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Publicação da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural

Edição 5 | ano 2 | abril de 2018 | R$ 15,90

Allianz
Parque
Os vários processos construtivos e
os desafios estruturais enfrentados
e vencidos para a construção do
novo estádio do Palmeiras

ENTREVISTA
Newton Simões Filho, da Racional
Engenharia, fala da necessária interação
entre as áreas para se ter projetos eficientes

EVENTO
Congresso Brasileiro de Pontes e Estruturas
chega a 10ª edição
ÍNDICE | REVISTA ESTRUTUR A

FOTO: DIVULGAÇÃO E.T. CESAR PEREIRA LOPES


ESTRUTURA
EM DESTAQUE ÍNDICE
04 | EDITORIAL 32 | CASE INTERNACIONAL
3 MOTIVOS PARA CONTRATAR PROJETOS AS DIFICULDADES DE PROJETAR O PRÉDIO MAIS
POR PREÇO ALTO DO MÉXICO

05 | PALAVRA DO PRESIDENTE 39 | INOVAÇÃO


TREZE DIAS LONGE DO SOL RUMO AO CONCRETO DO AMANHÃ

06 | ENTREVISTA 55 | ESPAÇO BIM


‘CONSTRUTIBILIDADE’ NA ORDEM DO DIA O ENSINO DE BIM NA UNICAMP

60 | ESPAÇO ABERTO
10 | O QUE ELES QUEREM DE NÓS AÇO VIABILIZA ESTRUTURA ARROJADA
A IDEIA ARQUITETÔNICA PRECISA DE
ESTRUTURA INTELIGENTE 61 | BOAS PRÁTICAS CONSTRUTIVAS
DESEMPEHO APLICADO ÀS ESTRUTURAS DE
20 | MEMÓRIAS CONCRETO ARMADO
MULTIDISCIPLINARIDADE NO ENFRENTAMENTO
DA COMPLEXIDADE 63 | NOTAS E EVENTOS
26 | ESTRUTURAS METÁLICAS 66 | AGENDA
TECNOLOGIA USADA DO INÍCIO AO FIM CALENDÁRIO DE CURSOS

46 | PONTES E ESTRUTURAS
CONCEPÇÃO E EXECUÇÃO DE UM PROJETO OUSADO

OS DESAFIOS VENCIDOS
PELO NOVO ESTÁDIO DO
PALMEIRAS

12

EXPEDIENTE
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ENGENHARIA E CONSULTORIA ESTRUTURAL, dirigida aos escritórios de engenharia e
engenheiros projetistas, construtoras, arquitetos e demais profissionais do setor.
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03
EDITORIAL

3 MOTIVOS PARA
CONTRATAR PROJETOS
POR PREÇO
D
esde a década de 80, com o início dos 2 – Experiência da empresa de projetos
movimentos da qualidade na cons- É comum, hoje em dia, se ouvir coisas do
trução, os projetos assumiram um tipo: tanto faz o projetista, o software é o
grande protagonismo. Reconhecia- mesmo! Na medicina, o mais importante é
-se a importância dos mesmos para o suces- a tomografia ou a análise adequada dos re-
so dos empreendimentos. Todos passaram a sultados? Quando se tem um problema de
conhecer a Lei de Sitter, que mostra que os saúde mais grave, que tipo de médico pro-
custos de intervenções são multiplicados por curamos? Não basta ser experiente! Não
cinco a cada fase do empreendimento. Dessa basta ser competente! Queremos um que
forma, comprovava-se que era vantajoso in- alie essas duas qualidades. A competência
vestir horas em projetos, estudando melhor nos garante bons diagnósticos. A experiência
o produto, afinando soluções de execução e aumenta a probabilidade de que ele já tenha
melhorando o processo de compatibilização. diagnosticado e tratado de casos semelhan-
Isso refletiria em maior qualidade para o em- tes. Porém, são exatamente esses profissio-
preendimento e em economia futura. Ou seja, nais que mais valorizam a sua profissão, pois,
melhor aceitação do produto no mercado, E POR QUE PAGAR MAIS? sabem o esforço e o investimento feitos para
melhoria da produtividade da construção e Ninguém questiona que qualquer em- se chegar a esse ponto.
redução de desperdícios e retrabalho. Parece preendedor busca otimizar seus resultados e 3 – Estrutura de trabalho
lógico! Mas será que o discurso saiu do papel maximizar sua lucratividade. Também parece Aqui, não se está falando do tamanho da
e dos congressos e foi para a prática? A reali- inquestionável que os custos da construção empresa, mas sim de sua estrutura organiza-
dade mostra que não. estão diretamente relacionados às defini- cional. Empresas mais organizadas e estru-
ções e especificações dos projetos. Então, turadas podem oferecer um melhor serviço
MENINOS, EU VI! um parâmetro objetivo para se avaliar a qua- de suporte e atendimento. Além disso, em
No início dos anos 90 eu era assessor téc- lidade de um projeto é que o mesmo condu- empresas mais estruturadas, as fases do
nico em uma grande fornecedora de insu- za a menores custos finais de execução para projeto passam pelo crivo de várias pessoas,
mos para construção. Ao levarmos um gru- um determinado desempenho estabelecido. reduzindo as chances de erros.
po de projetista para visitar uma de nossas Diferentemente do que muitos pensam,
unidades, aproveitamos para discutirmos existem parâmetros objetivos que conduzem COMO CONTRATAR PROJETOS?
nossas demandas. Os preços estavam cada à contratação de projetos de qualidade. Tenha uma equipe de projetos que trabalhe
vez mais achatados ao mesmo tempo que a pelo seu sucesso!
informatização, necessária para tornar os es- OS MAIS IMPORTANTES: Que lhe ofereça soluções, alternativas, ino-
critórios mais produtivos, exigia investimen- 1 – Tempo de dedicação ao projeto vações, informações que aumentem a eficiên-
to em máquinas e sistemas. Além disso, os A fase mais importante de qualquer projeto cia de seu processo produtivo.
projetos estavam cada vez mais complexos e é a concepção. É quando se definem os prin- Se planeje para não precisar acelerar a fase
esse conjunto de fatores estava inviabilizan- cipais conceitos do empreendimento e, con- de concepção de projetos. É nessa fase que
do as empresas. sequentemente, seus custos. Em geral, essa são definidas as soluções do empreendimento.
O coordenador ouviu os argumentos e fase tem participação direta dos projetistas. E soluções bem pensadas e integradas, que
disse que a empresa não se negava a pagar Economizar em projetos significa, na maior conduzam a menores custos finais de execu-
mais pelos projetos, desde que os projetistas parte das vezes, projetos pouco estudados, ção, precisam de tempo de maturação.
demonstrassem os ganhos que a construto- sem soluções alternativas, sem aprofunda- E, por fim, valorize a experiência e a compe-
ra teria! O argumento encerrou a conversa mento técnico. Além disso, o produto final do tência de sua equipe!
e consolidou uma realidade. Não se nega a projeto (desenhos, especificações e memo-
importância dos projetos, mas daí a se pagar riais) podem ser insuficientes para conduzir a Marcos Monteiro
mais vai uma grande distância! obra a bons resultados; ex-presidente da ABECE (gestão 2008-2010)

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PAL AVR A DO PRESIDENTE | JEFFERSON DIAS DE SOUZ A JUNIOR

TREZE DIAS
LONGE DO SOL

E
ssa minissérie da Globo me trouxe à Com tantos problemas, precisamos rever
mente flashes de uma tragédia acon- muitas das ações que permeiam o setor da
tecida há mais de 50 anos. construção civil. Para que isso aconteça te-
Fico pensando se não foi realmen- mos que nos unir em torno de políticas que
te o principal motivo que me fez tomar a contemplem uma visão macro, agregando
decisão de seguir a profissão que escolhi empresas de projetos, construtoras, incor-
e que hoje exerço: engenheiro estrutural, poradoras e órgãos públicos.
projetista de estruturas, calculista (a no- Nosso papel de profissionais atuantes no
menclatura pouco importa...). setor da construção civil não seria, no mo-
Numa sexta-feira, dia 6 de novembro de mento, o de alertar a sociedade, as constru-
1964, acompanhei atônito o desabamento toras e os governantes sobre a importância
do Edifício Comurba, fato que marcou de de políticas permanentes de manutenção
maneira indelével a então promissora ci- (preventiva e corretiva) dos equipamentos
dade onde nasci, Piracicaba, no interior do públicos, de edificações, pontes e viadutos,
estado de São Paulo. rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, en-
O empreendimento começou a ser cons- tre outros??
truído em 1950 na Praça José Bonifácio, Fazer todos enxergarem que edificações
centro da cidade, e, em 1964, desmoronou têm vida útil e precisam de investimento
na fase de acabamento. Tinha 22 mil m2, 83 da qual me considero quase um sobrevi- para manutenção e para evitar acidentes,
m de comprimento divididos ao meio por vente. que seria o momento de utilizar todo nosso
uma junta de dilatação e 15 andares que Infelizmente, hoje, passados mais de 50 conhecimento técnico sobre segurança em
abrigariam escritórios, lojas, apartamentos anos desta grande tragédia, me vejo ainda edificações que temos acumulado nos últi-
e um cinema. diante de acidentes que ceifam vidas e me mos anos em prol da prevenção de riscos
No acidente, considerado a primeira faz repensar o verdadeiro propósito da nos- aos usuários finais??
grande tragédia da engenharia brasileira, sa engenharia. A ABECE vem constantemente alertan-
morreram aproximadamente 50 pessoas Sinônimo de desenvolvimento e progres- do sobre o problema de viadutos, pontes e
(não se tem o número exato até hoje), entre so, é ela que alavanca o crescimento econô- marquises e até mesmo das sacadas de edi-
elas famílias inteiras. mico deste grandioso país. Mas o que está fícios que estão em péssimas condições. E,
A retirada de sobreviventes soterrados faltando para que exerça realmente o seu nem por isso é feito qualquer acompanha-
foi uma agonia de vários dias, dada a falta papel? mento ou manutenção dessas estruturas...
de recursos tecnológicos da época. Para Quais são as verdadeiras causas dos aci- Como fazer cumprir tudo o que é espe-
mim, não eram números, eram amigos, fa- dentes que continuam ocorrendo com o cificado no projeto para assegurar a vida
miliares ou no mínimo conterrâneos. Numa passar do tempo: útil projetada e garantir a funcionalidade e
cidade do interior na década de 60, era • Erro de cálculo segurança da obra? O caminho não seria
como se fôssemos uma grande família e eu • Profissionais malformados incorporar a prática da manutenção, abran-
havia visitado o luxuosíssimo Cine Plaza há • Aviltamento do valor dos projetos gendo inspeções e programas de interven-
poucos dias do acidente. • Baixo índice e nível de gerenciamento ção antes que os problemas se agravem?
Durante mais de uma década os apar- de projetos A prevenção é o modelo mais eficaz e
tamentos e conjuntos comerciais tiveram • Economia na aquisição de materiais econômico a ser adotado. Sua ausência
grande desvalorização e baixa taxa de • Fornecedores sem a qualificação ne- gera prejuízos materiais, financeiros e, por
ocupação. A grande quantidade de poeira cessária vezes, à segurança de todos.
levantada ainda não foi levada pelo vento, a • Falta de profissionais gabaritados Manutenção preventiva é uma bandeira
praça que hoje ocupa o local apenas tenta, acompanhando a obra que precisamos levantar e levar por todo
mas não preenche e nem apaga a tragédia • Falta de manutenção território nacional.

05
ENTRE VISTA | NEW TON SIMÕES FILHO

‘CONSTRUTIBILIDADE ’
NA ORDEM DO DIA
A
caminho de completar meio sé-
O ENGENHEIRO NEWTON SIMÕES FILHO, FUNDADOR
culo de atividade ininterrupta, a
DA RACIONAL, FALA DA TRAJETÓRIA DA EMPRESA E Racional Engenharia se conso-
TAMBÉM DA NECESSIDADE DE SE ATUAR COM MELHOR lidou no mercado de constru-
ção civil brasileiro operando preferen-
INTERAÇÃO ENTRE OS VÁRIOS PROFISSIONAIS, DE
cialmente em obras industriais e, desde
FORMA A GANHAR EFICIÊNCIA E REDUZIR CUSTOS o início, tem uma preocupação intensa
com a introdução de sistemas constru-
tivos modernos. “Inovação sempre fez
parte do nosso DNA”, diz Newton Simões
Filho, fundador e principal dirigente da
companhia. Foi baseada nisso que a
construtora teve expressivo crescimento
nos seus primeiros anos, que coincidiram
com o chamado “Milagre Brasileiro” dos
anos de 1970.
Mais tarde, com a desaceleração
econômica do país, a empresa diversifi-
cou suas atividades para os segmentos

06 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


comercial, em especial a área de sho- essas ideias nas viagens que fazia ao exte- impulso enorme para a empresa, que
ppings, e também edifícios corporativos, rior, sobretudo para a Itália que tinha esse ganhou uma projeção bastante grande.
seguindo com um ritmo de crescimento sistema bem consolidado e com conceitos Depois, na década de 1980, o mercado
expressivo. “Antes da recente crise, prin- estruturais para galpões e indústrias mui- entrou numa grande crise, pois o Brasil
cipalmente no período 2006 a 2012, tive- to interessantes. Eu ia pelo menos duas quebrou, e começamos a diversificar a
mos uma expansão média anual de 25%”, vezes por ano para visitar as feiras e vinha atuação da construtora: entramos no
informou o empresário. Na entrevista a com ideias que precisavam ser tropicaliza- ramo de hotelaria, escritórios e sho-
seguir, ele também comentou sobre os das para a realidade brasileira. ppings. Aliás, o primeiro shopping que
mais recentes avanços e desafios futuros construímos foi entregue em 1982, o de
da engenharia brasileira, com destaque ABECE – Como foram os primeiros anos? Ribeirão Preto, iniciando uma época de
para uma necessária “melhor coordena- Newton Simões – Na época, eu trabalha- grande expansão desse tipo de cons-
ção dos projetos para permitir a construti- va com um projetista, que era um gran- trução por todo o pais. Tivemos nesse
bilidade e assim obter maior eficiência no de desenhista, além de um calculista. Eu campo um importante desenvolvimen-
processo construtivo”. apresentava a concepção estrutural que to, com a realização de inúmeras obras
estava bolando e o projetista delineava em todo o país e somos referência até
ABECE – O que o levou a ser engenheiro? as estruturas em três dimensões, à luz do hoje. Temos clientes nessa área com os
Newton Simões – Quando criança, tive que hoje se faz no BIM. Só que, naquela quais já trabalhamos há 30 anos.
um convívio intenso com meu avô, que
era construtor. Ele chegou adolescente
ao Brasil, vindo da Itália e foi trabalhar


na construção civil. Começou como aju-
dante, mas logo alcançou as funções de
pedreiro, mestre de obras e empreiteiro.
Eu gostava muito das estórias que ele
Demoramos mais na
contava sobre as obras. Se orgulhava de
ter trabalhado na construção do edifício
pré-construção, pois enquanto
Martinelli, primeiro arranha-céu de con- se trabalha com papel, basta
creto armado do Brasil. Isso me influen-


ciou bastante e, além disso, na minha rasgar e fazer de novo
época de juventude, as três profissões
que mais atraiam os jovens eram: medi-
cina, engenharia e direito. Dentro dessas
opções, engenharia era a que, para mim,
fazia mais sentido. Nunca tive dúvida so-
bre a carreira que seguiria, pois desde o
ginásio tinha facilidade e uma proximi- época, não havia nem computador. Então ABECE – Em relação aos projetos das
dade muito grande com exatas. Nesse ele desenhava tudo com nanquim em pa- obras como eram tratados nessa
sentido, a opção por engenharia surgiu pel e isso era validado pelo calculista, que época? Como era o entrosamento da
quase como uma decorrência natural. dizia se a proposta tinha viabilidade do construtora com os projetistas?
ponto de vista de estabilidade estrutural. Newton Simões – Nessa segunda onda
ABECE – Como nasceu a Racional e que Esse trabalho deu bons resultados comer- do nosso desenvolvimento – continuamos
balanço faz dos seus quase 50 anos? ciais e resultou numa grande visibilidade a atuar na área industrial – procuramos
Newton Simões – Eu sou suspeito, pois para a Racional, pois na época era real- manter sempre o envolvimento na coor-
me sinto realizado com o trabalho feito mente uma proposta inovadora no Brasil. denação dos projetos para permitir a
na empresa. Montamos a construtora em construtibilidade e assim obter a maior efi-
1971, dois anos após ter me formado na ABECE – Quer dizer que o espírito ino- ciência possível. Inclusive nos projetos de
Poli e foi num momento econômico muito vador predominou desde o início? shopping, começamos a ter uma visão crí-
bom, pois o país estava crescendo em rit- Newton Simões – Sim. Desenvolvemos tica dos projetos que nos eram apresen-
mo chinês em função do plano do governo um sistema de uma usina móvel, com tados, afinal de contas, shopping quando
militar de estimular a produção nacional, um pórtico bem simples e um sistema marca a data de inauguração é algo ime-
o que fez a atividade produtiva crescer de trilhos e industrializávamos desde a xível. Por essa razão, tínhamos de ter um
bastante, sobretudo o setor industrial, carpintaria, a fabricação das armações e envolvimento maior com a concepção do
estimulando a área de construção. Além a própria concretagem. Fomos montan- projeto, pois era preciso de propor uma
disso, entramos no segmento de galpões do linhas de produção e o resultado foi solução construtiva para que a industriali-
industriais com uma proposta inovadora excepcionalmente bom. Fizemos inúme- zássemos, mas sem perder a essência do
para a época, que era um sistema cons- ras obras usando essa tecnologia. Isso projeto. Essa é uma prática que trazemos
trutivo baseado em pré-fabricação de es- durou todo o chamado “Milagre Brasilei- até hoje. Isso é muito estimulante, pois
truturas no canteiro das obras. Buscava ro”, que foi até 1978 ou 1979, e deu um nós fazemos realmente engenharia. Não

07
ENTRE VISTA | NEW TON SIMÕES FILHO

somos uma construtora que simplesmen- da plataforma na fábrica da Jaguar Land to, entre outros aspectos para executar
te executa os projetos. Nós procuramos Rover, em Itatiaia, no Rio de Janeiro, que foi a obra e assim garantir um desvio que no
trazer a nossa experiência construtiva entregue em 2016 e na qual interagimos nosso pior cenário chega a 10mm. Para
para, junto com os projetistas e outros com um arquiteto inglês. Funcionou mui- conseguir isso foram incorporados uma
elos da cadeia produtiva, encontrar as to bem, tanto que o cliente segue usando série de fibras e outros aditivos no con-
melhores soluções que atendam custos, os preceitos da ferramenta na operação e creto, tornando o piso único no mundo.
prazo e qualidade. também na manutenção do edifício.
ABECE – Esse exemplo confirma que
ABECE – Com esse retrospecto inova- ABECE – Poderia fazer uma avaliação o Brasil domina o estado da arte da
dor, como avalia novas ferramentas sobre o uso e os resultados de con- engenharia?
como o BIM? cretos de elevado desempenho. Newton Simões – A engenharia nacional
Newton Simões – Inovação sempre fez Newton Simões – Estamos finalizan- está apta a realizar o que de mais avan-
parte do nosso DNA. Quanto ao BIM, a fer- do as obras estruturais do Laboratório çado existe no mundo. O que nos falta
ramenta em si é excepcional. O problema é Nacional de Luz Sincrotons (LNLS), que é projeto de longo prazo em termos de
sua aplicação. É uma ferramenta que tem será construído junto ao Centro Nacio- país. Temos uma enorme deficiência em
de ser utilizada com uma forte e sólida ade-
rência cultural em toda a cadeia produtiva
da construção. Não basta a construtora
aplicar sozinha. Temos de ter o engajamen-


to dos parceiros projetistas, fornecedores
de produtos e serviços, assim como dos
clientes. Penso que o envolvimento com a
plataforma tem de vir desde a ideia original Em engenharia, o erro trágico é
até a entrega da obra para operação, pois
o BIM tem um módulo que trata de manu-
quando se faz uma concretagem
tenção, avançando inclusive no conceito de complexa e errada, cuja correção
ciclo de vida. Nosso compromisso aqui na


empresa é utilizar o BIM para trazer resul- posterior é impossível
tados concretos para o projeto e não por
ser moda ou por ficar bonito. Não adianta
nada fazer a concepção do projeto em BIM
e chegar na obra os nossos engenheiros e
os mestres não saberem operar essa pla-
taforma. Estamos trabalhando e investin-
do bastante para fazer essa conexão, de
forma que todo o ciclo do processo saia
beneficiado com a tecnologia.
nal de Pesquisa em Energia e Materiais relação a infraestrutura e não sabemos
ABECE – Dê exemplo de uma obra onde (CNPEM), em Campinas no interior paulis- qual nossa referência para suportar o
a ferramenta está sendo utilizada. ta. Em razão do rigor em relação a estabi- desenvolvimento futuro. Falta sequência
Newton Simões – Temos algumas. Esta- lidade da base onde funcionarão os equi- em função das mudanças de governo.
mos para começar uma obra do aeropor- pamentos necessários aos experimentos Hoje, independentemente do talento e de
to de Florianópolis. A partir do programa com luz sincroton de quarta geração, foi conhecimento, e os nossos são equipará-
original de trabalho do cliente, que é uma preciso uma operação complexa sobre- veis aos melhores do mundo, temos con-
empresa suíça, foi constituída a equipe de tudo no tocante a precisão e rigor quanto dições de fazer intercâmbios e trabalhar
projetos, pois nós aqui apenas coordena- ao nível de planicidade. Em razão disso, o de forma integrada com o mundo todo.
mos a equipe, e todo ele foi concebido ten- túnel no qual serão feitos os experimen- As modernas ferramentas nos permitem
do a plataforma BIM como balizadora dos tos, que exigiu um piso de concreto com formar equipes multinacionais, pois a pre-
projetos básicos e do projeto executivo. 90 centímetros de altura, não poderia sença física não é tão necessária na maior
Além dessa obra, estamos iniciando os tra- ter uma deformação superior a 20mm parte do processo construtivo. A busca e
balhos de projeto de dois shoppings com em toda sua superfície, com deformação o acesso ao conhecimento hoje são muito
os quais ainda temos acordo de confiden- relativa máxima de 0,25mm (250 micrô- mais fáceis do que no passado. O proble-
cialidade, além de uma universidade. Nes- metros) a cada 10 metros. Além disso, ma está na aplicação desse conhecimen-
se caso, o arquiteto é dos Estados Unidos nas várias camadas do concreto, foram to. Como é que você traz esse conheci-
e nós estamos interagindo com ele já den- colocados sensores para alertar contra mento e as experiências do mundo, mas
tro da ferramenta, o que mostra a versati- qualquer tipo de abalo, para não interfe- adaptada à realidade brasileira. Existe um
lidade do BIM. Em termos de obras pron- rir nas experiências. Tivemos de estudar desafio de tropicalização de soluções. Nós
tas, avançamos bastante na exploração profundamente a tecnologia do concre- estamos muito preparados. Na Racional

08 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


não sentimos barreiras de conhecimento diz eu vou conceber e depois o calculista Newton Simões – Tivemos uma obra
para vencer os desafios técnicos da área que se vire. Quando não se tem essa inte- muito conhecida, concluída em 1989, que
de projetos da engenharia moderna. gração e interação pode ocorrer uma su- é a do Shopping Paulista. No local havia
cessão de erros que não são válidos. Erro um prédio com cerca de 50 anos, que
ABECE – Nossos projetos executivos válido é aquele que você consegue inter- abrigava uma loja de departamento, com
são de padrão excelentes? pretar e corrigir. O erro trágico é quando área de 25.000 m2 e que ocupava todo o
Newton Simões – Hoje não são. E vou se faz uma concretagem complexa e erra- terreno. Se o empreendedor demolisse
te dizer as razões. Em geral os projetos da cuja correção posterior é impossível. a loja para erguer o shopping, que seria
seguem uma metodologia baseado no A gente tem muito cuidado ao longo da muito maior, perderia o direito de explo-
trinômio projeto, concorrência e cons- nossa pré-construção. Numa determi- rar a totalidade do terreno, tendo de dei-
trução. Os atuais projetos feitos no Brasil nada situação, um projetista busca uma xar espaços de recuo, conforme previa
ainda são marcados por essa estanquei- segunda opinião para poder fazer a vali- a legislação municipal da época. Então
dade entre projetar, fazer a concorrência dação daquela solução. E isso deveria ser foi necessário fazer um trabalho con-
de contração e depois construir. Com bem recebido por todos, pois no fundo, junto com o arquiteto Julio Neves desde
isso, deixam de incorporar soluções ope- nós queremos é o sucesso da operação. a concepção do projeto, que envolveu
racionais que beneficiam o projeto. reforma e ampliação. O que tivemos de
fazer: sem que a loja parasse de funcio-
ABECE – Como fazer então? nar, entramos no subsolo e começamos
Newton Simões – O que temos feito a substituir as fundações de cada pilar,
aqui na Racional é procurar trabalhar transferindo cargas para uma fundação
mais na fase de pré-construção, onde provisória, com macacos e sensores para


participamos, horizontalmente, junto identificar o momento exato de anular a
com o grupo que desenvolve o projeto, carga em cada um dos pilares. Quando
geralmente com a liderança do arquite- se confirmava carga zero no pilar, nós im-
to ou do próprio cliente. Com isso, es- Nosso plodíamos a fundação antiga e construía-
tabelecemos a conexão e um ambiente
de colaboração necessários para que o
compromisso é mos um novo tubulão que seria transfor-
mado em pilar posteriormente isso em
projeto seja concebido de forma que sua utilizar o BIM para cinco subsolos embaixo da loja. Trabalha-
construtibilidade seja garantida. Graças a mos nisso durante praticamente um ano.
essa estratégia, evitamos iniciar a obra trazer resultados Depois que essa operação de engenharia
com projetos complementares ainda in- foi concluída, a loja foi fechada e construí-
definidos, o que causa inúmeros proble- concretos para o mos mais seis andares sobre as novas
mas durante a execução da obra, com im-
pactos no prazo, na qualidade e também
projeto e não por fundações, com ampliação dos 25.000 m2
originais da loja para 120.000 m2 do novo


nos custos, que levam a um caminhão de ser moda empreendimento. Essa obra mereceu in-
desgaste na relação cliente-construtora. clusive publicações na França como um
O que fazemos é demorar mais na fase tratado de uma obra inédita por ter feito
de pré-construção, pois enquanto você a transferência de carga das fundações
está trabalhando com papel, você rasga e com o prédio antigo em funcionamento.
faz de novo, mas quando já iniciou a obra, Uma dificuldade extra nesse processo foi
tem lá 1.000 funcionários trabalhando e, consultar a Companhia do Metropolita-
se é detectado um erro, esse custo passa no, pois já havia o projeto das obras da
a ser vital para a empresa. O Brasil pre- ABECE – No exterior tem essa melhor futura Linha Verde do Metrô.
cisa trazer um pouco mais a cultura de integração?
trabalhar em ambiente colaborativo, que Newton Simões – Quem está bem na ABECE – Como analisa o futuro da
é a palavra da vez no mundo da inovação frente nesse campo são os Estados Uni- construção e da engenharia?
e da tecnologia, onde dentro desse am- dos. Essa é uma prática antiga e corri- Newton Simões – Penso que tudo de-
biente você consiga, de uma forma trans- queira. E nós aqui na Racional estamos penderá de como será o cenário do setor
parente, com mais segurança e com me- muito inspirados nisso. Temos equipes após a movimentação provocada pela La-
lhor governança, desenvolver os projetos que visitam regularmente os Estados va-Jato. Depende de quais serão os players
com muito mais conteúdo para a execu- Unidos, temos alguns parceiros com os que continuarão a atuar, como o governo
ção que atenda a demanda do cliente. quais trabalhamos em aliança e fazemos e também o setor privado vai se adaptar a
uma troca de experiências. um modelo com maior transparência e go-
ABECE – E sinergia é importante nes- vernança. É uma incógnita ainda, mas que
se processo? ABECE – Cite uma obra da Racional terá de ser equacionada, pois nessa área
Newton Simões – Total. Um profissional que foi mais desafiante do ponto de o Brasil tem enorme demanda represada.
tem de reconhecer o papel do outro. Se vista de soluções de engenharia ou E é um setor onde a engenharia é muito
um negar isso, por exemplo, o arquiteto de projeto. demandada, além de ser estratégica.

09
O QUE ELES QUEREM DE NÓS | COMBINAÇÃO DE IMAGINAÇÃO E TÉCNICA

A IDEIA ARQUITETÔNICA
PRECISA DE ESTRUTURA
INTELIGENTE
ENGENHEIROS ESTRUTURAIS E ARQUITETOS, AO TRABALHAR EM
SINTONIA, SE TORNAM CORRESPONSÁVEIS PELA IDEIA. AMBOS SE
REALIMENTAM DE CONHECIMENTO E SENSIBILIDADE

S
POR GUSTAVO PENNA ou de uma escola de pensa- ela, o engenheiro estrutural é o nosso
mento que acredita que, quan- parceiro principal, parte indispensável
do a engenharia termina, a da orquestra. Não se trata de alguém
arquitetura está pronta. A ar- à margem da estética, da mesma for-
quitetura cuida da organização inven- ma que a nós, arquitetos, não compete
tiva de pilares, vigas, paredes e lajes: criar máscaras elegantes para uma es-
para gerar lugares do homem. Projetar trutura equivocada.
e calcular são dois ofícios irmãos, um- Engenheiros estruturais e arquitetos,
bilicalmente ligados. A ideia arquite- ao trabalhar em sintonia, se tornam cor-
tônica, para ser bela, precisa de uma responsáveis pela ideia. Participam juntos
estrutura inteligente. Responsável por do equilíbrio, das proporções, da lógica

“ O engenheiro
estrutural não é
alguém à margem
da estética, da
mesma forma
que ao arquiteto
não compete criar
máscaras elegantes
para estruturas


equivocadas

ILUSTRAÇÃO DO PROJETO DO CAMPUS ITABIRA DA UNIFEI – UNIVERSIDADE FEDERAL DE ITAJUBÁ

10 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


estrutural. Arquitetos e estruturalistas se
realimentam de conhecimento e sensibi-
lidade. É um processo dialético e imemo-
rial que já ofereceu maravilhas à humani-
dade. Um edifício belo, preciso e seguro
gera prazer estético e entusiasmo.
Penso que o arquiteto deve envolver o
engenheiro estrutural no processo desde
a concepção do projeto. Por outro lado, ILUSTRAÇÃO DA SEDE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE METALURGIA, MATERIAIS E MINERAÇÃO,
cabem aos engenheiros de estrutura com- LOCALIZADA EM SÃO PAULO
preender a dimensão do arquiteto, que
entende o edifício como objeto de cultu- No desenrolar dessa relação, construí- tridimensionalmente as estruturas, veem
ra. Compreender a dimensão abstrata de mos obras e amizades. Em minha vida seu funcionamento antes mesmo que
uma obra de arquitetura é fundamental. profissional, tornei-me amigo de vários elas existam. Tanto o arquiteto quanto
A dimensão estética, simbólica e abs- engenheiros de estrutura, profissionais o engenheiro estruturalista percebem o
trata e a dimensão concreta e científica com uma capacidade de compreensão resultado antes que o projeto se conclua.
seguem lado a lado, se conectam: a ar- da matemática que ultrapassa o conven- É uma combinação de imaginação e téc-
quitetura passa a ser lógica e a estrutu- cional e transcende o sentido meramen- nica, uma dimensão que nos une e que
ra se torna abstrata. te material. São pessoas que interpretam nos permite transcender juntos.

Gustavo Penna formou-se em arquitetura pela Universida- parceria com escritórios nacionais e internacionais, entre
de Federal de Minas Gerais, na turma de 1973. Já no ano eles, o americano Richard Meier & Partners Architects, além
seguinte fundou o escritório Gustavo Penna Arquitetos do alemão Gerkan, Marg und Partner (GMP). Além da ativi-
& Associados, que atualmente envolve uma equipe de 30 dade empresarial, Penna lecionou de 1977 a 2009 na Escola
profissionais e já desenvolveu uma centena de projetos de de Arquitetura e Urbanismo da Federal de Minas Gerais. Foi
edifícios residenciais, comerciais, culturais e institucionais também, em meados dos anos de 1980, assessor especial
de médio e grande porte. Com frequência atua também em do Ministério da Cultura para Projetos de Espaços Culturais.

11
ESTRUTUR A EM DESTAQUE | ALLIANZ PARQUE

OS DESAFIOS
VENCIDOS
PELO NOVO
ESTÁDIO DO
PALMEIRAS

INAUGURADO EM 2014, O
NOVO ESTÁDIO DO PALMEIRAS
ENVOLVEU DIVERSOS PROCESSOS
CONSTRUTIVOS E VENCEU DESAFIOS
COMO A PRESERVAÇÃO DE PARTE
DA ESTRUTURA ANTIGA, ALÉM
DE ENFRENTAR DIFICULDADES
COM A MOVIMENTAÇÃO DE PEÇAS
VOLUMOSAS NUMA ÁREA DE
TRÂNSITO INTENSO

12 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


13
DIVULGAÇÃO E.T. CESAR PEREIRA LOPES
ESTRUTUR A EM DESTAQUE | ALLIANZ PARQUE

G
anhadora de diversas premia- além do estádio, um edifício multiuso reduzir vibrações e ruídos. No processo
ções nas áreas de engenha- onde funciona a área administrativa do construtivo de hélice contínua, as esta-
ria e arquitetura, inclusive o clube e um estacionamento com capa- cas foram colocadas e cobertas por ter-
Prêmio Talento Engenharia cidade para até 2.000 veículos, além de ra até que todas as estacas do perímetro
Estrutural 2017, na categoria Obras Es- outras instalações. fossem finalizadas. Em seguida, foi feita
peciais, a Arena Allianz venceu também Por exigência contratual, a construto- a escavação e o arrasamento, para en-
inúmeros desafios de engenharia estru- ra WTorre, encarregada das obras, teve tão ser iniciado o bloco da fundação.
tural e de logística durante sua constru- de preservar parte da estrutura das ar- Abaixo da arquibancada antiga, que
ção. Projetada para ser o novo estádio quibancadas antigas, construída na pri- foi preservada, foi necessário fazer um
do Palmeiras e também um local para a meira década do século passado. Em ra- reforço estrutural, com o uso de estaca
realização de eventos musicais, o Allianz zão da obra estar localizada em área de raiz, uma vez que o equipamento para a
Parque, como ficou conhecido, forma elevada densidade demográfica e inten- execução de hélice contínua é mais alto
um complexo arquitetônico, localizado so trânsito, os engenheiros tiveram de do que a estrutura existente. Concluída
na zona Oeste de São Paulo, que ocu- optar por fazer as fundações por meio a fundação, foram colocados os pilares
pa uma área total de 93.000 m2 e inclui, do uso de hélice contínua, de maneira a pré-fabricados em concreto com altu-

DESCRITIVO
POR: ETCPL – ESCRITÓRIO TÉCNICO O projeto da Allianz Parque abrangeu, 3) Aproveitamento de estruturas exis-
CÉSAR PEREIRA LOPES
por sua particular situação, as seguintes tentes para atender a prazos de
questões: execução;
1) Preservação de aproximadamente 4) Projeto dos elementos do suporte
20% da estrutura original; da cobertura metálica.
2) Projeto dos novos elementos de ar-
quibancada;

Folha 001

14 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


1) PRESERVAÇÃO Por questões logísticas a região a ser Entretanto a estrutura existente se
mantida foi a determinada como “ferra- revelou inadequada em termos de tra-
DE APROXIMADAMENTE dura” (semicircular) próxima à avenida çado, o que resultou na necessidade de
20% DA ESTRUTURA Francisco Matarazzo, uma vez que a es- montar uma nova arquibancada por so-
ORIGINAL trutura começaria a ser montada a partir bre a existente, que teve sua demolição
da extremidade oposta. interditada, dificultando enormemente a
(Ver planta com locação na folha 001) montagem neste trecho.

Folha 002

15
ESTRUTUR A EM DESTAQUE | ALLIANZ PARQUE

ra que chegavam a 38 metros. No total, de 150.000 m3, conforme cálculo forneci- parte interna quanto na externa da edi-
foram necessários 66 eixos transver- do pela construtora WTorre. O concreto ficação, formando uma carenagem que,
sais, perfazendo um total de 670 pilares moldado in loco foi fornecido por uma além do belo efeito visual proporciona-
de concreto pré-fabricado para compor central de concreto instalada a cerca de do, também tem função de favorecer a
toda a estrutura da arena. A opção pelo dois quilômetros do local, na cabecei- ventilação natural. No caso das treliças
uso de concreto pré-moldado foi para ra da Ponte do Limão. Foram utilizados periféricas, vale destacar ainda que elas
dar maior flexibilidade e agilidade ao pro- concreto com 40 MPa e a operação de se apoiam nas principais em balanços
cesso construtivo e de montagem das transporte envolveu autobetoneiras e ancoradas nos gigantes de concreto por
estruturas. bombas-lança necessárias para executar meio de cabos protendidos. Um dos be-
O uso de estrutura de concreto pré- a concretagem. nefícios dessa estrutura metálica perfu-
-moldado não foi possível em toda a Sobre a estrutura de concreto, os ar- rada é com relação à acústica. A absorção
obra, sendo também empregado concre- quitetos e engenheiros projetaram uma do som acontece debaixo da cobertura,
to moldado no local. Considerando estru- cobertura toda feita com vigas metálicas quando ele se propaga ao passar pelos
turas pré-fabricada e concreto moldado treliçadas. O apoio para essa estrutura é vários tamanhos de buracos existentes
in loco, a obra consumiu um volume total dado por quatro vigas mestras, tanto na na fachada.

2) PROJETO DOS Os camarotes foram atirantados nas Por seu grande volume sua remoção te-
vigas da arquibancada superior por meio ria um grande impacto no prazo da obra.
NOVOS ELEMENTOS DE de duplas barras dywidag. O problema foi resolvido com a intro-
ARQUIBANCADA dução de pilares moldados no local sob a
As novas arquibancadas e seus pór- 3) APROVEITAMENTO DE projeção dos arcos aliviando problemas
ticos de sustentação foram concebidas flexionais que existiriam pela assimetria
em estrutura pré-moldada em concreto ESTRUTURAS EXISTENTES do novo carregamento.
armado e protendido. PARA ATENDER A PRAZOS Acima dos mesmos as novas arqui-
(Ver cortes típicos nas folhas 2, 3, 4 e 6) DE EXECUÇÃO bancadas foram construídas com uma
A questão das vibrações foi tratada de mistura de vigas moldadas “in loco” com
maneira análoga a empregada no projeto Outro ponto que exigiu uma solução arquibancadas premoldadas.
do Estádio Nilton Santos (antigo Estádio particular foi o aproveitamento dos arcos (Ver corte folha 001)
Olímpico João Havelange) com sucesso. do ginásio.

Folha 003

16 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


Para o fechamento da cobertura, a es- uma viga de seção circular de 78 t e me- Verticalmente, a cobertura tem 33
trutura demandou a instalação de cinco dindo 90 metros de comprimento, exi- metros entre o piso e o teto que pro-
módulos com peso de aproximadamen- giu o uso simultâneo de dois guindastes tege 100% das arquibancadas. O teto,
te 160 toneladas cada. Composto por com capacidade de 500 e 550 tonela- propriamente dito, foi construído com
peças em aço carbono, os módulos da das. Nessa fase da obra, a WTorre, res- estrutura metálica tubular e telhas
cobertura foram içados por partes e fi- ponsável pela obra, chegou a mobilizar zipadas termoacústicas de 10 cm de
xados a uma altura de 40 metros. Para 12 guindastes simultaneamente. No espessura e possui uma área total de
isso, um guindaste sobre esteira de 600 caso das peças em aço carbono, vale 23,5 mil metros quadrados de área.
toneladas, com lança treliçada e luffing destacar que elas também foram usa- Dessa extensão, 3.000 m 2 são de ma-
jib, entrou em operação no içamento das como pórticos de sustentação para terial translucido, o que permite man-
das peças mais pesadas. A maior delas, o restante da cobertura. ter e melhorar o aproveitamento da

Folha 004

Folha 006

17
ESTRUTUR A EM DESTAQUE | ALLIANZ PARQUE

4) PROJETO DOS A estrutura de sustentação da cobertu- 0,50m


X
17,00m a 10,00m
X
40,00m
ELEMENTOS DO ra metálica foi concebida utilizando-se as Espessura Largura Altura
5 caixas de escada (com 2 gigantes cada).
SUPORTE DA COBERTURA Em cada uma encontram-se 2 gigantes Estas estruturas laminares estão sub-
METÁLICA em concreto armado moldado no local metidas a esforços fletores da ordem de
com dimensões de: M = 20.000tfxm.
Em cada uma foi fixada uma treliça
metálica em balanço ancoradas por ca-
bos de protensão com capacidade para
800tf.
(Ver folhas 164 e 165)
Estes cabos foram ancorados nas ba-
ses dos gigantes e resolveram o proble-
ma da tração transmitida pelas treliças.
A partir das extremidades dessas treli-
ças foi desenvolvida a montagem da co-
bertura metálica.
Um problema constante foi a falta de
canteiro para montagem das estruturas.
Pelas fotos pode-se notar que apenas
a área do futuro gramado podia ser utili-
zada, exigindo um grande planejamento.
Folha 164

Folha 165

18 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


luz natural, reduzindo o uso de lâm- envolvidos no processo construtivo construção do edifício do estaciona-
padas. foi em relação a logística de chegada mento, além de duas mil peças empre-
Além dessa característica de melhor e saída de materiais em função do in- gadas na construção dos degraus de
aproveitamento de luz natural, o Allianz tenso trânsito na região. Além do trân- acesso ao estádio. Em razão da dificul-
Parque incluiu ainda uma série de ou- sito intenso das avenidas e ruas que dade de movimentação, a maior parte
tros atributos voltados para a susten- servem de importante ligação entre o desse material só pôde ser trazido du-
tabilidade. Sob a consultoria do CTE centro e as zonas Oeste e Norte da ca- rante a noite.
– Centro de Tecnologia de Edificações, pital paulista, um shopping center de
a edificação conta com uma gestão de grande porte Existente nas vizinhan- FICHA TÉCNICA
eficiência energética e de resíduos, com ças representou considerável circula-
Engenharia Estrutural – Estrutura de
projeto de coleta e utilização de água ção adicional de veículos, sobretudo
Concreto: E.T. Cesar Pereira Lopes S/C Ltda.
da chuva na irrigação do gramado. Os nos horários de pico.
Engenharia Estrutural – Estrutura Me-
resíduos de demolição de parte da an- Todo esse contexto interferiu na lo-
tálica: Usiminas
tiga edificação foram empregados na gística de suprimentos para a obra, so-
Projeto arquitetônico: Edo Rocha Enge-
base do estacionamento e também em bretudo em relação a chegada de mate-
nharia
outras obras da construtora. Com isso, riais de maior volume, como foi o caso
Construtora: WTorre
estima-se que a obra poupou o equiva- das peças de concreto pré-fabricado e
Início do Projeto: 2010
lente a 20 mil metros cúbicos de con- das estruturas da cobertura, transpor-
Conclusão da obra: 2014
creto e 4.000 toneladas de aço, material tadas por carreta-prancha e descarre-
Área construída: 93.284m2
suficiente para levantar um edifício de gadas por guindastes ou guindautos.
Cliente: Sociedade Esportiva Palmeiras
40 andares. Somente na estrutura da arquibancada,
Localização da Obra: São Paulo/SP
Uma dificuldade adicional da obra foram utilizadas nove mil peças desse
Finalidade do edifício: Arena multiuso
relatada pelos técnicos e engenheiros tipo, além de outras cinco mil para a
MEMÓRIAS | AS LIÇÕES DO MESTRE VASCONCELOS

MULTIDISCIPLINARIDADE
NO ENFRENTAMENTO DA
COMPLEXIDADE
REFLEXÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DA MULTIDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO DOS
PROFISSIONAIS DE ENGENHARIA, TENDO COMO FONTE DE INSPIRAÇÃO O TRABALHO DO
ENGENHEIRO AUGUSTO CARLOS DE VASCONCELOS

A
POR MONICA CAVALCANTE DE AGUIAR * reforma do pensamento, para O pensamento sistêmico pode estar
Edgard Morin1, passa pela presente sem que se perceba. Maria
substituição de “um pensa- José Esteves de Vasconcellos afirma
mento disjuntivo e redutor por que qualquer profissional que pensa
um pensamento do complexo”. O fim sistemicamente está em condições de
das certezas, que chegou com a moder- repensar as práticas em sua área de
nidade, é testemunhado por todos e a atuação3, e o que Augusto Carlos de
complexidade é um dado do presente Vasconcelos tem feito, ao longo de sua
nas mais diversas áreas do conheci- vida, é exatamente isso. Repensar as
mento. Na engenharia estrutural não é práticas e contribuir permanentemente
diferente. para o conhecimento de um modo ge-
Nesse cenário, o que teriam em co- ral e para a engenharia estrutural em
mum o engenheiro Augusto Carlos de particular. A literatura produzida por
Vasconcelos, a psicóloga Maria José Es- Augusto Carlos de Vasconcelos já nas-
teves de Vasconcellos e o filósofo Ed- ceu fortemente multidisciplinar, por es-
gard Morin? O permanente desconforto tabelecer uma relação dialógica com a
e, como consequência, a busca por res- técnica, a história e a biologia. A teoria
postas e proposições que levem seus do pensamento sistêmico direcionada à
leitores para além da comodidade e das produção científica estava ainda em de-
fórmulas consagradas, poderia servir senvolvimento quando ele começou a
como resposta a tal pergunta. Descon- escrever seus livros sobre a história do
forto a ser enfrentado por um pensa- concreto no Brasil e, posteriormente, o
mento sistêmico, aquele que além de ser livro Máquinas da Natureza 4 . A contribui-
“contextual” e “processual” é também
mento sistêmico: o novo paradigma da ciência.
“um pensamento relacional, no sentido Campinas: Papirus Editora, 2013, p. 158.
de estar necessariamente relacionado 3 VASCONCELLOS, Maria José Esteves. Pensa-
mento sistêmico: o novo paradigma da ciência.
ao sujeito/observador”. 2 Campinas: Papirus Editora, 2013, p. 24.
4 VASCONCELOS, Augusto Carlos de. Máqui-
* Professora/Engenheira Civil. Pontifícia Uni- 1 MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Ja- nas da Natureza, Um estudo da interface entre
versidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) neiro: Bertand Brasil, 2003, p. 89. Biologia e Engenharia. São Paulo: IBRACON,
com Justino Vieira 2 VASCONCELLOS, Maria José Esteves. Pensa- 2004.

20 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


ção de Vasconcelos para a engenharia é cer o todo, tanto quanto conhe- um certo isolamento do conhecimento
imensa e, por possuir esse caráter mul- cer o todo sem conhecer, particu- técnico em relação às outras áreas do
tidisciplinar, emblemática. larmente, as partes”. 5 conhecimento. A própria história da en-
O enfrentamento da complexidade O trabalho de Vasconcelos consegue genharia no Brasil, tão bem documen-
sugere uma reorganização do pensa- abordar o todo em uma área do conhe- tada e analisada por Vasconcelos, tem
mento como fio condutor capaz de cimento que cada vez mais se concentra sido negligenciada em prol da ênfase
provocar um outro olhar sobre as ques- nas partes, por isso sua fundamental técnica tão necessária aos cursos de
tões que se colocam no mun- graduação, com consequên-
do atual. Essa reorganização cias danosas para a forma-
também se aplicaria sobre a ção de jovens profissionais,

DIVULGAÇÃO
engenharia estrutural, onde que chegam ao mercado de
um objeto de análise poderia trabalho sem a compreensão
ser compreendido por seus de seu papel no processo de
múltiplos atributos, inseridos desenvolvimento histórico e
em um sistema de aglutina- social do país.
ção multidisciplinar. Atribu-
tos que se encontram nos FORMAÇÃO E
diversos campos do conheci-
mento além da própria enge- ATUAÇÃO
nharia, como a arquitetura, a Augusto Carlos de Vas-
história, a arte e a biologia, e concelos nasceu no Rio de
que a própria história do de- Janeiro em 1922 e mudou-
senvolvimento das teorias es- -se posteriormente para São
truturais confirma, com, por Paulo. Na Escola Politécnica
exemplo, o surgimento da as- da Universidade de São Pau-
sociação dos esqueletos de lo formou-se engenheiro Me-
animais ao sistema portan- cânico-Eletricista em 1946
te das edificações, sugerido e Engenheiro Civil em 1948.
por Perronet no século XVIII. Foi também professor uni-
Esse passo multidisciplinar, versitário na EPUSP, FEI, FAU
associando engenharia e bio- e EEUM. Recebeu uma bolsa
INTERESSE POR DIFERENTES ÁREAS TRADUZIDO NUM LIVRO
logia, garantiu a possibilidade da Fundação Alexander von
de abstração de um sistema Humbolt e, entre outubro de
estrutural, gerando futura- 1954 e dezembro de 1955,
mente o que seria conhecido como a importância. Seu trabalho de amplitude estudou em Munique, Alemanha, onde
estrutura independente. A engenharia multidisciplinar, serve de alerta para o preparou sua tese de doutorado com
estrutural, como entendeu Vasconce- fato de que a superespecialização das o título Modelos Armados Fotoelásticos
los, não é uma ciência isolada, ao con- profissões reforça a fragmentação de para Estudo da Aderência entre Aço e Con-
trário, está profundamente vinculada conhecimentos, a separação de discipli- creto, tendo como um dos orientadores
a outras disciplinas que vão da ciência nas e a criação de fronteiras de conhe- o Prof. Hubert Rüsch7.
dos materiais ao desenvolvimento da cimento, frente às quais não devemos Em 1956, de volta ao Brasil, Vascon-
arquitetura, passando pela ecologia, a nos acomodar. Para Morin: celos promoveu um curso livre extra-
economia e as ciências sociais, entre curricular na EPUSP, onde traduziu para
outras. Acima de tudo é uma ciência in- “A fronteira disciplinar, sua lingua- um grupo de 150 alunos de engenharia
serida em um processo histórico. gem e seus conceitos próprios as aulas de concreto protendido que ti-
Ao citar o princípio de Pascal, Morin vão isolar a disciplina em relação nha assistido em Munique, ministradas
aponta para uma reforma do pensamen- às outras e em relação aos pro- pelo Prof. Rüsch, proporcionando desta
to como resposta possível para o enfren- blemas que se sobrepõem às dis- forma a difusão de conhecimento ne-
tamento da complexidade: ciplinas”.6 cessária à implantação deste material
como possibilidade estrutural no Brasil.
“Como todas as coisas são cau- A contribuição de Vasconcelos é, por- Nas décadas de 1970 e 1980, participou
sadas e causadoras, ajudadas e tanto, de grande importância para a da elaboração de diversas normas téc-
ajudantes, mediatas e imediatas, formação acadêmica em cursos de en-
e todas são sustentadas por um genharia, principalmente em níveis de 7 Hubert Rüsch : professor emérito da Uni-
versidade de Munique, desenvolveu teorias
elo natural e imperceptível, que graduação, em função da existência de para a aplicação do concreto protendido,
liga as mais distantes e as mais material que mais tarde seria largamente
5 MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Ja- utilizado nos projetos estruturais que viabi-
diferentes, considero impossível neiro: Bertand Brasil, 2003, p. 88. lizariam várias obras da Arquitetura Moder-
conhecer as partes sem conhe- 6 Ibidem, p. 106. na Brasileira.

21
MEMÓRIAS | AS LIÇÕES DO MESTRE VASCONCELOS

nicas no Brasil (ABNT), Esta-

A AUTORA
dos Unidos (ACI) e Europa
(FIP). Escreveu O Concreto
no Brasil 8 e Máquinas da Na-
tureza9 .
Engenheiro, professor e es-
critor, com uma participação
reconhecida na história da
engenharia de estruturas no
Brasil, Augusto Carlos de Vas-
concelos, testemunhou não
só o desenvolvimento tecno-
lógico da engenharia como
também a implantação e de-
senvolvimento da Arquitetura
Moderna no Brasil, principal-
mente nas décadas de 1930
a 1970. Arquitetura que foi
objeto de reconhecimento in-
ternacional, pela atuação de FIGURA 1: AUGUSTO CARLOS DE VASCONCELOS EM SEU ESCRITÓRIO, EM 04/10/2016.
arquitetos e engenheiros es-
truturais, como Vasconcelos,
que enfrentaram os desafios impostos arquitetos como Vilanova Artigas, atuan- em uma das paredes, além de retratos
pela modernidade. do em projetos como a casa do arquiteto da família e objetos pessoais.
O trabalho que une a engenharia es- e a rodoviária de Londrina, Vasconcelos O professor Vasconcelos, como é cha-
trutural e a arquitetura na elaboração de pode nos contar sobre uma dinâmica de mado pelos que com ele convivem, mos-
projetos é um tema de particular interes- relações que não constam da literatura, tra-se bastante formal, cerimonioso, e,
se aqui, por se tratar de uma prática mul- nem do registro destes projetos, onde com uma gentileza comovente, inicia
tidisciplinar que agrega conhecimentos de acabam sendo arquivados apenas os nossa conversa com a singela pergun-
fontes diversas e faz parte da realidade de desenhos finais de execução. ta: “O que posso fazer para te ajudar”?
muitos profissionais da construção civil. O relato destas vivências, os detalhes Singela porque, aos 94 anos, esta seria
Nesse sentido, Vasconcelos tem muitas das relações entre engenheiros e ar- apenas mais uma das centenas de con-
lições a nos dar. Lições que surgem em quitetos e os aspectos relacionados às versas que deve ter tido com engenhei-
uma simples conversa, focada no tema dinâmicas de desenvolvimento de proje- ros e arquitetos, sobre os mais variados
da interação entre engenharia estrutural tos, são o que nos interessa aqui. Qual temas, em função de sua biografia tão
e arquitetura, área em que atuou com a importância da relação entre Vascon- relevante e extensa.
brilhantismo ao longo de várias décadas. celos e Artigas, especificamente para o Inicialmente o tema gira em torno de
Conversa que tive a honra e o privilégio desenvolvimento e solução dos projetos seus estudos atuais, que se concen-
de ter com ele, em sua casa. em que atuaram conjuntamente? Como tram em obras antigas, do período da
foram as conversas definidoras dos pa- Renascença, confirmando seu interesse
CONVERSA COM O râmetros que conduziram às melhores histórico, dessa vez focado no desenvol-
soluções? Quais os conflitos soluciona- vimento da engenharia e da arquitetura
ENGENHEIRO AUGUSTO dos, ou não solucionados? da igreja Santa Maria del Fiori, em Flo-
CARLOS DE VASCONCELOS A conversa10 com Augusto Carlos de rença, construída em 1426. Vasconce-
Vasconcelos foi realizada em sua resi- los pretende escrever um artigo sobre
Através de trabalhos elaborados ao dência, no dia 04 de outubro de 2016, os conceitos estruturais intuitivos de
longo de décadas, em colaboração com no cômodo destinado ao seu escritório arquitetos daquela época, Brunelleschi
particular, onde estuda e trabalha diaria- principalmente, uma vez que as teorias
8 VASCONCELOS, Augusto Carlos de. mente (Figura 1). relacionadas à resistência dos materiais
Volume I: O Concreto no Brasil: Recordes – Rea-
lizações – História. São Paulo: PINI, 1992.
Ao entrar em seu escritório, imedia- ainda não haviam sido elaboradas e,
Volume II: O Concreto no Brasil: Professores – tamente meu olhar se desvia para o consequentemente, não haveria com-
Cientistas – Técnicos. São Paulo: PINI, 1992.
computador sobre sua mesa, bem como provação científica possível do compor-
Volume III: O Concreto no Brasil: Pré-fabrica-
ção – Monumentos – Fundações. São Paulo: para os livros espalhados pelas estan- tamento das estruturas propostas para
Studio Nobel, 2002. tes, muitos deles de sua autoria, seu di- os projetos de arquitetura. Desta forma,
Volume IV: O Concreto no Brasil: Obras Espe-
ciais – Contos Concretos. São Paulo: IBRA- ploma de doutorado, preso emoldurado os projetos e processos construtivos se-
CON, 2011. riam baseados em repetição de suces-
9 VASCONCELOS, Augusto Carlos de. Máquinas 10 Foi mantido o tom coloquial da conversa,
da Natureza, Um estudo da interface entre Bio- com a intenção de reproduzir o mais fiel-
sos e experimentações em modelagem
logia e Engenharia. São Paulo: IBRACON, 2004. mente possível o conteúdo. reduzida.

22 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


Naquela época não existia resis- dois pilares em “V” para sustentar a mar- O prédio da FAU-USP quem fez
tência dos materiais, não existia o quise e ele gostou muito. Gostou muito e foi Figueiredo Ferraz. O cálculo
concreto armado, não existia nem executou a marquise. era para ser dado para nós. O Ar-
teoria de resistência. Galileu não Em um relato que mostra uma intera- tigas só dava cálculos para nós.
tinha publicado ainda a obra dele ção entre engenheiro e arquiteto, que Mas o Figueiredo Ferraz fez tanta
que tratava do início da resistência confirma a retroalimentação de informa- pressão que pegou o MASP com
dos materiais. De modo que o in- ções como fonte para a concepção arqui- a Lina e depois a FAU-USP, que
divíduo só podia intuir. Então não tetônica, Vasconcelos nos conta: veio logo em seguida ao MASP.
existia nenhum processo que se Então eu perdi a chance.... (risos)
possa dizer processo tecnológico. acontece...
Não existia a tecnologia ainda. Não Eu trabalhei com o Paulo Mendes
existia a figura do engenheiro e do da Rocha também, mas foi muito


arquiteto. Era uma pessoa só. pouco. Eu fiz umas três obras com
ele só.
Em seguida continuamos a conversa Com o Paulo Mendes da Rocha
onde o tema passa a ser a Arquitetura Os conhecimentos não tinha muito intercâmbio não.
Moderna, sua implantação no Brasil, no Eu tinha muito relacionamento era
Rio de Janeiro e posteriormente em São da arte, da com o Artigas e com outros arqui-
Paulo. Como Vasconcelos atuou, e ainda
atua profissionalmente em São Paulo, o
arquitetura e tetos. Com o Rino Levi tinha muito
contato também. Com o Jacques
assunto é logo direcionado para Vilanova principalmente Pilon... lembra do Jacques Pilon?
Artigas, com quem ele trabalhou: Era um francês que tinha escri-
da história tório de arquitetura aqui em São
O Artigas marcou época aqui. Isso Paulo. Era famoso aqui. Eu tive al-
eu posso dizer porque eu tive na enriquecem guns contatos com ele.
carne essa experiência. Quando
eu me formei, o Artigas me convi-
a prática da Confirmando a importância de Emílio
dou para calcular algumas coisas engenharia Baumgart para a engenharia no Brasil,


que ele tinha projetado. Então eu Vasconcelos nos conta do intercâmbio
ia no escritório dele, fazia lá alguns entre os engenheiros brasileiros e ale-
cálculos e mostrava para ele, in mães para o desenvolvimento de tec-
loco, na hora, o que é que eu tinha nologias relacionadas à engenharia de
achado. estruturas, que, através de novidades
para a época, como a protensão, possibi-
Ao relatar esta experiência, Vascon- litaram a viabilidade de futuros projetos
celos indica uma relação de atuação No fim, na estação rodoviária de da arquitetura moderna, principalmente
conjunta, onde o engenheiro fornece ao Londrina ele usou uma série de os da escola brutalista.
arquiteto as bases para o prosseguimen- cascas abobadadas e terminou
to de seu trabalho, em uma espécie de a última com um pilar vertical. Aí O projeto para a ponte sobre o
consultoria ainda na fase de concepção eu disse não, olhe, a última, você Rio do Peixe, do Baumgart, teve
arquitetônica. quer colocar vertical? Vertical não uma repercussão internacional.
funciona bem. Coloque a última Na Alemanha foi um sucesso. Eles
Ele ficou muito contente com isso, e quando chegar no final, conti- mostraram que os brasileiros con-
de modo que eu fiz uma porção de nue na tangente e faça um pilar seguiam construir em concreto ar-
obras em Londrina. O cinema de oblíquo. Ele fez e ficou muito es- mado pontes com balanços suces-
Londrina foi feito assim, a estação pantado de dar certo. Ele fez não sivos. Aí surgiu o termo balanços
rodoviária de Londrina também, acreditando muito que ia dar cer- sucessivos. Então, essa ideia foi
que marcou época... a rodoviária to. Fez, fotografou e me mandou do Baumgart, enquanto ainda não
tem uma marquise muito grande, a fotografia com uma dedicatória: existia a protensão. As pontes pro-
que faz um zigzag, então dá um as- ‘Vasconcelos, foi executado e não tendidas começaram com a ideia
pecto estético diferente das mar- caiu....’ (risos). do Baumgart, aplicadas na Alema-
quises usuais. Vasconcelos continua seu relato nha. O Baumgart revolucionou a
sobre a época: Alemanha toda com essa ideia do
Eu ia lá no escritório dele e ele mostra- Com o Artigas eu fiz várias coisas... balanço sucessivo, que teve uma
va o que tinha feito e perguntava pra mim: a casa dele fui eu que fiz também. repercussão fantástica. Daí para a
“Como é que e posso fazer isso? Como é Não tinha concreto protendido lá. frente começaram a surgir as pa-
que eu posso colocar essa marquise em Fui eu que projetei. Eu até tenho os tentes. O protendido realmente
funcionamento?”. Então eu sugeri colocar desenhos comigo ainda. deslanchou quando a Alemanha

23
MEMÓRIAS | AS LIÇÕES DO MESTRE VASCONCELOS

precisou renovar as pontes des- FAU. Então eu fiquei na FAU e na vai funcionar brandamente, nor-
truídas pela guerra. politécnica simultaneamente. malmente, facilmente, sem ques-
De fato, como tecnologia de concreto, tões difíceis de se conceber. Então
foi o aparecimento da protensão que Atualmente, em revisões curriculares se você já traça o caminho que as
permitiu aos arquitetos, em conjunto e congressos, é muito discutida a abor- forças vão seguir, já é meio cami-
com engenheiros de estruturas, proje- dagem do ensino de estruturas para os nho andado. Isso facilita muito.
tarem vãos de grande amplitude, onde cursos de arquitetura, uma vez que se
a apropriação estrutural como lingua- trata de área de conhecimento da en- Vasconcelos também conviveu com
gem arquitetônica é evidente. Artigas no genharia que está em permanente in- Roberto Zuccolo, engenheiro e professor
projeto da FAU-USP e Lina Bo Bardi no terface com a arquitetura. Discute-se a de todos os arquitetos modernos saídos
projeto do MASP, trabalhando com o en- pertinência de uma abordagem diferen- da Universidade Mackenzie, entre eles
genheiro Figueiredo Ferraz, e Niemeyer ciada, procurando-se entender o que é Paulo Mendes da Rocha, e nos conta:
no projeto do MAC, trabalhando com o realmente necessário ser ensinado, uma
engenheiro Bruno Contarini, por exem- vez que arquitetos e engenheiros tra- O Zuccolo dava aula no Macken-
plo, são apenas algumas das inúmeras balharão em conjunto, cada um na sua zie. Ele dava aula para o curso de
parcerias a serem registradas. área de conhecimento. Nesta atuação, arquitetura e morava na mesma
Uma outra questão a ser colocada so- porém, precisarão dialogar, implicando pensão que eu. Nós tínhamos mui-
bre a relação entre engenharia e arquite- aí o conhecimento de arquitetura pe- to contato porque a gente estava
tura, é o sistema de ensino nas universi- los engenheiros e de estrutura pelos sempre junto na pensão na hora
dades. O ensino de estruturas nos cursos arquitetos, o que traz para o âmbito do do almoço e tudo. A gente conver-
de arquitetura é uma questão em perma- ensino o desafio de promover essa com- sava muito.
nente discussão e Vasconcelos tem um preensão. Apesar de ser uma questão Ele foi o primeiro a realizar proten-
testemunho a nos dar: ainda sem respostas, Vasconcelos tem são aqui no Brasil, sendo repre-
sua colaboração a nos dar: sentante da patente do Freyssinet,
Na politécnica não existia curso de pela STUP, Serviços Tecnológicos
arquitetura. Existia o engenheiro Olha, o pessoal se queixava que o de Utilização de Protendidos, e ele
arquiteto, o engenheiro civil, o en- Telêmaco dava aulas iguais. Eu dava representou então o contato dos
genheiro mecânico, o engenheiro diferente, procurando focar os alu- franceses com os brasileiros na
elétrico, eletrotécnico, mas não nos nas coisas que eles realmente difusão da patente Freyssinet. E
existia arquitetura. Quando fun- usavam. Tirando aquelas cascas, todas as obras que ele fazia eram
daram a faculdade de arquitetura tirando pórticos, que eram estru- com a STUP.
desapareceu o curso dos enge- turas mais complicadas, eu dava
nheiros arquitetos na politécnica. aquilo que os alunos iam realmente Sobre o que seria a maior virtude de
Ficou só arquitetura mesmo. A precisar. Mas o Telêmaco, ele dava um engenheiro estrutural Vasconcelos
FAU surgiu depois de 1950. Não o mesmo curso e o pessoal critica- nos diz:
me lembro exatamente a data. va muito viu? Mas os exercícios que
Isso fez muita diferença. Até as eu dava eram todos focados para a A maior virtude é ele saber transfor-
ideias dos alunos, dos profes- área de arquitetura. mar a ideia do arquiteto em algo que
sores, eram outras. Os próprios Eu tenho sempre discutido com seja estruturalmente vantajoso.
alunos eram ensinados de forma os arquitetos assim: vocês preci-
diferente. Eles até criticavam que sam intuir como é que a estrutu- E sobre o que teria sido seu projeto
o Telêmaco11 tinha sido convidado ra está funcionando para projetar mais difícil:
para dar a cadeira de resistência coisas que tenham sentido. Se
dos materiais. Eu fui assistente do vocês imaginam que isso é função A obra mais difícil que eu calculei
Telêmaco na arquitetura também. do engenheiro vocês estão proje- foi o “cirquinho”, para o campus da
Durante todo o tempo que dei au- tando coisas que não servem para Politécnica da USP. Quando a USP
las para a Poli dei para a arquitetu- o engenheiro. Em vez de projetar foi para aquele terreno eu fiz vários
ra também. Na Poli eu entrei como uma coisa que tem já um sentido projetos ali, mas o cirquinho foi o
professor de cálculo diferencial estrutural bem definido e pré-con- mais difícil. O cirquinho é um anfi-
e integral, cálculo vetorial, no se- cebido vocês estão projetando teatro que tem um pilar no centro
tor de matemática. Depois de três para o engenheiro pensar qual a e tem 42 metros de diâmetro, com
anos eu passei para resistência dos estrutura que suportará isso. Não um balanço grande, que tinha de
materiais, e quando estava dando é o caminho certo. O certo seria a ser obtido por vigas que saíssem do
resistência dos materiais me convi- pessoa ter uma noção de como é centro do pilar e fizessem uma cur-
daram pra fazer a mesma coisa na que aquelas cargas vêm lá de cima, va. Então essas vigas, para funcio-
caminham pela estrutura toda e narem, tinham de ter um anel em
11 Telêmaco van Langendonck, professor da fa-
culdade de engenharia da Escola Politécnica chegam até as fundações. Se você cima que apertassem essas vigas e
da USP. escolher o caminho correto, tudo não deixassem essas vigas caírem.

24 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


A AUTORA
FIGURA 2: AUGUSTO CARLOS DE VASCONCELOS E MONICA AGUIAR EM 04/10/2016.

Essa viga circular, esse anel, era tudo e só tirar o cimbramento de- e transfere para o andar de baixo.
um tirante de concreto que tinha pois de tudo pronto? Como é que Até aí não tem nenhuma novidade.
uma tração imensa, de centenas ia ser aquilo? Mas o que tinha de extraordinário é
de toneladas...Como realizar uma Outra preocupação dele era sobre a o seguinte, quando foi feita a obra,
peça com tanta tração assim, a entrada das pessoas que acontecia eles pararam esses paraboloides
ponto de segurar 48 tirantes que por um único lado. Primeiro o audi- hiperbólicos num certo ponto e isso
eram aquelas nervuras que faziam tório enchia de um lado só, para só foi uma tragédia. A obra estava toda
parte do piso do anfiteatro? Ainda então as pessoas se distribuírem. pronta e aquela ligação ficou para
tinha a cobertura que se apoiava Então ficava uma carga excêntrica depois e deu problemas, com defor-
em pilaretes que nasciam no pavi- e ele ficou muito preocupado com mações maiores que foram muito
mento em balanço... isso. De uma certa forma ele intuía difíceis de igualar.
O anel foi feito com protensão em que isso seria um problema.
segmentos. Eram pequenos cabos Na inauguração o prefeito foi lá e A conversa continuou ainda por mais
que começavam em baixo subiam me perguntou sobre a estrutura e algumas horas, com a recordação de
e depois desciam, com duas curva- também perguntou isso.... projetos diversos, as discussões pedagó-
turas. Era bastante complicado. O Outra obra importante que e calcu- gicas sobre métodos de ensino, passan-
Hélio Duarte, que foi o gerente da lei lá foi o prédio da engenharia civil. do pelo trabalho de Joaquim Cardozo e a
obra e arquiteto da cidade univer- Esse prédio também tem peças pro- construção de Brasília e as novas tecno-
sitária me perguntava como eu po- tendidas mas não é uma protensão logias aplicadas ao cálculo e dimensiona-
dia projetar aquilo? Como eu podia geral, de tudo, é só na cobertura. E mento de estruturas.
deixar aquilo em baixo vazio? na cobertura tem uma coisa muito A lição que fica após uma privilegiada
Ele pediu para acompanha-lo du- estranha. A cobertura não é plana. conversa com Vasconcelos é de que a
rante a execução do projeto. Quan- É formada por cascas fininhas, de 7 compartimentação intelectual nos isola
do ele tinha o projeto imaginado, cm, em forma de paraboloide hiper- como pessoas e também como profissio-
em mente, eu estive com ele várias bólico. Sai de um pilar e tem 4 faixas nais. O conhecimento da arte, da arqui-
horas discutindo como é que seria quadradas, formando um quadrado tetura e principalmente da história enri-
a estrutura. Discutimos sobre a es- de 15x15 metros. Um quadrado não quecem a prática da engenharia, como já
trutura, sobre as dimensões, sobre cola no outro. Só encosta. Estão li- demonstrado em seu extenso trabalho.
o processo de construção, ele que- gados fisicamente, mas trabalham Trabalho que deveria ser adotado como
ria saber como é que aquilo ia po- separados. Então cada quadrado leitura obrigatória em todos os cursos de
der ser feito. Ia precisar concretar desse recebe a carga da cobertura engenharia civil do Brasil.

25
ESTRUTUR AS ME TÁLICAS | BIM AGILIZOU O PROCESSO

TECNOLOGIA USADA
DO INÍCIO AO FIM
A INTEGRAÇÃO ENTRE AS EQUIPES ENVOLVIDAS NO PROJETO E CONSTRUÇÃO DA
COBERTURA DA PISTA DE SKATE FOI DECISIVA PARA A CONCLUSÃO DA OBRA, QUE CONTOU
TAMBÉM COM O USO INTENSO DA PLATAFORMA BIM, ALÉM DOS MAIS MODERNOS SOFTWARES

POR CASAGRANDE ENGENHARIA


1 – INTRODUÇÃO
A cúpula do Half Pipe é uma estrutura
que faz parte da obra de expansão do
Parque Madureira, Zona Norte do Rio
de Janeiro, que possui uma arquitetura
elipsoidal não plana elaborada pelo es-
critório do arquiteto Ruy Rezende. Ini-
cialmente a solução estrutural proposta
para cobrir a pista de skate foi desen-
volvida em concreto armado moldado in
loco que teria sua espessura variando de
2 metros próximo as bases a apenas 40
centímetros na região do meio do vão,
utilizando Concreto de Alta Resistência
e protensões devido sua considerável
esbeltez. Após algumas reuniões e estu-
dos onde foi debatido principalmente a
metodologia construtiva, decidiu-se por
modificar a concepção estrutural para
estrutura metálica.
As razões destas mudanças estrutu-
rais foram motivadas principalmente
devido ao prazo restrito estabelecido
para a conclusão da obra e as conside-
rações do engenhoso sistema de cim-
bramento necessário em uma estrutura
de concreto armado deste porte e geo-
metria. A escolha por estrutura metálica
evitou quase que por completo o uso de
FIG. 1 – ESTRUTURA DO HALF PIPE escoramentos e representou um ganho

26 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


crucial no cronograma, evitando com-
prometimento de prazo.
Um dos fatores que levaram ao su-
cesso deste projeto se deve pelo uso
da metodologia BIM onde o fluxo de in-
formações estava totalmente integrado
entre todos os envolvidos na obra, a Ca-
sagrande Engenharia responsável pelo
projeto estrutural, a Dagnese responsá-
vel pela fabricação da estrutura metálica
e a Dimensional, construtora responsá-
vel pela execução da obra.

2 – DESCRIÇÃO
DA ESTRUTURA E
PREMISSAS
A Cúpula consiste de uma estrutura
metálica, composta por dois arcos re-
FIG. 2 – PLANTA DE COBERTURA – VISTA SUPERIOR
versos ligados e contraventados entre
si através de duas treliças planas e por
um sistema de joists. Os quatro arcos
estão apoiados sob placas de base
chumbadas em blocos de concreto que
por sua vez estão ligados por uma laje
protendida, formando assim o radier de
fundação. A necessidade dessa concep-
ção estrutural de fundação se deu devi-
do às reações geradas, principalmente
horizontais, pelo “efeito de arco” das
quatro treliças principais (Treliças 1,2,3
e 4 na Figura 2).
Os 24 cabos de protensão foram di-
mensionados e detalhados ligando o
que seriam duas sapatas independen-
tes, tendo como resultado final um ra-
dier de 2 metros de espessura em suas
extremidades que variava até 80 cm de
espessura ligando as duas grandes sa-
patas, ganhando a fundação um forma- FIG. 3 – PLANTA DE FUNDAÇÃO – VISTA SUPERIOR
to de H quando vista de cima, conforme
a Figura 3.
A participação da equipe de geotec-
nia foi de enorme importância para a
validação da solução de fundação e
certificação de que a mesma atendesse
a todas as especificações das normas
vigentes.
A estrutura possui 75 metros de com-
primento, 52 metros de largura e se
destaca por possuir dois grandes ba-
lanços de 20 metros em suas laterais. FIG. 4 –CORTE DE FUNDAÇÃO – VISTA SUPERIOR
As treliças que compõem esse projeto
são detalhadas com perfis soldados
para os banzos e perfis do tipo “U” para • PS 350x154; • U 300x100x9,5;
as diagonais. • PS 350x227; • U 300x100x12,5.
• PS 340x101; • U 300x80x6; Os carregamentos considerados estão
• PS 350x147; • U 300x100x8; apresentados a seguir:

27
ESTRUTUR AS ME TÁLICAS | BIM AGILIZOU O PROCESSO

FIG. 5 – ESTRUTURA EM ESCALA 1/100 NO TÚNEL DO VENTO (UFRGS)

CARREGAMENTO CONSIDERAÇÕES ra das isopletas da velocidade básica do


vento indicada na NBR-6123.
PESO PRÓPRIO – Após o ensaio pode-se extrair os resul-
210 KGF/M – SOB BANZOS SUPERIORES tados apresentados na Figura 6 que fo-
CARGA PERMANENTE
DOS JO IST ram de suma importância para o desen-
volvimento e segurança do projeto.
53 KGF/M – SOB BANZOS SUPERIORES
SOBRECARGA NORMATIVA NBR 8800
DOS JOIST

42 KGF/M – SOB BANZOS SUPERIORES 3 – METODOLOGIA DE


SOBRECARGA DE INSTALAÇÕES DOS JOIST/ 27 KGF/M DESENVOLVIMENTO DO
– SOB AS PLATIBANDAS
PROJETO
TEMPERATURA ±15 0C EM TODA A ESTRUTURA Como já citado, utilizou-se a metodologia
AÇÕES DEVIDAS AO VENTO NBR 6123 (DETALHADAS A SEGUIR) BIM em todas as etapas do projeto a fim de
otimizar os processos e assegurar a esco-
lha pelas melhores soluções e evitar pro-
A cobertura em estrutura metálica no Túnel do Vento (UFRGS), no túnel blemas de incompatibilidades. A essência
trouxe benefícios principalmente na me- de vento da UFRGS. O processo teve o do BIM está na forma como é feita a troca
todologia construtiva, porém novos de- acompanhamento da consultoria Vento- de informações durante a formulação do
safios surgiram no desenvolvimento do -S também de Porto Alegre (RS). As forças projeto, que não se limita em apresentar
projeto. A primeira grande preocupação adotadas foram calculadas a partir de um de uma maneira linear.
estava atrelada a significativa redução do vento de 35,5 m/s de acordo com a figu- O objetivo é permitir que todos os
peso próprio da estrutura e o seu com- dados do projeto este-
portamento quando submetida a forças jam sendo coletados e
decorrentes de ventos considerando a armazenados em um
grande área de atuação. ambiente colaborativo
Devido à geometria e ao baixo peso da entre todos os envolvi-
estrutura fora elaborado um estudo aero- dos no trabalho. Neste
dinâmico em parceria com a Universidade projeto isto aconteceu
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) devido à estreita relação
para avaliar os possíveis efeitos de sucção que fora estabelecida
e sobrepressão ocasionados pelo vento. entre a Casagrande En-
O ensaio aerodinâmico se deu a partir genharia, Dagnese En-
de uma representação fiel da estrutura e genharia, Ruy Rezende
sua vizinhança em escala 1/100, confor- Arquitetura e a constru-
FIG. 6 – RESULTADO DA ANÁLISE AERODINÂMICA
me Figura 5 – Estrutura em escala 1/100 tora Dimensional.

28 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


O processo se iniciou com truturais. É válido ressaltar ainda que
a elaboração de um modelo ambos os softwares são de desenvol-
parametrizado no Revit pelo vedores distintos, mas ainda assim não
escritório de arquitetura do apresentaram dificuldade na troca de
Ruy Rezende. A partir desse informações.
modelo e após a definição da Quando aprovada a solução estrutu-
geometria da estrutura, a Ca- ral pode-se extrair de forma muito rápi-
sagrande Engenharia come- da todas as pranchas do projeto, já que
çou os estudos para o lança- após o dimensionamento no SAP 2000, a
mento da estrutura. estrutura fora lançada no Revit Structure.
A partir do modelo do Re- Importante ressaltar que o impacto
vit elaborado pela arquitetu- dos change orders deste projeto foi muito
ra pode-se compatibilizar os baixo devido a metodologia empregada.
dados através de arquivos As figuras 7 e 8 são dos modelos de
com extensão DXF e IFC para arquitetura e de estrutura extraídas
assim utilizar o software SAP dos softwares Revit e SAP 2000 respec-
2000 (CSI) nos cálculos es- tivamente.

FIG. 7 – PERSPECTIVA – MODELO RRA – REVIT

FIG. 8 – PERSPECTIVA – MODELO CASAGRANDE – SAP2000

29
ESTRUTUR AS ME TÁLICAS | BIM AGILIZOU O PROCESSO

FIG. 9 – FASES DE CONCRETAGEM (PARTE 01/02) FIG. 10 – FASES DE CONCRETAGEM (PARTE 02/02)

4 – METODOLOGIA DE
DESENVOLVIMENTO DA OBRAS
No âmbito executivo, a obra foi iniciada a
partir da execução da fundação com a fabrica-
ção das peças metálicas em paralelo. A meto-
dologia construtiva implementada para funda-
ção foi concretar o radier de forma intercalada
e nivelada com 18 etapas de concretagem,
conforme apresentado nas Figuras 9 e 10.
Esta metodologia foi pensada devido ao
tamanho dos elementos de fundação e pelo
fato de ser uma fundação protendida. Veja
Figura 11.
FIG. 11 – ESTRUTURA PRÓXIMO A SUA FINALIZAÇÃO (FONTE: RRA, FOTO POR BERNARDO VILLAR)
Após a conclusão das fundações foram exe-
cutadas as placas de base que sustentam as
treliças, fazendo a interface com a estrutura
de concreto. Chumbadores de ancoragem
conferem a segurança das robustas placas de
64mm de espessura de aço que é soldada ao
perfil de lançamento das treliças. É fundamen-
tal entender neste ponto o nível de precisão
exigido ao se trabalhar com estes tipos de
estrutura. As folgas previstas em projeto são
de apenas 2 mm nos furos das placas de base
conforme apresentado na Figura 12, isso exi-
ge, nas etapas de concretagem dos ancorado-
res, uma precisão milimétrica também, assim
como em todas as demais etapas que deram
continuidade à execução das treliças até os
seus encontros.
A estrutura metálica da cobertura do Half
Pipe possui no total 207.850,50 kgf e sua parte
em concreto aproximadamente 3.300 m³.
Após a execução dos elementos de funda-
ção se partiu para a montagem da estrutura
metálica. Inicialmente as terças foram fixadas
nas bases, como “arranques” para posterior FIG. 12 – PLACA DE BASE – TIPO I
montagem de toda a estrutura seguindo a se-
quência construtiva definida pela Casagrande
Engenharia em parceria com a fabricante e a
construtora. Figura 13.

5 – REFERÊNCIAS
http://www.dimensionalengenharia.com/ex-
pansao-do-parque-madureira/
http://site.abece.com.br/index.php/ultimas-
-noticias-2/3182-vencedores-do-premio-ta-
lento-engenharia-estrutural-2017
http://rra-noticias.tumblr.com/post/1464
15486286/amplia%C3%A7%C3%A3o-do-par-
que-madureira-estrutura-do-half FIG. 13 – ARRANQUE INICIAL CONSTRUTIVO

30 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


31
CASE INTERNACIONAL | ESTRUTUR A DE CONCRETO EM EDIFÍCIOS ALTOS

AS DIFICULDADES DE
PROJETAR O PRÉDIO
MAIS ALTO DO MÉXICO
CARGAS DE GRAVIDADE VERTICAL, GRANDES VENTOS HORIZONTAIS E PREOCUPAÇÃO
COM DEFLEXÃO SOB AS CARGAS SÍSMICAS FORAM ALGUNS DOS DESAFIOS
VENCIDOS NA ELABORAÇÃO DO PROJETO ESTRUTURAL DA TORRE KOI, EDIFÍCIO DE
CONCRETO MAIS ALTO DO MÉXICO

POR ROBERTO STARK E CHRISTOPHER CRILLY RESUMO


A crescente expansão urbana nas maiores áreas metropolitanas do México está
começando a ter um impacto negativo na forma com que as pessoas trabalham e
vivem. O desejo de estar mais perto do trabalho e das amenidades públicas resulta
da necessidade de construções mais altas em centros urbanos. Muitas cidades no
México estão vendo um aumento no número de edifícios altos, inclusive Monterrey, a
segunda maior cidade do país, em termos econômicos. A Torre Koi, um arranha-céu de
uso misto em Monterrey, com seus 279,5 metros de altura, se tornou o edifício mais
alto do México, é um exemplo recente dessa tendência.
Até um terremoto de pequena intensidade ter sido sentido em 2013, Monterrey era
ROBERTO STARK considerada como uma região livre de abalos sísmicos. O código local de construção
em Monterrey não cobre o projeto de estruturas resistentes a terremotos, sem falar
do projeto sísmico de edifícios altos. A equipe de projeto consultou o Manual de Diseño
de Obras Civiles (Manual da Comissão Federal de Eletricidade - CFE) com relação aos
procedimentos relativos aos projetos de prevenção contra abalos sísmicos como uma
maneira prudente de abordar terremotos em potencial. Foi realizado um estudo com
o uso de um túnel de vento para o projeto do edifício. Este artigo vai abordar os proce-
dimentos do projeto empregado no sistema estrutural virtual do núcleo de concreto
de alta resistência utilizado no edifício mais alto do México.
Palavras-chave: Edifícios Altos; Projeto em Túnel de Vento; Sistema Estrutural de Estabili-
zação Virtual; Concreto de Alta Resistência.
CHRISTOPHER CRILLY

1 – INTRODUÇÃO fraestrutura condensados em uma área


À medida que as áreas urbanas ficam menor. O desejo de minimizar o uso de
cada vez mais superlotadas, aumenta automóveis nas cidades para reduzir a
a necessidade de edifícios altos devido poluição e as horas de atividade impro-
ao custo dos terrenos e à necessidade dutiva também está desencadeando a
de manter os serviços públicos e a in- construção vertical. Os Estados Unidos

32 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


foram o primeiro país a iniciar esse mo-
vimento, principalmente em Nova York
e Chicago, durante fins do século 19 e
início do século 20. Recentemente, ou-
tros países como Brasil, Coreia, Japão e
China estão adotando essa tendência
enquanto que construções de edifícios
altos em países como Emirados Árabes
Unidos e Arábia Saudita desejam criar
pontos de referência. No México, a cres-
cente expansão urbana em muitas cida-
des grandes está resultando em longos
deslocamentos de pessoas e na falta de
serviços e infraestrutura nas proximi-
dades. A recessão de 2009, combinada
com a crescente expansão dos centros
urbanos resultou em uma tendência da
construção de edifícios cada vez mais
altos e mais perto dos centros urbanos,
onde os residentes possam estar perto
de empregos e serviços. Um exemplo re-
cente é o da Torre Koi, localizada em Valle
Oriente, uma área exclusiva de San Pedro
Garza Garcia, Nuevo Leon.

2 – DESCRIÇÃO DO EDIFÍCIO
Com 279,5 metros de altura, a torre de
uso misto de 69 andares, e peça central do
complexo VAO, é o edifício mais alto do Mé-
xico e o terceiro mais alto edifício na Amé-
rica Latina. A construção foi terminada em
fins de 2016. A Torre Koi tem nove níveis
abaixo do solo para estacionamento, um
saguão no térreo, vinte níveis de espaço
para escritórios, quinze primeiros anda-
res acima do solo e cinco no alto da torre,
trinta e seis níveis de espaço residencial FIG. 1 – VISÃO GERAL DA TORRE KOI
(218 apartamentos e 18 coberturas), dois
andares onde ficam as máquinas dos ele-
vadores nos níveis 21 e 62, e um nível de com a manutenção de ventos laterais e para adequar-se aos níveis adjacentes de
amenidades com uma piscina no nível 22. deflexão sob as cargas sísmicas, acelera- garagem nas fases construídas anterior-
Os pés direitos são tipicamente de 2,85 ção horizontal do edifício devido ao ven- mente do complexo VAO e para fazer um
metros nos níveis do estacionamento, 4,2 to e encurtamento diferencial vertical de uso eficiente de materiais dispendiosos,
metros nos níveis inferiores de escritórios, colunas e paredes resultante do desgaste relativos ao custo de mão de obra. A laje
e 4.0 metros nos níveis residenciais. A foto e da contração que dependem do tempo. continua tem 7 centímetros de espessura
mais recente é mostrada na Figura 1. com vigas que têm uma profundidade to-
3.1 – Sistema Resistente à tal de 30 centímetros. As vigas típicas têm
3 – DESCRIÇÃO DO SISTEMA Força da Gravidade 15 centímetros de largura e são espaça-
O enquadramento da torre é tipica- das a 1,53m no centro. As barras com 80
ESTRUTURAL mente formado por lajes de placa de centímetros de largura estão localizadas
O sistema estrutural da Torre Koi cor- concreto moldado no próprio local da ao longo das linhas da coluna principal.
responde à forma arquitetônica da torre obra e pós-tensionado de 25 centímetros A resistência da laje do piso de concreto
atendendo, ao mesmo tempo, às exigên- com placas de 10 centímetros de espes- varia desde 50 MPa nos níveis inferiores
cias do projeto estrutural de um edifício sura entre colunas nos vãos maiores. O a 35 MPa nos níveis superiores para evi-
alto tais como cargas de gravidade verti- enquadramento do piso da garagem é tar a necessidade de despejar concreto
cal, grandes ventos horizontais e forças tipicamente de laje de waffle de concre- ao redor das paredes e colunas de alta
sísmicas; bem como as preocupações to moldada no local e pós-tensionada resistência. As lajes do piso são apoiadas

33
CASE INTERNACIONAL | ESTRUTUR A DE CONCRETO EM EDIFÍCIOS ALTOS

em colunas de concreto reforçado com


aço dúctil, cujos tamanhos variam desde
1 metro quadrado a 1,6 x 2,0 metros. Três
resistências diferentes de concreto (70,
60 e 50 MPa) foram utilizadas para po-
tencializar a eficiência das colunas, mini-
mizando, ao mesmo tempo, seu tamanho
e maximizando o espaço útil do piso.

3.2 – Sistema de Resistência


à Força Lateral
A resistência ao vento horizontal e
às cargas sísmicas é fornecida por um
núcleo central de concreto reforçado
combinado com as colunas da torre,
através de sistema de estabilização in-
direta, formado por um perímetro com
uma belt wall de concreto armado e dia-
fragmas de lajes rígidas. A relação de as-
pecto da estrutura é 8.7:1 sobre o eixo
Leste/Oeste e 5.9:1 sobre o eixo Norte/
Sul. A relação de aspecto do núcleo es-
trutural 19.5:1 sobre o eixo Leste/Oeste
e 10.8:1 sobre o eixo Norte/Sul na base.
O núcleo de concreto é interrompido
dois andares abaixo do nível superior. A
resistência à força lateral dos dois anda-
res superiores é oferecida por colunas
de lajes e estruturas de colunas e vigas
de lajes. Os dois conjuntos do sistema
de estabilização indireta ocorrem entre
os níveis 21 e 22, cerca de 40% da altu-
ra acima do nível, e no nível 62 que é o
andar superior do núcleo de concreto.
Pela utilização de todas as colunas da
torre e das paredes com núcleo de con-
creto reforçado com um sistema de es-
tabilização indireta e diafragmas rígidos FIG. 2 –ISOMETRIA EM 3D DA
no piso, é alcançado um sistema eficien- ESTRUTURA DA TORRE FIG. 3 – PLANTAS BAIXAS TÍPICAS
te sem a necessidade de conexão dos
prolongadores, diretamente nas colu-
nas do perímetro com o núcleo central, ligeiramente mais altas do que aquelas reforçadas com elementos de placas de
o que pode impactar as exigências ar- para respostas sísmicas. Duas colunas a aço estrutural. As paredes este/oeste ou
quitetônicas e resultar em conexões es- leste das paredes do núcleo, ligadas por paredes de flange variam em espessura
truturais complexas e na transferência vigas a essas mesmas paredes através desde 1,05m na base até 0,9 metro no
de cargas, dependente do tempo, entre do terço intermediário da torre, ofere- topo e têm uma espessura de 1,2 metro
as colunas e as paredes do núcleo. cem resistência adicional contra as for- nos níveis da correia. As paredes norte/
O sistema de prolongamento virtual ças sísmicas laterais. sul, ou paredes flangeadas têm 0,6 me-
resulta em uma redução do período da As paredes norte e sul trabalham tro e 0,45 metro de espessura, que se
formação do abalo sísmico de 20%, na juntas por ligação de concreto, ou vi- mantêm constantes por toda a altura
redução do momento da base do nú- gas de travamento sobre as aberturas da torre. Três resistências diferentes de
cleo sísmico de 25% e em uma redução das portas, variando em profundidade concreto (70 MPa, 60 MPa e 50 MPa) fo-
de derivação sísmica de 30% na direção de 1 metro a 2,75 metros e relações de ram utilizadas para maximizar a eficiên-
Norte/Sul sobre um sistema de resistên- vãos/profundidade tipicamente varian- cia das paredes. As paredes flangeadas
cia à força lateral somente no núcleo. As do de 1,5 a 3. As vigas de ligação são de concreto variam de 0,6 metro a 1,6
reações das respostas do edifício com tipicamente reforçadas com aço dúctil. metro de espessura. As lajes nas partes
relação às cargas de vento devido ao No entanto, devido à alta demanda de de cima e de baixo das paredes flangea-
sistema de estabilização virtual foram cargas de cisalhamento, algumas são das de concreto tem 30 centímetros de

34 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


5 – ANÁLISE ESTRUTURAL
E RESPOSTA
A análise do projeto estrutural da Tor-
re Koi foi baseada em vários códigos e
documentos de construção. O Código
de Construção de Monterrey, Reglamen-
to para las Construcciones en el Municipio
de Monterrey [4], foi consultado como
referência para as exigências de carga
do projeto. O código de Monterrey exige
que sejam considerados os efeitos sísmi-
cos, mas não oferece orientação sobre a
carga sísmica, a análise ou exigências do
projeto. Portanto, a equipe do projeto
utilizou o Manual de Diseño de Obras Civi-
les da Comissão Federal de Eletricidade
(Manual CFE) [5] para os procedimentos
do projeto sísmico, o que é um procedi-
mento padrão no México quando o có-
digo local de construções não oferece
FIG. 4 – CONFIGURAÇÃO DO TESTE NO TÚNEL DE VENTO requisitos sísmicos. As Normas Técnicas
Complementarias para Diseño por Sismo
[6] do Código de Construções da Cidade
espessura nos níveis 21 e 22. Lajes de análise feita em túnel de vento realiza- do México também foram consultadas
40 centímetros de espessura são neces- da pela empresa Rowan Williams Da- como referência. Uma análise utilizando
sárias nos níveis 62 e 63 para acomodar vies & Irwin Inc. (RWDI). A velocidade o International Building Code (IBC) de 2012
tensões concentradas de cisalhamento do vento no projeto básico na base foi [7] e as Minimum Design Loads for Buil-
em grandes aberturas do piso para no- considerada como 145 km/h. A figura 4 dings and Other Structures (ASCE 7-10) [8]
vas escadas e elevadores por fora do mostra a configuração para o teste no da American Society of Civil Engineer’s
nível que servem os níveis acima da ter- túnel de vento. também foi realizada com o objetivo de
minação do núcleo. A rigidez da estrutura foi governada comparação. Os mapas de acelerações
por limites de aceleração do vento ho- sísmicas no solo IBC e ASCE foram pre-
3.3 – Fundações rizontal para o conforto do ocupante parados pelo United States Geological
As colunas da torre e as paredes do de 18 milli-g no andar residencial supe- Survey (USGS) e incluem acelerações sís-
núcleo são apoiadas sobre uma funda- rior e 25 milli-g no andar superior para micas no solo para a região setentrional
ção com 36 x 52 x 4 metros de espes- uso de escritórios sob um vento de 10 do México. A classe de abalo sísmico no
sura, que, por sua vez, é suportada por anos. Fig. 5. local admitida para aos cálculos do IBC
77 estacas de 1,5 metro de diâmetro e
7 metros de comprimento. A resistência
do concreto é de 55 MPa para as pilhas
e 40 MPa para a fundação. Os 7.500
metros cúbicos de concreto para a fun-
dação foram colocados em um despejo
contínuo por 1.200 caminhões betonei-
ras e sete bombas de concreto durante
26 horas, resultando na segunda maior
colocação de massa de concreto feito
em uma área urbana no México. Uma
isometria tridimensional do sistema es-
trutural da torre é mostrada na Figura 2.
A figura 3 mostra as plantas baixas típi-
cas da estrutura da torre.

4 – FORÇAS DO VENTO
O projeto referente às cargas e ace-
FIG. 5 – RESULTADOS DO TESTE NO TÚNEL DE VENTO
lerações do vento foi baseado em uma

35
CASE INTERNACIONAL | ESTRUTUR A DE CONCRETO EM EDIFÍCIOS ALTOS

foi baseada na pesquisa de Montalvo-Arrieta et al [1].


O projeto estrutural final foi baseado no Manual da CFE
por ser mais familiar às autoridades locais e também re-
sultou em exigências mais altas de demanda estrutural.
As cargas de vento e as acelerações do projeto foram
baseadas em uma análise do túnel de vento realizada
pela Rowan Williams Davies & Irwin Inc. (RWDI).

5.1 – Modelagem
Foram criados modelos matemáticos tridimensionais,
baseados no método de elementos finitos da estrutura
do edifício nos softwares de análise estrutural ETABS
e MIDAS Gen. Todos os elementos estruturais primá-
rios e secundários foram incluídos no modelo da análi-
se para considerar a distribuição de carga e os efeitos
P-Δ. Elementos foram incluídos abaixo da malha entre
os andares para captar adequadamente os efeitos P-Δ.
As colunas foram modeladas como elementos de estru-
tura enquanto que as paredes e lajes foram modeladas
como elementos finos bidimensionais. Todos os elemen-
tos foram modelados com propriedades de concreto
linear elástico, que variaram conforme a resistência do
concreto. Foram aplicados modificadores da rigidez aos
elementos do revestimento e da estrutura, com base no
nível de tensão no elemento para avaliação dos efeitos
de fissuras na rigidez da torre, dos níveis de serviço e da
carga final. Restrições rígidas do diafragma foram utiliza-
das nos pisos típicos. No entanto, uma restrição semirrí- FIG. 6 – DEFORMAÇÃO LATERAL DEVIDO A CADA TIPO DE ANÁLISE
gida do diafragma foi usada para os andares superiores e
inferiores das paredes bem como nos dois andares acima
e abaixo de cada parede para avaliação da verdadeira ri-
gidez dos pisos na transferência da carga entre o núcleo
do edifício e as belt walls.
A partir do momento da determinação dos tamanhos
dos elementos preliminares e das quantidades de refor-
ço, foi realizada uma análise de construção não linear
escalonada para avaliação da distribuição da carga re-
sultante da sequência real da construção. As placas do
piso da torre movem-se não simetricamente para cima
enquanto o núcleo do edifício é conectado às colunas no
lado leste pelas vigas de ligação nos andares 23 até 42, o
que resulta em uma distribuição de carga de gravidade
não uniforme entre as colunas e as paredes do núcleo.
Os elementos estruturais foram potencializados para mi-
nimizar a tensão da carga de gravidade não uniforme. No
entanto, a estrutura ainda é antecipada para experimen-
tar alguma inclinação permanente ou uma geometria
fora de prumo após a conclusão da construção.
A equipe do projeto reconheceu que a inclinação in-
dicada pela aplicação de cargas de gravidade em um
modelo concluído será grandemente exagerada. Com o
progresso dos trabalhos, elementos da construção se-
rão incluídos na localização teórica, mudando a forma de
trabalho conforme a necessidade. Portanto uma análise
de construção não linear escalonada irá prever com mais
precisão a distribuição e a forma da distribuição da carga
de gravidade da estrutura permanentemente flexionada
FIG. 7 – DEFORMAÇÃO LATERAL EM 30 ANOS
na conclusão da construção. Os tamanhos dos elemen-

36 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


tos e as quantidades de reforço foram foram refinados segundo a necessidade. dois andares adjacentes. Uma derivação
refinados ainda mais, a partir dos resul- As figuras 6 e 7 mostram a deformação excessiva dos andares pode resultar
tados da análise da construção não linear lateral permanente esperada, resultando em dano aos elementos do edifício, tais
escalonada. da carga morta no final da construção e como paredes e revestimento de enchi-
Foi realizada uma análise tridimen- em 30 anos desde a conclusão substan- mento, e elementos estruturais secun-
sional final com carga e tempo de cons- cial da estrutura do edifício. Durante a dários não incluídos no sistema de resis-
trução escalonada e propriedades do construção, o subempreiteiro do concre- tência lateral da estrutura. A CFE exige
concreto dependentes do tempo, cap- to verificou com instrumentos inúmeras que a derivação dos andares seja limita-
tando os efeitos em longo da a 0,006 quando o enqua-
prazo de deformação lenta dramento estrutural con-
e contração do concreto sistir de sistemas de lajes
na distribuição da carga e planas. Para a obtenção de
no formato flexionado do resultados de derivações a
edifício, usando o softwa- partir da análise, o espectro
re MIDAS Gen. de análise de resposta do projeto foi
estrutural. O material do medido por um fator igual
concreto tem propriedades a Q’ para avaliação das de-
que dependem do tempo, formações inelásticas que a
tais como a deformação len- estrutura vai experimentar
ta, a contração e o módulo em um evento sísmico real.
de elasticidade, que devem Não é necessário um fator
ser consideradas na aná- adicional na escala para se
lise estrutural de edifícios obter um mínimo de cisa-
altos. Essas propriedades lhamento da base, durante
do material que dependem a verificação da derivação.
do tempo, em conjunto A Figura 8 mostra as de-
com a sequência proposta rivações laterais máximas
de construção para a torre, sob uma combinação de
vai afetar a distribuição de cargas que incluiu carga
tensões da carga vertical morta, carga morta super-
(gravidade) de modo geral posta, 50% da carga viva,
dentro do sistema estrutu- e o espectro de resposta
ral durante a construção, na sísmica. Os picos negativos
condição final/construída e, ocorrem nos pisos da pare-
com o passar do tempo, na de onde a carga está sendo
manutenção. transferida entre o núcleo
As propriedades do ma- de concreto e as colunas do
terial que dependem do perímetro e no nível do solo
FIG. 8 – DERIVAÇÃO SÍSMICA
tempo foram modeladas no onde existem paredes de
software MIDAS quanto à cisalhamento de concreto
elasticidade, à deformação abaixo. As derivações dos
lenta e à contração. O desenvolvimento colunas para medir a contração vertical andares estão dentro dos limites esta-
das curvas da propriedade do material real das colunas de concreto, para com- belecidos pelo código.
de concreto que depende do tempo foi parar e calibrar o modelo da análise es-
baseado nas Design Provisions for Drying trutural. Os resultados da contração real 6 – PROJETO E
Shrinkage and Creep of Normal Strength da coluna são ligeiramente inferiores aos
Concrete [9], da Gardner & Lockman, que resultados previstos. DETALHAMENTO
refletem o efeito da proporção da dimen- Os tamanhos preliminares dos ele-
são e da relação de superfície/volume 5.2 – A Derivação dos Andares mentos e os projetos do reforço foram
em que ocorre a contração e porque O controle da derivação dos andares é baseados nas respostas da analise li-
não exigem algumas das extensas in- uma das considerações mais importan- near inicial ETABS 3-D. Os projetos es-
formações sobre a mistura do concreto tes sobre o projeto estrutural relativo ao truturais preliminares foram verificados
exigidas por outros métodos, que não vento e aos abalos sísmicos, para asse- contra as respostas de análises não li-
estavam disponíveis durante o projeto. gurar um desempenho satisfatório de neares ETABS e MIDAS Gen 3-D subse-
Essas propriedades também foram mo- todo o edifício no caso de um terremoto. quentes, feitas segundo a necessidade.
dificadas para verificação da presença de A derivação dos andares é a diferença O projeto dos elementos estruturais de
reforço do concreto. Os tamanhos finais na deflexão lateral de pontos alinhados concreto estava de acordo com o Buil-
do elemento e as quantidades de reforço verticalmente nos pisos entre quaisquer ding Code Requirements for Structural

37
CASE INTERNACIONAL | ESTRUTUR A DE CONCRETO EM EDIFÍCIOS ALTOS

Concrete (ACI 318M-11) [10], do American através de cortes de seção a partir do pelas forças dos ventos. Devido à nature-
Concrete Institute de 2011. modelo ETABS. Onde necessário, foram za dinâmica e cíclica das cargas sísmicas, o
empregados os modelos do tipo strut- detalhamento das forças sísmicas selecio-
6.1 – Elementos Críticos do Projeto -and-tie (escorar e prender). Além do re- nadas foi incorporado à estrutura, mesmo
Os elementos mais críticos do desem- forço de aço dúctil, e como lajes típicas quando as cargas sísmicas não controlam
penho da estrutura foram vigas de aco- dos pisos, as lajes de diafragma foram o tamanho dos elementos e as quantida-
plamento, belt walls, e lajes de diafragma reforçadas com tendões de pós-tensão des de reforço, para aumentar a maleabi-
das belt walls. Esses elementos são as li- para ajudar a resistir às cargas de gravi- lidade. A Torre Koi será um ícone para o
gações entre o núcleo estrutural do edifí- dade vertical e para aumentar a rigidez México e para a cidade de Monterrey du-
cio e as colunas que permitem que toda a do sistema de prolongadores virtuais, rante muitos anos.
estrutura funcione em conjunto para re- deixando-o mais eficiente na resistência
sistir às forças laterais do edifício. As rela- ao vento e a cargas sísmicas. 8 – REFERÊNCIAS
ções entre as travessas de acoplamento
e a profundidade (L/D) variaram de 0,8 6.2 – Detalhamento Montalvo-Arrieta JC, Cavazos-Tovar P, Na-
a 5, mas estiveram tipicamente na faixa Devido ao nível relativamente baixo da varro de Leon, I, Alva-Nino, E, Medina-
de 1,5 a 3. As travessas de acoplamento ocorrência de terremotos em Monterrey, -Barrera, F (2008): Mapping Seismic Site
com L/D maior que 4 foram projetadas a estrutura não precisou atender a quais- Classes in Monterrey Metropolitan Area,
segundo as provisões de flexão e cisalha- quer exigências de detalhamento sísmico northeast Mexico. Boletin de la Sociedad
mento do código ACI 318. Quando o L/D prescritivo. No entanto, diversas práticas Geologica Mexicana, 60 (2), 147-157.
foi menor que 4 as travessas foram con- foram utilizadas para realçar a maleabili- Toro GR, Abrahamson NA, Schneider JF
sideradas como “travessas profundas” e dade dos sistemas estruturais. Acoplado- (1997): Model of Strong Ground Motion
foram projetadas utilizando modelos do res mecânicos foram usados nas colunas from Earthquakes in Central and Eastern
tipo strut-and-tie (escorar e prender). submetidas a cargas elevadas e segmen- North America: Best Estimates and Un-
Em uma grande quantidade de vigas de tos de paredes de cisalhamento e colunas certainties. Seismological Research Letters,
acoplamento altamente carregadas, o com tensões de tração para transmitir 68 (1), 41-57.
concreto sozinho não foi suficiente para mais eficientemente as forças de tensão. Galván-Ramírez IN, Montalvo-Arrieta JC
resistir às forças e as rotações esperadas. Um reforço dirigido foi utilizado para an- (2008): The Historical Seismicity and Pre-
Nesses locais, chapas de aço estrutural corar o reforço nas paredes e nas lajes do diction of Ground Motion in Northeast
foram encerradas dentro das vigas de diafragma em seções altamente reforça- Mexico. Journal of South American Earth
acoplamento de concreto. As chapas de das para reduzir o congestionamento e Sciences, 25 (1), 37-48.
aço foram projetadas para a força total assegurar o desenvolvimento do reforço. Municipio de Monterrey (2010): Reglamento
de cisalhamento fatorado enquanto que para las Construcciones en el Municipio de
o concreto e o reforço resistem ao mo- 7 – CONCLUSÕES Monterrey, Monterrey, Nuevo León, Méxi-
mento do projeto fatorado. A inclusão da co (em espanhol).
chapa de aço nos encontros da parede Considerando que os códigos de cons- Comisión Federal de Electricidad (1993).
de cisalhamento foi projetada de acordo trução em Monterrey não cobrem proje- Manual de Diseño de Obras Civiles, Ciudad
com as Seismic Provisions for Structural tos sísmicos, a equipe do projeto estru- de México, México. (em espanhol)
Steel Buildings (AISC 341-10) [11] do Ameri- tural precisou fazer consultas em outros Gobierno del Distrito Federal (2004). Nor-
can Institute of Steel Construction. lugares, em busca de orientação sobre o mas Técnicas Complementarias para Diseño
As belt walls de concreto e a lajes do projeto de terremotos de uma estrutura por Sismo, Ciudad de México, México. (em
diafragma trabalham juntas como pro- tão alta no México. Foram consultados espanhol)
longadoras virtuais ou indiretas para vários documentos e códigos sobre o International Code Council. (2011). 2012 inter-
transferir uma porção do momento de projeto sísmico no México, assim como national building code. Country Club Hills, IL.
reviravolta, desde o núcleo até as colunas nos Estados Unidos. American Society of Civil Engineers (2010):
do perímetro. Nesse sistema não existe O projeto estrutural final da Torre Koi ASCE 7-10 Minimum Design Loads for Buil-
uma conexão direta entre as paredes do foi baseado em uma combinação de carga dings and Other Structures Including Su-
núcleo e as colunas por prolongadores de ventos e resultados sísmicos. A rigidez pplement 1, Reston, VA.
diretos, tais como treliças ou paredes. O da estrutura foi governada por limites de Gardner NJ, Lockman MJ (2001): Design Pro-
momento de reviravolta cria algumas for- aceleração do vento horizontal para con- visions for Drying Shrinkage and Creep of
ças nos diafragmas rígidos do piso, que forto dos ocupantes do piso residencial Normal Strength Concrete. ACI Materials
fazem com que as belt walls inclinem e superior e 25 milli-g no piso superior para Journal, 98 (2), 159-167.
sigam a rotação do núcleo. As colunas do o uso de escritórios sob 10 anos de ven- American Concrete Institute (2011): ACI 31M-
perímetro resistem à inclinação da belt tos. A diferença na maneira com que as 11 Building Code requirements for Structu-
wall com algumas forças verticais, pela cargas de vento e as cargas sísmicas agem ral Concrete and ACI 318M-11R Commen-
variação das forças axiais. As belt walls na estrutura do prédio resultou em um tary, Farmington Hills, MI.
e as lajes do diafragma foram projetadas projeto de resistência de certos elemen- American Institute of Steel Construction
para cisalhamentos, momentos, e cargas tos controlados por forças sísmicas, en- (2010): AISC 341-10 Seismic Provisions for
axiais extraídas nas localizações críticas quanto que outros foram determinados Structural Steel Buildings, Chicago, IL.

38 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


INOVAÇÃO | CONCRETO AUTOCICATRIZ ANTE

RUMO AO
CONCRETO DO
AMANHÃ
CONCRETO AUTOCICATRIZANTE ‘ENGENHEIRADO’ COM CIMENTO DE ESCÓRIA DE
ALTO FORNO ATIVADO POR ADITIVO CRISTALINO (PRAH 4G)

POR EMILIO M. TAKAGI – MESTRE E GERENTE


DE PRODUTO – INSTITUTO TECNOLÓGICO DE
1 – INTRODUÇÃO (ou natural) como sendo o fechamento
AERONÁUTICA (ITA) / MC-BAUCHEMIE BRASIL Na última década, uma grande quanti- de fissuras devido ao próprio material
MARYANGELA G. LIMA – PROFESSORA DOUTORA dade de artigos de pesquisa dedicou-se a componente do concreto; e a autocica-
DEPARTAMENTO DE INFRAESTRUTURA AERONÁUTICA autocicatrização autônoma “engenheira- trização “autônoma” (ou de engenharia)
DO INSTITUTO TECNOLÓGICO DE AERONÁUTICA (ITA)
da”, em diferentes direções de investiga- como sendo o selamento de fissuras e a
PAULO HELENE – PROFESSOR TITULAR E DIRETOR ção: como a autocicatrização com reforço restauração de propriedades mecânicas
DEPARTAMENTO DE CONSTRUÇÃO CIVIL DA de fibras, bactéria produtora de minerais, e de permeabilidade devido tanto ao pró-
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO / PHD ENGENHARIA
polímero superabsorvente, agente cica- prio material componente do concreto, e
RONALDO A. MEDEIROS-JUNIOR – PROFESSOR trizante contido em cápsulas, e a adição principalmente quanto de alguma adição
DOUTOR – DEPARTAMENTO DE CONSTRUÇÃO CIVIL
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (UFPR) do aditivo cristalino (PRAH 4G). No últi- “de engenharia”, como o cimento de es-
mo caso, o PRAH em sua quarta geração, cória de alto forno (EAF), sílica ativa (SA)
pertence a uma categoria de aditivos e o PRAH [2].
impermeabilizantes redutores da poro- O fenômeno da colmatação autógena
sidade do concreto, disponível e ampla- de fissuras em concreto, já teria sido re-
mente empregada como tal no mercado portado pela Academia Francesa de Ci-
de produtos químicos da construção, e ências desde 1836, e atribuída à transfor-
classificado como Permeability-Reducing mação do hidróxido de cálcio (Ca(OH)2)
Admixtures exposed to Hydrostatic condi- em cristais de carbonato de cálcio (CaCO3)
tions (PRAH) de acordo com a recomen- como consequência da sua exposição ao
EMILIO M. TAKAGI MARYANGELA G. LIMA
dação técnica americana ACI 212.3R-10 dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.
“Relatório sobre Aditivos Químicos para Mais tarde, também foram observadas
Concreto” [1]. muitas fissuras cicatrizadas preenchidas
O consenso alcançado sobre o concre- com cristais de silicato de cálcio hidrata-
to autocicatrizante (CAC), entre a comuni- do (C-S-H), de etringita (C6ASH32) e de car-
dade internacional, resultou no relatório bonato de cálcio (CaCO3) devido ao meca-
de estado-da-arte da RILEM “Fenômeno nismo da autocicatrização por hidratação
de autocicatrização em materiais à base contínua de partículas não hidratadas de
de cimento” publicado pelo comitê técni- cimento e adições minerais, como cinzas
PAULO HELENE RONALDO A. MEDEIROS- co 221-SHC criado em 2005. Distingue-se volantes (CV) e escória de alto forno (EAF)
JUNIOR o mecanismo da colmatação “autógena” residuais [3].

39
INOVAÇÃO | CONCRETO AUTOCICATRIZ ANTE

Este artigo apresenta os resultados da Imagem e do Som (M.I.S.) em Copaca- diferentes espessuras (predominante-
da autocicatrização “engenheirada” bana [5], na Cobertura Fluida do Museu mente de 15 cm), “flutuando” a cerca de
de três cimentos comerciais brasilei- de Arte do Rio (M.A.R.) no centro da cida- 30 m de altura apoiada em 37 tubos de
ros CPIII, CPII-E e CPV com diferentes de do Rio de Janeiro [6] e também na laje aço galvanizado. A concretagem da laje
percentagens de EAF, com teores de- de subpressão de condomínio no Setor foi executada em apenas um dia, com
crescente de 55%, 34% e 0% respec- Nordeste em Brasília [7]. uma concretagem ininterrupta de 13
tivamente, e ativado com o PRAH. Os Os engenheiros BRITEZ e HELENE horas, para evitar que a cobertura apre-
corpos-de-prova foram carregados em apresentaram os desafios da nova sede sentasse junta fria de concretagem. Na
compressão com 90% da sua carga de do M.I.S., envolvidos na concretagem concretagem dos 320 m3 de concreto,
ruptura, a fim de gerar uma rede de de uma laje de subpressão estanque 80% da água foi substituída por gelo, to-
microfissuras. Essas amostras foram em concreto armado, com 1,0 m de es- dos os concretos dos caminhões foram
posteriormente imersas em água satu- pessura, volume de 1.200 m³ e taxa de lançados em temperaturas entre 16°C
rada com cal para desencadear o me- armadura de aço de 105 kg/m3, situada a 21°C, com a trabalhabilidade neces-
canismo de autocicatrização, seguidas a 50 m da orla marítima e vinculado à sária e retardando a pega, evitando ao
de vários testes após 28, 56 e 84 dias. classe de agressividade IV. O traço do máximo a fissuração. O maior desafio foi
Foi observada uma autocicatrização concreto com propriedades autocicatri- a preparação da fôrma desta cobertura
mais evidente nas amostras de cimento zantes possuía um consumo por m3 de fluida que foi moldada com peças com 6
CPIII (55% de EAF) contendo o PRAH, e 448 kg de cimento CPIII 40 RS, adição de m por 8 m de isopor EPS e em torno de
apesar de indicar uma inversão, maior 30 kg de SA e 4,5 kg de PRAH concentra- 800 kg, pelo responsável da Festa do Boi
autocicatrização nas amostras com ci- do. O PRAH concentrado foi dosado no Garantido em Parintins - AM [6].
mento CPV (0% de EAF) comparados ao teor de 1,0% sobre o peso do cimento A engenheira SILVA apresenta um es-
CPII-E (34% de EAF), evidenciando que CPIII 40 RS. A relação água/aglomerante tudo de caso de uma concretagem de
a reações autocicatrização não são fun- foi de 0,35, onde 100% da água de amas- uma laje de subpressão executado, em
ção do simples aumento do teor de EAF, samento foi substituída por gelo (130 kg 3 etapas com um intervalo de 1 mês
e que estas reações de autocicatrização de gelo em cubos à -10ºC + umidade de entre eles, em um condomínio misto
são muito mais complexas [4]. 5% da areia), e todos os concretos dos de uso residencial e comercial, localiza-
Diferentes abordagens têm sido de- caminhões foram lançados em tempera- do no Setor Nordeste de Brasília. A laje
senvolvidas para estudar um novo tipo turas entre 20°C a 25°C. Os resultados com 2.500 m2 em concreto armado com
de concreto que têm a capacidade para demonstraram que a composição do 30 cm de espessura, volume de 750 m3,
reparar fissuras passivas com abertura concreto, o plano de concretagem e os possui uma taxa de armadura de 96 kg/
de até 0,4 mm. Dentre essas aborda- procedimentos executivos empregados m3 em conjunto com 450 g de fibras de
gens, o concreto autocicatrizante “en- foram decisivos para promover uma es- PP para cada m3. Foram dosados 3.000
genheirado” possui uma capacidade de trutura íntegra e com propriedades es- kg de PRAH concentrado ao volume total
autocicatrização autônoma que poten- tanques, bem como algumas engenhosi- do concreto da laje no teor de 0,8% so-
cializa o mecanismo de colmatação na- dades empregadas na construção dessa bre o peso de cimento CPIII-40 RS com
tural do concreto através da dosagem laje do M.I.S., dispensando, nesse caso, consumo de 380 kg/m3 e relação água/
de um PRAH que ativa os componentes alternativas tradicionais e convencionais cimento de 0,45. O maior desafio na exe-
presentes na dosagem do concreto, de impermeabilização [5]. cução desta laje de subpressão foi a ne-
como os cimentos e as adições mine- Para o traço do concreto da Cobertura cessidade da estanqueidade do sistema
rais. Este artigo aborda o uso do PRAH, Fluida do M.A.R., os engenheiros ALMEI- com uma especificidade de projeto que
geralmente  indicado como aditivo im- DA e CORRÊA especificaram uma com- não permitiria a instalação permanente
permeabilizante redutor de permeabili- posição de concreto com relação água/ de bombas de recalque da água do len-
dade, adaptado como agente promotor aglomerante 0,45 (189 litros de água) e çol freático por razões ambientais do
da autocicatrização “engenheirada” do com consumo por m3 de 391 kg de ci- entorno [7].
concreto. mento CPIII 40 RS, adição de 30 kg de
SA, 8,0 kg de PRAH e 600 g de fibras de 3 – A QUÍMICA DO CIMENTO
2 – REFERÊNCIAS polipropileno (PP). O PRAH, na versão
normal, foi dosado no teor de 2,0 % so- DE EAF E DO PRAH NA
DE CONCRETO bre o peso do cimento CPIII-40 RS. Esta AUTOCICATRIZAÇÃO
AUTOCICATRIZANTE NO cobertura com 800 t de peso próprio, Em comum, as 3 obras utilizam o ci-
BRASIL possui as dimensões de 66 m de compri- mento de EAF (CPIII 40 RS) e o PRAH para
mento e 25 m de largura (1.700 m2). A laje a dosagem do concreto autocicatrizante
Este artigo apresenta o desenvolvi- foi calculada com uma taxa de armadura “engenheirado”. Portanto, os seguintes
mento no Brasil da tecnologia de con- muito alta de 310 kg/m3, para apresen- mecanismos devem ser considerados
creto autocicatrizante pela abordagem tar um comportamento estrutural como para uma dosagem “engenheirada” de
autônoma ou “de engenharia”. Concretos uma casca de concreto, e possui a forma um concreto autocicatrizante robusto [4]:
autocicatrizantes foram utilizados recen- de uma onda com desníveis de até 1,75 a) Mecanismo de hidratação contínua
temente na laje de subpressão do Museu m e gera uma impressão de fluidez com com o uso de cimento CPIII 40 RS

40 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


composto por grandes de cimento. A análise de espec-
quantidades de EAF. A in- troscopia de raios X por disper-
corporação neste cimento são em energia (EDS) confirma
de EAF com sílica ativa (SA) a presença de cálcio, oxigênio,
em teores maiores que 6% silício, magnésio, alumínio e po-
otimiza este mecanismo, tássio. Este espectro é compa-
b) Mecanismo químico de rável ao de um cimento Portland
cicatrização com a adição comum, com exceção do pico de
de PRAH para provocar enxofre levemente maior [11].
um efeito de dissolução Inicialmente, a primeira gera-
e recristalização de sub- ção do PRAH (1G) mineral eram
produtos da hidratação partículas cristalinas muito finas,
do cimento em formações hidraulicamente inativas e não
cristalinas mais estáveis pozolânicas, de sílica (teor de
dentro das fissuras do SiO2 cristalina maior que 99%
concreto, e e superfície específica Blaine
c) Mecanismo de restrição de 4.000 cm2/g) e de carbonato
da abertura da fissura uti- (teor de CaCO3 cristalino maior
lizando uma taxa de arma- que 95% e Blaine de 3.500
dura adequada e/ou com cm2/g), e eram utilizados ape-
a adição de fibras dúcteis, nas como fillers na necessidade
para reforçar a matriz de de controlar a exsudação em
cimento, de polipropileno concretos com baixo consumo
corrugadas (PP), de vidro de cimento. Estudos mostraram
(resistente à álcalis) e de que estas partículas cristalinas
resina poval (álcool de po- FIG. 1 – DIAGRAMA TRADUZIDO DE RAHHAL ET AL (2012) de sílica e carbonato possuem
livinila). DA HIDRATAÇÃO DO CIMENTO PORTLAND ESTIMULADO POR muitas propriedades físicas e
PARTICULAS CRISTALINAS DE SILICA (PRAH 1G NEGATIVO) E DE
Nos últimos anos tem havido químicas que são surpreenden-
CARBONATO (PRAH 1G POSITIVO)
uma tendência para usar mais temente semelhantes a química
cimentos Portland compostos dos “argilominerais”. Ambas as
em vez de puros. Enquanto que partículas cristalinas de sílica
as escórias de alto forno dos cimentos por consequência, contribuir para a sua (PRAH 1G com carga eletrostática nega-
CPII-E e CPIII são aglomerantes hidráu- maior resistência química [8]. tiva) e de carbonato (PRAH 1G com carga
licos, as cinzas volantes dos cimentos Em investigações posteriores das eletrostática positiva) estimulam dire-
CPII-Z e CPIV são materiais pozolânicos, capacidades de autocicatrização de tamente as reações de hidratação, por
cujo principal efeito depende do volume compósitos cimentícios incorporando constituírem centros de nucleação para
de CH disponível para a reação pozolâni- diferentes materiais suplementares ci- o hidróxido de cálcio (CH) agindo como
ca. Cimentos de escória de alto forno têm mentícios, como as cinzas volantes (CV) “cristais-semente”. O resultado é uma
uma resistência à penetração de cloretos e as EAFs, SAHMARAN et al. observaram camada dupla difusa de íons mais com-
mais alta que a do cimento de cinzas vo- que a cicatrização foi mais evidente nas primida sobre o PRAH-1G, devido ao au-
lantes CPII-Z e CPIV, pela formação subs- amostras que utilizavam a EAF [9]. Além mento do potencial Zeta das cargas ele-
tancialmente maior de gel de C-S-H que disso, a elevada área específica da super- trostáticas de íons positivos (Ca2+) e íons
possui a capacidade de adsorção física fície dos grãos da EAF fornece mais locais negativos (OH -) originadas da hidratação
dos cloretos penetrantes. A literatura re- de nucleação, bem como os íons OHˉ e do grão de cimento Portland e adquiridas
fere-se com frequência ao efeito benéfico álcalis para o fluido dos poros quando a pelas partículas conforme a hidratação
do aluminato tricálcico (C 3A) no cimento EAF necessita ser ativada [10]. avança, com o consequente aumento
CPV, por fixar quimicamente os cloretos da floculação e aumento da taxa de pre-
penetrantes. 4 – A EVOLUÇÃO DA QUÍMICA cipitação de cristais de portlandita (CH),
A pesquisa de DE BELIE et al. demostra gel de silicato de cálcio hidratado (C-S-H)
que os produtos de hidratação dos grãos DO PRAH NA REAÇÃO DE e das fases etringita (AFt) e monossulfo-
de cimento Portland e dos cimentos de HIDRATAÇÃO DO CIMENTO aluminato (AFm), conforme diagrama tra-
EAF são praticamente os mesmos, exce- O PRAH consiste em uma mistura de duzido de RAHHAL (2012) e mostrado na
to pelas menores quantidades de cristais cimento, areia e partículas cristalinas ati- Figura 1 [12].
de hidróxido de cálcio (CH) nos cimen- vas de sílica e de carbonato. As partículas A segunda geração do PRAH (2G) avan-
tos com teores mais elevados de EAF e, ampliadas em microscopia eletrônica de ça com a intercalação de ácidos carboxíli-
portanto, este concreto possui uma es- varredura (SEM) têm forma irregulares e cos (-COOH –) sobre a camada dupla difu-
trutura de poros mais refinada com uma tamanho na faixa de cerca de 1 a 20 μm, e sa de nuvens de íons positivo (Ca2+) e íons
menor quantidade de CH, o que pode, sua morfologia é semelhante à dos grãos negativo (OH-) em torno da estrutura dos

41
INOVAÇÃO | CONCRETO AUTOCICATRIZ ANTE

PRAH 1G, resultando em um aumento (MgSiO3) que são bastante estáveis em tipo de materiais cimentícios utilizados.
significativo do potencial Zeta das cargas larga faixa de temperatura permanente a Condições de exposições de cura em ci-
eletrostáticas, que fazem com que a ca- partir de -32°C até +130°C, e suportando clos úmidos / secos mostraram a melhor
pacidade de dupla troca catiônica, entre picos de até 1.530 °C. Esta estrutura cris- recuperação mecânica, enquanto que
seus íons intercalar de cálcio (Ca2+) por talina integral preenche profundamente a condição de cura somente aérea não
íons de sódio (Na+) ou potássio (K+), seja os poros e as fissuras, tornando o con- contribuiu com um fenômeno visível de
mais versátil e facilmente obtida, propor- creto impermeável e protegido quimica- cicatrização [14].
cionando ao PRAH 2G uma maior capa- mente. Agentes de cura química à base Estruturas expostas a meios aquo-
cidade “quelante” para a cristalização, e de fluorssilicatos de magnésio (MgSiF 6) e sos agressivos, que contêm microorga-
também um maior poder de dispersão ácido málico (C4H6O5 com duas termina- nismos, podem sofrer deterioração na
da partículas do PRAH 2G através das po- ções –COOH –) são utilizados para acele- matriz de cimento com a produção de
rosidades do concreto. Neste processo, o rar o processo de cristalização e também ácidos biogênicos agressivos, e também
PRAH 2G precipita uma reação química como inibidores de evaporação, pois através da formação de um biofilme na
para provocar um efeito de dissolução cada molécula de MgSiF 6 retêm 300 mo- superfície, mas esses fenômenos de
e recristalização dos subprodutos da léculas de água [13]. corrosão induzida por microorganismos
hidratação do cimento, formando uma A terceira geração do PRAH (3G), in- (MIC) ainda não foram completamente
nova estrutura de cristais não solúveis corpora agentes químicos expansores a compreendidos. A quarta geração do
de silicato de cálcio hidratado (C-S-H), base de sulfoaluminato de cálcio (CSA) ao PRAH (4G), adiciona propriedades anti-
etringita (C6ASH32) e carbonato de cálcio PRAH 2G, de modo a obter uma capacida- microbianas ao PRAH 3G, que através de
(CaCO3), profundamente nas fissuras e de aprimorada de autocicatrização “en- um mecanismo eletrofísico baseado em
porosidades do concreto, conforme Fi- genheirada” para fissuras com aberturas uma nova química de “organosilano”, o
gura 2. maiores que 0,3 mm e podendo chegar PRAH 4G se liga de forma molecular aos
A partícula cristalina de carbonato até 0,5 mm. SISOMPHON et al. relataram produtos de hidratação de cimento, e
mais porosa (PRAH 1G+) é impregnada que uma fissura com uma abertura de até rompe a membrana celular de bactérias
com uma solução de sais de flúor, fósforo 0,4 mm pode ser completamente selada aeróbicas (Escherichia coli e Staphylococ-
e magnésio. Com a presença de umida- dentro de 28 a 56 dias. Produtos de ci- cus aureus) e anaeróbicas (Thiobacilus
de, os sais de flúor difundem-se na matriz catrização no interior das fissuras foram novellus e Thiobacilus concretivorus), cuja
fissurada para formar íons fluoreto. Estes analisados usando microscópio eletrôni- eficácia pode ser comprovada através
íons reagem com produtos da hidratação co de varredura ambiental (ESEM) equi- da metodologia modificada ISO 22.196 “
C-S-H e CH e da carbonatação (CaCO3) pados com EDS. Os resultados da análi- Medição da atividade antibacteriana em
para formações amorfas mais estáveis, se química mostraram que os produtos plásticos e outras superfícies não poro-
análogas à apatita (CaF 2), resultando em de autocicatrização são compostos por sas”. A formação deste biofilme sobre o
uma matriz mais densa e mais resistente CaCO3, C-S-H e etringita. A proporção dos concreto autocicatrizante do PRAH 4G
à ácidos dentro de uma faixa de pH en- compostos minerais cicatrizados depen- antimicrobiano pode atuar como uma
tre 3 a 11, e cristais análogas à enstatita de da condição de exposição na cura e do camada protetora contra a deterioração
biológica [15]. Antes do encerramento
do comitê técnico 221-SHC “Fenômenos
de autocicatrização em materiais à base
de cimento”, foi criado em 2013, o comitê
técnico 253-MCI da RILEM “Interações en-
tre microorganismos e materiais à base
de cimento”, para preencher a lacuna do
conhecimento da interação das bactérias
com os concretos autocicatrizantes, e o
estudo da bioreceptividade dos biofilmes
formados sobre este tipo de concreto.
Os PRAHs 3G são disponíveis no mer-
cado brasileiro em duas versões: a ver-
são normal que é dosada a 2,0 % sobre
o peso de cimento (s.p.c.); e a versão
mais concentrada que é empregada
com a metade da dosagem, entre 0,8
a 1,0 % s.p.c. do traço do concreto. Os
PRAHs 4G são disponíveis somente na
versão concentrada que é empregada
FIG. 2 – MECANISMO QUELANTE DO PRAH 2G-DE CRISTALIZAÇÃO E DE DISPERSÃO QUE com a dosagem de 1,0 % s.p.c. do tra-
PROVOCA UM EFEITO DE DISSOLUÇÃO E RECRISTALIZAÇÃO DOS SUBPRODUTOS DA HIDRATAÇÃO ço do concreto. Os PRAHs 3G podem
DO CIMENTO PROFUNDAMENTE NAS FISSURAS E POROSIDADES DO CONCRETO
ser fornecidos em embalagens de sacos

42 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


hidrossolúveis para facilitar e minimizar TABELA 1 – TRAÇO DO CAC (COMPOSIÇÃO EM KG/M3)
os riscos de erros na dosagem dos ca- INGREDIENTES QUANTIDADES NOTA
minhões-betoneira na usina ou no can-
Água 196 kg Relação a/c = 0.5
teiro de obra. Pigmentos fotocrômicos,
Cimento 392 kg CPIII / CPII-E / CPV
que mudam de cor de forma reversível
Aditivo cristalino (PRAH 3G) 10 kg (normal) 2.5% sobre o peso de cimento
quando expostos aos raios ultravioletas
Areia de quartzo 573 kg 70% do agregado miúdo
ou luz negra, podem ser adicionados ao
PRAH como uma forma de verificação e Areia artificial 246 kg 30% do agregado miúdo
validação do plano de concretagem na Pedrisco 9,5 mm 651 kg 70% do agregado graúdo
obra, de modo a ser visível à distância, Brita 1 25 mm 279 kg 30% do agregado graúdo
que a água de exsudação do concreto Superplastificante SP 2,4 ~ 3,2 kg 0,6 ~ 0,8% sobre o peso de cimento
aditivado com PRAH apresenta uma co- Superplastificante PCE 4,0 kg 1,0% sobre o peso de cimento
loração amarelo neon fluorescente. Pro- Modificador de viscosidade 2,0 kg 0,5% sobre o peso de cimento
cedimentos de controle de qualidade re- Fibra de vidro AR 0,9 kg Resistente à álcalis - 12 mm
comendados em obra para a aceitação
e conformidade do concreto autocicatri-
zante “engenheirado“ devem ser condu- espalhamento em torno de 700 mm para de 90% da carga de ruptura, para, em se-
zidos seguindo os requisitos técnicos da todas as misturas. guida, sobrecarregá-las até a ruptura con-
norma ABNT NBR 12.655: 2015. A inspeção visual de concreto fresco forme a Figura 1. As amostras restantes
não detectou qualquer segregação ou foram pré-carregadas com 90% da carga
5 – PROGRAMA exsudação em qualquer uma das mistu- de ruptura correspondente e foram, então,
ras durante os testes. Para cada uma das subsequentemente armazenadas em água
EXPERIMENTAL misturas de concreto, foram preparados saturada de cal a 23 ± 2 °C, durante um
Neste artigo, os ensaios realizados no corpos de prova cilíndricos de Ø100mm x período adicional de 28 dias e 56 dias. Nas
concreto autocicatrizante (CAC) endu- 200mm para os ensaios mecânicos. Para amostras aditivadas com o PRAH 3G, à me-
recido foram ensaios para determinar a os ensaios de permeabilidade, os corpos dida que o teor de EAF aumenta, houve um
recuperação mecânica com o ensaio de de prova cilíndricos foram serrados em aumento significativo nas propriedades
resistência à compressão axial (RCA), e a fatias com espessuras de 50mm, e as de recuperação mecânica e de redução
redução da permeabilidade com o ensaio duas fatias médias de cada amostra fo- da permeabilidade. Portanto, observa-se
de rápido de difusão ao cloreto (ERDC). ram utilizadas para os ensaios. também que as amostras com EAF ativa-
Amostras de concreto com e sem a adi- dos com PRAH 3G são menos afetadas pe-
ção do PRAH 3G foram ensaiadas, utili- 5.2 – Recuperação da los efeitos dos carregamentos mecânicos.
zando três tipos de cimentos comerciais propriedade mecânica
brasileiros: CPIII 40RS, CPII E40 e CPV ARI Os resultados do ensaio de RCA de cada 5.3 – Redução da permeabilidade
Plus, com teores distintos de EAF nas fai- uma das misturas foram determinados an- O ensaio de rápido de difusão ao clo-
xas de 55%, 34% e 0%, respectivamente. tes dos 28 dias e após o pré-carregamento reto (ERDC) permite a comparação da
Os corpos de prova dos ensaios foram
carregados na prensa aos 28 dias com
90% da carga de ruptura de compressão,
de modo a gerar uma rede de microfissu-
ras. As amostras fissuradas aos 28 dias
foram mergulhadas em água com cal
para ativar o mecanismo de cicatrização
por mais 56 dias.

5.1 – Dosagem, preparação


e moldagem do CAC
Seis traços de CAC foram preparados
com as composições resumidas na Tabe-
la 1, para todos os três tipos de cimen-
tos, com e sem a adição do PRAH 3G. O
consumo total de cimento e a relação
água/cimento (a/c) de 0,5 foram mantidos
constantes. Um aditivo superplastifican-
te (SP) foi adicionado para conseguir um
abatimento inicial de 80 mm; em seguida,
um segundo aditivo à base de policarbo-
FIG. 3 – COMPORTAMENTO DA RCA DEVIDO À FISSURAÇÃO E AO EFEITO CICATRIZANTE
xilato (PCE) foi adicionado para obter um

43
INOVAÇÃO | CONCRETO AUTOCICATRIZ ANTE

adições de escórias de alto forno (EAF)


como o CPII-E (34%) e CPIII (55%).
Em ambientes alcalinos, nas amos-
tras aditivadas com o PRAH, à medida
que o teor de EAF aumenta, as espécies
de silicatos podem dissolver-se do EAF
para criar ácido silícico (H4SiO4), que
pode reagir com o CH dissolvido, cujo
resultado são cristais de C-S-H, provo-
cando um aumento significativo nas
propriedades de recuperação mecâ-
nica e de redução da permeabilidade.
Portanto, observa-se também que as
amostras com EAF ativados por PRAH
3G são menos afetadas pelos efeitos
dos carregamentos mecânicos.

7 – CONCLUSÕES
FIG. 4 – REDUÇÃO PERCENTUAL DA MIGRAÇÃO DE CLORETOS COMPARANDO OS 3 CIMENTOS Neste artigo, foi observada uma auto-
cicatrização mais evidente nas amostras
de cimento CPIII contendo o PRAH 3G e
resistividade do concreto das amostras 3,6% no CPII e em 7,8% no CPV. Estes indica uma maior autocicatrização nas
fissurada aos 28 dias com as amostras valores mostram que o efeito de autoci- amostras com cimento CPIII, CPV e CPII-
fissuradas e cicatrizadas por 56 dias catrização depende do tipo de materiais -E, respectivamente. O C-S-H produzido
para todas as misturas (Figura 2). Este de cimento utilizado, o teor de EAF e da durante a reação hidráulica latente do
valor, determinado em coulombs, está adição de PRAH 3G. Conclusões seme- CPIII e do CPII-E pode então cicatrizar
relacionado com a capacidade do con- lhantes também podem ser feitas para fissuras finas da mesma maneira que o
creto para resistir à penetração de íons o ERDC. No entanto, deve notar-se que, C-S-H produzido a partir da hidratação
cloreto através das amostras. A recupe- comparando os resultados entre as Tabe- de partículas não reagidas do cimen-
ração da propriedade de estanqueida- las 3 e 4, os efeitos de autocicatrização to CPV. Como a velocidade da reação
de indica uma maior cicatrização nas se tornam mais visíveis. A quantidade na hidráulica latente do CPIII e do CPII-E é
amostras com cimento CPIII, CPV e CPII- redução dos valores de TRPC foi de 52% função do pH, é substancialmente mais
-E, respectivamente. para 49% no CPV, de 38% para 37% no lenta que a hidratação contínua do ci-
CPIII e de 21% para 20% no CPII-E. mento não reagido do CPV. Portanto,
6 – RESULTADOS E O principal mecanismo da autocica- a autocicatrização do cimento CPV se
trização autógena de uma fissura é a torna mais evidente do que o CPII-E nas
DISCUSSÕES produção de cristais de silicato de cálcio idades ensaiadas neste artigo.
6.1 – Corpos de prova fissurados hidratado (C-S-H). Durante a hidratação O desempenho do PRAH com relação
e não cicatrizados do cimento, alguns grãos de cimento a recuperação mecânica, e a redução da
Os corpos de prova fissurados foram que contêm alita (C3S) e belita (C2S) não permeabilidade varia com o tipo de ci-
ensaiados imediatamente após o pré- reagem completamente, resultando em mento. Fabricantes recomendam a dosa-
-carregamento, e considera-se que não partículas com núcleos não hidratados, gem do PRAH concentrado em 1% s.p.c.
houve tempo de passar por qualquer envolvidos em materiais hidratados de independentemente do tipo de cimento,
cicatrização da fissura. Os resultados na C-S-H e de portlandita (CH). ou do tipo da adição mineral utilizado na
Tabela 3 mostram que, para as amostras Durante a fissuração, estas partículas dosagem do traço de concreto. Portan-
não cicatrizadas, a RCA e o ERDC foram encapsuladas são naturalmente expos- to, o estudo mais aprofundado entre a
influenciados pela adição do PRAH 3G e tas e começam a hidratar quando entram relação da dosagem do PRAH, o tipo de
pelo teor de EAF no cimento comercial em contato com a água, o que provoca cimento e o tipo de adição mineral seja
CPII (34%) e CPIII (55%). uma expansão volumétrica capaz de interessante para aumentar a durabilida-
preencher completamente microfissuras. de das estruturas de concreto, uma vez
6.2 – Efeitos da autocicatrização A hidratação contínua do cimento não que a vida útil das estruturas pode ser
O PRAH 3G influencia na melhora dos reagido é o mecanismo presente nos tra- estimada em décadas.
valores de RCA das amostras fissuradas ços com cimento CPV. A reação hidráulica O autor sugere as seguintes dosagens
e cicatrizadas em 5,9% no CPIII, 5,8% no latente também pode ser outro mecanis- de PRAH 3G ou 4G e o consumo mínimo
CPII e 3,7% no CPV comparados ao valor mo para fornecer um grau significativo de cimento, sendo que a Tabela 2 para
de 28 dias. No ensaio ERDC, os valores de capacidade de autocicatrização para obras enterradas expostas ao ataque por
foram reduzidos em 7,2% no CPIII, em os traços com cimento que contenham sulfatos, a Tabela 3 para obras expostas às

44 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


Classes de Agressividade Ambiental (CAA) CAC com técnicas que garantam a durabi- contínua de água, a estruturas submeti-
e Tabela 4 para obras especiais, resultan- lidade em longo prazo das estruturas de das a danos mecânicos repetidos, e a ata-
do no desenvolvimento da engenharia do concreto quando submetidos à exposição ques químicos de sulfatos e ácidos.

TABELA 2 – CONCRETO ARMADO ESTRUTURAL DE OBRA ENTERRADA EXPOSTAS AO ATAQUE POR SULFATOS:
DOSAGEM DO ADITIVO CRISTALINO SOBRE O PESO DE CIMENTO (S.P.C.) E CONSUMO MÍNIMO DE CIMENTO NO TRAÇO

Tipo de concreto armado Dosagem Consumo mín. Mecanismo de Requisitos técnicos


estrutural enterrada do PRAH de cimento deterioração do concreto conferidos ao concreto

Fundação direta acima do 0,5 % (s.p.c) >300 kg/m3 b Ataque fraco de sulfato Proteção química à penetração
lençol freático (<0,10% SO 4) a do PRAH 3G CPIII ou CPII-E por difusão e capilaridade e ataques de sulfatos
Ataque fraco de Proteção química à penetração
Fundação e estaca abaixo do 0,8 % (s.p.c) >350 kg/m3 b
sulfato por difusão e e ataques de sulfatos e
lençol freático (<0,10% SO 4) a do PRAH 3G CPIII ou CPII-E
pressão hidrostática redução da permeabilidade
Ataque moderado de Proteção química à sulfatos, redução
Fundação e estaca abaixo do 1,0 % (s.p.c) >400 kg/m3 b
sulfato por difusão e da permeabilidade, e passivação
lençol freático (>0,10% SO 4) a do PRAH 3G CPIII ou CPII-E
pressão hidrostática de armaduras e autocicatrização
Ataque severo de sulfato Proteção química à sulfatos,
>400 kg/m3 b CPIII
Fundação e estaca abaixo do 1,0 % (s.p.c) por difusão e pressão passivação da armadura, redução
ou CPII-E
lençol freático (>0,20% SO 4) a do PRAH 4G hidrostática da permeabilidade, autocicatrização
+SA (>6%s.p.c.)
(H2S > 20 ppm) e ação antimicrobiana
a
Classificação fraca, moderada e severa conforme a % em massa de sulfato solúvel em água presente no solo de acordo com a tabela 4 da NBR
12.655:2015 “Concreto de cimento Portland – Preparo, controle, recebimento e aceitação – Procedimento”. 29 p. Para condições severas de agressi-
vidade, devem ser obrigatoriamente usados cimentos resistentes a sulfatos
b
Consumo mínimo de cimento conforme os anexos E.8, F.9, G.8, H.9, I.9, J.9, K.10, L.9 e M.9 da NBR 6122:2010 “Projeto e execução de fundações”, 91 p.

TABELA 3 – CONCRETO ARMADO ESTRUTURAL EXPOSTAS ÀS CLASSE DE AGRESSIVIDADE AMBIENTAL (CAA):


DOSAGEM DO ADITIVO CRISTALINO SOBRE O PESO DE CIMENTO (S.P.C.) E CONSUMO MÍNIMO DE CIMENTO NO TRAÇO
Consumo
Tipo de concreto armado Dosagem Mecanismo de deterioração Requisitos técnicos
mín. de
estrutural enterrada do PRAH do concreto conferidos ao concreto
cimento
Concreto 20 MPa de obra >260 kg/
– – –
geral (superestrutura) CAA I m3 c
Ataque por sulfato por
Concreto 25 MPa de obra 0,5 % de >280 kg/ Proteção contra penetração e ataques
difusão e capilaridade
geral (superestrutura) CAA II PRAH 3G m3 c químicos e redução da permeabilidade
(carbonatação)
Concreto 30 MPa 0,8 % de Ataque moderado por Proteção contra penetração e ataques
>320 kg/
de obra geral PRAH 3G sulfato, cloreto por difusão e químicos, passivação da armadura
m3 c
(superestrutura) CAA III (>3 kg/m3) capilaridade (carbonatação) e redução da permeabilidade
Ataque intenso por sulfato,
Concreto 40 MPa de obra 1,0 % de Proteção química, passivação da
>360 kg/ cloreto por difusão e
industrial em área litorânea PRAH 3G ou armadura e redução da permeabilidade
m3 c capilaridade
(superestrutura) CAA IV (PRAH 4 G) e autocicatrização (antimicrobiana)
(biodegradação)
c
Consumo mínimo de cimento correspondente a Classe de Agressividade Ambiental (CAA) conforme a Tabela 2 da NBR 12.655:2015

TABELA 4 – CONCRETO ARMADO ESTRUTURAL DE OBRA ESPECIAIS:


DOSAGEM DO ADITIVO CRISTALINO SOBRE O PESO DE CIMENTO (S.P.C.) E CONSUMO MÍNIMO DE CIMENTO NO TRAÇO

Tipo de concreto armado Dosagem Consumo mín. Mecanismo de deterioração Requisitos técnicos
estrutural enterrada do PRAH de cimento do concreto conferidos ao concreto
Concreto 35 MPa de Ataque moderado por sulfato, Proteção contra penetração e ataques
1,0 % de
estrutura hidráulica: cisterna, >340 kg/m3 cloreto por difusão e pressão químicos, passivação da armadura
PRAH 3G
piscina, reservatório hidrostática (carbonatação) e redução da permeabilidade
>360 kg/
Concreto 40 MPa de Ataque intenso por sulfato, Proteção química, passivação
1,0 % de m3 + adição
infraestrutura de ponte, cloreto por difusão e pressão da armadura e redução da
PRAH 3G mineral
túnel e barragem hidrostática (carbonatação) permeabilidade e autocicatrização
(>6% s.p.c.)
Concreto de laje de >360 kg/m3 Ataque intenso por sulfato, Proteção química, passivação
1,0 % de
subpressão 40 MPa com CPIII + SA cloreto por difusão e pressão da armadura e redução da
PRAH 3G
acabamento polido (>6% s.p.c.) hidrostática (carbonatação) permeabilidade e autocicatrização
Corrosão induzida por Proteção química, passivação
Estrutura de saneamento >360 kg/m3
1,0 % de microorganismos (H2S > 20 da armadura, redução da
em contato com H2S (ácido CPIII + SA
PRAH 4G ppm), ataque por sulfatos permeabilidade, autocicatrização
sulfúrico biogênico) (>6% s.p.c.)
e pressão hidrostática e ação antimicrobiana

45
PONTES E ESTRUTUR AS | PONTE L AGUNA

CONCEPÇÃO E
EXECUÇÃO DE
UM PROJETO
OUSADO
DESCRITIVO DETALHADO SOBRE A COMPLEXIDADE DO
PROJETO QUE ENVOLVE O PROCESSO CONSTRUTIVO DA
ESTRUTURA DE UMA PONTE QUE COMPÕE UMA AMPLA
INTERVENÇÃO VIÁRIA NA ZONA SUL PAULISTANA

POR: LUCIANO AFONSO BORGES


INTRODUÇÃO
A Ponte Laguna se insere no complexo
viário da Avenida Chucri Zaidan, inter-
venção viária de grande vulto no âmbito
da Operação Urbana Consorciada Água
Espraida, conduzida pela SPObras, na
cidade de São Paulo. Fazem parte des-
sa intervenção, além da ponte Laguna,
a Itapaiúna e o prolongamento da Chu-
cri Zaidan em uma extensão de 3.150
km, até atingir a avenida João Dias, pro-
porcionando melhorias no trânsito da
região, além de, nesse trecho, constituir entre as pontes João Dias e Morumbi, e
opção complementar à avenida das Na- pelas avenidas Marginal e Itapaiúna, no
ções Unidas. As pontes permitem, além bairro do Morumbi. As pontes Lagunas e
de retornos nas avenidas Marginal e Na- Itapaiúna, de sentidos únicos e opostos,
ções Unidas, ligar os bairros do Morumbi promovem a interligação dessas avenidas.
e Chácara Santo Antônio. Os acessos à ponte Laguna são consti-
tuídos pelos Ramos A e B (ver Figuras 1a e
DESCRIÇÃO DA OBRAS b), que coletam o trânsito procedente da
Chucri Zaidan e da Nações Unidas, des-
SISTEMA VIÁRIO carregando-o na outra margem do rio
O sistema viário em que a ponte Lagu- Pinheiros, onde se encontram acessos
na se insere é composto pelas avenidas também para a avenida Itapaiúna e ao
Chucri Zaidan e Nações Unidas, no trecho bairro do Morumbi.

46 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


DIVULGAÇÃO MAUBERTEC

FIG. 1A – PLANTA GERAL FIG. 1B – IDENTIFICAÇÃO DOS RAMOS A E B

47
PONTES E ESTRUTUR AS | PONTE L AGUNA

A ponte Laguna, além de proporcio-


nar a ligações mencionadas acima, tam-
bém dispõe de uma pista para ciclovia
compartilhada com passeio que interliga
as redes de ciclovias de ambas as mar-
gens do rio Pinheiros, além de propiciar
acesso ao Parque Burle Marx por meio
de passagem inferior situada ao final da
rampa de descida da ponte sobre a ave-
nida Marginal. O Ramo A apresenta duas
larguras de tabuleiro: uma de 15,11m
entre o início da rampa de acesso até a
confluência com o Ramo B (ver Figura 2) FIG. 2 – SEÇÃO TÍPICA RAMO A (E1 ATÉ A CONFLUÊNCIA COM O RAMO B)
e outra de 18,61m após a confluência (ver
Figura 3). O Ramo B tem largura de 9,10m
(ver Figura 4).
Para atendimento à geometria reque-
rida pelo viário, a ponte tem uma confi-
guração curva em planta, com raio rela-
tivamente pequeno de 123,00m e uma
declividade transversal de 3%.

CONCEPÇÃO DA SUPERESTRUTURA
A concepção da superestrutura partiu
da compatibilização da ligação viária a
ser implantada com o viário inferior a ser FIG. 3 – SEÇÃO TÍPICA RAMO A (A PARTIR DA CONFLUÊNCIA COM O RAMO B ATÉ E2)
transposto e com a restrição de colocação
de pilares definitivos no leito do rio Pinhei-
ros, em decorrência da navegação que ali
ocorre. Além desses condicionantes, as
interferências com redes elétricas aérea e
subterrânea de alta tensão, com redes de
gás e de drenagem e com o interceptor de
esgotos da Sabesp, constituíram fatores,
também determinantes, do posiciona-
mento dos apoios da superestrutura.
O atendimento a todas essas condicio-
nantes foi possível mediante a realização
de estudos detalhados que levaram ao
estabelecimento da seguinte configura-
ção e das seguintes extensões dos vãos
da ponte (ver Figura 5);

RAMO A
• Encontro 1, denominado “Caixa 1”:
132,00m;
• Encontro 1 ao apoio AP1: 61,00m;
• Apoio AP1 ao apoio AP2: 91,00m; FIG. 4 – SEÇÃO TÍPICA RAMO B
• Apoio AP2 ao apoio AP3: 103,00m;
• Apoio AP3 ao apoio AP4: 57,00m;
• Apoio AP4 ao apoio AP5: 61,00m; • Encontro 3 ao apoio AP6: 60,00m; margens, associada a um tabuleiro rela-
• Apoio AP5 ao Encontro 2: 51,00m; e, • Apoio AP6 ao apoio AP2: 92,00m tivamente largo, conduziu à escolha de
• Encontro 2, denominado “Caixa 2”: A extensão total da obra perfaz uma superestrutura em concreto pro-
117,00m 920,00m com uma área de tabuleiro de tendido e em seção celular, com altura
13785,15m2. de construção variável de 6,00m a 3,00m
RAMO B A configuração geométrica da obra, para o vão sobre o rio e seus adjacentes,
• Encontro 3, denominado “Caixa 3”: curva em planta, com duas rampas de tendo sido determinada para os demais
95,00m; acesso em formato de “Y” em uma das uma altura constante de 3,00m.

48 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


A geometria relativamente complexa
da ponte decorrente de sua curvatura
e da configuração em “Y” na junção dos
Ramos A e B, exigiu estudos cuidadores
dos esforços produzidos pelas deforma-
ções elástica, lenta de retração, e dos
efeitos da variação térmica, em função
das vinculações estabelecidas nos apa-
relhos de apoio.
Os deslocamentos horizontais relati-
vamente grandes, associados às reações
de apoio também altas, conduziram à
adoção dos aparelhos tipo Vasoflon fixos,
unidirecionais e multidirecionais.
Os aparelhos foram dispostos em du-
pla na cabeça dos pilares, de forma a po-
derem absorver momentos de torção. As
transversinas foram limitadas aos apoios
e uma única na junção das seções unice-
lulares (ver Figura 6).

CONCEPÇÃO DOS PILARES


FIG. 5 – LOCAÇÃO DOS APOIOS E COMPRIMENTOS DOS VÃOS
Os pilares foram concebidos em forma
de cálice convergindo para um fuste com
seção transversal circular para as cargas
menores, e com seção composta por um
trecho central retangular, concordando nas
suas exterminadas com dois semicírculos,
para as cargas maiores. Essa composição
permitiu mantes para todos os pilares a
mesma forma curva do fuste, variando ape-
nas o núcleo central retangular, o que viabi-
lizou uma otimização no reaproveitamento
das formas dos pilares (ver Figura 7).

ESCOLHA DO TIPO DE FUNDAÇÃO


As sondagens executadas recomenda-
ram fundação profunda. Para os pilares
foram adotadas estacas escavadas de
FIG. 6 – UNIFICAÇÃO DAS LONGARINAS NO ENCONTRO DOS RAMOS A E B diâmetro de 1,50m e 2,00m (estacões).
Nos encontros, onde as cargas são me-
nores, foram utilizadas estacas raiz com
A seção transversal escolhida nos Ra- diâmetro de 0,41m.
mos de acesso A e B foi a unicelular com O centro de gravidade do estaquea-
balanços de 3,00m e 2,00m, respectiva- mento foi disposto de forma coincidente
mente. Após o encontro dos dois Ramos, com as resultantes das reações de apoio
a seção adotada foi a de duas células com dos pilares, decorrentes do peso próprio,
balanços de 3,00m, como consequência de forma a resultar, para esse carrega-
da fusão de duas almas das seções uni- mento, uma distribuição uniforme de
celulares em uma (ver Figura 6). Essa cargas nos estacões.
configuração permitiu que o lançamento A presença de dutos enterrados de
da cablagem na região do nó do “Y” fosse cabos de alta tensão da CTEEP – Compa-
facilitado, evitando descontinuidades. nhia de Transmissão de Energia Elétrica
Objetivando proporcionar maior con- Paulista na margem do rio, junto à linha
forto ao usuário e reduzir as demandas da CPTM, foi elemento condicionante
de manutenção, a superestrutura foi para o posicionamento do apoio AP2, o
executada sem juntas, limitando-as ape- mais carregado da ponte, e também para
FIG. 7 – FORMA DO PILAR AP2
nas aos encontros. o arranjo dos estacões.

49
PONTES E ESTRUTUR AS | PONTE L AGUNA

FIG. 8 – LOCAÇÃO AP2 FIG. 9 – LOCAÇÃO AP6

O interceptor de esgotos da Sabesp,


por sua vez, determinou o posicionamen-
to dos estacões do apoio AP6 do Ramo
B e da distribuição das estacas raiz da
“Caixa 3”, tendo sido evitado qualquer
risco de interferência. A localização exata
do interceptor demandou a execução de
plano extenso e detalhado de sondagens
exploratórias.

CONFIGURAÇÕES DOS
BLOCOS DOS APOIOS
Em sua maioria, os blocos tiveram a
configuração usual paralelepipédica, com
a face superior horizontal e a inferior ali-
nhada com o centro de gravidade dos
estacões. Fugiram a essa condição os pi-
lares que foram afetados pela presença
das interferências já mencionadas, como
são os casos dos apoios AP2 e AP6. FIG. 10 – ELEVAÇÃO CAIXA 2
A Figura 8 mostra o posicionamento do
bloco e dos estacões no apoio AP2, em
decorrência da presença dos dutos de como primeira parede transversal. Na foi constituído por dois balanços acom-
cabos da CTEEP. extremidade final a parede transversal panhando a configuração da superestru-
Na Figura 9 é indicada a solução adota- de fechamento se prolonga até a extre- tura e pela laje central dividida em duas
da para a configuração do bloco e a dis- midade do balanço, de onde partem os lajes armadas em uma direção. Como os
posição dos estacões do apoio AP6, para dois muros de ala. encontros são relativamente longos, fo-
evitar a interferência representada pelo Como a laje de cobertura possui um ram previstas juntas a cada 40,00m apro-
interceptor de esgoto da Sabesp. vão relativamente grande, definido pela ximadamente (ver Figura 10).
distância entre as paredes longitudinais, Na “Caixa 3”, em uma das paredes a es-
ENCONTROS foi criada mais uma linha de apoio de taca raiz vertical foi substituída por um ca-
Todos os encontros foram estrutura- estacas raiz entre as paredes, dividindo, valete para evitar a colisão com o intercep-
dos no formato de caixas compostas por assim, o vão da laje. O travamento do tor de esgoto da Sabesp (ver Figura 11).
quatro paredes verticais, duas no sentido estaqueamento foi proporcionado trans-
longitudinal da ponte e duas no sentido versalmente por uma viga ligando as três APARELHOS DE APOIO
transversal. estacas, uma em cada parede longitudi- A especificação dos aparelhos de
As paredes longitudinais foram apoia- nal e uma central. A linha central de es- apoio Vasoflon foi feita a partir da carga
das em estacas raiz e também na traves- tacas entre as paredes foi travada a cada vertical máxima atuante, considerando
sa do pilar de extremidade que funciona par por uma viga longitudinal. O tabuleiro a configuração de dois aparelhos por

50 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


CARGA NOMINAL
APOIO ID TIPO DIRECIONAMENTO
[kN]
Esq 7500 Multidirecional
E1
Dir 7500 Multidirecional
Esq 25000 Unidirecional Paralelo ao
AP1
Dir 25000 Multidirecional eixo da obra
Esq 40000 Unidirecional Direcionado ao
AP2
Dir 35000 Multidirecional Aparelho fixo do AP3
Esq 35000 Fixo
AP3
Dir 30000 Multidirecional
Esq 25000 Multidirecional
AP4
Dir 25000 Multidirecional
Esq 25000 Unidirecional Paralelo ao
AP5
Dir 25000 Multidirecional eixo da obra
Esq 12000 Multidirecional
E2
Dir 12000 Multidirecional
Esq 6500 Multidirecional
E3
Dir 6500 Multidirecional
Esq 16000 Unidirecional Paralelo ao
AP6
Dir 16000 Multidirecional eixo da obra
FIG. 11 – SEÇÃO GENÉRICA CAIXA 3

apoio com capacidade para absorver


momentos de torção a partir do nível de
restrição ao movimento horizontal esta-
belecido. A configuração geométrica da
obra em planta apresenta um nível de
complexidade que demandou estudos
detalhados para o estabelecimento da
melhor configuração dos aparelhos no
que tange a restrições aos movimentos
horizontais oriundos das deformações
elásticas, por retração, por deformação
lenta, térmica, do processo construtivo
e da geometria complexa. Esta configu-
ração não deveria, por um lado, desen-
volver esforços solicitantes indesejáveis
na superestrutura e, por outro, deveria
evitar que houvesse desalinhamento
excessivo entre o encontro e a superes-
trutura. O resultado final dos estudos FIG. 12 – DISPOSIÇÃO E DIRECIONAMENTO DOS APARELHOS DE APOIO
indicou a seguinte configuração:
Inicialmente foi estabelecido o ponto fixo
no apoio AP2, porém, em decorrência das considerando todas as fases construtivas cificada a junta Jeene, adequando o tipo
restrições impostas pelos cabos da CTEEP de forma evolutiva. aos movimentos previstos longitudinal e
na configuração dos estacões, foi necessá- transversalmente (ver Figura 13).
rio alterar o ponto fixo para o apoio AP3. JUNTAS DE DILATAÇÃO A distribuição das juntas e os respecti-
A Figura 12 indica os posicionamentos A obra tem três juntas de extremida- vos deslocamentos longitudinais e trans-
e as direções dos aparelhos na fase final de nos encontros E1, E2 e E3. Foi espe- versais resultaram os seguintes:
da obra. No período de execução, os apa-
relhos de apoio foram provisoriamente
JUNTA TIPO DESLOC. LONG. DESLOC. TRANSV
bloqueados para garantir à superestru-
E1 JJ170120CP 10,00 cm 3,00 cm
tura uma vinculação adequada aos pila-
E2 JJ170120CP 11,00 cm 5,00 cm
res para cada fase construtiva. Os estu-
dos dos deslocamentos foram realizados E3 JJ170120CP 15,00 cm 3,00 cm

51
PONTES E ESTRUTUR AS | PONTE L AGUNA

PROCESSO E SEQUÊNCIA ANÁLISE ESTRUTURAL restrutura, uma avaliação preliminar da


CONSTRUTIVA Os estudos iniciais foram realizados cablagem de protensão, e da vincula-
Como se pode observar na descrição com a modelagem da superestrutura ção da superestrutura aos pilares, bem
da obra, a ponte possui larguras de tabu- considerando a hipótese de comporta- como os direcionamentos dos aparelhos
leiros bastante grandes e raio de curva- mento de barras (ver Figura 15). de apoio, de forma a minimizar os es-
tura relativamente pequena. Em função A partir desse modelo foram realiza- forços horizontais gerados pelas defor-
destas características, e buscando confi- dos os pré-dimensionamentos da supe- mações elásticas, lenta por retração do
gurações de pilares e de superestrutura
que agregassem esteticamente ao entor-
no, a opção adotada foi pela execução
da obra moldada “in loco”, na sua maior
extensão sobre cimbramento, tendo sido
utilizado o processo de balanços suces-
sivos apenas em um trecho sobre a ave-
nida das Nações Unidas, o que liberou o
trânsito de qualquer interferência na pis-
ta local da avenida.
Os trechos moldados “in loco” sobre
cimbramento foram executados por
vãos, complementados por um balanço
do vão seguinte e em seguida protendi-
dos e descimbrados. O escoramento uti-
lizado foi do tipo tubular e nos casos de
travessia de veículos foi deixado um ga-
barito de passagem executado com vigas
metálicas.
A EMAE – Empresa Metropolitana de
Águas e Energia S.A. autorizou a utiliza- FIG. 13 – DISPOSIÇÃO DAS JUNTAS DE DILATAÇÃO
ção de dois pilares provisórios no leito do
rio desde que, após a execução da obra,
fossem completamente retirados, libe-
rando totalmente o canal de navegação,
considerando a cota do fundo prevista
em seu aprofundamento projetado. Du-
rante o período de construção foi deixa-
do um gabarito de navegação de 5,50m
A sequência de execução dos vãos foi
forçosamente ajustada à liberação de in-
terferências, entre elas a autorização da
CPTM para a montagem do escoramento
sobre suas linhas e o alteamento da linha
de transmissão da Eletropaulo que im-
pedia a execução do vão entre os apoios
AP3 e AP4.
Na Figura 14 são indicadas as fases
executivas na sequência estabelecida em
projeto, evidenciando o fechamento do
vão central entre os apoios AP3 e AP4 na
Fase 6, e o “Y” entre os apoios AP1, AP2 e
AP6, na última Fase 7.
FIG. 14 – FASES CONSTRUTIVAS
Esta sequência executiva, no entanto,
teve uma alteração na fase de implanta-
ção que resultou na execução das Fases
1 e 2 em uma única Fase.
O processo executivo foi fator determi-
nante para a configuração do traçado da
cablagem e demandou inúmeras verifica-
FIG. 15 – MODELO TRIDIMENSIONAL EM ELEMENTOS DE BARRA
ções nas fases de protensão.

52 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


(A) (B)

FIG. 16 (A E B) – CABLAGEM MODELADA EM 3D

concreto e por variação térmica, bem ções. Nas transversinas foram pré-mon- início da rocha. Por dentro das camisas
como minimizar os desalinhamentos da tados em decorrência da utilização de metálicas foram montados perfis metá-
superestrutura com os encontros em ancoragens passivas. licos que ficaram embutidos e concreta-
decorrência das deformações, conforme Em função da alta potência dos cabos, dos em cerca de 4,50m dentro dos esta-
já mencionado. estudos detalhados de introdução de cões (ver Figura 17).
A configuração geométrica bastante carga nas saídas dos cabos foram realiza- No trecho livre dentro da camisa foi
curva da superestrutura, associada à va- dos com o objetivo de se obter o fluxo e deixada uma emenda parafusada a cerca
riabilidade das seções transversais pro- o nível das tensões principais nessas re- de 2,00m do fundo do rio para facilitar a
vocada pela junção dos Ramos A e B, a giões, de maneira a permitir uma correta desmontagem futura do pilar metálico e,
ausência de transversinas intermediárias disposição das armaduras. assim, atender a especificação da EMAE
e um processo construtivo bastante par- de ter o leito do rio totalmente livre de
cializado, recomendou a modelagem da CONCRETO interferências.
superestrutura em elementos de chapa, O concreto para a superestrutura, a Sobre estes pilares metálicos, parcial-
os pilares com barras, os blocos como mesoestrutura e os blocos foi especifica- mente embutidos nos estacões, foi mon-
elemento rígidos e os estacões com do com fck = 40 MPa e para os estacões tada uma plataforma, também metálica,
apoios. A cablagem foi modelada por pro- fck = 25 MPa. de onde saíram os pilares de apoio das
cesso desenvolvido pela Maubertec, ten- Foi ainda especificado que todo o treliças metálicas utilizadas para vencer
do sido utilizado o software Sofistik para concreto da estrutura fosse refrigerado, os três vãos de cerca de 37,00m entre os
o processamento do conjunto. com o objetivo de que fossem evitadas apoios provisórios e definitivos do vão
A Figura 16 (a e b) mostra o modelo da fissurações nas fases de pega e cura. sobre o rio (ver Figura 18).
superestrutura e da cablagem Por oportuno, cabe dizer que essa provi- A estrutura utilizada foi toda metáli-
dência tem-se mostrado extremamente ca para facilitar a desmontagem, o que
PROTENSÃO eficaz, até mesmo em casos de envelopa- ocorreu após a concretagem e a proten-
A protensão da superestrutura foi mento de estruturas já existentes. são das Fases 6 e 7. Em operação sequen-
realizada utilizando-se cabos de alta Foram feitas dosagens para atender a ciada, a emenda em flange parafusada do
potência composto por 19 e 27 cordoa- várias situações de densidade de arma- pilar foi liberada em trabalho submerso,
lhas de 15,2 mm de diâmetro de aço CP dura para garantir um adequado adensa- o pilar desmontado, e retirados os tubos
190 RB. As transversinas de apoio das mento do concreto. cravados, por segmento, em decorrência
seções com larguras de tabuleiro maio- O resultado confirmou as expectativas do gabarito criado pela presença da su-
res (AP1 com 15,10m, AP2 com 19,55m, e, de fato, não foram constatados proble- perestrutura já executada.
AP3, AP4 e AP5 com 18,61mm) foram mas de fissuração ou de adensamento
protendidas, tendo sido utilizados em do concreto na estrutura. CONCLUSÃO
algumas delas cabos de 19 cordoalhas
e a Protbar PSB 1080. APOIOS PROVISÓRIOS NO RIO Procurou-se abordar os aspectos mais
No trecho executado em balanços su- Os apoios provisórios dentro do rio relevantes do projeto da Ponte Laguna,
cessivos foram utilizados cabos com 12 tiveram suas fundações feitas com esta- cuja execução ocorreu em perfeito en-
cordoalhas de 15,2mm. cões de 1,30 m de diâmetro, escavados trosamento das equipes de projeto e do
Os cabos foram montados com enfia- em rocha por dentro de camisas metáli- Consórcio Panamby, chave do sucesso do
ção posterior, com algumas poucas exce- cas de 2,20m de diâmetro, cravada até o empreendimento.

53
PONTES E ESTRUTUR AS | PONTE L AGUNA

Deseja-se agradecer inicialmente à


equipa da Maubertec pela dedicação e o
empenho no enfrentamento do desafio
de um projeto complexo, a partir de uma
metodologia nova com novos recursos
de software complementados por de-
senvolvimentos internos durante a ela-
boração do projeto. O agradecimento es-
tende-se também às demais equipes que
participaram do empreendimento, pelo
elevado espírito profissional, dedicação,
colaboração e integração manifestados
durante os períodos de projeto e de exe-
cução da obra.

FICHA TÉCNICA

Proprietário: Prefeitura do Município


de São Paulo – SIURB – Secretaria
de Infraestrutura Urbana
Responsável/Empreendedora:
SPObras – São Paulo Obras
Executora: Consórcio Panamby
(Construbase Engenharia/S.A Paulista
Projetista: Maubertec
Engenharia e Projetos
Controle de Qualidade de
Projeto (CQP): Projenog
Protensão, Aparelhos de Apoio e
Balanços Sucessivos: Protende
Formas e Escoramentos:
ULMA Construction/ Mills
Juntas: Jeene Juntas e
Impermeabilizações
Fundações: Veríssimo Serviços
de Fundações e Engenharia
Estrutura Provisória no Rio
Pinheiros: 4R2A Estruturas Metálicas FIG. 17 – ESTACÕES DOS APOIOS PROVISÓRIOS

FIG. 18 – ARRANJO DAS TRELIÇAS METÁLICAS

54 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


ESPAÇO BIM | A E XPERIÊNCIA E OS DESAFIOS DA UNICAMP

O ENSINO DE
BIM NA UNICAMP
A MELHOR ESTRATÉGIA E AS LIÇÕES PARA INTRODUÇÃO DA DISCIPLINA NA
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, DE FORMA A CONCILIAR O INTERESSE DA
INSTITUIÇÃO, DOS PROFESSORES E DOS ESTUDANTES

F
POR REGINA COELI RUSCHEL
PROFESSORA DA UNICAMP E COORDENADORA DA
oi no processo de preenchimento AU120 PROJETO X: PROJETO INTEGRADO
ESPECIALIZAÇÃO MASTER BIM DO ISITEC dos formulários para candidatura E COLABORATIVO, a décima disciplina
do 2º PRÊMIO DE EXCELÊNCIA BIM de ateliê de projeto do curso. O primei-
na categoria ACADEMIA que me ro oferecimento da disciplina ocorreu em
dei conta que registrava ali os esforços 2007. Teve início no contexto de projeto
para a implantação de BIM nos cursos de auxiliado por computador, com a colabo-
Engenharia Civil e de Arquitetura e Urba- ração mediada por repositórios remotos
nismo da Universidade Estadual de Cam- de compartilhamento de documentos e
pinas (UNICAMP). O histórico resultante evoluiu paulatinamente para o projeto
levou à premiação da UNICAMP por um mediado por BIM em ambientes de cola-
caso de implantação de BIM no ensino de boração em nuvem.
graduação pioneiro e amadurecido. Esta não é a disciplina preferida dos
O processo, decorrido em 10 anos, alunos de graduação de Arquitetura e
envolveu vários professores e alunos de Urbanismo, exatamente por forçar o uso
pós-graduação, em estágio docente, no tecnológico no desenvolvimento de pro-
oferecimento de disciplinas eletivas ex- jeto (modelagem, simulação e comparti-
perimentais e na criação ou adaptação lhamento em nuvem), com mais ênfase
de disciplinas obrigatórias, desenhando do que nos ateliês de projeto anteriores.
um cenário de pesquisa e ação em ensi- A falta de prática com ferramentas de mo-
no com múltiplos ciclos de planejamen- delagem BIM e de simulação, além da difi-
to, execução, monitoramento e análise. culdade de interoperabilidade entre estas
Por incrível que pareça, iniciamos pela é uma barreira significativa. Esta barreira
implantação de disciplinas de projeto co- tem diminuído nos últimos dois anos, mas
laborativo e integrado, para finalizar com ainda existe. Talvez no médio prazo esta
disciplinas de modelagem. barreira se dissipe. Acredito que isto ocor-
Em 2003, ocorreu a primeira reforma rerá quando BIM permear todas as disci-
curricular após 5 anos da criação do cur- plinas de projeto e avaliação de desempe-
so de graduação de Arquitetura e Urba- nho (e.g., estrutural ou ambiental).
nismo da UNICAMP. Nessa reforma, foi O sucesso desta disciplina está no
incluída na grade curricular a disciplina exercício de projeto proposto, o quan-

55
ESPAÇO BIM | A E XPERIÊNCIA E OS DESAFIOS DA UNICAMP

to mais complexo e intrigante, mais os CV902 foi proposta ainda num período Esta disciplina é um sucesso entre os
alunos se envolvem. Em nossa faculda- em que no Brasil o projeto era mediado alunos de Engenharia Civil. As turmas
de, esta disciplina é sempre ministrada por CAD, mas BIM já apontava em pes- são sempre quase lotadas (máximo de
por um par de docentes. Assim, meu quisas e na prática internacional. Desta 40 alunos). Percebe-se atenção e inte-
colega é a chave para este sucesso, forma, esta disciplina foi proposta com resse ao que está sendo ministrado,
pois sou engenheira civil e dependo de ênfase em gestão e integração de pro- discutido e praticado. Muitas vezes os
um professor arquiteto para puxar a jetos, já contendo em seu programa o alunos questionam por que não foram
abordagem projetual da disciplina. As ponto: Evolução de sistemas CAD (CAD introduzidos a BIM antes ou por que não
temáticas de projeto giram em torno da 2D, 3D, 4D até BIM). Melhoramentos fo- o praticaram ao longo do curso! Exis-
hotelaria, habitação, prédios institucio- ram propostos ao longo dos anos por te hoje um movimento entre os alunos
nais, assim como estações metroviárias. mudanças de catálogo aprovadas e dis- para abrir esta disciplina para todas as
São incluídos requisitos de projeto de cutidas na comissão de graduação, e ênfases do curso de Engenharia Civil.
desempenho ambiental. É necessário assim, a disciplina hoje abrange a coor- A disciplina demanda, por parte do do-
planejar como instigar um ambiente ou denação 3D e simulação 4D em BIM de cente, preparação de modelos a serem
condições que requeiram e propiciem forma teórica e prática. utilizados para exercitar a ferramenta e
a colaboração. Assim, além do aspecto A disciplina é oferecida no 5º e último também para iniciar os projetos. Os se-
multidisciplinar no exercício de projeto, ano da graduação em Engenharia Civil. minários realizados pelos alunos sobre
as equipes precisam ser cuidadosamen- Os exercícios em sala de aula e projetos pesquisas internacionais correntes no
te formadas, para garantir a presença extraclasse permitem a integração com meio da disciplina reforça a importân-
de habilidades desejadas em liderança, várias disciplinas de graduação cursadas cia do conteúdo que está sendo minis-
coordenação, sistematização e de mo- anteriormente, a saber: desenho assis- trado e aprendido e motiva dedicação e
delagem e simulação. Os projetos são tido por computador (ou modelagem interesse nos alunos. Muitos, por causa
desenvolvidos em equipes de cinco a em BIM); técnicas construtivas; planeja- desta disciplina, decidem desenvolver o
dez alunos, podendo envolver membros mento e controle de empreendimentos; Trabalho de Conclusão do Curso na te-
externos: alunos de pós-graduação ou sistemas prediais; fundações; projeto mática do BIM.
de graduação de outras disciplinas. O estrutural de edifício de concreto arma- Finalmente, em 2014, as disciplinas
de AU302 INFORMÁTICA APLICADA:
INTRODUÇÃO AO CAD & CV201: DESE-
NHO E PROJETO ASSISTIDOS POR COM-
PUTADOR, dos cursos de arquitetura e
urbanismo e engenharia civil, respecti-
vamente, tiveram seu conteúdo atualiza-
do ministrando-se além do projeto au-
xiliado por computador (CAD 2D e 3D),
também a modelagem BIM arquitetôni-
ca. A disciplina é instrumental e desen-
volvida em laboratório de informática
com dois tipos de treinamento: primeiro
na ferramenta de modelagem BIM Revit
e depois na ferramenta de represen-
tação 2D e modelagem 3D CAD Auto-
CAD. Estimula-se o uso da ferramenta
FIG. 1 – SEQUÊNCIA DE IMPLANTAÇÃO DE DISCIPLINAS OBRIGATÓRIAS E EXPERIMENTAÇÕES
CAD para a modelagem de terrenos e
EM DISCIPLINAS ELETIVAS
curvas de níveis e para a interface com
máquinas de prototipagem. Estimula-se
apoio de um aluno de pós-graduação do e estruturas metálicas dos edifícios a ferramenta BIM para a modelagem no
em Estágio Docente também é essen- industriais. projeto autoral. Especificamente para o
cial, especialmente com competência Destaco o ano de 2012, em que o pro- curso de Arquitetura e Urbanismo, a dis-
em BIM e/ou simulação computacional. jeto dos alunos neste oferecimento foi ciplina é ministrada de forma integrada
Em 2007, aproveitou-se a reforma a compatibilização dos projetos sendo com a disciplina de maquetes oferecida
curricular realizada no curso de gra- desenvolvidos pelos alunos da disciplina no mesmo semestre. As disciplinas com-
duação de Engenharia Civil, para in- AU120. Houve então uma conversa entre partilham o projeto.
troduzir a disciplina obrigatória CV902 os alunos dos dois cursos AU e EC. Os Os alunos de graduação são muito
INTEGRAÇÃO DE PROJETO CAD. A dis- arquivos foram compartilhados via Revit exigentes com relação a esta disciplina,
ciplina foi ministrada pela primeira vez Server entre disciplinas e a turma de AU esperam um docente eficiente, com ha-
em 2011 e seu planejamento ocorreu recebia os relatórios da compatibilização. bilidade didática e competência nas fer-
entre 2008-2009 por meio de uma dis- A revisão dos modelos era orientada por ramentas ministradas. A integração com
ciplina eletiva experimental. A disciplina um check-list. a disciplina de maquetes diminui a so-

56 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


brecarga do semestre sobre os alunos,
pois um único esforço se aplica a duas CENAS DAS ITERAÇÕES EM SALA DE AULA NA
disciplinas e o conhecimento de percep- DISCIPLINA DE PROJETO INTEGRADO E COLABORATIVO
ção espacial adquirido em uma discipli-
na ajuda na outra. Em 2013 foi realizada
uma tentativa de substituir totalmente
o ensino de CAD por BIM. A experiên-
cia demonstrou na época ser inviável,
pois duas outras disciplinas ainda eram
essencialmente baseadas em CAD: to-
pografia e prototipagem de maquetes e
terrenos. Assim, o treinamento em CAD
foi enxugado para a inserção da mode-
lagem em BIM. Existe, de minha parte,
um questionamento, se para a Enge-
nharia Civil não se deveria ensinar o uso
de uma ferramenta de modelagem BIM
mais voltada ao projeto estrutural e de
infraestrutura.
Na formação em BIM incluída nos
currículos de AU e EC da UNICAMP, o
caráter integrador da metodologia é tes-
tado e apreciado de diferentes formas a
depender da disciplina ministrada. Esta
vivência ocorre em sala de aula desen-
volvendo exercícios nos aplicativos utili-
zados ou extraclasse no desenvolvimen-
to de projetos.
No caso das disciplinas AU302 e CV201
em que o enfoque é o aprendizado da
modelagem em BIM, os alunos perce-
bem o caráter integrador do modelo com
a informação e do modelo com a docu-
mentação. Compreende-se o potencial
do modelo para a quantificação e des-
ta forma a integração do modelo com a
orçamentação. Sobre como avaliar os
benefícios da metodologia BIM, como o
enfoque é na modelagem, e os projetos
desenvolvidos envolvem a recriação em
BIM de projetos referências, avalia-se: a
coerência do modelo com a referência, a
precisão da modelagem, a organização
da modelagem, a modelagem do entrono
e o desenvolvimento da documentação
(implantação, plantas, cortes, detalhes,
elevações e perspectivas).
Na disciplina CV902, em que o enfo-
que é a coordenação 3D e a simulação
4D, percebe-se o potencial da metodolo-
gia BIM para integrar diferentes tipos de
projetistas e agentes da construção civil,
trazendo mais qualidade e desempenho
ao projeto e obra. Esta é a disciplina
que mais faz os alunos de engenharia
civil retomar diferentes conteúdos e
conversarem com vários professores
de disciplinas já cursadas. Por exem-

57
ESPAÇO BIM | A E XPERIÊNCIA E OS DESAFIOS DA UNICAMP

EXEMPLO DE TRABALHO INTEGRADO DA DISCIPLINA DE plo, já observei alunos revendo o que


MODELAGEM EM BIM E DE MAQUETE foi aprendido em planejamento e con-
trole de empreendimento e fundações,
quando executaram a simulação 4D de
paredes atirantadas. Sobre como avaliar
os benefícios da metodologia BIM nesta
disciplina, foi dado enfoque na avaliação
de simulações 4D, desenvolvidas extra-
classe, observando-se: a coerência e ní-
vel de detalhamento do cronograma de
atividades para o projeto em questão,
o mapeamento entre o cronograma e o
modelo 3D, os recursos utilizados para
otimizar este mapeamento (regras e/ou
conjuntos), a animação 4D gerada e a
compressão geral do processo.
Nas disciplinas AU120 ou de Traba-
lho Final de Curso vivencia-se o caráter
integrador na tomada de decisão de
desenvolvimento de um novo projeto,
seja este arquitetônico ou de pesquisa.
Aí está o maior aprendizado e a vivên-
cia de todas frustações e benefícios da

EXEMPLO DE PRANCHA DE PROJETO DA DISCIPLINA DE MODELAGEM EM BIM:


CASA DE VIDRO DE LINA BOBARDI

58 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


metodologia BIM. Frustações por questões de
EXEMPLO DE USO DO AMBIENTE DE COLABORAÇÃO A360 interoperabilidade ou de habilidade insuficiente
NA DISCIPLINA DE PROJETO INTEGRADO E COLABORATIVO em ferramental necessário, associado ao tempo
existente para realizar a tarefa. E benefícios da
visualização e da simulação, dando mais insumos
para decisões de projeto. Sobre como avaliar os
benefícios da metodologia BIM nesta disciplina,
observa-se nas entregas de projeto que aspec-
tos da solução são baseados em dados extraídos
da modelagem BIM ou de simulações sobre o
modelo. Também se observa aspectos mensurá-
veis de colaboração como: o depósito e acessos
a ambientes de colaboração sobre o modelo BIM
do projeto e o desenho de mapas de processos
que representam a colaboração vivenciada.
Em síntese, a estratégia de implementação
de BIM no ensino de graduação de Engenha-
ria Civil e de Arquitetura e Urbanismo utilizou
todas as oportunidades possíveis, desde cria-
ção de disciplinas em reformas curriculares,
como atualizações de disciplinas em alterações
anuais de catálogos de graduação. Fez-se várias
PROJETO FINAL DA DISCIPLINA DE PROJETO
experimentações por meio de eletivas e muita
INTEGRADO E COLABORATIVO reflexão a cada oferecimento de uma discipli-
na obrigatória. Envolveu-se diferentes colegas.
Primeiro modificou-se ementa e programa, pois
isto implica em menor impacto entre catálogos
de graduação vigentes e alunos a estes vincu-
lados, além de menor enfrentamento cultural
entre professores colegas. Este processo pro-
piciou uma atual receptividade para mudança
de nomenclatura de disciplina e maiores modi-
ficações de ementas e programas. Incorporou-
-se BIM primeiro em disciplina do final do curso
(projeto e coordenação) e depois no início do
curso (modelagem). Disciplina BIM no início do
curso exercem ação de EMPURRAR BIM (im-
pactam a cadeia de disciplinas). Disciplina BIM
no final do curso exercem ação de PUXAR BIM
(criam demanda). Buscou-se priorizar experiên-
cias multidisciplinares.
Das lições aprendidas orienta-se não ter medo
de experimentar, não perder oportunidades,
cuidar constantemente do que foi conquistado
para não o perder e envolver muitas pessoas no
processo. Identifique no curso disciplinas po-
tenciais para a adoção de BIM. Inicie por onde
existe vocação docente para a incorporação do
BIM. Se não existe a vocação docente propicie
o surgimento. Este processo também apontou
demandas espaciais (layouts mais flexíveis de
sala de aula, diversamente equipadas computa-
cionalmente e com renovada infraestrutura de
comunicação) e de pessoal (BIM manager incor-
porado aos setores de suporte de informática)
que uma instituição de ensino deve possuir para
atingir futuramente novos patamares da imple-
mentação de BIM no ensino de EC e AU.

59
ESPAÇO ABERTO | CBCA

AÇO VIABILIZA
ESTRUTURA ARROJADA
EM FASE DE CONSTRUÇÃO, O PÁTIO DA MARÍTIMA, PRIMEIRO EDIFÍCIO DO
PREMIADO ARQUITETO INGLÊS NORMAN FOSTER NO BRASIL, DESTACA-SE NA
PAISAGEM DA REGIÃO PORTUÁRIA DO RIO DE JANEIRO POR OSTENTAR FACES
ANGULOSAS. O AÇO FOI ESCOLHIDO COMO O PRINCIPAL
ELEMENTO DA COMPLEXA ESTRUTURA, PERMITINDO A
EXECUÇÃO PRECISA DOS PILARES INCLINADOS

O
edifício corporativo Pátio da obter a forma desejada para o edifício caso
Marítima é composto por duas ele tivesse estrutura de concreto. Em aço
torres sinuosas conectadas foi mais simples”, revela Anibal Sabrosa, ti-
pelo topo (a primeira está pre- tular do RAF Arquitetura, escritório brasilei-
vista para ser concluída este ano; já a outra ro contratado pela incorporadora Tishman
em 2020). Quem vai à zona portuária da Speyer para auxiliar no desenvolvimento
capital fluminense, mais especificamen- de estudos do projeto, da concepção até o
te à área de requalificação e revitalização executivo. O arquiteto acrescenta também
urbana Porto Maravilha, é impactado pela que o aço foi essencial para garantir a leve-
ousada arquitetura proposta pelo escritó- za almejada, principalmente no sky lobby. 1
rio Foster + Partners, sediado em Londres, O RAF possui outros projetos no Porto
que assina projetos consagrados mundial- Maravilha, como as estações do VLT da
mente como a Torre Hearst, em Nova York, Central do Brasil e o retrofit do Moinho Flu-
e o arranha-céu londrino 30 St Mary Axe. minense, que terá importantes elementos 2
O empreendimento do Rio tem 140 mil em aço. Produzidas a partir de projeto em
metros quadrados de área – 21 andares de 3D, as peças de aço de 12 a 16 metros de
escritórios e cinco subsolos – e conta com comprimento e ligações parafusadas per-
uma concepção estrutural complexa, ba- mitiram, ainda, uma execução mais limpa,
seada em linhas de vértices que se encon- segura e veloz, além de redução de custos
tram de modo preciso em forma de V e Y. total da obra do Pátio da Marítima. Para sa-
Assim, há diferenças entre os pavimentos ber mais sobre essa obra, acesse o site do
sucessivos e pilares inclinados, que provo- CBCA em: http://www.cbca-acobrasil.org.
cam excentricidades de até 21 metros em br/site/publicacoes-revistas.php
relação à base. Os pavimentos chegam a 3
ter 3,8 mil metros quadrados de área, com
1 A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DA ESTRUTURA
pilares apenas na periferia e no core. Já o SÃO AS MEGACOLUNAS INCLINADAS JUNTO 4
lobby usufrui de pé-direito de 8,5 metros. ÀS FACHADAS COMPOSTAS POR PAINÉIS
Exceto pelo núcleo de elevadores e es- UNITIZADOS E VIDRO DE ALTO DESEMPENHO /
2 AS ESTRUTURAS EM AÇO SÃO FIXADAS COM
cadas, construído em concreto armado, a
TIRANTES METÁLICOS, DO QUARTO PAVIMENTO
estrutura é toda metálica, com lajes execu- PARA BAIXO / 3 E 4 OS PILARES INCLINADOS
tadas em steel deck. Para garantir qualida- DE AÇO SÃO PREENCHIDOS COM CONCRETO E
de e exatidão na montagem das linhas de REVESTIDOS POR ALUMÍNIO
FONTE: CBCA-CENTRO BRASILEIRO DA CONSTRUÇÃO
vértices e fachadas, a opção foi por pilares
EM AÇO
inclinados de aço. “Seria muito complexo

60 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


BOAS PR ÁTICAS CONSTRUTIVAS | DESEMPENHO APLICADO ÀS ESTRUTUR AS

DESEMPENHO APLICADO
ÀS ESTRUTURAS DE
CONCRETO ARMADO
A NORMA DE DESEMPENHO É UMA FERRAMENTA QUE DEVE ESTAR INTEGRADA A UMA
METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO E IMPLANTAÇAO DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

POR ALEXANDRE AMADO BRITEZ Em sua pesquisa, Borges (2008), ainda buscam atender as exigências dos usuá-
descreve que foi na década de 80 que o rios, definindo requisitos e critérios, refe-
tema se desenvolveu no Brasil, especial- rindo-se aos subsistemas que compõem
mente por meio do trabalho do Instituto a edificação habitacional, independente-
de Pesquisas Tecnológicas – IPT para ela- mente dos materiais, componentes e do
boração de critérios voltados a avaliação processo construtivo utilizado.
de sistemas construtivos inovadores, fi- Do ponto de vista da importância técni-
nanciado pelo extinto Banco Nacional da ca, a publicação dessa norma é um marco
Habitação – BNH. na construção civil brasileira, pois abre
Nesse contexto, um texto acadêmico uma oportunidade para o incentivo e bali-
publicado em 1983 que aborda o concei- zamento do desenvolvimento tecnológico
to de desempenho de forma clara, obje- de processos construtivos, permitindo a

A
tiva e contribui para compreensão e sua avaliação da eficiência técnica e econômi-
pesar de ser um conceito antigo aplicação à realidade da construção de ca de inovações tecnológicas.
e já muito discutido no ambiente edifícios é a dissertação de mestrado de Especificamente para estrutura de
acadêmico, devido a publicação Roberto de Souza de 1983, hoje com os concreto armado, abordada na parte 2
da norma Edificações Habitacio- textos acessíveis em um ebook disponível da norma – Edificações habitacionais –
nais – Desempenho – 15575, o assunto de gratuitamente na Internet (SOUZA, 2015). Desempenho – Parte 2: Requisitos para
desempenho aplicado às edificações está Embora seja um documento de cunho os sistemas estruturais –15575-2 (ABNT,
em ampla discussão atualmente. técnico, abordando inclusive assuntos com- 2013), observa-se que se o projeto estru-
Como pode ser observado na pesqui- plexos de Arquitetura e Engenharia em ge- tural estiver de acordo com os requisitos
sa de Borges1 (2008), os primeiros traba- ral, a norma Edificações Habitacionais – De- das normas de referência e demais com-
lhos sobre o conceito de desempenho no sempenho publicada em 2013 pela ABNT, plementares, como a ABNT NBR 6118,
Brasil ocorreram na década de 70, sendo trouxe esse conceito para o público, tanto ABNT NBR 6120, ABNT NBR 6122 e ABNT
destaque o trabalho do professor Teodo- do meio técnico, quanto do meio acadêmi- NBR 6123, os requisitos de segurança es-
ro Rosso da Faculdade de Arquitetura da co. Além disso, notou-se uma forte veicula- trutural e durabilidade estão praticamen-
Universidade de São Paulo. ção na mídia, principalmente pela distorção te atendidos e, inclusive, com seu desem-
conceitual de que ela seria um instrumento penho comprovado ao longo do tempo.
1 Carlos Alberto de Moraes Borges foi um dos
coordenadores da Comissão de Estudos do para solucionar impasses entre a Incorpora- Nesse aspecto, pode-se cometer um
Projeto da Norma Brasileira de Desempe- dora ou Construtora do edifício e o usuário. equívoco, pois o conceito de desempenho
nho e publicou sua Dissertação de Mestra-
do pela Escola Politécnica da USP na mesma Assim como a própria norma define em é amplo, multidisciplinar e envolve o con-
época sobre esse tema. sua introdução, normas de desempenho ceito de abordagem sistêmica, definido por

61
BOAS PR ÁTICAS CONSTRUTIVAS | DESEMPENHO APLICADO ÀS ESTRUTUR AS

Sabbatini (1989), como o modo integrada a uma metodologia


de enfocar e conduzir a resolução de desenvolvimento e implanta-
de um problema com a visão do ção de inovação tecnológica que
conjunto (visão holística), ou seja, envolva, no mínimo, um estudo
no nosso caso, é contextualizar a técnico, um estudo experimen-
estrutura levando em considera- tal, a avaliação de protótipo, bem
ção o seu papel no edifício. como a avaliação em obra piloto.
Para cada parte do edifício são
considerados os requisitos do REFERÊNCIAS
usuário, conforme expressos na
tabela 1. Como a parte 1 já abor- BIBLIOGRÁFICAS
da o invólucro como um todo ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NOR-
FIG. 1 – EXEMPLOS GENÉRICOS DE SISTEMA DE PISO
(15575-1 - ABNT, 2013), a parte (ADAPTADO DE 15575-3 – ABNT, 2013) MAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 15575-
3 os requisitos para as vedações 1: Edificações Habitacionais – De-
horizontais internas (15575-3 - sempenho Parte 1: Requisitos gerais.
TABELA 1 – REQUISITOS DO USUÁRIO (15575-1 - ABNT, 2013)
ABNT, 2013) e a parte 4 as veda- Rio de Janeiro, 2013.
REQUISITOS DO USUÁRIO
ções verticais internas e externas ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NOR-
Segurança estrutural
(15575-4 – ABNT, 2013), na parte MAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 15575-
SEGURANÇA Segurança contra o fogo
2, específica para estruturas, os 2: Edificações Habitacionais – Desem-
Segurança no uso e na operação
requisitos aplicáveis são: segu- penho Parte 2: Requisitos para os
Estanqueidade
rança estrutural, durabilidade e sistemas estruturais. Rio de Janeiro,
Desempenho térmico
manutenibilidade. 2013.
Desempenho acústico
É nesse aspecto que o con- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NOR-
HABITABILIDADE Desempenho lumínico
sultor estrutural deve abordar a MAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 15575-3:
Saúde, higiene e qualidade do ar
parte o edifício sistemicamente. Edificações Habitacionais – Desempe-
Funcionalidade e acessibilidade
Por exemplo, na Parte 3: Requi- nho Parte 3: Requisitos para os siste-
Conforto tátil e antropodinâmico
sitos para os sistemas de pisos mas de pisos. Rio de Janeiro, 2013.
Durabilidade
(15575-3 – ABNT, 2013), caso o ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NOR-
SUSTENTABILIDADE Manutenibilidade
projeto da edificação leve em MAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 15575-
Impacto ambiental
conta que a vedação horizon- 4: Edificações Habitacionais – De-
tal seja apenas a laje acabada2 sempenho Parte 4: Requisitos para
(figura 1), solução comum em edifícios para vedação como um todo (estrutura de os sistemas de vedações verticais internas e
econômicos, ela será responsável pela concreto, alvenaria, revestimentos, jane- externas – SVVIE. Rio de Janeiro, 2013.
estrutura propriamente dita e também las e portas, conforme o caso). BORGES, C.A.M. O conceito de desempenho
pela vedação. A viabilidade do projeto e as soluções em edificações e sua importância para o
Nesse caso, os requisitos de acústica e técnicas devem ser discutidas de forma setor da construção civil no Brasil. 2008.
estanqueidade, por exemplo, são aplica- sistêmica na fase de concepção de proje- 263p. Dissertação (Mestrado) – Escola Politéc-
dos diretamente para laje, pois ela está to, visando o atendimento do desempe- nica da Universidade de São Paulo, 2008.
fazendo a função da vedação horizontal. nho das diversas partes do edifício. Essa SABBATINI, F.H. Desenvolvimento de méto-
Da mesma forma, uma parede de concre- abordagem contribui tanto para o aper- dos, processos e sistemas construtivos:
to que tem função estrutural, projetada feiçoamento dos profissionais envolvidos, formulação e aplicação de uma metodo-
apenas com pintura como acabamento, quanto para os padrões mínimos de quali- logia. 1989. 336p. Tese (Doutorado) - Escola
irá assumir a função de vedação vertical. dade da habitação. Politécnica, Universidade de São Paulo. São
A norma de desempenho além de im- Em relação às novas tecnologias, a nor- Paulo, 1989.
pulsionar a adoção de novas tecnologias e ma estabelece requisitos, critérios e mé- SOUZA, A.L.R.; MELHADO, S.B. Projeto e exe-
processos construtivos, induz a discussão todos de avaliação que permitem a devida cução de lajes racionalizadas de concreto
da interface de todas as partes do edifício avaliação para introdução de novos pro- armado. 1ª edição. São Paulo: O Nome da
e dessas partes com os elementos e com- cessos construtivos com maior segurança. Rosa, 2002. 116p. (Coleção Primeiros passos
ponentes, pois os requisitos são aplicados Em nosso país não se tem a cultura de da qualidade no canteiro de obras).
investimento em desenvolvimento tecno- SOUZA, R. O conceito de desempenho apli-
2 Conforme classificação proposta por Souza lógico na construção civil, por isso muitas cado às edificações. São Paulo, 2015 – tex-
(2002), as lajes acabadas são lajes de con-
tecnologias importadas que tem sucesso to extraído de SOUZA, R. A contribuição do
creto armado racionalizadas que oferecem
um substrato com adequada rugosidade no exterior, fracassaram em diversas ten- conceito e desempenho para a avaliação do
superficial, planeza e nivelamento ou decli- tativas por aqui. edifício e suas partes: aplicação às janelas e
vidade, necessários à fixação ou assenta-
mento da camada final de piso, dispensando A norma de desempenho é uma ferra- uso habitacional. 1983. 181p. Dissertação
a camada de contrapiso. Ao longo dos anos menta criteriosa para aplicação de novas (Mestrado) - Escola Politécnica, Universidade
elas foram conhecidas no mercado como
“laje zero”, denominação errônea, visto que
tecnologias, mas não assegura por si só de São Paulo. São Paulo, 1983. Disponível em:
apresenta tolerâncias em sua execução. o sucesso da implantação. Ela deve estar http://cte.com.br/livro-desempenho.

62 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


NOTAS E E VENTOS

CONGRESSO BRASILEIRO DE PONTES E


ESTRUTURAS CHEGA A SUA DÉCIMA EDIÇÃO

E
ntre os dias 9 a 11 Considerado no setor
de maio, o Rio de como um dos mais im-
Janeiro será a sede portante evento brasilei-
do X Congresso ro das áreas de pontes e
Brasileiro de Pontes e Es- estruturas, o Congresso
truturas. Organizado e pro- 2018 terá um temário que pre-
movido por uma parceria
entre a ABECE – Associação XCBPE tende abranger: projeto,
construção, recuperação,
Brasileira de Engenharia e X CONGRESSO BRASILEIRO reforço e manutenção de
Consultoria Estrutural e a pontes, estádios, edifí-
DE PONTES E ESTRUTURAS
ABPE – Associação Brasilei- 9 a 11 de maio - Rio de Janeiro cios, indústrias, metropo-
ra de Pontes e Estruturas, o litanos, portos, barragens,
evento tem como objetivo plataformas offshore, ae-
divulgar trabalhos de pesquisas e de apli- renomados palestrantes e profissionais rogeradores e fundações, além de as-
cações que resultem em inovação e atua- da área. Como nas edições anteriores, pectos relacionados com normatização,
lização dos conhecimentos nas várias o Congresso deve atrair o interesse de experimentação, análises e dimensiona-
áreas de engenharia de estruturas, além profissionais da área de projeto, pesqui- mento de estruturas de concreto arma-
de apresentar os mais atuais e importan- sadores e estudantes de engenharia de do e protendido, metálicas, alvenaria e
tes temas do setor com a participação de todas as regiões do país. materiais avançados.

PARATY QUA-9/5 QUI-10/5 SEX-11/5

ABPE - ABECE
Geraldo Filizola e Gilberto do Valle Carlos Henrique Siqueira
CERIMÔNIA DE ABERTURA
9:00-10:00 O Projeto do Museu de Os 10 Mandamentos para uma
Homenagem ao
Arte do Rio (MAR) Ponte ter Vida Longeva
Engº Ubirajara Ferreira da Silva

Borja Baillés
Alberto Lodi, Fábio Stocco, Zacharias Chamberlain
Ponte Atlântico – Estudo prático
Carlos Henrique Siqueira Projeto e comportamento
10:30:11:30 em soluções para aparelho de
Ponte Rio-Niterói: Novos Desafios, de viga esbeltas em pontes
apoio e junta de dilatação modular
Compromissos e Responsabilidades mistas aço concreto
seguindo as normas do AASHTO

Alex Barros de Sá e Minoru Onishi Acir Mércio Loredo-Souza


Romão de Almeida
11:30:12:30 Sistemas Construtivos na A nova norma brasileira de vento:
Sistemas de Protensão e Estais
Engenharia Brasileira principais alterações da NBR-6123

Leonardo Patrício Chaves


Flavio Caseres e José de Alencar Iberê Martins da Silva
Concepção, Projeto e Desempenho
13:30-14:30 Juntas de Dilatação: Revisão da Norma de Projeto
dos Reservatórios de Combate
Antigos Problemas - Novas Soluções de Pontes de Concreto
a Enchentes da Bacia da Tijuca

Gabriel Fernandes e Peter Guenther Julio Timerman


Soluções de Engenharia para Construção Acelerada de Pontes Fernando Stucchi
14:30-15:30
Aparelhos de Apoio e Juntas de para Atender às Demandas A Ponte sobre o Rio Guaíba
Dilatação Estruturais no Brasil da Infraestrutura Nacional

José Almir Novo Bueno Mario de Miranda Luciano Afonso Borges


16:00-17:00 Selantes para Juntas de Pontes Pênseis e Estaiadas: Projeto das Pontes
Dilatação em Obras de Arte Novas Ideias Itapaiúna e Laguna

Leonardo Tavares, Rafael Lara e Matias Andres Valenzuela Saavedra


Marcos Beier MOP/ Pontificia Universidad Hugo Corres Peiretti
17:00-18:00 A Transformação Digital Católica de Valparaíso A Evolução do Model Code 2010
na Infraestrutura de Proyectos Singulares de Puentes em para o Model Code 2020
Pontes e Estruturas Chile: Experiencia Puente Chacao

63
NOTAS E E VENTOS

A programação deste ano prevê um


SÃO PEDRO QUA-9/5 QUI-10/5
total de 26 palestras com a participação
de conferencistas nacionais e também 9:00-10:00
vindos da Alemanha, Itália, Chile, Espa- Rui Oyamada
nha e Estados Unidos. Na solenidade Viaduto Estaiado de Acesso da
10:30:11:30 SEMINÁRIO
Linha 13 Jade da CPTM ao Aeroporto
de abertura será prestada uma home- Internacional de Guarulhos DE MANUTENÇÃO
nagem especial a Ubirajara Ferreira da DE PONTES
Tamara Freire
Silva, engenheiro potiguar que registra Ampliação do Edifício Garagem
11:30:12:30
em seu currículo a construção de 490 T2 no Galeão: Soluções com
BubbleDeck e Pré-Fabricados
pontes, viadutos e passarelas, além da
Augusto Claudio P. e Silva e
análise de cerca de 1.200 projetos de Filemon Botto de Barros Oswaldo Barbosa
pontes. 13:30-14:30 Arco Estaiado Sobre a Projeto estrutural e de
Avenida.Brasil e Acessos fundações do Terminal Offshore
O Congresso será realizado no Hotel
de Minérios do Porto do Açu
Pestana Rio Atlântica (Avenida Atlânti- Ernani Diaz Mario Terra Cunha
ca, 2964 – Copacabana, Rio de Janeiro- 14:30-15:30 O Projeto de Pontes com o Uso Soluções estruturais para a
-RJ) e as inscrições podem ser feitas por Intensivo de Computadores arquitetura de Oscar Niemeyer
meio do link http://www.cbpe2018.com. Evandro Porto Duarte Rildo Soares Salgado
16:00-17:00 Um Novo Mercado para o Sistema de Acesso
br . A programação preliminar do even- Concreto Protendido no Brasil Suspenso Quikdeck
to pode ser conferida abaixo e também Ronaldo C. Battista
no link http://www.cbpe2018.com.br/ 17:00-18:00 Projeto e Aerodinâmica de
site/programa.php Torres de Turbinas Eólicas

REGIONAL MINEIRA DA ABECE FIRMA TERMO


DE COOPERAÇÃO TÉCNICA COM O CREA-MG
PARA CERTIFICAÇÃO PROFISSIONAL

A
regional da ABECE de Minas Ge- -MG, sendo um suplente, é um órgão dire- certificando o recebimento das mesmas;
rais acaba de firmar, com o Con- tivo, de caráter deliberativo, que tem por disponibilizar estrutura física e de pessoal
selho Regional de Engenharia, finalidade coordenar, avaliar e certificar os necessárias para a implementação das
Arquitetura e Agronomia de Mi- profissionais, garantindo a coerência com ações conjuntas. É incumbência da ABECE
nas Gerais (CREA-MG), um Termo de Coo- as legislações pertinentes e com as normas também finalizar o regulamento para con-
peração Técnica para certificação profis- específicas de cada participante. cessão do certificado para conhecimento
sional que ateste a capacidade técnica Pelo estabelecido no Termo de Coopera- prévio do CREA-MG, que poderá sugerir
dos profissionais da área de engenharia ção Técnica, caberá ao CREA-MG: prestar alterações, se considerar necessárias. É
estrutural. Por meio do Termo assinado, as informações relativas ao acervo técnico igualmente de responsabilidade da ABECE
que tem validade de cinco anos, estão dos profissionais, requeridas pela Comis- divulgar a existência do Termo de Coope-
previstas a promoção de ações conjun- são de Avaliação por meio da CAT no prazo ração, além de indicar responsáveis pelo
tas, no âmbito das respectivas atribuições definido no plano de trabalho. O CREA-MG acompanhamento e fiscalização do objeto
legais e estatutárias das duas entidades, também se compromete a disponibilizar pactuado entre as duas instituições.
que contribuam para a certificação profis- estrutura física e ceder pessoal necessário De acordo com o diretor da regional
sional de engenheiros nas áreas de proje- para implementação das ações conjuntas de Minas Gerais da ABECE, Hélio Pereira
tos e consultoria estrutural. estabelecidas, além de divulgar, por meios Chumbinho, a iniciativa para a concretiza-
De forma prática, a cooperação prevista de publicidade próprios, a existência da ção do Termo de Cooperação Técnica com
no Termo se dará por meio de informações Cooperação. A entidade também deverá o CREA-MG era uma ideia que já vinha sen-
constantes no Acervo Técnico dos profis- indicar responsáveis pelo acompanhamen- do objeto de discussão pela direção nacio-
sionais avaliados pela Comissão de Avalia- to e fiscalização do objeto pactuado. Por nal da ABECE. “Nós, aqui em Minas, junto
ção que foi formada, por intermédio de CAT fim, o CREA-MG também autoriza o uso com outras entidades ligadas aos segmen-
(Certidão de Acervo Técnico) emitido pelo gratuito, pela ABECE, da sua marca Minerva tos de engenharia de projetos, tínhamos
CREA-MG, que servirá, como os demais cri- a ser impressa nos certificados expedidos iniciado, há alguns anos, entendimentos
térios objetivos, para o deferimento ou in- e na divulgação do Termo de Cooperação. para a concretização de uma parceria com
deferimento da certificação ao profissional. Já as obrigações da ABECE são: reque- o CREA para o fornecimento de certifica-
A Comissão de Avaliação, que é constituída rer, de forma expressa e no prazo previs- ção. Em razão disso, conseguimos fechar
por quatro associados da ABECE, sendo to, as informações relativas ao acervo téc- os entendimentos em tempo relativamente
dois suplentes; e dois indicados pelo CREA- nico dos profissionais a serem avaliados, rápido e saiu o Termo”, explica o dirigente.

64 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018


PUBLICAÇÕES

TESES E DISSERTAÇÕES
REFORÇO DE PILARES CURTOS DE CONCRETO ARMADO POR ENCAMISAMENTO COM
CONCRETO DE ULTRA ALTO DESEMPENHO
RESUMO – O presente trabalho utilização a menos que acompanhada mulações, notou-se que a adição de
avaliou a influência dos concretos de de mecanismos que garantam ade- pequenos incrementos de espessura
ultra alto desempenho com fibras quado confinamento do pilar reforça- da camisa de UHPFRC, proporciona
(UHPFRC) e sem fibras (UHPC) no re- do. Nos pilares circulares e quadrados elevados incrementos de resistência
forço de pilares curtos de concreto reforçados com UHPFRC foram veri- ao pilar reforçado, ao passo que o
armado de seção transversal circular ficados, respectivamente, incremen- aumento do número de camadas de
e quadrada. Avaliou-se também a adi- tos de resistência de 106,4% e 83,6% PRFC não influenciaria significante-
ção de armaduras adicionais de re- onde o concreto do cobrimento foi mente no incremento de resistência e
forço e de polímeros reforçados com substituído por UHPFRC, 154,3% e sim na ductilidade do conjunto.
fibras de carbono (PRFC) em alguns 111,7% onde além da substituição do AUTOR – Rodrigo Mazia Enami
pilares reforçados. Para a avaliação cobrimento foram inseridas armadu- ORIENTADOR – Ricardo Carrazedo
deste novo sistema de reforço optou- ras adicionais e 160% e 85,6% onde TIPO DO TRABAHO – Tese de Dou-
-se pela realização de um programa houve a colocação de PRFC após a torado
experimental e simulações numéri- substituição do cobrimento. Todos os ESCOLA – Departamento de Enge-
cas. É importante ressaltar que no pilares reforçados com UHPFRC não nharia de Estruturas da Escola de En-
programa experimental, nenhum pilar apresentaram destacamento da cami- genharia de São Carlos-USP
reforçado possuía seção transversal sa de reforço. Foram realizadas simu- PALAVRAS-CHAVE – Reforço de pila-
maior que a seção do pilar de referên- lações numéricas variando a espessu- res. Concreto de ultra alto desempe-
cia. Foi verificado por meio do progra- ra da camisa de UHPFRC e do número nho. PRFC. UHPFRC. UHPC.
ma experimental, que as camisas de de camadas de PRFC tanto nos pilares LINK – http://www.teses.usp.br/
UHPC apresentaram ruína de natu- de seção circular como nos pilares de t e s e s /d i s p o n i v e i s / 18 / 1813 4 / t d e -
reza frágil e não se recomenda a sua seção quadrada. Por meio destas si- 05122017-104206/pt-br.php

ANÁLISE EXPERIMENTAL DA PUNÇÃO DE LAJES LISAS TIPO BUBBLEDECK


RESUMO – Esta pesquisa avalia ex- nominal com 280 mm, pilar circular de concreto a ser considerada na se-
perimentalmente o comportamento com 300 mm de diâmetro e mesma ção do perímetro crítico. Verificou-se
da ligação laje-pilar, localizadas inter- taxa de armadura. Os parâmetros que o método construtivo não inter-
namente à edificação em um sistema variados foram: método construtivo, feriu de forma considerável na resis-
de lajes lisas de concreto armado, utilização ou não de pré-laje; e utili- tência ao cisalhamento na ligação la-
de uma recente técnica construtiva zação de armadura de cisalhamento. je-pilar das lajes Bubbledeck e que a
de lajes de concreto armado, deno- Os pontos analisados nos resultados armadura de cisalhamento adotada
minada Bubbledeck. Essa técnica experimentais foram: os desloca- mesmo conferindo maior ductilidade
consiste em um método construti- mentos verticais, deformações na à laje, também não conferiu maior
vo composto pela adição de esferas superfície do concreto, deformações incremento de resistência à punção.
plásticas em lajes de concreto arma- na armadura de flexão e cisalhamen- AUTOR – Henrique Jorge Nery de
do, uniformemente espaçadas en- to, fissuração e o modo de ruptura Lima
tre duas telas de aço, com uso cada de cada laje. Os dados experimentais ORIENTADOR – Guilherme Sales
vez mais frequente em países como foram comparados com os métodos Soares de Azevedo Melo
Holanda, Austrália, Estados Unidos, teóricos estabelecidos em normas TIPO DO TRABAHO – Dissertação
Canadá, Reino Unido e Dinamarca. de projeto. As normas avaliadas fo- de Mestrado
Foram analisadas quatro modelos ram: o ACI 318 (2011), o Eurocode 2 ESCOLA – Universidade de Brasília
de lajes nesse estudo experimental, (2010) e a NBR 6118 (2014). Uma vez PALAVRAS-CHAVE – Ensaios não
três lajes do tipo Bubbledeck e uma que nenhuma destas normas não destrutivos. Ultrassom. Concreto.
laje maciça de referência, todas as tratam desse sistema construtivo de Primeiras idades. Lajes alveolares.
lajes possuem dimensões de 2500 lajes Bubbledeck, foi proposta uma LINK – http://repositorio.unb.br/
x 2500 mm de comprimento, altura adaptação na determinação da área handle/10482/18978

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AGENDA

CALENDÁRIO DE
CURSOS
13 e 14 ABRIL PROJETO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO COM AUXÍLIO DE MODELOS DE BIELAS E TIRANTES –
Local: Belo Horizonte/MG

18 e 19 MAIO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Goiânia/GO

24 e 25 MAIO PROJETO DE REFORÇO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO – Local: Salvador/BA

25 e 26 MAIO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Belém/PA

15 e 16 JUNHO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Blumenau/SC

15 e 16 JUNHO PROJETO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO COM AUXÍLIO DE MODELOS DE BIELAS E TIRANTES – Local: São Paulo/SP

29 e 30 JUNHO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Vitória/ES

13 e 14 JULHO PROJETO E EXECUÇÃO DE LAJES PROTENDIDAS: CONCEITOS, APLICAÇÕES E PRÁTICA – Local: São Paulo/SP

1 3 e 14, 20 e 21 JUL. PROJETO ESTRUTURAL DE EDIFÍCIOS EM ALVENARIA ESTRUTURAL – Local: Curitiba/PR

20 e 21 JULHO PROJETO DE LAJES PROTENDIDAS EM EDIFÍCIOS – Local: São José do Rio Preto/SP

26 e 27 JULHO PROJETO DE REFORÇO DE ESTRUTURA DE CONCRETO ARMADO – Local: Porto Alegre/RS

3 e 4 AGOSTO DIMENSIONAMENTO À PUNÇÃO EM LAJES PELA NBR 6118:2014 – Local: Blumenau/SC

9 e 10 AGOSTO PROJETO DE REFORÇO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO – Local: São José do Rio Preto/SP

17 e 18 AGOSTO MODELAGEM DE ESTRUTURAS DE EDIFÍCIOS – Local: São Paulo/SP

31 AGO. e 1º SET. PROJETO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO COM AUXÍLIO DE MODELOS DE BIELAS E TIRANTES (2º MÓDULO) –
Local: São Paulo/SP

14 e 15 SETEMBRO CÁLCULO DE PILARES DE CONCRETO ARMADO – Local: Vitória/ES

21 e 22 SETEMBRO PROJETO DE LAJES PROTENDIDAS EM EDIFÍCIOS – Local: Recife/PE

27 e 28 SETEMBRO PROJETO DE REFORÇO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO – Local: Brasília/DF

28 e 29 SETEMBRO MODELAGEM DE ESTRUTURAS DE EDIFÍCIOS (2º MÓDULO) – Local: São Paulo/SP

5 e 6 OUTUBRO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Porto Alegre/RS

8 e 9 NOVEMBRO PROJETO DE REFORÇO DE ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO – Local: Aracaju/SE

9 e 10 NOVEMBRO CÁLCULO DE PILARES DE CONCRETO ARMADO – Local: Campo Grande/MS

23 e 24 NOVEMBRO INTERAÇÃO SOLO-ESTRUTURA: CONCEITOS E APLICAÇÕES EM PROJETOS ESTRUTURAIS – Local: Natal/RN

30 NOV. e 1º DEZ. CÁLCULO DE VIGAS MISTAS DE AÇO E CONCRETO SEGUNDO A NBR 8800:2008 – Local: São Paulo/SP

Outras informações: http://site.abece.com.br/index.php/eventos | abece@abece.com.br | (11) 3938-9400


A lista acima está sujeita a alterações e é necessário um número mínimo de participantes.
Em caso de cancelamento do curso, os valores pagos na inscrição serão reembolsados.

66 RE VISTA ESTRUTUR A | ABRIL • 2018