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História da América

Atividade 2

Plano de Aula

Prof. Everton Luis Sanches

Aluno: Fábio D. Christovam


RA: 8010990
História

Atividade de Portfólio

Temos como objetivo, nesta atividade, incentivar você a escrever uma pequena
dissertação - seguindo as normas da ABNT - em que poderá realizar algumas análises e
comparações históricas entre as possíveis causas das diversas diferenças entre as regiões
norte e sul do continente americano, levando em consideração o processo de
colonização que marcou todo o continente, mas de maneira distinta para cada região.

As normas da ABNT previstas para esse tipo de texto podem ser consultadas em
http://claretianobt.com.br/p/ pesquisa/tcc. Acesso em: 29 jun. 2016. Logo em seguida,
tomando como base as suas reflexões, você deverá montar um conjunto de 4 a 8 aulas
voltadas para alunos do Ensino Médio problematizando as diferenças entre a
colonização nessas partes diferentes do continente americano Coloque suas
considerações no Portfólio.

O envio de mensagens se encerra em 10/04/2017.

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História

Dissertação:

As conquistas da América

Sobre Bandeirantes e Pioneiros


Em 1954, quando o Brasil ainda se chamava “Estados Unidos do Brasil”, Vianna
Mogg publicava seu livro “Bandeirantes e Pioneiros – paralelo entre duas culturas”1,
um estudo sobre o processo de colonização inglês e o português para questionar
justamente o tema dessa dissertação: quais as diferenças entre essas duas linhas de
colonização, levantando já no primeiro parágrafo de seu prefácio:
“De a muito que essa pergunta anda no ar em busca de uma resposta em
grande: como foi possível ao Estados Unidos, país mais novo que o Brasil e
menor em superfície continental contínua, realizar o progresso quase
milagroso que realizaram e chegar a nossos dias, à vanguarda das nações,
como a mais prodigiosa realidade do presente, sob muitos aspectos a mais
estupenda e prodigiosa realidade de todos os tempos, quando o nosso pais,
com mais de um século de antecedência histórica, ainda se apresenta, mesmo a
luz das interpretações e profecias mais otimistas, apenas como o incerto país
do futuro?”2

Quando o pensar no senso comum nos absorve, após o dia de labuta, e sentados a
noite, ligamos a TV, maior disseminadora e mantenedora deste próprio pensar, ouvimos
as notícias do cotidiano, aquele demônio do anacronismo, sempre desperto nos agulha
com alfinetadas: “- O que será que deu errado?! - Onde será que erramos!?”. E nos
perdemos, afogados na liquidez da transitorialidade das transformações do mundo, para
não citar Bauman. É nesse turbilhão, que não nos damos conta da razão. Um
sentimento de “inferioridade”, e contraditório falso orgulho, afinal a emoção cega,
quando esses assuntos nos assolam na sala a noite, na frente de uma TV, ouvindo as
tragédias e dores do mundo, a mente vagueia e a razão adormece. Será um senso
comum de uma inferioridade colonizadora da América do Sul?

Segundo o historiador gaúcho, Moacyr Flores, a história comparativa de Vianna


Mogg (1954) no primeiro capítulo de seu livro, derruba as teses do senso comum, de
cunho racista, que o desenvolvimento dos Estados Unidos, se deve a superioridade
1 MOGG, Viana. Bandeirantes e pioneiros: paralelos entre duas culturas. Rio de Janeiro: Globo, 1959. 416 p.
2 Idem op. cit, s/n. Prefácio, 1o parágrafo.

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racial, por não haver a miscigenação entre os ingleses, salvo exceções, com índios e
negros, como houve na colonização portuguesa e envereda pela questão geográfica e
sua relação com fatores étnicos para explicar o sucesso americano3. Neste ponto, cita
Flores a tese de Mogg é incomparável, pois não aceita de forma nenhuma a questão
racial como determinante de superioridade econômica, pelo contrário, sem a
miscigenação, não seria possível desbravar o continente sul-americano devido as
dificuldades de sua orografia, clima e vegetação.
Na amazônia, não há “inferioridade racial”, comenta Flores, “pois o meio é
implacável”, onde só permanece o mestiço4.
Uma outra tese levantada por Mogg é o aspecto da colonização americana no
norte se deu por um processo de ocupação para colonização da terra, diferente da
colonização ibérica que tinha por objetivo apenas de exploração da colônia. Esta
explicação é simplista segundo Karnal (2003)5 e será questão será discutida mais
adiante.
A crítica de Flores à Mogg, se dá por este esquecer de que “o tempo que ao longo
de seu percurso apresenta modificações sociais, econômicas e políticas”, nas sociedades
é um fator de suma importância na história e que Mogg, preocupado com a questão
geográfica não percebeu que “os Estados Unidos, surgiu com base da nação norte-
americana”, e no Brasil se deu o inverso, ou seja, nós primeiro inventamos o Estado.
Quando da coroação de D. Pedro I, nós ainda não eramos uma “nação”6.
Segundo Flores, no segundo capítulo de seu livro, Mogg faz uma crítica
interessante, entre a ética calvinista e a católica, discordando sobre a questão de que o
catolicismo é incompatível com o capitalismo, citando a importância de cidades como
Veneza, Antuérpia, Florença, Fulguers, Welsers e a riqueza dos banqueiros católicos,
não sem antes criticar Ratzel e suas teorias geográfica, Comte, com seu evolucionismo
social, Marx, Locke e Weber em suas diferentes questões.
O que seria então a venda de escravos para Portugal e Espanha e os grandes lucros
obtidos por esses países católicos se não uma forma de capitalismo? E as indulgências

3 Artigo na Web <http://www.arl.org.br/index.php/artigos/ensaios/23-bandeirantes-e-pioneiros-uma-historia-


comparada-moacyr-flores> Acesso em: 08/10/2017.
4 Idem op. cit.
5 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 60.
6 Idem op. cit.

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para a Igreja? Mas, confirma que há mais compatibilidade entre a doutrina protestante e
a o capitalismo e o nacionalismo. A doutrina católica vê de forma diferente essas duas
questões e chega ao ponto de afirmar que o racismo tem suas origens no calvinismo.
Um ponto de vista interessante, para não dizer que abre a possibilidade de um debate
polêmico.
Mas longe do escopo desta dissertação, comentar profundamente os aspectos do
livro de Mogg, é fazer uma referência interessante no debate deste tema, abrindo muitas
possibilidades e trazendo alguns dados que só a historiografia não esgota. E longe de
apontarmos só diferenças, há semelhanças também. E nesse todo, entre as diferenças e
semelhanças podemos entender como se deu esse processo de colonização e
compreender as diferenças que existem entre nós.

Longe de esgotar o assunto, tomando com base o Caderno de Referência de


Conteúdo, escrito pelo historiador Marcos Pinheiro para este curso. Comecemos então,
pelo começo...

Os antecedentes...
No dia 12 de outubro de 1942, pisou Colombo em terra, nas Antilhas,
provavelmente a Ilha de Santo Domingo, batizada então por ele como San Salvador. As
motivações que explicam a vontade de Colombo, de fazer uma empresa tão arriscada ao
desconhecido, são também os motivos que vão explicar o processo da colonização
espanhola no continente americano: o mercantilismo e sua necessidade da importação
de especiarias e novos mercados, o metalismo e também a necessidade da expansão do
cristianismo, em especial o católico.
Não demoraria muito para que outras nações europeias, fizessem o mesmo trajeto
e dentre as várias que tentaram somente outras duas tiveram sucesso em grande escala,
Inglaterra e Portugal.
Em 1500, Pedro Álvares Cabral desembarca na Terra de Santa Cruz. Mas só em
1534, D João III, realmente divide o território em 13 capitanias hereditárias dos quais
somente São Vicente e Pernambuco prosperam. Mas, isso é outra história...

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Em 1584, foi fundada a colônia de Virginia, por sir Walter Raleight, iniciando a
colonização britânica na América que terminaria de forma trágica com a morte de todos
os colonos por doenças, fome e ataques indígenas. Após 20 anos, uma segunda
tentativa foi feita por duas empresas privadas, a Cia de Londres, que refundou a colônia
de Virgínia, e a Plymouth que fundou New Hampshire.
Há muitas diferenças no processo de colonização britânico em relação a
colonização ibérica da América.
1. Os ingleses não tomaram contato com civilizações complexas como os
espanhóis.
2. Não acharam ouro e prata, como os espanhóis.

Retomando a tese sobre a questão da colonização de povoamento pelos britânicos


e de exploração pelos ibéricos, é valida, mas simplista, e não explica o todo. Afinal,
cita Pinheiro (2014), “se o objetivo dos espanhóis era somente o de explorar a América,
por que eles dedicaram três séculos de sua história para construir a catedral do
México?”7. Um outro argumento era a viagem, tão dispendiosa e arriscada, que muito
poucos fizeram-na ida e volta, só disponível a alta aristocracia.
Já a colonização americana diferente do que se imagina, não nasceu da
colonização de colonos puritanos mas, quem o diga, privatizada pelo Estado por duas
empresas britânicas para exploração de riquezas naturais. Segundo Pinheiro (2014) “se
existe exploração, tem que existir povoamento e vice-versa”8.

O historiador italiano Ruggério Romano (1973), sugere em sua tese que frentes
simultâneas de ação onde “a espada, a cruz e a fome iam dizimando a família
selvagem”. De um lado os mitos dos indígenas sobre homens enviados pelos deuses
confirmando suas previsões mitológicas, de outro o poderio bélico espanhol com
pólvora, armaduras e cavalos, táticas e beligerantes. A catequese que também iria se
aproveitar da visão mitológica indígena, “e as novas concepções de produção, trabalho e
sociabilidade impostas pelos espanhóis”9. Tudo isso fez as sociedades complexas que

7 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 59.


8 Idem op. cit.
9 Idem op. cit.

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dominavam outros grupos indígenas, desmoronarem frente ao invasor espanhol.


Quanto ao argumento da superioridade numérica dos indígenas, os espanhóis sabiam
muito bem usar a seu favor, usando tribos “rebeldes” que “se vingavam de seus antigos
“opressores”10. Todos esses elementos justificam a conquista espanhola em sinergia.
Também houve resistência. Segundo Pinheiro (2014), “os mapuches no sul do
chile logo aprenderam a montar cavalo e usar armas de fogo” 11 além de dominarem
rapidamente as táticas de guerra dos espanhóis.
Uma questão que Romano levanta é sobre a “fome”. Esse termo é utilizado para a
saque da cultura indígena pelos espanhóis no processo da conquista e não para a fome
como aconteceu na Europa do séc. 16 com uma crise de escassez de alimento, “mas da
organização social que dava sentido a vida do indígena”12.
“Toda uma certa ordem de coisas foi levantada: ritmos de
trabalho, tipos de cultura; tipos de vida: tudo foi mudado ou, ao
menos, consideravelmente modificado (ROMANO, 1973, p. 21)” 13.

A desestruturação do mundo pré-colombiano levou à disseminação do alcoolismo,


depressão, suicídios coletivos são relatados e o declínio da população no séc. 16 está
associada a este motivo, sendo as causas principais a proliferação de doenças como a
sífilis, a varíola, e a guerra. Ou seja, um único espanhol, por mais pacífico que fosse
poderia matar uma tribo inteira simplesmente pela doença.
Muitos grupos decidiram migrar não enfrentando os conquistadores.

Enquanto isso, … no séc. 16, mais precisamente na Inglaterra, com o crescimento


demográfico há uma intensificação da politica de cercamento garantindo a posse da
terra para a da aristocracia agrária. Os trabalhadores rurais passam de servos para
trabalhadores assalariados sem direito a terra provocando um êxodo rural e aumentando
a população urbana14. Muitos desses trabalhadores vão optar pelo desconhecido, o
Novo Mundo.

10 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 64.


11 Idem op. cit.
12 Idem op. cit.
13 Idem op. cit p. 65.
14 Idem op. cit. p. 70.

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Nos anos em que a França vivia o auge do absolutismo, a Inglaterra protagonizava


sua Revolução Burguesa. O rei Carlos I é decapitado pelas tropas de Oliver Crowell.
Confirmando o poder da burguesia que compunha o parlamento e que apoiaram
Crowell, junto com questões heterogêneas que se punham na modernidade. Essa
dinâmica ajuda a compreender o processo de colonização dos Estados Unidos já que a
“diversidade de valores religiosos e políticos influenciou decisivamente a montagem de
mecanismos de cunho mais democrático na colônia”15.
No séc 16, na primeira parte da colonização dos Estados Unidos, sir Walter
Raleight tinha permissão de explorar as terras descobertas. Se descoberto ouro ou prata,
uma parte era da coroa. Karnal (2003), cita que “pouca coisa diferenciava sir Walter de
um donatário brasileiro do período das capitanias hereditárias”. Até o final do séc. 16 a
Inglaterra demonstrou pouco interesse na colonização da América e só no século
seguinte é que duas empresas de comerciantes com fins lucrativos iriam começar a
investir na colonização. Até então, o melhor era saquear galeões espanhóis repletos de
ouro, pensava a coroa inglesa.

Aqui, outro mito vai por terra. Costumamos a pensar na colonização inglesa
como um modelo de povoamento e na ibérica como exploração. Alguns encontros com
nativos foram pacíficos e houve até trocas comerciais. A coroa inglesa recomendou
que os nativos fossem “civilizados”, mas os colonos pouco esforço fizeram nesse
sentido e diferente da colonização dos países ibéricos que o índio era prática exclusiva
do processo de colonização, não estabeleceram práticas de catequese e “civilizatórias”.
Em 1624, ambas as companhias perderam suas licenças, porém a colonização
continuaria. Entre 1607 a 1638 12 colonias seriam criadas. Em 1620, chegou o
Mayflower, com peregrinos, todos puritanos, pioneiros na formação do Estado de
Massachusetts que se tornariam um símbolo nacional do esforço da colonização
americana. Assim também, o Mayflower passou a ser um símbolo de todos os navios
que aportassem na América.

15 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 72.

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Porém, os peregrinos puritanos, não eram a população majoritária do Novo


Mundo, inglês. Longe disso, criminosos, camponeses, prostitutas, desempregados,
excluídos da sociedade de todo tipo e calibre estavam entre eles.

Projetos de poder
Os domínios da Espanha estenderam-se por toda América, e para que isso fosse
possível, a Coroa Espanhola “construiu um mecanismo administrativo” 16, um projeto
racional de colonização, que permitia uma administração eficaz de todo território, e até
os processos de independência, ou seja por mais de três séculos, esse perfil geográfico
permanecerá quase idêntico.
No séc. 16, com a descoberta de importantes minas de prata em Potosi e Zapoteca,
a Espanha começou um processo de burocratização da colonização da América, com o
aumento do quadro de funcionários, tribunais, entre outros órgãos, que davam à Coroa o
protagonismo da colonização e não mais aos conquistadores.
Haviam instituições que funcionavam de forma específica para o controle
colonial, como a Casa de Contratação que era um escritório comercial subordinado ao
Conselho de Castela, e o Conselho das Índias.
A Casa de Contratação era responsável pelo comércio, pela tramitação das
mercadorias, homens, navios entre a Espanha e a América, controlar as remessas de
metal vindos da América, assim como organizar expedições. Baseava-se em Sevilha
garantindo o “maior controle possível sobre um investimento altamente lucrativo” 17 e
até 1765 todo comércio realizado na colônia devia ter uma direção única, o porto de
Sevilha. De outra parte, todo barco que aportasse na América espanhola, também
deveria ter como origem, o porto de Sevilha. “Tal monopólio configura o que
chamamos de “pacto colonial”18”.
O Conselho das Índias, surge como um desdobramento natural do Conselho de
Castela com o objetivo de maior controle da colônia e gestão dos interesses reais para
cada localidade, criando leis e instituições. Todas as decisões reais sobre a colônia eram
tomadas somente após a consulta com o Conselho, “que vinham acompanhadas de uma

16 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 83.


17 Idem op. cit.
18 Idem op. cit.

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série de recomendações”19. Controlava a administração da colônia, vetava e criava leis,


apresentava nomes de funcionários para cargos na administração e até da hierarquia
eclesiástica. Através de constantes relatórios da América, o Conselho das Índias,
controla os governos provincianos.
A partir de 1530, o poder colonial espanhol começa a centralizar na Metrópole as
rédeas da expansão espanhola. Para território tão vasto era preciso organizar a
instituição da administração colonial. A maior instância era a dos Vice-reis, que tinham
o cargo mais alto e eram os “olhos do rei em terras além mar” 20. Em 1535, havia 2
vice-reinados na América, a de Nova Espanha, com a capital na Cidade do México e
oito anos mais tarde no Peru com a capital em Lima, e responsáveis por toda
administração das terras na América do Norte, Central e do Sul. No séc. 18 outros vice-
reinados foram criados em Nova Granada, compreendendo Venezuela, Colômbia e
Equador, e tinha Bogotá como capital, Vice-Reinado de La Plata, compreendendo
Paraguai, Argentina e Uruguai, com a capital em Buenos Aires21. Organizando um um
projeto meticuloso de toda burocratização do processo de colonização, dividindo em
instâncias menores os territórios, criando instituições, que administravam, fiscalizavam
e mantinham a ordem e coletavam impostos.

As treze colônias inglesas tiveram uma explosão demográfica no séc. 17. “De
1620 a 1720 a população saltou de 2.500 para 300.000 pessoas”22. Em 50 anos atingiria
2.500.000 de habitantes. Algumas colônias se aproximavam culturalmente mais do que
outras que podem ser dividas em três blocos: as colônias do norte, do centro e do sul.
O controle colonial inglês ficava por conta da Junta de Comércio em Londres
regulando as ações comercias e produtivas entre a metrópole e a colônia. As leis que
vigoravam na colônia eram criadas no Parlamento. Os presidentes e governadores eram
escolhidos pela metrópole.
O controle britânico sobre a América não diferenciava muito do feito por Portugal
e Espanha. Também havia o pacto colonial que restringia a produção na colônia e
incentivava a exportação para a metrópole.
19 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 85.
20 Idem op. cit.
21 Idem op. cit.
22 Idem op. cit.

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No mesmo ano em que os Estados Unidos publicavam sua Declaração de


Independência, Adam Smith, publicava “A Riqueza das Nações”.
Ora, se pensarmos na economia da época podemos facilmente dizer que é o óbvio
que a “balança comercial” sempre pesaria a favor da metrópole. E a colônia “sempre”
teria uma balança comercial deficitária. Mas no caso da Inglaterra esse peso era maior,
porque tinha uma burguesia mais forte, por ter mais condições tecnológicas de
manufatura.
Nessa época, Adam Smith, observando essa situação, escreveu que a Inglaterra:
“fundara um grande império com o objetivo único de criar um povo de fregueses"23. O
historiador norte-americano Aptheker (1967, p.21) explica a situação:
“[...] seus comerciantes haviam tomado providências para que as leis inglesas
lhes desse o monopólio do mercado americano, diz Adam Smith, forçando os
colonos a comprar deles e a venderem a eles; em ambas as oportunidades, os
comerciantes estabeleciam os preços, cobrando alto no primeiro e pagando
baixo no segundo. Coincidentemente a obra de Adam Smith, A Riqueza das
Nações, foi publicada no mesmo ano da Declaração de Independência Norte-
Americana, em 1776. Entre os motivos que levaram ao movimento de
emancipação estava a contestação do Pacto Colonial.”

Os comerciantes britânicos eram beneficiados pelas da metrópole, que atuavam no


“controle comercial, na regulação da industria, e na repressão da emissão da moeda” 24,
freando o desenvolvimento comercial da colônia, e ageração de um mercado interno
nesta, além de todo transporte marítimo ser feito apenas por barcos ingleses. Havia a
proibição de fabricação de produtos manufaturados, que obviamente tinham que ser
importados da Inglaterra. A quantidade de produtos “in natura” exportados para a
Inglaterra pela colônia tinha um preço baixo e era pouca quantidade comparada ao que
era importado, manufaturado e mais oneroso pelos impostos.
Esse movimento fazia parte da mentalidade mercantilista da época. Inglaterra,
Portugal e Espanha como metrópoles geriam suas colônias através do “pacto colonial”,
com políticas protecionistas. Todo esse processo tem uma “lógica”. A lógica da
manutenção da dependência da colônia sob o controle da metrópole e ainda havia o
medo da expansão geográfica para o oeste, ainda inexplorado. .

23 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 107.


24 Idem op. cit.

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História

Construções nacionais
Nas colônias do norte, Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e
Connecticut a imigração foi predominantemente feita por protestantes seguidores do
calvinismo, “entre eles um grupo majoritário de puritanos” 25 que vão ter forte influência
nos hábitos econômicos e sociais e nas instituições políticas.
Assim, também nas leis, houve forte influência da moral e conduta protestante
regulando a vida pública das colônias. Conforme cita Pinheiro, Remond (1989, p. 5)
escreve: “[...] nessa mentalidade, Estado e Igreja encontravam-se estreitamente unidos,
e quem se afastasse da Igreja, excluía-se ipso facto da sociedade civil”26.
Aqui, um fenômeno muito interessante ocorre, diferente da América “Católica”.
As leis e a organização da vida pública nas cidades eram inspiradas na moral e
religiosidade protestante, assim também “as assembleias locais inspiravam-se nas
igrejas da comunidade que gerenciavam suas demandas de maneira autônoma sem a
necessidade de um episcopado”27. A política da cidade era decidida em assembleia com
seus cidadãos e da mesma forma que na igreja local. Essa forma de deliberação coletiva
das instâncias políticas e religiosas acabou influenciando fortemente “a formação de
uma mentalidade democrática”28.

Nos estados do sul, Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e


Geórgia está mais orientada para uma aristocracia latifundiária, escravista, e que
governavam as colônias, semelhante ao que acontecia na América espanhola e
portuguesa e diferente do movimento coletivo dos estados do norte.
Na região central uma questão a se pontuar aqui é a fundação da colônia da
Pensilvânia que tinha como base a liberdade religiosa por Willian Penn, fugindo a
perseguição dos puritanos do norte. Várias levas de imigrantes fugindo das mesmas
condições afluíram para lá. Sua economia se assemelhava as colônias do norte,
diferente da aristocracia oligárquica do sul, migraram para a Pensilvânia colonos de
origem pobre e protestantes.

25 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 107.


26 Idem op. cit. p. 110.
27 Idem op. cit. p. 113.
28 Idem op. cit.

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História

Das guerras
A história dos Estados Unidos é marcada por diversas guerras nos quase 200 anos
de colonização. Conflitos econômicos devido as levas de imigração dos servos,
conflitos políticos com a imigração dos nobres e conflitos religiosos com a imigração de
puritanos e católicos. Pinheiro (2014) chega a citar que uma “cultura de conflito como
havia na Inglaterra do séc. 15 e 17, migrou para o território americano”29.
As guerras na Europa entre a Inglaterra e outras nações também trouxe
consequências com a colônia em confrontos com espanhóis e franceses. E com a
expansão geográfica houve confrontos com os indígenas.

Um outro fenômeno surge a partir do processo em que o povo pega em armas para
fazer estas guerras, é a construção de uma identidade comum, principalmente a partir da
Guerra de 7 anos entre a Inglaterra e a França em território americano que foi resultado
da expansão americana para o Oeste, motivados pela necessidade da expansão
demográfica, devido também à imigração.
O centro-oeste americano era dominado pelos franceses que estabeleceram com
missionários jesuítas e comerciantes de peles cidades e postos de controle que se
estendia desde o Canadá até o Mississipi, próximo da Nova Orleans. Era conhecida
como Lousiana.
Desse movimento de imigração para o oeste o encontro entre as duas nações
resultou na questão da posse da terra. Espanhóis mais ao sul também entraram no
confronto junto com tribos indígenas que fecharam alianças com os franceses e ingleses.
Com a vitória inglesa o território do Canadá passou para a Inglaterra e a Espanha ficou
com a Lousiana.
Porém, o interessante deste confronto é que para vencer, os ingleses recrutaram,
armaram e treinaram muitos colonos. Mais ainda, muitos serviram de exemplo, ou
como mártires e mais adquiriram uma nova consciência, de identidade de interesses
comuns. Um dos oficiais que se destacou foi por seu sangue frio em batalha foi George
Washington.

Enquanto isso na América Espanhola...

29 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 115.

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História

Enquanto os imigrantes ingleses construíam sua cidadania americana, na América


Espanhola, desde as primeiras cartas de Colombo, relatando o achado de metais
preciosos, a busca por metal, seguidos por Pizarro e Cortéz em falta na Europa, foi uma
constante.
Dentro da historiografia marxista, para Eduardo Galeano, em seu livro “As veias
abertas da América Latina” faz uma crítica ao processo de colonização que foi “ditado,
primordialmente, pelos interesses econômicos do capitalismo mercantilista europeu dos
séculos 16 a 18”30.
Segundo Galeano, o ouro e a prata extraídos da América espanhola serviram para
fomentar o capitalismo comercial da Europa31 que não ficava só na Espanha, já que a
nobreza e burguesia com acesso ao ouro importa produtos manufaturados e de luxo
fazendo o ouro fluir, para os países que investiam na produção industrial de
mercadorias., principalmente a Inglaterra e desequilibrando a balança comercial
espanhola. E a inflação dos produtos manufaturados passou a ser constante.
Era esse também o destino do ouro que era extraído do Brasil e ia para Portugal.

Comerciantes, os donos do poder na América espanhola


O encontro das tradições agrícolas europeia e americana produziu uma “ 2a
Revolução Agrícola” na América. A produção de feijão, milho, abóbora e batata vieram
da tradição americana e dos europeus a domesticação de animais, sua inserção na
alimentação, no trabalho da terra e como meio de transporte, além do trigo e da cevada,
a cana de açúcar porém sua plantação e processamento eram caras.
Houve um grande impacto ambiental com a inserção da pecuária, e há uma
ligação direta entre a diminuição demográfica dos indígenas e a concessão de fazendas
pela Coroa espanhola que serviam de suporte para as zonas mineradoras. O
abastecimento das zonas mineradoras era feita por comerciantes que serviam de
intermediários entre as zonas de mineração e as fazendas (haciendas).
Grandes fazendeiros lucravam em tempos de escassez com a alta dos produtos,
com a exploração da mão de obra indígena, e ocupavam os principais cargos públicos
nas cidades.
30 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 116..
31 Idem op. cit.

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História

Para que as minas funcionassem, era preciso que fossem abastecidas. Este
abastecimento era feito por meio de comerciantes, chamados aviadores, que serviam de
intermediários e levavam as produções de diversos gêneros das fazendas para as minas
em um movimento “triangular”, pagando os produtos das fazendas com bens de artesãos
necessários para elas, e os senhores aristocráticos e os alimentos vendidos nas minas
eram pagos com ouro e prata.
Como não havia moeda circulante, e todo comércio era feito por cartas de crédito
expedidas pelos fazendeiros aos comerciantes que eram seus credores. Mesmo em
períodos de entressafra as “haciendas” continuavam a ser supridas pelos comerciantes.
Os comerciantes, como eram atravessadores, ganhavam tanto na importação de
bens como na exportação. Isso foi criando uma classe comercial aristocrática.
Diferente de outros locais onde a aristocracia era latifundiária, no Peru por exemplo os
comerciantes constituíram a classe aristocrática.

Entre o trabalho e a escravidão


Em 1548 a escravidão indígena foi abolida nos territórios da América espanhola.
A escravidão negra continuou onde a população indígena foi extinta, porém sua prática
foi muito menor do que no Brasil, isso porque havia excesso de trabalhadores indígenas
em outras localidades. Os indígenas eram preferidos pelos espanhóis, pois estavam
mais adaptados para trabalhar em lugares mais frios e altos como nas minas de prata,
onde os negros não se adaptavam bem.
O trabalho braçal na península ibérica não era bem visto pela aristocracia e seu
ideal de vida era não precisar trabalhar. O trabalhador braçal era “inferior”, e estava
destinado às camadas mais baixas da sociedade. Diferente desta visão de mundo, na
Inglaterra moderna, a ótica era outra. A presença do calvinismo influenciou o
anglicanismo, religião oficial inglesa e a ala mais conservadora era representada pelos
puritanos. Para eles, a riqueza era a manifestação da “Predestinação dos Céus”, já na
Terra, diferente da concepção católica. Essa influência migrou para a América
Britânica. Na Nova Inglaterra, 2/3 dos trabalhadores eram livres e a ascensão social,
tanto para cima quanto para baixo, pelo trabalho era forma de se provar digno de Deus32.

32 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 158.

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Longe do escopo deste trabalho de entrarmos na Questão Social, dos trabalhadores no


início da Revolução Industrial, mas é importante pontuar suas difíceis condições de
trabalho, mesmo na América. No séc. 17, greves de trabalhadores aconteceram nas 13
colônias.

Pinheiro cita que de 10 a 15% do trabalho em dois séculos de colonização das


treze colônias eram servis, feitas por pessoas brancas sem nenhum tipo de
remuneração, muitos eram migrantes e esses acordos eram fechados como pagamento
das viagens ao Novo Mundo e trocavam a passagem por um período de servidão de 2 a
7 anos. Eram chamados “amortizadores” e 70% da imigração colonial foi feita sob
estas condições.
Outro tipo de servidão era a dos aprendizes, que desde criança até a idade de 21
anos trocavam sua educação pelo trabalho prestado aos “mestres”. Amortizadores e
aprendizes faziam parte de uma categoria de servos voluntários.
Havia também a servidão forçada. Pequenos delitos, ou dívidas também poderiam
ser convertidos pelo Estado em um período de servidão. Um outro grupo de crianças
raptadas, ou presos com penas capitais ou longas que tinham a oportunidade de optar
pela servidão nas Américas. Estas penas variavam de 7, 14 ou toda vida33.

A escravidão nas colônias se expandiu rápido, mas não tinha importância


econômica e estava relacionada com o trabalho doméstico no norte e no centro se
vinculando ao comércio. No sul, o desenvolvimento da monocultura das “plantations” e
exportação para um mercado mundial tem uma característica de extrema brutalidade.

Durante muito tempo, tentou-se justificar a pobreza da América Latina como fruto
da colonização dos países ibéricos em contraste com a colonização inglesa e os Estados
Unidos lançando os argumentos da colônia de exploração versus a colônia de
povoamento, .
Todo esse movimento não é em vão na história. A desigualdade social, a injustiça
e a pobreza na América espanhola é um legado do período colonial, porém não só da

33 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 160.

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exploração colonial. A presença de metais precioso focou o processo de colonização


tanto na América Espanhola como em determinado período no Brasil dando ênfase na
exploração mineral, mas não só isso, houve um planejamento, houve colonização de
povoamento e produção intelectual e artística. A ausência de recursos minerais nas
colônias inglesas obrigou os colonos a buscar outras fontes de riqueza.
Comparando a colonização entre esses países Karnal (2003, p. 17-18) sintetiza
suas observações sobre a colonização espanhola afirmando que:
“[...] foi, em quase todos os sentidos, mais organizada, planejada e metódica
que a anglo-saxônica. Caso atribuamos valor à organização, é inegável que a
colonização ibérica foi muito "melhor" que a anglo-saxônica. [...] Na verdade,
só podemos falar em projeto colonial nas áreas portuguesa e espanhola. Só
nelas houve a preocupação sistemática quanto às questões da América. [...]
Decorridos cem anos da colonização, se comparássemos as duas Américas
constataríamos que a ibérica tornou-se muito mais urbana e possuía mais
comércio, maior população e produções culturais e artísticas mais
"desenvolvidas" que a inglesa. [...] Continuando neste caminho, notamos
elementos que não confirmam a idéia de exploração e povoamento. O mundo
ibérico dá a idéia de permanência. Construir e reformar permanentemente, ao
longo de três séculos, uma catedral como a da cidade do México não é atitude
típica de quem quer apenas enriquecer e voltar para a Europa. […] Não é,
certamente, nesta explicação simplista de exploração e povoamento que
encontraremos as respostas para as tão intrigantes diferenças na América.” 34

Esses elementos que nos fazem pensar sobre o discurso do “senso comum” sobre
o processo de colonização de ambas as Américas. A construção do processo de
colonização de cada nação, marcados por peculiaridades ora semelhantes, ora
divergentes vai muito além dos discursos simplistas que procuraram outrora justificar a
raça, ou o argumento do povoamento como um “modelo” a ser seguido em detrimento
dos países ibéricos. Seria fruto de uma historiografia “anglocentrista”. Longe de entrar
neste debate, com tão poucos elementos que justifiquem esse parágrafo é melhor desviar
o assunto.
Chama a atenção nesse processo da construção dessa “colcha de retalhos”, é a
presença de uma aristocracia, algumas migrantes do Velho Mundo, outra emergentes no
“Novo” e a concentração de capital e poder na mão de poucos, enquanto que nas
colônias britânicas do norte a democracia, alimentada pelo pensamento de influência
protestante, foi possível um próprio processo de formação e independência. A raça não

34 PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014. p. 128.

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explica a história, mas é a construção das relações sociais nos seus mais diversos
âmbitos e produções e relações que vão moldando os cenários temporários para o
entendimento ainda que parcial de uma realidade, que não pode ser reduzida a
simplificações para seu entendimento. Nos países do hispânicos e português, o
controle colonial foi mais efetivo, mas a cultura do trabalho é interessante de ser
observada quando comparada entre as migrações hispano-portuguesas e britânicas.

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Referências Bibliográficas

MOGG, Viana. Bandeirantes e pioneiros: paralelos entre duas culturas. Rio de Janeiro:
Globo, 1959.
PINHEIRO, Marcos Sorrilha - História da América II – Batatais, SP : Claretiano, 2014.
Artigo na Web, FLORES, Moacyr em: <http://cafehistoria.ning.com/forum/topics/quais-
as-diferencas-entre-a>, Acesso em: 08/04/2017.

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