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ESTADO

CONSTITUCIONAL
COOPERATIVO
Peter Haberle

ESTADO
CONSTITUCIONAL
COOPERATIVO
Tradução do original em alemão por
Marcos Augusto Maliska e
Elisete Antoniuk

RENOVAR
Rio de Janeiro • São Paulo • Recife RESPEITCOA\lTOR
NAO FAÇA COPIA
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Caio Tácito (in memoriam)
Luiz Emygdio F. da Rosa Jr.
Celso de Albuquerque Mello (in memoriam)
Ricardo Lobo Torres
Ricardo Pereira Lira

Revisão Tipográfica: Maria Cristina Lopes

Capa: Raphael Stoker

Editoração Eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda.

N(} 0972

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Hãberle, Peter
Hl01e Estado constitucional cooperativo I Peter Hãberle. -Rio de Janeiro:
Renovar, 2007.
78p.; 21cm.

Inclui bibliografia.
ISBN 978857147-624-0

1. Direito constitucional - Brasil. I. Título.

CDD 346.81015

Proibida a reprodução (Lei 9.610/98)


Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Nota introdutória

Com grande satisfação disponibilizamos ao leitor brasi­


leiro o ensaio do Prof. Peter Haberle Der Kooperative Ver­
fassungsstaat. A tradução se deu do original alemão publi­
cado no Festschrift para Helmut Schelsky (Recht und Ge­
sellschaft. Orgs. Friedrich Kaulbach e Werner Krawietz,
Berlin: Duncker & Humblot) e também na coletânea Ver­
fassung ais offentlicher Prozess (Berlin: Duncker & Hum­
blot). A pedido do autor foram inseridos comentários às
novas Constituições de alguns países da África, Ásia e do
leste Europeu.
Peter Haberle tem um lugar assegurado na galeria dos
grandes juristas alemães. Membro de uma geração que re­
novou o direito constitucional alemão no segundo pós­
guerra, os textos do Prof. Haberle são hoje conhecidos em
diversos países do mundo. Para nós é uma honra poder
manter um diálogo acadêmico com tão ilustre pensador e
poder contar com sua atenção, disponibilidade, interesse e
apoio na realização de novas pesquisas em torno do chama­
do Estado Constitucional Cooperativo.
O título desse livro é instigante. Ele remete o leitor
para uma reflexão sobre o Estado Constitucional em outras
bases. Ao escrever que "o Estado constitucional cooperati­
vo se coloca no lugar do Estado constitucional nacional",
Haberle nos faz pensar que o direito constitucional deve se
debruçar sobre esse novo fenômeno político-jurídico, con­
sistente, não mais, em um Estado fechado, como outrora
foi o Estado constitucional nacional, mas em um Estado
"aberto", ou "pós-nacional", que caracteriza o Estado cons­
titucional cooperativo.
São muitas as implicações desse novo entendimento. O
direito constitucional de um Estado constitucional coope­
rativo não trabalha mais sob o pressuposto do dogma da
soberania nacional, entendida como elemento absoluto da
ordem jurídica válida. Essa relativização, promovida pela
própria Constituição, desloca a interpretação do texto
constitucional, pois o passa compreender não mais como
um texto isolado e total, mas aberto, cooperante e integra­
do em uma rede de outros textos constitucionais que tam­
bém, com o mesmo propósito, não se compreendem mais
como isolados e absolutos.
No caso do direito constitucional brasileiro, o conceito
de Estado constitucional cooperativo altera a nossa com­
preensão não só sob a perspectiva das relações que o país
mantém com outros países, mas também da composição da
estrutura interna da nossa sociedade. Definida como plu­
ral, pois constituída por diversos grupos sociais e raciais, a
não realização do Estado Nacional, entendido como meca­
nismo de homogeneização das condições de vida, faz com
que hoje ele nem mesmo seja bem vindo pelos grupos que
lutam por espaços de cidadania. A cidadania que se quer
não é mais aquela constituída nos moldes do tradicional Es­
tado Nacional homogeneizante e negador das diferenças. A
cidadania do Século XXI irá procurar combinar igualdade
de oportunidade com respeito à diferença. A tarefa é difí­
cil, mas esse é o desafio do direito constitucional do Estado
constitucional cooperativo.
Por fim, gostaríamos de registrar que essa tradução e as
pesquisas em torno do Direito constitucional do Estado
constitucional cooperativo estão vinculadas ao Núcleo de
Pesquisa em Direito Constitucional - NUPECONST, da
UniBrasil, em Curitiba.

Curitiba, 13 de Setembro de 2006.

Prof. Dr. Marcos Augusto Maliska


Adjunto de Direito Constitucional da UniBrasil
Prefácio à edição brasileira

A iniciativa da publicação em português deste ensaio


partiu, generosamente, do Prof. Dr. Marcos Augusto Ma­
liska, Adjunto de Direito Constitucional da UniBrasil, em
Curitiba, a quem tive a oportunidade de conhecer pessoal­
mente quando da minha viagem ao Brasil (Porto Alegre e
Florianópolis, respectivamente), no outono de 2005. Até
então eu apenas o conhecia por meio de seus escritos (MA­
LISKA, Marcos Augusto. O Direito à Educação e a Consti­
tuição. Porto Alegre: Fabris, 200 l), uma monografia publi­
cada em forma de livro, na qual os fundamentos também
recebem atenção na Alemanha e, mais recentemente, sua
tese de doutorado, em parte publicada em forma de livro
sob o título Estado e Século XXI. A integração supranacio­
nal sob a ótica do direito constitucional (Rio de Janeiro: Re­
novar, 2006), que enfrenta temas relacionados com o con­
ceito "Estado Constitucional Cooperativo".
O autor agradece profundamente ao Prof. Maliska pela
propositura e, juntamente com a Sra. Elisete Antoniuk,
pela realização da tradução, que é, para ele, uma grande
honra, pois após inúmeras publicações em outros países da
América Latina, a saber, México, Peru e Colômbia, surge
também agora no Brasil interesse por suas investigações
científicas. Anteriormente, foi publicada no Brasil a tradu­
ção do ensaio Die offene Gesellschaft der Verfassungsinter­
preten (HÂBERLE, Peter. Hermenêutica Constitucional. A
sociedade aberta dos intérpretes da Constituição. Porto
Alegre: Fabris, 1997) organizada e orientada pelo Ministro
Vice-Presidente do Supremo Tribunal Federal Prof. Dr.
Gilmar Ferreira Mendes. Estão previstas traduções junto a
Editora Fabris, de Porto Alegre, de Wahrheitsprobleme im
Verfassungsstaat (1993), edição mexicana de 2006: Ver­
dad y Estado Constitucional, assim como o volume Der
Verfassungsstaat, (Cidade do México, 2001), orientada
pelos Professores D. Valadés e H. Fix-Ferro da UNAM
(Universidade Nacional Autônoma de México), respecti­
vamente, e pelo Professor G. Belaunde (Lima, 2003).
Tem crescido, nos últimos anos, na Alemanha o interes­
se pela América Latina. De igual modo são muitos os inter­
câmbios entre professores de Direito Público alemães e la­
tino-americanos, não sem antes, por fim, com o apoio da
Fundação Konrad Adenauer, de Montevidéu. O Princípio
da especificidade cultural (Der kulturwissenschaftliche An­
satz), que desde 1979 é encampado pelo autor, tem ajuda­
do as nações latino-americanas, apesar de todas as recep­
ções criativas de standards comuns europeus, a manter, em
seus textos constitucionais, de forma autônoma, os seus
contextos culturais. As recepções dizem respeito à Tríade:
textos constitucionais, jurisprudência e doutrinas científi­
cas, que cooperam em complexos processos. A Constitui­
ção Brasileira de 1988, sempre exemplar em muitos aspec­
tos, - eu a homenageei quando, como convidado da Asso­
ciação portuguesa de Professores de Direito Público, reali­
zei a Conferência de Abertura em comemoração aos trinta
anos da Constituição portuguesa de 1976, ocorrida em Lis­
boa em abril de 2006 (ver: EuGRZ 2006 p. .. , no prelo)-
pode aprender com os paradigmas científicos da "antiga
Europa" sem perder sua autonomia constitucional e sua
identidade cultural. Isso pode valer, em especial, para a
idéia de "Estado Constitucional Cooperativo", pois ela vin­
cula o país, não apenas no sentido de um "Direito Consti­
tucional comum americano" (Gemeinamerikanisches Ver­
fassungsrecht), desenvolvido por mim, (ver: JoR 52
(2004), p. 581 e seg.) a outras nações do continente, mas
também a outros Estados Constitucionais do mundo como
um todo.

11

O paradigma do "Estado Constitucional Cooperativo"


foi desenvolvido primeiramente pelo autor, entre 1977 e
1978, por ocasião da publicação do ensaio com o mesmo
nome no Festschrift para Schelsky (1978, p. 141 e seg.; tam­
bém em Verfassung als offentlicher Prozess, 3a ed., 1998, p.
407 e seg.) e da contribuição para discussão no Simpósio
dos Professores alemães de Direito Público, ocorrido na
Basiléia em 1977 (VVDStRL 36, 1978, p. 129 e seg.). O
paradigma proposto tem angariado atenção junto à literatu­
ra científica na Alemanha e, também, na Suíça e entremen­
tes, talvez, tenha maturado para uma nova "palavra chave"
(Schlüsselwort) (ver, mais recentemente, M. Kotzur,
Grenznachbarschaftliche Zusammenarbeit in Europa,
2004; L. Michael, Rechtsetzende Gewalt im kooperierenden
Verfassungsstaat, 2002; H. -R. Horn, Generationen von
Grundrechten in Kooperativen Verfassungsstaat, foR 51
(2003), p. 663 e seg.). Novos paradigmas científicos sem­
pre são, na perspectiva da ciência uma "eterna procura pela
verdade" (ewiger Wahrheitsuche), como propugna W. von
Hurnboldt, apenas de natureza provisória. Propostas teóri­
cas precisam submeter-se a constantes críticas. Aqui se
aplica o racionalismo crítico de Sir Popper. Todavia, um
paradigma científico também pode manter-se válido por
longo tempo. Um exemplo disso é a conhecida Teoria dos
Elementos do Estado (Staatselementelehre) de G. Jellinek,
que hoje precisa se submeter a uma revisão- nota: Cultura
como "quarto" elemento do Estado, relativização dos con­
ceitos "soberania", "povo" e "território" nos limites da
União Européia: cidadania européia, Protocolo-Schengen,
isto é, fim do controle de pessoas nas fronteiras bem como
o surgimento de uma importante jurisdição constitucional
européia em Luxemburgo e Strassburgo.
O conceito "Estado Constitucional Cooperativo" pode
"sobreviver" também, por muito tempo, no discurso cien­
tífico, pois ele ainda hoje enseja desenvolvimentos que ca­
racterizam mundialmente os Estados Constitucionais do
nosso tempo. Isto se mostra em novos textos constitucio­
nais correspondentes como, por exemplo, da Suíça e da
América do Sul. Cite-se a Constituição Federal Suíça de
1998: "Independência e Paz em solidariedade e abertura
para o mundo" (preâmbulo), "Convivência pacífica entre
os povos" (art. 54, parágrafo 2). Na América Latina, pionei­
ro é o art. 151 da Constituição da Guatemala de 1985, que
dispõe:

"O Estado da Guatemala mantém relações de amizade,


solidariedade e cooperação com outros Estados, que de­
senvolvam programas ecológicos, sociais e culturais
análogos aos da Guatemala, com a finalidade de encon­
trar soluções para problemas comuns e políticas comuns
para o bem dos Estados".

Elementos de cooperação encontram-se, também, na


realidade constitucional e no dia-a-dia da política. Assim
advertiu o Presidente da Costa Rica Oscar Arias em sua
visita a Alemanha, em junho de 2006, em face de um isola­
mento da América Latina com as seguintes palavras: "Para
o resto da América Latina seria um erro seguir o isolamento
(como a Venezuela), ao invés de se integrar à comunidade
internacional" (FAZ de 10 de junho de 2006, p. 4).
Desta forma, a publicação em português deste pequeno
estudo do ano de 1978 pode trazer novas perspectivas e
alcançar dois objetivos: talvez estimular a discussão pro­
priamente no Brasil e produzir maior cooperação científica
entre os Professores de Direito Público brasileiros e ale­
mães. Entrevistas científicas, como a que está sendo plane­
jada pelo colega brasileiro Prof. Dr. I. W. Sarlet com o au­
tor nessas semanas, são especialmente propícias, pois se
constituem em um fórum aberto (ver: D. Valadés (Org.)
Conversaciones Acadêmicas com Peter Hãberle, UNAM,
2006).
Confirmo e renovo os meus agradecimentos ao Prof.
Maliska e, igualmente, agradeço à Editora Renovar que ou­
sará na publicação deste estudo.

Bayreuth/St. Gallen, em Junho de 2006.

Prof. Dr. Dr. Honoris Causa Peter Hãberle


Sumário

Capítulo I
Problema, conceito, pontos de partida

1. Possibilidades, realidade e necessidades de estruturas


cooperativas nas "Teorias do Estado" ...................................... 1
2. Estado Constitucional e "Estado Constitucional
Cooperativo" ......................................................... ...... . ......... . 5
a) Conceituação ............................... . . ........................... . . . ..... 5
b) A mudança do Direito Internacional e do Estado
Constitucional no quadro da Cooperação .................. . .. . . . . 8
c) Formas de manifestação e vinculação constitucional ....... 13
3 . Motivos e pressupostos .......... .......... . . ................................... 18
4. Limites e perigos .................... . ..... . . ... . .. . . ............................... 20

Capítulo 11
Elementos de uma comprovação

1. Direito Internacional de coordenação, coexistência e


cooperação: elementos constitutivos de um Direito
Internacional comunitário ...... . . . ... . . . .... . ..................... . .......... 24
a) A organização da comunidade de Estados ........................ 24
b ) Formas regionais de cooperação intensiva ....................... 29
c) Pontos de partida de um Direito Internacional
"humanitário" e "social" ... . . . . . . . . . . . . . . ......... ............... . . . . .... . 35
d) Cooperação privada além dos Estados: A sociedade
internacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ·. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
2. Do Estado Nacional Soberano ao Estado Constitucional
Cooperativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
a) Abertura do Direito Internacional nos textos
constitucionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
b) O Direito Internacional Privado como expressão de
estruturas jurídicas abertas ............................................. 59

Capítulo 111
Conseqüências teórico-constitucionais
1. Redefinição das fontes do Direito e da teoria da
interpretação . . . . . ..
. . . . . . . . . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
2. Direito comum d e cooperação: Integração entre Direito
Constitucional e Direito Internacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
3. Realização cooperativa dos Direitos Fundamentais . . . . . . . . . . . . . . . 65
4. Conclusão- Resumo- Perspectiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . 70
Lista de abreviaturas

AJI L = The American Journal of international Law


Anm. = Anmerkung (observação)
AõR = Archiv des õffentlichen Rechts (Arquivo de Direito
Público)
BayVBL = Bayerisches Verwaltungsblatt (Periódico bávaro de
Direito Administrativo)
BGBL = Bundesgesetzblatt (Coletânea oficial de leis federais
alemãs)
BGHZ = Entscheidungen des Bundesgerichtshof in Zivilsachen
(Decisões do Tribunal Federal alemão no âmbito civil)
BVerfG E = Entscheidungen des Bundesverfassungsgerichts
(Decisões do Tribunal Constitucional Federal alemão)
DOR = Deutsche Demokratische Republik ( República
Democrática Alemã - antiga Alemanha Oriental)
DIP = Direito Internacional Público
D OV = Die Offentliche Verwaltung Zeitschrift (Periódico da
administração pública)
DVB = Deutsches Verwaltungsblatt (Periódico alemão de
Direito Administrativo)
EFTA = European Free Trade Association
EG = Europeische Gemeinschaft (Comunidade Européia)
EGKS = Europiiische Gemeinschaft fur Kohle und Stahl
(Comunidade Européia de aço e carvão)
EMRK = Europiiische Menschenrechtskonvention (Convenção
Européia de Direitos Humanos)
EuGH = Europiiische Gerichtshof (Tribunal Europeu)
EuGRZ = Europiiische Grundrechte Zeitschrift (Periódico sobre
Direitos Fundamentais europeus)
EWGV = Europiiischer Wirtschaftsgemeinschaftsvertrag
(Tratado Europeu da Comunidade Econômica)
FAZ = Frankfurter Allgemeiner Zeitung (Jornal de Frankfurt)
GATI =Allgemeines Zoll- und Handelsabkommen (Acordo
sobre comércio e aduana)
GG = G rundgesetz ( Lei Fundamental alemã)
I GH = Internationaler Gerichtshof (Corte Internacional)
I LO = l nternational Labour Organization (Organização
Internacional do Trabalho- OIT)
J O R NF = Jahrbuch des õffentlichen Rechts der Gegenwart.
Neue Folge. (Anuário de Direito Público da
Atualidade . Nova S érie .)
JZ = Juristenzeitung (Periódico dos Juristas)
KS ZE = Konferenz über S icherheit und Zusammenarbeit in
Europa (Conferência sobre a segurança e colaboração
internacional na Europa)
M RK =Menschenrechtskonvention (Convenção sobre os
Direitos Humanos)
NJW = Neue Juristische Wochenschrift (Revista jurídica
semanal)
OAS =Organization of American States
OECD = Organization for Economic co-operation and
development
UNO =Organização das Nações Unidas
OTAN =Organização do Tratado do Atlântico Norte
SZ =Süddeutsche Zeitung (Jornal alemão)
UNCTAD =Conferência de Desenvolvimento e Comércio
I nternacional das Nações Unidas
UNDP =United Nations Development Program
UNIDO =United Nations Industrial Development Organization
VerwArch =Verwaltungsarchiv (Arquivo de Direito
Administrativo)
VVDStRL =Veroffentlichungen der Vereinigung der Deutschen
S taatsrechtslehrer (Publicações da União dos
Professores de Direito Publico alemães) .
WEU =Westerns European Union
WI B =Woche im Bundestag (A S emana no Parlamento)
ZaoRV = Zeitschrift für Auslandisches offentliches Recht und
Volkerrecht (Revista de Direito Público e
I nternacional estrangeiros) .
Capítulo I

Problema, conceito,
pontos de partida

I. Possibilidades, realidade e necessidades de estrutu­


ras cooperativas nas "Teorias do Estado"

O tipo do Estado Constitucional ocidental livre e


democrático 1 não é, como tal, imutável. Séculos fo­
ram necessários para se moldar o " conjunto" dos ele­
mentos estatal e democrático, de direitos fundamen­
tais individuais e, por fim, sociais e culturais, e o fu­
turo continuará a desenvolvê-los. Suas características
singulares são concebidas pela Teoria Constitucional
em uma aproximação dos conceitos com a realidade 2 ;

I Para uma compreensão de suas características estruturais, ver:


Badura, Evang. Staatslexikon, 2• ed., 1 97 5 , p. 2 708 e seg.; K. Hesse,
Grundzüge des Verfassungsrechts der Bundesrepublik Deutschland,
1 0• ed., 1 977, p. 5 e seg., 85 e seg.
2 S obre isso ver P. Haberle, AoR 99 ( 1 9 74) , p. 437 e seg. (em
especial p. 442 e seg . ) ; 1 00 ( 1 975), p. 3 33 (3 3 7 e seg.) ; 1 02 ( 1 9 7 7) ,
p. 2 7 e seg.
outras ciências têm realizado o trabalho de ligação,
como a Economia Política e a Teoria Econômica In­
ternacional, e também a Teoria das Relações Interna­
cionais. Há uma percepção de que o Estado Consti­
tucional do Direito Internacional e ntrou em uma
nova fase: o entrelaçamento das relações internacio­
nais, objeto do S impósio de Direito Constitucional
realizado na Basiléia em 1 9 7 73, ganhou intensidade,
extensão e profundidade, de forma que o Estado
Constitucional ocidental precisa reagir adequada­
mente. Nesse sentido é proposto o conceito Estado
Constitucional Cooperativo.
O Estado Constitucional ocidental é concebido
como tipo atual, e a sua existência como tal é que
permite, nesse quadro, modificações em uma exten­
são consideravelmente variável : decisiva é sua estru­
tura constituída, ou seja, juridicamente delimitada, e
decisiva é sua estrutura aberta tanto para dentro
-

como para fora 4 • Ela é garantida pela democracia plu­


ralista, por direitos fundamentais, por elementos da
divisão dos poderes que devem ser ampliados no âm­
bito da sociedade 5 , e por um Poder Judiciário inde­
pendente.

3 Relatório de Tomuschat e R. Schmidt, WDStRL 36 (1 978) , p.


7 e seg.; ver também Bernhardt und Zuleeg, DOV 1 977, p. 4 5 7 e
seg., 462 e seg.; G rabitz, DVBl. 1 977, p. 786 e seg .
4 Princípio constitucional da abertura estatal: Klaus Vogel, Die
Verfassungsentscheidung des Grundgesetzes für eine internationale
Zusammenarbeit, 1 967, p . 36 e seg; Zuleeg, D OV, 1 97 7 , p. 4 62
(465) . Ver também Isensee, WDStRL 32 ( 1 9 74) , p. 49 (57 e seg.)
5 Sobre isso o festejado Schelsky, Systemüberwindung, Demokra-
2
O aspecto ideal-moral (expresso por meio de dis­
posições constitucionais como " cooperação interna­
cional " ou "responsabilidade ", "paz no mundo", "Di­
reitos Fundamentais como fundamento de toda socie­
dade humana ", Art. l 01 § 2° GG, Declaração Univer­
sal Cn dos Direitos Humanos etc . ) , que deve ser com­
preendido juntamente com o aspecto sociológico-eco­
nômico, de forma "teórico-estatal " 6 , vincula-se a mui­
tos outros aspectos : o fundo dos mares como "bem co­
mum da humanidade " 7 , a escassez dos substratos eco­
nômicos (matéria-prima, energia, gêneros alimentí­
cios) , dos recursos e a situação social das pessoas dos
países em desenvolvimento, obrigam os Estados a uma
responsabilidade comum. O Estado Constitucional se
depara com ela, "interna como externamente " , com
uma crescente cooperação que se amplia e se intensi­
fica.
Cooperação s erá, p ara o Estado Constitucional,
uma parte de sua identidade que ele, no interesse da
"transparência constitucional " , n ão apenas deveria
praticar como, também, documentar em seus textos
j u rídicos, em especial nos documentos constitucio­
nais . Uma comparação entre os Estados Constitucio-

tisierung und Gewaltenteilung, 1 9 73, p. 55 e seg.; e minha Conferên­


cia em AoR 1 00 ( 1 9 75) , p. 64 5 (648 e seg.).
6 Ver abaixo a nota de ropadé n° 42.
7 P ara uma problematização, c omparar Graf Vitzthum, Der
Rechtsstatus des Meeresbodens, 1 972; J. Westphal, Neues Seerecht­
nicht ohne Schlagseite? em: FAZ, de 3 1 de Outubro de 1 9 77, p . 9;
Dicke, em: Ged. Schrift f. Klein, 1 97 7, p. 65 e seg.

3
nais mostra que, nesse sentido, eles são ainda bem di­
ferentes "no aspecto cooperativo" 8.
" Estado Constitucional Cooperativo" é o Estado
que j ustamente encontra a sua identidade também no
Direito Internacional, no entrelaçamento das rela­
ções internacionais e supranacionais, na percepção da
cooperação e responsabilidade internacional, assim
como no campo da solidariedade 9. Ele corresponde,
com isso, à necessidade internacional de políticas de
paz.

8 Comparar a enumeração das constituições cooperativamente


abertas abaixo, na nota de rodapé n° 1 23 e seg.
9 S obre isso se encontram princípios sob a perspectiva do Direito
Internacional na qualificação da Carta de Direitos Econômicos e Obri­
gações dos Estados de 1 974, em que Tomuschat, ZaoRV 36 ( 1 9 76) ,
p. 44, constata que a Carta reconhece "um princípio de solidariedade
internacional, no qual ela confere aos países desenvolvidos uma res­
ponsabilidade geral perante os países em desenvolvimento "; sobre
isso também Petersmann, ZaoRV 36 (1976) , p. 492 (496) : "O Direi­
to Internacional Econômico neoliberal deve ser completado com um
Direito Comunitário redistributivo e solidário (por exemplo, também
segurança econômica internacional para assegurar a economia coletiva
no fornecimento de energia e alimentação) e deve ser introduzido um
desenvolvimento político do Direito Internacional, que ocorra com­
plementarmente ao desenvolvimento antes iniciado do Estado liberal
do tipo "guarda noturno" para atingir um Estado de bem estar social,
bem como à complementação dos direitos humanos civis e políticos
através dos direitos humanos econômicos e soci�is e que, em parte, é
uma dependência necessária do Direito Econômico Internacional do
Direito Nacional de Condução da Economia" . Scheuner, 5 0 Jahre
Volkerrecht, em: Fünfzig Jahre lnstitut für internationales Recht an
der Universitiit Kiel, 1 965, p. 53 e seg . , mostra que pensamento de
uma solidariedade internacional não é novo.

4
2. Estado Constitucional e Estado Constitucional
Cooperativo

O ponto de partida das considerações seguintes é a


apresentação do Estado Constitucional Cooperativo 1 0
como uma forma do Estado Constitucional ocidental,
que integra este como tipo e como ideal relativo no Di­
reito Internacional Comunitário, de maneira que cum­
pra, de forma elástica, suas tarefas atuais e futuras .

a) Conceituação

As formações conceituais de uma Teoria Constitu­


cional devem refletir não apenas o real, o j á segura­
mente alcançado. Elas devem estar em condições,
como pré e pós-forma de desenvolvimentos políticos
(no sentido da Política científica de reservas) , a aco­
lher e processar possíveis desdobramentos futuros . O
Estado Constitucional Cooperativo não é apenas uma
possível forma (futura) de desenvolvimento do tipo
"Estado Constitucional"; ele já assumiu conformação,
hoje, claramente, na realidade e é, necessariamente,
uma forma necessária de estatalidade legítima do ama­
nhã 1 1 .

lO Para este conceito ver a minha contribuição para a discussão em


VVDStRL 3 6 ( 1 9 78 ) , p. 1 29 e seg., 1 63; Concordando, entre outros:
Kopp, H.-P. S chneider, acima; Tomuschat entende o conceito na dis­
cussão acima como "ponderável" .
li Para o concurso d e pensamentos sobre possibilidade, realidade e
necessidade ver a minha contribuição: Demokratische Verfassungs­
theorie im Lichte des Moglichkeitsdenkens, AoR 1 02 ( 1 9 7 7 ) , p. 2 7 e
seg.

5
O conceito "Estado Constitucional" somente pode
ser esboçado aqui como o Estado em que o poder pú­
blico é juridicamente constituído e limitado através de
princípios constitucionais materiais e formais : Direi­
tos Fundamentais, Estado Social de Direito, Divisão
de Poderes, independência dos Tribunais, - em que
ele é controlado de forma pluralista e legitimado de­
mocraticamente. É o Estado no qual o (crescente) po­
der social também é limitado1 2 através da "política de
D ireitos Fundamentais " e da separação social (por
exemplo, "publicista ") de poderes13. O Estado Consti­
tucional é o tipo ideal de Estado da "sociedade aber­
ta" 1 4 . Abertura tem, também, uma crescente dimen­
são internacional ou "supranacional "- dela faz parte a
responsabilidade.
O Estado Constitucional cooperativo trata, ativa­
mente, da questão de outros Estados, de instituições
internacionais e supranacionais e dos cidadãos "estran­
geiros " : sua " abertura ao meio" é uma " abertura ao
mundo" ( cf. art. 4° da Constituição do Jura) 1 5 . A coo­
peração realiza-se política e juridicamente . Ela é, so­
b retudo, um momento de configuração. O Estado
Constitu cional Coo p e r ativo " corre s ponde " a de-

1 2 Ver meu colóqui o Loewenstein, J Z 1970, p . 196 e seg . e


VVDStRL 30 (1972), p . 43 (56).
1 3 Ver Schelsky (Nota rodapé n° 5), p. 84 e seg., e minha Conferên­
cia Ao R 100 (1975), P. 645 (648 e seg. ) .
1 4 Além disso, em conexão com Popper, minha contribuição, JZ
1975, p. 297 e seg., D OV 1976, p. 73 e seg.
1 5 Comparar abaixo a nota de n° 136. (Trata-se da Constituição da
República e do Cantão Jura, pertencente à Confederação Suíça .
N.T. )

6
senvolvimentos de um " Direito Internacional coopera­
tivo" 1 6 .
O o p o s to típico ideal (em part e , a inda "típico
real"n ao Estado Constitucional Cooperativo é - den­
tro do espectro do tipo Estado Constitucional - o Es­
tado Constitucional "egoísta", individualista e, para
fora, "agressivo"; externamente a esse espectro, o Es­
tado Totalitário com "sociedade fechada" (ex-União
Soviética) e/ou o Estado "selvagem " (países em desen­
volvimento como U ganda) .
Contendo o modelo elementos exemplares (aqui:
de cooperação) , ele desempenha, através de sua con­
cepção ideal, um efeito (exemplar) positivo direta­
mente na realidade, ainda que esta esteja " por vir" .
Esse processo "modestamente" otimista 1 7 é , também,
legítimo sob pontos de vista teórico-científicos, con­
tanto que ele se racionalize e não ceda a um "otimismo
eufórico" - que, geralmente, como se sabe, ameaça em
se transformar no oposto a "bons " modelos diretrizes e
institutos .

1 6 Sobre isso Kimminich, Einführung in das Volkerrecht, 1975, p.


83 seg.; Verdross/Simma, Universelles Volkerrecht, 1976, p. 59 e
seg., 251 e seg.
1 7 De outra forma, ver Schelsky, citado na nota de rodapé n° 5, p.
17 e seg.; também as minhas reservas, A O R 100 (1975), p. 645
(650); para a problemática também Stolleis, VerwArch 1974, p.1 (15
com a nota de rodapé n° 69).- Assim como se precisou do "pensa­
mento utópico" para a superação do Estado "selvagem" (wilden) para
o Estado Constitucional (Th. Morus), a sua tese também o necessita
para a relativização do Estado Constitucional como Estado Constitu­
cional nacional: ver Grabitz, DVBl, 1977, p. 786 (794).

7
Em muitos aspectos, o Estado Constitucional coo­
perativo " ainda " não chegou a uma realidade comple­
ta. Principalmente na estrutura, processos, tarefas e
competências cooperativas, são reconhecidas apenas
nuances, formações fragmentárias ou arriscadas e pre­
cárias. Entretanto, essa constatação não se revela em
obstáculo, e sim, puro estímulo para futuros trabalhos
no " modelo" de um Estado Constitucional cooperativo
- um modelo livre que também está exposto a perigos
por parte dos indomáveis Estados ("selvagens ") , auto­
ritários e antidemocráticos, que revelam uma ambiva­
lência na relação entre Estado Constitucional e rela­
ções internacionais 1 8.

b) A mudança do Direito Internacional e do Estado


Constitucional no quadro da Cooperação

O momento participativo da e na cooperação pos­


sui um l ado processual jurídico-formal: o Proce dere
(disposição para uma ação comum, para " ajuste s " ,
acordos e até para Tratados e Instituições sólidas) , e
também um lado Qurídico-) material: objetivos solidá­
rios realistas como "Friede in der Welt" (Paz no Mun­
do) , "justiça social", desenvolvimento de outros paí­
ses, direitos humanos 1 9.

1 8 S obre o perigo desse "declive" (Gefãlles) apontou Zacher na dis­


cussão na Basiléia: WDStRL 36 (1978), p. 134 e seg.; ver também a
saída dos Estados Unidos da I LO (FAZ de 01!12/1977).
1 9 A União S oviética, como cooperante de forma limitada, faz-se
desacreditar como limitadamente cooperativa ao se excluir de proje­
tos internacionais de desenvolvimento em prol do terceiro mundo.

8
Ambos os lados andam juntos. Geralmente o pro­
cesso cooperativo precisa preceder ao outro, pois é o
único denominador sobre o qual se coopera e é possí­
vel uma unidade: o dissenso sobre objetivos práticos é
(ainda) muito grande. Em razão disso, valoriza-se o as­
pecto "formal". Cooperação começa por contatos pon­
tuais como, por exemplo, diálogo, passa pela negocia­
ção e termina com "um estar à disposição do outro"
(em contrato).
É de se supor o limitado "recurso" ao conceito de
"Federalismo Cooperativo"20. Em certo sentido, o Es­
tado Constitucional Cooperativo indica pré-formas de
estruturas federais, processos, competências e tarefas.
Mas tais analogias devem ser cuidadosamente conside­
radas em face do caráter utópico de um "Estado Fede­
ral mundial". O Estado Constitucional cooperativo
vive da cooperação com outros Estados, comunidades
de Estados e organizações internacionais. Ele conserva
e afirma isso a despeito de sua identidade, mesmo
frente a essas confirmações. Ele toma para si as estru­
turas constitucionais do direito internacional comuni­
tário sem perder ou deixar esvair, completamente,
seus próprios contornos. Ele dá continuidade à "cons­
tituição" do Direito Internacional Comunitário sem
supervalorizar as possibilidades deste. Ele assume res-

20 Para isso talvez Kisker, Kooperation im Bundesstaat, 1971; do


mesmo, Kooperation zwischen Bund und Liindern in der Bundesre­
publik Deutschland, D OV 1977, p. 689 e seg; K. Hesse (Nota de
rodapé n° 1), p. 90 e seg. (95 e seg.); minha conferência em DVBl.
1977, p. 869 (870); Esterbauer, Kriterien joderativer und Konfodera­
tiver Systeme, 1976 , p. 41 e seg., 97 e seg.

9
ponsabilidades com outros Estados como, por exem­
plo, no "diálogo entre Norte-Sul", para uma ação glo­
bal, sem querer ou deixar ocultar sua responsabilidade
individual. Ele desenvolve, antes de tudo,- já textual­
mente -processos, competências e estruturas "inter­
nas" e se impõe tarefas que fazem jus à cooperação
com "forças externas", e ele se abre a elas de tal manei­
ra que se põe em questão a distinção entre "externo" e
"interno", a ideologia da impermeabilidade e o mono­
pólio das fontes do direito21. Ele trabalha no desenvol­
vimento de um "Direito Internacional cooperativo"22:
a caminho de um "Direito Comum de Cooperação".
O Estado Constitucional Cooperativo é a resposta
interna do Estado Constitucional ocidental livre e de­
mocrático à mudança no Direito Internacional e ao seu
desafio que levou a formas de cooperação. Ele consti­
tuiria uma mudança constitucional "de fora", se essa
idéia não fosse duvidosa em razão de seu esquema in­
terno/externo. Estados Constitucionais e Direito In­
ternacional ou relações internacionais influenciam-se

21 Para uma análise crítica ver P. Hiiberle, Zur gegenwartigen Dis­


kussion um das Problem der Souveranitat, AoR 92 (1967), p. 259 e
seg. (271, 283).
22 Kimminich, Einführung in das Volkerrecht, 1975, p. 83 e seg.
(Funktion und Zielsetzung des gegenwiirtigen Volkerrechts: Frieden
und Zusammenarbeit), p. 88: "Assim, por fim, deságua o direito de
coexistência em um direito de cooperação harmônico"- com referên­
cia (p. 86) a W. Friedmann, The ChangingStructure of lnternational
Law, London, 1964, p. 60 e seg. e o conceito desse "Volkerrecht der
Zusammenarbeit" (Direito Internacional da Cooperação); ver tam­
bém Krieles, Votum für ein "System globaler Kooperation" (Einfüh­
rung in dieStaatslehre, 1 975, p. 1 3).

!O
hoje, também, mutuamente, em suas mudanças - a
doutrina dos "dois mundos" ou dos "dois reinos" tor­
na-se questionáveF3- e ambos são, simultaneamente,
sujeito e objeto dessa mudança. O Estado Constitucio­
nal aberto somente pode existir, a longo prazo, como
Estado cooperativo, ou não é um Estado "Constitucio­
nal"� Abertura para fora se chama cooperação. Ao con­
trário, essa combinação leva a que, no melhor dos ca­
sos, os Estados cada vez mais se constituam: pois os
mesmos colocam-se sob pressão do constituído- e ain­
da constituinte- Direito Internacional comunitário e
da "engajada" força do Estado ConstitucionaF4, sem
prejuízo da mencionada - negativa- "situação de de­
clive".
Nesse ponto, hoje o Estado Constitucional e o Di­
reito Internacional transformam-se em conjunto. O
Direito Constitucional não começa onde cessa o Direi­
to Internacional. Também é válido o contrário, ou seja,

23 Ver Scheuner, WDStRL 19 (1961), p. 152 (Discussão): Direito


Internacional como "direito comum válido entre os Estados" (em
contrário à teoria dualista, para a qual o Direito Internacional e o Di­
reito Constitucional são "dois mundos separados"); ver também J.H.
Kaiser, citado acima, p. 151: "terreno jurídico comum", que se esten­
de além das fronteiras do Direito Internacional e do Direito Nacio­
nal".
24 Para isso R. Schmidt, WDStRL 36 (1 978), p. 67; ver também
Scheuner (Nota de rodapé n° 9), p. 53: "A ordem jurídica internacio­
nal produz efeitos mais intensos sobre os Estados individuais, até mes­
mo sobre o círculo da ordem jurídica interna. Além disso, porém, dis­
põem também as forças de domínio interno, hoje, em extensa medi­
da, ligadas entre si para além das fronteiras nacionais, de condições
para influenciar as questões dos direitos internacionais."

ll
o Direito Internacional não termina onde começa o
Direito Constitucional. Os cruzamentos e as ações re­
cíprocas são por demais intensivas para que se dê a esta
forma externa de complementariedade uma idéia exa­
ta. O resultado é o "Direito comum de cooperação".
O Estado Constitucional Cooperativo não conhece
alternativas de uma "primazia" do Direito Constitu­
cional ou do Direito InternacionaF5; ele considera tão
seriamente o observado efeito recíproco entre as rela­
ções externas ou Direito Internacional, e a ordem
constitucional interna (nacional)26, que partes do Di­
reito Internacional e do direito constitucional interno
crescem juntas num todo. Assim, também não é com­
pletamente bem lograda a idéia de caracterizar trata­
dos internacionais de direitos humanos em relação à
Lei Fundamental como direito internacional para­
constitucional (volkerrechtliche Nebenverfassung) 27 .
A rigor, essa Constituição paralela (Neben-Verfas­
sung) é parte integrante da Constituição estatal da Lei
Fundamental e, portanto, não se encontra apenas "ao
lado" da Constituição.
Desde o princípio, o Estado Constitucional Coope­
rativo, de características ocidentais, adotou a coopera­
ção no campo das relações internacionais. O art. 24 da
GG28, como sua expressão adequada, imanente, não

25 Para isso, minha contribuição à discussão, WDStRL 36 (1978),


p. 129 e seg.
26 Para isso Tomuschat, WDStRL 36 (1978), p. 7 e seg., LS, V,
VI.
2 7 Assim, porém, Tomuschat, citado acima, LS 13 a.
28 Artigo 24 (Organizações supranacionais) (I) A Federação pode

12
deve ser entendido como exceção, e sim, como re­

gra29_

c) Formas de manifestação e vinculação constitucional

As formas de manifestação de cooperação são múl­


tiplas. Elas alcançam desde formas " frouxas " ( por
exemplo " relações coordenadas " ) até formas " mais
densas ": da concepção e da realização cooperativa de
"tarefas comunitárias " em processos e instituições co­
muns ou da fundação de composições supranacionais
etc. Várias formas de cooperação se encontram ainda
na forma evidentemente imprecisa do "soft law"30 ou
nas suas pré-formas não vinculantes. A rica progressão
de possíveis instrumentos de ligação - com diferentes

transferir direitos de soberania para organizações supranacionais. (la)


Até onde os Estados Membros sejam competentes para o exercíCio de
competência estatal e para a realização de tarefas estatais, eles po­
dem, com o consentimento do Governo Federal, transferir direitos de
soberania para instituições regionais (grenznachbarschaftliche Ein­
richtungen). (2) Com o fim de manter a paz a Federação pode aderir
a um sistema de segurança coletiva recíproca; aceitará restrições dos
seus direitos de soberania que promovam e assegurem uma ordem
pacífica e duradoura na Europa e entre os povos do mundo. (3) Para
solucionar litígios internacionais, a Federação aderirá a acordos de ar­
bitragem de âmbito geral, amplo, obrigatório, internacional.
29 Para o significado do art. 24 da Lei Fundamental: Bleckmann,
Europarecht, 1976, p. 170 e seg. Como guia: K. Vogel, (Nota de roda­
pé 4) ; lpsen, Europiiisches Gemeinschaftsrecht, 1 972, p. 52 e seg: " ...
fundamental... elemento da decisão constitucional fundamental para
a abertura da estatalidade alemã".
30 Para isso, os relatórios e discussões da Basiléia: VVDStRL 36
(1978), p. 7 e seg.; Tomuschat, LS 8; R. Schmidt; críticas por K. Vo­
gel, acima.

13
intensidades - que ligam o Direito Internacional ao
Direito interno está relacionada a essa questão.
Os textos constitucionais somente oferecem pri­
meiros pontos de referência: ainda que eles estejam,
geralmente, aquém do desenvolvimento, e a práxis
constitucional ou estatal e a cooperação prática inter­
nacional (não apenas Tratados) estão geralme nte
"mais adiante ", eles precisam se inserir na diagnose
como " nível textual " .
Constitucionalmente, Estado Constitucional coo­
perativo deveria ser trazido para o conceito e a lingua­
gem jurídicos, como a seguir:

I. através do reconhecimento geral sobre " abertura


ao mundo", "solidariedade ", cooperação interna­
cional e co-responsabilidade: ver art. 4° da Consti­
tuição do Jura (I9 7 7 ) , arts . 24 e 26 da G G , assim
como o "serviço" à paz (Preâmbulo da GG) e o
entendimento entre os povos (art. 9°, alínea 2 da
GG);

2 . através de formas especiais e graduais de coope­


ração, como o art. 24, alíneas I, 2, e 3 da G G ;

3 . através d e declarações gerais e universais d e di­


reitos fundamentais e direitos humanos: art. I 0, alí­
nea 2 da GG: "Fundamento de toda Cn comunida­
de humana, da paz e da justiça no mundo";

4 . através de determinações especiais de direitos


fundamentais e direitos humanos com "efeito ex­
terno" (por exemplo, art. 2°, alínea 1 da G G ) ;

14
5 . através - da gradual - inclusão do direito inter­
nacional (do "modelo da Holanda" 3 1 até o "modelo
da Áustria" 3 2) : Teoria da ratificação ou da transfor­
mação com a forma intermediária do art. 2 5 da
GGi

6. em gerat através da tematização de "tarefas co­


munitárias " (de um lado, os Direitos Humanos e,
de outro, ajuda ao desenvolvimento, proteção do
meio ambiente, garantia de matéria-prima, comba­
te ao terrorismo 33 , segurança da paz mundial) .

Decisiva é a diferenciação: Cooperação deve ser


entendida e textualmente formulada, conforme a ta­
refa, o âmbito técnico considerado e a "situação" (ex­
terna) do Estado Constitucional.
A "cooperação " no Estado Constitucional não pode
ser descrita definitivamente ou até mesmo "cataloga­
da" : isso iria contrariar sua abertura e a espontaneida­
de das formas isoladas de cooperação. Intensidade e
grau, matérias, processos e instrumentos de coopera­
ção ocupam uma considerável amplitude de variação.
A rigor, há Estados Constitucionais que também j á se
encontram, textualmente, adiantados como a Lei Fun-

3 1 Ver o art. 66, 5 8 alínea 2, 60 da Lei Fundamental Holandesa.


3 2 Art. 50 alínea 3 em conexão com o Art. 44 alínea l Lei do Tribu­
nal Constitucional austríaco: Tratados internacionais com hierarquia
constitucional .
33 Ver Bartsch, NJW 1 977, p. 1 98 5 e seg. (sobre o acordo europeu
para o combate ao terrorismo) ; ver também: WIB de 2 de Nov. l 97 7 ,
p . 3; S Z d e 5/6 d e Nov. 1 97 7 : "ONU condena a pirataria aére a " .

15
damentaP 4 ; mas também há Estados que são concebi­
dos "de forma mais soberana" e voltados para si1 e as­
sim1 entendidos1 praticamente1 como " egocêntricos " 1
pouco voltados ao Direito Internacional e que agem
abertamente (como a França) 3 5 . Em todos os casos1
depara-se com diferentes níveis e graus de estatalida­
·
de cooperativa que estão vinculados1 conseqüente-
mente1 a razões históricas específicas.
A questão decisiva é que a tendência1 como taC tor­
na-se consciente e a dogmática constitucional está pre­
parada para formas intensivas e diferenciadas de coo­
peração: Ela dispõe de aparatos conceituais - já por ela
delineados - que podem controlar1 até mesmo acele­
rar1 o longo caminho para a cooperação.
Uma palavra sobre a questão do "desajuste e ajuste
de precisão " ("Grob- und Feineinstellung") do Estado
Constitucional cooperativo nas relações internacio­
nais . Aqui1 institutos e instrumentos devem ser avalia­
dos1 aperfeiçoados e novos desenvolvidos ou conheci­
dos . Conceitos como "soberania" 3 6 1 impermeabilida­
de1 esquemas internos e externos 3 7 1 o antigo cânone

3 4 Ver a apresentação de princípios "externos" de Constituições na­


cionais nas notas de rodapé n° 1 23 e seg. Sobre a Suíça, ver o relatório
final da "comissão eleitoral " VI 1 973, p. 63 7 e seg.
3 5 Cf. o art. 52 e seg. da Constituição francesa de 1 958, ver, porém,
o art. 55; também o francês IPR: O direito estrangeiro não é aplicado
como direito, mas como fato (Tatsache) . Para isso Kegel, Internatio­
nales Privatrecht, 4• ed. , 1 977, p. 9 1 e seg., 228.
36 Ver Grabitz, DVBI. 1 9 77, p. 7 8 6 ( 790) : Direitos Humanos
como dispositivos negativos de competência no Estado Constitucio­
nal; abandono da Teoria da "Competência da competência" estatal!
3 7 Ver P. Hiiberle, AõR 92 ( 1 967) , p. 2 5 9 (268 e seg. ) - "Política
16
das fontes de direito (o entendimento do Direito In­
ternacional) deveriam ser questionados . As relações
econômicas internacionais do Estado Constitucional
tornaram-se uma parte de suas relações internas1 Há
que se refletir sobre como o Estado Constitucion;1l
(cooperativo) pode se desenvolver para além das for­
mas já conhecidas de interdependência 3 8 , através, em
p arte , de novos c onteúdos, novos processos (por
exemplo, opinião pública) e novos órgãos, como no
campo das questões comerciais 3 9 , para compensar a
perda de competência do parlamento (como por meio
de obrigações de informação) 40 • Além disso, seria de
se examinar como o Estado Constitucional ( cooperati­
vo) irá se adequar, textualmente, nas futuras Consti­
tuições, ao tema das relações internacionais de forma
aprofundada, ampla, precisa e elástica, também nos
métodos de interpretação constitucional; aqui há, cer-

externa" como "política interna global" (Weltinnenpolitik) : Comuni­


dade de Estados no sentido de uma unidade constituída como tarefa
(integração!) .
3 8 Ver, por exemplo, o bem logrado conceito de R. Schmidt de "go-
. verno parlamentar" (VVDStRL 36 (1 978) , LS 23) que, com vista às .
relações internacionais, salienta o sentimento de solidariedade do par­
lamento e do governo, bem como sublinha a legitimação democrática
parlamentar do governo.
3 9 · Para isso R. Schmidt, WDStRL 36 (1 978) , p. 1 00 e seg.
40 Ver, para isso, o art. 2° da Lei alemã de adesão ao Tratado da
Comunidade Econômica Européia, segundo a qual o Parlamento Na­
cional alemão precisa ser informado de todo ato legislativo europeu.
S obre isso lpsen, Europiiísches Gemeínschaftsrecht, 1 9 72, p. 2 76,
com fontes. Em geral, apresenta-se aqui a questão da legitimação nas
decisões das organizações internacionais, desde que tenham caráter
vinculante.

17
tamente, limitações da juridificação. É preciso realizar
o trabalho político-constitucional nas bases das "pres­
tações antecipadas " (Vorleistungen) teórico-constitu­
cionais. Devem servir de comparação as Constituições
de tipo ocidental, de Estados abertos com claros " en­
trelaçamentos " (verflochtenen) , como da H olanda,
com Estados nacionais aqui ainda mais " fortemente
voltados para si" (in sich gekehrten) . Talvez as estrutu­
ras e processos europeus possam dar indicações. Hic et
nunc devem ser, em todo caso, traçadas as conseqüên­
cias isoladas, no sentido de um Estado Constitucional
cooperativo (responsável) no caminho para " relações
externas " .

3 . Motivos e pressupostos

Os motivos e pressupostos do desenvolvimento do


Estado Constitucional cooperativo são complexos .
Nomeadamente dois fatores encontram-se em primei­
ro plano: o sociológico-econômico e o ideal-moral.
Fator desafiante e motor da tendência para a coo­
peração são as inter-relações econômicas dos Estados
(Constitucionais ) 4 1 . Falando-se do "Estado europeu"
no sentido de que ele seria proveniente da economia42 ,
isso vale justamente para o Estado Constitucional coo-

41 Sobre isso a análise de R. Schmidt, WDStRL 36 ( 1 978) , p. 68 e


seg. - ver também Oppermann, WDStRL 27 ( 1 969) , p. 9 5 e seg.
(discussão) .
42 Assim, Dagtoglou, WDStRL 23 ( 1 966) , p. 1 27 (discussão) ; ver
também R. Schmidt, WDStRL 36 ( 1 9 78) , p. 65 (67) .

18
perativo. Ele se realiza através das inter-relações eco­
nômicas e as efetiva conjuntamente .
O conhecimento das formas e conômicas de coope­
ração e sua " aplicação" em conceitos, processos e com­
petências jurídicas adequadas exige a interligação a
métodos e objeto da "Teoria do Estado" 43 .
Os pressupostos ideais-morais do desenvolvimen­
to do Estado Constitucional cooperativo somente po­
dem ser apontados: Eles são, por um lado, resultado de
sua construção por meio dos direitos fundamentais e
dos direitos humanos . A " sociedade aberta " adquire
esse predicado somente quando também for uma so­
ciedade aberta internacionalmente. Direitos Funda­
mentais e Humanos remetem o Estado e "seus " cida­
dãos ao " outro" , ao chamado " estrangeiro" , ou sej a, a
outros Estados com suas sociedades ou cidadãos "es­
trangeiros" 44 . O Estado Constitucional Cooperativo
vive de necessidades de cooperação no plano e conômi­
co, social e humanitário, assim como - falando antro­
pologicamente - da consciência de cooperação (inter­
nacionalização da sociedade, da rede de dados, opinião
pública mundial, das demonstrações com temas de po­
lítica externa, legitimação externa) .

43 Sobre isso Friauf, WDStRL 27 ( 1 969) , p. 1 1 1 ; H. Wagner, cita­


do acima, p. 9 1 e seg.; lpsen, AõR 97 ( 1 972) , p. 3 7 5 (409) ; P. Hãber­
le, WDStRL 36 ( 1 978) , p. 1 29 e seg. (discussão) . - Ver também
ainda Scheuner, WDStRL 3 1 ( 1 9 7 1 ) , p. 7 ( 1 0 e seg.) : Oppermann,
JZ 1 967, p. 725 e seg.
44 Sobre a problemática: Doehring/Isensee, WDStRL 32 ( 1 9 74) ,
p. 1 e seg. e a discussão, citada acima, p. 1 07 e seg.

19
4. Limites e perigos

O Estado Constitucional ocidental é, quantitativa­


mente, somente um tipo relativamente raro de Esta­
do. De um lado, ele concorre com os chamados Esta­
dos "socialistas " e, de outro, com Estados autoritários
ou totalitários na Europa, África, América Latina e
Ásia. S eria de pouca visão, até mesmo perigoso, se a
dogmática constitucional não visse esse conjunto dos
fatos, se ela construísse - entusiasmada pelo seu pró­
prio "modelo" - formas européias de cooperação que
abrissem os Estados de tal forma que estes ficassem
expostos a perigos pelos Estados "selvagens" (que são,
por sua vez, suj eitos de Direito Internacional) . Certa­
mente, a "força engajada" (e a valiosa experiência em­
pírica) do Estado Constitucional ocidental 45 é grande e
ela deveria aumentar na opinião pública mundial de tal
maneira, como se faz ainda mais s eriamente com a
cooperação. Mas há que se atentar para o fato de que
as conquistas constitucional-estatais, assim como ele­
mentos formais jurídico-estatais ou o conceito jurídi­
co4 6 estão ameaçados, e a outra estrutura, parcialmen­
te bem diferente, de valor (e identidade) de terceiros

45 Para isso R. Schmidt, WDStRL 36 ( 1 978) , LS 32.


4 6 Aqui se encontra a problemática do "soft law"; sobre isso Tomus­
chat e R. Schmidt, citados acima; deve-se "compreender" com cuida­
do (da discussão K. Vogel, citado acima) , é um tipo de criação de
direito costumeiro "pré-formador" e "pré-formulado", um determi­
nado estilo de argumentação e processo, próximo ao aspecto fático,
que, por meio de sua falta de delineamento e imprevisibilidade, põe
em perigo os elementos jurídico-estatais do Estado Constitucional
(sobre os perigos R. Schmidt, citado acima LS 24) .

20
Estados não pode nem quer adaptar-se ao modelo
constitucional-estatal. Mas, também com eles deve ser
possível cooperação ( limitada ) .
Portanto, há uma ambivalência no tema " Estado
Constitucional e relações internacionais " . De um lado,
a possibilidade de cooperação apresenta grandes chan­
ces e desafios : os elementos constitutivos do Estado
Constitucional ( como processos democráticos de Es­
tado de Direito, Jurisdição, Direitos humanos ) podem
ser "exportados" para constituir a comunidade de Es­
tados. Por outro lado, os perigos dessa "importação"
são evidentes . Podem haver efeitos regressos e coações
p ragmáticas : o Estado Constitucional como tipo,
ameaça, em seus elementos dogmáticos e de Estado de
Direito, como em questões monetárias, cair em uma
zona de perigo para sua identidade - naturalmente
aberta a mudanças: o entrelaçamento com Estados não
constitucionais, como com alguns países em desenvol­
vimento, e também com organizações multinacionais e
privadas, não governamentais, pode levar a uma nega­
tiva aspiração. Podem ocorrer atritos entre o Estado
Constitucional e o conceito de Estado 4 7 do Direito In­
ternacional, entre diferentes modelos econômicos
constitucionais, com efeitos regressos nas Constitui­
ções nacionais de economia. Podem ocorrer erosões do
Estado Constitucional, para o que a dogmática e a po­
lítica do Estado Constitucional devem apresentar al­
guma solução. Mas, também, ainda é possível um "ba-

47 Sobre o conceito ver Kriele, Einführung in die Staatslehre, 1975,


p. 81 e seg. Sobre esse dilema, ver minha conferência em Ao R 102
(1977), p. 284 (288, 296, nota de rodapé 54).

21
lanço positivo " : no sentido de uma concorrência entre
Estados em relação aos elementos transmissíveis e
condicionalmente substituíveis de sua estatalidade
constitucional a caminho de um "modelo" apropriado
de estatalidade constitucional cooperativa.

22
C apítulo 1 1

Elementos d e uma comprovação

Com o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dos


veículos e meios de comunicação ao redor do globo ou
a " aproximação" de Estados (e pessoas) entre si, tor­
nam-se cada vez mais visíveis, especialmente, as desi­
gualdades econômicas entre eles. À distância, de fato
cada vez mais crescente, entre países ricos e pobres
("widening gap") 48 se opõe a exigência, sempre repre­
sentada incondicionalmente por parte dos países em
desenvolvimento, de uma igualdade econômica inter­
nacional em uma nova economia mundial. Intensiva
cooperação entre os Estados, no sentido descrito, é a
única alternativa para se evitar uma inevitável confron­
tação face a esse conflito. Tendências que j ustificam
essa necessidade são comprováveis tanto no desenvol­
vimento do Direito Internacional como, também, no
desenvolvimento do Direito Constitucional em vários

48 Cf. sobre isso Petersmann, Zur Inkongruenz zwischen volkerrech­


tlicher und tatsiichlicher Weltwirtschaftsordnung, Die Friedenswarte
5 9 ( 1 976) , p. 5 seg.

23
Estados . O reconhecimento da responsabilidade social
dos Estados, interna e externamente, se encontra no
ponto central de um dos princípios de mudança funda­
mental já realizado nas relações Qurídicas) entre os Es­
tados.

1 . Direito Internacional de coordenação, coexistência


e cooperação: elementos constitutivos de um Direito
Internacional comunitário

a) A organização da comunidade de Estados

N o E statuto da Liga das Nações ( 1 9 1 9) 49, d a


"Constituição" da primeira organização política ampla
da comunidade de Estados 5 0 , já se fala do "fomento à
cooperação entre as nações " . Ao lado da "garantia da
paz internacional e da segurança internacional" , ele se
apresenta corno objetivo da Liga das Nações·. Mas os
meios para realização desse objetivo de paz, indicados
no preâmbulo desse Estatuto bem corno nos seus 2 6
artigos, são a s típicas obrigações de urna ordem do Di-

49 I mpresso em: Berber, Volkerrecht, Dokummentensammlung


vol. I, Friedensrecht, 1 967, p. 1 seg.
5 0 Cf. Verdross / Simma, Universelles Volkerrecht, 1 976, p . 77 seg.;
vide também Verdross, Die Verfassung der Volkerrechtsgemeinschaft,
1 926, e do mesmo, Die Quellen des universellen Volkerrechts, 1 973,
p . Z 1 : "Um documento constitucional de Direito Internacional for­
ma, primeiramente, o estatuto da Liga das Nações que foi substituída,
após a S egunda Guerra Mundial, pelo Estatuto das Nações Unidas . "
S obre o tema "Elementos constitucionais d a comunidade d o Direito
Internacional" vide também Mosler, ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 3 1 seg.

24
reito Internacional entendida como direito de coorde­
nação (desarmamento, proteção de bens, proibição de
guerra e resolução pacífica dos c onflitos ) 5 1 . Assim
como a fundação da Liga das Nações, também a das
Nações Unidas ( 1 945) foi uma reação às comoções e
sofrimentos da última guerra. Ao contrário do Estatu­
to da Liga das Nações, a cooperação entre povos, pre­
vista na Carta das Nações Unidas, não é colocada
como obj etivo e sim como meio "para resolver proble­
mas internacionais de natureza social, cultural e huma­
nitária, e para fomentar e sedimentar o respeito aos
direitos humanos e liberdades fundamentais para to­
dos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião "
(art. 1 ° al. 3 Carta da ONU) 52 . De forma que o preâm­
bulo da Carta também reforça a determinação dos Es­
tados fundadores das Nações Unidas em "recorrer a
organizações internacionais para fomentar o dese nvol­
vimento econômico e social de todos os povos " . No
art. 1 3 a Assembléia Geral, com a realização de inves­
tigações e a distribuição de recomendações, coloca-se,
expressamente, as incumbências:

SI Kimminich, Einführung in das Volkerrecht , 1 975, p. 68 seg . j á


fala aqui d e uma mudança épica: "Com isso, rompeu-se com o marco
inicial do Direito Internacional clássico, ou seja, a soberania e o direi­
to, que dela flui, dos Estados soberanos à guerra. " A transição da proi­
bição bélica parcial para a total ocorreu através do "pacto Briand-Kel­
logg" de 27 de agosto de 1 928, Anm. 48, vol. 2, p. 1 674 seg . .
52 Impresso em Berber (Anm. 48) , p. 1 3 seg. Sobre a importância
da proteção dos direitos humanos e da cooperação como meio para
assegurar a paz cf. Verdross I Simma, Universelles Volkerrecht, 1 976,
p. 83 S .

25
" a) de fomentar a cooperação internacional no âm­
bito político e de favorecer o desenvolvimento pro­
gressivo do Direito Internacional bem como sua
codificação;

b ) de fomentar a cooperação internacional nos âm­


bitos da economia, do setor social, da cultura, da
educação e da saúde e contribuir para a efetivação
dos direitos humanos e liberdades fundamentais
para todos sem distinção de raça, de sexo, de língua
e de religião" .

Pode-se deduzir, sobretudo, do art. 5 5 , que a carta


das Nações Unidas, diferentemente do Estatuto da
Liga das Nações, vê a cooperação no âmbito econômi­
co e social entre os Estados como um elemento princi­
pal da garantia de paz 53 :

"Para manter toda situação de estabilidade e bem­


estar necessária para que entre as nações liderem
as relações pacíficas e amigáveis ancoradas no res­
peito ao princípio da igualdade e autodeterminação
dos povos, as Nações Unidas fomentam:

a) a melhoria do nível de vida, a ocupação plena e


os pressupostos para o desenvolvimento e ascensão
econômicos e soczats;

53 Sobre a mudança do conceito de paz nas Nações Unidas compa­


rativamente à Ligas das Nações cf. também Petersmann, Die Frie­
denswarte 59 ( 1 976) , p. 30 seg.

26
b) a solução de problemas internacionais de natu ­
reza econômica, social, de saúde e similares, bem
como a cooperação internacional nos âmbitos da
cultura e da educação;

c) o respeito geral e realização dos direi tos humanos


e liberdades fundamentais para todos, sem distin­
ção de raça, sexo, língua ou religião . "

O fomento da cooperação econômica e social entre


os Estados vem ganhando crescente interesse no traba­
lho das Nações U nidas 54 •
Analisando o Estatuto da Liga das Nações, assim
c o m o a C arta das Nações U nidas, s eguindo Ver­
dross 55 , como documentos constitucionais de Direito
Internacional, o deslocamento de importância é des­
crito corretamente por Mosler, no sentido de que à
" obrigação geral pela paz", como elemento constitu­
cional material da ordem jurídica internacional, deve­
ria ser acrescida a "obrigação de cooperação" 5 6 . A am­
pla atividade legislativa das Nações Unidas por meio

5 4 Cf. S cheuner, Tarefas e mudanças de estrutura nas Nações Uni­


das, em: Kewenig (ed.) , Die Vereinten Nationen im Wandel, 1 97 5 ,
p. 209 .
55 Verdross, Die Quellen des universellen Volkerrechts, 1 97 3 , p. 2 1 .
5 6 Mosler, Volkerrecht als Rechtsordnung, ZaõRV 36 ( 1 9 76) , p. 3 3 ;
de forma semelhante Kimminich, Einführung in das Volkerrecht,
1 97 5 , p. 1 96 : "Ao lado da proibição da violência, hã a obrigação dos
Estados de cooperação internacional, que caracteriza o 'novo Direito
Internacional' e se destaca do Direito Internacional clássico. " Por fim:
Mosler, Festrede, em: Heidelberger Akad. d. Wiss. 1 976 ( 1 9 77), p.
77 seg.

27
de codificações 57 , declarações e resoluções 58 para cria­
ção de pressupostos formais (Convenção de Viena so­
bre os Tratados em 1 969, e a Convenção diplomática
de Viena em 1 96 1 ) 59 bem como para determinação de
obrigações de atitude e disposições dos objetivos ma­
teriais da cooperação internacional 60 mostram que elas
consideram seriamente suas obrigações definidas na
Carta. A determinação dos Estados, proclamada no
preâmbulo da Carta das Nações Unidas, de que as
" nossas crenças nos direitos fundamentais da pessoa,

57 Cf. especialmente sobre o processo de codificação: Geck, Vol­


kerrechtliche Vertriige und Kodifikation, ZaõRV 3 6 (19 76) , p. 96
(108 seg.) com referências.
58 Cf. os exemplos em Verdross I Simma, Universelles Volkerrecht,
1976, p. 329 seg. (com referências) sob o questionamento de sua qua­
lidade de fonte jurídica no Direito Internacional; vide também Fro­
wein, Der Beitrag der internationalen Organisationen zur Entwick­
lung des Võlkerrechts, ZaõRV 36 (1976) , p. 147 (149 seg.) .
59 Convenção de Viena sobre o direito dos acordos de 2 3 de maio
de 1969, sobre isso: Verdross I Simma (nota-de-rodapé 5 7) , p. 345
seg. - O acordo de Viena sobre relações internacionais de 18 de abril
de 1961 (BGBI. 1964 11 958, impresso em: Berber, Võlkerrecht, Do­
kumentsammlung, vol. I, p. 865 seg.) entrou em vigor em 24 de abril
de 1964.
60 Cf. a Declaração dos princípios fundamentais do Direito Inter­
nacional sobre as relações amigas e a cooperação entre os Estados
("Declaration on principies of internacional law concerning friendly
relations and cooperation among States in accordance with the Char­
ter of the United States") de 24.10.1970, sobre isso: Frowein, p. 70
seg.; Graf zu Dohna, Die Grundprinzipien des Võlkerrechts über die
freundschaftlichen Beziehungen und die Zusammenarbeit zwischen
den Staaten, 1973. Vide também a Carta dos direitos e obrigações
econômicos dos Estados de 12.12 .1974, novamente citada em: Die
Friedenswarte 59 (19 76), p. 71 seg. , sobre isso: Tomuschat, ZaõRV
3 6 (1976) , p. 444 seg.

28
na dign idade e valor da pers onalidade humana, na
igualdade de tratamento entre homem e mulher, as­
sim como entre todas as nações, ainda que grande ou
pequena, devem ser novamente fortalecidas ", adquire
claros contornos com as declarações e pactos para a se­
gurança coletiva dos direitos humanos 6 1 , assim como
com os esforços pela solidariedade econômica e social
internacional 5 2 . A questão dos direitos humanos torna­
se assunto internacional.

b) Formas regionais de cooperação intensiva

Além do plano universal do direito internaciona t a


constitucionalização do direito comunitário interna­
cional avançou no plano regional. Exceto as organiza­
ções regionais e o sistema coletivo de segurança, se­
gundo o capítulo VII I da Carta das Nações U nidas,
como a OAS , o WEU, a OTAN ou o Pacto de Varsó-

61 Declaração Universal dos· Direitos Humanos de 1 0 . 1 2 . 1 94 8


( em: Berber ( nota-de-rodapé 58) , p. 9 1 7 seg. ) ; Pacto internacional
sobre os direitos civis e políticos, vigente desde 2 3 . 3 . 1 9 76, inclusive
do Protocolo Facultativo, BGBI. 1 9 73 l i , p. 1 5 34; cf. sobre isso :
Meiâner, Die Menschenrechtsbeschwerde vor den Vereinten Nationen,
1976; Tomuschat, Vereinte Nationen 1 976, p. 1 66 seg.; Bartsch, Die
Entwicklung des inÚrnationalen Menschenrechtsschutzes, NJW 1 977,
p. 474 seg.; H . Lauterpacht, International Law and Human Rights,
1973 . Ceticamente Geck, em: FAZ de 2 1 . 1 1 . 1 977, p. 9 seg.
62 Cf. a Declaração sobre a instituição de uma nova ordem econô­
mica de valor de 1.5 .1974, Doc. Da ONU GA Res. 3201 (S-VI) de
9.5.1974; cf. sobre isso K. lpsen, Entwicklung zur "Collective econo­
mic security " im Rahmen der Vereinten Nationen? Em: Kewenig
( ed. ) : Die Vereinten Nationen im Wandel, 1 9 7 5 , p . I 1 seg . , bem
como adiante nota-de-rodapé 87 seg.

29
via 63 , isso vale especialmente para a Comunidade E u ­
ropéia, cuja "Constituição" 6 4 são os Tratados de Paris
e Roma6 5 . Uma abdicação parcial de soberania 66 a fa­
vor do "poder comunitário" da Comunidade Européia,
em conexão com a obrigação fundamental de solida­
riedade dos Estados membros ancorada no art. 5° do
T r at a d o da C o m u n i d a d e E c o n ôm i c a E u r o p é i a
(EWGV) , foi e é pressuposto para a realização dos ob­
jetivos do Tratado, em especial da integração econô­
mica, da política social e regional 6 7 por meio de órgãos
legislativos e jurisprudenciais independentes . A cons­
trução da legitimação direta dos órgãos da comunida­
de, por meio de um parlamento 6 8 europeu eleito dire-

6 3 Cf. R. Pernice, Die Sicherung des Weltfriedens durch Regionale


Organisationen und die Vereinten Nationen, 1 97 2 , especialmente p.
42 seg.
64 H . P . lpsen, Europiiisches Gemeinschaftsrecht, 1 9 72, p. 64 seg.;
cf. BVerfGE 2 2 . 296: "O acordo da Comunidade Européia repre­
senta, de certa forma, a Constituição dessa comunidade. "
6 5 Tratado EGKS de 1 8 . 4 . 1 95 1 , em: Berber (nota-de-rodapé 48),
p. 39 1 seg.; Tratado da Comunidade Européia de 2 5 . 3 . 1 9 5 7 , op. cit.,
p. 44 1 ; Tratado da Comunidade Européia sobre questões atômicas de
25.3 . 1 957.
66 S obre a s determinações constitucionais dos Estados membros
vide abaixo na nota-de-rodapé 1 2 5 seg.; vide também Wildhaber,
Treaty-Making-Power and Constitution, 1 97 1 , p. 284 seg.
6 7 Cf. sobre isso o relatório anual do Fond Europeu para desenvol­
vimento regional (1 9 7 5), Buli. EG Beil. 7/76.
68 S obre isso vide: Bangemann I Bieber, Die Direktwahl - Sackgas­
se oder Chance für Europa? Analysen und Dokumente, 1 9 76; Müller­
Graff, Die Direktwahl des Europiiischen Parlaments ( Recht und
Staat, H . 468/469), 1 9 77; Oppermann, Juris tische Fortschritte durch
die europiiische lntegration, em: Tradition und Fortschritt, Fes-

30
tamente1 deveria abrir mão do dogma da soberania na­
cional em prol de uma fundamentada divisão de com­
petências entre Estado e organizações supranacionais.
A adoção de uma nova identidade "européia" 6 9 aplana
o caminho para o exercício da " responsabilidade so­
cial " das regiões ricas em face das pobres e do aumento
geral do nível de vida 70 . Integração como forma de in­
cremento da cooperação pode1 com isso1 ser vista tam­
bém como perspectiva de esforços internacionais de
cooperação 71 .

tschrift zum 500-jiihrigen Bestehen der Tübinger Juristenfakultiit,


1 977, p. 426 seg.
69 Cf. a declaração da presidência ao final da Conferência da Co­
munidade Européia de Copenhagen (dez. de 1 973) , Buli. EG Beil.
1 2/ 1 973, p . 9 seg . : "Os nove países reforçam sua vontade conjunta de
preocupar-se com que a Europa fale com uma voz nas importantes
questões mundiais. Eles aprovaram a declaração sobre a identidade
européia que determina, em perspectiva dinâmica, mais precisamen­
te, os princípios para sua atuação. " Vide também Grabitz, DVBI.
1 977, p . 786 (79 1 ) : "A eleição direta do parlamento europeu irá pro­
mover as condições essenciais de constituição para o que ainda não
existe nas comunidades européias - uma Nação européia . " Relatório
de Leo Tindemans para a União Européia, Buli. EG Beil. 1 /76, p. 1 1
seg.
70 Cf. art. 2° do Tratado da Comunidade Européia bem como alí­
nea 5 do preâmbulo: "No esforço de fomentar suas economias para
um desenvolvimento único e harmônico, à medida que diminue a dis­
tância entre as regiões isoladas e o atraso de regiões menos favorecidas
"
71 Cf. sobre isso também a citação em Oppermann (nota-de-roda­
pé 67) , p. 4 1 7 : "Sobre as Nações Unidas da Europa a caminho do
futuro Estado mundial das Nações Unidas ", e sua referência a uma
possível transferência do princípio do Tribunal Europeu sobre a pro­
teção européia dos direitos fundamentais, a uma proteção internado-

31
A integração européia iniciou-se ainda com a fun­
dação do Conselho Europeu ( I 949 ) . Seu Estatuto 72 in­
corporou a convicção de que a "garantia da paz sobre
os fundamentos da justiça e da cooperação internacio­
nal é de interesse vital para a conservação da sociedade
humana e da civilização " . Ao lado da realização dos va­
lores da liberdade pessoal e política da democracia, en­
contra-se em primeiro plano, no preâmbulo assim
como no art. I 0 do Estatuto do Conselho Europeu, o
fomento do desenvolvimento econômico e social. Se­
gundo o art. I o B, o Conselho preenche suas funções
"por meio de aconselhamento sobre questões de inte­
resse geral, através da assinatura de convênios e atra­
vés de procedimentos comunitários nos campos eco­
nômico, social, cultural e científico, e nos âmbitos do
direito e da administração, assim como através da pro­
teção e do desenvolvimento continuado dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais 73 . C o m a
Convenção para a proteção dos Direitos Humanos e
das liberdades fundamentais, de I 95 0 74 , e com a insti-

nal dos direitos humanos através do art. 38 c do Estatuto do Tribunal


Internacional (p. 43 1 ) .
72 Citado novamente em: Berber (nota-de-rodapé 4 8) , p. 3 5 7 seg.
73 Sobre os inúmeros acordos e convenções, surgidos da atividade
do Conselho Europeu, vide Council of Europe: Conventions and
agreements concluded within the Council of Europe and which con­
cern the European Committee on Legal cooperation, 1 97 4; vide tam­
bém Lenz, Die unmittelbare innerstaatliche Anwendbarkeit der Euro­
paratskonventionen unter besonderer Berücksichtigung des deutschen
Rechts, 1 9 71.
74 Citado em: Berber (nota-de-rodapé 48) , p. 9 5 5 . Sobre a situação
da ratificação e sobre o sistema de proteção jurídica em geral, vide

32
tuição da Comissão Européia 75 e do Tribunal Europeu
dos Direitos Humanos 7 6 é conferido aos membros dos
Estados signatários proteção direta dos direitos funda­
mentais através de uma instância supranacionaF 7 . Para
a codificação de direitos sociais, a Carta Social Euro­
péia é orientadora com seu especial processo coopera­
tivo de controle 78 •
O Tratado s obre a organização p ara cooperação
econômica e desenvolvimento ( OECD ) , de 1 960, de­
dica-se especialmente à cooperação econômica entre
os Estados europeus incluindo, também, alguns Esta­
dos fora da Europa. Essa organização foi fundada, se­
gundo o preâmbulo, "na convicção de que uma ampla
cooperação será decisiva para o fomento de relações
pacíficas e harmônicas entre os povos do mundo " e

Bartsch, NJW 1977, p. 477 seg.; vide em geral: Partsch, Die Rechte
und Freiheiten der europiiischen Menschenrechtskonvention, em: Bet­
termann I Neumann I Nipperdey (ed.) , Die G rundrechte, vol. I, 1
(1966), p. 2 3 5 seg.
75 Ordenamento sobre procedimento da Comissão Européia para
os direitos humanos de 1°1 5 . 8 .1960, em: Berber (nota-de-rodapé) , p.
975 seg.
7 6 Ordenamento procedimental do Tribunal Europeu dos Direitos
Humanos de 1°151811960, em: Berber (nota-de-rodapé 48), p. 993
seg.
77 Vide Rogge, Der Rechtsschutz der Europãischen Menschen­
rechtskonvention, EuGRZ 1975, p. 117 seg. e o panorama de Robert­
son, Die Menschenrechte in der Praxis des Europarats, 1972 .
7 8 Carta Social Européia de 18 .10.1961, em: Berber (nota-de-roda­
pé 48), p. 1270 seg.; vide também a contribuição à d iscussão de Za­
cher, WDStRL 30 (1972), p. 151 (153) bem como da Constituição
citada, p. 187.

33
"que as nações mais desenvolvidas economicamente
precisam trabalhar juntas para apoiar, com os melho­
res esforços, as nações subdesenvolvidas" 79 .
Os relatórios finais da Conferência sobre segurança
e cooperação na Europa (KSZE) , de 1 9 7 5 , assumem
uma posição especial entre as formas de cooperação
reforçada, mas regionalmente delimitada 80 . Decisiva,
aqui, não é tanto a forma jurídica e possível vinculação
jurídica internacional das declarações 8 1 , e sim, a rela­
ção interna, visível através desses relatórios, entre se­
gurança geral e militar e cooperação reforçada a nível
econômico, social, científico, técnico, cultural, etc . Os
relatórios finais, dos quais os Estados do leste europeu
também participaram com suas declarações de princí­
pio e intenção, documentam uma consciência essen­
cial de cooperação para o desenvolvimento continuado
do Direito Internacional e da proteção internacional
dos direitos humanos 82 _

79 Organization of Economic Cooperation and Development, em:


Berber (nota-de-rodapé 48) , p. 659 seg. (ênfase do autor) .
80 Citado em: Archiv des Võlkerrechts 1 977, p. 84 seg.
8 1 Vide sobre isso: Schweisfurth, Zur Frage der Rechtsnatur, Ver­
bindlichkeit und volkerrechtlichen Relevanz der KSZE-Schluâakte,
em: ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 68 1 seg.; Delbrück, Die volkerrechtliche
Bedeutung der Schluâakte der Konferenz über Sicherheit und Zusam­
menarbeit in Europa, em: Bernhardt I v. Münch I Rudolf ( ed.) , Drit­
tes deutsch-polnisches Juristen-Kolloquium, 1 9 77, p. 3 1 seg. Por
fim, Blumenwitz, em: Die KSZE und die Menschenrechte, 1 977, p. 5 3
seg.
82 Cf. a sugestão dos Estados da Comunidade Européia e dos cinco
outros países na Conferência da KSZE em Belgrad, para realização
dos direitos humanos, SZ de 5 e 6 . 1 1 . 1 977, p. 2: "Ocidente exige
proteção dos cidadãos civis. "

34
Em solo americano, deve ser citado, especialme n­
te, a "Organization of American States" (OAS ) , cuj a
carta revisada, de 1 9 70, contém princípios para um
sistema semelhante à proteção dos direitos humanos
pelo Conselho Europeu 8 3 . Em parte, configuradas se­
gundo as comunidades européias, em parte segundo a
EFTA, as organizações fundadas fora da Europa tam­
bém contribuem - preponderantemente - para a coo­
peração econômica entre os Estados para a dissemina­
ção do pensamento de cooperação. O mercado co­
mum da América Central ( 1 960) , fundado pelo Trata­
do de Manágua, a área de livre comércio latino-ameri­
cana ( 1 960) , o mercado comum dos países andinos
acordado no Tratado de Bogotá, a área de livre comér­
cio do Caribe, o mercado comum do Caribe oriental, o
conselho da Ásia e do Pacífico, fundado em 1 966, bem
como a " Regional Cooperation for Development", de
1 964, entre Irã, Paquistão e a Turquia servem, aqui, de
exemplos 84 •

c) Pontos de partida de um Direito Internacional hu­


manitário e social

A proteção dos direitos humanos, um dos princi­


p ais objetivos das Nações U nidas, foi corroborada e

8 3 Cf. sobre isso: Buergenthal, The revised OAS Charter and the
protection of human rights, em: AJIL 69 ( 1 9 7 5 ) , p. 828 seg.; Tardu,
The protocol to the United Nation Covenant on civil and política[
rights and the inter-American system: A study o f co-existing petition­
procedures, em: AJIL 70 ( 1 976) , p. 778 seg.
84 Cf. sobre essas organizações o panorama em Petersmann, Wirts­
chaftsintegrationsrecht und Investitionsgesetzgebung der Entwick­
lungsliinder, 1 974, p. 5 5-87.

35
concretizada, j á em 1 948, pela Declaração Universal
dos Direitos Humanos 85 . O art. 22 da Declaração dis­
põe que a realização dos direitos humanos depende
das condições econômicas e sociais e, com isso, da coo­
peração internacional:

11Toda pessoa, como membro da sociedade, tem di­


reito à segurança social e à satisfação dos direitos
econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua
dignidade e ao livre desenvolvimento de sua perso ­
nalidade, graças ao esforço nacional e à cooperação
internacional, de acordo com a organização e os re­
cursos de cada país ".

A proteção internacional dos direitos humanos ob­


teve vinculação jurídica contudo apenas quando, em
1 9 76, entrou em vigor o pacto internacional sobre di­
reitos civis e políticos e sobre direitos econômicos, so­
ciais e culturais das Nações U nidas, de 1 966 86 . Uma
junta internacionalmente constituída para os direitos
humanos, bem como, também, uma comissão para isso
determinada, devem analisar, anualmente, os relató­
rios apresentados pelos Estados signatários e, até onde

85 Texto em: Berber (nota-de-rodapé 48), p . 9 1 7 seg.; cf. também


Schaumann, Der volkerrechtliche Schutz der Menschen- und Freiheits­
rechte in seiner Verwirklichung durch die Vereinten Nationen, JIR 1 3
( 1 967) , p. 1 3 3 seg. S obre a "intervention d'humanité" vide Perez­
Vera, em: La protection internationale des droits de l'homme, 1 9 7 7 ,
p. 7 seg.
86 Ambos os pactos, inclusive o protocolo facultativo segundo o
qual são possíveis recursos judiciais individuais e por parte do Estado,
entraram em vigor em 1 976, cf. Bartsch, NJW 1 977, p. 4 74 seg.

36
elas se sujeitem, devem receber recursos judiciais dos
Estados e de indivíduos 87 .
Esse deslocamento do ponto principal de trabalho da
ONU, da manutenção de uma mera " paz negativa" (no
sentido da ausência de poder militar) para a criação de
uma infra-estrutura econômica, social e cultural com
fins de implantação de uma "paz positiva " através de
maior justiça social 88 , conduz o desenvolvimento do di­
reito internacional a um direito de cooperação em sen­
tido material 89 . Assim reza a Declaração dos princípios
fundamentais do Direito Internacional, aprovada pela
Assembléia Geral em 24 de Outubro de 1 970, sobre as
relações amigáveis e a cooperação entre os Estados, em
que estes, a despeito de suas diferenças no sistema polí­
tico, econômico e social, se obrigam a uma cooperação
em diferentes níveis no plano das relações internacio­
nais, com o objetivo de garantir a paz e a segurança inter-

87 Sobre isso, em pormenores: Mei�ner, Díe Menschenrechtsbes­


chwerde vor den Vereínten Natíonen, 1 9 76; Eissen, Conventíon euro­
péenne des Droíts de l 'Homme et Pacte des Natíons Unís relatíf aux
droíts cívíls et polítíques: problemes de "coexístence " , Z a o RV 3 0
( 1 9 70) , p. 2 3 6 seg. e 646 seg.; Tardu, The protocol to the United
Nations Covenant on civil and political rights and the inter-American
System: A study of co-existing petition-procedures, AJIL 70 ( 1 976) ,
p. 778 seg.
88 Cf. Tomuschat, ZaoRV 36 ( 1 976) , p. 459 seg.; Petersmann, Die
Friedenswarte 59 ( 1 9 76) , p. 30 seg.; Kimminich, Einführung in das
Volkerrecht, 1 97 5 , p. 1 96 seg.
89 Cf. Scheuner (nota-de-rodapé 9) , p. 5 5; para ele, os acordos nos
quais os Estado se comprometem à cooperação econômica parecem,
"no todo, como uma expressão de mentalidade e atividade internacio­
nal cooperativa em que o isolamento nacional é superado a favor de
uma cooperação interestatal" .

37
nacionais, levar adiante a estabilidade e o progresso eco­
nômicos, assim como o bem-estar geral dos Estados e a
cooperação internacional, livre de toda forma de discri­
minação que repousa em tais diferenças 90 .
Se a ordem econômica internacional era, em princí­
pio, marcada por idéias liberais clássicas de ordem e a
cooperação dos Estados em instituições e organizações
como o Banco Mundial 9 1 , que representava o Fundo
Monetário Internacional 92 assim como o GATT93 , com
os relatórios finais da primeira Conferência de Desenvol­
vimento e Comércio Internacional das Nações Unidas
( UNCTAD I ) 94 , em Genebra, mostra-se uma mudan-

90 Declaration on principies of international law concerning frien­


dly relations and co-operation among States in accordance with the
Charter of the United Nations, texto em: G raf zu Dohna, Die
Grundprinzipien des Volkerrechts über die freundschaftlichen Bezie­
hungen und die Zusammenarbeit zwischen den Staaten, 1 973, p. 267
seg. (273) .
9 1 Cf. o Tratado sobre o Banco Internacional para reconstrução e
desenvolvimento de 2 7 . 1 2. 1 945 (BGBI. 1 952, II, 664) , em: Berber
(nota-de-rodapé) , p. 1 32 seg.
92 Tratado sobre o Fundo Monetário Internacional de 2 7. 1 2 . 1 94 5
(BGBI. 1 952, II, 638) , em: Berber (nota-de-rodapé 48) , p. 1 6 1 seg.,
cujo objetivo, segundo o art. 1 ° (i) é, entre outros, "fomentar a coope­
ração internacional (!) no âmbito da política monetária através de uma
instituição estável que se coloque à disposição para conselhos e coo­
peração em problemas monetários internacionais" .
93 Acordo Geral sobre Comércio e Aduana (GATT) d e 30. 1 0. 1 94 7
(BG BI. Anlage I , 1 95 1 , p. 4) , em: Berber (nota-de-rodapé 48) , p.
1 1 82 seg .
94 Relatórios finais da 1 a Conferência de Desenvolvimento e Co­
mércio Internacional das Nações Unidas (UNCTAO I) em G enebra,
de 1 6.6. 1 964, em: Die Friedenswarte 59 ( 1 976) , p. 65 seg. (extra­
tos) .

38
ça fundamental de uma ordem liberal para uma ordem
social de relações econômicas internacionais 95 . As rei­
vindicações, aqui levantadas, dos países em desenvol­
vimento aos países desenvolvidos são precisadas e for­
talecidas na Declaração sobre a construção de uma
nova ordem econômica mundial 96 , no p rograma de
ação sobre a construção de uma nova ordem econômica
mundial97 e na Carta de Direitos Econômicos e Obriga­
ções dos Estados, aprovadas pela Assembléia Geral das
Nações Unidas em 1 2 . 1 2 . 1 9 74. 98 Com as palavras de
Scheuner, acentua-se "o esforço de se fazer valer, na co­
munidade de Estados, o pensamento de uma solidarieda­
de internacional entre as nações, da qual se pode deduzir
a conseqüência de uma atuação voltada à equiparação da
situação e, até mesmo, obrigações dos Estados Industria­
lizados de contribuírem financeiramente, através da ga­
rantia de preferências, para a estabilização dos preços das
matérias-primas e outros meios para o bem-estar mais

95 Vide Ruge, Der Beitrag von UNCTAD zur Herausbildung des


Entwicklungsvolkerrechts, 1 9 76.
96 Cf. lpsen (Anm. 6 1 ) , p. 1 2-20, sobre a "Declaration of a New
International Economic Order" de 1 ° de maio de 1 9 74 (GA Res .
3 2 0 1 (S-VI), tradução alemã em: Deutsche Au�enpolitik 1 974, p.
1 25 5 5 seg.) aclamada no 6° Congresso especial da Assembléia G eral
(Conferência sobre matéria-prima mundial) bem como sobre o rela­
tório do Secretário Geral das Nações Unidas sobre "Collective econo­
mic security" de 5 de junho de 1 974 (UN Doc. E/5 5 29) .
97 GA Res. 3 202 (S - VI) de 1 . 5 . 1 974, tradução alemã em: Deuts­
che Au�enpolitik 1 974, p. 1 238 seg.
98 Cf. Tomuschat, Die Charta der wirtschaftlichen Rechte und
Pflichten der Staaten, ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 460: "A carta deveria
constituir, como ato jurídico complementar, definitivamente a comu­
nidade de Direito Internacional como comunidade solidária. "

39
amplo de todos os povôs. Em prinCipi01 esta concep­
ção procura transferir1 ao nível internacionaC pensa­
mentos de justiça social1 como são eles hoje realizados
nos limites das comunidades nacionais no moderno Es­
tado de bem-estar social" 99 .
A qualidade jurídica formal dessas Declarações das
Nações Unidas que1 em regra1 não são apoiadas pelos
países industrializados 1 00 1 ainda não está e s c lareci­
da 1 01 . Independente de se partir de um " pré-droit" 1 02
ou de um " soft law" 1 03 1 de deduzir-se a sua vinculação
a partir do princípio geral de confiança no Direito In-

99 Scheuner, Aufgaben und Strukturwandlungen ím Aufbau der Ve­


reínten Natíonen, em: Kewenig (ed.) , Die Vereinten Nationen im
Wandel, 1975, p. 189 seg. (210 s.) ; de forma semelhante, Diskus­
sionsbeitrag, op. cit., p. 48: "Em verdade, é o princípio social que
avança, a nível mundial, para o primeiro plano"; do mesmo, ZaoRV 36
(1 976), p . 460.
1 00 S obre a atitude de consentimento, cf. Tomuschat, ZaoRV 36
(1 976), p. 444 s.; vide também a concisa opinião em Hett, Die Frie­
denswarte 59 (1976), p. 63 seg.; Frowein, ZaõRV 36 (1976), p. 1 62
S.

1 01 Cf. em geral sobre isso: Petersmann, Die Friedenswarte 59


(1976), p . 7 s. com ref. ; em pormenores: Tomuschat, ZaõRV 36
(1976), p. 460 seg.; Frowein, ZaoRV 36 (1 976), p. 149 seg . , 161 seg.
1 02 Assim Virally, em: Pays en vaie de développement et transfor­
mation du droit intemational, Société Française pour !e Droit Inter­
national, Colloque d'Aix en Provence, 1 974; vide também do mes­
mo, Résolutions et recommendations dans !e processus décisionnel
de l'Assemblée Générale et du Conseil économique et social, em: Les
resolutions dans la formation du droit intemational du développe­
ment, 1971, p. 59 seg.; assim também: Colliard, lnstítutíons et rela­
tíons ínternatíonales (6". ed.) , 1974, p. 276.
1 03 R. S chmidt, VVDStRL 36 ( 1 978), LS 18; em relação aos relató­
rios finais KSZE vide também Tomuschat, op. cit., LS 8 a) aa) .

40
ternacionaP 04 , ou negá-la totalmente 1 05 , nada pode
mudar a sua função de modelo ou seu caráter de apelo
para o futuro desenvolvimento do Direito Internacio­
nal, em especial do Direito Internacional contratual
como "veículo de cooperação " 1 06 . O fato de elas, como
declaração de princípios de uma maioria esmagadora
dos Estados representados nas Nações Unidas, terem
s ido trabalhadas e aprovadas, conjuntamente, não
pode ser considerado juridicamente irrelevante pelos
países industrializados, ainda que esses tenham apre­
sentado reservas . Já a parcialidade dos interesses aqui
proclamados 1 07 , o desequilíbrio dos designados direi­
tos e obrigações dos Estados, a falta de " conhecimento
da necessária contraposição de uma solidariedade exi­
gida" (Scheuner) 1 08 impede que se caracterize a Carta
dos Direitos Econômicos e Obrigações dos Estados
como "constituição de uma 'nova' economia global " :
" a situação atual de desigualdade fática não deve ser

104 Na seqüência aos resultados da investigação de J.P. Müller, Ver­


trauensschutz im Volkerrecht, 1 9 7 1 , nesse sentido Frowein, ZaoRV
36 ( 1 9 76) , p . 1 5 4 seg.; vide também Tomuschat (nota-de-rodapé
1 00) , p. 479 com outras ref.
1 05 Assim Kimminich, Einführung in das Volkerrecht, 1 97 5 , p. 1 72
seg.; Verdross I S imma, Universelles Volkerrecht, 1 9 76 , p. 3 2 9 seg.;
Scheuner, Aufgaben und Strukturwandlungen in den UN, em: Kewe­
-

nig (ed.) , Die Vereinten Nationen im Wandel, 1 9 7 5 , p. 2 1 1 .


1 06 Sobre isso há ampla unanimidade nos autores acima citados ( cf.
nota-de-rodapé 1 00- 1 04) .
1 07 Sobre isso, em pormenores: Petersmann, Die Dritte Welt und
das Wirtschaftsvolkerrecht, "Entwicklungsland " als privilegierter
Rechtsstatus, ZaoRV 36 ( 1 976) , p. 492 seg. (536 seg.) .
1 08 Scheuner (nota-de-rodapé 98) , p. 2 1 1 .
41
pretexto . . . . para desenvolver um novo Direito Inter­
nacional da desigualdade, exclusivamente às custas
dos países industrializados " (Tomuschat) 1 0 9 . Também
permanece incerto como o apelo à solidariedade e
"responsabilidade social " 1 10 dos países industrializados
pode se coadunar com o princípio de " igualdade sobe­
rana dos Estados" 1 1 1 reforçado, também, pelos países
em desenvolvimento. Essa responsabilidade sem com­
petência excede às funções do tesoureiro cego e pouco
tem a ver com os fins humanitários da cooperação so­
ciaP 1 2 .
Apesar dessas reservas, as referidas Declarações e
Resoluções colocam acentos essenciais para o desen­
volvimento de um direito internacional social de coo-

1 09 Tomuschat, ZaõRV ( 1 976) , p. 490.


1 1 O Cf. os arts. 6°, alínea 2 e 7° alínea 1 , 2 bem como art. 9° da Carta
dos direitos e obrigações econômicas dos Estados, impresso em: Die
Friedenswarte 59 ( 1 9 76) , p. 76 seg.; art. 9° reza: "Ali States have the
responsibility to cooperate in the economic, social, cultural, scientific
and technological fields for the promption of economic and social
progress throughout the world, especially that of the developing
countries. "
1 1 1 S egundo a visão de Petersmann, ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 5 3 7 , "os
países em desenvolvimento exigem um preenchimento material dos
princípios de soberania e igualdade, ancorados no Direito Internacio­
nal, nas relações norte-sul e interpretam o princípio da soberania, ge­
ralmente, não somente como fundamento jurídico para direitos de
liberdade, proteção e defesa, mas sim, também, para direitos de par­
ticipação (por exemplo, na ajuda multilateral ao desenvolvimento por
parte da ONU) e para um droit au développement e Direito Interna­
cional preferencial ao desenvolvimento (droit du développement) " .

1 1 2 S obre o problema: Flory, Souveraineté des Etats et cooperation


pour le développement, RdC 1 974, p. 2 5 5 seg.

42
peração, no qual o princípio da "segurança econômica
coletiva " 1 1 3 é tanto norma de ação como meio para a
realização dos direitos humanos de toda a população
mundial. A transição de ajuda bilateral ao desenvolvi­
mento para ajuda multilateral, sej a por parte de orga­
nizações regionais, como a Comunidade Européia 1 1 4 ,
ou por meio do fundo de desenvolvimento das Nações
Unidas 1 1 5 , possibilita uma distribuição das prestações
de ajuda mais independente dos interesses econômi­
cos dos Estados isoladamente e, com isso, mais justa
entre os diferentes grupos e países em desenvolvimen­
to, em especial então, se os países destinatários parti-

1 1 3 Pensamento levantado e introduzido pelo Brasil e para o princí­


pio diretivo da Carta dos direitos e obrigações econômicas dos Esta­
dos (cf. Tomuschat, ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 456 com ref.) . Cf. sobre
isso o relatório do secretário geral da ONU diante do Conselho Eco­
nômico e S ocial na sua 5 73• assembléia em 6.6. 1 9 74 (UN Doc. 5 5 29)
e K. lpsen (nota-de-rodapé 6 1 ) , p. 1 1 seg.
1 1 4 Cf. sobre isso recentemente: Grabitz, Die Entwicklungspolitik
der Europiiischen Gemeinschaften. Ziele und Kompetenzen, EuR
1 977, p. 2 1 7 seg.; vide também: S chiffler, Das Abkommen von Lomé
zwischen der Europiiischen Wirtschaftsgemeinschaft und 46 Staaten
Afrikas, des karibischen und des pazifischen Raumes, JIR 1 8 ( 1 976) ,
p . 320 seg. bem como as publicações da Comissão d a Comunidade
Européia: Entwicklungshilfe , S kizze der Gemeinschaftsaktion von
morgen, em: Buli. EG Beil. 8/74; e do mesmo: Entwicklung und
Rohstoffe - Aktuelle Probleme, Buli. EG Beil. 6/7 5 .
1 1 5 Sobre o "United Nations Development Program" (UNDP) e so­
bre a "United Nations Industrial Development Organization" (UNI­
DO) cf. as referências em Kimminich, Einführung in das Võlkerrecht,
p. 1 97 seg.; vide também Morse, sobre o papel do programa de desen­
volvimento das Nações Unidas - Sieben Charakteristika der multila­
teralen Hilfe, em: Vereinten Nationen 1 977, p. 1 04 seg.

43
ciparem da formulação dos programas de desenvolvi­
mento.

d) C ooperação privada além dos Estados : A sociedade


internacional

A cooperação internacional não se limita apenas à


cooperação entre Estados . A modernização dos veícu­
los e meios de comunicação é, também, a nível socie­
tário, motivo de uma superação das fronteiras nacio­
nais e da construção da sociedade internacionaP 1 6 . O
Estado Constitucional cooperativo se colocou o desa­
fio da cooperação internacional também no plano "so­
cial" privado. A transferência ( e, ocasionalmente, tam­
bém, o comprometimento) de políticas estatais econô­
micas e de desenvolvimento para outras políticas vol­
tadas para o comércio de empresas multinacionais 1 1 7

1 1 6 S obre o conceito de "sociedade internacional" cf. P. Hiiberle,


VVDStRL 30 ( 1 9 72) , p. 43 (63) ; J. H. Kaiser, Art. " Staatslehre",
Staatslexikon, 6. Aufl. VII ( 1 962) , Sp. 589 (595) .
1 1 7 Cf. sobre isso: United Nations, Multinational Corporations in
World Development, Report by the Dep. o f Economic and Social Af­
fairs of the U . N . Secretariat, New York, 1 973, STIECN 1 90. Cf.
também a comunicação da Comunidade, Buli. EG Beil. 1 5/73; Felt­
ham I Rauenbusch, Canada and the Multinational Enterprise, em:
Hahlo I Smith l Wright ( ed.) , Nationalism and the Multinational En­
terprise , 1 9 74, p. 4 5 : "The particular characteristic of the multinatio­
nal enterprise in this world of economic integration is that many such
enterprises have achieved transnational integration and coordination
in much higher degree than any of the political organizations . " Sobre
o tema "Direito Internacional e empresas multinacionais" vide tam­
bém Petersmann, Di e Friedenswarte 59 ( 1 976) , p. 1 6-23; sobre o
aspecto da concorrência: Meessen, Volkerrechtliche G rundsiitze des
internationalen Kartellrechts, 1 97 5 , vide também a OECD-Declara-

44
somente pode ser vinculada, socialmente, pela coope­
ração internacional dos Estados e ser obrigada ao cum­
primento do objetivo da segurança econômica coleti­
va. Os esforços por um " Código de comportamento
para empresas multinacionais " no âmbito da OECD
são um primeiro passo para a realização desse postula­
do. Desde que estej am preparados a assumir sua res­
ponsabilidade social correspondente à sua influência
no plano internacional, elas deveriam, como fatores da
integração econômica privada, não mais ser combati­
das como fatores prejudiciais da vida econômica inter­
nacional, e sim, serem promovidas como complemen­
to de cooperação estatal no plano societário.
Nesse contexto, merece especial menção a Organi­
zação da Cruz Vermelha, cuj o comitê internacional
possui até mesmo condição de sujeito de Direito In­
ternacional 1 1 8 .
Entre as demais (cerca de 2000 1 1 9) "organizações
internacionais não estatais" atuantes praticamente em

tion on International lnvestment and Multinational Enterprises-Gui­


delines for Multinationals, in the OECD-Observer N° 82 I July I Au­
gust 1 9 76 , p. 9 seg.
1 1 8 Cf. : W. v. Starck, Internationale und nationale Rechtsstellung des
Roten Kreuzes, JIR 1 3 ( 1 967) , p. 2 1 0 seg.; Verdross I Simma, Univer­
selles Volkerrecht, 1 976, p. 2 1 9; Knitel, Le rôle de la Croix-Rouge
dans la protection internationale des droits de l'homme, em: La pro­
tection internationale des droits de l'homme, Bruxelles 1 977, p. 1 3 7
seg.
1 1 9 Assim K.imminich, Einführung in das Volkerrecht, 1 975, p. 1 2 5
seg.; Scheuner, Nichtstaatliche Organisationen und Gruppen im so­
ziologischen und rechtlichen Aufbau der heutigen internationalen Ord­
nung, Jahrbuch des Landesamts für Forschung des Landes Nordrhein­
Westfalen 1 966, p. 584 seg.

45
todos os campos da vida social, cultural e econômica,
deve-se ressaltar, especialmente, a organização da
Anistia Internacional distinguida com o prêmio Nobel
da Paz de 1 97 7 1 20 . O seu trabalho torna claro, assim
como o da Cruz Vermelha Internacional, que as ações
humanitárias e a efetiva proteção dos direitos huma­
nos não são somente tarefas estatais, nem podem ser
transferidas à cooperação entre Estados, e sim, care­
cem do complemento, da c o-participação e, geralmen­
te, também das iniciativas - privadas - da sociedade
internacional : através de pessoas por causa de pes­
soas 1 2 1 .
Organizações internacionais não estatais também
encontraram reconhecimento na Carta das N ações
Unidas. Segundo o art. 7 1 , o conselho econômico e so­
cial pode 1 22 :

11fazer adequados acordos com o fim de consulta a


organizações não governamentais que se ocupam
com questões de sua competência. Tais acordos com
organizações internacionais, desde que favoráveis,
também podem ser firmados com organizações . na­
cionais após consulta ao respectivo membro das
Nações Unidas " .

1 20 Cf. sobre isso a documentação de Claudius I Stepham, Arnnesty


lnternational - Portrait einer Organisation, 1 9 76; M . Frisé, Die
machtlose Schutzmacht der Menschenrechte, FAZ de 2 2 . 1 0 . 1 977.
1 21 Vide principalmente: H . Lauterpacht, International Law and
Human Rights, 1 973, p. 27 seg., 69 seg.; Verdross I Simma, Univer­
selles Võlkerrecht, 1 076, p. 5 8 3 seg.
1 22 Cf. H. Lauterpacht, International Law and Human Rights, 1 973,
p. 23 seg.

46
O reconhecimento e o fomento do trabalho dessas
organizações fazem parte das tarefas principais do Es­
tado Constitucional cooperativo, mesmo que ou justa­
mente porque, com isso, se coloca em questão a intro­
versão do pensamento nacional de soberania.

2 . Do Estado Nacional Soberano ao Estado Constitu­


cional Cooperativo

Como, n a perspectiva jurídico-internacional, a


cooperação entre os Estados se coloca no lugar da mera
coordenação e da mera ordem da coexistência pacífi­
ca 1 2 3 (ou sej a, da delimitação dos âmbitos nacionais de
soberania entre si) , são reconhecíveis tendências no
campo do D ireito Constitucional nacional que indi­
cam a diluição do esquema estrito interno/ externo a
favor de uma abertura ou amabilidade do Direito In­
ternacional.

a) Abertura do Direito Internacional nos textos cons­


titucionais

Como Constituição escrita mais antiga vigente ain­


da atualmente, a dos Estados Unidos da América de
1 7 de setembro de 1 78 7, excluindo algumas determi­
nações sobre o poder das relações exteriores (art. 1 °,

1 2 3 Sobre a mudança de conteúdo desse princípio desenvolvido pela


doutrina socialista do Direito Internacional, vide as referências em
Kimminich, Einführung in das Volkerrecht, 1 97 5 , p. 87 seg. (espe­
cialmente nota-de-rodapé 1 2}.

47
seção 8 , alíneas 3 e 1 0, bem como art. 2°, seção 2, alí­
nea 2) 1 24 , não contém nenhuma declaração sobre a re­
lação dos Estados Unidos com outras nações. Outras
Constituições mais antigas como a da Noruega, de
1 8 1 4 1 2 5 da Holanda de 1 8 1 5 1 26 da Bélgica de 1 83 1 1 27
I I

e de Luxemburgo de 1 868 1 28 , abriram-se para o Direi-


to Internacional, em oposição à sua introversão inicial,
somente através de recentes reformas constitucionais .
À medida que os novos artigos constitucionais inseri­
dos, em vista à integração européia, permitem a trans­
ferência de poder soberano a organizações e instituiçõ­
es· supranacionais ou de Direito Internacional 1 29 , eles
documentam a disposição para uma renúncia à sobera­
nia que era, até então, estranha ao Direito Internacio­
nal tradicional. Pela primeira vez foram ancorados tais
dispositivos na Constituição da Itália, de 1 94 7 (art.
1 1 ) 1 30, a na Lei Fundamental da República Federal da
Alemanha de 1 949 (art. 24 alínea 2) . A Constituição
grega, de 1 9 7 5 , a contém no art. 28, alínea 2 1 3 1 . Que

1 24 Texto em: Franz, Staatsverfassungen, 1 964, p . lO seg.


1 2 5 Texto em: Mayer-Tasch, Die Verfassungen der nicht-kommunis­
tischen Staaten Europas, 2. Aufl. 1 975, p. 404 seg.
1 2 6 Op. cit., p. 367 seg.
1 27 Op. cit., p. 40 seg.
1 28 Op. cit., p. 348 seg.
1 29 Cf. § 93, alínea l, Constituição da Noruega; art. 67, alínea l , G G
d a Holanda; art. 2 5 Constituição d a Bélgica; art. 49 Constituição de
Luxemburgo.
1 30 Texto em: Mayer-Tasch (nota-de-rodapé 1 24) , p. 3 1 4 seg.
1 3 1 "To serve an important national interest and to promote coope­
ration with other States, competences under the Constitution may be
granted by treaty or agreements to organs of intemational organiza-

48
aqui acena, possivelmente, uma transição geral funda­
mental no auto-entendimento de Estados soberanos,
pode ser presumido na Constituição do reino da Sué­
cia, de 1 9 7 5 1 3 2 , que, em oposição à Constituição de
1 809 1 33 , apesar da inalterada neutralidade da Suécia,
no capítulo 1 0, § 5, alínea 2, determina que tarefas da
jurisprudência e da administração podem ser transfe­
ridas "a um outro Estado, a uma organização interesta­
tal ou a uma instituição ou comunidade estrangeira ou
internacional" .
A Constituição d a antiga DDR previu, n o art. 6°,
alínea 4, e o art. 24, alínea 2 GG prevê a possibilidade
de aderir a um sistema de segurança coletiva. Adesões
à cooperação internacional amigável estão contidas,
principalmente, nas Constituições mais j ovens . Assim,
a Irlanda reforça, no art. 29 de sua Constituição de
1 93 7, " sua afeição ao ideal da paz e da cooperação ami­
gável entre os povos sob a base da justiça e moral inter­
nacionais " . O povo j aponês declara-s e , segundo o
preâmbulo de sua Constituição de 1 94 7, decidido a
"manter os frutos de cooperação pacífica com todos os
p ovos . " 1 34 • D e form a s em e l h a n t e , a c e ntuou o
. .

preâmbulo da Constituição da Polônia, de 1 95 2 1 3 5 , a


vontade de reforçar a amizade e a cooperação entre os

tions . . . " cf. sobre isso: Fatouros, lntemational law in the Greek cons­
titution, em: AJIL 70 ( 1 976), p. 492 seg.
1 32 Mayer-Tasch (nota-de-rodapé 1 24) , p. 580 seg.
1 33 Op. cit., p. 554 seg.
1 34 Texto em: Franz, Staatsverfassungen, 1 964, p. 542 seg.
1 3 5 Texto em: Peaslee, Constitutions of Nations, vol. III-Europe, 3 .
Aufl. 1 968, p . 7 1 0 (preâmbulo, último parágrafo) .

49
Estados. De forma especialmente detalhada, a Consti­
tuição da antiga Iugoslávia, de 1 9 74 1 3 6 , tratou da coo­
peração internacional no seu princípio fundamental
VII:

Partindo da convicção de que coexistência pacífica


e cooperação ativa entre os Estados e povos, a des­
peito de suas diferenças no sistema social, são con­
dições indispensáveis para a paz e avanço social no
mundo, a República Federalista Socialista da Iu­
goslávia deve basear suas relações internacionais
sobre o fundamento dos princípios do respeito pela
soberania e igualdade nacional, e não ingerência
nas questões internas . . .

No esforço pela ampla cooperação política, econô­


mica e cultural com outras nações e Estados, a Re­
pública Federalista Socialista da Iugoslávia, como
comunidade socialista das nações, não pode perder
de vista que a cooperação deveria contribuir para a
criação de tais formas democráticas de uma vincu­
lação entre Estados, nações e povos, de acordo com
os interesses das nações e do desenvolvimento social
e, com isso, com o respeito a uma sociedade aberta.

Segundo o art. 28 1 , alínea 7, a União deveria, atra­


vés de seus órgãos, continuar a realizar e a estimular " a
cooperação com países subdesenvolvidos, bem como

1 36 Texto em inglês em: Blaustein I Flanz, Constitutions of the


Countries of the World, vol. XIV, cf. D. Kulic, JOR NF 25 ( 1 976) , p .
2 1 1 (2 1 6 seg.) .

50
assegurar as possibilidades do desenvolvimento conti­
nuado de cooperação econômica com estes países " .
Como n a Constituição d a antiga Iugoslávia são
transferidas, por força constitucional, experiências po­
sitivas na cooperação entre os Estados-membros de
uma federação aos princípios da política externa, a
idéia do Estado constitucional cooperativo encontra
expressão textual exemplar na Constituição do Can­
tão suíço, e na República do Jura ( 1 9 7 7) . Seu art. 4°
prescreve :

1 . A república e o Cantão Jura trabalham junta­


mente com os outros cantões da Confederação Eu­
vética.

2. Ela aplicará seus esforços no estreito trabalho


conjunto com seus vizinhos.

3 . Ela está aberta ao mundo e coopera, estreitamen­


te, com os povos que se esforçam pela solidariedade.

O momento ativo já é reconhecível lingüisticamen­


te: no verbo "trabalhar" . O momento de cooperação se
acentua, nos Estados-membros, na alínea 1 - trabalho
conjunto com outros Cantões -, mas, também, além
disso: em relação à cooperação com os "vizinhos " e
" com os povos que se esforçam pela solidariedade " .
Abertura ao mundo e solidariedade são palavras-chave
do Estado constitucional cooperativo - alínea 3 formu­
la até mesmo expressamente que sua realização de­
pende de um esforço correspondente; a graduação da

51
cooperação do nível estatal-federal ao nível jurídico­
internacional não poderia ser mais evidente .
.
Uma rápida incursão pelas Constituições européias
e além da Europa permite reconhecer uma mudança
de tendência de muitos Estados (constitucionais) para
a cooperação internacional, em que, nos antigos Esta­
dos socialistas, o elemento cooperativo precede, em
parte, o estatal-constitucional. A análise de mais de
I 00 Constituições hoje vigentes, também dos países
subdesenvolvidos, somente irá confirmar essa tendên­
ciai 37 .
Novos acentos em matéria de "Estado Constitucio­
nal Cooperativo" são colocados em Constituições mais
recentes. Nesse sentido, a força normativa da práxis
determinada em textos proporcionou, em parte, o
permanente aumento da cooperação regional e global.
.
Perceptível também é o co-apoio de um idealismo
acerca de uma " Comunidade mundial de Estados
Constitucionais ", atrás do qual com certeza oculta-se
uma realidade que não está livre, nem mesmo na Euro­
pa, de uma tendência de re-nacionalização. Os recen-

1 37 Cf. por exemplo: Constituição da República da Nigéria ( 1 960) ,


preâmbulo, alínea 2: "They affírm their determination to cooperate in
peace and friendship with ali peoples who share this ideal of Justice,
Liberty, Equality, Fraternity and Human Solidarity" (em: Blaustein I
Flanz: Constitutions of the Countries o f the World, voi. IX); op. cit.,
vol . XIV: Const. da Rep. do Zaire de 24.6. 1 967, art. 69: " For the
purpose of promoting African Unity, the Republic may conclude
treaties and Agreements of affiliatión involving partia! abandonment
of sovereignty " ; Constituição da República de Bangladesh de
4 . 1 1 . 1 9 72, preâmbulo, alínea 4: " . . . make our full contribution to­
wards international peace and cooperation in keeping with the pro­
gressive aspirations of manking", op. cit., vol. Il.

52
tes artigos de cooperação, bem como o conjunto de
textos correspondentes, são tratados detalhadamente
no contexto do "quadro global dos Estados Constitu­
cionais" . 1 3 8 A seguir alguns exemplos .
Assim, na África, a nova Constituição da África do
Sul ( 1 996/9 7) já, em seu preâmbulo, encontra uma fe­
liz mudança "sovereign state in the family of nations" .
Este " G rundton" encontra-se n o plano interno do Es­
tado no capítulo 3 "Cooperative G overnment" o que,
por exemplo, obriga as nove províncias à fidelidade fe­
deral e regional, todos os órgãos constitucionais à " fi­
delidade à Constituição" : a saber, também, como re­
sultado da recepção da teoria do Estado e da jurispru­
dência alemãs correspondentes. 1 3 9

1 38 Z. Brzezinski sustentou, em seu discurso de 2 5 de Outubro de


1 977, perante a comissão trilateral, uma destacada defesa da necessi­
dade e limites da cooperação (FAZ de 1 7 de Novembro de 1 977, p.
1 1 e seg.) : Prioridades fundamentais: "contribuir para a formação de
um amplo e cooperativo sistema internacional", ver também: "Uma
comunidade segura e cooperativa dos modernos estados industriais
democráticos é uma fonte necessária de estabilidade para um alargado
sistema de cooperação internacional ( . . . ) o amplo e cooperativo siste­
ma internacional precisa integrar todas as partes do mundo que estão
dominadas pelos regimes comunistas e esses Estados precisam ( . . . ) se
incorporar em uma grande rede de cooperação. O objetivo ( . . . ), o qual
compreende a relação leste/ocidente em um ampliado quadro de coo­
peração ( . . . ) faz parte da relação leste/ocidente elementos tanto de
divergência como também de cooperação". Ver também o conceito
"Comunidade G lobal " . Desde " 1 989" sente-se a premência deste
texto.
1 39 Bibliografia: H . Bauer, Die Bundestreue, 1 992; A. Alen/P. Pee­
ters/W. Pás, "Bundestreue" im belgischen Verfassungsrecht, JõR 42
( 1 994) , S. 439 e seg. Jurisprudência: BVerfGE 1 2, 205 (254 e seg.);
8 1 , 3 1 0 ( 3 3 7) - M . Lück, Die Gemeinschaftstreue als allgemeines

53
A estatalidade constitucional sul-africana também
sofre uma "abertura" por meio do art. 2 3 3 :

11When interpreting any iegisiation, every court


must prefer any reasonabie Interpretation of the ie­
gisiation that is consistent with internationai iaw
over any aiternative Interpretation that is inconsis­
tent with internationai iaw ". I 4 0

A "perspectiva" mais ousada e, com isso, também,


uma ponte cooperativa no âmbito da cultura intelec­
tual é lançada pela Constituição de Kwazulu Natal
( 1 996) . Em seu capítulo 1 4, número 3 , parágrafo 1 lê­
se:

11The ianguage of this Constitution shall be interpre­


ted as a whoie, on the basis of the meaning of i ts
text, and, when necessary or appropriate, in the
context of the principies and vaiues expressed by
this Constitution as well as domestic and broadiy
recognized principies of the constitutionaiism in de-

Rechtsprinzip im Recht der Europiiischen Gemeinschaft, 1 992; A. An­


zon, La "Bundestreue"e il sistema federale Tedesco, 1 99 5 .
1 40 A Constituição d a Namíbia ( 1 990) , citada e m J õ R ( 1 99 1 /92) , p.
691 e seg., dispõe já em seu preâmbulo que a Nação Namíbia está
"among and in association with other nations of the world". Nas dis­
posições finais (art. 1 44) é regulamentada a relação com o "Interna­
tional Law". Para um artigo exemplar de interpretação ou de fonte
jurídica da Constituição da Província sul-africana de Kwazulu Natal
( 1 996) a parte VIII número 1 5 (Palavra chave: Positivação do direito
comparado como método de interpretação�) .

54
mocratic countries in which a constitution is the su­
preme law of the land ".

· Nesse sentido surge uma "liga de interpretação da


C o n s ti tu i ç ã o " (Verfassungsinterpretationsverbund)
exemplar.
Em análise do recente estágio de desenvolvimento
Á
na sia e no leste europeu conclui-se o seguinte : a
Constituição do Azerbaijão ( 1 995) dispõe, já em seu
preâmbulo, que "vivre dans les conditions d'amitié, de
paix et de securité avec les autres peuples et à cette fin
realiser une coopération mutuellement avantageuse " .
E s s e pensamento d e " cooperação mutuamente
v a n t aj os a " (gegensei tig vorteilhafter Kooperation)
a p r e s e nt a - s e também em outros m o m e nto s : p o r
exemplo à referência a o "reconhecimento universal de
normas do direito internacional" (art. 10) ou na conso­
lidação da primazia do direito internacional dos trata­
dos em face a normas internas quando em casos de
conflito (art. 1 5 1 ) . Restritivo aqui é o art. 9°, alínea 4°
da Constituição da Ucrânia ( 1 996) : "The conclusion
of international treaties which contravene the Consti­
tution of Ukraine is possible only following the intro­
duction of requisite changes to the Constitution of
Ukraine " . Uma cláusula limitada de abertura que lem­
bra, em parte, artigos em Estados europeus ocidentais
da União Européia (talvez o art. 24 da G G , art. 1 1 da
Constituição da Itália) encontra-se no art. 79 da Cons­
tituição da Federação Russa ( 1 9 9 3 ) 1 4 1 :

1 41 Citado em J. C. Traut (Org.) Verfassungsentwürfe der Russis­


chen Foderation, 1 994, p. 3 8 1 e seg.

55
"A Federação Russa pode participar, conforme tra­
tados correspondentes, de Uniões intra-estatais e
transferir-lhes parte de sua soberania, quando isso
não implicar uma limitação dos direitos e liberda­
des dos Homens e cidadãos e não · contradizer os
fundamentos da construção constitucional da Fede­
ração Russa ". 1 4 2

É necessário se observar, cntiCamente, ainda na


fase inicial do processo constituinte no leste europeu,
que a idéia de uma estatalidade ou cooperação aberta
nos textos - ainda - não se manifestou. 1 43 Assim, gra­
ças ao art. 79 da Federação Russa, observa-se positiva­
mente o progresso textual (considerável são as cláusu­
las de direitos fundamentais e segurança estrutural1) .
Na Constituição da Lituânia ( 1 992) 1 44 chama a aten­
ção a referência aos tratados internacionais de "coope­
ração política"com Estados estrangeiros (art. 1 3 8, pa­
rágrafo 1 °, número 2 ) , assim como a integração dos

1 42 O projeto constitucional original da Rússia, elaborado pela Co­


missão Constitucional (Março 1 992, citado em loR 45 (1 997) , p. 3 1 O
(3 1 2) , ousou ainda, no artigo 1 1 , alínea 1 , "aberto" ou "cooperante":
"La Féderation de Russie est membre de plein droit de la communauté
mondiale, elle observe les príncipes universellement admis er les nor­
mes du droit international et les traités internationaux qu 'elle a con­
clus; elle tend à une paix universelle et juste, à la cooperation mutuel­

lement avantageuse, à la solution des problemes globeaux". A fórmula


"problemes globeuax" documenta um novo desenvolvimento textual so­
bre o tema "Visão do mundo do Estado Constitucional" (Weltbild des
Verfassungsstaates) .
1 43 Para isso minha contribuição em JõR 43 ( 1 995) , p. 1 70 ( 1 8 1
seg.)
1 44 Citado em J õR 44 ( 1 996) , p. 360 e seg.
56
acordos internacionais ratificados ao sistema jurídico
da República da Lituânia (parágrafo 3 °, acima) . Aqui
ava n ç a , em e s p e cial, a C o n stituição da Bulgária
( 1 99 1 ) , 1 4 5 pois ela dispõe sobre uma cláusula de coli­
são ou de primazia em suas determinações fundamen­
tais no primeiro capítulo (art. 5°, alínea 4, frase 2 : " Ils
(se. les accords internationaux) ont la priorité sur les
normes de la législation interne qui sont em contradic­
tion avec eux") .
O proj eto constitucional da Bielo-Rússia ( 1 994)
dispõe, em seu preâmbulo, sobre "subject, with full
rights, of the world community" und " adherence to
values common to ali mankind" . E exige no art. 8°, alí­
nea 1 :

"The Repubiic of Beiarus shall recognize the supre­


macy of the universally acknowiedged principies of
internationai iaw and ensure that its iaws compiy
with such principies ".

No geral, pode-se esboçar a seguinte tipologia acer­


ca da cooperação intensiva e extensiva ante a inclusão
dos recentes desenvolvimentos textuais:

- Artigo preambular que reconhece a inclusão na


comunidade ou família de povos (também via fina­
lidades educacionais);

- Artigo que reconhece a (tarefa de) cooperação,


inovado por meio do aditamento "vantagem mú-

1 4 5 Citado em JõR 44 ( 1 996) , p. 497 e seg.


57
tua" (gegenseitig vorteilhaft) , ocasionalmente con­
centrado no âmbito regional;

- Artigo de parceria (Wahlverwandtschaft) ou so­


lidariedade;

- Recepção de pactos de direitos humanos regio­


nais ou e universais;

- Integração de normas de direito internacional


universalmente reconhecidas;

- Artigo de Primazia ou colisão em favor do direito


internacional, por exemplo, dos direitos humanos;

- Normas de interpretação conforme ·o direito in­


ternacional ou, também, favorável a esse, mas não
somente de direitos humanos;

- Artigo de fontes do direito aberto ao direito in­


ternacional;

- Cláusulas de interpretação abertas ao direito es­


trangeiro.

Após essa análise dos últimos processos culturais


de cooperação na família internacional dos Estados
Constitucionais torna-se necessária uma consideração
concreta, "material " : o conteúdo da cultura dos Esta­
dos Constitucionais necessita de fundamentação.

58
b) O Direito Internacional Privado como expressão de
estruturas jurídicas abertas

O Direito Internacional Privado também deve ser,


aqui, considerado, de forma teórico-estatal e - consti­
tucional -, como expressão e meio de entrelaçamento
dos Estados ou de suas "sociedades ", nos seus questio-
.
namentos e nas suas tendências de desenvolvimento.
Por um lado se pergunta, de forma teórico-consti­
tucional, qual a melhor solução para a configuração do
DIP. De forma impressionante, o Estado alemão pode
e quer - sobretudo, após o desenvolvimento paulatino
de normas unilaterais de colisão para normas gerais 1 46
- promover a aplicação de Direito estrangeiro por seus
próprios juízes estatais. Não é coincidência o fato de
que o juiz alemão aplique o Direito estrangeiro como
"Direito" , enquanto que a teoria francesa parte, timi­
damente, de "fatos " 1 47 - de que isso deveria ser uma
conseqüência do dogma da soberania, em que se deve­
ria remeter· à teoria de Batiffol 1 48 como autocrítica
francesa. A aplicação de Direito (privado) estrangeiro
por juízes alemães é o melhor sinal de cooperação dos
Estados e particulares. (Pense-se, também, no Direito
comercial internacional fomentador de cooperação ju-

1 4 6 S obre isso Kegel, lnternationales Privatrecht, 4" ed., 1 97 7 , p.


1 25 seg.
1 47 Cf. Makarov, Der allgemeine Teil des internationalen Priva­
trechts im neuen franzosischen Kodifikationsentwurf, em: Multitudo
legum jus unum, Wilhelm Wengler no seu 65° aniversário, 1 9 7 3 , vol.
II, p. 505 (5 1 0 seg.) .
1 48 Sobre isso Kegel (nota-de-rodapé 1 3 7) , p. 90 seg.
59
rídico-privada) . O respeito à identidade da cultura
constitucional e jurídica estrangeira permanece um
princípio para o Estado constitucional cooperativo.
Por outro lado1 trata-se da questão sobre até que
ponto a GG 1 49 1 especialmente os direitos fundamen­
tais 1 50 1 têm validade no DIP e como fica com a "ordre
public " . Um Estado constitucional que se vê1 cons­
cientemente1 no entrelaçamento internacionaC irá
abrir-se mais fortemente ao Direito estrangeiro que o
Estado " autocrático " .

1 49 Assim Sonnenberg, Die Bedeutung des Grundgesetzes /ür das


deutsche internationale Privatrecht, Diss. Munique 1 962.
1 50 Cf. BGHZ 4 1 , 1 36 ( 1 50 seg.): Não celebração de casamento de
espanhol católico com alemães divorciados, apesar do art. 6°, I, G G :
" O direito fundamental d e liberdade d e celebração d e casamento so­
mente pode ser exercido no âmbito das leis das quais faz parte a or­
dem jurídica caracterizada de estrangeira por nosso direito de coli­
são . " Segundo BGHZ 42, 7 ( 1 3 seg.) , "aplica-se o princípio funda­
mental do Direito Internacional geral de que todo membro da comu­
nidade do Direito Internacional deve reconhecer os ordenamentos ju­
rídicos dos outros membros . . . Haveria contradição a isso se a aplica­
ção dos princípios jurídicos de ordenamentos jurídicos estrangeiros,
coerentes com o Direito Internacional, fossem, de início, depen­
dentes de sua compatibilidade com os dispositivos da Lei Fundamen­
tal da República Federal da Alemanha" (com outras referências, ao
contrário, com razão BVerfGE 3 1 , 58 (70 seg., 72 seg.) : "Essa con­
cepção não faz jus à primazia da Constituição e do significado central
dos Direitos Fundamentais " . Vide também Dõlle, lnternationales
Privatrecht, 23• Ed. 1 972, p. 20 seg.; Kegel (nota-de-rodapé 1 37) , p.
240 seg.; Jayme I Meessen, Staatsvertriige zum lnternationalen Pri­
vatrecht, 1 975, p. 1 3 seg., 58 seg.

60
C apítulo 1 1 1

Conseqüências teórico-constitucionais

l . Redefinição das fontes do Direito e da teoria da in­


terpretação

No âmbito dessa visão "conjuntamente pensada "


pelos Estados constitucionais e relações internacio­
nais, Estado constitucional e Estados (constitucionais)
vizinhos, deve-se, na dúvida, apelar para a doutrina co­
mum das fontes jurídicas. A ideologia do monopólio
estatal das fontes jurídicas 1 5 1 torna-se estranha ao Es­
tado constitucional quando ele muda para o Estado
constitucional cooperativo. Ele não mais exige mono­
pólio na legislação e interpretação: ele se abre - de for­
ma escalonada - a procedimentos internacionais ou de
Direito Internacional de legislação, e a processos de in­
terpretação. Certamente, do ponto-de-vista formal,
ainda se poderia fundamentar seu monopólio de legis­
lação e interpretação, ou seja, remeter à decisão "sobe­
rana" para uma cooperação internacional. Obj etiva-

1 5 1 S obre isso minha crítica, AõR 92 ( 1 967) , p. 259 ( 2 7 1 ) .


61
mente e de forma realista, trata-se de processos com­
plexos de legislação e interpretação com muitos partí­
cipes: a determinação unilateral desenvolve-se em di­
reção a ações uníssonas e cooperantes .
A cooperação dos Estados constitucionais nas orga­
nizações internacionais, o desenvolvimento conjunto
de obras amplas de codificação que regulam forma e
procedimento de sua cooperação 1 s 2 , e a extensão de
sua jurisdição internacional de cujo material jurídico
fazem parte, entre outros, "os princípios jurídicos ge­
rais reconhecidos pelos Estados civilizados " 1 S 3 , for­
mam o fundamento de uma influência recíproca da or­
dem jurídica nacional e internacional: estruturas jurí­
dicas e idéias de justiça dos diversos Estados da comu-
. �idade jurídica internacional influem no processo de
- formação do Direito InternacionaP S 4 ; princípios e re­
gras isoladas do Direito Internacional colocam, por sua
vez, medidas para o desenvolvimento jurídico interno
do Estado. O direito comparado é, aqui, o meio típi­
co i ss . O Direito do estrangeiro, tanto no direito inter-

I S 2 Cf. a Convenção de Viena sobre o Direito dos acordos de


2 2 . 5 . 1 969, sobre isso Verdross I Simma, Universelles Volkerrecht,
1 976, p. 345 seg.
I S 3 Art. 38 c IGH-Statut; cf. sobre isso Verdross, Die Quellen des
universellen Volkerrechts, 1 973, p. 1 20 seg. ( 1 26 seg.); Hailbronner,
Ziele und Methoden volkerrechtlich relevanter Rechtsvergleichung,
em: ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 205 seg.
I S 4 Cf. Strebel, Einwirkungen nationalen Rechts aufdas Volkerrecht,
em: ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 1 68 seg.
I SS Sobre isso Bothe, Die Bedeutung der Rechtsvergleichung in der
Práxis internationaler Gerichte, em: ZaõRV 3 6 ( 1 976) , p. 280 seg.

62
nacional quanto interno1 e o desenvolvimento da pro­
teção dos direitos humanos1 1 5 6 servem de exemplo.
Ao lado dessa penetração das diversas ordens jurí­
dicas1 em sentido substancial! o elemento pessoal1 a
" questão dos partícipes" tem importância decisiva. A
composição internacional dos grêmios 1 57 competentes
para a redação dos proj etos de codificação1 declaração
e resolução1 bem como do IGH1 garante que se consi­
dere as diversas concepções jurídicas também em sen­
tido institucionaL A forma intensificada de coopera­
ção internacional quando da criação e interpretação ju­
rídicas na Comunidade Européia 1 58 indica a direção de
um possível avanço continuado1 também a nível global.
A " s ociedade ab e rta dos intérpretes constitu c i o­
nais " 1 5 9 torna-se internacional.

2 . "Direito comum de cooperação" : Integração entre


Direito Constitucional e Direito Internacional

Expressão1 pressuposto e conseqüência da coope­


ração entre os Estados (constitucionais) é o desenvol­
vimento do Direito comum1 que deve chamar-se "Di-

1 56 Cf. Strebel, ZaõRV 36 ( 1 976) , p. 1 76 seg.; em geral: Verdross I


S imma, Universelles Volkerrecht, 1 976, p. 583 seg.
1 5 7 Assim o grupo de trabalho para a redação da "Carta dos direitos
e obrigações econômicas dos Estados", de 1 974, era composto por
representantes de 3 1 a 40 Estados; cf. Tomuschat, ZaõRV 36 ( 1 9 76) ,
p. 444 (446) .

1 5 8 Sobre isso cf. o artigo em BayVBl. 1 977, p. 745 (75 1 ) .


1 59 Sobre isso P . Hãberle, J Z 1 975, p . 297 seg.
63
reito de cooperação" . Tal Direito comum de coopera­
ção é reconhecível entre os Estados constitucionais. O
panorama tipológico mostra isso. Normas, processos e
competências, objetivos e conteúdos típicos afeitos ao
Direito Internacional j á se adensaram aqui, ampla­
mente, e de forma considerável : surge um efetivo "co­
mum" em formas e normas de Direito cooperativo que
a comparação constitucional deve continuar a especifi­
car. Tal Direito comum de cooperação entre os Esta­
dos constitucionais deve desenvolver-se tanto quanto
a competência jurisdicional constitucional avançar.
Esta pode atuar, especialmente, como "veículo de coo­
peração" - assim como o EuGH é ativo como fator de
integração no âmbito da Comunidade Européia. " Coo­
peração" é, assim, uma pré-forma, um pré-nível de tais
direitos de integração (europeus) . Razão pela qual
deve ser levada em conta a experiência da Comunida­
de Européia para a construção e desenvolvimento do
Direito supra-regional de cooperação entre os Estados
constitucionais. (Pense-se nos direitos fundamentais,
princípios gerais do Direito, a competência jurisdicio­
nal como motor de integraçãoi 60 .)
Direito de cooperação também deve ser desenvol­
vido entre tais Estados ou Estados constitucionais não
relacionados regionalmente: os que, por exemplo, se
localizam em diversos continentes; ou seja: A "unidade

1 60 Cf. sobre o papel correspondente do EuGH : H. P. lpsen, Euro­


paisches Gemeinschaftsrecht, 1 972, p. 3 74; Lecourt, L'Europe des
Juges, p. 2 1 9, 309; Schlochauer, Der Gerichsthof der Europaischen
Gemeinschaften als l ntegrationsfaktor, em: Festschrift für Walter
Hallstein, 1 966, p. 43 1 seg.

64
da comunidade do Direito Internacional " não pode ser
rompida pela diferente rapidez do crescimento do Di­
reito regional de cooperação. Direito de cooperação,
no sentido aqui entendido, sempre terá densidade di­
ferente e também se desenvolverá diferentemente. Da
mesma forma, os elementos e institutos desse Direito
de cooperação deveriam ser "comuns " : para reforçar
um desenvolvimento geral paulatino de todos os Esta­
dos em direção ao Direito de cooperação que promova
a "superestrutura" e "infraestrutura" do Direito Inter­
nacional e Direito estatal comuns, que se esquive da
alternativa " Direito Internacional ou Direito estatal" e
integre ambos 1 61 •
"Direito comum de cooperação" é a tentativa, não
somente terminológica, de "ir além" dessa alternativa
bem como da discussão do dualismo e monismo.

3 . Realização cooperativa dos Direitos Fundamentais

A realização cooperativa dos direitos fundamentais


é uma outra conseqüência do Estado constitucional
cooperativo e " de seu " Direito geral de cooperação
bem como do Direito de cooperação do Direito Inter­
nacional. O conceito advém do potencial de inovação
da j urispru dência do Tribunal Constitucional F e de-

1 61 Diferente do Direito Internacional de cooperação ou do "Direito


de cooperação jurídico-internacional " (cf. Petersmann, ZaõRV 3 6
( 1 976) , p. 5 1 7) , o "Direito comum d e cooperação" compreende, per
se, também partes do direito constitucional dos Estados .

65
raP 62 ; ele encontra - para além do âmbito do federalis­
mo cooperativo - expressão crescente e diversificada:
da forma de cooperação comparativamente "firme " e
intensiva (também de realização estatal) no Estado fe­
derativo, passando por convenções regionais dos direi­
tos humanos como a MRK até os pactos universais de
direitos humanos de 1 966 ou 1 9 7 6 pouco densos ou o
"Korb 1 63 3 " da KSZE.
Realização cooperativa dos direitos fundamentais é a
tarefa do Estado constitucional (cooperativo) nas suas
relações "externas" de criar, na comunidade jurídica in­
ternacional, uma medida mínima de realidade material
e processual dos direitos fundamentais para "estrangei­
ros" e apátridas "entre si" . Isso também se aplica ao seu
poder externo 1 64 e tem conseqüências para o Direito In­
ternacional privado. Naturalmente, não há receitas e
fórmulas de patente, nem para os direitos fundamentais
isoladamente, nem p ara os meios e processos de sua
aplicação. De forma que art. 1 °, al. 2 G G é competência
e encargo para a realização cooperativa dos direitos fun­
damentais, bem como para a configuração, conforme os
direitos humanos, de direitos fundamentais isolados no
Direito dos estrangeiros 1 65 .

1 62 Cf. a decisão "numerus-clausus" do BVerfG em E 33, 303 (3 5 7)


sobre "co-participação" dos Estados-membros "na realização coopera­
tiva da proteção dos direitos fundamentais" , e P. Hãberle, DÓV
1 972, p. 729 (739 seg.) .
1 63 Korb = cesto em alemão.
1 64 S obre isso a controvérsia na Basiléia entre Geck e G rabitz:
WDStRL 36 ( 1 978) , p. 1 42 seg., 1 59 seg.
1 65 Para a efetivação, pelo BVerfG , do art. 9° al. 4 GG para estran-

66
M esmo o " comércio human o " (mais ou menos
oculto) da República Federal da Alemanha com a anti­
ga DDR (livre comércio de presos políticos) fez parte
da realização cooperativa dos direitos fundamentais, a
bem dizer, através das fronteiras "mais fechadas" .
A realização cooperativa dos direitos humanos não
se limita a uma dogmática dos direitos fundamentais:
ou seja, a defesa jurídica dos direitos humanos é um
lado, mas não o "único" da liberdade do direito funda­
mental que o Estado constitucional cooperativo deve
tomar por base para a diretriz de sua atuação. A esta
acrescem-se outros "lados " do direito fundamentaP 66 .
Atividades dos direitos humanos realizadas estatal­
mente não são formas menos importantes de coopera­
ção efetivas dos direitos fundamentais. In nuce, elas já
se encontram na interpretação, favorável ao direito do
estrangeiro, do art. 1 9, al. 4 GG pelo BVerfG; nisso
pense-se, também, em conseqüências "jurídicas para
os hiposuficientes"; a " integration by Jurisprudence"
no âmbito da Comunidade Européia Cdireitos funda­
mentais como "princípios jurídicos gerais") 1 6 7 é um ní-

geiros que não dominam a língua vide minhas referências em: Schrnitt
Glaeser (ed.) , Verwaltungsverfahren, 1 977, p. 47 (6 1 seg.) .
1 66 Para a combinação - variável - de outros direitos fundamentais
vide meu relatório, VVDSrRL 30 ( 1 972) , p. 43 bem como, por exem­
plo, em DOV 1 976, p. 538 (colóquio Krebs) , JZ 1 978, p. 79 (coló­
quio Willke) .
1 6 7 Jurisp. do EuG H desde a decisão de 1 2 . 1 1 . 1 969, Rs . 29/69
(Stauder) , Slg. 1 969, 4 1 9 (42 5, Rn. 7) ; vide também decisão de
1 4. 5 . 1 974, Rs. 4/73 (Nold) , Slg. 1 974, 491 (507) . Sobre o conceito
de " lntegration by Jurisprudence" cf. Deringer/Sedemund, NJW
1 977, p. 1 997.

67
vel seguinte desde que contenha perspectivas jurídicas
de efetivação 1 68 .
Mas o pacto internacional sobre direitos econômi­
cos, sociais e culturais indica "obrigações de direitos
fundamentais a serem realizadas estatalmente " 1 69 e
" política dos direitos fundamentais " . Justamente estes
conferem uma nova posição à estatalidade hoj e . Tam­
bém em outros materiais jurídicos sobre a "internacio­
nalização" dos direitos fundamentais são comprová­
veis momentos de realização estatal. Isso não significa
uma extensão precipitada de dogmáticas nacionais dos
direitos fundamentais (aqui, introvertidas na GG) à
" família internacional dos Estados constitucionais " .
Certamente há que s e ser cauteloso ao remeter, "para
fora" , controvérsias teóricas dos direitos fundamentais
do âmbito interno alemão - por mais que a doutrina
francesa discuta a problemática dos " direitos funda­
mentais de prestação" 1 70 . Entretanto, podem ser evi­
denciados os contornos de uma concordância dos Esta­
dos constitucionais em relação a um mínimo de "mul­
tifuncionalidade " dos direitos fundamentais para além
do efeito "clássico" dos direitos fundamentais. Deve­
riam haver, também, âmbitos nos quais a dogmática
alemã (em verdade, não subdesenvolvida) com relação

1 68 Sobre isso I . Pernice, JZ 1 97 7, p. 777 (779 seg. ) .


1 69 · Sobre a terminologia vide meu relatório, WDStRL 30 ( 1 9 72) ,
p. 1 03 seg.
1 70 Compare: Rivero, Les libertés publiques, 1 9 7 3 , p. 1 00 seg . :
"droits à des prestations"; Burdeau, Les libertés publiques, 1 96 1 , p .
2 1 : "droits-créances"; vide também Stahl, Die Sicherung der Grund­
freiheiten im õffentlichen Recht der 5. franzõsischen Republik, 1 9 70,
p. 1 7, 22 seg., 35 seg.

68
aos direitos fundamentais possa aprender com outros
países.
" Re alização cooperativa dos direitos humanos "
compreende a dogmática dos direitos humanos, mas
vai além desta. Um exemplo disso é a extensão coope­
rativa dos direitos humanos relativa a direitos civis a
cidadãos dos Estados ( constitucionais ) vizinhos; assim,
certas liberdades da MRK e direitos fundamentais dos
cidadãos da Comunidade Européia vão além do míni­
mo dos direitos humanos 1 71 .
A "força motriz" do tipo Estado constitucional não
se mostra tão grande em outro âmbito quanto na reali­
zação cooperativa dos direitos fundamentais . S eus ca­
tálogos dos direitos fundamentais tornam-se exemplo
no âmbito público mundial de duas maneiras: como
esperança dos "cidadãos estatais " de terceiros Estados
por direitos fundamentais para si mesmos 1 72 e como
esperança por melhoria, em nível de direitos funda­
mentais, das pessoas como "estrangeiros " nesses Esta-

1 7 1 Cf. as liberdades de mercado configuradas como "base da comu­


nidade " no acordo EWG : livre circulação de mercadorias (art. 9°
seg.) , liberdade de circulação de pessoas (art. 48 seg.) , liberdade de
domicílio (art. 52 seg.) , livre prestação de serviços (art. 59 seg.) e
circulação de capital (art. 67 seg.) . Exemplar é também a configura­
ção do princípio da igualdade salarial para homens e mulheres, anco­
rado no art. 1 1 9 EWGV, como direito fundamental com efeito sobre
terceiro, decidido pelo EuGH na decisão de 8 . 4 . 1 976, Rz. 43/75
(Défrenne) , Slg. 1 976, 455 (4 72-476) . Sobre MRK vide também:
Robertson, Die Menschenrechte in der Praxis des Europarats, 1 972.
1 72 O conceito de "cidadão estatal" é questionável sob a perspectiva
do Estado constitucional, pois os cidadãos não pertencem ao seu Esta­
do, e sim, ao contrário, o Estado democrático lhe pertence.

69
dos . O prestígio do Estado constitucional cresce com
sua força para a realização cooperativa dos direitos
fundamentais . A estatalidade ganha, aqui, um novo pa­
tamar de legitimação. O " direito comum de coopera­
ção" recebe dos direitos fundamentais os mais fortes
impulsos, integra-os para "tarefas da comunidade " e
tem neles um garante confiável.

4. Conclusão - Resumo - Perspectiva

O Estado constitucional cooperativo ainda não é


um objetivo alcançado, ele se encontra " a caminho" .
Obj e tivo dessas linhas é c o n duzí-lo (e mantê -lo)
adiante no caminho, torná-lo "possibilidade " para a
"realidade" .
O que é "próprio" d o " Estado constitucional coo­
perativo"? Aqui um resumo:

- Abertura para relações internacionais com efeito


de impor medidas eficientes no âmbito interno
(permeabilidade) , também no acento da abertura
global dos direitos humanos (não mais cerrados no
domínio reservado) e de sua realização " coopera­
tiva" .

- Potencial constitucional ativo, voltado a o objetivo


(e elementos isolados nivelados) de realização inter­
nacional "conjunta" das tarefas como sendo da co­
munidade dos Estados, de forma processual e ma­
terial.

70
- Solidariedade estatal de prestação, disposição de
cooperação para além das fronteiras : assistência ao
desenvolvime nto, proteção ao meio ambiente,
combate aos terroristas, fomento à cooperação in­
ternacional também a nível jurídico privado (Cruz
Vermelha, Anistia Internacional) .

O Estado constitucional cooperativo se coloca no


lugar do Estado constitucional nacional. Ele é a respos­
ta jurídico-constitucional à mudança do Direito Inter­
nacional de direito de coexistência para o direito de
cooperação na comunidade (não mais sociedade) 1 73 de
Estados, cada vez mais imbricada e constituída, e de­
senvolve com ela e nela o "direito comum de coopera­
ção " . A sociedade aberta dos intérpretes da Constitui­
ção torna-se internacionaH
No Estado constitucional cooperativo, o elemento
nacional-estatal é relativizado e a pessoa ("idem civis
et homo mundi") avança - para além das fronteiras es­
tatais - para o ponto central (comum) da atuação esta­
tal (e inter- ou supra-estatal) , da "realização coopera­
tiva dos direitos fundamentais" (art. 1 ° G G) .
Hoj e acumulam-se, mundialmente, "tarefas de co­
munidade " da humanidade do planeta azul, que vão
além dos Estados como unidades autônomas . Pode ser
que muitos Estados, no seu auto-entendimento, em
sua literatura política e científica (dogmático-jurídica)
e nos seus "textos constitucionais", apresentem, em
parte, somente confissões superficiais de cooperação -

I 73 C f. Kimminich, Vokerrecht, 1 9 7 5 , p. 83 seg. na sequência à dis­


tinção sociológica em e desde F. Tõnnies.

71
mas, em geral, reportam-se à "soberania" e " assuntos
internos ", ao domaine réservé 1 74 para desviar da res­
ponsabilidade comum. Isso é - politicamente - seu
problema. A ciência do Estado constitucional livre e
democrático tem sua própria tarefa: Ela somente pode
subsistir se perceber, de forma conceitual-dogmática,
responsabilidade regional e global para além do Estado
- esta é sua missão ético-constitucional1 A idéia do
"Estado constitucional cooperativo" e do "direito co­
mum de cooperação" procuram lhe fazer jusl 7 5 .

1 74 Sobre isso P. Hãberle, AõR ( 1 967) , p. 2S9 (286 seg.) com outras
referências; Verdross I Simma, Universelles Volkerrecht, 1 976, p.
I S S seg.; Ch. Rousseau, Droit international public, 73• ed., 1 973, p.
297 com ref.; Delbez, Les principies généraux du droit international
public, 33• ed., 1 964, p. 1 80 seg.
I 75 Uma defesa primorosa da necessidade e limites de cooperação
g l obal foi apresentada por Z . B rzezinski no seu discurso de
2 S . I O. l 977 diante da Trilateral Commission (FAZ de 1 7. 1 1 . 1 977, p.
l i seg.) : prioridade fundamental: "ajudar na configuração de .um sis­
tema global cooperativo amplo", vide também: "Uma comunidade se­
gura e cooperativa dos Estados industriais democráticos modernos é a
fonte necessária da estabilidade para um amplo sistema de coopera­
ção internacional" . . . "um sistema global cooperativo amplo também
deve considerar aquela parte do mundo dominada por governos co­
munistas . . . e estes Estados devem . . . ser integrados na grande rede de
cooperação global . O objetivo . . . , considerar as relações leste-oeste em
um âmbito ampliado da cooperação . . . Das relações leste-oeste fazem
parte elementos da concorrência bem como, também, de coopera­
ção". Vide também o conceito da "comunidade global" .

72
Sobre o autor:

Peter Hãberle nasceu em 1 9 3 4 em G õppingen,


Alemanha. Estudou nas Universidades de Tübingen,
Bonn, Montpellier (França) e Freiburg. Em 1 96 1 obte­
ve o título de Doutor na Universidade de Freiburg,
com uma tese sobre a garantia do conteúdo essencial
do art. 1 9, parágrafo segundo, da Lei Fundamental ale­
mã. Em 1 969 foi habilitado como catedrático da Uni­
versidade de Freiburg e designado catedrático de Di­
reito Público da Universidade de Marburg. Ocupou
posteriormente diversas cátedras em outras universi­
dades e desde 1 98 1 ocupa a de D ireito Público na Uni­
versidade de Bayreuth, que compatibiliza com a Uni­
versidade de St. G allen, na Suíça. Em 1 994 recebeu o
título de Doutor Honorís Causa da Universidade de
Tesalónica, na G récia. Em 1 995 foi publicado na Suíça
um livro em sua homenagem: Díe multikulturelle und
multí-ethnísche Gesellschaft, que contou com a cola­
boração de alguns de seus discípulos e amigos, dentre
eles, do seu antigo Professor e mestre, Konrad Hesse .
O livro foi o resultado de um colóquio celebrado no
ano anterior por ocasião dos seus sessenta anos. Em
1 996 Hãberle foi condecorado pelo Presidente da Re­
pública Italiana. Professor visitante em diversas uni­
versidades e conferencista em diversos países, a sua
obra tem uma difusão universal. São diversos os idio­
mas em que se encontram as obras de Hãberle, como,
além de outros, o grego, o polaco, o j aponês e o corea­
no. Atualmente Peter Hãberle dirige o Instituto de Di­
reito Europeu e Cultura Jurídica Européia da Univer­
sidade de Bayreuth, é professor deste centro, assim
como da Faculdade de D ireito de St. G allen, na Suíça.

73
Sobre os tradutores:

Marcos Augusto Maliska é bacharel em Direito


p e l a U F S C ( 1 9 9 7 ) , Procurador F e d e r a l (desde
1 998) , Mestre (2000) e Doutor em Direito Consti­
tucional pela UFPR (2003) com estudos de Doutora­
mento na Ludwig Maximilians Universitiit de Muni­
que, Alemanha (200 1 -2003) . Atualmente é Procura­
dor Federal Chefe da Procuradoria Federal na Uni­
versidade Federal do Paraná (PF-UFPR) . Professor
Pesquisador de Direito Constitucional dos Cursos de
Graduação e Pós-Graduação em Direito e Relações
Internacionais da UniBrasil, em Curitiba . Professor
Visitante de Direito Constitucional da Faculdade de
Direito de Francisco Beltrão - Cesul e dos Cursos de
Especialização da Academia Brasileira de Direito
Constitucional (ABDCONST) . Ex-Bolsista do Deuts­
cher Akademischer Austauschdíenst - D AA D , do
CNPq e da CAPES . Membro da Associação dos ex­
Bolsistas da Alemanha (AEBA-PR-SC) , da Associa­
ção B rasileira de Constitucionalistas Democratas
(ABCD) e da Comissão de Defesa da República e da
Democracia da OAB/PR. É autor dos seguintes livros:
Estado e Século XXI. A integração supranacional sob
a ótica do Direito Constitucional (Rio de Janeiro: Re­
novar, 2006) , O Direito à Educação e a Constituição
(Porto Alegre : Fabris, 200 1 ) , Pluralismo Jurídico e
Direito Moderno. Notas para pensar a racionalidade
jurídica na modernidade (Curitiba: Juruá, 2000} e
Introdução à Sociologia do Direito de Eugen Ehrlich
(Curitiba: Juruá, 200 1 ) . Possui diversos artigos publi-

74
cados em revistas especializadas. marcosmaliska@ya­
hoo. com.br
Elisete Antoniuk é bacharel em Direito pela UFPR
( 1 992) , licenciada especial para ensino de LEM pela
UFPR e Mestre em Direito Comparado na U niversi­
dade de B onn, Alemanha, com dissertação sobre o
tema: "Os motivos do divórcio no Direito Alemão e
Brasileiro vigentes sob o ponto de vista do D ireito
Comparado" . Atualmente realiza curso de licenciatura
plena na UFPR. Estagiou em escritórios de advocacia
no Brasil, Alemanha e como voluntária, atuou em au­
diências no Tribunal de Bellville, Austin County, Tx,
U SA. D e s de 1 9 9 8 realizou tradução das s eguintes
obras jurídicas do alemão para o português : S ENTIDO
E LIMITES DA COMPENSAÇÃO DE AQ Ü ESTO S ,
U m estudo com base n o Direito Alemão e Compara­
do, Robert Battes, Porto Alegre: Ed. Fabris, 2000; FI­
LOS OFIA DO DIREITO E DO ESTADO, Vol. I , Fi­
lósofos da Antigüidade, Klaus Adomeit, Porto Alegre :
Ed. F abris, 2000; FILO S OFIA DO DIREITO E DO
ESTADO , Vol. II, Filósofos da Modernidade, Klaus
Adomeit, Porto Alegre : Ed. F abris, 200 1 ; PRINC Í ­
PIOS FUNDAMENTAI S DA FILOSOFIA DO DI­
RE I T O , H e lmut Coing. Porto Alegre : E d . F abris,
2002; D I REITO DE FAM Í LIA, Wilfried S chlüter, 9a
edição. Porto Alegre: Ed. Fabris, 2002; INTRODU­
ÇÃO À C I Ê NCIA JURÍ DICA E FILOSOFIA JURÍ ­
DICA, Norbert Horn. Porto Alegre : Ed. Fabris, 2005;
O DIREITO À VIDA NA MEDICINA, de Heinrich
G anthaler. Pela Editora Del Rey, ainda a serem publi­
cados : Carl Schmitt: Teologia Política I e II e Günter

75
Frankenberg: Autoridade e Integração. Tem as seguin­
tes publicações próprias : CLONAGEM HUMANA,
Revista do IBDFAM, n° 1 0/200 1 e Revista de Direito
Constitucional e Internacional, Ed. RT, outubro-de­
zembro 200 1 , n° 3 7; A PROTEÇÃO DO BEM DE
FAM Í LIA. Porto Alegre: Ed. Fabris, 2003 .

76
Impresso em offset nas ofici nas da
FOLHA CARIOCA EDITORA LTDA.
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Fax . : 2233-5306 - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20220-060