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RESUMO

Este trabalho tem por propósito o estudo de um problema específico: o das demarcações culturais que têm lugar, em finais do século XIX e inícios do século XX, entre Brasil e Portugal. Percorrem-se duas linhas de análise: a primeira procura explicar os contornos da escala cultural luso-brasileira no período em análise; a segunda busca equacionar a construção das matrizes identitárias nacionais emergentes na referida escala.

Para este efeito, desenvolve-se uma pesquisa em três etapas: a) a detecção dos mecanismos de funcionamento articuladores da mencionada escala cultural luso-brasileira; b) a identificação dos fundamentos teóricos mobilizados naquele mesmo âmbito; c) o estudo das matrizes identitárias produzidas no contexto do movimento relacional pluriescalar das culturas “portuguesa” e “brasileira”. Esta incursão trabalha sobre as noções de historicidade, fundação e origem e evidencia a nuclearidade das mobilizações da história nos processos de construção identitária em Portugal e no Brasil.

APRESENTAÇÃO

Este livro é o resultado de uma pesquisa desenvolvida durante os anos 2002 e 2006 e que culminou em minha Tese de Doutorado em História, defendida em 2007, na Universidade de Coimbra, Portugal. Sua publicação após tanto tempo, naturalmente, conterá algumas ausências bibliográficas ou lacunas relativamente às produções mais

contemporâneas. Mesmo assim, acreditamos que isso não prejudicará o cerne das análises, nem tampouco justificaria uma reescrita completa. Preferimos respeitar o caráter da produção acadêmica tal qual ela foi recebida pelos arguentes. Fizemos apenas algumas alterações muito superficiais nalgumas partes do texto, tentando deixá-lo mais direto. Intocável permanece a estima pelos anos vividos em Portugal e pelo muito aprendido em Coimbra, dentro e fora da Universidade. Igualmente incólume resta meu agradecimento aos amigos daqueles tempos, bem como

à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), pelo apoio financeiro e

pela confiança nesta investigação. Ao Doutor Rui Cunha Martins, professor

e amigo inestimável, quero deixar um agradecimento especial: este trabalho seria impossível sem orientação e sua ajuda, seja as de aprendizado acadêmico, seja as valor humano.

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PREFÁCIO

Rui Cunha Martins Universidade de Coimbra

1. O trabalho que tenho o grato prazer de apresentar contém

méritos de vária ordem. É oportuno, é arguto, é rigoroso e é, a partir de

hoje, de consulta indispensável. Um dos aspetos mais notáveis será o modo

como o autor parece escutar, em cada dobra da exposição, as solicitações

da problemática. Uma problemática que ele mesmo construiu (assim

escapando ao terreno armadilhado do senso comum historiográfico sobre a

matéria em estudo) e que tão depressa lhe parece solicitar matéria

argumentativa quanto empírica. Tudo se joga então na capacidade para

optar, em cada momento, pela matéria pertinente. Invariavelmente, Marçal

Paredes opta de forma consistente. O trabalho fica ganho em cada um

desses momentos.

2. A segunda metade do século XIX e os inícios do século XX

correspondem, à escala luso-brasileira – também à escala ibero-americana

– a um momento de particular esforço de clarificação identitária por parte

das nações envolvidas. Como é usual em casos que tais, esse esforço tem

expressão em fenómenos de demarcação cultural e política, no

estabelecimento de diferentes escalas de referência identitária, na

reavaliação de memórias nacionais e na sobreposição concorrencial entre

os vários critérios avançados para os fins demarcatórios em vista.

Compreende-se, neste contexto, que ao levantar-se a questão do

relacionamento entre as entidades político-culturais brasileira e portuguesa,

tópicos como a dívida, a herança, a fraternidade, a diferença e a

originalidade impusessem um estado de permanente mobilização das

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historicidades, ele mesmo desafiador do lugar da história nos processos de definição dos contornos nacionais. E compreende-se, de igual modo, que todo este complexo cruzamento de razões desembocasse em verdadeiras fricções demarcatórias e naquilo a que convém chamar “turbulências do limite”. É de uma descodificação desta zona de turbulência que se ocupa o autor.

3. Da sua análise exaustiva torna-se possível isolar cinco

propostas de resolver o problema da fronteira à escala transatlântica: (i) o entendimento do Brasil como prolongamento de Portugal e, portanto, o entendimento de uma “longa” e eterna fronteira portuguesa, prolongando- se na fronteira brasileira tanto quanto na africana; (ii) a recusa da leitura anterior por via de uma demarcação de sentido oposto, qual seja, a de um

afastamento brasileiro da herança portuguesa; (iii) o alargamento da primeira proposta – a da continuidade, portanto –, a uma escala ibérica de referência, no âmbito da qual os povos sul-americanos são entendidos como neo-ibéricos (pressupondo, assim sendo, uma “longa” e eterna fronteira ibérica, prolongando-se na América); (iv) a recusa desta última proposta por via da contraposição de uma escala americanista de referência, ela sim passível de demarcar as culturas sul-americanas; (v) a proposição de uma demarcação brasileira pela originalidade, isto é, basicamente, pela celebração do carácter singular do mestiço. A deteção de semelhante painel

é mérito que cabe por inteiro ao autor do trabalho, que teve por bem não

limitar o inquérito a uma única área disciplinar de informação, preferindo

inclinar a pesquisa sobre tabuleiros simultâneos – políticos, historiográficos

e literários –, procedendo ao respetivo cotejo. As vantagens da sua opção estão à vista.

me é permitido, neste local, chamar a atenção, em

particular, para alguma daquelas matrizes interpretativas, faço-o

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4. Se

relativamente à última, a da celebração da mestiçagem. Pelo seguinte motivo: tal como sucede com a noção de “fronteira interior”, de matriz fichteana, na qual o limite como que se desdobra em direção a si mesmo, também aqui, nessa proposta de sabor romeriano, o limite é mobilizado não a partir da sua clássica função delimitadora mas a partir dessa sua paradoxal propriedade que é a produção de dada centralidade. No caso do debate brasileiro da segunda metade do século XIX é como se ao elemento híbrido, feito referenciação identitária central, passem a reconhecer-se insuperáveis funções demarcatórias. Marçal Paredes percebe bem a nuclearidade deste aspeto, conferindo-lhe o devido enquadramento.

5. O autor percebe, como resulta inequívoco da sua análise, que a

ambição de diferenciação face às raízes portuguesa, ibérica e europeia (diferenciação também almejada, a breve trecho, frente ao negro e ao índio) redunda numa aspiração de originalidade. Uma demarcação pela singularidade e pela essência, pela clara delimitação dos caracteres específicos, eis do que se trata. Uma fronteira definida a partir de dentro, dir-se-á também. A ideia pode resumir-se num objetivo: estabelecer as fronteiras da nação ali mesmo naquele ponto exato em que deixar de se sentir o eco daquilo que se entenda ser a genuinidade nacional. O híbrido, pois, é expressão de uma fronteira interior, à maneira fichteana. Ora, como sabemos, esta ou é tida por ponto de partida (o “genuíno nacional”) ou é apeadeiro (a “gradual autonomização” da forma mestiça) de uma longa marcha para o futuro. Um trajeto futuro tão ilimitado quanto se acreditava ser então o destino dos povos que, no seguimento da sua própria marcha evolutiva, se haviam voltado para si próprios na demanda do respetivo traço distintivo. Uma demanda ilimitada. E não forçosamente saudável. Que a historiografia contemporânea tenda a ser complacente com as demandas identitárias em nada altera este diagnóstico. Uma advertência que mais se justifica após a leitura do brilhante trabalho de Marçal Paredes.

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Configurações Luso-Brasileiras: Fronteiras Culturais, Demarcações da História e Escalas Identitárias (1870-1910).

INTRODUÇÃO

08

PARTE I – CONFIGURAÇÕES LUSO-BRASILEIRAS

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1.

Redes discursivas

17

1.1.

Circuitos políticos: referencialidade

transnacional e “comunidade de sangue”

19

 

1.2.

Divulgação científica: critérios de

recepção e alegoria do “povo irmão”

40

2.

Interpretações concorrenciais

58

2.1. O ponto de vista da derivação

59

2.2. O ponto de vista da convergência

73

2.3. Os cultores do distanciamento

83

3.

Modalidades de relacionamento

97

3.1. A linha da dissensão, ou a instrução das polêmicas

98

3.2. A linha do consenso, ou o ambição do comemoracionismo

119

PARTE II. – FUNDAMENTOS TEÓRICOS: HISTORICIDADE E DEMARCAÇÃO

138

1. O “arco de outra nova ponte” e o “bando de ideias novas”

140

2. A frente cientificista e seus níveis de relacionamento

156

2.1. Difusão do Positivismo: perspectiva comparada

157

2.2. Ortodoxias e Heterodoxias: primeirasdemarcações

163

2.3. Os eixos ultra-ortodoxo e demoliberal

175

2.4. Derivas da heterodoxia: os “evolucionismos”

180

2.5. O eixo materialista-monista

199

3.

Demarcação e Historicidade: mobilizações republicanas

203

6

PARTE III – ESCALAS IDENTITÁRIAS: A PROBLEMÁTICA DA

ORIGINALIDADE

214

1. A obsessão temporal da alteridade luso-brasileira

217

2. A Herança e o Mal de origem: a lição da História (e sua inversão) 224

3. Moçárabes e Mestiços: a concorrência da forma híbridal

260

4. Riograndeses e Sertanejos: a intersecção portuguesa do

regionalismo brasileiro

292

CONCLUSÃO: As Fronteiras Culturais Luso-brasileiras

302

FONTES

307

BIBLIOGRAFIA

318

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INTRODUÇÃO

O trabalho que aqui se inicia tem por propósito o estudo de um

problema específico: o das demarcações culturais que têm lugar, em finais do século XIX e inícios do século seguinte, entre Brasil e Portugal.

Semelhante problema exige um inquérito em duas frentes. Uma, que dê conta do quadro relacional em que haverão de ter lugar aquelas demarcações, ou seja, dos respectivos níveis de articulação, das intersecções informativas, dos nós críticos e argumentativos, ou dos

pressupostos doutrinários, em suma, que saiba explicar as características da configuração cultural luso-brasileira. Uma segunda linha de análise deverá, por seu lado, ser capaz de descodificar o debate de ideias produzido naquele contexto, identificando os alinhamentos e as faturas de índole teórica, o caráter científico ou filosófico dessas cisões, os suportes ideológicos mobilizados, o intuito político das distintas demarcações e as correspondentes escalas de incidência, isto é, que seja capaz de equacionar

a construção das matrizes identitárias emergentes na configuração cultural luso-brasileira.

A decisão de investir em semelhante projeto de pesquisa está

condicionada por uma constatação: embora separados politicamente desde

a independência do Brasil em 1822, a atmosfera de troca e divulgação

cultural que se mantém para além dessa data admite a percepção de uma

referenciação comum às culturas portuguesa e brasileira. Na verdade, a existência de uma mesma comunidade cultural envolvendo brasileiros e portugueses, no final do século XIX, foi já intuída por alguns estudos, com destaque para a obra de Beatriz Berrini, que sustenta ter havido, também no Brasil, tal como em Portugal, uma Geração de 70. Fundamentada em ampla pesquisa epistolar, a autora refere “a recíproca amizade de portugueses e brasileiros, convivendo em especial no estrangeiro, que se entendiam muito bem, que estenderam os laços criados pelo mútuo conhecimento aos familiares, que dialogavam quer acerca dos negócios particulares como dos públicos, envolvendo as respectivas pátrias, partilhando inquietações, frustrações, problemas, sempre em busca de soluções dignas e honrosas. Não compunham dois grupos distintos porém formavam uma mesma plêiade em que brasileiros e portugueses se confundiam” ( 1 ). Uma mesma plêiade. Por certo que sim. Aliás, provas de um intenso relacionamento entre os intelectuais brasileiros e portugueses do período não faltam. Fornece-as a própria Beatriz Berrini: “dois endereços eram familiares a uns e outros: os brasileiros conheciam a residência parisiense de Eça, seja a da rue Charles Laffitte, 32, como a da avenue du Roule, 38, sem mencionar o consulado. Eram os portugueses inversamente assíduos às residências de Eduardo Prado em Paris, quer à moradia da rua Casimir Perier, 3, quer a da place de la Madeleine, sobretudo estavam familiarizados com o número 194, Rue de Rivoli. Nesta última, Eça e Ramalho foram por mais de uma vez hóspedes de Prado” ( 2 ). E fornece-as também Elza Miné, em trabalho sobre Jaime Batalha Reis, onde traz importantes elementos sobre esse convívio luso-brasileiro também em

1 BERRINI, Beatriz. Brasil e Portugal: a geração de 70. Breves indicações dos correspondentes brasileiros e portugueses por Paulo Franchetti e Beatriz Berrini. Prefácio de Isabel Pires de Lima. Porto: Campo das Letras, 2003, p.86. Grifos nossos. 2 Idem, ibidem, p.45

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Londres. Conforme explica esta autora, entre Jaime Batalha Reis e o grupo de brasileiros, houve “uma natural comunhão” que fora “propiciada e facilitada pelas raízes comuns, pela língua comum” e reforçada pela “presença de amigos comuns, como é o caso de Eça de Queirós (particularmente com relação a Eduardo Prado e Domício da Gama), e ligações, também comuns, com a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro” ( 3 ). A constatação de uma dimensão de contato e de projetos em curso envolvendo os intelectuais lusos e brasileiros – em contextos muito precisos, é verdade – depreende-se sem dificuldade. As questões que diante deste quadro se colocam são as seguintes: a da dimensão reflexiva dessa mesma plêiade sobre o caráter e o significado desse próprio relacionamento; a do grau de representatividade desse grupo no contexto dos debates emergentes sobre o relacionamento entre Brasil e Portugal; a da inevitável “separação de águas” teóricas que igualmente caracterizaria aquela esfera intelectual, até pelo previsível alinhamento diferencial de cada um dos seus componentes com linhas interpretativas mais englobantes sobre a matéria luso-brasileira. Ora, é nosso entendimento que a única forma de equacionar com a devida profundidade estas questões é a de, libertando-nos da “plêiade”, alargarmos o âmbito da pesquisa, entregando- nos, metodologicamente, à “escala”. Estudar a relação, mas também aquilo que nela existe de demarcação. Colocar o problema do relacionamento luso-brasileiro em termos de configuração equivale a aceitar a sua intrínseca complexidade, bem como a privilegiar uma leitura que não se limite a ser o somatório de cada uma das escalas das culturas nacionais, mas assuma como seu desafio maior o esclarecimento da relação estabelecida por cada uma dessas culturas com uma dimensão transnacional sem a qual elas próprias resultariam incompreensíveis. Explicitar, portanto,

3 MINÉ, Elza. “Prefácio” REIS, Jaime Batalha. O Descobrimento do Brasil intelectual pelos

portugueses do século XX. Organização, prefácio e notas de Elza Miné. Lisboa, Dom Quixote,

1988.

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o “funcionamento” dessa configuração luso-brasileira terá que ser o nosso primeiro patamar analítico. Dissensões, convergências, rupturas teóricas: demarcações, em suma. Eis um nível de relacionamento inscrito num âmbito configuracional. Descortinar o sentido explicativo destas modulações estéticas e as direções teórico-doutrinárias e filosófico-políticas subjacentes deverá constituir, em seguida, o objetivo de um segundo patamar de reflexão. Mas haverá, no concreto, matéria “luso-brasileira” que permita o seu efetivo enquadramento e, sobretudo, a detecção do respectivo significado? Justificar-se-á o investimento a que nos propomos? Ensaiemos, desde agora, um exercício exploratório. Situe-se o problema no ano de 1880. Em Março desse ano, no prefácio às suas Soluções Positivas da Política Brasileira, Luiz Pereira Barreto declarava ter “a convicção que as nossas condições políticas e sociais não melhorarão enquanto não tiverem por ponto de partida uma modificação correspondente na situação de Portugal. O fio da história não se rompe. Somos filhos de Portugal: a ele estamos presos por todos os laços indissolúveis de uma lei natural. A fatalidade biológica, o determinismo sociológico dominam toda a nossa história. É em vão que procuraremos esquivar-nos à pressão do passado. Temos sido, somos e seremos portugueses” ( 4 ). No mesmo ano de 1880, entretanto, Sílvio Romero manifestava abertamente sua inconformidade com a proposta estética e identitária brasileira que propunha “ou cantar o caboclo ou seguir o português”. Frente a este quadro, disparava: “Punge refutar coisas tais. O índio não é o brasileiro, mas o português também não; a alternativa entre o

4 BARRETO, Luiz Pereira. “Soluções Positivas da Política Brasileira” [1880]. In: Obras Completas, Volume III. Organizado por Roque Spencer Maciel de Barros. São Paulo:

Humanitas, 2003, p.17

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cauin e vinho verde é antigualha – carunchosa. É preciso descortinar, entre os dois extremos, alguma coisa de melhor” ( 5 ). Por essa altura, o debate manifestava assinalável amplitude. Ainda nesse mesmo ano de 1880, Miguel Lemos, um dos líderes do positivismo brasileiro, escrevia – em Paris e a pedido de Pierre Laffitte – uma obra para celebrar o tricentenário da morte de Camões. Dizia, então, que “le successeur d’Auguste Comte a lui-même exposé au public, à la fin de la dernière leçon de son Cours de morale, les motifs exceptionnels de cette délégation. Il est utile, a-t-il dit, que la glorificcation du meilleur type portugais soit faite à Paris, et soit faite par un Brésilien : il y aura là une démonstrations éclatante de l’universalité de la nouvelle religion, qui glorifie les services des grands hommes de tous les pays, et qui parvient à éteindre, chez les descendants coloniaux des populations européennes, les haines sorties des luttes de l’independence nationale, en y substituant un sentiment profond de la continuité historique. La glorification de Camões, du type le plus caractéristique qu’ait produit Portugal, sera d’autant plus décisive qu’elle émanera d’un Brésilien”( 6 ). Esta publicação, assim como os demais eventos celebrados no Brasil em homenagem ao tricentenário camoniano, não tiveram acolhimento uniforme. É verdade que foram recebidos em Portugal com grande satisfação, por exemplo, por Teófilo Braga. Este autor, na revista O Positivismo, em 1880, afirmava serem o Brasil e Portugal “filhos da mesma tradição histórica, [pois] falamos a mesma língua, e exercemos uma ação mútua que precisa ser conhecida e dirigida”. E dizia mais: “Foram os Positivistas brasileiros que restabeleceram estas condições naturais da reciprocidade dos dois povos, e a festa do Centenário de Camões tinha de ser lucidamente aproveitada para dar às emoções da coletividade a

5 ROMERO, Sílvio. A literatura brasileira e a crítica moderna. Rio de Janeiro: Imprensa

Industrial, 1880, p.75-76

6 LEMOS, Miguel. Luiz de Camões. Paris: Siège Central du Positivisme, 1880, p.III

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coerência de uma evidente noção racional. Ainda surgiram dissidências de particularismo de bandeira, tentando isolar a colónia portuguesa em uma manifestação exclusiva; [mas] as circulares dos positivistas brasileiros foram ouvidas, e em Paris a festa do Centenário de Camões foi sustentada no sentido profundo que continha por brasileiros que ali seguem cursos científicos. Os poderes públicos do Império, o parlamento brasileiro, o ministério e o próprio imperador compreenderam o alcance do Centenário de Camões para a confraternidade dos dois povos. A festa dos Positivistas do Rio de Janeiro, apesar do incalculável e extraordinário esplendor das outras manifestações impôs-se à admiração pelo seu alcance filosófico” ( 7 ). Entretanto, não podem as avaliações deste teor omitir as vozes discordantes que se levantaram perante as comemorações, a exemplo da do crítico literário cearense Araripe Júnior. Para ele, a festa camoniana no Brasil, “erguendo o orgulho colonial, amesquinhou o espírito nacional” ( 8 ). Outras opiniões num ou noutro sentido poderiam aqui transcrever-se. Não nos parece, neste momento, que tal seja necessário. Este brevíssimo panorama é, por si só, esclarecedor da imperiosa necessidade de tratar em âmbito configuracional o relacionamento cultural luso-brasileiro. Com atenção à propensa instabilidade dos alinhamentos e à sua não obrigatória coincidência com as escalas nacionais de referência, buscar-se-á dar importância ao cotejo dos fundamentos teóricos subjacentes a cada uma das intervenções daquele tipo e do seu grau de interferência sobre as diferentes concepções de escala transatlântica. Em igual medida,

7 BRAGA, Teófilo. “O Centenário de Camões no Brasil”. O Positivismo: revista de filosofia. Segundo Ano, n.6, Agosto-Setembro, 1880, p.513-514. 88 ARARIPE JR., Tristão de Alencar. Lucros e Perdas, n.º2, julho 1883. In: ARARIPE JUNIOR, Tristão de Alencar, Lucros e Perdas. In: Obra Crítica de Araripe Júnior. Volume I (1868-1887). Direcção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p.323-360.

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analisar-se-á a diversidade de critérios mobilizados na instrução dos argumentos em disputa. A história – enquanto interpretação –, mais do que qualquer outro critério, parece dotada de alguma centralidade a este nível. Dito isto, importa adiantar que este trabalho parte de uma convicção. Precisamente a que pressupõe o lugar nuclear da história no quadro dos critérios de reordenamento cultural e identitário convocados em escala luso-brasileira. Antevemos que a obsessão temporal que se percebe na discursividade portuguesa e brasileira, ainda mais quando está em causa

o relacionamento entre ambos os países, é expressão do potencial da

história como mecanismo de demarcação identitária. E quando pensamos nos indícios dispersos que autorizam a supor o caráter dramático com que é debatido, no âmbito luso-brasileiro, o problema da originalidade, ou seja, a disputa pela singularidade relativa a cada uma das culturas – também aí – uma vez mais, é com a historicidade com que nos deparamos. A análise do uso do critério da originalidade histórica condiciona uma série de questões:

i) quem interpreta o “passado” e com que intuito? ii) com quais pressupostos doutrinários? e iii) produzindo quais consequências ao nível do relacionamento entre as escalas “portuguesa” e “brasileira”

inerentemente implicadas? Numa palavra: como foi a história mobilizada?

A resposta a estas questões poderá considerar-se a matéria conclusiva deste

trabalho. A verificação de toda esta linha interpretativa constituirá, naturalmente, o terceiro e último patamar da investigação. Não vale a pena antecipar aqui reflexões constantes no desenvolvimento do trabalho a seguir. Estas considerações introdutórias já são suficientes para ilustrar os principais desafios que se colocam a esta investigação. Resta, porém, espaço para algumas advertências. Uma delas é o fato desta pesquisa, justamente por assumir carácter relacional e situar-se na confluência não apenas de um objeto compósito (como que repartido por, pelo menos, dois pólos de observação), estar também na confluência

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de duas historiografias distintas. Tal fato implica, por vezes, um desequilíbrio ao nível da informação disponível e da cobertura analítica de determinados assuntos. Trata-se de um dos preços a pagar por uma investigação efetuada com teu desiderato. Ao longo do texto, assinalamos sempre que possível essa situação, procurando incorporar a dimensão

historiográfica no leque de fatores passíveis de interferir na problemática. A anterior advertência é também uma chamada de atenção para o problema do ponto de vista. Aspecto de transcendente importância para um estudo com este, comprometido com as questões da escala de análise e com

a necessidade de bem definir o lugar de onde se fala. Devemos esclarecer

que este trabalho, embora sendo tributário de dados e de análises reportados a Portugal e ao Brasil, não é um trabalho sobre qualquer um destes países individualmente considerados. Em rigor, a sua linha de ação é

a luso-brasileira: essa é a escala que constitui o seu objeto e é a ela que

devem reportar-se os investimentos analíticos produzidos. É natural que, ao perseguir esse objetivo, as considerações e os dados levantados sejam transponíveis para os âmbitos de pesquisa de cada uma das culturas portuguesa e brasileira. Isso é inevitável. Contudo, estaremos, assim, ao

nível de vantagens colaterais trazidas pelas nossas indagações. O nosso ponto de vista responde por uma vinculação transatlântica em suas diferentes escalas. Ou seja, seu caráter configuracional. O mesmo se diga da lógica seguida quanto às fontes e ao material bibliográfico utilizado: a mesma postura ditou uma criteriosa – mais do que exaustiva – consulta das obras disponíveis para cada um dos lados, em relação aos diversos assuntos. Optou-se por ambicionar uma cobertura tão extensa quanto possível dos trabalhos situados no horizonte transcultural luso-brasileiro.

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I. A CONFIGURAÇÃO CULTURA LUSO-BRASILEIRA.

De acordo com os pressupostos atrás enunciados, a primeira parte deste trabalho destina-se a caracterizar as dimensões tópicas dessa configuração de ideias, realizações e intercâmbios que designamos por configuração luso-brasileira. Trata-se, de perscrutar no seio desta entidade escalar os principais níveis de articulação vigentes, principalmente onde se expressa o funcionamento de um eixo cultural compósito, a um só tempo nacional, regional e transnacional e que, assim sendo, incorpora o problema dos cruzamentos e sobreposições entre estes vários níveis ( 9 ). Nesta perspectiva, são três as dimensões cuja análise se afigura mais operativa: uma primeira, de caráter comunicacional, que trata da constituição das redes discursivas em dimensão luso-brasileira; uma outra, de caráter hermenêutico, que analisa as interpretações concorrenciais que se debatem naquele mesmo âmbito; e uma última, de cunho estético, que pretende caracterizar as modalidades de relacionamento produzidas em resultado daquelas redes e daquelas interpretações. A exploração complementar destes três aspectos permitirá o conhecimento seguro das linhas de funcionamento da configuração luso-brasileira. Uma advertência deve ser feita: as páginas que se seguem – e, em termos genéricos, toda esta primeira parte do trabalho – assume uma feição

9 Embora com diferente foco e em contexto distinto, veja-se o tratamento que Arriscado Nunes dá a este conceito em NUNES, João Arriscado. “Reportórios, configurações e fronteiras: sobre cultura, identidade e globalização”. Cadernos do CES, Oficina n°43, Janeiro de 1995.

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algo descritiva no tocante à compilação de dados. Esta circunstância deve ser entendida como o preço a pagar pela aposta na expressividade dos exemplos concretos e das citações textuais, assim como pela necessidade de reunir, sistematicamente, uma série de materiais dispersos e a carecerem de uma atribuição de significado. É nossa convicção que esse sentido começa por ser a expressividade do dialogismo cultural luso-brasileiro – tanto na vertente da convergência, quanto na da dissonância, ambas tomadas, para além de sua especificidade, como expressões desta dinâmica. Por isso, a nossa tarefa tem de ser a elucidação desse movimento dialógico nas suas distintas modalidades. Disso trata toda a Parte I. Tornar-se-á possível, em seguida, surpreender os problemas culturais e teórico-políticos nodais forjados neste contexto, isolando-os para lhes conferir centralidade no âmbito da análise. É o que acontecerá nas Partes II e III deste trabalho.

1. Redes Discursivas.

O último quartel do século XIX e os primeiros anos do século XX denotam, no quadro do relacionamento luso-brasileiro, uma particular disponibilidade e uma especial atenção a assuntos implicando qualquer uma das margens do Atlântico, a começar pelos acontecimentos políticos registrados em ambos os países. Seja qual for a ótica considerada, a impressão que se tem é a do conhecimento mútuo que, pelo menos no âmbito intelectual, a cultura portuguesa e a cultura brasileira parecem cultivar um canal informativo eficaz e a possibilidade do estabelecimento de pontes e linhas de contato. Assim sendo, torna-se incontornável conferir alguma arrumação a essa multiplicidade de circuitos, operar distinções dentro dessa dinâmica, identificando aquilo que, décadas atrás, Michel Foucault apelidou redes

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discursivas, isto é, núcleos de significado distintos entre si e agrupando com alguma coerência, em torno de uma ideia nevrálgica ou de uma série de princípios, distintos autores e distintas posições, conjuntural ou tendencialmente alinhados numa mesma rede interpretativa ( 10 ). No caso da presente investigação, merecem destaque dois grupos temáticos, ou dois circuitos luso-brasileiros. Um deles capta-se na atividade cronística: trata-se do conjunto de crônicas políticas e colunas de opinião reportadas a assuntos tanto portugueses como brasileiros – mas, justamente, logo tornados assuntos luso-brasileiros. Este conjunto patenteia um notável intercâmbio informativo e uma circulação permanente de ideias entre os distintos pólos de relacionamento, redundando no estabelecimento de paralelos políticos e ideológicos e de exercícios históricos comparativos a pretexto dos acontecimentos respectivos. Já o outro – ou, na terminologia adotada, a outra “rede discursiva” – situa-se ao nível da divulgação da ciência positiva no contexto luso-brasileiro, um arco teorico que, ao promover a figura da “ciência” – ou melhor, de um determinado entendimento da “ciência” – a esteio congregador dos padrões de relacionamento cultural, promove a construção de uma discursividade concatenada em torno dos positivismos. Neste ponto, deve-se chamar atenção para o seguinte: as duas diferentes redes discursivas assumem e dão significado distinto ao relacionamento luso-brasileiro. A primeira trabalha a partir das intervenções de um Oliveira Martins, de um Eduardo Prado, ou de um Eça de Queirós. A segunda convoca nomes como Júlio de Mattos, Teixeira Bastos, Carlos Koseritz, Assis Brasil, Alberto Sales, Isidro Martins Júnior, Sílvio Romero, Teófilo Braga. Vejamos cada uma delas com mais detalhe.

10 FOUCAULT, Michel. O que é um autor?Lisboa: Veja, 1992.

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1.1 Circuitos políticos: referencialidade transnacional e “comunidade de sangue”.

A crônica dos acontecimentos brasileiros, no período que vai de 1870 até ao final do século XIX, foi um assunto que mobilizou o interesse do público leitor português; mobilizou, e isso é seguro, o interesse de seus intelectuais. Na impossibilidade de dar conta de todas as expressões dessa atenção, tomaremos como posto de observação privilegiado, a atividade cronística de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, vertida em diversos periódicos. Desde suas contribuições para a Revista Ocidental, em 1875, até às publicadas em 1890, no jornal O Tempo, ou mesmo as de 1891, no jornal Nacional, percebe-se que os assuntos brasileiros têm um papel importante no rol das suas preocupações.

1.1.1. Comecemos pelos textos publicados na Revista Ocidental, na seção “Crónicas e Revistas”, mais exatamente na coluna intitulada “Portugal e Brasil” ( 11 ). De modo sucinto, pode afirmar-se que o interesse do colunista J. P. de Oliveira Martins, que assinava “P. de Oliveira” ( 12 ), estava direcionado para cinco assuntos: a “questão religiosa”, bastante exacerbada no Brasil; a imigração portuguesa naquele país; os problemas econômicos portugueses (advindos das políticas do governo brasileiro para com o imigrante português); a situação política portuguesa; a construção e a ampliação dos caminhos de ferro em Portugal. Interessam-nos alguns destes pontos.

11 Recentemente essas crônicas de Oliveira Martins foram publicadas no volume J.P. de Oliveira Martins. Portugal e Brasil. Introdução e notas de Sérgio Campos Matos, fixação do texto de Bruno Eiras e Sérgio Campos de Matos. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa,

2005.

12 De acordo com Sérgio Campos Matos, J.P. de Oliveira Martins teria assinado como P. de Oliveira, possivelmente, em homenagem a seu avô. Consultar as notas introdutórias inseridas em J.P. de Oliveira Martins. Portugal e Brasil. Introdução e notas de Sérgio Campos Matos, fixação do texto de Bruno Eiras e Sérgio Campos de Matos. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2005.

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O colunista “P. de Oliveira” (Oliveira Martins), em praticamente todas as suas crónicas, menciona os acontecimentos decorrentes da chamada “questão religiosa” do Brasil ( 13 ). Semelhante temática está celeradamente fora do nosso escopo. O contexto português do respectivo debate, porém, deve merecer alguma atenção, sendo nessa perspectiva – e só nela – que nos deteremos sobre o assunto. Recorde-se, pois, que logo no primeiro número da Revista Ocidental o cronista começara por afirmar que “as questões de modus-vivendi entre o Estado e a Igreja são ainda hoje das que se impõem, com uma gravidade superior” ( 14 ). Nesse quesito, entretanto, considera que “sofre actualmente mais desse antagonismo o Brasil que nós. São conhecidos os incidentes do conflito que parecia terminado com a condenação e encarceramento dos bispos do Pará e Olinda. Esses actos com que o governo brasileiro reproduz a política do chanceler alemão, não encontram no império brasileiro, como encontram no da Europa, o apoio firme das populações protestantes ou velho- católicas. Católico na sua totalidade o Brasil, menos depurado o sentimento religioso, menos elevado o grau de cultura intelectual, devemos temer pelo resultado da luta que a condenação dos bispos acirrou amargamente?” ( 15 ). Independentemente de razões de outra índole (que abordaremos a seu tempo), o olhar vigilante do autor sobre o caso brasileiro e a respectiva incorporação no seu núcleo argumentativo decorrem de matéria de princípio. Na realidade, considera ele que os fatos relativos à questão religiosa no Brasil não constituem meras questões de ordem conjuntural, mas sim o produto de um antagonismo de princípios. Por isso, “pouco vê quem apenas considera os acontecimentos desta ordem como filhos das

13 Recorde-se que a “Questão religiosa”, ao lado da “Questão Militar” e da “Questão da Escravidão”, é geralmente tratada pela historiografia brasileira como uma das três questões que tiveram importante papel no “ocaso do Império” de D. Pedro II, para usar uma expressão de Oliveira Vianna. Cf. VIANA, Oliveira. O Ocaso do Império. São Paulo: Editora Melhoramentos. 2ª edição, 1925.

14 Revista Ocidental, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1875, p.115.

15 Idem, ibidem, p.116.

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ambições, dos interesses, das pequenas paixões que, sem dúvida, acompanham sempre as acções humanas. Questões religiosas, como a que agita o Brasil, são inevitáveis no nosso tempo, em que as relações do Estado e da Igreja não podem assentar em bases racionais, mas somente num sistema de concessões recíprocas e de frágeis concordatas, que um momento aconselha, que o momento seguinte repele”; isto porque, sustenta, “falta-lhes a base firme da filosofia”. Trata-se, com efeito, de uma questão estrutural, pois o “sistema de instituições que se deduz dos princípios do catolicismo romano, não é compatível com o sistema de instituições que se deduz da filosofia do direito nas nações europeias” ( 16 ). Daí a necessidade de se fazerem reformas que cerceassem o poder político temporal que os bispos mantinham, reformas essas entendidas como “as melhores armas para combater as tentativas reaccionárias: não que a política deva deixar de as atacar de face quando saem a campo, nem de as minar por todos os modos à medida que se vão pronunciando em tendências ainda indefinidas. O primeiro caso é o do Brasil, o segundo é o de Portugal, onde, se não temos ainda bispos encarcerados, nem vivas e fogueiras ao divino, temos já o pequenino conflito do cabido de Bragança, tão pequenino que o deixei para o fim, com a tenção firme de apenas o mencionar”. E, como conclusão, a apontar para o caso português, remata o colunista: “Não vale a pena gastar cera com ruins defuntos” ( 17 ). A frase com que encerrou a coluna de 15 de Fevereiro de 1875 não o impediu, entretanto, de voltar ao assunto. Ter-se-á, de alguma forma, sentido obrigado a fazê-lo. É que a intervenção pública de Oliveira Martins sobre a questão religiosa motivava reações adversas. Assim, no fascículo publicado em 15 de Abril do mesmo ano, P. de Oliveira confessa-se “curioso” perante a manifestação agressiva vinda da parte do jornal Bem

16 Idem, ibidem, p.116-117.

17 Idem, ibidem, p.118-119.

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Público: revista eclesiástica e literatura. Diz ele que “o rápido incidente do cabido de Bragança, e a gravíssima questão do clero brasileiro, a que mais de uma vez me tenho referido aqui, mereceram-me da parte do Bem Público uma saraivada de grosserias, que não sei se são ultramontanas, mas que nem são delicadas nem piedosas” ( 18 ). Na verdade, a avaliar pelas transcrições do referido jornal que o próprio Oliveira Martins se encarrega de fornecer aos seus leitores, incorporando-as nas suas crônicas, os argumentos martinianos eram ali refutados palmo a palmo ( 19 ). Não apenas os relativos à questão religiosa em Portugal, mas também – o que toma particular sentido para a presente investigação – aqueles relativos à questão religiosa brasileira, a qual, ao que se percebe, era matéria conhecida também por esta outra fonte da polêmica. Tanto assim é que, em uma das suas colunas, dirá o Bem Público, em resposta a P. de Oliveira: «Escusado

é dizer que, falando da questão religiosa do Brasil, a Revista se mostra boa

irmãzinha nos três pontos; e que até aos jesuítas e aos bispos presos atribui

a revolução matuta dos quebra quilos, – coisa que nem as folhas semi-

oficiais do Brasil se atrevem já a sustentar, por ser demasiadamente calva»”

( 20 ).

Está claro que os acontecimentos de além-mar eram seguidos de perto por ambas as partes em confronto ( 21 ). E o comentário dos assuntos

18 Revista Ocidental, Ano I, Tomo I, fascículo 5º, de 15 de Abril, 1875, p.624.

19 Oliveira Martins aproveita para dar uma amostra ao seu leitor, transcrevendo um trecho, das páginas do Bem Público de 1875, de onde respingam ácidas críticas em eco à recente Questão Coimbrã, como se vê: “«Coimbra que está sendo o foco pestilento de Portugal, o verdadeiro poço do abismo de onde saem os vapores deletérios que o vão matando, não podia deixar de ser um dos centros mais activos da maçonaria, que ali tem o caracter pechincheiro e cobarde dos lords da batota»”. Idem, ibidem, p.624-625.

20 Idem, ibidem. Grifos no original.

21 Recorde-se, a este propósito e a título exemplar, a alusão de P. de Oliveira “ao que o imperador afirma no discurso de abertura do parlamento, que o correio nos trouxe há dias, [a saber]: «A ordem pública foi perturbada em vários pontos do interior de quatro províncias do norte.

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brasileiros propiciado por esse intercâmbio informativo constitui um palco mais da exacerbação dos debates da época, servindo de pretexto para um enfrentamento mais entre criticismo e ultramontanismo ( 22 ). Dito por outras palavras: a uma efetiva circularidade informativa entre ambos os lados do Atlântico, exemplarmente sugerida por este caso, correspondia um correlativo alinhamento de posições e princípios em escala não apenas nacional mas, justamente, transnacional. Neste âmbito, os acontecimentos de um ou de outro lado ganhavam súbita amplitude de significado a cada vez que eram convocados a alargar o referente argumentativo e, com isso, se estendia para um contexto luso-brasileiro as múltiplas linhas de fissura que ecoavam, pelo menos, desde as Conferências do Casino. Com isso, percebe-se que as partes em disputa buscavam arcos de legitimação de amplitude atlântica, percorrendo as correntes de significado construídas ao sabor dos enfrentamentos estruturais ou meramente conjunturais. Em qualquer dos casos, se mobilizava o debate em uma referencialidade transnacional. Nem obrigatória nem tendencialmente predominante, talvez. Mas, sem dúvida, passível de ser efetivada em circunstâncias determinadas e em função de razões justificadas. Estas, contudo, não se resumiam à

Bandos sediciosos, em geral movidos por fanatismo religioso, e preconceitos contra a prática do sistema métrico, assaltaram as povoações, destruindo os arquivos de algumas repartições públicas e os padrões dos novos pesos e medidas»”. Idem ibidem, p.624-625. Grifos no original.

22 Vê-se que a pena de Oliveira Martins habilmente cria a imagem de um ultramontanismo necessariamente vencido pela marcha histórica. O uso político no debate desta compreensão filosófica da história é claro. Nesta toada, escreverá que “além do meu respeito, os ultramontanos têm direito a exigir de mim a compaixão que se deve a todos os vencidos. Ninguém bateu já mais no inimigo caído. Se a baba lhe escorre dos lábios nas vascas de uma agonia longa, se a dor lhe arranca impiedades e blasfémias, nem a baba nem as imprecações nos chegam a todos os que temos serena a consciência e piedoso o coração. Outro é o nosso Deus, e no vosso, como bons filhos, respeitamos um momento sublime da revelação histórica. Podeis insultar-nos, não podeis vencer-nos; e se por desgraça, no revoltear torvo dos incidentes tempestuosos da vida das nações, um acaso vos desse uma hora de poder efémero, nem as vossas forças, nem as vossas fogueiras alterariam nunca a serenidade do nosso ânimo…”. Idem, ibidem.

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fluidez da informação, nem a matéria de princípio filosófico. Estando em causa as relações entre Portugal e Brasil, aquela referencialidade era – para alguns – matéria de sangue.

1.1.2. É o que se deduz quando passamos à abordagem do problema da

imigração portuguesa no Brasil, perspectivado por Oliveira Martins nas linhas da citada coluna “Portugal e Brasil”. A dramaticidade que se reconhece à questão – “profunda, séria, a mais grave de todas as que se prendem com a vida íntima ligada das duas nações que falam a língua portuguesa”, conforme dirá – é bem evidente. Na coluna de 15 de Fevereiro de 1875, P. de Oliveira informava os leitores sobre “as questões do Pará [episódios de animosidade contra os portugueses, verificados igualmente em Pernambuco e Sergipe, províncias do nordeste brasileiro], questões, ao que parece, e felizmente, terminadas e em que os dois governos do Brasil e de Portugal também felizmente reconheceram que não vale a pena quizilar-se. Ao contrário, cumpre unir-se para fazer calar as declamações torpes de um papel que se diz Tribuna, quando devia chamar-se Taberna” ( 23 ). Aliás, para o colunista, “pouco vale repetir os incidentes conhecidos do conflito que obrigou o governo português a mandar às aguas do Brasil a corveta Sagres; além de conhecidos, a sua importância é a de meros e transitórios acidentes de uma questão permanente e viva: a translação dos portugueses para o Brasil, o retorno dos brasileiros para Portugal” ( 24 ). O discurso é prudente. O que está em causa – as relações luso- brasileiras, assunto referente “ao bem comum” – é demasiado sério para agir de outro modo. Considera, por isso, que inquirir sobre “até que ponto a questão puramente brasileira da reacção ultramontana contra a maçonaria

23 Revista Ocidental, Ano I, Tomo I, fascículo 1º, de 15 de Abril, 1875, p.111.

24 Idem, ibidem.

24

influía na animosidade activa dos brasileiros do norte contra os portugueses, seria tornar a levantar uma questão que todos devemos esquecer para o bem comum”. Oliveira Martins estava ciente que, nas questões que envolvem nacionalidades, os ânimos podem insuflar-se e, por isso, alerta para que não se derrame o “sangue de alguns portugueses” que “avermelhou tragicamente o episódio” ( 25 ). Insiste na imagem do sangue derramado. Procura-lhe as causas:

afinal, a “troca de provocações hostis entre os jornais portugueses e brasileiros apenas revela uma face puramente exterior do conflito”, pois se é verdade que a causa imediata “foi o modo porque no norte do Brasil se tem desde certo tempo entendido a liberdade do trabalho”, isso não abona o “senso económico dos governos provinciais, ou abona então demasiadamente o amor de um patriotismo irreflectido: o trabalho é cosmopolita”. Ora, assim sendo – e dado que “há anos já, o governo da província do Pará retirara o subsídio à companhia de navegação do Amazonas, pelo facto dela empregar em seu serviço principalmente portugueses” – Oliveira Martins acredita que a política da nacionalização é um grande erro. Para ele, a “nacionalização quer dizer exclusão dos portugueses do negócio de retalho, isto é daquele que mais fácil e numeroso emprego oferece aos imigrantes”– sendo a responsável pelo “drama já avermelhado de sangue” ( 26 ). Expressões como esta vão tornando explícita a motivação profunda das preocupações do autor. Frente à onda nacionalista no comércio de retalho – cujos episódios o cronista conhecia bem, comprovando, uma vez mais a circularidade informativa transatlântica ( 27 ) – declara, em tom de

25 Idem, ibidem, p.111-112.

26 Idem, ibidem, p.112.

27 Do seguinte modo rebate aos que pregam a nacionalização do comércio, citando uma portaria do governo do Rio de Janeiro ao governador do Pará: “«Em virtude do artigo 16.º do acto adicional devia v. ex.ª ter negado a sanção à referida lei, e, se porventura a assembleia provincial a sustentasse tal qual por dois terços dos votos, suspendido a sua execução… Que,

25

queixa, que “abrir bem largo esses braços, eis o que o Brasil não faz”. Trata-se de um grave erro que, em seu entender, vitimiza a “própria sociedade brasileira, portuguesa de sangue, que encontraria nos novos adeptos um rejuvenescimento de seiva, e o meio de encaminhar para a fixação de uma nacionalidade e de uma raça, coisas que não conseguiu ainda atingir” ( 28 ). A cultura brasileira, para Oliveira Martins, é “portuguesa de sangue”. Eis por que motivo a incorporação portuguesa no Brasil não poderia deixar de ser benéfica, favorecendo a fixação da nação e da raça; eis por que motivo os incidentes do Pará relatados em 1875 “se prendem a um problema reciprocamente grave para as duas nações portuguesas”. Eis, enfim, o motivo pelo qual uma alteração de regime político no Brasil não poderia deixar de perturbar o autor de O Brasil e as colónias portuguesas.

1.1.3. Poucos anos depois, na sequência da Proclamação da República no

Brasil, em 1889, Oliveira Martins seguirá intervindo criticamente através das suas crónicas nos periódicos portugueses. Nesse ano de 1889, no jornal O Tempo, um artigo chamado “A República no Brasil”, considera que “parece confirmar-se a notícia da incomparável tolice que o Brasil fez, proclamando a República, destruindo esse Império a cuja sombra e pela mão de um príncipe tão patriota como sábio, conseguira ganhar foros de nação, avigorar-se, desenvolver-se,

aconselhando o interesse público que para todos os estrangeiros residentes no império se mantenham os princípios de igualdade comercial e civil, cumpre aos presidentes provinciais, em todos os casos em que os projectos de lei provinciais contrariem tais princípios, usar dos meios que lhes faculta o acto adicional»”. Não deixa de ser interessante que, frente ao conflito entre jornais brasileiros do norte do país e os trabalhadores imigrantes portugueses na região, o cronista lembre um documento oficial da sede do Império, dizendo ainda: “oxalá que o espírito público dos brasileiros se inspirasse sempre das mesmas doutrinas que inspiram as altas regiões governativas: folgaria com isso o direito, faria bem ao nome do Brasil e melhor à sua prosperidade”. Idem, ibidem, p.112-113. 28 Idem, ibidem, p.113.

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vencer os seus inimigos e adquirir um lugar proeminente na América do Sul” ( 29 ). Para ele, a Proclamação da República no Brasil é “mais do que um erro funesto”: trata-se de “uma ingratidão para com esse homem venerando carregado de anos e serviços que consumiu a vida a dotar o seu Império com os frutos de uma administração em que a energia se aliou sempre à prudência, a força à arte, alternando segundo as necessidades”. O autor de O Príncipe Perfeito entende que a unidade territorial brasileira foi obra do Império e, por isso, o vemos temer pela desagregação “dessa grande América portuguesa, tão grande como a Europa, tão diversa em interesses, em tradições e em temperamento nas suas várias províncias, desde os sertões do Amazonas, pelo centro agrícola de S. Paulo, até aos pampas do Rio Grande”. Avalia que a unidade nacional brasileira só era possível pela forma administrativa do Império de D. Pedro II. O federalismo republicano, vaticina, “será inevitavelmente o desmembramento [do] grande Império neo-português” ( 30 ). A sua argumentação neste sentido não hesita em se ancorar na experiência histórica. Sustenta que, ao contrário da colonização da América do Norte, que “marchou em coluna cerrada” de Oriente a Ocidente, a colonização “hispano-portuguesa” dimanou “criando núcleos dispersos, gânglios de população que só o trabalho lento dos séculos virá a aproximar e fundir”. Esses núcleos mantinham-se unificados enquanto “enfeixados pelo vínculo da monarquia”. Por isso, acredita que, abolindo-a, a República tenderá para a desagregação ( 31 ). Não pode, nestas circunstâncias, deixar de exprimir as suas reservas mais vincadas à mutação política brasileira, registrando que “ao apreciar a revolução do Brasil, aplauda-a quem quiser:

29 O Tempo, 1889. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1957, p.241.

30 O Tempo, 1889. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1957, p.242. 31 Idem, ibidem, p.243.

27

nós não, porque aplaudindo a proclamação ociosa de um fórmula de governo, indiferente em si e nefasta actualmente para o próprio Brasil, aplaudiremos a iminência de graves perigos para esta nossa terra que adoramos, e que foi a mãe pátria da nossa gloriosa colónia” ( 32 ). Cumpre chamar a atenção, neste ponto, para o fato de as preocupações de Oliveira Martins resultarem da percepção do risco econômico que presumia vir a abater-se sobre Portugal. Esta perspectiva não lhe é estranha. Sabe-se da sua particular sensibilidade para com o problema emigratório, questão à qual volta com insistência, na linha do que fizera já em 1875, acentuando a forte dependência econômica portuguesa da respectiva capacidade para estabilizar a comunidade migrante e o correspondente caudal de retorno financeiro ( 33 ). Mas parece inegável que suas alusões ao futuro brasileiro estão marcadas por um movimento de auto-referencialidade que reflete a própria simbologia ligada às dimensões positivas do período colonial português. Por isso dizia que “ao Brasil queremos, pois, como se ainda fosse uma parte da pátria portuguesa, e é

32 Idem, ibidem,p.244-245. Grifos nossos.

33 Ele mesmo o manifesta: “já não é hoje segredo de ninguém que o rendimento mais importante

e mais líquido da nossa depauperada economia nacional é a emigração para o Brasil.

Exportamos para lá por ano trinta ou quarenta mil portugueses; recebemos de lá por ano dez ou

quinze mil contos de réis. Se esta corrente de gente que sai e de dinheiro que vem, se deslocar,

as consequências serão gravíssimas”. Para Oliveira Martins “o jacobinismo brasileiro escreve na

sua bandeira a nacionalização do comércio de retalho, eufemismo sob que se esconde a guerra mortal de inveja ao emigrante português, que disputa aos indígenas, à força de economia e trabalho, o mercado da venda a miúdo”. O autor da Circulação Fiduciária proclama que não teme análogas modificações no regime político português, ao afirmar que “não receamos para Portugal as consequências políticas da revolução”, pois “não é do Brasil que nos virá nenhuma novidade constitucional, nem temos a aprender com as lições do seu governo, mormente quando são da natureza destas”, embora manifestasse receio pelas “consequências económicas da loucura política do Rio de Janeiro”. Oliveira Martins volta a este mesmo tema, no seu artigo “A nacionalização no Brasil”, também escrito em 1889, para o jornal O Tempo. Neste texto, dá maior ênfase ao problema, informando que o “sob o ponto de vista português, o decreto de nacionalização promulgado pelo governo provisório é manifestamente prejudicial para nós. E oxalá não seja esse o prólogo de outras medidas que porventura venham afectar as nossas relações políticas, e principalmente as económicas, com a grande nação da América do Sul”. Idem, ibidem, p.244-247.

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por isso que estas palavras nos saem espontâneas e simples dos bicos da pena” ( 34 ). Daí o lamento: “o Brasil praticasse além de um acto de insensatez, uma ingratidão”. Ingratidão para com a obra do Império brasileiro, para com a união territorial, mas também – e sobretudo – para com o legado português na América. Implicitamente, percebe-se que os acontecimentos políticos brasileiros são suscetíveis de macular “a obra” lusitana na história, afetando a “moral” da coletividade em causa, bem como o padrão de relacionamento projetado para o futuro. E mesmo reconhecendo-se que “um país, chame-se como se chamar, não passa de amigo a inimigo nosso porque mudou a sua forma de governo”, e que “a nossa amizade é tão grande como o nosso parentesco”, alguma ansiedade se deverá compreender-lhe ao julgar “o passo errado que deu o Brasil, e a enormidade dos perigos em que se lançou a si – e também a nós” ( 35 ). Estava em causa, afinal, o futuro de um dado passado ( 36 ). O mesmo é dizer o futuro de uma comunidade luso-brasileira idealizada. Ou não será precisamente isso que dirá o próprio Oliveira Martins, ao dar voz a todos os que, como ele, “esperançados no crescer fecundo e harmónico de uma nação neo-portuguesa na América, em vez de se sentirem entusiasmados, [lamentam] ver assim posto em perigo o futuro da melhor obra da história portuguesa” ( 37 )?

34 Idem, ibidem, p.245.

35 Idem, ibidem, p.245. 36 Está em causa, neste ponto, toda a complexa relação entre memória, presentificação da memória e projecção do futuro, tal como a tem analisado Fernando Catroga e no sentido que ela recebe a partir dos estudos de Miguel Baptista Pereira, ao afirmar que “se houve passado, presente e futuro no passado, há passado, presente e futuro no presente, haverá passado presente e futuro no futuro”. Veja-se o enquadramento teórico da questão em PEREIRA, Miguel Baptista. “Filosofia e memória nos caminhos do milénio”, In: Revista Filosófica de Coimbra, vol.8, n.º16, Outubro de 1999; e veja-se, de igual modo, o desenvolvimento dado ao assunto, a partir daquela expressão, por CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia. Coimbra: Quarteto, 2001, p.32. 37 O Tempo, 1889. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1957, p.249-250. Grifos nossos.

29

1.1.4.

Sem surpresa verificamos a incomodidade do autor frente à

proposta do governo provisório republicano do Brasil, que apontava para a naturalização dos imigrantes residentes em solo nacional. Obviamente, a atenção martiniana voltava-se para os portugueses, pois “cumpre-nos olhar pelos nossos”, chamando atenção “do nosso Governo para a protecção de que carecem os duzentos mil (ou mais) portugueses convidados ou coagidos a renegar a sua pátria” ( 38 ). A diferença regimental que a proclamação da República introduziu na “jovem” nação brasileira ía bastante além de um fato político e administrativo. Compreende-se, assim, que o autor da História da Civilização Ibérica tema pelo futuro do elemento “neo-português” no Brasil. E, como é sabido, se mesmo depois da Independência, ainda havia um laivo de sangue bragantino a unir as duas monarquias liberais de fala portuguesa, a República fechará esta porta de contato. Abrirá outra, alternativa: a da incorporação de imigrantes – não exclusivamente ibéricos ou mediterrâneos – para a formação do futuro do Brasil. Neste quadro, o que restaria da grande obra de Portugal na História, simbolizada muito fortemente pela grandeza brasileira? Nesta perspectiva, Oliveira Martins teme a intensa incorporação de imigrantes estrangeiros de procedências distintas (como alemães e italianos, por exemplo), a qual poderia concorrer para uma gradual perda da importância da lusitanidade na formação do brasileiro. Em contraposição à experiência norte-americana, ressalta que “a nacionalização imediata de consideráveis massas de estrangeiros não tem nos Estados Unidos gravidade, porque a grande maioria dos imigrantes pertence ao próprio fundo da raça que constitui a nação americana, e os

38 Idem, ibidem, p.250.

30

laivos de sangue estranho são assimilados e absorvidos rapidamente” ( 39 ). Diferente é o caso brasileiro, pois, “quando se observam os números da imigração de estrangeiros, sente-se o perigo do futuro”. Afinal, “já lá vai o tempo em que o elemento português preponderava de um modo quase absoluto. Nos quinze anos de 1873 a 1887 entraram no Rio de Janeiro 336 mil imigrantes, e destes eram 129 mil italianos, 121 mil portugueses, 33 mil alemães e austríacos, 17 mil espanhóis, e o resto de outras origens” ( 40 ). Diz mais: “a imitação precipitada dos processos yankees pode dar rapidamente um incremento febril ao Brasil, mas tornará essa região do mundo um caravanseralho de povos e não uma nação, como os Estados Unidos são há muito, e como o Brasil se encaminhava para ser à sombra do Império”( 41 ). Invariavelmente, a sua pena encontrava a questão da unidade territorial brasileira. Assim sucedia mesmo depois de os acontecimentos relativos à mudança de regime terem perdido alguma novidade. Prova disto é o seu texto “A Unidade do Brasil”, de 1890, também publicado no jornal O Tempo, texto esse em que a sua análise de uma situação concreta – os problemas havidos na fronteira sul do Brasil – vinha comprovar, do seu ponto de vista, o acerto dos seus anteriores vaticínios acerca da desagregação brasileira. Para ele, “os traços [do] desmembramento da nação neo-portuguesa da América” podiam já ser vistos “na separação do Rio Grande do Sul, região de pampas, que pelos interesses, pelos costumes e pela tradição, inclinaria para o lado do Uruguai”. Informado pelas notícias trazidas pelo telégrafo, assim como pelas demais “informações fidedignas que recebemos”, percebe nesse episódio o levantar da “primeira ponta do véu escuro dos perigos que corre a integridade do Brasil” ( 42 ).

39 O Tempo, 1889. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1957, p.248.

40 Idem, ibidem, p.249.

41 Idem, ibidem, p.248.

42 Uma destas informações noticiava o temor do governo provisório de uma sublevação do Estado do Rio Grande do Sul. Frente a este possível acontecimento, segundo as informações

31

Parece interessante notar que o autor toma o critério histórico como barómetro interpretativo das questões políticas de seu tempo. Daí que remeta à época colonial, cotejando as experiências dos modelos espanhol e português de colonização com a política internacional que envolvia duas Repúblicas latino-americanas, no final do século XIX. Daí que tivesse falado na ambição argentina pela reconquista do “antigo vice-reinado” de Buenos Aires, bem como remetesse ao “erro histórico da ocupação portuguesa nos tempos coloniais”, por não ter levado “a fronteira do Brasil até ao Rio da Prata”. Erro este “até certo ponto emendado pelo Império em 1851, quando deu a mão a Urquiza e tomou Montevideo a Oribe, criando a república independente da Banda Oriental, ou do Uruguai” ( 43 ). Bem vistas as coisas, estas questões fronteiriças surgem como prova da má opção que constituía, para o Brasil, no contexto sulamericano, o regime republicano ( 44 ). “O abandono de uma parte do solo do Brasil” – dirá – é fato “gravíssimo para a apreciação do mérito do governo que se substituiu ao Império; gravíssimo pelos sintomas que denuncia quanto à sua estabilidade no ponto de vista da integridade do Brasil; gravíssimo, finalmente, por tudo isto para quem, como nós, tem no Brasil tão sérios interesses a defender” ( 45 ). Do ponto de vista português, não duvida que “se agora andamos acesos em justa indignação contra a Inglaterra pelo ultraje que recebemos dela,

divulgadas pela crônica de Oliveira Martins, “para conseguir a pacificação do Rio Grande em caso de revolta, o governo provisório lembrou-se de solicitar o auxílio e a intervenção armada da República Argentina, ou contra o Rio Grande isoladamente, ou contra esse Estado unido à República do Uruguai”. O que lhe causa frémito é o fato de que, em troca de auxílio armado, o Brasil fosse obrigado a ceder parte de seu território à República Argentina, bem como “consentir na anexação do Uruguai, desinteressando-se também o Brasil pelo Paraguai, que os argentinos poderão igualmente anexar, realizando assim a sai ambição de unificarem numa república toda a dependência do antigo vice-reinado de Buenos-Aires” Idem ibidem, p.274. 43 Idem, ibidem, p.273-274.

44 Para Oliveira Martins, durante o Império, “o Brasil, exercendo a hegemonia, libertava o Paraguai, numa campanha em que tinha por aliados os argentinos; agora, vinte anos depois, é ele o protegido que pede aos argentinos para lhe fazerem a polícia interna, abandonando as pequenas repúblicas do Prata à ambição do povo que em breves anos será absoluto senhor da América meridional”. Idem, ibidem, p.274.

45 O Tempo, 1889. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1957, p.275.

32

não devemos esquecer que, para lá do Atlântico, no Brasil, nos achamos a braços com um problema materialmente mais sério. A questão inglesa não é, por infelicidade nossa, a única, embora seja a mais dolorosa!”( 46 ).

1.1.5. Acontece que a apreensão de Oliveira Martins relativa à

manutenção da integridade territorial brasileira não era opinião isolada. Nas

páginas da Revista de Portugal ( 47 ), observamos aproximadamente a mesma avaliação a partir de outras autorias. Tomemos como exemplo o

texto do brasileiro Eduardo Prado, intitulado “Destinos Políticos do Brasil”

( 48 ).

Escrevendo de Leipzig, na Alemanha, em Setembro de 1889 – e, portanto, dois meses antes da Proclamação da República no Brasil –, vemos Eduardo Prado preocupado em defender a existência do regime monárquico. Não é casual que ele centre as discussões políticas nacionais em duas questões-chave: i) a continuidade da monarquia e ii) a continuidade da união territorial do Brasil. Diante destas questões, Prado enumerava duas tendências opostas: uma de destruição e outra de conservação. O movimento republicano congregaria, para ele, todas as forças destrutivas. O autor de A ilusão americana considera que o sentido

46 Idem, ibidem, p.276.

47 Concordamos com Aparecida de Fátima Bueno quando considera a Revista de Portugal “um espaço importante para pensarmos nas inter-relações luso-brasileiras do período”. Importa ressaltar que acreditamos que o que a autora afirma em relação à Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queirós, sustentamos ser a tónica da época que vai de 1870 até o final do século, englobando não apenas este periódico, mas vários outros, desde a Revista Ocidental, dirigida por Antero de Quental e Batalha Reis, passando pela Revista de Estudos Livres, bem como pela Revista Brasileira. No final das contas, trata-se de atentar que este foi o tom crítico das Gerações de 1870, portuguesa e brasileira, conforme a expressão de Beatriz Berrini, já mencionada neste trabalho. Para mais informações, consultar BUENO, Aparecida de Fátima “Relações conflituosas: o Ultimatum inglês na Revista de Portugal”. Trabalho apresentado no âmbito do VII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, em Coimbra, nos dias 16,17 e 18 de Setembro de 2004.

48 Eduardo Prado publicou um total de oito textos na Revista de Portugal. Destaca-se que, apenas no primeiro, escrito ainda antes do 15 de novembro de 1889, ele assina com seu nome. Nos restantes usará o pseudónimo “Frederico de S.”. Para uma interessante análise das interfaces luso-brasileiras no pensamento de Eduardo Prado, sugerimos a primeira parte de BERRIEL, José Carlos. Tietê, Tejo, Sena. A obra de Paulo Prado. Campinas: Papirus, 2000.

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de uniformização política é o fator de agregação dos republicanos da América, de norte a sul; porém, a ênfase neste elemento “esquece que os Brasileiros, distinguindo-se dos outros americanos ingleses e espanhóis, na origem e na língua, bem podem também distinguir-se deles no modo de governo” ( 49 ). O Brasil, por conseguinte, é caso à parte: “o Brasil é na realidade um país indisciplinado. Como Portugal, ele foi formado socialmente debaixo da disciplina da Igreja e teve dois séculos do ensino dos jesuítas. A ninguém os substituiu. Os países da Europa têm a força das tradições; a Inglaterra a disciplina do puritanismo, regendo também pelo seu prestígio a grande comunidade norte-americana; a Alemanha achou na disciplina militar o correctivo da destruição de autoridades feita pelos filósofos. No Brasil nada disso existe. A escravidão tornou a ideia e o sentimento do dever social da obediência coisas humilhantes e repulsivas” ( 50 ). Mais ainda, esta especificidade faz entroncar diretamente, por via da tradição histórica, o destino brasileiro com o de Portugal, no sentido em que, afirma Prado, “só pelas grandes qualidades colonizadoras dos portugueses, pela fecundidade das suas alianças com a raça indígena que eles tiveram de subjugar à força de coragem e valentia, é que o Brasil pôde ser feito, apesar de todos os erros do governo de Portugal”. Para ele, “os descendentes dos Portugueses têm progredido desde que lhes coube a responsabilidade da direcção da nacionalidade, tal qual ela existia já em 1822, isto é, unificada pela origem, pela língua, pela religião, pela invencível força das coisas, apesar das divisões políticas do território, capitanias ou províncias, datando de três séculos” ( 51 ). À semelhança da maioria dos cronistas da época, também Prado não concebe a projeção no futuro à margem da reflexão sobre a tradição

49 PRADO, Eduardo, “Destinos Políticos do Brasil”, Revista de Portugal, volume I. Porto:

Editores Lugan & Genelux, 1889, p.470.

50 PRADO, Eduardo. “Destinos Políticos do Brasil”, Revista de Portugal, volume I. Porto:

Editores Lugan & Genelux, 1889, p.476-477.

51 Idem, ibidem, p.480-481.

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histórica, e, com ela, sobre a identidade dos povos. Pelo que a intersecção de portugueses e brasileiros – responsável que era, para este monarquista convicto, pela unidade do Império, essa “unidade fundada na tradição histórica, no facto de ontem e de hoje, na língua, na religião” ( 52 ) – só poderia entender-se como a decorrência indeclinável desse aspecto. É bem na esteira deste pressuposto que vemos Eduardo Prado em busca da sua definição do brasileiro. Segundo ele, o “romance nacional e o teatro ainda não criaram o tipo, mas ele, sob os seus aspectos tropicais, isto é, mais exuberante, é um misto do Julião de Eça de Queirós e do Homais de Flaubert” ( 53 ). Noutra passagem, aduz que “o brasileiro porém tal qual ele começa a se desprender da sua formação etnográfica, tem a sensibilidade da raça africana, a paciência do índio temperando a força do Português que ele mesmo é um calmo ao lado do Espanhol” ( 54 ). Bem se compreende, neste âmbito, a sua atitude compreensiva e interessada no relativo à contribuição do imigrante. Ao reconhecer que “o elemento estrangeiro é no Brasil a civilização”, por ser o “professor nacional do trabalho”, prevê que “dos variados elementos estranhos e indígenas com que se está formando a nacionalidade do futuro, saia um povo que, em relação às instituições herdadas de seus antepassados, tenha aquele nobre sentimento de confiança, de dedicação e de lealdade para o qual, na língua política da Inglaterra, se inventou a bela palavra – loyalism

( 55 ).

Dois meses antes da proclamação da República, Eduardo Prado roga para que se “renove a monarquia”. Os acontecimentos seguintes não favorecem os seus desejos. Contudo, vemo-lo, logo a seguir o 15 de novembro de 1889, escrever um interessante artigo, impresso também no

52 Idem, ibidem, p.489.

53 Idem, ibidem, p.474-475.

54 Idem, ibidem, p.488.

55 Idem, ibidem, p.491.

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periódico de seu amigo Eça de Queirós: a Revista de Portugal. Assinando sob o pseudónimo “Frederico de S.”, Prado dá à estampa ao texto intitulado “Os Acontecimentos do Brasil”, escrito em Novembro de 1889. Informado pelo que “o cabo submarino tem transmitido” da América do Sul, comenta, para seus leitores, as novidades sobre a troca de regime no Brasil. Com fina ironia, Prado transcreve trechos de telegramas, os quais, nas concisão de suas linhas, considera “singularmente humorísticos”. Eis o excerto, tal como surge publicado na Revista de Portugal:

«A tropa em estado de revolta. Reina tranquilidade. – O imperador em Petrópolis. Completa paz. – Foi preso o ministério. População calma. – Foi proclamada a república. Tudo inalterado. – O Imperador preso no seu palácio. Ordem perfeita. – Fica constituído o seguinte governo provisório: Marechal Deodoro da Fonseca, presidente sem pasta; Campos Sales, ministro da justiça; Quintino Bocaiuva, ministro dos negócios estrangeiros; Aristides Lobo, ministro do interior; Rui Barbosa, ministro da fazenda; chefe de divisão Wandelocock, ministro da marinha; Demétrio Ribeiro, ministro da agricultura, comércio e obras públicas. As províncias aderem. O Sena, o Conselho de Estado, foram abolidos. A Câmara dos Deputados foi dissolvida. Reina sossego. – O Imperador e a família imperial embarcaram para a Europa. – A Bahia não adere ao movimento. Absoluta unanimidade, etc. etc.»( 56 ).

Face à propositada crueza da secura telegráfica, remata: “não podemos perceber como todas estas coisas possam influir nos destino do Brasil. Desejaríamos saber se o povo brasileiro só com estas mudanças se vai tornar mais civilizado, mais enérgico, mais apto para realizar a sua missão na história” ( 57 ). Sua ironia desemboca na ideia de “missão histórica”. Uma missão histórica brasileira. A pressuposição de um passado e de um futuro em mútua interpelação. Precisamente a “missão [que] ficará desde logo frustrada se a república federal importar no enfraquecimento da unidade. Muitos pensadores estrangeiros afirmaram já que o Brasil se dividirá em vários Estados independentes; e que as rivalidades regionais de hoje

56 PRADO, Eduardo (Fredeirico de S.), “Os Acontecimentos do Brasil”, Revista de Portugal, volume I. Porto: Editores Lugan & Genelux, 1889, p.771-772.

57 Idem, ibidem, p.774.

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facilmente se transformarão em hostilidade inextinguível. A comunidade de origem, a raça, a língua, a religião idênticas, não são suficientes garantias da conservação da harmonia” ( 58 ). Os temores de Eduardo Prado pelo rompimento da unidade, feito paralelo do rompimento da missão histórica, remetem para os temores que detectamos já em Oliveira Martins. Não por acaso, é a ele que Prado cita, de modo explícito, numa clara assunção de similitude de pontos de vista quanto ao tema em causa, em passagens bem demonstrativas da rede discursiva na qual o seu discurso se inseria: “como muito bem observou há dias o Spectator, de Londres [Oliveira Martins escrevia também utilizando o pseudónimo Spectator], tratando do Brasil, não há no mundo dois povos que tenham ódio recíproco tão profundo como os Chilenos e os Peruanos, e ambos descendem de espanhóis, falam a mesma língua, têm a mesma religião”, exemplos suficientes para sustentar a previsão de que, no Brasil, a “unidade certamente desaparecerá”. Eduardo Prado chama ainda a atenção para “um artigo do Tempo atribuído ao Sr. Oliveira Martins, artigo que (êxito para a imprensa portuguesa) tão citado foi na imprensa europeia, e que tantos comentários aprovativos despertou da parte do Journal des Débats, do Temps, do Times e da Neue Freie Press, prevê a divisão do Brasil em três novos estados, a Amazónia, um estado central, e o extremo sul destinado a ser absorvido pela República Argentina, logo que esta, cessando a oposição do Brasil, possa realizar o seu velho ideal de reconstituir republicanamente o antigo vice-reinado de Buenos Aires, que compreendia o Uruguai e o Paraguai”( 59 ). Registre-se ainda que, à semelhança de Martins, Prado concede centralidade à figura do Imperador. O cronista Frederico de S. – pseudónimo de Eduardo Prado – diz que “esse velho deixa um país onde começou a reinar aos cinco anos de idade; e tão brasileiro foi ele que a sua

58 Idem, ibidem, p.774-775.

59 Idem, ibidem, p.774-775.

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Biografia não deve ter este nome, mas sim o de História do Brasil. Caiu pelo excesso de algumas das virtudes que hão-de imortalizá-lo. O que era a inteligência nacional do Brasil há cinquenta anos? Basta dizer que era decerto inferior à de Portugal no começo do século…” ( 60 ). As opiniões de Prado encontram eco no diretor da Revista de Portugal, José Maria Eça de Queirós. À semelhança daquele seu amigo brasileiro, Eça utiliza um pseudônimo – João Gomes – para dar suas impressões sobre a deposição da monarquia brasileira. Seu texto intitula-se “Notas do Mês” e é iniciado em tom jocoso, dizendo que a “revolução do Brasil (tal como contam os telegramas passados através da censura republicana) é menos uma revolução do que uma transformação – como nas mágicas” ( 61 ). Trata-se, conforme João Gomes/Eça de Queirós, de uma revolução “feita antes do almoço”, que foi “simultaneamente grandiosa – e divertida”. E continua, ao analisar a relativa facilidade e rapidez com que a República suplantou a Monarquia, considerando que “o Imperador tinha-se a tal ponto desimperializado, que entre Monarquia e República não havia realmente senão um fio – tão gasto e tão frouxo, que, para o cortar de um golpe brusco, bastou a espada do Marechal Fonseca” ( 62 ). Tal como Eduardo Prado, seu companheiro dos convívios luso- brasileiros em Paris, Eça considera a “revolução republicana” um movimento de bacharéis – Prado já havia apontado nesse sentido no seu “Destinos Políticos do Brasil”. Estes a teriam proclamado com intuito de poderem realizar “o velho ideal jacobino, já entre nós desacreditado e um pouco obsoleto, e que no Brasil domina ainda as inteligências tropicalmente entusiásticas e crédulas” ( 63 ). Tal como Prado – e tal como Oliveira Martins – Eça estava ciente das possíveis consequências da

60 Idem, ibidem, p.775. 61 QUEIRÓS, Eça (João Gomes). “Notas do Mês”. Revista de Portugal, volume I. Porto:

Editores Lugan & Genelux, 1889, p.777.

62 Idem, ibidem, p.778.

63 Idem, ibidem, p.778.

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progressiva republicanização da América. No seguimento daqueles autores, considerará que um “modelo perigoso para o Brasil estava nos Estados Unidos do Norte, cuja imensa civilização deslumbrava os brasileiros, que não reflectiam que é o caracter das raças, e não a forma dos governos, que faz ou impede as civilizações” ( 64 ). Por fim, também Eça não podia deixar de mencionar tanto as modificações que o novo regime visava para um comércio de retalho (envolvendo razoável quantidade de portugueses), bem como não podia de dar seu contributo para o debate em torno da unidade territorial brasileira. Por isso, afirma que “com o Império, segundo todas as possibilidades, acaba também o Brasil”. Numa análise semântica que remete à história, Eça afirma que “este nome de Brasil, [que] começava a ter grandeza, e para nós portugueses representava um tão glorioso esforço, passa a ser um antigo nome da velha Geografia Política”. Para ele, trata-se de uma questão de tempo, pois “o que foi o Império estará fraccionado em Repúblicas independentes, de maior ou menor importância”, na medida em que “as rivalidades que entre elas existem; a diversidade do clima, do carácter e dos interesses; e a força das ambições locais” não conseguirão manter unido o Brasil, indicador maior da obra histórica de Portugal, pois “não está forçado a conservar-se unido, pelo receio dos ataques ou represálias de uma metrópole forte, de quem acabasse de se emancipar” ( 65 ). Daí que vaticine, utilizando os demais países latino-americanos como exemplos históricos, que no que um dia foi o Brasil, “haverá Chiles ricos, e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos de um grande Império” ( 66 ).

64 Idem, ibidem, p.778-779. 65 QUEIRÓS, Eça (João Gomes). “Notas do Mês”. Revista de Portugal, volume I. Porto:

Editores Lugan & Genelux, 1889, p.782.

66 Idem, ibidem, p.783.

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Para além das suas manifestas diferenças contextuais, teóricas e estilísticas, que, em qualquer dos casos, não podem omitir as afinidades de princípio ou de ocasião, os textos de Oliveira Martins, Eduardo Prado e Eça de Queirós entrecruzam-se em aspectos nodais da problemática relacional envolvendo Portugal e Brasil. As correlações passíveis de serem estabelecidas induzem à constatação de uma rede discursiva que, ao encontrar expressão na complementaridade das respectivas intervenções, se demonstra atuante e operativa no seio da escala cultural luso-brasileira. É crível que, independentemente da singularidade das inspirações de cada um desses autores, eles se mobilizassem, de acordo com a expressão martiniana, “não apenas com aquela curiosidade que os fenómenos sociais provocam, mas sim como quem se sente intimamente interessado, já pela comunidade de sangue, já pelos nossos deploráveis erros” ( 67 ).

1.2. Divulgação Científica: critérios de recepção e alegoria do “povo irmão”

Em franco desalinhamento com aquela linha interventiva, desenvolvia-se outro entendimento dos sucessos políticos brasileiros conotado com uma visão não já temerosa ou censória para com a influência republicana, mas, bem ao contrário, estimulada pelas possibilidades trazidas pela República ao intercâmbio luso-brasileiro. Deste ponto de vista, Teófilo Braga, Teixeira Bastos ou ainda Júlio de Mattos, produzem, se assim podemos dizer, uma rede discursiva alheia aos fundamentosentretanto detectados em Eça, Prado ou Oliveira Martins: é que para eles a República não afastaria simbolicamente o Brasil da tradição

67 MARTINS, J. P. de Oliveira. Política e História. Volume II (1884-1893). Lisboa: Guimarães & Cia Editores, 1957, p.284. Grifos nossos.

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portuguesa, tão pouco acarretaria a potencial desagregação territorial brasileira. Os positivistas portugueses viam no movimento republicano brasileiro um signo que propiciaria uma reaproximação luso-brasileira. Nesse círculo de ideias, as novas bases de relacionamento político e cultural seriam dadas pela filosofia positiva. Assim já se vislumbra outro nível intercambial constituído pela divulgação científica. O funcionamento desta rede – atestada pelo progressivo acolhimento dos textos publicados no Brasil por parte das revistas de cunho científico portuguesas –, obriga- nos a considerar o modo como determinado entendimento da ciência participa na definição dos circuitos culturais luso-brasileiros.

2.1.1. Comecemos por explicitar a referida dinâmica

científica. Nada melhor, para esse intuito, que apreciar as condições de divulgação e recepção da obra de Sílvio Romero A Filosofia do Brasil. Este livro foi editado, em 1878, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, pelo alemão Carlos von Koseritz, figura que teve um importante papel na divulgação científica no sul do Brasil, bem como uma relativa importância na configuração cultural luso-brasileira( 68 ). A ação de Carlos von Koseritz na divulgação das ideias científicas e evolucionistas no Rio Grande do Sul foi marcante. Suas atividades de crítica ao teologismo e à metafísica foram, entretanto, muito inspiradas no

68 De acordo com Lothar Hessel, Karl von Koseritz nasceu em Dessau, ducado de Anhaldt, Alemanha, em 03/02/1834 e faleceu em Porto Alegre, em 30/05/1900. Koseritz fez parte do Exército e da Armada de sua pátria. Fixou-se no Rio Grande do Sul em 1851. Foi soldado em Rio Grande e aprendiz de pintor, cozinheiro, carregador, operário e guarda-livros em Pelotas. Nesta última cidade, a partir de 1856, iniciou-se no magistério, dirigindo uma escola. Em 1862, dirigia outro educandário, o Ateneu Rio Grandense, na cidade de Rio Grande. Jornalista no sul da Província, foi diretor de A Sentinela do Sul, (1867) e do Jornal de Pelotas (1861), ambos de Pelotas, e diretor do Ramilhete Rio-Grandense, em 1857, em Rio Grande. Como redator, trabalhou em O Povo e O Eco do Sul, ambos de Rio Grande. A partir de 1864, foi redator, já em Porto Alegre, de A Reforma (que dirigia em 1886) e do Jornal do Comércio. Em Porto Alegre dirigiu mais, em 1886, o Combate, entre 1864 e 1881, o jornal na língua alemã Deutsche Zeitung. Aqui fundou em 1882, também em alemão, o Koseritz Deutsche Zeitung. Foi deputado à assembléia Provincial em 1882” HESSEL, Lothar Francisco. O Partenon Literário e sua obra. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1976, p.135.

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exemplo vindo da escola do Recife, em Pernambuco, liderada por Tobias Barreto e onde Silvio Romero teve papel fundamental. Desde 1876, ao menos, por ocasião do manifesto de lançamento de seu jornal Echo do Ultramar, editado em Porto Alegre, que Koseritz propagava o nome de seus companheiros do nordeste brasileiro. Conforme vemos na nota de

abertura da publicação, afirmava que “muitas vezes fomos levados a reflectir no facto de que a grande maioria dos nossos compatriotas” estão completamente “isolados do movimento literário e científico das outras nações”, mostrando-se “indiferentes pelo que neste sentido vai aparecendo entre nós, ainda que em modesta escala”. Daí surge a tentativa de “fundar um jornal semanal que a par da análise das novidades literárias se dedicasse à reprodução, por meio de elaboradas e conscienciosas traduções originais, daqueles trabalhos que modernamente têm avultado na Inglaterra, Alemanha, França, Itália, etc.”, tendo como objetivo “vulgarizar entre nós

as ideias dominantes daqueles cultíssimos países”, no sentido de buscar

apresentar “aos espíritos de nossos patrícios os tesouros inexauríveis das literaturas europeias”, contribuindo, assim, para a criação, no Rio Grande do Sul, de “um genuíno gosto literário em lugar da exclusiva imitação de

autores franceses, que hoje impera entre nós”. Como inspiração “nesta

cruzada”, declara, enfaticamente, que “alistamo-nos de todo o coração sob

o pendão dos Tobias e Romeros que no Norte do Império já vão

encaminhados no que agora encetamos” ( 69 ). Não surpreende, então, que Romero tenha encontrado junto a Koseritz o apoio necessário à publicação do seu livro, em 1878 ( 70 ). Esse

69 Echo do Ultramar, literatura, ciências e artes. N.º1, Ano 1, 1876, Porto Alegre, p.1.

70 Sílvio Romero afirma que, no Rio Grande do Sul, a importante ação de Carlos von Koseritz na divulgação do monismo haeckeliano deve ser entendida pela influência sua e de Tobias Barreto, pois, segundo ele “durante vinte e dois longos anos, de 1852 a 1874, Carlos von Koseritz fez jornalismo político em o Rio Grande do Sul, tomou parte em todos os debates mais notáveis ali traados, jamais fez a propaganda por Tobias iniciada no Recife em 1870. Em 1874 é que, havendo o autor sergipano enviado a Richard Mathes, redactor então da Deutsche Zietung do Rio de Janeiro, a carta em língua alemã, cuja tradução vai neste livro, e logo após o

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fato pode mesmo ser visto como a manifestação de importantes linhas de aproximação entre os movimentos intelectuais brasileiros que estavam à margem do centro irradiador, localizado no Rio de Janeiro. Afinal, Romero produz sua obra ainda residindo no Nordeste brasileiro, mas vai publicá-la no Sul, pelas mãos de um imigrante alemão. A suspeição de uma assinalável abrangência quanto à divulgação das obras científicas, que já de seguida examinamos em escala transatlântica, começa por ganhar fundamento em escala regional – intrabrasileira, digamos assim. Entretanto, em Portugal, a recepção da obra romeriana ficará a cargo da revista O Positivismo, editada no Porto. Interessa-nos, agora, seguir os passos dessa recepção. O primeiro destaque vai para o fato de esta publicação ter sido recebida, em Portugal, com todo o interesse e com apreciável concordância de perspectivas, no âmbito de um trabalho conjunto de divulgação científica e superação dos enclaves ideários do teologismo metafísico. Marca de uma configuração cultural de mobilização das ideias num movimento intelectual que entendia conjuntamente o processo de renovação cultural empreendido nos dois países. Prova disso é a resenha crítica escrita por Júlio de Mattos, em 1879, no fascículo de Junho/Julho da citada revista O Positivismo. No texto, o autor começa por assinalar que “um certo movimento filosófico se acentua actualmente no Brasil, como em Portugal”. Na apreciação de Júlio de Mattos, entre Portugal e Brasil há “uma elaboração mental, um princípio de renovamento literário, sintomas um tanto raros ainda, é certo, mas que não deixam por isso de ter importância para a previsão dos destinos espirituais destas nações”. E se é possível traçar paralelos entre elas é porque “no Brasil, como cá, os

prospecto do seu jornal naquela língua, Deutscher Kämpfler, e sendo uma coisa e outra publicadas na gazeta de Mathes, Carlos von Koseritz exultou no Rio grande , transcreveu esses artigos e pôs-se ao lado de Tobias, que nessa faina nós acompanhávamos, em termos, desde 1870”. ROMERO, Sílvio. “Considerações indispensáveis” In: BARRETO, Tobias. Estudos Alemães, Obras Completas. Volume XVIII. Sergipe: [s.ed.], 1926, p. XIX.

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homens superiores que tentam colocar-se ao nível do pensamento moderno, que procuram impulsar o espírito público no sentido da ciência e dos métodos hodiernos, constituem na hora presente o menor número; formam a pequena família dos que a ignorância geral chama revolucionários, a despeito dos meios pacíficos da sua nobre propaganda e do intuito construtivo que nunca os abandona no seu trabalho obscuro e desprotegido” ( 71 ). Certo é que, aliado à sabida influência francesa na propagação das ideias positivas – tanto no Brasil como em Portugal – houve, também, em simultâneo, um movimento de aproximação luso-brasileira. Como se diz nas páginas de O Positivismo, os portugueses têm “visto com prazer na revista de Filosofia Positiva de Littré e Wyroubouff e na Revista Ocidental de Pierre Laffitte notícias favoráveis de trabalhos científicos empreendidos no Brasil. Nós anunciamos também o aparecimento de mais um livro brasileiro, que se inspira na direcção nova das consciências. A Filosofia no Brasil de Sílvio Romero, é esse livro” ( 72 ). Sendo o mencionado livro composto de uma série de apreciações críticas sobre filósofos brasileiros (com destaque, entre outros, para Mont’Alverne), Júlio de Mattos não hesita em citar trechos da obra romeriana, aproveitando para, dessa forma, apresentar também a atmosfera cultural brasileira da época conectada com a portuguesa ( 73 ). A aproximação, portanto, efetivava-se. O que importa indagar são os elementos filosóficos que a tornavam possível. A esse respeito, convirá referir que, na obra mencionada, num excerto justamente impresso em O Positivismo, Sílvio Romero de alguma maneira os assume: sendo um

71 MATTOS, Júlio de. Secção “Variedades”. O Positivismo: revista de filosofia. Ano I, n.º5, junho-julho, 1879. In: O Positivismo: revista de filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume I (números 1 a 6),

1879, p.402.

72 Idem, ibidem, p.402.

73 Idem, ibidem, p.402-403.

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“«sectário convicto do positivismo de Comte, não na direcção que este lhe deu nos últimos anos da sua vida, mas na ramificação capitaneada por Émile Littré, depois que travei conhecimento com o transformismo de Darwin, procuro harmonizar os dois sistemas num criticismo amplo e fecundo»”. E, no seguimento da mistura de elementos do positivismo comteano com o darwinismo, Júlio de Mattos expõe mais considerações de Romero, designadamente aquelas em que ele realça sua demarcação intelectual: “«sou sectário do positivismo e do transformismo? Sim; entendendo-os, porém, de um modo largo e não sacrificando a minha liberdade de pensar a certas imposições caprichosas que os sistemas possam porventura apresentar»”( 74 ). Vislumbra-se, através destes pequenos excertos, um fator importante a ter presente nos relacionamentos culturais luso-brasileiros: a diversificada síntese pessoal que os intelectuais brasileiros e portugueses faziam da miríade teórica presente nas décadas finais do século XIX. Logo, é natural que Júlio de Mattos teça algumas considerações mais discordantes face à autodefinição romeriana. Segundo ele, o brasileiro “não é tão explícito como desejáramos sobre o que chama de criticismo nem sobre a maneira por que consegue a conciliação do transformismo darwínico com o Positivismo de Comte”. Contudo, acredita que “o ponto de vista do Sr. Sílvio Romero é o mesmo que já exprimimos nesta Revista, no artigo Ensaio sobre a Evolução em Biologia”, onde está manifesta a proximidade entre as hipóteses evolucionistas e as positivistas” ( 75 ). Nesta linha de comentários, Júlio de Mattos esclarece que, para ele, “o transformismo baseado inteiramente sobre dados positivos e factos averiguados” merece credibilidade positiva; pelo que, neste ponto, entre o posicionamento de Romero e o dele próprio, segundo afirma, o “acordo é

74 Idem, ibidem, p.403.

75 Idem, ibidem

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completo”. Contudo, o mesmo não acontece quanto ao termo “criticismo”, tal como utilizado pelo brasileiro. Sobre este, Mattos relaciona-o com a Filosofia Crítica, termo que “exprime um sistema muito diverso da Filosofia Positiva”. E, recorrendo a Wyrouboff, em quem estriba o seu próprio entendimento sobre a divergência teórica entre o criticismo e o positivismo, Mattos avalia que “o termo Positivismo ou Filosofia Positiva comporta em si maior extensão que aquela que lhe é dada pelo mentalidade moderna desde que os seus sectários admitem, como o Sr. Silvio Romero, a classificação hierárquica das ciências na ordem da generalidade decrescente e complexidade crescente, a lei sociológica dos três estados, os processos gerais de investigação, à posteriori e a impossibilidade radical de resolver os problemas de origem e finalidade absolutas” ( 76 ). Feitas estas considerações, termina a apresentação do livro de Romero afiançando que, mesmo se “do novo livro A Filosofia no Brasil não podemos dar aos nossos leitores uma apreciação completa, porque ele é constituído, como já dissemos, de uma série de livros brasileiros, na maior parte desconhecidos para nós”, cumpria-se, pelo menos, um dever, “e esse cumprimo-lo gostosamente, é noticiar a aparição da obra, que nos vem familiarizar com os escritores do Novo Mundo e faz-nos assistir ao desenvolvimento da ciência e da Filosofia naquelas regiões”( 77 ). Anos mais tarde, porém, Sampaio Bruno nos dá uma imagem diversa sobre a recepção que teve a obra de Romero em Portugal. No seu Brasil Mental, Bruno revela que “quando Silvio Romero escrevera e publicara uma espécie de história da Filosofia no Brasil, em Portugal, foi, após o pasmo, um sucesso de gargalhadas. «Ora isto?!» dizia-se às mesas dos cafés, nas palestras dos jovens curiosos de espírito. «Com que então: a filosofia do Brasil? Hein? Esta nem o Diabo lembra! Se fosse a carne-seca

76 Idem, ibidem.

77 Idem, ibidem, p.403-404.

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do Brasil, ou a feijoada do Brasil… Mas, agora, a filosofia do Brasil. Valha-nos Deus!» E riam, jubilosos da sua suficiência”( 78 ). Tanto quanto parece, a dinâmica ao nível da divulgação não era bastante para uniformizar os critérios da recepção. Seria impossível que o fosse. Mas, até certo ponto, o elemento tensional subjacente ao sarcasmo acabava por confirmar um intercâmbio de ideias que, tanto quando associava tanto quando afastava os diversos autores em presença, manifestava a tendencial abrangência da propagação das ideias positivas à escala luso-brasileira. Os exemplos que a seguir elencamos dizem isso mesmo ( 79 ).

2.1.2. Nem precisamos sair das páginas de O Positivismo. Em secção

específica, informava seus leitores do intercâmbio de publicações realizado

pelos editores da revista – Teófilo Braga e Júlio de Mattos – mencionando, da mesma forma, as revistas, livros e jornais recebidos. Assim, percebemos que, desde o número 6, fascículo de Agosto/Setembro, de 1879, se publicitava, na contracapa da revista, o recebimento da já mencionada obra de Silvio Romero, A Filosofia no Brasil, bem como da obra de Clóvis Beviláqua e José Isidro Martins Júnior, Vigílias literárias, ou da Oração fúnebre, de António Cândido da Costa ( 80 ).

78 BRUNO, Sampaio. O Brasil Mental. Esboço Crítico. Porto: Lello Editores, [1898] 1997,

p.44.

79 Esta hipótese parece ser reforçada pelas considerações de Antônio da Rocha Almeida, que menciona a divulgação de autores portugueses e brasileiros – como Oliveira Martins, Teófilo Braga, Sílvio Romero, Tobias Barreto, por exemplo – no jornal O Combate, no sentido de fortalecer a perspectiva crítica diante das ideias católicas. Antônio da Rocha Almeida informa que em “10/04/1886 aparecia, de sua propriedade O Combate, de parceria com Argemiro Galvão, a lutar contra a Igreja e a Companhia de Jesus. Na lista dos colaboradores vinham Silvio Romero, Tobias Barreto, Graciano Azambuja, Rangel Pestana, Campos Sales, Teófilo Braga, Alcides Lima, Teófilo Mesquita, Oliveira Martins”. ALMEIDA, Antônio da Rocha, “Vultos da Pátria – 260 – Carlos von Koseritz”, Jornal Correio do Povo, 15/08/1965. Tentamos pesquisar o mencionado periódico, porém, está, actualmente, fora de possibilidade de ser consultado, devido a má conservação.

80 O Positivismo: revista de filosofia. Primeiro Ano, n.º 6, Agosto/Setembro, 1879, Contracapa. In: O Positivismo: revista de filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume III (números 1 a 6), 1880, 449p.

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Por sua vez, no fascículo de Outubro/Novembro de 1880, está explicitado o intercâmbio: “temos continuado a receber com regularidade os periódicos brasileiros Tribuna Liberal e Gazeta de Porto Alegre. Recebemos o Echo Académico e o Arquivo Literário. Dos livros que nos ofereceram de Portugal e Brasil adiamos a nossa apreciação por falta de espaço” ( 81 ). Comunicados como este são bastante recorrentes( 82 ). Em 1880, no fascículo de Fevereiro/Março, Júlio de Mattos retoma

o assunto sobre o acolhimento do positivismo no Brasil. No texto “A

Popularização das ideias positivas no Brasil”, afirma que “vão-se tornando

manifestos e cada vez mais acentuados os sintomas de renovação mental no Brasil. Na filosofia, como na literatura e na ciência, são evidentes os esforços com que naquele vasto país se tentam partir os moldes consagrados, mudar a direcção tradicional dos espíritos, combater os preconceitos teológicos e metafísicos, velhos ídolos perniciosos dia a dia eliminados diante das aspirações da consciência moderna”. Havia boas razões para acreditar no êxito da empresa. Porque, como gostava de realçar

o autor, “a agitação que actualmente se manifesta o Brasil e em Portugal é

indício seguro de que se há de entrar num caminho de progresso”. Pressentia ele uma gradual disponibilidade para que os “obreiros do pensamento novo se reunam na evangelização dos seus credos literários, científicos e filosóficos, [assegurando que] as aspirações de hoje serão as

81 O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.1, Outubro-Novembro, 1880. O Positivismo: revista de filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume III (números 1 a 6), 1880, 449p. 82 Como por exemplo: “Temos continuado a receber com regularidade os periódicos brasileiros Tribuna Liberal e Gazeta de Porto Alegre. Recebemos o Echo Académico e o Arquivo Literário. Dos livros que nos ofereceram de Portugal e Brasil adiamos a nossa apreciação por falta de espaço”. O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.2, Dezembro-Janeiro, 1881. Assim como: “temos continuado a receber com toda regularidade as revistas estrangeiras e nacionais que nos fascículos anteriores costumamos nomear nesta página. Recebemos mais o Pantheon, revista literária, e a Sentinela da Fronteira. A todos, os nossos agradecimentos”. O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.3, Fevereiro-Março, 1881. E ainda: “além das publicações costumadas recebemos mais, do Brasil: A Pátria Brasileira de Teixeira Mendes e Visões de Hoje, de Martins Júnior, livros que não podemos examinar agora por falta de espaço”. O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.6, Agosto-Setembro, 1881.

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realidades de amanhã”. Afinal, acreditava no poder da associação das forças positivas em âmbito luso-brasileiro: “associar forças é centuplicá- las; associem-se pois os pensadores brasileiros que assim conseguirão de um modo lento mas seguro o renovamento a que se propõem” ( 83 ). Pela sua parte, contribuía com a atenta tarefa de divulgação. Merece-lhe particular simpatia o projecto da Biblioteca Útil, editada em São Paulo “com o intuito de propagar a Filosofia Positiva no Brasil”, empreendimento que conta com a participação de intelectuais brasileiros já “vantajosamente conhecidos na Europa, como França Leite e Sílvio Romero” ( 84 ), e que desde o seu início encontra publicitação em O Positivismo ( 85 ). O sentido deste acolhimento só podia ser óbvio: se é verdade que “há no Brasil”, como diz Júlio de Mattos, “muita gente que estuda e está a par de todos os progressos intelectuais do mundo civilizado”, são todavia muito poucos os “que comunicam à sociedade o resultados da sua actividade intelectual. Reina entre nós a apatia mental, que é, como bem diz o Sr. Teófilo Braga, um das formas mais invencíveis da inércia”. É necessário, pois, “despertar deste letargo” e “levar a civilizadora luz da ciência aos que jazem imersos nas trevas da ignorância»”. Para isto, não basta ter o conhecimento das ideias que

83 MATTOS, Júlio de. “Popularização da Filosofia Positiva no Brasil”. O Positivismo: revista de filosofia. Segundo Ano, n.3, Fevereiro/Março, 1880, In: O Positivismo: Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume II (números 1 a 6), 1879-1880, p.250.

84 Idem, ibidem, p.251.

85 Transcreve-se, assim: “«A falta, no Brasil, de livros destinados ao povo em que se lhe ministrem os conhecimentos científicos que pouco a pouco vão transformando o mundo, animou-nos a empreender a publicação de uma séria de volumes, em que se trata das variadas questões da actualidade»”. A Biblioteca Útil busca “«proporcionar ao povo a familiaridade com as ciências e todas as grandes ideias do século, eis o fim que tivemos em vista ao encetar esta colecção de livrinhos»” MATTOS, Júlio de. “Popularização da Filosofia Positiva no Brasil”. O Positivismo: revista de filosofia. Segundo Ano, n.3, Fevereiro/Março, 1880, In: O Positivismo:

Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume II (números 1 a 6), 1879-1880, p.250-251.

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vigoram nos países, “é necessário também que as adaptemos ao nosso meio e as façamos circular em nossos espíritos»”( 86 ). Em Março de 1880, os positivistas portugueses declaravam-se “desejosos que os simpáticos propagandistas da nova fé colham o máximo resultado na tarefa a que se propõem, [enviando-lhes] do extremo Ocidente da Europa os nossos votos de respeito”( 87 ). Por esta altura, já a reciprocidade no reconhecimento das dívidas intelectuais transatlânticas parecia ocorrer com naturalidade. A avaliar, por exemplo, pela edição das Soluções Positivas da Política Brasileira, de Luiz Pereira Barreto, obra publicada em São Paulo com um título propositadamente idêntico ao das Soluções Positivas da Política Portuguesa, em homenagem a Teófilo Braga, deveria ser mesmo assim. Com efeito, nas palavras de Barreto, “o título que tomamos […] não é uma pretensiosa imitação: é simplesmente uma homenagem. Quisemos pagar a Teófilo Braga o imenso tributo de gratidão que lhe deve a geração que hoje surge nas letras do nosso país” ( 88 ). Uma geração grata pela recepção e divulgação dos respectivos ensaios, com certeza, mas também, em grande parte, filiada num comum entendimento da esfera relacional entre os dois países e dos argumentos que a deveriam fundar. Uma geração associada ao homenageado pela comum participação numa mesma rede discursiva.

2.1.3. De acordo com o prefácio das Soluções Positivas da Política

Brasileira, de Luiz Pereira Barreto, que passamos agora a citar, afirma o positivista brasileiro ter a “convicção que as nossas condições políticas e

86 MATTOS, Júlio de. “Popularização da Filosofia Positiva no Brasil”. O Positivismo: revista de filosofia. Segundo Ano, n.3, Fevereiro/Março, 1880, In: O Positivismo: Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume II (números 1 a 6), 1879-1880, p.251.

87 Idem, ibidem, p.251.

88 MATTOS, Júlio de. O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.4, Abril/Maio, 1881, p.284-285. Júlio de Mattos assegura, de facto, nesse volume, uma interessante recepção crítica da obra de Barreto.

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sociais [brasileiras] não melhorarão em quanto não tiverem por ponto de partida uma modificação correspondente na situação de Portugal”. Para ele, “o fio da história não se rompe. Somos filhos de Portugal: a ele estamos presos por todos os laços indissolúveis de uma lei natural. A fatalidade biológica e o determinismo sociológico dominam toda a nossa história”. Daí que considere que “é em vão que procuremos esquivar-nos à pressão do passado. Temos sido, somos e seremos portugueses” ( 89 ). Mais ainda: “é da renovação intelectual, moral e social de Portugal que depende o progresso do Brasil”. É certo que “politicamente estamos separados. Mas, em história, o ponto de vista da política é secundário. A separação não suspendeu a lei secreta das afinidades; e a velha metrópole, hoje como outrora, conserva a sanção suprema para todos os nossos passos” ( 90 ). Pereira Barreto está completamente a par das modificações ocorridas no campo das teorias e das ideias, em Portugal, por via Geração de 1870. Para ele, “O Portugal de hoje não é o Portugal de há cinquenta anos atrás”, motivo pelo qual, “assim como herdámos todos os vícios e preconceitos dos nossos imediatos predecessores, devemos hoje, com calma e sangue frio, imitar o exemplo dos nossos irmãos d’além mar, seguindo firmemente a senda que traçam”( 91 ). Considera, assim sendo, que “é nosso dever de patriotas confessar francamente que, do outro lado do Atlântico, nessa mesma terra que nos serviu de embriogênio berço, existe hoje uma plêiade de homens cuja estatura não encontra entre nós paralelo”, para logo citar o nome dos intelectuais portugueses que admira: Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Felipe Simões, Guerra Junqueiro, G. de Vasconcelos, Eça de Queirós, Antero de Quental, Gomes Leal, Consiglieri Pedroso, Oliveira Martins, Luciano Cordeiro, Júlio de Mattos, Adolfo

89 Prefácio às Soluções Positivas da Política Brasileira, 1880. BARRETO, Luiz Pereira. Obras Filosóficas. Vol. III. Organizado por Roque Spencer Maciel de Barros. São Paulo: Humanitas, 2003, p.17.

90 Idem, ibidem, p.18.

91 Idem, ibidem. Grifos nossos.

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Coelho, Teixeira Bastos, Augusto Rocha, Bittencourt Raposo, Amaral Cirne, Guilherme de Azevedo, entre outros. Primordial lhe parece, pois, que “em nosso próprio interesse” – no interesse dos brasileiros, portanto –, estes entrem em “plena comunhão com esses espíritos elevados”. Pode entender-se o por que: embora “unidos no passado”, o certo e o esperado é que “nos uniremos cada vez mais no futuro pelos laços de uma filosofia comum”. O passado, sem dúvida, esse passado com Portugal, elemento essencial na constituição do brasileiro e na sua perspectivação. Mas, sobretudo, para Luís Pereira Barreto, é a filosofia o esteio para a união no futuro. Não estava só nessa intuição. Não é casual o agradecimento tributado, no referido prefácio da sua obra, a Carlos von Koseritz: “é com vivo estremecimento que aqui assinalo o nome de Carlos von Koseritz, o batalhador infatigável que tem posto ao serviço da pátria adoptiva trinta anos de sua vida, consagrando todas as forças do seu talento à defesa dos nossos mais altos interesses intelectuais, morais e sociais”( 92 ). Como não é fortuito o apoio entusiástico concedido à sua obra em resenha crítica de Júlio de Mattos, que do mesmo modo que reputa de “justíssimo” o tributo ali prestado a Teófilo, precisamente um dos diretores da revista O Positivismo, assim também declara estar “apoiando sem restrições o ponto de vista elevado do Dr. Pereira Barreto”, fazendo “votos, como ele, para que a união consciente dos dois povos se realize de um modo franco na comunhão de um mesmo pensamento filosófico” ( 93 ). Para que Portugal e Brasil se voltassem a unir, era importante, vincava Mattos, “que todas as dissidências artificialmente levantadas e

92 Prefácio às Soluções Positivas da Política Brasileira, 1880. BARRETO, Luiz Pereira. Obras Filosóficas. Vol. III. Organizado por Roque Spencer Maciel de Barros. São Paulo: Humanitas, 2003, p.19.

93 MATTOS, Júlio de. O Positivismo: revista de filosofia. Terceiro Ano, n.4, Abril/Maio, 1881. O Positivismo: Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume II (números 1 a 6), 1879-1880, p.284-285. Grifos nossos.

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violentamente opostas às leis históricas, terminem de uma vez; virá daí para todos nós a segurança, a firmeza de planos, a felicidade social dos que se sentem apoiados, dos que vêem secundados pela grande força da opinião todos os esforços mentais ou seja puramente críticos para a destruição de velhos erros, ou sejam orgânicos para a construção de ideais novos e de uma nova fé”. Neste projeto histórico, político e cultural, cabia à Filosofia Positiva o papel de elemento unificador. O positivismo representaria uma “síntese disciplinadora” que educaria os espíritos portugueses e brasileiros “no sentido de procurar na evolução humana o que o nosso colega tão justamente denomina «a lei secreta das afinidades» entre os povos historicamente irmãos” ( 94 ). Merece atenção este ponto. Para nossos propósitos, o que está em causa é o fato de que as relações luso-brasileiras não eram – para os positivistas – definidas pela “comunidade de sangue” tal como eram para Oliveira Martins. As relações não atrelavam-se aos papeis paternal/filial na referencialidade atribuída por Oliveira Martins. Agora tratavam-se de “povos irmãos”, fundamentalmente. Esta relação de fraternidade era gerenciada pela síntese filosófica positiva. Conforme a apreciação de Júlio de Mattos, à Filosofia Positiva cabia “a missão tão gloriosa e tão útil de promover de um modo consciente a conformidade de pensamento a unificação dos dois países que vivem das mesmas tradições e instintivamente sentem as mesmas aspirações, as mesmas necessidades sociais” ( 95 ). O mesmo ideal valia, também, para as necessidades políticas. Pelo menos em alguns aspectos no tocante ao debate entre unitarismo e federalismo. Porque, contrariamente ao que poderia parecer à primeira vista, se a questão federal atinge particular relevância para o Brasil, “não é

94 Idem, ibidem, p.284-285. Grifos nossos.

95 Idem, ibidem, p.284-285.

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menos séria nem menos importante para Portugal”. Tendo em conta quer a dimensão interna, quer o fator externo, estando naquele caso, a “centralização asfixiante da monarquia”, e, neste último, a vizinhança com a Espanha, “vasto país formado pela junção violenta de muitos estados” ( 96 ). Não surpreende, deste modo, que, relativamente à obra estampada no Rio de Janeiro, em 1881, intitulada A República Federal, de Assis Brasil, concluirá Júlio de Mattos ser o autor gaúcho “um dos talentos mais robustos e mais bem orientados da moderna geração brasileira”, o qual lhe havia enviado o volume ( 97 ). Daí que concluísse que “assim como aos brasileiros, a nós, portugueses, embora por motivos em parte diferentes, a discussão madura dos sistemas federal e unitário importa-nos duplamente:

como questão interna e como questão internacional” ( 98 ). Esta evidência apenas seria incompreendida por “aqueles que, ainda hoje, mau grado todos os progressos das ciências sociais, persistem no erro lastimoso de confundir federação e unionismo”( 99 ). Para Mattos, como para Assis Brasil, a necessária suplantação da Monarquia pela República urgia, não podendo deixar de acontecer, na medida até em que a “evolução” fá-la-ia extinguir- se, em terras brasileiras como em terras portuguesas, pelo seu “natural desenvolvimento”. Tal raciocínio manifesta bem um amálgama entre as teorias naturalistas do final do século XIX e o projeto republicano de cariz positivista. Também por esta via parecia legítimo supor que através de uma conformidade de anseios e projetos positivistas – incluindo neste escopo a República Federativa – seria formada uma nova base social e cultural de

96 MATTOS, Júlio de. “A República Federal, por Assis Brasil” O Positivismo: revista de

O Positivismo: revista de filosofia.

Terceiro Ano, n.4, Abril/Maio, 1881. O Positivismo: Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume III

(números 1 a 6), 1880, p.443.

97 Idem, ibidem, p.438.

98 Idem, ibidem, p.440.

99 Idem, ibidem, p.443.

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filosofia. Terceiro Ano, n.6, Agosto/Setembro, 1881

relacionamento associativo entre Portugal e Brasil. Claro está que isto seria condicionado por um percurso ditado metodologicamente. Isto o próprio Júlio de Mattos em 1882. No texto “O Movimento Republicano no Brasil”, e à propósito do “oferecimento que o Sr. Alberto Sales, publicista brasileiro, acaba de fazer-nos do seu belo livro Política Republicana”, o autor frisa o “notável o movimento democrático” do Brasil , “notável não tanto pela energia e actividade, que aliás são grandes, como pelo carácter eminentemente positivo que o caracteriza, [ou seja:] não é uma agitação indisciplinada, um aspirar inconsciente e anárquico a reformas políticas e sociais, o que aí se observa; é, sim, uma forte opinião radicada, metodicamente posta à luz com a coragem serena e paciente, a mais poderosa de todas as coragens, emanada da ciência e alimentada por um forte patriotismo” ( 100 ).

2.1.4. Embora seja relevante sua intervenção, Júlio de Mattos não foi o

único positivista português a fazer a recepção de texto brasileiros. Na Revista de Estudos Livres, Teixeira Bastos e Teófilo Braga noticiaram o surgimento de várias obras brasileira que buscavam a divulgação da ciência positiva. No cômputo das recepções e críticas feitas por Teixeira Bastos constam textos sobre a obra de Silvio Romero, Introdução à história da literatura brasileira, publicado no Rio de Janeiro em 1882, bem como sobre o livro A Terra e o Homem à luz da moderna ciência, publicada, em Porto Alegre, em 1884, por Carlos von Koseritz. Teófilo Braga, por sua vez, fez a recepção crítica da já aqui mencionada obra de Alberto Sales, publicada em São Paulo em 1885. Além destas recepções críticas, observa- se, também, nas páginas da Revista de Estudos Livres, a publicação integral

100 MATTOS, Júlio de, “O Movimento Republicano no Brasil”. O Positivismo: revista de filosofia. Quarto Ano, n.3, Maio/Junho, 1882. O Positivismo: Revista de Filosofia. Direcção Teófilo Braga e Júlio Mattos. Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Volume IV (números 1 a 6), 1882, p.246.

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de dois artigos de autores brasileiros ( 101 ). Um deles, de Isidro Martins Júnior, sobre A função histórica da economia política, e o outro, um significativo texto de Sílvio Romero sobre As Teorias da História da Literatura Brasileira. Limitemo-nos, em tom de exemplaridade, à análise que Teixeira Bastos faz da Introdução à História da Literatura Brasileira, publicada no Rio de Janeiro, em 1882, por Sílvio Romero. Conforme veremos, o seu comentário à obra romeriana remete para a mesma “província de significado” que temos vindo a caracterizar em torno dos ideários de conotação positivista. Assim, ao apresentar Romero ao leitor, Bastos não o faz por menos:

“Comparam-no a Teófilo Braga e cremos que não é sem razão, porquanto o ilustre escritor brasileiro tem adquirido na sua pátria tantas inimizades quantas entre nós outrora adquiriu o distinto professor do Curso Superior

de Letras” ( 102 ). Por outro lado, uma vez que, em seu entender, “as gerações

novas [de Portugal e Brasil] chegaram já à compreensão de que era

apaixonado e injusto esse ódio que dividiu os seus maiores e hoje começam

a olhar-se como irmãos, a estimar-se pelo que realmente valem, e a

auxiliar-se nos seus esforços comuns em prol da civilização”, mais margem de manobra passará a haver para, à semelhança do que faz Sílvio Romero, mobilizar o talento no sentido de (segundo a própria expressão deste último, que Bastos transcreve) “«encontrar as leis que presidiram e

101 Beatriz Berrini refere a pouca abertura que as publicações de Portugal davam aos escritores brasileiros. Na Revista de Estudos Livres, entretanto, podemos perceber uma interessante e profícua relação entre os escritores brasileiros e portugueses. Nesse caso, além das recepções críticas do que era publicado no Brasil, também vemos artigos importantes de brasileiros publicados na revista. BERRINI, Beatriz. Brasil e Portugal: a geração de 70. Breves indicações dos correspondentes brasileiros e portugueses por Paulo Franchetti e Beatriz Berrini. Prefácio de Isabel Pires de Lima. Porto: Campo das Letras, 2003.

102 BASTOS, Teixeira. Recepção crítica à Introdução à história da literatura brasileira, por Silvio Romero. Primeiro volume. Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1882, 254p. In: Revista de Estudos Livres, Ano I, 1883-1884, p.234.

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continuam a determinar a formação do génio, do espírito, do carácter do povo brasileiro»” ( 103 ). Dito isto, a apreciação do autor de Portugal não é ibérico oscila entre uma concordância de fundo e um distanciamento cirúrgico: “como se vê o Sr. Silvio Romero, adoptando os novos processos históricos, divide o seu trabalho em duas partes, a que podemos chamar, servindo-nos da tecnologia positivista, parte estática e parte dinâmica, estabelecendo primeiro os elementos constitutivos da nacionalidade e as condições da marcha da evolução intelectual. É este o verdadeiro método sociológico. O Sr. Sílvio Romero não é, porém, positivista, embora se aproxime muito do ponto de vista filosófico iniciado por Comte e seguido por Littré, por Robin, por Wyrouboff, em França, e propagado em Portugal por Teófilo Braga e no Brasil por Pereira Barreto. Com razão condena a ortodoxia laffitista, que desconhece completamente os notáveis progressos efectuados

por todas as ciências depois da morte de Comte, e combate a influência exagerada do francesismo na literatura brasileira, mas infelizmente deixa-se impressionar em demasia pelo germanismo e confunde a concepção positivista com o culto da Humanidade ou o Ente Supremo. O entusiasmo pelo germanismo tanto pode ser causa de ideias erróneas, quanto o tem sido

o abuso do romantismo ou do francesismo” ( 104 ). Divergência grave? Aparentemente não, desde que ficassem claros, como o eram para Teixeira Bastos, os seguintes pontos: que “a verdade não

é propriedade de qualquer seita ou escola filosófica, não pertence aos

sábios de qualquer nacionalidade ou raça, [até porque] a ciência é cosmopolita; aceitamo-la de onde ela nos venha”( 105 ); e que “o positivismo, como concepção geral do universo, [só erradamente] seria considerado uma escola filosófica ou uma seita religiosa, e ainda menos um produto

103 Idem, ibidem. Grifos nossos.

104 Idem, ibidem, p.235.

105 Idem, ibidem, p.236.

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exclusivo da mentalidade francesa, [sendo antes] formado sobre as leis naturais achadas indistintamente pelos sábios de todos os países [“conclusão aceite pelo Sr. Sílvio Romero, desde que aprecie a profunda diferença que separa a filosofia positiva do positivismo cultural dos laffitistas”]” ( 106 ). Não sendo assim, não ficando claros tais pressupostos, ficaria seriamente comprometida a eficácia da rede discursiva como a que, estruturada sobre a dinâmica de um intercâmbio científico transatlântico, constituía, ela própria, a melhor comprovação de que, como rezava o credo de Teixeira Bastos, “o critério do homem de ciência deve colocar-se acima de todos os preconceitos partidários ou nacionais” ( 107 ).

2. Interpretações concorrenciais

O investimento até agora feito ao nível da escala cultural luso- brasileira permitiu descortinar umas quantas redes discursivas, produtoras de outros tantos alinhamentos políticos e científicos. As alegorias da “comunidade de sangue” e da “fraternidade entre os dois povos” podem simbolizar, cada uma a seu modo, esta percepção. O ponto anterior elucidou já este aspecto. Interessará agora aprofundar o suporte teórico mobilizado no contexto daqueles circuitos. De fato, a circulação de ideias denunciava posicionamentos distintos em relação ao intercâmbio cultural transatlântico. Isso resultava de uma dinâmica interpretativa sobre o sentido desse intercâmbio – e, sobremaneira, as teorias sobre o lugar da história na explicação das relações culturais e das construções identitárias – impunha critérios concorrenciais de abordagem. São estes que agora nos interessam. Adiante-se que, no quadro deste raciocínio, identificámos três linhas interpretativas maiores no tocante às relações luso-brasileiras: a que

106 Idem, ibidem, p.236.

107 Idem, ibidem, p.236. Grifos nossos.

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perspectiva esse relacionamento em termos de derivação; a que o faz em termos de convergência; e a que o faz em termos de distanciamento. Tendo por objetivo dar conta de cada uma delas, tomamos por emblemáticos os textos dos “prefácios” e “prospectos” das revistas com as quais temos vindo a trabalhar, bem como de outras tantas fontes oriundas do mesmo universo discursivo. Importa ter presente que o texto que forma o prefácio não possui a mesma valia dos demais artigos que, de fato, “preenchem” um periódico. O prefácio é oriundo de um posicionamento político tomado pelos diretores e principais redatores da publicação. Trata-se de um momento de inauguração de uma “identidade textual”, de demarcação de um território discursivo que será, posteriormente, ocupado pelo conjunto de textos dos articulistas. Assim, o enunciado feito sobre dos objetivos propostos, ou das relações estabelecidas, representa, para nós, indicador precioso do ponto de vista que, em cada momento, buscamos esclarecer.

2.1 O ponto de vista da derivação

A linha interpretativa a que chamamos derivativa pode ser perseguida tomando como ponto de partida o prospecto da Revista Ocidental. Dirigida por Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, a Revista Ocidental – cujo papel no tocante à circulação das ideias entre Portugal e Brasil já atrás deixamos expresso – apresenta-se, desde o seu início, como um espaço discursivo em continuação do espírito crítico que animara as célebres Conferências Democráticas do Casino, ocorridas em Lisboa ainda em 1868( 108 ). Vejamos então as indicações relevantes, para a nossa

108 Pelo que indicam os estudos especificamente voltados à revista, percebe-se que a edição da revista já estava sendo planejada desde inícios de 1872. Conforme informa Maria José Marinho, seu lançamento, embora programado para Setembro de 1874, só veio a concretizar-se mesmo em 15 de Fevereiro de 1875. Tudo leva a crer o seguinte: que, por motivos do agravamento da doença de Antero, a organização da revista teria ficado mais a cargo de Batalha que de Antero.

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problemática, fornecidas por esta revista cuja publicação se dava por meio de fascículos quinzenais que, ao final de um trimestre, eram publicados em conjunto num só tomo( 109 ).

2.1.1. Primeiro aspecto a ter em conta: embora impressa em Lisboa, a

Revista Ocidental continha artigos tanto em idioma português quando em idioma castelhano. Este fato deve-se, conforme afirma o estudo de Maria José Marinho, a uma decisão tomada com intuito de “facilitar a difusão na América Latina” ( 110 ). Trata-se, claramente, de uma preocupação em integrar os países da América do Sul ao âmbito ibérico de circulação da Revista Ocidental. Uma preocupação a reter. É recorrente dar maior destaque à publicação, no quadro da revista, de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós. Para nós, contudo, no intuito de focalizar as relações culturais entre Brasil e Portugal, é a seção “Crónicas-Revistas”, presente em todas os fascículos da revista, que assume particular importância. Esta secção era composta, geralmente, por quatro subgrupos: “América”, escrita por D.R. de Cala, que continha geralmente informações sobre os acontecimentos das repúblicas de língua

espanhola da América Latina; “Espanha”, coluna não assinada, que continha textos a respeito dos factos concernentes a Madrid; “Europa”, assinada por J. Batalha Reis, que dava ênfase aos acontecimentos geralmente ocorridos em França ( 111 ); e a coluna “Portugal e Brasil”,

Para mais informações, indicamos o estudo de MARINHO, Maria José. “A Revista Ocidental, 1875 – um projecto da Geração de 70”. In: Revista da Biblioteca Nacional, 2ª série, vol.7, n.º1,

1992.

109 O primeiro tomo corresponde a seis fascículos referentes, respectivamente às seguintes datas de publicação: 15 de Fevereiro; 28 de Fevereiro; 15 de Março; 31 de Março; 15 de Abril e 30 de

Abril. O segundo tomo corresponde também a seis fascículos referentes a 15 de Maio; 31 de Maio; 15 de Junho; 30 de Junho e 15 de Julho.

110 MARINHO, Maria José. “A Revista Ocidental, 1875 – um projecto da Geração de 70” In:

Revista da Biblioteca Nacional, 2ª série, vol.7, n.º1, 1992, p.57.

111 Eventualmente, nesta secção, havia também outras chamadas, tais como “Revista Agrícola”, ou introduzia-se variações, como quando Batalha Reis, em sua crônica, pôs como título “Estados Unidos-Europa” (na edição de 28 de Abril de 1875).

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assinada por P. de Oliveira (pseudônimo de Oliveira Martins), que continha informações sobre as duas nações de língua portuguesa. Uma arrumação geográfica nada acidental e, por isso, também a reter. Uma observação do “Prospecto” da revista permitirá aclarar estas opções ( 112 ). A avaliar por esse documento, o propósito que animava a publicação era o de “instruir povos, nivelar os espíritos, dar a todos os homens a partilha da grande herança da civilização” ( 113 ), por forma a aumentar o “nível de consciência” dos leitores, objetivo que era mais importante ainda, no entendimento dos editores, no caso dos povos ibéricos. Afinal, “se espanhóis e portugueses formam de há muito duas nações distintas, tiveram todavia sempre, na organização filosófica e sentimental dos seus espíritos, na fisionomia das suas literaturas, no carácter dos seus actos, a afinidade que lhes deu a origem comum de raças e a acção, também igual para ambos os povos, do clima da península ibérica”. Embora organizados em dois Estados distintos, Portugal e Espanha representam uma e mesma “origem comum”. O problema da origem. Assim se pode resumir uma das linhas analíticas que atravessa o “Prospecto”. De fato, numa época de forte adesão ao poder dos conhecimentos científicos modernos e num contexto de importantes transformações de ordem internacional, a definição acerca do papel atribuído tanto a Portugal como a Espanha fazia-se depender de um momento anterior de autodefinição. Definição da identidade nacional – como do perfil da coletividade –, situada ao nível das origens e, portanto, obrigando à discussão sobre o passado e ao estudo da história. Um estudo que se fazia depender de uma constatação radical do atraso dos povos

112 “Prospecto da Revista Ocidental”. Anexo I ao texto de MARINHO, Maria José. “A Revista Ocidental, 1875 – um projecto da Geração de 70” In: Revista da Biblioteca Nacional, 2ª série, vol.7, n.º1, 1992, p.65-67. 113 Nos excertos do prospecto optámos por gravar tal e qual a versão impressa (saliente-se que, na transcrição do mesmo, Maria José Marinho procede zelosamente ao registo das alterações entre a versão manuscrita e a que depois foi impressa). Idem, ibidem, p.65.

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peninsulares. Este ideário é cifrado na seguinte constatação: “Espanha e Portugal não têm, até hoje, entrado activamente na renovação filosófica, científica e artística deste século. O grande movimento actual é ao mesmo tempo alemão, francês, inglês italiano se quiserem, mas não é de modo algum espanhol ou português”. Avaliação também estendida aos povos latino-americanos, ex-colónias ibéricas, o que fazia com que, num efeito de duplicação ou de ressonância, o desfasamento dos ibéricos em relação aos saxões fosse igualmente vislumbrado à escala americana: “se olharmos para a América também compreendemos de momento que o progresso científico e industrial é aí mais representado pelas colonizações inglesas do que pelas espanhola e portuguesa” ( 114 ). Perante tão vincado entendimento de um mesmo conjunto de povos – ibéricos e neoibéricos – unidos numa mesma situação de atraso e de necessidade de modernização, compreende-se que a escala ibérica comporte a marca de uma negatividade referencial, da qual é oriunda, de igual modo, a escala neoibérica, dado que ambas se achavam comummente envolvidas pelos mesmos problemas. Afinal, “quaisquer que sejam as causas desta incontestável diferença são elas decerto comuns ao quatro povos, quase que diria às quatro raças que acabamos de falar. Iguais em caracteres essenciais da sua originalidade no meio das nações da Europa, também ao mesmo tempo se separam da corrente geral” ( 115 ). Daí que os intelectuais que subscreviam o projeto da Revista Ocidental acreditassem na necessidade de “uma unidade superior de carácter e uma atitude idêntica em face do movimento moderno” por parte de “um grupo natural de nações do ocidente da Europa [e dos] povos que foram prolongar na América, decerto modificando-o, o mesmo espírito e a

114 Idem, ibidem, p.65.

115 Idem, ibidem.

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mesma situação” ( 116 ). Culturalmente agregar-se: eis a receita para que os povos ibéricos europeus e americanos melhor consigam chegar a equiparar- se ao nível de modernidade visto nos demais povos europeus. Eis, então o objetivo da Revista: “provocar a reunião dos elementos da nova renascença intelectual da península e a formação das novas escolas espanhola e portuguesa”. Por isso, “deverá a REVISTA, por um lado expor os trabalhos que todos os dias adiantam a renovação dos estudos no mundo civilizado; por outro, definir, nos seus elementos precisos, os caracteres gerais da nossa individualidade e os elementos que tornam natural a autonomia intelectual da Espanha, de Portugal, da América espanhola e do Brasil, e os dos grupos ainda diversos que estes quatro povos encerram decerto” ( 117 ). Assim, ao mesmo tempo em que buscavam através da crítica moderna – esse “instrumento delicadíssimo de análise” – mostrar “toda a criação de que andamos alheados, e todos os elementos do que podemos ser no meio dela” ( 118 ). Eis o apelo dos editores ao “auxílio dos povos latinos dos dois continentes” ( 119 ).

2.1.2. Idêntica compreensão pode ser também vislumbrada no artigo que

abre as páginas da primeira edição da Revista, um texto publicado em idioma espanhol e intitulado Los Pueblos Peninsulares Y La Civilización Moderna. O seu autor é J.P. de Oliveira Martins( 120 ). Assinalou já Sérgio Campos Matos que este texto introdutório da Revista Ocidental, de autoria de Oliveira Martins, “deve ser entendido como peça fundamental na linha reflexiva que o levaria poucos anos depois a escrever a História da

116 Idem, ibidem, p.66.

117 Idem, ibidem.

118 Idem, ibidem, p.66-67.

119 Idem, ibidem, p.67.

120 Lembre-se que Oliveira Martins tinha passado o período 1871-1874 a viver em Espanha.

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Civilização Ibérica (1879)” ( 121 ). De igual modo é possível vislumbrar o tom das demais obras históricas do autor: a História de Portugal, o Brasil e as colónias portuguesas e o Portugal Contemporâneo. Oliveira Martins inicia o texto expondo a mensagem que estava contida no prospecto da Revista. Ressalta ele que “solamente una Revista Occidental, decimos, podrá representar ante Europa, el genio de los pueblos que habitan la península ibérica y los que, hijos suyos, fueron á acampar en la América meridional” ( 122 ). Como vimos, a instituição de um espaço de troca e circulação de ideias no âmbito dos “Povos Peninsulares” – a Revista Ocidental –, dá-se com o intuito de marcar diferença em relação à restante Europa, num movimento de diferenciação e de balizamento do estatuto ibérico por contraste com os demais povos europeus. Naturalmente: para o projeto desta revista, como para os autores que o subscrevem, Portugal compreende-se enquanto representante do gênio peninsular. Mas há mais: é que também os povos da América do Sul – ex- colônias – eram entendidos como “filhos” ibéricos, como representantes, na América, do mesmo “génio peninsular”. Com isto se ensaiava uma linha demarcatória do âmbito cultural luso-brasileiro, definido pela matriz ibérica.

No texto de Oliveira Martins ecoa, em boa medida, a célebre conferência Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, proferida em 27 de maio de 1871, no Casino Lisbonense ( 123 ). O que não surpreende, atendendo ao sentido seminal que parece calhar à intervenção anteriana em relação ao “espírito”

121 Conforme MARTINS, J.P. de Oliveira. Portugal e Brasil. Introdução e notas de Sérgio Campos Matos, fixação do texto de Bruno Eiras e Sérgio Campos de Matos. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2005, p.16.

122 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In: Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.5.

123 QUENTAL, Antero. Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos:

discurso pronunciado na noite de 27 de Maio na sala do Casino Lisbonense / por Anthero de Quental. Porto: Typ. Commercial, 1871.

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que anima a maior parte dos textos presentes, anos depois, na Revista Ocidental. Tal como no texto de Oliveira Martins, Antero, na sua conferência de 1871, falava para um “nós, espanhóis”, referindo-se a uma plateia de portugueses, em Lisboa. A contextualização precisa destas referências transportar-nos-ia, evidentemente, para longe do nosso objetivo. Mas, independentemente disso, o que aqui não pode deixar de merecer destaque, sobre o texto de Oliveira Martins, é a inclusão dos povos sul- americanos nesse mesmo rol ibérico, nessa mesma matriz. O relacionamento luso-brasileiro, tão claramente expresso na troca de ideias fomentada pela própria Revista Ocidental, não é senão o relacionamento entre povos ibéricos e neoibéricos na América. O âmbito luso-brasileiro seria, assim, um subconjunto. Uma derivação ibérica em solo americano. Mas, afinal, em que consiste o propalado “génio peninsular”? Responde o texto martiniano: “Él íbero desde lo alto de las peñas de Asturias, dice á la invasión árabe: «¡Detente!» y la invasión se detuvo, para no crecer mas. La marea cuyas oleadas llegaron á traspasar los Pirineos, comenzó á descender y cinco siglos de tenaces guerras consiguieron barrer de la península la asiática media luna. Qué sentimiento animada al español en esa verdadera Ilíada, continuación de Troya y de Platea, de Maratón, de Salamina y de las guerras punicas, en esa eterna pelea de Europa contra Asia?” ( 124 ). E se acaso constituir, para o leitor, motivo de estranheza a omissão, neste impressivo retrato, da influência árabe na formação dos povos peninsulares (dando por adquirido que o português, inserido que estava no conjunto, ali está contemplado) ( 125 ), encarrega-se o autor de

124 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1875, p.6.

125 A influência ou não do moçárabe na formação étnica e/ou cultural do povo português acendeu uma interessante polêmica entre duas facções, a saber: Alexandre Herculano, Antero de Quental e Oliveira Martins, entre outros, que defendiam a inexistência de influência árabe na cultura portuguesa, e Teófilo Braga e seus seguidores que defendiam a originalidade da cultura portuguesa justamente pela importância da influência moçárabe na sua formação. Nas secções

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esclarecer o seguinte: “cruzábanse las razas, tolerábanse los cultos, trocábanse las costumbres y el lenguaje y las ideas; mas ¿desaparecía acaso por eso el sentimiento fatal que tornaba incompatible al español y al árabe sobre el suelo de la península? No, nunca”( 126 ). Por outro lado, semelhante leitura da realidade ibérica via-se obrigada a colocar o problema da “decadência”. Neste ponto, o texto de 1875 insinua a influência de certo naturalismo organicista ( 127 ) ao manifestar alguns aspectos nucleares que se reconhecem ao decadentismo martiniano – tipificado pela expressão consagrada na sua História de Portugal, “Os Lusíadas são um epitáfio”. Para ele, o momento cimeiro da ascensão evolutiva de Portugal encerra já, paradoxalmente, o início da decadência. Tal como na natureza, também a vida das nações é marcada pelo ciclo nascimento, crescimento, maturidade, decadência e morte. Ora, sendo certo que Oliveira Martins entende o Brasil como o prolongamento de Portugal na América, não custa prever a sua eventual aceitação perante o fato de que a mesma essência que na Europa fenece possa vir a florescer na América. Como quer que seja, de vital importância se revelava para o autor publicitar a sua reflexão acerca das características e da validade do conhecimento histórico para efeitos de interpretações deste teor. Assim, o vemos recordar que foi “la necesidad de acción” a causa principal dos descobrimentos ibéricos, na medida em que “el duro y fuerte brazo del soldado peninsular, el espíritu ardoroso del creyente, exigían combates y propagandas: combatir con los moros ó con los mares ¿qué

seguintes, analisaremos mais detalhadamente a mencionada polêmica e suas influências na formação das imagens identificatórias da cultura portuguesa (em sua relação com o Brasil, especificamente).

126 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”. In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.7.

127 A esse respeito consultar PEREIRA, Ana Leonor. Darwin em Portugal: Filosofia. História. Engenharia Social (1865-1914). Coimbra: Editora Almedina, 2001, sobretudo o capítulo 3 “A lógica martiniana da história”, na parte 1, sobre “os traços naturalistas da filosofia da história martiniana”, pp.231-235.

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importa? Es combatir siempre, es vivir". Por isso lhe é possível sustentar, em síntese, que “históricamente, la causa determinante de los descubrimientos está en el desarrollo dada á la física y á la geografía por un lado y por otro en las tradiciones que los viajes de los cruzados habían esparcido por toda Europa” ( 128 ). O recurso às analogias com a antiguidade vem à tona quando descreve os Descobrimentos como “una epopeya, mas grande que la de Troya, mayor que la romana”. As analogias com o passado cimentam a importância dos estudos históricos para o campo das ideias oitocentistas. Afinal, “la historia es la base de la epopeya del siglo XIX, que ninguna pluma puede, ni podrá acaso escribir”. Mediante a evocação deste ou de outros aspectos da história portuguesa, resulta inegável o peso que as “lições da história” têm para o argumento de Oliveira Martins ( 129 ). Inevitável se tornava, desse modo, articular o conhecimento da História (para ele com H maiúsculo) com as demais Ciências Sociais, tão em voga nos círculos cientistas do conhecimento: “la historia es para las ciencias sociales lo que las ciencias elementales físico-químicas son para las de la vida; instrumento de deducción”, pois, “la razón concluye, la historia analiza”( 130 ). Como bem se aceitará, não pode inferir-se deste reconhecimento da importância do lugar da História um correlato desprezo pela validade das então recentes Ciências Sociais. Na realidade, “el procedimiento histórico deductivo que sirve para comprender los hechos y descifrar los problemas de la vida europea no puede aplicarse á países como las jóvenes naciones americanas, donde falta los anales y los

128 Idem, ibidem, p.13.

129 Ver a esse respeito CATROGA, Fernando. “O magistério da História e a Exemplaridade do ‘Grande Homem’. A biografia em Oliveira Martins. In: PÉREZ JIMÉNEZ, A. RIBEIRO FERREIRA, J. & FIALHO, Maria do Céu (editores). O retrato literário e a biografia como estratégia de teorização política. Coimbra-Málaga, 2004, pp.243-288.

130 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.14.

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precedentes, los puntos de contacto y de comparación con las viejas naciones de Europa”. Entende-se a questão. Numa compreensão cara à matriz hegeliana de entendimento da História, Oliveira Martins acredita que, antes dos Descobrimentos, os povos “selvagens” da América estavam ainda “fora da História”( 131 ). Assim, por serem escassos os materiais relativos ao passado das sociedades americanas, mais adequados ao seu entendimento estavam os preceitos das Ciências Sociais. Em rigor, a tarefa parecia ser a de compatibilizar, no âmbito de uma teoria do conhecimento, aquelas áreas do saber: disso dependia tanto a relação entre a História e as Ciências Sociais, como, em simbiose, a relação entre o Velho e o Novo Mundo, ou ainda – em outro modo de o dizer – entre a escala ibérica e a escala neoibérica. Porque, dado que “la suma de observaciones científicas, etnológicas, climatológicas y sociales son por ventura suficientes, si nó para trazar una historia futura, á lo menos para determinar las líneas generales que la vida de un pueblo ha de seguir, dadas las condiciones conocidas, á pesar de que el sistema de su reunión sea nuevo enteramente, [então] tal es nuestra situación ante las naciones sud-americanas, las naciones neo-peninsulares” ( 132 ).

2.1.3. Por consequência, o autor lê as diferenças verificadas, na

América, entre os povos sul-americanos de língua espanhola e o Brasil, em termos de uma transferência dos mesmos elementos que, no contexto peninsular, distinguem Portugal da restante Espanha. Para Oliveira Martins, na história da América, a organização das diferentes repúblicas de língua castelhana em contraposição à existência de uma grande monarquia brasileira, é compreendida, de modo bastante

131 Conforme a obra de HEGEL, Georg Wilhelm. A Razão na História: introdução a uma Filosofia da História Universal. Lisboa: Edições 70, 1995. 132 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.14-15. Grifo nosso.

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naturalístico, quase como o germinar das diferenças entre as distintas heranças ibéricas, a castelhana e a portuguesa. A analogia é muito clara, quando ele afirma que “esta diferencia en los caracteres originarios de la colonización, llena de consecuencias importantes, produce un resultado que en lo futuro se torna por si solo en causa de la profunda diversidad de fisonomía entre los sistemas de colonias en la América del sur”. Enquanto a colonização castelhana foi feita por uma “turba de aventureros, una democracia de emigrantes, que cambia un suelo por otro, las llanuras de la Mancha por las llanuras de las Pampas”, já, por seu turno, “ el hidalgo que partía de Lisboa, llevando consigo familia, criados, trabajadores, decidido á fijarse y á tomar posesión de la vasta región que le fuera dada, no contando con volver mas á Europa, iba á asentar su ciudad en el punto mas céntrico de la región que poseía”( 133 ). O Brasil foi povoado neste parâmetro, conforme seu relato, num quadro de enormes distâncias internas. “La imposibilidad económica de ligar entre si los centros dispersos de población y civilización, la dificultad y muchas veces la imposibilidad, de los viajes”, criou o primeiro “vicio orgánico del sistema de colonización portuguesa en el Brasil”, que é o facto de que apenas se “conocen entre si las ciudades del litoral”. Mas ainda um maior vício contaminou o sistema colonizador lusitano: o “espíritu aristocrático de los portugueses, repugnando el cruzamiento, fue causa de un hecho que hoy pesa todavía como plomo sobre el Brasil: la esclavitud”. Considera, entretanto, uma perda o não aproveitamento do índio no sistema colonizador. Isto porque “la sangre del indio aclimatado preservaría al europeo: el europeo infiltraría en el indio la exuberancia de fuerza, de arrojo, de audacia, de educación. No sucedió así y por ello fue preciso recurrir al exterminio de otra raza. Los cafres inundaron el Brasil: vinieron

133 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.15-16.

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brazos, mas vino con ello el pecado de que se había lavado la Europa, vino el amor á indolencia, vino la crueldad y la desmoralización, que infaliblemente producen los crímenes contra lo justo”( 134 ). Assim, “de este concurso de elementos salió de una parte en el Brasil un fac-símile hasta cierto punto artificial, de las naciones de Europa”, pois “las instituciones y las ideas muévense y viven en las ciudades que bordean la costa á imitación del mundo antiguo”. Para além dessa aparência, “el vicio primitivo y casi orgánico de la colonización” somado à “falta de raza y á la incomunicación”, fazem do Brasil “una vasta colonia alimentada por la emigración”. Daí seu questionamento:

“¿como se ha de transformar en una nación, en el sentido histórico de la palabra?” ( 135 ). E se, frente a essa questão, que “los datos actuales no permiten resolver suficientemente”, Oliveira Martins considera que o Brasil, apesar de lhe faltar ainda um caráter nacional (e mesmo reconhecendo que não lhe faltava carácter político), não fica diminuído frente aos demais países sul- americanos. Isto porque o Brasil “tiene de nuestra sangre portuguesa la facultad de asimilación, que, si desvanece los caracteres afirmativos de nacionalidad, nos hace eminentemente aptos para recibir y comunicar todas las impresiones de la corriente eléctrica de la civilización”. Assim sendo, o papel do brasileiro é o de representar as ideias europeias em solo americano, pois “su constitución, su código, sus instituciones y sus costumbres, salvo le esclavitud en vías de abolirse, hacen del imperio americano el representante de las ideas europeas en el nuevo mundo” ( 136 ). Claro estava que os maiores méritos reconhecidos ao Brasil e à sua simbologia íam mais além. Apontavam para o quadro de uma inevitável e

134 Idem, ibidem, p.16.

135 MARTINS, J.P. de Oliveira. “Los Povos Peninsulares y la civilización moderna”, In Revista Ocidental, Direcção de Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, Ano I, Tomo I, fascículo de 15 de Fevereiro, 1975, p.16-17.

136 Idem, ibidem, p.17. Grifos nossos.

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desejável aliança política que deveria unir os países de língua espanhola e portuguesa, fossem os da Península Ibérica, fossem os da América, como representantes que eram da mesma raça ( 137 ). Tratava-se, é certo, de uma resposta à tendencial supremacia anglo-saxónica e liberal em escala mundial. Efetivamente, segundo ele, os tempos de liberalismo político, de utilitarismo econômico, de livre concorrência, “destruyeron ya las distinciones de posición relativa entre las colonias y las madres patrias”. Assim, é importante que “unas y otras, y cada cual dentro de las condiciones especiales de su economía, se encuentren libremente unidas en el desempleo de la misión que les atribuye el lugar que ocupan entre los grandes sistemas de pueblos de origen aryano” ( 138 ).O que estava em jogo, afinal, era simples: o fortalecimento político da escala ibérica de referência, ideal sustentado no reconhecimento dos vínculos naturais que, sob a alçada da História, se haviam plasmado no seio da família hispânica. É essa a perspectiva em que, anos mais tarde, em 1892, se coloca Oliveira Martins, em texto intitulado “A Liga Ibérica”, no qual insiste, uma vez mais, no tema da relação entre os países ibéricos e seus “filhos”, os países “neo-ibéricos”: “E desse império imenso, de há três séculos, que resta? Retalhos dispersos, e um enxame de nações filhas das duas nações peninsulares. Puderam os erros da política e a sorte fatal dos povos, desconjurar o que fora unido, espalhando sobre o mapa do mundo os membros dispersos da família hispânica. Mas não puderam apagar a memória da máxima empresa da História Universal, porque foi dela que o mundo ganhou o conhecimento da própria terra, na sua redondeza. Nem

137 Nesse sentido, vemo-lo contrapor a escala anglo-saxónica à ibero-americana, dizendo que “el Brasil, las repúblicas y todos nosotros, hispano-portugueses, podemos oponer al frío imperialismo sajón, la pura y positiva idea de la conveniencia que es para él la base única de las leyes. La idea principal que mantenemos, del Derecho. La historia la apreciará en mucho mas que todos los millares de millas de caminos de hierro, que todos los millones de caballos de vapor”. Idem, ibidem, p.18.

138 Idem, ibidem, p.20.

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podem também destruir os vínculos naturais da filiação, no sangue, na língua, na fé…” ( 139 ). Assim, no texto de 1892, Oliveira Martins revela ter “a ambição, porventura quimérica” de estabelecer uma “liga de todos os povos que falam castelhano e português: a liga ibérica, ou hispânica, de todos os descendentes das nossas duas nações. Portugal com suas colónias, ainda espalhadas pela África e pela Ásia até à China; Portugal, com o Brasil que é seu filho, ocupa mais de quatro milhões de milhas quadradas de terra, sobre que vivem trinta e dois milhões de homens, falando a língua de Camões. A Espanha, com as suas colónias; a Espanha com o feixe de nações americanas, o México, o Peru, o Chile, Nicarágua, Venezuela, Honduras, a Bolívia e a Colômbia, a Argentina, a Guatemala e o Equador, Salvador, Santo-Domingo, o Uruguai e o Paraguai, ocupam nove milhões quase, de milhas quadradas sobre que vivem mais de sessenta milhões de homens, falando a língua de Calderón”( 140 ). Vemo-lo, afirmar que seria um ato glorioso para todos estes povos, agora autônomos politicamente, “reatar a tradição, buscar energias, pisando como Anteu o solo firme da História, e inspirarem-se na política perspicaz dos monarcas, quando era o pensamento dos reis quem determinava os destinos dos povos” ( 141 ). A história é o “solo firme” a ser pisado tanto pelos povos ibéricos como pelos “neo-ibéricos”, seus “filhos”. Esta seria, para o autor da História da Civilização Ibérica, a estratégia adequada a seguir num contexto internacional marcado pela expansão dos signos culturais anglófonos e pelo perigo de que “em breve se tenha acabado de atrofiar, saxanizado, o que resta do império hispânico”. Faltava, contudo,

139 “A Liga Ibérica”, La Ilustración Española e Americana, 1892. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & Cia Editores, 1957, p.301. Grifos nossos.

140 “A Liga Ibérica”, La Ilustración Española e Americana, 1892. In: MARTINS, J. P. de Oliveira Política e História. Volume II (1884 – 1893). Lisboa: Guimarães & Cia Editores, 1957, p.301-302. Grifos nossos. 141 Idem, ibidem, p.302. Grifos nossos.

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“insuflar-lhe alento para que outra vez se erga à vida activa, a espantar de novo a História com a grandeza das suas façanhas” ( 142 ). No âmbito deste exercício analítico reativo à expansão saxónica do final do século XIX, o culto dos laços transatlânticos permitiria prolongar no tempo, em outro ambiente, uma grandeza que só seria efetiva se bafejasse tanto os seus originários cultores, quanto os povos que, filialmente, deles haviam derivado.

2.2. O ponto de vista da convergência

Esta interpretação derivativa do relacionamento luso-brasileiro, contudo, não esgotava o sentido das diversas aproximações ao assunto. Diferentemente se posicionou, por exemplo, todo um viés analítico estruturado sobre a ideia de uma associação de interesses e projetos comuns envolvendo Brasil e Portugal, países e culturas cujo relacionamento se deveria interpretar, primacialmente, de acordo com este viés crítico, sob a ótica da convergência. A fonte principal que nos servirá agora de referência será o programa geral da Revista de Estudos Livres. Publicada em doze fascículos mensais, todos depois agrupados num volume anual de publicações que, em sua maioria, tinham estreita ligação à divulgação dos princípios da ciência positiva, a revista tinha, inicialmente, dupla direção literário-científica: uma em Portugal e outra no Brasil. A direção portuguesa cabia a Teófilo Braga e Teixeira Bastos. A brasileira era formada por Américo Brasiliense, Carlos von Koseritz e Silvio Romero.

142 Idem, ibidem, p.303.

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2.2.1.

Convirá atentar no que diz o Programa da Revista de Estudos

Livres, que abre a primeira edição anual (1883-1884) desta publicação e que foi escrito por Teófilo Braga:

“Lançando à publicidade a REVISTA DE ESTUDOS LIVRES, não poderíamos expor melhor o pensamento que a motiva, nem o intuito que nos estimula senão apresentando em duas palavras o que Augusto Comte entendia por uma Revista moderna. O eminente transformador da Filosofia do século XIX, projectava uma Revista ocidental como um órgão de aplicação contínua da sua doutrina ao curso dos acontecimentos humanos, realizados ou previstos, para a apreciação sistemática do movimento intelectual e social nas cinco grandes populações avançadas, francesa, italiana, espanhola, germânica e britânica. […] A REVISTA DE ESTUDOS LIVRES visa à aplicação dos eternos princípios da liberdade intelectual, moral e política aos acontecimentos actuais, para os julgar e poder deduzir deles as condições do progresso. Todas as investigações nos interessam, com tanto que elas conduzam para um ponto de vista social. Na crise de transformação mental e política em que vão entrando as duas nacionalidades portuguesa e brasileira, filhas da mesma tradição histórica, nas quais o regime católico-monárquico subsiste pela inércia, mas sem apoio nas consciências, é imensamente necessário um órgão crítico e especulativo que agremiasse os dois povos para a inteligência da sua transição inevitável. A REVISTA DE ESTUDOS LIVRES tornar-se-á benemérita no dia em que inicie esta convergência necessária, até hoje firmada apenas pelo nexo económico e pela concorrência mercantil, formas espontâneas da síntese activa. Entre Portugal e Brasil existem as bases profundas de uma síntese afectiva, como se verificam esplendidamente nas festas do Centenário de Camões, porém as publicações intituladas luso-brasileiras, não podendo elevar-se à compreensão da síntese especulativa, ou acordo mental, caíram diante da chateza da exploração do assinante, obstando pelo descrédito à influência de um pensamento tão fecundo. A Revista de Estudos Livres procura reatar a aliança mental luso-brasileira; eis o seu fim prático resultante do actual momento histórico”( 143 ).

No programa da revista, acima transcrito parcialmente, há, na perspectiva da nossa investigação, vários elementos importantes a reter: i) o lugar ordenador e polarizador de uma base de pensamento positivista, enquanto responsável pelas balizas doutrinárias da revista; ii) o apelo a um movimento de “convergência” luso-brasileira, condição necessária num contexto de crise e transição que enfrentam as duas nacionalidades (a portuguesa e a brasileira); iii) o reconhecimento de uma “síntese afectiva” entre essas nacionalidades, patenteada nas comemorações do Centenário de

143 Revista de Estudos Livres. Programa. Directores literário-científicos: em Portugal Doutor Teófilo Braga e Teixeira Bastos; no Brasil Doutores Américo Brasiliense, Carlos Koseritz e Sílvio Romero. 1883-1884, p.1-3. Acervo B.G.U.C. Grifos nossos.

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Camões mas não dispensando uma “síntese especulativa”; e, por fim, iv) o propósito de “reatar a aliança mental luso-brasileira”. Como se percebe, a Revista de Estudos Livres institui uma escala discursiva luso-brasileira para a divulgação dos conhecimentos modernos da ciência positiva. Mas – pergunta-se – qual foi, no contexto brasileiro, a repercussão desta proposta de Teófilo Braga que falava em “reatar a aliança mental luso-brasileira”? É verdade que estão, ao lado de Teixeira Bastos, três brasileiros a subscrever o primeiro volume da Revista: Américo Brasiliense, Silvio Romero e Karl von Koseritz. Mas seria esse fato o garantidor de um inquestionável apoio à iniciativa?

2.2.2. Não é o que indicam as fontes consultadas. Veja-se, por exemplo, o

tom da resposta que Araripe Júnior faz estampar em um texto publicado na revista brasileira Lucros e Perdas, logo em Julho de 1883, por conseguinte bem em cima do acontecimento. Nessa crônica, Tristão de Alencar Araripe Júnior informa os leitores brasileiros da seguinte forma: “Aparece agora em Portugal uma publicação com o título de Revista de Estudos Livres.” Em seguida, transcreve parte do programa da Revista, ressaltando um trecho que contém a proposta, escrita por Teófilo Braga, de «reatar a aliança mental luso-brasileira». Logo após, manifesta-se: “Lido e relido este período, eis-me perplexo. Nunca um filósofo arriscou um plano mais inane, nem isso que se chama espírito de observação se prestou a mais inconsistente e irrisória declinação”. Diz ainda o crítico cearense que “por honra, entretanto, ao ilustre historiador, deixo de atribuir à má parte a temerária proposta, para considerá-la somente o produto da mais completa ignorância dos elementos que constituem a nação brasileira” ( 144 ).

144 ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. Lucros e Perdas, Direcção de Araripe Júnior e Sílvio Romero. Rio de Janeiro, Ano I, n.º2, julho de 1883. In: Obra Crítica de Araripe Júnior. Volume I (1868-1887). Direcção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p.351.

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A drástica negativa de Araripe Júnior tem por pano de fundo, em

boa dose, as resistências teóricas em torno das noções de “processo evolutivo” no âmbito das nações e de “transmissão” no caso das relações entre ex-metrópoles e ex-colónias: “não basta saber que raças compõem um povo para determinar-lhe a fórmula”, dirá Araripe Júnior. É preciso “ver

esses mesmos elementos – vivos, em ação, em movimento. Não basta conhecer a anatomia do corpo humano para dizer-se que se sabe o homem; é indispensável acompanhar experimentalmente o seu desenvolvimento fisiológico” ( 145 ). Segundo ele, “não obstante a analogia tirada das colônias inglesas e outras, – o exemplo histórico teria sido suficiente para afastá-lo dessa ideia grotesca de uma impossível refusão” ( 146 ).

A proposta de “aliança mental” surge aos olhos de Araripe como

uma tentativa de “refusão”. Assim sendo, o viés nacionalista do autor só podia encaminhá-lo para uma óbvia negação. Até porque, por outro lado, a forte influência do naturalismo em sua compreensão da cultura brasileira e da relação que esta deveria ter com a portuguesa solidificava a sua recusa:

Acordo mental! Mas seria necessário que nós, semente desprendida daquela árvore milenária, reproduzida e transformada, frutificando em

novo solo, em regiões completamente diversas, produzindo garfos estranhíssimos, recebendo enxertos fortíssimos; que nós fôssemos agora mentir a todas as leis sociológicas, aniquilar os impulsionamentos heróicos, que tendem a afastar-nos, dia a dia, do tronco de onde saímos, reagindo contra o hausto febricitante que nos impele à assimilação das qualidades daquelas raças progressivas, possuidoras dos elementos de que mais carecemos para sair dos in pace político. Não! Mil vezes não!”( 147 ).

O afastamento entre Brasil e Portugal respeita, na compreensão do

autor, a ordem das leis sociológicas, do desenvolvimento natural dos novos

145 Idem, ibidem, p.351.

146 Idem, ibidem, p.352.

147 Idem, ibidem, p.352. Grifos nossos.

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organismos, das novas sociedades. Qualquer proposta em contrário seria antinatural, sendo de nenhum proveito para o Brasil. Face aos “tempos de transformação” de que fala Teófilo Braga no programa da Revista de Estudos Livres, Araripe Júnior, ao contrário, acredita que quanto mais afastado o Brasil estiver de Portugal, tanto melhor será seu desenvolvimento natural. Para deixar bem clara a sua posição, Araripe, por ocasião da citada resposta, expõe, em quatro tópicos, a estrutura de seu pensamento sobre as relações entre as culturas portuguesa e brasileira, com “toda a seriedade que merece” o assunto. A citação é um pouco longa, mas justifica-se que lhe façamos um acompanhamento comentado, visto o modo esclarecedor com que denuncia a compreensão do autor sobre o relacionamento cultural entre Brasil e Portugal:

i) “É natural que o Sr. Teófilo Braga e os seus colegas da Revista façam a proposta. O sentimento é profundamente cosmopolita; mas nem é português, nem vem com o verdadeiro rótulo. Neste ponto, Camilo Castelo Branco procede com mais lógica” Segundo o autor, a proposta de Braga é oriunda de um sentimento de insuficiência da pátria, sentimento que, aliás, perpassa, na compreensão de Araripe, toda sua geração. Diz ele que “quer confessem, quer não, a pátria lhes é hoje insuficiente. Esse grupo de moços, alentados por sentimentos que nada mais têm de comum com a contextura moral de sua terra, em última análise, experimentam uma revolta contra o próprio meio em que vivem; não acham uma base sólida que suporte reorganização, nem matéria plástica que se preste aos novos moldes por impor. Daí um inconvenientíssimo movimento através do Atlântico, procurando um público a quem se afeiçoem, com que possam contar, em quem influam”. Na verdade, o autor enxerga no projeto da Revista de

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Estudos Livres uma tentativa de “recolonização psíquica”, que se trata de “um notável erro, senão uma imperdoável pretensão” ( 148 ). ii) Numa postura claramente nacionalista, afirma: “Como influência mental, a lição portuguesa é perturbadora da nossa evolução natural”. Segundo ele a cultura brasileira é “uma amálgama”. Por isso, “querer guardar puros os caracteres desta civilização, tão puros como os imaginou Comte, é ir de encontro à maior força reconhecida em sociologia, que é a resultante do imprevisto da fusão das raças e da imersão desse precipitado em regiões cujos recursos sejam pasmosos”. Crítico do positivismo, afirma que “todos sabem que nenhuma doutrina calhou tanto em Portugal como o comtismo, e há de ser aceita por todas as nações decrépitas, incapazes de se renovarem por si mesmas, sem influência da força estranha”. Nesse sentido, para o Brasil, seria negativa a influência da cultura portuguesa nos finais do século XIX, pois estaria “injetando em nosso funcionamento elementos já visivelmente contrários à sua marcha natural”. Para ele, “toda a doutrina caduca é enormemente anárquica. E é essa anarquia que, inconscientemente, o Sr. Teófilo Braga e seus colegas tentam inocular em nosso organismo”. E continua:

iii) “a tradição portuguesa não nos deve interessar tanto como aos que dela vivem unicamente. Se em Garrett (Camões) e Alexandre Herculano (Eurico) tece ela um certo sainete pitoresco, isto já constitui um fato passado” ( 149 ). Ora, segundo ele, “preocupa-se com o passado quem não tem futuro. Só os velhos aprazem-se em avivar a memória dos tempos idos. Os moços revolvem as cinzas de onde sairão enquanto os elementos necessários à coordenação do presente, mas com os olhos sempre fitos no horizonte luminoso que os atrai”. Daí que considere improdutiva a

148 Idem, ibidem, p.352.

149 ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar. Lucros e Perdas, Direcção de Araripe Júnior e Sílvio Romero. Rio de Janeiro, Ano I, n.º2, julho de 1883. In: Obra Crítica de Araripe Júnior. Volume I (1868-1887). Direcção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p.353.

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reaproximação das esferas culturais brasileiras com Portugal. Afinal, pergunta: “o que nos adiantaria compartilharmos dessa preocupação constante das antigas navegações? Mergulharmo-nos no subjectivismo atroz, que faz padecer os moços a quem me refiro? Nada”. E, com efeito, para o autor de Gregório de Matos, a comemoração do Centenário de Camões, ao contrário do que afirmara Teófilo, acabara não por aproximar as duas nações, mas, ao contrário, “erguendo o orgulho colonial, amesquinhou o espírito nacional”. iv) Acresce, por fim, que, para Araripe, “a questão econômica” é, de todas a “mais grave”. Nesse quadro, considera que se a solidariedade do português “cresce dia a dia”, o brasileiro, por sua vez, “se sente mais distanciado, menos português”. Haveria, assim, uma atmosfera de “hipócritas, brasileiros e portugueses, que vivem a abraçar-se numa fingida sinceridade que tem sua base principal na praça do comércio”. E, em boa inspiração naturalista, exara que “só há um meio de obviar o choque de duas massas que se extremam: é abater uma e obrigá-la a absorver-se na outra, subordinando-a a uma nova coordenação de moléculas”. Termina rogando que “sejam estas frases recebidas como reagente posto por mão cordata e sincera. O que convém, presentemente, é que não pensem mais em educar canários no reino para vierem cantar no império” ( 150 ). Após a exposição pormenorizada dos argumentos de Araripe Júnior, contrários à proposta de “aliança mental” luso-brasileira, cabe perguntar se houve alguma repercussão, em Portugal, desse virulento discurso surgido nas páginas da revista Lucros e Perdas. É o que logo se vê.

150 Lucros e Perdas, Direcção de Araripe Júnior e Sílvio Romero. Rio de Janeiro, Ano I, n.º2, julho de 1883. In: Obra Crítica de Araripe Júnior. Volume I (1868-1887). Direcção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p.354.

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2.2.3.

A Revista de Estudos Livres também continha uma seção, chamada

“Bibliografia”, de recepções críticas de obras relevantes na tarefa de divulgação dos princípios da ciência positiva. É neste espaço que Teófilo Braga responde a Araripe. Através de uma recepção crítica da publicação da revista Lucros e Perdas, o autor dos Elementos da nacionalidade portuguesa faz uma série de apreciações sobre o tom negativo das opiniões do cearense a propósito da “aliança mental” tal como esta havia sido avançada nas páginas da Revista de Estudos Livres. Convém lembrar, entretanto, que o projeto da citada revista brasileira Lucros e Perdas era assinado não apenas por Araripe Júnior, mas também por Silvio Romero, o qual, aliás, também subscrevia – como diretor “literário-científico” brasileiro – a Revista de Estudos Livres. Romero estava, portanto, em ambos os projetos editoriais. Esta circunstância explica, provavelmente, a abordagem inicial de Teófilo, na altura de referir o texto de Araripe ( 151 ): “Conhecemos os redactores desta revista literária e o tipo da sua publicação, um pouco moldada pelas Farpas do nosso eminente crítico Ramalho Ortigão”. Em seguida, faz uma apreciação bastante positiva de Silvio Romero, com quem, pouco depois, entraria em intensa polémica ( 152 ), dele dizendo tratar-se de “um professor distinto e um audacioso reorganizador da literatura brasileira, investigando as tradições populares e procurando nelas o tema para a criação de uma poesia e arte nacional” ( 153 ). Quanto a Araripe, dele diz Teófilo que “aparece como um esmerado investigador das riquezas tradicionais da província do Ceará, devendo-se-lhe curiosas indicações sobre o ciclo dos Romances de Vaqueiros com que contribuiu para a colecção dos Contos

151 Merece destaque o fato de Silvio Romero não mais aparecer, no segundo ano da Revista de Estudos Livres, como diretor “literário-científico”.

152 Na seção seguinte analisaremos os detalhes que envolveram Teófilo Braga e Silvio Romero em conhecida polêmica.

153 BRAGA, Teófilo. Secção “Bibliografia” sobre a revista Lucros e Perdas – crônica mensal dos acontecimentos, por Silvio Romero e Araripe Júnior. Rio de Janeiro, 1883, 1º fascículo, in Revista de Estudos Livres, ano I, 1883-1884, p.333-336.

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Populares do Brasil”. E afirma, depois, em tom de lamento: “Quando pensávamos que os dois espíritos procediam de acordo mental na sua crítica, logo no primeiro número dos Lucros e Perdas rebenta a dissidência nas suas opiniões, separam-se não por incompatibilidade de humor, mas por falta de unanimidade de princípios. Involuntariamente a nossa Revista de Estudos Livres foi a causa da dissidência” ( 154 ). E prossegue assinalando que Araripe Júnior teria feito “tremendas acusações” que se podem refutar, posto que “são emoções de um inconsciente chauvinismo parodiado de velhas coisas que tiveram já o seu tempo”. De resto, a “aversão das colónias americanas contra a Inglaterra, motivada por causas históricas, tem sido por vezes parodiada no Brasil sem outro fundamento mais de que uma impressão individual que desabafa em jornais como a Tribuna ( 155 ) ou qualquer outra folha anónima” ( 156 ). O “facto positivo é que o Brasil, pela sua grandeza, precisa do concurso de todas as actividades, e que todo aquele que perturba por qualquer forma a convergência desse esforço civilizador, assoalhando antipatias de raça , quando a mestiçagem acabou com elas, e ódios históricos sem realidade nos factos, pratica um acto estéril, impotente, mas que nem por isso deixa de ser condenável” ( 157 ). Dirá, ainda, forçando a nota quanto ao caráter cientificamente estribado dos seus argumentos, que “aplicar ao Brasil esta aversão ao

154 A informação de que a Revista de Estudos Livres teria causado a “dissidência” entre Silvio Romero e Araripe merece ser melhor averiguada. De qualquer forma, há indícios para crê-la verdadeira. Conforme a nota dos organizadores da publicação das Obras críticas de Araripe Júnior, “Araripe e Sílvio se desentenderam a meio caminho, deixando o primeiro de prosseguir na parceria”. “Nota dos organizadores”. In: ARARIPE JUNIOR, Tristão de Alencar, Lucros e Perdas. In: Obra Crítica de Araripe Júnior. Volume I (1868-1887). Direcção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1958, p.529.

155 Provavelmente Teófilo se refere a Tribuna do Pará, jornal, aliás, também mencionado pelas crônicas de Oliveira Martins na Revista Ocidental, em 1875, conforme vimos.

156 BRAGA, Teófilo. Secção “Bibliografia” sobre a revista Lucros e Perdas – crônica mensal dos acontecimentos, por Silvio Romero e Araripe Júnior. Rio de Janeiro, 1883, 1º fascículo, in Revista de Estudos Livres, ano I, 1883-1884, p.334.

157 Idem, ibidem.

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elemento português é uma leviandade. Se por ventura na população

brasileira se eliminasse de um certo tempo em diante o elemento português,

a população com o decurso do tempo regressava ao elemento selvagem. É

isto o que se demonstra pela antropologia. De todos os povos da Europa só

o português, o italiano e o espanhol é que podem adaptar-se ao clima da

América meridional; o espanhol tem as suas próprias colónias que o atraem, o italiano que emigra não é sedentário, só o português é que se dirige para o Brasil como uma continuação da sua pátria” ( 158 ). Bom seria, portanto, que se reconhecesse que o imigrante português, pela sua atividade no Brasil “funda os grandes instrumentos de produção”, só trazendo para Portugal “o dinheiro com que nos afasta de um sério regime económico”, num cenário em que “no Brasil ficam montados os aparelhos que elaboram

a riqueza”, indo para Portugal o dinheiro “com que o nosso organismo

económico se sustenta depauperando-se”. Daí que fale da “mutualidade de interesses” que é a base de uma “concórdia espontânea entre brasileiros e colonos portugueses”, referindo, ainda, a existência de uma “harmonia de sentimentos” derivada dos “nossos antecedentes históricos, da mesma civilização de que ambos os povos são os actuais representantes, tão sublimemente expressa no Centenário de Camões, mau grado os despeitos isolados que envolveram a independência política com a unificação moral de uma mesma tradição” ( 159 ). É, assim, taxativo: “só falta realizar o acordo mental” através da formação de “uma clara compreensão histórica e social dos dois povos, e procurando as bases de unanimidade dos espíritos em uma doutrina deduzida da realidade objectiva dos factos”. A doutrina positivista teria, para Braga, a possibilidade de, sobre fatos da “realidade”, instituir uma convergência da situação histórica dos dois países, posto que eles “nada

158 Idem, ibidem, p.334.

159 Idem, ibidem, p.334-335.

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têm a esperar já da organização católica, que hoje só se impõe pela sua pela sua perturbação da esfera civil e pela dissolução da vida doméstica”; ou seja, a “filosofia positiva é a única doutrina que considera os factos da vida geral das sociedades sob o ponto de vista objectivo da invariabilidade das leis naturais, e que em vez de utopias subjectivas funda as suas observações nos antecedentes históricos” ( 160 ). A diferença de opiniões entre Teófilo e Araripe estava, em suma, ancorada numa vincada desinteligência em matéria de “leis naturais” da “evolução dos povos”. Para Araripe, lembre-se, a evolução natural do povo brasileiro passava pelo seu afastamento de Portugal. Para Teófilo, ao contrário, uma aliança luso-brasileira estaria inscrita na ordem das coisas e fortaleceria ambos os países. E, como ambos os países estavam, segundo a compreensão de Braga, em acentuado “período de transição”, importava, portanto, “acelerar a circulação de ideias” entre eles ( 161 ). Esse intercâmbio seria uma evidência a mais no sentido de uma associação de interesses e trajetos entre Portugal e Brasil. Ao mesmo tempo daria condições para o mútuo benefício que, sob um ponto de vista objetivo, deveria resultar da sua tendencial convergência.

2.3 Os cultores do distanciamento

Acesa a reação de Araripe Júnior à ideia de uma “aliança mental” fraternalmente esteada na filosofia positiva já é um bom indicador das diversas nuances que se iam colocando à convergência entre as culturas portuguesa e brasileira. Mesmo nem sempre assumindo foros de oposição declarada ao espírito “associativo”, forjavam-se outras linhas interpretativas na hora de “acertar contas” com o passado colonial. Uma

160 Idem, ibidem, p.335.

161 Idem, ibidem.

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delas era a que designamos por ponto de vista do distanciamento. Seu principal expoente será, em nosso entender, Sílvio Romero. Há boas razões para isso. Primeiro, porque Romero tanto fez parte do elenco da Revista de Estudos Livres – proponente de uma “aliança mental” luso-brasileira – como integrava a redação da revista brasileira Lucros e Perdas, em cujas páginas, como vimos, Araripe Júnior negava fortemente qualquer tipo de aproximação a Portugal. Depois, porque o cariz nacionalista de seu projeto intelectual, ao conduzi-lo à busca da originalidade do tipo brasileiro, impunha – necessariamente – uma permanente revisão das relações com Portugal. Um bom posto de observação do seu pensamento é a Revista Brasileira, periódico que acolheu os primeiros textos romerianos publicados no Rio de Janeiro, em 1879. Concentramos nossa análise, exclusivamente, na chamada “fase II” dessa revista – fase em que a maior parte das matérias abordavam textos de crítica cultural, literatura, análises e recepções críticas de autores consagrados ( 162 ). É aí que se vislumbram as temáticas de âmbito luso- brasileiro.

2.3.1. A produção de Romero na Revista Brasileira tem uma especial

importância, pois marca o período de sua chegada ao Rio de Janeiro. Segundo Luís da Câmara Cascudo, esse momento é fundamental na biografia intelectual do autor, pois é nele que Romero busca espaço na cena

cultural carioca, procurando distinguir-se do exagerado francesismo desta ( 163 ). É nesse momento, também, que ele acentua sua atividade de

162 A Revista Brasileira foi editada em três fases distintas (1857-1861, 1879-1881, 1895-1898). Sobre a Primeira fase (1857-1861) consultar MASSARANI, Luisa. A divulgação científica no Rio de Janeiro. Algumas reflexões sobre a década de 20. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO [Dissertação de Mestrado em Ciência da Informação], 1998, 127p. 163 Assim se expressa Luís da Câmara Cascudo: “Fixando-se no Rio de Janeiro em 1879, Silvio Romero começa a publicar na Revista Brasileira os estudos A Poesia Popular no Brasil, reunidos em 1888, num tomo, Estudos sobre a Poesia Popular no Brasil, Tip. Laemmert. Esses estudos duraram um ano. Era o programa da análise do folclore brasileiro, sua literatura oral em

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propagador das ideias da Escola de Recife. À parte dessas considerações de ordem biográfica, é de assinalar ter sido, precisamente no Rio de Janeiro, que Romero intensificou suas intervenções à escala luso-brasileira. Delas nos deteremos agora ( 164 ). O primeiro texto publicado por Sílvio na Revista Brasileira foi A Poesia Popular do Brasil ( 165 ). Aí estabelece os critérios determinantes da individualidade do brasileiro em relação aos demais povos, sendo que “nesta inquirição devem ficar fora do quadro o português nato, o negro da costa e o índio selvagem, que existem atualmente no país, porque não são brasileiros, e sim estrangeiros” – porque, se “o genuíno nacional é o descendente destas origens”, ele não se confunde com elas( 166 ). Para Romero, o “genuíno brasileiro de hoje, como geralmente se apresenta, é em regra um resultado de cada um dos três factores principais em separado, ou de dois, ou de todos os três”. Nesta mistura, entretanto, o “factor português pesa-lhe com mais força por meio de sua civilização, sua língua, sua religião e suas leis”( 167 ). Isso porque, segundo ele, “o negro crioulo, e o mulato ainda menos, não podia figurar como testemunho certo de que sentiram e pensaram seus ascendentes africanos, os pretos ditos da Costa”, porque, assim como o “caboclo e seus descendentes”, todos foram “mais ou menos completamente educados à portuguesa”( 168 ). Vê-se, claramente, que o problema que começa por se lhe colocar é, forçosamente, o de definir esse português cuja contribuição para o conhecimento do

plano sistemático, poesia, teatro tradicional, orações, jogos infantis, contos populares. Esses motivos foram expostos, revolvidos, apresentados com aquela vivacidade típica, num ar de desafio, porque era no tempo um pisar-de-pé na cultura oficial”. CÂMARA CASCUDO, Luís da. “Epígrafe e Nota bibliográfica”. In: ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil. Petrópolis: Vozes, Coleção Dimensões do Brasil, 1977, p.11.

164 Contudo, vale frisar que analisaremos, em seção à parte, a publicação de uma edição especial em comemoração ao Tricentenário da morte de Camões, em 1880.

165 ROMERO, Sílvio. “A Poesia Popular no Brasil”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo I,1879, p.94-102 – 1ª parte.

166 Idem, ibidem, p.97.

167 Idem, ibidem, p.98.

168 Idem, ibidem, p.100.

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genuíno brasileiro se afigura, independentemente de avaliações, absolutamente incontornável. Recorrendo a uma confessa utilização cruzada de Alexandre Herculano e Teófilo Braga ( 169 ), considera que “os portugueses povoaram este país numa época para eles de profunda decadência política e social, o tempo da Inquisição e do cativeiro espanhol em que findou o período heróico de sua história e começou a grande crise do desmoronamento em que ainda hoje se debate a estimável nação”. Por consequência, quando o Brasil começou a ser colonizado, “já em Portugal definhava, desprezada, senão esquecida, a grande poesia popular. De si já bastante emaranhadas as tradições da península hispânica, ainda mais o ficaram em o novo mundo para onde foram transplantadas no tempo de sua velhice. Os selvagens aqui encontrados foram raramente civilizados e incorporados em a nova geração que ia se perpetuar na América”( 170 ). E é fundado em semelhante pressuposto analítico que avança sobre o seu âmbito argumentativo de eleição, a construção das especificidades brasileiras. Em clara aplicação das ideias darwinistas ao estudo do folclore nacional, exprime que “nas danças, músicas e poesias populares, dão-se também as leis da seleção natural. Adaptadas ao novo meio, transformam- se, produzindo novos rebentos ou novas vidas”. Como exemplo, toma o tipo regional do baiano: “é mestiço de origem, predominando nele agora o elemento africano, que, por mais que o queiramos esconder, prevalece ainda em nossas populações”. Essa formação cultural brasileira, tomada à luz do exemplo baiano, caracteriza, entretanto, uma forte distinção da cultura brasileira em relação às demais culturas latino-americanas, ex-

169 Sílvio indica, em nota de rodapé, as seguinte fontes: “Alex. Herculano História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal, passim Th. Braga, Manual de História da Literatura Portuguesa”. ROMERO, Sílvio. “A Poesia Popular no Brasil”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo I,1879, p.101. 170 ROMERO, Sílvio. “A Poesia Popular no Brasil”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo I,1879, p.101.

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colônias espanholas. Assim, afirma Romero que “se nas repúblicas espanholas o cruzamento mais vasto foi do europeu com o índio, no Brasil foi do branco com o negro, predominando até agora as formas escuras nas classes baixas”. Afinal, no Brasil “se há de notar que o número de mestiços excede o de brancos puros, índios puros e negros puros, e que naqueles a impressão do preto é mais viva”. Por isso o “baiano é uma especialidade brasileira: ele e o vatapá e o caruru, também implantações africanas transformadas, são as três maiores originalidades do Brasil” ( 171 ). O critério da originalidade – isto é, o estabelecimento das especificidades produzidas em contexto unicamente nacional – é o verdadeiro interesse do crítico. Assim, compreende-se o bom conhecimento que este revela da obra de Teófilo Braga( 172 ), crítico português também preocupado com as originalidade da cultura lusitana em relação aos demais povos ibéricos. Nesse sentido, vemos Romero citar Braga, ao reafirmar que a “modinha é uma transformação da serranilha, como já foi demonstrado por Teófilo Braga, e é para mim menos original. Adaptada a este solo, quando foge do verso e música dos modelos convencionais, adquire também um grau pronunciado de originalidade. Chega a este ponto quando ao elemento português agregam-se outros, porque o genuíno brasileiro, como já disse, o nacional por excelência não é, como alguns hão afirmado erroneamente, este ou aquele dos concorrentes, mas o resultado de todos, a forma nova produzida pelos três factores” ( 173 ). Para Romero, citando o

171 ROMERO, Sílvio. “A Poesia Popular no Brasil”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo I,1879 – 3ª parte, p.270.

172 Essas relações entre Romero e Teófilo foram realçadas, por exemplo, por BORGES, Paulo. Pensamento Atlântico: estudos e ensaios de pensamento luso-brasileiro. Lisboa: INCM, 2002, principalmente no capítulo “Tradição, Literatura e Nacionalidade em Teófilo Braga e Sílvio Romero”, pp.135-154, também publicado em Sílvio Romero e Teófilo Braga. Actas do III Colóquio Tobias Barreto. Lisboa: Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, 19996. Dedicar-nos- emos a alguns detalhes desta aproximação teórica, estratégica e analítica dos dois intelectuais nos capítulos seguintes deste trabalho.

173 ROMERO, Sílvio. “A Poesia Popular no Brasil”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo I,1879 – 3ª parte, p.270.

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Manual de História da Literatura Portuguesa, de Teófilo Braga, a originalidade da modinha brasileira é um facto dado, na medida em que “por meio delas este país, quando colónia, chegou a influir na literatura da metrópole” ( 174 ). Todas estas considerações ganham o devido alcance quando enquadradas com outro texto de Sílvio Romero, também publicado na Revista Brasileira, em 1879. Trata-se do opúsculo A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo ( 175 ). Já no início do texto, à moda de um manifesto nacionalista modernista avant la lettre, declara Romero que “o Brasil, depois de quatro séculos de contacto com a civilização moderna, parece ter chegado ao momento de olhar para trás a ver o que tem produzido de mais ou menos apreciável no terreno das ideias” ( 176 ). Afinal, segundo a compreensão do autor, “uma nação se define e individualiza quanto mais se afasta pela história, do carácter das raças que a constituíram, e imprime um cunho peculiar à sua mentalidade”

( 177 ).

Percebe-se aqui, em toda a sua amplitude, o projeto romeriano. Suas declarações expressam um cunho nacionalista vincado, através de uma compreensão que entende que uma gradual diferenciação de Portugal faz parte da autodeterminação cultural brasileira. Para ele, como para muitos intelectuais brasileiros de sua época – pense-se, em Machado de

174 É importante ter presente que já em alguns trechos da A Poesia Popular do Brasil, podemos perceber as considerações que, anos depois, marcarão o bordão forte de sua História da

Literatura Brasileira, que teve primeira edição em 1888. Assim, vemo-lo, por exemplo, ainda na Revista Brasileira, em 1879, analisar a “A Filosofia da História de Buckle e o atraso do povo brasileiro”, secção que estará presente no livro de 1888. Relativamente ainda às fontes utilizadas por Romero, merece ainda lembrança que na última parte de A poesia popular do Brasil, Romero faça referência ao seu trabalho de 1873, bem como ao livro de Adolfo Coelho, Contos populares portugueses. Percebem-se, aqui, mais uma vez, as interpelações múltiplas existentes na escala cultural luso-brasileira. Idem, ibidem, p.274

175 ROMERO, Silvio. “A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo” In:

Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo II, outubro de 1879, p.273-

292.

176 Idem, ibidem, p.273.

177 Idem, ibidem, p.274. Grifo nosso.

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Assis, que, neste particular, parece, tanto quanto com Romero, antecipar o Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade ( 178 ) –, é preciso completar a independência política com a realização da independência cultural do Brasil. Eis aqui o elo político de um projeto intelectual e cultural em torno dos processos de individualização das características que determinam a nacionalidade brasileira.

2.3.2. Nesse processo de individualização, o brasileiro “se afasta pela

história”, diz Romero. Os conceitos do evolucionismo lamarckiano diziam- no também. Assim, em seu trabalho de “diferenciação nacional, o brasileiro será tanto mais progressivo e autonômico, quanto mais, apropriados os germens úteis que legaram-lhe as raças que o constituíram, delas afastar-se, formando um tipo à parte, uma individualidade distinta”. Lógico parece, assim sendo, que a “nação brasileira, se tem um papel histórico a representar, só o poderá fazer quanto mais separar-se do negro africano, do selvagem tupi e do aventureiro português” ( 179 ). Romero acredita que o funcionamento das sociedades é o mesmo que se verifica na natureza. O que lhe permite afirmar que, “como no

mundo físico corpos diversos e estranhos combinados produzem resultados distintos inesperados, assim na história a combinação de raças diferentes numa região vem a oferecer ao adiante o espectáculo das civilizações originais”. Mesmo que o Brasil ainda esteja em formação, mesmo que sua íntegra ainda seja um fato muito recente, acredita que “já é tempo de

178 Exemplo disso é o texto de Machado de Assis, Instinto de Nacionalidade e outros ensaios de 1878. Vale, entretanto, assinalar que podem haver critérios históricos concomitantes entre o texto de Machado de Assis, o de Sílvio Romero e o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, publicado em 1928. Estas relações hermenêuticas, contudo, não são evidentes e, por isso, merecem maior atenção e acuidade analítica. Não obstante isto, acreditamos haver, nesta perspectiva, muitas questões ainda a serem melhor perscrutadas, seja do ponto de vista exclusivamente brasileiro, seja do ponto de vista referente às aproximações luso-brasileiras nestes movimentos finisseculares e modernistas. 179 ROMERO, Silvio. “A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo” In:

Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo II, outubro de 1879, p.274.

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lançar-se um olhar retrospectivo sobre a sua história intelectual, para marcar os primeiros traços da individualidade embrionária deste povo recente”. À luz de uma interpretação naturalista do desenvolvimento dos povos e da história, afirma que contribuíram para o desenvolvimento do “embrião” brasileiro dois importantes agentes: “a natureza e a mescla de povos diversos”( 180 ). Onde observar o produto desse desenvolvimento? O autor da História da Literatura Brasileira considera que a literatura é uma das manifestações da “actividade mental” dos povos, e que, por isso, “pode com proveito ser consultada como sintoma de seu progresso ou decadência”. Nessa compressão, o estudo da história da literatura surge como expediente intelectual capaz de diagnosticar a força dos “organismos” nacionais. E que diagnóstico, em concreto, ela permite? Embora nacionalista, Romero distingue-se, às vezes com virulência, da maior parte dos românticos brasileiros, geralmente ufanistas, que acreditam que “tudo vai bem” nas terras brasileiras. Romero pensa diversamente. Para ele, “o povo brasileiro vai mal, muito mal, e entre as nações cristãs só um similar encontra na desgraça: o desventurado e mesquinho Portugal” ( 181 ). É no decurso deste posicionamento que Romero se preocupa em traçar a estrutura de uma história da literatura brasileira, dando ênfase aos períodos da evolução da intelectualidade através do critério nacional, um desiderato que lhe permite acentuar os fundamentos teóricos do seu entendimento acerca do carácter das nações: o “capítulo preliminar de uma história da literatura brasileira, quando o escreverem com rigor científico, deverá ser uma inquirição do como o clima do país vai actuando sobre as populações nacionais; o segundo deverá ser uma análise escrupulosa das origens do nosso povo, descrevendo, sem preconceitos, as raças principais

180 Idem, ibidem, p.274.

181 Idem, ibidem, p.275.

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que o constituíram” ( 182 ). Atenção, portanto, à questão racial brasileira, para ele de primordial relevo e sobre a qual importa corrigir erros de avaliação. Erros como os de Teófilo Brag, alerta o sergipano: “sobre as raças dever- se-á ter o cuidado de não esquecer nenhuma delas, como, ainda, não há muito, o fez o Sr. Th. Braga, que nas poucas páginas que escreveu sobre a poesia brasileira nem uma palavra disse das origens africanas, de nosso povo”( 183 ). Segundo ele, outros equívocos cometidos por Teófilo Braga se devem evitar, como “a leviandade com que este escritor persiste em repetir, como descoberta novíssima, a desacreditada teoria da existência de uma raça turana, a que se filia, segundo o velho erro, os povos indígenas da América”( 184 ). Isto exposto, entende-se melhor por que motivo, no âmbito da sua “inquirição” pelo “genuíno nacional”, o autor remete, primeiramente, a fatores estáticos do ponto de vista sociológico – como raça e clima – os quais, ao mobilizarem o problema da origem, não podem deixar de convergir num processo de releitura histórica. Operam sempre, assim, numa releitura do relacionamento com Portugal, dando, frequentemente, primazia da cultura brasileira sobre a cultura portuguesa. No século XIX, defende Romero, os brasileiros precedem os portugueses “na vida revolucionária e constitucional”. Segundo ele, “antes de seu insignificante movimento de 1820, nós havíamos tido os sucessos de 1817; antes de terem eles uma constituição, mais ou menos liberal, nós a tínhamos; antes de se verem livres de D. Miguel, tivemos a abdicação de D. Pedro. Em uma palavra, eles nada possuem que se possa equiparar aos

182 Idem, ibidem.

183 Romero refere-se à obra de Teófilo Braga Parnaso Português Moderno, publicada em Lisboa, em 1877, portanto, apenas 2 anos antes de Romero escrever esse texto.

184 ROMERO, Silvio. “A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo” In:

Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo II, outubro de 1879, p.276. É importante lembrar que, no mínimo, desde 1871, Teófilo Braga defendia a existência da raça turaniana. Como exemplo, remetemos a BRAGA, Teófilo. Epopeias da Raça Moçárabe. Porto:

Imprensa Portuguesa Editora, 1871.

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nossos ímpetos revolucionários deste século” ( 185 ). A disputa sobre a primordialidade, neste e noutros casos, é condição prévia da visada afirmação do distanciamento. Repare-se, a título de exemplo, que, para o nacionalista Silvio Romero, o “romantismo marca, intelectualmente, o primeiro passo decisivo que fizemos para deixar de lado a cultura lusa”, pois os escritores brasileiros, “os nossos moços, de 1822 em diante, começaram a ler os escritores franceses e ingleses de preferência aos livros de Portugal”, pois “o velho reino havia feito completa bancarrota de ideias”, não passando, no século XIX, de “um ínfimo glosador dos desperdícios franceses”. Silvio Romero acredita que “se continuássemos a pensar somente pelo critério dos livros de Lisboa, teríamos chegado, como eu já disse uma vez, à completa «paralisia intelectual»”( 186 ). Nesse quadro não espanta que Romero tenha por certo que “o velho reino perdeu definitivamente o encanto a nossos olhos” ( 187 ). E será na esteira destas afirmações que chegará a denunciar um certo tom de “exasperação” presente na maneira dos intelectuais portugueses se referirem aos brasileiros. Cita, como exemplo, os casos da publicação de As Farpas, de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, assim como o Cancioneiro Alegre, publicado por Camilo Castelo Branco, também em 1879. Para Sílvio, ambas as publicações, embora recentes, representam “um sintoma patológico evidente da apatia intelectual do velho reino”, pois não passavam de “objurgatórias estéreis, falhas de seriedade e de sentimentos elevados”. Ao ponto de, frente às obras de Camilo, Eça e Ramalho Ortigão, todas sarcásticas em relação à figura do brasileiro, lhe

185 O autor faz, a seguir, em nota de rodapé, referência aos “sucessos de 1817, 24, 31, 35, 42, 48”, querendo com isto mobilizar momentos históricos de reafirmação nacional brasileira perante Portugal. A politização da memória, neste caso, é bem evidente. ROMERO, Silvio. “A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo”. In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo II, outubro de 1879, p.280.

186 Romero remete ao seu trabalho de 1873, O romantismo no Brasil. ROMERO, Silvio. “A Literatura Brasileira; suas relações com a portuguesa; o Realismo” In: Revista Brasileira, Rio de Janeiro J. D. de Oliveira, Ano I, Tomo II, outubro de 1879, p.280.

187 Idem, ibidem, p.281.

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parecer que Teófilo Braga, “apesar de seus arrojamentos gratuitos, tem mais senso crítico do que o geral de seus compatriotas”( 188 ). Significativo é o seu cotejo em relação à primazia na divulgação das “ideias novas” da segunda metade do século XIX. Para ele, “em 1862, no terreno do jornalismo, antes da Reacção de Coimbra, entre nós a escola do Recife reagiu” contra os princípios do ecletismo, vigente na época. Os brasileiros Tobias Barreto e seu discípulo Castro Alves ganhariam, assim, proeminência, quando confrontados com o grupo português liderado por Antero de Quental, na célebre “Questão Coimbrã”. De resto, essa primazia do movimento de Pernambuco dar-se-ia também em relação aos análogos movimentos de divulgação científica: “Este movimento, de carácter revolucionário, propagou-se por todo o país, acordando decidido entusiasmo na escola de São Paulo e no Rio Grande do Sul” ( 189 ). Indubitável se mostrava, para Sílvio Romero, que, no século XIX, nas artes, na música e na pintura, os brasileiros levam “incontestavelmente vantagem aos portugueses”, na medida em que em Portugal não há “nem um Carlos Gomes, nem um Pedro Américo ou Victor Meireles”. E mais, as vantagens brasileiras se dão, inclusive por que “nossa geração actual começou a estudar e a seguir as ideias de Comte e Darwin” ( 190 ). Compreende-se, assim, que, em 1879, em sua classificação da literatura brasileira, Romero filtre, quase cirurgicamante, aqueles autores que aí deveriam ser incluídos: apenas Gregório de Matos, Tomás António Gonzaga, Santa Rita Durão, Martins Pena, Alvares de Azevedo e Tobias Barreto aí teriam cabimento. Porque, como explicava, o critério era o de inserir os que representassem o princípio de “diferenciação nacional” ( 191 ).

188 Idem, ibidem, p.281.

189 Idem, ibidem.

190 Idem, ibidem, p.282-283.

191 Idem, ibidem, p. 284.

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2.3.3.

Em certo sentido, a vinculação originária a Portugal à

inevitabilidade de um reconhecimento de determinado nível de participação portuguesa nas feições da brasilidade, não é recusada. Insiste-se nisso: o ponto central, que esse momento de partilha não pode ser nem sobrestimado, nem perene. Até porque, mesmo nos níveis de manifesta dívida para com a herança, ou da paridade conjuntural dezenovista de ambas as culturas – até por contraponto conjunto face ao restante mundo –, o panorama não era de molde a grandes celebrações. É assim possível surpreender Sílvio Romero a ensaiar uma comparação entre a cena cultural luso-brasileira e a da restante Europa, afirmando, a esse propósito, que “tanto o Brasil como Portugal fazem mesquinha figura quadro das nações cultas, e o movimento espiritual em ambos os países é quase insignificante”. Afinal, remata: “entre aquilo que é medíocre e quase nulo é óbvio que se não deve muito distinguir” ( 192 ). Na mesma linha, empreende uma série de comparações entre, por um lado, o exercício das modernas ideias em Portugal e no Brasil, e, por outro, a situação europeia. Atém-se, particularmente, à “evolução romântica e à crítico-positiva”, sustentando que “naquela, em Portugal, distinguiram-se muitos espíritos medianos, e os vultos de mais brilho foram: Herculano, Garrett, Castilho, Mendes Leal, Rebelo da Silva e Castelo Branco”. Em relação a tais escritores, diz que somente a “nossa ignorância, a par da ignorância portuguesa” os tem “levantado a altura de semi-deuses”, sendo que, na verdade, “não passam de figuras de terceira ou quarta ordem cotejados pelo padrão dos representative men da romântica europeia” ( 193 ). Quanto aos brasileiros, considera que “Magalhães, Gonçalves Dias, Azevedo, Alencar, Macedo e Varnhagen, que bem se podem pôr em paralelo, com os portugueses citados”, não sendo também