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O PECADO DE CLARA MENINA

Comédia de Cacá Araújo

Crato Ceará

PRÓLOGO

Bobo:

(Canta “Coco do Amor Presepeiro” em coreografia brincante)

Foi num reino bem distante No sertão que já foi mar Que o amor fez presepada Com Dom Carlos de Alencar

Dando susto bem danado De fazer calça borrar Quase a morte lhe levou Sem dar tempo de chorar

Seduziu Clara menina

A

princesa do lugar

E

buliu com a moça alheia

Onde é bom de bulinar

Bem no mêi da mata virgem Começaram a se agarrar Se amaram, se amaram Sem ninguém bisbilhotar

Mas a sorte é sem coleira Pode não se demorar

E o chamego dos pombinhos

Não se pôde ocultar

Foi passando um caçador Que foi logo curiar

A donzela dona Clara

Com Dom Carlos a pecar!

(Sai espalhafatosamente. Luz cai em “estacato”. Escuro)

CENA 1: CLARA MENINA A PECAR

(Floresta. Noite. Penumbra. Gemidos de ato sexual misturados aos sons da natureza. Clara está tran- sando com Dom Carlos, embaixo de uma árvore)

Clara:

Ai, vai, vem, vem, vai, ai, vem Estou com falta de ar

(Entra o Caçador, com uma espingarda, mirando, até topar o olhar no casal. Assusta-se. Em silêncio, olha até identificar os amantes)

Dom Carlos:

(Feito um garanhão no cio, mas poético)

Tu és pra mim uma deusa Mais meiga do que o luar

Clara:

(Ofegante, gemendo)

Ai, meu poeta, me mate Tua rima faz delirar Ai, vai, vem, vem, vai, ai, vem Eu hoje vou me acabar

(Deitam-se e continuam o remexido intenso, gemendo baixo)

Caçador:

(Com exagerado espanto)

Meu Deus

Com Dom Carlos a pecar Que namoro esculhambado Os dois vão se atravessar!

É Clara menina

(Observa mais atentamente. Expressão de quem teve uma grande idéia. Fala para si, com ambição)

Um segredo como esse Vai minha vida mudar Fuxicando ao grande Rei Um bom prêmio eu vou ganhar:

Visconde do Muriti Meu Rei vai me nomear!

(Olha com mais curiosidade e detalhamento. Riso contido e ar zombeteiro)

Que casalzim mais safado Preciso me retirar

(Vai saindo pé-ante-pé. Clara e Dom Carlos aumentam o volume e a intensidade dos gemidos, como a se aproximar o orgasmo. O Caçador pára e se volta para eles)

Eita, peste, o fogo é bom! Ai, o bicho vai pegar

(Por descuido, deixa cair a espingarda, chamando a atenção dos amantes. Os três se assustam comi- camente com a descoberta mútua. Dom Carlos e Clara se recompõem. O Caçador disfarça, meio sem jeito)

Clara:

(Ajeitando os cabelos e as roupas apressadamente. Para o Caçador, sem convencimento)

Não é o que estais pensando

Saímos pra prosear Dom Carlos é homem fino Sabe como respeitar Fez um poema tão lindo

E estava a declamar

(O Caçador encara-os com olhar desconfiado. Quando faz menção de falar, Dom Carlos o interrompe e tenta, em vão, confirmar a história dita por Clara)

Dom Carlos:

(Tossindo artificialmente, sem encarar o Caçador)

Esta é a pura verdade Saímos a caminhar

E um poema de aventura

Eu estava a recitar

Caçador:

(No centro, ladeado pelos amantes, olha nos olhos de cada um e pára olhando adiante, com disfarça- do ar de aproveitador)

Eu sou um homem do mato

E

honesto é meu pensar

O

problema é que meus olhos

Me botaram pra enxergar

E meus ouvidos teimaram

Me botando pra escutar

(Para Clara, com respeito, mas insinuante)

Vi

a rima de Dom Carlos

Se

mexendo sem parar

(Para Dom Carlos, idem)

E a menina, dona Clara

No poema se escanchar

(Olhando para cima, como que dando por encerrada a conversa)

Ouvi a recitação

O poeta poetar

(Para o casal, saindo)

E agora, peço licença

Que o meu Rei vou visitar

Levando notícias novas

E o que vi vou informar

(Clara tenta impedir sua saída e corrompê-lo)

Clara:

(Suplicante)

Meu honrado caçador

Vamos te recompensar Tu não contas a meu pai Que me vistes com Alencar

E eu te dou dinheiro e terras

Eu juro que vou te dar

(O Caçador faz expressão de desinteresse. Clara intensifica sua investida com uma última e apelado- ra idéia)

E na família real

Garanto que vais entrar Minha prima Secundina Vai contigo se casar

Caçador:

(Com desdém. Desafiando)

Não quero dinheiro e terras Não insista em me comprar Nem da família real Desejo participar

Sua prima Secundina Não vai comigo casar

Porque o que eu quero mesmo

É

com teu pai conversar

E

dizer tudo o que eu vi

Pra um grande prêmio eu ganhar:

Visconde do Muriti Meu Rei vai me nomear!

(Com ênfase. Olhando na cara dos dois, que caem em aflição)

Visconde do Muriti Meu Rei vai me nomear!

(Entra a Prima Secundina, que ouvira toda a conversa. Ela é feia, desdentada, e parece meio abiro- bada. Sua obsessão é o casamento. Atirada, canta o Caçador)

Prima Secundina:

(Sedutora)

Estou chegando

Surpresa!

Eu sempre quis me casar

(Para o Caçador)

Te desejo, meu herói Vem agora me caçar Vou te dar o meu amor Que vontade de beijar

(Fecha os olhos. Lábios em “bico”. O Caçador ironiza)

Caçador:

Eu já vi muita feiúra Mas tu és de assombrar Eu prefiro que uma onça Venha aqui me devorar

(Para Clara e Dom Carlos)

Seguirei o meu destino

E o meu Rei vou procurar

Falarei tudo o que eu vi

Segredo não sei guardar Não sou padre nem baú Daqui já vou me arredar

(Faz menção de sair e é interrompido pela Prima Secundina)

Prima Secundina:

(Revoltada)

Não gostei da grosseria Aguarde, eu vou me vingar Eu direi para o meu tio Que ousaste me estuprar Eu garanto que ele vai Um castigo decretar

(Sai enfurecida)

Caçador:

(Solta uma gargalhada. Para fora, na direção em que a Prima saiu)

Não estou desesperado Pra contigo me deitar Com essa cara de bicho Ninguém vai acreditar Que um homem como eu Tentou te violentar

Dom Carlos:

(Insistindo)

Suplicamos, caçador:

Prometas por caridade Que ao Rei tu não vais contar! Eu te dou teu peso em ouro

E dinheiro pra gastar

Caçador:

(Enfático)

Não quero meu peso em ouro Nem dinheiro pra gastar Porque o que eu quero mesmo

É

com meu Rei conversar

E

dizer tudo o que eu vi

Pra um grande prêmio eu ganhar:

Visconde do Muriti Meu Rei vai me nomear

(Sai correndo, com mangofa, repetindo os dois últimos versos de sua fala. Dom Carlos e Clara ficam preocupados, sem saber o que fazer. Luz baixa em intensidade)

CENA 2: NO CASTELO DO REI DE MONT’ALVERNE

(No proscênio, o Bobo canta “Coco do Fuxiqueiro”)

Bobo:

Lá bem longe, no castelo Do rei deste bom lugar Deu-se a revelação Do segredo de Alencar Dele e de Clara menina Que estavam a pecar

Dele e de Clara menina Que estavam a pecar

Foi chegando o Caçador, Que falou sem hesitar Abordou logo o assunto Ele foi pra fuxicar Linguarudo e espertalhão Seu destino foi buscar

Linguarudo e espertalhão Seu destino foi buscar

Da floresta pro castelo Cavalgou sem descansar Detalhou tudo o que viu Falando sem gaguejar O seu plano era perfeito Para um bom prêmio ganhar

O seu plano era perfeito Para um bom prêmio ganhar

No vinho da delação Tem veneno pra matar Na sombra da Besta-fera Ninguém pode cochilar Pois pro Cão lá dos infernos Não é pecado pecar

Pois pro Cão lá dos infernos Não é pecado pecar

(O Bobo sai. Ele é sempre muito espalhafatoso. Luz abre no salão real. Lá estão o Rei, a Rainha e Clara. Ele assinando decretos. Ela comendo alguns petiscos e Clara lendo um livro com ar de inocên- cia. O Caçador entra ansioso por revelar o que presenciara e ser recompensado)

Caçador:

(Solene. Respeitoso. Xeleléu. Sem discrição)

Grande Rei, amado Rei Me desculpe incomodar Vim vos dar uma notícia Um segredo revelar:

(Ele encara Clara, que sai de fininho. A Rainha engole rápido e pára curiosa. O casal real se entreo- lha curioso. O Caçador relata como se estivesse, de fato, prestando um grande serviço ao Rei)

Encontrei Clara menina Com Dom Carlos de Alencar Nua dos pés pro pescoço Do pescoço ao calcanhar Brincando lá na floresta Brincadeira pra casar!

(A Rainha se abana como que passando mal. Olhar incrédulo para os céus)

Rei de Mont’Alverne:

(Ríspido)

Não venhas com lengalenga Não queiras arrodear! Por acaso estais querendo Me ridicularizar?

(O Caçador arria de susto, acenando que não)

Se Clarinha, minha moça Estava com Alencar Nua dos pés pro pescoço Do pescoço ao calcanhar Brincando lá na floresta Brincadeira pra casar

(Explosivo)

Por

que tu não dizes logo

Que os dois estavam a transar?

Caçador:

(Desespera-se. Submisso. O Rei o olha ameaçadoramente)

Não, meu Rei, amado Rei! Não quero desrespeitar Eu digo pra vos servir Só quero ao Rei informar:

(Confidenciando, mas sem cuidado para os outros não escutarem. A Rainha reage com gesto facial a cada ponto da revelação)

Quando vi o reboliço Tentei não acreditar E a menina dona Clara

Insistiu em me comprar Quis me dar dinheiro e terras Parte do que vai herdar

E sua prima Secundina

Pra comigo se casar Pois na família real Garantiu que eu ia entrar

Rei de Mont’Alverne:

(Calculando)

E qual foi tua resposta

Após Clara te abordar?

(O Caçador diz somente o que julga atiçar o reconhecimento do Rei)

Caçador:

Fui fiel a Vossa Alteza Respondi sem hesitar:

(Como se estivesse falando para Clara)

“Não quero dinheiro e terras Não insista em me comprar Porque o que eu quero mesmo

É

com teu pai conversar

E

dizer tudo o que eu vi

Pra um grande prêmio eu ganhar:

Visconde do Muriti Meu Rei vai me nomear!”

Rei de Mont’Alverne:

(Repreensivo. Zangado, depois de olhar para o povo e pensar)

Fizestes grande desfeita Em o fato publicar

(Refere-se também à platéia)

Pois todos aqui ouviram

O que viestes contar

Tu devias ter me dito Pra sozinho eu escutar

(A Rainha concorda com gesto da cabeça, mãos “nos quartos” e olhar fulminante para o Caçador, que fica branco de medo. Percebe que se complicara. Atrapalhado, tenta se safar, brincando, com sorriso amarelo)

Caçador:

Hoje é primeiro de abril

E eu só estava a brincar

Eu não vi Clara menina Com Dom Carlos de Alencar

Ela estava no terreiro Com um livro a estudar

(Repete, sem graça)

Ela estava no terreiro Com um livro a estudar

(O Rei acena para o Carrasco, que entra sombriamente. Está vestido com bata preta, rosto coberto

com um capuz da mesma cor, vendo-se apenas seus olhos. Com um machado no ombro, olha ameaça- doramente para a vítima, que se ajoelha num canto a rezar em silêncio. Apenas seus lábios e olhos se mexem dando ritmo a seu medo. Mãos em posição de oração. O Rei cochicha ao ouvido do Carrasco para que ele vá buscar sua filha Clara e Dom Carlos de Alencar. O Carrasco sai)

Rei de Mont’Alverne:

(Voltando-se ao Caçador, com veemência)

Como ousas, seu cachorro

O meu reino insultar!

(A Rainha taca o leque na cabeça do Caçador, que se encolhe)

Tu terias ganho o cargo Que estavas a desejar

Mas tu tens a língua grande

E por isso vais pagar!

Rainha de Mont’Alverne:

(Enfiando o leque na cara do Caçador, com ódio e prazer mórbido)

Tu vais virar picadinho Os ratos vão te jantar Falaste de minha filha Pra nossa honra manchar

(Puxa-lhe os cabelos, torcendo seu pescoço para cima de modo que ele a encare e perceba seu olhar maligno e seu poder sobre a vida e a morte. É uma tortura psicológica cruel. O Rei observa com ex- pressão macabra e contentamento. O Caçador está para se mijar de tanto pavor. A Rainha fala exi- gindo fortemente, ensandecida)

Eu quero a cabeça dele Enfeitando meu pomar

E seu corpo fedorento

Os bichos vão disputar!

(O Caçador treme e chora convulsivamente. O Rei e a Rainha demonstram prazer diante do sofrimen-

to do miserável. Gargalham. O Carrasco retorna trazendo Clara e Dom Carlos, que ainda presenci- am o sofrimento do delator. Ela pelo braço e ele puxado pelo pescoço. O Rei e a Rainha silenciam. O Rei sinaliza aprovando o cumprimento da ordem e olhando ameaçadoramente para a filha e para

Dom Carlos. A Rainha vai abraçar amorosamente a filha, acalentando-a. Dom Carlos é jogado num canto)

Rei de Mont’Alverne:

(Para o Carrasco, indicando o Caçador)

Degoles o vagabundo!

(Para o Caçador)

Tua cabeça vai rolar

(O Carrasco se aproxima e pega o Caçador pelos cabelos. Ele se desespera. Clara e Dom Carlos

estão terrivelmente amedrontados. A Rainha tenta acalmar a filha, ao tempo em que dá sinais de

aprovação ao que está sendo feito ao Caçador)

Caçador:

(Quase sem voz, gaguejando em choro soluçado)

Ui, ui, ui, ai, ai, ai, ai! Vou agora me lascar Meu reizim adoradim Eu só quis colaborar

(O Carrasco vai puxar o Caçador, quando entra a Prima Secundina, que, num impulso de quem quer

acabar com a solidão e viver um grande amor, mente para o Rei)

Prima Secundina:

(Rasgadamente)

Espere, meu grande Rei, Tenho algo a acrescentar:

Este verme asqueroso Ele ousou me estuprar. Eu te peço, Majestade Pra nossa honra zelar. Não deixe que ele morra

(O Caçador se alegra. A Rainha se mostra contrariada)

Mande-o comigo casar!

(O Caçador se desengana)

Rei de Mont’Alverne:

(Depois de pausa para pensar)

Eu aprovo teu pedido

(A Prima posa vitoriosa. O Rei fala ao Caçador)

Desisti de te matar!

(Para o Carrasco)

Leve os dois para a igreja

(Ao Caçador, que relativiza e cede)

Ela tu vais desposar A minha linda sobrinha Te salvou por te amar

Prima Secundina:

Vamos logo, meu noivinho Meu amor eu vou te dar

(Abraça-o)

Eu sou tua e o boi não lambe Tremo toda de pensar Nós morando lá bem longe Ninguém vai nos separar

(O Caçador é arrastado pela Prima Secundina. A Rainha fala ao ouvido do Rei, que, sensibilizado,

interrompe e altera seu decreto)

Rei de Mont’Alverne:

Espere, meu bom carrasco Meu decreto vou mudar:

(O Caçador fica branco. A Prima não entende. A Rainha ri maquiavélica)

Só liberte este safado Quando seu couro espichar. Com duzentas chicotadas Bote este cão pra gritar Depois arranque sua língua Pr’ele nunca mais falar O que ele viu lá no mato Não vai querer nem lembrar

(O Caçador se desespera. A Rainha solta uma gargalhada de satisfação. Ele tenta correr, mas é con-

tido pelo Carrasco, que o amarra com os braços para trás e pelo pescoço. A Prima Secundina tenta amenizar seu desespero)

Prima Secundina:

Se conforme meu amado Pois de ti eu vou cuidar Uma pisinha de nada Vai doer, mas vai passar

Não te preocupes co’a língua Só serve pra reclamar Onde ela vai fazer falta Nós vamos improvisar

(Para o Carrasco)

Cuidado, seu brutamontes Não erre o que vais cortar!

(O Caçador se encolhe, olhos arregalados)

Rei de Mont’Alverne:

(Gritando)

Vão logo, que estou vexado Carrasco, vá trabalhar!

(O Carrasco obedece. Vão saindo e o Rei pisa na ponta da corda que desce do pescoço do Caçador,

freando-o violenta e dolorosamente. Ameaçando-o)

Espero que tu não ouses Um dia pra aqui voltar Estão os dois deportados Pra Ilha do Quincuncar!

(O Carrasco o arrasta, seguido pela Prima Secundina que, apesar da situação, mostra-se alegre por

ter conseguido seu intento: arranjou um casamento. Saem. Ouve-se chicotadas e gritos de dor. Silên-

cio. Gemido. O Rei faz expressão de aprovo e satisfação. Ele está transfigurado, com ar de maldade insana. Dom Carlos e Clara estão amedrontados sem saber o que lhes aguarda. O Rei está de costas para eles. A Rainha abraça a filha Clara, temendo que algo de ruim lhe aconteça)

Clara:

(Temerosa. Trêmula, indo em direção ao Rei)

Ai, meu pai, amado pai Que destino vais nos dar?

(O Rei continua de costas, o que aumenta a tensão e o desespero deles. O Carrasco entra. O Rei se

vira lentamente, chama o Carrasco e cochicha alguma coisa. O Carrasco olha para Clara e Dom Carlos, como que tenha sido dada alguma ordem para castigá-los. Eles estão se pelando de medo. A Rainha, intercede em favor do jovem casal)

Rainha de Mont’Alverne:

(Ao Rei)

Apelo pra tua bondade Não vá o mal praticar

É nossa única filha

Tem sangue azul como o mar

(O Rei fica pensativo. Silêncio. Pensa. Suspense. Dom Carlos espera o pior. Resolve implorar a cle-

mência do Rei)

Dom Carlos:

(Em desespero, caindo de joelhos aos pés do Rei)

Grande Rei de Mont’Alverne Eu estou a implorar Serei teu fiel escravo Se puderes perdoar

A mim e a Clara menina

Pecamos por muito amar

(O Rei permanece pensativo, com expressão de ódio irremediável, fungando)

Rainha de Mont’Alverne:

(Bondosamente, com ênfase)

Meu marido, meu senhor Novamente vou falar:

Imagine o nosso reino Sem descendência gerar!

Imagine quantos netos Estes dois podem nos dar

E tua nobre linhagem

Em ti não se encerrará

Rei de Mont’Alverne:

(A Dom Carlos, que treme de medo, erguendo-o pelas aberturas)

Seu moleque atrevido Devia te esquartejar!

(A Clara, que fecha os olhos de pavor)

Menina do rabo quente Devia te degolar! Mas morrias mal falada Então é melhor casar!

(Os dois se alegram. Para Clara)

Vai se casar com Dom Carlos Resolvi te perdoar

(Rainha e Clara abraçam e beija o Rei. O Carrasco sai)

Rainha de Mont’Alverne:

Vamos dar uma grande festa, Grande festa vamos dar! Chamarei toda a nobreza Pra conosco festejar.

(Com alegria e entusiasmo, abraça a filha. Escuro. Som: falas gravadas em rotação acelerada para indicar a passagem de tempo)

CENA 3: O CASAMENTO DE CLARA MENINA

(Castelo de Mont’Alverne. Rainha ao centro. Trombetas soam solenemente. O Bobo anuncia o casa- mento de Clara com Dom Carlos de Alencar. Apresenta as nobres convidadas: a Baronesa Malaguêta

e

suas filhas horrorosas e invejosas Solana e Luana. É o momento em que se evidencia a deselegância

e

mediocridade da família Malaguêta)

Bobo:

Que se calem as trombetas! Vou agora anunciar Um grande acontecimento

O

maior deste lugar:

A

jovem Clara menina

E

Dom Carlos de Alencar

Vão se ter em matrimônio Para sempre vão se amar

(Apresenta os convidados)

Nossos nobres convidados

Tenho que apresentar:

Baronesa Malaguêta Viúva de Ribamar Barão do Riacho Fundo Que afogou-se em pleno mar Lutando pela conquista Da Ilha do Quincuncar

(A Baronesa faz reverência, posuda, faz expressão de saudade e orgulho. Antes que o Bobo continue,

as filhas da Baronesa, que são infarentas, exibidas, inconvenientes e invejosas, saltam à frente e fa-

lam. Elas são fanhosas, feias e deselegantes. Ambas têm bundas exageradamente grandes e despro- porcionais)

Solana Malaguêta:

(Interrompendo deseducadamente)

Eu sou a linda Solana Sobre mim eu vou falar De virtudes sou coberta Para ver, basta um olhar

(Exibindo-se)

Bela, rica e glamourosa Todas querem me invejar Barões, príncipes, guerreiros Comigo querem casar

Eu sou quente como o sol Meu amor é de arrasar Não há ninguém neste reino Que resista ao meu beijar

(A Baronesa balança a cabeça afirmativamente. Luana Malaguêta fala, depois de uma reverência)

Luana Malaguêta:

Sou Luana Malaguêta Todos podem admirar Meu sorriso e rebolado

(Sorri e se rebola)

Provocam falta de ar

Minha mão tá prometida Inda estou a esperar

O Conde de Santa Fé

Um dia vem me buscar!

É

muito rico e honrado

E

em breve será meu par

Lindo, forte e poderoso Eu chego a desesperar Ansiosa pelo beijo Pelo “sim” dado no altar

Minha doçura é da lua

Sou dengosa e sei cantar Me derreto de paixão

(Olhando para o infinito)

Ó amor, vem me roubar!

(Solana Malaguêta interrompe pretensiosamente, abalroando-a com a bundona. Nota-se que as duas são muito chatas e rivais entre si, e também morrem de inveja de Clara)

Solana Malaguêta:

Ô irmã dos seiscentos

Milidiabo pra inventar Pois é nunca que o Conde Co’essa coisa vai casar Co’a fineza que ele tem

Vai querer me desposar

(A Baronesa nota que a Rainha está incomodada com a cena e trata de aquietar as filhas)

Baronesa Malaguêta:

(Com falsa amabilidade, beliscando-as)

Filhinhas do coração Parem de se elogiar

(Tentando falar à parte)

A Rainha está olhando

Parece que vai falar

(A Rainha se dirige às Malaguêta. Elas fazem mesuras insossas)

Rainha de Mont’Alverne:

(Insinuando docemente que devem se comportar)

Amigas, com muito gosto Mandamos vos convidar Se acomodem no castelo

A

noiva não vai tardar

O

atraso é pra dar sorte

Dá muita sorte embromar

(A Rainha sai. O Bobo corre atrás espalhafatosamente. A família Malaguêta entra na fofoca, num

canto do salão real. Cochichando)

Luana Malaguêta:

(Para a Baronesa)

Soube que Clara menina Se perdeu para casar Não é moça nem é santa Se perdeu com Alencar

Baronesa Malaguêta:

(Com falso pudor)

Ah, bichinha sem-vergonha Merecia era apanhar

Solana Malaguêta:

É

quenga da realeza

E

o trono vai herdar

(Ri com maldade)

Eu aposto que ela vai Um par de chifres botar Bem na testa do lesado

E ele nunca vai notar

Baronesa Malaguêta:

Ô lugazim sem moral

Não queria aqui morar

Luana Malaguêta:

(Com dengo e interesse)

Mas o noivo é bonitinho Não é de se desprezar Ele é rico e carinhoso

O Dom Carlos de Alencar

Solana Malaguêta:

Tu dizes porque tu sabes Pensas qu’eu não fui olhar? Desceste da carruagem No jardim pôs-se a andar

(Para a mãe)

Encontrou-se com Dom Carlos

E passou-se a se esfregar

Luana Malaguêta:

Ô, rainha da maldade Ô, égua pra me invejar! Foi um abraço de amiga Só quis lhe cumprimentar

Solana Malaguêta:

Tô te lendo, eu tô te lendo Tu gostas de se amassar

Luana Malaguêta:

(Partindo pra cima dela)

Bicha da bunda sem sal Tua cara eu vou quebrar!

(A Baronesa intervém e aparta, silenciando-as)

Baronesa Malaguêta:

Ora, mais! Dêem-se a respeito! Temos nome pra zelar

(Nota que a Rainha vem chegando. Fala com certa falsidade, apontando o altar)

Rainha de Mont’Alverne Como está lindo o altar

Rainha de Mont’Alverne:

(Retribuindo, no mesmo tom)

Baronesa Malaguêta Sinceridade exemplar

Baronesa Malaguêta:

(Falsamente)

Estamos em terra santa Como é puro este lugar

Este reino é um paraíso

É terra de se adorar

Rainha de Mont’Alverne:

(Referindo-se ao casamento da filha)

Estou tão emocionada Meu coração vai saltar

Solana e Luana:

(Falsas, tapando o riso com o leque)

Ohhhhhhhhhhhhhhhhh

Rainha de Mont’alverne:

A minha filhinha Clara

Vai, enfim, se emancipar

Solana e Luana:

(Noutro tom, arremedando, à parte)

Ohhhhhhhhhhhhhhhhh

A minha filhinha Clara

Vai, enfim, se amancebar

(Riem contidamente. O Bobo interrompe a cena cantando “Xote do Nobre Convidado”)

Bobo:

Atenção, por obséquio! Porque acaba de chegar Mais um nobre convidado Para a lista completar

O Conde de Santa Fé

Neste solo vai pisar

(Todos olham para o portão de entrada. As irmãs Malaguêta se acotovelam para ver aquele que pen- sam ser o marido dos sonhos)

Luana Malaguêta:

(Romântica)

Vai chegar meu lindo conde Eu quero é desencalhar

Solana Malaguêta:

(Sonhadora)

Muitos filhos vamos ter Um palácio, o nosso lar

Baronesa Malaguêta:

(Interesseira, à parte)

Ai, meu Deus, que coisa boa! No luxo vou me atirar Pois meu finado barão Não deixou o que gastar

(Apontando para as filhas)

Caso uma delas co’o conde Sogra rica vou ficar

(Rufar de tambores anuncia a entrada do Conde de Santa Fé. É um velho corcunda, manco e asque- roso. Entra o Conde, causando espanto nos demais e decepção nas irmãs Malaguêta)

Solana e Luana:

(Decepcionadas)

Ahhhhhhhhhhhhhhhhh

Ele não é gostosão

É um velho a manquejar!

(O Conde de Santa Fé manqueja cansado até onde está a Rainha de Mont’Alverne e lhe entrega um baú cheio de jóias em ouro, prata e brilhantes)

Conde de Santa Fé:

Rainha de Mont’Alverne Corri pra não me atrasar Trouxe um modesto presente Para Clara se enfeitar:

Finas jóias de ouro e prata Trinta quilos pra pesar

Cravadas com mil brilhantes

É o que posso ofertar

(Entrega o baú à Rainha, que o abre, sendo curiada pela Baronesa com “olho grande”)

Rainha de Mont’Alverne:

Tenha nossa gratidão Grande guerreiro do mar Lealdade sem medida Soubeste sempre mostrar

(A rainha sai para guardar o presente, seguida pelo Bobo. A Baronesa Malaguêta não esconde o es- panto, mas sua ambição fala mais alto. Aproxima-se do Conde de Santa Fé, apresenta-se e fala-lhe em segredo, sob os olhares reprovadores das filhas)

Baronesa Malaguêta:

Ao Conde de Santa Fé

Estou a me apresentar

O meu finado marido

Quis uma filha lhe dar Prometeu durante a luta Nas águas do Quincuncar

Assim me disse em sua carta Que chegou a me enviar

(Chora falsamente)

Meu marido era um bom homem Com Deus ele deve estar Só nos resta, então, agora Seu desejo respeitar

(Respira fundo. Muda. Resoluta, como quem negocia)

Pois aqui estamos nós Para ao defunto agradar. Se o conde aceita a oferta, Quando esta festa acabar

(Aponta para as filhas)

Escolha uma das duas Pra se matrimoniar

Conde de Santa Fé:

(Lembrando-se, saudoso)

Barão do Riacho Fundo Grande homem, o Ribamar

(Com grande interesse)

Pois ficamos combinados Estou doido pra casar

(Olhar sem-vergonha para as irmãs)

Vai ser difícil escolher Será grande o meu penar Não posso ficar co’as duas? Tenho fogo pra queimar

(Ri, esfregando as mãos. As irmãs Malaguêta encolhem-se, arrependidas de terem dado asas à pró- pria imaginação. Querem sair correndo, mas são detidas pela Baronesa)

Solana Malaguêta:

(Em segredo)

Ôxe, mãe, não faças isso! Prefiro me envenenar

(Com nojo)

Casar com um porco manco

É a vida desgraçar

Luana Malaguêta:

(Tentando também sair da situação)

Fique com ele a senhora Garanto que vais gostar Eu quero é homem bonito Esse aí é de assombrar

Baronesa Malaguêta:

(Autoritária)

Deixem de ser atrevidas! Uma de vós vai casar

É a vontade do Barão

Não podem se recusar

(Referindo-se ao Conde de Santa Fé)

Este homem é fino e nobre Possui riqueza no olhar Abençoada é a moça Que com ele for pro altar

(Soa fortemente um gongo. Todos silenciam. As irmãs dão as costas ao Conde de Santa Fé, de braços cruzados, batendo o pé e olhando para cima como birra. Trombetas. Entram a Rainha, Dom Carlos e o Frei Caneco, vindos de dentro. Marcha nupcial. O Rei entra com a filha Clara, passadas tradicio- nais. Todos tomam lugar. A Baronesa Malaguêta e suas filhas ladeiam o Conde de Santa Fé. As mo-

ças com cara de nojo e ele com ar de grande felicidade. Chegando ao altar, o Rei se posta ao lado da Rainha depois de entregar a filha a Dom Carlos. Os dois se ajoelham diante de Frei Caneco, que, depois de um gole de sua caneca de vinho, já embriagado, celebra o casamento)

Frei Caneco:

Em nome da santa igreja Eu vou então celebrar

A união de uma virgem

Co’um cavalheiro exemplar

(As Malaguêta se cutucam e se entreolha ironicamente)

Faço a vontade do Rei Para Deus testemunhar

Rei de Mont’Alverne:

(Cheio de orgulho e altivez)

Minha filha, minha herdeira

E

Dom Carlos de Alencar

O

que disse Frei Caneco

Faz o passado apagar Eu lhes dou a minha bênção

Capaz de purificar

(“Congelam”, exceto as Malaguêta)

Solana Malaguêta:

(À parte, para Luana)

O Rei tá ficando é doido

Querendo a Deus enganar

(Com ironia e gesto obsceno)

Clarinha não é mais moça Tava no mato a coisar

Luana Malaguêta:

Mas quem tem dinheiro pode Sem-vergonheza abafar

A luxúria e a safadeza

Ninguém ousa comentar

(Neste momento, a Baronesa dá um puxavanco no braço das filhas. Frei Caneco pigarreia em tom de repreensão, todos “descongelam”, e ele retoma o sermão, depois de mais um gole de vinho)

Frei Caneco:

Nesta ocasião solene Vou aos noivos perguntar

Rei de Mont’Alverne:

(Interrompe, autoritário e impaciente)

Podes saltar esta parte Todos dois querem casar Façais logo a benzedura Para a festa começar

Frei Caneco:

(Com submissão, fazendo repetidamente o sinal da cruz sobre os noivos)

Por ordem do grande Rei Que poder tem pra mandar Declaro que estão casados Clara e Carlos de Alencar Querendo agora podem Se abraçar e se beijar

(Clara e Dom Carlos se beijam. O Bobo pula de alegria e fala)

Bobo:

(Alegremente)

Viva o Rei, viva a Rainha Viva Clara e Alencar

O reino de Mont’Alverne

Está todo a festejar Saúde pra todo mundo Vamos beber e dançar!

Frei Caneco:

(Já completamente embriagado)

Quero uma dança arrastada Só não posso me casar Mas comida e enxerimento Deus não há de reprovar

(Insinua-se para a Baronesa Malaguêta, que se derrete. O Bobo canta. Durante a cantoria, Frei Ca- neco agarra a Baronesa e dança. É grande a animação. Todos dançam com alegria e descontração)

Bobo:

(Canta “Forró do Rela-Bucho”)

Viva o Rei, viva a Rainha Viva Clara e Alencar

O reino de Mont’Alverne

Está todo a festejar Saúde pra todo mundo Vamos beber e dançar!

Saúde pra todo mundo Vamos beber e dançar!

Saúde pra todo mundo Vamos beber e dançar!

(Dançam. O Conde de Santa Fé dança à força com Luana, que consegue escapar. Ele pega Solana, que também se livra dele. Música pára. Todos “congelam” ao mesmo tempo, exceto o Conde e as irmãs Malaguêta. Eles transitam por entre as outras personagens comicamente, as irmãs Malaguêta fugindo do Conde de Santa Fé)

Conde de Santa Fé:

(Para as irmãs Malaguêta)

Ô coisinhas mais lindinhas!

Venham cá me animar Muito beijo e rela-bucho Bota o véi pra delirar

Vou pedir para meu Rei Consentir eu me casar Com as duas belezuras Todas duas no meu lar!

Solana Malaguêta:

(Escapando)

Sai de perto, Satanás! Não ouse me amolegar

Luana Malaguêta:

(Idem)

Ô, meu santo padroeiro Eita cão pra me atinhar!

Conde de Santa Fé:

(Correndo atrás delas)

Eu gosto de pega-pega Todas duas vou pegar!

(O Conde gargalha enquanto corre atrás das meninas. Tempo. Os outros descongelam. Risadas. Luz vai baixando em resistência. Escuro breve. O Bobo entra. Luz sobe.)

Bobo:

(De boca cheia, canta “Xaxado do Bobo Esperto” dançando no proscênio)

Eita festa grandiosa Eita festa de arrombar!

Vocês viram Frei Caneco

O

pecado abençoar

O

Conde de Santa Fé

Quer com duas se casar

As meninas da bundona Vão com ele se deitar? Isso é poligamia

O Rei vai autorizar?

(Pausa. Pensa)

Não duvido mais de nada Quem sou eu pra duvidar?

(Pensa. Em confidência)

Mas, enfim, sou quase zero Não posso nada mudar Sou o bobo desta corte Não sou pago pra pensar

(Muda. Com entusiasmo)

Eita festa grandiosa Eita festa de arrombar! Estou todo escambichado

(Indica a cintura)

Meus “quarto” vão desmontar Casório de rico é bom

É coisa de admirar

Intriga, fofoca e luxo Muita risada pra dar Quem sabe, então, outro dia Alguém vá descabaçar

Outra princesinha afoita

E outra festa vamos dar

(Sai demonstrando cansaço e “dor nos quartos”. Luz baixa. Noite. Escuro. Vozes de animais em rota- ção acelerada)

CENA 4: O RETORNO DO BARÃO

(Floresta. Penumbra. A Baronesa Malaguêta, depois do vinho e da dança no casamento de Clara com Dom Carlos de Alencar, escapole com o Frei Caneco e a ele se entrega em um caso amoroso. Vê-se e ouvem-se os beijos exagerados e os abraços apimentados. Devassidão. A “viúva” e o frade estão com suas roupas levantadas, transando. Seus movimentos sugerem a cena de sexo. Gemidos. Coaxar de sapos. Cricrilar de grilos)

Baronesa Malaguêta:

(Com volúpia)

Ai, meu Deus, estou no céu! Vem, meu frade, me matar Me possua, me possua Não quero mais jejuar

Frei Caneco:

(Correspondendo)

Baronesa, meu pecado! Meu defeito é te amar Ai, meu Deus, eu tô doidão!

Não posso me segurar

(Geme animalescamente em “estacato”)

Baronesa Malaguêta:

(Com falsa inocência e esperteza. Empurrando-o com carinho)

Assim, de com força não Tu tens que me assegurar Que o teu amor é sincero Só assim vou me entregar

(Viva, calculista)

Me prometa u’a porcentagem Do que a igreja arrecadar

(Sensual, mordiscando os lábios)

E eu vou fazer nosso ninho

Estou doida pra te dar

(Insinua-se safadamente)

Frei Caneco:

(Tomado pelo desejo. Abraçando-a fervorosamente, apalpando sua bunda, ofegante)

Mi’a gostosa, eu te adoro Vou dez porcento ofertar

E em troca todas as noites

Nós vamos nos encontrar

Baronesa Malaguêta:

(Num rompante, largando-o dengosamente. Fazendo beicinho. Empurrando-o novamente)

Teu amor é mixuruca

É um sopro dado no ar

(Chorando falsamente)

Ai, meu Deus, não valho nada! Só resta eu me envenenar

Frei Caneco:

(Cedendo)

Não fique assim, doce amada Eu não quis te magoar Para cinqüenta porcento Vou teu repasse aumentar

Baronesa Malaguêta:

(Alegre. Sedutora)

Ai, meu freizinho querido Eu sou tua até no mar Vem me ter, vem me morder Me beijar e me agarrar!

(Beijam-se vorazmente num agarrado frenético de quem está no cio. Gemidos exagerados. Ao longe,

vê-se o vulto de um homem cansado, ferido, dirigindo-se à vereda onde se encontram o Frei Caneco e

a Baronesa. É o Barão do Riacho Fundo, que era dado como morto por não ter sido encontrado após

a batalha pela conquista da Ilha do Quincuncar. Roupa de nobre esfarrapada, tapa-olho cobrindo o

olho vazado na luta, barba e bigodes longos, entra lentamente, espreitando o casal de amantes. Apro-

xima-se. Olha. Vê. Não acredita quando percebe que é sua baronesa amada)

Barão do Riacho Fundo:

(Com violência, irado, espada a punho)

Filomena Malaguêta! Eu não posso acreditar Tu feriste a minha honra Na floresta a me chifrar

Baronesa Malaguêta:

(No susto, empurra o Frei Caneco, que cai para o lado com as pernas para cima, amedrontado)

Ai, meu Deus, ele voltou! Meu barão, meu Ribamar

(Tenta abraçá-lo, mas este recusa)

Barão do Riacho Fundo:

(Decepcionado)

Quem diria, Frei Caneco Que irias me apunhalar!!!?

(Com ódio e dor)

Meu coração está sangrando Contigo vou duelar Vai! Volte ao amanhecer Ficarei a te esperar!

Frei Caneco:

(Com medo)

Sou um homem de oração Não posso em arma pegar

(O Barão interrompe ameaçadoramente)

Barão do Riacho Fundo:

Cale a boca, porco imundo! Tu não podes recusar Forca será teu destino Se o meu Rei for te julgar

Adultério aqui é crime

(Apontando a Baronesa)

Nem ela vai escapar

Baronesa Malaguêta:

(Atirando-se aos pés do Barão)

Barãozinho, meu amado Desista de se vingar Pensei que tinhas morrido Nas águas do Quincuncar

(Implorando)

Oh, meu senhor, me perdoe Não há outro em teu lugar

Barão do Riacho Fundo:

(Resoluto)

Eu fui traído por ti Meu dever é eu me vingar Ou o frade aceita a luta

(Atira-se sobre ela, com a espada em seu pescoço)

Ou, então, vou te sangrar!

(Ela grita em desespero)

Frei Caneco:

(Decidindo, num impulso de coragem)

Barão do Riacho Fundo Decidi, eu vou lutar!

(O Barão solta a Baronesa)

A Baronesa é inocente Me aguarde que vou voltar

(Sai. Por um instante, o Barão e a Baronesa ficam a se olhar, como que se relembrando dos momen- tos de felicidade. Ela abaixa a cabeça, envergonhada. Ele se aproxima dela e fala com tristeza)

Barão do Riacho Fundo:

Como tiveste coragem De na lama me atirar? Sou um homem derrotado Sem mulher e sem o lar

Baronesa Malaguêta:

(Chorando baixo)

O que tu queres que eu faça

Pra meu erro reparar?

Barão do Riacho Fundo:

(Com revolta, gritando, nó na garganta)

Enfrentei homens e monstros Sem nunca me acovardar Conquistei para o meu Rei

A Ilha do Quincuncar

(Olhando-a nos olhos, mais brando)

E pra mim, o que restou?

As terras que vou ganhar?

Agora sou morto-vivo Sem ninguém para me amar

(Vira-se costas e abaixa a cabeça)

Baronesa Malaguêta:

(Amorosa)

Não digas isso, querido

(Aproxima-se dele)

Meu amor é pra te dar

(Acaricia-o)

Tu renasceste em mim Para sempre vou te amar

(Abraçam-se. Deitam-se. Estão se amando quando surge o Frei Caneco, espada em punho, lentamen- te. De longe olha e se revolta com a cena. Determinado a lutar pelo amor da Baronesa, parte para o duelo, agora se achando traído e desonrado)

Frei Caneco:

(Valente, para o Barão do Riacho Fundo)

Levanta-te pra morrer Minha arma fui buscar

(O Barão do Riacho Fundo levanta-se de sobressalto, já com a espada em punho)

Filomena agora é minha Por ela vou te matar Depois da cena que vi Desafio-te, Ribamar!

(A Baronesa Malaguêta tenta interferir, saltando entre os dois. Fala com desespero melodramático)

Baronesa Malaguêta:

Não quero que ninguém morra Vamos com o ódio acabar

(O Barão do Riacho Fundo puxa a Baronesa para trás de si e enfrenta o desafiante)

Barão do Riacho Fundo:

Acalma-te, Filomena Deste cão eu vou cuidar Na ponta da minha espada Ele há de se estrepar

(Inicia o combate de espadas. O duelo se dá em coreografia tensa e dramática, com pontos de jogo de espada de reisado. A Baronesa se posiciona no centro, atrás, tal qual princesa virgem sendo disputa- da por príncipes galantes, apreensiva, frágil. A luta é ferrenha. Ora um está para morrer, ora o outro. Aos prantos, a Baronesa propõe um pacto de silêncio e esquecimento. Enfia-se corajosamente entre os dois contendores e, com um punhal retirado do cinturão do Barão, ameaça por fim à própria vida, caso eles não parem a luta)

Baronesa Malaguêta:

(Como uma “Julieta”)

Parem agora ou então me mato Eu não posso concordar Se lutam por meu amor Vou minha vida tirar Só assim morre o motivo Da briga continuar

(Os dois se afastam. Ela fica no centro da cena. Negociante)

Mas eu tenho uma proposta Que vai aos dois agradar:

(Ao Barão do Riacho Fundo)

Meu ex-finado marido Vai me ter em nosso lar

(O Barão fica pensativo. Frei Caneco não acredita, está atônito)

Nossos netos vão nascer Pense nisso, Ribamar

(O Barão ainda não sabia que suas filhas haviam casado. Alegra-se. A Baronesa fala ao Frei Caneco)

Quanto ao nosso Frei Caneco Deve à igreja retornar O povo de Mont’Alverne Sem pastor não vai ficar

(Olha nos olhos dos dois)

Se os dois não concordarem Só me resta eu me matar

(Ações em câmara lenta. Olham para a Baronesa. O Barão ameaça se aproximar e tomar o punhal, mas ela apressa-se em demonstrar que não está brincando, aprumando-o perto do coração, lacrime-

jando. O Barão solta a espada no chão. Ela sorri satisfeita. Frei Caneco também larga a espada. A Baronesa deixa cair o punhal, abraça o Barão e, quando vão saindo, pisca o olho para o Frei Cane- co, que corresponde. Os dois saem. Ações em ritmo normal: Frei Caneco, sozinho, suspirando de amor, junta as armas. Pássaros. Música. Luz cai em resistência. Escuro. Luz vai subindo enquanto o Bobo ressurge cantando)

Bobo:

(Canta “Maxixe do Ex-Defunto Corno)

Ficou tudo resolvido Três pessoas num só par Barão morto nu’era corno Ficou ao ressuscitar

O duelo interrompido

Fez a honra desandar

O Barão e o Frei Caneco

Passaram a se revezar

(Com forte ironia e insinuação)

E a Baronesa devassa

Alegre a se saciar Escondeu sua safadeza Não deixou de comungar

(Com admiração)

Esta terra tem pecado Tanto quanto água no mar Este mundo está no tempo De de novo se acabar

(Mudando)

Mas enquanto ele perdura Minha vida vou levar Acordei só pra dizer Que o tempo vai pular

O céu vai se escurecendo

(Luz vai baixando lentamente)

Nove meses vão passar

E eu vou pra casa dormir

Pra depois eu me acordar

(Escuro total)

CENA 5: NOVE MESES DEPOIS

(Castelo do Rei de Mont’Alverne. A Rainha entra com Clara, acariciando-lhe a barriga. É uma bar- riga pontuda, exageradamente pontuda. Barriga pontuda indica, segundo a ciência popular, que o rebento é macho)

Rainha de Mont’Alverne:

(Carinhosa)

Filhinha do coração Eu penso em me beliscar

Parece que estou sonhando

O herdeiro vai chegar

Clara:

(Cara e pose de grávida. Sentindo a criança mexer)

Como sabes que é um homem No meu ventre a saltitar?

Rainha de Mont’Alverne:

(Com sabedoria, gesticulando)

Barriga redonda é fêmea Podes nisso acreditar

A do macho é pontuda

Como estais a apresentar Tudo isso que vos digo

É ciência popular

(Clara passa a mão na barriga, sonhadora. De repente, ouve-se a briga das irmãs Malaguêta, ainda de fora)

Solana Malaguêta:

Tu és muito é invejosa Minha idéia quer tomar!

Luana Malaguêta:

Você roubou o meu sonho Eu devia te matar!

Solana Malaguêta:

Puta! Quenga! Rapariga! Vou agora te esganar!

Luana Malaguêta:

Me solta, bunda de assôpro Vou teus cabel’arrancar!

(A Baronesa as arrasta para dentro do salão onde se encontram a Rainha e Clara. As irmãs Mala- guêta estão cada uma com um buchão enorme, também pontudos, só que um é apontado para a es- querda e o outro para a direita, como que deformados. Elas ainda estão agarradas uma nos cabelos da outra, visivelmente assanhadas)

Baronesa Malaguêta:

(Disfarçando)

Ora, se acalmem, meninas!

Vocês não podem brigar Cuidado com os bebês Eles vão se agoniar! Vou dizer tudo ao Barão Quando a gente retornar

(Elas se soltam e ficam com sorrisos sem graça para a Rainha e olhar de ódio uma para a outra. A Baronesa está entre elas, para garantir a “paz”)

Bom dia, minha Rainha! Viemos lhes visitar Buchudinha dona Clara

(Observa e apalpa a barriga pontuda)

Um machinho vai nos dar

(Clara as cumprimenta com um sorriso)

Rainha de Mont’Alverne:

(Referindo-se à barriga de Clara)

O Príncipe de Mont’Alverne Vai nascer para reinar

Clara:

(Curiosa e admirada, para as irmãs Malaguêta)

Amigas, não acredito! Como foram emprenhar?

Solana e Luana:

(Para Clara, mostrando-lhe as barrigas enormes)

Eu me casei com o Conde

E um herdeiro vou lhe dar

Solana:

(Para Luana, ameaçadoramente, pronta para brigar)

Ô bichinha intrometida!

Da riqueza eu vou cuidar

Luana Malaguêta:

(Também querendo briga)

O meu filho é primogênito

Não se meta em meu lugar!

(Clara e a Rainha ficam sem jeito. A Baronesa, mais uma vez, intervém apaziguando, pernas e mãos abertas separando e segurando as duas briguentas)

Baronesa Malaguêta:

(Tentando explicar)

Co’o Conde de Santa Fé Decidiram se casar Foi um amor repentino Não se podia evitar

(Clara e a Rainha fazem que entenderam. Piscam uma para a outra demonstrando que perceberam o interesse das Malaguêta pela riqueza do Conde de Santa Fé)

Clara e Rainha:

(Irônicas. Risinho tapando a boca com a ponta dos dedos)

Ahhhhhhhhhhhhhhhhh

Como é lindo um grande amor Como é bom se apaixonar

Baronesa Malaguêta:

São meninas impulsivas Têm ciúmes pra danar

Solana Malaguêta:

(Gritando, com dengo de menina mal-criada)

O meu vai nascer primeiro Sou capaz de apostar!

Luana Malaguêta:

(No mesmo tom, partindo pra cima, sendo agarrada por Clara)

Mulesta da bunda insossa Não me faças gargalhar:

(Com desprezo)

Rá, rá, rá, rá, rá, rá, rár

Clara:

(Tentando contornar a situação)

Todo filho é precioso Não adianta brigar

Solana Malaguêta:

(Tentando finalizar o assunto como vencedora)

Mas o meu é o conde júnior Queria o assunto acabar

Luana Malaguêta:

Queria, pois coce a viria

Tua cara eu vou quebrar!

(A Baronesa Malaguêta, nervosa, acaba definitivamente com a querela entre as duas)

Baronesa Malaguêta:

(Aos gritos)

Não mereço estas cruzes Hoje vou me suicidar!

(As irmãs Malaguêta olham para a mãe e se entreolham, para depois dizerem compadecidas)

Solana e Luana:

Ô mãezinha, nos perdoe Não precisa se matar Agora somos amigas Nós vamos nos abraçar

(Abraçam-se falsamente, com beijinhos frios. Suas barrigas tortas fazem um desenho exótico. A Baro- nesa se acalma. A Rainha se aproxima)

Rainha de Mont’Alverne:

(Solícita, apontando a bandeja de chá, mas já se incomodando com as visitas)

Tomem chá de camomila Para os nervos acalmar

(O Bobo as serve. Elas bebem o chá com barulho deseducado nos lábios. A Rainha sai, acompanhada

pela Baronesa, que vai se abanando como que passando mal)

Solana Malaguêta:

(Espevitada)

Eu queria u’a cachacinha Pra ligeiro eu me animar

Luana Malaguêta:

(Repreendendo-a)

Acalma esse teu xibiu O povo vai te notar! Cale a boca e “aquete” o facho Temos que nos comportar

(Clara ri. Elas se olham e postam-se inocentes e castas)

Solana e Luana:

(Cumpliciadas)

Pois, então é, bicha linda Não vamos nos estressar!

(Gritos vindos de fora: é a Prima Secundina que vem chegando e a guarda do castelo, não a reconhe- cendo, tenta impedir sua entrada)

Prima Secundina:

(Ainda de fora)

Quero falar com meu tio Me soltem que eu vou passar!

(Com violência)

Me soltem, estou ordenando Comecei a me enfezar!

Clara:

(Num sobressalto)

É a Prima Secundina

Vou mandar que a deixem entrar!

(Clara sai correndo e volta rapidamente puxando a Prima Secundina, que, de tão pesada a sua barri- ga, anda com dificuldade. Sua aparência está mudada: está descabelada e mais feia ainda, sua barri- ga é uma grande bola, de exageradamente arredondada que é)

Prima Secundina:

Quase morro de saudade De todos deste lugar Meu bucho tá pra se abrir Não tarda, vou descansar Vim aqui para o meu tio M’ia filhinha batizar

(Nota que as Malaguêta estão grávidas e ridiculariza o formato de suas barrigas)

Vixe, Maria, o que foi Que ali foi se gerar?

(Aponta para a barriga delas, gargalhando estridentemente)

Se for gente é entortado Jamais vai se levantar

(As Malaguêta, que não são flor que se cheire e adoram uma confusão, partem para cima da Prima Secundina, mas são impedidas por Clara)

Clara:

(Pacificando, com repreensão)

Secundina, por favor! Isso é jeito de tratar? Do Conde de Santa Fé

É que estão a esperar

Lindos filhos, com certeza.

(Ordenando)

Fique quieta em seu lugar!

(Solana e Luana, não satisfeitas, tentando se soltar, respondem na mesma pancada)

Solana Malaguêta:

E esse bucho de balão

Quando é que vai se estourar?

Luana Malaguêta:

Eita porca do buchão Tem bacurim pra danar!

Prima Secundina:

(Gesticula e faz trejeitos)

Mas não vão nascer corcundas Sem poder pro céu olhar! Nem são fi de rapariga Que embuchou para enricar!

(Neste momento as irmãs Malaguêta, enfurecidas, conseguem se livrar de Clara e, aos urros, agar- ram-se com a Prima Secundina pelos cabelos, com as barrigas enganchadas. Ao ouvirem os gritos, entram correndo a Rainha e a Baronesa, que, com muito esforço e autoridade, apartam a briga)

Rainha de Mont’Alverne:

Acabem já co’essa briga Estou mandando parar!

Baronesa Malaguêta:

Eitas cão pra dar trabalho Os meus netos vou salvar!

(As duas entram no meio do fuá. É um pega-e-solta danado: a Rainha segura a Prima Secundina, a Baronesa segura Luana e Clara segura Solana. Escapam. Revezam-se as que seguram. Continua a gritaria: muitos ais, uis, urros, esturros. Luz baixa em intensidade. Escuro. Efeito sonoro: galinhas chocas cacarejando, depois choro de bebês nascendo)

EPÍLOGO

(Luz abre. O Bobo puxa o “Coco do Reino de Mont’Alverne”. Clara, Luana, Solana e a Prima Se- cundina estão com seus bebês.Todos dançam: as meninas com os bebês, acalentando-os, o Barão com a Baronesa, Dom Carlos com a Rainha, Frei Caneco com um pote de vinho e paquerando com a Ba- ronesa. Todos cantam repetindo sempre os dois últimos versos de cada estrofe)

Este conto foi contado

Sem mentir, sem inventar

O pecado da menina

Fez o reino revirar

E o povo todo pecou

Depois de Clara pecar

E o povo todo pecou

Depois de Clara pecar

Foi um feitiço de bruxa Que chegou sem avisar E o reino de Mont’Alverne Tão grande, tão popular Inda hoje prolifera Renasce em todo lugar

Inda hoje prolifera Renasce em todo lugar

No grande circo do mundo Toda serra abriga um mar Todo rico só tem medo Do que não pode comprar Toda donzela tem brilho Só pra quem sabe lustrar

Toda donzela tem brilho Só pra quem sabe lustrar

O destino é um copo cheio

Todo dia a derramar Tem o olho arregalado Tem mil mãos pra te pegar

E depois que a água róla

Não se consegue escapar!

E depois que a água róla

Não se consegue escapar!

E depois que a água róla

Não se consegue escapar!

(Escuro total e repentino. Efeito: forte gargalhada de bruxa misturada a canto macabro de rasga- mortalha)

FIM
FIM

O PECADO DE CLARA MENINA

Texto e Direção de Cacá Araújo

Inspirado no poema “O Romance de Clara Menina com Dom Carlos de Alencar, poema de domínio público e origem lusitana.

SINOPSE:

O pecado de Clara menina, como uma maldição, é o fato que desencadeia uma série de outros pecados cometidos por

gente do reino: ambição, ira, adultério, poligamia, luxúria

Clara, filha do Rei de Mont’Alverne, é flagrada por um Caçador ambicioso em namoro exagerado com Dom Carlos de Alencar. Ela e seu amante lhe fazem promessas de bens e riquezas para que ele não revele ao Rei o que presenciara, mas este se mostra determinado a contar ao monarca e “para um bom prêmio ganhar”. No momento em que conver- sam, Secundina, a prima de Clara, uma sujeitinha abirobada muito feia e atirada, surge e se enamora do Caçador, que a recusa e ela promete vingança.

Chegando ao castelo, o Caçador narra o que vira ao Rei, que se revolta com a revelação do caso em público e manda o

Carrasco cortar-lhe o pescoço, sendo salvo pela Prima Secundina ao inventar ter sido estuprada por ele e desejar casar-

se para não manchar a honra da família.

Atendendo aos pedidos de sua Rainha em favor de sua filha e de Dom Carlos, o Rei resolve poupar a vida dos dois pecadores e os faz casarem-se, em grande festa para a qual convida toda a nobreza. Estando presente ao casamento a Baronesa Malaguêta, viúva do Barão do Riacho Fundo, e suas feias e invejosas filhas Solana e Luana, cria-se um típi- co ambiente de fofocas. E eis que aparece o Conde de Santa Fé, a quem o Barão havia prometido a mão de uma de suas filhas. Mas, sendo ele velho, corcunda e manco, apesar de rico, desperta o desprezo das irmãs, que permanecem alvos da alcoviteirice da mãe, de olho na boa-vida que pode ter.

Outro pecado ocorre, desta vez, quando a Baronesa Malaguêta se entrega a um caso amoroso com o Frei Caneco. Para surpresa de ambos, o Barão do Riacho Fundo retorna de sua longa jornada, depois de já ter sido considerado morto, e

se depara com sua mulher aos beijos e abraços com o frade, numa vereda da floresta. O ciúme e a ira tomam conta

dele, que resolve duelar com o Frei Caneco numa luta de espadas. Temendo pela morte de um deles, a Baronesa resol- ve interromper a luta ameaçando se matar. Propõe a interrupção da disputa, resolve ficar com seu marido ex-defunto e sugere que o Frei Caneco retorne à igreja. Atendendo as exigências, eles cessam a luta. Na saída para casa com o Ba- rão, ela pisca o olho para o frade, sinalizando que o caso amoroso continuará.

No final, todas as moças estão grávidas e as crianças nascem em meio a uma grande confusão, todas elas ao mesmo tempo, no salão do Castelo de Mont’Alverne.

“O PECADO DE CLARA MENINA” é um pequeno conto narrado em versos populares (intencionalmente com todas

as rimas em “ar”), cujas personagens evidenciam a sedução, o amor, a traição, o pecado, a ambição, a crueldade dos

poderosos, tudo por meio de linguagem e motivação brincante, cômica, sertaneja e universal. Não tem pretensão mora- lizadora como os autos da Idade Média, é apenas uma brincadeira de bom gosto, ao sabor dos nossos contadores de causos.

CONCEPÇÃO CÊNICA:

A peça “O PECADO DE CLARA MENINA” foi concebida para encenação em palco à italiana, arena, ou na modalida-

de teatro-de-rua, sendo esta última a preferida, pela proximidade com o mamulengo que o texto inspira.

Inicia-se a peça numa coreografia popular-circense-mamulengueira para depois evoluir para a ação teatral onde se valoriza o mundo encantado e brincante do sertão nordestino, com suas histórias de reis e rainhas, amores, traição, ambição, esperteza.

Assim, todos os elementos cênicos, da cenografia ao figurino, da sonoplastia à coreografia, associam-se ao caráter popular sertanejo da encenação, numa força dramática que mistura a linguagem brincante da Comédia Del’Arte e os gestos caricatas dos desenhos animados ao propósito de reafirmar a universalidade da cultura tradicional popular.

PROPOSTA DO ESPETÁCULO:

De temática essencialmente popular, o espetáculo se propõe a revisitar o universo nordestino em suas cores, na mística do amor proibido, na ambição e no pecado, nos excessos dos poderosos, e, principalmente, na narrativa brincante, alegre e versejada dos cantadores do vasto mundo sertanejo.

A ambientação em lugares conhecidos não guarda nenhuma relação com a história do lugar nem com os hábitos de sua

gente. Qualquer semelhança terá sido mera coincidência, pois o elemento inspirador do texto tem origem lusitana vindo de tempos medievais.

Cacá Araújo Crato-CE, abril do ano 2007.

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