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CCNEXT - Revista de Extensão, Santa Maria v.3 - n.Ed.

Especial
XII EIE- Encontro sobre Investigação na Escola , 2016, p. 249– 253
Revista do Centro de Ciências Naturais e Exatas - UFSM
IISSN on-line: 2179-4588

A produção do gênero crônica em sala de aula: um relato de iniciação à


docência

Laura Egevarth Weber, Cleiton Reisdorfer Silva, Adriana de Lima Correia e Francieli Matzenbacher Pinton
lauraweberr@gmail.com; kleytowx@gmail.com; annedelimacorreia@gmail.com; francieli.matzembacher@gmail.com

Resumo

Este trabalho tem por objetivo relatar as experiências vividas por professores em formação inicial em sala de aula, vinculados ao Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) da Universidade Federal da Fronteira sul - Campus Cerro Largo. Estas experiências
são provenientes das oficinas de leitura e produção textual ministradas na Escola Estadual de Ensino Fundamental Sargento Sílvio Delmar
Hollenbach.

Palavras chave: relato de experiência, gênero discursivo crônica, leitura e produção textual.
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1. Contexto do relato

De modo a fornecer as condições necessárias para a compreensão do trabalho realizado pelos


licenciandos no contexto escolar, explicitaremos, num primeiro momento, as características da proposta
pedagógica das oficinas de leitura e produção textual. Estas oficinas focalizam o trabalho com gêneros
discursivos/textuais e são organizadas obedecendo à sequência de um eixo temático (conforme quadro 1)
elaborado por Heineck, Angst e Pinton (2013).

Quadro 1: Eixo temático dos gêneros discursivos:


EU Autobiografia
Relato pessoal
EU E MINHA TURMA Conto
História em quadrinhos
MEUS MEDOS Poema
Contos de terror/suspense
Causos
EU NO MUNDO Notícia
Reportagem
Anúncios
Propaganda
Panfletos
Entrevista
Editorial
Crônica
O QUE EU PENSO Artigo
SOBRE O MUNDO Carta aberta
Carta do leitor
Critica

O eixo temático foi construído pelas autoras a partir do diagnóstico da realidade de leitura e escrita dos
alunos a quem eram destinadas as oficinas. O diagnóstico dessa realidade foi feito por meio da aplicação de
questionários e de instrumentos específicos que pudessem identificar as dificuldades dos alunos com relação à
leitura e escrita. Após a observação desses problemas, as autoras buscaram “elaborar uma proposta de progressão
curricular dos gêneros que seriam objeto de ensino nas oficinas” (HEINECK, ANGST, PINTON, 2013, P.3), o
que resultou em um eixo “dividido em temas, próximo aos interesses dos alunos, e em gêneros que
contemplassem situações comunicativas pertinentes a tais temas” (idem). Destacamos que a escola onde as
autoras ministravam as oficinas não é a escola a qual se refere este relato. No entanto, após diagnosticarmos a
realidade de leitura e escrita da Escola Sargento Sílvio – onde atuamos, constatamos muitas semelhanças entre
essas duas realidades, fato este que nos levou a optar pela utilização do eixo anteriormente elaborado.
251 Weber et al.: A produção do gênero crônica em sala de aula: um relato de iniciação à docência

As oficinas possuem uma estrutura que mantém certa estabilidade, ou seja, são organizadas de acordo
com um plano de ensino pré-estabelecido, mas são flexíveis na medida em que permitem a adequação dos textos
e temáticas ao nível de aprendizagem no qual se encontram os alunos. Este plano de ensino busca dar conta das
dimensões de produção, circulação e consumo do gênero, objetivando que os alunos tenham a compreensão do
gênero estudado e capacitando-os para, a partir do domínio desta prática social, efetivamente agirem em seu
meio social através da escrita.
As oficinas de leitura e produção textual são ofertadas no turno inverso ao horário de aula e visam
fornecer auxílio aos alunos de 6º à 8º séries no que se refere à compreensão e produção de textos, dos quais os
falantes da língua portuguesa fazem uso em sua vivência escolar e fora dela. O principal objetivo das oficinas é,
portanto, tornar os alunos leitores críticos de sua realidade, bem como escritores capazes de intervir no mundo
por meio da linguagem. Através das oficinas procuramos também estimular e ampliar a leitura crítica e a visão
de mundo a partir da linguagem, articulando-as de modo conceitual/teórico e também de modo funcional,
abordando os mais diferentes aspectos linguísticos que integram os diferentes textos que circulam em nossa
sociedade.

2. Detalhamento das atividades

No período que antecedeu a aplicação das oficinas na escola, foram feitas, por nós pibidianos, leituras
de textos teóricos que nos forneceram um panorama geral das práticas docentes vigentes em nossas escolas e a
também a origem destas práticas. Após as leituras aconteciam momentos de debate e discussão mediados pela
orientadora do Pibid, nesses momentos pudemos refletir sobre os reais objetos e as reais necessidades de ensino
de nossas escolas, em busca de um ensino de língua voltado para a formação de cidadãos competentes no uso da
língua.
O objetivo maior do Pibid, que é a inserção dos licenciandos em ambiente escolar, nos confronta com as
realidades desse contexto e nos permite que sintamos o que de fato representa a docência em nossas vidas e a
importância desta profissão para a sociedade. Os primeiros trabalhos realizados em sala de aula, com certeza
tiveram seus momentos de incerteza, angústia e dúvida, mas foram superados pelas alegrias e pelos momentos
ímpares que somente a docência pode proporcionar, estes momentos consolidam nossa opção pelo trabalho
docente e nos constituem enquanto sujeitos.
A primeira oficina de leitura e produção textual que ministramos na Escola Sargento Sílvio teve como
tema gerador o gênero crônica, incluído no item “Eu no Mundo”, do eixo temático. Após a divulgação e
preparação feita para a primeira oficina, criamos expectativas em relação aos alunos que estariam presentes na
oficina, ou seja, o público alvo dessa oficina, levando em conta que alguns destes alunos fizeram o diagnóstico
no ano anterior e outros não. Também nos preparamos para um número aproximado de 15 alunos e a surpresa foi
grande ao encontrarmos somente quatro alunos. Esse fato não modificou nossa forma de trabalho, além do fato
de conseguirmos atender a todos com mais facilidade, mas nos diz muito sobre a realidade escolar.
Embora o número de alunos fosse inferior ao esperado, os alunos presentes mostraram-se motivados
com a proposta da oficina, fazendo com que trabalhássemos com empenho. Passada a surpresa deste momento
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inicial, prosseguimos com as etapas previstas para um melhor aproveitamento do tempo, visto que, cada oficina
tem duração de 01h30 min.
No intuito de contextualizarmos a temática da oficina, utilizamos a música “Crônica” (Engenheiros do
Hawaii), que consiste numa estrutura própria da crônica. Na sequência entregamos uma cópia impressa para que
nossos alunos pudessem acompanhar e observar alguns aspectos da crônica.
Por meio de diálogos, com os alunos, relacionamos a música “Crônica” ao gênero e às características
evidenciadas em sua letra. Em seguida, trabalhamos o conceito de crônica, sob as perspectivas teóricas estudadas
por nós durante a elaboração do plano de ensino, vale ressaltar que as aulas não são meramente expositivas e
sim, direcionadas à discussão em grupo. Distribuímos então material do aluno que continha a crônica “Pechada”,
o conceito de crônica, os diferentes tipos de discurso, os tipos de narrador, o questionário de interpretação e
análise linguística e a proposta de produção textual. Durante a exposição das características estruturais, a
linguagem e a finalidade da crônica, apresentamos o conceito de variedade linguística comentando os variantes
regionais presentes na crônica “Pechada”. Todos esses itens constantes no material do aluno foram trabalhados e,
após a apresentação da proposta de produção textual, orientamos os alunos no processo de escrita da primeira
versão do gênero crônica. A produção textual dos alunos nos foi entregue em cadernos que são utilizados pelos
alunos para anotações e para a escrita das versões do texto.
Perceber a educação como processo e perceber que não mudaremos o mundo em um dia certamente é
uma das maiores dificuldades nessas primeiras experiências. Esta é a impressão mais forte da segunda oficina, a
oficina de reescrita. Após a escrita do bilhete orientador – gênero responsável pela mediação no processo de
correção dos textos (cf. Fuzer, 2012), considerado um “gênero catalisador” (SIGNORINI, 2006), novamente
criamos expectativas e nos perguntamos como estes alunos receberiam a proposta de correção textual-interativa,
e como responderiam a ela, tendo em vista que essa perspectiva de correção possivelmente não é a utilizada pelo
professor (a) em sala de aula.
Logo no início da segunda oficina os alunos leram seus respectivos bilhetes, houve então um momento
de questionamentos onde os alunos manifestaram suas dúvidas em relação à correção, na maioria dos casos eles
não haviam entendido quais as orientações e sugestões dadas. Isso nos fez refletir sobre a linguagem empregada
nos bilhetes, pois possivelmente há a necessidade de uma maior didatização e de uma adequação da linguagem
ao contexto de aprendizagem destes alunos para que eles possam compreender mais claramente as orientações.

3. Análise e discussão do relato

A crônica é um gênero discursivo no qual a partir da observação e do relato de fatos cotidianos, o autor
manifesta sua perspectiva subjetiva, oferecendo uma interpretação que revela ao leitor algo que está por trás das
aparências ou não é percebido pelo senso comum. Nesse sentido é finalidade da crônica revelar as fissuras do
real, aquilo que parece invisível para a maioria das pessoas, ajudando-as a interpretar o que se passa à sua volta.
(ABAURRE, 2007, p.80)
A crônica em contexto de sala de aula nos permitiu inovar, motivar e promover novas estratégias para a
produção textual, afim de que nossos alunos possam ler e interpretar uma crônica, e através da produção possam
posicionar-se frente aos fatos do cotidiano. Ainda nesse sentido, podemos ver que as leituras de mundo que os
253 Weber et al.: A produção do gênero crônica em sala de aula: um relato de iniciação à docência

alunos trazem para sala de aula, podem permitir maior desenvolvimento na aprendizagem se tratados do viés
conceitual do gênero em questão.
A oficina sobre a crônica instigou os alunos a refletir e a tornarem-se capazes de reconhecer e a produzir
exemplares do gênero estudado, pois no decorrer desta oficina os alunos leram e interpretaram o exemplar do
gênero e analisaram as condições de produção, circulação e consumo do gênero.

4. Considerações finais

Levando em conta todos os aspectos didáticos e os referenciais teóricos e metodológicos que envolvem
o planejamento, revisão e aplicação das oficinas de leitura e produção textual, podemos observar que há
ocorrência de uma gradual constituição do professor em formação inicial. Ao observarmos nossa prática docente,
temos a oportunidade de refletir sobre nossa ação em sala de aula e sobre o papel que o professor desempenha na
sociedade e na leitura de mundo de seu aluno, e a partir disso tentarmos oferecer uma aprendizagem da língua
portuguesa voltada para o estudo, compreensão e produção de textos de forma crítica e reflexiva, tornando
nossos alunos sujeitos atuantes e críticos no mundo que os rodeia.
Aos poucos conseguimos perceber os diversos aspectos que podem ser melhorados nas oficinas e
mesmo que não percebamos, nos alunos, avanços significativos nos primeiros momentos, sabemos que o esforço
deve ser contínuo, pois o processo de ensino/aprendizagem é lento e demanda esforço das partes envolvidas.
Nesse sentido, as oficinas são preparadas de forma coerente e ministradas de forma que sejam atraentes e
interessantes para os alunos, objetivando manter e consolidar o grupo de alunos das oficinas. O nível de
exigência durante a elaboração dos planos de ensino colabora para que tenhamos oficinas comprometidas com a
boa formação, tanto de nós pibidianos quanto de nossos alunos na escola.

Referências

ABAURRE, M. L.; ABAURRE, M. B. M. Produção de texto: interlocução e gêneros. Vol. Único – Ensino
Médio. São Paulo: Moderna, 2007.

FUZER, C. Bilhete orientador como instrumento de interação no processo ensino-aprendizagem de


produção textual. Santa Maria: Letras, v. 22, n. 44, p.213-245, 2012.

HEINECK, F.; ANGST, C. M.; PINTON, F.M. O conto de terror na escola: uma proposta de intervenção
didática. e-scrita, v. 4, n. 2, p. 289-301, 2013.

SIGNORINI, I. Gêneros catalisadores: letramento e formação do professor. São Paulo: Parábola Editorial,
2006.