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Textos

Poesia,

Joaquim Manuel Magalhães., Alta noite em alta fraga

Al Berto, poema «Sida» (Horto de incêndio)

Pedo Vieira, Massamá

Eduardo Pitta, Cidade Proibida

Guilherme de Melo, O homem que odiava a chuva, Como um rio sem pontes

Domingos Lobo, contos, lágrimas dos vivos

Conto de Teolinda Gersão

António Lobo Antunes, Que farei quando tudo arde?

Filme Mal, Alberto Seixas Santos

Ver Les témoins, Téchiné

Arte em tempo de sida

Agora que o n.º 110, relativo a Fevereiro, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a
crónica
O Sexo dos Anjos, publicada no n.º 109 na minha coluna Heterodoxias:Ouvi há dias
na televisão o Jorge Silva Melo dizer que a literatura portuguesa tinha desistido da
realidade. Para ser exacto, ele não usou o verbo desistir. O que ele disse foi mais ou
menos isto: «A ficção portuguesa tem dificuldade em lidar com a realidade, mas isso
não era assim nos anos 50 ou nos anos 60, quando qualquer escritor, até um escritor
menor como o Fernando Namora, ansiava encontrar-se com temas presentes.» Antes
de concluir, «agora passa-se tudo nas memórias coloniais ou no D. João V...», deu
como exemplo Domingo à Tarde (1961), romance com acção centrada no Instituto
Português de Oncologia, onde Namora, que era médico, trabalhava.O
documentário de João Osório em que Silva Melo fez estas considerações era sobre
o efeito da sida na arte: literatura, poesia, música, bailado, pintura, fotografia,
cinema, teatro.
Trinta anos passados sobre a descoberta do VIH, em Junho de 1981, é revelador
que a representação da sida na literatura portuguesa seja praticamente nula. O
défice de real traduz o quê? Conflito com a realidade? Eugenia corporativa?
Provincianismo?

Sou capaz de perceber que autores formados à sombra do Estado Novo


(os que nasceram antes de 1950) tenham relutância em falar de um vírus
de que tiveram conhecimento jornalístico na meia idade. Mas os mais
novos, os que cresceram com a progressão da síndrome da
imunodeficiência adquirida (nunca o termo work in progress foi tão
certeiro), preservativo no bolso desde a puberdade, mesmo esses, aos
costumes dizem nada. Viciados em residências de escrita criativa, para
quê chafurdar na realidade?

Como não há regra sem excepção, lembro o romance de estreia de Pedro


Vieira, Última paragem, Massamá (Quetzal, 2011). As febres e suores de
Lucas podem não ser decisivas na arquitectura do livro, mas a história
que Vieira conta não passa ao lado da realidade. Camelot fica muito
longe da rua da Imprensa Nacional.

Ao invés, no Brasil, autores de primeiro plano andam há mais de vinte anos a


estabelecer um nexo entre sida e literatura. Por exemplo, Herbert Daniel (1946-
1992), desconhecido em Portugal, embora aqui tenha feito estudos de medicina ao
mesmo tempo que trabalhava como free lance journalist numa revista feminina.
Entre outros romances, Herbert publicou Alegres e Irresponsáveis Abacaxis
Americanos (1987), pondo em pauta a discriminação ideológica dos seropositivos.
Antes disso já havia escrito e publicado inúmeros ensaios sobre o tema, mas agora
estamos a falar de literatura.Não era a primeira vez que o público brasileiro se via
confrontado com a sida. Isso aconteceu logo em 1983, quando Caio Fernando
Abreu (1948-1996) publicou a novela Pela Noite, considerado o primeiro texto
ficcional brasileiro sobre o VIH. A partir de 1991, Pela Noite passou a fazer parte do
volume Triângulo das Águas. Em obras posteriores, o discurso será explicitado com
maior veemência: «Cuidado comigo, eu sou a dama que mata, boy.»

Contista admirável, gaúcho acarinhado pela intelligentzia paulista, Caio está hoje
publicado numa dúzia de países excepto em Portugal. Não se percebe. Livros como
Morangos Mofados (1982), Os Dragões não Conhecem o Paraíso (1988), Onde
Andará Dulce Veiga? (1990) e Ovelhas Negras (1995; ao lado dos últimos, inclui
alguns dos primeiros contos do autor), para citar apenas os meus preferidos, são
do melhor que a literatura de língua portuguesa tem produzido.

Sem pretender ser exaustivo, chamaria ainda a atenção para Uma História de
Família (1992), romance de Silviano Santiago, bem como para dois contos de
Bernardo Carvalho inseridos em Aberração (1993).

E nós por cá? Nós por cá escrevemos sobre o sexo dos anjos, um tema sempre
actual, ou, como diz Silva Melo, presente.

by Eduardo Pitta