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Turma: _____ Nº _____

GRUPO I
Parte A

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada aos itens A e B.


Leia o seguinte texto. (3x20)

1 Foi como uma inesperada aparição - e vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la,
que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto. Ela, com um vestido
simples e justo de sarja preta, um colarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas
verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um
5 pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente
à borda do sofá de repes. E depois de um instante de silêncio, que lhe pareceu profundo, quase
solene, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, dum tom de ouro que acariciava.
Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ela lhe agradecia os cuidados que ele
tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se demorava nela um instante mais, descobria logo
10 um encanto novo e outra forma da sua perfeição. Os cabelos não eram loiros, como julgara de
longe à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando
ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma
coisa de muito grave e de muito doce. Por um jeito familiar cruzava às vezes, ao falar, as mãos
sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja, terminando num punho branco, ele sentia a
15 beleza, a brancura, o macio, quase o calor dos seus braços.
Ela calara-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue abrasar-lhe o rosto. […]
- Não é a sua filha que está doente, minha senhora?
- Oh! não! Graças a Deus!
Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que pendia ao lado do piano. O seu
20 cabelo, por trás, repuxado para o alto da cabeça, deixava uma penugem de ouro frisar-se
delicadamente sobre a brancura láctea do pescoço. Entre aqueles móveis de repes, sob o teto
banal de estuque enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, duma beleza
mais nobre, e quase inacessível; e pensava que nunca ali ousaria olhá-la tão francamente, com
uma tão clara adoração, como quando a encontrava na rua.
Eça de Queirós, Os Maias, cap. XI.

1. Contextualize a ação deste excerto, referindo a sua importância para a dimensão trágica da obra.

2. Comprove que, ao longo do texto, é feito o endeusamento da figura feminina, fundamentando com
citações textuais pertinentes.

3. Caracterize o estado de espírito de Carlos da Maia, considerando a utilização expressiva do verbo e


do advérbio no primeiro parágrafo.

B
Leia a seguinte cantiga. (2x20 pontos)

1 Senhor fremosa, des1 aquel dia


que vos eu vi primeiro, des enton
nunca dormi, com'ante dormia,
nem ar fui led'e2 vedes por que non:
cuidand'en vós e non en outra ren3
e desejando sempr'o vosso ben.

7
E sabe Deus e Santa Maria
que non am'eu tant'al eno coraçon
quant'amo vós, nen ar poderia;
e se morrer por en, farei razon,
cuidand'en vós e non en outra ren
e desejando sempr'o vosso ben.
13

E ant'eu já (a) morte querria


Ca4 viver com'eu viv', à gram sazon5;
e mia morte melhor mi seria 1 – des - desde;
ca viver mais, assi Deus mi perdon, 2 - nem ar fui led' – nem nunca mais tive
alegria;
cuidand'en vós e non em outra ren
3 – ren – coisa;
e desejando sempr'o vosso bem.
19 4 – ca – porque;
5 - gram sazon – muito tempo;
6 – sodes – sois.

Ca vós sodes5 mia coita e meu bem


e por vós ei quanta coita mi ven.

Juião Bolseiro, Antologia da poesia portuguesa, vol.I, (sécs. XII-XVI, pg. 80)

1. Clarifique as consequências do sentimento amoroso enunciadas pelo sujeito lírico,


fundamentando com citações textuais pertinentes.

2. Relacione os dois versos finais e a terceira estrofe, considerando o seu conteúdo.


GRUPO II
Leia o texto. (10x5 pontos)

A química do amor
Por Paulo Ribeiro-Claro1

1 O amor é um fenómeno neurobiológico complexo, baseado em atividades cerebrais de


confiança, crença, prazer e recompensa, atividades essas que envolvem um número elevado de
mensageiros/atores químicos [...].
O amor é frequentemente celebrado como um fenómeno místico, muitas vezes espiritual, por
5 vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. [...]
Foi a antropologista Helen Fisher, famosa pelos seus estudos sobre a bioquímica do amor - e
autora de vários livros, entre os quais o recente. Porque amamos: a natureza e a química do amor
romântico [...] -, que propôs a existência de três fases no amor, cada uma delas com as suas
características emocionais e os seus compostos químicos próprios [...].
10 A primeira fase é chamada "fase do desejo" e é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a
testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres. É a circulação destas hormonas no nosso
sangue - que se inicia na fase da adolescência - que torna o nosso cérebro interessado em parceiros
sexuais, digamos assim. Ou, nas palavras de Helen Fisher "é o que nos leva a sair à procura de
qualquer coisa".
15 A segunda fase é a "fase da atração", enamoramento ou paixão: é quando nos apaixonamos, ou
seja, é a altura em que perdemos o apetite, não dormimos, não conseguimos concentrar-nos em
nada que não seja o objeto da nossa paixão. É uma fase em que podem acontecer coisas
surpreendentes, que por vezes dão origem a situações divertidas (para os outros) e embaraçosas
(para o próprio): as mãos suam, a respiração falha, é difícil pensar com clareza, há "borboletas no
20 estômago"...enfim... e isto tem a ver com outro conjunto de compostos químicos que afetam o
nosso cérebro: a norepinefrina que nos excita (e acelera o bater do coração), a serotonina que nos
descontrola, e a dopamina, que no faz sentir felizes.
Curioso é verificar que todos estes compostos químicos - designados por neurotransmissores, já
que participam nas transmissões do sistema nervoso e no cérebro - são controlados por um outro,
25 chamado feniletilamina que está presente no chocolate. [...]
A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto
químico com um efeito poderoso sobre nós... tão poderoso que pode tornar-se viciante. Os
dependentes da feniletilamina - e dos seus auxiliares - tendem a saltar de romance em romance,
abandonando cada parceiro logo que o cocktail químico inicial se desvanece. [...]
30 A terceira fase é a "fase de ligação" - passamos à fase do amor sóbrio, que ultrapassa a fase da
atração/paixão e fornece os laços para que os parceiros permaneçam juntos. Há duas hormonas
importantes nesta fase: a oxitocina e a vasopressina.
A oxitocina é também chamada a hormona do "carinho" ou do "abraço".
A oxitocina é uma pequena proteína, com apenas nove aminoácidos, produzida numa zona
35 cerebral que se chama hipotálamo. Esta proteína atua tanto em certas partes do corpo (como por
exemplo na indução do trabalho de parto) quanto em regiões cerebrais cuja função está associada
com emoções e comportamentos sociais. [...]
A vasopressina é atualmente conhecida como a hormona da fidelidade. É também uma pequena
40 proteína de nove aminoácidos (oito dos quais comuns à oxitocina) e o seu papel no corpo humano
é vasto - o nome vasopressina, por exemplo, está claramente relacionado com a sua ação sobre a
pressão sanguínea - e algumas experiências recentes com um tipo de roedor dos campos revelaram
a sua importância no comportamento monogâmico dos machos. [...]
A escolha de um parceiro é um processo que visa garantir a continuidade da espécie. Mesmo
45 que nós não pensemos muito nisso, a verdade é que se as escolhas fossem sempre malfeitas, a
espécie não teria sobrevivido. [...]. Um fator relevante parece ser o perfil genético: o parceiro
escolhido deve ter os melhores genes possíveis, já que esses genes vão ser passados aos filhos. Nesta
matéria assume um papel importante o chamado Complexo de Histocompatibilidade Principal,
relacionado com as defesas imunitárias dos indivíduos. [...]
50 No fundo, quando nos sentimos atraídos por alguém, pode ser apenas porque gostamos dos
genes dessa pessoa. Mas como é que nós avaliamos os genes dos possíveis parceiros?
Este é um assunto ainda em discussão, mas no qual a química volta a assumir o papel principal!

Química - Boletim da sociedade portuguesa de Química, n.º 100,


janeiro-março de 2006, pp. 47-50 (adaptado)
1-Coordenador nacional das Olimpíadas das Químicas
1. O género textual a que pertence o texto é
(A) artigo de divulgação científica.
(B) artigo de apreciação crítica.
(C) discurso político.
(D) artigo de opinião.

2. A "fase de ligação" é
(A) a primeira fase e caracteriza-se pela libertação de testosterona e estrogénio, associadas ao
interesse por parceiros sexuais.
(B) a segunda fase, a fase da paixão, período onde ocorrem situações engraçadas e
constrangedoras.
(C) a última da fase e carateriza-se por libertar vasopressina e oxitocina, hormonas associadas à
fidelidade a ao carinho.
(D) a última fase onde se verifica a libertação de norepinefrina e serotonina, neurotransmissores.

3. A escolha dos parceiros pretende garantir


(A) a felicidade da relação sexual.
(B) a libertação de hormonas cerebrais inibidoras das relações sexuais.
(C) a realização sexual de um dos parceiros.
(D) a continuidade da espécie, logo a sua sobrevivência.

4. Em “é desencadeada pelas nossas hormonas sexuais, a testosterona nos homens e o estrogénio


nas mulheres.” (ll.10,11), as expressões sublinhadas desempenham, respetivamente as funções
sintáticas de
(A) complemento do nome e complemento agente da passiva.
(B) complemento agente da passiva e modificador do nome apositivo.
(C) sujeito e predicativo do complemento direto.
(D) predicativo do sujeito e modificador do nome restritivo.

5. A nível semântico, as palavras "mãos" (l.20) e corpo estabelecem entre si uma relação de
(A) sinonímia.
(B) antonímia.
(C) inclusão.
(D) hierarquia.

6. O processo irregular de formação de palavras presente em “cocktail” (l.30) é


(A) truncação.
(B) amálgama.
(C) empréstimo.
(D) acrónimo.

7. A forma verbal "pensemos" (l.45) encontra-se


(A) pretérito perfeito do indicativo.
(B) futuro do conjuntivo.
(C) presente do conjuntivo.
(D) presente do indicativo.

8. Classifique a oração “que envolvem um número elevado de mensageiros/ atores químicos” (ll. 2,3).

9. Dos três modos de relato do discurso, identifique o que está presente em "é o que nos leva a sair
à procura de qualquer coisa” (ll.13-14).

10. Substitua o complemento direto presente na expressão "o parceiro escolhido deve ter os melhores
genes possíveis"(ll. 46,47) pelo pronome pessoal correspondente.

GRUPO III
(50 pontos)
A sabedoria popular costuma dizer que "o amor move montanhas".

Escreva um texto, de 170 a 200 palavras, onde dê a sua opinião sobre a importância do amor na vida
humana.
Observe as seguintes orientações:
* estrutura tripartida.
- introdução: apresentação da posição a defender.
- desenvolvimento: fundamentação das ideias, através de argumentos e exemplos.
- conclusão: reforço da ideia inicial.
* Correção sintática e ortográfica.
* Observância dos mecanismos de coesão e coerência textual.
* Concisão e objetividade.