.000 m2 no Distrito Industrial de Santa Cruz, Rio de Janeiro). Desde
que assumiu o imóvel até o presente ano de 2018, a Casa da Moeda do Brasil nunca o ocupara de fato: na sequencia da
desocupação do imóvel pelo Arquivo Nacional em 1986, a Casa da Moeda o cedeu para o Tribunal de Justiça do Estado
do Rio de Janeiro que nele instalou o Departamento Geral de Arquivo e de Documentação Histórica do Tribunal de Justiça
do Estado do Rio de Janeiro assim como o Museu da Justiça do Estado do Rio de Janeiro. A instituição permaneceu
no prédio por 10 anos, de 1988 a 1998. Com sua saída, o prédio permaneceu desocupado até 2018, quando a Casa da
Moeda inaugura nas suas dependências o Museu Centro Cultural da Casa da Moeda. 

Redes Epistêmicas Complexas: a Revista Archivos do Museu


Nacional e a Colaboração Científica Internacional à Luz da Ciência
da Informação

Daniel Maia (UFRJ)

O objetivo deste artigo é situar as pesquisas nacionais que tratam da produção intelectual vinculada ao Museu
Nacional do Rio de Janeiro, em consonância com as instituições colaboradoras para a construção de uma cartografia
dos sistemas de pensamento científico vigentes quando da transição do regime imperial para o republicano no Brasil, no
final do século XIX e início do século XX. Para tanto, faz-se necessário a conjunção de teorias, métodos e técnicas de
análise documental, sob a ótica da Ciência da Informação, com uma abordagem transdisciplinar envolvendo a Teoria de
Redes e a Teoria da Complexidade, duas abordagens que tem ganhado espaço nas pesquisas em História das Ciências
sob o termo Humanidades Digitais.
Apresentamos como proposta metodológica de mapeamento institucional na construção de um fluxo de conhe-
cimento relacionado às pesquisas realizadas a partir do periódico Archivos do Museu Nacional, elaborado por esta
instituição a partir de 1870, quando este passava a estabelecer uma política de permuta ligada a produção de periódicos
em colaboração com instituições nacionais e estrangeiras. Tal proposta metodológica tem como base a pesquisa de
doutorado do autor, em busca de uma transdisciplinaridade a partir do agenciamento entre teorias sistêmicas que tra-
tam das dinâmicas complexas nos processos de construção e comunicação do conhecimento científico. A abordagem

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sociotécnica da Teoria de Redes, elaborada por Manuel Castells em A Sociedade em Rede, serve de base para a com-
preensão de uma cartografia institucional das ciências a partir da análise documental do Museu Nacional. constituem-se
em categorias centrais de análise neste artigo conceitos como fluxo, transmissão, emergência e plano de forças para
analisar a dinâmica da colaboração científica nacional e estrangeiro. No que tange a realidade documental, a extração
manual de dados não-indexados e a Teoria de Grafos como processo de matematização das relações em rede, nos
permite perceber os agenciamentos entre sujeitos, instituições, artefatos e a própria documentação, resultando numa
análise mais complexa do conhecimento científico em fluxo.
Essa proposta metodológica vem fortalecer a crescente demanda por inovação de pesquisas científicas transdiscipli-
nares, sobretudo no campo das Humanidades, uma vez que, tradicionalmente, tal campo conformou-se no estabelecimento
de diálogos com áreas consideradas afins. Tal proposta nos permite, portanto, o reconhecimento que a aproximação
entre campos disciplinares distintos, aqui apresentada, e pensar o que chamamos de Redes Epistêmicas Complexas.

Repercussões do Museu Nacional na Bahia Oitocentista

Cinthia da Silva Cunha (universidade federal da bahia), Suely Moraes Ceravolo (UFBA)

Considerando o colecionismo, museus e exposições no universo das práticas sociais e culturais de cunho muse-
ológico alinhadas às “culturas das ciências naturais” , abre-se a possibilidade de apresentar e discutir repercussões do
Museu Nacional na Bahia Oitocentista, a partir de fontes documentais. O objetivo é destacar o alcance das atividades
do Museu no Rio de Janeiro junto à Bahia em dois aspectos: as ações envidadas através das redes de sociabilidade ,
recorrendo aos ofícios agrupados no maço 4069 correspondente a Instituições Culturais/Museu Nacional 1857-1886
(Arquivo Público da Bahia), e a imagem positiva do Museu junto ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB),
guiadas pelas declarações do primeiro presidente desta agremiação. Comenta-se, no sentido de antecedentes possíveis,
a inclusão da Bahia na rede de informações sobre as ciências naturais e história natural, a exemplo da ideia de criação
da Real Sociedade Baiense dos Homens de Letras (no modelo da Real Academia de Lisboa)(1810), e a esperada parti-
cipação das províncias na forma de “uma rede de gabinetes de História Natural“, em 1819, para a “organização ideal do
“Museu Geral Brasílico” . Acredita-se que foram fatores a influenciar mesmo décadas depois, a criação do Gabinete de
História Natural na Bahia, na cidade do Salvador, sediado no Liceu Provincial (depois de 1837) que com material dessa
ciência participou da Exposição Provincial da cidade do Salvador, em 1872 . Os ofícios citados demonstram a assimetria
das posições entre o Museu Nacional, com especialistas e o governo provincial com providências burocráticas. Tem-se
que esse fluxo fez correr em paralelo as perspectivas de ciência, concepções culturais e valores, dentre eles o simbólico
do que significava contar com coleções de História Natural. As fontes indicam aproximações, justaposições, acertos e
desacertos impulsionando os agentes envolvidos, colocando os diretores no Rio de Janeiro e as figuras políticas na Bahia
trabalhando de algum modo (ou de modos enviesados) para dar andamento ao desenvolvimento da ciência no território
brasileiro, de ocupação rala na faixa litorânea, e imensos vazios no sertão.

Trajetórias e patrimônio: a coleção de Betty Meggers


no Museu Nacional do Rio de Janeiro

Mariana Moraes de Oliveira Sombrio (USP)

Betty Meggers veio ao Brasil realizar expedições arqueológicas na região do Baixo Amazonas entre anos de 1948 e
1949, acompanhada por seu marido, Clifford Evans, também arqueólogo. Pioneira no campo da arqueologia amazônica,
suas pesquisas levaram às definições das primeiras culturas arqueológicas da região, à proposição de uma cronologia
sobre a ocupação pré-colonial da Amazônia e abriram caminho para o desenvolvimento de diversos outros estudos sobre
culturas pré-coloniais da América Latina.
Meggers e Evans estiveram inicialmente no Rio de Janeiro onde foram recepcionados pela antropóloga Heloísa
Alberto Torres, diretora do Museu Nacional na época, que os auxiliou na organização da expedição. Naquele período, os

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arranjos necessários a uma viagem de pesquisa como esta eram demorados e difíceis de serem feitos e o apoio de uma
instituição nacional poderia ser definidor das características da pesquisa e da viabilização da expedição no país. Dona
Heloísa, como era conhecida por seus contemporâneos, foi quem proporcionou que o casal realizasse a pesquisa de
campo sob os auspícios do Museu Nacional, o que viria a facilitar a realização da viagem e o alinhamento necessário com
as instituições fiscalizadoras da época, em especial o Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas
do Brasil – CFE (1933-1968). 
Além de prover o apoio institucional necessário, Dona Heloísa compartilhou com eles também seus conhecimentos
sobre a Ilha de Marajó, onde já havia realizado uma pesquisa de campo em 1930. A relação de Betty Meggers e Clifford
Evans com o Conselho de Fiscalização de Expedições foi também intermediada por Heloísa Alberto Torres e no dossiê do
CFE referente à viagem do casal consta um ofício escrito por ela informando que Meggers e Evans iniciariam as pesquisas
na região amazônica em julho de 1948 e que as atividades seriam feitas em colaboração com o Museu Nacional onde
seriam depositadas as coleções reunidas durante a expedição.
Atualmente, estão guardadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro setenta e oito caixas de fragmentos cerâmicos
entregues à instituição por Meggers e Evans. Com auxílio de dados dos diários de campo redigidos por Betty Meggers foi
possível complementar algumas informações sobre essas coleções como as localidades de proveniência dos fragmentos,
por exemplo, identificadas no acervo da instituição apenas pelos códigos que estavam descritos nos diários. Além da
Ilha do Marajó, esses conjuntos são representativos de sítios arqueológicos da Ilha de Caviana, Ilha de Mexiana e do
Território do Amapá.
A partir de um mapeamento das coleções reunidas por Betty Meggers no Brasil, do estudo de suas expedições e
da análise de documentações diversas a pesquisa apresentada aqui buscou produzir reflexões sobre as relações entre
trajetórias, sujeitos, circulação de ideias e patrimônios materiais em museus brasileiros.

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ST 02. A diversidade e a historicidade das disciplinas nos
Programas de Pós-Graduação em História das Ciências:
capturando e debatendo suas facetas (Inter-Multi-Trans-In)
disciplinares

Antifragilidade, diversidade, inter-multi-trans-indisciplinaridade:


rimas e relações

Juliana Coutinho Oliveira (UFRJ)

Os estudos da deficiência exploram dimensões sociais, culturais e políticas do que significa ser deficiente. Aqui a
deficiência é vista não apenas como uma designação legal mas como uma arena de contestação social e uma categoria
identitária construída, com necessidade de análise no tempo, na geografia e nas culturas (Adams, 2015).
Nas últimas décadas os estudos da deficiência como um campo interdisciplinar alcançaram efeitos de longo al-
cance. Ao adentrar novos terrenos, a deficiência se tornou uma categoria notadamente heterogênea, mas há quem diga
que o campo está em uma “encruzilhada intelectual” (Adams, 2015). Os trabalhos atuais sobre deficiência representam
interesses variados e às vezes competitivos e controversos. Os estudos da deficiência, entretanto, pedem um projeto
colaborativo, o que pode ser encontrado nesse olhar inter-multi-trans-indisciplinar.
“Conhecer as coisas exige que nos coloquemos primeiro entre elas. Não apenas em frente para vê-las, mas no
meio de sua mistura, nos caminhos que as unem.” Inspirada pela escrita matematicamente poética de Michel Serres
(2001), pretendo olhar a deficiência em toda sua diversidade para entender suas múltiplas facetas.
Qual o limite entre normalidade e deficiência? Quais critérios médicos, políticos e sociais definem o ser deficiente?
Os estudos da deficiência se tornaram uma indústria? 
A compreensão da realidade social se faz por aproximação e é preciso exercitar a disposição de olhá-la por vários
ângulos. Para atingir esse objetivo tentar-se-á utilizar a triangulação de métodos, uma combinação de múltiplos aportes
teóricos com a estratégia de estabelecer um diálogo entre áreas distintas de conhecimento, viabilizando o entrelaçamento
entre teoria e prática e agregando múltiplos pontos de vista utilizados de modo articulado (Minayo, 2005). 
Nada mais coerente para essa mistura do que a teoria ator-rede, de Latour (2011), que valoriza os aglomerados e
a construção de redes e se apresenta como uma possibilidade metodológica inovadora e radical no campo dos estudos
de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), reconfigurando o olhar, entendendo os artefatos tecnológicos para além de
seus aspectos técnicos e trazendo as dimensões políticas, econômicas, culturais e sociais neles implícitas. 
Analisando algumas pessoas com deficiência de destaque no cenário brasileiro, buscaremos tentar entender a
antifragilidade proposta por Nassim Taleb (2015). Como essas pessoas se beneficiam dos impactos e crescem diante
dos agentes estressores? Como superam suas limitações e atingem um suposto sucesso? Essa imagem se repercute
na sociedade? É representativa para as anônimas pessoas com deficiência do país? 
Adams, R. Keywords for Disability Studies 2015
Latour, B. Ciência em Ação 2011
Minayo, M. C. S. et al Avaliação por Triangulação de Métodos 2005
Serres, M. Os Cinco Sentidos 2001
Taleb, N. N. Antifrágil 2015

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BioEpistemologia? Objeto transfacetado de uma pesquisa
indisciplinada

Matheus Henrique da Mota Ferreira (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A BioEpistemologia é um projeto/trajeto/objeto. É projeto, porque ainda não existe em si e por si mesma, mas depende
da minha mente como nó central de uma coletividade social/intelectual/material que a convoca a se manifestar. É trajeto,
pois se constitui metodicamente, ou seja, na caminhada da pesquisa, na busca pelo que está além do caminho traçado (me
tá=através,além+hodós=caminho). E é objeto, no sentido trivial de ser o objeto de uma pesquisa em História e Filosofia
das Ciências; mas também é um objeto especial: por ser complexo e entramado em redes de contribuições epistemológicas
diversas; por ser transfacetado (para além de multifacetado), com faces diversas, aparentemente inesgotáveis e multipli-
cantes, dependendo da perspectiva do observador e da contextualidade em perpétua mutação; por constituir um sistema
cibernético emergente de quarta ordem (Finidori, 2016) e, portanto, interdependente em relação aos demais sistemas
com que interage em seu meio, co-evoluindo em suas interações com eles e com a comunidade de pesquisadores que
sobre ele se debruçam; e por ser indisciplinado/indisciplinar, mantendo-se fora de qualquer recorte disciplinar específico
e provocando seus estudiosos a ultrapassarem as fronteiras do conhecimento, a manterem-se insubmissos.
A BioEpistemologia pretende pensar sobre como conhecemos, como obtemos conhecimento sobre algo, como
adquirimos e arquivamos conhecimentos, como os verificamos e o reproduzimos, como os aplicamos e assim por diante.
Acionando a epistemologia filosófica tradicional, a epistemologia da ciência anglo-saxã (com Popper, Kuhn etc) e france-
sa (Bachelard, Piaget, Foucault etc), além de epistemologias marxistas, sistêmicas, cibernéticas, pós-estruturalistas e
complexas, pretendo encontrar uma linha, um fio comum que atravesse esses processos-de-meta-conhecimento ou de
indagação sobre o próprio conhecimento (conhecimento do conhecimento). Esse fio será então deslocado e posicionado
em uma tessitura cognitiva diferente, esta composta por Teorias da Vida/BioLógicas. Essa trama BioLógica, a que se
juntará o tecido EpistemoLógico, mobilizaria perspectivas diversas dentro da Biologia e da Filosofia da Biologia, incluindo
teorias organísmicas, evolutivas, ambientais e cognitivas (que permitem pensar sistemas que vivem, se reproduzem,
se desenvolvem, se adaptam, evoluem, interagem, alimentam-se, comunicam-se, co-evoluem, criam e co-criam-se).
Por fim, a emergência de um tal sistema sócio-cognitivo BioEpistemológico depende, ultimamente, das condições
de seu contexto que permitam a elaboração à brasileira de uma Zona, uma epistemologia zoneada, caótica, alimentada
por uma pulsão antropofágica e logofágica. Apenas essa zona plural, que desfaz muros, amarras e estruturas sólidas,
pode tornar possível a fluidificação necessária para mudar a forma, transmutar e transformar o dado em algo novo, um
acontecimento híbrido no aqui e agora que nos capacite a ver novos horizontes, pensar novas ideias e agir no mundo.

Duas histórias indisciplinadas para representar diferentes


abordagens da história das ciências, das técnicas e epistemologia:
o cabo midi e a edição não linear de vídeo

Marcia de Oliveira Cardoso (UFRJ)

Em 2017, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) promoveu eventos, entre eles A Universidade e a sua
diversidade patrimonial: memória, história, cultura e arte e o Seminário a UFRJ faz 100 anos, que incentivaram um olhar
para os saberes e fazeres do cotidiano da UFRJ, reafirmando a importância da preservação de documentos, artefatos
e depoimentos que fazem parte do patrimônio da universidade. Muitos destes saberes e fazeres estão ainda invisíveis,
trilham caminhos diferentes do mainstream do desenvolvimento da tecnociência, diferentes de um saber fazer universal.
Ao estudá-los percebe-se caminhos quase sempre localizados, que reforçam o caráter interdisciplinar na produção do
conhecimento. São histórias (indisciplinadas) que expõem novos atores, rearrumando relações de poder.
Para escrever as duas histórias indisciplinadas, objetos deste trabalho, utilizei abordagens apresentadas em dis-
ciplinas de pós-graduação cursadas, seguindo o método sugerido por Bruno Latour [1] e estudos sobre uma ótica de
avaliação construtivista [2].

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A primeira história revela a construção de um cabo MIDI, necessário para conectar um teclado musical a um com-
putador. Nesta história, destaca-se uma rede de atores heterogêneos, entre eles músicos, engenheiros e computadores.
E é possível observar o trabalho dos envolvidos e as escolhas que foram sendo feitas ao longo da construção do cabo. 
A segunda história, aborda as dificuldades e os caminhos necessários para a introdução da edição não linear de
vídeo no universo das produtoras de vídeos brasileiras. Apesar da atual naturalização dos sistemas de edição não linear,
esta história permite perceber que, mesmo pronta, como produto, a tecnologia não foi simplesmente utilizada – sua
adoção foi complexa, construída pelas ações para se trocar as ilhas de edição linear por computadores.
Este é um trabalho que deseja mostrar possibilidades, variedades de abordagens e conhecimento localizado que
resiste para além de enquadramentos obtidos a priori de um caminho dito universal. As duas histórias apresentadas neste
trabalho são histórias do fazer cotidiano da UFRJ da década de 1990, que podem exemplificar estudos interdisciplinares
e contribuir para a história das ciências, das técnicas e epistemologia.
Referência
LATOUR, Bruno. Science in action. How to follow scients and engineers through society. (1987). Harward University Press.
RIP, Arie, MISA, Thomas J., SCHOT, Johan. Managing Technology in Society The approach of Constructive Technology
Assessment. Pinter Publishers. 1995.

Interface entre Questões de Filosofia e as da Física

Zulena dos Santos Silva (Colégio Pedro II)

Tem-se em vista abordar aqui a interface da Filosofia com a Física, mediante questões suscitadas a partir da Me-
cânica Quântica(MQ). Neste ponto abre-se uma perspectiva instigante e controvertida de investigação: a Metafísica. 
Curiosamente, a análise crítica de Hume à causalidade, no século XVIII, aponta para uma revisão do que seja
conhecimento e a experiência. Sua crítica resume-se às seguintes conclusões: causalidade não é um fenômeno físico,
nem uma ideia da mente humana, mas apenas uma noção resultante do hábito frente à regularidade de ocorrências, a
qual não se apoia em conexão necessária.
Uma pergunta que se impõe considerando-se a crítica de Hume à causalidade seria: o que é o dado físico, e o que
seria especulação com aparência de dado real? E ainda, como distingui-los? 
Levando-se em conta que para N. Bohr o domínio quântico é destituído de causalidade, podemos compreender
que com a MQ se apresenta uma modificação na compreensão de conhecimento da natureza, de experiência e daquilo
que é conhecido. Nesse tocante, tem-se como questão se a MQ é completa ou não, com isso em jogo compreensões
sobre o que seja “ciência” e também “realidade”.
Em última análise, seriam os fenômenos quânticos entidades não-observáveis? E seriam esses não-observáveis
expedientes de uma teoria adequada empiricamente? Ou seriam reais?
Importa aqui a questão sobre qual a natureza ou constituição do que é observado no domínio quântico. Em outras
palavras, o que seria substancialmente a partícula quântica, considerando-se a não-separabilidade e a interferência,
características do estado quântico?
Neste ponto, é insistente a questão sobre qual a natureza do dado indeterminado: não-separabilidade e interferên-
cia são características do estado quântico que constituem a indeterminação na identificação da localidade da partícula,
mas ainda podemos considerar que está em jogo a identidade daquilo mesmo que é o dado observado, a partícula;
como saber sobre sua natureza, identidade? Faz sentido pensar sobre sua consistência e durabilidade física? O que seria
“partícula” no domínio quântico?
Pode ser proposto que é pertinente compreender o objeto quântico como não indivíduo, assim reconfigurando-
-se a concepção do observado mediante a interpretação formal do estado de coisas quântico. Encontramos pesquisa
nesta direção na obra de S. French e D. Krause, The identity in physics, bem como no artigo do Prof. J. B. Arenhart, “The
received view on quantum non-individuality: formal and metaphysical analysis”.

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Mediante essa linha de pesquisa, a questão que decorre é: o limite da Física é a vez da Metafísica com a com-
preensão de objeto quântico como não indivíduo? Tomando-se tal direção, cabe ainda demarcar ciência de metafísica,
como pretendeu Popper? Ou a metafísica é inevitável em interface com a ciência?

Mosquitos picando os Estudos de Ciências, Tecnologias e Sociedades


em um Programa de Pós-Graduação em História das Ciências,
das Técnicas e Epistemologia

Cláudia Santos Turco (UFRJ), Eduardo Nazareth Paiva (UFRJ)

Historicizar as tecnociências biológicas tem se tornado um desafio especial, pois as fronteiras entre o mundo
das ciências ditas naturais e das humanidades estão cada vez mais tênues e, desta vez, a responsabilidade não é só
de historiadores ou cientistas sociais; os homens da ciência agora se interessam tanto por humanos (MAIA, 2013,
p.100) quanto por não-humanos (LATOUR, 1994, p.19). Os híbridos são visíveis. (ibdem, p.9). Isso provoca um diálogo
no qual temos que rever nossas próprias fronteiras epistemológicas, atravessando territórios que podem nos levar às
indisciplinaridades (CASTRO,2005). Chakrabarty (2009) diz que os historiadores têm que lidar, agora, com um humano
que além de social, econômico, cultural e biológico, é também uma força geológica; um fenômeno que pode ser datado
historicamente e cuja agência é coletiva. Nossa agência geológica ocorreu e, na maioria das vezes, ocorre ainda de
forma não perceptível pela experiência humana, apenas através de análises científicas. No entanto, ao mesmo tempo
que a agência humana tem potência, o homem não está no controle. Mesmo em cidades, grandes obras humanas, o que
percebemos é um agregado de humanos e não humanos em transformação, com categorias que nascem das relações.
O trabalho apresentado observa o World Mosquito Project – Brasil, que se propõe a substituir a população de mosquitos
Aedes aegypti selvagens por Aedes aegypti contaminados pela bactéria wolbachia. Os mosquitos contaminados seriam
incapazes de transmitir doenças como dengue, Zika e Chikungunya. É uma proposta de mudança consciente e ousada,
pois busca contaminar toda a população de uma espécie animal e assume, talvez de forma não explícita, que humanos,
mosquitos e vírus continuarão a conviver. Esta decisão consciente traz possíveis e diferentes dimensões de análise que,
numa primeira aproximação, busca-se explorar, como a percepção de risco e incerteza; a incorporação de uma tecnologia
proposta como mundial, mas desenvolvida na Austrália; e o entendimento deste projeto como uma tentativa de modificar o
ambiente, de utilizar bactérias e mosquitos como artefatos, sem considerar que talvez a melhor perspectiva seja entender
a convivência entre humanos, mosquitos, vírus e bactérias como inevitável e estes entes não humanos como actantes.
Referências:
MAIA, Carlos Alvarez. História das ciências: uma história de historiadores ausentes: precondições para o apareci-
mento dos sciences studies. Rio de Janeiro: Eduerj. 2013. 306p
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos : ensaio de antropologia simétrica {Bruno Latour; tradução de Carlos
lrineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994
CASTRO, Eduardo Viveiros de. Antropologia e imaginação da indisciplinaridade. Conferência proferida no Instituto
de Estudos Avançados Transdisciplinares da UFMG (IEAT) em 18/05/2005. Disponível em https://www.youtube.com/
watch?v=ry1ykrRVqYk Acesso em 23/04/2018. 
CHAKRABARTY, D. The climate history; four theses. Critical Inquiry, v.35, n,2, p.197-222, 2009.

O Infinito e os 5 sentidos 

Ana Paula Gonçalves (UFRJ), Palmira Margarida Ribeiro da Costa Ribeiro (UFRJ), Suzana Queiroga de


Carvalho e Sousa (UFRJ)

Visão, tato, audição, paladar, olfato. Os cinco sentidos estão escritos em ordem de maior para menor importância.
É eminente que nossos sentidos não são concebidos de forma igualitária pela ciência e na sociedade, sendo notório que

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a primeira tenha influenciado ou sido utilizada como paradigma de verdade pelo discurso progressista e civilizado, a fim
de controlar a segunda em sua percepção sobre os próprios sentidos. Há uma tendência, construída culturalmente junto
aos paradigmas científicos, em conceber os sentidos não como uma capacidade de sensoridade integral, mas como
entes em funcionamento separados e sensibilidades não conectadas. Através desta desconexão sensorial, alguns sen-
tidos são interpretados socialmente como menos importantes ou, até mesmo, não necessários, como o caso do olfato.
Os cinco sentidos não são analisados de forma inter-relacional nos estudos da história das ciências e isso pode
ser um reflexo do que ocorre na própria ciência. A falta de estudos em conformidade a uma concepção integral entre os
sentidos é aparente e a ausência de análises científicas que vão além de uma visão Comteana solapam a observação e
análise sensorial em unicidade entre os cinco. 
O objetivo desse artigo é perceber a relação entre os 5 sentidos, à luz do texto de Michel Serres, e o conceito de
Infinito. Fascinante e extremamente abstrato, o Infinito não é palpável. Qualquer palavra que se atreva a expressá-lo
pode engessar tudo o que se pretende dizer sobre esse conceito. Crítico da Filosofia da Linguagem, Serres defende o
que não pode ser expresso, porque extrapola a linguagem. Percebemos, assim, uma oportunidade de transpor a barreira
da oralidade e da escrita e defender uma expressão do conceito de Infinito, tanto o potencial quanto o atual, através
dos sentidos.
O filósofo das ciências, Michel Serres, alumia essa questão da ausência da interação entre os sentidos e o formato
de análises clássicas dadas aos mesmos. Critica os métodos, as normas e ordens pelos quais a ciência elege o que é
passível de ser analisado cientificamente e o não possível, sendo colocado ao limbo ou em categorização de inferioridade,
em vez de haver um estudo mais sensível, metafísico e externo que, de fato, conseguiria abarcar as sensibilidades, as
emoções e sentidos. 
Dessa forma, nos aventuramos a investigar a obra “Os 5 sentidos – A filosofia dos corpos misturados” e percebemos
que ela nos apresenta alguns conceitos que podemos trazer para expressão do Infinito, dentre eles a lógica do terceiro
excluído. Pretendemos, assim, apresentar uma proposta de experimentação: é possível, sem hierarquizar os sentidos,
ver, tocar, cheirar, degustar ou ouvir o Infinito?

O Instituto Benjamin Constant e a transdisciplinaridade da cegueira

Eduardo Nazareth Paiva (UFRJ), Marcos Fialho de Carvalho (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

O cuidado com a pessoa cega requer tratamento que envolve diversos profissionais. Seguir a pessoa cega em
ação é também cuidar dela e exige diversos recursos heterogêneos sejam eles materiais, saberes e disciplinas (História,
Medicina, Direito, Computação, Linguagens, Biologia etc.). Exemplo disso é o Instituto Benjamin Constant (IBC), que
nasceu do sonho de José Alvares de Azevedo, um rapaz cego, nascido em uma família sem preocupações financeiras,
que foi mandado para estudar em Paris, no Instituto Imperial dos Jovens Cegos, criado por Valentin Hauy e onde tinha
sido aluno Louis Braille, o criador do sistema Braille de escrita e leitura através de pontos em alto-relevo. Azevedo
retorna dos seus estudos com a vontade de criar em solo brasileiro um instituto nos mesmos moldes que o de Paris e
começa a divulgar o seu interesse, construindo uma rede de aliados, até que em 17 de setembro de 1854 o Imperador
Don Pedro II inaugura o Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Criado nos mesmos moldes, mas em solo tupiniquim, do
instituto de Paris. Para a sua criação Azevedo doou diversos materiais que trouxe consigo, entre eles tipos em Braille
para a impressão de livros, revistas e tudo o que fosse necessário, inaugurando assim a impressão de obras em Braille
no país. Vários profissionais foram contratados para a educação escolar e profissional dos alunos cegos. O IBC precisou
se adaptar, um processo de antropofagia ocorreu onde os moldes do instituto de Paris foram assimilados, apropriados,
deglutidos, ruminados e os moldes do IBC surgiram. Este não é um processo simples e a apropriação de tecnologias es-
trangeiras sempre esteve e continua estando presente no instituto. Este artigo pretende relatar o processo de importação
de uma máquina de estereotipia alemã no início dos anos 80 do século XX, sua assimilação pelos vários profissionais,
sua mecanização nos anos 90 que propiciou uma sobrevida de quatro anos até que novas máquinas fossem importadas
causando o seu desligamento. O processo de mecanização envolveu diversos profissionais de informática, engenharia
e técnicos em mecânica para entender a tecnologia alemã e fazê-la conversar com a solução desenvolvida nesta “terra
que em se plantando tudo dá”. Durante todo o tempo que a máquina foi usada, uma rede de atores humanos e não

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humanos foi criada ao seu redor, sendo ela um ponto de passagem obrigatório para conhecermos um pouco da história
do Instituto Benjamin Constant.
Referências:
HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz. Antropologia do ciborgue. Belo Horizonte: Autêntica, 2000
LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: Ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. São Paulo: EDUSC, 2001.
LAW, John. Aircraft stories: Decentering the object in technoscience. Duke University Press, 2002.
SHAPIN, Steven. The invisible technician. American scientist, v. 77, n. 6, p. 554-563, 1989.
SISMONDO, Sergio. An introduction to science and technology studies. Chichester: Wiley-Blackwell, 2010.

Os cursos de pós-graduação interdisciplinar stricto sensu


e as Estradas Pavimentadas para a interdisciplinaridade 

Maria Cristina de Oliveira Cardoso (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Regina Maria Macedo Costa
Dantas (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A abertura de cursos de pós-graduação interdisciplinar no Brasil refletiu uma temática discutida há décadas e trouxe
um contraponto ao conhecimento que privilegiaria algumas ciências. Hoje, quase 20 anos depois, existe uma relevante
quantidade de trabalhos publicados que busca uma definição do conceito interdisciplinar na história dos Programas de
Pós-graduação. A inquietação com o tema contempla várias questões, dentre elas a avaliação dos cursos para obtenção
de reconhecimento e validação pelo Ministério da Educação.
O debate sobre os critérios de avaliação se intensificou recentemente após a divulgação, em 2017, do último
resultado da avaliação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/CAPES – responsável por
regulamentar e avaliar os cursos de pós-graduação no Brasil. Instituições como a Sociedade Brasileira Para o Progresso
da Ciência, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação Interdisciplinar em Sociais e Humanidades e a Academia
Brasileira de Ciência estão participando de debates e elaborando suas contribuições, buscando promover mudanças na
avaliação. As mudanças propostas, não só para os cursos da área interdisciplinar, abordam, entre outros temas, as-
simetrias regionais, novas áreas temáticas, internacionalização de trabalhos. Mas haveria uma resposta única para a
elaboração de formato de avaliação considerando a diversidade dos Programas de Pós-graduação?
Partindo deste contexto, este trabalho tem por objetivo apresentar uma possibilidade de “classificação” de dois
elementos de nosso estudo: os cursos de pós-graduação interdisciplinar stricto sensu e os periódicos de estrato superior
A1– veículos de publicação escolhidos pela CAPES. Esta “classificação”, que busca estabelecer uma relação entre os
dois elementos, foi elaborada para subsidiar uma tentativa de responder as seguintes questões: Seriam os caminhos
traçados pelos periódicos os mesmos escolhidos pelos cursos para a interdisciplinaridade? Haveria convergência e/ou
justaposição nestes caminhos? 
A “classificação” apresentada neste trabalho tem como base as áreas de conhecimento definidas pela CAPES e
foi construída a partir de um levantamento das descrições dos cursos e dos periódicos. A metodologia e o levantamento
são partes integrantes de uma pesquisa de mestrado em andamento no HCTE/UFRJ.
Referências:
Academia Brasileira de Ciência, ABC, disponível em: http://www.abc.org.br/IMG/pdf/sugestoes_capes.pdf acesso
em: 20/4/2018
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação Interdisciplinar em Sociais e Humanidades, Aninter, disponível
em: http://www.aninter.com.br/page/361834924/Cartas. acesso em: 20/4/2018
Brasil, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, disponível em: http:www.capes.
gov.br/ acesso em: 02/02/2018
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/sbpc-
envia-sugestoes-novo-modelo-de-avaliacao-da-pos-graduacao-no-pais/ acesso em: 20/4/2018

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Pertencimento, tatuagem e presidiárias: o que tem de interdisciplinar?

Ivaneide Nunes Paulino Grizente (UFRJ)

Século XXI, pós modernidade, avanços científicos e tecnológicos caminham a passos largos, transformações de cunho
social se sobrepõem ao anteriormente estabelecido na sociedade num eterno recomeçar. Assim caminha a humanidade!
Pensar sobre renovação supõe aperfeiçoamento das coisas práticas da vida, que são resultado do aperfeiçoamento
das diversas áreas científicas, e pensar renovação da ciência, envolve certamente interdisciplinaridade. Nesse sentido,
o presente trabalho se propõe a refletir sobre pertencimento de mulheres detentas ao parceiro amoroso(a) através de
tatuagem, o que impõe a questionar, qual a relação da tatuagem da presidiária com o parceiro (a) amoroso (a) enfatizando
a Interdisciplinaridade como condição Sine qua non, porque para contextualizar os temas e melhor compreendê-los, se
faz necessário resgatar aspectos históricos, sociais e psicológicos.
Dessa forma, o estudo encontra relevância quando se propõe a discutir questões sobre igualdade de gênero, per-
tencimento feminino e a situação das mulheres em ambiente carcerário, além de fortalecer discussão e conscientização
sobre sentido de pertencimento através da tatuagem, que nesse contexto, é expressão de linguagem que reforça o
sentido de aprisionamento de mulheres encarceradas.
O referencial teórico requer aprofundamento interdisciplinar pois temas diversos serão abordados: História do corpo
como expressão de linguagem – O corpo transmite mensagens, além de ser enfeitado para ser belo ou diferente, ou
imprimir nele mensagem de crueldade. (ARAÚJO, 2005); 
Identidade e pertencimento – Tratada à luz da tríade Iluminismo (se configura a partir do nascimento do indivíduo);
sociológico (se configura na relação com outros sujeitos); pós moderna (é definida pelo viés cultural, porque o indivíduo
adquire identidades distintas em momentos distintos. (HALL, 2004); 
O Indivíduo e o sentido de Pertencimento – Identidades sociais, culturais profissionais, religiosas e sexuais serão
tratadas à luz de (BAUMAN, 2005); 
A Identidade na Tatuagem – Será embasado em (GUIDENS, 2002); assim como as Minorias e mulheres em (PER-
ROT, 2017); Mulheres nas prisões (JOÃO DO RIO, 2007) e VARELLA, 2017); Tatuagem (MARQUES, 1997). Tatuagem e
Cárcere (OSÓRIO, 2006), entre outros. 
A metodologia será à luz de pesquisa bibliográfica que Segundo Gil (2002, p.44), “[...]é desenvolvida com base em
material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos” e aqui acrescida de pesquisa em páginas
eletrônicas tais como www.scielo.org/ e outras que disponibilizem material científico sobre o tema. 
Assim, e frente a necessidade de abordagem de diversas áreas de conhecimento, a Interdisciplinaridade se impõe
de forma efetiva, e consistente, se fortalecendo como um espaço articulador de diferentes saberes.

Uma análise sóciotécnica dos algoritmos

Gustavo Gindre Monteiro Soares (Universidade Federal do Rio de Janeiro

Algoritmos estão na moda. Muito se fala deles quando nos referimos às redes sociais (como o Facebook), aos
mecanismos de busca (como o Google) ou à marketplaces virtuais (como a Amazon), entre outras ferramentas da Inter-
net. E não estão apenas na Internet, como também na gestão de trânsito de grandes cidades, na definição de valores
de apólices de seguros, em operações de compra e venda no mercado financeiro e em vários outros domínios da vida
contemporânea. E algoritmos são muito anteriores à invenção da Rede mundial de computadores. Grosso modo pode-se
dizer que algoritmo é uma sequência finita de instruções precisas e não ambíguas, que podem ser executadas em um
intervalo de tempo e uma quantidade de esforço finitos e com o objetivo de resolver uma classe específica de problemas.
Nesse trabalho, contudo, vamos analisar apenas o uso de algoritmos em máquinas capazes de fazer cálculos de forma
automática, notadamente os modernos computadores eletrônicos.

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Entretanto, essa não é uma pesquisa na área da informática ou da computação. Meu foco é o tema da democracia
ou, mais especificamente, das condições de exercício da democracia nas sociedades contemporâneas, marcadas pelo
uso intensivo de tecnologias. Democracia e algoritmos, portanto. E mais especificamente meu objetivo é refletir sobre
as condições em que as sociedades podem tomar conhecimento, analisar e incindir sobre o uso destes algoritmos. Algo
que ganhou o recente apelido de “governança algorítmica”. Para dar conta desse objetivo, pretendo utilizar a teoria ator-
-rede e analisar a multiplicidade de atores (humanos e não-humanos) que estariam envolvidos com tal governança. Esta
escolha será especialmente importante quando tratar de algoritmos de machine learning, por exemplo.
Mas esse é o tema da pesquisa de minha tese de doutorado. Para o presente trabalho, contudo, pretendo apre-
sentar um recorte desta pesquisa. O objetivo aqui é entender como os algoritmos se tornaram instrumentos de produção
de inscrições, sendo fundamentais para a constituição de “centros de cálculo”. Ou seja, como os algoritmos permitem
o surgimento e amplificam a ação a distância, aumentando a disparidade entre estes centros de cálculo e a “periferia”
que é objeto de sua ação. Ao mesmo tempo, tentar entender o que acontece com a relação entre o objeto e o conheci-
mento deste objeto quando a informação é reunida em poderosos bancos de dados e minerada por algoritmos. O que se
ganha (por exemplo, o aumento de eficácia) e o que se perde (por exemplo, um distanciamento em relação ao contexto
específico) nesse processo de produção de inscrições.

28
ST 03. A investigação científica em História da Matemática
no Brasil

A concepção geométrica de Mannheim nos escritos de Poncelet

Jansley Alves Chaves (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), Gérard Émile


Grimberg (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)

No início da década de 60 do séc. XIX, Jean-Victor Poncelet, um matemático já octogenário, debruça-se sobre
um grande trabalho, escrever à posteridade toda sua obra. Nesta laboriosa tarefa contou com a colaboração de dois
ex-alunos da École Polytechnique (EP): MM Moutard e Mannheim. Neste trabalho nos interessa abordar a contribuição
de Mannheim. 
O primeiro trabalho de Mannheim é sobre a teoria da reciprocidade polar, escrito em 1851, nele dava uma primeira
ideia das transformações das relações métricas. Em 1857, Mannheim apresenta um trabalho sobre transformações
das propriedades métricas das figuras utilizando a teoria da reciprocidade polar. Assim define a métrica utilizando a
reciprocidade polar: sejam m e n as polares de dois pontos A e B e se pelo centro 0 do círculo auxiliar, traçarmos a reta
0C que passa pelo ponto de intersecção C das polares m e n, e em seguida traçarmos uma reta qualquer que intersecta
as retas polares m e n nos pontos A’ e B’ e chamando W o ângulo que esta reta faz com a reta 0C, teremos : AB=(1/
A^’ -1/B^’ )1/(sen W) .
Mannheim foi aluno na École Polytechnique no período em que Poncelet foi diretor e a Reciprocidade polar é uma
teoria apresentada inicialmente por Poncelet na sua obra de 1822, Traité des propriétés projectives des figures, desta
forma não nos parece coincidência que Mannheim tenha sido o principal colaborador, junto de M. Moutard, na elaboração
da coletânea das obras de Poncelet de 1862, 1864, 1865 e 1866. Na obra de 1862, Applications d’Analyse et géométrie,
Mannheim escreve uma nota sobre os polígonos inscritos e circunscritos às curvas e observações concernentes ao
traçado das tangentes. Nesta nota consta que um polígono é susceptível de variar de forma contínua, podendo ocupar
condições muito diversas. Mannheim definirá geometricamente a lei de deformação de um polígono supondo conhecido
as diferentes curvas que tocam seus vértices. Supõe todas as curvas contínuas e ligadas entre elas de modo que de-
terminando uma conhece-se todas as outras. Admite um movimento infinitesimal dos lados do polígono e se um ponto
for desconhecido exigirá apenas uma construção linear para determina-lo. 
É interessante ver o jovem Mannheim acrescentar à obra de Poncelet algumas notas e observações, sobretudo por
apresentar uma métrica o que contraria completamente as ideias de Poncelet, um geômetra sintético. Aliás, o próprio
Poncelet diz que as adições de M. Mannheim são feitas sem nenhuma participação do autor e sem nenhuma intervenção
em suas correções (PONCELET, 1862, p. 551, nota).
Referências bibliográficas
PONCELET, J.V. Applications d’Analyses et de Geométrie. 1ª ed. Paris: Mallet-Bachelier, 1862, Tome I. 563 p.

A disciplina de Cálculo Vetorial no Brasil: uma investigação inicial

Sabrina Helena Bonfim (UFMS)

Esta investigação constitui um recorte da pesquisa de pós-doutoramento iniciada em abril deste ano na Universidade
Estadual Paulista – UNESP, campus de Rio Claro/SP, sob a supervisão do prof. Dr. Sergio Nobre. Busca dar continuidade a
alguns apontamentos feitos durante o doutoramento da autora, dentre eles da inserção da disciplina de Cálculo Vetorial
no Brasil, tema da discussão inicial aqui proposta. Durante a realização da pesquisa de doutorado e coleta dos trabalhos
(artigos e obras científicos) identificados como produzidos por Theodoro Augusto Ramos (1895-1935), foi encontrado

29
um trabalho dedicado à temática de Cálculo Vetorial (Calculo vectorial, 1927) tanto em português (Calculo Vectorial. São
Paulo: Editora do Autor, 1927) quanto uma publicação em francês (Leçons sur le calcul vectoriel. Paris: Blachard, 1930)
por uma conceituada livraria francesa. Sabe-se que este texto em português é tido como um dos primeiros trabalhos
sobre o assunto no país e investigamos a hipótese de que seja o primeiro, pois após este surgiram outros em diversas
partes, representando grande inovação na área de Matemática. Theodoro havia sido professor da disciplina de Cálculo
Vetorial. Em uma entrevista publicada em 1937 e organizada por Fernando de Azevedo intitulada A Educação Publica em
S. Paulo. Problemas e discussões. Inquérito para O Estado de S. Paulo em 1926, o professor Theodoro faz uma explicação
acerca da nova disciplina explicando ser “[...] é a primeira vez, no Brasil, que em uma escola superior, se leciona o Cálculo
Vetorial e a Nomografia, disciplinas cujo estudo se faz correntemente nos países europeus” (RAMOS, 1926, p. 405). Fato
este que aponta também a primeira aparição da disciplina de Cálculo Vetorial em cursos de graduação no Brasil, neste
caso, na Escola Politécnica de São Paulo. Por assim ser, este trabalho traz como objetivos promover uma apresentação
e discussão inicial desta temática. A metodologia adotada se reporta a pesquisadores que tratam o trabalho em História.
Esta é uma pesquisa de caráter original, que tem o intuito de contribuir para futuros trabalhos e investigações acerca da
temática proposta, no âmbito da História da Matemática inserido na Educação Matemática.

A influência de JJ Sylvester na pesquisa em Matemática através


da edição do The Quarterly Journal of Pure and Applied Mathmatics
(1857 – 1864)

Magno Luiz Ferreira (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Em 1837, o inglês James Joseph Sylvester (1814 – 1897), se graduou em matemática no St. John’s College,
conquistando o posto de Segundo Wrangler, honra concedida ao aluno com a segunda maior pontuação no Mathematical
Tripos em Cambridge. Coincidentemente, este é o mesmo ano do surgimento do Cambridge Mathematical Journal (CMJ),
importante periódico que foi sucedido pelo Cambridge and Dublin Mathematical Journal (CDMJ), a partir de 1846. Além
de ter surgido com a intenção de tratar dos problemas apresentados no exame Tripos, estas revistas representam um
fator importante no processo de profissionalização da matemática inglesa no século XIX, fato que pode ser percebido no
prefácio do The Quartely Journal of Pure and Applied Mathematics (QJPAM), herdeiro dos periódicos citados anterior-
mente e editado por Sylvester, em parceria com o matemático Norman Macleod Ferrers (1829 – 1903). Nas palavras dos
editores: “se não se pode afirmar que criaram a atual escola de matemáticos ingleses, podem reivindicar ter fornecido
a arena na qual puderam medir sua força e evidenciar suas capacidades” (SYLVESTER; FERRERS, 1857, p. III). Além de
evidenciar o papel central das revistas no Reino Unido do século XIX, esta afirmação mostra a forma como as perspecti-
vas dos editores a respeito da pesquisa em matemática podem, através dos jornais, influenciar os rumos das produções
acadêmicas de um determinado período. Este trabalho tem como objetivo principal apresentar os posicionamentos de
Sylvester com relação aos de temas publicados no QJPAM ao longo dos anos de 1857 a 1864, período no qual a revista
manteve sua posição central na produção matemática inglesa (CRILLY, 2004). Além disso, este importante momento da
revista faz interseção com o período em que Sylvester esteve na Royal Military Academy of Woolwich, onde foi professor
de matemática durante 15 anos (1855 – 1870), o que, segundo Parshall (1998), não representou um período de muita
inspiração para trabalhos inéditos. Este fato nos indica que, de 1857 a 1864, Sylvester esteve muito envolvido com as
contribuições para o Quarterly, o que pode ter potencializado sua relação com outros trabalhos publicados no periódico.
Para atingir o objetivo deste trabalho estabelecemos uma rede de textos, como descrito por Brechenmacher (2006), com
base nos trabalhos publicados por Sylvester no QJPAM no período destacado, os quais tratam de sistemas de variáveis
indefinidas e teoria dos números. Buscamos identificar características comuns com outros trabalhos, além de artigos
que tratam de assuntos relacionados a carreira de Sylvester como teoria dos invariantes e teoria de eliminação. Desta
forma, esperamos que este trabalho possa contribuir para uma perspectiva cada vez mais solida a respeito do processo
de profissionalização da matemática britânica do século XIX.

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A influência de matemáticos franceses dos séculos XVIII-XIX
no ensino de ciências no Brasil

Fernando Osvaldo Real Carneiro (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA)

O trabalho ora em desenvolvimento está envolto em questões que são pertinentes a História do Ensino de Mate-
mática. Discutiremos levando em consideração as influências acerca da forma como utilizamos a Matemática no Ensino
de Física. Justifica-se porque existe a necessidade de compreendermos o porquê a Matemática tem funcionalidade
específica de atuação metodológica no âmbito do ensino de física podendo ocasionar, inclusive, obstáculos pedagógicos
permanentes. Temos como objetivo investigar e trazer à tona um elenco de considerações categóricas advindas de um
justificado momento histórico-filosófico que decorreu de fortes influências iluministas. O período das luzes teve também
a sua importância deflagrada nesse processo quando a Física se delineava como norteadora para quase todas as ciências
conhecidas àquela época, de modo que alguns estudiosos levavam a mecânica newtoniana às ciências humanas e so-
ciais somando-se ao fato do crescente avanço da burguesia e, portanto, a Revolução Industrial. O movimento iluminista
veio dar vida aos Tratados (traités), aos Cursos (cours) e as Enciclopédias (encyclopédies) com fins de dar vencimento
ao novo “modus operand” que seria implantado enquanto pensamento político e econômico nesta época. A partir dos
ideais da Revolução Francesa, frente ao processo social implantado, estabeleceu-se na França uma reconstituição política
de todo o sistema educacional sob a ótica de que o conhecimento poderia ser ensinado e o método analítico aplicável.
O tratamento analítico proposto, por exemplo, pelos matemáticos Laplace e Lagrange proporcionou mais adiante, no
período moderno e contemporâneo, a fomentação de uma matematização intensa nas pesquisas sobre fenômenos de
calor e temperatura, movimento contínuo dos fluídos (hidrodinâmica), vibração dos corpos elásticos, na teoria cinética
dos gases, na Mecânica Estatística, nos fenômenos eletrodinâmicos, na Mecânica Quântica, dentre outras áreas.
Portanto, as equações propostas por eles promoveram a matematização do corpo da Física a partir de uma doutrinária
filosófica e, o seu processo de resolução trazia à tona certo rigor associado devendo-se ao intenso labor da algebrização
na Análise Matemática. Neste trabalho nos aprofundaremos num período de aproximadamente 110 anos (1840-1950)
onde aconteceram diálogos extemporâneos propostos pelas obras de diversos estudiosos e matemáticos franceses
que foram veiculadas ao Brasil através da Didática Francesa. A metodologia se dará a partir da avaliação documental
de fontes históricas e da categorização utilizada envolvendo referenciais que se apresentaram sobre a égide de dimen-
sões teóricas. Por tudo isso, acreditamos ampliar o olhar crítico acerca dessas dimensões ainda utilizadas nos cursos
de formação inicial dos professores de Física no Brasil, evidenciando assim uma concepção ingênua dessa relação por
parte dos pares envolvidos.

A inserção da Álgebra no Ensino do Pará (1840-1889)

Everaldo Roberto Monteiro dos Santos (Instituto de Educação em Ciências e Matemáticas),


Patricia de Campos Correa (UFPA)

O objetivo deste artigo é analisar a inserção do ensino da Álgebra na Província do Grão-Pará. Este trabalho foi iniciado
a partir de um levantamento preliminar em pesquisas que versavam sobre a História do ensino na Amazônia, da primeira
metade do século XIX, nas quais conduziram a observação que em 1841, foi criada a cadeira Álgebra no primeiro currículo
do Liceu Paraense, instituição que tinha a finalidade de proporcionar o ensino secundário, na Província do Grão-Pará. Para
atingir este propósito, partiu-se dos seguintes questionamentos: qual o contexto social, na Província do Grão-Pará, que
favoreceu a emergência deste saber? Quais os discursos veiculados na época sobre o ensino de Álgebra? Que conteúdos
de Álgebra eram ensinados? Qual era a relação dos professores de Matemática com as estruturas de poder politico?
Buscando responder tais questionamentos debruçou-se, principalmente, em fontes primárias como: leis e decretos re-
lativas a instrução pública da Província; regulamentos da instituição Liceu Paraense; relatórios governamentais e jornais
da época e também em fontes secundárias que tratavam sobre este assunto ou correlatos. A análise documental se
estendeu de 1840, um ano antes da fundação do Liceu até 1889, ano da proclamação da República, por ser considerado
um período de aceleradas mudanças no cenário local e nacional. Ao perscrutar tais documentos buscou-se identificar e
analisar o currículo, os professores de Álgebra e aspectos sociais, políticos e culturais da sociedade da época. Chegou-

31
-se a algumas conclusões tais como: assim como a própria fundação do Liceu, a presença da Álgebra desde o primeiro
currículo nesta instituição, fez parte de um processo de modernização da educação no Império e que saberes clássicos
como a Geometria passaram a dividir espaço com conhecimentos emergentes. Que os docentes que lecionavam esta
disciplina, Álgebra, além de professores eram cidadãos influentes na vida social e política da sociedade da província,
ocupando cargos como deputados.

A obra Chronographia, Reportorio dos Tempos... (1603)


e o instrumento balhestilha: um estudo introdutório

Ana Carolina Costa Pereira (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo),


Antonia Naiara de Sousa Batista (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará)

Nos últimos anos houve um aumento de trabalhos pautados em uma perspectiva historiográfica atualizada, no
qual se procura investigar e compreender o objeto da pesquisa no passado, como ele estaria disposto no período, para
posteriormente, se encaminhar para o presente, e assim, realizar um diálogo entre ambos os momentos. Desta forma,
fazemos uso, neste trabalho, da obra Chronographia, Reportorio dos Tempos... (1603), de autoria do português Manoel de
Figueiredo (1568-1622), que é um documento que congrega diversos campos do conhecimento que se encontravam em
desenvolvimento durante o século XVI e XVII, dentre eles podemos destacar, a astronomia, astrologia, geografia, cosmo-
grafia, entre outros. Além disso, esse escrito traz a fabricação e o uso de três categorias de instrumentos, sendo eles, a
balhestilha ou radio astronômico, o quadrante geométrico e diversos tipos de relógios. Assim, o intuito deste trabalho é
apresentar alguns aspectos preliminares da obra Chronographia, Reportorio dos Tempos... e do instrumento balhestilha
em relação ao conhecimento da geometria prática presente entre ambos. Desta forma, o documento apresenta-se divi-
dido em seis partes, mas é na sexta parte, mais especificamente, no Tratado dos Relogios horizontais, verticais, laterais,
declinantes, e universais, ou polares, capítulo VII, que encontramos alguns conhecimentos da geométrica prática que
advém dos Elementos de Euclides, entretanto, não possuindo a mesma organização dele. Esses conhecimentos ainda são
seguidos por construções geométricas, que dão suporte para a fabricação dos outros instrumentos, como a balhestilha,
destinado nesse período para a prática de medições na astronomia e simultaneamente na navegação. Assim, não só a
obra, mas os instrumentos contidos nela proporcionam modos do “fazer” presentes em um período que tinha por intuito
fornecer técnicas para o alcance de realizações ou experiências, por meio dos conhecimentos geométricos, como en-
contrar a latitude de um local, obter a hora, construir mapas, livros, textos para disseminar conhecimentos, entre outros.

A Produção Acadêmica em História da Educação Matemática


(2010 a 2017)

Rômulo Alexandre Silva (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

O presente texto é parte resultante de uma pesquisa em andamento que tem como objeto de estudo a produção
acadêmica brasileira presente nas dissertações e teses defendidas entre 2010 e 2017 e que tinham como foco de in-
vestigação a História da Educação Matemática. Desta forma, temos como objetivo analisar de que modo tais produções
vem explorando o uso da História da Matemática enquanto ação didática para formação de professores de Matemática.
Temos como ponto de partida para este trabalho, o estudo do projeto de pesquisa Cartografias da produção em
História da Matemática no Brasil: um estudo centrado nas dissertações e teses defendidas entre 1990 e 2010, coordenado
pelo professor Dr. Iran Abreu Mendes, no período, e que teve entre seus desdobramentos a dissertação de mestrado de
Mello (2012) e Gonçalves (2014) e as teses de doutorado de Angelo (2014) e Barros (2016).
Tomamos como base para consulta, a identificação e análise das dissertações e teses do banco de dados da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e as bibliotecas digitais dos Programas de Pós-
-Graduação em Educação, Educação Matemática, Ensino de Ciências e Matemática e áreas afins. Onde identificamos,

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entre os trabalhos que se alinham com o nosso objeto de investigação, pesquisas que podem contribuir como uma
abordagem conceitual e didática para que a História da Matemática possa ser utilizada tanto na formação quanto recurso
metodológico pelos professores de Matemática interessados.
Dentro do cenário da Educação Matemática, os estudos de Mendes (2009a, 2009b, 2014 e 2015), que ao longo
de mais de duas décadas vem desenvolvendo estudos voltados para a pesquisa sobre História na Educação Matemática
visando a materialização e a organização de métodos de estudos onde a História possa atuar como uma possibilidade
de abordagem metodológica em que o aluno construa um processo de criatividade matemática na sua aprendizagem
mediada pelo professor. Estes e outros estudos tem contribuído para a construção de um referencial teórico.
Para facilitar o tratamento das informações que se apresentam em cada uma das teses e dissertações
que farão parte desta investigação e com base nos trabalhamos de Barros (2016) e Santos (2016), reorgani-
zamos um conjunto de descritores para orientar o processo de classificação e análise dos documentos que
estamos catalogando. Desta forma, adaptamos os descritores utilizados por Megid Neto (1999) para a nossa
pesquisa, utilizados para análise preliminar das produções acadêmicas que farão parte do objeto de pesquisa
desta investigação, utilizamos os descritores da seguinte forma: título e autor da obra; instituição de origem;
modalidade da pesquisa e ano de defesa; orientador; nível de ensino da pesquisa e conteúdos explorados.
Ao estabelecer parâmetros para classificação e análise dos trabalhos investigados e que vem sendo apresentados,
esperamos contribuir para a compreensão das trajetórias específicas, que estas pesquisas têm abordado.

Atribuição de significados matemáticos aos estudos da Geodésia


na Academia Militar brasileira no séc. XIX 

Ligia Arantes Sad (IFES – ES)

Tem-se como objetivo promover discussões quanto aos significados matemáticos que embasavam a matéria
Geodésia do Curso Matemático e de Ciências Militares, da Academia Militar brasileira (AM), na primeira metade do
séc. XIX. Nos meandros da história da ciência pode-se entender que os conhecimentos e observações geodésicas se
desenvolveram em conjunto com noções astronômicas, físicas, matemáticas e instrumentais. Vários interesses em
cada um desses campos da ciência confluentes, conduziram estudiosos à solução de problemas e aprofundamento dos
conhecimentos sobre a forma da Terra – tida como uma esfera, depois um elipsóide alongado ou achatado nos pólos e,
posteriormente no séc. XIX, um geóide. As subdivisões da Geodésia, como matéria científica ou disciplina em cursos
superiores de formação, principalmente engenharia, serviam, por exemplo, aos estudos de mapeamentos, demarcações de
áreas e fronteiras, conhecimento de duperfície e do campo de gravidade para determinadas construções. Nesse sentido,
o Curso Matemático e de Ciências Militares da AM (séc. XIX) tinha como propósito prover formação de pessoas que
pudessem dar suporte ao governo da colônia portuguesa em termos de defesa, engenharia, administração, infraestruturas
de minas e construções de estradas, pontes, fontes de água, etc. Em conformidade, a Carta de Lei (1810) designava a
responsabilidade de formar oficiais de artilharia, engenharia, geógrafos e topógrafos. A Geodésia era uma das matérias que
compunha a estrutura de formação. Entre suas referências foram encontradas obras de Puissant, Legendre e Delambre.
Por meio de uma metodologia de investigação bibliográfica, os documentos observados permitiram levantar diversas
noções e conhecimentos geofísicos e matemáticos. Destacam-se os seguintes campos epistemológicos da matemática
– trigonometria, geometria esférica e elementos do cálculo diferencial e integral. Foi documento importante e original, um
caderno entitulado Geodesia, que compõe uma das seis partes do manuscrito elaborado a partir das anotações de aula,
por estudantes da AM, e organizado pelo lente e ex-aluno do curso Matemático – Manoel José de Oliveira (no período
de 1814 a 1835). A partir das análises foi possível observar uma matéria Geodésia bastante matematizada, privilegiando
cálculos geométricos e trigonométricos, inspiradora dos significados atribuídos ao que se denominou geodésia clássica.
Principalmente, se considera uma superfície matemática como sendo a figura da Terra, que se recobre por triângulos
para que, ao conhecer as coordenadas de posicionamento de um vértice, se possa calcular as dos demais, por medidas
de ângulos, cálculos trigonométricos e/ou de distâncias. 

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Da aplicação da matemática à aplicação à matemática:
a trajetória de Lélio Gama nos anos 1920

Fábio Ferreira de Araújo (UFRJ)

Este trabalho analisa a produção científica de Lélio Gama (1892-1981) nos anos iniciais de sua carreira como
astrônomo e professor. A despeito das condições adversas à pesquisa em matemática nas três primeiras décadas do
século XX, discutiremos em que medida é possível compreendê-lo neste período como um matemático aplicado, uma vez
que o rigor de sua escrita em trabalhos ligados à astronomia e à geodesia apresenta resultados relevantes em análise e
geometria diferencial. Sua carreira teve início no período 1912-1918, quando graduou-se engenheiro geógrafo e civil na
Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Desde os estudos ginasiais, revelou interesse por questões mal esclarecidas em
matemática. Em 1917, ingressou no Observatório Nacional e realizou suas primeiras pesquisas a partir da observação
de fenômenos astronômicos. Em 1924, assumiu junto à International Astronomical Union o compromisso de realizar no
hemisfério sul investigações sobre o movimento dos polos geográficos. Em 1925, retornou à Escola Politécnica como
professor assistente em Mecânica Racional e Cálculo das Variações. Por determinação da Escola, produziu em 1926 a
tese Oscilações do eixo da Terra, suposta rígida para obter a livre docência em Mecânica Racional. Destaca-se neste
trabalho a preocupação de Lélio Gama justificar em detalhes a integração das equações do movimento polar, utilizando
como método as aproximações sucessivas de Picard. Em 1929, ele defendeu a tese Estudos sobre as linhas geodésicas
para a livre docência em Astronomia e Geodesia. Neste trabalho, a partir da comparação entre triângulos geodésicos
no esferoide terrestre e triângulos em superfícies planas, Lélio Gama generalizou os estudos de torção e curvatura das
linhas geodésicas de uma superfície convexa qualquer. Ambas as teses mostram o quanto a prática científica de Lélio
Gama estava diretamente associada às suas pesquisas dentro e fora do Observatório Nacional. Analisaremos a interação
de tais práticas com a matemática por ele utilizada.

Discutindo a História da Matemática na formação inicial


de professores

Cristiane Borges Angelo (UFPB)

O Programa de Licenciatura – Prolicen, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) tem como objetivo promover a
articulação dos cursos de Licenciatura com a Educação Básica, com vistas a favorecer a integração e a parceria da UFPB
com a Rede Pública de Ensino, por meio de atividades de intervenção com vistas a favorecer a formação do licenciado
e a melhoria da qualidade na Educação Básica. Este programa se constitui em uma atividade complementar que atende
às Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Matemática ao possibilitar ao licenciando uma “visão de seu papel
social de educador e capacidade de se inserir em diversas realidades com sensibilidade para interpretar as ações dos
educandos” (BRASIL, 2001, p.3)
Ao longo de três anos coordenamos um projeto que teve como objetivo integrar o Curso de Licenciatura em Mate-
mática, do Campus IV – Litoral Norte, às escolas públicas da Região do Litoral Norte. Ao longo desse período, atuaram
nesse projeto cinco alunas do Curso de Licenciatura em Matemática. Nossa proposta tinha por finalidade elaborar material
didático, em formato de Cadernos Temáticos, e ofertar oficinas em que eram explorados diversos artefatos históricos.
No primeiro ano do projeto o público alvo foram professores de escolas públicas da região supracitada que atuavam na
Educação de Jovens e Adultos. No segundo e terceiro ano o público consistiu em alunos de Ensino Fundamental e Ensino
Médio, respectivamente, de uma escola pública localizada no município de Mamanguape/PB.
Neste texto iremos apresentar os resultados de uma pesquisa que objetivou analisar uma possível tomada de
consciência por parte das cinco licenciandas participantes do projeto, no que diz respeito à contribuição da História de
Matemática ao ensino dessa disciplina. Nossa questão central de estudo foi “A experiência vivenciada na formação inicial
pode contribuir para o uso da História da Matemática na futura prática docente?”. 

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Com relação aos aspectos metodológicos, esse estudo se configura quanto à natureza em qualitativo e quanto
aos objetivos em exploratório. O instrumento utilizado foi o questionário, analisado a partir dos pressupostos da Análise
de Conteúdo (BARDIN, 2004).
Nos apoiamos nos aportes teóricos de Mendes (2006a, 2006b, 2015), Oliveira (2009), D’Ambrosio (1996) sobre
o uso da História da Matemática em sala de aula, a importância de reflexões sobre a História da Matemática no âmbito
da formação de professores e o uso de artefatos históricos nas aulas de Matemática, respectivamente. 
Os resultados apontam uma tomada de consciência quanto à importância do conhecimento da História da Mate-
mática para o professor, embora ainda prevaleça uma concepção da utilização da História da Matemática como elemento
motivador nas aulas dessa disciplina. 

Elaboração de um material potencialmente significativo:


uma abordagem histórica para o ensino de raiz quadrada 

Angela Maria Visgueira Cunha (universidade de pernambuco-campus mata norte), José Roberto da


Silva (Universidade de Pernambuco, Campus Mata Norte)

As preocupações de professores e pesquisadores para obter melhores desempenhos nas atividades docentes
e discentes oportunizou o surgimento das chamadas tendências em educação, como a interdisciplinaridade, as novas
tecnologias, dentre outras. Em educação matemática, no caso dessas tendências, Fiorentini (1995), as classificou em
empírico-ativista, formalista-moderna, tecnicista, construtivista, histórico-crítica e sócioetnocultural. Neste trabalho,
adotou-se a história da matemática enquanto tendência da educação matemática, com intuito de recorrer a alguns
enfoques históricos que evidenciem características inerentes a conceitualização e/ou definição de raiz quadrada. Neste
contexto, se fez uma revisão sobre esta temática, a princípio recorrendo a fontes como, Boyer (1974), Bardera (2000)
Mendes, Chaquiam (2016), entre outros. Em síntese, será produzido um material pedagógico do tipo texto de apoio
na intenção de viabilizar uma aprendizagem significativa sobre raiz quadrada, a partir da exploração de conhecimentos
prévios como a operação de multiplicação, noção de quadrado perfeito potenciação e, historicamente, do uso do método
babilônico para o caso do cálculo de raiz quadrada quando o quadrado não for perfeito. O aporte teórico pedagógico, será a
Aprendizagem significativa de Ausubel (2002), e a versão critica desta teoria trazida por Moreira (2006). Há o pressuposto
de que, se na elaboração do texto de apoio as atividades contextualizadas levarem em conta os conhecimentos cotidiano
dos participantes, aumentam as chances deste material ser qualificado como potencialmente significativo. A pesquisa
será desenvolvida com professores do quarto e quinto ano dos anos iniciais do ensino fundamental de escolas públicas
no município de Sigefredo Pacheco-PI. A pesquisa será qualitativa do tipo Pesquisa-ação, pois almeja-se mudanças nas
práticas dos participantes, como novas perspectivas metodologias, novos propósitos investigativos e aprofundamento
de conhecimento específico. Dessa forma, almeja-se apresentar uma alternativa que justifique a importância de uma
permanente busca pela melhora da qualificação docente, no caso deste trabalho, reconhecendo a potencialidade do uso
da história da matemática como aporte epistemológico.

Ensino e pesquisa da matemática na Faculdade Nacional de Filosofia


nas décadas de 1940 e 1950: os relatórios do Núcleo de Estudos
e Pesquisas Científicas (NEPEC)

Raphael Alcaires de Carvalho (UFRJ)

No ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial, foi criada a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade
do Brasil (FNFi-UB). Quando criado, um de seus cursos, o de Matemática, tinha duração de apenas três anos. Este curso
tinha como objetivo formar pesquisadores e professores de matemática. Durante as décadas de 1940 e 1950 muito foi
discutido sobre a necessidade do desenvolvimento científico brasileiro para que o progresso ocorresse no nosso país.

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Nestas circunstâncias, as universidades brasileiras, em particular e principalmente a UB (tida como modelo para outras
universidades), estavam no foco das discussões sobre ciência e progresso. Questões como regime integral para a pro-
fissão docente com o objetivo de incentivar a pesquisa nas universidades, concursos, cursos de doutorado, pesquisas,
dentre outros, foram temas de debates nos ambientes intelectuais e científicos da época.
O assunto fundamental que nos interessa para este trabalho é entender este momento inicial da matemática institu-
cionalizada dentro da FNFi em relação ao ensino e pesquisa da matemática superior. Como era o convívio profissional entre
estudantes e professores, e como eram realizadas as pesquisas nesta instituição são perguntas que pretendemos responder.
Para tal, analisaremos os relatórios anuais do departamento de matemática para explicar o que estava sendo in-
vestigado e produzido em matemática. Discutiremos também os relatórios do Núcleo de Estudos e Pesquisas Científicas
da FNFi (NEPEC) que foi criado em 1956, por iniciativa dos professores da FNFi, entre os quais João Christóvão Cardoso
(1903-1980), Eremildo Luiz Vianna (não encontrado), Armando Dias Tavares (1917-1988) e Constantino Menezes de
Barros (1931-1983). Mostraremos os campos principais de trabalho dos professores de matemática que integravam
este grupo e suas publicações. Investigaremos os trabalhos, as pesquisas e as publicações de livros que foram realizados
pelos professores da FNFi que não aparecem na literatura especializada. 

História para o ensino da matemática nos artigos do ENEM

Benjamim Cardoso da Silva Neto (UFPA), Jeová Pereira Martins (Universidade Federal do Pará (UFPA)

O crescimento e consolidação da área História da Matemática no Brasil culmina na implementação de espaços de


discussão como eventos, associações, grupos e linhas de pesquisa de programas de pós-graduação onde a produção
intelectual é crescente e, portanto, significativa no cenário da educação matemática nacional. Se faz necessário assim,
a realização de pesquisas para mapear tal produção e apontar tendências que sirvam de direcionamento para pesquisas
vindouras, dentre as quais destacamos a de Mendes (2011-2014), que realizou uma cartografia da referida produção,
por meio da análise de teses e dissertações defendidas nos Programas de Pós-graduação brasileiros entre 1990-2010,
e identificou três tendências da pesquisa em história da matemática: história da educação matemática, história e epis-
temologia da matemática e história para o ensino da matemática. Embasados nesse estudo, realizamos uma pesquisa
nos anais do Encontro Nacional de Educação Matemática (ENEM), ocorridos no período de 1987 a 2017, disponíveis no
portal da SBEM Brasil, a fim de identificar e analisar os trabalhos publicados na sessão de comunicações científicas, que
discutem história para o ensino da matemática e assim responder à seguinte questão: quais os aspectos epistemológicos,
conceituais e didáticos tratados nesses textos? Trata-se de um recorte temático de uma pesquisa mais ampla, coordenada
por Mendes (2018), de cunho qualitativo, cuja base teórico-epistemológica fundamenta-se nas discussões sobre o uso
da história e da investigação histórica para o ensino da matemática (MENDES, 2009, 2015), configurada em uma matriz
paradigmática proposta por Sanchez Gamboa (2012) para processar uma análise epistemológica dos textos publicados.
Os resultados apontam que a maioria dos textos elaborados não contém fundamentos epistemológicos que caracteri-
zem o tipo de conhecimento produzidos, as finalidades e os métodos tomados da história para o ensino da matemática,
embora destaquem aspectos conceituais e didáticos nas propostas apresentadas. Assim esclarecemos finalmente que
há necessidade de se reformular alguns dos modos de pensar e fazer história para o ensino da matemática como uma
proposta didática que seja incorporada à pratica do professor em suas formação e ação docente. 
Referências:
MENDES, I. A. História da Matemática no Ensino: Entre trajetórias profissionais, epistemológicas e pesquisas. São
Paulo: Editora Livraria da Física, 2015.
MENDES, I. A. História para o Ensino de Matemática na Formação de Professores e na Educação Básica: uma
Análise da Produção Brasileira (1997 – 2017). UFPA: Projeto de pesquisa. Belém, 2018.
MENDES, I. A. Investigação Histórica no Ensino da Matemática. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2009.
SÁNCHEZ GAMBOA, S. Pesquisa em educação: métodos e epistemologias. – Chapecó, SC. Editora Argos, 2012. 

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Lazare Carnot: um estudo sobre a geometria de posição 

Francisco Djnnathan da Silva Gonçalves (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), 


Iran Abreu Mendes (Universidade Federal do Pará)

O estudo dos conceitos de Geometria contempla aspectos que se relaciona com as definições de vários autores,
em diferentes épocas, que corroboram para o entendimento do percurso dado as construções geométricas a serem
ensinadas. Assim, torna essencial buscar, informações que estejam relacionadas diretamente com tais definições, com
vistas a esboçar um panorama da consolidação dessas ideias. É evidente que o olhar do pesquisador esteja direcionado,
especificamente, para as Obras de Lazare Carnot, com uma investigação que oportunize a compreensão da importância
deste para as ideias que se tem da temática em destaque.
Deve-se mencionar que a finalidade da investigação dessas Obras, consiste em delinear a importância dos es-
critos para o desenvolvimento de estudos acerca da geometria, as compreender historicamente e utilizá-las para fins
da Educação Básica. Para tanto, realçamos os artigos que emergiram no decurso da pesquisa, que estão relacionados
com as definições de Carnot. Constitui num panorama, a priori, de pesquisadores que descreveram algo em torno das
ideias preconizadas por tal autor, mas que se situa apenas como aparato para seus escritos. Não o destaca como figura
importante, mesmo quando usufrui das propriedades descritas por ele, principalmente em Géométrie de Position.
É evidente a importância histórica de Carnot, principalmente do método de resolução dos problemas geométricos,
por exemplo, em De la corrélation des figures de géométrie (1801) uma verdadeira introdução da geometria pura, voltada
as figuras correlativas. Além da exposição de uma geometria sintética e o conceito “elementar” do estudo metódico de
propriedades pertencentes a figuras compostas de linhas retas e círculos.
Ao tratarmos do estudo das construções geométricas, com foco nas transformações e problemas de generalizações, a
partir de suas resoluções consideraremos o princípio da correlação das figuras mais particulares. Isso está contemplado em seus
escritos, além de evidenciados posteriormente pelos seus sucessores, como Poncelet. A ideia de um estudo pautado nessas
Obras consiste em identificar os princípios norteadores de uma geometria que fora sustentada por tal e seus desdobramentos
de uso como subsídios pedagógico/metodológico na construção de conhecimentos geométricos para a Educação Básica.
Assim, com vista a elucidar o percurso investigativo da pesquisa, buscamos artigos que contemplassem e caracterizas-
sem as informações descritas nas Obras do referido matemático. Notadamente, temos a intenção de possibilitar um
panorama dos conceitos geométricos de Carnot que foram extraídos e difundidos desde a sua publicação até hoje. Para
tanto, pesquisamos na internet com as palavras chave, “Lazare Carnot” e “Géométrie de Position”, de modo a identificar
os artigos que mencionavam algo relativo ao nosso objeto de estudo. Assim, selecionamos apenas quatro, que estão
mais articulados com nosso estudo e corroboram com os objetivos da pesquisa doutoral, em andamento.

O báculo na obra de Petrus Ramus, Via Regia ad Geometriam:


o ‘saber-fazer’ matemático no século XVI

Ana Carolina Costa Pereira (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Fumikazu Saito (PUCSP)

A partir do século XVI, começaram a ser publicados diversos tratados de geometria prática destinados a resolver
problemas de ordem prática, especialmente voltados para o comércio, a guerra, a agrimensura, a navegação e a astronomia.
Esses tratados, que perfilavam conhecimentos geométricos, essencialmente euclidianos, não raras vezes apresentavam
um instrumento matemático. Neste trabalho, procuramos apresentar um estudo preliminar de um desses instrumentos
que fora descrito por Petrus Ramus (1515 – 1572) em seu tratado intitulado Via Regia ad Geometriam – The Way of
Geometry. Este tratado fora originalmente publicado em latim em 1569, na Basiléia, Suíça, com o título Arithmeticae libri
duo: geometriae septen et viginti. Ele foi traduzido para a língua inglesa por William Bedwell (1561 – 1632) e publicado
em 1636, em Londres. Dividido em vinte e sete livros, a obra apresenta no nono livro um instrumento, muito utilizado
não só na astronomia, mas também na agrimensura e na navegação. Esse instrumento recebeu diversas denominações
ao longo dos séculos XIII e XVI, e ficou conhecido por “radio” (radius), “báculo de Jacob” (baculus Iacob), “bastão de
Jacob” (Iacobs staffe), dentre outras. Diferentemente dos báculos tradicionais, apresentados em outros tratados, Ramus

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o apresenta em seu tratado com algumas modificações. Seu diferencial, em relação a outros instrumentos que recebem a
mesma designação são as hastes desiguais (chamadas de transversal) que move ao longo do bastão maior, denominado
de indicador. Sua construção é apresentada nas quatro primeiras sessões do livro nove e seu uso nas trezes sessões
posteriores, ilustrado com diversas figuras. Percebe-se que em muitos momentos, Ramus exemplifica sua utilização
para o cálculo de longitude entre navios, altura de montanhas e monumentos em várias posições, profundidade de
fossos e posicionamento balístico para as guerras. Um estudo preliminar da descrição, de sua construção e de seu uso
revelou-nos interessantes aspectos do fazer matemático do século XVI, e apontou para questões de ordem prática que
contribuem para uma compreensão mais contextualizada do processo de disseminação do saber geométrico euclidiano
nas origens da ciência moderna.

O jornal de Liouville e a teoria geral das superfícies de Gauss 

Leandro Silva Dias (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Joseph Liouville (1809-1882) possui um papel importante na difusão e desenvolvimento dos conceitos relativos
à geometria diferencial na França, principalmente antes do trabalho de Riemann (1826-1866). Liouville (1847) publica
no Journal de Mathématiques Pures et Appliquées, que ficou conhecido como jornal de Liouville por ser o editor deste
periódico, uma demonstração do teorema Egregium de Gauss. Este artigo provocou uma repercussão entre matemáticos
franceses, trazendo interesse na França pelo tema, além de outras demonstrações para o teorema de Gauss. Neste
trabalho, buscamos analisar a recepção da teoria de Gauss, partindo de uma análise do jornal de Liouville, a partir das
respostas a publicação de Liouville sobre o assunto. Utilizaremos a metodologia de rede de textos para ver como dia-
logam as diversas publicações acerca da teoria das superfícies de Gauss na França de meados do século XIX. Liouville
escreveu este artigo em 1847 no seu periódico, apresentando uma demonstração do teorema de Gauss, logo, partindo
deste artigo percebemos uma comunicação sobre o assunto que envolveu Victor Puiseux, Bertrand e Diguet. A partir da
rede de artigos ou publicações pode-se perceber que Liouville é um dos responsáveis pela divulgação dos trabalhos de
Gauss sobre curvas e superfícies na França. Destaca-se que o trabalho de Gauss não foi inicialmente recebido na França
que, no início do século XIX, concentrava suas pesquisas nas teorias dos sistemas de superfícies ortogonais de Lamé,
o que muda a partir de Liouville (1847), provocando o interesse da comunidade matemática francesa pela teoria de
Gauss sobre as superfícies. Nesta análise, um conceito que conduzirá nossa investigação é o de distancia. Este conceito
se altera ao longo do século XIX, com o desenvolvimento de várias áreas da geometria, como a geometria diferencial,
além das geometrias não euclidianas que são divulgadas na França por Hoüel e desenvolvidas por Darboux. No caso da
geometria diferencial a métrica desempenha um papel fundamental, destacando o desenvolvimento da teoria de Gauss
com uma geometria intrínseca que conduz ao trabalho de Riemann com a métrica Riemanniana. Por fim, pretendemos
esclarecer o papel do conceito de distancia no desenvolvimento da geometria diferencial, dando destaque ao contexto
da matemática francesa de meado do século XIX.

O Processo de Institucionalização do Instituto de Matemática


da UFRN (1964 – 1974) 

Albimar Gonçalves de Mello (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

Este trabalho é parte de uma pesquisa intitulada “O Instituto de Matemática da Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (IMUFRN): origens, trajetórias e bifurcações (1964-1974)”, cujo propósito é investigar a gênese do IMUFRN,
a partir da Resolução Nº 107/64-U, de 28 de dezembro de 1964. O estudo alicerçou-se em fontes documentais e em
depoimentos dos agentes envolvidos na criação do referido instituto. Fizemos pesquisas em acervos da Biblioteca Cen-
tral, do Departamento de Matemática e do acervo do Departamento de Pessoal da UFRN, onde encontramos diversos
documentos como livros, jornais, regimentos, estatutos, portarias, resoluções, leis e decretos leis, relatórios, fotografias,
diplomas, convites de formaturas, boletins de pessoal, anuários, etc. Para alcançarmos esses objetivos utilizamos como
principais referências de pesquisa, estudos produzidos por pesquisadores da área História das Instituições Educacionais

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– HIE, concernentes à temática investigada. Os resultados parciais dessa investigação histórica, apontam inicialmente
para dois cenários: O 1º cenário, é a participação da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
– EEUFRN, como palco das primeiras manifestações sobre as possibilidades de criação de um Instituto de Matemática
no Rio Grande do Norte, protagonizada e idealizada por docentes e engenheiros civis da EEUFRN, que exerciam grandes
influencias junto a gestão do Magnífico Reitor Dr. Onofre Lopes. O 2º cenário, é a presença da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Natal – Fafi-Natal, instituição criada em 12 de março de 1955, pela Associação dos Professores
do Rio Grande do Norte – APRN, que funcionava nas dependências da Fundação José Augusto, a partir da década de
1960, oferecendo cursos universitários com o propósito de atender à necessidade de formação docentes para preencher
os quadros do magistério para os níveis secundários e superior do estado, numa perspectiva de elevação da qualidade
do ensino potiguar. Como unidade agregada da UFRN, em 1966, a Fafi-Natal serve de berço para acolher os alunos de
graduação nos cursos de matemática nas modalidades licenciatura e bacharelado do IMUFRN.

O uso de documentos originais para o ensino de matemática:


as pesquisas sobre critérios e condições

Isabelle Coelho da Silva (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia)

Dentre as pesquisas na área da educação matemática é perceptível uma crescente discussão sobre o uso de docu-
mentos originais para o ensino. Entretanto, para que o educador matemático possa saber qual material utilizar, é necessário
a delimitação de critérios e condições a serem seguidos visando uma articulação entre história e ensino. Assim, para
iniciar uma investigação que busca estabelecer esses critérios, é preciso fazer uma procura por materiais que abordem
o assunto, ou seja, é preciso realizar um estado da questão para identificar as produções científicas, possibilitando uma
apropriação mais significativa desse objeto de estudo. Portanto, objetiva-se mostrar os resultados encontrados a partir
dessa pesquisa sobre os possíveis critérios e condições para o uso de documentos originais no ensino de matemática.
Para isso, foi realizada uma pesquisa documental de cunho bibliográfico no Portal de Periódicos da CAPES e no Catálogo de
Teses e Dissertações da CAPES, em que os resultados encontrados discutindo esse tema diretamente foram diretamente
quase nulos. Desta forma, a partir da literatura que trata do uso dos documentos originais para a sala de aula, iniciou-se
uma enumeração desses critérios. Alguns do encontrados foram: a perspectiva historiográfica adotada; o objetivo da
implementação; a necessidade de um tratamento didático; as etapas mais adequadas para o uso; os documentos que
podem ser utilizados, em que momento e de que forma. Por exemplo, a historiografia eleita pelo educador matemático
guiará todas as suas ações quanto à execução da atividade em sala de aula, que pode ser feita de modo presentista
ou mais atualizada a partir da construção do conhecimento. Dentre os trabalhos investigados, pôde-se perceber uma
tendência à perspectiva tradicional, sendo que a tentativa de se utilizar uma atualizada está em constante expansão.
Dessa forma, a partir dos estudos realizados, já é possível vislumbrar um momento de pesquisas relacionadas ao uso de
documentos originais voltados para o ensino de matemática, em que a discussão quanto a sua validade precisa ser feita
para que o educador matemático possa promover uma construção de conhecimentos na sua aula.

Os Manuscritos matemáticos de Giovanni Ângelo Brunelli


da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Iran Abreu Mendes (Universidade Federal do Pará)

Este trabalho é um recorte de uma pesquisa histórica intitulada “Arte, ciência e arquitetura na Amazônia brasileira
na Era pombalina”, cujo objeto de estudo é a participação de matemáticos, cartográfos, astrônomos e outros profissionais
nas atividades de demarcação das fronteiras territoriais entre Portugal e Espanha na América setentrional, na segunda
metade do século XVIII, com base no tratado de Madri. Neste trabalho apresento uma catalogação dos manuscritos
matemáticos de Giovanni Ângelo Brunelli, (ensaios, resolução de problemas, demonstrações de teoremas) que compõem
o acervo Brunelli da Bibliotena Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de manuscritos diversos sobre astronomia, mate-

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mática, mecânica dentre outros assuntos, que estão agrupados nas encadernações tomadas como objeto de análise
da pesquisa. Assim, descrevo e classifico os arquivos contidos no inventário documental da Coleção Brunelli da referida
biblioteca, considerando a importância de contextualizar suas relações intelectuais na época, e a veiculação das ideias
investigadas, elaboradas e disseminadas por um grupo de intelectuais ligados a Brunelli e que foram objetos de seu
acervo particular. O material documental contém textos escritos em português, italiano e latim, que foram adquiridas pelo
governo brasileiro, para a Biblioteca Nacional do Rio de janeiro em 1818, por meio de uma negociação com o arquiteto
português José da Costa e Silva, que mantinha esse material em seu poder, após a morte de Brunelli. Esse material
está composto de dois blocos de ensaios, demonstrações, anotações avulsas e esboços de elaborações matemáticas
voltadas para abordagens acadêmicas e didáticas de alguns tópicos matemáticos que despertaram interesse de Brunelli
ou que atenderam a pedidos de seus contemporâneos e parceiros de diálogo acadêmico na sua época. Os manuscritos
matemáticos identificados tratam de temas como aritmética, geometria plana, geometria espacial, geometria prática,
geometria analítica, funções, uma tradução de alguns livros dos elementos de Euclides a partir da tradução de Frederico
Comandino para o latim, equações diferenciais e matemática aplicada a outras áreas como cartografia e astronomia.
A classificação foi realizada com base nos seguintes parâmetros : 1) os temas matemáticos focalizados pelo autor e
2) as abordagens dadas aos temas matemáticos como as de cunho conceitual, didático experimental. Essa etapa da
pesquisa constitui o primeiro momento de um estudo mais detalhado que está em andamento desde 2014. Destaco
que a pesquisa avançou a partir do momento em que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro disponibilizou os arquivos
digitais dos manuscritos, possibilitando o acesso ao material. Duas dificuldades encontradas na pesquisa foi o estado
precário dos materiais corroídos por traças e a leitura dos texto escritos em latim ou italiano, que não estão bem legíveis.

Sobre a dimensão coletiva da invenção matemática:


o caso da geometria de situação entre os leitores dos
“Annales de Gergonne” (1826-1828)

Cleber Haubrichs dos Santos (IFRJ / Campus Nilópolis)

A geometria de situação foi uma área de pesquisa praticada coletivamente pelos leitores do periódico “Annales de
Gergonne” nas décadas de 1810 e 1820. Trata-se de uma geometria cujo principal problema está em entender a simetria
de determinados enunciados, que parece formar entre si pares duais. Um exemplo simples de enunciados assim é “por
dois pontos distintos no plano passa uma única reta” e “duas retas distintas no plano se intersectam num único ponto”.
Neste trabalho, pretendo dar um panorama da geometria de situação, ao apresentar e estudar globalmente uma rede
de textos sobre o assunto. Uma “rede de textos” consiste no estudo sistemático de um coletivo de textos em torno
de algum tema específico. É necessário salientar que uma rede de textos é um artefato que não pode ser dissociado
do tema que lhe serviu de “pontapé inicial”. Entretanto, uma rede de textos deve ser encarada mais como um método
heurístico em história da matemática do que como um objeto em si mesmo. Ora, uma das maneiras de tratar uma rede
de textos é encará-la como um estudo prosopográfico de um coletivo de escritos. Assim, uma vez estabelecida a rede de
textos sobre a qual trabalhar, a etapa seguinte consiste em preparar uma base de dados, catalogando sistematicamente
tantas informações quantas pareçam adequadas, extraídas de cada elemento da rede. E depois tentar reconstruir um
panorama a partir dessa base de dados. A rede de textos construída em torno da geometria de situação nos “Annales
de Gergonne” reúne 191 textos, se espalha por vinte anos e mobiliza trinta e sete autores identificados (além de alguns
anônimos). Entre os geômetras que contribuíram na geometria de situação, dois se destacaram por propor explicações
para o fenômeno da dualidade. Um deles é Joseph Diaz Gergonne (1771-1859), editor dos “Annales” (jornal cujo apelido
carrega o nome do editor). Este geômetra elaborou uma explicação baseado no princípio da dualidade, dentro de uma
perspectiva de reorganização axiomática dos fundamentos da geometria. O outro é Jean Victor Poncelet (1788-1867),
que elaborou a teoria da reciprocidade polar, dentro de uma perspectiva de renovação da geometria sintética, inspirada
nas antigas tradições euclidianas de construções geométricas com régua e compasso. Outros atores destacados nessa
rede são Michel Chasles (1793-1880), Etienne Bobillier (1798-1840) e Julius Plücker (1801-1868). A relevância desse
estudo está no fato de mostrar a criação matemática como um trabalho coletivo que envolve competições, colaborações
e compartilhamento de práticas entre os atores envolvidos.

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Sociedade Brasileira de História da Matemática (SBHMat):
uma breve história sobre sua origem

Angelica Raiz Calabria (UNESP – Rio Claro/SP), Sergio Roberto Nobre (Estatutário)

A finalidade de se constituir uma sociedade científica em História da Matemática no Brasil teve como princípio o
de fortalecer esta área como campo de investigação e divulgar as pesquisas realizadas. Desta forma, os pesquisadores
desta área decidiram criar uma instituição que pudesse desenvolver suas atividades, compartilhar seus resultados e
defender seus interesses comuns, além de poder tornar conhecida tal área no âmbito nacional/internacional.
Podemos considerar que um dos grandes responsáveis pelo início de uma comunidade científica relacionada à área
de História de Matemática no Brasil, foi o professor Ubiratan D’Ambrosio, que sempre esteve presente na comunidade
internacional de historiadores da ciência e da matemática, desde a década de 1970. Em 1981, numa reunião científica no
Instituto de Matemática de Oberwolfach, na Alemanha, este professor apresentou uma conferência, na qual mostrou aos
presentes que fazia-se necessário renovar a escrita da história da ciência e, para tanto, era indispensável a constituição
de uma comunidade científica de historiadores da ciência, em especial, da História da Matemática. 
Com relação ao Brasil, o desenvolvimento do movimento científico de pesquisas referentes a esta área, iniciou-se
na década de 1990, com o trabalho de doutorado de Clóvis Pereira da Silva e com o retorno de alguns pesquisadores
que estavam realizando doutorado no exterior. A partir destes fatos e, especificamente, em 1993, começam a surgir as
primeiras reuniões científicas brasileiras específicas da área de História de Matemática, propostas pelo professor Clóvis
Pereira da Silva, nas dependências da Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Com estes encontros e com as reuniões
dos grupos de estudos de História da Matemática, determinou-se realizar encontros de âmbito nacional relacionados
a esta nova área do conhecimento, possibilitando estabelecer uma comunidade científica específica em História da
Matemática no Brasil.
Neste sentido, surgiram os Seminários Nacionais de História da Matemática (SNHM), no ano de 1995, realizado
na Universidade Federal Rural de Pernambuco, em Recife. Para auxiliar na organização desses seminários, foi criado um
Comitê Brasileiro de História da Matemática, vinculado com a Sociedade Brasileira de História das Ciências (SBHC).
Com o tempo, percebeu-se o aumento de participantes em tais eventos e, em virtude disso, o grupo de pesquisadores
em História da Matemática resolveu que deveria ser criada uma sociedade científica específica e no dia 30 de março de
1999, no III SNHM, foi fundada a Sociedade Brasileira de História da Matemática (SBHMat). 
Neste contexto, este trabalho propõe apresentar a história da criação desta sociedade e sua importância para o
desenvolvimento do campo de investigação em História da Matemática no Brasil e, da mesma maneira, quais foram as
pessoas envolvidas no processo de criação, as atividades que desenvolve e suas principais publicações.

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ST 04. A medida dos saberes e o saber da medida:
estatística e construção dos fatos científicos

A demanda do programa estatístico 

Nelson de Castro Senra (UFRJ)

O Sistema Estatístico Nacional configurado pelo conjunto das instituições produtoras das estatísticas oficiais
somente começa a atuar após a definição do programa estatístico, no qual estarão manifestas as necessidades de men-
surações por parte de segmentos da sociedade. A questão mais importante é, então, saber como definir este programa
estatístico, e como o manter atualizado, sem estar a todo instante fazendo atualizações modistas no mesmo. Em que
fórum se o irá configurar e quais serão os participantes desse fórum são as questões centrais desse dilema. Quem terá
a autoridade legítima de convocá-lo, e terá a palavra final de decidir quais temas irão integrar o programa, pelo que se
dará visibilidade a certos aspectos da realidade, e quais temas não irão entrar (por quaisquer razões que sejam, por falta
de métodos, por falta de técnicas, ou outra razão), desta forma deixando aspectos da realidade invisíveis. Após defini-lo
será preciso acordar, tema a tema, qual instituição irã assumir a responsabilidade por sua produção, e se o fará sozinha
ou se em parceria, se valendo em registros estatísticos ou se valendo em registros administrativos (sem olvidar os hoje
valiosos big data). Por fim, o Sistema Estatístico Nacional terá que decidir se seus integrantes irão produzir em harmonia
ou se o farão isoladamente, e se em conjunto, de que forma isso se dará. Pois tudo isso tem uma longa história no Brasil,
variando em pelo menos três tempos passados, em confronto com um grave dilema no momento presente, que bem
merece ser estudado, levando ao desafio de uma completa revisão da legislação estatística brasileira. O primeiro tempo
remonta ao tempo da intensa coordenação, conforme idealizou Teixeira de Freitas, e o segundo começa ao tempo da
vocação produtiva do IBGE, a partir da mudança de seu estatuto jurídico. O tempo presente se caracteriza pela marca
dos muitos produtores que produzem sem ordenamento, gerando um sem-número de estatísticas que mais atrapalham
do que esclarem. A situação concreta é que sem uma boa definição desse programa estatístico não se estará dotando
o país de uma adequada estatística, por melhor que alguns produtores cumpram seu papel.

A Estatística na Instrução Primária Catarinense (1870- 1910)

Dilce Schüeroff (Universidade do Estado de Santa Catarina)

O objetivo nesse trabalho é dar visibilidade a formas de apresentação da estatística adotada pela instrução primária
catarinense em finais do século XIX e início do XX. São utilizadas como fontes os Relatórios dos Presidentes da Província
e dos Governadores do Estado de Santa Catarina. Essas fontes são significativas, pois fornecem elementos que contri-
buem para o entendimento do contexto social, político e educacional da época. Dentre os elementos, estão os dados
estatísticos sobre a educação, os quais não mostram apenas números, mas também classificações e categorias. As
classificações e categorias usadas para coletar os números, o modo como se fazia os sensos e estatísticas escolares, as
informações consideradas importantes e como os números eram usados, se constituem em aspectos importantes para
fazer determinada leitura da sociedade. Para compreender melhor essas questões, utiliza-se o conceito de representação
de Chartier (2002), pois se considera que a estatística não apresenta a realidade, mas fornece indícios de uma repre-
sentação dela. As análises realizadas até o momento com base nestas fontes permitem perceber que os governantes
consideravam a estatística uma ferramenta necessária para auxiliá-los na tomada de decisões. Estudos mostram que
esta tecnologia social tornou-se, para os Estados, um elemento fundamental para governar; tal importância aparece no
pensamento de Governadores como Vidal José de Oliveira Ramos Junior, responsável pela Reforma de 1910 na educa-
ção catarinense, que diz “a estatística é para os governos o que a bússola é para os navegantes” (SANTA CATARINA,
1903, p. 22), um conhecimento e um instrumento necessários que ajudam a definir e desenhar o tipo de Estado que se
pretende construir, ou seja, “os destinos das nações passam a ser definidos através dos números” (KNIBBS, 1910, p.
6 apud NÓVOA, 2008, p. 9). Outra questão apresentada pela pesquisa se refere a fragilidade dos dados da estatística

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da educação do início da República até meados dos anos de 1910. Há evidências de que a desordem em relação aos
dados estivesse relacionada ao momento de crise pelo qual passava a Diretoria Geral de Estatística (DGE) do Brasil, por
conta da turbulência política enfrentada nos primeiros anos da República, com a consequente troca de presidentes (GIL,
2007). A sistematização das informações acerca dos números sobre a instrução primária catarinense revela que estes
organizam-se em categorias simples: aluno e escola. Em relação aos alunos apresenta-se o número de matrículas, de
frequência e dos que prestavam exame final. Em relação às escolas apresentam-se os tipos existentes, contabilizando
aquelas que estavam preenchidas e às que estavam vagas. Num e noutro caso, para além da quantificação os dados
indiciam uma ideia de aluno e de escola que merece atenção.

A informação econômica no Brasil: uma análise d’O Estado de São


Paulo (1870-1920)

Samuel Fernandes Lucena Vaz-Curado (UFS)

O período entre a segunda metade do século XIX e o começo do XX foi marcado no Brasil por transformações sociais
e econômicas, com o crescimento da agricultura, da indústria e do comércio interno e externo. O desenvolvimento do
modo de produção capitalista pressupõe a sofisticação dos meios de comunicação, como forma de disseminação das
informações necessárias para a tomada de decisões. Assim, eram necessárias informações mais confiáveis e regulares
para resolver em parte o problema da assimetria de informações entre os agentes econômicos.
Neste momento, há, nos países centrais, o crescimento de instituições (públicas e privadas) de produção e dissemi-
nação de informação econômica. Também aumentam as fontes de informação sobre o Brasil no exterior e sobre o exterior
no Brasil. Concomitante a este processo está a preocupação do Estado brasileiro com a padronização, sistematização e
institucionalização das estatísticas oficiais.
A principal inovação tecnológica da época, o telégrafo, transformou o mundo das comunicações e encurtou o
tempo entre o fato ocorrido e a divulgação da informação. A partir de sua difusão, as agências internacionais de notícias
baseadas na Europa dominam o mundo, transformando o mercado de notícias num grande oligopólio.
Este trabalho retorna à segunda metade do século XIX para analisar a veiculação da informação enquanto merca-
doria no Brasil, levando em conta as amplas e profundas transformações sociais, econômicas e tecnológicas da época.
O objetivo é identificar no jornal O Estado de São Paulo o espaço dedicado a informações econômicas no final do século
XIX e começo do XX em relação com as fontes nacionais e internacionais produtoras de informação.
Para alcançar os objetivos propostos, foi feita a leitura e análise de bibliografia interdisciplinar sobre história econô-
mica brasileira, história da imprensa no Brasil, teoria econômica e da comunicação, história do telégrafo, das agências
telegráficas e das agências de notícias. Além da revisão bibliográfica, foram analisadas edições do período em questão
d’O Estado de São Paulo, disponíveis no acervo digital do periódico.
A pesquisa revelou que agências internacionais de notícias, baseadas nos países industrializados, dividiram o
mercado de comunicação, decidindo quais informações seriam transmitidas para o restante do globo. No Brasil, O Estado
de São Paulo recebia informações das agências Havas-Reuter, que se fundiram para atuar no mercado sul-americano.
Mais tarde, as informações viriam assinadas também pela inglesa Comtelburo, uma agência telegráfica de estocagem
e disseminação de estatísticas. Assim, com a regularização da comunicação proporcionada pelo telégrafo, O Estado
não apenas amplia e diversifica suas fontes e conteúdo, mas também organiza e destaca as informações econômicas.

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A notícia estatística na constituição do sujeito e como instrumento
de poder

Sidneia Reis Cardoso (IBGE)

Diariamente as pessoas recebem uma infinidade de informações que são repetidas em várias mídias de comunica-
ção. Manter-se informado sobre o que a internet, jornais, rádio e televisão divulgam tornou-se fundamental para sentir-se
inserido na sociedade. Acontecendo de desconhecer alguma notícia do dia, que é repetidamente veiculada em todas as
mídias de comunicação, o sujeito contemporâneo se sente e é olhado como se fosse de outro mundo.
Dentre as várias mídias de comunicação, a TV constitui, sem dúvida, a principal fonte de informação para a maioria
da população. Quase 100% dos domicílios brasileiros possuem TV, atingindo praticamente todo o território nacional. E na
TV, os telejornais são a principal fonte de informação dos acontecimentos diários para a maioria das pessoas.
Até a metade da década de 1990, a maior parte das pesquisas do IBGE era divulgada em formato de livros de
tabelas. Atualmente, o principal meio de disseminação é o site da internet. E foi somente a partir de 2000 que se deu
de forma mais intensa a divulgação de estatísticas na mídia (jornais, rádio e televisão).
A mídia, principalmente a TV, ao cumprir seu papel social de denunciadora dos problemas nacionais, utiliza as
informações estatísticas na legitimação, dando credibilidade ao que está sendo informado. As informações oficiais sobre
inflação, desemprego, crescimento da economia, saneamento, etc. são acompanhadas de análises de especialistas que
explicam o significado dos números e dão conselhos sobre o que o sujeito deve fazer para proteger o seu orçamento
doméstico, como se preparar para ter empregabilidade, etc. Além disso, para corroborar ainda mais a realidade da infor-
mação e a “verdade” que a TV sempre mostra, são apresentados testemunhos das pessoas sobre a notícia estatística:
a família que vive ao lado do esgoto “a céu aberto”; o desempregado que está fazendo um curso de aperfeiçoamento; a
dona de casa, na feira, trocando o quiabo que está muito caro por outro produto com melhor preço; etc.
Nesse contexto ciência e mídia estão atuando na produção de modos de viver, de corpos, de sujeitos, de regimes
de verdade. Este entrecruzamento entre discurso científico e discurso midiático produz um afastamento do território da
linguagem técnica árida dos números, reposicionando-a em um território de sons e imagens, em uma linguagem mais
abrangente e atraente, “ajudando” o sujeito a conduzir-se a si mesmo.
A hipótese admitida no artigo, trabalhando com o referencial teórico de Michel Foucault (com seus conceitos de
discurso, sujeito, técnicas de si) e de Pierre Bourdieu (com suas reflexões sobre a indústria da informação), é que a
intensa divulgação dos resultados das pesquisas do IBGE na grande mídia não constitui, de forma alguma, um processo
“natural” de disseminação de informações estatísticas e, sim, uma construção histórica: local e socialmente datada, em
função do papel que a mídia e os “grandes números” têm hoje na vida das pessoas.

A produção de dados sobre as populações indígenas no Brasil 

Alessandra Traldi Simoni (Unicamp), Bruno Nogueira Guimarães (Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio


Arouca – Fiocruz), Ricardo Ventura Santos (Fiocruz)

A partir de 1910, com a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), o Estado brasileiro passou a concentrar
a atenção à população indígena, estabelecendo pela primeira vez uma política nacional para a mesma. Apesar disto, a
categoria indígena foi incluída nos recenseamentos demográficos apenas em 1991. Até então, os dados estatísticos
da população indígena eram coletados de maneira descentralizada nos Postos Indígenas, não havendo uma política
estabelecida e sistemática de acompanhamento estatístico-demográfico destas populações, mas apenas de contagem
das mesmas. Uma das principais razões para esta escolha estava no fato de que o objetivo da política estatal era de que
os povos indígenas fossem totalmente incorporados à Nação brasileira, desaparecendo enquanto grupos específicos.
Este cenário se inverte a partir da promulgação da Constituição Federal (CF) de 1988, em que foram reconhecidos os
direitos indígenas à diferença, estabelecendo-os como categoria permanente na composição do Estado nacional. Neste

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sentido, também houve uma alteração na definição dos direitos territoriais indígenas, sendo posteriormente fixadas novas
normas de identificação e demarcação das Terras Indígenas (TIs). Desta forma, a partir da CF as categorias estatais de
composição da população brasileira e de seu território foram alteradas. Assim, já em 1991, no primeiro recenseamento
pós-CF, a opção de declaração indígena foi incluída na questão raça ou cor da pele do questionário da amostra. O mesmo
ocorreu na pesquisa de 2000. Em 2010 o IBGE aprimorou a captação de dados sobre os indígenas, passando a questão
raça-cor da pele para o questionário básico, respondido por toda a população brasileira, e introduzindo questões espe-
cíficas para os residentes nas TIs, incorporando também os limites territoriais destas. 
A mudança da relação do Estado brasileiro com os povos indígenas, seguida pela alteração na captação de dados
estatísticos sobre eles, foram consequência direta da ação de organizações não governamentais de apoio aos povos
indígenas e do movimento indígena nas décadas de 1970 e 1980. Neste período, levantamentos autônomos por parte
destes atores apontaram que a população indígena não estava em processo de declínio, mas sim de crescimento. A
identificação desta dinâmica populacional foi um dos aspectos centrais para que estes movimentos elaborassem a defesa
dos direitos indígenas no processo constituinte de 1988. 
O objetivo deste trabalho, portanto, é investigar a realização destes levantamentos populacionais e seu impacto
na percepção quanto aos direitos indígenas. Também analisaremos a construção dos dados oficiais pós-CF, através da
inclusão destes povos na estatística oficial brasileira. Em ambos os casos destacaremos os objetivos, as metodologias
e usos dos dados, e a relação entre os levantamentos autônomos e oficiais. 

Atuária: estatística, contabilidade e política nos anos 1930 

Adelino Martins (Universidade de São Paulo)

Em abril de 1932, o atuário francês Maurice Gauthier apresentou uma tese intitulada “Contabilidade das Empresas
de Seguros de Vida e de Capitalização” ao programa do Segundo Congresso Brasileiro de Contabilidade. Apresentado
como estatístico e atuário, Gauthier foi membro do Instituto dos Atuários Franceses e da Sociedade Estatística de Paris.
Filiado a esta desde 1928, poucos anos depois, ele estará no Brasil, a serviço da Companhia de Seguros Sul-América.
Em 1933, um ano após discorrer acerca das especificidades das demonstrações contábeis das empresas segu-
radoras, Gauthier assinou, em conjunto com ilustres contabilistas da época, entre eles João Ferreira de Moraes Júnior,
presidente do Segundo Congresso Brasileiro de Contabilidade, o balanço da Companhia Sul-América. Nesse mesmo
período, 1932-1933, por designação do Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio Exterior, ele compôs o comitê destinado
a estudar e dar parecer sobre a criação da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos, futuro IAPM, o primeiro
Instituto de uma nova fase da Previdência Social no Brasil.
As pistas sobre Gauthier introduzem o objeto do trabalho que se pretende apresentar, qual seja, a utilização da
estatística nos domínios contábeis e atuariais no Brasil nos anos 1930. Contabilidade e atuaria em conjunto porque o
campo de saber atuarial foi tratado como ramificação do contábil até os anos 1950. Tanto assim que a carreira de atuário
foi criada no Ministério do Trabalho somente em 1941 e o bacharelado em ciências atuariais, apenas em 1951.
Nos anos 1930, no entanto, ambos os campos eram tratados conjuntamente. O Decreto 20.158, de 1931, por exemplo,
normatizou o ensino de guarda-livros, peritos-contadores e atuários debaixo do mesmo título e dispôs sobre as regalias
dos profissionais destas áreas quando regulamentou a profissão de contador. Os programas dos cursos de perito-contador
e de atuário, contemplados na norma, refletiam, no entanto, as diferentes ênfases estatísticas de cada um. Enquanto
o primeiro não passava das generalidades, o segundo estendia-se sobre o cálculo de probabilidades e rendas vitalícias.
Este trabalho discutirá como, por um lado, os profissionais envolvidos com a atuária distinguiam sua atividade da
contabilidade, sobretudo, em termos da aplicação de cálculos probabilísticos de longo prazo e, por outro, como adotavam
uma estratégia semelhante à dos contabilistas em suas relações com o poder público, que consistia em oferecer présti-
mos técnicos aos projetos governamentais em troca das boas graças oficiais na organização de uma classe profissional.
Se os contabilistas implicaram-se em projetos de racionalização orçamentário-financeira, os atuários foram chamados
a operar em importante vertente da política corporativista varguista, a Previdência Social e seus institutos de pensões
e aposentadorias. Em troca, avançaram suas demandas de reconhecimento profissional.

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Estatísticas contra estatísticas, alopatia e homeopatia:
limites e possibilidades da comprovação quantitativa no
segundo reinado brasileiro

Julio Cesar Paixão Santos (Colégio Pedro II)

Essa comunicação visa discutir os limites e as possibilidades da comprovação de eficácia terapêutica por meio
de argumentos quantitativos, num cenário onde o argumento estatístico é utilizado pelos dois lados em disputa. Como,
através do argumento matemático, definir a terapêutica mais eficaz, ou a melhor versão dos fatos em análise, quando
ambos se utilizam de estatísticas? Este foi um problema enfrentado por médicos durante o segundo reinado brasileiro,
num ambiente de disputa entre alopatia e homeopatia.
De um lado, os médicos alopatas apresentavam dados estatísticos que comprovavam a eficácia de sua terapêutica.
De outro lado, médicos homeopatas divulgavam dados estatísticos que comprovavam a eficácia de suas formulações
médicas. Alopatas questionavam os dados de homeopatas. Homeopatas questionavam dados de alopatas. Ambos os
lados afirmavam as estatísticas médicas e as matematizações como formas de comprovar a eficácia cientificamente.
Contudo, para o dr. Noronha Feital, as estatísticas enquanto aritmética aplicada à medicina e à terapêutica era
prejudicial à própria prática médica, além de ser falha. Para Feital, o que convinha à terapêutica não era saber quantos
doentes um remédio curou, mas sim “porque curou, como curou, e em que circunstâncias curou”. Desse ponto partiriam
os raciocínios, viriam as deduções e comparações e se verificaria a conveniência de um tratamento.
Os debates entre a Alopatia e a Homeopatia nas décadas de 1840 e 1850 demonstram como dados quantificados
e/ou estatísticas poderiam servir a dois lados de uma disputa por eficácia terapêutica e científica. Tanto em periódicos
como a Minerva Brasiliense e os Annaes de Medicina Brasiliense – que defendiam a Alopatia – quanto em periódicos
de defesa da homeopatia, como o Sciencia, era possível encontrar estatísticas que confirmavam a eficácia de seu fazer
médico científico.
Além disso, em ambos os lados, se encontravam acusações de que o outro lado da contenda falsificava dados
para confirmar suas hipóteses e questionar as teses dos oponentes. Neste debate, a questão política influía diretamente,
principalmente a partir da proximidade que a Academia Imperial de Medicina tinha do poder imperial. Não obstante,
políticos importantes, como Bernardo Pereira de Vasconcellos, defendiam posições que, embora não declaradamente a
favor da homeopatia, permitiam sua prática, no intuito de “acabar com a medicina oficial governativa”.
No início da década de 1850, um novo processo social traria para a discussão novas tonalidades: a epidemia de
febre amarela de 1850. Nesta, os médicos da Beneficência Portuguesa atuaram em sua enfermaria se utilizando de
ambas as terapêuticas. Mesmo médicos renomados da Academia Imperial de Medicina, como Azambuja, afirmavam
que não tratavam dos seus doentes apenas com um método curativo, utilizando tanto a alopatia quanto a homeopatia.
O debate sobre a eficácia terapêutica da alopatia e da homeopatia ganhava novos contornos em tempos de epidemia.

Estatísticas da saúde na educação pública: Educação Sanitária


e Higiene Escolar nas reformas do ensino nos anos 1920-30

André Luiz Paulilo (Unicamp)

A presença de estatísticas de saúde entre as quantificações produzidas no interior dos serviços escolares foi espe-
cialmente notável entre as décadas de 1920 e 1930. Em meio às campanhas sanitárias e de regeneração dos costumes
que se sucederam no Brasil desde o início do século XX, os serviços de inspeção médico-escolares foram estruturados
visando proteger a saúde da criança desde a escola e através da educação. Diante da importante produção historiográfica
acerca da educação sanitária e das intervenções médico-sanitárias, esta apresentação se pergunta sobre o significado
que as quantificações desses serviços tiveram para as políticas educacionais. Estuda os quadros estatísticos publicados
por Anísio Teixeira em 1935 sobre a abrangência da inspeção médico-escolar no Distrito Federal. O objetivo deste estudo

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é abordar a discussão que os anos 1920-1930 conheceram entre aqueles que defendiam que a inspeção médica devia
apenas ter caráter profilático e aqueles que reivindicavam uma ação terapêutica dos serviços médico-escolares. Espe-
cialmente, nos anos 1930, as estatísticas de saúde na educação privilegiaram as ações de profilaxia e não de tratamento
das enfermidades, ao contrário da década anterior. A partir do acumulado de estudos em história da educação voltados
para as relações entre a escola e os serviços de saúde procurou-se tratar das estatísticas de saúde na área da educação
de uma perspectiva política. Assim, utilizando, entre outros, os trabalhos de Marta Carvalho, Cynthia Greive, Faria Filho,
Natália Gil e Sandra Caldeira Machado, o estudo das quantificações dos serviços de saúde escolares é apresentado como
parte da discussão das reformas do ensino público da primeira metade do século passado. Como resultado desse estudo
sobre uma parte específica das estatísticas escolares, percebeu-se a heterogeneidade da realização dos serviços de
saúde escolar na capital do país e no papel que tiveram não só na formulação de políticas públicas de educação como
no embasamento das propostas políticas populistas de então.

Estatísticas educacionais e avaliação da educação:


o Ideb nos anos iniciais do ensino fundamental

Marcelo Rodrigues Conceicao (Unifal-MG)

As estatísticas educacionais, aqui entendidas, como conjunto de informações passíveis de quantificação, colocadas
à disposição pelo sistema de ensino tem sido utilizadas como prova irrefutável da situação da educação e da construção
de mecanismos de classificação entre as escolas, os munícipios e os estados. Discutir a forma como são elaboradas as
avaliações e dispostos os resultados em índices e indicadores, bem como seus impactos nas diferentes organizações
escolares, se faz tarefa importante.
Um dos principais índices de avaliação da educação básica é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
(Ideb), elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 2007. O Ideb é
calculado pelo produto entre o indicador de rendimento (P), que é a média da taxa de aprovação das séries do respectivo
nível de ensino, e a nota padronizada (N), que é calculada pelas médias de desempenho nas avaliações de português
e matemática. 
Neste trabalho se analisa o Ideb das escolas públicas estaduais e municipais que oferecem os anos iniciais (1º
ao 5º) do ensino fundamental da cidade de Alfenas, localizada no sul do estado de Minas Gerais. O objetivo é discutir
diferenças e semelhanças entre as escolas, entre os anos de 2009 e 2015.
A metodologia se baseou na classificação das escolas em relação ao nível administrativo (cinco estaduais e três
municipais) e à distância do centro da cidade (cinco escolas centrais, duas não-centrais e uma rural); no levantamento
e na organização dos Idebs de cada uma delas; e na elaboração de gráficos e tabelas para subsidiar as análises. 
O conceito de habitus, entendido como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações so-
ciais, que são produzidos (incorporados e exteriorizados) nos processos de socialização familiar e escolar, serviu como
norteador, pois os hábitos adquiridos pelos estudantes na vida familiar podem afetar o rendimento escolar. Além disso,
sugere haver entre os estudantes de escolas mais distantes do centro da cidade práticas menos condizentes com as
exigidas pelo sistema escolar.
Os Idebs de cada escola para os anos de 2009, 2011, 2013 e 2015, foram respectivamente: BEC (5,9; 5,9; 6,8 e
6,2); GEC (6,6; 6,5; 7,1; 7,3); HEC (6,0; 6,2; 6,5; 6,7); JEC (5,8; 6,5; 6,2; 6,2); KEC (5,6; 5,3; 5,9; 6,2); LMNC (4,7; 5,3;
5,5; 6,0); OMR (4,7; 6,0; 5,7; 6,5) e QMNC (5,6; 6,2; 7,0; 7,0).
As análises preliminares não revelam diferenças expressivas entre os resultados por nível administrativo. No que se
refere à localização, os piores resultados em todos os anos são de uma escola municipal não central, a LMNC, o que pode
sugerir uma influência do habitus no desempenho desses estudantes nas avaliações. Entretanto, apesar de ser importante
avaliar a educação por meio das estatísticas educacionais não se pode esquecer o impacto que aspectos qualitativos
acerca da organização da escola (infraestrutura, corpo administrativo e docente e a gestão) têm nesses resultados.

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Estatísticas, companhias de seguros e a formação de instituições

Beatriz Duarte Lanna (Universidade de São Paulo (USP))

O presente texto busca apresentar a importância da estatística, dos cálculos probabilísticos e da sistematização de
informações para o funcionamento das companhias de seguros. Apresentaremos alguns exemplos empíricos referentes
ao final do século XIX e início do XX, quando as seguradoras ganham razoável inserção na economia brasileira. Pode-se
considerar a estatística uma ferramenta fundamental para o funcionamento dessas firmas, que baseiam grande parte
de sua atuação nas informações obtidas a respeito de acidentes, probabilidades de sinistros, hábitos de consumo e
condições materiais de existência. As características gerais dos contratos de seguros sempre se fizeram a partir de
um grande volume de informações coordenadas, que incluem desde avaliações contínuas de riscos, sua mensuração
e administração, bem como cálculos dos prêmios e das reservas necessárias para a liquidez e solvência das firmas.
O uso do conhecimento estatístico por parte das companhias de seguros está estreitamente relacionado ao papel
que estas últimas desempenham como instituições, determinantes para o funcionamento da economia capitalista por
permitirem a redução dos custos de transação e o aumento dos maiores ganhos de produtividade. Ao lado de outros
arranjos instrucionais, como a formação de economias de escala via a atuação de grandes empresas e o incentivo à
inovação e à formação de patentes, a construção de companhias de seguros é tida pela bibliografia clássica como um
exemplo de instituição capaz de reduzir as imperfeições do mercado. 
Nesse sentido, a existência de um sistema de quantificação e de dispositivos estatísticos capaz de alimentar
os bancos de dados das companhias de seguros também se constitui como uma instituição, novamente no sentido
proposto por Douglass North, a saber, um sistema capaz de compor as “regras do jogo de uma sociedade”. A atuação
desse corpo de dados estatísticos ajudaria a reduzir o grau de incerteza das interações econômicas e estimularia um
adequado ambiente às trocas. 
Procuraremos apresentar o uso da estatística e da quantificação para o caso específico de companhias de seguros,
mostrando o quanto a consolidação dessas últimas como instituições fundamentais ao funcionamento do capitalismo
perpassou pela contínua sistematização dos mais diversos dados.

História das Estatísticas Públicas em Minas Gerais:


projeto de pesquisa e edição de obra de referência

Maria do Carmo Andrade Gomes (Fundação João Pinheiro)

A comunicação destina-se a apresentar o projeto de pesquisa em fase de finalização e discutir seus principais
resultados e pontos críticos. Trata-se de projeto iniciado em 2016 na Fundação João Pinheiro, visando a publicação de
uma obra de referência dentro dos padrões editoriais da Coleção Mineiriana. Compreendendo o período delimitado entre
os anos de 1890/2002, a pesquisa buscou traçar a trajetória das politicas públicas de estatística em Minas Gerais, seus
órgãos oficiais, principais atores e marcos legais. Houve forte investimento no mapeamento sistemático dos acervos e
das fontes documentais oriundos das atividades governamentais relativas às políticas estatísticas e no levantamento da
produção técnica e discursiva desses mesmos órgãos e atores. Foi realizado um programa de história oral, com a produ-
ção de entrevistas temáticas com antigos dirigentes e técnicos, selecionados por seu protagonismo seja nas decisões
político-administrativas seja na produção do saber e das informações estatísticas no estado mineiro. As bases teóricas
e metodológicas foram construídas aliando a experiência dos pesquisadores da instituição em análises de políticas
públicas e história institucional e política com as inovações oriundas das produções no campo da história da ciência e
particularmente da sócio-história da estatística. Além da narrativa histórica, a obra de referência compõe-se de uma
catálogo de fontes, contendo: a produção técnica publicada pelos órgãos oficiais de estatística, que somou cerca de
quatrocentos títulos como relatórios de pesquisa, diagnósticos e planos, mapas e diagramas estatísticos, anuários e outros
periódicos oficiais; a descrição arquivística da documentação preservada no Arquivo Público Mineiro; outros dispositivos
de pesquisa como ementário da legislação referente às politicas estatísticas, linha do tempo e índices. Pretende-se por

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fim discutir pontos suscitados pela pesquisa como a capilaridade da atividade estatística no aparato governamental e
o debate histórico entre os regimes centralizadores e descentralizadores das politicas estatísticas; a fragmentação, a
desorganização, o risco e perda da documentação relativa à atividade e o comprometimento da pesquisa. 

Imagens e diagnósticos para o projeto de nação:


Minas Gerais como laboratório para o Brasil

Sandra Maria Caldeira Machado (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

A década de 1920 foi marcante em Minas Gerais especialmente no que diz respeito ao ordenamento ocorrido pela
sua produção estatística como obra educativa. O país vivia sob a expectativa da produção de um recenseamento nacional
após duas tentativas seguidas e frustradas (1890 e 1900). Foi pela atuação do intelectual Mário Augusto Teixeira de
Freitas que esse Estado se destacou como espaço privilegiado de produção de uma racionalidade que, consequente-
mente, delineou a organização das estatísticas de ensino (1931) bem como a estrutura do sistema estatístico nacional
criado em 1934, com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ações que, em seu conjunto, compuseram a
articulação da identidade nacional. Defendemos a tese de que Minas foi uma espécie de laboratório, nos anos de 1920,
para as realizações baseadas no princípio de cooperação tomadas posteriormente a nível nacional, na década de 1930.
Diversas publicações demonstram a fertilidade de tal assertiva ao trazerem à baila mapas cartográficos, revistas (Vida
Escolar, 1926 e Revista do Ensino, 1927) e obras oficiais como Minas Gerais em 1925 (SILVEIRA, 1926) e o relatório
do recenseamento de 1920 (FREITAS, 1939), dentre outras, em que dados gerais, populacionais e também relativos à
educação compuseram um lugar para Minas Gerais na cena nacional culminando com a refundação de sua identidade. 
O objetivo desse trabalho é, então, demonstrar as ações que fizeram desse Estado um espaço privilegiado para
um esquadrinhamento e de produção de facetas de diferentes espectros do governo, arquitetadas por um ambicioso
programa de (re) ordenamento numérico. O argumento foi observado especialmente nas discussões sobre a estatística
geral, nos diagnósticos sobre a instrução do estado, no processo de redefinição da cartografia, em algumas publicações
que integraram o programa do centenário da independência em 1922 e do centenário da instrução pública em 1927.
Este texto busca então elucidar alguns aspectos que compuseram tais publicações como modos de constituição
e visibilidade do estado montanhês perante a cena nacional a partir de imagens e diagnósticos que marcaram esforços,
ações e discursos adequando-se a um repertório imagético estatístico dotando (e, às vezes, limitando) campos como o
da educação por um raciocínio contábil. Representações (CHARTIER, 1990) que articulam sujeitos escolares, instituições
e papéis sociais em gráficos, mapas, imagens e tabelas que compõem um mosaico em que são utilizadas representações
coladas a um imaginário social (BAZCKO, 1985) reconhecido socialmente que deram legitimidade a educação como
campo fértil de construção da desejada nacionalidade (CARVALHO, 1998).

Informação econômica na formação do capitalismo brasileiro:


um tema para pesquisa

Claudia Alessandra Tessari (Universidade Federal de São Paulo – Unifesp)

Esta pesquisa tem como tema a informação econômica num momento crucial de expansão capitalista mundial e no
Brasil (1890-1920). O objetivo é apresentar as possibilidades de um tema de pesquisa ainda não explorado: a constituição
da informação como ferramenta para a tomada de decisões econômicas em um momento em que se tem a emergên-
cia – ou a exigência – de um novo agente econômico que deve lidar com as incertezas e tomar decisões baseando-se
em expectativas de mercado. A proposta de estudar o tema da informação no Brasil no interior de um processo mais
amplo de transformação da economia brasileira e de suas instituições é inovadora. No campo da História este assunto
de pesquisa é praticamente inexistente. No campo da Comunicação, o estudo do jornalismo econômico em articulação
com a produção da informação também é ausente. Por outro lado, quando se observa a área de Ciências Econômicas, o

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tema da informação assumiu relevância somente a partir dos anos de 1990, com os estudos que fundaram a Economia
da Informação como subárea das Ciências Econômicas, os quais tinham como enfoque os anos 1970 em diante, quando o
setor de informação passou a tomar corpo como um setor econômico. No exterior este tema também é pouco debatido.
Neste período, vivia-se no Brasil intensas transformações: o crescimento da agricultura, da indústria e do comércio; a
transição do trabalho escravo para o livre; a alteração do regime monárquico para o republicano; a expansão das cidades
e da infraestrutura de transporte e de serviços urbanos; e, alterações institucionais e legais, como a promulgação do
Código Comercial. No cenário internacional, vivia-se expansão das exportações de capitais por parte dos países prota-
gonistas da corrida imperialista, sendo os países de América Latina importantes destinos para estes capitais. O aumento
das possibilidades de investimento e a diversificação de agentes exigiam o desenvolvimento de instituições compatíveis
com este novo ambiente. A informação para a tomada de decisões econômicas passa a ser de fundamental importância
exigindo sistematização, padronização, confiabilidade, regularidade e publicização de notícias e dados socioeconômicos,
financeiros, territoriais e populacionais. Proliferam no Brasil os jornais impressos, os almanaques comerciais, agrícolas e
industriais e as revistas especializadas. Também aumentam as fontes de informação sobre o país no exterior bem como
as fontes de informações sobre o exterior no Brasil com o advento das agências telegráficas internacionais. Concomitante
a este processo está a preocupação do Estado com a padronização, sistematização e institucionalização das estatísticas
oficiais, com a criação, por exemplo, da Diretoria Geral de Estatística. Há, também, o desenvolvimento de uma série de
instituições legais e educacionais voltadas à consolidação das técnicas de medição contábil. Desta forma, pretende-se
apresentar sistematização preliminar de pesquisa que mostra as possibilidades deste tema.

Quantificação e higienismo na Primeira República:


possibilidades e limites

Alexandre de Paiva Rio Camargo (Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade


Candido Mendes (PPGSP-UCAM))

O presente trabalho pretende analisar o lugar das práticas de quantificação nos debates do meio médico-higienista,
entre a revolução pasteuriana dos anos 1890 e a generalização da perspectiva sanitarista para o conjunto da sociedade
brasileira, com a chamada “questão nacional”, formulada entre os anos 1910 e 1920. Entendemos que é possível iden-
tificar três marcos distintos ao longo do período em apreço, que nos propomos a examinar. 
Nos anos 1890, a organização dos serviços de demografia sanitária, subordinada desde o início às necessidades
do laboratório bacteriológico, concorreria para estabilizar o entendimento dos médicos em torno do pressuposto pasteu-
riano de combate à causa única das doenças. O modelo institucional que associava demografia, parasitologia e profilaxia
das moléstias transmissíveis, estabelecido com a criação do Instituto Sanitário Federal (1893), mostrou-se essencial
na imposição do monopólio médico do atestado de óbito, sem os quais, diziam os produtores de dados, não se poderia
garantir a qualidade das estatísticas sanitárias, fonte principal de confirmação do diagnóstico pasteuriano. 
Outro marco encontra-se nas reformas de saúde pública lideradas por Oswaldo Cruz, entre 1902 e 1906. A erra-
dicação da febre amarela e da varíola seria monumentalizada em números nos trabalhos da Diretoria Geral de Saúde
Pública, criando um padrão de disposição e interpretação dos dados em relatórios ministeriais e anuários estatísticos do
Distrito Federal, aqui analisados. A experiência seria levada a outras partes do país e sustentaria a expansão do programa
sanitário, de modo a abranger outras doenças na qualidade de males “nacionais”, como a tuberculose.
Finalmente, nos anos 1910 e 1920, veremos como as estatísticas oficiais, assim como outras práticas de quanti-
ficação, contribuíram para generalizar a perspectiva sanitarista da sociedade, manifesta na ideia de “Brasil-doente”. É o
caso dos postos de profilaxia rural, das unidades de assistência à infância e da inspeção médica escolar, os três espaços
principais de higiene na zona rural e no subúrbio das capitais, criados no bojo do movimento sanitarista. Nas páginas do
Brazil-Médico, o dimensionamento constante do volume de atendimentos e da distribuição geográfica destes aparelhos
sanitários se tornaria um meio de provar sua eficiência e, mais ainda, de garantir a liderança dos médicos na definição
das políticas de saúde. Tentaremos mostrar em que medida, ao longo da Primeira República, as práticas de quantificação,
em especial as estatísticas sanitárias, se constituíram em tecnologia de tradução de interesses e de formulação dos
problemas públicos. 

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Um Estado de visão: instrumentos de simplificação e legibilidade no
Brasil imperial

Diego Nones Bissigo (Universidade Federal de Santa Catarina)

Em 1872 o Brasil realizou seu primeiro censo populacional; em 1874, testemunhou revoltas contra a implantação
do sistema métrico decimal; em 1876, participando da Exposição Internacional de Philadelphia, apresentou uma versão
reduzida da Carta Geral do Império e; por fim, ainda na mesma década, intentou, mais uma vez, a implantação do registro
civil de nascimentos, casamentos e óbitos. Os anos 1870 representam uma das épocas de convergência de aplicação de
instrumentos de “simplificação e legibilidade”, termo com que James C. Scott se refere à conhecida gama de políticas
e tecnologias de modernização do Estado: censos demográficos, padronizações de pesos e medidas, sedentarizações,
registros civis, cadastros de terras, entre outras medidas que rompem com organizações locais e tradicionais em prol
de um quadro sinóptico e legível aos olhos do poder. Ao tomar alguns desses instrumentos como objeto de pesquisa,
busco analisar sua concepção e aplicação no Brasil do século XIX, especialmente na Regência e no Segundo Reinado. O
objetivo é compreender como se deram as iniciativas de “leitura” por parte do governo imperial, mas também por parte
das províncias e de particulares a serviço do Estado: quais foram essas iniciativas? Em que se baseavam e quais eram
suas justificativas? Quais os resultados obtidos e como foram qualificados à época? Por meio dessa pesquisa, ainda em
fase de desenvolvimento, pretendo compreender quais foram os esforços envolvidos na produção de dados para o Estado,
em que momentos eles se concentram na Corte e em que momentos são mais prolíficos nas províncias. Em todos esses
casos interessa averiguar os métodos propostos, a alocação de pessoal e recursos, as formas propostas para classificar
a população, representar o território, cadastrar terras, entre outras ações, todas elas conectadas com a própria ideia de
nação em construção. Tomando em conta a impossibilidade de esgotar a análise de todas as tentativas, mas também
não cedendo a interpretações simplistas sobre o “atraso” brasileiro em relação aos países ditos civilizados, selecionei
algumas dessas tecnologias, separando-as entre as que poderiam partir tanto de províncias como da Corte – censos e
mapas, especialmente – e aquelas que provinham de políticas centrais – o registro paroquial de terras, a implantação do
sistema métrico, entre outros. De um lado, encontramos iniciativas plurais, marcadas por realidades locais específicas,
ainda que inspiradas por valores internacionais; de outro lado, nos deparamos com um Estado que busca continuamente
sua legitimação sobre um vasto território e uma população heterogênea. A proposta desta comunicação é debater resul-
tados preliminares deste estudo, aberto aos debates, críticas e ponderações que o capacitem a dar boas contribuições
para uma história social do Estado brasileiro por meio dos seus instrumentos de simplificação e legibilidade.

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ST 05. Astronomia e transdisciplinaridade:
um panorama atual da Arqueoastronomia no Brasil

Do Céu à Terra: Diferentes Olhares Sobre os Astros

Luiz Carlos Borges (Museu de Astronomia e Ciências Afins), Marcelo Augusto do Amaral Ferreira (UFRJ –


Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Quando não existiam relógios e calendários para marcar a passagem do tempo como os atualmente usados, os
povos utilizavam-se das relações céu-terra por meio da observação do céu, assim também como do movimento dos astros
e de outros fenômenos meteorológicos sazonais (relação entre períodos de chuva e seca etc.), de mudança no regime
das águas, do crescimento/morte de plantas e animais, como referência da passagem do tempo e das estações. Esse
marcador ecológico-temporal era fundamental para regular diversas atividades de seus cotidianos. Para esses povos, os
fenômenos naturais estavam igualmente relacionados a seres mitológicos (divindades), sendo que alguns deles eram
representados por corpos celestes.
A maioria das constelações adotadas pela Astronomia dita “ocidental” foi idealizada por civilizações que floresceram
no período da Antiguidade. Atualmente, a Astronomia ocidental, por se encontrar mais voltada para pesquisas que visam
entender a composição e estrutura do Universo. 
Em relação às demais astronomias, o que deve ser enfatizado é que também se trata de uma maneira de, a partir
de diferentes referenciais culturais, ver, descrever e entender sistematicamente o cosmos. Razão pela qual, ainda hoje,
povos das diversas partes do mundo desenvolveram e se utilizam de uma grande variedade de sistemas astronômicos.
Apesar dessa variedade, há alguns traços que são comuns a esses sistemas.
Com a finalidade de entender a diversidade com a qual os povos observam os fenômenos celestes e os integra
nas suas atividades, desenvolveu-se dentro do campo da Astronomia uma área denominada Astronomia Cultural. Ela
dedica-se a verificar e interpretar os modos pelos quais as observações astronômicas se apresentam nas culturas. Em
resumo, trata de sistematizar as diversas formas pelas quais os fenômenos celestes se integram a sistemas culturais
específicos e como aqueles se relacionam ao cotidiano.
Para melhor entender e visualizar os sistemas celestes desenvolvidos pelos que observam o céu, foram ela-
boradas cartas celestes, que são mapas do céu utilizados para identificar constelações em determinadas épocas
do ano, bem como as estrelas que as compõe. Em Astronomia Cultural, ao termo constelação prefere-se, por ser
considerado mais adequado, é o termo asterismo, pois a figura representada no céu, não necessariamente da
ligação de pontos luminosos, não se limitando, portanto, às estrelas. A maioria das cartas celestes faz referên-
cia às constelações da Astronomia ocidental. Ainda são poucas as que mostram o céu visto por outras culturas.
Este trabalho pretende relacionar a Astronomia Cultural com a Divulgação Científica, utilizando como ferramenta as
cartas celestes, tanto com constelações ocidentais e com asterismos, assim desenvolvendo atividades que permitam
mostrar ao público a variação das formas de interpretar não apenas do movimento dos corpos celestes de acordo com
o referencial cultural de cada povo, bem como a região do país em que eles vivem.

Furo Solsticial: indícios de observações astronômicas pré-históricas


em Sete Cidades, Piauí

Ruan Nery Gonçalves (Universidade Federal do Piauí – UFPI)


Ana Luisa Meneses Lage do Nascimento (Universidade Federal do Piauí – UFPI) 

Uma das primeiras percepções humanas foi o tempo: a passagem do dia, a chegada da noite e novamente um
novo ciclo. Tempo, que era principalmente marcado pelo movimento do sol no horizonte durante o dia e o dançar da lua

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entre as estrelas durante a noite. Esse fator de importância para as comunidades primervas fez com que a observação
desses astros fosse um habito cotidiano entre algumas culturas. Logo perceberam que o sol não nascia sempre no
mesmo lugar a leste e que a face da lua ia escurecendo e clareando com o passar das noites. Ligações com ciclos da
natureza terrestre foram observados e essas comunidades passam a registrar esses fenômenos por meio de pinturas,
gravuras rupestres e monumentos megalíticos.
O Parque Nacional de Sete Cidades, localizado no município de Piracuruca, Piauí, é um importante complexo ar-
queológico para o estudo da arqueoastronomia. Composto por mais de 25 sítios de arte rupestre com algumas possíveis
representações astronômicas, o parque comporta um monumento megalítico que marca o nascer do sol no dia 21 de
junho, solstício de inverno no hemisfério sul.
O Sítio
O Furo Solsticial consiste basicamente em um orifício que atravessa um grande paredão rochoso e um monólito
a 19,5 metros de distância desse suporte, ambos dispostos em um pátio circular rodeado por outros paredões, todos
geologicamente naturais. Esse orifício, arranjado e modelado antropicamente, por apresentar possíveis marcas de poli-
mento, permiti a passagem dos raios solares no dia do solstício de inverno no hemisfério sul (21 de junho). 
O Fenômeno Solsticial
No dia 21 de junho, alguns minutos após o nascer do sol no horizonte, os primeiros saio solares já são percebidos
na porção mais estreita do furo solsticial. Com o passar do tempo o sol é visualizado percorrendo toda a morfologia do
orifício até chegar à área mais circular.
À medida que o sol se eleva, um feixe luminoso ganha forma através do orifício, se locomovendo sobre o solo ate
atingir o monólito que fica no centro do complexo geológico, formando uma grande mancha alaranjada.
Com o avanço dos minutos essa mancha vai diminuindo e começa a regressar do monólito ao chão, e como se
voltasse a sua origem, vai percorrendo todo o percurso que anteriormente fizera ate sumir novamente na janela do rei.
O Furo Solsticial constitui uma estrutura geológica adaptada e moldada por grupos pretéritos que habitavam a
região de Sete Cidades, com o propósito de instituí-lo como marco permanente para a marcação de ritmos sazonais que
lhe eram fundamentais. Baseando-se nas observações da movimentação aparente do sol no horizonte.

Guarani e Tupinikin: uma experiência de campo


em Astronomia Cultural

Luiz Carlos Borges (Museu de Astronomia e Ciências Afins)

Na história da formação do Brasil, de um ponto de vista histórico-cultural e epistemológico, os grupos Tupi-Guarani,


em particular os Tupinambá e os Guarani, foram os que mais intensa e extensamente influenciaram esse processo, e
também foram por ele inexoravelmente influenciados. Logo, um panorama dos diversos sistemas de conhecimento que,
ao longo dessa história, coexistiram e coexistem em território brasileiro, não pode deixar de dar conta das caracterís-
ticas de tais sistemas. Em que pesem as semelhanças encontradas entre os Tupinikin e os Guarani – trata-se de dois
povos que resultaram da separação de um grande grupo o qual foi chamado de Proto-Tupi –, no que concerne às suas
características culturais atuais podem ser observadas inúmeras diferenças entre eles. No Espírito Santo, os dois grupos
convivem em territórios que são contíguos, o que permite – a partir do momento em que os Guarani, vindos numa grande
leva migratória que se originou no sul do país na década de 1970, ali se fixaram – uma interação entre esses grupos
que há tempos estiveram afastados. Destacam-se três diferenças: a língua, a religião e o estado de conhecimento das
relações céu-terra. Enquanto os Guarani lograram manter sua identidade étnica da qual se destaca a manutenção de
sua língua, a sua religião e de seu sistema de conhecimento sobre o céu, os Tupinikin, em virtude do processo histórico,
tanto no período colonial, como no pós-colonial, conseguiram manter sua identidade mesmo não falando mais a língua
Tupi, nem professando a religião de seus antepassados e, finalmente, sem terem conservado o sistema astronômico que
lhes foi legado pelos antepassados. O objetivo deste trabalho é, a partir de uma perspectiva teórico-metodológica da
Astronomia Cultural e de uma experiência de campo realizada nas aldeias Guarani e Tupinikin do município de Aracruz-

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-ES, mostrar dois aspectos no que concerne à astronomia de ambos os grupos. De uma parte, tratou-se de verificar,
em vista de todas as pressões culturais que receberam ao longo de sua história, o atual estado do sistema astronômico
e, de outra, de conhecer qual o peso desse conhecimento no cotidiano desses dois povos. Como ponto de partida, no
que se refere ao sistema astronômico dos Tupinambá, tem-se como base a descrição feita por Claude d’Abbeville, que
permite fazer uma comparação diacrônica entre o conhecimento astronômico dos Tupi do período colonial e o dos dois
representantes Tupi da atualidade. Obviamente que não se busca estabelecer uma abordagem normativa, nem tampouco
cair na tentação de uma retórica da perda, mas de tomar o quadro apresentado por d’Abbeville como referência. Dessa
experiência de campo resultou a verificação de semelhanças e diferenças, concernentes ao conhecimento e às práticas
referentes às relações céu-terra entre os Guarani e os Tupinikin.

O estudo da Astronomia na perspectiva HCTS – História, Ciência,


Tecnologia e Sociedade

Andréia Hornes Macedo (UEL)

As concepções educacionais da atualidade buscam compreender o mundo cientifico além de suas teorias, fazendo
relações com a tecnologia, o meio ambiente e o desenvolvimento da sociedade. Assim, o conhecimento científico é
muito mais amplo do que se costuma apresentar em sala de aula. Ao contextualizar um tema específico da Física, por
exemplo, podemos fazer relações com o meio histórico-social, incluindo aspectos ambientais, e com as tecnologias que
esse estudo foi capaz de proporcionar, buscando a análise crítica sobre os resultados vivenciados hoje na prática. Essa
ênfase dada ao ensino relaciona a História, a Ciência, a Tecnologia e a Sociedade (HCTS) com o desenvolvimento do
senso crítico e com a capacidade de levantar problemas e de resolvê-los. O presente trabalho apresenta o desenvolvi-
mento de uma estratégia de ensino por meio de uma abordagem integrada, envolvendo o contexto da História, Ciência,
Tecnologia e Sociedade (HCTS) na perspectiva de uma aprendizagem significativa, em que os conceitos físicos sejam
relevantes aos estudantes. A pesquisa desenvolvida inicialmente no Programa de Mestrado Profissional em Ensino de
Ciências e Matemática da Universidade Estadual do Centro Oeste, resultou em uma Unidade Didática de apoio para
professores de Física que buscam novas propostas de ensino para suas aulas, em especial na perspectiva apresentada
e, como continuidade, apresentamos o tema alusivo ao estudo da Astronomia. O público alvo são os alunos do primeiro
ano do ensino médio, do Colégio Estadual São Judas Tadeu, do município de Palmeira – Paraná. Para a investigação de
conhecimentos prévios, utilizou-se as questões da Olimpíada Brasileira de Astronomia, prova realizada pelos alunos para
participação no evento. A segunda etapa da pesquisa consiste em analisar os resultados obtidos pelos alunos e rever os
temas das questões, porém, fazendo as relações com a proposta HCTS. Como avaliação da proposta, as questões serão
novamente ofertadas aos alunos observando-se os pontos trabalhados ao longo do projeto. Além das questões prévias,
será desenvolvido uma Sequência Didática específica para o estudo da Astronomia. Espera-se que os resultados desta
pesquisa apontem para uma construção efetiva do conhecimento científico, sugerindo uma aprendizagem significativa
dos conceitos apresentados. Na perspectiva HCTS, a História da Ciência tem grande importância na compreensão dos
conceitos físicos, sua fluidez é capaz de envolver a Ciência, a Tecnologia e a Sociedade de modo que estes aspectos se
integrem significativamente facilitando a compreensão do todo pelos sujeitos do processo.

Representações arqueoastronômicas brasileiras 

Cíntia Jalles de Carvalho de Araujo Costa (Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST), Rundsthen


Vasques de Nader (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Devido às limitações impostas normalmente ao material arqueológico de forma geral – seja pela dificuldade de
obtermos informações sobre seus autores, seja pelas perdas significativas que o material sofre com o passar dos anos
em seus aspectos físicos – e, especificamente, àqueles que possuam alguma relação com a Astronomia, a trajetória
das pesquisas arqueoastronômicas tem seguido o seu curso com a superação de numerosos percalços, cotidianamente
encontrados em seu caminho.

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Atualmente, já é possível ter uma pequena ideia do quanto a relação com o céu e com toda a dinâmica celeste vai
muito além daquilo que hoje restringimos em áreas de conhecimento estanques que, em muitos casos, não dialogam
entre si, impedindo-nos, dessa forma, de alcançar a esfera do saber global de nossos ancestrais mais remotos. E esse
avanço se deve, principalmente, à qualidade científica dos estudos etnográficos, realizados com maestria em nosso país.
Considerando que o que recuperamos a partir dos vestígios arqueológicos representa apenas um pequeno percentual
do conhecimento das culturas que os produziram, e a possibilidade de entendimento destas a partir de comparações
com outras culturas de diferentes sociedades, acreditamos ser possível, por analogia, a compreensão e o resgate de
mais peças deste grande quebra-cabeças.
A comparação com outras culturas, ainda que não seja suficiente para responder às nossas indagações, contribui,
indubitavelmente, para ampliar nosso “leque de opções”, o que, por si só, impulsiona o desenvolvimento da pesquisa,
com o aumento e aprimoramento das questões formuladas.
Os dados disponíveis até o momento, na Arqueologia brasileira, são insuficientes para permitir identificar as diversas
relações que permeiam o saber astronômicopor nós destacado. Como contribuição, propomos a utilização de uma nova
ferramenta metodológica, que permitirá sistematizar informações arqueoastronômicas, ainda dispersas em relatórios e
arquivos institucionais da pesquisa arqueológica.
Os elementos relacionados ao saber astronômico existentes no registro arqueológico, encontram-se, na maioria das
vezes, restritos aos relatórios técnicos institucionais. A sistematização desses dados em um suporte digital específico
permitirá a troca e complementação de informações entre os pesquisadores e dinamizará a investigação em Arqueoas-
tronomia. Pois nem todas as informações resgatadas e publicadas estão diretamente relacionadas a este saber, ainda
em estado latente na Arqueologia brasileira.

Representações arqueoastronômicas brasileiras: a supernova de1054

Cíntia Jalles de Carvalho de Araujo Costa (Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST), Rundsthen


Vasques de Nader (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Todos os povos, em maior ou menor escala, sempre demonstraram reverência pelo céu e pelos objetos nele ob-
servados, tanto durante o dia quanto à noite. O movimento cíclico do Sol, a variação das fases da Lua, as trajetórias dos
planetas se movendo entre as estrelas, que se sucediam e assinalavam as épocas certas para celebrações, atividades
cotidianas e agrárias. Estas observações de acontecimentos, que se repetiam e eram previsíveis,representavam a per-
feição e a harmonia do Cosmos e davam algo seguro e ordenado onde apoiarem seus conhecimentos e entendimento
dos fenômenos que os influenciavam. Dependendo, fundamentalmente, da compreensão da terra e do céu para a
sobrevivência, as diversas culturas espalhadas pelo planeta escolheram diferentes formas de entender esta complexa
correlação. Todavia, às vezes alguns fenômenos celestes ocorriam de forma inesperada, e alguns eram especialmente
espetaculares, tais como uma chuva de meteoros, um cometa ou uma nova estrela no céu. Este último fenômeno,
chamado de supernova, é um evento astronômico resultante da explosão catastrófica de uma estrela, que às vezes
aparece com um brilho muito intenso durante um período, declinando sua luminosidade com o tempo. Um fenômeno
assim ocorreu em 1054 e foi registrada em vários locais na Terra. Em particular, um documento escrito na Chinaregistra a
data do aparecimento deste objeto, por ele chamado de estrela maligna, e que foi um evento tão intenso que era visível
inclusive durante o dia por vários meses. A partir desta citação, várias outras narrativas e registros pictográficos sobre
este específico aparecimento têm sido encontradas em locais tão variados como a Austrália, Europa e Américas. Este
trabalho pretende, por análise comparativa, demonstrar que um registro deste fenômeno também foi feito no Brasil, e
foi encontrado no estado da Bahia, durante estudos feitos dentro do Projeto Central, que tem por objetivo reconstruir a
ocupação humana na região arqueológica de Central, Bahia. A grande quantidade de representações rupestres nesta
região, algumas com fortes indicações de referências a objetos e eventos celestes, fazem da região que abrange este
Projeto o local ideal para que sejam feitas buscas sistemáticas a procura de outras representações da supernova de
1054, entre outras representações de cunho astronômico. Esta abordagem poderá ser utilizada como uma forma de
datação indireta de sítios com registros rupestres com tais eventos.

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ST 06. Biomedicina e Sociedade

A chegada da peste bubônica ao Rio de Janeiro: sua repercussão


nos periódicos cariocas em tempos de modernização e avanços
bacteriológicos (1899-1906)

Thayara Cristina da Silva Cruz (Fiocruz)

O ano de 1899 marcou o retorno da peste bubônica a Europa. Após 170 anos de afastamento da moléstia do con-
tinente europeu, ela regressa a Portugal, diagnosticada no mês de julho pelo médico Ricardo Jorge, responsável pelos
Serviços Municipais de Saúde e Higiene da cidade. A notícia da invasão do Porto foi telegrafada a Nuno de Andrade,
diretor-geral de Saúde Pública do Rio de Janeiro em 14 de agosto do mesmo ano, notícia está que gerou alarde quanto
à segurança do território brasileiro e surpresa frente ao regresso da doença que há tanto tempo se mantinha distante
da Europa.
A forte relação comercial e imigratória que se configurava entre a cidade do Porto e do Rio de Janeiro indicava a
necessidade da adoção de medidas sanitárias que visassem proteger o território da invasão da moléstia, uma vez que
não só este, mas todo o continente americano era, ainda, virgem em termos da peste. Por outro lado, a cidade do Rio de
Janeiro já precisava lidar com a ingerência de outras epidemias e com o peso do incômodo estigma da insalubridade. A
adoção das quarentenas não foi suficiente para impedir que a doença avançasse e em janeiro de 1900 a Capital carioca
tinha seus primeiros casos confirmados da doença. 
Até 1906, quando a incidência de casos começa a declinar, dá-se, no panorama carioca, a tentativa de modernizar
a cidade e controlar os surtos epidêmicos tão recorrentes, enquanto em concomitância, é possível observar uma grande
relevância conferida às descobertas da área que concerne à bacteriologia, localizada justamente na virada do século XIX
para o XX. Essa expressão conferida ao campo bacteriológico será decisiva para a mudança de percepção acerca das
doenças, seu controle e para o surgimento de Institutos voltados para a confecção de soros e vacinas, como no caso
carioca o então Instituto Soroterápico , fundado por Oswaldo Gonçalves Cruz, atual Fundação Oswaldo Cruz. 
É importante ressaltar que todo o debate acerca das quarentenas, da chegada da doença a Capital, das medidas
adotadas após a invasão da cidade, além das próprias impressões sobre o desenvolvimento do surto por parte de jorna-
listas, por exemplo, tiveram sua circulação assegurada por muitos periódicos circulantes no Rio de Janeiro. 
O trabalho objetiva abordar o surto de peste ocorrido no Rio, considerando aspectos relacionados ao próprio caráter
científico admitido sobre a doença, e o tipo de informação circulante nos periódicos que se propuseram a reservar algum
espaço para a moléstia, tudo isso considerando a ênfase conferida à modernidade dada pelo Governo ao assunto da saúde
pública, além de dar ênfase à ótica da bacteriologia que se desenvolve com maior força e respaldo nessa virada. Entre
as fontes utilizadas destacam-se relatórios de Oswaldo Cruz e Ricardo Jorge, relatórios governamentais do Ministro da
Justiça e Negócios Interiores e as notícias sobre o surto em questão, que apareciam nas páginas dos periódicos cariocas.

A formação do programa disciplinar da Neurociência no século XX

Francisco Rômulo Monte Ferreira (Instituto de Psicologia – USP)

A presente pesquisa pretende examinar o processo de formação histórica da Neurociência. O exame se fará a partir
da investigação da formação histórica de conceitos considerados fundamentais em Neurociências. Alguns desses con-
ceitos são os conceitos de neurônio, tecido nervoso, sistema nervoso, plasticidade neural, atenção, informação nervosa
e memória. É consenso entre os historiadores da Neurociência que a unidade teórica e disciplinar das Neurociências tem
como ponto de partida contemporâneo o século XIX. A partir do estabelecimento do modelo elétrico do sistema nervoso
no início do século XIX, as pesquisas foram direcionadas para a compreensão de sua estrutura. Tais pesquisas tentavam

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compreender a estrutura e fisiologia nervosa e suas relações com o organismo por meio de modelos reticulares e unitá-
rios, ambos convergentes com o paradigma celular. Ivan Sechenov (1829-1905), Santiago Ramón y Cajal (1852-1934)
e Camillo Golgi (1843-1926) serão explorados de maneira pormenorizada com o intuito de compreender a formação e a
utilização de alguns desses conceitos na formação da Neurociência enquanto disciplina autônoma.
Este trabalho propõe a análise da formação histórica da Neurociência a partir do estudo da formação dos seus
conceitos fundamentais. O conceito base examinado na pesquisa será o conceito de plasticidade orgânica no que se
refere ao sistema nervoso. A partir disso, generalizarei o conceito a um escopo mais amplo de plasticidade orgânica. A
hipótese inicial para o desenvolvimento da pesquisa é de que o conceito de plasticidade orgânica influenciou de maneira
seminal os estudos sobre o sistema nervoso nos séculos XIX e XX, o que justifica a escolha por autores desse período. 
Em minha tese de doutoramento examinei a formação e constituição das principais teses que compõem a teoria
neuronal. Os conceitos de plasticidade e neurônio são, respectivamente, conceitos formador e central na teoria neuronal
formulada por Santiago Ramón y Cajal (1852-1934). A teoria neuronal representa o ponto de convergência teórica nos
estudos sobre o sistema nervoso no final do século XIX. As décadas seguintes à proposição e consolidação da teoria
neuronal se deu o processo de formação da neurociência no âmbito institucional (formação da disciplina da neurociência)
.

A trajetória do rastreamento do câncer de mama no Brasil

Luiz Alves Araújo Neto (Fiocruz), Luiz Antonio da Silva Teixeira (Fiocruz / UNESA)

Na primeira metade do século XX pouco se sabia sobre a incidência e mortalidade do câncer de mama e prevalecia
o exame clínico como forma de diagnóstico. Em meados desse mesmo século, o crescente otimismo com a possibilidade
de obtenção de resultados equivalentes aos conseguidos com ações de rastreamento de câncer de colo, em rastreamento
de câncer de mama, davam início a uma mudança no enquadramento da doença. 
A partir dos anos 1970, a incorporação dos exames de imagem que permitiam a visualização de lesões mamárias
bastante iniciais, a ampliação da mobilização feminina pela atenção à saúde da mulher e a reestruturação da saúde
pública, fizeram com que a discussão sobre rastreamento de câncer mamário ganhasse força. A princípio, os médicos
achavam que o exame clínico era o procedimento mais apropriado para o rastreamento, por ser barato, não depender
de tecnologia e aparelhos sofisticados e ser mais preciso que o autoexame. Na década de 1990, ainda tomando como
base o modelo de rastreamento do câncer de colo e tendo como pano de fundo um novo sistema de saúde, agora de
cunho universal, o rastreamento a partir do uso massivo da mamografia começou a ganhar força. 
Hoje, o câncer de mama apresenta-se como o mais frequente na população feminina brasileira (com exceção do
câncer de pele não melanoma). Apesar de décadas de iniciativas médicas e políticas públicas, as taxas de mortalidade
da doença permanecem altas no Brasil. Estudos apontam que essas taxas se mantêm elevadas porque a doença ainda
é diagnosticada em estádios avançados. No entanto, existe uma grande controvérsia sobre a adequação do uso do
rastreamento mamográfico ao país e sobre um possível modelo a ser utilizado. 
Esse estudo busca analisar a trajetória do controle do câncer de mama, atentando para os aspectos que jogam
luz no surgimento e conformação das diferentes concepções sobre o controle da doença e suas consequências para a
saúde coletiva. Partimos da ideia de que tecnologia e inovação não são produtos automaticamente incorporados aos
conhecimentos e práticas médicas, para o seu desenvolvimento. De modo contrário, sua integração num campo específico
da saúde se relaciona a disputas e alinhamento entre diferentes atores e campos sociais, sendo construída através do
tempo e por este determinada. Nesse estudo, tal postulação se desdobra no argumento de que a existência de diferentes
grupos, com posições divergentes em relação ao modelo de ações de controle do câncer de mama, atuando em um
contexto de transformações e incertezas na área da saúde – em especial no que tange aos limites e tensões entre os
domínios público e privado e à formatação de um novo sistema de saúde em construção – determinaram a dinâmica
das controvérsias sobre o modelo de controle da doença a ser seguido e sua larga permanência.

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Câncer de mama em Fortaleza nas décadas de 1960 a 1980:
entre a pobreza e o desenvolvimento

Thayane Lopes Oliveira (Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz)

A relação de causalidade entre o surgimento de doenças e o progresso da civilização foi tema recorrente na litera-
tura médica do século XIX e, a partir do século XX, esta associação embasou a visão pela qual o aumento da incidência
das doenças crônicas esteve diretamente ligado ao processo de industrialização e urbanização da sociedade. No Brasil,
em meados do século XX, o câncer foi associado ao nível de desenvolvimento da nação, sendo considerado sinal de
progresso – ou em tipos específicos da doença – consequência da ausência deste. A partir dessa perspectiva, analisare-
mos os discursos médicos em torno da incidência do câncer de mama no Ceará entre as décadas de 1960 e 1980, onde
o nível de desenvolvimento econômico e social de Fortaleza é discutido como condição explicativa para o crescimento
do câncer de mama feminino nas estatísticas de morbidade e mortalidade da cidade. Os dados da capital cearense
demonstram proximidade entre as taxas de incidência do câncer de colo do útero e do câncer de mama. Tal situação
cria um contexto de ambiguidade, pois estes dois tipos correspondem, respectivamente, aos cânceres característicos da
pobreza/subdesenvolvimento e do modernidade/desenvolvimento. Desse modo, Fortaleza reúne, em um mesmo espaço,
doenças características do processo de urbanização e doenças ligadas à carência de infraestrutura social, como acesso
aos serviços de saúde e higiene. Neste sentido, a cidade possui índices controversos com os quais os médicos buscam
construir o cenário epidemiológico do câncer e, dessa forma, inserir a doença como uma preocupação da saúde pública
no estado. Para tal análise daremos ênfase na utilização dos dados produzidos pelos registros de câncer, principalmente
o Registro de Câncer do Ceará, a fim de perceber como o argumento epidemiológico colabora para a construção de
ações de saúde pública para o controle da doença no estado. Neste trabalho utilizamos como fontes, principalmente,
os documentos publicados pelos registros de câncer e Ministério da Saúde, além das matérias veiculadas pelos jornais
O Povo e Diário do Nordeste. 

Controvérsias acerca da Medicina baseada em evidências na década


de 1990: técnicas, hierarquias e poderes envolvendo conhecimentos,
práticas e relações na medicina

André Luís Mattedi Dias (UFBA), Tânia Guimarães Lapa (UFBA)

Entre o final da década de 1980 e a primeira metade da década de 1990, a Medicina Baseada em Evidências (EBM)
foi apresentada como um novo paradigma emergente para a prática médica, que propunha novas bases epistemológicas
para a tomada de decisão clínica, rebaixando ao máximo o valor epistêmico para a intuição, a experiência clínica e os
raciocínios fisiopatológicos (GUYATT et al., 1992), e elevando ao máximo as evidências obtidas por meio de ensaios
randomizados controlados (RCT) (SACKETT, 1986). Trouxe consigo uma proposta de inovação das práticas médicas e
do ensino médico, na medida em que passou a requerer novas habilidades para os médicos, principalmente as técnicas
eficientes de avaliação formal das evidências obtidas na revisão da quase inumerável literatura científica disponível.
Naquela época, quando a EBM tornou-se pública, iniciava-se também o extraordinária aumento de produção e difusão
da informação biomédica, na década que precedeu o amplo acesso à Internet (WYER; SILVA, 2009).
Imediatamente após a divulgação do texto manifesto do Evidence-Based Medicine Working Group, teve início uma
ampla e diversificada controvérsia acerca das suas ideias e propostas (COHEN; STAVRI; HERSH, 2004; CRAWLEY, 1993;
FOX, 1993; GREENHALGH; WORRALL, 1997) focando em aspectos que permanecem até hoje no centro dos debates:
as bases epistemológicas da proposta (TONELLI, 1998), suas imprecisões e incorreções científicas (CHARLTON, 1997),
suas implicações políticas, éticas (HOPE, 1995) e econômicas para médicos, pacientes, bem como para os sistemas e
as políticas de saúde, dentre outros aspectos. Para se defender dos seus adversários, que se multiplicavam em múltiplas
e variadas frentes, a EBM ampliou seu círculo de adeptos e advogados. Foi criada uma revista específica (BMJ, 1995),
enquanto fascículos especiais em periódicos médicos acumulavam as críticas e os debates.(MILES, 1996; REERINK;
WALSHE, 1998)

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Nesse trabalho, pretendemos abordar a(s) controvérsia(s) ocorridas em torno da EBM ao longo da década de
1990 tomando como corpus de análise publicações feitas em periódicos médicos daquele período. Na visão dos seus
críticos, as inovações técnicas propostas estão embasadas em uma hierarquização das evidências científicas, que não
se sustenta epistemologicamente, que desautoriza a expertise profissional dos médicos e que impõe novos elementos
indesejáveis nas relações de poder entre médicos e pacientes. Além disso, acusações envolvendo interesses comerciais
extrapolam o debate para um âmbito econômico e político mais amplo.

Desenvolvimento da cesariana como técnica de nascimento


1840 – 1930

Isabela de Oliveira Dornelas (Universidade Federal de Minas Gerais)

Esta proposta de comunicação oral visa discutir o impacto desenvolvimento de técnicas médicas na operação ce-
sariana se consolidasse enquanto uma cirurgia indicada e praticada nos hospitais brasileiros, através das teses médicas
das Faculdades de Medicina do Brasil. No início do marco temporal deste trabalho existem teses que se preocupam em
debater se a cirurgia cesariana deve ser de vez abandonada pela prática médica como questiona o Dr. Oliveira na sua tese
“Se a operação cesariana deve ser banida dos recursos d’arte” defendida na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1855.
Enquanto a última tese a abordar a cesariana que se insere no recorte desse projeto, já demonstra a existência de um
método clássico, já estabelecida e outro mais arrojado “Das operações cesareas: em especial a clássica e a segmentar
de Kronig” defendida pelo Dr. Tavares no Rio de Janeiro em 1930 As teses médicas são utilizadas para compreender os
debates teóricos dos médicos em formação em torno das técnicas utilizadas na operação cesariana. Para compreender
a consolidação da operação cesariana na obstetrícia brasileira, este trabalho analisa dentro das teses médicas o debate
corrente sobre três aparatos: a anestesia, a histerectomia e o estabelecimento do ambiente hospitalar. Em 1847 o clo-
rofórmio é utilizado pelo médico escocês James Young Simpson e, apesar de uma não aceitação no início, passa a ser
utilizado como técnica anestésica em partos cirúrgicos. No Brasil, a anestesia também é debatida entre os médicos em
formação e aparece como problema central na tese do Dr. Ernesto da Rocha Miranda que discute seu uso no trabalho
de parto. A histerectomia é uma técnica operatória de parto que trata da retirada do útero para a realização o parto.
Uma parte considerável das teses médicas que discute seu uso enquanto um possível procedimento de parto, como na
tese de Dr. Adolpho Martins de Oliveira: “A operação cesariana, também chamada de gastro-hysterotomia, hysteroto-
mia abdominal, hysterotomocia, consiste em uma incisão feita na parede abdominal e no útero para extrair o produto
da concepção. Podendo ser praticada sobre a mulher morta, em certa época da prenhez, ou sobre a viva, quando ha
desproporção entre o feto e as partes que devem dar-lhe passagem. “ (OLIVEIRA, 1872: 8) No século XIX a obstetrícia
brasileira consolida-se através da fundação das escolas superiores de medicina. Com a formação destes profissionais,
houve a propiciação para que os médicos passassem a ter reconhecimento e aparato para efetivamente fazerem a
operação. É importante ter em mente que este quadro de desenvolvimento da cesariana tem relação com a construção
do descrédito de parteiras leigas e da centralidade do médico na cena do parto. Importa mapear os discursos médicos
a respeito da cesariana e buscar discernir os principais fatores que tornam a cesariana uma técnica recomendada e
utilizada amplamente no Brasil. 

Educação em saúde e prevenção: estratégias para o controle


do tabagismo no Brasil (1970-1998)

Luiz Alves Araújo Neto (Fiocruz)

O presente trabalho discute a trajetória das estratégias de educação em saúde relacionadas ao controle do
tabagismo no Brasil. Nos anos 1970, as preocupações de médicos com os impactos do fumo à saúde, especialmente
no que diz respeito ao risco de câncer de pulmão, levou a mobilizações para a redução do consumo de tabaco no
país, primeiro em escala local (Rio Grande do Sul e São Paulo) e, posteriormente, em âmbito nacional (via Programa

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Nacional de Controle do Tabagismo). Entre as ações traçadas para reduzir o número de fumantes, a elaboração de
campanhas e programas educativos teve papel central no planejamento da medicina e da saúde pública. A partir da
tradição de campanhas estabelecida nas décadas de 1940 e 1950, abordagens educativas ao tema do tabagismo
foram propostas e realizadas em diversos níveis. A partir do paradigma da medicina de risco, os materiais produzidos
para as ações educativas transformaram o hábito de fumar alvo da prevenção, em vez do câncer de pulmão. Entre as
principais ações educativas para o controle do tabagismo, destacam-se as campanhas realizadas nos anos 1980 com
cartazes produzidos pelo artista gráfico Ziraldo, e a criação do Programa Saber Saúde de Prevenção do Tabagismo e
outros Fatores de Risco, em 1998. O programa consiste em uma estratégia multidisciplinar de educação para a saúde
voltada para o ambiente escolar, com ênfase na capacitação profissional e na “formação cidadã”. A partir da realização
de um projeto-piloto entre 1996 e 1997, envolvendo quatro escolas da cidade do Rio de Janeiro, duas da rede pública e
duas da rede privada, uma equipe do INCA testou uma metodologia de trabalho em educação para a saúde no espaço
escolar, com a capacitação de professores, a inserção de temas relativos à prevenção primária de doenças crônicas não
transmissíveis nos currículos, e a composição de materiais didáticos a serem utilizados em atividades nas escolas. O
trabalho discute a construção histórica da prevenção ao tabagismo a partir da atuação desses programas e campanhas,
observando como o fumo foi tomado como fator de risco, agente etiológico e doença. Para tanto, utilizam-se materiais
de campanhas educativas, artigos em periódicos especializados, publicações de médicos e instituições de saúde sobre
tabagismo e educação em saúde, e documentação de arquivo referente ao Programa Saber Saúde, implantado pelo
Instituto Nacional do Câncer em 1998.

Higienismo, saúde e doença: Trajano Joaquim dos Reis


e Inspetoria Geral de Higiene do Paraná (1889-1919)

Jorge Tibilletti de Lara (Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz)

A pesquisa em questão trata-se de uma investigação sobre a configuração de uma agenda para a saúde pública
paranaense na virada do século XIX para o XX. Para tanto, tomamos como objeto de análise um personagem de relevo
neste processo, cujo duradouro mandato de 30 anos como Inspetor Geral de Higiene do Paraná perpassa significativas
transições no âmbito da medicina e no palco da política. Trajano Joaquim dos Reis (1852-1919) formou-se médico pela
Faculdade de Medicina da Bahia no ano de 1875. Em 1876, já se mudava para a cidade de Curitiba, no Paraná, devido
à uma nomeação Imperial referente ao Corpo de Saúde do Exército. Na longínqua província que o acolhera, Trajano as-
cendeu social e politicamente, conseguindo uma série de cargos públicos, dentre eles os de vereador e o de deputado
provincial, ao mesmo tempo em que clinicava em seu consultório médico-cirúrgico. Em 1889, recebendo o prestigioso
cargo de Inspetor Geral de Higiene do Paraná, Trajano acentua sua atuação pública como médico e administrador de saúde.
Assim, durante a década de 1890, período em que publica seu livro Elementos de Higiene Social (1894) e dois artigos na
Gazeta Médica da Bahia, respectivamente A epidemia de Escarlatina em Curitiba (agosto de 1896) e A febre dengue em
Curitiba (outubro de 1896), é possível visualizarmos uma relação intensa entre seus estudos biomédicos e sua atuação
na Inspetoria de Higiene. Deste modo, cabe fazermos uma pergunta com vários desdobramentos: como Trajano Joaquim
dos Reis traduz o conhecimento médico-científico em políticas de saúde pública? Para responder a questão colocada,
nos é necessário entender, por um lado, com quais postulados das ciências biomédicas Trajano dialoga, considerando o
contexto de ascensão e otimismo bacteriológico e sua relação com as emanações das teorias miasmáticas e o paradig-
ma da Higiene presentes no pensamento e na lógica de muitos médicos. Por outro lado, nos cabe compreender como,
num contexto de novo arranjo político – devido a transição do Império para a República – se organizou e se configurou
a saúde pública do Estado do Paraná. À este ponto relacionam-se vários aspectos e características dessa configuração,
encabeçada pela Inspetoria Geral de Higiene sob a figura de Trajano, seu representante-mor, tais como: a relação esta-
belecida entre imigração e doença; a intensificação de combate à determinadas doenças em detrimento de outras; as
medidas sanitárias tomadas pelos principais atores deste processo; as reverberações políticas e sociais desta política
de saúde em construção. Por fim, cabe ressaltar que nossa investigação dialoga com a historiografia das ciências, da
medicina, da saúde pública e das doenças, e que, provisoriamente, estabelece também o diálogo com algumas noções
e conceitos tais como os de paradigma científico (Thomas Kuhn), campo social (Pierre Bourdieu), tradução de interesses
(Bruno Latour), dentre outros.

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Para uma genealogia do conceito de saúde mental:
a desinstitucionalização da doença mental como condição
de possibilidade da psiquiatria generalizada

Elton Rogerio Corbanezi (UFMT)

Com base em pesquisa bibliográfica e documental, apresentamos a proveniência do conceito atual de saúde
mental a partir das implicações advindas da crítica ao paradigma tradicional da psiquiatria fundamentado na internação.
Dado a conhecer oficialmente desde a instituição da OMS, o conceito envolve diferentes áreas, tais como psiquiatria,
psicologia, serviço social e terapia ocupacional. De modo específico, pretendemos mostrar sua vinculação à atuação
psiquiátrica, cujo fundamento atual reside, não sem controvérsias, no paradigma biológico da biomedicina. Trata-se de
fazer compreender como a crítica ao paradigma de internação tornou possível, a despeito de suas intenções, a consti-
tuição de uma psiquiatria generalizada, cuja ingerência psicofarmacológica estende-se a todo o tecido social, para além
dos muros asilares e da própria patologia. Para tanto, examinamos as diferentes matrizes e os argumentos centrais da
indispensável crítica ao dispositivo asilar, visto que a proposta central da noção de saúde mental consiste na superação
de tal realidade. De partida, fazemos notar que, não obstante o fato de que o reformismo e as diferentes formas de
ruptura encontrem suas condições de possibilidade históricas de maneira efetiva apenas no pós-guerra, a crítica ao
asilo é praticamente contemporânea ao seu nascimento no final do século XVIII. Em seguida, analisamos as diferentes
vertentes das chamadas “psiquiatrias alternativas” ou “nova psiquiatria”. De um lado, destacamos dois blocos cujas
experiências são essencialmente reformistas, a saber, a comunidade terapêutica inglesa e a psicoterapia institucional
francesa (primeiro bloco) e a psiquiatria de setor francesa e a psiquiatria comunitária ou preventiva norte-americana
(segundo bloco). De outro, apresentamos duas experiências radicais dispostas a romper com o dispositivo psiquiátrico
tradicional: a antipsiquiatria inglesa e a psiquiatria democrática italiana. Procuramos evidenciar que, apesar das diver-
gências das propostas, a nova psiquiatria social tende a concretizar, mediante a intervenção na comunidade, o projeto
político de promoção da saúde mental, a qual constitui-se, pouco a pouco, como o novo objeto da psiquiatria. Duas
implicações provêm desse movimento no campo da atuação psiquiátrica. Por um lado, torna-se possível o deslocamento
sutil da intervenção médica baseada na psicofarmacologia para o campo da normalidade descoberta no espaço aberto
da sociedade, de que resulta a possibilidade de otimização da performance de indivíduos nas sociedades capitalistas
ocidentais. Por outro, evidencia-se como a desinstitucionalização da doença mental não implicou a desconstrução do
dispositivo psiquiátrico baseado na multiplicação e invenção de novas patologias segundo a lógica da ordem social, o que
pode ser constatado mediante o aumento progressivo de categorias diagnósticas produzidas pelas sucessivas edições
dos Manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais.

Saúde coletiva: uma historicidade de sua configuração como “campo”


ou “área”

Otto Santos de Azevedo (COC/Fiocruz), Tania Maria Dias Fernandes (Fiocruz/ COC)

O “campo” ou “área” da Saúde Coletiva foi criado(a) ao final da década de 1970, no Brasil, em consonância com
a influência das ciências sociais em vários campos do conhecimento que envolviam, também a saúde, no contexto dos
movimentos político-sociais, que se fortaleciam na demanda pela democratização do país. Vários conceitos foram cons-
truídos, origens elaboradas e articulações políticas, acadêmicas e estruturais configuradas para a consolidação da saúde
coletiva no país. Após 40 anos ainda se verifica, entre a produção científica sobre o tema, a publicação de artigos que
buscam, tanto construir aparatos e justificativas para a continuidade de sua configuração, como reforçar sua importância
como estratégia no campo da saúde. 
A partir de uma abordagem histórica buscamos, nesta investigação, identificar os marcos importantes e as estra-
tégias acionadas para sua aceitação e fortalecimento, abarcando as origens institucionais, a construção de programas
de pós-graduação, a implementação do Programa de Saúde Coletiva (PSC), além da identificação da historicidade do
processo de construção de bases teóricas para a saúde coletiva, onde ela se encontra tipificada. Ressaltamos também

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a relação de outras áreas como Medicina Preventiva, Medicina Social e Saúde Pública na elaboração organizativa e
conceitual do próprio campo da Saúde Coletiva. 
Identificamos alguns marcos na perspectiva de esquadrinhar uma possível historicidade, que abarca os departa-
mentos de medicina preventivas (DMPs) de universidades, originados mesmo antes da Reforma Universitária Brasileira
(1968) que orientou a departamentalização dos espaços universitários; o processo de configuração da Reforma Sanitária;
a criação de instituições como o CEBES e a ABRASCO, responsáveis pelos debates e o aporte teórico sobre o tema; o
processo de autonomização da área de SC na CAPES, que de forma incisiva busca consolidar academicamente a área,
até o mais recente processo de criação de Cursos de Graduação em Saúde Coletiva.
Para este estudo nos valemos de um levantamento e análise da produção científica que abarca as questões da
investigação, no âmbito das ciências sociais, os programas, projetos e legislações atinentes, além de um leque de
entrevistas, sob o enfoque da história oral com personagens que contribuíram e/ou que permanecem participando e
questionando a área/campo da Saúde Coletiva. 

Tecnologia, biomedicina e saúde: a difusão dos cuidados gestacionais


na revista Claudia (1961-1990)

Maria Martha de Luna Freire (Universidade Federal Fluminense (UFF))

A partir das últimas décadas do século XIX no Brasil, o nascimento foi deixando de ser um acontecimento familiar,
realizado na intimidade do lar, para se transformar em evento de risco, demandante de vigilância médica e intervenções
medicamentosas e cirúrgicas, resultando na sua institucionalização. Na segunda metade do século XX, as transformações
nas práticas reprodutivas e o processo de medicalização da maternidade ampliaram seu foco para o período gestacional,
ganhando maior complexidade – fundamentada na concepção de gestão dos riscos e do cuidado de si –, e incluindo
outros agentes. A eficácia da incorporação de novos regimes médicos, técnicas e tecnologias de cuidados pré-natais
dependia, em grande parte, da internalização, por parte das mulheres, do desejo e da obrigação de ser saudável durante
a gestação e, portanto, sua responsabilização pela gestão da saúde durante a gravidez. 
A mídia já foi reconhecida como veículo importante na tradução dos novos conhecimentos e propagação de novas
normas desde o século XIX. As revistas femininas, em particular, cumpriram um papel pedagógico junto às mulheres,
na educação para uma ‘maternidade científica’ e para a criação racional dos filhos. Esse trabalho teve como objetivo
analisar como ocorreu a difusão dos cuidados médicos voltados para a gestação e o parto na revista Claudia, lançada
em 1961 e endereçada ao público feminino e de grande sucesso até a atualidade.
As edições publicadas entre 1961 e 1990 revelaram que a revista apresentou e traduziu didaticamente para as
mulheres os mecanismos fisiológicos da gestação e do parto, os novos conhecimentos biomédicos e ferramentas tec-
nológicas disponíveis para intervir no corpo grávido, e ensinou minuciosamente roteiros e rotinas necessários a cada
fase do ciclo gestacional. Contribuiu, portanto, para habilitar as leitoras a assumirem os cuidados de si, identificarem
e controlarem os possíveis riscos nesse período e consolidar o processo de medicalização da maternidade. A análise
permitiu ainda desvelar a multifocalidade desse processo e a pluralidade e heterogeneidade dos atores sociais e ins-
titucionais que o impulsionaram, contribuindo para melhor compreensão dos desafios que envolvem a assistência ao
nascimento na contemporaneidade.

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Uma reflexão sobre medicalização do parto a partir da literatura
de assistência ao parto no Brasil

Lucia Regina de Azevedo Nicida (Instituto Nacional Fernandes Figueira/Fiocruz)

Trata-se de um estudo qualitativo, que através de revisão narrativa da literatura pretende identificar os diferentes
sentidos que tem sido atribuído ao conceito de medicalização do parto em artigos publicados em periódicos nacionais
entre os anos 2000 e 2017. A análise dos artigos foi desenvolvida a partir de cinco categorias: a) Medicalização versus
humanização – sentido que adota uma posição de crítica à medicalização, conduzindo o leitor a inferir uma relação de
oposição em que a existência de uma excluiria a outra; b) Medicalização e disputa profissional – sentido em que medi-
calização é entendida como procedimentos realizados por médicos, sendo eles os responsáveis por práticas prejudiciais
e desumanizantes na assistência e que a transformação desse quadro aconteceria com a substituição do médico pela
enfermeira obstetra ou obstetriz; c) Medicalização e violação de direitos das gestantes – em que medicalização é entendida
como processo relacionado a violação de direitos, com destaque para a violação de direitos das mulheres, compondo
um quadro que tem sido nomeado como violência obstétrica; d) Medicalização e cenário do parto – relacionada a partos
realizados em hospitais, compreendido como cenário que prejudicaria a evolução de um parto normal e que resultaria
na indicação de intervenções obstétricas; recomenda-se então a reconstrução do espaço hospitalar em um ambiente
mais acolhedor, ou a construção de outros espaços: Casa de Parto Normal ou Casas de Parto; e) Medicalização do parto
como reflexo da medicalização da sociedade – nela o sentido de medicalização do parto é entendido como parte de um
processo mais amplo que envolveria os diferentes atores que seriam copartícipes da assistência ao parto, que por sua
vez se relacionaria ao processo de medicalização da vida. A analise dos artigos identificamos que predomina uma opo-
sição entre medicalização e humanização, em que a humanização foi apresentada como um modelo de assistência que
permitiria a superação do modelo medicalizado tido como prejudicial. Esse modelo de discussão dicotômico também foi
encontrado em outras categorias: médico em oposição à obstetriz ou enfermeira obstétrica; ou ainda na categoria em que
a estrutura física do hospital se contrapõe a outros cenários de parto. Verifica-se que nesses formatos de discussão os
resultados apontam que mais do que alterar a forma de cuidado dispensado à mulher, ele suscita disputas que dificultam
a implementação de estratégias assistenciais que poderiam trazer resultados mais favoráveis à saúde da mãe e do bebê.

Violência Obstétrica e Humanização do Parto no Brasil

Larissa Velasquez de Souza (Fundação Oswaldo Cruz)

Este trabalho tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre o processo histórico de construção
do conceito de “violência obstétrica”, suas aplicações e abordagens diferenciadas, procedendo uma investigação das
definições, tipificações e práticas que circunscrevem o conceito e a prática em questão. Esta análise está sendo desen-
volvida no âmbito do doutoramento em História das Ciências e da Saúde, no Programa de Pós-Graduação em História
das Ciências e da Saúde/Fiocruz, Rio de Janeiro. O objeto de investigação se insere nas discussões sobre o processo de
humanização do parto e nascimento, no Brasil, abrangendo a questões sobre o processo de medicalização do parto, seu
questionamento e o modelo apresentado como alternativa a este processo. O modelo humanizado, por sua vez, além
de responder a demandas dos grupos de mulheres e feministas referente a autonomia do corpo e sexualidade, aciona
a legitimação da medicina baseada em evidência (MBE), e se afirma como uma opção científica na resposta a deman-
das por uma forma diferenciada de assistência à mulher na gravidez e parto. Assim, dentre as questões desenvolvidas
na pesquisa, destaca-se para esta apresentação: qual o significado atual de violência obstétrica, no Brasil? Quais os
discursos que influenciam a definição ‘científica’ construída em relação ao termo e a prática da violência obstétrica? Em
que processos históricos eles estão fundamentados? Para enfrentar tais problemáticas, utilizamos como fontes alguns
periódicos de ginecologia e obstetrícia do Brasil, como os Anais Brasileiros de Ginecologia, que demonstram a influência
de abordagens diferenciadas para se pensar o parto sendo consideradas desde a década de 1950. Além destes, atenta-
remos para a legislação brasileira existente sobre a humanização do parto e os tensionamentos políticos dos quais elas
resultaram, em um contexto de luta por direitos dos movimentos sociais mencionadas na década de 1990. A investigação
do processo histórico no qual se desenvolveram tais fatos é o objetivo principal desta investigação.

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ST 07. Ciência e techné na história: registro e comunicação
de conhecimentos científicos e técnicos

A aritmetização da Geometria no Libellus de quinque


corporibus regularibus

Vagner Rodrigues de Moraes (PUCSP)

Por meio dos aspectos socioeconômicos e culturais, pretende-se compreender a aritmetização da Geometria no
tratado Libellus de Quinque Corporibus Regularibus escrito no final do século XV por Piero della Francesca (c.1420 –
1492), na região da península itálica.
Sabemos que até o século XV, Geometria e Aritmética, em ambientes formais da construção do saber, eram
conhecimentos elaborados separadamente e tinham seus próprios objetos de estudo. O que se pretende nessa análise
é verificar que Piero della Francesca aritmetiza a Geometria em seu tratado sobre os cinco corpos regulares (tetraedro,
cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro). Assim, o autor referido estaria entrelaçando conhecimentos que, até então,
não poderiam se relacionar segundo os ambientes formais supracitados.
Assim, problemas de área, por exemplo, deixavam a Geometria e passavam a ser tornar problemas em Aritmética
para resolver questões que eles tinham em seu período. Mas essa combinação entre diferentes áreas do conhecimento
não era comum nas Universidades, onde se estudava Geometria e Aritmética separadamente. Podemos observar nos
Elementos de Euclides que não havia uma citação de comprimento de um segmento ou medidas de objetos geométricos
de forma geral. Por exemplo, retângulos eram construídos com linhas retas e ângulos retos, porém as suas magnitudes
não podiam ser dividas ou multiplicadas. E o mesmo pode ser dito com relação às potências e raízes, ou seja, elas não
proviam de resultados de medidas de lados ou áreas de uma figura geométrica plana ou espacial.
Até onde se sabe, essa noção de que medida e número deveriam caminhar separadas, foi preservada até o co-
meço do século XV e eram ensinadas na maioria das escolas da Europa ocidental. Mas isso começou a mudar quando
os árabes e seus conhecimentos começaram a migrar para as regiões da península itálica.
Na matemática medieval dos árabes a noção de magnitude e número estavam próximas, quando as magnitudes
eram tratadas como medidas numéricas. Em particular, eles entediam que noções e operações aritméticas poderiam ser
aplicadas a magnitudes geométricas. Além disso, questões envolvendo potências e raízes poderiam ser solucionadas,
já que problemas geométricos passaram a ser tratados como operações aritméticas.
No entanto, essa mudança não tinha sido teoricamente elaborada e formalizada. E isso pode ser notado nas tradu-
ções dos Elementos de Euclides que foi traduzido para o latim sem levar em conta essas modificações. Assim, podemos
concluir que tal entrelaçamento entre as ciências vieram pelo caminho das ciências práticas ensinadas nas escolas do
ábaco e explicadas em manuscritos.
Sendo assim, sabemos que Della Francesca teve sua formação inicial na Escola do Ábaco, e, posteriormente teve
acesso a documentos tais como uma versão de Os elementos, de Euclides. Então, Piero constrói seu tratado sobre os cinco
corpos regulares, sendo que suas proposições recaem sobre exemplos numéricos a partir de problemas geométricos.

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A Cerâmica como identidade cultural Palikur: um estudo dos
aspectos socioambientais na fabricação de potes, na aldeia Kumenê,
no município do Oiapoque

Jussara de Pinho Barreiros (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC)

O objeto de estudo, deste resumo apresenta como resultado parcial da pesquisa de campo envolvendo as práticas
tradicionais da cerâmica Palikur como identidade cultural e socioambiental na fabricação de potes, na aldeia Kumenê no
município do Oiapoque, no Estado do Amapá. Que objetiva caracterizar os elementos determinantes de caráter cultural
e socioambiental que apresenta um padrão de técnica artesanal e ancestral, que se interpretam na sua significação
histórica e simbólica de sua cosmologia. A modelagem dos objetos que representam o patrimônio cultural e ambiental
como versa a Constituição Federal de 1988 nas questões do meio ambiente. Os conhecimentos ancestrais, no trato
com a utilização da argila branca, na fabricação artesanal potes de cerâmica, especialmente moldados pelas mulheres
indígenas. A pesquisa justifica-se pela importância de analisar os saberes tradicionais compartilhados no campo cien-
tífico e etnográfico com as mulheres ceramistas da comunidade Kumenê, que utilizam, por meio, do manejo dos seus
recursos naturais, deixada pelos seus antepassados que precede tempos remotos da cerâmica Aristé (século V d.C.)
encontrados a partir de escavações em sítios arqueológicos situados em Terras Indígenas, no norte do Estado do Ama-
pá. A metodologia abordou o método qualitativo e a observação participante no Museu Kuahí junto com os alunos do
Curso Intercultural Indígena da etnia Palikur, no período de 2013-2015. A investigação apresenta resultados parciais das
análises da produção de objetos, com destaque para os potes de cerâmica utilizando a argila branca, extraída do fundo
dos poços dos campos alagados formados pela natureza, localizados ao longo do rio Urukauá. Neste estudo, concluímos
que os aspectos culturais e ambientais necessitam de projetos socioambientais que caracterize a identidade cultural
étnico realizado junto às comunidades indígenas buscando parcerias e alternativas que compartilham a responsabilidade
de conservação do saber tradicional no manejo com os recursos naturais, para as gerações futuras, no uso da cerâmica
pré-histórica no Estado do Amapá.

A contribuição de Nicholas Mulcaster para a doutrina


dos temperamentos

Vera Cecilia Machline (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Como é bem sabido, o herborista Richard Mulcaster (1616-1654) estreou uma carreira bastante prolixa em 1649,
com sua insolente versão inglesa da primeira Pharmacopoeia Londinensis. Quatro anos mais tarde, Mulcaster lançou
Galen’s Art of Physick. Bem mais conservadora do que as outras publicações de Mulcaster, era a tradução vernacular –
grandemente comentada – do tratado Techne iatrike de Galeno de Pérgamo (129-c. 200/216).
Também denominado Ars medica, Ars medicina, Ars medicinalis, Ars parva, Tegni, Microtechne e Microtegni, o
tratado em questão foi intencionalmente redigido para ser uma sinopse dos princípios que, consoante Galeno, norteariam
a medicina. Em virtude disso, esse texto já chamara a atenção de pensadores em regiões helenizadas do Mediterrâneo;
e, a partir do século IX, também de luminares do mundo islâmico. Um dos primeiros escritos de Galeno traduzido para
o latim, em fins do século XII passou a integrar a coleção de textos médicos, possivelmente inaugurada por mestres
da Escola de Salerno, conhecida como Ars medicine ou Articella. Finalmente, com o advento do ensino universitário na
cristandade latina, foi leitura obrigatória nas faculdades de medicina até a virada para o Seiscentos.
Os comentários de Mulcaster em Galen’s Art of Physick são pródigos. Geralmente breves, às vezes assomam a
extensos adendos. Mulcaster em pessoa reconhece ter feito uma “longa digressão” no final da passagem em que Galeno
abordara sua hipótese de nove variedades de krasis (i.e., mistura ou fusão), latinizada como (com)mixtio, complexio e
temperatura. Isto ocorre menos nos quatro temperamentos simples, nos quais predomina apenas uma qualidade primária
(viz., quente, frio, seco e úmido); mas avulta no temperamento moderado, no qual as quatro qualidades encontram-se
equilibradas, bem como nos quatro temperamentos compostos, nos quais prevalecem simultaneamente duas qualidades
(ou seja, quente e seco; quente e úmido; frio e úmido; e frio e seco).

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A esses dados, Mulcaster acrescenta por conta própria diversas informações. Entre outras, discrimina traços
fisionómicos inerentes às compleições colérica, sanguínea, fleumática e melancólica; e prescreve alimentos, bebidas e
exercícios apropriados para cada uma delas. Por último, Mulcaster propõe oito compleições adicionais, a saber: colérico-
-melancólica, melancólico-colérica, melancólico-sanguínea, sanguíneo-melancólica, sanguíneo-fleumática, fleumático-
-sanguínea, fleumático-colérica e colérico-fleumática. Nestas composições, as duas qualidades da primeira compleição
predominariam sobre as duas da segunda. Por exemplo, na compleição colérico-melancólica, o quente e o seco da bile
amarela prevaleceriam sobre o frio e o seco da bile negra. Com essas compleições inusitadas, Mulcaster levou adiante
um plano há tempos na ordem do dia. Tratava-se de alargar a gama dos temperamentos humanos, como será detalhado
nesta comunicação.

A Ideia de Revolução Científica na Obra de John Desmond Bernal

Luís Henrique São João Oliveira (PUC-SP)

Este trabalho aborda a ideia de Revolução Científica, no pensamento de John Desmond Bernal (1901-1971), des-
tacado cientista britânico que, entre os anos 1930 e 1960, desenvolveu estudos em História da Ciência baseados em
concepções marxistas.
A Revolução Científica constitui um tema de destaque dentro da História da Ciência e se refere, de modo geral, a
um movimento europeu nos estudos sobre a natureza e as artes, no período que vai do século XV ao XVII. Em que pese
as diversas abordagens que trataram desse tema, a ideia de uma revolução passou a ganhar força durante os anos 1950,
a partir dos trabalhos publicados por Herbert Butterfield (1900-1979) e Rupert Hall (1920-2009). Esses autores defendiam
a ideia de que a Revolução Científica foi o processo pelo qual se construiu o modelo moderno de ciência.
A análise de Bernal sobre esse tema também é apresentada naquela mesma década, porém não em uma publicação
exclusiva, mas como parte do livro Science in History, constituído de dois temários distintos, mas complementares, o
primeiro é composto por uma cronologia da História da Ciência e o segundo se dedica a análise sociológica da ciência
de seu tempo. Um elemento muito importante no constructo de Bernal é como a fundamentação da sua cronologia é
explicada à luz de sua compreensão da ideia de produção da teoria de Marx
Nesse sentido, é recuperado o conceito marxiano de produção, enquanto elemento para a compreensão da história,
uma vez que, para Bernal era preciso compreender os mecanismos sociais e econômicos envolvidos na produção para
se compreender o fazer científico de uma época. Assim, os fatores econômicos e sociais são o pano de fundo para os
elementos os quais busca ressaltar em sua narrativa sobre a Revolução Científica. Entretanto, o fator de destaque do
fazer científico repousa na sua visão sobre os “grandes homens de ciência” entre eles, Leonardo da Vinci, Copérnico,
Galileu e Newton. Bernal tenta ressaltar as características de ruptura destes homens com o modelo aristotélico vigente,
mas sua visão de ruptura vai sendo abrandada ao longo de sua narrativa. Em que na introdução era apresentada como
radical em todos os sentidos, passa a ser mostrada como entremeada de permanências, inclusive algumas julgadas
nocivas e responsáveis pela visão idealista de ciência em sua época.
Por fim, este trabalho aborda a tentativa de Bernal de trazer um novo significado a Revolução Científica, como um
momento especial no qual as ciências naturais passam a não ser apenas determinadas pelos modos de produção social,
mas sim, uma força produtiva fundamental que possibilitaria mudanças no campo social.

A rede documental acerca do cômputo pascal na Roma do século VI

Rodrigo Pires Vilela da Silva (PUC-SP)

O documento De Paschate, de Dionísio Exíguio, do século VI reúne todos os textos deste autor que tratam do
cálculo da data da Páscoa: o Epistola ad Eugipium, Epistola de ratione Paschae e uma tabela De Cyclo Paschale. O texto
estabelecido é de uma edição oferecida pela série Migne Patrologia Latina 67. As fontes explícitas no De Paschate são

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basicamente de três tipos: a Sagrada Escritura, sobretudo o Deuteronômio, por se tratar de um livro bíblico que estabe-
lece regras para o cômputo pascal da comunidade judaica; os Salmos e as Cartas Paulinas, que, neste caso, levantam
princípios para a legislação canônica eclesiástica. 
A literatura canônica é o segundo tipo de textos citados, como Cânones de Niceia (325) e do Concílio de Calcedônia
(451). Nesta sequência, Dionísio evoca por nome e obra autores patrísticos: Atanásio de Alexandria, com as Epistulae
paschales, Cirilo de Alexandria, Canones, Gregório de Nissa, De Conditione humanis, Protério de Alexandria, Epistula ad
Leonem, Teófilo de Alexandria, Cyclos paschalis; todos estes autores citados também por problemas com a data pascal
e suas soluções para cada tempo. No âmbito da História da Ciência, interessa investigar o modo de contagem da Páscoa,
em sua relação com a Astronomia e Matemática disponíveis neste período a estas comunidades.
O fato destes documentos serem localizados sobretudo entre autores de Direito Canônico dá a aparente impres-
são de que não trazem informações sobre o cômputo temporal utilizado para estabelecer a data data da Páscoa, e que
possam servir às pesquisas em História da Ciência. Isto porque, quando estudado, é ligado à legislação que estabe-
lece a contagem do tempo, e não à contagem do tempo propriamente dita. Até os textos nos quais se encontram as
explicações para o cálculo da data pascal são postos na literatura canônica. Através do levantamento bibliográfico,
foi possível fazer aproximação ao contexto do monge Scita e das vertentes historiográficas a respeito deste assunto.
Assim, por este estudo, o objetivo é apresentar o método do cômputo pascal presente no documento De Paschate, de
Dionísio Exíguo, que é demonstrada através desta rede documental.

Ciência e Técnica no livro do Gêneses: a construção da Arca de Noé


na percepção do jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680)

Fabiana Dias Klautau (PUC-SP), Maria Helena Roxo Beltran (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Em 1675, o jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680) publicou uma obra dedicada à história bíblica de Noé, da cons-
trução da Arca, e do Dilúvio. O seu Arca Noë, in três libros digesta trata no primeiro livro – De rebus quae ante Diluvium
– da história de Noé antes do Dilúvio, da construção da Arca e da seleção dos animais que embarcaram. No segundo
livro – De iis, quae ipso Diluvio ejusque duratione – lê-se sobre a duração do Dilúvio e da administração da Arca durante
a inundação. Já no terceiro – De iis, quae post Diluvium à Noëmo gesta sunt – encontramos os feitos de Noé após o
recuo das águas, a comparação do globo terrestre antes e após o Dilúvio e as ideias de Kircher de como teria sido a
dispersão dos homens e dos animais pela Terra após as águas baixarem. O presente resumo dedica-se ao primeiro livro
da obra, em especial no que tange as ideias sobre a construção da embarcação. Kircher escreve que, se o homem foi
criado a imagem e semelhança de Deus, as proporções para a Arca deveriam ser aquelas do corpo humano. Para isso,
no capítulo em que ele discorre sobre as dimensões e mensurações utilizadas para a construção da Arca, é apresentada
uma descrição de medidas e suas relações com as partes do corpo. Essa apresentação é dada através de texto, imagens
e representações esquemáticas. Kircher utiliza a analogia com as proporções do corpo humano encontradas no Tratado
de Arquitetura de Vitrúvio (?-15 a.C), e ele opta por utilizá-las como referência pois as mensurações realizadas por Vitrúvio
teriam sido “certíssimas e veríssimas em suas legítimas partes”. Sobre a sabedoria para a construção da Arca, Kircher
explica que Noé foi tão somente o fabricante da embarcação, mas que o próprio Deus foi o arquiteto, introduzindo em
Noé o conhecimento. Contudo a Arca seria uma manifestação concreta da inteligência de Deus, e baseado nas infor-
mações do livro bíblico do Gêneses, a Arca teria sido feita de madeira gofer, calafetada com betume ou piche, e teria
as seguintes medidas: 300 côvados de comprimento por 50 côvados de largura por 30 côvados de altura, totalizando
450.000 côvados cúbicos. Para explicar essas medidas, Kircher novamente utiliza-se do tratado Vitruviano. Já no plano
básico, a Arca teria sido um tipo de caixa retangular com três níveis, contendo cada um corredores e salas, coberta por
um telhado inclinado com um pico ao longo da linha média da embarcação. No último nível haveriam sentinelas por onde
os excrementos seriam despejados. Mas Kircher não se deteve a apenas um modelo para a Arca, e apresentou através
de imagens outros possíveis modelos para a embarcação. Muitas outras informações técnicas sobre a construção da
embarcação são encontradas ao longo da obra de Kircher as quais pretende-se explorar, mas para finalizar o corrente
resumo salientamos que interessantes contribuições para o estudo das ideias sobre a técnica no século XVII pode-se
extrair ao longo dos estudos dessa parcial leitura da Arca de Noé.

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Ciência, tecnologia e anarquismo: reflexões entre liberdade
e natureza na revista Estudios (1928-1937)

Nabylla Fiori de Lima (UTFPR)

As mudanças ocorridas após a Revolução Industrial, a criação dos Estados modernos e a consolidação do capitalismo
suscitaram reações muitas vezes contrárias à sociedade emergente no período. Corroborando com a visão de mundo
romântica, o movimento anarquista, surgido em meados do século XIX, se opunha à sociedade industrial em todas as
suas dimensões. Sendo assim, iniciaram um movimento popular visando a uma nova cultura da natureza, como base
para a futura sociedade anarquista. Neste trabalho, apresentaremos algumas reflexões acerca da noção de natureza no
anarquismo e as práticas científicas e tecnológicas advindas dessa “nova cultura da natureza”. Focaremos na análise de
alguns artigos da revista espanhola Estudios, que circulou entre os anos de 1928 e 1937. Nas suas páginas, temáticas
como o amor livre, o neomalthusianismo, o naturismo, a plasmogenia, bem como textos de divulgação científica e tec-
nológicas se faziam presentes. Os/as anarquistas compreendiam a imprensa como um dos instrumentos privilegiados
para a edificação de uma nova cultura e a difusão de uma intelectualidade própria, alternativa e revolucionária. Assim,
as revistas podem ser consideradas como elementos culturais e políticos, constitutivos e constituintes de uma história
social de classes e, simultaneamente, da produção e reprodução de conhecimento científico pelos/as anarquistas. Os/
as libertários/as não eram apenas consumidores passivos da produção científica e tecnológica; se apropriavam dos
conhecimentos, os ressignificavam, e participavam ativamente do desenvolvimento de ciência e tecnologia a partir
de bases contra-hegemônicas. O movimento anarquista questionava em sua prática a moral e os costumes vigentes.
Dessarte, os/as libertários/as construíam reflexões sobre diversas questões das vidas dos indivíduos e percebiam,
assim, a relação entre técnicas de dominação da natureza e técnicas de dominação das pessoas. A revolta romântica
à sociedade capitalista levaria a diversas concepções de natureza – considerando-a como portadora de uma história
e modificável pela tecnologia humana – e, decorrente desta, visões próprias de evolução. Deste modo, os anarquistas
individualistas buscaram unir a ética da autodeterminação individual à compreensão da interdependência entre socie-
dade e natureza, valorizando o respeito mútuo entre seres humanos e não-humanos, ideal que John Tresch chamou de
freedom-in-connection – constituindo, assim, uma filosofia da natureza libertária marcada por uma inversão da lógica
das tecnologias biopolíticas hegemônicas no período. Desse modo, nas páginas da revista Estudios é possível encontrar
possibilidades diversas para a constituição de ciência e tecnologia sob bases libertárias.

Evolução e Desejo na Obra “Os Superhumanos” (1929) de Han Ryner 

Gilson Leandro Queluz (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)

Este trabalho pretende compreender o conceito de evolução no livro “os Superhumanos”, escrito pelo anarquista
individualista francês Han Ryner, publicado em 1929. Nesta novela distópica, Han Ryner descreve o processo evolutivo
terreno após o cataclisma provocado pelo aparecimento de um segundo sol, a “estrela de fogo”. A remodelação plástica
da matéria- espiritual provocada pelo caos evolucionário que se seguiu ao aparecimento deste novo sol, pela influência das
extraordinárias tempestades elétricas e magnéticas, fora acompanhada pela possibilidade, por parte de alguns humanos
de redefinir seu próprio ser, corporal e espiritualmente, através da força psíquica do desejo. Desta forma, após alguns
milênios e explorações multiformes do ser ocasionadas por diversas reencarnações, constituiu-se a casta dos super-
-humanos, dividida em três categorias: aqueles que desejavam as asas do amor e da espiritualidade transmutaram-se
nos diáfanos Superanjos; aqueles que desejavam transcender a morte transformaram-se nos encouraçados Imortais;
e aqueles que ansiavam pelo poder e inteligência viraram os magnificados Superelefantes. O romance apresenta uma
teoria da evolução hibridizada, a qual mistura elementos lamarckianos com concepções evolucionárias de cunho místico
e profético, como aquelas propostas por Michel Savigny, e compiladas por seus filhos George e Edmond Savigny no
livro “ Les Adamites” (1906). Neste sentido, na novela, os humanos que desenvolvem o poder de transmutação de seus
corpos, transformamdo-se nos super-humanos, são essencialmente seguidores da filosofia hexagramista de Savigny, que
concebe que a humanidade passaria por seis grandes cataclismas, correspondentes ao domínio de uma espécie animal
superior no plano terrestre. Para ele, não é a função, mas o desejo que cria o organismo. Estas hibridizações evolucio-

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nistas oriundas de diversas fontes, se aprofundam pela utilização das concepções cínicas e libertárias, características
da visão filosófica de Han Ryner, no espaço imaginário da ficção científica, servindo como base de uma irônica crítica
das plurais e canhestras manifestações humanas em sua luta pelo poder e sobre as próprias concepções nietzschianas
do superhomem.

Gödel e Turing: A Teoria da Computação

Danilo Gustavo Bispo (CESIMA), Jose Luiz Goldfarb (Pontificia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP)

Quando pensamos na história do computador ou do smart phone estamos seguros de que o assunto é tecnologia;
para muitos a “maior revolução tecnológica na história da humanidade”. A história da computação seria entendida nesta
perspectiva como uma história de transformações tecnológicas. 
Tomando um rumo diverso, neste trabalho procuramos mostrar o quanto a computação inclui em sua história
problemas teóricos relacionados aos fundamentos da lógica e da matemática na virada do século XIX para o século XX,
problemas oriundos de vários desenvolvimentos do XIX, especialmente o surgimento das novas geometrias não eucli-
dianas que colocam em questão a verdade e objetividade no domínio tido como inabalável da matemática e da lógica.
Através dos teoremas apresentados por Kurt Gödel e Alan Turing – respondendo negativamente a algumas questões
do famoso “programa de Hilbert” – vamos relacionar estes desenvolvimentos teóricos ao surgimento dos modernos
algoritmos e suas codificações, a verdadeira alma da ciência da computação e suas múltiplas e mirabolantes aplicações
tecnológicas. Nossos documentos primários serão os artigos publicados por Gödel (On Formally Undecidable Propositions
in Principia Mathematica and Related Systems, 1931) e por Turing (On Computable Numbers, with an Aplication to the
Entscheidungsproblem, 1936). Assim procuraremos demonstrar o quão complexas podem se dar as relações históricas
entre ciência e técnica: aonde esperávamos encontrar questões práticas como manipulação de materiais para a cons-
trução das máquinas computacionais, buscando maior capacidade de processamento e armazenamento de memória,
somos surpreendidos com fantásticas construções teóricas e formais de Gödel e Turing. Finalmente arriscaremos adiantar
algumas consequências destas reflexões históricas sobre computadores e smart phones, apontando possíveis limites
da computação e da sociedade digital. Afinal, podemos aprender alguma lição com Gödel e Turing e suas provas da in-
completude, não decidibilidade, e não demonstrabilidade da consistência, para avaliarmos os limites dos computadores?

Marie Meurdrac: ideias sobre a composição da matéria

Lais dos Santos Pinto Trindade (PUC-SP)

O La Chymie Charitable et Facile en Faveur des Dames é a única obra conhecida atribuída a Marie Meurdrac e foi
publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1666. Levando-se em conta o número de edições e reimpressões conhe-
cidas, treze ao todo, foi uma obra relativamente apreciada no seu tempo. Pela importância que confere aos processos de
destilação e pela forma de organização da obra, Meurdrac pode ser considerada herdeira das tradições antiga e medieval
que destacava a superioridade dos medicamentos obtidos por meio da destilação dos vegetais. Sua própria concepção de
Química está vinculada à destilação, procedimento que permitiria extrair de os três princípios constituintes da matéria, a
saber: sal, enxofre e mercúrio. Por entender que a matéria fosse assim constituída estudiosos da atualidade a identificaram
como paracelcista. No entanto, uma análise mais profunda e detalhada de sua obra revela que a autora foi influenciada
por diferentes correntes de pensamento. Assim, o objetivo deste trabalho é identificar as possíveis fontes que auxiliaram
a consubstanciar as ideias de Meurdrac sobre a constituição da matéria. Meurdrac aceitava a existência de um princípio
universal uno presente em todas as coisas, mas suas observações sobre a constituição da matéria tinham um caráter
mais operacional estruturando-se a partir da prática, da observação dos produtos obtidos das destilações. Dessa forma,
sustentava que a matéria era composta por três princípios, mas que seriam, cada um deles, desdobrados em outros três,
como no mistério da Santíssima Trindade. Assim, existiriam três diferentes formas de sal, enxofre e mercúrio. Nessa
associação ternária dos princípios, é provável que Meurdrac tenha sido influenciada por Joseph Du Chesne, que admitia

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que mesmo podendo ser separados por meio da destilação, permaneciam unidos à mesma essência. Por outro lado,
sua obra é muito semelhante, especialmente em termos de estrutura e forma de organização, a outros livros de Química
publicados em Paris naquele período. No entanto, difere daqueles autores quanto às apreciações sobre composição da
matéria. Nesse caso, as ideias de Marie Meurdrac se aproximam das de Jean de Beguin, exposta no livro Tyrocinium
chymicum, de 1610, que mais tarde, em 1615, foi traduzido para o francês como Les Elemens de Chymie, de Maistre
Jean de Beguin Aumosmier du Roy. Essa obra contou com mais de quarenta edições ao longo do século XVII e tornou-se
o modelo para outras obras publicadas com a mesma finalidade. Assim, é provável que também tenha sido uma fonte
importante para a composição da obra de Marie Meurdrac.

Missivas para a Ciência: o percurso histórico de um conhecimento


técnico-científico

Elias da Silva Maia (MAST – MCTI)

Entre 1938 e 1941, um engenheiro químico militar fez parte de uma comissão que viajou à Europa, sua função era
examinar instalações das fábricas de armamentos. Parte dessa observação foi abordada em correspondências que por-
tavam informações dos processos e teorias sobre produção de pólvoras e outros produtos, sendo esses documentos um
meio para circulação daquele conteúdo. Esses registros fazem parte do percurso histórico de determinado conhecimento
técnico e científico, que evidencia o constante processo de construção de um saber, expondo as divergências e dúvidas
no seu desenvolvimento. Sob esse ponto de vista, a ciência e a técnica são vistas em interação com a sociedade, suas
instituições e os lugares de produção do conhecimento.
O objetivo consiste em explorar o potencial presente nas cartas, considerando esses documentos testemunho
do desenvolvimento da C&T brasileira, como também, reflexo das intenções de grupos e instituições. O olhar sobre a
relação que envolve estes elementos, indicam as transformações que passaram os conhecimentos científicos e técnicos,
sendo esses registros vistos como o próprio conhecimento. Vemos essas cartas contribuindo de forma relevante para
determinado segmento das Forças Armadas, no qual os procedimentos tomados para a produção de uma determinada
substância (pólvora de base dupla) beneficiaram uma fábrica militar no município de Piquete/SP.
Essa intenção está presente nos documentos e identificada no diálogo estabelecido entre o capitão Orlando
Rangel e outros oficiais, apontando a interação entre ciência e tecnologia e os diferentes discursos sobre elas. Embora
as cartas possuam um discurso e uma razão para existir, não podem ser vistas como algo que reproduz exatamente
a realidade. Seu conteúdo não está dissociado do contexto de sua produção. Sugere-se uma crítica interna desses
registros, que se proponha a apreender aspectos sobre a credibilidade das informações, interpretando e argumentado
sobre seu conteúdo. A informação que se desejava transmitir e o contexto da sua produção, fazem parte de uma
realidade no qual os autores estavam inseridos e expõem uma forma de diálogo em relação a ciência e técnica sob o
ponto de vista histórico.
Há mais de 30 cartas trocadas entre o engenheiro químico militar e outros técnicos militares residentes no Brasil,
além de outros documentos relacionados à viagem no acervo do cientista. A comunicação através desses registros se
deu de forma direta e de caráter privado, onde as cartas trocadas se referem à construção desse conhecimento, que
quando é analisado, expõe a interação de diversos elementos. Na abordagem proposta, considera-se a investigação
desde a intenção de sua produção, passando pelo seu contexto geral, até chegar a função das suas informações. Com
isso, indicamos a possibilidade de diferentes abordagens que envolvam o diálogo entre a ciência e a técnica, incluindo
suas aplicações nos objetivos estabelecidos pelo Exército.

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Os lapidários medievais e as doenças femininas: um estudo de caso
a partir do Liber Lapidum do MS Rawlinson A 273 (c. século XIV)

Ana Maria Alfonso-Goldfarb (PUC-SP), Raíssa Rocha Bombini (PUC, São Paulo)

O manuscrito Rawlinson A 273, do século XIV (mais provavelmente da segunda metade), tem, entre seus diver-
sos textos, um lapidário anônimo intitulado Liber Lapidum (f. 64v – f. 68v), que apresenta a origem, as características
físicas e as virtudes ou poderes ocultos de cinquenta pedras. Assim como em outros Lapidários medievais, as pedras
deste contêm as mais diversas virtutes, entre as quais estão: aplacar dores em partes específicas do corpo, expelir
venenos, tirar a febre, afastar visões fantásticas, afastar doenças, tornar alguém amável, curar os insanos etc. Contudo,
para nosso propósito de pesquisa, interessa-nos uma seleção de pedras, ainda deste lapidário, que teriam o poder de
proteger mulheres grávidas, de ajudá-las no parto e/ou de dar leite em abundância. Este é o caso, por exemplo, da
Jaspide, da Galactica e da Ethide. É sabido que o século XIV – e em grande parte a baixa Idade Média – foi acometido
por várias calamidades e tragédias, como a fome, as doenças epidêmicas, como a peste, e a guerra. Isso se aplica, em
grande parte, à Grã-Bretanha, onde o manuscrito em questão parece ter sido realizado. Tais infortúnios tiveram como
consequência uma queda populacional grande, como mostram vários estudos sobre o declínio demográfico inglês no
final da Idade Média, que, em grande parte, afetou as mulheres. Acredita-se, portanto, que esse declínio poderia estar
relacionado à preocupação em se amparar as mulheres grávidas e, consequentemente, as crianças que estariam por
vir. Ademais, o fato de se reproduzir essa literatura em um manuscrito dispendioso, e com o que aparenta ser uma
seleção de pedras, poderia ser um sinal importante de que havia um interesse ou necessidade em se conhecer aquelas
virtutes, devido ao momento de provação em que a população se encontrava. Portanto, pretendemos discutir com esse
trabalho a importância de se reproduzir, na Inglaterra do século XIV, tais pedras voltadas à saúde da mulher, dentro de
um lapidário de aplicações também médicas, e como isso poderia ser um reflexo das calamidades que os atingiam e
de como lidavam com elas.

Paul Langevin e a difusão do conhecimento

Decio Hermes Cestari Junior (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Os primeiros passos do físico Paul Langevin (1872-1946) como pesquisador coincidiram com a divulgação da des-
coberta dos raios X pelo alemão Wilhelm Conrad Roentgen (1845-1923). Havia, naquele período, um grande interesse por
experimentos e fenômenos nos quais se manifestava a emanação de radiações: raios catódicos, raios-X, fluorescência e
radiações do urânio. Os raios-X receberam uma rápida atenção devido ao seu uso quase imediato na medicina. Além disso,
a repercussão dessa descoberta na imprensa não especializada aproximou o trabalho científico do grande público. Dentro
desse contexto, que instigava os cientistas ao projeto de aplicações prática para essas novas descobertas, o parisiense Paul
Langevin trabalhou ao lado de importantes cientistas, entre eles: o casal Pierre Curie (1859-1906) e Marie Curie (1867-1934)
e os físicos Henri Becquerel (1852-1908) e J. Thomson (1856-1940). Entretanto, fora da França, não se tornou tão famoso
como eles, ou como consta no prólogo de sua biografia, ele se tornou “...célebre o suficiente para ser desconhecido.”. 
A prática científica já há muito tempo provocava debates e disputas entre os homens de ciência. Também já não
era novidade a publicação de trabalhos em periódicos especializados no período em que Langevin se destacou como
“especialista” na difusão das novas teorias da Física. Ele participou ativamente dos principais debates científicos da época.
Sua proposta era construir uma ciência que se tornasse acessível, de modo a permitir que a humanidade continuasse em
sua marcha. Em um pronunciamento em 1932, Langevin afirmou que o progresso científico e técnico ainda não estava
verdadeiramente integrado na cultura geral. Nesse aspecto, ele se julgava completamente capaz de cumprir com o dever
da difusão da verdadeira ciência, como um dos aspectos de sua ação social.
Langevin destaca a dimensão coletiva da ciência afirmando que a trabalho científico não é arbitrário nem isolado, pois a
ciência não seria apenas o senso comum “mais avançado” Com a finalidade de divulgar o conhecimento científico Langevin,
além de publicar em diversos periódicos especializados, participou de uma série de eventos em rádios francesas e se envolveu,
junto com outros cientistas, em projetos de divulgação em exposições, museus, enciclopédias e universidades populares.

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Registro e comunicação de conhecimentos medievais sobre
as ciências da matéria: o Liber servitoris de Abulcasis

Maria Helena Roxo Beltran (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Liber servitoris (Livro servidor) foi o título atribuído à tradução do vigésimo oitavo livro dos trinta que compunham
a enciclopédia médica Kitab al-Tasrif escrita pelo médico Abu al-Qasim Khalaf ibn Abbas al- Zahrawi. Abulcasis, como
ficou conhecido no mundo latino, viveu na região de Córdoba entre o final do século X e início do XI. Parte de sua obra foi
traduzida ao latim a partir da segunda metade do século XII. O vigésimo oitavo livro circulou na Europa como manuscrito
em tradução latina realizada por Simão de Gênova no século XIII, a partir de uma versão ao hebraico por Abraão Judeu
de Tortosa. Essa mesma tradução passou às prensas venezianas de Nicolaus Jensen já em 1471, portando o mesmo
título do manuscrito, a saber, Liber servitoris Liber xxviii. Bulchasi Benaberazerin translatus a Simone ianuense interprete
Abraã judeo tortusiensi. O fato de estar entre os primeiros livros impressos já aponta a relevância desse texto, uma vez
que das pioneiras prensas europeias saiam principalmente os livros que tinham uma previsão de público considerável.
Dessa forma, o incunábulo que selecionado para o presente estudo reproduz, em meados do século XV, uma tradução
feita no século XIII. 
O Liber servitoris é apresentado no prólogo como uma compilação baseada em muitos livros de medicamentos,
trazendo o modo de preparar os remédios que deviam estar à disposição dos médicos, constituindo, portanto, um livro
de grande ajuda e daí o nome de livro servidor. Esse livro é dividido em três tratados correspondentes a medicamentos
originados de minerais, vegetais e animais, ou seja, de cada um dos três reinos da natureza. Nota-se que, especialmente
no tratado referente às plantas, várias são as referências que o autor ártabe faz a Dioscórides (sec. I).
Assim, neste trabalho pretende-se analisar essas referências ao texto originado na antiga Grécia, buscando
indicações do papel do Liber servitoris como mediador no registro e comunicação de conhecimentos no medievo e na
primeira modernidade.

Revisitando discursos oficiais sobre a Linha Férrea Paranaguá-


Curitiba: representações sobre a Natureza, ciência e tecnologia
na construção da ferrovia

Gilson Leandro Queluz (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), Mariana Prohmann (UTFPR)

Esse trabalho tem o intuito de analisar a partir da documentação oficial sobre a construção da Linha Férrea Paranaguá-
-Curitiba, as representações sobre a Natureza neste contexto. Aqui se entende que as representações discursivas desta
ferrovia mobilizaram milhares de pessoas, recursos e repercutiram nas diversas formas de lidar e responder a ela no
imaginário popular quando de sua criação na década de 1880. A escolha dessa fonte documental parte do pressuposto
que os discursos que circulavam nas instituições do governo e eram registradas em suas documentações como oficiais,
podem auxiliar a entender aspectos da visão de mundo de um grupo ou grupos de pessoas que embora não fossem
homogêneos, expressavam através da linguagem posições de valor, de crença em um projeto de sociedade e o esforço
de legitimá-lo por meio da comunicação e registros. Assim, trazer elementos sobre como a Natureza aparece retratada
nestes discursos pode auxiliar a compreender aspectos de uma visão de progresso e de industrialização. A ciência e a
tecnologia, ainda que nem sempre referidas por estes termos naquele período, apareciam nos discursos oficiais como
propostas práticas que mobilizaram as regiões envolvidas nos trechos da Linha Férrea, bem como um contingente de
trabalhadores, especialistas, usuários, representantes oficiais e recursos financeiros e materiais. Entender com, ou, contra
quem os meios oficiais estavam dialogando, também é caro a esta proposta, ao procurar identificar formas contesta-
tórias ou divergentes de pensar a sociedade e mais especificamente o projeto para as estradas de ferro e a Natureza.
Este texto também realiza uma revisão historiográfica que busca sistematizar pesquisas e produções cientificas contra
hegemônicas sobre a concepção de Natureza. Por fim, o texto se encerra defendendo o argumento de que se debruçar
sobre as múltiplas formas de conceber determinado projeto tecnológico pode auxiliar a entender aspectos de um contexto
mais amplo de sociedade, com suas tensões, disputas e concepções de mundo.

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Sobre o espaço e o lugar nos tratados de Arquitetura entre os séculos
XV e XVIII

Carla Bromberg (CESIMA PUC/SP)

Na arquitetura, a noção de espaço pode se concretizar através de construções, mas também através dos desenhos,
nos quais reduções destes espaços são representadas através de esquemas (como as fachadas, plantas baixas, de
elevação ou sessões). No século XX, a arquitetura foi denominada pelo historiador e arquiteto Bruno Zevi (1918-2000)
como a ciência do espaço. Todavia, no período renascentista, ela era conhecida como uma das artes do desenho, com-
petindo com a pintura e a escultura em prioridade, como aparece na obra de Giorgio Vasari; mas também alçava posto
dentre as ciência/artes matemáticas. 
Foi somente no século XX que a literatura assumiu a relevância das discussões sobre o espaço na história da
teoria arquitetônica. A noção de espaço, e não mais de lugar, foi introduzida na história durante o século XIX através dos
escritos de August Schmarsow (1853-1936). Este autor encontrava-se dentre os intelectuais alemães que discutiam,
num determinado contexto histórico e estético uma abordagem científica da arte e foi a partir dela que o espaço passou
a dominar a literatura histórica da arquitetura invadindo o século XX. 
A diferença entre arte e ciência para Schmarsow acontecia porque a ciência descreveria o conhecimento do espaço
através de modelos abstratos enquanto a arte faria algo com ele. Enquanto o século XX estabeleceu uma dicotomia
entre arte e ciência, nos séculos anteriores esta interpretação não se estabeleceu, dado que arte e ciência respondiam
a outros parâmetros de classificação que não necessariamente se posicionavam de forma dicotômica. 
Neste trabalho, pretende-se analisar quais foram os tipos de relações lugar-espaço que se deram nos tratados
de arquitetura. Pata tal, será necessário compreender as diversas naturezas da arquitetura e quais os elementos que a
constituíram. Supõe-se que as noções de espaço e lugar devam se fazer presentes tanto através de discussões concei-
tuais (teóricas), como através das representações (desenhos), ou ainda a partir das análises das próprias construções. 

Um estudo preliminar sobre a percepção do espaço no contexto


da óptica (perspectiva) quinhentista

Fumikazu Saito (PUCSP)

No século XVI, parece já existir a convicção de que aquilo que é visto é aquilo que é desenhado, e aquilo que é
desenhado é aquilo que lá está. Ou seja, há uma retórica que parece assegurar uma correspondência entre a visão e a
representação de objetos. Diferentemente dos estudos medievais, os tratados dedicados à óptica (entenda-se aqui pers-
pectiva) publicados naquele período parecem ter abandonado gradativamente as indagações acerca da visio, passando
a enfocar problemas específicos de representação. Esse movimento, que implicou no rompimento entre as teorias de
visão e as teorias de representação aceitas naquela época, não pode ser resolvido de forma simples e óbvia. Isso porque
a relação entre o objeto visto e representado é muito mais complexa do que parece ser à primeira vista. Comumente,
essa relação é discutida e examinada à luz das técnicas pictóricas de representação da perspectiva linear, procurando
fundamentá-la numa teoria geométrica visual, tendo por base os pressupostos da óptica euclidiana. Contudo, para que
a teoria da visão geométrica euclidiana tivesse êxito, foi necessária uma teoria matemática da representação muito
diferente daquela com a qual os estudiosos estavam acostumados até então. O desenvolvimento dessa teoria requisitou,
dentre outras coisas, uma mudança conceitual relacionada à visio e não à representação geométrica do espaço físico
propriamente dita. Desse modo, tendo por base a crítica de Giambattista della Porta à Optica de Euclides, este trabalho
procura tecer algumas considerações de ordem teórica sobre a estreita conexão entre teorias da visão e da represen-
tação do espaço no século XVI. Em De refractione optices parte libri novem, publicado em 1593, Della Porta observou
a artificialidade por trás da explicação geométrica da visão proposta por Euclides. As críticas arroladas por Della Porta,
entretanto, não estavam relacionadas diretamente ao tratamento geométrico dado por Euclides ao processo visual, mas
à interpretação da percepção visual dos objetos no espaço.

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Uma breve análise sobre as conclusões dos estudos do conde
Rumford sobre a propagação do calor no vácuo de Torricelli 

Eliade Amanda Alves (PUC-SP)

Este trabalho é parte de pesquisa de Doutorado realizada no Programa de Estudos Pós-Graduados em História
Ciência/CESIMA PUC-SP. Nele buscaremos apresentar uma breve análise a respeito das investigações de Benjamin
Thompson (1753-1814), o conde Rumford, a respeito da natureza do calor. Naquele período, a teoria que explicava o
calor era a teoria do calórico. De acordo com ela, o calor seria um fluido imponderável presente em toda a matéria.
Entretanto, Rumford não estava de acordo com essa concepção material do calor. Segundo ele, a propagação do calor
ocorreria através das ondulações em um fluido etéreo geradas pelas vibrações das partículas constituintes dos corpos.
No entanto, Rumford apresentou essa hipótese do calor apenas em 1804 no artigo “An enquiry concerning the nature
of heat, and the mode of its communication”. A elaboração da hipótese do calor desenvolvida por ele foi resultado de
um longo processo, iniciado em 1785, pelo estudo da propagação do calor no ar, no vácuo de Torricelli e em meio como
lãs, pele de animais e outros utilizados no aprimoramento de utensílios empregados no confinamento do calor. Sendo
assim, Rumford se dedicou ao estudo do calor tanto numa perspectiva teórica quanto numa perspectiva utilitarista. A
partir dos resultados de suas primeiras observações sobre a comunicação do calor no vazio, Rumford relacionou o poder
de condução do calor aos diferentes níveis de rarefação do ar. A partir dessas investigações, Rumford concluiu que a
propagação do calor no ar não estava relacionada à densidade desse meio. Nessa pesquisa, utilizamos como principal
documento o artigo “New experiments upon Heat” dedicado às investigações sobre o comportamento do calor no ar e
no vácuo de Torricelli, publicado no periódico científico Philosophical Transactions em 1786 . Assim, apresentamos uma
possível interpretação de como as conclusões do conde Rumford a respeito do experimento da propagação do calor no
vácuo de Torricelli corroboraram a sua hipótese definitiva sobre o calor publicada apenas em 1804. 

Uma história da velhice e do rejuvenescimento nas cidades


de São Paulo e do Rio de Janeiro na década de 1930 

Edivaldo Gois Junior (Unicamp)

O vocábulo “envelhecimento” tem o intuito de delimitar um processo que não é determinado biologicamente, mas,
sobretudo “socialmente produzido” (Debert, 2006), pois “a idade cronológica, nas sociedades ocidentais, é estabelecida
por um aparato cultural” (Debert, 2004, p. 47). Particularmente, no Brasil, até os anos de 1960, o termo proferido para se
referir a este grupo etário era simplesmente denominado como “velho”, o que não era considerado pejorativo (Peixoto,
2006), já que a palavra “idoso” era raramente pronunciada. Também podemos observar nas fontes que, na década de
1930, as palavras “velho”, “velha” e “velhice” eram mais recorrentes. Por isso para dar voz às fontes, neste texto, o
termo velhice terá este e outros sentidos sussurrados pelos vestígios deixados pelos documentos, que chamamos de
representações (Chartier, 1991).
Mais especificamente, ao delimitarmos nosso olhar, estudamos as representações que emergiam das formas de
envelhecer e ser velho nos espaços urbanos de grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro. Em relação
ao recorte temporal, interessou-nos, em particular, a década de 1930, que no Brasil, se não representou as primeiras
iniciativas de uma aproximação com os princípios da modernidade, possibilitou a análise de um período conflituoso, no
qual o anúncio do moderno, paradoxalmente, era imposto por uma elite tradicional e autoritária (Martinho, 2010). Partimos
do pressuposto que teriam ocorrido “lutas de representações” (Chartier, 2002) no campo cultural, ao evidenciarmos
diferentes posturas perante os preceitos seculares da modernidade, tanto em uma perspectiva de adesão, mas também
se apropriando ou, então, resistindo à racionalidade moderna. Enfim, onde as representações transitavam entre a tradição
e a modernidade, sem se opor diametralmente, mas se imbricando, constituindo os modos aceitáveis de se envelhecer.
Assim, as cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras, davam vazão, por meio de políticas públicas de urba-
nização, educação e saúde (Hochman, 2005), mas também de iniciativas privadas, a uma série de técnicas, tecnologias,
produtos e mercadorias que educavam o olhar sobre os corpos, e, por conseguinte, os corpos velhos. 

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Nossa proposta nesta investigação foi interrogar as fontes sobre como a velhice era representada mediante um
projeto moderno voltado aos corpos em um Brasil urbano na década de 1930. Nas principais cidades brasileiras na
década de 1930, observamos a partir das fontes uma variedade de representações sobre a velhice, mas também o
inicio de uma responsabilização dos indivíduos em relação à administração do envelhecimento. Analisamos, entretanto,
algumas particularidades da modernidade brasileira que propiciaram apropriações e resistências próprias em relação aos
discursos de medicalização da velhice.

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ST 08. Ciência e tecnologia: a idéia de progresso
e seus desafios

A formação do conceito de memória na segunda metade


do século XIX

Fernanda de Almeida Eira Garcia (Universidade de São Paulo)

A recente história das Neurociências podem ter raízes na Psicologia, ou mais precisamente na Psicologia Experimental
da segunda metade do século XIX. O fenômeno da Memória, objeto de investigação contemporâneo às neurociências,
podem agregar indícios sobre as concepções históricas que contribuíram para a reflexão e constituição deste quanto
conceito cientifico.
O século XIX teve um destaque quanto a mudanças de paradigmas na ciência. O acesso à instrumentos, e a
elaboração de técnicas e métodos deram subsídios para a reflexão sobre a constituição do tecido nervoso, e agregou
adeptos a Teoria Neuronal, e atenuou a visão Reticular do Sistema Nervoso.
Porém, há uma ruptura com os saberes anteriores? A preocupação, no século XIX, em compreender a “verdade”,
pela razão ou pelos sentidos do sujeito, de um fenômeno com caráter psico-biológico, ainda está presente nas agendas
de pesquisa contemporânea? E nos estudos de entidades subjetivas e intrínsecas ao sujeito, como constituiu o conceito
de memória? Tal conceito ainda encontra-se presente nas obras consagradas e utilizadas como “livro base” para o ensino
nas Universidades?
Sendo assim, a obra “The Principles of Psychology”, do Prof. Dr. William James (1842-1910), que foi escrita e
publicada na segunda metade do século XIX, será o norteador deste projeto. Porque foi uma obra de grande impacto e
serviu como um manual importante para o ensino nas universidades na virada dos séculos.
Entretanto, pretendemos analisar, por meio da estrutura textual, a formação do conceito de memória presente no
capítulo XVI “Memory”. Assim, extirpar o caráter sistemático e orgânico do texto, e a lógica interna do pensamento do
autor, em relação ao termo “memória”, e a concatenação argumentativa das teses, e os autores em que baseou para
conceituar a Memória humana.
Contudo, a fim de estabelecer uma metodologia de pesquisa, em que consiga-se inferir com maior rigor o conceito
de memória, na segunda metade do século XIX, será organizado um mapeamento das obras que serviram de base teórica
para o Prof. William James no capítulo analisado. E a conjuntura vigente do período, para estabelecer as dimensões, a
fim de evitar os juízos a priori pelo pesquisador, e indicar a magnitude do problema.
Levando-se em consideração esses aspectos, espera-se tornar inteligíveis a formação histórica dos conceitos
associados à neurociência. Sendo os estudos em história e filosofia das neurociências ainda imaturos quando compara-
dos com as pesquisas experimentais, majoritariamente mais presente nos departamentos científicos. Assim, almeja-se
contribuir com a difusão dessa linha de pesquisa, tão importante para o desenvolvimento e consolidação da neurociência
em sua recente história de formação enquanto disciplina científica.

A idéia de progresso em duas instituições de apoio ao setor agrícola


do Brasil Império, na segunda metade do século XIX

Carlos Alberto dos Santos (Embrapa (quando na ativa))

Ao longo da história a agricultura tem sido, em todo o mundo, uma atividade de grande importância socioeconômica.
Seu início ocorreu há aproximadamente 11 mil anos, portanto, ainda na pré-história. Do seu surgimento, com procedi-
mentos, práticas e sistemas de produção primitivos, até os dias atuais, a agricultura modificou-se significativamente pela

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inserção da ciência, da técnica e da tecnologia nos seus processos de produção e na sua gestão, propiciando benefícios
para a sociedade decorrentes de aumentos da produtividade e da eficiência econômica, do controle de doenças e pra-
gas, da melhoria da qualidade dos produtos agropecuários etc. Esses são alguns indicadores dos ganhos agropecuários,
quantitativos e qualitativos, mas que também expressam a idéia de progresso. No presente trabalho os objetos de
estudo são duas instituições de apoio ao setor agrícola do Brasil Império, na segunda metade do século XIX: a Escola
Agrícola União e Indústria (EAUI) e a Associação Brazileira de Acclimação (ABA). Essas instituições posicionavam-se,
de fato, como lugares de produção e comunicação de saberes. A EAUI foi inaugurada pelo Imperador D. Pedro II, em
junho de 1869, em Minas Gerais. Sua missão institucional era formar, por meio do ensino técnico profissionalizante,
teórico e prático, pessoal de nível médio com conhecimentos suficientes para dirigir estabelecimentos agropecuários,
quer como proprietários, quer como administradores a serviço de terceiros. Foi um dos primeiros estabelecimentos de
ensino agrícola do Brasil. Compunha a estrutura de uma empresa privada, a Companhia União e Indústria. A ABA, também
uma instituição privada, foi fundada sob a proteção de D. Pedro II e instalada em junho de 1873, no Rio de Janeiro. A sua
missão institucional era contribuir para o melhoramento genético de plantas e animais no Brasil, inclusive por intermédio
da atividade de aclimação. Os objetivos do presente trabalho são identificar e analisar alguns indicadores da idéia de
progresso na EAUI e na ABA, instituições de apoio ao setor agrícola do Brasil Império, na segunda metade do século
XIX. Da análise das informações concluiu-se que a EAUI e a ABA interagiam e dialogavam com a idéia de progresso, pois
nas suas ações e atividades, no cumprimento das missões institucionais, buscavam a inserção da ciência, da técnica e
da tecnologia, no setor agrícola, contribuindo para a modernização e o desenvolvimento desse setor, no Brasil Império,
na segunda metade do século XIX.

A matriz hidrelétrica no Brasil: o surgimento do Código de Águas


nos saguões da Primeira República

Alexandre Ricardi (FFLCH – USP)

No Brasil a matriz hidrelétrica passou a ser preponderante a partir do começo do século 20, quase ao mesmo tempo
em que o carvão ia sendo abandonado devido ao custo da importação cada vez mais alto. Assim, a primeira grande usina
hidrelétrica construída no Brasil, em São Paulo, foi a usina de Parnaíba em 1901, alcançando 16,000 kW em 1911. Após
isso, foi construída a usina de Fontes no Rio de Janeiro, em 1908 com 24,000 kW; usina do Itupararanga, em 1914,
com 30,000 kW, alcançando 56,000 kW em 1925 e a usina do Cubatão, construída em 1926, alcançando 76,000 kW
em 1928. Todas essas usinas foram construídas pela Brazilian Traction Light and Power através de suas subsidiárias.
Isso significou que o capital estrangeiro tomou a iniciativa para desenvolver esse setor, mas manteve o monopólio
sobre ele por quase 80 anos nos maiores mercados consumidores. A legislação brasileira começou a surgir em 1905 na
forma de um Código de Águas redigido por Alfredo Valladão, mas que não foi aprovado devido à influência da companhia
estrangeira junto à classe política, permanecendo na Câmara dos Deputados. O governo nacionalista de Getúlio Vargas
conseguiu aprovar esse Código em 1934, após gestão enérgica de Juarez Távora, Ministro da Agricultura então. Lançou
as bases também para a criação de uma companhia estatal para desenvolver o setor elétrico, a Eletrobrás. Aqui nós
pensamos retraçar esse período de trinta anos em que essa legislação ficou atravancada, demonstrando como esse
transcurso refletiu o entrelaçamento entre a aspiração pública e o interesse privado.
O país nunca produziu turbinas, dínamos, motores, mantendo uma posição subordinada na Divisão Internacional
do Trabalho/Produção no setor elétrico. Após longo tempo, passou a produzir fios e postes. Foi esse interregno conse-
quência da ação dos monopolizadores do setor evitando a legislação que daria maior ênfase ao desejo público? O atraso
tecnológico no país, não participando da produção de materiais e equipamentos elétricos, foi resultante dessa ação?
Na contemporaneidade, um bem consolidado setor elétrico tem fundamental importância para todos os países,
para suprimento de energia barata para o desenvolvimento industrial, criação de empregos, oportunidades de negócios,
incentivo à pesquisas e aplicação na saúde de indivíduos e suas comunidades. Podemos assim suspeitar que a combi-
nação de negócios e tecnologia no setor elétrico brasileiro foi obstada por interesses privados.

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A mídia brasileira e os acidentes: as campanhas antinucleares
e a geração elétrica (1979 a 2011) 

Marly Iyo Kamioji (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – História)

A ampla cobertura e destaque dado pela mídia aos acidentes nucleares Three Mile Island (TMI) em 1979, Chernobyl
em 1986 , e Fukushima em 2011 fizeram com que a segurança de reatores nucleares para geração elétrica fosse discutida
e as medidas de segurança fossem aprofundadas para aumentar a proteção para riscos extremos de ínfimas probabili-
dades. Embora o fenômeno do aquecimento global seja controverso, alguns ambientalistas se tornaram defensores da
energia nuclear (EN) como opção para fazer frente às suas causas e consequências. Eles acreditam que como a fonte
nuclear não emite carbono, essa seria a melhor opção para redução da geração de gases de efeito estufa uma vez que
as opções de energia sustentáveis como eólica e solar não dão conta de substituir o poluente carvão. Eles depõem no
filme Pandora’s Promise que ser ambientalista era sinônimo de ser antinuclear e que tudo que tinham que mencionar em
suas campanhas contra a EN eram os acidentes e as armas atômicas. 
A despeito dessa mudança de ponto de vista, as ONG ambientalistas continuam se opondo à EN. A Greenpeace,
por exemplo, que difere dos manifestantes ambientais conhecidos em termos de metas, meios de ação e até mesmo
em sua própria estrutura legal, tem uma campanha fortíssima contra a nuclear. O ex-presidente da Associação Brasileira
de Energia Nuclear (ABEN) Guilherme Camargo conseguiu afastar a Greenpeace por um tempo, mas ela voltou com
uma forte campanha contra à mineradora de urânio Indústrias Nucleares Brasileiras (INB). A Greenpeace alegou que
as águas subterrâneas próximas à mineradora, que fabrica combustível nuclear para as usinas domésticas, estavam
contaminadas por urânio. A população local ficou com muito medo de contrair câncer pela radiação do urânio conforme
reportagem da TV Record. A ex-assessora de comunicação da INB, Helena Beltrão, declarou que a empresa aprendeu
as lições com uma crise que causou danos significativos na imagem da empresa e percebeu a importância de conferir
mais transparência a suas ações. Sendo assim, a INB elaborou e implantou programas permanentes de comunicação
social e educação ambiental para seu público.
Focaremos na construção da notícia pela mídia brasileira dos famosos acidentes midiáticos TMI e Chernobyl apre-
sentando exemplos de cobertura da revista Veja e do jornal Folha de São Paulo. Faremos o contraponto com o discurso
científico apresentando dados relationados à gravidade do incidente de Chernobyl diferentes do que a mídia explora. Nos
perguntamos se podemos a partir disso fazer conclusões sobre a aceitação da energia nuclear para geração elétrica pelo
público. Segundo Charaudeau, o efeito visado pela mídia nem prempre coincide com o efeito produzido que depende do
público que recebe a notícia. Kalmbach, por exemplo, concluiu que os debates franceses e britânicos sobre os efeitos
na saúde de Chernobyl seguiram trajetórias diferentes.

C&T na Rússia Pre-Revoluvionária

Agamenon Rodrigues Eufrásio Oliveira (Escola Politécnica da UFRJ)

O objetivo deste artigo é analisar e discutir o contexto científico e tecnológico anterior a ruptura causada pela
Revolução de Outubro de 1917 na Rússia. Os estudos sobre a Revolução na Rússia normalmente negligenciam os
conhecimentos científicos e o acúmulo que já existia nesta área a disposição da sociedade. Alguns aspectos gerais do
meio científico dos séculos XVIII e XIX são descritos, incluindo o período de Pedro o Grande, a fundação da Academia de
Ciências e a influência de grandes figuras da ciência, mesmo que não sejam russas. No século XVIII Euler(1707-1783) e
Lomonosov(1711-1765) foram os escolhidos como os mais representativos desse período, enquanto que no século XIX,
Lobachevski (1792-1856), Chebyshev (1821-1894), Mendeleev (1834-1907) e Pavlov (1849-1936) foram os escolhidos.
Dada a importância que a matemática sempre teve no panorama científico da Rússia, é que escolhemos os matemáticos
Euler, Lobachevski e Chebyshev. Mesmo que Euler não seja russo, praticamente toda sua vida científica esteve ligada á
ciência russa. Mesmo após sua morte, Euler continuou a influenciar a ciência na Rússia e no resto do mundo. Lobachevski,
a partir de uma crítica ao quinto postulado de Euclides criou um novo ramo da matemática, as geometrias não euclidianas.
Chebyshev, por sua vez tem uma grande importância tanto na matemática como na área de mecanismos, uma extensão

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da geometria á mecânica. Usando o background científico e tecnológico herdado do período pre-revolucionário, durante
os anos 1920, o estado Soviético transformou as organizações de pesquisa em um sistema de institutos. Do ponto
de vista revolucionário, o termo instituto de pesquisa científica tinha um outro significado e estrutura. Quase todos os
cientistas e figuras centrais da ciência e da engenharia foram membros ou tinham vinculação a um instituto. Uma outra
característica importante da história da ciência na Rússia, principalmente no século XIX foi o papel desempenhado pelas
mulheres, o que tem um profundo significado do ponto de vista da democratização do conhecimento científico.

Ciência, progresso e evolução: quais as variáveis da equação,


qual a condição da igualdade

Cleber Melo Rocha Santos (HCTE-UFRJ)

Um aspecto que caracteriza a ciência moderna, distinguindo-a da ciência dos gregos é o abandono da causalidade
final, em prol da concentração na causalidade eficiente. A pergunta “como um determinado fenômeno acontece?”, e os
experimentos que se seguem, buscam a compreensão do fenômeno para reproduzi-lo artificialmente. O isolamento das
causas eficientes e materiais revelam procedimentos disjuntivos, de mensuração e classificação, procedimentos que
irão informar todo um programa universalista de ciência. Pretende-se aqui observar as controvérsias entre Mecanicismo
e Positivismo no desenvolvimento da Ciência moderna, e reter as características essenciais do programa científico sur-
gido daí – um rápido percurso em torno da Teoria do Conhecimento, que objetiva situar a Ciência moderna em relação
à Revolução Científica e à Ilustração. Em seguida será observada a relação entre Ciência moderna e o desenvolvimento
do capitalismo, bem como a influência do paradigma mecanicista na Economia, principalmente em sua vertente Ne-
oclássica. A partir daí inicia-se a crítica à ideia de progresso através da Bioeconomia de Nicholas Georgescu-Roegen,
possibilitada pela apropriação por parte deste economista, das leis da Termodinâmica. Este percurso será adotado por
permitir a visualização da natureza conflituosa da produção científica, seja em relação aos pares, seja em relação a sua
recorrente vocação contra hegemônica.
A opção pela Bioeconomia de Georgescu-Roegen se dá em função de sua interlocução com Alfred Lotka que
transfere para o ambiente cultural as noções de evolução biológica através do conceito “evolução exossomática”. Esta
transferência permite-nos pensar a tecnociência como uma adaptação seletiva da espécie, caracterizada por alto grau
de especialização, que pode nos encaminhar a um beco sem saída adaptativo. A ideia é observar as atuais formulações
sobre Antropoceno como um ponto de inflexão humanitário, e as inevitáveis retroações deste cenário sobre a prática
científica. Trata-se não apenas de observar como a Ciência sustenta a crítica, mas como a absorve, ainda que de forma
marginal, em torno de uma nova práxis centrada na formulação de uma autocrítica essencial. 

Conflitos e polêmicas durante a implantação e expansão da telegrafia


sem fio no Brasil (1902-1922 

Arthur Cavalcanti de Oliveira Damasceno (Universidade Federal da Bahia)

A radiotelegrafia, tecnologia de comunicação sem fio desenvolvida no final do século XIX, se espalhou rapidamente
pelo mundo logo no começo do século seguinte. No Brasil, de maneira parecida com a implantação da telegrafia con-
vencional, isso é, a que fazia uso de cabos para transmitir sinais, a radiotelegrafia foi objeto de investimentos e domínio
exclusivo do Estado, constituindo um monopólio que, devido a pressões e interesses conflitantes, acabou por ser der-
rubado. De fato, a pressão de empresas estrangeiras, grupos internos e necessidade de expansão da rede fizeram com
que concessões de uso fossem feitas por parte do governo brasileiro, mesmo sob protesto de alguns grupos.
O trabalho tem por objetivo apresentar e discutir as mudanças de posicionamento do governo brasileiro sobre o
domínio exclusivo do uso da telegrafia sem fio pela Repartição Geral dos Telégrafos e a abertura para o capital estrangeiro.
Será trabalhado o período de desenvolvimento e expansão da radiotelegrafia no país compreendido entre 1902, data do

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primeiro teste e primeira demonstração da radiotelegrafia pela RGT e Marinha do Brasil, e 1922, ano de concessão das
operações internacionais da Companhia Radiotelegráfica Brasileira, a Radiobrás.
A emergência de regulamentação nacional e internacional, o lobby feito por empresas estrangeiras, as justificativas
de alguns engenheiros da RGT, entre outros acontecimentos, contribuíram para a entrada de mais capital estrangeiro pelo
domínio das comunicações no Brasil e América Latina. O choque entre os dois projetos de telegrafia sem fio, monopólio
estatal e concorrência estrangeira, revela não apenas disputas econômicas, mas também disputas de poder. O controle
pelas redes de comunicação que transportavam cada vez mais grande parte das nossas negociações financeiras, ordem
política, militar e movimentações sociais, também parece estar alinhado com os interesses de algumas nações, como
os Estados Unidos e suas políticas para a América Latina.

Contribuições de John Willian Nicholson para o modelo atômico


de Bohr

Sairon Santos Ressurreição (Universidade Federal da Bahia)

Um dos personagens menos conhecidos na História da Física e particularmente da teoria atômica, John Willian
Nicholson nasceu em Darlington, Inglaterra, em 1º de novembro de 1881. Foi um grande matemático e desenvolveu
investigações no campo da física e da astroquímica. Em 1911, propõe um modelo atômico que, como aqueles propostos
por Nagaoka e Rutherford, situava no centro do átomo um núcleo de carga positiva envolto por órbitas eletrônicas. Ao usar
como fonte de dados espectros de nebulosas e de coroas solares, Nicholson foi capaz de fornecer um modelo atômico
que lhe permitiu chegar a feitos surpreendentes, como ser o primeiro a relacionar constante de Planck à quantização do
momento angular do elétron, relação que se tornaria, cerca de um ano depois, um postulado essencial ao modelo de
Bohr. Apesar de suas notáveis contibuições, seu nome é ignorado pela maioria dos textos que discutem a teoria atômica
e suas ideias são comumente citadas apenas para produzir contraste com o brilhantismo de Bohr.
Segundo o historiador das Ciências Eric Scerri (2016), a relevância de figuras “menores” como John Willian Nichol-
son para a História das Ciências se explica por serem como os elos que faltam para fornecer uma descrição contínua
do desenvolvimento do conhecimento científico. A percepção geral do progresso científico estaria comprometida com
uma visão truncada e distorcida que privilegia apenas as figuras heroicas, numa narrativa que marginaliza ou exclui
completamente o papel desempenhado pelas teorias equivocadas para a edificação do empreendimento científico.
Ainda segundo Scerri:
[...] a ciência avança por pequenos passos quase imperceptíveis, não tanto pelo gênio e brilho individual de poucos
cientistas, mas antes por um processo de tentativa e erro, acasos e tropeços. Acima de tudo, eu afirmo que a ciência
é uma empresa coletiva, mas não conscientemente. Embora a Grande Ciência tenha assumido um papel cada vez mais
importante, especialmente desde meados da segunda metade do século XX, quero me concentrar num aspecto da
ciência que diz respeito a um compartilhamento coletivo menos consciente. Eu me refiro à ciência como um empre-
endimento coletivo de forma involuntária, em que muitos indivíduos, alguns significativos, outros muito menos, fazem
contribuições que são assumidas por inúmeros outros cientistas no crescimento compartilhado do empreendimento de
conhecimento científico.
Assim, o objetivo deste estudo é produzir uma imagem mais complexa do itinerário científico que possibilitou a
construção do modelo atômico de Bohr, em 1913. Para tal, um capítulo importante da História das Ciências será reescrito
numa narrativa que não privilegie figuras heroicas, mas, antes, perceba a edificação da antiga teoria quântica como uma
consequência da cooperação, voluntária ou involuntária, entre diversos cientistas e teorias concorrentes.
Referência
Scerri, Eric. A Tale of Seven Scientists and a New Philosophy of Science. Oxford Universitity, Press, 2016

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Controvérsias acerca da institucionalização da história da arte
no Brasil: debates sobre a criação de cursos de graduação
e perspectivas epistemológicas

Danielle Rodrigues Amaro (GEPTEC USP)

A presente proposta de comunicação pretende apresentar alguns dos resultados finais de tese de doutorado
homônima defendida em 30 de outubro de 2017, a qual teve como como objeto central os debates sobre a criação
de cursos de graduação em História da Arte e como objetivo principal refletir, a partir de uma história das instituições,
sobre a formação e a presença do historiador da arte no Brasil, questionando a relevância da autonomia institucional e
epistemológica da história da arte em nosso contexto particular. Procurou-se demonstrar a tese de que a preocupação
em constituir um espaço de formação específica em história da arte em nível de graduação e a problematização das
histórias da arte produzidas nas universidades brasileiras são fundamentais ao debate acerca do que se compreende
por história da arte no Brasil hoje e estão diretamente relacionadas ao amadurecimento e à consolidação da autonomia
da história da arte enquanto campo científico no país. Para isso, avaliou-se que as particularidades que envolvem a
constituição e a configuração atual da história da arte no Brasil poderiam ser mais bem compreendidas retomando o
que outrora se projetou, revendo os percursos e avaliando os percalços, de forma a revelar o lugar que a história da arte
ocupa hoje no âmbito científico brasileiro. O período histórico abrangido pela pesquisa tem como marco inicial a década
de 1950, quando iniciava-se uma série de manifestações favoráveis à criação de um curso superior de história da arte
e, posteriormente em 1963, foi criado o primeiro curso específico na área, alocado na estrutura do extinto Instituto de
Belas Artes do Rio de Janeiro (IBA-RJ), que originou o bacharelado hoje oferecido pelo Instituto de Artes da UERJ. O
recorte estende-se até as duas primeiras décadas do século XXI, quando ocorreram importantes reformulações naquele
curso e foram criados quatro outros, vinculados às seguintes unidades acadêmicas e universidades: EFLCH UNIFESP,
EBA UFRJ, IA UFRGS, IdA UnB.

Euritmia, evolução organizada e emergência

Gildo Magalhães dos Santos Filho (Centro de História da Ciência/USP)

Na primeira metade do século XX cristalizou-se na física uma visão cujas consequências não se deixam minimizar,
pois se espalharam com grande força para diversos campos do conhecimento científico, inclusive nas ciências humanas.
Trata-se da formulação da mecânica quântica conhecida como da “Escola de Copenhague”, em referência à cidade de
seu mentor, o famoso cientista Niels Bohr (1885-1962). Nela, os fenômenos na escala atômica e subatômica são con-
siderados como decorrentes basicamente do acaso, recusando-se num nível que supostamente seria o mais básico da
matéria a tradição milenar de que todos os fenômenos naturais estão envolvidos numa cadeia causal e que é possível
pesquisar e conhecer essa sequência de causas. 
As razões históricas para a gradual aceitação do primado da aleatoriedade como princípio explicativo em ciências
naturais fundamentais como a biologia e a física devem ser procuradas exteriormente a seus domínios de competência,
pois são de natureza ideológica. Uma contribuição fundamental para o sucesso da adoção do acaso e o abandono do
sentido da causalidade foi o fortalecimento de certos componentes da filosofia empirista britânica e da economia política
do liberalismo, e mais especialmente a popularidade que tem gozado a teoria de economia política proposta por Thomas
Malthus (1766-1834) ao fim do século XVIII em seu ensaio sobre a população. Este assunto será explorado, depois de
se expor com mais detalhe a crise dos paradigmas biológicos da atualidade. 
Considera-se que há justificativa para a adoção do princípio da euritmia, pois há uma evidência de que ele se mani-
festa pelos fenômenos de emergência, ou surgimento daquilo que é novo, algo que não decorre da simples superposição
de partes previamente constituintes. A emergência se aplica aos fenômenos físicos, como no surgimento a partir do
meio subquântico de entes que se denominam costumeiramente, e numa linguagem talvez já arcaica, como “partículas”.
Há emergência nos fenômenos químicos desde quando desses entes quânticos surgem os elementos que compõem a
tabela periódica até a formação de moléculas e cadeias moleculares extremamente complexas, cujas propriedades não

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decorrem simplesmente das características dos seus componentes. Em escala cósmica, esses ingredientes emergem
na forma de estrelas e seus planetas, galáxias e outros aglomerados com propriedades específicas e que superam as
das entidades que os compõem. 
Os fenômenos vitais são igualmente manifestações emergentes, a partir do surgimento de diversos tipos de células
que agregam componentes químicos que não explicam diretamente as funções da vida. A emergência continua a ser
a tônica quando as células se agregam e formam órgãos, que por sua vez dão origem a indivíduos e espécies, entre as
quais a nossa. Os indivíduos de uma espécie quando interagem entre si e com o ambiente formam novas entidades que
emergem na forma de sociedades, que novamente se distinguem de seus integrantes quanto às propriedades que exibem. 

Matemática, Ciência e Controvérsias na Publicação de Obras


Científicas no final do Século XVI: a correspondência trocada
entre Adriaan van Roomen e Cristoph Clavius

Zaqueu Vieira Oliveira (Universidade de São Paulo)

Durante o século XVI, a correspondência foi um dos meios mais usados para o intercâmbio de informações entre
os cientistas. Adriaan van Roomen (1561-1615) foi um dos que utilizou essa forma de comunicação, e sua atividade
epistolar mostra exemplos de como ocorria a produção de conhecimentos matemáticos e científicos. Um dos nomes que
é mencionado frequentemente nas cartas enviadas por esse estudioso a Christoph Clavius (1538-1612) é o de Joseph
Justus Scaliger (1540-1609), com quem van Roomen também se correspondeu. Em um conjunto de cartas escritas no final
do século XVI, percebemos que van Roomen e Scaliger estiveram envolvidos numa polêmica sobre o clássico problema
matemático grego da quadratura do círculo. Outro caso é o de van Roomen e François Viète (1540-0603), que trocaram
desafios matemáticos, genrando a publicação de algumas obras. Podemos mencionar ainda os debates em que Clavius,
de um lado, e Scaliger e Viète, de outro, estiveram presentes acerca da reforma do calendário, promulgada em 1582
pelo Papa Gregório XIII (1502-1585). Neste trabalho, discutiremos como alguns dos aspectos presentes nesse conjunto
de cartas mostram como e que práticas científicas e matematicas eram consideradas válidas num determinado grupo.
Além disso, tais cartas demonstram que a produção e publicação de obras científicas poderia gerar controvérsias devido
a questões científicas ou de outra natureza, como crenças religiosas ou opiniões pessoais sobre determinado assunto.
Para o sociólogo estadunidense Robertt K. Merton, as controvérsias tem fundamental importância no desenvolvimento
da ciência, mesmo quando há manobras desleais entre os personagens envolvidos. Bruno Latour e Steve Woolgar en-
fatizam ainda que em uma disputa científica quem melhor mobiliza os recursos sociais, financeiros e retóricos, é quem
tem o domínio do resultado. No contexto deste trabalho, é importante também o conceito de instituição na medida em
que esta não se apresenta como uma organização explícita, mas como entidades pertencentes a um domínio social,
cultural e simbólico. Um trabalho recente de Catherine Goldstein sobre a rede epistolar de Marin Mersenne (1588-1648),
como instituição, revela a prática da matemática como disputa, desafio e controvérsia no domínio da cultura escrita. É
neste mesmo plano que colocamos a elaboração e a consequente publicação de obras científicas e matemáticas por
van Roomen e os demais personagens citados. Percebemos que, naquele contexto, havia uma prática institucionalizada
dominada pelo desafio, pela provocação, pelo ataque e contra-ataque. Percebemos que o estudo da correspondência e da
publicação de obras no século XVI podem trazer contribuições para compreender melhor a prática científica e matemática
como instituição, assim como podem mostrar como ocorriam as disputas, desafios e controvérsias e a determinação
dos conhecimentos considerados válidos por um determinado grupo.

Mecanismo de Anticítera: a precisão das engrenagens 

Beatriz Bandeira (UNTREF)

O mecanismo de Anticítera (205 a.C.) é operado por relações de engrenagens miniaturizadas, que representam os
movimentos dos corpos celestes em um modelo de Geocêntrico. 

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O funcionamento dessas rodas de trabalho por meio do contato direto dos dentes, faz com que os eixos ligados a
elas estejam sempre sincronizados um com o outro, o que torna possível determinar relações de marchas exatas que
permitem representar mecanicamente, o Cosmos Geocêntrico. 
Detalhes das engrenagens do aparato como: formato dos dentes, tamanho, quantidades, conexões, movimentos
(diferenciais e epicíclicos), e funções, identificadas por técnicas de Raios-X, Tomografias Computadorizas e Mapeamento
de Textura Polinômicas.
Todas as seções do mecanismo são construídas com uma precisão surpreendente para a época (PRICE (1974),
WRIGHT (2005b, 2013), FREETH et al., (2006, 2008), FREETH e JONES (2012), JONES (2017)), o que conduz-nos a ques-
tionamentos sobre: quem construiu o dispositivo? qual a sua real finalidade? qual a sua ligação com outros dispositivos
movidos por engrenagens? como esta tecnologia se perdeu ao longo do tempo, o que aconteceu com esse conhecimento?.
Referências antigas de esferas e mecanismos similares remontam a criação desta engenhosidade à Arquimedes
(século III a.C.).
A partir desse contexto, tem-se por finalidade com este estudo, discutir sobre a precisão com que as engrenagens
do dispositivo foram construídas. Para atingir tal objetivo, trataremos de expor algumas sequências de engrenagens que
refletem em específico, os ciclos: – lunissolar (Metônico e Calíptico), e de previsões de eclipses (Saros e Exeligmos) que
sinalizam de maneira precisa e econômica por meio de ponteiros, eventos de relevância social e de avanços tecnológicos
desse período.
Os resultados desse artigo mostram que as engrenagens do dispositivo de Anticítera foram construídas com um
desing econômico, e com extrema precisão, o que desafia nossas conjecturas sobre o progresso da ciência e da tec-
nologia ao longo dos tempos.

Novas propostas, antigos problemas: o setor energético


na região Norte do Brasil

Andrey Minin Martin (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará)

A região Norte brasileira ocupou, e ainda ocupa, destaque em diferentes mídias sobre o desenvolvimento de
grandes projetos energéticos, especialmente o hidrelétrico. Analisando minuciosamente observamos que tais narrativas
estabelecem a ideia de um espaço “propulsor” de novas possibilidades para ampliação do parque energético nacional,
como uma “vocação”, que prevalece sobre as necessidades locais. A proposta deste trabalho é tecer considerações
sobre os caminhos do setor energético na região Norte do Brasil e sua construção como campo de pesquisa, sua história
e historiografia. Temática que alçou grande impulso a partir da década de 1980, por meio da consolidação de seminá-
rios, simpósios e gradual organização documental, um mote considerável da bibliografia produzida debruçou-se sobre a
região centro-sul do país, tendo se dedicado especialmente a temas como impactos ambientais e movimentos sociais,
políticas públicas, empresas e grandes projetos, pequenas centrais hidrelétrica, técnicas e suas tecnologias, dentre
outros. Com a expressiva criação de projetos energético nas últimas décadas na região Norte, especialmente no estado
do Pará, observa-se um gradual direcionamento de publicações sobre tal espaço, mas ainda intimamente conectadas
com problemáticas tecidas sobre antigos espaços de pesquisa. Assim, entender estes direcionamentos, escolhas e
como tal historiografia encontra-se conectada aos mesmos problemas faz se necessário. Para tanto, busca-se realizar
o mapeamento e levantamento de fontes e arquivos existentes ligados a este campo de pesquisa, que podem conduzir
a determinados direcionamentos, mas que, ao mesmo tempo, demonstram as muitas oportunidades e potencialidades
ainda a serem estudadas. Observa-se a existência de um mote arquivístico ainda pouco explorado, seja de documentos
das próprias hidrelétricas, quanto das empresas que foram responsáveis pela criação e distribuição energética, tais como
ELETRONORTE e CELPA. Centrando diretamente no estado do Pará, observa-se nos últimos anos o crescimento de pro-
posta de projetos de pesquisa e produção bibliográfica, o que amplia o diálogo para novas possibilidades de ampliação
de tal campo historiográfico. Desta forma, a proposta desta comunicação centra-se em apresentar os caminhos desta
construção, elucidando potencialidades, lacunas e novas possibilidades para compreensão de algo maior, o desenvolvi-
mento hidrelétrico da região Norte brasileira.

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O conceito de tecnologia na “Fundação” de Isaac Asimov

Luis Claudio dos Santos Bonfim (Universidade Federal de Mato Grosso)

Isaac Asimov está na lista dos clássicos autores da ficção científica. Talvez porque era cientista de formação e
produziu durante a ‘era de ouro’ do gênero, entre os anos 1940-60 nos Estados Unidos. Quando perguntamos sobre o
sentido histórico dessa relação entre a literatura, ferramenta íntima da cultura, e a ciência, impressiona que mesmo
sobre um clima de crise epistêmica e ética, ou talvez por efeito mesmo dela, o discurso científico tenha se expandido e
oxigenado em ficções literárias na metade do século passado. Asimov, que era um propagandista convicto do progresso
científico, fazendo disso o pano de fundo da sua grande obra, a série Fundação, articulou intimamente a ciência à téc-
nica para compor a trama do seu mundo ficcional. É a partir de uma teleologia matemática que o processo da história
humana ganha sentido, e sendo essa matemática expressão de uma nova ciência/técnica torna-se possível predizer e
direcionar tecnicamente o futuro. Por isso, tomando como objeto as sete obras do universo da Fundação, objetivamos
saber como Asimov estrutura um conceito de ciência a partir da tecnologia. Interessa perceber as articulações que dão
corpo a essa fórmula discursiva duma ciência/técnica. Pois como pode o discurso científico articular uma coerência, e
dela uma expectativa de progresso, no momento em que há uma fragmentação das epistemologias e a fragilização dos
ideais progressistas fundados numa verdade científica. Por quê se por um lado a ciência está abalada, quando fragmenta-
-se em razões relativas, ou quando se formulam os vínculos entre as instituições de saber e o poder, por outro, sua
face tecnológica é apresentada como modelo interpretativo de todos os objetos, reunificando o projeto do progresso
através da promessa de produtos tecnológicos capazes de solucionar os problemas humanos. A vida, a sociedade, os
indivíduos, o pensamento, os sentimentos todos esses objetos manifestam uma espécie de ontologia tecnicista cujo
efeito na cultura subsidia utopias e distopias.

O corpo da mulher na ficção científica: idas e vindas históricas

Anunciata Cristina Marins Braz Sawada (IOC-FIUOCRUZ), Isabela Cabral Felix de Sousa (Fundação


Oswaldo Cruz), Lucia de La Rocque (Fiocruz)

Através dos tempos, a literatura tem dado voz aos medos e esperanças gerados pelas descobertas científicas e
retratado as imagens e mitos em torno da própria ideia de ciência e saúde. A literatura fantástica, produzida desde a
Antiguidade, já havia especulado sobre os possíveis descaminhos do desenvolvimento do conhecimento humano; no
século XIX a nascente ficção científica (FC) alerta de maneira contundente sobre o perigo de uma ciência e tecnologia
que, desconectadas da sociedade e atreladas a interesses particulares, venham a resultar danosas para a humani-
dade. Na segunda metade do século XX, principalmente em suas últimas décadas, a FC utópica/distópica de autoria
feminina se volta para temas relacionados a questões de gênero e saúde que se concretizam na realidade empírica,
como as possibilidades de se manipular a reprodução humana e seus efeitos nas relações entre homens e mulheres.
No presente trabalho, voltar-nos-emos para duas obras de autoria feminina de FC situadas nesse período, o conto
“When it changed”, da norteestadunidense Joanna Russ, de 1972, e o romance The Handmaid´s Tale, de 1985, da
canadense Margaret Atwood. Enquanto na primeira, a tecnologia reprodutiva é utilizada a favor das mulheres numa
visão utópica separatista, na segunda uma teocracia patriarcal impõe um retrocesso tecnológico que resulta numa
manipulação extremamente distópica da capacidade reprodutiva feminina. É nossa intenção, por meio de discussões de
aspectos dessas obras, discutir como essas obras são fincadas em seus momentos sócio-políticos e, de certo modo,
como sua contextualização contrasta com uma ideia ingênua de um puro e simples progresso na ciência. No conto de
Russ, num momento sócio político particularmente efervescente, em que as mulheres se sentiam empoderadas pelos
movimentos feministas de segunda onda, impulsionados, entre outros fatores, pela maior possibilidade de controle
sobre seus corpos por meio do desenvolvimento de tecnologias contraceptivas, a autora imagina uma sociedade em
que essas estariam empregadas a favor da libertação feminina do jugo patriarcal sobre si e sua capacidade reprodutiva.
Já o romance de Atwood, embora se distancie do primeiro por pouco mais de uma década, é fruto de uma década em
que o conservadorismo da era Reagan fazia ressurgir práticas e proibições, como a do ensino da teoria da evolução em
alguns Estados americanos. Assim, em The Handmaid´s Tale essas mesmas tecnologias reprodutoras, vistas como

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libertadoras na obra de Russ, são terminantemente proibidas. É interessante observar que no momento atual brasileiro
o aborto vem sendo questionado até mesmo do ponto de vista das duas conquistas historicamente obtidas, quando
envolve risco da saúde da mulher e no caso de estupro. Assim, podemos claramente observar as idas e vindas históricas
que tem como alvo o corpo da mulher.

O Desenvolvimento da Física da Matéria Condensada no Brasil


e o Caso das Pesquisas na Bahia

Wanderley Vitorino da Silva Filho (Universidade Federal da Bahia)

Juntamente com a criação dos primeiros cursos de Física implementados no Brasil, na década de 1930, na
Universidade de São Paulo (USP) e Universidade do Distrito Federal (UDF), esta última dando origem à atual Universi-
dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tiveram início também as atividades de pesquisas. Na década de 1950 outras
instituições, tais como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA),
iniciaram suas atividades investigativas em Física. Na Bahia, o curso de Física foi criado ainda na primeira metade da
década de 1940, mas com atividades voltadas exclusivamente para o ensino. Pesquisas em Física neste estado tiveram
um início tímido e pouco duradouro no início da década de 1960, realizadas por docentes oriundos do ITA juntamente
com professores da então Universidade da Bahia (UBA), atual Universidade Federal da Bahia (UFBA). As pesquisas
realizadas foram em Física do Estado Sólido (FES) e duraram algo em torno de dois anos. Entretanto, o desejo de realizar
pesquisas fizeram com que físicos graduados pela então UBA se dirigissem a outros centros de pesquisas no Brasil (São
Paulo e Rio de Janeiro), na Argentina e Europa. A reforma universitária de 1968 mudou a estrutura das universidades
brasileiras, fazendo com que as pós-graduações fossem implementadas. Neste contexto, físicos que realizavam pes-
quisas na USP e Unicamp passaram a contingenciar esforços para implementar a pós-graduação na UFBA, o que se
deu ainda no início da década de 1970. A pós-graduação em Física na UFBA teve como inspiração a Unicamp e contou
com a abertura desta instituição para formar pesquisadores a fim de atuarem na UFBA. A área de pesquisa iniciada
na Bahia foi a Física do Estado Solido, sendo esta hegemônica no Instituto de Física da Unicamp, cuja pós-graduação
teve início em 1970. Na região Nordeste, além da UFBA, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade
Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Federal do Ceará (UFC) também foram as primeiras a implementar suas pós-
-graduações em Física, tendo também como área a FES. No cenário nacional pós-reforma de 1968 estas instituições
também se apresentavam juntamente com outras quinze universidades brasileiras a serem as primeiras a iniciarem a
pós-graduação em Física. A FES, ou de forma mais abrangente Física da Matéria Condensada (FMC), ganhou enorme
importância mundial a partir da década de 1950, possibilitando um rápido desenvolvimento científico e tecnológico,
com a mais ampla aplicação. Tendo como plano de fundo a FES e seu desenvolvimento no Brasil, será apresentada a
institucionalização das pesquisas em Física na Bahia.

O Golpe Civil Militar e a “Modernização Autoritária” na Universidade


Federal da Bahia: contradições, desenvolvimentismo e perseguições
em “anos de chumbo” (1964-1985)

José Eduardo Ferraz Clemente (UNIVASF)

Após o Golpe Civil Militar imposto em 1964, os Governos Militares apostaram na chamada: “Modernização
Autoritária”, investindo em ciência, tecnologia e em educação superior através da “Reforma Universitária” de 1968,
simultaneamente ao que se convencionou denominar de “Anos de Chumbo”, período também demarcado pelo aumento
da repressão política a partir da implantação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), promulgado em dezembro de 1968. Neste
contexto, organizaram o Sistema Nacional de Pós-Graduação através do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (FNDCT), ao mesmo tempo em que se intensificaram as perseguições a cientistas e professores universi-
tários em todo o País, tal como ocorreu entre os físicos no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (IFUFBA).

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Em meio às tensões políticas, as ciências naturais, em especial a Geofísica, desempenhavam um papel fundamental
no processo de desenvolvimento econômico e social concebido pelos militares, e se constituíam como conhecimento
estratégico para a “Segurança Nacional”, entendida aqui, na sua concepção moderna, a partir do binômio: “Segurança
Nacional e Desenvolvimento”. O presente trabalho busca compreender as contradições entre as políticas científicas e
as perseguições aos cientistas promovidas simultaneamente pelos governos militares durante a Ditadura Civil Militar
brasileira, apresentando estudos realizados sobre a implantação da pós-graduação e institucionalização da Geofísica na
Bahia, decorrentes da “Reforma Universitária” de 1968, tomando como estudo de caso o nascimento e desenvolvimento
do Programa de Pesquisa e Pós Graduação em Geofísica (PPPG) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), entre 1968 e
1985, bem como dos impactos das perseguições políticas ocorridas nos Institutos de Física e de Geociências da UFBA
durante o mesmo contexto. Desta forma, procura-se identificar a trajetória de alguns dos protagonistas na criação do
PPPG/UFBA, também atingidos pelas perseguições políticas realizadas pelas forças de segurança na Universidade Federal
da Bahia, como foram os casos dos professores Roberto Max Argollo e Paulo Miranda, assim como compreender as
políticas científicas dos militares em busca de “Segurança e Desenvolvimento”.

O homem singular e o conceito de mente na obra de Kurzweil:


do neocortex biológico à engenharia reversa do córtex cerebral

Luciana Santos Barbosa (IPUSP)

Este trabalho debruça-se sobre as questões conceituais e filosóficas em torno das discussões ‘mente e cérebro’ e ‘mente
e corpo’ abordadas no livro Como criar uma Mente, quando Ray Kurzweil, o autor, propõe a criação de um cérebro digital.
Raymond Kurzweil é cientista da computação, inventor, futurologista e autor de livros relacionados à tecnologia,
inteligência artificial, medicina, neurociência e previsões do futuro que se tornaram best sellers nacionais. O autor, natural
de Nova York, é filho de artistas imigrantes austríacos e iniciou sua carreira na área da inovação e tecnologia no início
dos anos 1960, época em que já se preocupava com as intersecções entre neurociência e tecnologia.
Seu método inclui a precisa compreensão do funcionamento cerebral, o que possibilitará o desenvolvimento de
máquinas com maior inteligência, assim como, tendo em vista sua perspectiva teórica, recriar os processos mentais
humanos em um neocórtex digital, tal qual é apresentado no livro Como Criar uma Mente.
Defensor da interação homem–máquina como processo evolutivo, Kurzweil está convicto da importância da
inteligência artificial como ciência essencial para a nossa sociedade e está envolvido em projetos pioneiros. Ele foi o
principal inventor do primeiro leitor CCD (leitor de códigos de barras), do reconhecimento óptico de caracteres, da primeira
máquina de leitura de impressão em voz para cegos, do primeiro sintetizador para voz e de música capaz de recriar o
piano de cauda assim como de outros instrumentos orquestrais e do primeiro reconhecimento de fala de vocabulário
amplo comercializado. 
Ele se considera parte de um projeto revolucionário: a engenharia reversa do cérebro. Para recriar o cérebro em
sua completude, segundo sua análise, o primeiro passo é compreender o neocórtex biológico. É nele que encontramos
os principais mecanismos para compreender os processos de funcionamento da mente humana, já que atingiu um grau
tão elevado de capacidade e sofisticação que nos possibilita o pensamento, as ideias e a produção de conhecimento.
O próximo passo será a criação de um cérebro artificial capaz de uma inteligência muito maior que a do ser humano. E,
finalmente, fundir-se-ão os dois, fazendo surgir o homem híbrido, o pós-homem, o homem singular. A tese do autor gira
em torno do algoritmo básico do neocórtex, descrita por ele como a Teoria da Mente baseada em Reconhecimento de
Padrões (TMRP).

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Raymundo Vasconcellos de Aboim e Antônio Guedes Muniz:
a Engenharia Aeronáutica brasileira da primeira metade do século XX 

Nilda Nazare Pereira Oliveira (Instituto Tecnológico de Aeronáutica)

Quando pensamos em construção aeronáutica a primeira associação que se faz é à invenção do avião por Santos
Dumont. Entretanto, a maioria dos brasileiros desconhece que o país teve diferentes indústrias de construção aeronáutica
na primeira metade do século XX. E que teve, ainda, dois importantes engenheiros aeronáuticos, ambos militares, que
muito contribuíram para o desenvolvimento desse ramo da indústria brasileira. 
Raymundo Vasconcellos de Aboim era engenheiro civil e participou das primeiras turmas da Aviação Naval. Viajou
para a Inglaterra, onde realizou o curso de pós-graduação em Engenharia Aeronáutica no Imperial College of Science
and Technology, tornando-se o primeiro engenheiro aeronáutico brasileiro. 
Antônio Guedes Muniz foi oficial do Exército brasileiro, conviveu com a Missão Militar Francesa contratada em 1920
e, quando foi criada a Arma de Aviação no Exército, foi para a França para freqüentar a Escola Superior de Aeronáutica.
Guedes Muniz foi um dos maiores projetistas brasileiros.
Aboim voltou ao Brasil em 1925, foi nomeado diretor de material da Aviação Naval em 1929. Ele foi o principal
responsável pelo acordo firmado entre a Marinha brasileira e a empresa alemã Focke Wulf, que levou à criação da Fá-
brica do Galeão, onde se iniciou a produção seriada de aeronaves militares. Ele acreditava e defendia a idéia de obter
licenças para a produção de aeronaves. Assim, em 1936, começou a construção das Oficinas Gerais da Aviação Naval,
inaugurada, em 1939, com o nome de Fábrica do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. 
Guedes Muniz trabalhou com o industrial Henrique Lage, que implantou duas empresas de construção aeronáutica
na década de 1930, ambas no Rio de Janeiro. Em 1935 ele criou a empresa denominada Companhia Nacional de Na-
vegação Aérea – CNNA, que foi a primeira fábrica de aviões no Brasil, além de uma subsidiária da empresa, a Fábrica
Brasileira de Aviões. Ambas as empresas teriam a orientação técnica do Major aviador e engenheiro Antônio Guedes
Muniz, que produziu vários modelos de aeronaves com a sigla HL. Guedes Muniz, porém, não participava da Companhia
Nacional de Navegação Aérea. O Exército, que era proprietário dos desenhos para fabricação dos aviões, cedera-os a
Henrique Lage. Em 1938 o engenheiro Guedes Muniz, entre outros oficiais do Exército brasileiro, propôs e conseguiu,
junto ao Ministério da Viação, a construção da Fábrica Nacional de Motores – F.N.M., para montagem de motores de
avião sob licença. A F.N.M. foi criada em 1942, sua construção foi lenta e ocorreu em plena Segunda Guerra Mundial,
quando a importação de máquinas e peças estava prejudicada. 
A narrativa da trajetória desse dois engenheiros se constitui no objetivo desse trabalho.

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ST 09. Ciência, Desenvolvimento e Natureza nas Fronteiras

A coleção entomológica de Fritz Plaumann

Aline Maisa Lubenow (CEMAC – Centro de Memória Alfa/ MaxiCrédito)

O presente trabalho tem como finalidade abordar a temática sobre o colecionismo como prática cultural. Nesse
sentido, discorrer sobre a formação da coleção entomológica de Fritz Plaumann. Pretende-se problematizar diversas
atividades como o trabalho de coleta, instrumentos e técnicas que eram utilizadas, tanto para a captura, a montagem de
insetos e sua classificação. Além de analisar as expedições que Plaumann organizou para coletar insetos principalmente
nos três estados do sul e em outros diversos estados brasileiros. A coleção que conta atualmente com aproximadamente
80 mil exemplares, 17 mil espécies dentre essas 1.500 “descobertas” pelo colecionador e descritas por pesquisadores
que Plaumann descreveu como “competentes” para essa tarefa. A maioria das espécies coletadas são oriundas da
Região do Alto Uruguai Catarinense. 
Fritz Plaumann é um imigrante alemão que chegou ao Brasil em 1924 e se instalou com a família na então colônia
alemã de Nova Teutônia localizada na região oeste de Santa Catarina. Logo após sua chegada, ao se deparar com a grande
biodiversidade encontra na região, dá início a planejada coleção entomológica, no período conturbado de colonização e
imigração do início do século XX. É nesse espaço de ocupação da terra, demarcado por pequenas propriedades rurais,
onde a produção agrícola era basicamente para a subsistência da própria família, a prática de colecionismo e as atividades
decorrente desta, como o trabalho de campo, a coleta dos insetos e os contatos científicos podem ser consideradas
uma atividade incomum para aquele contexto regional, espaço que tanto para o governo nacional como estadual era um
“grande vazio demográfico”, para estes era “inexistente”, ou seja, não consideravam a presença de indígenas e caboclos.
É inserido nesse contexto, ao qual o próprio Plaumann chamou de “região remota”, que deu início seu empreendimento
como colecionador, na então “mata virgem”, ao se deslumbrar com a grande diversidade de espécies encontradas no
chamado “sertão catarinense”. Em sua coleção encontram-se insetos capturados deste o início de seus trabalhos na
década de 1930 até o ano de 1994, ano de sua morte. 

A expansão da fronteira cooperativista e sua influência econômica


e social no oeste catarinense

Elisandra Forneck (Centro de Memoria Alfa/Maxicrédito)

A história do cooperativismo no oeste de Santa Catarina se confunde com o desenvolvimento da região. Podemos
perceber que devido ao impacto econômico do cooperativismo na região oeste, principalmente aquele ligado as agroin-
dústrias, o apoio do poder público muitas vezes é maior do que o dado as pequenas cooperativas ou até mesmo outros
empreendimentos não cooperativos, especialmente pelos empregos e impostos que gera. Além disso, a dependência do
mercado externo e o aumento do comércio no mercado interno têm gerado uma progressiva reestruturação dos sistemas
de produção locais. As cooperativas – e a agroindústria em geral – se institui como elo entre o mercado e o produtor,
fazendo com que se faça a incorporação dos pacotes tecnológicos, especialmente no que se refere a avanços genéticos
e constantes mudanças nos sistemas de manejo. Esta pesquisa objetiva discutir como o cooperativismo, a partir do início
do século XX, expandiu suas fronteiras do Rio Grande do Sul a Santa Catarina, depois para o Paraná e outros estados
brasileiros. Também analisar como, em meio a este processo, ele se tornou instrumento estatal para implementar junto
aos pequenos e médios produtores o processo de modernização agropecuária no oeste catarinense, e de que forma
o sistema cooperativo impactou do desenvolvimento econômico e social das comunidades. A pesquisa é mensurada
por números pesquisados junto às associações de municípios da região, entrevistas realizadas com pessoas ligadas ao
cooperativismo e referências bibliográficas do tema, num diálogo entre diferentes matrizes disciplinares e perspectivas,
que levam a uma expansão dos horizontes do tema. Levar em conta a multidisciplinaridade do tema é importante num

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contexto regional onde há predominância de pequenos produtores e uma economia fortemente agroindustrial, onde
cooperativismo tem sido há muito tempo o principal instrumento de organização econômica dos agricultores familiares
e onde ele é considerado parte importante da cultura local.

A produção científica na colônia Bertoni e a presença


do conhecimento originário Guarany

Luiz Eugenio de Arruda (Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul)

Neste trabalho, realizamos um estudo da trajetória científica do naturalista suíço Moisés Bertoni (1857 – 1929),
fundador da Colônia Bertoni localizada na Cidade de Presidente Franco, Departamento Alto Paraná no Paraguay, a oeste
da Cidade de Foz do Iguaçu, no Estado Paraná / Brasil. Buscamos enfatizar o dialogo intercultural entre Bertoni e os Gua-
rany, habitantes originários da região de instalação da Colônia. Esta interação foi determinante para a intensa produção
científica do naturalista europeu em terras fronteiriças. Assim, nosso trabalho tem interesse no estudo dos elementos
motivadores das pesquisas realizadas por Moisés Bertoni, em conjunto com os Guarany, cujos conhecimentos, originários
da observação da natureza, contribuíram na formação de uma comunidade agrícola, na qual uma série de estudos foram
desenvolvidos, em diversos campos do conhecimento científico. A Colônia, localizada em um ambiente rico em biodiver-
sidade, bem como sua interação entre a comunidade Guarany e Bertoni resultou em uma relevante produção científica.
Em seus trabalhos, é marcante a presença do conhecimento ancestral Guarany, seja como motivadores das pesquisas
ali realizadas, ou como auxiliares. Nessa região de fronteira, Bertoni foi o mediador do conhecimento acadêmico europeu,
tendo em vista sua formação, do final do século XIX, e o conhecimento tradicional dos Guarany. Como projeto de pesquisa
a ser desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul, o trabalho objetiva a demonstração dos aspectos históricos, epistemológicos e demais inerências à construção do
conhecimento científico no ambiente e no contexto da fronteira do Brasil com o Paraguay no final do século XIX. A área de
história da ciência deve configurar um conjunto de iniciativas voltadas ao levantamento acerca dos processos pretéritos
realizados na construção de conhecimento científico, levando em consideração aspectos epistemológicos, metodológicos
e fatores de natureza filosófica no que diz respeito à origem dos atores envolvidos no processo ora estudado.

Agricultura científica e ensino agrícola no Planalto Central:


a Colônia Blasiana

Mário Roberto Ferraro (UEG – Universidade Estadual de Goiás.)

Sendo o Planalto Central, no século XIX, uma área isolada do restante do país, numa região considerada decadente
ou estagnada economicamente, como era todo o Centro-Oeste depois do declínio da mineração, a existência de uma
escola desse tipo surpreende. A Colônia Blasiana abrigava órfãos ou crianças nascidas a partir da Lei do Ventre Livre
que eram enjeitadas pelos fazendeiros. Localizava-se na Fazenda Conceição, na atual Luziânia, GO. Seu proprietário era
Josep de Mello Álvares, o autodidata versado em diversos assuntos e sócio de diversas instituições científicas nacionais
e internacionais. Em sua fazenda eram realizados experimentos agrícolas calcados em princípios científicos, tais como,
aclimatação de plantas úteis, adubação orgânica (o que exigia a criação de gado estabulado), irrigação, construções rurais
(residências, estábulos, etc) de acordo com os princípios higienistas, policultura, etc. Sua grande meta era descobrir
uma cultura que alavancasse a economia goiana, tendo por referência a lavoura cafeeira, embora se fizesse a defesa da
policultura. O Imperial Instituto de Agricultura do Rio de Janeiro era seu modelo. A Blasiana era patrocinada pelo Impe-
rador na forma de verbas e de outros auxílios, e estava sempre a atender as demandas do Ministério da Agricultura, que
frequentemente lhe enviava sementes para serem aclimatadas, recomendações técnicas e livros. A escola agrícola visava
formar pessoas morigeradas e preparadas para lidar com a agricultura científica, como por exemplo, manejar arados, tratar
animais doentes, acompanhar partos das criações, etc. e preparar os trabalhadores livres para as fazendas para quando
a abolição da escravatura se efetivasse completamente. As filhas de Mello Álvares eram as professoras das matérias da

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educação básica e ele próprio o único professor das disciplinas técnicas. Dado à carência de recursos e de cientistas e
de professores qualificados, não se pode afirmar com segurança que a colônia fosse um espaço de produção científica,
todavia era um centro difusor da propaganda da agricultura científica, pois recebia muitos visitantes e tinha espaço na
mídia impressa. A Blasiana representa a modernidade em Goiás, quando só se falava em estagnação e decadência da
economia. As fontes históricas utilizadas foram os jornais do período disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira e os
documentos que se encontram no Arquivo Histórico de Goiás. Os caminhos trilhados foram uma interface entre história
das ciências desenvolvidas por Maria Amélia Dantes (2002) e seu grupo, que estuda as instituições científicas brasileiras
dos períodos colonial e imperial e o paradigma indiciário de Carlo Ginzburg (1987) devido à carência de fontes e por se
tratar de um tema quase que menosprezado pela historiografia.

Ciência na estrada: O Laboratório de Vírus de Belém

Rômulo Andrade (Casa de Oswaldo Cruz)

Entre os anos 1950 e 1960, a Amazônia foi alvo de uma série de ações estatais e particulares, que tiveram como
consequência a alteração do quadro nosológico local, bem como a intermitência de uma série de epidemias. Algumas,
já conhecidas, como era o caso da Malária. Outras febres e doenças desconhecidas, fruto da abertura de estradas e
outras obras, ajudavam a compor o complexo quadro epidemiológico da região. Junto a este contexto, a Fundação
Rockefeller, agência que já atuava diretamente no país desde o início do século XX, criava, em parceria com instituições
locais, uma série de laboratórios de isolamento de Vírus com diversas instituições no mundo inteiro. O Brasil, já com
histórico de colaboração com a agência, prontamente colaborou na criação do Laboratório de Vírus de Belém, em 1954.
Fruto de um acordo entre o Serviço Especial de Saúde Pública, o Instituto Evandro Chagas e a Rockefeller, o laboratório
contou com profissionais estadunidenses e locais. O laboratório de vírus estudou principalmente vírus transmitidos por
insetos e artrópodes. A principal missão da instituição era a classificação desses entes mórbidos e suas manifestações
em humanos e animais domésticos. Na busca por determinar quais virus eram presentes e em quais regiões se mani-
festavam, os pesquisadores estudaram amostras de sangue de diversos animais e humanos. O laboratório estabeleceu
diferentes métodos de classificação e novas formas de monitoramento dessas enfermidades. Esta informação obtida
através do trabalho de campo colaborou na compreensão da atividade dos vírus e seus ciclos vitais. Durante seu período
de funcionamento, a instituição isolou mais de 2000 cepas de arbovírus, constituindo 48 sorotipos, 18 sorogrupos e
8 vírus desagrupados. Entre as doenças detectadas estavam: Febre Amarela, Febre Mayaro, encefalite, Bussuquara,
Guaroa, Oropouche e mais uma séria de doenças (Idem). Muitos dos conceitos operacionais desenvolvidos por Causey
e sua equipe foram emulados por outros laboratórios da rede Rockefeller no mundo. Em meados dos anos 1960, a Fun-
dação começou a terminar o programa de vírus. O laboratório de Nova York foi incorporado à Yale School of Medicine em
1964, tornando-se a Yale Arbovirus Research Unit. As unidades locais foram incorporadas às instituições que já atuavam
nas regiões, como o caso do Instituto Evandro Chagas que absorveu a estrutura e equipamento do Laboratórios. Desta
forma, a presente comunicação pretende analisar o papel da ciência na expansão da fronteira amazônica por meio de
um estudo de caso, que articula uma ascendente especialidade, a virologia, com grandes projetos de desenvolvimento.

Entre a política econômica e a política nacional do meio ambiente:


uma reflexão sobre as medidas governamentais no território brasileiro

Jessica Garcia da Silveira (Universidade de São Paulo)

A institucionalização de políticas ambientais no Brasil é um resultado recente proveniente de demandas externas


e internas à sociedade brasileira. A construção da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei N. 6938) – e também do
Conselho Nacional de Meio Ambiente, Conama – data de 1981, período em que se estabeleceu grande parte dos proje-
tos de expansão da fronteira agroindustrial no país. O III Plano Nacional do Desenvolvimento (1980-1985) trouxe o meio
ambiente e os recursos naturais como um temas relevante da política econômica brasileira, mas também demonstrou
que o objetivo do governo era dar continuidade aos programas já iniciados na década de 1970 (Programa de Integração

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Nacional, Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à agroindústria do Norte e Nordeste – Proterra, Polonoroeste,
Polamazônia e Polocentro). O governo investiu em grandes empreendimentos para a geração de energia e ampliação da
produção agrícola, tais como: a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, o desenvolvimento do Proálcool e das usinas
nucleares. Entretanto, dentre os efeitos provocados por estes projetos estão: desmatamento de grandes faixas territoriais
da Amazônia, contaminação de rios e ampliação do uso de agrotóxicos. Entre 1985 e 1987 as demandas internas pelo
estabelecimento do licenciamento ambiental do setor elétrico, dos resíduos tóxicos e uma política de recursos hídricos
integraram os principais debates no Conama. Este foi um momento de mobilização por parte de setores da sociedade civil
e dos movimentos ambientalistas em torno da institucionalização das políticas de meio ambiente no país. Tal mobilização
pode ser percebida na Assembleia Nacional Constituinte (1987), por meio da qual houve intensa participação de atores
ligados ao Conama para a inclusão do meio ambiente na Constituição Federal de 1988. No entanto, diante das tensões
entre a política econômica e as políticas ambientais, a partir de 1988 observamos um declínio na legislação ambiental
e na atuação do Conama. Em 1989 foi estabelecido por meio do Decreto N. 96944 o Programa Nossa Natureza, que
deslocou a instância de decisões sobre o território da Amazônia brasileira exclusivamente para o poder executivo. O
Programa Nossa Natureza consistiu na resposta do governo brasileiro às denúncias internacionais sobre as queimadas
na Amazônia e a rápida devastação da floresta no território nacional, mas da forma como foi estabelecido revelou-se
como uma medida paralela à Política Nacional do Meio Ambiente, contando com orientações e ações diversas desta.
O objetivo do presente trabalho é refletir sobre as constantes tensões em torno das políticas ambientais brasileiras e
os projetos de desenvolvimento econômico durante a década de 1980, com enfoque sobre as políticas voltadas para o
território da Amazônia brasileira, buscando compreender como este tema mobilizou interesses nacionais e internacionais
no que relacionou colonização do território, desenvolvimento econômico e proteção do ecossistema.

Fome e Migração: cenário no interior da Província do Ceará na seca


de 1877

Janille Campos Maia (COC/Fiocruz)

O presente trabalho tenciona abordar uma das possíveis entradas de minha pesquisa de doutorado, através do qual
objetivamos compreender as relações que se estabelecem entre meio ambiente, doença e migração em um cenário de
seca e calamidade pública no Ceará do último quartel do século XIX. Torna-se imprescindível, portanto, compreender
a catástrofe como produto de um fenômeno natural, e para tanto, é fundamental perceber o contexto histórico no qual
determinada sociedade está inserida e de que maneira a calamidade encontrou espaço para se instalar no Ceará. Inte-
ressante observar como a fome se torna um fator desarticulador ocasionado justamente pelo rompimento da situação
ideal encontrada por esses trabalhadores livres pobres. Assim, a seca de 1877 na verdade foi apenas o estopim para
compreender um panorama muito mais complexo que está imbricado nas relações políticas, econômicas e sociais
cearenses. É igualmente importante salientar que no Ceará houve um grande esforço político de transformar a seca de
1877 em uma “grande seca”. Este foi o marco divisório entre as duas regiões do país, no que concerne ao território e a
organização política. Segundo Durval Muniz de Albuquerque Junior, existia naquele momento toda uma conjuntura de
disputas políticas onde tornar a seca um obstáculo a ser vencido surgia como alternativa para angariar recursos e con-
quistar benefícios políticos. Voltando o olhar especificamente para a seca de 1877, é importante rever uma abordagem
que naturaliza o “nomadismo” dos cearenses. Entender como a migração para fora da Província do Ceará era também
uma forma encontrada pelos retirantes para negociarem suas condições de vida e de trabalho. Afinal, através dessas
articulações durante o deslocamento, este homem livre pobre demarcou seu lugar na sociedade do século XIX.Um dos
objetivos do trabalho é, portanto, verificar e discutir os métodos e uma das estratégias de sobrevivência utilizadas pelos
sertanejos durante a seca de 1877 no Ceará: a migração. Para tal, foi de suma importância analisar o processo de decisão
desses migrantes, considerando sua relação com a terra e todo um horizonte de expectativas que se formava, inclusive
a previsão de retorno com o fim da seca. 
Para tanto, será utilizado um referencial teórico da História Ambiental e dos estudos sobre migração, território e
espaço, visando entender de que forma este fluxo migratório está relacionado com os desastres naturais que enfrentavam
estes cearenses. Assim, entendem-se as noções de fronteira e como diz Raffestin, a ideia de território e de construção
de divisões, cujas frações territorializadas pelas pessoas, grupos, classes são construídas por interesses em comum,

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como identidade ou objetivos econômicos. De uma forma geral, o conhecimento sobre o espaço habitado pelos serta-
nejos e como os condicionantes ambientais influenciaram no desenvolvimento da ocupação do território cearense são
fundamentais para compreender o processo de deslocamento destes indivíduos.

Nada ficará sem sofrer a influência estranha desse progresso que


chega: ferrovia, meio ambiente e saúde em Diamantina, Norte de
Minas Gerais.

Ramon Feliphe Souza (Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz)

Em maio de 1914 foi inaugurado o ramal ferroviário da cidade de Diamantina, Norte de Minas Gerais. Esse evento
era esperado pelas elites diamantinenses, pelo menos desde as três últimas décadas do século XIX. Com a administração
a cargo da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e com ligação direta com a Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB),
a presença de um ramal ferroviário em Diamantina parecia ser a solução para o diagnóstico de atraso e isolamento de
uma região percebida no limiar do progresso. Contudo, a ferrovia foi ao mesmo tempo progresso e transformadora do
ambiente natural, com suas locomotivas e trilhos alterando a paisagem original, produzindo ruídos e fumaça e demandando
a utilização mais intensiva dos recursos naturais da região. O ramal ferroviário também foi um facilitador da propagação
de doenças, por exemplo, a gripe espanhola no ano 1918. Portanto, a mais rápida comunicação entre Diamantina e outros
centros como Belo Horizonte e Rio de Janeiro propiciou que nos trilhos do almejado progresso também viessem os seus
incômodos parceiros: devastação da natureza e doenças. Mas, por outro lado, na medida em que avançou, a ferrovia
produziu conhecimento sobre a região, seja por meio de cartas topográficas, croquis e relatórios sobre a vegetação, a
população e a fauna local. Assim, naquele espaço, a ferrovia atravessou não apenas o território, mas também várias
dimensões da vida social e política. Tal como os apontamentos de Aldo Delfino, escritor diamantinense, nada ficou sem
sofrer a influência estranha do progresso que chegava por meio da presença ferroviária na cidade. Considerando esses
aspectos, a partir da análise de relatórios apresentados a diretoria da Estrada de Ferro Vitória a Minas e de algumas edições
dos periódicos diamantinenses A Estrela Pollar e Pão de Santo Antonio, o objetivo deste texto é tratar sobre a relação
entre saúde e recursos naturais no âmbito da construção e funcionamento do ramal ferroviário da cidade de Diamantina.

O “inimigo interno”: o combate às doenças de massa e a saúde


como questão estratégica na Doutrina de Segurança Nacional
e Desenvolvimento (1963 – 1974)

Matheus Santos Santana (COC/Fiocruz)

Desde meados dos anos 1960, é possível se perceber em documentos da Escola Superior de Guerra, entidade
responsável pela formação da alta oficialidade das forças armadas no Brasil, o aparecimento de um discurso que concebia
a saúde da população por um viés que combinava aspectos políticos, econômicos, ideológicos e de estratégia militar.
Ganhou força em tal doutrina uma perspectiva que a assinalava importância da saúde pública para a contenção da dis-
seminação da ideologia comunista no país, sendo uma intervenção governamental mais energética a fim de promover
a melhoria das condições sanitárias nas áreas do interior e o combate às chamadas “doenças de massa” consideradas
ações fundamentais para a pacificação das tensões políticas, sobretudo devido à insatisfação dos elementos de esquerda
e das Ligas Camponesas, e para a manutenção da “segurança interna” do país. 
É importante lembrar que na Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento (DSND) produzida pela ESG uma
das principais formas de expansão dos “inimigos internos” era a chamada “guerra psicológica”, estratégia pretensamente
usada pelas forças comunistas com o intuito de explorar as contradições existentes na estrutura social capitalista e a
fim de mobilizar as massas em prol da revolução. Segundo a DSND, fatores como a insegurança alimentar e sanitária,
presentes no Brasil do período, seriam elementos que contribuíam para uma gradual insatisfação das camadas de

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menor renda entre a população, contribuindo assim para a aproximação destes grupos com os partidos de esquerda,
defensores de uma pauta favorável à ampliação dos direitos sociais. A saúde, segundo o Manual Básico da ESG, livro de
caráter pedagógico utilizado na formação dos quadros civis e militares formados nos cursos da instituição, assumiria uma
importância estratégica não somente para a elevação dos padrões de consumo, produtividade e qualidade de vida dos
trabalhadores brasileiros, mas também a fim de difundir os valores capitalistas e ocidentais entre os mesmos, impedindo
assim a expansão das doutrinas de orientação marxista entre as classes despossuídas. 
Além de ser um dos principais arcabouços teóricos que orientaram os governos autoritários brasileiros a partir do
golpe de 1964, a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento da ESG ainda pode ser apontada como de grande
importância para a repressão dos grupos políticos e movimento sociais de oposição à ditadura civil-militar que governou
o país até 1985. Como destacou Maria Helena Moreira Alves, a criação do conceito de “inimigo interno” produziu um
cenário de medo e suspeita no seio da população, permitindo “ao regime levar a cabo campanhas repressivas que de
outro modo não seriam toleradas” (ALVES, 1984, p.27). Desta forma, a presente pesquisa tem o objetivo de analisar
o papel da saúde como ferramenta discursiva e política estratégica para o fortalecimento dos interesses das classes
dirigentes, civis e militares, que assumiram o controle do país a partir de 1964.

O culto a São João Maria na região de Xanxerê-SC, e a sacralização


de elementos naturais ligados ao monge do Contestado 

Tiago João Benetti (Universidade Federal da Fronteira Sul)

O presente trabalho pretende apresentar uma análise dos locais de culto ao Monge do Contestado e a sacralização
de elementos naturais atribuídos à sua legenda, localizados na região de Xanxerê – SC. A região a qual dedico este estudo
está localizada no Oeste catarinense, no que é conhecido como a região da AMAI – Associação dos Municípios do Alto
Irani, local este, palco de conflitos territoriais que remetem a séculos de disputa pelo direito de posse das vastas terras
que compõe este território. Neste contexto, nosso país protagonizou, historicamente, diversos processos relacionados
a divisão das então terras que poderíamos chamar de “Contestadas”.
O conflito que permeia este ensaio ficou conhecido como a Guerra do Contestado, que está relacionado, em linhas
gerais, com a vinda da estrada de ferro qual ligaria os estados do Sul do Brasil, concedendo a empresa construtora
uma grande porção de terra dos dois lados da ferrovia, espoliando antigos moradores de suas terras, gerando imenso
descontentamento por parte dessa população, eclodindo em grande revolta dos populares, porém trata-se de apenas
um dos motivos que despertaram o conflito, já que na região estavam também os trabalhadores da estrada de ferro, que
após o termino do contrato de trabalho, acabaram fixando moradia nas cercanias da nova ferrovia, porém sem direito
de adquirir legalmente lotes ou porções de terras para fixar moradia, aumentando a porção de descontentes que logo
iriam se unir em combate. Esta pesquisa busca identificar a importância e influência da crença em São João Maria na
organização politica, social e religiosa no imaginário popular das comunidades envolvidas. Procuro o entendimento entre
este imaginário e sincretismo religioso por parte dos sertanejos moradores do local e a utilização destes elementos
naturais (grutas, fontes de água, rezas e benzimentos), como fator determinante no cotidiano comunitário e o que esta
crença desperta entre seus seguidores que o cultuam até a presente data.

Os Cerrados e a Grande Aceleração

Claiton Marcio da Silva (Universidade Federal da Fronteira Sul)

Este trabalho aborda a relação entre ciência e cerrado no período entre a publicação do livro de Eugen Warming
(1892) e estudos de Rawitscher, Ferri e Rachid, botânicos da USP (1942). Warming afirmou que a escassez de recursos
hídricos influenciou na formação da vegetação característica e na baixa fertilidade dos solos. Nesta tradição, Arrojado
Lisboa, Alberto Sampaio, Philipe Vasconcelos e Barbosa de Oliveira propuseram projetos diversificados sobre o apro-
veitamento econômico do cerrado; já o artigo de 1943, por sua vez, apontou para a riqueza dos recursos hídricos na

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região, influenciando o aumento de experimentos agrícolas. Este trabalho enfatiza principalmente o levantamento da
diversidade da vegetação dos cerrados e os debates sobre a (in)fertilidade dos solos para cultivo em larga escala. Os
artigos publicados por estes botânicos ligados à USP influenciaram uma geração de agrônomos, pedólogos e outros
pesquisadores. Aos poucos, o cerrado do pós-1945, tornou-se um espaço fundamental no imaginário das elites para a
produção agrícola devido à possibilidade de utilização de fertilizantes bem como por seu clima e topografia favoráveis
à produção em larga escala. Mais recentemente, diante da demonstração do potencial do cerrado para o agronegócio,
uma disputa simbólica pela “descoberta” ou “conquista” do cerrado foi travada principalmente por pesquisadores de
instituições públicas e agências privadas: “muito se fala na pujança da agricultura nos cerrados”, diria o professor An-
tônio Brito da Cunha sobre seus colegas da Universidade de São Paulo, “mas poucos sabem que foram os trabalhos de
Rawitscher, Mário Guimarães Ferri e seus colaboradores que abriram caminho para se utilizar essa enorme parcela do
território nacional.” Por outro lado, em outubro de 2006, a premiação do “World Food Prize” (WFP) do “Prêmio Nobel
da Agricultura”, criada em 1986 pelo engenheiro agrônomo norte-americano Norman E. Bourlaug, foi concedida aos
responsáveis pela abertura do cerrado enquanto fronteira agrícola. Em um segundo momento, trabalho tem por objetivo
discutir a história do avanço da fronteira agrícola em direção aos campos cerrados e seu papel na intensificação da ação
humana relativa aos processos de governança dos ciclos biogeoquímicos – a Grande Aceleração. Mais especificamente,
este trabalho discute como a pesquisa em fertilidade dos solos, o incentivo à migração sulista e a intensificação da
monocultura, ocuparam papel central na ruptura com os processos tradicionais de ocupação de campos e savanas na
região central do Brasil. Por fim, observa-se como tais elementos serviram como instrumento para a consolidação de
programas de desenvolvimento não limitado aos cerrados, mas como modelo para a expansão agrícola em áreas de
savana nos continentes Americano e Africano.

Porangatu: As transformações ambientais no norte de Goiás 

Samira Peruchi Moretto (UFFS)

O povoamento do norte do Estado de Goiás foi intensificado devido a descoberta de ouro na região. Após longa fase
populacional estacionária, a construção da rodovia BR – 153, em 1958, trouxe forte impacto para regiãonorte do estado,
como o aumento populacional e intensificação das atividades agropecuárias. O presente artigo faz parte do projeto de
pesquisa A transformação da paisagem no norte de Goiás: desafios contemporâneos e pretende analisar o processo de
transformação da paisagem do norte de Goiás, na segunda metade do século XX. A pesquisa se justifica pelo fato de
que no norte de Goiás as fitofisionomias naturais foram e estão passíveis a modificações devido a presença de espécies
exóticas, introduzidas como forrageiras para alimentação bovina e/ou como gêneros agricultáveis. Segundo dados do
Inventário da Biodiversidade do Cerrado, desenvolvido pelo IBGE em 2007, este Bioma é o segundo maior da América
do Sul, ocupando uma área de 2.036.448 km2, cerca de 22% do território brasileiro. No Cerrado foram listadas 12.356
espécies de plantas e somente a flora vascular nativa engloba 11.627 espécies. Em função principalmente da ocupação
desordenada, mais de 50% da vegetação nativa deste bioma já foi antropizada (RESENDE; GUIMARÃES, 2007. p. 02).
O povoamento da região norte deste estado foi intensificado com a descoberta de ouro. Inicialmente habitado por
indígenas, em dezembro de 1943 o povoado de Descoberto passou a denominar-se Porangatu e a autonomia político-
-administrativa deu-se em 25 de agosto de 1948. Porém, é com a construção da BR – 153 que a região passa a ser
habitada por maior contingente.
O local foi considerado uma das maiores fronteiras do gado no estado e sofreu modificações na paisagem em
função desta atividade econômica. Segundo a socióloga Lucia Lippi Oliveira (SILVA et. al., 2013, p.12), as categorias
migração e fronteira permitem analisar a História do Brasil Central, pois a integração desse espaço ao território brasileiro
foi sempre marcada pelo deslocamento de populações, mormente empobrecidas, advindas de outras regiões do país.
Estas transformações ambientais acarretaram danos irreversíveis ao Bioma da região, o Cerrado, caracterizado pela
constante ameaça à sua biodiversidade.

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Uma etnografia bandeirante: a coleta de objetos indígenas
no Oeste paulista

Breno Sabino Leite de Souza (Fiocruz)

Fundado em 1886, a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo (CGGSP) constitui-se como um braço científico para
a ocupação do Oeste Paulista e expansão da produção cafeeira. Esta região era representada até aquele momento como desco-
nhecido e habitado por índios bravos. Sob o comando de Theodoro Sampaio (1855-1937), a expedição ao Vale do Paranapanema
ocorreu naquele mesmo ano e coletou informações sobre o território e seus habitantes, bem como relatos sobre ataques e conflitos
com as populações indígenas. Entre os resultados dessa comissão foi inaugurado em 1895 o Museu Paulista, a começar de uma
coleção que havia sido doada para a instituição. Ao lado do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1894), Museu Paulista
e CGGSP passaram a pensar São Paulo e sua relação com os índios do Oeste a partir da chave interpretativa do bandeirantismo.
O início do século XX marcou uma mudança na CGGSP. Após uma forte pressão de políticos e da elite paulista, a
comissão procurou efetuar um mapeamento completo dos sertões do estado de forma mais rápida e sistemática. Nesse
momento, conflitos entre a comissão e as populações indígenas, especialmente os Kaingang, tornaram-se inevitáveis. As
explorações aos tios Tiête e Feio ocorridas a partir de 1905 resultaram em contatos e conflitos com os Kaingang. O objetivo
era de afugentar os índios que estavam no caminho dos objetivos da comissão. Desses conflitos foram recolhidos utensílios
domésticos, armas e crânios que foram encaminhados para o Museu Paulista a fim de compor as coleções etnográficas.
A presente comunicação tem o objetivo de refletir sobre a coleta de tais objetos etnográficos e seus usos como
exposição e na construção de artigos científicos. Esses objetos foram permeados por discursos a respeito dos índios
do Oeste e de uma lógica da História Natural, por um lado, e da História, por outro. A partir de uma representação dos
paulistas como Bandeirantes, o debate sobre suas origens indígenas e as populações contemporâneas que eram vistas
como empecilhos ao progresso e à modernidade ganhou um lugar de destaque entre a instituições paulistas.

“As laboriosas conquistas do progresso”: as estratégias para


integração e exploração do território piauiense nas primeiras
décadas do século XX 

Laila Pedrosa da Silva (Casa de Oswaldo Cruz/COC/Fiocruz)

No presente trabalho pretendemos descrever e analisar o contexto piauiense das primeiras décadas do século XX.
O objetivo é compreender em quais condições se processou a elaboração de projetos políticos que visavam a moderni-
zação do estado, evidenciando as estratégias utilizadas, por meio de suas elites políticas, para integração do Piauí com
os demais estados da federação. Integrar a região representaria, dentre outras coisas, atenuar as diferenças existentes
entre o estado e outras regiões do Brasil. Marcado desde o início de sua colonização como uma região essencialmente
agrária e pecuarista, o Piauí não teria recebido as devidas atenções do governo imperial, o que segundo as autoridades
políticas locais teria impossibilitado o seu desenvolvimento. Na segunda metade do século XIX o estado foi apresentado
como uma região deplorável, sem nenhum recurso que chamasse atenção e arrasado pelas secas. A situação precária
passou a ser associada ao antigo “regime decaído”. Neste sentido, o advento da República causou ânimo nas autorida-
des piauienses, esperançosos de que o regime impulsionasse as transformações necessárias para o desenvolvimento
da região. Assim nas primeiras décadas do século XX as autoridades políticas locais passam a investir em uma nova
imagem para o Piauí, buscando divulgar suas riquezas naturais a fim de atrair capitais do poder central, como também,
denunciar o possível descaso com a região. Tal processo de modernização e de integração do chamado “sertão piauiense”
no início do século XX teria viabilizado o surgimento de uma história local que desejava construir uma memória patriótica
piauiense, a fim de romper com narrativas que somente atribuía ao estado o papel de atraso e decadência (Souza, 2008).
A ideia de sertão não é aqui percebida somente como um recorte geográfico específico, antes também, enquanto uma
construção social que foi conformada pelos interesses das elites locais em construir um Piauí que “pudesse ser”. Diante
disso, pode-se perceber um esforço das elites políticas para elaboração de uma identidade piauiense a partir de suas
características territoriais, ou seja, das particularidades que diferenciava o estado do Piauí do conjunto da federação. 

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ST 10. Ciência, Educação, Sociedade e História

A Ciência em um Jornal da Amazônia: Folha do Norte (1896) 

Luiz Carlos Silva Conceição (Universidade Federal do Pará), Raimundo Nascimento Pereira Barros (UFPA)

A presente pesquisa tem por objetivo analisar os discursos sobre Ciências que circularam nas páginas do jornal
Folha do Norte, no ano de 1896. A escolha desse recorte representa o ano de criação deste jornal e a circulação de duas
colunas voltadas para a difusão científica, denominadas “Revistinha Scientífica” e “Respiga Scientífica”. Assim, tomamos
como ponto de partida para nossas análises o seguinte questionamento: Quais notícias científicas eram predominantes
nas duas colunas científicas? O jornal Folha do Norte teve uma duração de setenta e oito anos, iniciando suas atividades
em janeiro de 1896 e circulando diariamente até 1974. Foi um periódico de grande importância na história da imprensa
no Pará, por estar envolvido no cenário político, especialmente no final do século XIX e início do século XX, sendo forte
defensor do Partido Republicano Federal liderado por Lauro Sodré. Este jornal trazia em suas publicações além de notícias
políticas uma variedade de outros assuntos. Entretanto, nosso foco consistiu em analisar as notícias que tinham relações
com as Ciências. Assim, realizamos uma minuciosa pesquisa dos exemplares, desse jornal, disponibilizados na Heme-
roteca Digital da Biblioteca Nacional. Nessa busca encontramos as duas colunas científicas, “Revistinha Scientífica” e
a “Respiga Scientífica”. A primeira começou a circular em 23 de fevereiro de 1896, na edição 54, tendo como objetivo
colocar os leitores em “contato com o movimento científico do mundo culto”, apreciando por meio da sua leitura, “os
mais recentes resultados das investigações do espirito humano”. Suas notas eram transcritas de revistas e jornais com
os quais a Folha do Norte mantinha relações. A segunda passou a ser editada com o intuito de noticiar os aconteci-
mentos relacionados ao campo das Ciências, sendo publicada pela primeira vez em 22 de março de 1896, na edição de
número 82. As notícias científicas sobre os Raios X e a Higiene foram bastante representativas dentro dessas colunas
e em notas soltas publicadas nas páginas desse jornal. Notícias sobre os Raios X foram tratadas como uma importante
descoberta científica, que prometia “extraordinárias vantagens”, que causaria impacto no meio social por desvendar
corpos estranhos dentro dos organismos. Com relação à higiene, se fizeram presentes notas relacionadas à vacinação,
saneamento, prevenção de doenças, dentre outras. Essas publicações contribuíram para analisar como os discursos,
sobre difusão cientifica, eram veiculados nas páginas do Jornal Folha do Norte, no período estudado.

A disciplina de história da educação e as representações dos alunos


do curso de pedagogia sobre a idade média 

Desiré Luciane Dominschek Lima (Universidade Estadual de Campinas)

Este trabalho tenta apontar a representação das alunas no curso de pedagogia sobre a disciplina de História da
Educação ,especificamente a questão da relação com os conteúdos abordados sobre a idade média. A história pode
representar um estudo criterioso e a exposição ordenada considerando primordialmente – o tempo – de situações, idéias,
e ideários, vidas de pessoas, povos e grupos sociais, e também o desempenho de instituições e organizações .A história
e a historiografia da educação fazem o mesmo que a história, mas escolhem como foco de atenção campos do cotidiano
escolar.A História da Educação é uma disciplina curricular de diferentes cursos de formação: Pedagogia,Normal Superior
e demais cursos de licenciaturas, além de uma área de pesquisa em ampla expansão no Brasil. Neste sentido preten-
demos analisar a contribuição da história para o campo educacional relacionando um dado colhido na prática docente:
A dificuldade dos alunos na compreensão e entendimento do período referente á idade média.O objetivo central deste
ensaio é a promoção do debate sobre o ensino de história e história da educação frente a abordagem do período que
consta a Idade Média e continuidade de aprofundamentos de conceitos trabalhados na disciplina como área de pesquisa.
O período Histórico em que os alunos do curso de pedagogia mais relatam dificuldade de compreensão e aderência
a sua própria formação é o período Medieval.Para debatermos sobre a relação de dificuldade dos alunos do curso de

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pedagogia com a compreensão do período medieval penso ser necessário destacar como a disciplina de História da
Educação,que se constituiu como disciplina no Brasil recentemente, e tem destaque na década de 1930 é trabalhada na
faculdade de pedagogia da instituição onde atuo. A História da Educação é parte da História Geral e parte do fundamento de
formação do curso de pedagogia. Destaca-se a educação no contexto histórico, para analises de continuidades e rupturas.
A História da Educação, não estuda o passado pelo passado, como coisa morta, mas utiliza esse conhecimento
do passado como destaque para entendermos o presente. 
Franco Cambi, pedagogo italiano, faz aqui uma reconstrução interpretativa geral da história da pedagogia ocidental.
O livro aborda um período histórico que vai desde a Antigüidade clássica até o fim da guerra fria. Para cada período, o
autor descreve o pensamento educativo hegemônico e suas instituições pedagógicas. Forma de sublinhar o aspecto
social da educação, esta prática historiográfica possibilita ao autor tecer considerações a propósito de várias correntes
atuais de estudo da escolarização.

A Escola de Agronomia do Pará e a difusão das ciências na Amazônia


(1918-1935)

José Arimatéa Gouveia dos Santos (Universidade Federal do Pará),


Kelúbia Soares Teixeira (Universidade Federal do Pará)

A Escola de Agronomia do Pará foi criada em 1918 no Estado Pará, na região Amazônica, pela entidade particular
Centro propagador de Ciências, constituída por: advogados, médicos, engenheiros, agrônomos e políticos. A Escola foi
criada para formar profissionais de base cientifica que atuassem na modernização das atividades agrícolas no Estado
em meio a região dominada pelas atividades extrativistas e uma agricultura considerada rotineiras nas falas de gover-
nantes e outros sujeitos sociais. O objetivo desta pesquisa é analisar como a Escola de Agronomia do Pará atuou na
difusão das Ciências Naturais por meio do currículo, espaço físico e da atuação profissionais de alunos de 1918 a 1930.
A Escola para o funcionamento das atividades práticas teve apoio do Estado com a autorização de espaços para ensino
em departamentos públicos. Diante desse aparato, como a Escola atuou na difusão das Ciências Naturais na Região?
Para investigarmos isso, estamos analisando documentos, como: mensagens e relatórios de governadores do Pará,
relatório do Ministério da Agricultura, jornais, revistas agrícolas, álbuns do Pará, Diário oficial do Estado do Pará. Até o
momento de desenvolvimento da pesquisa, os resultados têm demonstrado que a Escola apresentou no currículo inicial
disciplinas cientificas, como: física agrícola, botânica, zoologia, química com suas especificidades, anatomia e fisiologia
animal, entomologia, parasitologia e outras. Na infraestrutura para o ensino apresentou gabinetes e laboratórios de física,
química e história natural. Em 1928 ampliou suas atividades acadêmicas com a criação do Curso de Medicina Veteriná-
ria, acrescentando a sua infraestrutura gabinetes de medicina veterinária, microbiologia, hospital veterinário e campos
experimentais. Em 1931, a estatização dessa Instituição de Ensino recebeu maior investimento para revigoramento de
suas atividades. Até em 1935, titulou quinze turmas num total de cem engenheiros agrônomos. Muitos de seus alunos
se tornaram agrônomos de repartições públicas de fomento a agricultura no Pará e alguns no Brasil.

A Escola de Pharmácia do Pará e a Introdução das Ciências


no Ensino Superior

Marcelino Carmo de Lima (Universidade Federal do Pará),


Sulenir Candida da Silva Nascimento (Universidade Federal do Pará)

O presente artigo tem como objetivo analisar a presença das ciências na Escola de Pharmacia do Pará no período
entre 1904 e 1914. Escolhemos como marco inicial o ano de 1904 por corresponder ao ano de criação desta instituição e,
como marco final, o ano de 1914 por corresponder ao momento em que seu currículo passou por modificações, visando
adequar-se à Lei Rivadavia Corrêa que determinava diretrizes para a instrução superior no País. A criação da Escola de

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Pharmácia do Pará inaugurou uma nova fase no ensino paraense por ser a segunda escola de nível superior no estado,
a primeira do campo da saúde e a primeira a introduzir as ciências em seu currículo, pois, até esse momento, apenas
nas escolas de nível primário, secundário e técnico se ensinavam ciências. Conforme a lei que autorizou a criação desta
Escola, o curso seria ministrado em dois anos e deveria funcionar nas dependências da Diretoria do Serviço Sanitário,
utilizar os laboratórios de química e farmacologia para as aulas práticas, assim como também, determinava que seu
quadro docente e administrativo fosse composto por inspetores dessa repartição sanitária. Para ingressar no curso de
farmácia, era imprescindível apresentar os exames preparatórios que exigiam conhecimentos de Física, Química e História
Natural, além de conhecimentos como Aritmética, Álgebra e Geometria Plana, Português e Francês. História Natural e
Química foram disciplinas que estavam presentes em seu primeiro currículo. Com a Reforma Rivadávia Corrêa, em 1911,
novas diretrizes foram definidas provocando mudanças significativas na estrutura do curso. O mesmo foi ampliado de dois
para três anos e seu currículo passou a incorporar novas disciplinas cientificas, como Física e Microbiologia. Em 1914,
novas reformulações alteraram a estrutura curricular do curso, o qual suprimiu a História Natural, introduziu a Biologia
e ampliou o número de disciplinas ligadas ao conhecimento da Química. Assim, as ciências foram predominantes no
currículo da Escola de Pharmácia do Pará desde sua criação e a cada reformulação curricular, novas disciplinas científicas
eram incorporadas e/ou desmembradas, mantendo a predominância das disciplinas do campo científico.

A História Natural como um saber disciplinar no Pará (1851-1900)

Marcelino Carmo de Lima (Universidade Federal do Pará), 


Sulenir Candida da Silva Nascimento (Universidade Federal do Pará)

A História Natural estava presente no currículo do Liceu Paraense e mais tarde na Escola Normal que eram as
escolas de maior expoente na Amazônia, no momento em que ainda não havia instituições de ensino superior na região.
Em 1851 o currículo do Liceu Paraense previa a cadeira Elementos de Física, Química e Princípios gerais de Botânica.
Posteriormente, em 1873, o currículo previa Química, Física e História Natural. A respeito da História Natural existem
estudos que tratam da sua introdução nos currículos das escolas paraenses, mas não se aprofundam, no sentido de
verificar quais eram as abrangências desse campo do conhecimento. Convém assinalar que a História Natural era um
campo que abrangia vários ramos das Ciências tais como: Zoologia, Botânica, Mineralogia e Geologia, que certamente
variaram ao longo da história. Neste trabalho, que abrange o período entre 1851, quando há entrada da disciplina no
currículo do Liceu Paraense, e 1900, ano de reforma na Instrução Pública, o propósito é analisar que saberes sobre essa
designação estavam presentes no Pará na fase inicial em que ela foi introduzida nas escolas locais tais como as acima
mencionadas e as condições sociais relacionadas com essa introdução. Quais eram as disciplinas? As referências mostram
que havia as disciplinas citadas anteriormente, incluindo a História Natural. Neste trabalho darei continuidade a esse
processo, pesquisando com mais aprofundamento os livros que foram adotados, as propostas curriculares, como esse
saber era recepcionado/compreendido pelos membros da educação. Quanto ao contexto histórico, convém assinalar, no
que se refere à História Natural, que nesse momento já havia na província mais importante da Amazônia um Museu de
História Natural e Etnografia (atualmente Museu Paraense Emílio Goeldi), voltado para pesquisas de História Natural, mas
incluía também propostas educacionais tais como as representadas pelo método “Lições de Coisas”, que consistia em
expor os objetos para apreciação, e continuava a circulação de naturalistas, que vinha ocorrendo desde o século XVIII e
agora se acentuava. Portanto, todo esse movimento em torno da História Natural na região, iniciado antes mesmo desse
campo do conhecimento ser introduzido nas escolas, como pudemos constatar, criaram um contexto favorável para isto.

A Introdução das Ciências na Amazônia por meio dos currículos


escolares (1870-1890)

Jônatas Barros e Barros (Instituto de Educação Matemática e Científica – Universidade Federal do Pará)

Temos o objetivo de analisar o papel das escolas na introdução das Ciências na Amazônia, entre 1870 e 1890.
Escolhemos o marco inicial porque a introdução das Ciências Naturais nas escolas do Pará acelerou, sendo integradas

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aos currículos da instrução primária, profissional e normal. O marco final foi escolhido porque o número de disciplinas
científicas previstas para o ensino paraense aumentou, na primeira reforma da instrução pública do Pará durante Repú-
blica Velha. O principal pano de fundo são as reformas na instrução pública e a Bellé Époque Amazônica. Esta, iniciada
em torno de 1870 e estendida até por volta de 1912, representou para Províncias como o Pará e o Amazonas a acele-
ração da entrada de bens materiais e ideológicos oriundos da modernidade. As embarcações a vapor, símbolos dessa
modernidade, diariamente atracavam e partiam dos portos de Belém, trazendo e levando estrangeiros e brasileiros,
que residiam temporariamente, fixamente ou que estavam de passagem, para as mais diversas localidades do Brasil e
outras nações, especialmente da Europa, como França, Inglaterra, Alemanha, Portugal; como aponta Daou (2004) ao
afirmar que os jornais “sempre anunciavam a chegada ou a partida de filhos das famílias de renome”. Também iam e
vinham Governantes, muitas vezes enredados de ideais da modernidade, que tinham o poder de decidir, inclusive em
relação a educação. Caso, por exemplo, de Joaquim Portella, que em 1871 chegou a Belém com o objetivo de presidir a
Província do Pará, residiu cerca de três meses e promoveu reformas na instrução pública na ordem da modernidade. O
panorama das reformas na instrução paraense permitiu-nos analisar 1870 como um marco de aceleração do processo de
introdução das Ciências Naturais nas escolas do Pará, ainda que instituições como o Liceu Paraense, principal escola de
instrução secundária, cerca de um ano antes, houvesse introduzido no currículo a Física e a Química. Em 1870 se criou
o Instituto de Educandos e Artífices do Pará, para dar instrução primária e profissional a meninos órfãos e desvalidos,
trazendo no currículo a disciplina Noções Elementares de Física e Química. Nesse mesmo ano a instrução primária foi
reformada, sendo inserida a disciplina “Noções Rudimentares de Ciências Físicas e Naturais”. No ano seguinte, 1871,
a cadeira Elementos de Física, Química e Agricultura integrou o currículo de uma nova instituição: a Escola Normal do
Pará, criada com o fim de formar professores para atuarem na instrução primária. Dois anos depois, em 1873, foi a vez
da História Natural integrar o currículo do Liceu. Contudo, a instabilidade das Ciências nos currículos da instrução pública
do Pará foi uma marca na fase inicial, a ponto de em 1889 as ciências estarem ausentes, representando que a recepção
do processo modernizador, pela cultura local, ainda não tinha tornado uma necessidade imperativa a aprendizagem das
ciências. Isso começou a mudar em 1890, quando as Ciências Naturais retornaram com expressividade.

A introdução do Higienismo na Escola Normal do Pará (1871-1890)

Luiz Carlos Silva Conceição (Universidade Federal do Pará, UFPA), 


Raimundo Nascimento Pereira Barros (UFPA)

O objetivo deste trabalho é analisar os antecedentes históricos à introdução da Higiene como disciplina na Escola
Normal do Pará, mais especificamente analisaremos os discursos que circularam nos currículos, regulamentos e livros
didáticos desta instituição, entre 1871 e 1890. O marco inicial coincide com a criação da referida instituição, engendrada
com a finalidade de formar professores para atuarem no ensino primário paraense. O marco final se dá em um momento
em que se privilegiou um novo olhar para a Escola Normal do Pará, aos moldes da ordem dos discursos cientificistas desse
período. Desde sua criação até 1889, a Escola Normal do Pará passou por acentuada instabilidade, com fechamentos,
anexações e reaberturas. Nesse ínterim, em âmbito nacional, as décadas de 70 e 80 do século XIX foram fecundas no
que se refere a renovação intelectual, e intelectuais da época – adeptos das novas ideias do século, como Positivismo,
Darwinismo, Materialismo, Higienismo etc. – passaram a defender reformas de caráter político, social e cultural. Em
âmbito regional, a criação da Escola coincide com o início da Belle Époque na Amazônia, no qual chegava a Belém – porta
de entrada dos bens materiais e ideológicos da Amazônia – um modelo de instituição nascido na Europa, portadora dos
valores da Racionalidade Científica Moderna. O currículo da Escola Normal do Pará, que de certa maneira se asseme-
lhava aos currículos das chamadas escolas de primeiras letras, ainda não possuía disciplinas relacionadas aos discursos
higienistas, apesar de práticas de cunho médico-higiênicas estarem inseridas no âmbito escolar, como as condições
de saúde necessárias à matricula dos estudantes, por exemplo. A introdução de disciplinas como “Higiene” e “Higiene
Escolar” ocorrerá somente a partir de 1890, associadas à disciplina de Biologia, justamente no momento do retorno ao
currículo de disciplinas de caráter científico balizadas pelos ideais modernizadores. Destaca-se o papel José Veríssimo,
que, ao assumir a diretoria de Instrução Pública do Pará, era bastante familiarizado com os novos ideais cientificistas
oriundos da Europa e concordava com a inclusão de disciplinas científicas no currículo, o que veio a se concretizar com
a reforma do currículo da Escola Normal naquele mesmo ano.

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Cenas do cotidiano escolar: um olhar sobre o conceito de Infinito
e a História da Matemática

Ana Paula Gonçalves (UFRJ), Dorival Rodrigues da Rocha Junior (UFRJ), 


Sicleidi Valente dos Santos Britto (Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro)

Cena 1: “A professora apresenta a lâmina dos slides, onde estão a revisão sobre Conjuntos Numéricos, seus sím-
bolos, suas relações de inclusão, o número π e a sequência de Fibonacci. Eis que um aluno interpela e diz:
– Não existe infinito, professora. Tudo é finito. Tudo é hoje. Nem sei se amanhã estarei vivo. Por que vamos estudar
esses números que não existem?”
Cena 2: “ A professora apresenta várias imagens de pirâmides utilizando um software de Geometria Dinâmica,
onde é possível verificar e analisar os seus elementos. Eis que um aluno pergunta:
Professora, nós temos aqui um tetraedro e a senhora acabou de dizer que as pirâmides podem ter base triangular,
quadrada, pentagonal... Se aumentarmos muito esse número de lados, os vértices da base podem ficar tão próximos, a
ponto do tetraedro se transformar em um cone?”
A dificuldade encontrada em implementar um curriculum escolar envolvendo produção científica na Educação
Básica brasileira é real. Com as mudanças no projeto de ensino de Matemática, substanciadas pela implantação Base
Curricular Nacional Comum, a realidade do ensino de Infinito Matemático torna-se ainda menos viável. Essa conjuntura
atinge diretamente o professor de Matemática que deseja discutir os conceitos relacionados a conjuntos e números
infinitos: os alunos não se sentem capazes, não se interessam e não percebem o sentido do ensino desse conceito. Essa
é a realidade da maioria das escolas, mas, por muitas vezes, nos deparamos com algumas situações inusitadas como,
por exemplo, a descrita na Cena 2.
O presente artigo tem por objetivo apresentar situações do cotidiano da Educação Básica em algumas escolas do
Rio de Janeiro, onde a discussão sobre Infinito tornou-se uma possibilidade de incentivo para o estudo de alguns conte-
údos matemáticos. Quando o assunto abordado envolve “finitude” ou “infinitude”, percebe-se que os alunos já trazem
seus pré-conceitos sobre o tema e é possível explorar esse fato à luz dos estudos CTS e da História da Matemática.
Pretende-se, também, mostrar que a discussão sobre o conceito de infinitude, tanto para o infinitamente grande
quanto para o infinitésimo, estão mais presentes em escolas onde os alunos podem vislumbrar mais o futuro, onde o
incentivo pelo progresso educacional e profissional está mais presente. Enquanto isso, nas escolas menos abastadas, a
discussão sobre o Infinito é menos adensada. Fala-se mais de finitude, devido aos imediatismos experimentados pelos
alunos no seu próprio círculo social.
Para substanciar as perguntas colocadas pelos alunos em sala de aula, as atividades envolvendo História da Mate-
mática estão sendo elaboradas e, assim, um cenário tem sido apresentado: é possível que a Matemática da Educação
Básica dialogue com as propostas (inter-multi-trans-in) disciplinares apresentadas nos cursos de pós-graduação em
História e Filosofia das Ciências.

Centro de Referência da Memória da Resistência ao Golpe


e à Ditadura Civil-Militar 1964-1985

Paulo Cesar Azevedo Ribeiro (Pesquisador do Ministério da Cultura)

O Centro de Referência da Memória da Resistência ao Golpe e à Ditadura 1964-1985 no Brasil tem como objetivo
tornar acessível aos interessados a consulta a documentos textuais, monografias, dissertações, teses, livros, periódicos,
vídeos e gravações em áudio, mapas e fotografias que registraram a ação de pessoas que resistiram à ação de agentes
do Estado e organizações da sociedade civil que promoveram o golpe contra o governo de João Goulart e implantaram
uma ditadura civil-empresarial-militar.
Criou-se um Blog onde colocamos uma apresentação e breve introdução do trabalho seguida de uma Planilha com
a relação bibliográfica, que será precedida por uma resenha dos livros considerados essenciais para uma compreensão

100
melhor do período. Os títulos dos periódicos e os filmes ficcionais, documentários e depoimentos também estão listados.
Nosso objetivo é facilitar estudos e pesquisas que focalizem não só as violências dos agentes do Estado na repressão
aos movimentos sociais como também as lutas por melhores condições de vida e de trabalho, por liberdade, igualdade e
contra todas as formas de discriminação, além das lutas por Reformas de Base e por profundas transformações políticas,
econômicas e sociais na sociedade.
A ênfase da pesquisa é na Resistência ao golpe e à ditadura e não propriamente sobre a ação dos agentes do
Estado e seus apoiadores na perpetuação de graves violações dos Direitos Humanos no Brasil.
Com as Comissões da Verdade que foram criadas e realizaram seus trabalhos no Brasil (Comissão Nacional da
Verdade e Comissões Estaduais, Municipais e Setoriais) dezenas de recomendações foram feitas para que não se per-
petuem as graves violações que agridem os mais elementares Direitos Humanos no Brasil. Milhares de documentos
escritos e testemunhos orais foram recuperados e permitem um mais amplo e profundo conhecimento da Resistência
do povo brasileiro contra as mazelas da concentração da renda, da riqueza e das oportunidades e o perverso modelo
político excludente que permite a perpetuação da ação predatória das elites nacionais de setores retrógrados da sociedade
brasileira articuladas com interesses de grandes grupos econômico-financeiros nacionais e estrangeiros.
Embora haja muito material escrito e áudio-visual sobre a Resistência ao Golpe e à Ditadura 1964-1985 no Brasil
pouco se produziu para divulgar melhor esses aspectos importantes do período. A atuação de Coletivos que lutam por
Memória, Verdade e Justiça buscam sensibilizar cidadãos e cidadãs no sentido de que a busca pela Verdade e Justiça
sobre as perseguições, prisões, torturas, mortes e desaparecimentos da ditadura e sua impunidade associa-se com as
graves violações cometidas contra as populações rurais e urbanas ainda hoje, amparadas pela Lei de Segurança Nacional
em vigor e pela Garantia da Lei e da Ordem (GLO) que permite violação de domicílios de toda uma região, especialmente
favelas e moradias de pessoas de baixa renda.

Fase Inicial de Introdução das Ciências Naturais no Ensino do Estado


do Amapá: Colégio Amapaense (1947-1963)

Rocio Rubi Calla Salcedo (Universidade Federal do Amapá)

Apresentam-se as Ciências Naturais no currículo do Ginásio Amapaense, atualmente denominado Colégio Ama-
paense, com o fim de investigar a constituição da educação científica na Amazônia. Essa Instituição foi a primeira a
oferecer o ensino secundário no Território Federal do Amapá cujo marco ofereceu a possibilidade da introdução das
Ciências Naturais em nível secundário no Estado. Inicialmente, apresenta-se a história educacional do Colégio, com
sua criação, suas condições e as eventuais possibilidades que o fariam existir, com as normas que legitimavam seu
funcionamento para, em seguida, mostrar como as Ciências se apresentaram no currículo e o que nele se diferenciava
daquilo que existia no Estado.
Em complemento, discorre-se sobre a implantação do Museu Territorial, criado com a finalidade educativa para
incentivar os alunos à pesquisa de Ciências diretamente ligada às aulas de Ciências Naturais, constatando-se que essas
ações, à época, enriqueceram as condições na divulgação científica. Portanto, esses movimentos em prol das ciências
naturais nos conduzem a refletir sobre a importância do ensino de Ciência.
O Colégio Amapaense foi criado pelo Decreto Territorial n. 49, de 25 de janeiro de 1947, com o objetivo de propor-
cionar o ensino secundário. Inicialmente, recebeu o nome de Ginásio Amapaense, e começou suas atividades no dia 27
de março do mesmo ano, em regime de externato, para ambos os gêneros e de forma condicional (encontrava-se ainda
em pendência da equiparação), situação que se estendeu até 09 de agosto de 1947.
Essa Instituição de Ensino foi denominada “colégio” em 25/01/1952, autorizada pelo Decreto Governamental n.
125/1952. Assim, o Ginásio Amapaense passou a se chamar Colégio Amapaense e começou a oferecer o segundo
ciclo denominado “Curso Colegial” (atualmente conhecido como Ensino Médio). Essas Instituições, quando ofereciam o
primeiro e o segundo ciclos eram denominadas colégios, e as que propiciavam apenas o “primeiro ciclo” eram denomi-
nados ginásios (SOUZA, 2008, p. 172). 

101
Fases Iniciais de Implantação das Ciências nas Escolas da Amazônia

Jônatas Barros e Barros (Instituto de Educação Matemática e Científica – Universidade Federal do


Pará), José Jerônimo de Alencar Alves (Universidade Federal do Pará)

Analisaremos o processo de implantação das ciências nas escolas da Amazônia, com o intuito de dividi-lo em fases.
Para isso buscaremos identificar momentos de descontinuidades: nas temáticas dos currículos das escolas, nas finalidades
que estas pretendiam alcançar, nas configurações dos prédios onde funcionavam e nos níveis de escolaridade que represen-
taram. Em conformidade com os Estudos Culturais buscaremos os motivos dessas descontinuidades no contexto cultural,
ou mais especificamente, nas disputas, estratégias influências e demais fatores que tenham contribuído para determinar as
temáticas, finalidades, configurações e níveis de escolaridade, analisados com o intuito de determinar a cada fase. Embora
o interesse principal esteja relacionado com a trajetória das ciências, retornaremos a implantação dos primeiros colégios
para compreender os antecedentes do processo de instituição das ciências. A partir dessas considerações estabelecemos
as seguintes fases: a primeira, que se caracteriza pela implantação das escolas religiosas voltadas para a introdução da
língua, religião e outros elementos da cultura dos colonizadores com o intuito modificar a cultura dos nativos. A segunda
fase se caracteriza pelas Reformas Pombalinas, pois estas modificaram o sistema escolar precedente, pela adoção de
algumas ideias iluministas e demolição do ensino jesuíta dominante, contudo não mudaram acentuadamente o currículo das
escolas que implantaram, pois a religião e as letras continuaram a ser enfatizadas e ensinadas e com o mesmo propósito
colonizador. A terceira fase é marcada pela introdução das ciências nas escolas, sobretudo as representantes do segundo
grau, como o Liceu Paraense que adotou a Física e a Química, em meados do século XX. O propósito não era mais colo-
nizador e sim civilizador, pois o currículo não deixava de ser regido pelas elites portuguesas e passava a ser determinado
pelas elites locais ansiosas em absorver as “luzes da civilização”, tais como as representadas pelas ciências. Na quarta
fase, com a chegada das escolas de nível superior, as ciências se ampliaram, situando-se na base dos estudos ministrados
pela maioria dessas instituições, que foram surgindo nesse momento, tais como as escolas de Farmácia, Odontologia e
Medicina, ou seja, voltadas para formação de profissionais de saúde e, ainda, a de Química Industrial.

Giuseppe Martina: ciência, educação e sanitarismo no Pará (1899-1914)

Diego Ramon Silva Machado (Universidade do Estado do Pará)

A história intelectual é permeada por uma série diversas interpretações sobre agentes, práticas, processos e
produtos classificáveis como intelectuais. Neste âmbito, instituições escolares e científicas podem ser interpretadas a
partir do olhar sobre a produção intelectual e das práticas pedagógicas de seus sujeitos históricos, tais como profes-
sores, técnicos e pesquisadores. O presente artigo se insere neste tema de pesquisa e discute a trajetória intelectual
de Giuseppe Martina, químico que atuou em instituições educacionais e científicas no Pará, durante o início do século
XX. Nosso recorte adota o período das citações e publicações que referenciam a participação de Martina nos espaços
culturais, instituições de ensino e nas publicações periódicas, entre 1899, onde há primeira citação do químico como
lente do ensino secundário da disciplina Física e Química e responsável pelo observatório meteorológico do Instituto Lauro
Sodré, em Belém; e 1914, quando o mesmo publica, já em outro estado, um artigo com o conteúdo sobre a pureza da
cana de açúcar e seu conteúdo de potássio, caracterizando outra linha de investigação de Martina, antes voltada em
grande parte para temas como higiene e saúde.
Aponta-se a inserção de Martina nos espaços institucionais e educacionais paraenses no início do século XX, a exemplo
do Instituto Lauro Sodré e Escola de Farmácia do Pará, onde ele foi professor, a Inspetoria do Serviço Sanitário do Pará, local
em que atuou no laboratório de análises clínicas e bromatológicas, bem como suas publicações na Revista Pará Médico.
Faz-se isso a partir da análise de fontes que citaram o nome de Giuseppe Martina, bem como periódicos onde ele
publicou seus trabalhos, a saber: Monografia do Instituto Lauro Sodré (1899 e 1904), Cardeneta de frequência do Insti-
tuto Lauro Sodré (1899), Revista Pará médico (1900 e 1901), Almanak Laemmert: administrativo, agrícola, profissional,
mercantil e industrial (1909), Discursos dos presidentes da província.
Discute-se sua inserção na relação à história das disciplinas Física e Química Médica, ministradas no Instituto Lauro
Sodré e Escola de Farmácia do Pará, respectivamente, como conteúdo que fazia parte da cultura escolar, acadêmica e

102
cientifica da época, aliada a perspectiva de modernidade na capital paraense, sobretudo na educação médica; a ideia
saneamento e higiene contida nos seus escritos; bem como a circulação de suas ideias nos periódicos locais como
forma de difusão científica.

Instituto Lauro Sodré e a difusão das Ciências no ensino profissional


no Pará (1870 – 1911)

José Arimatéa Gouveia dos Santos (Universidade Federal do Pará), 


Kelúbia Soares Teixeira (Universidade Federal do Pará)

O objetivo desta pesquisa é analisar as contribuições do Instituto Lauro Sodré na difusão das Ciências Naturais no
período de 1870 a 1911 na educação paraense. A Instituição Educativa foi criada em 1870 como Instituto Paraense de
Educandos Artífices com a finalidade de oferecer o ensino profissional a órfãos desvalidos e aos jovens menos favorecido
de fortuna que ingressavam a partir dos sete a doze anos nos cursos de funileiro, marceneiro, sapateiro entre outros.
Nesse período, a racionalidade científica moderna estava sendo expandida na Amazônia por via marítima em navios a
vapores vindos da Europa, acelerada em torno da década de 1870 a 1911 com a denominação particular de Belle-Époque
Amazônica. Durante esse processo ocorreu intensa recepção ao estilo moderno, inclusive com a expansão escolar no
projeto civilizatório da população. Em 1899, o Instituto sofre uma grande reforma, tendo o nome modificado para Instituto
Lauro Sodré, onde foi projetado com mais de vinte e uma salas, contendo biblioteca, laboratório de química e gabinete
de física, posto zootécnico, campo de experiências entre outros. Há um estudo recente a respeito do papel das escolas
agrícolas na introdução da racionalidade científica no Pará analisando um dos cursos do Instituto Lauro Sodré – Curso
Regente Agrícola, em que se concluiu ocorrer a difusão das ciências naturais no seu currículo, ensino e espaço físico
da escola, no entanto, a maioria dos cursos ficaram com pesquisa em aberto, o que nos possibilita investigar como as
Ciências Naturais se constituíram nessa Instituição de ensino profissional? Os documentos analisados foram mensagens
e relatórios de presidentes da província/governadores do estado, regulamentos e relatórios do Instituto, regulamento
e relatórios da instrução primária. Observamos que a Química e a Física constaram no primeiro currículo do Instituto,
contudo não se estabilizaram, experimentando momentos em que deixaram de fazer parte do rol de saberes previstos
no programa de ensino. No período Republicano o cenário foi diferente, visto que houve a consolidação e expansão das
ciências. A Física e a Química foram previstas no currículo de todos os cursos oferecidos no Instituto de Educandos e
Artífices. O curso como o Regente Agrícola previram o ensino de outras ciências como Botânica e Zoologia. Analisamos,
também, que este cenário foi favorecido por discursos governamentais otimistas em relação às ciências. Percebemos,
ainda, que estas ciências seriam ensinadas a um público de meninos órfãos e desvalidos. Com isso, o Instituto teve
envolvido no processo de introdução e consolidação das Ciências Naturais na Amazônia.

Irrationality in theoretical music in the Renassaince

Oscar Joao Abdounur (IMEUSP)

This presentation covers questions of how the relationship between mathematics and theoretical music throughout
western history shaped modern comprehension of critical notions such as “ratio” and “proportion”; exploring the educational
potentiality of such a comprehension. In order to do that, it will be consider a procedure taken by Erasmus of Höritz, a Bohe-
mian mathematician and music theorist who emerged in the early 16th century as a German humanists very articulate with
musical matters. In order to divide the tone, Erasmus preferred to use a numerical method to approach the geometrical mean,
although his procedure did not recognize itself as an approximation of the true real number value of the geometric mean. The
Early Modern Period saw the growing use of geometry as an instrument for solving structural problems in theoretical music,
a change not independently from those occurred in the conception of ratio/number in the context of theoretical music. In
the context of recovery of interest in Greek sources, Erasmus communicated to musical readers an important fruit of such a
revival and was likely the first in the Renaissance to apply explicitly Euclidean geometry to solve problems in theoretical music.

103
Although Erasmus also considered the tradition of De institutione musica of Boethius, he was based strongly on Euclid’s The
Elements, using geometry in his De musica in different ways in order to solve musical problems. It is this comprehensive ge-
ometrical work rather than the summary arithmetical and musical books of Boethius that serves Erasmus as his starting-point.
However, Erasmus proposed a proportional numerical division of the whole tone interval sounding between strings with length
ratio of 9:8, since it was a primary arithmetical problem. This presentation aims at showing the educational potentiality of the
implications of such a procedure of Erasmus on the transformation of conception of ratio and on the emergence of the idea
of modern number in theoretical music contexts. Under a broader perspective, it aims at show the implications on education
of a historical/epistemological and interdisciplinary appraisal of theoretical music and mathematics.

Os currículos e contextos do Curso de Licenciatura em Física


na UFPA (1965- 1976): a profissionalização do professor de Física
sob viés universitário

Janes Kened Rodrigues Dos Santos (Universidade Federal do Pará)

Este resumo apresenta a síntese de uma pesquisa em nível doutoral sobre o currículo do primeiro curso superior
de Licenciatura em Física da Universidade do Pará. Assim, como recorte temporal estabelecido para o estudo, assumiu-
-se a criação do curso de Licenciatura em Física da Universidade do Pará (1965) até criação do curso de Bacharelado
em Física na referida instituição (1976). À vista disso, a abordagem histórica adotada está pautada na perspectiva
teórico-metodológica dos estudos culturais em educação. Logo, a perspectiva teórica delineadora do currículo está
contextualizada nos estudos culturais (GOODSON, 2013; SILVA, 2015). Vale destacar que o termo currículo é abordado
em uma perspectiva sociológica, visto como artefato social e cultural que transmite visões sociais implicada em relações
de poder. (MOREIRA; SILVA, 2008). Dessarte, utilizo o termo de forma assertiva com a noção de discurso, identidade
e poder, ou seja, como relações sociais de poder, considerando as ações e seus efeitos. Isto posto, a finalidade desta
pesquisa é analisar as condições de possibilidades do currículo de um curso de Licenciatura em Física ao implementar
a profissionalização docente no viés universitário. Como resultado, tem-se indícios de uma grande influência do corpo
docente dos cursos de Engenharia Civil e Matemática formados na Escola de Engenharia e Faculdade de Filosofia já
existentes em Belém. Além disso, na proposta curricular do curso, havia uma grande presença de disciplinas da área
das ciências exatas e naturais (com o viés da matemática, mecânica, química, física experimental), e separação das
disciplinas tidas pedagógicas que eram responsabilidades do Departamento Didático-científico da Universidade. Desta
maneira, historicamente, observa-se que as condições que possibilitam a constituição de identidades docentes não
foram dadas como algo inato, natural e espontâneo. Ao serem produzidas culturalmente, também foram fruto relações
entre o saber e o poder, onde o currículo do curso de Licenciatura em Física apresenta tensões nesta produção curricular
e fabricação de identidades profissionais.

Os debates acerca da implantação do Sistema Métrico Decimal


no Pará pela Assembleia Legislativa

Everaldo Roberto Monteiro dos Santos (Instituto de Educação em Ciências e Matemáticas), 


Patricia De Campos Correa (UFPA)

O objetivo deste artigo é a analisar como o sistema métrico decimal foi proposto pela Assembleia Legislativa do
Pará para ser implantado na Instrução Pública. Para isso analisaremos os discursos realizados na Assembleia Legislativa,
veiculados nos jornais de época, referentes ao tema e os deputados envolvidos na alteração da legislação para a efe-
tivação da implantação. A Lei Imperial de 1862 determinou o ensino do novo sistema de medidas em todas as escolas
brasileiras. No Pará a intenção de instituição do Sistema Métrico Decimal nos currículos escolares ocorreu em 1868,
apresentado pelo deputado e Diretor da Instrução Pública Pedro Correa de Freitas. O Projeto apresentado propunha al-
teração no Regulamento que normatizava o funcionamento das escolas e a proposta era estabelecer a obrigatoriedade

104
aos professores de ensinar além das matérias anteriores constantes no currículo escolar, o “systema métrico” e ainda
“noções de desenho linear”. A Assembleia Legislativa, naquele momento era constituída por vinte e sete deputados,
destes, cinco participaram mais ativamente do debate a respeito da implantação do sistema métrico decimal no currí-
culo escolar, por serem pessoas ligadas à educação escolar, pois eles também eram professores de Instituições como o
Liceu, a mais importante instituição de ensino a época, a Escola Normal, o Instituto de Educandos Artífices. Além disso,
eram também médicos, industriais, engenheiros que estudaram em outras Províncias e na Europa e traziam consigo uma
mentalidade moderna, o que lhes permitiam ter condições favoráveis para propor e implantar projetos que estivessem
de acordo com o cientificismo. O deputado Freitas, propositor do Projeto para implantação do sistema métrico decimal
era médico de formação, foi catedrático do Liceu, diretor da Instrução Pública, e do Museu Paraense, foi ainda juiz de
comarca do interior e membro das Sociedades Geográficas de Paris, Lisboa, Rio de Janeiro e das Ciências Médicas
de Portugal, escreveu livros. A proposição do Projeto gerou discussão e o deputado Jose Ferreira Cantão interpelou
o deputado Freitas a respeito da aquisição de compêndios utilizados nas escolas. Este deputado era médico lente do
Liceu e igualmente escreveu livros. A discussão dos deputados resultou na implantação do sistema métrico decimal no
ensino primário, na obrigatoriedade de os professores ensinarem o referido sistema de medidas, como exigência legal.
Os deputados discutiram ainda sobre os títulos de livros utilizados nas escolas mandados adotar pelo governo.

Primeiros Parques Nacionais da América: Aspectos Históricos

David Figueiredo de Almeida (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia)

Nesse texto, minha proposta é investigar os aspectos históricos da criação dos primeiros par-ques nacionais da
América, nomeadamente o Parque Nacional de Yellowstone (PNY – Estados Unidos da América) e o Parque Nacional de
Itatiaia (PNI – Brasil). Este texto lida com fontes primárias, além de fontes secundárias, ou seja, estudos historiográficos
desenvolvidos por ou-tros autores, o que pode diminuir a fidedignidade das informações utilizadas. Para minimizar esta
limitação, utilizo o método de triangulação, o qual pode melhorar a validez e confiabilidade dos dados. Este método
consiste em combinar diferentes formas para analisar os dados. No caso deste trabalho, usarei, sempre que possível,
o que vou chamar de triangulação de refe-rências, que defino como a comparação entre distintas referências biblio-
gráficas a respeito de informações. Por mais que tal abordagem se adote, a preferência é por fontes primárias, quando
estas estiverem disponíveis. Prossigo o texto com uma revisão bibliográfica sobre a existência de “áreas protegidas” em
sociedades tradicionais milenares (nativos africanos e americanos) e em antigas formas de governo (Império Máuria,
na Índia, monarquias, na Euro-pa). Trato dos antecedentes da criação do PNY, com referências à Revolução Industrial na
Eu-ropa e a alguns ambientalistas cujos livros foram muito influentes na época (“Walden or, life in the woods, de Henry
Thoreau, 1854; “Man and nature”, de George Marsh, 1864). Resgato ainda algumas imagens publicadas em artigos da
época da criação dos referidos parques. As imagens incluem desenhos feitos durante as expedições aos parques. Os
principais ambientalistas brasileiros e estrangeiros (residentes no Brasil) que contribuíram com discussões para a criação
do PNI são comentados também (José Gregório Navarro, Domenico Vandelli, André Rebouças, Alberto Loefgren, Herman
von Ihering, Alberto Torres, Edmundo Navarro, etc.). Também res-gatando imagens, discuto algumas pesquisas desen-
volvidas no parque, logo após sua criação, com destaque para os trabalhos de Alexander Brade (Rodriguésia), Rudolph
Barth (Memórias do Instituto Oswaldo Cruz) e Bertha Lutz (Memórias do Instituto Oswaldo Cruz). Por fim, meu objetivo
é comparar o processo de criação destes primeiros parques nacionais na América, apontando possíveis semelhanças
e diferenças em seus aspectos gerais.

PRONUCLEAR: a formação de recursos humanos para atendimento


da política nacional nuclear brasileira

Fabiano Farias de Souza (Fundação Getúlio Vargas-RJ)

O presente trabalho examina a trajetória do programa de formação de recursos humanos para o setor nuclear deno-
minado PRONUCLEAR criado em 1976 e idealizado no âmbito do Acordo Nuclear assinado entre Brasil e Alemanha Federal

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no ano anterior. O referido acordo previa, pela Alemanha, a transferência do ciclo nuclear de forma integral ao Brasil, ou seja,
incluindo todas as etapas que permitiriam ao país tornar-se independente neste campo e se capacitar, com o domínio desta
tecnologia, para a construção de um artefato atômico. A assinatura de um acordo nuclear de proporções ambiciosas e fora
da órbita norte-americana, tornou-se paradigmático para a área, pois previa o desenvolvimento de um quadro de profissionais
em condições de assegurar, para o país, a absorção adequada da tecnologia nuclear e de propiciar um crescente domínio
do conhecimento científico nesse setor. Em síntese, a preparação de recursos humanos envolveu diferentes alternativas
como a orientação de cursos de mestrado e doutorado no país; cursos de especialização e aperfeiçoamento com o objetivo
de completar a formação convencional segundo especificações oferecidas pela NUCLEBRAS; adaptação de currículos em
cursos de graduação nas disciplinas de formação profissional; curso de formação de tecnólogos; cursos de nível médio para
a formação de técnicos e treinamento em serviço para todos os níveis de formação. O exame dos relatórios disponibilizados
pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) permitiu identificar que o programa proporcionou a formação de um
expressivo contingente de técnicos, mestres e doutores em assuntos envolvendo o uso da energia nuclear, além de impactar
na orientação dos programas das instituições de ensino, segundo diretrizes previamente estabelecidas pela NUCLEBRAS
e CNEN, no que se refere às disciplinas que foram introduzidas nos cursos de nível superior como Engenharia Mecânica,
Engenharia Metalúrgica, Engenharia Química, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Engenharia Eletrônica Engenharia de Mi-
nas, Geologia, Física, Química e outros cursos das universidades participantes do programa. Tal iniciativa era compreendida
como esforço necessário para assegurar a disponibilidade de recursos humanos indispensável ao pleno êxito do Programa
Nuclear Brasileiro, segundo a concepção do regime militar e seus anseios de “Brasil Potência”.

Santiago Ramón y Cajal e suas contribuições para a política científica


espanhola no início do século XX

Roberta Barbosa Sales (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo /IP-USP)

A proposta deste trabalho é refletir sobre o protagonismo do histologista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-
1934) no processo de institucionalização da pesquisa científica na Espanha, especialmente nas áreas de histologia e
neurobiologia no início do século XX. Sua presença nas discussões sobre a política científica espanhola teve início após
sua participação no Congresso da Sociedade Anatômica Alemã, em Berlim, no ano de 1889, no qual, munido de um
microscópio e amostras de tecido nervoso, comprovou a individualidade da célula nervosa, confrontando assim a teoria
do reticularismo, vigente até então, para a qual o tecido nervoso era formado por uma rede difusa. Como consequência
de suas investigações, Ramón y Cajal foi agraciado com diversos prêmios entre eles o Prêmio Moscou (1900), a medalha
Helmholtz (1904) e o Nobel de Fisiologia e Medicina (1906), prêmio que dividiu com o histologista italiano Camilo Golgi
– apontado na literatura como um dos grandes defensores da teoria reticular.
Entre cargos e participações em institutos e academias que discutiam e promoviam a ciência espanhola, Ramón y
Cajal atuou como diretor do Instituto Nacional de Higiene de Alfonso XIII, foi presidente da Junta para Ampliação dos Estudos
e Investigações Científicas (JAE) e dirigiu o Laboratório de Investigações Biológicas, que mais tarde integraria o Instituto
Biológico e carregaria seu nome, Instituto Cajal (IC) – fundado em 1900 pelo Rei Afonso III, hoje um importante centro
de investigação em neurobiologia sob a autoridade do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) espanhol. 
A JAE, criada por um decreto real em 11 de janeiro de 1907, tinha como função e objetivo atuar na ampliação
de estudos dentro e fora da Espanha, promover a participação de delegações espanholas em congressos científicos,
fomentar por meio de bolsas e intercâmbios os trabalhos de investigação científica, estabelecer e equipar laboratórios
de estudos, e proteger as instituições de ensino secundário e superior. 
A reflexão sobre a atuação de Santiago Ramón y Cajal se faz presente e necessária para pensarmos nos diversos
papéis que o cientista pode assumir na construção de um campo do saber, seja ele como pesquisador, educador e/ou
articulador de políticas de incentivo e desenvolvimento da ciência.

106
“Porquê agora, e não antes ou depois?” ou “Porquê aqui, e não ali?”:
contribuições da lei do desenvolvimento desigual do capitalismo para
compreender o dinamismo das ciências e da educação científica

Cláudia Piccinini (Faculdade de Educação), Rosa Maria Corrêa das Neves (Fundação Oswaldo Cruz),


Siomara Moreira Vieira Borba (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Historiadores das ciências, como Rupert Hall que explicita as questões do título desta intervenção, se pergunta
sobre “o problema da causa” da ‘revolução científica’ nos primórdios da modernidade. Em alguma medida, é um problema
que tem atravessado estudos que temos feito sobre o desenvolvimento científico e tecnológico na contemporaneidade e
também sobre iniciativas que expressam, de diferentes formas, interfaces entre ciência e educação, como o ensino de
ciências e a pós-graduação em educação. Pode-se explicar porque determinadas ciências se desenvolvem aqui e não
ali ou agora e não antes ou depois, o mesmo valendo para determinadas iniciativas de que aliam educação às ciências
ou o desenvolvimento de ciências e de iniciativas que conectam educação e ciências são absolutamente aleatórios?
Temos encontrado resposta afirmativa para a primeira alternativa, ao inscrevê-la em A ideologia alemã, de Marx e Engels
e em Introdução à crítica da economia política, de Marx. Esses revolucionários, na teoria e na prática, nos permitem
compreender que (i) a história comporta dimensões objetivas e subjetivas e que (ii) o desenvolvimento do capitalismo
se realiza necessariamente de modo desigual entre frações burguesas no seio das próprias classes dominantes e ao
fim, entre países e impérios. Partindo desta generalidade, temos elementos para entender que esse desenvolvimento
desigual determina o desenvolvimento das ciências e também de iniciativas educativas que têm interface com a ci-
ência. Essa desigualdade tem nos auxiliado a compreender alguns fenômenos sociais particulares. No que concerne
às ciências, explica que o desenvolvimento científico e tecnológico de estados europeus, nos séculos XIX e início do
século XX, esteve (e está enredado) em disputas econômicas e políticas de grupos econômicos e Estados pela partilha
de mercados, na própria Europa principalmente. No que concerne a relações entre ciências e educação, explica alguns
movimentos reformadores e inovadores da educação brasileira como iniciativas para difundir uma cultura científica e,
ao fim, alavancar o desenvolvimento tecnológico nacional, mirando o desenvolvimento econômico: reformas didáticas
do ensino das ciências no sudeste brasileiro a partir de 1950; o impulso à pós-graduação em educação, em 1965; o
impulso à iniciação científica, até em nível de ensino médio, a partir de 1980, assim como reformas atuais da educação.
Em síntese, argumentamos que a desigualdade do desenvolvimento econômico do capitalismo se traduz também como
desigualdade científica e educacional e que o impulso ao desenvolvimento científico e de iniciativas educacionais que
valorizem o científico têm como perspectiva, em alguma medida, o desenvolvimento do capitalismo, sempre desigual.

107
ST 11. Ciência, Intelectuais e Estado no Brasil
(séculos XIX e XX)

“Limpando a Corte”- a transferência do Matadouro público


para a Imperial Fazenda de Santa Cruz (1870-1881)

Edite Moraes da Costa (NUPEP)

A proposta de se construir um Matadouro na Fazenda de Santa Cruz surgiu com o processo de deterioração do
primeiro Matadouro do Rio de Janeiro, construído em 1774, pelo vice-rei Marquez do Lavradio, na Praia de Santa Luzia,
onde atualmente se encontra o Passeio Público. O Matadouro de Santa Luzia funcionou até 1853, quando foi totalmente
transferida a produção das carnes verdes para o Matadouro do Aterrado de São Cristóvão, na atual Praça da Bandeira,
construído pelos marchantes e arrendado a Câmara Municipal, para atender a demanda. Devido o acelerado crescimento
urbano, a falta de espaço para o gado ser alojado se tornou um dos problemas para a manutenção do Matadouro nesta
região, além das crescentes reclamações dos moradores a respeito da falta de higiene oriunda dele. Desde a década
de 1850, já havia a necessidade de se construir um novo prédio para abrigar o Matadouro Municipal. Essa necessidade
foi temporariamente sanada com a construção do prédio no Aterrado de São Cristóvão pelos marchantes, e arrendado
a Câmara Municipal. Mas o contínuo crescimento populacional na cidade do Rio de Janeiro fez com que o Matadouro
ficasse circundado por prédios residenciais, e tais moradores não mais toleravam todos os incômodos que um Matadouro
provocava, como o mau cheiro e insalubridade pertinentes ao seu funcionamento. Tal insalubridade era intrínseca e ine-
vitável ao funcionamento de um Matadouro, por não haver neste período, um acondicionamento apropriado, tecnologias
adequadas para a conservação da carne, descarte correto dos resíduos e muita umidade, o que provocava diversos
miasmas. Devido a estas questões, o Matadouro ficava próximo a praça de comércio, pois a carne verde deveria ser
consumida em até 24 horas após o abate, devido o processo de putrefação que se iniciava após esse período. O acelerado
crescimento urbano na cidade do Rio de Janeiro, resultou na falta de um espaço apropriado para o gado ser alojado,
acarretando um severo problema para a manutenção do Matadouro nesta região, além das crescentes reclamações dos
moradores a respeito da falta de higiene oriunda dele. A pressão pela manutenção, reforma e ampliação do Matadouro
de São Cristóvão guardava relação com os interesses dos marchantes envolvidos nesse estabelecimento, pois muitos
tinham pastos próximos ao Matadouro, e a sua transferência para uma outra região prejudicava suas ações. Tais pressões
podemos observar no requerimento do Engenheiro João Eduardo Lajoux, publicado no dia 20 de maio de 1870, no jornal
Diário do Rio de Janeiro, que pedia ao Governo Imperial autorização para, dentro ou fora do Império, incorporar uma
campanha para construir um Matadouro de acordo com os preceitos da ciência e para aformosear a capital do Império.
Além do projeto para o Matadouro, também apresentava soluções para o escoamento dos detritos do Matadouro de
São Cristovão e o saneamento da região.

“Quem tiver visto entre nós algumas escolas, se horrorisará


por certo do nosso atraso”: a educação na perspectiva do
general Abreu e Lima no periódico A Barca de S. Pedro

Paulo Montini de Assis Souza Júnior (Universidade Federal de Pernambuco)

De ativa produção intelectual, o general brasileiro José Ignácio de Abreu e Lima teve ativa participação nos movi-
mentos políticos de seu país nos meados dos oitocentos: pautando suas ideias e perspectivas nas “modernas” ciências
e correntes intelectuais europeias do período, tais quais o liberalismo e o romantismo por exemplo, Abreu e Lima buscou
a partir de suas obras explicar e propor soluções para as situações que considerava de responsabilidade ao “atraso” não
apenas de seu país, mas também à América do Sul; por suposto, envolvido na Revolução Pernambucana de 1817 e, logo
após, nas guerras de libertação da América hispânica ao lado do Simon Bolívar, Abreu e Lima empreende um retorno ao

108
Brasil já na década de 1830, no qual passa a participar, ativamente, dos circuitos intelectuais locais e a empreender uma
considerável produção escrita de livros e periódicos. Partindo desse pressuposto, o seguinte trabalho assume enquanto
objetivo o estudo e a análise histórica das propostas educacionais de Abreu e Lima no periódico A Barca de São Pedro,
escrito ao longo do ano de 1848 a partir da cidade do Recife e em um momento de agitação política que acabaria por
culminar na chamada Insurreição Praieira nos fins deste mesmo ano; assim, articulando uma metodologia histórica ao
periódico assumido enquanto fonte de valia a estes estudos, analisaremos como o general, assumindo posição ao lado
do chamado Partido da Praia, articulou pensamentos científicos “modernos” e liberais para pensar a educação a um nível
nacional – e por vezes continental – e que deveria condizer com o suposto estado civilizatório desejado, fomentado por
tais pensamentos contemporâneos. A Barca de São Pedro, assim, enquanto periódico escrito por Abreu e Lima volta-se
não apenas às análises políticas locais, da província pernambucana e das querelas entre os “praieiros” e “guabirus”, mas
também dedica um olhar mais atento à estas ideias, “modernas”, contemporâneas e com promessas de civilização e
progresso, vindas da Europa; portanto, nos dedicaremos à análise de como o general articulou tais pensamentos com
vistas à educação neste periódico.

Pedro Nava – Memorialista-Anatomista da Sociedade Brasileira


(1890-1940)

Vanda Arantes do Vale (Universidade Federal de Juiz de Fora)

Pedro Nava (1903-1984) publicou, no período de 1972 a 1983, 6 (seis) livros de Memórias:Baú de ossos, Balão
cativo, Chão de ferro, Beira-mar, Galo das trevas e O círio perfeito. Escrevia as páginas iniciais do sétimo livro – Cera das
almas – quando de seu suicídio, em 1984. Os livros, dependendo das edições, somam, aproximadamente, 2.500 páginas
e foram sucesso de público e crítica especializada. Nava foi ativo participante do movimento Modernismo Brasileiro em
um de seus desdobramentos, conhecido como Modernismo Mineiro. Anatomia era a disciplina estudantil pela qual o
memorialista tinha paixão, confessada na obra e, como anatomista, dissecou a sociedade brasileira em seus diversos
aspectos. Delimitamos, para esta apresentação, a década de 1890, quando Nava faz a reconstituição da trajetória es-
tudantil e profissional de seu pai, também médico, José Nava (1876-1911), no livro Baú de ossos, e também a década
1940, quando, no último livro de Memórias – O círio perfeito –, continua com a reconstituição de sua vida profissional
como médico, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. O texto destaca, nas Memórias naveanas, a formação
e atuação de duas gerações de intelectuais, aqui representadas pelas trajetórias de José Nava e Pedro Nava, inseridas
nos processos de Modernização e Modernismo da sociedade brasileira. 
Palavras-chave: Modernização; Modernismo; Memórias.
Objetivos: Identificar as ideias dominantes, presentes nos textos naveanos, que circularam na sociedade brasileira,
no período de 1890-1940. Destacar-se-á, na busca, a formação escolar, a participação social dos atores em estudo e a
relação de seus grupos sociais com o Estado.
Metodologia: O texto busca situar a obra naveana nas propostas de História Social e História Intelectual, a partir
da pesquisa bibliográfica.
Referências
LOPES, Marco Antônio (Org.). Grandes nomes da história intelectual. São Paulo: Contexto, 2003.
NAVA, Pedro. Baú de ossos: memórias 1. Rio deJaneiro: Sabiá, 1972. 
______. Balão cativo: memórias 2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976a.
______. Chão de ferro: memórias 3. 2. ed.Rio de Janeiro: José Olympio, 1976b. 
______. Beira-mar: memórias 4. 4. ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
______. Galo das trevas: memórias 5. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
______. O círio perfeito: memórias 6. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
SÁ, Dominich Miranda. A ciência como profissão: médicos, bacharéis e cientistas no Brasil. Rio: Fiocruz, 2006.
SANTOS, Ricardo. Os intelectuais e a cidade: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.

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A ciência perdida

Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

A ciência, muito provavelmente, apresenta-se como um dos principais elementos definidores da modernidade
como nós a entendemos na atualidade. Desta forma, costuma-se explicar a ciência como uma produção eminentemente
internacional, feita nos grandes centros econômicos, políticos e sociais, entenda-se: Inglaterra e França no Século XIX
e Alemanha e Estados Unidos no século XX. Dentro dessa lógica explicativa os países constituintes da América Latina
e, para nós, especialmente o Brasil, possuem um papel diminuto usualmente passivo, figurando na maioria das vezes
apenas como um simples e distante observador, sem condições materiais e sem qualificação especifica para elaborar
e produzir as mesmas pesquisas e os mesmos estudos feitos e aprofundados nos países centrais. Todavia, se essa é a
alógica atual pela qual explicamos a ciência e sua dinâmica cientifica, tal logica pode ser aplicada indistintamente a todas
experiências históricas passadas? O presente trabalho tem como objetivo apresentar e debater a experiência histórica,
concreta, que ocorreu na cidade de Fortaleza, província do Ceará, espaço atualmente constituinte da região nordeste do
Brasil, entre os anos de 1858 e 1873, focando em um brasileiro de nome Dr. Alves Ribeiro que se formou em medicina
pela Universidade Norte Americana de Harvard, nos Estados Unidos da América, no início da segunda metade do século
XIX. Ao retornar ao seu país natal, tentou aplicar e reproduzir as os ensinamentos e as práticas cientificas aprendidas
durante os seus anos de formação em Harvard e tanto suas ações cientificas, sua produção intelectual e a sua memória
pessoal foram obliterados das explicações históricas feitas por historiadores de oficio como por pesquisadores da historia
da ciências em seus diferentes níveis: regional, nacional e internacional suscitando a pergunta: O que motiva esse silêncio
e qual os seus significados? Debater esse caso e refletir sobre as múltiplas possibilidades de entendimento do mesmo
é o objetivo central da presente comunicação.

A intelectualidade de André Rebouças: ação política, reformismo


social e ensino técnico em finais do séc.XIX

Tereza Fachada Levy Cardoso (CEFET-RJ), Wladimir Barbosa da Silva (CEFET-RJ)

O trabalho que apresentamos tem por objetivo analisar a ação intelectual de André Pinto Rebouças (1838-1898) em
finais do séc.XIX. Integrante da elite imperial Rebouças destoava, neste cenário, por ser negro, letrado e com educação
de nível superior. Ele foi engenheiro, professor, empresário, jornalista e um amante da ciência. Sua trajetória intelectual
e profissional apresentou uma sólida compreensão dos anseios sociais da época, cujo desejo por educação, trabalho e
moradia repercutia em todo território brasileiro. Nesse sentido, abrimos um campo de discussão abordando a relação
entre ensino, tecnologia e reforma social, onde procuramos demonstrar que o acesso a terra, na visão do engenheiro,
seria um mecanismo viável de ascensão social para negros e imigrantes europeus, cujo desenvolvimento estaria ali-
cerçado no ensino técnico respeitando as especificidades de cada região do país. Sabemos que neste período o Brasil
passou por grandes transformações sociais, políticas, culturais e ideológicas. Ressalta-se a esse tempo o movimento
abolicionista, o movimento republicano, a nascente industrialização, a ampliação da formação superior com a criação dos
cursos de direito, engenharia e medicina, bem como a propagação das ideais positivistas e eugenistas. Nesse contexto,
intelectuais como médicos, professores, jornalistas, advogados e engenheiros discutiram os rumos da nação brasileira
apontando questões que incomodavam a elite intelectual, dentre elas a desqualificação profissional e educacional da
nossa força de trabalho, aqui representada pelos ex-escravos e imigrantes. Não por acaso, e com concreta ação política
realizada nos bastidores do burocrático cenário imperial, Rebouças constituiu uma extensa sociabilidade com o fito de
se fazer presente em sociedades e clubes de caráter científico, ou promoção das artes e ofícios. Estes locais serviram
como espaços de trocas intelectuais e articulações políticas, usados pelo engenheiro a fim de promover o seu projeto
de reforma social e econômica, cuja pauta abrangia o incremento do ensino técnico como mecanismo de inserção
social, além do acesso a terra com fundamentos na democracia rural. No entendimento de Rebouças, esse modelo de
política pública daria ao governo subsídios para promover igualdade de condições sociais para que libertos e imigrantes
obtivessem, por meio do seu trabalho, as condições necessárias para sua sobrevivência social e econômica no cenário
nacional. A análise deste aspecto está apoiada na leitura e interpretação das fontes primárias, a saber, diários pessoais

110
de André Rebouças, matérias jornalísticas publicadas pelo mesmo, bem como cartas e documentos particulares em que
constam as bases para o seu audacioso projeto de reforma social. Essa pesquisa traz como contribuição historiográfica
a articulação entre educação, raça e trajetória intelectual tendo como ponto de inflexão o ensino técnico para homens
e mulheres saídos do cativeiro, bem como imigrantes vindos da Europa. 

A participação de Edgard Roquette-Pinto na rede de intelectuais


atuante no ensino de ciências da Escola Normal do Distrito Federal
no início do século XX

Teresa Raquel Dalta de Carvalho (SME-RJ)

Este estudo aborda a participação de Edgard Roquette-Pinto numa rede de intelectuais cujos membros lecionavam
na Escola Normal do Distrito Federal. Esses intelectuais viam o ensino de ciências como uma poderosa estratégia para
executar um projeto de nação pautado em saúde e educação. O estudo tem como objetivo analisar a atuação de Roquette-
-Pinto e outros médicos-educadores como professores de higiene na formação de novos professores, os quais dariam
ressonância, pelo ensino, aos preceitos de saúde difundidos em aulas, por compêndios e presentes nos programas de
ensino da Escola Normal. O recorte temporal compreende a entrada de Roquette-Pinto e outros membros da rede na
instituição, em 1916, e vai até 1932, quando a Escola Normal é transformada em Instituto de Educação. Os programas de
ensino da Escola Normal e alguns manuais didáticos escritos por intelectuais que lá lecionavam são as principais fontes
deste estudo, complementado por documentos do arquivo pessoal de Roquette-Pinto e por artigos de jornais. As trans-
formações executadas por essa rede de educadores nos programas de ensino da Escola Normal revelam a importância
das questões de saúde no ensino de ciências e a dimensão intelectual que o movimento educacional iniciado naquele
educandário alcançou, culminando com a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932, um marco
na história da educação brasileira que contou com a participação de Roquette-Pinto, Afrânio Peixoto, José Fontenelle e
tantos outros intelectuais ligados à rede que atuava na Escola Normal. Membros dessa rede também se conectavam em
outros espaços institucionais, como Museu Nacional, Liga Pró-Saneamento, Associação Brasileira de Educação e Academia
Brasileira de Letras, o que fortalecia os vínculos existentes entre eles. Para além da construção da nação, esse grupo de
intelectuais teve na Escola Normal do Distrito Federal um importante espaço de atuação que chancelava sua autoridade
científica e legitimava sua competência para influir na formulação de políticas públicas e ocupar cargos públicos diversos
nas pastas da saúde e educação, os dois principais eixos no projeto de construção da nação brasileira à época.

A trajetória de Antônio Pacífico Pereira: uma breve análise sobre o


processo de formação de médicos pela Faculdade de Medicina da
Bahia (1862-1867)

Anderson Gonçalves Malaquias (Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET-RJ)), 


Maria Renilda Nery Barreto (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso S. da Fonseca)

As iniciativas de institucionalização da ciência na América Latina, durante muito tempo, foram retratadas pela
historiografia clássica através de descrições isoladas, de grandes cronologias e narrativas comemorativas sem levar em
consideração as especificidades dos processos de formação da prática científica. Os trabalhos que investigaram a história
do desenvolvimento científico em países latino-americanos vêm recentemente abandonando essa abordagem tradicional,
a qual enfatiza uma visão triunfante da ciência e de cientistas e descrevem o “avanço” das instituições de forma linear.
Estes trabalhos passaram a priorizar uma perspectiva baseada na história social da ciência, que compreende o fazer
ciência como articuladas as condições culturais, econômicas, políticas e sociais do meio no qual os cientistas vivem e
atuam. Dito isto, afirmamos que a análise aqui apresentada se alinha a essa abordagem ao trazer a cena historiográfica
a formação de António Pacífico Pereira e, através dela, problematizar a ciência compreendia e elaborada na Faculdade
de Medicina da Bahia, bem como as conexões políticas e intelectuais da comunidade acadêmica.

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O objetivo do artigo é apresentar os resultados preliminares de uma pesquisa que analisa o posicionamento dos
espaços institucionais de formação, pesquisa e divulgação médico-científica na Bahia, como a Faculdade de Medicina da
Bahia (FAMEB), o Hospital da Santa Casa da Misericórdia e a Gazeta Médica da Bahia, em relação as doutrinas médicas e
ao ensino, através da trajetória profissional de Antonio Pacífico Pereira. Sua trajetória foi marcada pela atuação em áreas
como a docência médica, a pesquisa científica, a imprensa médica especializada e a direção de importantes conselhos
sanitários locais. Destacou-se ainda dentro do movimento que ficou conhecido como Escola Tropicalista Baiana, sendo
responsável pela direção, por mais de meio século, do periódico Gazeta médica da Bahia, símbolo máximo da agenda
tropicalista e expressão de sua concepção de medicina.
Foi na fase estudantil que Pacífico Pereira se aproximou dos tropicalistas, período em que a medicina experimental
despontou como uma nova representação para o saber médico influenciando neófitos e mestres e suas concepções
sobre a arte de curar. No escopo desse artigo nos interessa centrar a atenção justamente neste período, para verificar o
posicionamento doutrinário da FAMEB em relação ao ensino e as visões de ciência que moldaram a base da concepção
de medicina de Pacífico Pereira.

Agriculturas, ciências e raças: as teses da Escola Agrícola da Bahia


e a construção do Estado brasileiro

Nilton de Almeida Araújo (Univasf)

A história da agronomia na Bahia é o tema deste estudo. Em investigação de doutorado nos debruçamos sobre
a institucionalização da agronomia enquanto campo científico em dois momentos: enquanto projeto e enquanto ação.
Como projeto através da análise da Sociedade de Agricultura, Comércio e Indústria da Província da Bahia (SACIPBA) e
do Imperial Instituto Bahiano de Agricultura (IIBA), e, especialmente, como ação entre 1877 e 1911, a partir da Escola
Agrícola da Bahia (EAB, 1877) fundada pelo Imperial Instituto, da Secretaria de Agricultura da Bahia (SEAGRIBA, 1896) e
da Sociedade Baiana de Agricultura (SBA, 1902), buscando reconstituir as práticas e representações dos grupos sociais
envolvidos neste processo – principalmente os engenheiros agrônomos.
Nossa hipótese é de que a emergência da agronomia como campo científico na Bahia se vinculou a um movimento de
construção de hegemonia de uma fração de classe dominante em formação a partir do Recôncavo baiano. Foram utilizadas
diversos tipos de fontes emanadas destas instituições (SACIPBA, IIBA, SBA, SEAGRIBA e EAB) para mapear tal processo
de construção de hegemonia, destacando-se a elaboração de hierarquias raciais e um conjunto de valores, práticas e mé-
todos socialmente apreendidos, reproduzidos e partilhados por estes novos agentes, destacando-se no interior deste corpo
documental as teses escritas pelos estudantes da EAB (entre 1880 e 1904) como vias para reconstituir este processo a
um só tempo científico e político. Acompanhando Gramsci (2000), cujo sentido de “partido” não coincide ou se restringe
necessariamente ao partido político convencional, mas todo e qualquer aparelho que organiza e dirige um grupo social, cujos
intelectuais desempenham papel de organização e elevação de sua vontade coletiva, podemos, concluir que a SACIPBA
e, principalmente, o IIBA, desempenharam na Bahia imperial papel de “partido”. E, se por um lado, não se constituíram
enquanto instituições “de massa”, por outro constituíram espaço do “Estado-Maior intelectual” de sua classe em formação.
A criação da Escola Agrícola da Bahia, instituição pioneira na formação de engenheiros agrônomos no Brasil,
expressou um capítulo da institucionalização das ciências marcada pela especialização e profissionalização, com a cons-
tituição de um habitus diferenciador do egresso da EAB (o eabiano) como uma das principais marcas da implantação
da agronomia como campo científico.

Ciência, Medicina e Modernidade na União Soviética:


relatos de viagem de médicos brasileiros (décadas de 1930 e 1950)

Gabriela Alves Miranda (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

Esse trabalho discute as narrativas de viagens de intelectuais brasileiros, em particular de médicos, à União Soviética.
Essas viagens foram tanto um objeto cultural e político desejado por intelectuais comunistas e simpatizantes da URSS

112
como um elemento importante da política externa soviética por meio de instituições especializadas (VOKS e Intourist).
Essas viagens foram mais intensas a partir da década de 1930 e entre os anos de 1950 e 1960, principalmente depois
da morte de Stálin em 1953. Muitos desses viajantes divulgaram suas experiências de viagem por meio de livros, artigos
de jornais, entrevistas e conferências. O objetivo é apresentar alguns dos livros e de seus autores, buscando considerar
a trajetória desses médicos, sua militância política, sua atuação profissional e o contexto brasileiro e internacional para
compreender o que viram e como narraram. Em particular, livros de alguns médicos brasileiros que estiveram na URSS
(em 1930-31 e em 1953) e publicaram livros sobre suas experiências. Destaca-se o livro “Rússia: impressões de viagem
e aspectos da medicina soviética” (Calvino Filho/RJ, 1931) escrito por Maurício de Medeiros (1930-1964), médico,
professor, jornalista e parlamentar destituído com a Revolução de 1930. Com uma tiragem menor, Osório César (1895-
1979), publicou “Onde o proletariado dirige” (edição do autor/ SP, 1932). Na década de 1950, o tisiologista Milton Lobato
([?]-2004) e o clínico Reinaldo Machado (1919-[?], de Curitiba e São Paulo, publicaram o livro “Médicos Brasileiros na
União Soviética: impressões de viagem e aspectos da medicina soviética” (Editorial Vitória/ RJ, 1955) e Raul Ribeiro da
Silva, proctologista chefe no Hospital das clínicas, publicou “Rússia vista por um médico brasileiro” (Civilização Brasi-
leira/ SP, 1956). Quais as especificidades e as diferenças nesses relatos? O texto busca apresentá-los em conjunto por
se tratarem de médicos comunistas que observaram ideias de modernidade soviética na ciência e medicina, além de
realçarem aspectos político-sociais da sociedade, pontos turísticos e costumes. Consideraremos como “um coletivo”
que se organiza a partir da militância comunista, da prática médica e da experiência de terem sofrido com medidas
repressivas do Estado Brasileiro.

Do artesanato à manufatura: a inserção de escravos na arte mecânica


do Rio de Janeiro entre 1824 e 1860

Daiane Estevam Azeredo (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)

Este estudo tem por objetivo analisar as transformações na forma de produção que envolvia a arte mecânica no
Rio de Janeiro e a relação que elas tiveram com o tipo de mão de obra disponível entre 1824 e 1860. Dessa maneira,
discutiremos em que medida foi possível a inserção de manufaturas na Praça carioca, tendo em vista que a mão de obra
cativa era predominante até então. Além disso, buscamos averiguar as relações entre trabalhadores livres e cativos
nesse contexto. 
Luiz Carlos Soares, ao tratar das manufaturas na região fluminense, delimitou a existência de dois períodos: um
que vai de 1808 a 1840 e que se caracteriza pela predominância das atividades artesanais e outro que vai de 1840 a
1880. Este último período, segundo o autor, se subdividiu em duas fases: uma que se distinguiu pelo surto industrial
e que compreendeu o período de 1840 e 1860 e outra, em que houve um momento de declínio e estagnação, mais
precisamente entre 1860 e 1880. Ainda de acordo com Luiz Soares, o governo imperial criou medidas de incentivo e
proteção às manufaturas entre 1840 e 1850, sendo seguido por um momento de retratação nessa política. 
Diante disso, investigaremos em que medida os escravos foram inseridos nesses tipos de estabelecimentos no
Rio de Janeiro, sem o auxílio das corporações de ofício que foram extintas oficialmente em 1824, como era a relação
deles com os trabalhadores livres e como se organizava o processo de trabalho nesses ambientes entre 1824 e 1860.
Trabalharemos com vasta bibliografia sobre a temática, além da legislação e da documentação da Real Junta de Co-
mércio, Agricultura, Fábrica e Navegação e outros documentos indicados nesse arcabouço de fontes para aprofundar
nossas análises. 
Acreditamos que apesar das dificuldades em se chegar a função de mestre nas oficinas artesanais, poderia ter
sido possível aos cativos ascenderem a alguns postos dentre desse novo arranjo de produção: as manufaturas. Isso
teria sido possível pelo fato de processo de transmissão do ensino do ofício ter sido passado numa relação similar a das
corporações de ofícios, em que mestres passavam seus ensinamentos aos aprendizes de forma oral, sem, no entanto,
existir a realização de exames formais junto a outras organizações. Ressalta-se que este trabalho é proveniente de
uma pesquisa que está em fase inicial de desenvolvimento, sendo, pois, apresentadas as reflexões desenvolvidas até
o presente momento.

113
Do autoritarismo ao totalitarismo: a trajetória política do médico
Belisário Penna na Ação Integralista Brasileira

Leonardo Dallacqua de Carvalho (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

O presente trabalho é fruto do quarto capítulo da tese em desenvolvimento no PPGHCS da Casa de Oswaldo
Cruz/Fiocruz provisoriamente nomeada de: O saneador do Brasil: saúde pública, política e integralismo na trajetó-
ria de Belisário Penna (1868-1939). Nessa etapa demonstro as desilusões que levaram Penna a desembarcar do
governo Getúlio Vargas, do qual chegou a ocupar o cargo de Ministro Interino da Saúde Pública, e optar por outra
via de ação política ao migrar para o Integralismo em 1933. Em uma perspectiva conceitual, um dos objetivos
da tese é compreender como ocorreu a passagem de um pensamento autoritário de Estado para um totalitário.
Uma vez vestido com a camisa verde, aos 65 anos, investigo como suas ideais a respeito do saneamen-
to do Brasil se encaixaram com a ideologia integralista, especialmente na aproximação com as teses de
Alberto Torres. Torres foi uma importante influência teórica para Penna e fazia parte da leitura integralista.
Dentro da estrutura integralista, Penna foi membro da Câmara dos Quarenta, um órgão consultivo do Chefe Integra-
lista Plínio Salgado. Segundo o historiador Hélgio Trindade, compunham esse grupo “[...] personalidades de projeção
social, moral e intelectual”. Em outras palavras era função do colegiado debater assuntos trazidos por Plínio Salgado.
As fontes consultadas estão em sua maioria dispostas no Fundo Pessoal Belisário Penna, situado no Departamento de Ar-
quivos e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC), no estado do Rio de Janeiro. O acervo de mais de sete mil docu-
mentos sobre vida, produção e correspondência do médico sanitarista representa a espinha dorsal da tese em desenvol-
vimento. São utilizadas publicações acerca da sua posição integralista, correspondências trocadas com membros da AIB,
inclusive com Plínio Salgado, e memórias diversas de amigos e parentes que conviveram com Penna nesse momento.
Também foi realizada consultas ao Fundo Plínio Salgado, localizado no Arquivo Público Histórico de Rio Claro, no estado de
São Paulo. Uma diversidade de fontes de impressos periódicos igualmente foi analisada, bem como sua produção em livros.
Como se deu o pensamento autoritário de Penna? Como ocorreu sua desilusão com o Governo Vargas? Por que a
proposta integralista o seduziu? Qual sua relação com Plínio Salgado? Estas são as questões que debaterei durante
a exposição.

Do nó para as teias: Emílio Goeldi e a institucionalização das ciências


naturais no Pará(1894-1905)

Igor Nazareno da Conceição Corrêa (Fundação Bradesco)

O processo de institucionalização das ciências envolve um conjunto de práticas de variadas naturezas. Entre
essas práticas está o da comunicação entre os pares. A ciência que é uma prática coletiva necessita de instrumentos
de comunicação para que seja estabelecida e legitimada dentro da comunidade científica. Essa comunicação utiliza
recursos próprios como o “periodismo científico”. Além disso, o periodismo científico pode atuar como um meio para
que o mundo esotérico da ciência torne-se exotérico, ampliando seu raio de alcance e chegando ao público leigo. Diante
desses fatos a análise da institucionalização científica a partir do periodismo científico, pode ser uma importante ferra-
menta para que possamos compreender os caminhos que uma ciência leva para se institucionalizar. Um periódico reflete
as práticas científicas que são desenvolvidas pela sua instituição representante e, pode demonstrar as relações com
meios não científicos. Por estes motivos os estudos em divulgação científica têm grande importância para se entender
a consolidação da ciência. 
Contudo não devemos esquecer que por traz das práticas existem indivíduos que às constroem. E nesse sentido
devemos atentar também para as relações que esses indivíduos desenvolvem a partir de suas práticas e vivências cien-
tíficas. Desta forma podemos inferir que as práticas científicas são determinadas pelos indivíduos e vice-versa. Assim
sendo o periodismo científico deve ser entendido a partir de seus desenvolvedores, editores e publicadores. Diante disso
as relações que os indivíduos que estão por traz dos periódicos, estabelecem dentro do campo científico, também devem
ser analisadas com bastante atenção. 

114
O presente trabalho discute o processo de institucionalização das ciências naturais no estado do pará entre os
anos de 1894 e 1907, a partir do boletim do museu paraense que era o periódico científico publicado pelo museu
paraense de história natural e etnografia. O foco é colocado no diretor da instituição, o zoólogo suíço emilio goeldi que
esteve na direção do museu paraense entre 1894 e 1907. Durante este período o museu paraense vivenciou um amplo
desenvolvimento estabelecendo uma extensa conexão com instituições estrangeiras. Esta conexão teve como um
dos principais instrumentos, o boletim do museu paraense e as relações que o diretor do museu tinha ou estabeleceu
ao longo dos anos. Estas duas realidades foram de fundamental importância para que as ciências naturais fossem
institucionalizadas no pará.

Escola Politécnica do Rio de Janeiro: e a sua influência na


organização da “cultura” na Bahia

Emiliano Côrtes Barbosa (Unirio)

No interior da correlação de forças sociais intraclasse, desencadeado na Bahia para o período entre final do Império
e início da República, demostram que os personagens envolvidos possuíam diversas formações de cunho profissional,
mas o grupo mais coeso e orgânico no epicentro desta gestação foi o grupo formado pelos Engenheiros Politécnicos.
Por trás da formação intelectual adquirida por esses agentes na Escola Politécnica do Rio de Janeiro – EPRJ, há todo um
processo de vivência, introjeção e interiorização de um conjunto de ideias advindas de novo projeto de visão de mundo. 
Ao longo de sua formação acadêmica, esses agentes, gradativamente, mesmo que inconscientemente, passam
a adquirir, interiorizar, perpetrar valores específicos da classe profissional de engenheiros intelectuais da capital do Im-
pério Brasileiro. Isso na práxis é traduzido por um capital de novo tipo, “o capital cultural”, o qual é divulgado de forma
igualitária pela entidade de formação, que auxilia, por essa trajetória, a própria construção do espaço social. Com essa
experiência que os candidatos a engenheiros da Bahia interiorizaram ao longo de suas formações o novo “projeto de visão
de mundo”, já em curso na capital do Império. Essas ideias virão a ser discernidas e propagandeadas a todo tempo, via
entidade escolar, como também, por suas agências ligadas à sociedade civil. Parte dos filhos da nobreza baiana, como
Miguel Calmon Du Pin e Almeida, José Antônio Costa, José Joaquim Rodrigues Saldanha, Frederico Pontes etc. passaram
pela entidade escolar da capital da capital, assim como, os filhos das frações sociais em ascensão, por exemplo, Arlindo
Coelho Fragoso e o seu primo Sérgio de Carvalho. 
Concluindo, ao retornar à sua terra natal esses agentes investidos de um “novo capital cultural”, naturalmente, já
se encontravam engajados e envolvidos junto aos projetos dos “novos tempos”. 
Sendo assim, iniciam toda uma articulação no seio das frações intraclasses dominantes, para a partir daí, galgarem
espaços gradativos nas esferas do poder público, que agora se apresentam pelo modelo Republicano. O maior exemplo
da implementação dessa estratégia se materializa com a criação do Instituto Politécnico da Bahia – IPBA em 1896, e
logo em seguida a Escola Politécnica da Bahia – EPBA, em 1897.

Ilusões Biográficas: O Sanitarista Belisário Penna (1868-1939)

Ricardo Augusto Dos Santos (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

Dezenas de pesquisadores escreveram textos sobre a importância de Belisário Penna para a investigação das
políticas públicas. No entanto, após inúmeros trabalhos a respeito do sanitarista, haverá algum fato novo? Certamente.
Além das descobertas propiciadas por documentos desconhecidos, sempre existirá a possibilidade de interpretações
e reparação de equívocos. Distorções provocadas, quase sempre, devido a citações realizadas com referências biblio-
gráficas sem pesquisa empírica nos documentos. Seria cansativo destacar as passagens encontradas em artigos e
dissertações referindo-se à “Belisário Penna, cientista do IOC”. Penna nunca pertenceu aos quadros do Instituto Oswaldo
Cruz e, tampouco, podemos afirmar que ele foi cientista. Além destas incorreções, determinados aspectos sofrem um

115
contínuo ocultamento. Ao longo do tempo, são negligenciadas informações que podem revelar dados importantes, mas
que, invariavelmente, representam conflitos com a biografia construída idealmente do agente social. Assim, apesar da
excelente análise que a literatura especializada realiza, os intelectuais sanitaristas e eugenistas são estudados, em grande
parte, isoladamente. Contudo, os movimentos nos quais os atores se envolveram eram expressões de vontades coletivas
em disputa pela imposição de um projeto hegemônico. Essa escassez/ausência de estudos de matriz gramscianos não
causa surpresa. Sabemos das posições conservadoras assumidas de forma velada – ou assumida – pelos professores
e pesquisadores das instituições de pesquisa e ensino no Brasil contemporâneo. 
A trajetória de Penna – e dos opositores e interlocutores – é um campo privilegiado para investigação dos intelec-
tuais daquela época. Uma fração dos agentes sociais era representante das famílias abastadas, algumas em decadência
econômica desde meados do período monárquico. Muitos eram filhos de proprietários de terras, mas sem capital financeiro
e articulação com frações de classes em expansão graças à industrialização. Devido aos conhecimentos adquiridos nos
cursos superiores e relações pessoais, gradativamente, passaram a ocupar postos na administração pública. Principal-
mente, foram os responsáveis pela condução das políticas de saúde e educação. 
Portanto, não devemos nos impressionar com a ideia de uma história despojada de temporalidade. Não estamos
propondo um tribunal inquisitorial dos desvios, nem uma investigação dos enganos cometidos. Apenas alertando que é
necessária uma teoria que comtemple a complexidade dos campos onde os intelectuais (cientistas, técnicos, políticos,
engenheiros, médicos) atuaram e, por outro lado, uma atenção específica com a pesquisa empírica. 

Leituras científicas da nação brasileira: Manoel Bomfim,


Alberto Torres e Oliveira Vianna

Stéfany Sidô Ventura (UFMG)

A necessidade de descrever, organizar e classificar a sociedade estimula a criação de termos e conceitos que
são explicativos da realidade. A partir do século XIX, o cientificismo influenciou nos estudos e análises das sociedades
humanas. Pensadores e letrados buscaram compreender o contexto histórico e social a partir de uma visão científica,
universalista e escalonada das sociedades. A partir disto, a produção intelectual brasileira da época, centrava-se em
apreender e interpretar a sociedade brasileira, seu processo de formação, os resultados das experiências históricas e as
possibilidades para o futuro. No processo da construção historiográfica brasileira – bem como da nação – (séculos XIX
e XX) intelectuais e letrados buscavam construir uma história nacional capaz de organizar e dar sentido à realidade do
país. Desse modo, compreender as possíveis particularidades (físicas, morais e intelectuais) da sociedade brasileira era
crucial para se pensar o desenvolvimento histórico do Brasil. 
Assim, um ambiente intensamente marcado por diferenciações e hierarquizações sociais (PAIVA, 2015) transparece
nas leituras de intelectuais e na linguagem científica da época. O léxico torna-se, então, produto da instância partilhada,
com adaptações e associações, entre a linguagem (seu conjunto de termos e significados) popular e a científica. Neste
sentido, o objetivo é analisar a produção e o emprego histórico de um “corpus teórico conceitual” utilizado por pensadores
interessados em compreender a dinâmica da construção social, política e cultural brasileira. A partir da análise deste
corpus é possível identificar o peso de premissas científicas na construção do conhecimento sobre a nação brasileira.
A dimensão compartilhada de um conjunto de significados e termos produz uma unidade lexical. Portanto, o que
este trabalho visa demonstrar é a produção, circulação e compartilhamento do léxico fundamental para a historiografia
brasileira (dos séculos XIX e XX). Assim, a partir das fontes – Manoel Bomfim, A América Latina males de origem
(1993) e O Brasil (1940); Alberto Torres, A organização nacional (1978) e O problema nacional brasileiro (1978) ; Oliveira
Vianna, Ensaios inéditos (1991) e Populações meridionais do Brasil (2002) – o que se busca demonstrar é a formação
de um campo lexical comum que visava compreender as problemáticas formadoras da nação brasileira a partir de um
enquadramento científico (nas décadas finais do séc. XIX e iniciais do séc. XX).

116
O Botânico João Barbosa Rodrigues no vale do Amazonas:
exploração do rio Capim, o rio da Pororoca (1874-1875) 

Cláudio Lísias Moreira Ximenes (Universidade Federal do Pará-UFPA)

Este presente artigo é o resultado da análise dos estudos geográficos, hidrográficos, botânicos e zoológicos ela-
borados pelo botânico brasileiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909), em viagem pelo rio Capim entre 1874-1875, o
qual foi comissionado pelo Governo Imperial Brasileiro em 1871, para proceder a estudos e coletas de novas espécies
de palmeiras, que iriam fazer parte da obra Flora Brasiliensis de Karl Friedrich Philipp von Martius. Estes estudos foram
publicados como relatório, intitulado “Exploração e Estudo do Valle do Amazonas: rio Capim” (1875) e apresentado no
mesmo ano ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Durante sua permanência no rio Capim Barbosa
Rodrigues pôde observar e classificar novas espécies botânicas, palmeiras e orquídeas. Das palmeiras três novas es-
pécies: Bactris nemorosa Barb. Rodr.; a Cocos speciosa Barb. Rodr. e a Bactris exaltata Barb. Rodr, todas estas foram
publicadas no Enumeratio Palmarum novarum quas valle fluminis Amazonum inventas et ad Sertum Palmarum collectas,
descripsit at iconibus illustravit (1875) e no Sertum Palmarum Brasiliensium (1903). Das orquídeas foram quatro espécies:
a Brassia chloroleuca Barb. Rodr.; Stanhopea cândida Barb. Rodr. a Palmorchis pubescentis Barb. Rodr., Stelis paraenses
Barb. Rodr., as quais foram publicadas no Genera et Species Orcheidearum Novarum (1877 e 1882). Na parte zoológica
Barbosa Rodrigues observou a presença de muitas aves, mamíferos e repteis. Descreveu uma nova espécie de quelônio
denominado por ele de Chelodina aterpectoralis. Ainda observou várias espécies de lepidópteros, entre elas a Aellopos
titan, a borbolleta beija-flor. Sobre o rio Capim Barbosa Rodrigues estudou a etimologia do nome Capim, e ainda apre-
sentou alguns erros que de acordo com ele foram se perpetuando como verdade entre os moradores locais sobre o rio
Capim. Primeiro erro, o rio que banhava a cidade de Belém era o rio Guamá. O segundo erro, o rio Capim era o principal
afluente do rio Guamá, nos estudos que procedeu sobre o rio Capim, Barbosa Rodrigues concluiu o contrário; Barbosa
Rodrigues ainda realizou um estudo científico sobre a pororoca, sua etimologia, sua força, sua causa e sua ocorrência.

O centauro imperial e a ferida de Quíron: Intelectuais técnico-


científicos brasileiros e a crise de hegemonia da monarquia
no ocaso do século XIX

Pedro Eduardo Mesquita de Monteiro Marinho (Museu de Astronomia e Ciências Afins)

Na formação social brasileira, ao final do século XIX, a conflituosa correlação de forças que sustentava o bloco no
poder passou a demonstrar a perda da capacidade de formulações intelectuais capazes de articular reformas compatí-
veis com o momento histórico. Avizinhava-se a privação da mão-de-obra escravizada e as frações da classe dominante
alimentavam o temor quanto à desestruturação do modelo econômico que, há décadas, os favorecia. Desde a década de
1870 daquele século, engenheiros-intelectuais técnico-científicos, formados pela Escola Politécnica, vinculados ao bloco
histórico imperial-escravista, foram capacitados para atividades profissionais relacionadas às grandes obras públicas e
demais intervenções em benefício da comercialização de produtos primários para a exportação. Em linhas gerais, enge-
nheiros, primeiramente agremiados no Instituto Politécnico Brasileiro e, mais tarde, no Clube de Engenharia, passaram
a atuar como técnicos e como dirigentes nas Companhias de Estradas de Ferro, cuja função particular articulava-se,
naquele momento, aos interesses das frações do complexo agroexportador de determinadas regiões do país. Nesta
comunicação, procuraremos refletir sobre a organicidade destes engenheiros “diplomados” nas condutas empresariais
dessas companhias, dentro das quais os agentes em questão reuniam capitais, atuavam no planejamento e realização
dos projetos técnicos, assim como nas concepções ideológicas das construções. Dessa forma, acreditamos ser possível
explicar como os projetos ligados às ferrovias que eram concebidos dentro do Clube desdobravam-se de forma a extra-
polar a sociedade civil em direção à sociedade política, revelando, assim, parte de um processo de complexificação do
Estado brasileiro. Observando tal complexidade, podemos perceber a importância dos diversos aparelhos privados de
hegemonia que, a partir da organização de sujeitos coletivos junto à sociedade civil, consolidavam-se, mediante formu-
lações intelectuais, para atuar na construção de políticas públicas junto às agências da sociedade política. Tal processo

117
operava-se ao mesmo tempo em que as principais propostas apresentadas revelavam os interesses específicos dos
grupos sociais e frações de classe que cada uma representava naquelas associações mediante a articulação dos grupos
sociais, particularmente dos engenheiros civis brasileiros e o nascente empresariado ligado às atividades relacionadas
àqueles profissionais.

O Clube de Engenharia toma partido: os intelectuais e a cultura


no Rio de Janeiro (1880 – 1910)

Fernanda Barbosa dos Reis Rodrigues (Museu de Astronomia do Rio de Janeiro)

Nosso trabalho se volta para o estudo da trajetória, atuação e conjunto de intervenções e articulações de-
finidas por engenheiros brasileiros que, através do Clube de Engenharia, assumem um papel fundamental na re-
formulação da cidade do Rio de Janeiro – do ponto de vista estético, econômico e cultural no período assinalado. 
Nosso recorte histórico delimita o ano de fundação do Clube de Engenharia – e consolidação do campo da engenharia no
país, em seu caráter político -, e alcança o mandato do presidente Rodrigues Alves (1902 – 1906), que coexistiu com o
governo e reforma urbana de Francisco Pereira Passos no cargo de prefeito da então capital da República, e com a grande
obra de modernização do porto carioca sob a direção de Francisco Bicalho – ambos membros proeminentes do Clube –,
obras que foram entregues, em grande parte, no ano de 1910 – quando se fecha, ao nosso ver, o primeiro grande ciclo
de ações dos engenheiros agremiados naquela entidade, capilarizadas nos serviços e obras públicas. 
Dentro desse contexto histórico, tornou-se possível, para nós, conceber a importância daqueles agentes como
“porta-vozes da modernidade”, condição viabilizada pelo seu capital intelectual, chamando atenção para o saber técni-
co da Engenharia Civil enquanto um vetor da modernidade no país, em particular, na cidade do Rio, em um período de
construção das ideias de “civilização” e “progresso”. 
Não obstante, debruçamo-nos sobre o processo de formação dos engenheiros civis brasileiros, que se dá em meio
ao período de expansão da produção cafeeira fluminense no Vale do Paraíba, cujo aparato primordial será as obras públi-
cas de “melhoramentos”, especificamente, as estradas de ferro e sob a direção, inicialmente, de engenheiros ingleses. 
Buscamos identificar o processo de institucionalização da profissão de engenheiro civil no país, tornada possível
dentro de uma agenda de obras de beneficiamento da produção cafeeira.
A partir da agenda de eventos organizados pelo Clube logo nos primeiros anos de sua existência, é possível identi-
ficar o processo de legitimação e fortalecimento político da entidade, que, nessa espiral, abrigará disputas internas que
se tonam mais expressivas com a crise do bloco imperial agrário e escravista de finais do século XIX, e que expressarão
dissidências e reorientações nas inserções da entidade, reforçando-se seu funcionamento enquanto um espaço de
formulação de políticas públicas.

Repercussões do 1º Congresso Brasileiro de Eugenia na imprensa


carioca (1928-34)

Leonardo Bispo Santos (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ)

O interesse em desvendar o que seria o Brasil levou inúmeros intelectuais a construírem interpretações e imagens
duradouras sobre o país, as quais, sobretudo a partir do século XIX, incorreram em uma visão pessimista sobre o país e o
futuro de sua população. O discurso edênico sobre o Brasil possuir uma bela e abundante riqueza natural, seguido da visão
negativa sobre a sua composição populacional é recorrente no senso comum até os dias atuais, podendo ser encontrado
nos mais diferentes debates que tratam sobre “problemas nacionais”, em especial quando esses são comparados a
imagens que se tem de outros países. O final do século XIX e início do século XX trouxe profundas transformações ao
mundo ocidental no tocante a modos de se pensar e gerir o mundo. A eugenia surge e expande-se exatamente nesse

118
período como uma ciência e movimento social que pretendia aplicar o conhecimento hereditário conhecido até então
ao meio social, buscando com isso o “aprimoramento racial” de alguns tipos humanos. A mesma conseguiu ter entre os
seus adeptos muitas personalidades de importância do meio científico, artístico e político dos mais diferentes países,
incluído o Brasil, que participou desse cenário a partir das primeiras décadas do século XX. Em julho de 1929 ocorreu no
Rio de Janeiro o primeiro congresso nacional sobre o tema, onde contou com profissionais de diversos países e áreas
de atuação, além do prestígio de autoridades religiosas e do governo. Esse evento foi, segundo a historiadora Nancy
Stepan, a “manifestação pública mais importante da eugenia brasileira na década de 1920”. O 1º Congresso Brasileiro
de Eugenia, sendo um dos vários congressos convocados para concomitantemente fazerem parte das comemorações
do centenário da Academia Brasileira de Medicina, obteve um grande sucesso e foi bastante divulgado nas imprensas
diária e médica. Nesta comunicação posicionaremos e destacaremos a importância do 1º Congresso Brasileiro de Euge-
nia como um objeto de estudo para a pesquisa sobre a história da eugenia e de sua divulgação no Brasil. Faremos isso
ao acompanharmos e analisarmos publicações na imprensa carioca de artigos referentes à divulgação da realização do
evento e a alguns de seus debates e ‘theses’ que acabaram sendo apresentadas a um público leitor amplo. Este exercício
visa ajudar-nos a compreender como os participantes do evento utilizaram-se do canal jornalístico impresso de grande
alcance, mesmo com as altas taxas de analfabetismo da época, para extrapolar as fronteiras de um congresso científico
e poder externar a um público amplo as suas opiniões, trabalhos e disputas internas, em especial em relação à eugenia
e ao uso da mesma para formular prognósticos e diagnósticos para os “problemas nacionais” caros ao seu contexto.

Um ministério para a Ciência e Tecnologia: cientistas e militares na


expansão do Estado brasileiro (1957 – 1985)

Carlos Roberto Torres Filho (Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro)

O trabalho pretende compreender a atuação política de cientistas e militares utilizando como eixo analítico a trajetória
de criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), ocorrida entre 1957 e 1985, considerando que tal processo esteve
inserido na conjuntura de ampliação do aparelho estatal brasileiro. Observamos que esses indivíduos transcenderam suas
respectivas atividades profissionais e engajaram-se em propor políticas públicas para o setor.
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe a percepção da importância estratégica de se investir em Ciência
e Tecnologia como instrumento de poder do Estado. O cenário internacional se mostrava então favorável, a própria Or-
ganização das Nações Unidas (ONU) estimulava os países em desenvolvimento a criar instituições dedicadas à Ciência
e Tecnologia, vistas como fundamentais à superação do atraso econômico e social.
No Brasil, os governos militares que se seguiram ao Golpe de 1964 empreenderam uma ampla reforma no país,
tendo sido parte integrante desse movimento a reestruturação das bases técnico-científicas nacionais. Havia em curso um
projeto de desenvolvimento atrelado à segurança, imbuído de um ideal de potência, o qual ultrapassava os possíveis inte-
resses e posicionamentos de caráter mais imediatista manifestados em cada um dos sucessivos mandatos presidenciais.
Contudo, disputas de posição entre as entidades interessadas, das esferas pública e privada, se fizeram presentes
ao longo da campanha de constituição do Ministério da Ciência e Tecnologia. Dentro e fora dos quadros governamentais
imperava a falta de consenso no tocante à questão. Pairavam preocupações a respeito da redistribuição de atribuições e
competências que afetaria a estrutura de poderes preexistente. Correntes antagônicas surgiram inclusive no meio científico,
a exemplo da cisão no seio do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). O debate alcançou os meios de comunicação
da época, produzindo, ao lado dos documentos oficiais, as fontes históricas das quais nos servimos, conjuntamente a
bibliografia pertinente.
O arquétipo teórico-metodológico, de cunho gramsciano, adotado por nós, considera a maneira orgânica por meio
da qual determinados agentes – ou mesmo agências – organizam e direcionam as demandas provenientes dos grupos
aos quais participam. No caso aqui pesquisado esses intelectuais originaram-se de frações tanto da comunidade cientí-
fica (sociedade civil) quanto das Forças Armadas (sociedade política), envolvidos, naquele bloco histórico, em embates
por hegemonia num Estado entendido como integral. Dessa forma, ao refletirmos sobre o esforço de implementação
de políticas científicas nacionais, intencionamos colaborar com os estudos relativos à institucionalização da Ciência e
Tecnologia no Brasil.

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ST 12. Ciência, Saúde e Natureza em projetos
de desenvolvimento

Agenda 2030 e a discussão contemporânea sobre o desenvolvimento 

Dominichi Miranda de Sá (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

A comunicação pretende localizar historicamente as propostas contidas na Agenda 2030 e seus 17 objetivos para
o desenvolvimento sustentável. Trata-se de acordo internacional proposto pela ONU em 2015 e ratificado pelos 193 pa-
íses membros da organização, inclusive o Brasil. Sob o lema “Ninguém deixado para trás”, o acordo contém 169 metas
para erradicação da pobreza e da fome; promoção da agricultura sustentável; saúde e bem estar; educação equânime;
igualdade de gênero; água potável e saneamento; energia limpa; trabalho e crescimento econômico; indústria, inovação e
infraestrutura; redução das desigualdades; cidades sustentáveis; consumo e produção ambientalmente responsáveis; ações
contra a mudança climática e o aquecimento global; vida na água; vida terrestre; paz e justiça e meios de implementação.
O trabalho pretende discutir e analisar o conceito de desenvolvimento sustentável contido na Agenda, o processo
histórico (ao menos desde a Comissão Brundtland [1983-1987] e seu relatório “Nosso Futuro Comum”) que lhe deu
origem, os atores e organismos internacionais envolvidos na sua promoção, suas relações com Estados Nacionais e a
tradição da governança global no pós-guerra, calcada no pressuposto da gerência das prioridades internacionais pelas
potências econômicas dominantes. No que a Agenda avança, em termos políticos e econômicos, se comparada aos
projetos conservacionistas existentes em produção científica ocidental de diferentes países ao menos desde fins do
século XIX? Como se relacionam, no acordo, justiça social e desenvolvimento econômico? Como se compatibilizam
crescimento econômico e preservação ambiental? 
Pretende também enfatizar a discussão no objetivo 3 da Agenda 2030 dedicado à saúde. Muitas das distopias
ligadas à escassez vindoura dos recursos naturais referem-se, exatamente, a problemas de saúde – emergentes e ree-
mergentes. Por que a Agenda postula a erradicação de doenças prioritariamente calcada em pressupostos herdados do
“otimismo sanitário” vigente no imediato Pós-Segunda Guerra? Essa visão atualiza o programa da Organização Mundial
de Saúde para o mundo subdesenvolvido desde a sua criação em 1948? Há articulação entre vulnerabilidades ambientais
e a promoção de ações de saúde no documento? Qual são o passado e o futuro da Agenda 2030?

Agroecologia, saúde e ambiente: a trajetória da agricultura orgânica


na Região Serrana do Estado Rio de Janeiro (1980-2010) 

Júlia Lima Gorges (Casa de Oswaldo Cruz)

Este trabalho propõe-se a analisar historicamente a consolidação da agricultura orgânica na Região Serrana do
Estado do Rio de Janeiro, no período de 1980 a 2010. Focaremos neste estudo de caso que refletiu um contexto nacional
e internacional de ideias e movimentos ambientalistas que criticavam os impactos de projetos desenvolvimentistas, os
quais incluíam a modernização da agricultura, calcada na mecanização do campo que acompanhou a inserção de elementos
químicos e uso de agrotóxicos nos processos produtivos agrícolas. No momento em que é implementada a agricultura
orgânica na região, diversos atores, nos cenários nacional e internacional, questionavam estes projetos e alarmavam
seus impactos no meio ambiente e na saúde humana. Neste sentido, a agricultura orgânica surge enquanto uma via
alternativa para a conservação da natureza e bem estar dos homens e animais. Destaca-se o papel da agroecologia
enquanto ciência, desenvolvida a partir da busca por uma base teórica para sistemas orgânicos de produção, além da
atuação de jovens, a maioria universitários, ligados a diversas áreas das ciências agrárias, como impulsores da prática
orgânica na região destacada. Eram jovens que viviam na “cidade grande”, que se voltaram ao campo para difundir o
conhecimento adquirido no espaço acadêmico. Em um primeiro momento, a agricultura orgânica foi impulsionada por
pessoas que possuíam conhecimento acadêmico sobre os seus conceitos e estavam imbuídos de valores ideológicos,

120
nutrindo preocupações com a conservação do meio ambiente e a saúde. O recorte geográfico da pesquisa foi escolhido,
primeiramente, pela importância do Estado do Rio de Janeiro na consolidação da prática da agricultura orgânica no Brasil:
o estado é apontado como um dos pioneiros neste tipo de atividade. Já a Região Serrana possui papel de destaque neste
cenário, uma vez que as cidades de Petrópolis e Nova Friburgo são apontadas como as pioneiras no estado. Ao longo
dos anos, a região se consolidou como a maior fornecedora de alimentos orgânicos, sobretudo hortaliças, para a região
metropolitana do Rio de Janeiro. A partir deste estudo, busca-se trazer à tona debates acerca de temas relevantes para
a sociedade atual, como o uso da terra, os impactos causados pela ação humana na natureza e suas consequências,
segurança alimentar e especificamente, problematizar o tema “orgânicos”, tema em alta atualmente.

Alimentando e moldando os pequenos brasileiros:


Dante Costa e a alimentação infantil 

Marcela Martins Fogagnoli Erthal (IFRJ)

A proposta do trabalho é fazer uma breve análise da contribuição de Dante Costa para a nutrição e as políticas
públicas de alimentação no Brasil, sobretudo no campo da alimentação infantil. Na busca por respostas para o problema
alimentar brasileiro, empreendida por um grupo de nutrólogos e nutricionistas no país, destaca-se o médico nutrólogo
Dante Costa. Ele foi um dos principais referenciais da alimentação racional, que começava a se delinear na década de
1940 como solução para a “má” alimentação da população a partir da imposição de novos hábitos alimentares através
de educação alimentar. Médico nutrólogo, professor, chefe da Seção Técnica do Serviço de Alimentação da Previdência
Social (SAPS), educador, membro fundador do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e literato, atuou em diversas instituições
públicas no sentido de melhorar a alimentação de trabalhadores e escolares e de difundir e concretizar nessas instituições
os preceitos da alimentação racional. 
Em seus escritos, Dante Costa se destaca por suas explicações socioeconômicas para o problema alimentar
brasileiro. Considerou que esse estivesse também relacionado a fatores como a pobreza e a distribuição e produção de
certos alimentos. Defendeu que os hábitos alimentares da população deveriam mudar. Mas, junto a isso, levantou as
bandeiras da distribuição das terras e do fim da pobreza e das injustiças sociais. Socialista e membro fundador do PSB,
seguiu sua militância em sua profissão, atuando no sentido de contribuir para melhoria da alimentação, sobretudo dos
trabalhadores e escolares. Assim, sua atuação no SAPS foi fundamental, uma vez que a instituição representou o maior
projeto estatal de alimentação dos trabalhadores. 
Buscaremos aqui explorar a contribuição de Dante Costa para as públicas de alimentação dos escolares, sobretudo
para a implementação da merenda escolar no Brasil. A infância e os escolares estiveram presentes em boa parte de
sua produção intelectual. Considerava que as crianças eram as que mais sofriam os efeitos negativos da desnutrição,
afetando seu crescimento e saúde. Além disso, via as crianças como mais fáceis de absorver os preceitos da alimen-
tação racional e assimilar novos hábitos. E assim, Dante Costa dedicou-se a escrever propondo medidas para corrigir o
quadro de desnutrição na maior parte das crianças brasileiras e recursos para promover a educação alimentar com esse
grupo. Nesse sentido, a merenda escolar foi escolhida como um “ponto chave”. Ela supriria as carências nutricionais dos
escolares ao passo que seria também um elo entre a escola e o lar das crianças.
Dante Costa teve notável contribuição para alimentação dos escolares. O caminho da alimentação escolar no Brasil
é profundamente marcado por seus esforços. A maior política de assistência aos escolares do país foi, sem dúvida, a
merenda escolar e a contribuição de Costa foi fundamental para as possiblidades e caminhos desse ousado projeto de
alimentar uma “pequena nação”. 

121
As Comissões Federais de Saneamento: políticas públicas e leituras
de desenvolvimento para a Baixada Fluminense no início do século XX 

Adriana Branco Correia Souto (Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz)

O objetivo de nossa apresentação é expor as concepções técnicas e discutir os objetivos políticos e sanitários
presente nos projetos de saneamento da Baixada Fluminense desenvolvidos entre 1933 e 1945. Do final do século XIX
até meados do século XX, a região conhecida como Baixada Fluminense foi objeto de sucessivas intervenções de enge-
nharia que visavam promover o “saneamento” daquela região do Estado do Rio de Janeiro. Para melhorar as condições
sanitárias da Baixada Fluminense foram criadas duas Comissões Federais de Saneamento. A primeira Comissão Federal
foi instituída 1910 e foi desativada 1916. O objetivo da primeira Comissão foi alterar o curso dos principais rios das região
criando condições hidrográficas e sanitárias para o desenvolvimento de atividades agrícolas. De concreto a Comissão
produziu estudos e elaborou mapas sobre a área a ser saneada finalizando com elaboração de um edital de concorrência
pública para uma empresa privada realizasse as obras. A segunda Comissão Federal criada 1933 manteve o mesmo
objetivo que era viabilizar o uso agrícola da terra. A diferença entre as duas Comissões estava abrangência de atuação
da última. Foi justamente a amplitude do campo de ação da segunda Comissão que determinou sua transformação, em
1936, na Diretoria de Saneamento da Baixada Fluminense. Em 1940 a Diretoria de Saneamento da Baixada Fluminense
foi incorporada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Outra questão importante observada ao
longo das Comissões foram os engenheiros assumindo o protagonismo na luta contra a insalubridade na região. A enge-
nharia estava associada ao ideário de progresso e buscava sua legitimação e regulamentação profissional desde o final
do Império até o início dos anos 30. Nesta busca os engenheiros recém-formados pressionaram as elites políticas com
o intuito de obter condições para atuar profissionalmente e ter lugar em “Cargos diretivos da vida pública” , tentando
afastar do mercado os chamados “práticos” (KROPF, 1994, p. 219). O engenheiro Hildebrando Araújo de Góes assumiu a
liderança da Segunda Comissão Federal e demonstrou a força de sua rede articulação política ao permanecer em todas
as transmutações da Comissão (Diretoria e Departamento) o que pode ser interpretado como a “vitória” de uma leitura
gestada ao longo de todo processo de constituição e atuação das comissões.

O amianto no banco dos réus 

Daniele Martins dos Santos (UFRJ)

A ideia principal deste trabalho surgiu da constatação de que não só os cientistas produzem fatos a serem usa-
dos pela lei, mas que também o direito influencia a formação do conhecimento científico. Nesse ciclo de coprodução,
os tribunais, como agências reguladoras, conduzem a massa de suas investigações nas fronteiras do conhecimento
científico, onde as questões são incertas, contestadas e fluidas, e não sobre um pano de fundo de um conhecimento
científico largamente estabelecido. Trazemos então um caso específico em que é possível ver direito e ciência imbricados:
a exploração do amianto no Brasil.
No Brasil o amianto vinha sendo utilizado em grande escala, na contramão de uma tendência mundial ligada ao
seu banimento tendo em vista o seu potencial cancerígeno. Na esfera científica houve quem defendesse a possibi-
lidade de um uso “controlado” da fibra, que diminuiria os riscos, que seriam pequenos frente a grande oportunidade
econômica criada pela sua exploração. Formou-se um entendimento, inclusive legal, nesse sentido. O artigo 2° da lei
n° 9055/1999 permitiu a extração, industrialização, comercialização e a distribuição do uso do amianto da variedade
crisotila no país.
Nosso estudo está interessado em narrar a trajetória da batalha jurídica do amianto no país, tal qual ocorreu com
o julgamento de algumas ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs n° 2396, 2656, 3937, 3406 e 3470), passando
inclusive por uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal. Num primeiro momento o STF preferiu tratar a questão
sob um enfoque puramente formalista, analisando somente a questão referente a competência legislativa concorrente da
União e dos Estados (art. n° 24 da Constituição Federal). Após alguns anos, o STF resolveu enfrentar a questão novamente,
mas agora de uma forma mais corajosa, levando em conta o avanço do número de vítimas e os danos ao meio ambiente

122
ocasionados pela manutenção da autorização legal para exploração e uso do amianto. Notamos que essa mudança de
enfrentamento foi influenciada pela pujança do movimento social organizado por trabalhadores e vítimas do amianto.
Nessa descrição notamos que o conhecimento científico levado ao tribunal constituiu uma controvérsia científica, apre-
sentando não um “fato” objeto do julgamento, mas sim “fatos” que, no exercício de uma política ontológica pelos Ministros,
foram tomados e transformados em “verdades científicas”, que por sua vez foram colhidas pelo manto da coisa julgada. 
Essa trajetória que culminou com o banimento do amianto em todo o território nacional nos faz concluir no sentido de
que os laboratórios e os tribunais estão muito mais juntos (labordireitórios) do que nos quer fazer crer a tradição moderna. 

O papel das pesquisas agrícolas na implantação de projetos


de desenvolvimento no Trópico Úmido (1975-1985)

Vanessa Pereira da Silva e Mello (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

Durante a ditadura militar brasileira, o planejamento da “ocupação” da Amazônia foi transformado numa prioridade
para o governo federal. Nesse sentido, foram elaborados projetos que pretendiam promover a “integração” da região ao
restante do país e fomentar sua colonização. O objetivo desse trabalho é compreender o papel das pesquisas agrícolas
para o estabelecimento desses grandes planos de desenvolvimento do governo federal para a região. Para alcançar essa
finalidade, utiliza-se como foco de análise as investigações científicas efetuadas pelo Centro de Pesquisa Agropecuária
do Trópico Úmido (CPTAU).
O CPATU foi fundado, em 1975, em Belém, como uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA). Esse centro foi instalado nas bases físicas do antigo Instituto de Pesquisa Agropecuária do Norte (IPEAN),
criado originalmente com o nome de Instituto Agronômico do Norte (IAN). Além de sua estrutura física, muitos pes-
quisadores do quadro de funcionários da IPEAN também foram incorporados ao CPATU. A meta desse novo centro era
inventariar os recursos naturais considerados com grande potencial econômico e gerar sistemas de produção, baseados
na transferência e adaptação das tecnologias provenientes do pacote tecnológico da Revolução Verde, aos diferentes
ecossistemas da região. Assim, inicialmente, foram estabelecidas como suas principais linhas de investigação os seguintes
projetos: Inventário dos Recursos Naturais e Socioeconômicos, Aproveitamento de Recursos Naturais e Socioeconômicos,
Sistema de Produção Vegetal e Sistema de Produção Animal. 
Através do exame das pesquisas realizadas por essa unidade da EMBRAPA, almeja-se perceber como sua atuação
contribuiu para a implantação de programas de desenvolvimento, como, por exemplo, o Programa de Polos Agropecuários
e Agrominerais da Amazônia (Polamazônia). Desse modo, são usados como fontes os relatórios anuais de atividades do
CPATU, os planos de desenvolvimento do governo federal para a região e publicações da Superintendência do Desen-
volvimento da Amazônia (SUDAM). O recorte temporal compreende o período entre 1975, ano que o CPATU foi criado,
e 1985, quando chegou ao fim a ditadura militar no país.

O projeto BRA-24 no Instituto Biológico (1968-1975): política agrícola,


agências internacionais e as pesquisas sobre agrotóxicos

Leonardo de Bem Lignani (Fiocruz)

O objeto de investigação desta pesquisa é o projeto “Expansão dos Trabalhos com Defensivos Agrícolas” (que
recebeu o código “BRA-24”), desenvolvido no Instituto Biológico de São Paulo (IB) entre os anos de 1968 e 1975. Este
projeto teve amplo envolvimento de agências internacionais: contou com financiamento do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD), teve como agência executora a Organização das Nações Unidas para Alimentação
e Agricultura (FAO), além de contar com a participação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de ter sido
formalmente solicitado pelo governo militar brasileiro, o projeto de expansão dos trabalhos com agrotóxicos também
mobilizava interesses particulares de pesquisadores do Instituto Biológico, bem como de outros atores desta complexa
trama (como setores da indústria química).

123
Neste trabalho, analiso quais foram os desdobramentos deste projeto nas agendas de pesquisa desenvolvidas
no Instituto Biológico, bem como procuro compreender como estas pesquisas científicas estavam articuladas com os
projetos de desenvolvimento empreendidos pelo governo militar. O final da década de 1960 marca o início da implemen-
tação de uma “agenda modernizadora” para o setor agrícola, associada à difusão de novos artefatos técnico-científicos
fomentada por políticas de governo, a qual foi consolidada durante a década de 1970. Marcos deste processo foram a
criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (1965), que vinculava o acesso ao crédito à compra de insumos químicos,
e do Programa Nacional de Defensivos agrícolas (1975), que destinou recursos para a instalação de subsidiárias de
transnacionais e para a criação de empresas nacionais produtoras destes compostos.
A assinatura oficial do termo de cooperação aconteceu em dezembro de 1967, definindo os valores do financia-
mento do PNUD e as contrapartidas estabelecidas (o que também envolveu a participação de especialistas estrangeiros
da FAO e da OMS no desenvolvimento das pesquisas na instituição paulista). Os objetivos iniciais do projeto incluíam o
desenvolvimento de novos pesticidas, testes de eficiência, avaliações de toxicidade e pesquisas sobre resíduos presentes
nos produtos agropecuários. A instalação de um laboratório de radioisótopos para estudos sobre resíduos e a criação de
uma seção de toxicologia estiveram entre os principais resultados de sua execução.
A amplitude dos temas de pesquisa abarcados pelo projeto BRA-24, em especial o investimento específico em
estudos que procuravam estabelecer “margens toleráveis” para a utilização de pesticidas, relacionava-se com as críti-
cas que estas substâncias recebiam naquele período: vários deles já haviam sido proibidos em países ou sofriam sérias
regulamentações. Mas também é importante considerar como pesquisadores do próprio Instituto Biológico apropriaram-
-se desta agenda e estabeleceram novos rumos para as pesquisas sobre agrotóxicos, que acabaram por reverberar no
debate político sobre o uso destas substâncias.

Política de Saúde Indígena no Brasil: Uma análise em perspectiva


histórica (1986-1999)

Carolina Arouca Gomes de Brito (ENSP/Fiocruz), Ricardo Ventura Santos (Fiocruz)

Esse projeto tem por objetivo analisar, a partir de uma abordagem histórico-antropológica, o envolvimento dos atores
indígenas, indigenistas e sanitaristas na formulação, e na implementação das políticas de saúde para as populações indíge-
nas no Brasil, sobretudo no âmbito da organização do subsistema de saúde indígena, aprovado pela Lei Arouca (9.836/99).
A questão da saúde indígena foi abordada institucionalmente desde a criação do Serviço de Proteção aos Índios – SPI- em
1910, porém só alcançou parte de seus objetivos anos mais tarde com a configuração do subsistema de saúde indígena em
1999. Ainda hoje, porém, o sistema demanda reflexões e adaptações constantes. Diante deste quadro considero importante
uma abordagem em perspectiva, a fim de localizar historicamente o percurso intelectual e político que conformou o campo da
saúde indígena no país e também o debate realizado entre saúde e desenvolvimento no âmbito da questão temática indígena.
O recorte cronológico da pesquisa proposta situa-se entre os anos de 1986 e 1999. O marco inicial dessa análise se dá com
a realização da Primeira Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio (CNSPI), que articulou as demandas em torno da
temática da saúde indígena e o marco final refere-se à promulgação da Lei Arouca. Nesse período será possível analisar as
transformações ocorridas no âmbito da assistência sanitária indígena, a partir de pressupostos legais, políticos e institucionais.
Além disso, intento compreender esse processo histórico a partir da análise da participação e do controle social indígena na
formulação e implementação da política nacional de saúde indígena. Nesse sentido, recuperar o processo da construção da
política de saúde indígena, nos permite compreender as dinâmicas políticas e institucionais em torno do processo, além de
contribuir para a localização e a qualificação da participação indígena na proposição de demandas e na estruturação da política
de saúde em âmbito nacional. Para a composição dessa análise serão utilizadas fontes orais (entrevistas com atores políticos
indígenas, antropólogos e sanitaristas que estiveram envolvidos nas discussões que levaram à formulação e implementação
da política nacional de saúde direcionada as populações indígenas no Brasil) e fontes documentais, sobretudo os documentos
produzidos por organizações indígenas usadas para circulação interna e externa, assim como naqueles gerados no âmbito
das primeiras Conferências Nacionais de Saúde Indígena (realizadas em 1986, 1993, 2001).

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Preserve the wilderness? Uma análise comparativa da criação e
consolidação do Parque Nacional de Itatiaia no Brasil e do Parque
Nacional Nahuel Huapi na Argentina 

Ingrid Fonseca Casazza (PPGHC/UFRJ)

A criação do primeiro parque nacional do mundo ocorreu em 1872, nos EUA. Era o Yellowstone National Park
que disseminaria por outros países a experiência norte-americana. Este trabalho propõe uma análise comparativa dos
processos de criação e consolidação de dois parques nacionais na América Latina, o Parque Nacional Nauhel Huapi, na
Argentina, e o Parque Nacional de Itatiaia, no Brasil. Os objetivos são compreender essas diferentes experiências histó-
ricas, identificar aproximações e distanciamentos entre elas e estabelecer especificidades que configurariam a criação
dessas áreas protegidas na América Latina. 
O primeiro, apontado como o primeiro parque nacional latino americano, foi criado em 1903, porém, efetivado
por uma política oficial de parques nacionais, apenas em 1934. Está localizado no Noroeste da Patagônia argentina, na
divisa com o Chile e a região na qual foi criado era habitada até fins do século XIX somente por índios nativos e animais
selvagens. Na ocasião de sua consolidação, na década de 1930, a região remota e pouco habitada ainda representava
um risco para o governo e a consolidação do parque ocorreu como estratégia de ocupação do território e desenvolvimen-
to de alternativa econômica a partir da associação entre conservação e turismo. O segundo, primeiro parque nacional
brasileiro, foi criado em 1937. Está localizado na divisa entre os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo,
em uma área de extrema raridade ecológica e paisagística. A criação do Parque Nacional de Itatiaia deve ser compre-
endida a partir de suas relações com a política governamental de gestão da natureza então implementada e atrelada ao
projeto de desenvolvimento da Era Vargas. Ambos os parques, o argentino e o brasileiro, foram criados em contextos
de desenvolvimento nacional e regional.
Sigo uma tendência de trabalhos recentes que sugerem a necessidade de abandonar o modelo de exportação do
parque nacional americano e considerar a proteção da natureza como um produto de imperativos nacionais. A análise
de outras experiências nacionais, como a que proponho nesse trabalho, permitem a complexificação e o entendimento
de como diferentes países atentaram para resolver algumas das tensões na proteção da natureza- como um balance-
amento entre turismo, pesquisa científica, interesses locais e nacionais, democracia e autoritarismo ou preservação e
conservação. Este trabalho é motivado pela percepção de que a concepção de parques nacionais, os efeitos sobre a
natureza pretendidos a partir da criação destas áreas protegidas e mesmo a ideia de proteção à natureza refletem os
contextos nacionais e os interesses políticos, econômicos e científicos dos diversos grupos sociais que se envolvem
nestas questões. A historicização das políticas de proteção à natureza facilita a elaboração de soluções possíveis para
o dilema entre conservação e desenvolvimento.

Saberes populares tornando-se saberes científicos: contribuições


do programa de pós-graduação em Agroquímica da Universidade
Federal de Viçosa

Regina Simplício Carvalho (UFV)

O uso de plantas medicinais remonta aos primórdios da civilização. No entanto, entre as décadas de 50 a 70 do
século passado, essa utilização ficou desprestigiada devido ao proeminente desenvolvimento da Química Orgânica e o
aumento da produção de medicamentos sintéticos. O retorno à fitoterapia se deu pela iniciativa da Organização Mundial
da saúde (OMS) a fim de diminuir os custos dos programas de saúde pública e o de possibilitar o acesso a tratamento
de pessoas com vulnerabilidade econômica. A busca pela preservação do conhecimento popular sobre o emprego das
plantas como medicamento foi intensificada, juntamente com a conscientização da população de que “nem tudo que é
natural é bom”! Efeitos adversos do uso de plantas medicinais podem ocorrer. Principalmente porque a época da colheita
e demais fatores podem afetar a concentração do princípio ativo responsável pelo tratamento de determinada doença.

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Independente disso, o saber popular inspira e propulsiona as pesquisas científicas sobre o uso das plantas. As pesquisas
com plantas medicinais envolvem isolamento, purificação e caracterização de princípios ativos, investigação farmacológica
de extratos e dos constituintes químicos isolados e estudo dos mecanismos de ação dos princípios ativos, entre outros
estudos. As atividades do Programa de Pós-Graduação em Agroquímica, em nível de Mestrado, com sede no Departa-
mento de Química da UFV, foram iniciadas em agosto de 1983 e o Doutorado foi criado posteriormente. Atualmente o
programa já possui 400 trabalhos (teses e dissertações) defendidas e publicadas no Locus – Repositório Institucional da
UFV. A época de criação do programa coincide com a crescente preocupação quanto aos impactos ambientais ocasio-
nados pela utilização de agrotóxicos nas lavouras, usados com a justificativa da busca pela eficiência agrícola. A partir
desse contexto a pesquisa por produtos naturais como substitutos de agrotóxicos sintéticos tem sido desenvolvida. Na
agricultura, os extratos botânicos e os metabólitos secundários representam uma das principais alternativas ao uso de
pesticidas sintéticos, podendo apresentar baixa toxidade e o menor impacto ambiental. Dentre o rol dos trabalhos do
programa, alguns, cujos títulos contêm as expressões composição ou caracterização química de plantas foram selecio-
nados. Entre as plantas medicinais estudadas encontram-se as populares amendoim-bravo, a erva de São João, o feijão
da Flórida, a camomila, a cabeludinha, erva de Santa Maria, entre outras. Extratos e óleos essenciais foram analisados
e atividades biológicas, inseticidas, nematicidas e fungicidas foram verificadas. Esses resultados promissores apontam
para a eficácia dos saberes populares extensivos à agricultura.

Uma história de espantar: commodities, quilombos e sem terras,


tecnologias agrícolas modernas e etnotecnologias 

Anderson Souza Viana (Universidade do Estado da Bahia)

A presente comunicação tem como objeto “uma história de espantar” da vida real, que se inicia ainda no período
colonial com o cultivo de “commodities” destinadas a ‘fazer dinheiro’ para colonizadores portugueses, ávidos por um
retorno econômico rápido do empreendimento colonial; que ganhou contornos obscuros e até mesmo misteriosos após
a independência, projetando um cenário composto de grandes fazendeiros atrelados aos interesses de corporações
transnacionais. Tal processo esquizofrênico, nesse conturbado início de século, alcança dimensões inimagináveis de
commodities que controlam as vidas das pessoas e uma agricultura que, avessa ao objetivo elementar de “alimentar
pessoas”, contamina o meio ambiente, com a utilização massiva e experimental de agrotóxicos e fertilizantes industriais,
culminando na escassez qualitativa e quantitativa de alimentos. Nesse enredo, corporações transnacionais, aliadas
de primeira hora da ciência e da tecnologia ‘modernas’ tendo como sustentáculo o ‘deus mercado’, colocam de lado
a possibilidade outras formas de conhecimento mais especificamente os dos povos indígenas e africanos, sendo que
o último, curiosamente, assim como os portugueses atravessam o mar e desembarcam nas terras dos Kariri, Pataxó,
Tupinanbás entre outras tribos que habitavam na região sul da Bahia. Na construção da comunicação perseguiram-se as
seguintes questões: a ciência, a técnica e as epidemias agrícolas em tempos de Revolução Verde e as etnotecnologias
indígenas e africanas. Está no âmago do estudo o caráter sobrenatural de fazer agricultura, responsável por ganhos
inimagináveis em produção e, sobretudo, em produtividade e o caráter efêmero dessa mesma revolução que, ao fim
e ao cabo, revela-se insustentável pelos danos ao patrimônio cultural e ambiental em decorrência do ‘esquecimento
de conhecimentos agronômicos ancestrais’; pelos danos ao patrimônio genético, decorrentes de uma busca frenética
por melhores respostas aos fertilizantes químicos e pela contaminação dos alimentos com substâncias tóxicas para
qualquer forma de vida. Na rota do estudo, estão também as etnotecnologias agrícolas ancestrais, autóctones trazidas
na diáspora africana: os sistemas agroflorestais de herança ancestral indígena e africana. É importante registrar que as
técnicas de manejar e de plantar florestas estão presentes na herança ancestral tanto nas Américas, entre as populações
pré-colombianas; quanto em África, em período anterior à ocupação Europeia, conforme William Balée, Marina Temudo,
Marcos Pereira Magalhães, Darrel Posey, dentre outros pesquisadores. Os personagens desse estudo são: o Quilombo
e os assentamentos de reforma agrária; a monocultura do cacau na Mata Atlântica da Bahia e as monoculturas que se
sucedem no semiárido baiano.

126
ST 13. Ciência, tecnologia e circulação de saberes
em espaços imperiais modernos, séculos XVI-XIX

A cultura científica em memórias sobre o Brasil e as ligações


entre os naturalistas luso-brasileiros do século XVIII
e os cientistas do século XIX

Daniela Casoni Moscato (Secretaria de Educação do Paraná)

O que somos quando viajamos ou quando escrevemos sobre viagens? A pergunta não é simples e não será
esclarecida com um modelo de resposta usual. Em verdade, ela não será esclarecida. Ao respondê-la por uma única
via, corre-se o risco de definir, de maneira desditosa, dois atos complexos, que há tempos acompanham o homem: a
viagem e a escrita. A pergunta que aqui se coloca tem apenas um papel, o de refletir sobre os deslocamentos físicos e
mentais realizados pelo homem no passado. Há uma imagem cristalizada do e da viajante como aventureiros envoltos em
particulares reflexões sobre o que se vê em trânsito. Quando se imagina o ato de viajar, muitos ainda têm a ideia de que
deslocar-se é somente uma grande aventura, desconsiderando o conjunto de atividades que a antecede, por exemplo,
ao verificarmos como eram complexos a organização, os objetivos e os investimentos econômicos necessários para as
expedições dos séculos XV, XVI e XVII, ou para as viagens científicas dos séculos XVIII e XIX, tal construção histórica
não se sustenta. Foi tal exercício que conduziu a tese de Doutorado que será tema desta comunicação. Escolheu-se
para este Seminário apresentar, no tempo permitido, alguns dos resultados desta recente pesquisa. Na tese analisou-se
possíveis ligações entre dois grupos de viajantes naturalistas que estiveram no Brasil nos séculos XVIII e XIX. Para tal
objetivo, buscou-se e investigou-se, na literatura de viagem oitocentista, impressões e fragmentos de leituras sobre as
obras de luso-brasileiros setecentistas. A hipótese foi a de que determinadas investigações dos luso-brasileiros foram
apropriadas e ressignificadas para a composição de famosos relatos de viagem do século XIX, feitos em sua maioria por
naturalistas franceses e alemães. Além disso, outros contatos entre esses grupos foram identificados. Eles se deram
pela participação em uma rede de sociabilidade científica que permitiu o acesso dos autores do século XIX às memórias
científicas dos luso-brasileiros e, em determinados momentos, o contato direto com esses sujeitos. Para investigar essa
“República das Ciências”, foram considerados aspectos próprios da história da leitura, como a circulação e apropriação
dos escritos e a formação de uma comunidade de leitores que elegeu autores, construiu práticas do ler e significados
singulares. Esses aspectos foram abordados através das três etapas das expedições científicas: o preparo, a viagem
e a escrita.. Aqui será apresentada a última fase da viagem que expõe os resultados da investigação. Nessa etapa,
se imprimiu no papel as impressões particulares do trânsito, os significados obtidos pelas leituras de outros textos e a
representação de encontros com outros sujeitos viajantes materializados no próprio relato.

A Química no mundo ilustrado luso-brasileiro (1772 – 1804)

Jose Ilton Pinheiro Jornada (CEFET/RJ)

Este trabalho tem por objetivo ampliar as pesquisas em torno da circulação de homens e de projetos científicos
e políticos, no espaço luso-brasileiro, na segunda metade do século XVIII. A investigação centra-se na Revolução Quí-
mica, compreendida através das trajetórias pessoal e profissional do brasileiro Vicente Coelho Seabra da Silva Teles,
que, como muitos filósofos naturais viveu e estudou na Universidade de Coimbra, após a reforma pombalina. A história
social, em particular a história das elites, com ênfase na compreensão dos conceitos de sociabilidade, redes, itinerários
e circulação do conhecimento constituem o enquadramento epistemológico da pesquisa que ora desenvolvo. O estudo
da trajetória de indivíduos articulados em rede de conhecimento e de atuação política virá corroborar com a recente,
porém sólida, rede de pesquisa constituída através da associação de pesquisadores brasileiros e portugueses, no âmbito
da produção e difusão das ciências, bem como da consolidação de novas teorias na medicina luso-brasileira entre os

127
séculos XVIII e XX. As fontes cartoriais, eclesiásticas e institucionais dos arquivos brasileiros e portugueses fornecem
os dados empíricos utilizados na pesquisa.
A Revolução Química no mundo luso-brasileiro ocorreu no contexto iluminista e fisiocrata. Vicente Seabra, nascido
em Congonhas do Campo, comarca de Ouro Preto (c. 1764), graduado Filósofo Naturalista e Médico na Universidade de
Coimbra, participou ativamente dos eventos desta Revolução. Membro da Academia das Ciências de Lisboa e professor
de Química e Metalurgia em Coimbra, Vicente Seabra é autor do livro Elementos de Química – o primeiro escrito por um
brasileiro. Lançada em 1788, um ano antes do Traité Élémentaire de Lavoisier. Esta obra registra sua adesão de às ideias
químicas revolucionárias -a teoria do oxigênio – um ano antes da obra seminal de Lavoisier. 
A produção acadêmica de Vicente Seabra, que demonstra sua trajetória de Fisiocrata, Filósofo Naturalista, Médico e
Professor da Universidade de Coimbra, foi publicada pela Academia das Ciências de Lisboa, pela Oficina da Casa Literária
do Arco do Cego, pela Régia Oficina Tipográfica e pela própria Universidade de Coimbra. O Mundo Natural foi objeto de
cinco memórias nas quais Vicente Seabra evidencia sua orientação de fisiocrata e naturalista ilustrado ao apresentar
resultados dos estudos e pesquisas que empreendeu, propondo métodos de ação que trariam melhores condições
econômicas e sociais à população e ao Reino. De sua produção voltada para a química fazem parte dois livros e três
dissertações. Partícipe da Revolução Química que estava em curso, nosso personagem demonstrou sua adesão crítica
às ideias de estudiosos da química como Boerhaave, Sthal, Macquer, Fourcroy Lavoisier, Scheele e Prestley. Desta forma,
a pesquisa em curso contribui para ampliar a compreensão da produção de ciência no Brasil, durante o período colonial.

As Teorias Médicas existentes no século XIX descritas no livro


“Historia Medica-Cirurgica da Esquadra Brasileira nas Campanhas
do Uruguay e Paraguay de 1864 a 1869”

Vagner Pereira de Souza (Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz)

Apresentação: A análise das campanhas militares brasileiras no século XIX é importante para a compreensão da evo-
lução da Ciência Médica no Brasil. As ciências avançavam, principalmente na Europa, e os reflexos desses avanços foram
aqui sentidos primeiro no desenvolvimento bélico e, posteriormente, na área da saúde. As ciências médicas tiveram que se
adaptar a armas mais potentes e destrutivas. As campanhas militares brasileiras, ocorridas entre os anos de 1864 e 1869,
servem para uma análise das teorias médicas aplicadas naqueles conflitos, auxiliando compreender a relação doença/trauma
com as práticas de cura. Para esta análise, torna-se importante a obra “Historia Medico-Cirurgica da Esquadra Brasileira nas
Campanhas do Uruguay e Paraguay de 1864 a 1869”, do Diretor-Médico da Esquadra Brasileira Carlos Frederico dos Santos
Xavier de Azevedo, diretor de saúde da Marinha Imperial brasileira durante as Guerras de Aguirre e do Paraguai.
Objetivo: Demonstrar que Azevedo(1870) descreve em sua obra o cenário das campanhas militares brasileiras no
Uruguai e no Paraguai, entre os anos de 1864 e 1869, detalhando os cenários das guerras, as dificuldades geradas pelas
doenças/traumas, as possíveis explicações teóricas para as doenças e as práticas de cura da época, para se enfrentar
inimigos visíveis e invisíveis. Busca-se também demonstrar que os médicos brasileiros pautavam suas observações e
seus atos, por exemplo, nos ensinamentos do Galenismo, da Iatroquímica e da Iatrofísica. Um dos exemplos, contido
na referência bibliográfica, que se pode destacar sobre as observações feitas pelo Dr. Azevedo, é a questão do espaço
físico nos navios da Esquadra brasileira, onde a “accumulação de grande quantidade de óleo, calor intenso, humidade
augmentada ,[...] esta simples consideração espaço, e ar, é sufficiente para explicar-se o desenvolvimento de certas
enfermidades ...” (AZEVEDO, 1870, p 4 e 5). Havia uma preocupação constantemente descrita na bibliografia que foi
chamada de Miasma Náutico. Como solução possível e imediata para os problemas que se apresentavam, procuravam
os médicos ventilar as áreas comuns e as áreas destinadas ao atendimento dos doentes e feridos, o asseio dos navios,
fumigações e limpeza mecânica com “agua chloruretada”, tanto dos ambientes quanto das vestimentas dos militares,
a aplicação de medicamentos de origem “natural” como ervas e plantas, oriundos das boticas, e de medicamentos
“químicos”, oriundos dos laboratórios, como nitrato de prata e perchlorureto de ferro(sic).
Referência Bibliográfica: Azevedo, Carlos F. dos S. X. Historia Medico-Cirurgica da Esquadra Brasileira nas Campanhas
do Uruguay e Paraguay de 1864 a 1869. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1870.

128
Bocarro Francês: automodelação e dissimulação honesta de um
astrólogo sebastianista no Portugal dos Filipes

Gianriccardo Grassia Pastore (Professor)

Patrocinado pelo Bispo-Inquisidor Dom Fernão Martins de Mascarenhas, posteriormente ligado ao Índice de 1624, e
escrito em dezembro de 1618 – portanto já iniciada a Guerra do Trinta Anos -, “O Tratado dos Cometas” poderia ser mais
um dos inúmeros relatos sobre os cometas que passaram pela Europa e que receberam a atenção e originaram a famosa
contenda de Galileu. No entanto, a obra deste cristão-novo torna-se uma crítica eficaz ao aristotelismo defendido pela própria
Igreja de Roma. O autor defende, dentre outros, que os planetas e demais astros não são feitos de uma quinta essência,
por isso estão sujeitos à mudança e à corrupção. É de se ressaltar ainda que o opúsculo valoriza correntes neoplatônicas e
estoicas, demonstrando, assim, a circulação dessas ideias no Portugal do século XVII. Escrito em língua vulgar e vendido a
1 vintém, para atingir um público mais amplo, continha também uma crítica a dominação filipina em Portugal (1580-1640).
Mais que um tratado astronômico ou científico, é um manifesto antiaristotélico. A escolha do Bispo para protegê-lo não
é por acaso e o próprio autor revela-nos que por ser nova a sua doutrina, seria necessário um grande defensor para livrá-
-lo de detratores. Acabou por receber todas as licenças e circulou sem restrições com grande apreço por muito tempo.
Para conseguir seu intento, Manuel Bocarro Francês, médico e astrólogo, precisou valer-se de armas comuns contra
o poder tirânico no período do Barroco: a automodelação e a dissimulação. Sendo cristão-novo e, mais tarde, denunciado
pelo próprio irmão por práticas judaicas à Inquisição de Goa, o livro tem livre circulação pelos domínios portugueses, tendo
sido lido até mesmo em Macau. O criptojudeu cita Santo Agostinho como autoridade e louva a “Santíssima Trindade”.
E mais: mesmo após a bula Coeli et Terrae, do papa Sisto V, de 1586, proibindo, dentre outros, a astrologia judiciária,
Bocarro discorre sobre esta no Capítulo VII, com as “armas” que marcaram a sua época: o astrólogo judiciário afirma que
os astros não “determinam”, todavia alguns homens podem deixar-se levar por estes, dissimulando e automodelando-se
para que o livro não tocasse em nenhum dogma da Igreja. O mesmo cuidado tem ao falar do que este cometa acarretará
para a Espanha: a volta a sua antiga “quietação e ócio”. 

Campos e florestas do Brasil: a biogeografia global de Auguste


de Saint-Hilaire

Lorelai Kury (Casa de Oswaldo Cruz)

A apresentação pretende analisar a prática e a teoria do trabalho botânico de Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853),
que esteve no Brasil entre 1816 e 1822. Meu objetivo é compreender de que modo ele incorporou os conhecimentos
locais sobre a vegetação brasileira ao mesmo tempo em que acumulou dados, tendo em vista desenvolver meios de
ação à distância. Ele escolheu Minas Gerais como um estudo de caso. Nesta região, distinguiu vários tipos de vegetação,
tanto matos virgens, quanto florestas e campos já alterados pelo homem. Grande parte dos termos que utilizava para
designar essa variedade de paisagens era extraída dos conhecimentos tradicionais que adquiriu durante sua viagem.
Muitos termos vinham diretamente do tupi e outros do português regional. A partir de suas descrições e apreciações,
é possível perceber como seu olhar tornava-se cada vez mais treinado para perceber as alterações sucessivas sofridas
pela vegetação e reconhecidas pelos habitantes locais. Assim, parte importante de sua análise sobre a vegetação mineira
baseou-se no que aprendeu em sua interação com os brasileiros, durante sua pesquisa in loco. Entretanto, de volta à
França, onde organizou seu material e escreveu textos científicos, seguiu o modelo do naturalista escocês Robert Brown,
que estudara a flora da Austrália. Brown e Saint-Hilaire usaram descrições analíticas das espécies, métodos de classifi-
cação e perspectiva comparatista para organizar plantas originárias de áreas não europeias. Eles pretendiam encontrar
padrões de distribuição das plantas no planeta. A confluência entre biogeografia e o chamado método natural expandiu
as possibilidades de “ação à distância”. Esse tipo de trabalho criava expectativas positivas sobre as possibilidades da
ciência. A botânica poderia ser uma ferramenta poderosa para se prever que tipo de planta poderia existir em uma dada
região ou para se determinar que tipo de virtude seria possível existir em uma planta recém-descoberta. Agir à distância
permitiria conhecer e utilizar as plantas e suas propriedades, evitando o contato com as populações locais.

129
Ciência e unidade territorial – A importância da História Natural
na ação cultural da Academia Brasílica dos Esquecidos, 1724

Bruno Martins Boto Leite (UFRPE)

Num contexto marcado pela presença e centralidade da cultura propalada e produzida nas escolas de filosofia e
teologia da Companhia de Jesus no Brasil, de uma cultura de orientação confessional predominantemente católica, a
criação da Academia Brasílica dos Esquecidos (1724-1725) com o apoio da coroa portuguesa tinha por consequência
a formação de um ambiente cultural diverso, caracterizado por um discurso mais patriótico e protonacional, como uma
forma de unificar o Estado em torno de um novo sentimento de pertença diverso daquele religioso. Esse sentimento era
buscado na proposição de uma nova história pátria, por meio da compreensão de um passado comum de Portugal e
seus domínios. Na relação com a Academia Real da História Portuguesa, a escrita da obra de Sebastião da Rocha Pitta,
“História da América Portuguesa”, publicada em Lisboa em 1730, serve de indício firme deste programa esboçado por
uma nova orientação oriunda de Portugal e projetada nos trópicos pela Academia dos Esquecidos. Contudo, além da busca
por uma história comum dos domínios americanos, os acadêmicos também investiram numa ideia de natureza comum
que servia a compor o quadro geral da natureza do império português e seus domínios, servia, ainda mais, a costurar a
identidade de todos aqueles que jaziam sob o sol dos trópicos lusitanos. Diante desse novo projeto, as “Dissertações
Acadêmicas e Históricas nas quais se trata da Historia Natural das Cousas do Brasil Recitadas na Academia Brasílica
dos Esquecidos que na Cidade da Bahia mandou erigir” do Desembargador e chanceler do tribunal da Relação da Bahia,
Caetano de Brito e Figueiredo, de 1724, teve, aparentemente, um papel central. Nestas dissertações, a noção de história
natural aparecia ligada à mundividência filosófica do período moderno: aparecia como a história de todos os fenômenos
naturais e de todos os seres da natureza, sejam eles celestes ou terrestres, ou seja, quase como um sinônimo de “filosofia
natural”. Entretanto, resta ainda observar que tipo de orientação filosófica marcava o olhar científico dos acadêmicos aqui
lembrados. A proposta deste seminário é, portanto, a de analisar o conteúdo das “Dissertações” do desembargador do
tribunal da Relação da Bahia levando em conta o contexto cultural e político de produção do documento, suas influências
culturais, sua orientação filosófica e o projeto científico e político ali esboçado.

Construindo um mercado e um espaço de circulação entre a India


e a França (1890-1920)

Matheus Alves Duarte da Silva (EHESS)

No início do século XX, o médico Nasarwanji Hormusji Choksy começaria a produzir uma série de estatísticas sobre
a aplicação de soros antipestosos na Índia, sobretudo daquele exportado de Paris pelo Instituto Pasteur. De origem parsi
e diretor de dois grandes hospitais de Bombaim, Choksy esperava com esses dados convencer a Municipalidade ou o
Governo de Bombaim a produzir localmente o soro, terminando assim com a dependência da região. Ironicamemente,
de modo a compilar esses estatísticas, Choksy realizaria um intenso trabalho de convencimento junto às autoridades
sanitárias e aos médicos da cidade para que comprassem e aplicassem o produto importado de Paris. Publicadas até
1908, elas conheceriam uma sorte dupla. Na França, essas estatisticas seriam utilizadas para provar o valor curativo do
soro antipestoso do Instituto Pasteur, enquanto que na Grã-Bretanha as posições se manteriam contrárias ao produto e
às pretensões de Choksy. A ação de Choksy, entretanto, contribuiria para consolidar um mercado em torno desse remédio
entre Paris e Bombaim, o qual continuaria existindo até meados dos anos 1920. 
Essa comunicação espera responder a questão de como um mercado se torna um espaço de circulação, a partir
de dois caminhos. Por um lado, retraçando a história da criação e do desenvolvimento desse mercado, e de outro, ana-
lisando a construção de conhecimentos possibilitada por esse espaço de circulação, no qual mercadorias e estatisticas
transitavam. Três grupos de fontes serão privilegiadas. Primeiramente aquelas provenientes da diplomacia francesa
na Ásia, subretudo do consulado de Bombay, de modo a apreender as conexões entre a política comercial e imperial
da França e da Grã-Bretanha. Em segundo lugar, os trabalhos de Choksy sobre a soroterapia pestosa na India. Por fim,
documentos provenientes dos arquivos do Instituto Pasteur de Paris, como artigos sobre o tratamento soroterápico em

130
diferentes partes do mundo – nos quais as estatísticas de Choksy são citadas –, assim como prospectos de venda de
soro e debates sobre o orçamento do laboratório.
A presente comunicação articula-se aos debates atuais sobre história global das ciências e circulação científica,
procurando evidenciar, de um lado, um processo de circulação de conhecimento não circunscrito, exclusivamente, a
um território nacional ou imperial. Por outro lado, compreende os espaços de circulação como construções históricas e
sociais, e procura retraçar os papeis de atores diversos, tais como diplomatas, comerciantes e médicos, em sua formação. 

Da glorificação da obra de Deus à busca das utilidades para o


homem: as funções dos estudos dos animais nas memórias de
Alexandre Rodrigues Ferreira (1781-1792)

Breno Ferraz Leal Ferreira (Unicamp)

A presente comunicação tem como proposta analisar as funções para as quais o naturalista Alexandre Rodrigues
Ferreira )1756-1815) mobilizou seus estudos sobre animais. 
Nascido em Salvador e formado em Filosofia na reformada Universidade de Coimbra, onde foi aluno de Domingos
Vandelli, Ferreira foi nomeado pelo ministro Martinho de Melo e Castro para liderar a chamada Viagem Filosófica pelas
capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, a qual se deu entre 1783 e 1792. A expedição tinha como intuito a
descoberta de produtos naturais dos três reinos (vegetal, mineral e animal) e o registro de suas utilidades (econômicas,
médicas e dietéticas). Além disso, exigia-se a descrição dos povos locais e seus costumes, como Vandelli assinalou nas
orientações de viagem.
A Viagem Filosófica resultou, entre outros aspectos, numa grande quantidade de memórias redigidas pelo naturalista,
sendo muitas delas sobre questões relacionadas à fauna das regiões visitadas. Antes desta expedição, todavia, Ferreira
já havia apresentado memórias (não publicadas) na Academia Real das Ciências de Lisboa. Uma delas teve como objeto
os animais, o Abuso da Conchyologia em Lisboa. Para servir de introdução à minha Teologia dos Vermes (1781). Neste
escrito, como já destacado por estudiosos como Ermelinda Pataca e Luís Miguel Ceríaco, a função principal da natureza
é a glorificação da obra divina. Em outras palavras, o estudo dos animais se vinculava à chamada teologia natural, isto
é, era visto como uma forma de provar a existência de uma inteligência que operava a natureza (no caso, Deus). 
Essa função atribuída ao estudo dos produtos naturais praticamente não é mais encontrada nas memórias que
redigiu durante a Viagem Filosófica. O material produzido naquela ocasião é principalmente voltado à descoberta das
utilidades que a natureza poderia proporcionar ao homem. Visa-se nesta comunicação discutir essa mudança de paradig-
mas. Todavia, faz parte de nossa proposta também atentar para uma questão discutida na memória “Observações sobre
a classe dos mamais” (1790): as ideias que apresenta sobre a inferioridade dos animais americanos quando comparados
aos do Velho Mundo, em termos de “tamanho” e “ferocidade”.

Divergências epistemológicas do antijesuitismo português no século


XVIII: uma análise das obras de Manuel de Azevedo Fortes
e do padre Inácio Monteiro 

Jefferson dos Santos Alves (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

O antijesuitismo decorrente da política regalista pombalina é apontado como principal fator da supressão da Com-
panhia de Jesus em Portugal e seus domínios em 1759. No entanto, o antijesuitismo não se limitava ao plano político,
estava presente em esferas da Igreja Católica, como outras ordens religiosas, e na esfera intelectual, especificamente
no campo das ciências, o que, de fato, ficou mais visível no século XVIII com escritos fundamentados em pressupostos
epistemológicos contraditórios à matriz aristotélico-tomista mobilizada pela Companhia de Jesus em sua produção in-

131
telectual e em sua prática docente. Esses pressupostos epistemológicos tinham como um dos seus principais alicerces
o pensamento cartesiano e possibilitaram a formação de um embate entre duas posturas epistemológicas diferentes e
contraditórias: de um lado aqueles declarados abertos as “novidades”, de outros os jesuítas que se declaravam “ecléticos”.
Para verificar este embate, o presente trabalho empreenderá uma análise de Logica racional, geometrica, e analitica,
publicada em 1744 por Manuel de Azevedo Fortes (1660-1749), engenheiro-mor do Reino, ao lado de Philosophia Libera
seu Ecletica, publicada após a supressão, mas iniciada no final da década de 1750 em Portugal pelo jesuíta Inácio Mon-
teiro (1724-1812). Enquanto Fortes apresenta uma crítica ao ensino desenvolvido em Portugal pontuando problemas em
relação ao ensino da Lógica e às questões epistemológicas tendo o sistema cartesiano como norteador, Monteiro critica
este mesmo sistema e apresenta uma postura epistemológica que não rejeita o conhecimento considerado “moderno”,
ou seja, as “novidades”, sem perder os pressupostos aristotélico-tomistas associados ao pensamento escolástico.
Além de evidenciar um confronto na área intelectual, pretendemos expor mais uma faceta do movimento antijesuítico
português, o que pode desvelar o modus operandi de ensinar e fazer ciência da Companhia de Jesus na medida em que
sua postura epistemológica na resolução de problemas está exposta e justificada na obra de Monteiro.

Instrumentos de precisão e relatos de viagens na América


portuguesa (1750-1780)

Heloisa Meireles Gesteira (Museu de Astronomia e Ciências Afins)

No decorrer do século XVIII, os instrumentos científicos conquistaram papel de destaque na construção do conhe-
cimento sobre os fenômenos naturais. Não apenas as observações astronômicas, mas uma série de experimentos foram
realizados e aparatos foram criados por filósofos naturais com a finalidade de observar com precisão os fenômenos da
natureza. Para alcançar cada vez mais precisão, instrumentos matemáticos eram desenhados e fabricados com a intenção
de traduzir em números o que era observado pelos sábios. Os resultados dos experimentos e das observações estavam
diretamente ligados à qualidade dos artefatos utilizados. Outro aspecto importante na incorporação de instrumentos
de precisão foi o potencial desses artefatos na padronização e acuidade de procedimentos e gestos desde a etapa de
coleta de dados até a circulação de resultados. Vistos em conjunto, instrumentos matemáticos, óticos e filosóficos
eram utilizados por filósofos naturais, astrônomos e matemáticos para observar e medir os fenômenos da natureza que
eram minuciosamente estudados, analisados e descritos. Em particular os instrumentos matemáticos eram os meios
que permitiam uma tradução matemática – seja pela geometria ou por números – da natureza, além de permitir uma
comunicação mais eficaz entre os homens de ciência.
Os diários de expedições fizeram parte do processo de conquista da América pelos europeus desde o século XVI
e são documentos importantes no processo de construção e incorporação dos espaços ultramarinos. Neste gênero,
o conhecimento, seja a História Natural, seja a Astronomia eram componentes centrais dos textos e auxiliavam na
apropriação de terras distantes, na confecção de mapas e fomentou as edições de livros de viagem e de cosmografia. 
Entre as transformações que tiveram lugar durante o século das Luzes, o uso de instrumentos científicos – seja
nas observações diretas de fenômenos naturais, seja em experimentos físicos – transformou-se num procedimento que
deu impulso às novidades dos estudos sobre a natureza, não era possível um conhecimento profundo do meio natural
sem o auxílio destes artefatos. O uso de instrumentos na Astronomia, embora não fosse propriamente novo, operou
dois movimentos complementares durante a Ilustração. Ao mesmo tempo em que os instrumentos de precisão eram
aperfeiçoados, a padronização dos procedimentos e práticas permitia a melhor comunicação dos dados coletados entre
os astrônomos.
O que pretendemos demonstrar nesta comunicação é de que forma a utilização dos instrumentos ao longo dos
deslocamentos imprime ritmo às viagens e influencia na estrutura do diário que são produzidos no contexto das demar-
cações de limites em meados do século XVIII.

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Natureza e colonialismo durante o secretariado de Henry Walter
Bates na Royal Geographical Society (1864-1892) 

Anderson Pereira Antunes (Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz))

Quando retornou para a Inglaterra em 1859, após uma estadia de onze anos na região Amazônica, Henry Walter
Bates (1825–1892) começou a ganhar destaque em meio aos naturalistas britânicos. Além de sua enorme coleção,
que contava com mais de sete mil espécies desconhecidas por naturalistas europeus, e da descoberta do mimetismo
que hoje leva seu nome, Bates também tornou-se conhecido por seu vasto conhecimento em História Natural e sua
expertise no trabalho de campo. Estes foram alguns dos fatos que contribuíram para que, em 1864, fosse convidado
pela Royal Geographical Society (RGS) para ocupar o cargo de secretário-assistente. O cargo o deixava diretamente
encarregado de algumas das principais atividades da sociedade, tais como: a manutenção da correspondência com
viajantes de todo o mundo; a revisão, edição e publicação dos relatos de viagem recebidos; e a organização e convo-
cação de reuniões, incluindo aquelas para discussão sobre a cessão de subvenções para viajantes. Criada, como outras
sociedades científicas da época, por uma elite intelectual que reunia-se para debater temas científicos, a sociedade
começou a ganhar proeminência em 1859, quando ganhou da Rainha Vitória o estatuto real. A partir de então, a RGS
tornou-se um elemento central na expansão colonial britânica, especialmente na África, Ásia, Índia e na exploração
das regiões polares do globo. Durante a segunda metade do século XIX, esteve diretamente relacionada com dezenas
de expedições científicas destinadas aos quatro cantos do mundo. Na posição de secretário-assistente, Bates esteve
no centro do relacionamento da RGS com os diversos viajantes encarregados de explorar os confins do mundo em
favor do progresso científico e imperial, tornando-se um nódulo central em uma complexa rede que envolvia natura-
listas viajantes, agentes do governo, aventureiros e habitantes locais. A partir de material arquivístico encontrado nos
acervos da própria sociedade, tais como atas de reuniões, manuscritos de artigos originais publicados no periódico da
RGS e, principalmente, correspondências recebidas e enviadas pelo próprio Bates, é possível identificar quem eram
os membros envolvidos na rede científica associada à RGS e observar como as atividades promovidas pela sociedade
se encaixavam no contexto Vitoriano que associava ciência e expansão colonial. Com esta pesquisa, focamos especi-
ficamente no papel de Henry Walter Bates em meio a essa conjuntura, investigando como sua experiência de viagem
Amazônica se manifestava nas suas relações com os viajantes apoiados pela RGS. Ao mesmo tempo, tomamos Bates
como estudo de caso para observar como uma expedição científica podia se transformar num rito de passagem entre
o amadorismo e o profissionalismo científico na Inglaterra do século XIX, assim como observamos como ele tentava
encontrar o equilíbrio entre ciência de campo, de gabinete e o trabalho como secretário-assistente na RGS durante os
28 anos que se manteve na instituição.

Negociando a Ciência Newtoniana na Inglaterra do Século XVIII –


A Trajetória de Benjamin Martin como Professor Itinerante e
Fabricante de Instrumentos Científicos

Luiz Carlos Soares (Universidade Federal Fluminense)

Benjamin Martin foi um dos maiores divulgadores da Filosofia Natural e Experimental de Newton, sobretudo através
dos inúmeros cursos que ele ministrou nas cidades provinciais da Inglaterra, desde o final dos anos 1730 até meados dos
anos 1750. Martin atraia uma clientela diversificada para os seus cursos com uma eficiente propaganda, na qual suas
publicações (manuais e tratados) desempenharam um papel importante como meio de divulgação das suas atividades
profissionais. Estas publicações eram vendidas por ele mesmo durante suas viagens pelo interior da Inglaterra ou por
livreiros por ele autorizados. Outra forma de divulgação de suas publicações e cursos eram os anúncios publicados em
periódicos das cidades provinciais que ele visitava, sempre antes do início das suas atividades docentes.
Se John Theophilus Desaguliers pode ser considerado como o maior filósofo e professor independente de Filosofia
Natural e Experimental Newtoniana entre os anos 1730 e 1740, o mesmo poderia ser dito sobre o matemático, oculista,
inventor, professor itinerante e fabricante de instrumentos científicos, Benjamin Martin, em meados do século XVIII.

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Martin teve uma longa vida de acordo com as expectativas de vida do século XVIII (de 1704 a 1782), e teve muita sorte
por ter seus trabalhos publicados e reconhecidos pelo público ainda em meados daquele século, no momento de apogeu
da Ilustração (na Grã-Bretanha e na Europa Continental) e de grande interesse pela Filosofia Mecânica e Experimental
e pela Ciência Aplicada, inspiradas na Teoria Newtoniana, principalmente na Inglaterra, De meados dos anos 1750 até
sua morte, Martin se estabeleceu como um importante fabricante de instrumentos matemáticos e científicos na Fleet
Street, em Londres, produzindo e vendendo muitas das suas invenções e aperfeiçoamentos técnicos e, entre estes,
estavam diversos modelos de telescópios, microscópios e óculos para correção da visão.
Certamente, podemos dar a Martin o crédito do maior divulgador do Newtonianismo na Inglaterra do século XVIII,
sobretudo devido à grande diversidade de seus trabalhos, pois ele escrevia tanto para leitores especializados – abor-
dando complexos aspectos técnicos de suas invenções e aperfeiçoamentos e também os mais abstratos fundamentos
matemáticos e metafísicos da Teoria Newtoniana –, como também para aqueles principiantes que queriam se iniciar
nesta perspectiva de Filosofia Natural. A partir de 1735, Martin publicou muitos panfletos e tratados, divulgando suas
invenções e aperfeiçoamentos, e compêndios, manuais e dicionários acerca dos mais diferentes assuntos, incluindo
Filosofia Natural (Física e Ótica Newtonianas), Matemática, Astronomia, Geografia, Navegação, Cartografia, Química,
História Natural e Língua Inglesa.

O Porto de Santos: projetos apresentados para melhoramentos


das condições de funcionamento (1870-1880)

Ivoneide de França Costa (Universidade Estadual de Feira de Santana)

O panorama da modernização do século XIX constituída pelo processo de industrialização que ocorria na Europa
influenciou as estruturas econômicas mundial, e, no Brasil não foi diferente. A formação de uma nova economia baliza-
da na relação técnica e produção fomentaram o comércio, acelerou o desenvolvimento dos meios de comunicação e
incrementou os centos urbanos. O ciclo do café despertou a necessidade de propor um melhor sistema de transporte
terrestre devido às distancias entre as Províncias e o aumento da quantidade de mercadorias transportadas, principal-
mente provenientes da Província de São Paulo, onde a produção era maior do que nos outros lugares que cultivavam o
café. Uma das soluções para melhorar o escoamento da produção consistia na implantação do sistema ferroviário. Além
das estradas de ferro, os portos também contribuíram para o melhoramento do comércio no país. A primeira iniciativa
para tentar organizar as obras portuárias e de se estabelecer regras para as obras públicas foi a Lei de 1828. Através
dela, previa-se a realização de obras por empresários nacionais ou estrangeiros, o que permitiria a contratação da mão
de obra estrangeira, significativamente presentes nas obras no século XIX. As províncias costeiras se favoreceram por
servirem de local de escoamento dos bens e produtos. Santos- SP, pela sua localização em relação ao mar e suas serras,
funcionava como interposto nas negociações do café, algodão e outros gêneros de comerciais. Com a exportação do
café, o porto de Santos transformou-se no porto do café, entretanto, o porto não apresentava as condições necessárias
para atender a movimentação e estocagem de mercadorias. Os transportes das mercadorias eram feitos por escravos
ou trabalhadores do porto e as construções eram mal projetadas, tal situação rudimentar que perdurou por quase todo
o século XIX. Apesar das más condições do porto, Santos, na segunda metade do século XIX vivia um momento de
expansão da cafeicultura e o desenvolvimento da lavoura de algodão fatores que, aliados ao crescimento do comércio
internacional contribui para que alguns empresários ou engenheiros apresentassem planos de organizar o porto a fim de
atender tais demandas. Alguns projetos foram apresentados ao Governo Imperial, mas pouco foi realizado de concreto
para mudar o estado precário das instalações do porto. O presente artigo tem como objetivo apresentar os principais
projetos para melhoramento do porto do Santos propostos por empresários e engenheiros, até 1880, ano que se findou
as pesquisas no porto para se iniciar os processos de efetivos melhoramentos.

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O tema das viagens em J.-J. Grandville (1803-1847)

José Roberto Silvestre Saiol (Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz)

A chegada dos europeus ao continente americano e a formação dos impérios coloniais modernos tiveram como um
dos seus principais desdobramentos o crescimento vertiginoso dos processos de trocas culturais e materiais entre diferentes
grupos humanos. Daí também o interesse cada vez maior no outro, e o incentivo à produção de inventários sobre a natureza
e as práticas culturais desses novos territórios que atravessam todo o período moderno. Por meio de relatos de viagens
produzidos a partir dos mais diferentes programas intelectuais, e do envio e contrabando de espécies de plantas e animais
nativos desses territórios, os europeus tomavam conhecimento do novo mundo, ao mesmo tempo em que o ressignificavam
de maneira a assimilar e, em alguns casos, dominar essa diversidade. A circulação desse conhecimento, se compreendida
à luz da historiografia das ciências mais recente, deu origem a diversos produtos culturais, tanto no novo quanto no velho
mundo, transformando-o a cada encontro. O tema desta investigação é a presença de temas científicos na produção artístico-
-filosófica do ilustrador francês J.-J. Grandville (1803-1847). Neste trabalho, examinamos a apropriação do conhecimento
científico por parte do artista e as reelaborações deste tema promovidas por ele em sua obra. Debruçamo-nos aqui, mais
especificamente, sobre o tratamento concedido pelo autor ao tema das viagens, da fauna e da flora fantásticas e, por fim, ao
dos encontros culturais – especialmente com povos do oriente. Para Grandville a ciência constituía, simultaneamente, uma
fértil fonte de consulta, ao mesmo tempo em que, ao que nos parece, servia como fonte de legitimação para o produto do
seu trabalho. Isso porque, para ele, era fundamental distinguir a sua produção dos demais produtos culturais do séc. XIX que
acabaram desencadeando o debate sobre a industrialização da produção artística e literária – daí a opção por tratá-la como
artística e filosófica ao mesmo tempo. Por meio dela, Grandville dava conta não apenas da grande expansão do universo
europeu provocada pelos encontros culturais da era moderna; acreditamos que a sua produção traz à tona a própria busca
pelo conhecimento como uma marca fundamental de sua época. E o que caracteriza essa busca é um registro intelectual
bastante particular, que preconiza a observação, a descrição e a classificação de elementos que não estão circunscritos
apenas ao mundo natural, mas que antes se voltam, paulatinamente, para um esforço de compreensão do mundo social.

Os manuais de ciência de Domenico Vandelli: uma análise


historiográfica da obra “Diccionario dos termos technicos
de Historia Natural 

Raíssa Barbosa da Costa (UNTREF)

No decorrer dos séculos XVII e XVIII as transformações políticas europeias associadas à chamada Revolução Científica
alcançaram de forma distinta as nações europeias. Ao tratarmos especificamente dos domínios territoriais do então Império
Português, observamos uma busca por introduzir as ciências modernas e, por conseguinte, as investigações e expedições em
todo o seu domínio, incluindo as terras do além-mar e a colônia portuguesa na América do Sul. Este processo de renovação
do conhecimento cultural e científico foi em grande medida financiado pelo Estado. Envolvendo indivíduos e instituições,
as ciências naturais lusitanas apesar de estarem na periferia das conquistas do Iluminismo no decorrer do século XVIII,
conseguiram a seus passos acompanharem este com o movimento que chamamos de Reformismo Ilustrado, que possui
como um dos principais nomes o Marquês de Pombal. Foi durante o consulado deste, que Portugal iniciou a absorção de
ideias Iluministas, filtradas pelo pensamento lusitano. O objetivo do consulado pombalino era criar uma elite cultural que
estivesse mais aberta ao pensamento racional e empírico, como também formar mão de obra a ser utilizada nos quadros
administrativos do Império. Coube ao italiano Domenico Vandelli, contudo, a formação desta geração de naturalistas, que
utilizariam da ciência para promover a sua nação: Portugal, ao que nos parece, o consulado pombalino, se diferenciou ao
buscar a reforma educacional, iniciada na Universidade de Coimbra. A partir dessas considerações, o presente trabalho
busca apresentar uma análise qualitativa da obra “Diccionario dos termos technicos de Historia Natural” de autoria de
Domenico Vandelli, publicada em Lisboa no ano de 1788, que seria amplamente utilizado como manual científico para for-
mação da nova geração de naturalistas do império português. Considerando o contexto histórico, político e socioeconômico
no qual estava inserida a obra de Vandelli, e o claro foco na recuperação econômica do Reino português, discutiremos a
epistemologia do fazer científico do século XVIII em Portugal e da chamada ciência utilitarista.

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Pontes, calçadas, caminhos e estradas: as arrematações de obras
públicas no desenvolvimento do espaço urbano de Vila do Carmo/
Mariana, século XVIII

Danielle de Fátima Eugênio (Universidade de São Paulo)

Por meio deste estudo buscamos acompanhar o universo técnico construtivo estabelecido pela câmara de Vila
de Nossa Senhora do Carmo (atual cidade mineira de Mariana) e empreendido pelos arrematantes de obras públicas,
acompanhados por suas equipes laborais, munidos de seus conhecimentos técnicos, paramentados com suas ferramen-
tas e trazendo as matérias primas por vezes requeridas em grande parte das empreitadas. Nesse contexto focalizamos
o estabelecimento das condições específicas para execução das edificações e reformas contratadas pelo senado,
registradas por escrito (também chamadas de “desenhos por escrito” ) ou através dos desenhos (riscos e plantas).
Estas fontes denominadas “Registros das Condições”, consistem em instruções precisas e detalhadas para correta
edificação, ou reparo contratado. As Condições são documentos de importância inigualável para análise de diversos
elementos, tais como: a organização das empreitadas; recursos materiais a serem utilizados; emprego de técnicas para
execução das etapas propostas; organização das empreitadas; importância conferida à conveniência, ordenamento,
segurança, adequação e realinhamento dos núcleos urbanos; o conhecimento das diversas partes que compunham as
vilas e cidades, destacando-se as edificações preexistentes; atenção aos elementos naturais atuantes nos locais das
edificações: tipos de solo, erosões, barrancos, vegetação, rios e enchentes. Outrossim, nos informam sobre o saber-
-fazer de homens e mulheres que, por vezes, não produziram manuais práticos quiçá tratados, mas cujas habilidades
encontram-se assinaladas nesses manuscritos e nas edificações remanescentes que compõem os centros históricos
das seculares cidades brasileiras. Nesse escopo investigativo damos ênfase aos caminhos, calçadas e pontes, si ne qua
non aos deslocamentos dos habitantes locais, dos comerciantes e seus mantimentos e utilidades, dos gados e carros,
do ouro e seus mineradores, dos oficiais mecânicos e suas ferramentas de ofício, das madeiras, rochas e mais matérias
primas necessárias às construções, dos escravos e seus senhores, dos camaristas e seus editais, bandos, posturas e
autos de arrematação a serem afixados ou apregoados nas partes mais públicas das cidades, vilas, freguesias e arraiais.
Enfim, vasto se revela o universo construtivo da sociedade das Minas Gerais setecentistas, deveras complexo no que diz
respeito às atividades manuais cotidianas de seus oficiais mecânicos, uma fábrica rica em minucias que nos convida às
análises sobre a interação entre a câmara, suas condições, os oficiais mecânicos e seus artefatos. 

Reformas no beneficiamento do açúcar no final do século XVIII


por Jerônimo Vieira de Abreu

Alexander Lima Reis (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

A trajetória de Jerônimo Vieira de Abreu está associada a diversificação agrícola que ocorreu na segunda metade
do século XVIII no Rio de Janeiro. Um homem de conhecimento prático que participou da produção dos principais gê-
neros agrícolas na cidade, atuando como inspetor de cultura, idealizador de técnicas de cultivo, projetor de máquinas
de beneficiamento e instrutor de novas técnicas. Boa parte das máquinas e do conjunto de técnicas desenvolvidas por
ele se materializaram em bem público. Os estudos e a documentação disponível sobre a sua vida se concentram em
torno da cultura do anil. Contudo, atualmente é possível ter uma visão ampla de suas atividades a partir do documento
12378 depositado no Arquivo Histórico Ultramarino, o qual foi enviado do Rio de Janeiro para a Corte portuguesa. Nele
consta um processo de solicitação de mercê em que diversas testemunhas atestam seus inventos para a agricultura.
Nesta comunicação procura-se enfatizar as suas contribuições técnicas para a cultura do açúcar. A moagem da cana
de açúcar contava com um equipamento de três cilindros de madeira por onde a cana cortada atravessava. É necessária
muita força para fazer mover a engrenagem e o cilindro do meio faz a força motriz que, a partir do movimento rotativo
faz girar os outros cilindros, permitindo assim ir e voltar o bagaço da cana. Essa engrenagem pode ser movimentada por
força hidráulica, eólica e tração humana ou animal. No Rio de Janeiro, a maior parte dos engenhos da época de Jerônimo
Vieira era de tração animal. A máquina movimentada por essas forças está presente na cultura do ocidente desde a anti-

136
guidade e tais modelos serviram de paradigma aos séculos que se seguiram. A montagem da máquina de beneficiamento
do açúcar pelos portugueses na América é tributária desse tempo. O paradigma da roda hidráulica alcançou o Atlântico
primeiro na ilha da Madeira no século XV e apesar de o procedimento técnico possuir uma fase automatizada em que
prevalecia a repetição, houve momentos em que se fizeram adaptações, porém tais reformas possuem poucos registros
escritos.Em um primeiro momento, o objetivo desta apresentação é fazer uma reflexão sobre o desenvolvimento técnico
do engenho de açúcar e apresentar as peças do maquinário por meio de iconografia. Busca-se evidenciar o dispositivo
gerador de energia e o dispositivo de moagem, pois a cana de açúcar exigiu uma mudança operacional, passando de mó
de pedra (útil para triturar cereais) para o cilindro (útil para retirar o caldo da cana). Por fim, este trabalho visa compreender
a reforma produzida pelo justificante do processo e seu impacto na produção açucareira na cidade.

Saberes no Brasil dos séculos XVI e XVII: Produção e circulação 

Sônia Brzozowski (estudante), Márcia Helena Alvim ( Co-Autora)

Resumo: Este estudo trata-se de uma pesquisa qualitativa, através de análise documental de cartas jesuíticas de
alguns padres que estiveram na América Portuguesa durante os séculos XVI e XVII, destacando-se a participação destes
missionários no processo de produção de conhecimento médico e farmacológico no Brasil, como também nos registros,
e circulação destes saberes entre os colégios Jesuítas da Ordem.
O Brasil recebeu no século XVI representantes da Companhia de Jesus, com o propósito de colocar em prática um
projeto de catequização indígena, os primeiros jesuítas chegaram às terras brasileiras em 1549, e são responsáveis por
grande parte dos registros sobre as terras brasileiras, registros que foram realizados através de diários de expedições e
de cartas enviadas a seus superiores eclesiásticos.
Deste modo este estudo tem como objetivo analisar como em meio ao processo colonizador dos portugueses no
Brasil, a ação civilizadora dos jesuítas se apropriou dos saberes indígenas, produzindo uma vasta lista de medicamentos,
e consequentemente um avanço na área médica, e os meios através dos quais os conhecimentos produzidos na América
Portuguesa circularam entre os continentes.
Pretende-se também apresentar elementos documentais que discutam sobre a produção e circulação de conhe-
cimento no Brasil nos séculos XVI e XVII, enfatizar os interesses comerciais dos portugueses também sobre as ervas
medicinais, levantar as principais rotas de circulação de saberes nos séculos XVI e XVII.
Estes documentos permitem-nos entender que não só havia uma sistematização do conhecimento médico entre os
jesuítas, mas também que havia uma rede de troca não só de saberes médicos, mas de produtos. Quando Loiola criou a
Companhia de Jesus, estabeleceu entre as determinações da Ordem como regra, a troca sistemática de cartas, através
das quais os jesuítas relatavam suas vivências nas suas áreas de atuação, com o objetivo de que as experiências que
pudessem auxiliar outros companheiros das missões.

Sob os céus coloniais: observando cometas nas Américas


no século XVII 

Thomás A. S. Haddad (Universidade de São Paulo)

O reconhecimento da importância das observações de cometas nos grandes debates sobre o “sistema do mundo”
que dominaram a astronomia europeia a partir da segunda metade do século XVI e até a época de Newton é um tópico
padrão da história das ciências. Essas observações, e a interpretação do fenômeno, têm uma relevância incontornável
para qualquer discussão sobre as controvérsias em torno do copernicanismo, a gênese de modelos alternativos (como o
de Tycho Brahe), a exploração dos limites da filosofia natural de base aristotélica, a ascensão da astronomia telescópica,
ou o valor dos dados da experiência em relação à imagem matemática da natureza. No contexto alto-moderno europeu,
o papel desempenhado pelos cometas em registros culturais ditos “populares” também já foi minuciosamente explorado:

137
sua associação a presságios, calamidades, portentos ou signos da cólera divina, entre outros, é um tema clássico de algo
que poderíamos denominar uma história das sensibilidades na Europa, com lugar de destaque para aquela representada
pelo medo político. Assim, podemos encontrá-los presentes em tratados astronômicos mas também em panfletos polí-
ticos, em correspondências entre matemáticos e em sermões religiosos, em gravuras técnicas e imagens apocalípticas,
todos meios de ampla circulação geográfica, social e cultural na Europa dos séculos XVI e XVII. 
Muito menos explorada é a situação nas diversas possessões coloniais dos impérios português, espanhol e inglês
nas Américas, ainda que, somente na segunda metade de Seiscentos, sejam conhecidas quase três dezenas de relatos
impressos localmente sobre observações realizadas no continente (sobretudo na Cidade do México, em Lima e em
Boston), além de material finalmente impresso na Europa, mas originado no Novo Mundo (por exemplo, em Salvador).
Examinando essas fontes, em comparação com relatos produzidos no continente europeu sobre os mesmo eventos, esta
comunicação procura esboçar algumas formas de aproximação a uma questão simples, mas decisiva: ver um cometa a
partir de espaços coloniais é diferente de observá-lo do outro lado do Atlântico? Evidentemente, o problema se desdobra
em muitos outros: as condições e práticas materiais da observação são as mesmas? As condicionantes culturais das
interpretações possíveis são unificadas pelo pertencimento às mesmas grandes “áreas imperiais”, ou a situação colonial
se impõe, e o que interessa a um pastor puritano na Nova Inglaterra não é o mesmo que ao astrônomo real (e também
clérigo) em Greenwich, e o que vê o cosmógrafo do Vice-Reino do Peru é diferente daquilo que captura a atenção de
seu congênere em Madri? Como circulam – ou não circulam – as técnicas de observação, as interpretações, os temo-
res? Como estes atormentam os corpos políticos coloniais? Antes de oferecer respostas que se pretendam definitivas,
nosso objetivo é refletir sobre as linhas diretoras de uma investigação das astronomias – e das sensibilidades “político-
-astronômicas” – coloniais nas Américas.

138
ST 14. Discussões sobre propostas e ações acerca
da História e Filosofia da Ciência no ensino

Alice Ball e o Óleo de Chaulmoogra: Discutindo Raça e Gênero


o Ensino de Química

Carolina Queiroz Santana (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), Fernanda de Jesus


Ribeiro (UFBA), Letícia dos Santos Pereira (Universidade Federal da Bahia), Luís Felipe Silva da Paixão
Brandão (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)

O notório silenciamento no ensino de química em relação às contribuições de mulheres cientistas se torna mais
grave quando buscamos o legado de cientistas negras para esta disciplina. A maior exclusão das mulheres negras na
ciência pode ser compreendida por meio do conceito de interseccionalidade, compreendido como o modo no qual os
sistemas discriminatórios, tais como o machismo, o sexismo, o racismo e segregação social, hierarquizam as desigualdades
relativas entre mulheres, raças, classes e outros grupos (RIBEIRO, 2017). Uma forma de resgatar o papel das mulheres
negras na química é por meio de um ensino que dê visibilidade à história dessas cientistas como um fator motivador para
a aprendizagem das ciências naturais, ao retratar grupos discriminados ou pouco representados na ciência. Um exemplo
que pode ser útil para tal propósito é a trajetória da química negra estadunidense Alice Augusta Ball (1892-1916), criadora
de um tratamento efetivo para a Hanseníase com base no óleo extraído das sementes de chaulmoogra. Ball usou sua
expertise para separar e identificar os componentes do óleo de chaulmoogra, por meio de métodos de separação sim-
ples, como a filtração e cristalização fracionada. Deste modo, Alice Ball conseguiu isolar do composto natural os ácidos
graxos responsáveis pelas suas propriedades terapêuticas (ácido chaulmoogrico e ácido hidnocárpico) e os converter
em ésteres de etila através de reações de esterificação. Apesar da pesquisa de Alice Ball ter se tornando rapidamente
popular no meio científico, ela apenas recebeu o crédito por suas descobertas quase sessenta anos depois. Isso porque
o seu colega de trabalho Arthur L. Dean (1878-1952), responsável por continuar suas pesquisas após sua morte, tomou
o crédito da pesquisa para si, ocultando seu legado até a década de 1970, quando historiadores conseguiram resgatar
as contribuições desta química (BROWN, 2012). Tomando como pressuposto que o debate de raça e gênero deve fazer
parte do ensino de ciências, neste trabalho apresentamos uma proposta didática construída para as aulas de química do
Ensino Médio, abordando a biografia da química Alice Ball. Discutiremos a sua trajetória e os desafios enfrentados por
esta cientista, tentando trazer para sala de aula de ciências debates de gênero e raça numa perspectiva interseccional.

Aplicação da História do Eletromagnetismo em uma situação real


de aula na disciplina de Física III

Eliéverson Guerchi Gonzales (Universidade Uniderp Anhanguera)

Neste trabalho, apresentamos os resultados de um projeto piloto que compôs uma pesquisa de doutorado cujo
um dos objetivos foi verificar o uso da História da Física durante a disciplina de Física III, cuja ementa contempla a ele-
tricidade, o magnetismo e o eletromagnetismo, em um curso de licenciatura em Física em uma universidade pública no
estado de Mato Grosso do Sul.
A disciplina foi estruturada de acordo com os pressupostos da Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) de David
Ausubel. De acordo com a TAS, são necessárias duas condições para ocorrer a aprendizagem significativa: i) a aprendiz
precisa ter a predisposição em aprender; ii) o material instrucional apresentado para os alunos deve ser potencialmente
significativo. A primeira condição implica em uma característica idiossincrática do sujeito. Quanto à segunda, o material
precisa conter elementos que favoreça a aprendizagem do sujeito. Assim, ao preparar o material, o pesquisador ou pro-
fessor, deve mapear aquilo que o estudante sabe, para que o conteúdo do material possa conectar com os subsunçores,
conceitos organizados de maneira hierárquica partindo do mais geral para o mais específico, na estrutura cognitiva.

139
O episódio da História da Física trabalhado na disciplina foi o experimento de Hans Christian Ørsted (1777 – 1851)
sobre a agulha imantada e suas repercussões no mundo acadêmico. Foram selecionados cinco textos para serem traba-
lhados pelo pesquisador junto aos alunos da disciplina. A organização sequencial dos textos foi arquitetada estabelecendo
uma correspondência lógica dos conteúdos que faziam parte da ementa da disciplina. Essa organização lógica dos artigos
caracterizou o nosso material potencialmente significativo, cuja função didática, dentro da perspectiva da TAS, foi a de
promover diferenciação progressiva.
Primeiramente foi proposto aos alunos a leitura dos artigos na íntegra e o preenchimento de uma ficha elaborada
para auxiliar a interpretação dos mesmos. Em seguida, o pesquisador dividiu a turma em grupos de no máximo três
elementos com o intuito de fomentar discussões sobre a leitura do texto. Por fim, os grupos apresentaram suas inte-
pretações para toda a turma. Nesse momento, o pesquisador conduziu as discussões de modo a relacionar o episódio
histórico com os conteúdos abordados na disciplina.
Dentro dos resultados obtidos nessa prática, dois merecem um destaque. O primeiro aponta que trabalhar com
artigos de teor histórico na íntegra junto aos alunos pode gerar um desinteresse dos mesmos para com a História da
Física, uma vez que os textos, geralmente, são densos e extensos. O segundo nos mostrou que os alunos se envolveram
com a maneira a qual um conceito científico foi construído, pois, quando se trabalha apenas com o recurso do livro texto
esse desenvolvimento da construção conceitual não fica evidenciada. 

Aprendizagem Baseada em Equipes no Ensino de Filosofia


e História das Ciências: uma intervenção sobre a síntese Newtoniana 

Climério Paulo da Silva Neto (Universidade Federal do Oeste da Bahia)

O interacionismo social consolidou-se como um dos principais pilares de diversas teorias de aprendizagem. Essas
teorias argumentam que a interação social professor-estudante e estudante-estudante são fundamentais para a aprendi-
zagem. No ensino de ciências, pesquisas apontam que atividades que estimulam a elaboração de argumentos promovem
aprendizagem de e sobre ciências. Entretanto, o modelo de ensino dominante atualmente não promove interações sociais
nem estimula a elaboração de argumentos e os professores em geral têm dificuldade de utilizar e gerenciar atividades
que colocam os estudantes no foco dos processos de aprendizagem. Assim, é importante que pesquisadores em ensino
de ciências avaliem e fomentem a utilização desse tipo de metodologias.
Neste trabalho utilizarei a metodologia da Aprendizagem Baseada em Equipes (ABE) em uma intervenção didática
sobre a Síntese Newtoniana como forma de avaliar seu potencial para introdução de FHC no ensino de e sobre ciências. Em
sintonia com as teorias sociointeracionistas, a ABE utiliza atividades em grupos como elemento central do processo de ensino-
-aprendizagem. Pesquisas empíricas revelaram seu potencial para promover raciocínio crítico, habilidade de construir bons
argumentos e trabalhar em equipes. Assim, há de se esperar que tal abordagem propicie aprendizagem de e sobre ciências.
A intervenção será em um curso de Filosofia e História das Ciências para estudantes do primeiro semestre de
Agronomia da Universidade Federal do Oeste da Bahia. A Síntese Newtoniana será discutida com base em um texto
que traz uma abordagem histórica internalista, focada em esclarecer como Newton introduziu o argumento de queda da
Lua e em um documentário que aborda a história de Newton sob um ponto de vista mais externalista. O objetivo é criar
uma intervenção didática que integre contexto e conteúdo.
Avaliarei a compreensão dos estudantes dos conceitos e de aspectos sobre a natureza da ciência que o episódio
permite abordar utilizando testes individuais e em grupo, registros de discussões intragrupo e intergrupo e da capacidade
dos grupos de aplicar os conceitos em contextos diferentes. Utilizando gravações em vídeo e áudio, avaliarei a qualidade
dos argumentos com a estrutura da argumentação de Toulmin. No final do semestre os estudantes passarão por novo
exame, que abrangerá todo o conteúdo da disciplina, com questões dissertativas e de múltipla-escolha e seis meses
após a intervenção entrevistarei 10 estudantes, sorteados de forma aleatória buscando avaliar a compreensão que terão
do episódio em termos conceituais e epistemológicos.
Espero que a utilização sistemática da ABE na discussão de textos acerca da história das ciências promoverá apren-
dizagem significativa de conceitos científicos, a capacidade argumentativa e reflexões críticas sobre a natureza da ciência.

140
Conceitos de Física Quântica na formação de professores: construindo
uma proposta didática orientada pela História e Filosofia da Ciência

Rafaelle da Silva Souza (PPGEFHC-UFBA/UEFS), Indianara Lima Silva (Dep. de Física-UEFS; PPGEFHC-


UFBA/UEFS), Elder Sales Teixeira (Dep. de Física-UEFS; PPGEFHC-UFBA/UEFS)

Resumo: A área de Ensino de Física carece de investigações empíricas acerca da inserção de tópicos de Física
Moderna no currículo. A formação do licenciando em física é distante da adequada na Física Quântica (FQ), há dificuldades
no processo de ensino-aprendizagem e apesar dos esforços, estas ainda não foram superadas. Isto posto, elaborou-se
uma Sequência Didática (SD) que visa proporcionar a partir da História e Filosofia da Ciência (HFC) discussões conceituais
da FQ na formação de professores. O objetivo é diminuir as dificuldades dos estudantes em compreender os fenômenos
quânticos e contribuir para a construção de conhecimento. A SD será desenvolvida, aplicada e avaliada através da pesquisa
qualitativa, adotando como abordagem metodológica a Engenharia Didática que estrutura-se em três fases: (1) análise a
priori (concepção do processo: dimensões epistemológica, histórica, institucional e dialética do conteúdo); (2) realização,
observação e coleta de dados (produções geradas pelos alunos, anotações de campo, gravações de áudio/vídeo etc);
e (3) análise a posteriori e validação (confrontação com a análise a priori). As análises resultam em informações que
representam um contexto local. Em termos da Engenharia Didática, objetiva-se investigar: quais características uma SD
sobre os conceitos de FQ deve possuir para promover uma melhoria na compreensão conceitual dos estudantes. O marco
teórico-metodológico adotado dialoga entre as teorias sócio-interacionista de Vigotsky e a epistemologia de Bachelard,
abordando a contribuição da FQ na produção de saberes científicos, suas implicações no contexto sociocultural e na
resolução de questões do cotidiano. Propõe-se uso didático da HFC e o acesso, leitura e discussão de textos originais de
cientistas para auxiliar os estudantes a construir visões adequadas da Natureza da Ciência (NDC). São visões da NDC:
construção humana influenciada pelo contexto sociocultural de cada época; teorias estabelecidas por rupturas, contro-
vérsias e ideias alternativas; diferentes posições adotadas pelos físicos ao abordar conflitos abertos na FQ. Espera-se
que a SD subsidie discussões de tópicos da FQ (indeterminismo, emaranhamento, não-localidade) e o desenvolvimento
da compreensão conceitual dos estudantes em relação à possibilidade de explicar fenômenos antes desconhecidos ou
não compreendidos adequadamente. Ao final da SD almeja-se fornecer uma reflexão analítica sobre os processos de
ensino-aprendizagem da FQ enfrentados atualmente e, por conseguinte, contribuir para uma compreensão mais epistêmica
do papel da HFC no ensino. Ressaltamos, que trata-se de uma proposta em construção e, portanto, ainda não efetivada.

Contribuições da História das Ciências para o ensino do conceito de luz

Wilson Fábio de Oliveira Bispo (Universidade Federal da Bahia)

Adotamos como pressuposto que o papel fundamental da escola é ensinar às novas gerações os conhecimentos
produzidos pela humanidade possibilitando aos mais jovens participar ativamente da sociedade, além de desenvolver
uma reflexão mais crítica acerca do mundo natural e de si mesmo.
Entre os fenômenos naturais, a luz destaca-se por ser tão importante para nossas vidas, que desenvolvemos modos
de produzi-la artificialmente, a fim de termos luz na ausência do Sol. A aprendizagem do conceito de luz pelos jovens pode
contribuir para a sua compreensão de como ocorre a visão, a iluminação dos objetos e vários fenômenos óticos com os
quais convivemos cotidianamente, possibilitando-lhes um conhecimento mais profundo, que vai além das aparências.
De acordo com a psicologia histórico-cultural de base vigotskiana, o ser humano pensa e se comunica por meio de
conceitos (ou significados) e desenvolve-se intelectualmente ao passo que elabora sistemas conceituais cada vez mais ricos
e complexos. A história das ciências (HC) pode contribuir para o esclarecimento dos conceitos científicos, pois estes evoluem
à medida que vão sendo empregados na solução de mais e mais problemas. No caso do conceito de luz, a história mostra
que, entre outros, desenvolveram-se dois modelos que vigoram até os dias atuais: modelo ondulatório e modelo corpuscular.
Elaboramos uma proposta de sequência didática para o ensino do conceito de luz, cujos conteúdos são parcialmente
orientados pela história das ciências e considerando a formação de conceitos como descrita pela psicologia histórico-

141
-cultural. A sequência é constituída por 8 (oito) aulas com duração de 1h50, cada e tem como objetivo ensinar o conceito
de luz, focando nos dois modelos estudos, para estudantes do Ensino Médio.
Nas três primeiras aulas – acerca de propagação, reflexão e refração da luz – utilizamos a HC para expor as prin-
cipais concepções de luz, e os correspondentes argumentos científicos ressaltando a ciência como construção humana.
Nas duas aulas seguintes, sobre difração e interferência, a HC ajudará no entendimento das limitações do modelo
de partícula, além de resgatar o contexto em que o conhecimento foi produzido, por meio de um experimento similar ao
realizado por Thomas Young para explicar a interferência.
A próxima aula será sobre o efeito fotoelétrico, o qual será explicado empregando o histórico conceito de quantum
de luz de Einstein. 
A aula seguinte consistirá de um debate acerca dos dois modelos da luz, no qual os estudantes deverão e se posicio-
nar e, esperamos, usar as discussões históricas das aulas. A última aula será uma avaliação escrita (exigida pela escola).

Eugenia no Brasil: reflexões sobre raça, miscigenação e Direitos


Humanos para a educação científica

Anderson Ricardo Carlos (Universidade Federal do ABC)

O trabalho tem como objetivo problematizar questões dos Direitos Humanos dentro da História da Eugenia no Brasil,
refletindo sobre possíveis contribuições para a educação científica, permeando reflexões sobre raça e miscigenação, com
ênfase no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Faremos uma análise historiográfica com documentos da
época, tendo como principal fonte as atas e trabalhos do I Congresso Brasileiro de Eugenia, ocorrido em 1929 no Rio de
Janeiro, representando a mais relevante manifestação pública da eugenia no Brasil em seu respectivo período de maior
visibilidade. Confrontaremos tal documento com fontes secundárias, a exemplo do livro The Hour of Eugenics: Race,
Gender and Nation in Latin America, de Nancy Leys Stepan; O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão
racial no Brasil (1870-1930), de Lilia Schwarcz, e Meninos do Brasil: Ideias de reprodução, eugenia e cidadania na escola,
de Nélio Bizzo. Questionamos como as ideias de raça e miscigenação estavam embutidas no fazer científico, associando
componentes científicos, como ideias de hereditariedade no ensino de disciplinas como Biologia, a extracientíficos, como
nacionalismo, fatores socioeconômicos e concepções socioculturais anteriores ao movimento eugênico. Dentro dessa
temática, discutiremos sobre o “caldo fértil de ideias” do século XIX que possibilitou a ascensão dos movimentos eugê-
nicos, centrando-se no conceito de raça, sobre as associações de ideias de hereditariedade a propostas de proibição de
entrada de imigrantes não-brancos no Brasil e sobre as divergências teóricas desse grupo de cientistas brasileiros de
cunho científico – de bases mendelianas e neolamarckistas – para visões sobre a miscigenação. Dessa maneira, alme-
jamos esclarecer como a discussão sobre a eugenia no âmbito educacional pode auxiliar na educação científica atual,
trazendo uma nova abordagem para as ideias de hereditariedade, evidenciando o uso indiscriminado do determinismo
biológico na ciência. A eugenia pode ser um bom exemplo científico para discutir no ensino sobre um aspecto da Natu-
reza da Ciência, proposto Douglas Alcchin (2013): a influência de ideias subjetivas – em específico as socioculturais de
raça, nação e classe social – no fazer científico, afastando de uma visão positivista de ciência. Por fim, também abre-se
espaço para discussões sobre os Direitos Humanos em sala de aula: especialmente sobre a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, criada no pós-guerra em 1948, conter artigos visando também barrar medidas eugênicas do passado.

História da Ciência, Filosofia e Educação: uma experiência


no Curso de Pedagogia

Marcos Serzedello (professor efetivo)

O trabalho apresenta as estreitas relações entre a História da Ciência, a Filosofia a Educação, evidencia suas raízes
comuns e como essa articulação é importante para estudantes que estão iniciando a vida acadêmica e a pesquisa. E também
para todos aqueles que se dedicam à pesquisa e docência.

142
Entender essa articulação e discuti-la não é apenas voltar ao passado, às raízes comuns da Filosofia, da Ciência
e da História da Ciência mas entender as necessidades atuais de se pensar/repensar aspectos filosóficos, científicos e
educacionais das pesquisas.
A idéia inicial surgiu a partir de discussões em sala de aula com alunos do primeiro ano do Curso de Pedagogia na
disciplina Introdução à Metodologia de Pesquisa em Educação, a partir de 2005, na UNESP de São José do Rio Preto – SP.
Uma disciplina desta natureza deve procurar despertar/entender o “espírito científico”, discutir as questões de fundo, de
conteúdo da pesquisa científica e não só as de forma, Normas ABNT, etc., como vemos na ampla bibliografia referente ao
tema Metodologia de Pesquisa. Na maioria dos livros referentes ao assunto se discute mais a “formatação” de trabalhos
científicos do que a “filosofia” da pesquisa científica. O importante é discutir o que é Ciência, Pesquisa e o que é preciso
para se fazer Pesquisa, quais as bases necessárias para tal. Como se dá a formação do espírito científico, daí a importância
da História da Ciência. Em se tratando de alunos de primeiro ano da universidade, achei importante basear a disciplina
em três grandes vertentes do pensamento e atividades desenvolvidos pela humanidade: a Filosofia, a Ciência/História da
Ciência e a Educação. A articulação perfeita e harmoniosa entre essas três atividades-pensamentos é importante para se
entender, se iniciar na Pesquisa. Em poucas palavras, cada uma dessas vertentes têm a seguinte contribuição: a Filosofia a
clareza do pensamento, o rigor em relação aos conceitos, o espírito crítico; a Ciência o rigor no tratamento dos fenômenos
e a metodologia, e o que representa na sociedade moderna, a partir da Revolução Científica do século XVII; e a Educação,
como o objeto primeiro de interesse do curso de Pedagogia e sua importância na formação/transformação das pessoas, da
sociedade. De antemão pensamos que só se faz Pesquisa, científica, conhecendo filosofia, filosofando e tendo da Ciência
e da História da Ciência um bom aporte. Filosofia e Ciência são formas de conhecimento. A primeira, uma forma de conhe-
cimento que interroga sobre a totalidade do conhecimento e a si mesma. A segunda, é um conhecimento que descreve
o mundo, a realidade. Mas que também é uma interrogação sobre o mundo, um filosofar sobre a natureza, um pouco à
maneira dos filósofos pré-socráticos, quando física e filosofia se confundiam, se identificavam no desejo de conhecer. 

História e Filosofia da Ciência e Argumentação no Ensino


da Gravitação Universal de Newton

Elder Sales Teixeira (UEFS), Josebel Maia dos Santos (UFBA/UEFS)

A literatura tem pontuado que a História da Ciência pode propiciar diversas contribuições ao Ensino de Ciências,
dentre elas, o desenvolvimento das habilidades de argumentação dos alunos, como fora mostrado por Teixeira (2010a).
Contudo, a literatura também relata uma escassez de trabalhos empíricos corroborando essa ideia (TEIXEIRA, FREIRE e
GRECA, 2012). Atendendo a essa lacuna, implementamos um projeto de pesquisa que, através da abordagem metodo-
lógica Design Research (DR) desenvolveu, aplicou e avaliou uma sequência didática (SD) que tem como características
o uso da história e filosofia no ensino das ciências combinada com o ensino explícito da argumentação para melhorar a
habilidade de argumentação e a compreensão, dos alunos de licenciatura de física da UEFS, sobre a gravitação universal
de Newton. Foi realizada a primeira prototipagem, dando continuidade ao programa de pesquisa da DR, propõe-se realizar
a segunda e terceira prototipagem para aprimorar a SD em função dos parciais encontrados. Utilizaremos a proposta de
Vieira e Nascimento (2009a) como critério para identificar episódios argumentativos e adotaremos o Layout de Toulmin
(2006) como modelo de argumento. A Qualidade da Argumentação será avaliada pelo Mapa de Qualidade da Argumen-
tação desenvolvido por Penha e Carvalho (2015). Por fim, pretende-se construir conhecimento teórico sobre “como” e
“por que” essas características levam aos resultados esperados.
As teorias poderão ser utilizadas por outros professores no planejamento e na aplicação de novas intervenções.
A SD consiste em um conjunto de 13 aulas de 50 minutos organizadas de forma a iniciar por uma discussão sobre
o papel da argumentação na construção do conhecimento científico e realizar o levantamento dos conhecimentos prévios
dos estudantes. Nas aulas 3 e 4 será apresentado o layout de Argumentação de Toulmin. Nas aulas 7 e 8, os alunos
apresentarão seus layouts construídos nas aulas 5 e 6. Em seguida será realizada uma discussão sobre estes visando
possibilitar que aqueles reflitam sobre a função desempenhada por cada elemento escolhido para compor seu argumento.
Em 9 a 12 será abordado o tema explicações diferentes e controversas sobre o problema das órbitas dos planetas.
Serão utilizados um texto que reconstrói os argumentos originais utilizados por Descartes e Newton para explicar a causa

143
do movimento dos planetas em torno do sol. O texto deve fornecer fundamentos para que os alunos compreendam os
argumentos utilizados em cada explicação e construir um argumento próprio sobre quais das explicações achem correta.
Por fim, na aula 13, será feita uma conclusão geral das discussões e apresentada o significado da gravitação universal
para a síntese newtoniana.

História e filosofia da ciência: uma proposta didática para o ensino


da estrutura da matéria no ensino médio

José Crispim Macedo Rocha Junior (Universidade Estadual de Santa Cruz)

A recomendação da inserção de elementos históricos e filosóficos da ciência no contexto educacional é discutida


no Ensino de Física, pois contribuem para enriquecer, contextualizar e humanizar o ensino, além de possibilitar a discus-
são na tomada de decisões, como na formação cidadã, como também em compreender que a ciência é um processo e
não apenas um produto acumulado. Porém, uma grande parte dos professores não abordam esses elementos em sala
de aula e quando abordado é feito de forma superficial ou realizando uma simples leitura de fragmentos encontrados no
livro didático. Portanto, o presente trabalho tem como objetivo apresentar uma Proposta Didática Histórico-Filosófica da
Ciência que possa contribuir para o ensino da Estrutura da Matéria. A pesquisa é de natureza qualitativa e tem como
público os alunos do Ensino Médio mais especificamente as turmas do 3º ano. A elaboração da proposta didática é um
recorte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que fez uma revisão dos Projetos Acadêmicos Curriculares (PACs) das
universidades estaduais da Bahia e revisão de artigos e dissertações de mestrado que falassem da implementação da
história e filosofia da ciência no contexto de sala de aula. Contudo, para esse artigo selecionamos 5 (cinco) artigos e 1
(uma) dissertação de mestrado que desenvolveram intervenções didáticas em sala de aula com elementos históricos da
ciência. Na resultância, espera-se que os professores de Física possam manifestar interesse em trabalhar com elementos
históricos e utilizar desta proposta para planejamento de suas aulas. A proposta didática baseia-se nos eixos estruturan-
tes dos parâmetros curriculares, que ressaltam a importância dos alunos do ensino médio em discutir e compreender o
conceito de modelo científico, assim como suas limitações. Segundo os PCNs, ao compreender o processo de construção
dos modelos atômicos de Dalton, Thomson, Rutherford e Bohr, os alunos podem relacionar os modelos de organização
dos átomos e moléculas na constituição da matéria.

Natureza da Ciência através de narrativas históricas:


Augustin Fresnel e o debate sobre a natureza da luz

Ana Paula Bispo da Silva (Universidade Estadual da Paraíba), Rilavia Almeida de Oliveira (UFRN)

As discussões acerca da inserção da Natureza da Ciência (NDC) no ensino de ciências envolvem três aspectos
principais: “Por que ensinar?”, “O que ensinar?” e “Como ensinar?” (MARTINS, 2015). As razões do “Por que ensinar?”
NDC já se encontram bastante consolidadas, uma vez que há uma ampla literatura discutindo a importância da inserção
de aspectos da NDC no ensino de ciências. Além disso, a inserção da NDC já faz parte de reformas curriculares, tanto
nacionais quanto internacionais, desde o século XX (HODSON, 2014). Os dois aspectos restantes (“O que ensinar?”
e “Como ensinar?”) são objetos de muitas pesquisas e discussões na área. Particularmente, a literatura da área vem
apontando críticas em relação à chamada “visão consensual da NDC”. Dessa maneira, surgiram novas abordagens para
a inserção da NDC no ensino de ciências, dentre elas, a abordagem por “temas” e “questões” da NDC (MARTINS, 2015).
Nesta pesquisa, analisamos os trabalhos de Augustin Fresnel (1788-1827) sobre a teoria ondulatória da luz no âmbito
dos debates sobre a natureza da luz entre os franceses, no início do século XIX. Na análise do episódio histórico, pro-
curamos investigar como o trabalho de Fresnel e de seus contemporâneos pode ter sido influenciado por pressupostos
epistemológicos sobre a ciência predominantes no período. Para tanto, foram analisadas fontes primárias e secundárias,
buscando compreender o episódio histórico e seus aspectos conceituais, epistemológicos e filosóficos. A partir do
episódio histórico estudado, buscamos construir uma narrativa histórica que visa trabalhar aspectos da NDC a partir da

144
abordagem de “temas” e “questões” da NDC. Na construção da narrativa histórica, buscamos: (1) direcionar a escrita
da narrativa para que seja usada nos cursos de formação de professores de física; (2) retratar a história da ciência a
partir das fontes primárias e secundárias analisadas no estudo do episódio histórico; (3) discutir temas de NDC através
de uma abordagem explícita e questões de NDC deixadas ao longo do texto. A complexidade envolvida nos debates
teoria ondulatória versus teoria corpuscular da luz na comunidade científica parisiense, no período estudado, mostrou-se
muito rica do ponto de vista da discussão de aspectos da NDC. A análise do episódio histórico evidenciou a possibilidade
de trabalharmos diferentes temas da NDC, com ênfase nos fatores envolvidos no desenvolvimento do conhecimento
científico, tais como políticos, científicos, epistemológicos.

O desenvolvimento histórico do conceito de energia: seus obstáculos


epistemológicos e suas influências para o ensino de física

Alex Lino (Instituto Federal de São Paulo)

Este trabalho teve por objetivo principal a construção da epistemologia do conceito de energia, por meio de um
estudo sobre seus obstáculos epistemológicos e suas relações com as concepções alternativas dos estudantes sobre
o mesmo conceito. Com o apoio das teorias epistemológicas de Gaston Bachelard e Jean Piaget, discutimos sobre
as possíveis relações entre a construção histórica e a construção cognitiva de um determinado conhecimento. Essas
epistemologias apontam que existe um paralelismo entre essas duas vertentes. Nos preocupamos em analisar se as
dificuldades encontradas na história da construção do conceito de energia podem ser comparadas às enfrentadas
pelos estudantes. Para atingir nosso objetivo, foi necessário um estudo detalhado da história do desenvolvimento do
conceito de energia, buscando evidenciar os mecanismos que nortearam a possibilidade de seu desenvolvimento, além
de deixar claro quais foram os seus obstáculos históricos. Por meio de uma análise sobre as concepções alternativas
dos estudantes referentes ao conceito de energia, que foram anteriormente verificadas por outros autores, foi possível
constatar que existem equívocos que, comumentemente e com grande frequência, os alunos apresentam, mesmo
sendo de diferentes níveis de escolaridade, culturas ou contextos, como por exemplo, a confusão que fazem entre os
conceitos de força e energia, ou ainda, o pensamento de que a energia deva ter características materiais. Verificamos
ainda que as dificuldades encontradas no estudo histórico do conceito apresentaram similaridades às concepções
alternativas dos estudantes. A partir desta comparação foi possível identificar quatro obstáculos epistemológicos
referentes ao conceito de energia: 1) a noção de força como obstáculo ao conceito, 2) a noção de ganhos sem perdas
como obstáculo à sua conservação; 3) a restrição aos fenômenos particulares como obstáculo à sua generalização; 4) e
a noção de substancialização. Identificamos também como esses obstáculos poderiam ser transpassados ou superados
por meio do estudo histórico. Tal construção nos permitiu identificar os denominados mecanismos de superação dos
obstáculos epistemológicos, que podem ser utilizados no Ensino de Física com o mesmo intuito de desobstaculizar os
conhecimentos mal sedimentados.

O pensamento africano de Cheikh Anta Diop: elementos para incluir o


componente histórico nos currículos de ciências e re-educar relações
étnico-raciais

Thiago Leandro da Silva Dias (Universidade Federal da Bahia)

Partindo da necessidade de aprofundar questões históricas, epistemológicas e curriculares no Ensino de Ciências e


Biologia capazes de tornar real o que se destaca como antiga demanda política e como aparato legal há quinze anos – o
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e a Educação das Relações Étnico-Raciais nas escolas do Brasil,
pretendo apresentar uma proposta de pesquisa que fundamente a elaboração de Materiais Curriculares Educativos (MCE)
a partir da análise histórica de aspectos do pensamento africano moderno, tendo como foco a produção científica e sócio-

145
-histórica de Cheikh Anta Diop. Estimular práticas educativas nesse sentido é romper o silenciamento sobre a contribuição
da matriz civilizatória dos povos africanos e afrodescendentes para a ciência e tecnologia, ao invés de privilegiar uma
“história única” que coloca a ciência em geral como um atributo essencialmente ocidental, desconsiderando o fato de
que, assim como a humanidade, as primeiras civilizações, os primeiros passos da ciência, foram dados no continente
africano (MACHADO, 2014). Destarte, é que a contribuição de Cheikh Anta Diop se mostra revolucionária na perspectiva
de educar relações étnico-raciais com base na História das Ciências, já que suas pesquisas derrubam, com evidências
científicas, as ideias de inferioridade intelectual atribuídas ao continente africano. As teses de Diop defendidas em 1955,
1959 e 1967 vêm sendo confirmadas e desenvolvidas por vários campos do conhecimento científico, reiterando não
apenas que a humanidade nasceu na África, como também que os negros africanos estão entre os primeiros a construir
civilizações humanas e erigiram as bases da própria civilização ocidental (NASCIMENTO, 2008). O estudo de suas produ-
ções reverbera o que tem se denominado contemporaneamente de pensamento africano moderno, emergido durante os
períodos da colonização europeia, descolonização e reorganização das sociedades africanas, ao longo dos séculos XIX/
XX, onde diversos intelectuais nascidos na África apropriaram-se de um vasto conjunto de referenciais teóricos, concei-
tuais e metodológicos, empregando-os para expressar a posição de seus coetâneos em relação ao mundo (MACEDO,
2016). Nesse sentido, para produzir Materiais Curriculares Educativos (MCE) no Ensino de Ciências a partir da análise
histórica de aspectos do pensamento africano moderno, utilizemos uma abordagem da pesquisa de design educacional
(educational design research). Os resultados dos estudos em História das Ciências irão produzir conhecimentos esperados
em uma fase preliminar da pesquisa em desenvolvimento, juntamente com resultados de estudos já desenvolvidos em
que fora produzida uma matriz de objetivos educacionais para trabalhar pedagogicamente relações étnico-raciais (DIAS;
SEPULVEDA, 2017), resultando assim na proposição de princípios de design e construção dos primeiros protótipos dos
MCE a serem aplicados e avaliados em contextos de ensino.

O professor de química diante da história da ciência: reflexões sobre


o ensino de química e a experiência nos territórios do tempo,
da ciência como cultura e da formação docente 

Aroldo Nascimento Silva (Faculdade de Educação, FEUSP)

Este trabalho resulta de uma pesquisa de doutorado, que se propôs a refletir sobre a História e Filosofia da Ciência
(HFC) na formação do professor e no ensino de química. Estrutura-se sob três Territórios, o do Tempo, o da Ciência
como Cultura e o da Formação Docente. O seu caminho está fundamentado na palavra Experiência, sob a perspectiva
de Jorge Larrosa. O autor argumenta que em nosso dia a dia muitas coisas se passam, mas poucas se tornam de fato
experiência. A velocidade dos acontecimentos, o fluxo de informações e o excesso de trabalho impossibilitam darmos
sentido a estes acontecimentos. Isto nos levou a repensar a forma como o conhecimento é veiculado na escola. Por isso,
discutimos a importância da HFC no processo de construção do conhecimento e com isto a pesquisa ganha um caráter
histórico. E, pensar em história, é pensar no tempo, portanto, neste território, Norbert Elias, apresenta a construção
simbólica do tempo e como nossas experiências dependem da forma como os acontecimentos se desenvolvem no
âmbito da relação espaço-tempo. No segundo território, discutiremos a ciência em uma perspectiva cultural, a partir dos
trabalhos de Boaventura S. Santos e de Kapil Raj, de modo a (re)pensar aspectos epistemológicos da ciência moderna
em uma perspectiva social, política e econômica. Neste seminário, daremos maior atenção a este território, no intuito de
discutir a dinâmica envolvida no processo de circulação de conhecimento e de trazer algumas reflexões sobre a história
da química no Brasil e como elas podem ser tratadas no ensino por essa perspectiva. E, de acordo com a aproximação
que esta ciência faz da experiência com o experimento e, sendo a Experiência norteadora do caminho, iremos analisar
em um período de longa duração o sentido e as transformações, na historiografia, das palavras “experiência”, “experi-
mental” e “experimentação”. Por fim, o terceiro território se propõe a pensar na formação docente como um processo
de constituição de conhecimentos articulados com o tempo, com a pluralidade interna de sua cultura e, sobretudo, com
a individualidade deste sujeito em formação, no caso, o professor e suas experiências.

146
Proposta de uma Sequência Didática com uso de História e Filosofia
da Ciência para o Ensino de Física Sobre a Gravitação Universal com
Ênfase na Terceira Lei de Newton 

Eider de Souza Silva (UFBA)

O objetivo deste trabalho é desenvolver uma sequência didática (SD) de Física, orientada por uma abordagem his-
tórica. Será adotada uma estratégia dialógica ao ensino de Física, a partir da utilização da História da Ciência (HC), afim
de contribuir para a criação de um ambiente de reflexão eficiente para o desenvolvimento da capacidade argumentativa
e, consequentemente, para a superação de visões simplistas sobre a prática docente, definida, muitas vezes, como
mera transmissão de conhecimentos. O modelo argumentativo definido para essa pesquisa é o layout de argumentação
de Toulmin (2006). Os resultados esperados, em termos de ensino e aprendizagem, foram são sintetizados da seguinte
forma: (1) Ensino explícito da argumentação; (2) Argumentar, a partir do uso didático da História da Ciências, utilizando
o layout de Toulmin; e (3) Compreensão das transformações do pensamento de Newton e no entendimento conceitual
sobre a ação gravitacional entre corpos. 
Com a elaboração e análise, posterior, da SD em questão, pretendemos produzir conhecimentos teóricos e práticos
sobre o uso didático da HC no ensino de Física, ou seja, realizar intervenções capazes de gerar conhecimentos do tipo:
“como” e “porque” tais características são eficazes em desenvolver a habilidade de argumentar sobre Ciência, bem como
fomentar uma compreensão clara sobre a interação mútua entre corpos. O ensino explícito da argumentação, a partir
do layout de Toulmin, é um das características substantivas definidas na SD. Considerando-se que o layout de Toulmin é
instrumento relevante para avaliar e proporcionar a habilidade de argumentar sobre Ciência, os sujeitos envolvidos devem
conhecer e utilizar esse instrumento de maneira explícita. Essa prespectiva será trabalhada a partir, por exemplo, do
uso de atividades discursivas: discussão em grupos e entre os grupos, ou seja, de atividades que enriquecem o debate
e proporcionam um engajamento dos estudantes na interação argumentativa. O uso didático da História e Filosofia da
Ciência é outra característica substantiva adotada na SD em questão. A História da Ciência contribui para uma melhor
compreensão dos processos científicos que envolvem o processo de interação mútua presente na Gravitação Universal
de Newton. Dito isso, o uso de textos históricos sobre controvérsias envolvendo a interação entre corpos a partir de uma
única ação atuando simultaneamente é uma das características procedimentais adotadas no trabalho. Tendo em conta,
que textos envolvendo controvérsias contribuem para a criação de um ambiente profícuo para argumentação. O recorte
histórico adotado para o desenvolvimento da SD em questão envolve um debate histórico sobre a Gravitação Universal
e a terceira lei de Newton, especificamente, sobre o entendimento conceitual da interação gravitacional entre corpos.
Com o objetivo de fomentar um entendimento sobre uma interação mútua atuando simultaneamente entre os corpos. 

Relação entre os aspectos científicos e religiosos no ensino de


Evolução Biológica: uma abordagem sócio-histórica na sala de aula 

Marta Ferreira Abdala Mendes (IFRJ/ Campus Mesquita)

Este trabalho tem como objetivo apresentar uma intervenção em sala de aula a fim de entender a relação entre os
aspectos científicos e religiosos no ensino de Evolução Biológica, reconhecendo como os diferentes saberes e ideias dos
alunos influenciam no entendimento dos conceitos acerca dessa temática. Toda pesquisa foi realizada em uma turma
de 3ª série do Ensino Médio de uma escola particular durante o período de aulas com o conteúdo previsto no currículo
do bimestre e autorizada pela Direção da escola. Utilizamos como instrumentos de coleta de dados, um questionário
antes da atividade, o registro em diário de campo, e gravação em áudio da aplicação de toda atividade em sala de aula,
a fim de aprofundarmos a análise sobre a visão dos alunos por se tratar de um estudo de caso. A partir da identificação
das concepções prévias dos alunos relativas às explicações evolucionistas e criacionistas sobre a origem e evolução
da vida, elaboramos uma estratégia didática que procurou caracterizar o conhecimento científico e religioso de modo
a enriquecer os debates nas aulas e facilitar a mediação de possíveis conflitos na tentativa de garantir a pluralidade e
horizontalidade dos saberes, numa perspectiva dialógica do processo sócio-histórico de construção do conhecimento

147
científico. Diversos autores apontam que dentre os inúmeros fatores que dificultam o processo de ensino-aprendizagem
da Evolução Biológica tem-se o despreparo dos professores na abordagem de assuntos polêmicos, a dificuldade no en-
tendimento acerca da natureza da ciência e do processo sócio histórico de produção do conhecimento científico pelos
alunos, as crenças religiosas e visões de mundo dos alunos muitas vezes conflitantes com o assunto abordado. Esses
aspectos colaboram para uma visão equivocada da Teoria Evolutiva. A partir da compreensão teórica de que a relação
entre aspectos científicos e religiosos influenciam no entendimento da teoria da Evolução, o trabalho desenvolvido bus-
cou elucidar de que maneira os alunos compreendem essas diferentes formas de conhecimento (sem pretender fazer
juízo de valor ao escopo de cada uma delas) e como se posicionam em uma sociedade permeada por debates dessa
natureza. Nossos resultados indicam que foi possível trabalhar, pela estratégia didática elaborada, o ensino de Evolução
Biológica considerando as crenças e as explicações científicas dos alunos como construções humanas de naturezas
distintas que influenciam e disputam espaço no ambiente escolar, sem perder de vista as dimensões políticas, sociais,
históricas e culturais que permeiam essas relações. Para além das recomendações curriculares, foi possível promover
como os modelos explicativos têm seus limites impostos pelo contexto histórico-social-cultural-político-religioso, de
forma a contribuir para a construção da autonomia de pensamento e ação dos alunos, pelo ensino crítico e reflexivo.

Resultados de uma intervenção didática que faz uso da história


da ciência e da argumentação para o ensino gravitação universal
de Newton

Elder Sales Teixeira (UEFS), Josebel Maia dos Santos (UFBA/UEFS)

De acordo Teixeira (2010a), é possível articular a história e filosofia da ciência e a argumentação para promover o
desenvolvimento da habilidade de argumentação dos alunos e a compreensão sobre ciências. De acordo Archila (2015),
esses tipos de estratégias são potenciais abordagens de ensino para promover a aprendizagem em e sobre ciência.
Nesse sentido, desenvolvi um projeto de pesquisa de mestrado na qual adotou-se a Design Research para desenvolver,
aplicar e avaliar uma sequência didática (SD) que teve como características o uso da história da ciência combinada com
o ensino explícito da argumentação para melhorar a habilidade de argumentação e promover a compreensão, dos alunos
de licenciatura de física da UEFS, sobre a gravitação universal de Newton.
Adotamos a controvérsia como abordagem da história porque, além de possibilitar compreender o contexto de
disputa entre Newton e Descartes, foi potencialmente favorável a interações discursivas, em consonância com o objetivo
de promover o debate entre os estudantes. O texto utilizado na sequência foi construído a partir de recortes explícitos
das obras de Cohen (1988), Peduzzi (2008), Martins (1994) e Teixeira, Peduzzi e Freire (2010b), além dos textos originais
de Newton e Descartes, de maneira adaptada, aos objetivos pedagógicos. A característica importante do texto é o fato
de que ele apresenta as explicações de Descartes e Newton.
Os resultados da analise das interações em pequenos grupos e da discussão entre os grupos revelaram (1) a impor-
tância da partipação dos alunos na interação discursiva na construção do argumento coletivo ao apresentar justificações
ou refutações que favoreram o fortalecimento do argumento ou resultaram em negociação de significados e reflexões
sobre as próprias justificativas aventadas (2) o texto foi capaz de fornecer subsídios suficientes para que os estudantes
abordassem diferentes aspectos na discussão e forneceu subsídios para que eles apoiassem seus argumentos.
Os estudantes souberam mobilizar informações para defender seu ponto de vista e que, portanto, souberam
argumentar. Por outro lado boa parte dos estudantes demonstraram não ter se apropriado dos conceitos científicos.
Pode-se inferir, que a explicação newtoniana apresentada no texto esteve adequada ao grupo que a defendeu
entretanto, a dificuldade apresentada pelos defensores do argumento cartesiano, sugere ser necessário reformular o
texto para introduzir discussão mais aprofundada sobre o papel do meio material na explicação cartesiana. 
Em resumo a SD foi mais eficiente em realizar o ensino da argumentação do que o ensino da gravitação universal
que não contemple a controvérsia desde seu surgimento até a sua resolução pode falhar no objetivo de fazer com que os
estudantes se convençam do conhecimento que a comunidade científica atualmente estabeleceu como a teoria correta.

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Uma abordagem à História e Filosofia da Ciência em um curso
de licenciatura em Física: analisando as contribuições do
Teatro Científico Experimental

Énery Gislayne de Sousa Melo (UFRPE)

A inserção da História e Filosofia da Ciência (HFC) no ensino de física pode humanizar a ciência, motivar os estudos
dos estudantes, promover uma melhor compreensão dos conceitos científicos e desenvolver uma visão mais ampla da
natureza da ciência (MATTHEWS, 1995). Assim, muitos cursos de têm incorporado a HFC aos seus currículos na forma de
disciplina. Mas, essa inclusão não implica em alteração das práticas educativas dos docentes (CAMARGO; NARDI, 2005;
BRINCKMANN; DELIZOICOV, 2009; GIL-PÈREZ, 1993; PEDUZZI, 2001; EL-HANI, 2006; MARTINS, 2006 e BÄCHTOLD; GUEDJ,
2012). Martins (2012) ressalta que para um melhor resultado é necessário haver uma aproximação entre diversas áreas,
por exemplo, atrelando-se uma fundamentação sobre o processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, pesquisadores
apontam que o ensino de ciências, pautado na abordagem histórico-filosófica e no uso do teatro como estratégia didática,
pode promover uma articulação entre os conteúdos científicos e questões sociais, e favorecer a integração entre os estudan-
tes e motivar o processo ensino-aprendizagem (REIS; GUERRA; ZANETIC, 2006; MASSARANI; ALMEIDA, 2006). Baseados
nesta hipótese, este trabalho apresenta uma pesquisa que teve como objetivo analisar as contribuições do uso do Teatro
Científico Experimental para uma abordagem histórica e filosófica da ciência na formação inicial de professores de Física.
O Teatro Científico Experimental (MELO, 2016) é um modelo novo de teatro que combina pressupostos de aprendizagem
de George Kelly (1963) com elementos do teatro de Bertolt Brecht. Nesta pesquisa, o TCE foi configurado e testado com
8 licenciandos em Física, através de um curso de 3 encontros. A peça trabalhada foi Copenhague de Michael Fray (1998),
acessada pelo trabalho de Silveira (2001) que aborda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial; aborda conceitos da
física quântica e aspectos da natureza da ciência. Os estudantes estudaram a estrutura da peça e a concepção de ensino-
-aprendizagem de George Kelly, bem como, o material instrucional sobre a peça; propuseram mudanças e ensaiaram. A
recolha de dados foi realizada por meio de um questionário inicial e discussões em grupo. Ao final de cada encontro, uma
discussão era realizada com a finalidade de acompanhar a evolução das ideias dos estudantes. Todos esses momentos
foram registrados em vídeos e as transcrições foram analisadas e através da Análise de Conteúdo de Bardin (1979).
Entre os resultados principais, destacam-se a participação ativa e autônoma dos estudantes, que demonstraram maior
motivação, comprometimento e investimento no estudo da peça, corroborando a hipótese de Martins (2012). Do ponto
de vista dos conteúdos, os estudantes demonstraram uma evolução do nível dos debates durante o processo, trazendo à
tona exemplos clássicos da física (Gato de Schroedinger) para discussão do ponto de vista da epistemologia da ciência.

Unidades didáticas: uma proposta para o ensino de radioatividade


na educação básica

Deividi Marcio Marques (Universidade Federal de Uberlândia), 


Karen Lúria Pires (Universidade Federal de Uberlândia)

O presente trabalho traz discussões sobre o ensino de Radioatividade e o modelo atômico de Rutherford nas aulas
de química na Educação Básica e suas contribuições para o aprendizado da Química pelos estudantes. Visto que o ensino
dos conteúdos que envolvem o conceito de radioatividade, por vezes, não é abordado na Educação Básica e o modelo
atômico de Rutherford se restringe em apenas apresentar seu clássico experimento e, ainda, considerando o ensino,
na maioria das vezes, memorístico houve a necessidade de um trabalho que englobe estes conteúdos e conceitos. Por
acreditarmos que o resgate e as discussões históricas possam proporcionar uma melhor visão desses conceitos foi
elaborado um material didático-metodologico resgatando os aspectos históricos e uma proposta de ensino que leva
em consideração a relação ciência, tecnologia e sociedade e também o contexto pelo qual esses conceitos estavam
inseridos no começo do século passado. Neste sentido, pensando num ensino de química contextualizado, pensamos
que a proposta apresentada possa contribuir significativamente para a aprendizagem dos estudantes. Dentro da temática
de Radioatividade, é possível envolver aspectos históricos, éticos, sociais dentre outros; cujo tema pode abarcar tal

149
conteúdo no ensino ao invés de evitá-lo pela sua complexidade. O projeto da formulação de um guia didático para este
fim possibilita um movimento na ressignificação de conceitos e consequentemente, agindo reflexivamente no aluno
para o mesmo gerir seus próprios saberes, tornando-se assim um cidadão crítico. A proposta do guia é desafiadora,
visto que engloba diversas metodologias visando à aprendizagem do estudante e as relações às quais posteriormente,
ele venha a estabelecer perante o mundo e a sociedade que o cerca. Cabe ressaltar, que o guia não é uma orientação
rígida e sim, um instrumento de apoio aos professores, os quais cabem analisar quais momentos são importantes de
serem aplicados. Portanto, o Guia Didático não se encerra apenas nas leituras e atividades realizadas pelo aluno, mas
legitimando a atividade epistêmica como processo no texto e contexto do cotidiano escolar.

150
ST 16. Educação e História das Ciências no Brasil:
Proposições teóricas e metodológicas

A Criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da


Universidade de São Paulo (FFCL-USP): Contexto Político,
Projetos Institucionais e Dinâmicas de Produção do Conhecimento

Ivã Gurgel (Instituto de Física – USP)

O papel social do conhecimento e as formas de atribuir valor ao mesmo não são elementos constantes no tempo,
isto é, desprovidos de historicidade. Assim, por exemplo, as razões pelas quais hoje se defende a importância da pesquisa
nas chamadas “áreas básicas”, como a Física e a Química, não necessariamente foram as mesmas de um século atrás,
fazendo com que instituições fossem criadas por razões que a atualidade pode não reconhecer mais.
O objetivo central deste trabalho é analisar o processo histórico de criação do Departamento de Física da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Para isso, serão consideradas três dimensões importantes
que caracterizam este episódio: i) O Contexto Sociopolítico: a criação da USP está relacionada aos acontecimentos
políticos do início dos anos 30, com o rompimento da “política do café-com-leite” e os movimentos paulistas de 1932,
onde uma “elite intelectual” de São Paulo buscava consolidar instituições de referência às lideranças do país; ii) O Con-
texto Institucional: a primeira geração de intelectuais da FFCL foi formada a partir das missões na Europa comandadas
por Theodoro Ramos. A missão italiana trouxe ao Brasil primeiramente Gleb Wataghin e, quatro anos depois, Giuseppe
Occialini. Estes cientistas estabeleceram os primeiros passos de um avanço institucional da Física no Brasil; iii) O Contexto
Científico: com a vinda de professores estrangeiros, a própria criação da FFCL se insere em um contexto de circulação
internacional de ideias. Os raios cósmicos, tema proeminente nas pesquisas realizadas, é de relevância mundial para
a Física Nuclear, que entrava em nova fase a partir da criação da Mecânica Quântica por Erwin Schroedinger e Wener
Heisenberg. Assim, o projeto de pesquisa desenvolvido com a liderança de Wataghin segue padrões internacionais de
produção e legitimação de conhecimentos. 
Para o desenvolvimento da pesquisa são utilizados documentação de dois acervos principais: o arquivo histórico
do IFUSP, coordenado pelo autor principal deste trabalho e que conta com documentos de diferentes naturezas, como
cartas de personagens com os anteriormente citados, e o arquivo geral da USP, que reúne a documentação relacionada
à criação da mesma. Como resultado se estabelece uma narrativa que busca tornar evidente tensões entre as três
dimensões apresentadas. Desta forma, buscando se afastar de uma narrativa linear que estabelece causalidades muito
imediatas entre ocorrências históricas, o trabalho mostra que as dinâmicas de produção de conhecimento realizadas
no Departamento de Física oscilam entre trabalhos que buscam colocar a Física em um contexto internacional e outros
que tentam estabelecer diálogos com as tradições anteriormente presentes, em especial os trabalhos produzidos na
Escola Politécnica.

A história nos museus de ciências 

Zenaide Gregorio Alves (Universidade Federal Rural de Pernambuco)

Compreendendo o potencial educativo dos museus em proporcionar práticas educativas significativas, a partir
das diversas definições de museus, em consonância com as leituras e interpretações do Estatuto dos museus, da LDB,
dos PCN’s de História, e outros documentos que não só validam, mas também definem e norteiam tal proposta. Nesta
comunicação desejamos Analisar a legislação sobre museus e suas ações. Especificamente os museus de ciência que ao
disseminar a cultura científica, e suas relações entre a ciência, à tecnologia e a sociedade através de seus experimentos,
nos auxiliam no desenvolvimento de atividades educativas, as quais nos permitem conciliar os experimentos pertencentes

151
ao museu sejam na área de História ou em outras afins, com determinados conteúdos de história que são abordados em
sala de aula, ainda possuem a capacidade de ilustrar de maneira concreta as aulas de História acrescentando significado
ao contexto histórico. Com este trabalho objetivamos analisar as possibilidades de ensinar história em um museu de
ciência, o qual contempla a História como ciência.
Para quem é da área pensar a História como ciência é familiar. Para os demais é tarefa que desprende mais esforço.
Uma vez que os museus de ciências são ambientes em que se respira ciência e destinam-se a divulgação científica. Fazendo
da interatividade dos visitantes com suas exposições, o principal objetivo do museu de ciência e possibilitando a experiência
com o tempo e os fatos históricos, sendo visto como laboratório de história, nos permitindo experimentar, e materializar a
história da ciência. Dialogando com Hartog e sua noção de regimes de historicidade, somos levados a pensar que tipo de
história pode-se ensinar em um museu de ciência, a partir das relações de como uma sociedade trata seu passado. 
E ainda ao entendermos que o papel educativo dos museus de ciência consiste não em ensinar determinados con-
teúdos, mas em construir um diálogo entre conceitos científicos e as vivências do seu público, e com isso proporcionar a
concepção de pertencimento a esses fenômenos e ao mundo da ciência e tecnologia a partir do uso de recursos como
as narrativas, às histórias e emoções, somo levados a compreender o conceito de “Cidadania Científica” abordado por
Yurij Castelfranchi. 
Nossa metodologia de pesquisa, nesse trabalho, foi realizar um levantamento bibliográfico, intencionado a com-
preender as definições e ações dos museus de ciências, as estratégias e experiências no campo do ensino de História
e a partir disso estabelecer um dialogo entre a ciência História e o espaço museológico. 

A importância da História das Ciências na formação dos professores

Cintia Mendonça Soares Rocha (Universidade Federal do ABC), Marcia Helena Alvim (UFABC)

Atualmente, muitas pesquisas ressaltam a importância da inserção da História das Ciências (HC) nos cursos
de formação ou capacitação dos professores, como forma de propiciar mudanças no ensino de ciências, partindo do
princípio de que o professor que constituir este olhar, poderá promover em suas aulas ambientes que privilegiem a
capacidade de reflexão e apropriação de conceitos pelos alunos (SILVA et al. 2008). Diante disso, o objetivo do pre-
sente trabalho é discutir a respeito da importância da inserção da reflexão da HC na formação dos professores, inicial
e continuada, por meio de leitura e discussão de pesquisas que abordem essa formação sob a perspectiva histórica.
De modo a exemplificar a inserção da HC na formação inicial, o estudo de Moura (2012) aborda esta relação em um
curso de Licenciatura em Física, com o objetivo de promover uma formação crítico-transformadora nos futuros do-
centes. Após a aplicação e análise de dados, percebe-se que é possível desenvolver nos licenciandos esta formação,
destacando a escola como um ambiente de troca e construção de saberes. Já a proposta de Oliveira (2016) visou a
promoção das discussões sobre HC através de uma oficina de formação continuada para professores de Química. A
oficina tinha como objetivo inserir a HC e a educação CTS na prática dos professores, para que, assim aplicassem
esta abordagem em suas aulas. Os resultados da pesquisa indicaram que os participantes reconheceram a impor-
tância da efetiva utilização em suas práticas em sala de aula. Desta forma, acreditamos que a inserção da HC na
formação dos professores, esteja diretamente relacionada a atuação destes profissionais no ambiente escolar, logo,
incorporar disciplinas com a perspectiva histórica na grade curricular de cursos de Licenciatura e a oferta de cursos de
extensão voltados a esta temática, acabam por contribuir para uma mudança na prática pedagógica dos professores. 
Referências Bibliográficas
MOURA, B. A. Formação crítico-transformadora de professores de Física: uma proposta a partir da História da
Ciência. 2012. 309f. Tese (Dourado em Ciências) – Faculdade de Educação, Instituto de Física, Instituto de Química,
Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
OLIVEIRA, R. R. de. A história das ciências no ensino de química: implicações para uma abordagem CTS na for-
mação continuada de professores. 2018. Dissertação (Mestrado em Ensino e História das Ciências e da Matemática)
Universidade Federal do ABC, Santo André, 2018.
SILVA, C. P., et al. Subsídios para o uso da História das Ciências no Ensino: exemplos extraídos das Geociências.
Ciência e Educação, v. 14, n. 3, p. 497-517, 2008.

152
Alfabetização Científica: o ensino da Física e suas abordagens

Jaene Guimarães Periera (Universidade Federal de Campina Grande)

Esta pesquisa tem como principal objetivo discutir e alavancar possibilidades práticas no favorecimento de possí-
veis alternativas para a promoção de uma Alfabetização Científica (AC), posto que as questões norteadoras sobre como
ensinar e como aprendemos ciências estão rodeadas de inúmeros obstáculos epistemológicos, processuais e atitudinais
no processo de ensino-aprendizagem da física. Utilizando a teoria de aprendizagem de Ausubel e entendendo que uma
AC incentiva um espírito crítico e reflexivo, podendo se estender para além das paredes da escola, desenvolvendo nos
estudantes habilidades e competências que os tornarão capazes de tomar decisões técnico-científicas fugindo, assim do
modelo de ensino tradicional tão vivido em nosso sistema de ensino. Tais considerações incentivam a busca por propostas
que condizem com os objetivos pedagógicos da AC. Entendendo que um dos obstáculos a serem superados é o tempo que
as intervenções desta natureza requerem, é indicado que, ao passo que a abordagem favoreça uma discussão mais ampla,
no que diz respeito a questões científicas e metacientíficas, possibilite também uma articulação de conceitos, aplicação e
implicações sociais. De natureza teórica e metodológica, esta pesquisa não chegou a aplicação das teorias de ensino da
AC, mas criou condições para tal intervenção ao elucidar abordagens que dão vazão para a inquirição de métodos e pro-
cedimentos voltados para a promoção de uma AC, a pesquisa histórica se deu a partir de fontes secundárias e a pesquisa
bibliográfica em livros, fascículos de livros, periódicos, artigos, teses e dissertações nacionais e internacionais acerca da
AC como forma de fundamentar os objetivos de ensino e articulá-los as abordagens que melhor lhe correspondem. Para
tanto, em virtude da proposta de ensino e da teoria de aprendizagem adotada, o conteúdo físico a ser trabalho é sobre
energia elétrica, mais precisamente pilhas. O episódio histórico analisado se passa no final do século XVIII, onde um sim-
ples experimento teria gerado curiosidade em Alessandro Volta que desenvolveu uma explicação diferente ao fenômeno
observado por Galvani, este episódio proporciona discussões sobre conteúdos de física como: corrente elétrica; diferença
de potencial e sentido real e convencional da corrente elétrica, além de promover conhecimento aplicado de estudos da
química. O experimento de baixo custo é uma pilha de volta feita em sala de aula, para possibilitar que os estudantes fora
da sala de aula possam realizar suas investigações com propostas de como melhora-la. Percebemos no epílogo desta
pesquisa as potencialidades pedagógicas e a congruência entre as abordagens e a proposta de uma AC, que possibilitou
na articulação de uma proposta de intervenção de sala de aula descrevendo e justificando cada atividade frente a teoria
de aprendizagem de Ausubel, com um material histórico, vídeos, experimentos entre outros.

Construção de concepções de ciência e educação na formação


de pedagogo(a)s

Ermelinda Moutinho Pataca (Faculdade de Educação – USP), Gabriela Marko (Faculdade de Educação –


Universidade de São Paulo)

No campo do ensino de ciências, nas últimas décadas, reflexões teóricas e atividades práticas vêm sendo desen-
volvidas a fim de incorporar a abordagem da História, Filosofia e Sociologia das Ciências em currículos, metodologias de
ensino, materiais didáticos e programas de formação de professores. Essas discussões, mais presentes nas licenciaturas,
pouco aparecem na graduação de pedagogo(a)s, responsáveis pela educação no Ensino Fundamental I e mediadores
de diversos conhecimentos, nas variadas áreas. Este trabalho pretende contribuir com esta lacuna. Trata-se do entre-
laçamento entre referenciais teóricos e uma pesquisa participante na formação de professores, durante a disciplina
optativa de História da Ciência, oferecida em 2017 na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo para alunos
da pedagogia, aberta também para estudantes de outros cursos de licenciatura. Esta investigação tem como objetivo
destacar o processo de construção de concepções mais complexas e dinâmicas de ciência e educação que se desenvol-
veu ao longo da disciplina, a partir da escolha da leitura de determinada bibliografia. Verificou-se o reconhecimento, por
parte dos próprios educadores em formação, de contribuições dos debates e recursos didáticos desenvolvidos por eles
para uma compreensão mais ampla e aprofundada da ciência. Pela concepção de ciência e sua historicidade, os alunos
identificaram o caráter histórico do conhecimento, ou seja, reconheceram a importância do tempo, em suas diversas
escalas, e do espaço como elementos fundamentais no contorno das construções científicas. Mais uma concepção

153
elaborada nesse percurso aponta o atrelamento entre ciência e a sociedade, contemplando suas esferas social, política,
econômica, cultural, ideológica, permeado por controvérsias, disputas e negociações, admitindo o caráter de credibili-
dade ao invés da ideia de verdade das asserções científicas. Além disso, conceber a ciência como cultura favoreceu o
reconhecimento das práticas, técnicas e registros como atividades científicas, superando a imagem de ciência como
uma atividade teórica e dogmática. Nesse processo, os professores em formação produziram associações com o ensino
dos conteúdos científicos e escolares. Também elaboraram analogias com os fundamentos da educação de maneira
mais ampla. Essas relações entre história da ciência e atividade docente ocorreu tanto no cenário teórico, por meio de
reflexões e discussões, como em atividades práticas: elaboração de dinâmicas e materiais didáticos. Isso favoreceu sua
formação enquanto sujeitos críticos, emancipados e reverbera diretamente sobre suas práticas docentes.

Controvérsias da Origem do Homem Americano no Parque Nacional


da Serra da Capivara, Piauí, Brasil

Rômulo José Fontenele Oliveira (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP)

O Parque Nacional da Serra da Capivara abriga a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, datadas
em até 39.000 anos, e sítios com fósseis da presença humana, datados em até 100.00 anos (PESSIS; GUIDON, 2007,
p.406-16). Esta pesquisa exploratória que é parte do DINTER FEUSP-UFPI analisou inicialmente publicações com a palavra
chave “Serra da Capivara” nas bases de dados SCIELO, SCOPUS E WEB OF SCIENCE e classificou trabalhos de divulgação
científica em até 03 temáticas, com foco na controvérsia do homem mais antigo das Américas, historicamente situada
na criação do parque e importante para a história das Ciências e educação devido a mais de 40 anos de pesquisa arque-
ológica que atraíram para a região universidades e educadores com diferentes perfis de formação e atuação. 
Encontramos 88 publicações com 05 temáticas mais frequentes: Zoologia (36), Arqueologia (21), Primatologia
(18), História das Ciências (11), Paleontologia (10). Em história das Ciências 03 trabalhos abordaram a controvérsia
entre a teoria de Clóvis e a teoria defendida por Niéde Guidon: The First American Scoop: The Pedra Furada Controversy
in Newspapers (1978–2015) (BARUZZI, Espanha, 2016); Some evidence of a date of first humans to arrive in Brazil
(WATANABE; GUIDON et al, Brasil, 2003); Comment on “some evidence of a date of first humans to arrive in Brazil”
(ROWIN; STEELMAN, EUA, 2003). 
A teoria defendida por Guidon afirma que o homem africano há 100.000 anos veio pelo atlântico à região do Piauí,
Brasil, em contraste com a Teoria de Clóvis na qual o homem asiático há 11.500 anos, veio pelo Estreito de Bering à região
de Clóvis, Novo México, EUA (PESSIS; MARTINS; GUIDON, 2014, p. 445-47; PROUS, 1997, p.10-14). Os americanos
questionam as datações e origem dos primeiros humanos que chegaram ao Brasil. Isso mostra a rivalidade científica
que caracteriza o lugar socioeconômico, político e cultural dos atores envolvidos (CERTEAU, 2000, p. 66-7). A criação
do parque se relaciona com a história da ciência tanto pela história institucional (criação das universidades, definição de
áreas de investigação, etc.), quanto pelo debate do povoamento das Américas. Neste contexto a história das Ciências,
a educação e a divulgação científica avançam no Nordeste do Brasil.

Entre o puro e o aplicado: a formação profissional do químico na


Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na Universidade de São
Paulo (1934-1969)

Rodrigo Magalhães Arena (Faculdade de Educação da USP)

Essa pesquisa propõe-se a apresentar um contexto do cenário universitário no Brasil na primeira metade do século
XX para compreendermos o processo de criação da Universidade de São Paulo (USP) e a criação do curso de Química.
Fernando de Azevedo, assim como outros idealizadores da USP, defendiam que a universidade deveria ultrapassar
a perspectiva puramente profissionalizante de formar apenas pessoas para desempenhar funções imediatas, como

154
estava presente nos cursos de Engenharia, Medicina e Direito. Para ele a educação superior deveria ser de um saber
livre e desinteressado, capaz de contribuir para o progresso da nacionalidade em formação e para o enriquecimento da
educação, e somente uma universidade que cultivasse esses valores poderia ser eficaz na formação das novas elites
dirigentes, objetivo principal da criação da USP (PAULA, 2002). Neste contexto, marcado pela industrialização paulista
e por uma mentalidade modernizadora, estudamos a criação da subseção de Química em 1934. Temos como objetivo
principal analisar os primeiros currículos do curso de Química verificando os conteúdos envolvidos nas propostas para
a formação profissional. As análises serão concentradas na tensão envolvida nas expectativas iniciais do idealizador do
curso de química, Heinrich Rheinboldt (1955), que visava à formação de profissionais para atuarem na disseminação
da ciência pura nas atividades experimentais em outras universidades no Brasil, em contraste com a necessidade de
químicos nas indústrias para suprir os interesses de uma região num contexto carente de mão de obra qualificada. Essa
análise pode servir na compreensão de como este modelo de formação profissional do químico, que se disseminou
para outras universidades brasileiras, moldou a formação de professores de química e o currículo desta disciplina na
educação básica. Como abordagem metodológica fizemos uma aproximação entre a história da educação e a história
da ciência para compreendermos como as concepções de ciência pura ou aplicada estiveram relacionadas ao projeto
educacional. Realizamos um levantamento bibliográfico e documental a respeito do contexto da cidade São Paulo
entre as décadas de 1920 a 1950, tendo como foco principal textos sobre a industrialização, a fundação da USP e a
subseção de química
.

História das Ciências e Ensino: perspectivas de descolonização


de saberes

Marcia Helena Alvim (UFABC)

A História das Ciências em sua interface com o Ensino apresenta-se como uma importante reflexão promotora da
pluralidade epistemológica, neste sentido, este estudo tem por objetivo analisar as possibilidades didáticas da inserção
dos relatos europeus sobre os conhecimentos indígenas dos astros a partir da perspectiva de descolonização dos sa-
beres, expressa em autores como Walter Mignolo, Boaventura de Sousa Santos e Aníbal Quijano. Os relatos europeus
selecionados referem-se ao período dos séculos XVI e XVII, destacando-se as obras de Jean de Léry, Claude D´Abbeville
e Gabriel Soares de Souza. Acreditamos que estas produções embasaram a ótica da colonização epistemológica da Amé-
rica, que se iniciou eurocêntrica. Os conhecimentos nativos sobre a natureza relatados pelos europeus, apresentaram-se
marcados pela característica de inferiorização e demonização do saber indígena, levando a construção de estereótipos e,
consequentemente, da exclusão do mesmo, especialmente na Educação Básica, prejudicando o fomento ao pensamento
crítico em relação a perspectiva indígena disponibilizada em nossa História. Consideramos que a inserção da discussão
sobre o processo histórico de colonização epistêmica europeia e do silenciamento dos saberes locais valoriza a reflexão
sobre a hegemonia intelectual e científica ocidental, buscando fazer-se perceber outras formas de saberes, através do
fomento de uma pluralidade epistemológica, especialmente na Educação Básica. Neste cenário, faz-se vital a discus-
são histórica dos processos de poder que constituíram uma educação histórica e científica pautada pela perspectiva e
saber do colonizador. A proposta de Boaventura de Sousa Santos acerca da descolonização dos saberes apresenta-se
como um importante aporte teórico para a discussão das relações entre História das Ciências e Ensino de Ciências, pois
apresenta alternativas reflexivas sobre nosso passado colonizado e propõe propostas de ação para o desenvolvimento
de novas perspectivas que visem romper com a colonialidade vivenciada intelectual e educacionalmente nos países
que sofreram a colonização política europeia. Como resultados parciais deste estudo, podemos verificar a produção de
uma discussão teórica sobre o potencial da proposta de descolonização dos saberes de Boaventura de Sousa Santos,
articulada ao conceito de colonialidade desenvolvidos por Mignolo e Quijáno, como suporte teórico para a inserção da
História das Ciências ao Ensino, através da valorização do conhecimento indígena na educação científica. Desta forma,
buscamos propor uma nova perspectiva teórica e didática sobre a História das Ciências no Brasil em seu diálogo com a
descolonização dos saberes.

155
História das Ciências e o ensino da matemática pela análise
do discurso imagético 

Jonas Moreira Silva (Universidade Federal do ABC)

Falar de História das Ciências e Ensino é antes de tudo percorrer uma discussão teórica e também prática de uma
área de conhecimento ainda em construção. Primeiro por que a História das Ciências enquanto ciência, que se apresenta
a partir das produções científicas filosóficas, históricas e sociológicas – principalmente, mas não excluindo as subáreas e/
ou outras ciências – da primeira metade do século vinte, ainda hoje diverge seus especialistas, de modo que antes mesmo
que sua relação com o ensino fosse à campo, o seu próprio fazer ainda é mais visto como um uso de uma metodologia do
que verdadeiramente uma ciência. Caberia então o questionamento de que ciência estamos falando e de que lugar estamos
falando. Mas o foco aqui não é este, é trazer os resultados, ou por que não dizer as possibilidades, da mescla História das
Ciências e Ensino. Ora, se a História das Ciências pode ser considerada uma nova ciência, com o Ensino já é diferente.
Ensino aqui entendido como Educação, como relação intrínseca com uma aprendizagem. A educação, ora enquanto institu-
cionalização ora enquanto ciência, tem sido pensada desde a Antiguidade. Com pedagogias e didáticas foi se constituindo,
ao longo de muitos anos, fruto muito mais de uma busca por controle e poder – como podemos observar em exemplos de
uso da ciência Educação para o mal dos seres humanos – do que necessariamente um descobrir-se a si mesmo, enquanto
homem, enquanto ser humano. Nessa linha de pensamento e no encontrar das duas “cadeiras” da academia, a História das
Ciências ora aparece como abordagem teórica para o ensino, ora aparece como metodologia de ensino. E é neste interim que
a academia atual se debruça a fim de enxergar os efeitos de uma prática, ao menos, bidisciplinar. Logo, o objetivo da prática
da divulgação científica se configura também por abordagens didático-metodológicas com o uso da História das Ciências
e outros estudos e referenciais teóricos, como a Análise do Discurso e a História da Matemática. A metodologia se baseia
numa produção de uma nova abordagem do ensino da matemática numa perspectiva da História das Ciências e a análise
do discurso imagético, por imagens: desenhos, pinturas, xilogravuras. A proposta é o ensino de Áreas Planas – geometria
euclidiana – para alunos do Ensino Médio da Educação Básica por meio da leitura analítica de imagens. Os resultados são
as possibilidades das novas leituras que esses alunos podem fazer inter-relacionando Arte, História, Ciências e Matemática
tanto de imagens quanto de mundo, vez que ao abrirmos os olhos todos os dias estamos lendo o mundo. Considera-se
que nessa égide de elementos referenciais científico-acadêmicos para uma proposta didático-metodológica do ensino de
matemática se contempla o alcance dos objetivos das diretrizes educacionais e o permear de uma criticidade tão necessária.

História das Ciências no Ensino: um olhar para os cientistas


brasileiros nos anos iniciais do Ensino Fundamental 

Suseli de Paula Vissicaro (Unicamp)

As discussões acerca da importância da História das Ciências para o ensino não são recentes e refletem uma preo-
cupação com a formação crítica dos educandos dos diferentes níveis de ensino, mobilizando pesquisadores e docentes há
décadas. No entanto, ainda existem muitas lacunas a serem preenchidas: na formação dos professores, nos conhecimentos
da história das ciências no Brasil, de materiais e propostas acessíveis aos professores e, de certo modo, de como incluir
aspectos históricos no ensino, sobretudo nos anos iniciais, haja visto que existem poucos trabalhos direcionados à este
nível. A questão que se coloca então, principalmente para estes professores, diz respeito ao como realizar essa inclusão
e elaborar propostas didáticas para os anos iniciais. Neste sentido, almejando contribuir para diminuir a distância entre o
discurso teórico sobre a importância da História das Ciências na formação do cidadão e a prática do professor, e, pensando
na importância desta (História das Ciências) no Brasil, são apresentadas no presente artigo duas propostas didáticas que
versam sobre cientistas brasileiros e suas invenções e/ou descobertas. Os resultados aqui apresentados originam-se de
um curso de formação continuada oferecido para professores dos anos iniciais ensino fundamental da rede pública mu-
nicipal. Neste curso os professores foram convidados a elaborar, produzir e socializar propostas didáticas utilizando a HC,
planejadas em consonância com o projeto político pedagógico das escolas em que atuam. De modo geral, as propostas
elaboradas e aplicadas versaram sobre a histórias das invenções, temática sugerida nos Parâmetros Curriculares Nacionais,
para inclusão da HC nos anos iniciais, e também pela história dos cientistas. Mas, não se almejou apresentar somente a

156
vida e a obra dos cientistas, mas também sua contribuição para a história das ciências no Brasil, num nível de discussão
adequado às crianças na faixa etária dos anos iniciais. Nos relatos as professoras apontaram um maior interesse dos
alunos pelos cientistas brasileiros, além de desafios e dificuldades, sobretudo no que diz respeito à materiais disponíveis
para pesquisa e uso em sala de aula, e a ausência de informações sobre as cientistas mulheres do Brasil.

Mineração do ouro e metalurgia no período colonial brasileiro 

Ermelinda Moutinho Pataca (Faculdade de Educação – USP)

Neste trabalho trataremos a mineração e a metalurgia do ouro no período colonial brasileiro, destacando abordagens
conceituais e metodológicas em recentes interpretações historiográficas. Contextualizamos os desenvolvimentos tecno-
lógicos da mineração e da metalurgia resultantes das influências da química e da mineralogia construídas na dinâmica do
Império Português, caracterizada pela circulação de saberes entre as colônias e destas com a metrópole. Valorizamos os
saberes indígenas, africanos e a influência das técnicas asiáticas para compreendermos a mineração associada às políticas
coloniais, traçadas de forma distinta ao longo da colonização e em consonância com as condições geográficas e geológicas
locais. Consideramos, ainda, os processos de expansão territorial, envolvendo diversas estratégias de urbanização, de de-
senvolvimento da agricultura e do extrativismo, assim como da criação de complexas vias de transportes terrestres e fluviais.
Apresentamos três contextos distintos de colonização e exploração do ouro. O primeiro caracteriza-se por num longo
processo de exploração aurífera, a partir das primeiras descobertas do ouro nas proximidades de São Paulo, ocasionando
a ocupação de uma longa faixa territorial nas Capitanias do Sul até Santa Catarina. A exploração do metal ocorreu em
pequena escala, utilizando-se de mão-de-obra indígena e possibilitando a exploração aurífera por longo período (REIS
FILHO, 2013). O segundo movimento ocorreu na capitania de Minas Gerais ao longo do século XVIII e foi iniciado pelos
bandeirantes. Neste contexto abordamos novas perspectivas historiográficas, mostrando a complexidade envolvida na
criação das cidades e de grandes áreas agrícolas. Valorizamos a contribuição do conhecimento dos escravos, oriundos
de regiões com longa tradição em mineração na África, para o desenvolvimento técnico e científico dos processos de
extração, lavagem e purificação do ouro (PAIVA, 2002). O terceiro contexto constituiu-se com as Monções, realizadas
em grandes navegações fluviais de Porto Feliz ao Mato Grosso, caracterizando a expansão territorial em direção ao Oeste
a partir da segunda metade do século XVIII, utilizando-se mão-de-obra escrava (HOLANDA, 1990).
A criação desse quadro complexo pode subsidiar a construção de propostas de ensino interdisciplinares para a
educação básica que valorizem a ciência construída localmente através da circulação e miscigenação cultural, possibi-
litando a quebra de visões universalistas e eurocêntricas de ciência.
Referências Bibliográficas
HOLANDA, S. B. Monções. 3ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
PAIVA, E. F. “Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. In: PAIVA, E. F.;
ANASTASIA, C. M. J. (orgs.) “O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX”. São Paulo:
Annablume, 2002. P. 187-207.
REIS FILHO, N. G. As minas de ouro e a formação das capitanias do Sul. São Paulo: Via das Artes, 2013.

Mineração do ouro no Brasil: possibilidades de abordagens


educacionais para o filme Serra Pelada 

Arcenira Resende Lopes Targino (USP)

A mineração é um tema importante de ser abordado no ensino de ciências, uma vez que permite abordagem in-
terdisciplinar, pois relaciona temas científicos com aspectos econômicos, políticos e sociais. Além disso, essa atividade
contribui consideravelmente para a economia brasileira. Contudo, tem sido realizada de forma predatória, muitas vezes

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sem grandes preocupações com impactos ambientais e com as condições sociais da região afetada. Nesse sentido, na
história do Brasil, um caso emblemático é o de Serra Pelada. Sendo assim, a abordagem deste tema por meio de uma
perspectiva histórica apresenta-se como profícua para a educação. Para isso, consideramos que obras cinematográficas
podem consistir como abordagem complementar, uma vez que propiciam sensibilização e imersão, o que pode contribuir
para uma melhor compreensão do contexto histórico abordado. Desta forma, neste trabalho, pretende-se analisar para
fins educacionais o filme Serra Pelada, dirigido por Heitor Dhalia. Para análise do filme apresentamos uma breve revisão
da literatura sobre a história da mineração do ouro no Brasil, com enfoque na região de Serra Pelada no final do século
XX, e adotamos uma perspectiva de análise hermenêutica, pois não nos restringimos em analisar a obra cinematográfica
com a finalidade de ilustrar acontecimentos históricos, mas principalmente para possibilitar reflexões sobre imaginários
contemporâneos retratados sobre a atividade de mineração. Por exemplo, a partir de temas científicos ilustrados no filme,
como processos químicos e físicos utilizados pela indústria mineral, pode ser discutido o papel de instituições científicas,
como da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), no compartilhamento de saberes técnico-científicos de-
cisivos para as atividades de mineração. Além disso, também podem ser abordadas outras questões sociais importantes
daquele contexto, como: problemática da migração; conflitos por terras; condições precárias de subsistência; prostituição;
e associações de empresas de mineração e de garimpeiros. Além desses aspectos, as características de construção da
narrativa cinematográfica também podem ser problematizadas, pois consideramos que o reconhecimento destas possibilita
leituras mais críticas sobre a narrativa histórica apresentada no filme. Nesse sentido, cabe destaque a representação no
filme com grande nível de fidedignidade do cenário de Serra Pelada, no qual, imagens de arquivos históricos são mescladas
com cenas da obra cinematográfica, de tal forma que, em algumas situações, é difícil diferenciar imagens históricas das
cenas do próprio filme, o que possibilita reflexões sobre o modo de construção da narrativa, os sentimentos, e a imersão
que esse nível de simulação da realidade provoca no espectador, o qual não é de modo algum passivo.

O aprender brincando presente no acervo do Museu da Educação


e do Brinquedo (MEB/USP) e suas relações com as concepções de
ensino de ciências 

Arcenira Resende Lopes Targino (USP), Barbara Milan Martins (Faculdade de Educação / USP)

O Museu da Educação e do Brinquedo (MEB), localizado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
(FEUSP), criado em 1999 pela professora Tizuko Morchida Kishimoto, possui um rico acervo de brinquedos, jogos, e materiais
educativos de diferentes épocas e, por isso, foi já alvo de estudos a sua história e os objetos seu acervo. Além disso, o
MEB constitui-se um local privilegiado para a formação inicial de professores e para a realização de atividades de extensão.
Buscando evidenciar as relações e tensões entre o brincar, o ensinar, e o uso de objetos como mediadores de conhecimentos
e práticas pedagógicas, no ano de 2017, foi inaugurada neste museu a exposição “Brincar ou Ensinar?”. Nessa exposição
temporária foram selecionados objetos do acervo do MEB e materiais educativos produzidos por licenciandos do curso de
Pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) que evidenciaram essa temática. Considerando este cenário, neste trabalho
temos como objetivo analisar alguns objetos apresentados na exposição, relacionados às concepções de ensino de ciências
entre os anos de 1960 e 1980, considerando o contexto histórico de produção, circulação e consumo desses objetos. Nessa
análise serão identificados os nomes dos brinquedos, sua proposta educativa, seu potencial lúdico, seu fabricante e slogans
que articulam as ideias de ensinar, aprender e aprender brincando conhecimentos da área de ciências. Por meio desses dados
buscar-se-á refletir sobre a história, a memória e processos de construção da identidade docente, uma vez que o uso dos
objetos, assim como as práticas sociais relacionadas aos objetos, não refletem simplesmente a realidade social, mas são
discursos construídos culturalmente sobre essa realidade. Por exemplo, dentre os objetos do acervo do MEB abordados na
exposição, destaca-se o Polioptcon, um brinquedo, comercializado nos anos 80, no qual consiste em um conjunto de peças,
incluindo lentes de aumento, as quais possibilitam a construção de instrumentos ópticos, como lupa e luneta. Este objeto/
brinquedo explora uma concepção de aprender brincando voltado à formação de cientistas como pode ser evidenciado em
sua embalagem por meio do slogan “para o estudante de hoje e o cientista de amanhã” e pelas imagens de temas científicos
apresentados na embalagem, como de um astronauta na lua, uma abelha realizando polinização e crianças manuseando
lunetas. Espera-se por meio deste trabalho apresentar elementos que possibilitem ao leitor compreender algumas concepções
presentes nesse período que influenciaram as finalidades do ensino de ciências e como essas concepções se traduziram na
produção, circulação e consumo de alguns brinquedos científicos presentes no acervo do MEB.

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ST 17. História Cultural das Ciências

A história cultural da ciência no ensino: articulações entre a prática


docente e a pesquisa

Abigail Vital de Goes Monteiro (CEFET/RJ)

Num cenário em que universidades brasileiras sofrem cortes em seus orçamentos devido ao contingenciamento de
verbas por parte do governo federal, observa-se ser voz corrente, a ideia de que a pesquisa, como elemento formativo,
não seria um aspecto inerente ou necessário à atuação dos professores na escola básica. 
A refutação de tal afirmação é notória entre os estudiosos que se dedicam à formação inicial e continuada de pro-
fessores. Embora o distanciamento entre as práticas docentes e as pesquisas emanadas do ambiente acadêmico venha
sendo discutido há décadas pelos estudiosos do assunto, consideramos pertinente identificar, nas práticas docentes,
como o conhecimento oriundo da pesquisa impacta o cotidiano de suas aulas.
Ao circunscrevermos nossa reflexão à educação científica, salientamos a importância da pesquisa docente num
contexto em que se discute um conjunto renovado de proposições acerca da compreensão do conhecimento científico
e do processo de construção da ciência. Em oposição à exaltação de heróis e vencedores e à visão linear dos acon-
tecimentos, ganha destaque na história das ciências uma relação de complementariedade entre as práticas culturais,
objeto de estudo da História Cultural. 
As premissas da História Cultural constituem o escopo da vertente historiográfica denominada História Cultural
da Ciência que, recentemente, vem ocupando a atenção de professores e pesquisadores brasileiros. Tendo em vista a
atuação de professores do Ensino Médio, que articulam a docência com o processo de reflexão e produção de conheci-
mentos em grupos de pesquisa filiados a programas de pós-graduação, propomos as seguintes questões de pesquisa:
como esses docentes explicitam suas percepções acerca da transferência da pesquisa sobre a abordagem cultural dos
conteúdos científicos para o cotidiano das aulas? Como descrevem as práticas de pesquisa que os levam a produzir
novos conhecimentos didático-pedagógicos?
Para encontrar respostas para essas questões, optamos por um caminho metodológico em que realizamos en-
trevistas narrativas não estruturadas com professores que, em suas trajetórias profissionais, articulam a docência com
suas pesquisas individuais e as investigações acerca da história das ciências. Por considerarmos que as narrativas são
construídas a partir dos discursos de outrem e alteram a consciência que o falante têm de si mesmo, optamos pela
análise bakhtiniana dos enunciados proferidos pelos docentes para apreender os sentidos dados à pesquisa e ao papel
que ela exerce na atuação dos professores entrevistados.
Os resultados da análise das narrativas dos participantes da pesquisa revelam que a inter-relação entre pesquisa e
docência propiciou a proposição dos conteúdos de Biologia, Física e Química a partir da perspectiva cultural de práticas
científicas realizadas ao longo da história, além de estimular o debate acerca de controvérsias em relação ao papel de
agentes sociais até então ausentes do relato sobre a construção das ciências.

A Telegrafia Espiritual na Grã Bretanha Vitoriana

Claudia Gimenez Dutra de Abreu (SENAI CETIQT), Tania de Oliveira Camel (EPSJV/Fundação Oswaldo Cruz)

Apesar de se apresentarem sob diversas formas e em variadas circunstâncias, os fenômenos religiosos surgem
como uma forma de colocar ao alcance da ação e compreensão humanas, aquilo que é incontrolável ou sem sentido e
procuram conferir um valor e significado para a existência dos seres em diferentes culturas. 

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Aborda-se nesse trabalho a relação entre ciência e religião e consideram-se a ciência e a religião como aspectos
de um mesmo contexto cultural. Com esse objetivo, esse estudo destaca o diálogo que ocorreu entre a ciência física
vitoriana e a doutrina espiritualista, na tentativa de legitimar a cientificidade da última a partir dos critérios da primeira.
O movimento espiritualista vitoriano representava uma possibilidade de mudança no pensamento de sua época. Ele
combateu o materialismo, analisou os dogmas da religião tradicional e fez da ciência um aliado valioso nas comunicações
com os mortos. O espiritualismo buscou se tornar uma ciência do mundo espiritual, entendendo os fatos sobrenaturais à
luz da ciência de sua época, sob princípios éticos e de veracidade comprovada, sem negação ou aceitação sistemática.
A representação da sobrevivência espiritual dos mortos, podia ser apreciada sob formas diáfanas e expressavam
uma característica da época, na qual a materialidade e fluidez eram explicadas em associação com os conceitos de éter
e energia utilizados, tão em voga, nas ciências físicas.
Embora o Espiritualismo tenha feito muitos adeptos em diferentes meios sociais, chama atenção o fascínio que
ele exerceu no meio intelectual, artístico e científico da época, gerando importantes adeptos: Arthur Conan Doyle, Victor
Hugo, Cesare Lombroso, William Crookes, Cromwell F. Varley, Oliver Lodge, Camille Flammarion, Charles Richet, entre
outros. Para estes intelectuais, a comunicação entre o mundo dos mortos e dos vivos comprovaria a sobrevivência após
a morte e conduziria, portanto, a uma grande transformação. Assim, a formação de uma nova expressão religiosa levaria
os homens a uma existência mais espiritualizada. 
Os cientistas mais importantes a dedicarem-se ao estudo dos fenômenos espiritualistas foram o inglês William
Crookes e seu parceiro Cromwell F. Varley. Eles pesquisaram, sobretudo a materialização, aplicando as práticas cien-
tificas adotadas na investigação dos fenômenos físicos na época à verificação da existência de um mundo espiritual.
Desenvolveram e aperfeiçoaram instrumentos e técnicas para tal objetivo. Estes dois cientistas empreenderam um
dos experimentos mais notáveis da Grã-Bretanha vitoriana, tornando o ano de 1874 um divisor de águas na história do
espiritualismo britânico ao tentarem trazer para o âmbito do natural fenômenos considerados, até então, sobrenaturais.
Este trabalho relata esse experimento e promove reflexões sobre as relações entre o movimento espiritualista e a ciência
vitoriana, na perspectiva da história cultural, no último quarto do século XIX.

Ciência e Imagem nas iluatrações botânicas


de Francisco Freire Alemão

José Felipe Oliveira da Silva (Universidade Federal do Ceará)

O botânico e médico Francisco Freire Alemão (1797-1874) é um expressivo nome da ciência nacional conhecido por
sua atuação na Comissão Científica de Exploração (1859-1861). Entre as atividades que lhe consumia tempo o desenho
de plantas que observava e colhia nas matas estava entre as principais. Darcy Damasceno (1986) destacou que desde
o início de seus estudos havia uma dedicação na produção de esboços com desenhos de espécies arbóreas e florais a
partir de 1834, chegando a estudar desenho. Este procedimento de ilustrar plantas foi impulsionado pela taxonomia de
Carl Lineu em obras como Systema Naturae (1735) e Species Plantarum (1753). Lineu desenvolveu um sistema coeso e
operante ao privilegiar os caracteres reprodutivos, utilizando uma nomenclatura binominal (gênero e espécie). Instituiu
uma linguagem universal organizando as espécies por critérios morfológicos. O Sistema da natureza lineano impôs um
parâmetro visual de identificação e classificação. (PRATT, 1999, pág. 56). No Brasil, a primeira obra de grande fôlego nesse
sentido foi a monumental Flora Fluminense (1783-1790) de Frei Mariano da Conceição Veloso. Esta foi referencia para Freire
Alemão em sua diligência no fomento de uma tradição de ilustração e desenho botânico no país. Como membro fundador
da Sociedade Velosiana de Ciências Naturais (1850) demonstrou seu objetivo em instaurar um periódico ilustrado. Estas
estampas tinham papel fundamental no processo de circulação de conhecimentos. Os desenhos assumiam o papel de
“substitutos” ou mesmo de exemplares de plantas numa rede de mobilização de espécies e informações entre cientistas
em diferentes espaços e contextos. Como acontecia na correspondência entre Alemão e Martius e outros cientistas
europeus. O fato dos desenhos deverem ser feitos á vista das plantas tem rebatimento no procedimento da autopsia como
ferramenta de evidencia científica em botânica. O lugar do sentido da visão na construção do conhecimento científico,
segundo Foucault, tem proeminência, pois a história natural não é nada mais que a nomeação do visível. Entretanto,
não se trata de simples cópia, mas de estabelecer estruturas de visibilidade – a estrutura botânica (FOUCAULT, 2000,

160
pág. 184). Nessa perspectiva, temos como escopo de estudo a partir dos desenhos de Freire Alemão a construção de
uma visualidade para o mundo natural instituída pela história natural. Suas principais obras com desenho de plantas são:
Estudos botânicos (1834-1866) representam em 19 volumes o resultado de toda uma vida de observação, esboços e
descrição de diversas espécies de plantas; assim como Flora Cearense (1859-1861) reúne suas notas e desenhos de
plantas em sua expedição ao Ceará numa obra de 09 volumes. Diante do exposto, cabe ressaltar o objetivo deste estudo
na compreensão da experiência histórica da visualidade não apenas como um repositório de realidades externas, mas
em sua dinâmica específica na medida em que entende o visual numa dimensão abrangente do Social.

Contexto histórico e paralelismo entre relatividade restrita e cubismo

Jakelyne Lima dos Reis (UFBA-UEFS)

A Ciência e a Arte são invenções humanas que refletem em suas criações, cada uma à sua maneira, visões de
mundo frutos de um determinado contexto histórico e social. Desse modo, é natural a existência de conexões entre os
conhecimentos científicos e artísticos de um determinado período histórico, cujas produções, apesar de suas especifici-
dades, se tocam, dialogam e se influenciam mutuamente. O início do século XX foi marcado por profundas mudanças na
Ciência e na Arte, dentre os quais podemos destacar o surgimento da teoria da relatividade e o cubismo. Um aspecto
importante nas possíveis conexões entre essas duas culturas é que essa abordagem permite uma melhor contextuali-
zação dos aspectos históricos e culturais da produção intelectual humana, evitando, assim, uma visão segmentada do
conhecimento. A teoria da relatividade e o cubismo são ápices de movimentos que provocaram uma ruptura com deter-
minada visão de mundo até então dominante em suas respectivas áreas. Desse modo, cabe o seguinte questionamento:
de que maneira podemos fazer um paralelismo entre a história da TRR e a do Cubismo? O presente trabalho tem como
objetivo principal procurar pontos de contato entre a teoria da relatividade restrita (TRR) e o cubismo, explorando suas
relações e estabelecendo um paralelismo entre ambos, cujas semelhanças são amplamente reconhecidas. As conexões
entre a física moderna e a arte moderna podem ser pensadas como a necessidade de investigação de novas formas de
representação de uma realidade mais fundamental que a realidade aparente. Na arte, temos o cubismo que surge com
novos conceitos de representação no espaço pictórico, é um movimento artístico de vanguarda que surgiu em Paris na
primeira década do século XX e que teve como principais expoentes nas artes plásticas o espanhol Pablo Picasso e o
francês Georges Braque. Na Física, a TRR, proposta por Albert Einstein, surgiu modificando conceitos que perduravam
por mais de 200 anos mantidos pela Mecânica Clássica e nos ofereceu uma nova forma de ver o mundo. Saímos de
um espaço em que as medidas de comprimentos e tempo eram absolutas e passamos a considerá-los relativos. Não
há dúvida de que tanto a teoria da relatividade quanto o cubismo possibilitaram abrir novas frestas sobre a constituição
da realidade, na busca humana de tentar entender o mundo e o lugar que ocupamos nele. Esse entrelaçamento entre
ciência e arte se mostra particularmente óbvio na maneira como a TRR e o cubismo investigam a natureza do tempo e
do espaço nas suas respectivas áreas. A TRR introduziu na física a ideia de que espaço e tempo são conceitos relativos
e interdependentes, quebrando assim com a separação radical entre eles, presente na física clássica. Já no cubismo, o
espaço pictórico e as figuras representadas em uma pintura, aparecem fragmentados em múltiplos planos geométricos,
obliterando a noção de tempo tal qual aparecia na arte clássica.

O debate sobre heliocientrismo na Revolução Científica revisitado:


revelando apagamentos através da abordagem da História Cultural
da Ciência

Emanuel Martins Cardoso (CEFET-RJ)

A Historiografia da História das Ciências é um campo de constantes disputas. Conforme Videira (2007), as mudan-
ças pelas quais passou esse campo são inúmeras e, por vezes, acompanham as transformações sofridas na área das
ciências sociais e humanas ou ainda as movimentações da própria disciplina científica de referência. Nesse movimento,

161
a historiografia da História das Ciências se constrói no encontro com outros campos de conhecimento, como é o caso
da História Cultural das Ciências (HCC), que, de uma forma geral se dedica a estudar as ciências a partir da perspectiva
das práticas e representações científicas (Pimentel, 2010). Isso representa muitas vezes um deslocamento do foco
de análise da narrativa principal do episódio histórico para elementos e agentes subalternizados em outras correntes
historiográficas. Neste sentido, há compreensão de relações interpessoais, institucionais e políticas, a cultura material
e representacional e as práticas como constituintes do fazer científico.
Investigações com origem na literatura de viés decolonial vêm mostrando que muitos conhecimentos considerados
parte da ciência moderna europeia foram produzidos a partir da lógica da apropriação/violência (Santos, 2007), seja na
relação com as colônias, no período das grandes navegações e o imperialismo que se seguiu, seja dentro da própria
ciência europeia, com a hierarquização de relações (de etnia, gênero, entre outras), de maneira que foram produzidos
apagamentos nas “histórias oficiais”.
A partir dessas considerações analisamos a narrativa que credita a Copérnico o papel de vanguardista da chamada
Revolução Científica com a proposição do modelo de mundo heliocêntrico. Trazemos ao debate análises historiográficas
que levam em consideração a existência dessas ideias e modelos no mundo árabe séculos antes, indicando que Copérnico
desenvolveu seu trabalho em diálogo com saberes de outra cultura. Entre outros aspectos, abordamos a utilização por
Copérnico de um dispositivo matemático conhecido como Par de Tusi, que por sua vez não foi utilizada apenas por ele,
mas era difundido em alguns lugares da Europa.
A partir deste estudo de caso, discutimos a importância de analisar, nas investigações históricas, não apenas os
documentos oficiais, mas também as práticas e representações envolvidas e seus contextos. Isso permite um panorama
da produção científica capaz de questionar perspectivas eurocêntricas para eventos da história da ciência. Abordamos
uma perspectiva na qual a questão da autoria põe-se como elemento cultural central para discussões no campo da
História da Ciência que visem dar lugar a análises que tratem povos e culturas sob um olhar libertário e não repressivo
ou manipulador (Said, 2007), alinhado com o pensamento decolonial.
Pretendemos com isso ressaltar a característica de circulação de informação e encontro de culturas que está pre-
sente historicamente na produção de conhecimento científico, evitando narrativas triunfalistas sobre “heróis” nas ciências
.

O estudo do corpo humano através da História Cultural da Ciência:


discutindo o intercâmbio entre árabes e europeus

Priscila do Amaral (CEFET/RJ)

Este trabalho tem por objetivo apresentar os resultados de uma pesquisa realizada com estudantes do ensino
fundamental da rede pública do Rio de Janeiro, que analisou que questões sobre as ciências emergiram em sala de aula,
a partir de uma abordagem histórica para o estudo do corpo humano, no período do Nascimento da Ciência Moderna.
A abordagem historiográfica utilizada foi a História Cultural da Ciência.A partir dessa escolha, demos atenção, nas dis-
cussões realizadas em sala de aula, em práticas científicas do período, como as traduções de textos e divulgação do
conhecimento científico. 
Nesse caminho, a atenção foi para o estudo da circulação, a partir do destaque das principais contribuições do
médico islâmico Ibn Al-Nafis (1213-1288) e as contribuições de Abu Ali al-Hasan Ibn Al-Haitham, também conhecido
como Alhzen (965-1040), para os estudos sobre a visão e como estes estudos relacionam-se ao contexto do nascimento
da ciência moderna na Europa. 
As atividades realizadas durante a pesquisa com os estudantes buscaram discutir a importância do encontro da
cultura islâmica e europeia para o estudo do corpo humano e que no intercâmbio entre essas culturas a tradução de
textos teve uma função essencial, assim como as técnicas e instrumentos levados para a Europa pelos cientistas do
mundo islâmico. 
As atividades foram realizadas em turmas de oitavo ano, em dois momentos do ano letivo: quando tratamos do
Sistema Circulatório e da Circulação e quando tratamos dos cinco sentidos, abordando a temática da visão. As atividades

162
em sala incluíram discussão sobre as expectativas dos alunos sobre os temas abordados, a utilização de pinturas de
artistas retratando atores sociais e práticas para a discussão sobre o contexto do nascimento da ciência moderna na
Europa. Além disso, foram realizadas aulas expositivas e atividades com estudantes procurando discutir com os mesmos
as questões que mais despertaram sua atenção e interesse.
A análise dos dados mostrou que o trabalho histórico a partir da discussão da contribuição árabe não apenas
motivou os estudantes, como permitiu diversificar as perspectivas sobre o estudo do corpo humano e discutir com os
estudantes que as ciências se constroem a partir do encontro de diferentes culturas.
Referencias
BURKE, P. O que é a História Cultural? Jorge Zahar, São Paulo, 2005. 
BURKE, P.; HSIA, R. P. A tradução cultural. Zahar , São Paulo, 2005.
GUERRA, A.; BRAGA, M. The Name of the Rose: A Path to Discuss the Birth of Modern Science. Science & Edu-
cation, p. 643–654, 2014. 
KAF AL-GHAZA, S. Ibn al-Nafis and the Discovery of Pulmonary Circulation. Foundation for Science Technology and
Civilisation, p. 1–7, 2007. 
PIMENTEL, J. ¿Qué es la historia cultural de la ciencia? What is the cultural history of science? ARBOR Ciencia,
Pensamiento y Cultura, v. 74, p. 417–424, 2010. 
TOSSATO, C.R. A função do olho humano na óptica do final do século XVI, Scientiae Studia, São Paulo, v. 3, n. 3,
p. 415-441, sep. 2005. 

O olfato como objeto de História: a estética dos cheiros

Palmira Margarida Ribeiro da Costa Ribeiro (UFRJ)

Este trabalho tem como objetivo propor a historiografia dos cheiros, através das perspectivas das sensibilidades
e da História das Ciências e, nesta, para além a interação com o tema saúde. O sentido olfativo como objeto de estudo
é permeado por preconceitos e, muitos desses, fomentados pela própria história e avanço do homem na era da razão.
Os cheiros são tratados como irrelevantes ou frivolidades e, por isso mesmo, de menor importância coletiva ou social.
No entanto, eles exalam histórias e costuram narrativas e memórias, já que, de todos os sentidos, o olfato é o que está
relacionando diretamente e biologicamente à memória. 
A re-negação do sentido olfativo nos estudos historiográficos e nas ciências (por um longo período) levanta questões
pertinentes sobre nossa cultura e comportamento no Brasil. Diante do silenciamento dado aos aromas sua apresentação
de forma material e menos sublimar faz-se necessária. Aqui, uma tentativa de enfrascar ser tão etéreo a fim de analisar
sua importância que se faz, silenciosamente, presente em nossas vidas e concepções. 
Na historiografia brasileira há estudos sobre a introdução dos produtos industriais de higiene pessoal no país e de como esse
fator está em consonância com o movimento de modernidade e o processo civilizatório nacional. Todavia, há poucos trabalhos
de historiografia inclinados, diretamente, à questão dos odores, na mudança da sensitividade olfativa e de sua perda sensorial.
Cheiros ainda estão presos ao aspecto higiênico sendo preciso transpor essa barreira no mundo acadêmico brasileiro.
Linda B. Buck e Richard Axel ganharam o prêmio Nobel, em 2004, ao mostrarem que a cadeia de receptores olfatórios
pertencem a uma família de genes composta por oitocentos genes humanos, a maior até agora já estudada. Como um
estudo de tamanha importância ainda é apenas alocado à saúde quando o assunto é ciência? 
Assim, esta pesquisa pretende analisar e compreender como o olfato industrializado influenciou não apenas o
aspecto modernizador nacional, mas também as questões inerentes ao imaginário, aos modos e comportamentos, o que
pode ser observado pelas transformações nos hábitos que vão desde limpeza corporal até categorizações, por exemplo,
sobre o corpo da mulher ou a forma como lidamos com nossas fezes. Essas questões de cunho sensível e inerentes ao
cheiro podem ser investigadas junto à arte e à literatura brasileira, como fontes para seguir o rastro dos aromas. Elas
podem auxiliar a esmiuçar como ocorreu a amplificação do mercado de consumo da indústria de perfumaria/ higiene de

163
uma população que se tornou, no século XXI, um dos maiores mercados consumidores do ramo. Não é à toa que obras
artísticas e literárias que trazem a pungência do erotismo, dos excrementos e dos instintos são barrados por nossos
olhos, ouvidos e boca e retirados dos museus. O nariz civilizado, tristemente, aceita. 

Um corpo que dói: representações barrocas e performances


contemporâneas Olhares sobre a arte, nas fronteiras com a ciência

Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor (Pesquisador em Saúde Pública)

Pensar a dor como uma experiência humana, das mais radicais, aponta para tomá-la em um largo espectro
epistemológico, o que se apresenta, de saída, como um expressivo desafio crítico, sobretudo se considerarmos esse
domínio nos espaços fronteiriços entre a ciência e a arte. No escopo deste Simpósio, voltado para a problematização
da História Cultural da Ciência, interessa-me, de modo particular, investigar de que modo as relações entre a ciência
e a arte – compreendidas como modos particulares de produção de conhecimento, à luz de uma visada deleuzeana
– possibilitam tensionar formas de interpelação do mundo, ponto de partida de toda construção científica e estética.
Em desdobramento desse objetivo mais amplo, busco compreender como essas relações podem impactar processos
formativos em iniciação científica no Ensino Médio, ressignificando a História Cultural da Ciência como espaço potente
e privilegiado para essa empreitada. 
A estética barroca sustentou tensões oriundas da relação do Homem com o Divino, em sua permanente inquietação
existencial frente ao julgamento de Deus, como também da herança renascentista, a qual reposicionou esse mesmo
Homem, diante de sua própria força, vitalidade, corporeidade, em afirmação potente de si mesmo no mundo à sua volta.
Nesse sentido, as representações barrocas revelam esses tensionamentos entre a dimensão da espiritualidade humana
e a afirmação de sua contingente corporeidade, resultando em imagens que manifestam, por conseguinte, angústia,
sofrimento, dor. Por outro lado, a performance, com suas potencialidades enquanto uma “linguagem urgente” e interativa
ao extremo, tem atualizado, na cena contemporânea, a presença de corpos expostos e violentos, fazendo do efeito do
“choque” um dispositivo central na experiência estética.
O presente estudo busca investigar – por meio da análise da imagem de Nossa Senhora das Dores, tal como
representada por Aleijadinho (1730-1814) – em diálogo com outras representações iconográficas dessa santa -, do
quadro “A lição de anatomia do Doutor Tulp” (1632), de Rembrandt (1606 – 1669) e da performance “Quando todos
calam” (2009), da artista paraense Berna Reale, de que modo as representações de corpos em sofrimento e/ou de
corpos inertes, expostos ao olhar do outro, são capazes de provocar a perplexidade, a inquietação, a curiosidade e a
criação humanas, tão inerentes ao fazer científico e estético. Como comenta Márcio Seligmann-Silva, a propósito da
urgência de se pensar as expressões da dor na esfera da arte, em tempos de hoje, “cabe a nós dialogar com a “arte da
dor”, que pode nos mostrar não apenas como pensar as fraturas de nossas identidades, mas também pode justamente
nos ensinar a não esperar respostas completas e prontas para os desafios impostos pelo convívio em uma sociedade
agredida pelas violências tecnológica, urbana e social (...) O campo do estético não pode mais ser pensado independente
do ético”. (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.44).

“No tom que faz a vida”: música e fisiologia na literatura médica


francesa (1750 – 1789)

João Luiz Garcia Guimarães (Fiocruz)

Algumas formas de representação do corpo humano e do seu modo de funcionar na medicina francesa do século
XVIII gozaram de uma curiosa relação com os saberes acústico-musicais em construção naquele momento. A comunicação
objetiva expor, analisar e discutir as relações construídas entre conceitos médicos e musicais no imaginário intelectual
do iluminismo francês. Figuras François-Nicolas Marquet (1687 – 1759), Pierre-Joseph Buchoz (1731 – 1807), Jean-

164
-Joseph Ménuret de Chambaud (1739 – 1815), Joseph-Louis Roger (m. 1761) e Samuel André Auguste David Tissot
(1728 – 1797) construíram, de diferentes formas, analogias anatômicas e fisiológicas com instrumentos musicais ou
fenômenos acústicos, muitas vezes utilizando conceitos recém-criados nesses campos. 
A maior parte dos médicos que foram mencionados aqui avançou o que poderíamos chamar de verdadeiras pro-
postas de terapia musical, cada uma delas refletindo diferentes opções teóricas e diferentes experiências individuais que
marcaram as suas compreensões sobre o papel da música na saúde dos indivíduos. Nesse sentido, os textos transpare-
cem as tensões de uma cultura musical em pleno processo de transformação; essas experiências culturais contribuíram
com igual intensidade na formulação das propostas de Tissot, Roger e Ménuret, que revelam as diferentes formas com
que estes autores viveram e interpretaram as mudanças no gosto musical e na concepção do que era a música em seu
tempo. Diante disso, buscamos formular uma compreensão das analogias e conexões médico-musicais produzias por
estes autores, de modo a construir uma explicação dos fatores sociais e culturais que possivelmente contribuíram para
dar sentido às relações entre música e medicina em suas respectivas obras.
Concluímos que a terapia musical na França foi fortemente influenciada, do ponto de vista teórico, por dois ele-
mentos: a fisiologia das fibras e a popularização das teorias harmônicas, sobretudo a partir da obra de Jean-Philippe
Rameau (1693 – 1764). Ao mesmo tempo, as explicações de Ménuret, Tissot e Roger incorporam diferentes reflexões
sobre o gosto musical francês e tentam conciliar a prática terapêutica com as tensões sociais que se faziam sentir no
mundo musical naquele momento, em que os defensores do estilo francês – ligado à monarquia e ao ritual de corte – e
do estilo italiano – defendido pelos enciclopedistas – se digladiavam na imprensa e nos teatros. 

165
ST 18. História cultural das ciências: teorias, métodos
e abordagens para o século XXI

A influência das crenças religiosas e espirituais na saúde física


e mental de adultos de meia idade e idosos em Juiz de Fora –
um estudo sob a perspectiva do COPING religioso espiritual
e do inventário de religiosidade intrínseca

Washington Francisco Londres (Univesridade Federal de Juiz de Fora)

A proposta desta pesquisa é identificar e compreender a influência que as diferentes crenças e religiosidades exercem
sobre a comunidade idosa em Juiz de Fora, especificamente sobre assuntos que dizem respeito à saúde física e mental
destes indivíduos. Neste sentido, a aplicação de escalas de religiosidades nestes grupos tornam-se mister para que possa-
mos entender até que ponto a tradição já consolidada por eles influenciam nos diagnósticos e prescrições médicas. Como
método, utilizamos a revisão bibliográfica e consulta de acervos físicos e eletrônicos para fomentar os passos seguintes
deste trabalho, que consistiu no cadastramento dos órgãos que concentram em seus atendimentos o perfil da população
estudada. Foram cadastrados os indivíduos para entrevista tomando como base a idade e o vinculo constante em algum
serviço de saúde regular; foi aplicado o termo de consentimento e livre esclarecido e na sequencia, realizada uma entre-
vista para a aplicação do questionário Coping Religioso-Espiritual (CRE) e do Inventário de Religiosidade Intrínseca (IRA).
O pesquisador ficou à disposição para entrevistar individualmente os usuários dos serviços de saúde e acompanhou
momentos de salas de esperas, grupos de ginásticas e oficinas terapêuticas e fez observação de campo.
O estudo entrevistou 20 indivíduos ligados a serviços de saúde pública, privada e filantrópica da cidade de Juiz de
Fora, MG, entre 2016 e 2017.
Foram analisados o perfil patológico, farmacológico, social e fenotípico através de uma entrevista guiada por questionário.
Na análise patológica verificamos a presença das doenças de base e seus principais cuidados atrelados à farma-
cologia convencional.
Na análise social e fenotípica verificamos questões ligadas à escolaridade, atividade laboral, renda e etnia.
A obtenção desses dados serviu para traçar o perfil dos entrevistados e nos direcionou a um cruzamento de dados
tomando como base às respostas recolhidas do CRE e IRA, atrelada as informações físicas e sociais além das observações
de campo, onde verificamos a ocorrência de influencias de aspectos espirituais e religiosos em adultos de meia idade e
idosos da cidade de Juiz de Fora, MG, inseridos em programas de saúde.

A Razão Mundanizada – ciência e teorias da ciência nas entrelinhas


da literatura de massas: o caso dos métodos investigativos nos
contos de Edgar Allan Poe ou Epistemologia e Indústria cultural

Francisco de Assis Pinto da Silva (UFBA)

Projeto em desenvolvimento no Doutoramento em “Ensino, História e Filosofia da Ciência” (UEFS/UFBA), 2017. O


autor propõe ser possível identificar um diálogo entre cultura erudita e cultura de massas, a primeira na forma de teorias
da ciência e a segunda na forma de narrativas de ficção policial. O estudo busca abranger o final do século XIX. O traba-
lho tem por objetivo identificar em três contos policiais, representativos do gênero, elementos essenciais de teorias da
ciência que tenham sido produzidas durante o período. Uma das metodologias utilizadas é a análise textual na tradição
marxiana (e da História Social Inglesa e Escola de Frankfurt). Três contos de Edgar Allan Poe são investigados. A questão
que nos mobiliza é: O Romance Policial (RP) reflete, nos métodos investigativos utilizados pelos seus personagens na
ficção, os sucessivos e variados métodos e teorias investigativos da história da ciência ocidental? Argumentarei que o RP
166
exerceu, entre outras, a função de educar e difundir de forma implícita entre a massa, procedimentos mentais (métodos
e teorias) que foram decisivos para a popularização da modernidade, do tecnicismo e do cientificismo típicos do pensar
moderno. Portanto, explicitando a solução proposta acima, o gênero em questão, o RP, foi uma das escolas das massas
quanto aos mecanismos do pensar e à valorização que o discurso científico passa a possuir ao longo da contemporanei-
dade. O RP teria sido, por assim dizer, um “paradidático” do cartesianismo, ou do evolucionismo social, ou do positivismo,
ou do vitalismo e, portanto, da percepção do que “deveria ser” e do “como deveria ser” ciência. Portanto, em síntese, se
o RP surgiu junto com a revolução técnico–científica do século XIX, então ele provavelmente possui uma estrutura sim-
bólica claramente interpretável como sendo identificada com os parâmetros (teorias e procedimentos acima citados) da
modernidade cientifica. De fato, outra maneira de identificar o nosso problema seria defini-lo como a perseguição, dentro
da estrutura cognitiva do romance policial, do percurso da razão instrumental, de seu apogeu ao seu questionamento.

Corpo caiçara e suas raízes. 1975-2015

Bruno Tavares Magalhães Macedo (PPGH/UFF)

Caiçara é uma prática de construir cercados. Palafitas de proteção da aldeia indígena contra invasores, humanos
ou da vida selvagem. Serve também para proteger a roça contra os animais silvestres ou de criação. Usa-se para formar
armadilhas para pega do peixe. “Juca acordando cedo, visitando o cerco e Manezinho saindo pra tirar taquara”. (Perequê,
1992) Da taquara costuma ser feita a caiçara. Caiçara é também um sujeito social e político que nasce no contexto contem-
porâneo de resistência cultural à ocupação do território por projetos econômicos e ambientais recentes. É a transformação
do caboclo rural, habitante da mata atlântica, em sujeito cultural da modernidade tardia. “Quando alguém perguntar quem
foi que cantou aqui, diga que foi Caiçara morador de Paraty” (Os Caiçaras, 2012), diz a ciranda atual. Mas não foi sempre
assim. Vejamos como Sergio Buarque de Hollanda descreveu certas práticas deste antigo sujeito social brasileiro. 
“Outros costumes, como o do muxirão ou mutirão, em que os roceiros se socorrem uns aos outros nas derrubadas
de mato, nos plantios, nas colheitas, na construção de casas, na fiação do algodão, teriam sido tomados de preferência ao
gentio da terra e fundam-se, ao que parece, na expectativa de auxilio reciproco, tanto quanto na excitação proporcionada
pelas ceias, as danças, os descantes e os desafios que acompanham obrigatoriamente tais serviços. Se os homens se
ajudam uns aos outros, notou um observador setecentista, fazem-no “mais animados do espirito da caninha do que do
amor ao trabalho”. (Hollanda, 1969, p. 60).
O Caiçara é a positivação contemporânea que busca reverter este imaginário antigo de certo caboclo indolente e
preguiçoso. A imagem medieval do camponês ladino, Pedro Malazartes, vivendo na contemporaneidade, como conta
Dona Ruth, “gente de unha dente, com bunda atrás e nariz na frente” (Guimarães, 2006). Identificado em certas nar-
rativas como aventureiro, mandrião ou larápio. Avesso de um bom trabalhador da sociedade moderna. Em Raízes do
Brasil encontramos esse Malazartes brasileiro descrito como signo de uma identidade negativa, na qual o autor enxerga
refletidos os valores culturais de uma aristocracia rural abastada, construídos sobre um indianismo literário romântico,
representado em “sua ociosidade, sua aversão a todo esforço disciplinado, sua imprevidência, sua intemperança, seu
gosto acentuado por atividades antes predatórias do que produtivas” (1969, p. 56). Então, como pôde o Caiçara con-
temporâneo tornar-se signo de um povo da floresta no século XXI? Por que ele é elencado pela ciência como agente na
nova ordem ecológica das relações culturais da humanidade com a natureza? 

O problema da história da ciência como disciplina da História


e os possíveis diálogos com a história cultural 

Moema de Rezende Vergara (Museu de Astronomia e Ciências Afins),


Victor Rafael Limeira da Silva (Universidade Federal da Bahia)

O problema da integração dos historiadores da ciência com os historiadores em geral foi analisado a partir de múltiplos
fatores por T. Kuhn, K. Gavroglu, Roberto Martins, Carlos Maia e outros/as. Essas reflexões produziram um sumário de causas
e implicações pertinente tanto para a história da ciência em suas diversas abordagens como para historiadores das ideias,
167
da economia etc. interessados em fazer uso da historiografia da ciência em suas análises históricas. Tal empreitada, porém,
não se lançou na problematização dos próprios termos que definem os campos em si, por isso, questionamos sobre qual
noção de história seria mais útil aos historiadores da ciência de um ponto de vista teórico-metodológico, e de que percepção
de ciência, e de estudo do seu passado, os historiadores tout court poderiam se apropriar. Discutiremos tais questões com
o objetivo de cercar o problema da lacuna entre história da ciência e o campo da História a partir de possíveis contribuições
da história cultural das ciências. Essa perspectiva não desconsidera que o isolamento da história da ciência reverbera em
todas as abordagens, e não defende uma solução universal para uma querela cujas raízes remontam à trajetória de cada
disciplina, mas aporta uma leitura que retoma a história da ciência no escopo da história cultural como um caminho para
diminuir a incompreensão da ciência por parte dos historiadores e o desconhecimento das idiossincrasias do métier histórico
por parte dos historiadores da ciência. Se a ciência é um produto da cultura de um grupo social localizável, pensamos nas
consequências positivas de uma análise histórica das culturas científicas, e refletimos se a conceitualização da ciência como
objeto da história cultural pode afetar a interação de historiadores da ciência e historiadores tout court. Argumentaremos
que a amplitude com a qual a história cultural pode abordar a ciência torna possível uma reconceitualização da história da
ciência considerando a traduzibilidade de teorias e métodos da historiografia para o estudo da ciência, ou seja, a construção
de um vocabulário teórico-metodológico compreensível para ambos historiadores da ciência e não especialistas. Por fim,
almejamos demonstrar que uma construção teórico-metodológica da história cultural da ciência útil para o contato entre
história da ciência e outras disciplinas históricas se estrutura em alguns pressupostos: não se confina ao corte normativo
da epistemologia e nem almeja o seu papel, mas vislumbra ser uma narrativa histórica ipsis litteris; considera que para ser
efetivamente história da ciência deverá estudar aspectos das diversas ciências, incluindo as humanas; e afirma que para
manter seu potencial crítico nem poderá endossar a legitimação filosófica universal da ciência nem a suspensão ou relativi-
zação desta como na sociologia da ciência, a qual almeja partilhar da cientificidade do conteúdo científico que visa analisar.

Uma análise introdutória às práticas e saberes científicos no caso


da moléstia da cana de açúcar da província da Bahia (1866-1875)

Vinicius Santos da Silva (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

O objetivo geral desta comunicação é apresentar, contextualizar, analisar e colocar para ampla socialização e discussão
as medidas e ações implementadas pelos espaços institucionais imperiais para o combate e luta pela erradicação da moléstia
da cana de açúcar na Província da Bahia, entre os anos de 1866-1875. Para tanto, apresentaremos as articulações políticas e
as práticas e saberes científicos, calcados nos princípios teóricos e metodológicos da química a agrícola e fisiologia vegetal,
utilizados pelos agentes vinculados aos espaços institucionais imperiais e que cadenciaram a campanha para combater e
erradicar a moléstia da cana de açúcar na Província da Bahia. Salientamos que a indústria açucareira desde período colonial
à metade do governo imperial foi um dos principais pilares do desenvolvimento financeiro na história econômica do Brasil.
Por conseguinte, em detrimento respectivamente de fatores como à concorrência do açúcar de cana antilhano e do açúcar
de beterraba europeu, assim como, a necessidade de aprimoramentos tecnológicos à produção, o açúcar brasileiro, em
espacial o baiano, principal zona produtora e fornecedora do Brasil para o mercado interno e externo, enfrentou crises
durante o século XIX. Dentre estas encontra-se a manifestação, a partir de 1866, de uma moléstia que atacou e causou
sérios prejuízos aos canaviais do polígono da cana de açúcar da Província da Bahia, o Recôncavo. A moléstia, notificada
oficialmente através do relatório do Vice-Presidente da Província da Bahia, Pedro Leão Velloso, em outubro de 1866, teve
seu primeiro caso registrado nos canaviais do município de Nazaré, região localizada no Recôncavo sul da Bahia. Diante
deste caso, ações e medidas, subsidiadas pelo conhecimento científico, foram colocadas em exercício por Pedro Leão
Velloso, entre meados de 1866. No entanto, a moléstia continuava a causar estragos não só à lavoura de Nazaré, como
também, avançou para outros canaviais do Recôncavo baiano. Perante esta situação, a administração provincial da Bahia
solicitou apoio ao Governo Imperial para auxiliar a solucionar o problema. Por sua vez, o Governo Imperial expressou seu
apoio através do Ministério, de Agricultura, Comércio e Obras Públicas (MACOP). Foi por meio do MACOP que uma ampla
campanha de combate e luta para a erradicação da moléstia da cana de açúcar da Província da Bahia foi posta em exercício
a partir de 1867, através da atuação das instituições que estavam sob a sua chancela, o Imperial Instituto Fluminense
de Agricultura (IIFA), Imperial Instituto Baiano de Agricultura (IIBA). Diante do exposto, esta comunicação apresentará e
analisará as medidas e ações políticas tomadas, fundamentadas no papel hegemônico das práticas e saberes científicos
para a busca pela resolução do problema da moléstia da cana de açúcar na Província da Bahia.

168
ST 19. História da comunicação pública da ciência no Brasil

Articulações entre Ciência, Política e Sociedade: as contribuições


de Darcy Fontoura de Almeida

Thaís Patrícia Mancilio da Silva (Fiocruz)

Ao deparar-se com o campo político e científico dos anos finais da ditadura civil-militar brasileira, e com o processo
de abertura política e restabelecimento democrático, observa-se uma mobilização no seio da comunidade científica.
Diversos movimentos empenhavam-se na busca por uma maior difusão do conhecimento científico. Algumas das ini-
ciativas com maior visibilidade decorriam de ações da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), criada
em 1948. Desde sua origem a SBPC buscava estimular a interação entre cientistas, pesquisadores e educadores a fim
de fortalecê-los frente às interferências do governo, além do interesse em congregar cientistas de diversas áreas a fim
de propiciar uma melhor comunicação da produção científica nacional. Ao longo da década de 80, marcada pelo final do
regime militar e pela retomada da democracia, essas iniciativas intensificaram-se, dando início a diversos projetos que
buscavam alcançar públicos variados. O presente trabalho busca analisar a relação entre ciência e sociedade a partir
da atuação do cientista Darcy Fontoura de Almeida, um dos atores e articuladores em ações de divulgação científica na
segunda metade do século XX. Destaca-se o seu trabalho na organização e edição de projetos como a Revista Ciência Hoje
e o Informe Ciência Hoje, importantes meios de divulgação científica, e inseridos nas ações da SBPC. Acredita-se que tal
análise detém de potencial para compreender as relações e intencionalidades de uma parcela da comunidade científica
brasileira no período seguinte à Ditadura Militar e as contribuições dessas publicações para a difusão do conhecimento,
fortalecimento e integração da comunidade científica brasileira. Busca-se também entender a relação dessas notícias
com a sociedade, propiciando olhares críticos para problemáticas nacionais que extrapolam o mero debate no âmbito das
ciências naturais. Como metodologia optou-se pela análise das edições dos periódicos Informe Ciência Hoje/ Jornal da
Ciência Hoje, possibilitando o reconhecimento dos discursos empregados nesses projetos. Além disso, será realizado um
levantamento dos arquivos pessoais do cientista Darcy Fontoura de Almeida e a utilização de entrevistas e fontes orais.

Entre imagens: a comunicação científica elaborada por César Pinto,


1940

Ana Claudia de Araújo Santos (Universidade Federal da Paraíba)

A comunicação científica é um processo desenvolvido no âmbito da produção do conhecimento científico, que


contempla o momento desde a do que será pesquisado até a publicização dos resultados para a comunidade científica,
diz respeito à transferência de informações científicas, tecnológicas ou associadas a inovações e que se destinam aos
especialistas em determinadas áreas do conhecimento (BUENO, 2010, p.02). Essa transferência de informações ocorre
por meio de diversos recursos comunicacionais, como a fala, a escrita, ou qualquer outro tipo de documento que possua
materialidade ou não, como no caso dos documentos digitais, por exemplo. No âmbito desses recursos comunicacionais,
a disponibilização do conhecimento científico é realizada a partir de vários tipos de documentos, aqui entendidos como
toda produção que emite uma mensagem por meio da escrita, imagens ou sons, e que foram produzidos com o intuito
de se divulgar ou comunicar um dado conhecimento produzido. Nesse sentido, o presente texto tem como objetivo apre-
sentar o processo comunicacional visual elaborado e desenvolvido por César Ferreira Pinto – um pesquisador e biologista
do Instituto Oswaldo Cruz, que se dedicou a desenvolver pesquisas na área da Helmintologia, nos quais se destacam os
estudos sobre a biologia do Schistosoma mansoni, fundamentado exclusivamente num conjunto de imagens – ilustrações
científicas (desenhos e fotografias) – , ratificando a importância da utilização de uma linguagem visual para a representa-
ção do conhecimento científico. Nesse contexto, destaca-se que sempre houve uma comparação entre texto e imagens
havendo uma falsa dicotomia de que o primeiro é superior e que se sobrepõe ao segundo (GRUSZYNSKI, CASTEDO,

169
2008, p. 04). Assim, é difícil, portanto, diminuir ou ignorar a importância das imagens no processo de construção de
conhecimento (GRUSZYNSKI, CASTEDO, 2008, p. 04). Destarte, a pesquisa em tela possui uma abordagem qualitativa,
para a compreensão e entendimento de um fenômeno social e complexo (SAMPIERI, 2006) com um enfoque descritivo,
buscando especificar propriedades e características importantes de qualquer fenômeno que se analise (SAMPIERI, 2006,
p. 102), nesse caso a linguagem visual elaborada por Pinto. Ademais, intenta-se, com essa discussão, contribuir para o
desenvolvimento de investigações que contemplem a temática aqui apresentada. 
Referências:
BUENO, Wilson Costa. Comunicação científica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais.
Informação & Informação, Londrina, v. 15, n. esp, p. 1 – 12, 2010. Disponível em: www.uel.br/revistas/uel/index.php/
informacao/article/download/6585/6761. Acessado em: 17abr. 2018. 
GRUSZYNSKI, Ana Cláudia; CASTEDO, Raquel. Comunicação científica e cultura visual: desafios para a publicação
de periódicos on-line. Lumina, Juiz de For a, vol.2 • nº2, Dezembro, 2008.
SAMPIERI, Roberto Hernández. Metodologia de pesquisa. 3ª ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2006.

Gastão Pereira da Silva, Álvaro Negromonte e a popularização


da educação sexual nas fronteiras entre psicanálise e catolicismo

Carolina da Costa de Carvalho (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

A proposta desta comunicação é apresentar alguns diálogos e negociações entre psicanálise e religião em torno
da educação sexual a partir de dois personagens que se destacavam no cenário público enquanto representantes dos
respectivos discursos: o psicanalista carioca Gastão Pereira da Silva (1897-1987) e o padre pernambucano Álvaro
Negromonte (1901-1964). Adotando como quadro teórico uma produção historiográfica sobre popularização e comu-
nicação científica (Karin Knorr-Cetina, James Secord, Bernadete Bensaude-Vincent, Andreas Daum), pretendemos
abordar algumas estratégias de legitimação desses discursos sobre a sexualidade a partir da produção de livros sobre
educação sexual para leigos. Enquanto especialidade médica que estava em curso de institucionalização no Brasil
durante a primeira metade do século XX, a psicanálise se destacava como um conhecimento sexual “moderno” e uma
possibilidade de explicação científica e psicológica dos distúrbios de ordem sexual e afetiva. Já a Igreja Católica mobi-
lizou durante esse mesmo período teólogos, sacerdotes, educadores e médicos na superação de uma “pedagogia do
silêncio” em torno do sexo frente a uma perda de autoridade na explicação dos assuntos íntimos e individuais. Havia
uma preocupação mútua com a educação sexual, principalmente através da leitura. Desta forma, o mercado editorial se
apresentava como cenário de disputa por autoridade na produção do conhecimento sexual. A produção de livros sobre
educação sexual cresceu consideravelmente durante a primeira metade do século XX, em que médicos e sacerdotes
se destacavam entre os autores mais engajados. Tanto Gastão quanto Negromonte publicaram diversos livros sobre
a questão sexual. No caso do psicanalista, “O tabu da virgindade”, “Vícios da imaginação”, “Para compreender Freud”
eram algumas das obras que abordavam problemas cotidianos à luz da psicanálise. Já os livros do padre assumiam a
forma de manuais de catequese, com destaque para a produção de títulos que abordavam a instrução sexual, fosse
de crianças e adolescentes como “A educação sexual”, fosse daqueles que estavam em vias de preparação para o
casamento e a vida conjugal, como “Noivos e esposos”. Apesar das relações entre psicanálise e religião possuir uma
longa trajetória de conflitos desde Freud, é possível identificar alguns pontos de diálogos e relativas aproximações nas
propostas de uma sexualidade saudável circunscrita no casamento, na concepção da masturbação como “vício” e do
tratamento da homossexualidade enquanto inversão sexual. Um exemplo é o artigo “Um aspecto religioso da psicanálise”,
escrito por Gastão em 1940 e publicado na revista literária “Dom Casmurro”. Nele o psicanalista tecia elogios ao livro
do padre Negromonte publicado pela primeira vez em 1939 pela editora José Olympio e tecia certas aproximações de
seu conteúdo com a psicanálise, apontando certas semelhanças discursivas, em especial a importância da leitura na
promoção da educação sexual de um público leigo.

170
Lugar(es) da ciência no programa Roda Viva, da TV Cultura
(1986-2006) 

Livia Maria Botin (Universidade de São Paulo)

Este estudo analisou como o programa Roda Viva, produzido pela TV Cultura, debateu e divulgou temas relacionados
à ciência e tecnologia nas últimas décadas do século XX (1986-2006). Partiu-se do pressuposto de que as visões sobre
atividade científica apresentadas no programa se entrelaçam com o próprio projeto institucional da TV Cultura. Assim,
apesar de seguir o modelo de televisão pública, baseado na autonomia e independência, na prática, a emissora sofreu
inúmeras interferências do governo do Estado de São Paulo ao longo dos anos, e nesse contexto o próprio Roda Viva
também foi afetado. Assim, pela análise das entrevistas e dos depoimentos dos principais mediadores do programa,
buscou-se discutir como se deu tal inferência. Outro ponto importante do estudo é analisar qual “ciência” foi chamada
para integrar o centro do Roda. Embora o semanário televisivo tenha formato de entrevista e debate, muito diferente,
portanto, dos principais programas que se propõem a divulgar a ciência no Brasil, quando o entrevistado chamado para a
sabatina era um representante vinculado à atividade científica, sendo considerado pela produção uma fonte especializada
e de alta credibilidade junto à opinião pública, seu depoimento e opinião eram, muitas vezes, enaltecidos e repetidos pelos
jornalistas e especialistas, sem nenhuma objeção. O programa, que tinha um caráter de debate e discussão, acabava se
transformando em um emaranhado de enunciações proferidas por determinados especialistas que quase nunca eram
questionadas. Assim, uma importante meta deste estudo foi confrontar a ciência disseminada no programa, em seus
distintos níveis, com aquela que emerge do exame da história da ciência, à luz das reflexões da historiografia contem-
porânea. O corpus documental usado na pesquisa foi composto por três grandes séries documentais: 1) as entrevistas
com figuras públicas e políticas representativas das áreas de C&T no país e com integrantes da comunidade científica;
2) os Estatutos da Fundação Padre Anchieta e os relatórios relativos à TV Cultura, e, finalmente, 3) as entrevistas com
membros participantes da produção do programa Roda Viva.

Popularização das Ciências: Relato sobre quatro ações na Bahia


(1970 - 1990)

Alex Vieira dos Santos (UNIFACS)

A presente pesquisa tem como foco destacar, dentro de uma abordagem em História das Ciências, ações em prol
da popularização das ciências realizadas no Estado da Bahia durante a segunda metade do século XX. Inicialmente, o
trabalho foca o debate sobre os conceitos que cercam a popularização das ciências, suas correlações com a difusão
do conhecimento cientifico e com a alfabetização cientifica. Nesse contexto, traduzir, facilitar, transmitir ou mesmo
alfabetizar sobre as ciências são termos recorrentes quando se discutem tópicos ligados a popularização das ciências e
seus alcances a um público amplo que não esteja intrinsicamente ligado a grupos de cientistas ou grupos acadêmicos.
No Mundo, no Brasil e, em especial, na Bahia, locus de coleta de dados do presente trabalho de pesquisa, isso não
difere quando se busca investigar algumas ações que foram realizadas para tornar o “mundo das ciências” mais próximo
do mundo no qual habita os baianos e seus conceitos sobre fatos, fenômenos e outros temas que estejam ligados as
ciências, e melhor, a uma possível ciência local. Assim, para o contexto da pesquisa é tomado como objeto quatro
ações realizadas na Bahia no período analisado, a saber: (a) A inauguração do Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia
em 1979; (b) O projeto Ciência as seis e meia, nos anos 80; (c) A agência de notícias CiênciaPress, também nos anos
80 e (d) a 33ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência em 1981. Tais ações foram discutidas
no presente texto através de relatos de atores que participaram ativamente em algum momento do processo trazendo
suas falas em um contexto onde temos a História Oral como principal fonte de dados, O trabalho relata, desse modo,
as ações que foram realizadas, com alguma inspiração em ações similares ocorridas em âmbito nacional e internacio-
nal. Finalmente, busca-se discutir as correlações entre as ações e sua importância para o campo da popularização das
ciências, da História Oral e da educação cientifica em regiões periféricas.

171
Uma História da Biologia no Cinema Educativo Brasileiro:
o recorte da Era Vargas (1930 - 45)

Marcelo Silva de Carvalho Delfino (Universidade Federal da Bahia)

A partir de 1930, as alterações políticas que ocorreram com a chegada de Getúlio Vargas ao poder formaram o
plano de fundo para a continuidade das ações de desenvolvimento e divulgação da ciência no Brasil. Assim, localizado
no rol de iniciativas que visavam divulgar a ciência para a população brasileira, o cinema educativo possui uma trajetória
marcada pela confluência entre temas da ciência, da educação e da política na primeira metade do século XX. O Instituto
Nacional de Cinema Educativo (INCE), maior instituição nacional voltada ao tema e, por consequência, central nessa
pesquisa, foi fundado em 1936 com finalidade de produzir filmes educativos, os quais objetivariam propósitos educa-
cionais e de instrução da população acerca de temas considerados de interesse ao desenvolvimento do país e de seu
povo.  Dentre esses temas, destacam-se os relacionados à ciência e suas diferentes disciplinas. Antes da inauguração
do INCE, iniciativas de divulgação da ciência e educação da população pelo cinema já eram ensaiadas e colocadas em
prática, como por exemplo em escolas públicas no Distrito Federal e outras localidades, impulsionadas pela reforma
educacional de Fernando de Azevedo (1926) e nos salões do Museu Nacional, através do Serviço de Assistência à Edu-
cação, fundado em 1927. A disciplina Biologia, hoje termo unificado em relação à pratica e construção de conhecimentos
sobre as ciências da vida, naquele momento fortalecia-se composto por vertentes de conhecimento com certa separação
prática e epistemológica, como zoologia e botânica (componentes da História Natural), fisiologia, anatomia, citologia,
entre outros. Essa fragmentação, contudo, não significa que os conhecimentos desse campo fossem subvalorizados
na expansão científica brasileira do início do século XX. Ao contrário, naturalistas e biólogos tiveram papel de destaque
na organização educacional e científica brasileira, atuando ativamente em prol de um objetivo desenvolvimentista. A
importância das ciências médicas na organização e expansão das cidades só reforçava esse destaque, inclusive com
importantes institutos sendo criados no início do século, como o instituto Butantã (1899) e o Instituto Soroterápico
Federal (posterior Fundação Osvaldo Cruz) em 1900, que inclusive tiveram papel de destaque na produção de filmes
científicos. Neste ínterim, o projeto visa analisar 8 filmes educativos do período 30-45, com grande foco nos filmes do
INCE, buscando compreender a concepção de biologia passada e utilizada na construção dos mesmos. Em complemento,
estão sendo analisados documentos sobre biólogos, naturalistas, educadores e outros atores e instituições envolvidos no
projeto científico-educativo que esteve na base da produção dos filmes educativos do período. Tais documentos foram
encontrados nas Seção de Memória e Arquivo do Museu Nacional, no arquivo do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas,
no acervo da Funarte no Rio de Janeiro e no arquivo da Academia Brasileira de Letras. 

“A sciencia popularmente tratada, e não a sciencia profissionalmente


discutida tal será o nosso systhema de redacção”: imprensa e
vulgarização da ciência no Brasil na segunda metade do séc. XIX”

Maria Rachel de Gomensoro Fróes da Fonseca (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz)

Esta comunicação tem como objeto a história da vulgarização da ciência no Brasil na segunda metade do século
XIX, tendo como base a análise de um de seus veículos e ações, os periódicos. Buscamos compreender os significados
da vulgarização das ciências neste período, em suas expressões para comunicar a ciência. Neste sentido, nos importará
discutir os modelos e os vários aspectos constitutivos da vulgarização, particularmente caracterizados pela busca em
alcançar um público amplo, idealmente a “todos”, frisando nesse intuito o papel destes conhecimentos nos projetos de
formação nacional, e sua relação com a educação da sociedade. Neste contexto de centralidade das noções de ciência,
de progresso e de instrução no Brasil dos oitocentos, é que buscamos identificar um conjunto de periódicos, publicados
na segunda metade do séc.XIX, dedicados à vulgarização dos conhecimentos e à promoção da instrução. Neste contexto,
o periodismo expandiu-se de forma expressiva e alcançou grande variedade temática e de público, alcançando a todos os
grupos sociais e estimulando a leitura. Muitas revistas e periódicos apresentavam temáticas bem definidas e especializadas,
e eram direcionados alguns para um público seleto, para a elite intelectual, e outros para os demais setores da sociedade,

172
incluindo os trabalhadores e as crianças. Expressava-se interesse por temas literários, políticos, científicos, e pelas coisas
práticas e úteis. É nesta perspectiva que buscamos apresentar um conjunto de periódicos, publicados na segunda metade
do séc.XIX, no Brasil, dedicados à vulgarização dos conhecimentos, e à promoção da instrução, como Revista do Rio de
Janeiro (Rio de Janeiro, 1876), A Semana. Jornal litterario, scientifico e noticioso (Rio de Janeiro, 1855), Academia popular.
Semanario de instrucção e recreio do povo (Recife, 1863), Illustração popular (Rio de Janeiro, 1877), Sciencia para o povo
(Rio de Janeiro, 1880), e Barão de Macahubas. Periodico scientifico, litterario e noticioso (Salvador,1886).

“Instruir e deliciar as crianças”: mapeamento inicial dos projetos


editoriais de vulgarização da ciência no Rio de Janeiro em fins do
século XIX e início do século XX

Josiane Silva de Alcântara (Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz)

O presente trabalho tem como interesse central apresentar apontamentos iniciais da pesquisa desenvolvida a
nível de doutorado, sobre a prática da vulgarização científica na cidade do Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e
início do século XX.
O foco principal do projeto de tese é trabalhar com os livros de vulgarização produzidos no período citado, orientados
para o público infantil. Tal recorte temporal de interesse justifica-se pois este período é reconhecido pela historiografia
brasileira como momento de grande diversificação de impressos e início de um alargamento do público leitor, fruto
de incipiente investimento em instrução pública. Assim, pensamos ser relevante à História das Ciências a análise de
empreendimentos editoriais e seus respectivos produtores/interlocutores que tinham como uma das suas atuações a
produção e adaptação de matérias científicas aos jovens leitores da República.
Dentro de um ambiente amplo de publicações, atores sociais e instituições envolvidos em um trabalho de comunica-
ção pública da ciência no período e na cidade proposta para estudo, o nosso corpus de análise é composto pelo material
que compõe o acervo da Família Rui Barbosa, partindo de sua coleção de publicações infantis para problematizar a ciência
e suas interações com as perspectivas em voga sobre educação e infância. Esta escolha se justifica duplamente: tanto
a relevância de Rui Barbosa no campo intelectual e político brasileiro, em especial sua participação nos debates sobre
educação pública no Brasil em fins do século XIX; como também a possibilidade de refletir o consumo e a circulação da
ciência dentro de um núcleo familiar específico.
Cabe ressaltar que, focar a pesquisa para o público infantil carioca põe em evidência projetos de infância -- sejam
eles científicos, políticos, intelectuais, pedagógicos -- e a percepção desse grupo como um leitor autônomo, consumidor
de publicações próprias para sua faixa etária. Destacamos ainda que a criança, no contexto de análise, era vista como
agente estratégico para reprodução de determinados modelos e valores sociais que se pretendiam imputar nos indivíduos,
tendo em vista os projetos nacionais em curso operados por diferentes grupos.
Assim, nossa proposta para este simpósio é apresentar o mapeamento dos empreendimentos editoriais identifi-
cados, atentando para a prática da vulgarização em periódicos (revistas, jornais, suplementos…), séries bibliográficas,
obras de referência, e outros. Destacaremos os principais elementos constitutivos desses materiais, já que analisados à
luz do seu tempo de produção, importa entender seus produtores, as linguagens operadas, seus espaços de circulação
e suas relações institucionais.

173
ST 20. História da Saúde e das Doenças

A ciência dos doutores e o costume dos populares. Disputas e


ambiguidades no controle da varíola em Porto Alegre no século XIX 

Jaqueline Hasan Brizola (UFRGS)

Diferenças na hora de prover a saúde manifestam-se constantemente no comportamento dos agentes históricos.
Em variados tempos e espaços observamos embates de discursos acerca de modos adequados de curar ou de controlar
as doenças. O objetivo da presente comunicação é estabelecer uma reflexão que aponte os paradoxos e as disputas na
hora de manter a saúde no século XIX, a partir das experiências ocorridas na cidade de Porto Alegre em torno do controle
da varíola. Por meio de ampla pesquisa documental em relatórios de presidentes da Província, processos crime envolvendo
médicos reconhecidos da capital, e em dados de homens e mulheres que padeciam de varíola, observamos que a vaci-
nação, que ocorria na capital desde o início do século XIX não foi aceita pela ampla maioria da população no período, que
foi capaz de elaborar métodos para se proteger da doença. Tais métodos, entretanto, respeitavam rituais consagrados no
interior de sua própria comunidade, ou seja, não obedeciam necessariamente às determinações impostas pelo governo
imperial e seus representantes na Província. Além disso, os próprios médicos diplomados estabeleceram disputas em
torno do que era considerado legítimo e ilegítimo na hora de tratar as enfermidades, como pudemos apreender a partir dos
embates judiciais entre doutores homeopatas e alopatas que atuavam na Província de São Pedro. No que toca a metodo-
logia, optou-se pelo cruzamento entre a documentação qualitativa, de onde apreendemos os discursos médicos e relatos
de presidentes da Província com dados quantitativos como nome, idade, origem, condição jurídica dos doentes, além de
números de vacinados. Com o objetivo de melhor conhecer as causas do aparecimento da moléstia e as reações que se
estabelecem contra ela no período e tendo por base referencias conceituais amplamente difundidos pela história social,
como legitimidade, resistência e elaboração, o que se propõe é um diálogo entre as diferentes experiências no tratar da
varíola no século XIX, a partir das opções disponíveis aos agentes que teciam relações dentro da cidade de Porto Alegre.

A criação do Asylo Sant’Ana: busca de um espaço para o controle


da loucura na Parahyba oitocentista (1858-1892) 

Gerlane Farias Alves (UFPB)

Durante todo o século XIX, a Província da Parahyba não pode contar com uma instituição própria para o recol-
himento de alienados, fazendo com que estes fossem enviados para as prisões, onde eram misturados com presos
comuns, trancafiados em suas casas quando a família possuía posses que possibilitavam sua reclusão em cômodos
preparados para esse fim em suas próprias residências ou recolhidos ao Hospital de Caridade mantido pela Santa Casa
de Misericórdia da Parahyba no centro da capital paraibana. Neste ultimo caso, este tipo de doente acabava sendo
isolado dos outros pacientes do Hospital em quartos escuros, muitas vezes postos a ferros para diminuir seus acessos
de fúria ou, quando soltos no andar térreo do edifício (reservado para eles), realizando depredações no ambiente e/ou
incomodando os outros pacientes do nosocômio e moradores próximos ao edifício com gritos e lamentos. Por conta
desses infortúnios, nas décadas finais do século XIX, aumentaram as reinvindicações dos Provedores da Santa Casa de
Misericórdia da Parahyba junto ao Governo Provincial para a criação de um espaço próprio, longe do Hospital de Caridade,
para abrigar esses alienados. Desse modo, este trabalho busca analisar a trajetória de criação do Asilo Sant’Ana, durante
as ultimas década do século XIX, em um terreno distante do centro da cidade conhecido como Sitio da Cruz do Peixe,
local que surgia entre os discursos que defendiam um melhor tratamento para esse tipo de doente e as reinvindicações
de provedores da Santa Casa que buscavam livrar o Hospital de Caridade destes pacientes indesejados. Para isso, serão
utilizadas informações sobre a assistência dada aos alienados dentro do Hospital de Caridade, assim como seu envio
para o Asilo Sant’Ana, existentes nos relatórios de provedoria entre os anos de 1858 e 1889 pertencentes ao Arquivo
da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba além de uma bibliografia de autores paraibanos como Heronides Coêlho Filho

174
(1977) e Oscar de Castro (1945) que revelam a situação sanitária em se encontrava esse novo espaço para a loucura
na Parahyba. Os dados aqui apresentados são parte integrante da dissertação de pós-graduação do curso de História da
Universidade Federal da Paraíba (PPGH-UFPB) intitulada A administração da Loucura: a Santa Casa da Parahyba do Norte
no tratamento dos alienados (1858-1892) que se encontra em processo de avaliação pela banca de defesa.

A doença como vetor de (re)construção do sujeito:


Humberto de Campos e sua busca por redenção (1928-1934) 

G. F. Agra (UFPB)

Pretende-se analisar o modo como a percepção da doença alterou a imagem de si construída pelo literato Humberto
de Campos (1886-1934). Analisa-se, assim, como o elemento patogênico aparece na escrita do autor tendo papel central
na modificação de seu comportamento e de sua imagem social, sendo compreendido como o ponto de virada da trajetória
de constituição de sua auto-imagem. Maranhense, membro da Academia Brasileira de Letras, deputado federal, cronista,
contista, crítico literário e memorialista, Humberto de Campos tornou-se muito conhecido no Brasil na década de 1920,
em virtude das polêmicas geradas especialmente pelos textos humorísticos e galantes que publicava sob o pseudônimo
de Conselheiro X.X., sendo alvo de inúmeras críticas de intelectuais e dos grupos conservadores, que o acusavam de
imoralidade. Na década de 1930, entretanto, a sua imagem de imoral e obsceno foi dando lugar a uma nova imagem
que o representava como um jornalista espiritualizado, preocupado em oferecer palavras de conforto para todos aqueles
que sofriam, tornando-se, nesse momento, o autor mais lido do Brasil, posição que ainda continuaria ocupando por anos,
mesmo depois da sua morte. A doença, a hipertrofia da hipófise, diagnosticada em 1928, é compreendida como tendo
sido o elemento que proporcionou essa modificação, levando o autor a elaborar uma nova sensibilidade a partir da qual
se relacionou com o mundo, com os seus leitores, com a vida e consigo mesmo, fazendo-a circular socialmente por
meio de seus escritos, nos quais expunha a sua condição patológica, as suas dores e as suas novas percepções da vida,
levando-o a reelaborar tanto o seu presente, quanto o seu próprio passado. A análise que se propõe, portanto, insere-se
no campo da história cultural das doenças, pois investigam-se as mudanças de sensibilidades provocadas por meio da
eclosão de uma doença, bem como os sentidos atribuídos à patologia e como tais significados alteram as ações de seus
praticantes. Neste trabalho, entretanto, diferente de um aspecto de significação social e coletiva da doença, pretende-
-se fazer uma investigação mais intimista, questionando-se as percepções do próprio sujeito doente com relação ao
mal que lhe acomete, e como tal doença age no sentido de alterar os significados que o acometido atribui à experiência
e à sua própria existência. Desta maneira, a investigação centra-se no modo de ver e dizer o mundo, e de construir-se
diante dele, do literato Humberto de Campos, durante os últimos sete anos de sua vida. Para isto, as principais fontes
serão suas obras memorialísticas – Memórias, 1886-1900 (1933) e Memórias inacabadas (1935, póstumo) –, os dois
volumes de seu Diário Secreto (1954, publicados postumamente), bem como algumas crônicas desse período em que
o autor demonstra sua nova atitude pesarosa diante do “fardo” que havia se tornado a sua vida.

A Guerra do Paraguai e o Corpo de saúde do Exército Brasileiro:


uma análise do cotidiano médico nos espaços de cura 

Janyne Paula Pereira Leite Barbosa (Universidade Federal Fluminense)

A longa duração da Guerra do Paraguai (1864-1870), analisada através dos diários de viagens, correspondências
oficiais e documentação referente ao período, expõe de maneira brutal o tratamento dado aos soldados, civis e demais
participantes que lutaram na guerra contra o inimigo comum, o Paraguai. As forças aliadas, argentinos, uruguaios e
brasileiros, lutaram acima de tudo pela sobrevivência nos campos de batalha caracterizados pela falta de água potável,
alimentos em quantidade insuficiente e sem condições de serem ingeridos, cadáveres amontoados ao ar livre, além da
ausência de instrumental médico cirúrgico para tratar os doentes. Com o início do conflito, o Corpo de saúde do Exército
iniciou um processo de reorganização de suas forças com o objetivo de enviá-las para o front, onde teve como função

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prestar assistência médica aos feridos e enfermos. Criado em 1849, o Serviço de Saúde do Exército tinha como objetivo
principal auxiliar no combate a epidemia de febre amarela que atingiu o país, numa tentativa de fortalecer o serviço de
saúde oferecido pelo governo Imperial. Durante a Guerra, o Corpo de saúde atuou por meio da criação de hospitais e
enfermarias em diversas áreas dos países aliados, realizando procedimentos cirúrgicos e tratando os doentes, militares e
civis, acometidos por doenças diversas. Nesse período de crise social em decorrência do conflito, onde o país organizou
suas tropas para combater o exército paraguaio, os médicos brasileiros e estrangeiros, acadêmicos do curso de medicina
das faculdades do Rio de Janeiro e de Salvador, enfermeiros, farmacêuticos, boticários, irmãs de caridade, dentre outros,
se direcionaram para os hospitais permanentes, ambulantes e flutuantes para o exercício de suas funções. Diante desse
contexto, o objetivo desse trabalho é compreender como se deu a atividade médica num contexto de guerra, quais as
relações sociais e políticas estabelecidas nos espaços de cura, e como o Corpo de saúde do Exército estava organizado
ao longo do conflito. A narrativa histórica se constituirá sob o olhar da História Social, através da análise do Regulamento
Especial do Serviço de Saúde do Exército publicado em 1857 e que estava em vigor durante a guerra, das cartas e rela-
tórios dos médicos que atuaram em diversos hospitais, e das correspondências oficiais do Serviço de Saúde do Exército.

A parasitologia e o pós-Segunda Guerra, a esquistossomose


e a “escola paulista” com Samuel Pessoa (1940-1960) 

Bráulio Silva Chaves (Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais)

O presente trabalho procura entender algumas práticas dentro daquilo que consideramos ser o fazer científico: a união
entre a pesquisa, as ações de decodificação do mundo natural por meio do investimento cognitivo que, ao modo Ludwik
Fleck (1896-1961), dão origem à gênese e desenvolvimento dos fatos científicos, junto às mobilizações, controvérsias,
disputas e um movimento de aproximação e tensão de círculos exotéricos e esotéricos em torno da ciência. O argumento
que se quer desenvolver é que o coletivo da parasitologia e, mais especificamente de um grupo de pesquisadores da
esquistossomose, foi, durante o período pesquisado, caracterizado por um terreno instável, seja no âmbito da produção
científica, seja das questões históricas e institucionais que exigiam demanda por reunião de forças. A esquistossomose
faz parte do quadro de identidades nosológicas do Brasil desenvolvimentista que voltava seus olhares para as grandes
endemias da zona rural e urbana, para as “doenças de massa”, a partir de determinadas morbidades que obstaculizavam
o crescimento. O movimento que caracteriza sua definição como “doença de massa” e problema de saúde pública cor-
respondeu a um processo de mudanças dentro da parasitologia. Os anos 1940-1960 também produziram um ambiente
peculiar para a demarcação da doença, nas pesquisas quanto à sua etiologia, formas de transmissão, seu complexo
sistema biológico. A esquistossomose também foi motivo de contendas. Algumas estão ligadas ao século XIX, na defi-
nição dos três parasitas transmissores (o africano, o japonês e o “brasileiro”) ou mesmo no processo de caracterização
da forma “tipicamente brasileira”, por meio do Schistosoma mansoni, e do longo e difícil reconhecimento de Pirajá da
Silva (1873-1961), o médico baiano que fez a caracterização morfológica do “verme”. O estudo sobre a parasitologia
nesse período também constitui um percurso que passa pela trajetória de Samuel Pessoa (1898-1976). Comunista,
combativo, perseguido, vigiado, alijado, com uma produção intelectual extensa, que tem a marca do que foi a sua vida
como militante. Para Pessoa, as mazelas da estrutura social brasileira e das estruturas capitalistas – que funcionariam
como entrave às habitações bem construídas, do saneamento básico, da boa alimentação – estariam também na raiz
da disseminação de moléstias endêmicas. Elegemos como fontes: os arquivos do Fundo do INERu (Instituto Nacional
de Endemias Rurais), na COC-Fiocruz; livros e compêndios de parasitologia; artigos, anais de simpósios e congressos,
estudos diversos sobre a esquistossomose. Também trabalharemos com o depoimento de Naftale Katz, parasitologista
envolvido no grupo de especialistas da esquistossomose. 

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Do magnetismo ao hipnotismo no Brasil 

Nanci Leonzo (UFMS)

Quando tinha vinte anos de idade, Alcida, nascida em 15 de fevereiro de 1869 e filha de Benjamin Constant (1836-
1891), foi levada por seus familiares ao consultório de Érico Marinho da Gama Coelho (1849-1922), lente da cadeira
de Clínica Obstétrica e Ginecológica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Durante quase dois meses, a moça
foi hipnotizada a fim de se tratar de uma doença da qual pouco se sabe. Antigo companheiro de seu pai no período
da propaganda republicana, o médico, a quem até hoje se atribui erradamente o pioneirismo na aplicação da medicina
sugestiva no Brasil, não obteve êxito imediato com sua paciente. 
Na década de 80 do século XIX vivia-se a segunda onda da hipnose. A mente humana tornava-se alvo de suces-
sivos estudos. Havia, entretanto, resquícios da anterior, considerada, na atualidade, a primeira onda do hipnotismo, não
obstante a contribuição de um controvertido personagem: Franz Anton Mesmer, cuja doutrina, expressa em uma tese
defendida em 1775, apoiava-se no fluido magnético, que escapava do corpo humano e tinha o poder de orientar condutas
exteriores pela pujança da vontade. Não é uma tarefa fácil penetrar no íntimo de suas concepções, mesmo levando-se
em conta as interpretações e contribuições dos que o sucederam, como as de James Braid, bem como aquelas oriundas
de pesquisadores recentes da história da medicina ocidental. No entanto, é preciso tomá-las como um desafio tendo-se
em vista sua vitalidade como objeto de estudo. Como bem observaram Adorno e HorKheimer, em publicação de 1947,
crer que a verdade de uma teoria é a mesma coisa de sua fecundidade é um erro.
Em fins do século XIX, o magnetismo animal continuava repleto de incertezas, sendo ainda muito debatido. No
Brasil, Francisco de Paula Fajardo Júnior, responsável pela publicação, em 1888, do livro Hipnotismo, atribuiu ao seu
mestre muitas curas. Tratava-se de Erico Coelho, apenas um dos médicos que, na época, fazia uso da hipnose, com
a ressalva de que nunca divulgou anúncios pela imprensa de suas atividades relacionadas com a medicina sugestiva. 
É possível supor que o mundo clínico e experimental no Brasil se manteve, ao longo do século XIX, retraído e quase
silencioso diante das terapias com uso do magnetismo e do hipnotismo, embora fosse temida a “audácia dos charlatães”.
Alguns médicos se manifestaram sobre tais práticas curativas apenas em situações pontuais. Restou-lhes combater
os chamados magnetizadores, que, além de consultas médicas, promoviam espetáculos públicos. Foi uma luta inglória.

Dos botões de Biskra, Alepo e Deli a Leishmaniose Tegumentar


Americana: A construção de um enunciado científico
latino-americano

Denis Guedes Jogas Junior (COC-Fiocruz)

A segunda metade do século XIX foi marcada pelo crescimento da atividade imperialista europeia rumo aos trópicos.
As principais metrópoles passaram a enviar médicos, pesquisadores e mesmo a criar laboratórios em suas regiões de
domínio com objetivo de garantir a permanência do colonizador e a própria viabilidade dos projetos ultramarinos frente
a ameaça representada pelas doenças que grassavam em estados endêmicos e epidêmicos, sobretudo, em regiões
de climas quente e úmidos. Manifestações cutâneas, que eram consideradas um dos principais souvenires para quem
se aventurasse no Norte da África e Sudeste asiático, passaram a representar um desafio cientifico a medida em que
a colonização ia se interiorizando nestas regiões. A partir da década de 1870, com advento da microbiologia, diversos
pesquisadores buscavam o parasita responsável por estas úlceras que brotavam misteriosamente nas partes descobertas
do corpo do acometido, mesmo daqueles que pernoitavam poucos dias nos lugares endêmicos. Foi, entretanto, somente
após mais de três décadas de pesquisas, em processo sincrônico à emergência da medicina tropical, que o protozoário
responsável por esta moléstia foi descrito, seguido de uma total reconfiguração do seu entendimento que culminou na sua
classificação como parte integrante do grupo de moléstias denominado leishmanioses. Contrariando princípios básicos bem
estabelecidos e de maneira inimaginável até então, dois quadros clínicos, sem nenhuma semelhança, foram agrupados
em razão de possuírem agentes causais morfologicamente idênticos, fazendo deles, um dos tópicos mais pujantes entre
as recém-criadas instituições de pesquisa que buscavam dar concretude aos seus programas de microbiologia e medicina

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tropical. Em 1909, protozoários do gênero Leishmania foram identificados no continente latino-americano, entretanto, em
uma terceira forma da doença, com predileção as partes mucosas do corpo e cursos clínicos mais extensos e agressivos
quando comparados àqueles observados no Velho Mundo, inaugurando uma nova fase das pesquisas sobre este grupo
de moléstias, ao mesmo tempo em que deu oportunidades para que pesquisadores situados neste continente se singu-
larizassem na rede de pesquisa global dedicada as leishmanioses. Nesta apresentação, demonstrarei os caminhos e os
argumentos específicos utilizados na construção do enunciado científico Leishmaniose Tegumentar Americana, como uma
doença particularizada da América Latina, em um processo guiado por pesquisadores e centros de pesquisas situados em
diferentes países desta continente que, apesar das divergências e competição pela hegemonia regional, tiveram sucesso
na criação, definição e institucionalização deste enunciado científico próprio e singular da América Latina.

Flagelados, desvalidos e doentes: doenças no período da seca de


1877-1879 na Província do Rio Grande do Norte

Avohanne Isabelle Costa de Araújo (Fiocruz)

Este trabalho trata-se de uma pesquisa em fase de andamento, acerca da seca de 1877-1879 e das doenças
que apareceram na Província do Rio Grande do Norte, na qual analiso as providências e medidas que foram tomadas
por médicos e os presidentes da referida província sobre as moléstias que acometeram a população neste período. As
fontes que eu utilizo neste artigo são os Relatórios dos Presidentes de Província do Rio Grande do Norte, os quais são
fundamentais para entender a atuação governamental em situações de secas e epidemias e destes relatórios darei
atenção especial aos anexos, pois trazem tabelas informando que socorros públicos foram destinados aos flagelados
da seca, como medicamentos, visita de médicos aos locais de maiores surtos epidêmicos e de seca, os alimentos que
eram destinados e faziam parte da dieta desses doentes. Também analiso os jornais desse período e destaco o jornal
Brado Conservador, que trazem opiniões acerca das medidas tomadas pelas autoridades provinciais e as críticas acerca
dos “socorros públicos”. E por fim, o texto intitulado “o problema das secas” escrito pelo advogado e jornalista Manoel
Dantas, no qual o mesmo faz uma discussão sobre a seca de 1877, apontando que solução seria mais viável para o seu
combate. A metodologia que adoto no trato com as referidas fontes são o cruzamento das informações, levando em con-
sideração as contradições no que diz respeito a tomada de decisões, medidas e os silenciamentos, por vezes, de menções
a doenças. Eu parto da seca de 1877 para entender o aparato estatal a respeito da saúde, pois como ALBUQUERQUE
JUNIOR defende, esta seca se diferencia das anteriores pela visibilidade que ela teve perante a elite política do Nordeste,
utilizando-a como argumento para conseguir recursos no intuito de combater as secas nas províncias afetadas, dentre
elas, o Rio Grande do Norte. Assim, os resultados colhidos até o presente momento dão conta dos socorros públicos que
foram destinadas às cidades do interior da referida província, que nos dão a dimensão, por exemplo, do que os sertanejos
comiam em períodos de seca acompanhadas de epidemias. Entre as doenças apontadas nos relatórios, aparecem uma