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Ricardo Menegatti, Carlos Alberto Manssour Fraga e Eliezer J.

Barreiro

Tendo em vista a importância dos fármacos de origem sintética dentro do mercado terapêutico, discutimos
neste trabalho aspectos históricos da síntese de fármacos desde a aspirina®, primeiro fármaco sintético,
evoluindo com outros exemplos de fármacos estruturalmente diversos, até um dos exemplos mais recentes, o
sildenafil (viagra®).

fármacos sintéticos, aspectos históricos da síntese de fármacos

16
Introdução elaborado, dos outros produtos, como
Os fármacos de origem inseticidas, pesticidas e corantes, den-

A
síntese de fármacos é um
sintética representam tre outros, sejam eles de grau de
importante capítulo da química
significativa parcela do pureza comercial ou analítica.
orgânica, uma vez que permite
mercado farmacêutico, O ácido muriático1 , empregado na
a construção de moléculas, em seus estimado, em 2000, em 390 construção civil e no alvejamento de
diversos níveis de complexidade. Esse bilhões de dólares. Até assoalhos de cerâmica, não requer o
desdobramento da síntese orgânica, 1991, entre 866 fármacos mesmo grau de pureza que um pro-
apresenta características particulares, usados na terapêutica, 680 duto farmacêutico, pois contempla a
pois além de racionalizar uma seqüên- (75%) eram de origem finalidade que lhe cabe. O índigo-blue
cia de etapas sintéticas visando obter sintética (1), da mesma forma, tem sua cor azul
os melhores rendimentos possíveis, é assegurada, independente das impu-
necessário também dispensar atenção Figura 1. Adicionalmente, ca. 28% dos rezas que possam advir do processo
ao grau de pureza e à escala da rea- fármacos de estrutura heterocíclica sintético. Por outro lado, um produto
ção. apresentam átomos de enxofre e ca. farmacêutico pode necessitar de um
Os fármacos de origem sintética re- 18% apresentam átomos de oxigênio. grau de pureza tão elevado quanto os
presentam significativa parcela do Os valores acima expostos assinalam
mercado farmacêutico, estimado, em a importância da química dos hetero-
2000, em 390 bilhões de dólares. Até ciclos, demonstrando que muitas ve-
1991, entre 866 fármacos usados na zes pode ocorrer a presença de mais
terapêutica, 680 (79%) eram de origem de um heteroátomo no mesmo siste-
sintética. Os restantes 186 (21%), cor- ma heterocíclico.
respondiam àqueles de origem natu- Quando consideramos que os
ral ou semi-sintética. Quando obser- fármacos são produtos de um proces-
vamos a estrutura dos fármacos em- so sintético de múltiplas etapas, pode-
pregados na terapêutica, constata-se mos concluir que a pureza do produto
que 62% deles são heterociclícos, ou final está diretamente relacionada à
seja, possuem átomos de elementos metodologia sintética empregada e à
distintos do carbono (heteroátomos) pureza dos intermediários e matérias-
envolvidos em ciclos (heterociclícos) primas envolvidas na síntese. Nesse Figura 1: Percentual de fármacos sintéticos
dentre os quais ca. 95% apresentam- ponto, podemos diferenciar o fármaco, e heterocíclos entre as substâncias dispo-
se nitrogenados, conforme ilustrado na produto farmacêutico tecnicamente níveis terapeuticamente.

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dos reagentes empregados em reato-
res nucleares.

Os fármacos de origem sintética


podem ser obtidos em dois tipos de
escala. A primeira, de bancada, é
aquela empregada na definição da rota etapa do processo. Esta segunda rota
sintética, para se ter acesso ao com- permitiu a obtenção de (9) em escalas
posto planejado, em pequenas quan- de 1 kg, suficientes para os ensaios
tidades, mas suficientes para investigar toxicológicos iniciais.
o seu perfil farmacológico. A segunda,
semi-industrial, é uma adaptação da Ácido acetil salicílico (AAS)
primeira rota sintética visando a obten- A Aspirina® (15), como é conhecido
ção do fármaco em maior escala. De o ácido acetil salicílico (AAS), é o
maneira geral, a escala de bancada Figura 2: Escala de bancada de SK&F analgésico mais consumido e vendido
não se estende à escala industrial, ha- 860029 no mundo. Em 1994, somente nos
vendo necessidade de se buscarem E.U.A., foram vendidos cerca de 80
rotas alternativas que contemplem a visto que um único produto foi obtido. bilhões de comprimidos. O AAS (15) po-
adequação da escala. Esta benzoína, (6), após ser tratada de ser considerado como um fármaco
com tiouréia, convergiu no interme- pioneiro sob vários aspectos. Muito
A síntese do composto SK&F 8600029 17
diário (7). Na última etapa, o inter- embora derive do produto natural salici-
A Figura 2 descreve a rota sintética mediário (7) foi tratado com 1,2- na (14) (Esquema 1), foi o primeiro fár-
do composto SK&F 8600029, desco- dibromoetano, em dimetilformamida maco sintético empregado na terapêu-
berto no laboratório Smith Klyne & (DMF), gerando novamente uma tica, tendo sua síntese concluída em
French (SK&F), em 1987. O composto mistura de isômeros (8) e (9). A sepa- 1897, pelo químico alemão Felix
(9), é um heterociclo da classe das imi- ração dessa mistura exigiu o emprego Hoffman, do laboratório Bayer (está
dazolotiazolidinas, que demonstrou um de técnicas cromatrográficas, bastante relatado na história que o pai de Hof-
interessante perfil inibitório das enzi- dispendiosas para serem adaptadas a fman sofria de reumatismo crônico e não
mas ciclooxigenase e 5-lipoxigenase, escalas maiores. Por esta rota sintética suportando mais o desconforto causado
sendo útil para o tratamento da asma. (Figura 2), obteve-se (9) em quanti- pelo tratamento com salicina (14),
Essa rota sintética, partiu da ma- dades suficientes para a realização dos incentivou o filho a preparar derivados
téria-prima 4-formilpiridina (2), envol- ensaios farmacológicos preliminares. que pudessem ser mais tolerados).
vendo uma reação de condensação Contudo, para se dar seqüência aos A salicina (14) foi isolada pela pri-
para se obter a nitrila (3), sob forma de ensaios toxicológicos e para viabilizar meira vez em 1829 pelo farmacêutico
cristal. Por ser uma substância crista- a síntese em escalas maiores, foi francês H. Leurox. Contudo, seu poten-
lina, esta nitrila (3) permite o emprego desenvolvida a segunda rota sintética, cial terapêutico era conhecido desde
de métodos de cristalização de baixo descrita na Figura 3. a Antiguidade. Subs-
custo em sua purificação, condição Essa rota utilizou A Aspirina®, como é tância ativa presente
ideal no desenho da rota sintética de como matéria-prima conhecido o ácido acetil em espécies do gênero
fármacos. o composto flúor- salicílico (AAS), é o Salix e Populus, a sali-
A etapa subseqüente da rota sinté- benzeno (10) que analgésico mais consumido cina (14) já havia sido
tica planejada nos laboratórios da após uma reação e vendido no mundo. Em mencionada no século
SK&F não se mostrou reprodutível com Friedel Crafts foi con- 1994, somente nos E.U.A., V a.C., de forma empí-
o aumento da escala, resultando em vertido no produto foram vendidos cerca de rica, pelo pensador
uma mistura das benzoínas (4) e (5), (11). O intermediário 80 bilhões de comprimidos grego Hipócrates, con-
instáveis e de difícil separação. Entre- (11) foi, por sua vez, siderado como “pai” da
tanto, na busca de métodos de sepa- submetido à reação medicina. À sua época, Hipócrates
ração, esta mistura de benzoínas de alquilação, levando à obtenção do indicava extratos preparados a partir
quando tratada em meio básico, per- composto (12). A reação de subs- das folhas e casca de salgueiro branco
mitiu a formação da benzoína (6), iso- tituição eletrofílica do intermediário (12) (Salix alba), ilustrada na fotografia abai-
mérica, como único produto, represen- permitiu a obtenção do intermediário xo, para o combate da febre e da dor.
tando um método de “purificação”, (13) que foi oxidado a (9), na última Vale mencionar que o nome do ácido

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Como fazer a síntese da aspirina (15) a
partir do ácido salicílico
Antes de se iniciar a síntese da aspi-
rina (15) propriamente dita, o anidrido
acético (P.E. = 138-140 °C) deve ser
destilado, para minimizar a quantidade
de água presente no meio reacional. A
Figura 4 mostra que a reação é rever-
sível e que na presença de água e em
meio ácido pode ocorrer a hidrólise da
aspirina (15), deslocando o equilíbrio
da reação no sentido dos reagentes.
Após o anidrido acético ter sido
destilado 5,74 g (35 mmol) do ácido
salicílico (16), ambos são pesados e
transferidos para um balão de duas
Figura 3: Escala industrial do SK&F 860029. bocas, de 25 mL. Na seqüência, adi-
cionam-se 6,6 mL (70 mmol) do desti-
acetil salicílico (15), deriva do nome da Nobel de medicina, em meados de lado ao balão, duas gotas de ácido
espécie de salgueiro mencionada 1970. Vane observou que o AAS inibia sulfúrico e um agitador magnético. Em
acima. a liberação de substâncias como as uma das bocas do balão deve ser
Em 1838, o químico italiano Raffaele prostaglandinas e, dessa maneira, acoplado um condensador para reflu-
Piria obteve o ácido salicílico (16), interferia no processo inflamatório e na xo e na outra um septo, por onde a rea-
sintético, através de hidrólise oxidativa dor. Atualmente, sabe-se que a aspirina ção deve ser acompanhada através de
18 da salicina (14). Posteriormente, Kolbe inibe a produção de prostaglandinas cromatografia de camada fina. A mis-
e Dresden, em 1859, passaram a através da inibição da enzima cicloxi- tura reacional é levada à temperatura
sintetizar os salicilatos, que antece- genase (COX), responsável pela bios- de 50-60 °C por aproximadamente
deram a Aspirina® (15). O emprego da síntese de icosanóides derivados da meia hora, ou até a reação ter com-
salicina (14), bem como de seus deri- cascata do ácido araquidônico, fosfoli- pletado seu curso. Durante o curso da
vados salicilatos, não logrou êxito na pídeo de membrana celular, precursor reação observa-se a formação de um
terapêutica, devido ao seu perfil gastro das prostaglandinas. Também obser- precipitado branco. Após não se
irritante e sabor desagradável, carac- vou-se que o espectro de ação da observar mais a presença de reagen-
terística comum às substâncias que salicina (14) e da aspirina (15) é seme- tes, a reação é interrompida, resfria-se
apresentam hidroxilas fenólicas. lhante, pois in vivo a salicina (14) pode o balão e adiciona-se 50 mL de água
O conhecimento empírico gerado atuar como um pró-fármaco, levando gelada. O precipitado obtido deve ser
até então não era suficiente para ex- à bioformação dos salicilatos pela ação filtrado à vácuo e lavado com peque-
plicar o mecanismo de ação farmaco- de enzimas do fígado.
nas porções de água gelada. Após se-
lógica da salicina (14), salicilatos e AAS A Aspirina® (15) é um fármaco de
car o sólido branco ao ar, pesa-se a
(15). A elucidação do mecanismo de fácil acesso sintético, obtida pela rea-
massa obtida e calcula-se o rendimento.
ação do AAS veio a ser descoberto so- ção de acetilação do ácido salicílico (14),
Na seqüência, pode-se verificar o ponto
mente mais tarde pelo farmacologista com anidrido acético, catalisado por
de fusão do sólido obtido e compará-lo
britânico John Vane, premiado com o ácido, conforme ilustrada na Figura 4.
com o da aspirina (15) P.F. = 135 °C, para
fins de caracterização.

O antimalárico cloroquina
A malária é uma doença parasitária,
causada pelo protozoário do gênero
Plasmodium, que incide principalmente
em áreas de clima tropical. Muito em-
bora seja uma doença bastante antiga,
relatada desde a época de Alexandre
o Grande, 335-323 a.C., ainda hoje
constitui um grave problema de saúde
pública. Estima-se que a incidência
sobre a população mundial seja de 500
Esquema 1: Aspirina (15), fármaco sintético derivado do Salgueiro Branco (Salix alba). milhões de infectados e 1,5-2 milhões

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de mortes por ano. Esse quadro é
reflexo das condições sócio-econômi-
cas das áreas de incidência e, tam-
bém, devido ao desenvolvimento de
resistência dos parasitas frente aos
agentes quimioterápicos empregados
terapeuticamente.
O primeiro fármaco empregado no
tratamento da malária foi a quinina (17)
(Esquema 2), que é um alcalóide
quinolínico presente em árvores nati-
vas da América Central e do Sul, do
gênero Cinchona, responsável pela Esquema 2: Quinina (17), fármaco antimalárico natural presente no gênero Cinchona.
atividade anti-malarial. A origem do no-
me Cinchona deve-se a um episódio
que teria ocorrido em 1638, no Perú,
quando a esposa do vice-rei, condessa
Ana del Cinchon, contraiu malária. A
Condessa teve a melhora do seu
quadro de saúde, após sua febre ter
sido tratada por um Xamã, que lhe
indicou uma infusão à base de casca
da árvore que Lineu, anos mais tarde,
batizaria de Cinchona officinalis em
homenagem à condessa.
A introdução da quinina (17) no con- 19
tinente europeu só veio a ocorrer mais
tarde, em 1658, por interferência dos Figura 5: Rota sintética da cloroquina 22.
jesuítas. Após sua introdução, suce-
deu-se um período de intenso uso da a quinina (17) de forma sintética. Isso (19), quando aquecida em solvente de
quinina (17) no tratamento de várias aconteceu pelas mãos de Woodward alto ponto de ebulição, leva ao deslo-
enfermidades (panacéia). Para suprir e Doering, em 1945. Graças ao desen- camento do grupamento etoxila, com
a demanda do mercado, passou-se a volvido estágio que a indústria alemã conseqüente ciclização. Ainda na mes-
cultivar a Cinchona em várias colônias de corantes observava no início do sé- ma etapa, com o emprego de condi-
européias, com espécies trazidas do culo 20, obtendo, eficientemente, com- ções de saponificação, é obtido o
continente americano. Após um perío- postos heterociclícos coloridos de intermediário ácido (20). A descar-
do de aproximadamente 200 anos do grande importância industrial à época, boxilação e conversão do grupamento
emprego da Cinchona, Pelletier e Ca- diversos compostos desta classe enol de (20) é feita pelo seu aqueci-
ventou isolaram a quinina (17) na École química, inclusive heterociclícos quino- mento na presença de oxicloreto de
de Pharmacie de Paris, em 1820. línicos, foram ensaiados contra a malá- fósforo. Na última etapa, o halogênio
A obtenção de quinina (17) de fonte ria. Isso resultou na descoberta da clo- (21) é deslocado, via reação de subs-
vegetal perdurou até a Segunda Guer- roquina (22), que possui, em seme- tituição nucleofílica aromática (SNAr),
ra Mundial, quando as áreas de cultivo lhança à quinina, o núcleo quinolínico. por uma amina primária, para a obten-
encontravam-se em meio à disputa bé- A síntese da cloroquina (22), descri- ção da cloroquina (22).
lica. O risco de contágio das tropas em ta na Figura 5, dá-se inicialmente pela
combate, acarretando em baixas para reação clássica de condensação da 3- Antibióticos β-lactâmicos:
os exércitos, provocou investimentos cloroanilina (18) e dietil-2-cetobutirato, As penicilinas
que estimularam os cientistas a obter para a obtenção da imina (19). A imina Os antibióticos são uma classe
terapêutica empregada no combate a
infecções bacterianas que mais logra-
ram êxito terapêutico até hoje.
A penicilina (23), produzida pelo
fungo Penicillium notatum, constitui-se
no marco da antibioticoterapia. Esta
substância, “mágica” pelos efeitos
terapêuticos que possui, identifica a
classe dos antibióticos β-lactâmicos e
Figura 4: Rota de acetilação do ácido acetil salicílico (15). foi descoberta acidentalmente por

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Alexander Fleming, em 1928.
Os antibióticos β-lactâmicos pos-
suem em seu esqueleto os amino-
ácidos cisteína e valina, e têm seu
nome pela presença do anel β-lactâ-
mico (correspondendo a uma amida
ciclíca de quatro membros), que na pri-
meira penicilina descoberta por Fle-
ming, a benzilpenicilina, está fundida
a um anel tiazolidina, destacado em
vermelho no esquema abaixo.

Por muito tempo a penicilina foi obti-


Figura 6: Rota sintética das penicilinas semi-sintéticas.
da através de fermentação de fungos,
sendo sintetizada pela primeira vez em
1957 por Sheehan e colaboradores. O tamento do tifo e em infecções
produto obtido por síntese total não se crônicas em que outros antibió-
20 mostrou economicamente viável à ticos se mostram insensíveis de-
comercialização. Em 1976, Beecham vido à sua toxicidez sobre a me-
descobriu um intermediário biossinté- dula óssea e por causar discrasias
tico, útil para a produção de penicilina sangüíneas. Em alguns países,
(23) e análogos, o que determinou que como no Brasil, utiliza-se o cloran-
sua obtenção passou a ser semi-sinté- fenicol sob a forma de colírio para
tica. A Figura 6 ilustra a ação da enzima o tratamento de infecções ocu-
penicillium-acilase sobre a penicilina G lares leves.
(23), convergindo no ácido 6-amino A síntese do cloranfenicol (34)
penicilâmico (24), intermediário-chave (Figura 7) começa com uma rea-
para a síntese dos derivados semi-sin- ção de condensação aldólica do
téticos. Na etapa seguinte, a simples benzaldeído (28) e 2-nitroetanol,
substituição do cloreto de acila fornece para obter uma mistura dos 4
derivados como a penicilina V (25), a diastereoisômeros do nitroprope-
meticinina (26) e a oxacilina (27). nodiol (29). A mistura diastereo-
isomérica é submetida à redução,
O antibiótico cloranfenicol levando aos respectivos deriva-
Ainda dentro da classe dos antibió- dos aminodióis (30). O isômero
ticos, o cloranfenicol (34) é outro fár- treo é separado por cristalização
maco que merece destaque, por ter si- para fornecer o intermediário (30).
do o primeiro antibiótico ativo de via O intermediário (30) é submetido
oral e o primeiro fármaco com centros a reação de acilação com cloreto
(i.e. carbonos) assimétricos a ser pro- de dicloroacetila, para fornecer o
duzido por rota sintética, em 1947. Da composto triacetilado que, sub-
mesma maneira que a penicilina (34), metido à reação de saponificação,
o cloranfenicol inicialmente era produ- produz o intermediário (31). O
zido através de fermentação por Strep- intermediário (31) é novamente
tomyces venezuela. É interessante res- acetilado na presença de anidrido
saltar que o cloranfenicol possui dois acético, para gerar o composto
centros quirais, conseqüentemente 4 (32). O composto (32) é nitrado
isômeros, onde apenas o isômero treo sob condições de ácido nítrico e
(R,R) apresenta atividade antibiótica. ácido sulfúrico resultando no com-
Atualmente seu uso é restrito ao tra- posto (33). O composto nitrado Figura 7: Rota sintética do cloranfenicol 34.

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potenciar a vasodilatação dos vasos
responsáveis pela irrigação do pênis.
Os inibidores de fosfodiesterase-5 fo-
ram racionalizados inicialmente para
otimizarem a circulação coronariana.
De fato, os pesquisadores do labora-
tório Pfizer estavam estudando novos
candidatos a protótipos de agentes
anti-hipertensivos, anti-angina e falên-
cia cardíaca congestiva, quando se
deu a descoberta das potencialidades
Figura 8: Rota sintética do aciclovir 40. terapêuticas do Viagra® (51).
Sua preparação envolveu o empre-
go de metodologia sintética composta
(33) é submetido a condições de Sildenafil,
por nove etapas, conforme ilustrado na
saponificação, convertendo-se no clo- viagra® Figura 10. A primeira etapa envolveu a
ranfenicol (34).
Viagra® metilação do éster etílico do ácido 3-
O anti-viral aciclovir (51), como é propilpirazola-5-carboxilíco (41) com
conhecido o dimetil sulfato sob calor, para gerar o
O aciclovir, ou (9-[(2-hidroxie-
citrato de sil- composto (42). Na seqüência o inter-
toxi)metil]-9H-guanina), é um anti-viral
denafil, 5-[2-etoxi-5-(4-metilpiperazina- mediário foi hidrolisado, em hidróxido
análogo do nucleosídeo guanina ací-
1-ilsulfonil)fenil]-1-metil-3-propil-6,7- de sódio aquoso, ao ácido correspon-
clico, utilizado no tratamento de infec-
dihidro-1H-pirazola[4,3-d]pirimidin-7- dente (43). O intermediário (43) foi
ções por herpes. Foi desenvolvido
ona (Figura 9), é um dos mais recentes nitrado com ácido nítrico fumegante,
racionalmente pelos pesquisadores fármacos a ser incorporado ao arse- para se obter o produto nitrado (44). O
George Hitchings e Gertrude Elion, nal terapêutico, útil para o tratamento grupamento ácido do composto (44)
contemplados com Prêmio Nobel por 21
da disfunção eréctil. Sua introdução foi convertido na carboxamida corres-
essa descoberta. causou muita repercussão, tanto no pondente (45), pelo tratamento com
Seu uso como coadjuvante no trata- meio científico quanto na sociedade, cloreto de tionila seguido de hidróxido
mento de pacientes soro-positivos HIV talvez comparável ao lançamento, em de amônio. Na seqüência, o grupa-
causou muita expectativa, pois au- 1995, dos inibidores de proteases anti- mento nitro de (45) foi reduzido à amina
mentava o tempo de sobrevida destes HIV. (46) correspondente com cloreto de tio-
pacientes. O aciclovir foi desenvolvido A disfunção eréctil é definida como nila em etanol. O grupamento amino
com base no nucleosídeo guanina a incapacidade de manter a ereção de (46) foi benzoilado com cloreto de
cíclico, uma base nitrogenada utilizada com tumescência adequada, necessá- 2-etoxibenzoil, na presença de trieti-
pelos vírus na construção do seu DNA. ria à correta relação sexual. Dados do lamina, formando (47). Posteriormente,
Os vírus não reconhecem as nuances Instituto Nacional de Saúde dos EUA ocorreu a ciclização (48) do interme-
estruturais entre o aciclovir, análogo de demonstram que a disfunção eréctil diário (47), através do emprego de
nucleosídeo acíclido da guanina, e as afeta, em graus variáveis, ca. 20 a 30 peróxido de hidrogênio em meio
verdadeiras bases, e utiliza-o na milhões dos homens. Essa disfunção básico. O intermediário (48) foi sulfo-
construção de um “falso” DNA. Este afeta 5% dos homens acima de 40 nado para gerar o cloreto de sulfonila
DNA, construído com esse erro, induz anos e 25% acima de 65 anos. (50). A última etapa consistiu na con-
a morte do vírus por não conseguir O Viagra® (51) age através da densação da metil-piperazina com o
desempenhar sua função adequada- inibição da enzima fosfodiesterase-5, grupamento reativo de (50), gerando
mente. A Figura 8 ilustra a síntese do aumentando o fluxo sangüíneo por o Viagra® (51).
aciclovir.
O aciclovir foi sintetizado a partir da
acetilação da guanina (35) com anidri-
do acético, gerando o composto (36).
O intermediário acetilado (36) reage
com a cadeia lateral (38) na presença
de ácido para-toluenosulfônico, produ-
to da acilação do dioxolana (37), para
formar o derivado glicosídico (39). O
derivado glicosídico reage com amônia
em metanol, à temperatura ambiente,
para fornecer o produto desacetilado,
aciclovir (40). Figura 9: Sildenafil, primeiro fármaco útil para o tratamento da disfunção eréctil por via oral.

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Figura 10: Rota sintética do viagra 51.

Considerações finais para o tratamento de doenças tropi- mica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é
cais, tais como a malária. aluno de doutorado na mesma instituição. Carlos A.M.
A síntese de fármacos pode ser Fraga, doutor na área de química medicinal, é profes-
Atualmente, a busca de novos can- sor adjunto da Faculdade de Farmácia da Universi-
considerada uma aplicação nobre da
didatos a protótipos de fármacos aten- dade Federal do Rio de Janeiro. E.J. Barreiro, doutor
química orgânica sintética, por permitir pela Université Scientifique et Médicale de Grenoble,
de a um novo paradigma, onde há
o acesso a substâncias terapeuti- França, coordenador do Laboratório de Avaliação e
necessidade de se buscarem fárma-
camente úteis, com níveis de comple- Síntese de Substâncias Bioativas, é professor titular
cos para o tratamento de enfermidades da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal
xidade variáveis.
específicas. O novo paradigma pode do Rio de Janeiro.
Sua aplicação na busca de novos
ser exemplificado pelo aciclovir, onde
protótipos de fármacos representa Para saber mais
através de um planejamento prévio, a
uma grande parcela dos medicamen- molécula deste fármaco, análogo ací- BARREIRO, E.J. Química Nova, v. 14,
tos disponíveis para uso clínico e movi- clico da guanina, possibilitou “sabotar” n. 3, p. 179-88, 1991.
menta cifras elevadas dentro do o DNA viral, provocando o efeito anti- LENDNICER, D. Strategies for organic
mercado mundial. Contudo, a decisão viral desejado. drug synthesis and design. New York:
de qual classe terapêutica deverá ser John Wiley & Sons, Inc., 1998.
objeto de estudo vai depender das Nota PATRICK, G. An Introduction to medici-
questões que aguardam por resposta. 1. Nome vulgar atribuído ao ácido nal chemistry. 1a ed., Oxford University
Os países de primeiro mundo, proval- Press, 1995.
clorídrico comercial.
velmente, estarão envolvidos na busca Na internet
de novos fármacos anti-câncer, en- R. Menegatti, farmacêutico, formado pela Faculdade
de Farmácia da Universidade Federal de Santa Cata- http://views.vcu.edu/~pgalatin/
quanto os países de terceiro mundo rina (Florianópolis) e mestre pelo Programa de Pós- viagra.html/
ainda estão carentes por fármacos Graduação em Química Orgânica do Instituto de Quí-

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