História da Cultura e das Artes I
Profª Marta Esteves
ARS ANTIQUA (Arte Antiga)
Termo utilizado por um grupo de teóricos e músicos no sé[Link], em Paris, para distinguir a
época da polifonia e notação do sé[Link] (Ars Antiqua) das novas práticas modernas do sé[Link]
(Ars Nuova).
A definição do termo Ars Antiqua inclui toda a música do período de Notre Dame e dos seus
principais compositores, Léonin e Pérotin. A essa tradição pertencem ainda o repertório de
organum e conductus.
Assim, Ars Antiqua incluirá dois períodos históricos:
o Escola de Notre Dame, de 1160 a 1250 - caracterizado pela polifonia litúrgica, com
textos em latim, com utilização dos modos rítmicos e por uma notação rítmica que está
a surgir.
o Período seguinte, de 1250 a 1320 - dominado por uma notação mensural rítmica muito
desenvolvida, pelo género do motete e pelo aparecimento inicial de uma tradição de
escrita de música instrumental e da canção polifónica profana.
A NOTAÇÃO DA ARS ANTIQUA
Esta época é caracterizada pelo aparecimento da notação mensural.
Até meados do sé[Link], os músicos de Notre Dame executavam as composições polifónicas de
acordo com os Modos Rítmicos. Para interpretarem as novas composições polifónicas cada vez
mais complexas, os teóricos do sé[Link] - Johannes de Garlandia e Franco de Colónia - tiveram
que estabelecer um novo código de figuras com duração que possibilitaram a escrita de ritmos
variados.
Segundo os tratados destes teóricos, a distinção temporal entre as notas é feita com base em 4
figuras e suas respetivas pausas:
A relação entre Máxima e Longa pode ser binária ou ternária:
A relação entre Longa, Breve e Semibreve é sempre ternária:
Assim, era fácil formar uma árvore de valores duracionais, com a máxima a valer 2 longas, a
longa a valer 3 breves e a breve a valer 3 semibreves. Esta relação é simples de se entender,
pois trata-se de valores isolados entre si e que estão de acordo com o consagrado princípio
ternário, o número perfeito medieval. Porém, torna-se mais complicado quando as notas
formam ligaturae (ligaduras), ou seja, quando mais que uma nota cobrem uma mesma sílaba.
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O sistema de ligaduras baseia-se na sequência de valores breves ou longos. Antes de Franco de
Colónia as mesmas ligaduras podiam ter diferentes valores dependendo do contexto, tal como
podemos ver neste quadro.
Depois de Franco de Colónia ter criado a notação mensural, as ligaturae passaram a ter uma
relação temporal.
Na presença de duas notas ligadas existe uma forma normal – sequência Breve-Longa – e
existem variantes desta forma.
A sequência normal de valor breve e longo de duas notas ligadas é chamada ligaturae cum
proprietate et cum perfectione.
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OS TEÓRICOS
Entre o grupo de teóricos musicais do início do sé[Link], encontra-se Jacobus de Liége (1260-
1340) defensor da Ars Antiqua e autor da enciclopédia Speculum musice (1320). Dos seus
escritos, ficamos a saber que a Ars Antiqua corresponde à prática musical da segunda metade
do sé[Link], preservada em inúmeros manuscritos e descrita em tratados como De musica
mensurabili (1240) de Johannes de Garlandia; Ars cantus mensurabilis (1260) de Franco de
Colónia; De speculatione musices (1280) de Walter Odington; Ars musicae (1300) de Johannes
de Grocheio; e Petrus de Cruce cujo tratado se perdeu.
Na sua enciclopédia, Jacobus de Liége critica as práticas modernas e enaltece as virtudes das
velhas práticas dizendo:
o Os compositores modernos só escrevem motetes e canções, negligenciando outros
géneros como o organum, o conductus e o hoquetus;
o Os compositores modernos tanto usam medidas rítmicas imperfeitas como perfeitas
enquanto que nas antigas práticas, seguindo Franco de Colónia, apenas se usam as
perfeitas;
o Os modernos dividem as semibreves em valores mais pequenos, grupos de mínimas e
semínimas perfeitos e imperfeitos enquanto que os seguidores da Ars Antiqua dividem
apenas as breves em semibreves na medida perfeita, sendo estas indivisíveis;
o Em consequência disto, a linguagem rítmica usada pelos modernos é muito mais
limitada e inflexível que a usada pelos aderentes da prática antiga;
o Os modernos envolvem-se numa considerável experimentação com a notação,
resultando numa prática inconsistente, enquanto que os seguidores de Franco de
Colónia têm uma clara e estabelecida tradição de notação musical;
o Os modernos enaltecem demasiado os andamentos em ritmos estranhos e caprichosos
– musica lasciva - enquanto que os seguidores da prática antiga permanecem
confinados a uma música mais discreta – música modesta.
Depois deste testemunho torna-se evidente que a Ars Antiqua corresponde à prática musical da
2ª metade do sé[Link] e que os primeiros géneros de conductus e organum eram continuamente
revistos à luz das mudanças estéticas que o ritmo trouxe.
Apesar de todos os méritos que a Ars Antiqua trouxe, por volta de 1320 um novo período
estava a imergir. Apesar da maioria das inovações da Ars Nova serem radicais, muitas outras
representam uma continuidade das primeiras práticas.
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