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Noções Básicas de Direito

Administrativo
Marta Suelene da Silva
EXPEDIENTE

Governador de Pernambuco
Paulo Henrique Saraiva Câmara

Vice-governador de Pernambuco
Raul Jean Louis Henry Júnior

SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO

Secretário
Milton Coelho da Silva Neto

Secretária Executiva
Marília Raquel Simões Lins

Diretora do CEFOSPE
Analúcia Mota Viana Cabral

Coordenação de Educação Corporativa


Priscila Matos

Coordenação da Educação a Distância


Flávia Maria da Fonte Franca
José Lopes Ferreira Junior
Marilene Cordeiro Barbosa Borges

Autor
Marta Suelene da Silva

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO

Secretário
Frederico da Costa Amâncio

Secretário Executivo de Educação Profissional


Paulo Fernando de Vasconcelos Dutra

Gerente Geral de Educação Profissional


Maria do Socorro Rodrigues dos Santos

Gestor de Educação a Distância


George Bento Catunda

Design Educacional
Annara Mariane Perboire da Silva
Diogo Galvão Leite de Moura
Renata Marques de Otero

Revisão de Língua Portuguesa


Alécia Guimarães

Diagramação
Klébia Carvalho

Material produzido em parceria entre o Centro de Formação dos Servidores e Empregados Públicos do
Poder Executivo Estadual – CEFOSPE e a Secretaria Executiva de Educação Profissional – SEEP.

Dezembro, 2017
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

S586n
Silva, Marta Suelene da.
Noções Básicas de Direito Administrativo / Marta Suelene da
Silva. – Recife: CEFOSPE, 2018.
83p.

Material produzido em parceria entre o Centro de Formação


dos Servidores e Empregados Públicos do Poder Executivo Estadual
(CEFOSPE) e a Secretaria Executiva de Educação Profissional de
Pernambuco (SEEP-PE).
Eixo temático: Conhecimentos jurídicos.
Inclui referências bibliográficas (ABNT 6023/2017).

1. Direito administrativo. 2. Administração pública. I. Silva,


Marta Suelene da. II. Título.

CDU – 35.071

Elaborado por Hugo Carlos Cavalcanti – CRB-4 2129


Sumário
Introdução .............................................................................................................................................. 9

1.Competência 01 | Conhecer a Origem, o Conceito e os Ramos do Direito, e a sua Repercussão na


Vida do Indivíduo. ................................................................................................................................ 11

1.1 Conceito de Direito ................................................................................................................................ 11

1.2 Ramos do Direito ................................................................................................................................... 14

1.2.1 Direito Público .................................................................................................................................... 16

1.2.2 Direito Privado .................................................................................................................................... 16

2.Competência 02 | Conhecer a Origem do Direito Administrativo como Ciência e a Formação do


Direito Administrativo Brasileiro ......................................................................................................... 18

2.1 O Direito Administrativo como Ciência ................................................................................................. 18

2.2 O Direito Administrativo Brasileiro........................................................................................................ 22

3.Competência 03 | Identificar o Conceito, Objeto e as Fontes do Direito Administrativo ............... 26

3.1 Conceito de Direito Administrativo ....................................................................................................... 26

3.2 Fontes do Direito Administrativo .......................................................................................................... 28

3.2.1 Lei ....................................................................................................................................................... 28

3.2.2 Jurisprudência..................................................................................................................................... 29

3.2.3 Doutrina .............................................................................................................................................. 29

3.2.4 Costume.............................................................................................................................................. 29

4.Competência 04 | O Estado, a Administração Pública e a Organização Administrativa .................. 31

4.1 A Administração Pública e o Estado ...................................................................................................... 31

Estudaremos agora sobre os elementos constitutivos do Estado, em conformidade com a doutrina


majoritária, e sua relação com o tema a seguir: ......................................................................................... 31

4.1.1 Elementos do Estado .......................................................................................................................... 31

4.1.2 Pessoas Políticas ................................................................................................................................. 32

4.1.3 Organização do Estado ....................................................................................................................... 32

4.1.4 Poderes do Estado .............................................................................................................................. 33

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4.1.4.1 Funções Precípuas dos Poderes ...................................................................................................... 34

4.2 Conceito de Administração Pública ....................................................................................................... 37

4.2.1 Classificação da Administração Pública .............................................................................................. 38

4.2.1.1 Administração Pública Direta ou Centralizada ................................................................................ 39

4.2.1.2 Administração Pública Indireta ou Descentralizada ........................................................................ 39

4.2.2 Entidades da Administração Pública Indireta ..................................................................................... 40

4.3 Órgãos Públicos ..................................................................................................................................... 44

4.3.1 Classificação dos Órgãos Públicos segundo Hely Lopes Meirelles (2003) .......................................... 45

4.4 Agentes Públicos.................................................................................................................................... 47

4.4.1 Classificação dos Agentes Públicos, segundo Hely Lopes................................................................... 47

5.Competência 05 | Princípios Constitucionais da Administração Pública e o Controle da


Administração Pública.......................................................................................................................... 49

6.Competência 06 | Poderes da Administração Pública ..................................................................... 59

6.1 Poderes da Administração Pública ........................................................................................................ 59

7.Competência 07 | Ato Administrativo .............................................................................................. 66

7.1 Elementos ou requisitos de validade do Ato Administrativo ................................................................ 67

7.2 Atributos do Ato Administrativo ........................................................................................................... 71

7.3 Atos Vinculados e Discricionários .......................................................................................................... 71

7.4 Espécies de Atos Administrativos .......................................................................................................... 72

7.5 Classificação dos Atos Administrativos ................................................................................................. 73

7.6 Invalidação do Ato Administrativo e seus efeitos ................................................................................. 75

7.7 Espécies de Invalidação ......................................................................................................................... 75

7.8 Convalidação ......................................................................................................................................... 77

Referências ........................................................................................................................................... 79

Minicurrículo da Tutora Conteudista ................................................................................................... 83

7
8
Introdução

Olá, seja muito bem-vindo(a)!

Em nosso curso, que tem 36 h/a, estudaremos, a origem, o conceito, os princípios e os


fundamentos legais que orientam a relação do administrador, nós servidores públicos, e o
administrado, os particulares, com a administração pública.

Estes e outros temas serão trabalhados ao longo de sete semanas e serão distribuídos por
Competências. Ao final de cada competência teremos um Fórum para verificação da
aprendizagem.

O estudo das Competências em nosso curso está estruturado da seguinte forma:

Na primeira semana, discutiremos sobre a origem, o conceito, os ramos do direito e a sua


repercussão na vida do indivíduo.

Na segunda semana, trataremos sobre a origem do Direito Administrativo como ciência e a


formação do direito administrativo brasileiro.

Na terceira semana, abordaremos o conceito, o objeto e as fontes do Direito Administrativo.

Na quarta semana, discutiremos sobre o Estado, a Administração Pública e a organização


administrativa.

Na quinta semana o objetivo será identificar os Princípios Constitucionais da Administração


Pública.

Na sexta semana, trabalharemos o tema “Poderes da Administração Pública”.

Por fim, na sétima e última semana do nosso curso, estudaremos o Ato Administrativo: seus
conceitos, elementos, atributos e classificação.

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Durante este período leia o conteúdo e participe das atividades programadas!

Fique atento, pois as seções “VOCÊ SABIA?” e “SAIBA MAIS” são para o seu aprofundamento nos
conhecimentos sobre o tema. Assista também aos vídeos indicados.

No material complementar, as leituras recomendadas são um importante contributo para o seu


estudo e objetivam auxiliá-lo no aprimoramento pessoal e profissional.

Aproveite estes ricos momentos de aprendizagem e de troca de experiências.

Excelente curso para você!

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1.Competência 01 | Conhecer a Origem, o Conceito e os Ramos do
Direito, e a sua Repercussão na Vida do Indivíduo.

O que é Direito e qual a sua finalidade?

Estudos têm demonstrado que o direito nasceu junto com a civilização e esteve presente na sua
história. Isso porque havia a necessidade do estabelecimento de regras, de ordens (ainda que na
forma de costumes), capazes de promover o convívio entre os homens e a pacificação nas relações
humanas.

Dessa forma, de maneira objetiva, o direito tem por finalidade a regulação da vida em sociedade,
de modo a disciplinar os fatos sociais mais relevantes e prevenir os conflitos. E, de assim, impedir
que o poderio do mais forte, especialmente, o econômico, prevaleça sobre os menos favorecidos;
buscando alcançar o bem comum e a promoção da justiça.

“Ubi societas, ibi Jus” – onde há sociedade há o direito.


Brocardo latino atribuído ao jurista romano
Ulpiano (170 – 228 d.C.)

1.1 Conceito de Direito

O termo direito tem origem no latim directum, que significa “reto”, “em linha reta”. Podemos
afirmar que directum significa o “que está conforme à regra”.

Isso nos leva a compreender, segundo nos ensina Martins e Silva (2009), que direito é um
conjunto de regras de conduta e de organização, dotada de força impositiva. É um conjunto de
princípios e de normas destinados a regular a vida em sociedade.

11
Exemplo:
Quando um cidadão quer ter acesso a uma informação em um determinado setor da
administração pública, deve submeter-se às regras existentes para obter tal informação.
Este indivíduo, assim como qualquer cidadão, deve adequar-se às normas jurídicas, a fim de
que não venha a sofrer as sanções previstas para aqueles que as desobedecem.

O direito pode ser conceituado como “a norma das ações humanas na vida social estabelecida por
uma organização soberana e imposta coativamente à observância de todos”. (RUGGIERO; MAROI,
1955).

Para uma melhor compreensão do conceito de direito que acabamos de estudar, vamos analisá-lo
sob quatro diferentes acepções:

 Norma Agendi – “norma das ações”. Que é a norma jurídica, o direito objetivo, ou seja, a
norma estabelecida na lei para regular as relações sociais impostas à obediência de todos.

Exemplos: O Código Penal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código Civil.

 Facultas agendi – é a faculdade de agir “na vida social”. Estamos diante do direito subjetivo,
o qual nada mais é do que a possibilidade que todos nós temos de exigir um determinado
comportamento alheio, na defesa de nossos direitos, de invocar a lei na defesa desses interesses.
Ao direito subjetivo de um corresponde há sempre o dever de outro. E, se este último deixa de
cumprir com o seu dever, poderá ser obrigado a observá-lo por meio de medidas judiciais.

Exemplo: O art. 5º, inciso XI, da Constituição Federal vigente, assegura a inviolabilidade do
domicilio, direito fundamental em respeito à dignidade da pessoa humana, à privacidade, à
intimidade, à propriedade, à liberdade, à segurança e à proteção do indivíduo e da família. Se
houver a violação de domicílio, poderá a pessoa que se sentiu prejudicada, utilizando-se do direito
subjetivo, acionar o poder judiciário para que a lesão ao seu direito seja apreciada. O direito
subjetivo é a faculdade que tem cada um de invocar a lei a seu favor, sempre que houver violação
de um direito por ela resguardado.

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 Justo – “estabelecida por uma organização soberana”. É aquela norma que emana do
Estado.

Corroborando com o entendimento de Tércio Sampaio Ferraz Jr1, acerca da indagação sobre o que
é justo, nos ensina que justiça tem a ver com o equilíbrio, com medida, com mensuração; portanto
com o tema da retribuição, o que cabe a um e o que cabe ao outro. Cabendo, assim a organização
social - o Estado, interferir para que o preceito legal seja obedecido e o justo seja alcançado.

Sobre este tema assista ao vídeo de Tércio Sampaio Ferraz Júnior

https://www.youtube.com/watch?v=MW2dD4GIQo4

 Sanção – “imposta coativamente à observância de todos”. Em razão da norma ser


impositiva, imperativa, não havendo margem de escolha para dela se desvencilhar.

A força coercitiva da norma jurídica (característica essencial) lhe é atribuída pela própria
sociedade. A norma jurídica além de prevê o mandamento regulamentador do comportamento
humano, normalmente estabelecerá também as consequências para a sua inobservância.

Você sabia que nem toda norma de conduta é jurídica?

Isso ocorre porque no convívio em sociedade apenas aqueles fatos considerados relevantes é que
merecem a proteção jurídica, ou seja, apenas os fatos sociais que se não forem regrados pelo
direito poderão gerar um conflito que inviabilize a vida em sociedade. Será a própria sociedade

1
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=MW2dD4GIQo4

13
quem indicará se há ou não a necessidade da regulação da conduta por uma norma jurídica ao
atribuir a proteção máxima do direito a alguns valores que julga essenciais.

Como exemplos de normas de condutas sociais, que não são normas jurídicas, podemos citar as
normas religiosas, as morais e as regras de trato social.

Nesse sentido podemos afirmar que há uma verdadeira dependência entre a sociedade e o direito.
Não podendo assim, existir uma sociedade sem o direito, e nem o direito existir sem uma
sociedade. E, nesta relação entre sociedade e direito, um influencia e é influenciado pelo outro.
Isto porque, assim como o direito modifica a sociedade ao impor condutas, comportamentos,
também é influenciado por ela, por meio da cultura, dos usos e costumes e pela evolução
temporal.

E para finalizar este tema transcrevemos o destaque de Ronaldo Leite Pedrosa (2006, p. 13),
acerca do conceito de direito:

Destaco que o direito não é apenas um conjunto de regras. É muito mais do que isso. As
regras escritas (leis) são um dos instrumentos de aplicação e atuação do direito, que se
vale de outros componentes em sua configuração. Temos assim, ao lado das leis, a
doutrina, a jurisprudência, os costumes, os princípios gerais, que, somados, compõem o
conceito de Direito. E esses elementos, em conjunto, aplicados, buscam atingir o ideal
supremo, que é a obtenção da justiça.

1.2 Ramos do Direito

Conforme você já viu no início deste capítulo, as normas jurídicas que compõem o direito têm por
finalidade regular as relações humanas no convívio social. E assim, tais normas são estruturadas
em subsistemas que indicam quais os grupos e setores da atividade jurídica a quem se destinam,
isto é, as normas jurídicas se dividem de acordo com a natureza de determinado interesse que
disciplinarão.

Em decorrência dessa estruturação das normas jurídicas, tem-se a classificação do Direito em


ramos – ramos do direito público e do direito privado. Os juristas do século XIX identificam essa
classificação como decorrente do Direito Romano. Segundo esses juristas o principal critério

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apresentado, no âmbito do Direito Romano, para distinguir o direito público e o direito privado, é
a presença ou não do Estado no interesse em discussão, o qual submeterá à norma todos ou não.

Para objetivar e aprofundar esse conhecimento vamos detalhar essa classificação, pois logo de
início registramos que há dois critérios de distinção para caracterizarmos se é uma relação de
direito público ou privado:

 referentes ao sujeito, e
 referentes ao interesse.

Com relação ao sujeito, considera-se que o Estado faz parte da relação jurídica no direito público,
e os particulares são regidos pelo direito privado.

O critério do interesse considera o interesse em questão, se o interesse for público faz parte do
direito público, da mesma forma que os interesses particulares são regulados pelo direito privado.

O entendimento predominante na atualidade é o de que nas relações jurídicas, o direito privado


representa uma relação entre sujeitos em posição de igualdade; enquanto no direito público, a
relação é desigual, vez que em um dos pólos há um sujeito que tem supremacia, ou seja, em uma
parte dessa relação o Estado pode impor uma obrigação sem a anuência, a concordância da outra
parte. Essa condição decorre da imperatividade, ou do poder extroverso.

O que é Poder Extroverso?

O termo Poder Extroverso foi criado pelo jurista italiano Renato Alessi. Segundo Alessi, Poder
Extroverso significa que a Administração Pública pode expedir medidas que irão interferir na
esfera jurídica de outras pessoas, impondo-lhes obrigações. Na Administração Pública em
nosso país, a expressão Poder Extroverso sempre será utilizada como sinônimo de
imperatividade, segunda a qual o Estado pode impor obrigações sem a anuência do terceiro.
Um exemplo clássico do Poder Extroverso, imperatividade, ocorre quando há uma declaração
de desapropriação, na qual por meio de um Decreto o Estado declara que a propriedade
situada no endereço tal, será objeto de desapropriação, sem que para tanto o proprietário
concorde com tal declaração. O Estado pode impor obrigações sem a concordância de
terceiros, para alcançar o interesse público.

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1.2.1 Direito Público

São todas as normas e atuações nas quais o poder estatal está presente (Estado ou entidades
públicas), exercendo seu poder e disciplinando os interesses gerais da coletividade. Caracteriza-se
pela imperatividade de suas normas, que não podem nunca ser afastadas por convenção dos
particulares.

Pode ser analisado sob dois âmbitos:

a) âmbito interno, regula os interesses estatais e sociais, cuidando da conduta individual.


Exemplos: Direito Constitucional, Administrativo, Tributário, Penal, Processual, Eleitoral,
Previdenciário, Trabalho, Financeiro e Tributário.
b) âmbito externo, destina-se a reger as relações entre os Estados Soberanos e as atividades
individuais no plano internacional. Exemplos: Direito Internacional Público e Direito
Internacional Privado.

Assim, tomemos como exemplo a Usina Hidrelétrica de Itaipu que é binacional, se surgir uma
demanda, a questão será resolvida por meio de aplicação de normas de Direito Internacional
Público.

1.2.2 Direito Privado

Destina-se a tutelar, ou seja, proteger predominantemente os interesses individuais a fim de


assegurar o convívio das pessoas em sociedade e usufruir de seus bens, tanto nas relações
jurídicas entre particulares quanto entre estes e o Estado, quando este não exerce a sua condição
de poder.

O direito privado baseia-se no princípio da autonomia da vontade, isto é, as pessoas gozam da


faculdade de estabelecer entre si as normas que desejarem.

Exemplo: Direito Civil e Direito Comercial.

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Identificar se uma determinada questão pertence a um ramo do direito público ou do direito
privado é importante para a correta aplicação e interpretação das normas adequadas ao caso
concreto. Considerando-se, em especial, os princípios que regem cada ramo do Direito. Como
exemplo próprio dessa distinção, destacamos o princípio da legalidade, segundo o qual
“ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, expresso
no art. 5º, inciso II, da Constituição Federal vigente. Tal princípio não tem o mesmo significado
no direito público e no direito privado. Enquanto no Direito Público, a Administração só pode,
em regra, fazer o que a lei permite, no Direito Privado, o particular pode fazer tudo aquilo que a
lei não proíbe.

E como você já viu em nosso curso, quem faz o direito são as pessoas. Desse modo, as relações
reguladas no direito público e no direito privado também sofreram modificações nos últimos
anos. Dentre tais mudanças surgiu também a necessidade da preservação do interesse da
coletividade, para a qual tanto o interesse público quanto o interesse individual devem ser
considerados. Isto porque, não há como subsistir a idéia da prevalência do interesse individual
como ocorreu no Estado Liberal e, muito menos a da supremacia do interesse coletivo, como se
deu no Estado Social. Em pleno século XXI os interesses devem ser amplamente analisados e
ponderados a fim de que a ação Estatal alcance verdadeiramente o seu objetivo, qual seja o de
promover a supremacia dos direitos fundamentais.

Acerca do tema nos ensina Gustavo Binembojm (In SARMENTO, Daniel (org.). 2005): “o Estado-
Administrador deverá se organizar para proteger, promover e compatibilizar direitos individuais e
interesses gerais da coletividade”.

Fórum da Competência 1

Ao longo da competência 1 você estudou a origem, o conceito, os ramos do direito e a sua


repercussão na vida do indivíduo. Agora, reflita e comente acerca de uma situação, na sua
área de atuação, na qual o Estado, por meio do Poder Extroverso, estabeleceu obrigações
unilaterais para terceiros. Indique dados e/ou registros, se disponíveis, para enriquecer a
nossa discussão.
Contamos com a sua participação!

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2.Competência 02 | Conhecer a Origem do Direito Administrativo como
Ciência e a Formação do Direito Administrativo Brasileiro

Agora que você estudou sobre o conceito de Direito, a sua finalidade e os seus ramos, vamos
iniciar a Competência 2 e conhecer como o Direito Administrativo surgiu como ciência e se
desenvolveu aqui no Brasil

2.1 O Direito Administrativo como Ciência

O Direito Administrativo como ciência tem sua origem recente, porém como norma, a sua
existência data de há muito. Isso porque se há um Estado surge a necessidade de divisões e
subdivisões de funções desse Estado. Logo, o direito administrativo existe desde o surgimento do
Estado. Passando também a existir as instituições administrativas e os órgãos administrativos, os
quais disciplinam os seus serviços e funcionários.

O direito administrativo passa efetivamente a ser estruturado a partir dos ideais liberais que
surgiram na França no fim do século XVIII e início do século XIX, período em que foi reconhecido
como ramo autônomo do Direito. Nesse período, uma série de acontecimentos relacionados aos
excessos decorrentes dos privilégios da nobreza, do clero e também dos magistrados, culminaram
na Revolução Francesa, que se caracterizou como um grande marco histórico para a ruptura do
modelo até então adotado e a consolidação de um novo modelo jurídico.

Antes da Revolução Francesa, conforme registros históricos, vigorava o Estado Absoluto, cuja
característica principal é a inexistência de limites para a atuação do Estado. O Estado não tinha
limites na ordem jurídica então vigente, pois a vontade do soberano representava a própria
vontade de Deus. Dessa forma, o soberano representava a vontade de Deus na terra.

A Revolução Francesa teve seu esteio também no movimento iluminista. O Iluminismo caracterizou-
se pela importância dada à razão. Pregava-se que a razão encaminharia o homem à sabedoria e o
conduziria à verdade. Um dos seus pensadores, Montesquieu (1689-1755), em sua obra, O Espírito
das Leis, defendeu o partilhamento do poder em três esferas, o Executivo, o Legislativo e o

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Judiciário, gozando cada um deles de independência e do poder de fiscalizar o outro. Dessa ideia
nasceu o princípio da separação dos poderes, que tem por objetivo assegurar a proteção dos
direitos individuais, não apenas nas relações entre particulares, mas também entre estes e o
Estado.

O Direito Administrativo vincula-se à Revolução Francesa também pelos princípios fundamentais


ali defendidos: o controle da atuação judicial, sujeitando-se aos limites impostos pela lei; assim
como na premissa de que o trabalho dos juízes passa a restringir-se apenas à aplicação do texto
legal. A lei passa a ter um papel fundamental, pois representa a vontade do povo, e é limitadora à
atuação do Estado, surgindo aí a noção do princípio da legalidade. A ideia inicial da legalidade vem
alinhar-se ao surgimento do ‘Estado de direito’, o qual fundamenta-se na regra de que ao mesmo
tempo em que o Estado cria o direito deve sujeitar-se a ele. Desse modo, a lei não é tão somente
limitadora da atuação administrativa, mas também é habilitadora da atividade administrativa.
Assim, se o administrador atua extrapolando os limites da lei, ele e o próprio Estado poderão ser
responsabilizados.

Uma outra ideia fundamental trazida pela Revolução Francesa é a Declaração de Direitos do
Homem e do Cidadão. Esta Carta garante direitos fundamentais, tais como a liberdade, a
propriedade, a segurança, a resistência a opressão, a igualdade, e reforça o princípio da separação
dos poderes, os quais não podem ser sacrificados pela atuação do próprio Estado. É uma
declaração que protege o cidadão da atuação do Estado, a qual até aquele momento era arbitrária.

Texto Complementar

Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789

Acesse o Texto Complementar e leia na íntegra a Declaração de Direitos do Homem e do


Cidadão de 1789, esse importante instrumento normativo de promoção e proteção dos
Direitos Humanos.

Disponível em https://br.ambafrance.org/A-Declaracao-dos-Direitos-do-Homem-e-do-Cidadao

19
Sobre o caráter limitador e impositivo do direito Administrativo, citamos Caio Tácito (2003, p.
54):

“O direito administrativo é fruto, em suma, de um processo de autolimitação do Estado, na


medida em que ele se institucionaliza e, por via de consequência, gera controles sobre sua própria
atividade”.

A Lei do 28 pluviose do ano VIII (1800 no calendário Gregoriano) é uma lei francesa que
pela primeira vez traz normas específicas aplicáveis ao Estado, normas que vão regular a
atuação administrativa do Estado e a proteção do cidadão. Vários autores a consideram
como a “primeira lei administrativa”, pois traz algumas normas sobre a atuação
administrativa, ao organizar juridicamente a Administração Pública, na França. Sobre o tema transcrevemos
MEDAUAR (1992), em texto citado não literalmente de DEBBASCH:

“...esta lei de 1800 contém, em síntese, preceitos sobre organização


administrativa e sobre litígios contra a Administração (...) no tocante à
organização, dois princípios a nortearam: hierarquização e centralização;
conforme o primeiro, fixou-se de modo claro, pela primeira vez, a
separação entre o representante que exerce funções no âmbito político e o
funcionário, que atua no setor administrativo, totalmente subordinado
àquele; o poder de nomeação e exoneração cabe à autoridade superior,
sobretudo ao Primeiro Cônsul (Napoleão), por força da Constituição do ano
VIII; conforme o segundo princípio, a organização territorial se uniformizou
e simplificou, prevendo-se, ainda em nível local, agentes representantes de
poder central, os prefet, também subordinados integralmente a este.
Quanto aos litígios, referida lei atribuiu ao Conselho de Estado funções de
órgão consultivo, juiz de contestações em matéria administrativa e
instância de apelação das decisões tomadas pelos conselhos de prefeitura
no âmbito de sua competência para dirimir litígios; evidente que o Conselho
de Estado preparava as decisões finais tomadas pelo Primeiro Cônsul, pois
nesse período vigorava o sistema de justiça retida.”

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Segundo autores italianos, franceses e pátrios, o surgimento do Direito Administrativo se deu com
a Lei do 28 pluviose do ano VIII (1800), na França. Isso ocorreu em razão de ter sido por meio da
mencionada legislação que, prima face, a administração francesa é revestida de uma organização
garantida juridicamente e externamente obrigatória. Isto é, a Administração passa a se submeter e
a ser regulada pelo Direito. A partir de então, o Direito Administrativo passa a se constituir em
normas jurídicas às quais submete-se a Administração. Sendo tais normas distintas,
individualizadas e com autonomia no sistema jurídico geral. Tais condições, só foram possíveis,
após a instauração dos denominados governos constitucionais modernos, depois da Revolução
Francesa.

Importante mencionar também que, além do marco impulsionador da lei de 1800 da França, as
edições de manuais e obras como a de ROMAGNOSI, na Itália, em 1814 e MACAREL, na França, em
1818; e ainda, a criação da cátedra de direito público e administrativo em Paris, no ano de 1819,
contribuíram para o surgimento do direito administrativo como ramo do direito público e como
disciplina.

Perceba agora que podemos inferir que o Direito Administrativo juntamente com o Direito
Constitucional, assim como outros ramos do Direito Público, forma-se a partir do processo de
desenvolvimento da concepção de Estado de Direito, alicerçado no princípio da legalidade,
segundo o qual até os governantes devem submeter-se à lei, em especial à Constituição; e na
separação dos poderes, que visa a promoção da proteção dos direitos individuais nas relações
entre particulares e na relação destes com o Estado.

Para reforçar este entendimento citamos os estudos de dois juristas italianos:

Primeiro vejamos os ensinamentos de Orestes Ranelleti, segundo o qual no ato em que surge o
Estado não podem faltar a função administrativa e os órgãos que a realizem, podendo até existir o
Estado destituído de legislação, o qual será dirigido pelos costumes, como ocorreu em épocas
passadas, mas é impossível imaginar-se um Estado sem administração, porque não realizaria os
seus fins e estaria assim dissolvido.

21
Passemos a observar agora o entendimento de Guido Zanobini, o qual esclarece que o direito
administrativo, somente se desenvolve com o surgimento do Estado moderno, desde que
presentes dois pressupostos que condicionam a sua formação: a atividade administrativa regulada
por normas jurídicas exteriormente obrigatórias, ou seja, que vinculam o poder público; e que tais
normas sejam distintas daquelas que regem as relações privadas. Isto porque, o que se observava
nos Estados antigos, era que a administração era regulada por normas que disciplinavam a sua
organização e atividade, mas não obrigava também o Príncipe, de quem tais normas emanavam,
como a civilização egípcia na Idade Antiga, por exemplo.

Nas palavras de Zanobini (1970), “Este sistema de subordinação do Estado como administração
pública ao império do direito e da jurisdição, é conhecido como “Estado segundo o direito” ou
“Estado de direito”.

2.2 O Direito Administrativo Brasileiro

Os pensamentos de poder e dever foram frutos das ideias de Rousseau e Montesquieu, as quais
colaboraram para a formação do Estado de Direito e da própria democracia. Tais pensamentos se
afirmaram a partir da dominação dos ideais franceses ou da adoção espontânea dos princípios do
governo constitucional pelos mais diferentes Estados.

Dentre tais Estados, o Império do Brasil também foi alavancado por essa corrente de mudanças,
pois a Constituição de 1824 foi influenciada pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
conforme já estudamos neste capítulo. O Direito Administrativo Brasileiro caracterizou-se também
pela influência francesa, a qual estava presente em vários outros campos da ciência, da cultura,
dos costumes, da arquitetura, etc. Merece registro a influência cultural intensificada com a
chegada de um grupo de artistas franceses, em 1816, os quais ficaram encarregados pela
fundação da Academia Imperial de Belas Artes, inaugurada em 1826. Tal influência estende-se por
mais de um século nas artes plásticas do Brasil e deu origem ao Museu Nacional de Belas Artes, no
centro do Rio de Janeiro.

22
As duas primeiras obras de Direito Administrativo, publicadas no Brasil, foram as escritas pelos
catedráticos da Faculdade de Direito de Olinda (Faculdade de Direito do Recife, que
posteriormente foi transferida para a sua sede na capital pernambucana, onde está situada até os
dias atuais), Vicente Pereira do Rego (Elementos do Direito Administrativo, 1857) e a da Faculdade
de Direito de São Paulo, Prudêncio Giraldes Tavares da Veiga Cabral (Direito Administrativo
Brasileiro, 1859). (Visconde de Uruguay, 1862, apud CAVALCANTI, Francisco, 2012).

Importante é destacar que, apesar da influência europeia, o Direito Administrativo no Brasil


desenvolveu-se diferentemente dos países daquele continente, vez que não foi vinculado à
existência de uma jurisdição administrativa independente. O Conselho de Estado que foi criado na
Carta de 18242, dez anos depois extinto, reinstalado em 1841 e definitivamente extinto em 1889,
dava suporte ao Imperador em assuntos considerados graves e em outras medidas de caráter
geral.

Você sabia...
Que na França existe a Jurisdição Administrativa?

Segundo nos orienta MAFRA (2005) o princípio da separação de poderes e a desconfiança nas
decisões dos juízes ligados ao regime absolutista contribuíram para a criação, na França, da
jurisdição administrativa, isto é o contencioso administrativo. Assim, além da jurisdição comum
(justiça comum), há a jurisdição administrativa. Existindo então um sistema de dupla jurisdição.

Sobre o tema transcrevemos a administrativista Di Pietro (2000):

2 A Constituição de 1824 criou o Conselho de Estado como elemento estratégico para garantia da estabilidade
institucional, necessário à manutenção do Império e à consolidação da monarquia no Brasil. O Conselho de Estado,
tinha a função de aconselhar em todos os negócios graves e ações gerais da administração pública, especialmente em
questões relativas à declaração da guerra, ajustes de paz, negociações com as nações estrangeiras, etc. Os
conselheiros deveriam ser ouvidos em todas as ocasiões em que o imperador se propusesse a exercer qualquer das
atribuições próprias do Poder Moderador. Configurava-se em importante instrumento de intervenção nos outros
poderes, pois assegurava ao imperador o papel de velar pela “manutenção da Independência, equilíbrio, e harmonia
dos mais Poderes Políticos” (BRASIL. Constituição (1824).

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“Pode-se dizer que a autonomia do direito administrativo, ou seja, a sua
posição como ciência dotada de objeto, método, institutos, princípios e
regime jurídico próprios, começou a conquistar-se a partir do famoso caso
Blanco, ocorrido em 1873, e que envolveu uma menina (Agnès Blanco) que,
ao atravessar uma rua da cidade francesa de Bordeaux, foi colhida por uma
vagonete da Companhia Nacional de Manufatura de Fumo, que
transportava matéria-prima de um para outro edifício (cf. José Cretella
Júnior, Tratado de direito administrativo, 1970, v. 8:22-23). Naquela
oportunidade, o Conselheiro Davi, do Tribunal de Conflitos, proferiu o seu
voto, colocando de lado o Código Napoleão e afirmando, pela primeira vez,
o equacionamento e a solução da responsabilidade civil do Estado em
termos publicísticos. (...), o Conselheiro Davi, entusiasmado com o caso,
não só concluiu que o Conselho de Estado era competente para decidir a
controvérsia, como também devia fazê-lo em termos publicísticos, já que o
Estado era parte na relação jurídica. Acentua-se aqui a saída do instituto da
responsabilidade do campo do direito civil, como então era tratado, para
mergulhar no campo do direito administrativo, onde a relação entre
preposto e preponente é diversa dessa mesma relação no campo do direito
civil. Embora a decisão apenas confirmasse, quanto à competência da
jurisdição administrativa, jurisprudência anterior do Conselho de Estado,
adotada nos casos Rotschild (1855) e Dekeister (1862), ela inovava em dois
pontos: quando definia a competência da jurisdição administrativa pelo
critério do serviço público (responsabilidade por danos decorrentes do
serviço público) e quando resolvia a questão com base em princípios
autônomos, distintos daqueles adotados pelo Código Civil para as
relações entre particulares. A partir de então, inegável foi a contribuição
do Conselho de Estado francês para a elaboração de princípios
informativos do direito administrativo”. (grifo nosso).

O Brasil adotou, desde 1891, o sistema da jurisdição única para o controle dos atos da
Administração Pública. Assim, em nosso país todos os litígios, independentemente de quem quer

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que figure como parte, serão resolvidos perante o Poder Judiciário. Desse modo, as causas
envolvendo diretamente atos da Administração são de responsabilidade dos órgãos do Poder
Judiciário, isto é, em nosso país só os órgãos do Poder Judiciário decidem com definitividade e as
suas decisões adquirem a qualidade de coisa julgada, pois não são mais passíveis de recurso. Não
há, portanto, espaço para o contencioso administrativo nos moldes do que ocorre na França, pois
não se adotou a interpretação de Montesquieu, segundo a qual os poderes seriam meras funções
estanques. Na França o sistema é o de jurisdição dupla, porque além dos órgãos do Poder
Judiciário existem os Tribunais Administrativos (jurisdição administrativa), os quais também
exercem a função judicial para resolver os conflitos entre os administrados e a Administração
Pública e, as suas decisões também adquirem a qualidade de coisa julgada. Em nosso país o
modelo adotado é o sistema inglês, o sistema da jurisdição única. A constituição cidadã de 1988,
declara em seu artigo 5º, XXXV, que nenhuma lesão ou ameaça a direito, deixará de ser apreciado
pelo Judiciário, consagrando assim o princípio da inafastabilidade da função jurisdicional.

Segundo Hely Lopes Meirelles:

O sistema judiciário ou de jurisdição única, também conhecido como sistema inglês e,


modernamente, denominado sistema de controle judicial, é aquele em que todos os
litígios - de natureza administrativa ou de interesses exclusivamente privados - são
resolvidos judicialmente pela Justiça Comum, ou seja, pelos juízes e tribunais do Poder
Judiciário.

Assista o vídeo e conheça mais sobre o Sistema de Jurisdição Única como sistema de
controle dos Atos da Administração pública no Brasil.

Responda ao seguinte questionamento no Fórum da Competência 2:

No Brasil, as decisões dos órgãos administrativos podem ser revisadas pelo Poder
Judiciário? Em que circunstâncias?

Contamos com a sua participação!

25
3.Competência 03 | Identificar o Conceito, Objeto e as Fontes do Direito
Administrativo

Dando continuidade ao nosso estudo, discutiremos agora acerca do conceito, do objeto e das
fontes do Direito Administrativo. Excelente estudo!

3.1 Conceito de Direito Administrativo

Conforme vimos na 1ª Competência do nosso curso, o Direito Administrativo é um dos ramos do


Direito Público que se ocupa das normas jurídicas relacionadas ao exercício da função
administrativa do Estado, disciplinando as relações entre os administrados e a Administração
Pública.

Atenção!

Vamos conhecer conceitos de alguns renomados administrativistas

Nos dizeres de Celso Antônio Bandeira de Mello (2001), “Direito Administrativo é o ramo do direito
público que disciplina a função administrativa e os órgãos que a exercem”.

Segundo Hely Lopes de Meirelles (2003), Direito Administrativo é o "conjunto harmônico de


princípios jurídicos que regem os órgãos, os agentes, as atividades públicas tendentes a realizar
concreta, direta e imediatamente os fins desejados pelo Estado".

E ainda, de acordo com Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2001), “Direito Administrativo é o ramo do
Direito Público que tem por objeto os órgãos, agentes e pessoas jurídicas administrativas que
integram a Administração Pública, a atividade jurídica não contenciosa que exerce e os bens de
que se utiliza para a consecução de seus fins, de natureza política”.

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Como já observamos não há uma uniformidade na conceituação do Direito Administrativo, pois
alguns autores ao elaborarem os seus conceitos, o fazem restringindo-o ao seu objeto, o que por
vezes limita por demais a sua área de atuação, e tais concepções, sofrem obviamente as
influências dos estudos que esses autores desenvolveram em cada época.

Vamos analisar algumas dessas conceituações acerca do Direito administrativo:

Há tempos atrás alguns autores indicavam ser o direito Administrativo, o ramo do Direito Público
que tinha por objetivo o estudo dos atos do Poder Executivo. Sabemos, no entanto, que o Poder
Executivo trata de questões afetas a outras áreas do Direito, como o Direito Constitucional,
Tributário, Internacional Público, Direito Penal, dentre outros. Como por exemplo a cooperação
sobre um sistema de vigilância em região de fronteira, que se dá entre o Estado Brasileiro e nações
vizinhas, com vistas ao enfrentamento das ameaças de crime organizado e organizações armadas
que atuam na região. Na situação descrita haverá necessariamente a utilização de outras áreas do
Direito e não apenas do Direito Administrativo para disciplinar essa relação.

Há ainda, outros autores que antigamente consideravam o Direito Administrativo, por influência
do Direito Administrativo Francês e da Escola do Serviço Público, ser o ramo do Direito que tem
por objeto, exclusivamente, a atividade de serviço público, quando sabemos que a função
administrativa manifesta-se por meio de outras atividades, como a do exercício do poder de polícia
(quando o Estado, por exemplo, impede a comercialização de um produto considerado
inapropriado para consumo e recolhe todo o material exposto à venda); ou ainda, na intervenção
do Estado na sociedade e também na atividade de fomento.

Atualmente, predomina no Brasil e na América Latina, o entendimento de que o Direito


Administrativo, ramo do Direito Público tem por objeto de estudo a Administração Pública.

Assim dentre os conceitos aqui expostos e outros que encontraremos na doutrina, pois como já
vimos, não há uniformidade quanto aos elementos que devem compor a conceituação do Direito
Administrativo, importa destacar alguns elementos que essencialmente devem ser observados, e
que, portanto, o caracterizam como os que passaremos a listar:

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a) é ramo do Direito Público;
b) há ausência de codificação, ou seja, está disciplinado em várias leis específicas, as
chamadas leis esparsas. Não há um código específico que reúna as suas leis, como o Código
Civil para o Direito Civil ou o Código Penal para o Direito Penal;
c) submete-se ao princípio constitucional da inafastabilidade da apreciação jurisdicional. Não
existindo, desse modo, previsão legal de Juízes e/ou Tribunais administrativos;
d) submete-se aos princípios constitucionais e infraconstitucionais;
e) tem por objeto a Administração Pública.

3.2 Fontes do Direito Administrativo

As fontes do direito administrativo auxiliam na criação, elaboração e aperfeiçoamento da ciência


administrativista, produzindo, aprimorando, embasando as leis, normas internas e decisões
judiciais. Será por meio das suas fontes que o direito administrativo poderá ser aplicado ao caso
concreto.

São fontes do Direito Administrativo:

3.2.1 Lei

A lei, considerada em seu sentido amplo, ou seja, desde a Constituição Federal, as Leis
Complementares, os Decretos expedidos pelo Chefe do Poder Executivo. Estamos tratando aqui do
Direito Positivo, isto é, do conjunto de regras jurídicas em vigor num determinado país e numa
determinada época. É o Direito estabelecido nas leis, códigos, tratados internacionais, costumes,
decretos, regulamentos etc.

É a principal fonte do direito administrativo, em decorrência de sua força obrigatória que submete
todos os administrados. Do mesmo modo que acontece nos demais ramos do Direito, a Lei é a
fonte primária do Direito Administrativo. As demais fontes do Direito Administrativo são
consideradas fontes secundárias, pois a lei terá sempre primazia sobre as demais fontes.

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3.2.2 Jurisprudência

Constitui-se em um conjunto de decisões judiciais, acerca de determinada matéria, quando


julgadas sempre no mesmo sentido. É um esclarecimento que o Poder Judiciário dá a uma
determinada lei, ou dispositivo de lei, decidida na mesma linha. Tal circunstância ocorre, por
exemplo, quando há uma uniformização do entendimento dos integrantes de um tribunal a
respeito de um dispositivo da lei. O tribunal que estabeleceu tal uniformização acerca de um
entendimento expedirá uma súmula. Diz-se então que a jurisprudência se cristalizou, ou seja, que
a matéria em apreço está pacificada. Exemplo: Súmula 473 do Supremo Tribunal Federal:

A administração pode anular os seus próprios atos, quando eivados de vícios que os
tornem ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de
conveniência e oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos
os casos, a apreciação judicial.

3.2.3 Doutrina

Decorre das interpretações formuladas pelos juristas acerca de determinada questão jurídica.
Assim, a doutrina, não apenas contribui para a interpretação da norma, mas também para
promover a discussão de outras questões relacionadas ao Direito, como sua origem, seus
princípios, aplicáveis ao Direito Administrativo. O entendimento de um determinado jurista
influencia a modificação do nosso sistema normativo.

3.2.4 Costume

Dá-se por meio de comportamentos, atos ou condutas reiteradamente adotadas e que com o
passar do tempo torna-se uma praxe. Convém destacar que a “prática administrativa” é
importante fonte do direito administrativo. Isto, porque diante da ausência de norma legal
específica o administrador público decide por solucionar uma questão recorrente do mesmo
modo, determinando um procedimento.

Mas é necessário destacar alguns elementos essenciais para que uma prática administrativa venha
a se constituir em um costume, essa fonte não escrita do direito administrativo:

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1. O costume precisa ser uma prática reiterada na Administração Pública;

2. O costume precisa constituir-se em um entendimento generalizado de que tal prática é


necessária, é imprescindível.

Lembre-se!
Não será possível admitir-se um costume contra a lei (contra legem) no âmbito da
Administração Pública.

Assista a videoaula sobre as Fontes do Direito Administrativo!

Fórum da Competência 3

Responda ao seguinte questionamento:

Por que uma súmula vinculante, instituto incorporado à Constituição Federal pela Emenda
Constitucional nº 45/2004, disciplinando a redação do art. 103-A, não vincula o Poder
Legislativo na sua atividade típica?

Conto com a sua participação!

30
4.Competência 04 | O Estado, a Administração Pública e a Organização
Administrativa

Olá!!!

Vamos agora estudar sobre o Estado, a Administração Pública, sua organização e atividades.
Excelente estudo!

4.1 A Administração Pública e o Estado

Como objeto do direito Administrativo, a Administração Pública compreendendo a sua estrutura e


as suas atividades, deve partir do conceito de ESTADO, sobre o qual repousa toda a concepção
moderna de organização e funcionamento dos serviços públicos a serem prestados aos
administrados. (MEIRELLES, 1994, p.55)

Estudaremos agora sobre os elementos constitutivos do Estado, em conformidade com a doutrina


majoritária, e sua relação com o tema a seguir:

4.1.1 Elementos do Estado

Na estrutura do Estado existem três elementos primordiais:

 1º - O POVO:

É o conjunto de nacionais. É o titular da soberania (art. 1º, parágrafo único, da CF/88). Aos
componentes do povo é que se reservam os direitos inerentes à cidadania (art. 1º, parágrafo
único, da CF/88).

 2º - O TERRITÓRIO:

É a base física, constituindo o solo, o subsolo, o espaço aéreo e o mar territorial.

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 3º - GOVERNO SOBERANO

É o elemento condutor do Estado que detém e exerce o poder absoluto de autodeterminação e


auto-organização emanada pelo povo.

Após compreender os elementos constitutivos do Estado passaremos a identificar como essa


organização precisa estar estruturada para funcionar.

4.1.2 Pessoas Políticas

Seguindo essa noção de Estado é possível compreender quem são as pessoas que o compõem, as
chamadas Pessoas Políticas:

 União - poder político central.

 Estado - poder político regional.

 Distrito Federal – poder político anômalo, pois tanto segue as competências constitucionais
dos Municípios quanto dos Estados, e

 Municípios – poder político local.

De acordo com o art. 18, caput da CF/88, temos que:

“A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os


Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição”.
(grifo nosso).

4.1.3 Organização do Estado

Os Estados, o Distrito Federal e os Municípios são pessoas políticas que não exercem a soberania e
sim a autonomia, ou seja, a capacidade de se autoadministrar, de se autolegislar, de se auto-
organizar, capacidade tributária e autogoverno.

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Importante também é lembrar que nesta forma de organização do nosso Estado não existe o
direito de secessão dos entes federados, ou seja, é indissolúvel a união dos Estados, do Distrito
Federal e dos municípios.

Já a República Federativa do Brasil conforme o artigo 1 º da Constituição Federal, declara que ela é
formada pela união dos Estados, Municípios e do Distrito Federal. Desse modo, o constituinte
deixou muito claro que a União não se confunde com a República Federativa do Brasil, posto que
no art. 18, como já vimos, a organização político administrativa da República Federativa do Brasil
compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos.

Assim, a República Federativa do Brasil, é pessoa jurídica de Direito Público Externo, e pela União
atua nas relações internacionais, matéria de sua competência exclusiva. E só ela, representada pela
União exerce a soberania do Brasil. Isso porque o Presidente da República Federativa do Brasil é ao
um tempo, Chefe doestado brasileiro e em outro, Chefe de Governo.

Veja no exemplo a seguir:

O Presidente da República tanto trabalha para a União como também para a República Federativa
do Brasil. Quando ele está representando a República Federativa do Brasil, tratando com outras
nações, mantendo relações internacionais, está exercendo a função de Chefe de Estado, pois está
defendo a soberania do nosso país. Mas quando o presidente assina uma portaria de designação
de um servidor público da União, por exemplo, está trabalhando na Administração Pública Federal
e exercendo as funções de Chefe de Governo. Dessa forma, o Presidente da República tanto exerce
as funções de chefe de Estado como também exerce as funções de Chefe de Governo.

4.1.4 Poderes do Estado

A partição de poderes é princípio geral de direito constitucional e está intimamente relacionada à


ideia de Estado. Como já vimos em nosso estudo, foi Montesquieu que a definiu e divulgou, apesar
de ter sido sugerida por Aristóteles, John Locke e Rousseau.

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Em conformidade com o art. 2º da Constituição Federal vigente “São Poderes da União,
independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. (grifo nosso).

Os poderes do Estado, são independentes e harmônicos entre si. Eles estão enraizados nas pessoas
políticas. Desse modo, não se pode cogitar na separação de poderes, mas em distinção de funções
ou partição funcional de poder.

As suas funções não podem ser delegadas reciprocamente, pois são indelegáveis a cada um deles.
A cada um dos poderes do Estado corresponde uma função que lhe é atribuída com precipuidade.
Os poderes exercem funções típicas e atípicas

4.1.4.1 Funções Precípuas dos Poderes

1) FUNÇÃO NORMATIVA OU LEGISLATIVA:

Consiste, primordialmente em:

i) legislar, editar normas, propor novas leis ou a alteração de uma lei já existente,
acrescentando ou suprimindo;

ii) fiscalizar e controlar os atos praticados no exercício da função executiva. Quando a


fiscalização for financeira atuará com o auxílio dos Tribunais de Contas.

2) FUNÇÃO ADMINISTRATIVA OU EXECUTIVA:

Consiste na atuação dos atos inerentes à Administração Pública do Estado, ou seja, sua função
típica é a de administrar.

34
3) FUNÇÃO JUDICIÁRIA:

Tem a tarefa de aplicar ou rever a aplicação das normas jurídicas ao caso concreto, em caráter
definitivo, objetivando solucionar as controvérsias que podem surgir com a aplicação da lei ou
evitar que se propaguem.

Denote-se que nenhuma das funções é exercida com exclusividade, por nenhum dos poderes.
Tem-se, então, que as mesmas podem ser típicas, aquelas que precipuamente são exercidas pelos
poderes em face da sua própria razão de existir, atendendo à finalidade para a qual foram criados
e, as atípicas quando são desenvolvidas por um poder, mas naturalmente deveriam ser exercidas
por outro poder. Para melhor entender vejamos os exemplos abaixo:

 Funções atípicas exercidas pelo Poder Legislativo:

O Poder Legislativo, exerce a função atípica de julgar, conforme preceitua o art. 52, incisos I, II da
Constituição Federal vigente:

Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:


I - processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de
responsabilidade, bem como os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do
Exército e da Aeronáutica nos crimes da mesma natureza conexos com aqueles; (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 23, de 02/09/99) (grifos nossos).
II - processar e julgar os Ministros do Supremo Tribunal Federal, os membros do Conselho
Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, o Procurador-Geral da
República e o Advogado-Geral da União nos crimes de responsabilidade; (Redação dada
pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004) (grifos nossos).

O art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal indica a função atípica do Poder Legislativo, de
administrar, pois em regra geral, deve submeter-se ao processo licitatório:

XXI - ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e


alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure
igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam
obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei,
o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis
à garantia do cumprimento das obrigações.

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 Funções atípicas exercidas pelo Poder Executivo:

Em referência ao Poder Executivo, exerce função atípica, quando o Presidente da República adota
Medidas Provisórias, em conformidade com o que dispõe o texto constitucional de 1988, no seu
art. 62:

“Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá


adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de
imediato ao Congresso Nacional”. (Redação dada pela Emenda
Constitucional nº 32, de 2001) (grifo nosso).

Das espécies normativas previstas no art. 59 da Constituição Federal vigente, as medidas


provisórias e as leis delegadas (lei delegada é um ato normativo elaborado e praticado pelo
Presidente da República, em razão de uma autorização dada pelo Poder Legislativo), são exemplos
de função atípica do Poder Executivo no exercício da função legislativa. De igual modo quando os
Chefes dos Executivos emitem os regulamentos de execução ou os decretos, aqueles que
dependem de prévia existência de lei para serem criados. Em nosso país a regra é que só a lei
pode criar, modificar proibições, extinguir direitos e obrigações.

Existem também os Regulamentos Autônomos, aqueles que não precisam de prévia lei, conforme
previsto no art. 84, VI da Constituição Federal em vigor:

“(...)

Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República

VI – dispor, mediante decreto, sobre: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 32, de 2001)

(...)”.

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Também é exemplo de função atípica quando o Chefe do Executivo decide, julgar em sede de
Processo Administrativo Disciplinar, exercendo, nesse caso, segundo parte da doutrina, a função
típica de julgar.

 Funções atípicas exercidas pelo Poder Judiciário:

O Poder Judiciário exerce a função jurisdicional preponderantemente (sua função típica) quando
decide uma lide em um caso concreto.

No entanto, quando, o Poder Judiciário atua em conformidade com o previsto no previsto no art.
96 da Constituição Federal, estará exercendo a função atípica legislativa, vejamos:

Art. 96. Compete privativamente:


I - aos tribunais:
a) eleger seus órgãos diretivos e elaborar seus regimentos internos, com observância das
normas de processo e das garantias processuais das partes, dispondo sobre a competência
e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais e administrativos; (grifos nossos).

No mesmo art. 96, inciso I, alínea f, estaremos diante de um exemplo claro do Poder Judiciário no
exercício da função atípica de administrar.

“(...)

f) conceder licença, férias e outros afastamentos a seus membros e aos juízes e servidores que lhes forem
imediatamente vinculados”. (grifo nosso)

Assim, todos os poderes do Estado exercem a atividade administrativa, quer seja de forma típica
ou atípica. Isto porque a função administrativa não se restringe apenas ao Poder Executivo.

4.2 Conceito de Administração Pública

A Administração Pública pode ser compreendida como o ente responsável por tratar dos interesses
da sociedade como um todo. Para executar seu papel, se divide em funções criadas para atender
as necessidades e interesses da sociedade, administradas pelos governos da União, Estados,
Distrito Federal e Municípios.

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Pode ser definida no sentido:

 OBJETIVO – Também denominada de Administração Pública em sentido material ou


funcional, é o conjunto de atividades e funções próprias da administração pública. Ocorre quando
há a aplicação da lei a um caso concreto para a satisfação direta e imediata dos interesses da
sociedade. Refere-se, portanto, à função administrativa, uma das três funções típicas
desenvolvidas pelo Estado, como já estudamos (legislativa, administrativa e judiciária). Ou seja,
vamos observar isso ocorrendo normalmente nas seguintes situações: Poder de Polícia, Serviço
Público, Intervenção do Estado e Atividade de Fomento.

 SUBJETIVO – também chamado de sentido formal ou orgânico. O enfoque nessa classificação


é em relação ao sujeito que desempenha a função administrativa. É o conjunto de pessoas
jurídicas (União, Estados, D.F e Municípios), órgãos e agentes públicos incumbidos por lei para
desempenhar a função administrativa.

4.2.1 Classificação da Administração Pública

Quando estudamos classificação da administração pública em direta ou centralizada, e indireta ou


descentralizada, o fundamento legal é o art. 4º, Incisos I e II respectivamente do Decreto-lei nº
200/1967, o qual estabelece a organização da administração pública federal, mas que repercutirá
na organização da administração pública dos Estados, Distrito Federal e Municípios.

(...)
Art. 4° A Administração Federal compreende:
I - A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura
administrativa da Presidência da República e dos Ministérios.
II - A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades,
dotadas de personalidade jurídica própria:
a) Autarquias;
b) Empresas Públicas;
c) Sociedades de Economia Mista.
d) fundações públicas. (Incluído pela Lei nº 7.596, de 1987)
(...)

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4.2.1.1 Administração Pública Direta ou Centralizada

Aquela exercida pela Administração por meio dos seus órgãos internos, ou seja, é aquela formada
pelos serviços integrados da estrutura da União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Segundo
Meirelles (2009), é o conjunto de órgãos que integram as pessoas políticas do Estado e que
possuem competência para o exercício, de forma centralizada, das atividades administrativas.

4.2.1.2 Administração Pública Indireta ou Descentralizada

É a atividade estatal entregue a outra pessoa jurídica (fundação pública, autarquia, sociedade de
economia mista, empresa pública e outros), que foram surgindo em razão do aumento da atuação
do Estado. Esse conjunto de pessoas jurídicas executarão as tarefas administrativas de forma
descentralizada.

De acordo com Hely Lopes Meirelles (2009), é o conjunto dos entes (entidades com personalidade
jurídica) que vinculados a algum órgão da Administração Direta, prestam serviço público ou de
interesse público.

O fundamento jurídico para a administração indireta ou descentralizada em nosso país está


previsto no art. 37, inciso IX da Constituição Federal, vigente:

“Somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a


instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de
fundação, cabendo a lei complementar, neste último caso, definir as áreas
de atuação”.

Destacamos algumas características próprias das Pessoas Jurídicas que compõem a Administração
Indireta:

 A relação é de vinculação, não de subordinação, com a Administração direta;

39
 Não há uma relação hierárquica com a Administração direta, mas sim uma relação de
vinculação e tutela, de controle finalístico e de supervisão.

Assista agora a nossa vídeo-aula na qual abordaremos sobre a Teoria do Órgão

4.2.2 Entidades da Administração Pública Indireta

1. AUTARQUIAS

São criadas por leis específicas. É a única que é criada diretamente por lei específica, pois todas as
outras são autorizadas.

Para a criação por lei específica, seguem-se todos os trâmites para uma lei ser editada. Quando a
lei passar a vigorar a autarquia já pode funcionar. Ela é PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO, pois
desenvolve uma atividade típica ou exclusiva de Estado, ou seja, aquela que não pode ser delegada
a particulares (aquela atividade que está ligada à ideia do poder extroverso – poder normativo,
poder de polícia, fiscalização, etc.), e exerce um SERVIÇO PÚBLICO ESPECIALIZADO. Tem patrimônio
próprio e capacidade de auto-administração sob o controle estatal.

Como já vimos só existem quatro espécies de pessoas que compõem a Administração Pública
Indireta: Autarquia, Empresa Pública, Sociedade de Economia Mista e Fundação Pública. Logo, as
Agências Reguladoras são espécies de autarquias em regime especiais e as Agências Executivas, o
que ocorre com a mesma é uma qualificação jurídica que é conferida a uma autarquia ou fundação
pública que já existe e que celebra um contrato de gestão com o poder público. Assim, não são
novas espécies de pessoas na administração pública indireta.

Exemplos: Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Estado de Pernambuco –


ARPE; Instituto de Recursos Humanos do Estado de Pernambuco - IRH; Agência Estadual de

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Tecnologia da Informação - ATI; Agência Estadual de Meio Ambiente – CPRH; Departamento de
Estradas de Rodagem do Estado de Pernambuco – DER.

2. FUNDAÇÃO PÚBLICA

A Constituição Federal de 1988 refere-se explicitamente, em seu artigo 37, inciso XIX, a fundação
pública, in verbis:

“Somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa
pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo a lei complementar, neste último
caso, definir as áreas de atuação”.

Conforme explicita a doutrinadora Maria Sylvia Zanella Di Pietro (2001):

A fundação instituída pelo Poder Público caracteriza-se por ser um patrimônio, total ou
parcialmente público, a que a lei atribui personalidade jurídica de direito público ou
privado, para consecução de fins público; quando tem personalidade pública, o seu regime
jurídico é idêntico ao das autarquias, sendo por isso mesmo, chamada de autarquia
fundacional, em oposição a autarquia corporativa. As fundações de direito privado regem-
se pelo Direito Civil em tudo o que não for derrogado pelo direito público.

Desse modo depreendemos que a Administração Pública pode criar as fundações de duas formas
distintas: uma regida pelo Direito Público e outra por normas privadas.

Assim as fundações são constituídas:

 Em Regra – Pessoa Jurídica de Direito Privado.

É autorizada por lei, mas depende de uma lei complementar que indique a sua área de atuação. E
há a necessidade do registro no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas.

 Em Exceção - Pessoa Jurídica de Direito Público.

É criada também por lei. Tem natureza jurídica de pessoa jurídica de direito público, mas o que a
diferencia das autarquias é que ela tem o capital personificado, ou seja, destinado a um fim de

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interesse social, e que desenvolve a atividade não exclusiva do Estado, tais como: ensino, saúde,
pesquisa científica, assistência social, proteção ao meio ambiente, etc., como as Universidades
Públicas, por exemplo.

Na doutrina moderna a fundação pública é de declaração de vontade do fundador, pelo qual se


determina o fim da Fundação e os meios com que pode contar inicialmente (Pontes de Miranda,
ob. cit., p. 453-4). Sendo o seu patrimônio dotado de personalidade jurídica, que para ser criada, é
necessária a dotação de um de conjunto de bens. Vejamos nos exemplos abaixo:

Fundação de Aposentadorias e Pensões dos Servidores do Estado de Pernambuco – FUNAPE

LEI COMPLEMENTAR Nº 28, DE 14 DE JANEIRO DE 2000.


Cria o Sistema de Previdência Social dos Servidores do Estado de Pernambuco, a fundação
de direito público que o administrará, denomina-a Fundação de Aposentadorias e Pensões
dos Servidores do Estado de Pernambuco - FUNAPE, cria os Fundos que lhe serão
adstritos, respectivamente, Fundo de Aposentadorias e Pensões dos Servidores do Estado
de Pernambuco - FUNAPREV, e Fundo Financeiro de Aposentadorias e Pensões dos
Servidores do Estado de Pernambuco - FUNAFIN, ambos com natureza previdenciária, e
determina providências pertinentes.;
(...)

Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia – FACEPE -

LEI Nº 10.401, DE 26 DE DEZEMBRO DE 1989.


(Regulamentada pelo Decreto n° 44.270, de 30 de março de 2017, que aprova o Estatuto
da FACEPE.)
Institui a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia - FACEPE e dá outras providências.
(...)
Art. 1º Fica instituída a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de
Pernambuco - FACEPE, nos termos do § 3º do art. 203 da Constituição do Estado.
(Redação alterada pelo art. 1º da Lei nº 15.292, de 21 de maio de 2014.)
(...)

1. SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA

Pessoa Jurídica de Direito Privado, autorizada por lei. O seu regime jurídico, no entanto, não é
inteiramente de Direito Privado, porque ela integra a Administração Pública. Dessa forma, aplica-se
basicamente o Direito Civil, o Direito Empresarial, mas ela também se submete às normas de
Direito Público. Podemos observar o que acabamos de afirmar se analisarmos, por exemplo, os
seus empregados, os quais normalmente são regidos pelo Direito do Trabalho, mas para a

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investidura em cargo ou emprego público, depende de prévia aprovação em concurso público,
conforme está previsto no art. 37, inciso II da Constituição Federal vigente.

O seu capital é misto, pois parte é pertencente ao poder público (50% mais uma ação) e a outra
parte pertence a iniciativa privada, ou seja, o controle acionário está nas mãos da Administração
Pública. A forma societária para a sua constituição só pode ser constituída na forma de Sociedade
por Ações, só pode ser uma Sociedade Anônima, também chamada Companhia.

Exemplos: Pernambuco Participações e Investimentos S/A – PERPART; Companhia Editora de


Pernambuco - CEPE; Companhia Estadual de Habitação e Obras - CEHAB; Porto do Recife S/A; 2.
Companhia Pernambucana de Gás - COPERGÁS; 3. Agência de Desenvolvimento Econômico de
Pernambuco S/A - AD-DIPER; 4. Porto Fluvial de Petrolina S/A; Companhia Pernambucana de
Saneamento – COMPESA; Empresa de Turismo de Pernambuco S/A- EMPETUR.

2. EMPRESA PÚBLICA

É Pessoa Jurídica de Direito Privado, autorizada por lei. Assim como na Sociedades de Economia
Mista, o seu regime jurídico não é totalmente de Direito Privado, pois também se submete às
regras do Direito Público. O capital de constituição é 100% público. Dessa forma, a empresa
pública pode pertencer a mais de um ente ou pertencer a apenas um ente, na forma de uma
sociedade unipessoal. A forma societária pode ser constituída por qualquer forma admitida em
Direito (Sociedade Anônima, Comandita por Ações, Limitada, etc.) ou qualquer outra nova.

Exemplos: Instituto Agronômico de Pernambuco - IPA; Consórcio de Transportes da Região


Metropolitana do Recife – CTM; SUAPE - Complexo Industrial Portuário Governador Eraldo
Gueiros.

Lembre-se!
Nesta Competência estudamos que a Administração Pública se compõe da Administração
Direta e Indireta, sendo esta última, resultado do processo de descentralização.
Tal processo decorre da necessidade que o Estado apresenta, pela complexidade das atividades
que desenvolve, de utilizar-se de outras formas de descentralização, formas pelas quais a
prestação dos serviços e o alcance do interesse público sejam promovidos por outras pessoas
jurídicas.

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4.3 Órgãos Públicos

Como diz Hely Lopes Meirelles (2003, p.77-68), “São centros de competência instituídos para o
desempenho de funções estatais, por meio de seus agentes, cuja atuação é imputada à pessoa
jurídica a que pertencem”.

Cada órgão, como centro de competência governamental ou administrativa, tem


necessariamente funções, cargos e agentes, mas é distinto desses elementos, que podem
ser modificados, substituídos ou retirados sem supressão da unidade orgânica. Isto explica
por que a alteração de funções, ou a vacância dos cargos, ou a mudança de seus titulares
não acarreta a extinção do órgão.

Como já estudamos até o momento em nosso curso, a Administração Pública (Direta e Indireta), é
composta pelas pessoas jurídicas (União, Estados, Distrito Federal, Municípios, Autarquias,
Fundações Públicas, Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista). Estas pessoas jurídicas
para exercerem a vontade administrativa precisam dos órgãos públicos (centros de competências),
os quais são constituídos de agentes públicos.

A relação existente entre a Administração Pública e os seus agentes públicos, está baseada na
Teoria do Órgão, a qual já estudamos nesta Competência, quando tratamos das técnicas
administrativas da Centralização, Descentralização e Desconcentração. Segundo essa Teoria, toda
atuação do agente público deve ser imputada ao órgão que ele representa e não à sua pessoa. Por
consequência, sendo o órgão uma divisão das pessoas que compõem a Administração Pública
direta ou indireta, a atuação dos servidores públicos é atribuída diretamente à pessoa jurídica para
a qual trabalha. Exemplo: a atuação do Secretário Estadual de Saúde (agente público) é imputada
ao Estado (pessoa jurídica) e não ao órgão a que pertence (Secretária Estadual de Saúde). A
vontade nunca é do órgão, mas sim da pessoa jurídica a que este órgão está vinculado. Assim, a
pessoa jurídica, um ente abstrato, manifesta a sua vontade por meio dos seus agentes, logo estes
últimos agirão em imputação à pessoa jurídica a que estão ligados. Daí também tal teoria ser
chamada de Teoria da Imputação.

O órgão público não é pessoa, é um feixe despersonalizado.

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Observemos agora os conceitos legais de órgão e entidade, contidos nos incisos I e II, do § 2º, do
Artigo 1º, da Lei 9.784/1999, a qual regula o processo administrativo no âmbito da Administração
Pública Federal, in verbis:

(...)
§ 2o Para os fins desta Lei, consideram-se:
I - órgão - a unidade de atuação integrante da estrutura da Administração direta e da
estrutura da Administração indireta;
II - entidade - a unidade de atuação dotada de personalidade jurídica;
(...)

Como os órgãos não possuem personalidade jurídica própria, a princípio não teriam capacidade
processual, não poderiam figurar como parte em Juízo. Há algum tempo, todavia, vem-se
fortificando a ideia de conferir capacidade a órgãos públicos para certos tipos de litígio, como no
caso de mandado de segurança impetrados por órgãos de natureza constitucional, quando se trata
da defesa de sua competência, violada por ato de outro órgão. É o que se vem chamando de
“personalidade judiciária”.

Exemplo: Um conflito envolvendo a Assembleia Legislativa e o Executivo do Estado. Não se pode


admitir que a Pessoa Jurídica figure no polo da relação processual, pois assim a mesma pessoa
figuraria como autora e como ré no processo, porque ambos os órgãos pertencem ao Estado.

A solução atual que a Jurisprudência e a doutrina têm assentado é o de que o órgão figure como
parte no processo, defendendo seu direito frente ao outro órgão que entende ter cometido a
ofensa. E desta forma, os órgãos desprovidos de personalidade jurídica, estariam dotados de
personalidade judiciária, tendo assim a capacidade postulatória em juízo. (CARVALHO FILHO, José
dos Santos, 2007).

4.3.1 Classificação dos Órgãos Públicos segundo Hely Lopes Meirelles (2003)

Quanto à posição estatal, são os originários da constituição federal vigente, e representam os


poderes do Estado, podem ser:

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 INDEPENDENTES - Suas atribuições são exercidas por agentes políticos. Não havendo qualquer
subordinação hierárquica ou funcional e sujeitam-se apenas aos controles constitucionais de um
sobre os outros. Ex: Chefes do Executivo, Membros da Magistratura, Judiciário, Membros do
Ministério Público, Membros dos Tribunais de Contas;

 AUTONÔMOS - são os que se localizam na cúpula da Administração, subordinados


diretamente à chefia dos órgãos independentes; gozam de autonomia administrativa, financeira e
técnica e participam das decisões governamentais. Ex: Ministérios, Secretarias de Estado;

 SUPERIORES - são órgãos de direção, controle e comando, mas sujeitos à subordinação e ao


controle hierárquico de uma chefia; não gozam de autonomia administrativa nem financeira. Ex:
Departamentos, Coordenadorias, Divisões, Gabinetes; e

 SUBALTERNOS - são os que se acham subordinados hierarquicamente a órgãos superiores de


decisão, exercendo principalmente funções de execução, como as realizadas por seções de
expediente, de pessoal, de material, de portaria etc.

Quanto à estrutura podem ser:

 SIMPLES OU UNITÁRIOS - constituídos por um único centro de atribuições, sem subdivisões


internas, como ocorre com as seções integradas em órgãos maiores); e

 COMPOSTOS: Os órgãos compostos são constituídos por vários outros órgãos, como ocorre
nos Ministérios e Secretarias de Estado, que compreendem vários outros órgãos.

Quanto à sua atuação funcional ou composição, são:

 SINGULARES - integrando-se a um único agente.

Ex: A Presidência da República e a diretoria de uma escola são exemplos de órgãos


singulares.

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 COLETIVOS - integrado por vários agentes.

Ex: Órgãos colegiados, nos quais as vontades dos vários agentes que o integram se unem
para formar uma única vontade (a do órgão).

4.4 Agentes Públicos

Agentes Públicos - São todas as pessoas físicas incumbidas, definitiva ou transitoriamente, do


exercício de alguma função pública, com ou sem remuneração.

Segundo a Lei nº 8.429/1992, denominada Lei de Improbidade Administrativa, em seu artigo 2º,
Agente Público é:

“(...) todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem


remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer
forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função (...)”.

Dois são os requisitos para a caracterização do agente público: a natureza estatal da função por ele
exercida e a investidura.

Investidura é o ato ou procedimento legal através do qual o agente, de alguma forma, se vincula ao
Estado. A investidura pode ser política ou administrativa; vitalícia, efetiva ou em comissão;
originária ou derivada.

4.4.1 Classificação dos Agentes Públicos, segundo Hely Lopes

 AGENTES POLÍTICOS – São aqueles que ocupam a cúpula da pirâmide, pois desempenham as
suas elevadas atribuições sem está subordinado a ninguém. Atuam com independência, pois
normalmente as suas atribuições decorrem da Constituição.

Exemplo: Os chefes do Poder Executivo, os membros das Casas Legislativas, membros da


magistratura, do Ministério Público.

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 SERVIDOR PÚBLICO - agente público, com vínculo profissional e que realiza as suas atividades
públicas. Pode o servidor público ser ocupante de cargo público (vínculo estatutário) ou emprego
público (vínculo contratual, celetista), ou ainda, exercer uma função pública, ou seja, aquele que
tem um conjunto de atribuições públicas, mas não se refere a um cargo ou emprego público.

 PARTICULARES NO DESEMPENHO DE UMA FUNÇÃO PÚBLICA

 Agentes Honoríficos – São aqueles escolhidos para desempenhar a função pública em razão da
sua condição cívica. Não perceberão remuneração pelo seu desempenho. Exemplos: mesários
durante as eleições, jurados do tribunal do júri;

 Agentes Delegados – recebem uma remuneração, que é paga pelo particular quem usufrui
dos seus serviços, como por exemplo, um tradutor público, que será remunerado pelo
cidadão que usufrui dos seus serviços.

Texto complementar
Leia o Texto Complementar “Centralização, Descentralização e Desconcentração.

Após o estudo da Competência 4 e leitura do Texto Complementar, responda ao seguinte


questionamento:

Como se realiza a descentralização por Serviços?

Contamos com a sua participação no Fórum da Competência 4!

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5.Competência 05 | Princípios Constitucionais da Administração Pública
e o Controle da Administração Pública

Olá!

A partir de agora estudaremos os Princípios da Administração Pública.

Vamos lá, leia com atenção o conteúdo e interaja com os demais participantes no Fórum!

Os princípios explicitados no caput do art. 37 são os da legalidade, da impessoalidade, da


moralidade, da publicidade e da eficiência.

Outros são extraídos dos incisos e parágrafos do mesmo artigo, como o da licitação, o da
prescritibilidade dos ilícitos administrativos e o da responsabilidade das pessoas jurídicas (inc. XXI
e §§ 1.º a 6.º).

Existem ainda outros princípios que embora não expressos, emanam do mesmo artigo, de forma
implícita, como é o caso do princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, o da
finalidade, o da razoabilidade e proporcionalidade.

 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

Está definido no inciso II, do art 5º, da Constituição Federal: "ninguém será obrigado a fazer ou
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei".

Na Administração Pública, porém o administrador somente poderá fazer o que estiver


expressamente autorizado em lei e nas demais espécies normativas, inexistindo incidência de sua
vontade subjetiva, pois só lhe é permitido fazer o que a lei lhe autorizar.

 PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE

(também denominado de princípio da finalidade administrativa)

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Busca-se com tal princípio que “as realizações administrativo-governamentais não sejam
propriamente do funcionário ou da autoridade, mas exclusivamente da entidade pública que a
efetiva.” (José Afonso da Silva, 1998).

Devemos analisar o princípio da impessoalidade sob duas óticas:

NA PESSOA DO ADMINISTRADOR - ele é o executor do ato, e serve de veículo de manifestação da vontade


do Estado, desta forma, os atos administrativos não são do agente político, mas da entidade
pública em nome da qual ele agiu.

 NA PESSOA DO ADMINISTRADO - verificamos que o mesmo afirma-se como uma garantia de que
este não pode e não deve ser favorecido ou prejudicado, no exercício da atividade da
Administração Pública, por suas exclusivas condições e características.

 PRINCÍPIO DA MORALIDADE - Não bastará ao administrador cumprir estritamente as leis, mas ele
deverá no exercício de sua função pública, respeitar os princípios da ética e da justiça.

Associa-se aos conceitos de: Honestidade; Ética; Lealdade e Boa-fé.

 PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE

Diz respeito à transparência dos atos da Administração Pública.

Quanto à forma de se dar publicidade aos atos da Administração, tem-se duas: por meio da
publicação do ato ou por meio da simples comunicação a seus destinatários.

À lei é que incumbe indicar, em cada caso, a forma adequada de se dar a publicidade aos atos da
Administração Pública. Normalmente, esse dever é satisfeito por meio da publicação em órgão de
imprensa oficial da Administração (Diários ou Boletins Oficiais das entidades públicas e, nos
Estados em que não possuírem tais períodicos, os jornais particulares contratados para tal fim.

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Não existindo disposição normativa contrária, o entendimento prevalecente é o de que os atos
administrativos de efeitos internos à Administração não necessitam ser publicados para que
tenham por atendido seu dever de publicidade. Em regra, admite-se a comunicação aos
destinatários.

Assim o dever de publicar recairia exclusivamente sobre os atos administrativos que atingem a
terceiros, ou seja, aos atos externos.

Decorre do princípio da publicidade o direito à informação que, nos termos do art. 5º, XXXIII e
XXXIV, ‘b’ assegura ao cidadão o direito de receber dos órgãos públicos, informações de seu
interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob
pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado.

São impostos alguns limites constitucionais ao princípio da publicidade se da sua invocação


resultar em:

 violação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (art. 5.º, X, c/c. art.
37, § 3.º, II (32), da CF);

 do sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional (art. 5.º, XIV, da CF), ou

 com violação de sigilo tido como imprescindível à segurança da sociedade e do Estado (art. 5.º,
XXXIII, c/c. art. 37, § 3.º, II, da CF).

Dentre os atos e atividades nas quais deve haver sigilo, destacam-se aqueles “ligados a certas
investigações, a exemplo dos processos disciplinares, de determinados inquéritos policiais (art.20
do CPP) e dos pedidos de retificação de dados (art.5º, LXXII, b, da CF), desde que prévia e
justificadamente sejam assim declarados pela autoridade competente. A Lei nº 12.527, de 18 de
novembro de 2011 regula o acesso às informações previsto no inciso XXXIII do art. 5 o, no inciso II
do § 3o do art. 37 e no § 2o do art. 216 da Constituição Federal; altera a Lei no 8.112, de 11 de

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dezembro de 1990; revoga a Lei no 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei no 8.159, de
8 de janeiro de 1991; e dá outras providências.

 PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA

Significa a busca pela qualidade e produtividade, de resultado, nas decisões e ações da


Administração Pública, sem que para a concretização desse princípio a atuação estatal se distancie
do seu objetivo, que é atender ao interesse público. (EC nº 19, de 04-06-98).

O Princípio da Eficiência segundo Hely Lopes Meirelles (2003):

Dever de eficiência é o que se impõe a todo agente público de realizar suas atribuições
com presteza, perfeição e rendimento funcional. É o mais moderno princípio da função
administrativa, que já não se contenta em ser desempenhada apenas com legalidade,
exigindo resultados positivos para o serviço público e satisfatório atendimento das
necessidades da comunidade e de seus membros.

A eficiência administrativa deve ir além do razoável aproveitamento dos utilizados aos resultados
obtidos, e na relação apropriada desses resultados com as necessidades públicas presentes.

A Administração agirá eficientemente sempre que, exercendo as funções que lhe são próprias, vier
a aproveitar da forma mais adequada o que se encontra disponível (ação instrumental eficiente),
visando chegar ao melhor resultado possível em relação aos fins que almeja alcançar (resultado
final eficiente).

Como características próprias do Princípio da Eficiência citamos:

- Dirigido à efetividade do bem comum;


- Imparcialidade;
- Neutralidade;
- Transparência;
- Participação e aproximação da população;
- Eficácia;
- Desburocratização;

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- Busca pela qualidade.

 PRINCÍPIOS IMPLÍCITOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A Lei nº 9.784, de 29.01.1999 (Regula o processo administrativo no âmbito da Administração


Pública Federal), art. 2º, prevê que a Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos
princípios:

 DA SUPREMACIA DO INTERESSE PÚBLICO SOBRE O PRIVADO

Segundo Marçal Justen Filho, “a supremacia do interesse público significa sua superioridade sobre
os demais interesses existentes na sociedade. Os interesses privados não podem prevalecer sobre
o interesse público. A indisponibilidade indica a impossibilidade de sacrifício ou transigência
quanto ao interesse público, e é em decorrência de sua supremacia”.

 PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE

Os bens, direitos, interesses e serviços públicos não se acham à livre disposição dos órgãos
públicos, ou do agente público, mero gestor da coisa pública, a quem apenas cabe curá-los e
aprimorá-los para a finalidade pública a que estão vinculados. O detentor desta disponibilidade é o
Estado. Por essa razão há necessidade de lei para alienar bens, outorgar a concessão de serviços
públicos. "Serão observados critérios de atendimento a fins de interesse geral, vedada a renúncia
total ou parcial de poderes ou competências, salvo autorização em lei" (Lei 9.784/99, Art. 2º,
parágrafo único, Inc. II).

 PRINCÍPIO DA FINALIDADE

O princípio da finalidade veda a prática de atos administrativos sem interesse público ou


conveniência para a Administração, isto é, atos que se destinem à satisfação de interesses
privados. Em ocorrendo configurar-se-á o desvio de finalidade, que é uma das modalidades de
abuso de poder, censurável por mandado de segurança.

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O administrador deve pautar-se não só pela finalidade genérica (interesse público), mas também
pela finalidade específica de cada lei a que esteja dando execução.

 PRINCÍPIO DA MOTIVAÇÃO

Impõe à Administração Pública o dever de indicar os pressupostos de fato e de direito que


determinarem uma decisão tomada.

É a demonstração lógica entre ambos motivos, de modo a garantir-se plena possibilidade de


controle, inclusive jurisdicional, de sua validade.

O dever de motivar é uma exigência de uma administração democrática e o próprio controle dos
atos administrativos é mais bem feito quando se sabe os fundamentos que o ensejaram.

 PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE

A atividade da Administração Pública é ininterrupta, e não se admite paralisação nos serviços


públicos básicos, cujas funções são essenciais ou necessárias a toda coletividade, como por
exemplo, os serviços de saúde, justiça, segurança pública, transporte, entre outros.

A Lei 7.783, de 28 de junho de 1989, que dispõe sobre o exercício do direito de greve, define as
atividades essenciais, regula o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade, e dá
outras providências, em seu artigo. 10, define como serviços essenciais: o de água, de energia
elétrica, gás e combustíveis; o de saúde; o de distribuição e comercialização de medicamentos e
alimentos; o funerário; o de transporte coletivo; o de captação e tratamento de esgoto e lixo; o de
telecomunicações; o relacionado com substâncias radioativas; o de tráfego aéreo; o de
compensação bancária e o de processamentos de dados ligados a esses serviços.

 PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE

O princípio da razoabilidade tem por finalidade a proteção dos direitos fundamentais contra as
condutas administrativas e legislativas do Poder Público. É aquele que exige proporcionalidade,

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justiça e adequação entre os meios utilizados pelo Poder público no exercício de suas atividades
(administrativas ou legislativas) e os fins por elas perseguidos.

O princípio da razoabilidade não se confunde com o da proporcionalidade, conforme nos ensina


Paulo Bonavides (1998), pois a proporcionalidade é um dos critérios a ser utilizado quando da
aplicação da razoabilidade. A proporcionalidade deve ser utilizada como parâmetro para se evitar
tratamentos excessivos, inadequados. A medida será adequada se alcançar a finalidade desejada,
causando o menor prejuízo possível.

 PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA E CONTRADITÓRIO

Trata-se de exigência constitucional, prevista no art. 5º, inciso LV: "aos litigantes, em processo
judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla
defesa, com os meios e recursos a ela inerentes".

No entendimento de J. Gomes (2008) contraditório: é a garantia que cada parte tem de se


manifestar sobre todas as provas e alegações produzidas pela parte contrária e Ampla Defesa é a
garantia que a parte tem de usar todos os meios legais para provar a sua inocência ou para
defender as suas alegações.

 PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA

“Interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim


público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação”. (Lei 9.784/99, art. 2º,
Parágrafo Único, Inc. XIII).

A segurança jurídica guarda relação com a ideia de respeito à boa-fé. Se a Administração adotou
determinada interpretação como a correta e a aplicou a casos concretos, não pode depois vir a
anular atos anteriores, sob o pretexto de que os mesmos foram praticados com base em
interpretação errônea. Celso Antonio Bandeira de Melo (2002) aduz que não pode a administração
sem prévia e pública notícia, alterar sua orientação para sancionar, agravar a situação de
administrados ou denegar-lhes pretensões.

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 PRINCÍPIO DA AUTOTUTELA

"A Administração Pública deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e
pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos"
(Lei 9.784/99, art. 53).

Assim a Administração:

a) anula os atos ilegais;

b) revoga os atos inconvenientes e inoportunos, por razões de mérito.

Defrontando-se com erros cometidos, a Administração deve rever os atos viciados, para restaurar a
situação de regularidade.

Trata-se de verdadeiro dever do administrador e envolve dois aspectos da atuação administrativa:

(a) aspectos de legalidade (anulação de atos ilegais) e

(b) aspectos de mérito (conveniência e oportunidade) – revogação quando não mais persistem.

Súmula 346 do Supremo Tribunal Federal:

“A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos”.

Data de Aprovação Sessão Plenária de 13/12/1963

Fonte de Publicação: Súmula da Jurisprudência Predominante do Supremo Tribunal Federal -


Anexo ao Regimento Interno. Edição: Imprensa Nacional, 1964, p. 151.

Referência Legislativa Código Civil de 1916, art. 145, art. 147.

56
Súmula 473 do Supremo Tribunal Federal, quando afirma que:

A Administração pode anular os seus próprios atos, quando eivados de vícios que os
tornem ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de
conveniência e oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos
os casos, a apreciação judicial.

 PRESUNÇÃO DA LEGITIMIDADE DE VERACIDADE DO ATO ADMINISTRATIVO

Esse Princípio Informa que os atos administrativos, qualquer que seja a sua categoria ou espécie,
nascem com a presunção de legitimidade, independentemente de norma legal que a estabeleça. É
decorrente do princípio da legalidade e importa na consequência imediata de que os atos
emanados pela Administração Pública, ainda que arguidos de vícios ou defeitos, mantêm seus
efeitos e operatividade intactos, enquanto não sobrevier pronunciamento sobre sua nulidade.

 PRINCÍPIO DO PODER-DEVER DO ADMINISTRADOR

Para o administrador público, o poder tem o significado de dever para com a comunidade e para
com os indivíduos. Quer dizer que quem o detém sempre estará na obrigação de exercê-lo.

O poder-dever de agir gera para o agente público uma responsabilidade. Em que a omissão gerará
em consequência a obrigatoriedade de responsabilidades para a Administração Pública.

Assim, se para o particular o poder de agir é uma faculdade, para o administrador público ele é
uma obrigação de atuar.

 PRINCÍPIO DA HIERARQUIA

A Administração Pública deve ter seus órgãos estruturados de maneira que haja uma relação de
coordenação e subordinação entre eles, sendo definidas em lei as suas respectivas atribuições.

Desse modo, cabe à Administração rever os atos dos subordinados, delegar e revogar atribuições e
punir o descumprimento do dever de obediência, o qual é imputado ao subordinado.

57
Assista a vídeo-aula sobre o Controle Interno e Externo da Administração Pública

Prezado, após o estudo da Competência 5 e de ler o Texto Complementar, responda


ao seguinte questionamento:

Com base em que princípios constitucionais são realizados os Controles interno e


externo da Administração Pública?

Conto com a sua participação no Fórum!

58
6.Competência 06 | Poderes da Administração Pública

Olá!

A partir de agora estudaremos os Poderes da Administração Pública.

Vamos lá, leia com atenção o conteúdo e interaja com os demais participantes no Fórum!

Para viabilizar a realização de suas atividades e em consequência alcançar o bem comum, o


ordenamento jurídico confere à Administração alguns poderes. São os chamados poderes da
Administração ou poderes administrativos.

“Esses poderes são inerentes à Administração de todas as entidades estatais – União, Estados-
membros, Distrito Federal e Municípios – na proporção e limites de suas competências
institucionais, e podem ser usados isolada ou cumulativamente para a consecução do mesmo ato”.
(Hely Lopes Meirelles, 2003)

6.1 Poderes da Administração Pública

 VINCULADO

É aquele em que o administrador se encontra inteiramente preso ao enunciado da lei que


estabelece previamente um único comportamento possível a ser adotado em situações concretas,
não existindo um espaço para juízo de conveniência e oportunidade. Há ausência de juízo de
valores, pois a lei estabelece um único comportamento.

Ex: Aposentadoria por alcance do limite máximo de idade.

 DISCRICIONÁRIO

É aquele em que o administrador se encontra preso (não inteiramente) ao enunciado da lei que
não estabelece previamente um único comportamento possível a ser adotado em situações

59
concretas, existindo um espaço para juízo de conveniência e oportunidade. Há, portanto, um juízo
de valor.

Ex: Pedido de porte de arma junto à Administração. O administrador poderá conceder ou não,
dependendo da situação em concreto.

 HIERÁRQUICO

Instrumento de garantia da atuação coordenada da Administração, e consiste na existência de


subordinação e coordenação nas relações entre órgãos e nas relações funcionais entre os diversos
servidores.

O poder hierárquico tem por objetivo, no entendimento de Hely Lopes de Meirelles:

- Distribuir (repartindo e escalonando as funções);

- Coordenar (entrosando as funções);

- Controlar (velando pelo cumprimento das normas e acompanhando), e

- Ordenar (revendo a atuação dos agentes) as atividades administrativas, no âmbito interno da


Administração Pública.

A hierarquia impõe o “dever de obediência”.

 DISCIPLINAR (PODER-DEVER)

Consiste na possibilidade de a Administração Pública apurar infrações e aplicar penalidades aos


servidores públicos e demais pessoas sujeitas à disciplina administrativa.

Os particulares não são alcançados por tais sanções, pois não estão sujeitos à disciplina interna da
Administração.

60
 REGULAMENTAR

Os regulamentos são normas expedidas privativamente pelo chefe do Poder Executivo, cuja
finalidade principal é facilitar a execução das leis e remover eventuais obstáculos à sua aplicação.
Se exteriorizam por meio de normas complementares à Lei.

É utilizado para evidenciar e explicitar as previsões legais, decidindo a melhor forma de executá-la
e, eventualmente, inclusive, suprir suas lacunas de ordem prática ou técnica.

Exemplos: resoluções, portarias, deliberações, instruções, regimentos.

 PODER DE POLÍCIA:

É a faculdade concedida à Administração Pública para restringir e condicionar o uso e gozo de


bens, atividades e direitos individuais, em benefício da coletividade e do próprio Estado, em busca
da preservação e do estabelecimento de regras de conduta necessárias e suficientes para evitar
conflitos e compatibilizar direitos.

O Código Tributário Nacional assim define poder de polícia:

Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando
ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a abstenção de
fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos
costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas
dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao
respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos.

1.Exercício do Poder de Polícia

a) Em sentido amplo de forma abrangente quanto às atividades do Legislativo e do Executivo,


editando atos normativos, tais como decretos, resoluções, portarias, criando normas que
estabelecem limitações administrativas gerais, adequando a cada caso concreto. Exemplo: o
administrador, desejando regularizar o desempenho profissional em determinada área, editará ato
normativo;

61
b) Na aplicação da lei ao caso concreto, podendo ser uma medida repressiva, que só existirá
se motivada pela transgressão de norma, sendo então aplicada a sanção (interdição de atividade,
apreensão de mercadorias, dissolução de reuniões, entre outros) ou medida preventiva, pelas
quais o agente da administração pública age para impedir o dano social (fiscalização, vistorias,
notificações, etc.).

2.Características do Poder de Polícia

I - É editado pela Administração Pública ou por quem lhe faça as vezes;

II – Tem por fundamento a supremacia do interesse público;

III – Baseia-se no vínculo geral que os administrados possuem com o Poder Público (submissão do
particular em decorrência do poder extroverso);

IV – Incide sobre a propriedade ou sobre a liberdade.

A ausência de algum desses caracteres desqualifica o ato de polícia. Dessa forma, não é ato de
polícia administrativa.

3.Espécies de Poder de Polícia

O poder de polícia pode ser:

Preventivo - por meio de ordens, proibições, normas limitadoras, etc.;

Repressivo - mediante fiscalização, aplicação de multas e sanções, pois “ninguém adquire direito
contra o interesse público”. (LOPES, 117-118);

Originário - exercido pelas pessoas políticas da federação – Administração Pública Direta, e

Delegado - quando exercido por entidades paraestatais mediante delegação feita por lei formal.

62
4.Atributos do Poder de Polícia

Discricionariedade: quanto ao modo e à forma de realização, apenas (pode passar a ser vinculado,
se a lei assim o determinar);

Autoexecutoriedade: faculdade de decidir e executar diretamente sua decisão por seus próprios
meios, sem a intervenção do Judiciário;

Coercibilidade: imposição coativa das medidas adotadas pela Administração Pública.

Meios de Atuação: ordens, proibições e normas limitadoras e sancionadoras da conduta daqueles


que utilizam bens ou exercem atividades que possam afetar a coletividade.

Sanções: interdição de atividade, fechamento de estabelecimento, embargo administrativo de


obra, demolição, destruição de objetos, inutilização de gêneros, proibição de fabricação ou
comércio de certos produtos, vedação de localização de indústrias em determinadas zonas.

5. Condições de Validade:

a) Os fins não justificam os meios;

b) Devem ser atendidos os requisitos legais do ato;

c) Deve ser observada a legalidade dos meios e, sobretudo, a proporcionalidade e a urgência da


medida adotada.

Após as normas e regulamentos que fixem as condições e os requisitos para o uso da propriedade
serem devidamente editadas para o exercício das atividades que devem ser policiadas, é
outorgado o respectivo ALVARÁ DE LICENÇA ou AUTORIZAÇÃO ao qual se segue a devida
fiscalização.

63
Licença

Segundo Hely Lopes (2003):

Licença é o ato administrativo vinculado e definitivo pelo qual o Poder Público, verificando
que o interessado atendeu a todas as exigências legais, faculta-lhe o desempenho de
atividades ou a realização de fatos materiais antes vedados ao particular, como, por
exemplo, o exercício de uma profissão, a construção de um edifício em terreno próprio.

Di Pietro (2002), conceitua Licença como sendo" o ato administrativo unilateral e vinculado pelo
qual a Administração faculta àquele que preencha os requisitos legais o exercício de uma
atividade”.

Autorização

A autorização é um ato precário e discricionário, pelo qual a Administração Pública faculta ao


administrado o uso privativo de bem público, o desempenho de atividade material ou a prática de
determinado ato.

Na autorização, não há uma geração de direito subjetivo: ainda que o administrado preencha
todos os requisitos legais, não há uma obrigação de concessão. Segundo critérios de conveniência,
oportunidade e utilidade, a Administração Pública poderá conceder ou não a autorização.

Alvará

Alvará é o instrumento, meio ou fórmula através do qual a Administração Pública expede


autorização ou licença. Em outras palavras, o alvará é a forma, o revestimento dos atos
administrativos da licença e da autorização.

Gasparini (1995), entende o alvará como "a fórmula segundo a qual a Administração Pública
expede autorização e licença para a prática de ato ou o exercício de certa atividade material”.

Exemplo: alvará de licença de funcionamento de um estabelecimento comercial.

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Interessante é estabelecer a diferença entre a Licença e a Autorização, analisando os elementos
que integram o ato. Senão vejamos:

I.Enquanto a licença é ato vinculado, a autorização é ato discricionário.

II.A primeira tem um caráter de definitividade, enquanto a segunda é eminentemente precária,


podendo ser revogada ad nutum, isto é, revogável pela vontade de uma só das partes.

III.O administrado que preencher os requisitos legais tem efetivo direito subjetivo à concessão da
licença, não podendo a ele ser a mesma negada; já quanto à autorização, não há uma geração de
direito subjetivo;

IV.Quanto aos efeitos da revogação, na licença há a possibilidade de indenização. A autorização, pode


ser revogada a qualquer tempo pelo Poder Público, sem com isso gerar o direito à indenização.

Assista agora a nossa vídeo-aula na qual abordaremos sobre Concessão


e Permissão de Serviços Públicos

Leitura Complementar

Acesse o site sugerido e leia o texto da Lei 8.987/95, que dispõe sobre o regime de
concessão e permissão da prestação de serviços públicos.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987compilada.htm

Após o estudo da Competência 6 e de ler o texto complementar indicado, responda ao seguinte


questionamento:

Como deve proceder a Administração Pública em relação à uma Concessionária de um serviço


público que não está cumprindo com os termos da concessão?

Conto com a sua participação!

65
7.Competência 07 | Ato Administrativo

Olá!

Chegamos a última semana do nosso curso e estudaremos o Ato Administrativo.

Aproveite bastante essa oportunidade de estudo e ao final participe do nosso Fórum!

Ato administrativo, conforme nos ensina Hely Lopes Meirelles (2003):

“(...) toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública que, agindo nessa
qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar
direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria”.

Celso Antônio Bandeira de Mello (2002), colaciona que o ato administrativo é:

(...)
declaração do Estado (ou de quem lhe faça as vezes - como, por exemplo, um
concessionário de serviço público) no exercício de prerrogativas públicas, manifestada
mediante providências jurídicas complementares da lei a título de lhe dar cumprimento, e
sujeitas a controle de legitimidade por órgão jurisdiciona”.

Importa trazer para o debate os elementos distintivos entre Ato e Fato Administrativo. E para tanto
transcreveremos o entendimento de Hely Lopes Meirelles, em seu trabalho Direito Administrativo
Brasileiro (2003):

O ato administrativo típico é sempre manifestação volitiva da Administração, no


desempenho de suas funções de Poder Público, visando a produzir algum efeito jurídico, o
que o distingue do fato administrativo, que, em si, é atividade pública material,
desprovida de conteúdo de direito. Fato administrativo é toda realização material da
Administração em cumprimento de alguma decisão administrativa, tal como a construção
de uma ponte, a instalação de um serviço público etc.". (...) O fato administrativo resulta
sempre do ato administrativo que o determina”. (grifos nossos).

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Para melhor compreender o tema tomaremos como exemplo a construção de uma nova sede
administrativa da Secretária de Saúde do Estado. O Ato administrativo enuncia que seja
realizada a mudança até certo dia. O Fato é realizar a mudança. O Ato administrativo é a
declaração para que a mudança seja realizada. O Fato Administrativo é o ato material para
realizar a função administração, ou seja, mudança dos setores para a nova sede. Nesse
contexto o Ato declara, enuncia. O Fato ocorre, acontece.

7.1 Elementos ou requisitos de validade do Ato Administrativo

São elementos imprescindíveis, segundo Hely Lopes Meirelles (2003) à formação do ato
administrativo: competência, finalidade, forma, motivo e objeto.

 Competência

Para a prática de qualquer ato administrativo é necessário que o agente tenha poder específico
para o desempenho da respectiva função. Competência é um conjunto de atribuições que a lei
defere a um cargo ou emprego público. A competência administrativa é intransferível e
improrrogável, podendo, entretanto, ser delegada e avocada, desde que seja permitida pela norma
regulamentadora. Em outras palavras, a lei é que dirá quem tem competência para praticar o ato
administrativo, portanto é um elemento vinculado aos termos da lei.

Importante destacar que os atos de Decisão de recursos administrativos, de atos de caráter


normativo e de competência exclusiva de um determinado agente não podem ser delegados.

O vício, a ilegalidade mais comum que atinge o elemento competência é o denominado excesso de
poder, sendo o indivíduo incompetente para agir e, ainda assim pratica o ato.

Exemplo: Ato de desapropriação praticado por um secretário de Estado; quando se sabe que tal
ato só pode ser praticado pelo Chefe do Executivo, seja da União, dos Estados, do Distrito Federal
ou do Município.

67
 Finalidade

A finalidade é elemento vinculado de todo ato administrativo, haja vista que não se admite ato
administrativo sem finalidade pública ou desviado de sua finalidade específica. Os atos
administrativos apenas se justificam como fator de realização do interesse coletivo. Cada ato
administrativo tem uma finalidade pública. Também se diz que a finalidade é o efeito mediato do
ato administrativo, pois ela surgirá após a prática do ato.

A alteração da finalidade expressa na norma legal ou implícita no ordenamento caracteriza desvio


de poder ou desvio da finalidade, o qual torna o ato inválido. No entanto, se ocorrer uma alteração
inicial da finalidade de um ato, quando a própria Administração Pública editou um ato anterior,
determinando que um terreno será destinado para a construção de uma praça pública e,
posteriormente, no sentido de melhor atender ao interesse público superviniente edita um novo
ato destinando aquela mesma área para a construção de uma creche, é plenamente possível, pois
decorre da denominada “tredestinação lícita”. A tredestinação é dar uma destinação diferente
daquela prevista no ato expropriatório. Mas se o faz de forma diversa do previsto inicialmente,
mas não atende o interesse público, é uma Tredestinação Ilícita e dá direito ao ex-propritário
reaver o seu imóvel que foi desapropriado e nasce aí o direito de reaver o imóvel, comprando-o
novamente.

 Forma

A validade do ato administrativo está condicionada à sua forma. A forma é o revestimento material
do ato. Em regra, os atos administrativos no Brasil têm forma, normalmente devem ser escritos, a
fim de proporcionar o exame de sua legalidade pela própria Administração e pelo Poder Judiciário.
Apenas excepcionalmente admite-se atos administrativos não escritos, na forma oral, de sinais ou
gestual, como por exemplo o ato do agente de trânsito ao indicar pelo gestual que o motorista
pare, aquele ato se configura na manifestação de vontade da Administração Pública.

No Direito Brasileiro, o silêncio não é ato, pois o silêncio não tem forma.

68
O entendimento prevalecente na doutrina brasileira é o de a lei é que estabelece a forma pela qual
o ato administrativo será manifestado, também é um elemento vinculado. Mas é importante
destacar que apesar de haver o entendimento de que a forma deve ser sempre atendida como
previsto em lei, mas se é praticado em forma diversa e atendeu a sua finalidade, não há o que falar
em extinguir tal ato administrativo.

Exemplo: Em um processo administrativo a parte precisa ser intimada, por escrito para que se
manifeste. No entanto, o servidor público encaminhou uma mensagem de áudio por uma rede
social, e a parte se manifestou no mesmo veículo, alcançando o ato a sua finalidade. Assim, ainda
que a Administração Pública não tenha respeitado a forma prevista para a execução do ato, e a
finalidade foi alcançada, este ato será passível de convalidação, pois o erro é sanável.

 Motivo

O motivo é a situação de fato (aquilo que ocorreu na realidade) e de direito (previsão legal), ou,
que aconteceu e que determina ou autoriza a realização do ato administrativo. A Lei nº 9.784/99
estabeleceu que a motivação é um princípio e tanto os atos vinculados como os discricionários
devem ser motivados.

O motivo poderá ser vinculado ou discricionário, depende do dispositivo legal. Se no ordenamento


jurídico tiver expressões genéricas, tais como, “quando houver conveniência para o serviço, de
acordo com o serviço público” ficará a cargo do administrador escolher qual é a melhor decisão
para o atingimento do interesse público.

O motivo surge antes da prática de um ato. Todo ato tem motivo, mas nem todo ato tem
motivação. Motivação é a exposição dos motivos pelos quais o ato foi praticado.

Para Celso Antônio Bandeira de Mello (2001) e Eros Roberto Grau (1990), se o ato vinculado deve
ser motivado, mais ainda deve ser o ato discricionário, para que reste evidenciada que está se
atendendo à finalidade pública.

69
De acordo com a Lei nº 11.781, de 6 de junho de 2000, a qual regula o Processo Administrativo no
âmbito da Administração Pública em Pernambuco, assim dispõe:

(...)
Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos
fundamentos jurídicos, (...)
§ 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração
de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou
propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato.
(...)

 Objeto

Segundo Hely Lopes Meirelles (2003):

“todo ato administrativo em por objeto a criação, modificação ou comprovação de situações


jurídicas concernentes a pessoas, coisas ou atividades sujeitas à ação do Poder Público”.

O objeto é o efeito jurídico imediato do ato administrativo. O objeto tem que ser juridicamente
possível, certo, moralmente adequado e encerra o próprio ato administrativo. Notadamente o
objeto será de imediato percebido no verbo que constitui o ato administrativo. Ex: Nomear (...),
aprovar (...), demitir.

Em se tratando de atos discricionários o objeto dependerá da escolha da Administração Pública,


consistindo tal liberdade de opção o próprio mérito administrativo. Ainda segundo Meirelles o
mérito administrativo consiste:

na valoração dos motivos e na escolha do objeto do ato, feitas pela Administração


incumbida de sua prática, quando autorizada a decidir sobre a conveniência, oportunidade
e justiça do ato a realizar. Daí a exata afirmativa de Seabra Fagundes de que o
merecimento é aspecto pertinente apenas aos atos administrativos praticados no
exercício de competência discricionária.

70
7.2 Atributos do Ato Administrativo

 Presunção de legitimidade

Autoriza a imediata execução do ato administrativo, mesmo que se tenha arguido vício que possa
conduzi-lo à invalidade. No entanto, enquanto não forem declarados nulos, os atos têm plena
validade, tanto para a Administração Pública quanto para os particulares.

A presunção de legitimidade é relativa, pois apesar de presumir-se que a atuação do agente


público é legítima, admite prova em contrário.

 Imperatividade

Impõe a coercibilidade para o cumprimento do ato. Não é inerente a todos os atos, mas os que
dependem de tal atributo só nascem com o mesmo. Obriga o particular ao atendimento fiel sob
pena de sujeitar-se à execução forçada pela Administração Pública ou pelo Judiciário.

 Autoexecutoriedade

Constitui-se na possibilidade que certos atos administrativos têm de provocar a imediata execução
pela própria Administração, independentemente de ordem judicial (Exceção: execução das multas
administrativas).

7.3 Atos Vinculados e Discricionários

 Atos vinculados

São aqueles para os quais a lei estabelece os requisitos e as condições para sua realização,
absorvendo quase que inteiramente a liberdade do administrador.

71
 Atos discricionários

São aqueles em que o Administrador tem liberdade, ainda que mitigada, de escolha de seu
conteúdo, de seu destinatário, de sua conveniência, de sua oportunidade e do modo de sua
realização.

7.4 Espécies de Atos Administrativos

 Atos normativos

Decorre do poder normativo da Administração Pública, podendo elaborar normas gerais (alcançam
a todas as pessoas dentro de um território) e abstratas (hipóteses previstas no ordenamento
jurídico que podem ocorrer no caso concreto). São aqueles atos que contêm um comando geral da
Administração Pública aplicável a todas as pessoas visando a correta aplicação da lei. Nesse rol
estão os decretos regulamentadores, os regimentos internos, as resoluções, as deliberações, as
ordens de serviços e as portarias de conteúdo geral.

Desse modo, só a lei em sentido formal pode criar direitos, proibições e obrigações. Mas como a
lei normalmente é muito abstrata, muito genérica, dando margens a várias interpretações. A
Administração Pública utilizando-se do poder normativo, e para respeitar o princípio da igualdade
entre as partes, elaborará normas para explicar como a lei deve ser aplicada.

 Atos ordinatórios

São aqueles que visam disciplinar o funcionamento da Administração e a conduta funcional de


seus agentes. Pode-se destacar entre essa categoria as instruções, as circulares, os avisos, as
portarias, as ordens de serviço, os ofícios e os despachos.

 Atos negociais

São aqueles que contêm declaração de vontade do Poder Público coincidente com a pretensão do
particular, visando a concretização de negócios jurídicos públicos ou a atribuição de certos direitos

72
ou vantagens ao interessado. Exemplos: Licença, Autorização, Permissão, Aprovação,
Homologação, Admissão, Dispensa, Renúncia.

 Atos enunciativos

São aqueles em que a Administração se limita a certificar ou a atestar um fato, ou emitir uma
opinião sobre determinado assunto, sem se vincular ao seu enunciado. Exemplos: Certidões,
Atestados, Pareceres.

 Atos punitivos

São aqueles que contêm uma sanção imposta a quem violar disposições legais, regulamentares ou
ordinatórias dos bens ou serviços públicos.

Exemplos: Multas, Interdição de Atividades, Destruição de coisas.

7.5 Classificação dos Atos Administrativos

A classificação dos Atos Administrativos não é uníssona entre os administrativistas, vez que muitos
são os critérios adotados pelos renomados autores na definição de suas classificações. Não
obstante a diversidade de critérios adotados pelos juristas, passaremos a apresentar a classificação
construída por Hely Lopes Meirelles, por entendermos ser de mais simples assimilação, de modo a
auxiliar na compreensão do tema.

QUANTO AOS SEUS DESTINATÁRIOS:

 Atos Gerais ou Regulamentares:

São atos de comando abstrato e impessoal, revogáveis, a todo tempo pela Administração, e
inalteráveis pelo Judiciário, salvo na hipótese de inconstitucionalidade. Exemplos: regulamentos,
circulares de serviço e instruções normativas.

73
 Atos Individuais ou Especiais:

São os dirigidos a destinatários certos ou determinados, conferindo-lhes direitos ou impondo-lhes


encargos. Exemplos: atos de desapropriação, de nomeação, de exoneração, etc.

QUANTO AO SEU ALCANCE:

 Atos internos:

Destinam-se à produção de efeitos dentro das repartições, de tal modo que incidem, em regra,
sobre os órgãos e agentes da Administração que os expediu. Exemplos: Portarias e Instruções
Ministeriais que disponham só para os seus funcionários.

 Atos Externos ou de Efeitos Externos:

São os que alcançam os administrados, os contratantes e, em certas hipóteses, até os próprios


servidores, provendo sobre seus direitos, negócios, obrigações ou condutas perante o Poder
Público.

QUANTO AO SEU OBJETO:

 ATOS DE IMPÉRIO OU DE AUTORIDADE:

"São todos aqueles que a Administração pratica usando de sua supremacia sobre o administrado
ou servidor e lhe impõe obrigatório atendimento". Exemplos: desapropriações, interdições de
atividade, ordens estatutárias.

 ATOS DE GESTÃO:

Correspondem aos que a Administração pratica sem fazer uso de sua supremacia sobre os
destinatários. Ocorre nos atos de administração dos bens e serviços públicos. São atos geralmente
preparatórios aos demais.

74
 ATOS DE EXPEDIENTE:

"São os que se destinam a dar andamento aos processos e papéis que tramitam pelas repartições
públicas, preparando-os para a decisão de mérito a ser proferida pela autoridade competente".

7.6 Invalidação do Ato Administrativo e seus efeitos

De acordo com Hely Lopes Meirelles (2003):

A Administração Pública, como instituição a realizar o direito e a propiciar o bem-comum,


não pode agir fora das normas jurídicas e da moral administrativa, nem relegar os fins
sociais a que sua ação se dirige. Se, por erro, culpa, dolo ou interesse escuso de seus
agentes, a atividade do Poder Público se desgarra da lei, se divorcia da moral, ou se desvia
do bem-comum, é dever da Administração invalidar, espontaneamente ou mediante
provocação, o próprio ato, contrário à sua finalidade, por inoportuno, inconveniente,
imoral ou ilegal.

Para melhor compreender as formas de invalidação do ato administrativo, importante é registrar


que quem faz o controle de legalidade do ato administrativo é a própria administração pública,
seja ele vinculado ou discricionário. A própria Administração Pública, por meio do seu poder de
rever os seus próprios atos (princípio da autotutela), seja de ofício ou se provocada, é que realizará
o controle

Pode também o Poder Judiciário anular os atos administrativos, pois também exerce o controle de
legalidade dos atos administrativos. Mas para que o Poder Judiciário possa exercer esse controle
precisa ser provocado.

7.7 Espécies de Invalidação

 Revogação:

"É a suspensão de um ato administrativo legítimo e eficaz, realizada pela Administração - e


somente por ela - por não mais lhe convir a sua existência. Se o ato for ilegal ou ilegítimo não
haverá revogação, mas, sim, anulação".

75
É a extinção do ato administrativo discricionário por uma questão de mérito, ou seja, o ato
administrativo é válido desde o seu nascimento, mas deve ser extinto em razão de ser
incompatível com o interesse público naquele determinado momento.

Desse modo, não há o que se falar em revogação quando se tratar de um ato vinculado, pois não
existe reexame de mérito em atos vinculados. O reexame de mérito só pode realizar o controle do
ato discricionário em razão da autotutela.

A revogação opera da data em que se deu em diante (ex nunc – desde agora). De tal modo que os
efeitos que a precederam permanecem vigorando, pois eram legais assim como o próprio ato
também era.

 Anulação:

"é declaração de invalidade de um ato administrativo ilegítimo ou ilegal, feita pela própria
Administração ou pelo Poder Judiciário". O que ocorre é uma ilegalidade, um vício insanável, uma
nulidade absoluta. Diz-se que é a extinção do ato administrativo em razão de uma ilegalidade.

Segundo a Lei nº 11.781, de 6 de junho de 2000, a qual regula o Processo Administrativo no


âmbito da Administração Pública em Pernambuco, dispõe o seguinte:

“Art. 53. A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivado de vício de legalidade, e
pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos”.

Os efeitos da anulação dos atos administrativos retroagem às suas origens, invalidando as


consequências passadas, presentes e futuras do ato anulado (são efeitos ex tunc - desde o início).
Extingue-se o ato, como também os seus efeitos.

No entanto, na existência de um terceiro de boa-fé, alguns efeitos podem subsistir, como por
exemplo, alguém que prestou um serviço à Administração Pública, e agiu com boa fé, deve ser
remunerado pelo serviço prestado ou indenizado pelo prejuízo que porventura tenha sofrido.

76
Em relação ao prazo para um ato ilegal ser extinto, verifiquemos o que preconiza a Lei nº 11.781,
de 6 de junho de 2000, desta feita em seu artigo 54:

O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos


favoráveis para os destinatários e danosos para o Estado decai em dez anos, contados da
data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé, e observada a legislação civil
brasileira quanto à prescrição de dívida para o erário. (Redação alterada pelo art. 1º da Lei
nº 12.376, de 2 de junho de 2003.) “ (grifos nossos).

7.8 Convalidação

É o suprimento da invalidade de um ato com efeitos retroativos. Só os atos anuláveis é que podem
ser convalidados. Atos anuláveis são os que podem ser praticados novamente sem vício.

De acordo com o art. 55 da Lei nº 11.781, de 6/06/2000, que regula o Processo Administrativo no
âmbito da Administração Pública em Pernambuco, disciplina que:

“Art. 55. Em decisão na qual se evidencie não acarretarem lesão ao interesse público nem prejuízo
a terceiros, os atos que apresentarem defeitos sanáveis poderão ser convalidados pela própria
Administração”.

Assim, é possível a convalidação de um ato administrativo, desde que o vício seja sanável e não
tiver provocado prejuízo ao interesse público ou a terceiros.

Os vícios sanáveis e passíveis de convalidação são aqueles relacionados aos requisitos ou


elementos da competência e forma, desde que não sejam graves.

São vícios graves do ato administrativo que não são passíveis de convalidação:

 Usurpação de função – Quando alguém usurpa a função de um agente público e pratica um


ato, aquele ato é considerado inexistente, portanto não há como convalidar tal ato.

77
 Excesso de Poder - o agente público tem competência para a prática do ato, mas excede-
se, incorrendo em um vício de legalidade. Dessa forma é uma falta grave e não pode tal ato ser
convalidado.

 Funcionário de fato - quando o agente público age e há uma irregularidade na sua


investidura. Um exemplo clássico é o do agente público que pratica um ato quando já estava
aposentado, mas por falta de informação, pratica o ato, com boa fé, com a aparência de
regularidade, diz-se que é o vício do ‘Funcionário de Fato’. Tal vício é passível de convalidação.

Ex: Ato expedido por sujeito incompetente, pode ser ratificado pela autoridade superior
competente. Maria Sylvia Di Pietro aduz que não podem ser convalidados os atos quando há vício
quanto ao motivo, finalidade e objeto. Neste último caso ela fala que poderia haver uma
conversão, que pode ser definida como o ato pelo qual a administração converte um ato inválido
em ato de outra categoria, com efeitos retroativos à data do original. (exemplo seria o de uma
concessão de uso feita sem licitação, quando a lei exige; pode ser convertida em permissão
precária, em que não há a mesma exigência). Quando a forma não for elemento essencial do ato,
pode ser convalidado.

Assista a vídeo-aula sobre o Mérito Administrativo

Após o término do nosso estudo, participe do nosso Fórum da Competência 7


respondendo ao seguinte questionamento:

Por que a Administração Pública tem o poder normativo em suas mãos para
editar Decretos e Regulamentos Autônomos e outros atos normativos?

Contamos com a sua participação!

78
Referências

 DOCUMENTOS IMPRESSOS

ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Administrativo Descomplicado. 17.ed. São Paulo:
Método, 2009.

ARAÚJO, Florivaldo Dutra de. Motivação e Controle do Ato Administrativo. Belo Horizonte: Del
Rey, 1992.

BINENBOJM, Gustavo. Da Supremacia do Interesse Público ao Dever de Proporcionalidade: Um


novo paradigma para o Direito Administrativo. In: SARMENTO, Daniel (org.). Interesses Públicos
versus Interesses Privados: desconstruindo o princípio da supremacia do interesse público. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2005.

______. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e


constitucionalização. 2.ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.

BITENCOURT, Marcos Vinicius Corrêa. Manual de Direito Administrativo. 5.ed. Belo Horizonte:
Fórum, 2015.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. Tradução de
Marco Aurélio Nogueira. 4.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 7.ed. São Paulo: Malheiros, 1998.

CIRNE LIMA, Ruy. Princípios de direito administrativo brasileiro. 5.ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1982.

CRETELLA JUNIOR, José. Controle Jurisdicional do Ato Administrativo. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense,
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DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 21.ed. São Paulo: Atlas, 2008.

79
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______. Direito Administrativo. 10.ed. São Paulo: Atlas, 1999.

______. Discricionariedade Administrativa na Constituição de 1988. São Paulo: Atlas, 1991.


FREITAS, Juarez. O Controle dos Atos Administrativos e os Princípios Fundamentais. 2.ed. São
Paulo: Malheiros, 1999.

GASPARINI, Diógenes. Direito Administrativo. 5.ed. São Paulo: Saraiva, 2000.

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 JURISPRUDÊNCIA

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Agravo regimental no Recurso Extraordinário com Agravo.
Processual Civil. Entidades Paraestatais. Personalidade jurídica de Direito Privado. Prerrogativas
processuais dispensadas à Fazenda Pública. Inexistência. Ausência de Preparo. Deserção do
Recurso. Decisão agravada não impugnada. Incidência da Súmula 287/STF. Precedentes. ARE n.
696.588 AGR / PA. Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará – EMATER.
Relator: Min. Luiz Fux. Acórdão de 11 de setembro de 2012. DJe, set. 2012.

BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Mandamus Contrato de gestão e execução de atividades
e serviços de saúde. Legalidade de Cumprimento dos requisitos contidos na Lei Municipal
14.132/06, regulamentada pelo Decreto 49.523/08. Terceiro Setor. O Constituinte de 1988
instaurou o paradigma da democracia participativa, distinta da democracia meramente
representativa. Os grupos intermediários devem exercer papel de relevo na efetivação da vontade
constituinte. Parcerias bem-sucedidas em todas as áreas, mormente na saúde, que é direito de
todos (ADIN 130.726). Organizações Sociais. Entidades parceiras do Poder Público para o exercício
de atribuições das quais a administração não consegue se desincumbir. Valioso instrumento de
implementação da democracia participativa. Ausência de vulneração a qualquer princípio
fundante (ADIN 130.726). Apelação n. 0382286 50.2009.8.26.0000 SP 0382286-50.2009.8.26.0000.
Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias dos municípios de São Paulo.
Prefeitura Municipal de São Paulo. Relator: Des. Relator Alves Bevilacqua, 2ª Câmara de Direito
Público do TJSP. Acórdão de Inteiro Teor. DJe de 27 de abril de 2012.

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Minicurrículo da Tutora Conteudista

Marta Suelene da Silva

Possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda (1992). É especialista em Políticas
Públicas de Segurança, Gestão Governamental e Ciências Criminais. Colaboradora do Núcleo de
Gestão Governamental e Professora da Faculdade de Administração, ambos da Universidade de
Pernambuco. Tutora da Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP do Ministério da Justiça -
MJ. É revisora do Manual de Procedimentos de Polícia Judiciária da Polícia Civil do Estado de
Pernambuco. Tem experiência nas áreas de Gestão Pública e Ciências Criminais, atuando
principalmente nos seguintes temas: gestão Pública, gestão Integrada do sistema de segurança
pública e justiça criminal, criminalidade e violência e direitos humanos.

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