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ALEXANDRE BUENO CATEB

CLUBE-EMPRESA:
O CARÁTER MERCANTIL DO DESPORTO
PROFISSIONAL

BELO HORIZONTE
FACULDADE DE DIREITO DA UFMG
2003
ALEXANDRE BUENO CATEB

CLUBE-EMPRESA:
O CARÁTER MERCANTIL DO DESPORTO
PROFISSIONAL

Tese apresentada ao Curso de Doutorado da


Faculdade de Direito da Universidade Federal
de Minas Gerais, como requisito parcial à
obtenção do título de Doutor em Direito

Área de concentração: Direito Comercial

Orientador: Wille Duarte Costa

BELO HORIZONTE
FACULDADE DE DIREITO DA UFMG
2003
À Júnia, minha amada esposa.
A meus pais, Helena e Salomão.
Agradeço à minha querida Júnia, pela imensa paciência, dedicação, amor e carinho, que
aceitou abrir mão de vários momentos de lazer pelo simples prazer de estar ao meu lado
durante esta árdua tarefa. Obrigado por ser quem você é. Obrigado por estar sempre ao meu
lado.

À minha mãe, Helena, e ao meu pai, Salomão, cujas lições de vida me mostraram o quanto é
importante viver cada dia. Amo vocês!

Ao Dani e ao Vavá, mais que irmãos. Meus amigos de uma vida inteira.

Ao meu amigo Wille – Prof. Doutor Wille Duarte Costa para os outros –, cuja brilhante
orientação, amizade, carinho e paciência tornaram possível a realização desse trabalho.

Aos meus queridos avós, Nazira e saudosos Isaíra e Antonio. Espero que eu não os tenha
decepcionado.

À Dry, pelo estímulo e apoio. Ao Biel, pelo sorriso despretensioso, pela alegria que só uma
criança tem. Aos tios Totonho, Antelmo e Nilza, aos primos Guga, Tite, Tininha, Marquinho,
Christiano, Tatiana, ao “primo emprestado” Ika, aos demais familiares e, em especial, à prima
Lu, com saudade, um abraço especial.

À amiga Ana Malta, grande incentivadora de meu doutorado.

Ao Antonio Marcos e ao Leonardo Lopes. Mais que amigos. Irmãos. De fé e de coração.

Aos amigos Cau, Presidente Kennedy, Guilherme Martins, Rogério Santiago, colegas e
companheiros desde a faculdade, e também aos “colegas de infância” Elcinho, Bruno
Albergaria e Lúcio Borracha, com quem posso contar a cada momento.

Ao Ricardo (Simão) e à amiga Magda Guadalupe, com quem concorri durante boa parte dessa
pós-graduação para conseguir as mais estapafúrdias e divertidas conclusões (jurídicas,
inclusive!).

Aos diletos amigos Gustavo Brasil, William Delfino, Norberto, Marco Antonio, Humberto,
Júnia, Alex Otero, Hercília, Bernardo de Mello Franco e Frederico Portella.

À Professora Lúcia Massara, pelo apoio e incentivo, e à Faculdade de Direito Milton Campos,
que tornaram realidade grande parte da pesquisa desta tese.
À Simone e à Sandra, pela atenção, carinho e incentivo necessários para a conclusão desta
tarefa, e aos demais colegas da Faculdade de Direito Milton Campos que, de uma maneira ou
de outra, colaboraram na realização deste propósito.

Aos amigos Candinho e Flávio, colegas da Milton Campos, sempre presentes.

Aos ex-alunos Felipe Falconi, Daniel Basbaum, Adriana Piscitelli, Joaquim Elias e Marcelo
Botrel, que muito colaboraram me auxiliando na pesquisa.

À Sílvia e à Emilce, que me proporcionaram auxílio enorme na pesquisa da bibliografia. Ao


Lúcio, do xerox, que desde a graduação tem sido paciente com minhas intermináveis
solicitações.

Ao Doutor Alberto dos Santos Puga Barbosa, pelo incentivo e atenção sempre que solicitado,
e aos colegas da CEVLEIS-L, pelas imprescindíveis lições virtuais.

Ao Professor Alberto Lima Vieira, que várias vezes me brindou com reflexões jurídico-
desportivas e histórias interessantíssimas dos bastidores dos clubes.

Aos colegas advogados Vicente de Paula, pelos conselhos, e Gilson Boncompagni, pela
disposição em ajudar.

Aos meus colegas do escritório, que entenderam e aceitaram minhas ausências e me


substituíram sempre que necessário.

Aos companheiros de Aikido Gliber, Euler, Evaldo, Pedro e Rogério, e aos amigos de trilha
Marcelo e Maurício Peixoto, fiéis companheiros e apoio seguro nesses anos de jornada.

Não poderia deixar de agradecer especialmente ao Sensei Shikanai e ao amigo Julio Yaber,
para quem o esporte é a própria vida. Obrigado pelas lições inesquecíveis de vida e de
conduta.

Ao brilhante trabalho da Tucha e da Aline, que apararam as arestas deste texto com paciência,
carinho e atenção.

Finalmente, ao Clube Atlético Mineiro. Este é o nosso ano, GALO!!!


RESUMO

O modelo associativo tem sido adotado pela quase totalidade das entidades de prática
desportiva de caráter profissional. Neste trabalho disseca-se a atividade dos clubes a partir da
ótica do Direito Comercial. Partindo das teorias tradicionais de conceituação do comerciante
até chegar à moderna teoria da empresa, esposada pelo Código Civil Brasileiro de 2002, e
confrontando as reflexões aqui propostas com a atividade desenvolvida pelos entes de prática
desportiva profissional, deduziu-se o caráter mercantil que prepondera nas atividades
econômicas dos clubes. Finalmente, em virtude do modelo associativo adotado, concluiu-se
que as entidades se equiparam a sociedades irregulares, posto que assumem a forma jurídica
civil, apesar da atividade comercial que faticamente desempenham. Decorre dessas
observações a conclusão de estar o legislador cometendo grave equívoco nas modificações
propostas à Lei n. 9.615/98, impondo aos clubes a adoção de uma das formas societárias
previstas nos arts. 1.039 a 1.092 da Lei n. 10.406, de 2002 – Código Civil. Ignorando a
vontade dos sócios que aderem às associações desportivas, impõe-se-lhes a assunção de
direitos e obrigações próprias do exercício profissional da empresa.
ABSTRACT

The association model has been used by almost all leagues os professional sports. The present
thesis dissects the activities of clubs from the standpoint of the Commercial Law. It starts
from the traditional concept of traders and reaches the modern theory of enterprise supported
by the new Brazilian Civil Code of 2002 enacted by Law n. 10406. By confronting our
thoughts with the activities of professional sport organisations it deduced that the mercantile
trait predominates over the economic activities of the clubs. Last but not the least, the thesis
concluded, in view of the association model adopted by the sports entities, that they are
comparable to irregular organisations since they are incorporated as a civil, not as a
commercial entity although the activity they carry on is factually commercial. The conclusion
arises from the observations that the legislators are committing a grave mistake when they
propose changes in Law n. 9615/98 so as to impose the commercial structural forms
established in sports clubs. Disregarding the will of clubs who are members of non-
commercial sport associations, the legislators will impose duties and rights tha pertain
typically to business entities on such member clubs.
RIASSUNTO

Il modello associativo viene adottato nella quasi totalità degli enti per la pratica sportiva di
carattere professionale. Il presente lavoro dissecca l'attività dei club sotto la luce del Diritto
Commerciale. Partendo dalle teorie tradizionali di concezione del commerciante arrivando
fino alla moderna teoria dell'impresa, sostenuta dal Codice Civile Brasiliano del 2002, e
confrontando le riflessioni con l'attività svolta dagli enti per la pratica sportiva professionale,
si deduce il carattere mercantile preponderando nelle attività economiche dei club.
Finalmente, in virtù del modello associativo adottato, si conclude che gli enti si uguagliano a
società irregolari, una volta che assumono la forma giuridica civile, nonostante l'attività
commerciale che in effetti svolgono. Decorre da queste osservazioni la conclusione che il
legislatore stà commettendo un grosso equivoco nelle modifiche proposte alla legge 9615/98,
imponendo ai club l'adozione di una delle forme societarie previste negli articoli 1039 a 1092
della Legge 10.406, del 2002 – Codice Civile. Ignorando la volontà dei soci che aderiscono
alle associazioni sportive, imponendo loro l'assunzione di diritti e obblighi propri
dell'esercizio professionale dell'impresa.
LISTA DE TABELAS

TABELA 1 – Dívida dos clubes e federações com o INSS _________________ 114

TABELA 2 – Clubes de futebol que devem à Previdência __________________ 115

TABELA 3 – Dívidas das federações/confederações com o INSS ____________ 116

TABELA 4 – A escala de receitas _____________________________________ 132

TABELA 5 – A escala das despesas ___________________________________ 132

TABELA 6 – O financiamento da atividade _____________________________ 133


SUMÁRIO

Introdução ________________________________________________________ 12

Capítulo 1 – A EVOLUÇÃO DO ESPORTE E DA LEGISLAÇÃO DESPORTIVA


NO BRASIL _____________________________________________ 16
1.1 A legislação brasileira atual _________________________________________ 26

Capítulo 2 – O COMÉRCIO ___________________________________________ 30


2.1 Conceitos econômico e jurídico ______________________________________ 36

Capítulo 3 – O EMPRESÁRIO – SUJEITO DA ATIVIDADE ECONÔMICA


ORGANIZADA __________________________________________ 40
3.1 Caracterização do Empresário – Teorias admitidas na doutrina _____________ 42
3.1.1 Mercancia e atos de comércio ______________________________________ 43
3.1.2 Teoria objetiva__________________________________________________ 48
3.1.3 Teoria subjetiva _________________________________________________ 49
3.1.4 Teoria dos atos em massa _________________________________________ 53
3.1.5 Teoria da preponderância _________________________________________ 55

Capítulo 4 – EMPRESA – A ATIVIDADE PROFISSIONAL DO EMPRESÁRIO 57

Capítulo 5 – A ATIVIDADE ECONÔMICA PERSONIFICADA E NÃO


PERSONIFICADA ________________________________________ 69
5.1 Sociedade regular ou sociedade personificada ___________________________ 69
5.1.1 Evolução histórica _______________________________________________ 69
5.1.2 As sociedades regulares___________________________________________ 71
5.2 Sociedades não-personificadas, irregulares e de fato: Sociedades em Comum __ 78

Capítulo 6 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA – ORIGEM E DESTINAÇÃO DOS


RECURSOS _____________________________________________ 88
6.1 Fontes de financiamento dos clubes – receitas ordinárias __________________ 90
6.2 Fontes de financiamento dos clubes – receitas extraordinárias ______________ 94
6.2.1 Audiência e televisionamento dos jogos ______________________________ 95
6.2.2 Venda de atletas_________________________________________________ 97
6.2.3 Marca ___________________________________________________ 100
6.2.4 Lojas próprias para comercialização de material esportivo, lembranças e
presentes com a marca do clube ___________________________________ 104
6.2.5 Patrocínio no uniforme __________________________________________ 105
6.2.6 Locação do patrimônio e catering __________________________________ 106
6.2.7 Concursos de prognósticos _______________________________________ 110
6.2.8 Empréstimos bancários ou de dirigentes e recursos advindos de sonegacão
fiscal ___________________________________________________ 117
6.2.9 Títulos sociais _________________________________________________ 118
6.3 Despesas dos clubes ______________________________________________ 122
6.3.1 Custos financeiros ______________________________________________ 129
6.3.2 Departamentos amadores, sociais e categorias de base__________________ 130
6.3.3 Resultado econômico apurado_____________________________________ 132
6.3.4 Desvio de recursos______________________________________________ 135

Capítulo 7 – CLUBE-EMPRESA: MODELOS DE GESTÃO ________________ 137


7.1 Antecedendo a mudança: O Due Diligence ____________________________ 146
7.2 Sociedade ______________________________________________________ 151
7.3 Administração___________________________________________________ 152
7.4 Licenciamento __________________________________________________ 153
7.5 Co-gestão ______________________________________________________ 154

Conclusão _______________________________________________________ 158

Bibliografia _______________________________________________________ 164


Livros e revistas jurídicos_____________________________________________ 164
Legislação ________________________________________________________ 175
Sítios na internet ____________________________________________________ 176
INTRODUÇÃO

Certo e brilhante confrade dizia-me ontem que ‘futebol é a


bola’. Não há juízo mais inexato, mais utópico, mais
irrealístico. O colega esvazia o futebol como um pneu, e repito:
retira do futebol tudo o que ele tem de misterioso e de patético.
A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana.
Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque
evidentíssimo do sobrenatural. Eu diria ao ilustre confrade
ainda o seguinte: em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.

(Nelson Rodrigues, 1963)

Enquanto no Brasil o desporto era desenvolvido como atividade eminentemente

recreacional poucos se motivaram a estudar profundamente as implicações jurídicas dali

emergentes. Podemos mencionar parca doutrina, sendo relevantes os trabalhos de João Lyra

Filho,1 Valed Perry,2 bem como parecer de Pontes de Miranda.3

A situação jurídica do desporto mudou, entretanto. Embora já tivesse feito várias

incursões sobre o tema, o legislador ainda não tecera tão profundas modificações sobre a

regulamentação do desporto no Brasil. Enquanto os clubes permaneciam meras associações

civis sem finalidade lucrativa, pensava-se não ter muito o que se analisar sobre sua

organização societária. Afinal, organizados como associações, era relevante, apenas, a

legislação concernente à organização, funcionamento, composição e atribuições do Conselho

Deliberativo. Tudo o mais dependia dos estatutos, pois o legislador não regulamentara

detalhadamente o modelo associativo.

A legislação esportiva brasileira que se seguiu inovou nessa matéria. De fato,


a partir da Portaria Ministerial n. 254, de 1/10/41 (itens 27, 30 e 31),
publicada no DOU de 3/10/41, mais tarde regulada pela Deliberação 30/44

1
LYRA FILHO, João. Introdução ao direito desportivo, Rio de Janeiro: Pongetti, 1952.
2
PERRY, Valed. Comentários à legislação desportiva brasileira, 1965.
3
Transcrito na íntegra por Valed Perry em seus Comentários à Legislação Desportiva Brasileira, de 1965.
13

do CND, de 25/5/44 (DOU 29/5/44); pela Deliberação 72/53 do mesmo


CND, de 4/9/53, itens 35, 36, 37 e 38; pelos artigos 110, 111 e 112 do
Decreto 80.228, de 25/8/77 e pelo Art. 1o do Decreto 82.877, de 18/12/78, a
universalidade dos associados (Assembléia Geral) – pelo menos a daquelas
sociedades integradas por mais de duzentos componentes – perdeu o
controle político-administrativo de suas entidades, posto que esse direito,
lídima expressão de soberania, passou a pertencer, via essas expressas e
taxativas determinações legais, a apenas um segmento de cada grupamento
social, limitados em número proporcional ao global de seus integrantes (até
300 no máximo), denominado Conselho Deliberativo, composto, na forma
estabelecida ao longo do tempo pelos diversos diplomas que regraram a
matéria, parte por associados especialmente qualificados e parte por
associados comuns.4

Seguindo alterações iniciadas pela Lei n. 8.672/93, a Lei n. 9.615/98 (Lei Geral

sobre Desportos) disciplinou, de forma exaustiva, desde a organização dos clubes e suas

entidades representativas até os contratos de trabalho dos atletas.

Destacam que o estudo acadêmico da matéria somente não é desenvolvido


porque entendem ser o Direito Desportivo marginalizado nas cadeiras
universitárias por puro preconceito e desconhecimento de sua amplitude e
importância pelos responsáveis da grade curricular da universidade. Muitos
desses entendem ser o esporte uma atividade de lazer e ócio e não uma
forma de desenvolvimento intelectual e principalmente negócio, e por isso
não conseguem enxergar a dimensão do esporte na vida socioeconômica dos
cidadãos, bem como a dimensão que atualmente está desenvolvendo.5

O fato social e a legislação desportiva da última década impuseram severas

mudanças à organização societária, ao funcionamento interno e às relações trabalhistas dos

clubes, atribuíram aos clubes caráter de empresa, e obrigaram-nos6 a que se revestissem da

forma de sociedades comerciais ou civis com fins econômicos.

A modificação proposta pelo então Ministro Extraordinário dos Esportes, Edson


4
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol). Porto
Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 2000, p. 190.
5
CASTRO, Luiz Roberto Martins. A natureza jurídica do direito desportivo. Revista Brasileira de Direito
Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 16, 1° sem. 2002.
6
Segundo o texto original da lei. A Lei n. 9.981/2000 modifica o art. 27 da Lei n. 9. 615/98, concedendo a opção
para que os clubes modifiquem sua estrutura societária. A Medida Provisória n. 2. 141, reeditada sob o n. 2. 193,
torna a alterar o art. 27. Em seguida, a Medida Provisória n. 39 modifica de novo o dispositivo legal
mencionado. Rejeitada pelo Congresso Nacional, o texto rejeitado é novamente restabelecido através da Medida
Provisória n. 79, atualmente em vigor.
14

Arantes do Nascimento, Pelé, nada mais pretendeu que moralizar o meio desportivo.

Se a atividade desportiva vinha sendo explorada, até o momento, apenas por

associações civis sem finalidade lucrativa, gerando o descompasso que a todo momento a

mídia trata de explorar e divulgar, o advento da Lei Pelé e suas modificações parecem

aconselhar um novo panorama para o esporte no Brasil. Nossa dúvida, que buscaremos

responder nesta tese, restringe-se à pergunta: A profissionalização do desporto exige a

modificação das estruturas societárias que o exploram?

Criatividade da ciência. A ciência é criadora; e, conquanto sirva mais à


ordem social do que as formações teológicas, escolásticas e metafísicas e do
que a própria tradição, – aparentemente é revolucionária: inventa, descobre,
altera; onde havia o antigo veículo pesado e ronceiro, surge a máquina de
vapor e a eletricidade; onde o defeito do lábio denunciava o talho de tesoura
que a mãe chinesa dera num velho roupão durante a gravidez, mostra a
ciência um dos resultados da sífilis hereditária; onde o político vê a
observância da ordem, o sociólogo denuncia o terror da variação, resquícios
de misticismo primitivo. ...
A verificação científica das relações sociais e a elaboração de regras segundo
os métodos severos da ciência são conservadoras, quando o devem ser, e
progressistas, audazes, quando as próprias circunstâncias sociais contêm o
germe da ordem nova ou é aconselhável a intervenção da regra jurídica.
Porém, naquele como nesse caso, é a objetividade que decide, e não o
artificialismo escolástico ou o subjetivismo embaçante.7

O direito – e não poderia ser de outra forma – não fechou os olhos a esse

fenômeno social. Diante do atual panorama desportivo no país, o direito, como ciência,

observando relevantes aspectos sociais e econômicos, deve deter-se no estudo do fenômeno,

que envolve valores astronômicos e interessa profundamente relevante parcela da população

mundial.

7
PONTES DE MIRANDA. Sistema de ciência positiva do direito – Fundamentos metodológicos do critério e da
investigação científica. Atual. por Vilson Rodrigues Alves. Campinas: Bookseller, 2000. t. IV, p. 241.
Capítulo 1

A EVOLUÇÃO DO ESPORTE E DA LEGISLAÇÃO

DESPORTIVA NO BRASIL

É certo que a vontade de jogar, considerando aí o jogo propriamente, é anterior ao

surgimento da cultura. O desporto, ao contrário, condiciona-se ao desenvolvimento cultural da

sociedade. Enquanto atividade lúdica, tanto nos animais quanto nas crianças se percebe o jogo

como forma de entretenimento. Os jogos infantis e os jogos animais, segundo João Lyra

Filho,8 não revelam traços culturais, embora traduzam algo mais que simples atividades

mecânicas.

Na Grécia antiga, rituais sangrentos e violentos caracterizavam o sentido festivo

das reuniões. Além das formas lúdicas de jogos, surgiram ali as primeiras competições

desportivas, a despeito da crueldade e acerbidade das refregas. Começa a diferençar-se o jogo

da competição.

Competir não é brincar, recrear, distrair o tempo, entreter-se; jogar pode


significar a simulação de uma atividade competitiva ou um arremedo de
competição. O desafio, quando envolve perigo ou risco, não é brinquedo ou
jogo. No desafio que arma a competição há é luta e esta impõe o emprego de
atributos culturais. O jogo ou a anti-seriedade não mobiliza tais atributos;
por isto, pôde antecipar-se à cultura.9

Surgindo a competição a partir do caráter antitético do jogo, cunha-se pelas

peculiaridades culturais da sociedade e do cenário em que se desenvolve. Daí pode-se

8
LYRA FILHO, João. Introdução à sociologia dos desportos. Rio de Janeiro: Record, 1974. p. 15.
9
LYRA FILHO, João. Introdução à sociologia dos desportos, p. 17.
16

concluir que também não há competição em todos os desportos. Este só será competitivo

quando entra em jogo a supremacia do placar, da marca, do escore, do tempo


e de tantos outros índices que demonstram a referida supremacia a favor de
um desportista ou de um elenco de desportistas. Certos autores admitem
como características gerais do jogo a tensão e a incerteza, estando sempre
presente a dúvida: ‘Dará certo?’ Essa expectativa, segundo eles, verifica-se
até mesmo quando se joga paciência ou quando se preenche o vazio do
tempo com acrósticos, palavras cruzadas, quebra-cabeças, etc.10

É exatamente esse encanto com a incerteza do futuro proporcionado pelo desporto

que arregimenta tantos admiradores para seguir as competições. Enquanto simples atividade

lúdica, não atrai atenção como espetáculo. Porém, a idéia competitiva que dele aflora adquire

importância cultural. E cada vez menos se identifica o jogo em sua forma lúdica e a

competição desportiva. Enquanto no primeiro o êxito é efêmero e o sentimento de prazer se

circunscreve aos participantes, na última a vitória persiste e é envolvente, tornando-se crônica

na lembrança do povo e proporcionando divulgação nos meios de comunicação de massa,

ocupando na imprensa lugar de destaque muitas vezes superior a acontecimentos políticos,

sociais e econômicos de relevância.

Como ciência, o Direito deve ocupar-se das várias atividades do homem, cuidando

de disciplinar relações entre pessoas, desde que tenham repercussão no mundo exterior. A

atitude de um ser humano que mata um de seus companheiros, que nos primórdios significava

superioridade sobre seus pares, passou a ser recebida com repúdio e reprovação. Cada uma

das atividades da pessoa que repercutam na sociedade passou a ter sua previsão nos

ordenamentos jurídicos.

Assim foi com as condutas criminais, com o direito de propriedade, com as

relações familiares e comerciais. As relações do particular com o Estado também tiveram sua

10
LYRA FILHO, João. Introdução à sociologia dos desportos. p. 18.
17

disciplina rigidamente imposta, nas formas embrionárias do direito constitucional e

administrativo modernos. E o homem evoluiu.

Chegou a um ponto em que não lhe bastavam mais os limites terrenos para conter-

a sua curiosidade. No último século, progressos extraordinários puderam ser observados.

Depois de passar os últimos dois mil anos evoluindo a passos lentos – e, nesse passo,

evoluindo a ciência jurídica –, no último século a humanidade experimentou um salto que não

se compara a nenhuma revolução experimentada antes pela sociedade.

Surgiu o rádio. A modernização da imprensa tornou ainda mais popular o costume

da leitura. Veio o automóvel e um enorme desenvolvimento dos meios de transporte,

incrementando ainda mais a divulgação das notícias impressas. Depois, a televisão se tornou o

mais importante meio de comunicação deste século. Finalmente, a informática se desenvolveu

ao ponto de ser, hoje, praticamente impossível viver sem um microcomputador e, em breve,

inimaginável estar isolado da internet.

No compasso da evolução do homem, pudemos perceber um crescimento

espantoso da publicidade. O que era de somenos importância assumiu, nas últimas décadas,

proporções surpreendentes. O incremento do marketing contribuiu para uma mudança radical

de percepção. Afinal, o público em geral busca divertir-se nos seus momentos de prazer e

relaxamento. Dentre esses modos de diversão, vislumbramos enorme atenção ao esporte.

Nesse ritmo de evolução, entretanto, não caminharam as leis.

Antes de iniciar o tratamento do tema, esclarecemos que não vemos motivos para

a diferenciação dos termos esporte e desporto, ao contrário do que defendem alguns. Manoel

Tubino11 faz abrangente síntese dos autores que estudaram a origem das palavras esporte e

desporto, para afinal concluir que as expressões possuem, na língua portuguesa, o mesmo

sentido.

11
TUBINO, Manoel. Teoria geral do esporte. São Paulo: Ibrasa, 1987. p. 38.
18

Atividade praticada na Roma Antiga dentro dos coliseus – verdadeiros estádios

em que os povos se aglomeravam, procurando a satisfação de suas desilusões, vendo

gladiadores em luta entre si e com animais selvagens –, o esporte adquiriu contornos

competitivos, cresceu e se desenvolveu até os dias de hoje, atraindo multidões.

O esporte ganha estruturação no final do século XVIII e início do século


XIX, quando na Inglaterra surgem as organizações específicas denominadas
clubes, com regulamentações e codificações, as quais facilitaram a
internacionalização das modalidades desportivas. E é neste período que se
exalta a conduta esportiva cavalheiresca, com ênfase no respeito ao
adversário, com aceitação da derrota, o que se convencionou chamar-se de
‘fair play’, e que vige até hoje, valendo lembrar que a FIFA – órgão máximo
do futebol mundial – tem incentivado essa conduta nas competições.12

Quase todo ser humano, em alguma fase de sua vida, ocupou-se da prática de

alguma modalidade desportiva. No passado, o atletismo, o hipismo, esportes de luta; mais

recentemente, também o futebol, o voleibol, o basquetebol, o esporte especializado. No breve

histórico de Valed Perry,

1 – As atividades desportivas, a princípio, limitavam-se à prática do jogo ou


ramo desportivo, em obediência, unicamente, às regras preestabelecidas: as
regras ou as leis do jogo.
E São Paulo, o Apóstolo, na II Epístola a Timóteo, acentuava:
‘Efetivamente, também o que combate nos jogos públicos não é coroado,
senão depois que combateu, segundo as regras’.
Mas a evolução do desporto, sua disseminação e o próprio desenvolvimento
histórico dos povos multiplicaram as competições e já não se defrontavam,
tão-somente, povos contra povos, cidades contra cidades, e sim grupamentos
contra grupamentos, equipes, num arremedo do que seria mais tarde as
‘associações’.
E essas vieram, reunindo praticantes de um determinado ramo desportivo
que se enfrentavam nos estádios, nas quadras, nas piscinas e que, aos
poucos, se foram organizando, criando cargos de direção, distribuindo
funções, até a formulação de seus estatutos.
Nasceram os clubes.13

12
ZAINAGHI, Domingos Sávio. Os atletas profissionais de futebol no direito do trabalho. São Paulo: LTr,
1998. p. 20.
13
PERRY, Valed. O direito desportivo. Revista Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 18, 1° sem.
2002.
19

Percebendo o filão que se abria,14 a mídia cada vez mais passou a explorar a

divulgação das práticas esportivas. Com a extensão dos domínios das televisões, rádios,

veículos de comunicação, vincular qualquer atividade ao desporto passou a ser a forma mais

fácil e agradável de atingir o grande público.

Empresas de aviação, fábricas de laticínios, refinarias de soja, marcas de

refrigerante e cerveja, fabricantes de automóveis e até funerárias destinam vultosas quantias à

publicidade e patrocínio de times de futebol ou outros esportes especializados. Tudo isso por

um lugar ao sol, ou na mídia.15

As televisões e os maiores jornais impressos do país têm, diariamente, dedicado

espaço considerável ao jornalismo desportivo. Até diários especializados, como a Gazeta

Mercantil, costumam trazer notícias relacionadas ao esporte: patrocínios, transações

milionárias envolvendo atletas ou parcerias com clubes e diversas outras.

Mesmo com a evolução do interesse da sociedade e do poder econômico pela

exploração e desenvolvimento do desporto, o direito demorou a acompanhar os fatos.

Nos primórdios, ascenderam nas administrações clubísticas aqueles que prestaram

relevantes serviços aos clubes, de forma honesta e desobrigada de qualquer benefício além da

satisfação pessoal em ver realizado um sonho coletivo de contribuir para a organização da

incipiente atividade desportiva e de lazer no Brasil. No entanto, com o passar do tempo,

modificaram-se as motivações. Interesses divorciados dos reais objetivos dos fundadores das

associações desportivas tomaram corpo. Assumiram a direção da maior parte dos clubes no

Brasil pessoas preocupadas sobretudo com sua própria realização pessoal (e independência

14
Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, a indústria do esporte movimenta R$ 30 bilhões por ano, o que
equivale a 3,3% do PIB brasileiro (informação verbal colhida em palestra proferida por COSTA, Carlos
Eduardo. Marketing esportivo. In: SEMINÁRIO DE DIREITO DESPORTIVO, 1, 2001, Belo Horizonte).
15
Anotamos a evolução da audiência acumulada nas Copas do Mundo do México, em 1986: 13,5 bilhões de
pessoas; Itália, 1990: 26,7 bilhões; Estados Unidos, 1994: 32,1 bilhões; e, finalmente, na Copa da França, em
1998: 37,0 bilhões de telespectadores (PRONI, Marcelo Weishaupt. A metamorfose do futebol, apud COSTA,
Carlos Eduardo. Marketing esportivo. In: SEMINÁRIO DE DIREITO DESPORTIVO, 1, 2001, Belo Horizonte).
20

financeira, em alguns casos). Direcionaram-se os estatutos sociais em proveito próprio,

fazendo nascer uma casta de dirigentes desportivos. O cetro do poder nos clubes passou a

fazer parte da própria herança de famílias. Os cargos de direção das associações passou a ser

privilégio de grupos restritos.

A ingerência legislativa na organização interna dos clubes pretendeu moralizar o

setor, composto por devedores contumazes da Previdência Social, inadimplentes com a maior

parte de seus fornecedores e ex-funcionários. O objetivo da Lei Pelé, digno de aplausos,

parecia singelo. Tornava obrigatória a transformação dos clubes, então associações civis sem

finalidade lucrativa, em empreendimentos economicamente viáveis. Os que não obedecessem

ao ditame legal seriam alijados de participar de competições de caráter profissional. Com a

cogente transformação em sociedades com finalidade econômica, a Lei n. 9.615/98 pretendia

sujeitar os clubes aos procedimentos concursais de quebra e concordata.

Entretanto, argumentos contrários surgiram por todos os lados, especialmente por

iniciativa daquelas castas sociais privilegiadas: as dinastias reinantes nos clubes de maior

expressão no país. Diziam eles: “O que movimenta o clube é a paixão de seus sócios e

torcedores, não o interesse econômico.” Seria, então, possível a falência de um sonho?16

Diante de tantas vozes – ainda que mal-informadas, ou mal-intencionadas –, modificou-se a

Lei Pelé. Primeiro, com a publicação da Lei n. 9.981/2000. Em seguida, com a edição da

Medida Provisória n. 2.141, de 23 de março de 2001, arquitetada pelo Prof. Álvaro de Melo

Filho, que assim comenta as modificações sugeridas:

16
Na Argentina, os torcedores do Racing viveram essa realidade, pois o clube de futebol teve a falência
decretada em 1998. Alguns de seus maiores credores foram ressarcidos com o passe de jogadores. Da mesma
forma, foi noticiada a possibilidade de falência do Atletico de Madrid, clube espanhol:
“Atletico de Madrid pode ter falência decretada
Justiça espanhola exige quitação de US$ 74,5 milhões em débitos
Um oficial de justiça da Corte espanhola enviou uma notificação à direção do Atletico de Madrid em que alerta
que o time está formalmente em situação de falência. Se débitos tributários e trabalhistas da ordem de US$ 74,5
milhões (R$ 130 milhões) não forem equacionados "urgentemente", a falência poderá ser requisitada.
O presidente Luis Manuel Rubi, que substitui o afastado Jesus Gil – por denúncias de desvio de verbas e
sonegação de impostos – informou em seu relatório sobre a situação do clube que o time está à beira da falência,
reforçando o aviso da Justiça.” (Disponível em: http://esportesa. lancenet. com. br/investimentos/investim84.
htm. Acesso em 12/7/2000.)
21

Augura-se, ainda, que, com tais revogações, os investimentos canalizados


para o futebol brasileiro tenham mais durabilidade e consistência, em vez de
atrair apenas capitais financeiros tão voláteis quanto especulativos, que
acabam dando uma ‘contribuição de pioria’ ao clube-empresa, sobretudo
num contexto em que ‘o futebol não é um jogo de bola, mas um negócio
mundializado’, no dizer de Fábio Koff.17

Finalmente, publicaram-se a Medida Provisória n. 39, de 14 de junho de 2002,

rejeitada pela Câmara dos Deputados em 5/11/2002, e, três semanas após, a Medida

Provisória n. 79, que, inconstitucionalmente, repete o texto rejeitado da Medida Provisória 39.

Toda essa celeuma legislativa foi motivada, logicamente, pelos contundentes

valores que envolvem atualmente os contratos entre times e seleções esportivas, de um lado, e

grupos econômicos interessados em utilizar o desporto para divulgar seus produtos ou, ainda,

comercializar marcas e símbolos dos clubes, de outro. Podemos mencionar alguns exemplos

para ilustrar nosso argumento:

1. No exterior, o Manchester United Football Club, cujas ações são vendidas na

Bolsa de Valores de Londres, teve, em 1999, uma oferta de aquisição da ordem de 1 bilhão de

dólares, não concretizada por restrições impostas pelo governo inglês. Apenas no ano 2000,

experimentou elevada valorização, alcançando valores de mercado próximos de 3 bilhões de

reais.18

2. Após a aprovação da Lei n. 9.615/98, os investimentos no Brasil se

multiplicaram. Pudemos acompanhar no noticiário informações acerca dos contratos de

parceria entre clubes de futebol e fundos de investimentos, empresas e grupos econômicos. Só

17
MELO FILHO, Álvaro. Medida Provisória n. 2. 141: Uma revolução sem armas no desporto. Revista
Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 34, 2002.
18
“Manchester United atinge valor de R$ 3 bilhões
Valorização das ações atinge 41% este ano por causa de Internet e TV
Os investidores europeus não deram a mínima atenção para o fiasco do Manchester United no primeiro Mundial
de Clubes, realizado em janeiro no Brasil, quando o time inglês mais popular sequer ficou entre os quatro
primeiros lugares. Desde o começo do ano, as ações do clube não param de subir, atingindo uma valorização de
41% em menos de três meses. A alta dos papéis -- cotados na Bolsa de Londres desde 1991 – levou a cotação
para as 402 libras (R$ 1. 125) das 285 libras (R$ 798) em dezembro de 1999.” (Disponível em: http://esportesa.
lancenet. com. br/investimentos/investim59. htm. Acesso em 12/7/2000.)
22

para citar alguns exemplos, o Clube de Regatas do Flamengo celebrou contrato próximo de

800 milhões de reais com a ISL,19 para vigorar por quinze anos. O Sport Clube Corinthians

Paulista e sua parceira, o fundo de investimentos norte-americano Hicks, Muse, Tate & Furst

(HMTF), falam em investimentos, em apenas um ano, de cerca de 125 milhões de reais,

prevendo retorno do investimento em cerca de dois anos.20 Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro

Esporte Clube, agremiações mineiras, com menor número de torcedores, negociam ou

firmaram contratos próximos a 500 milhões de reais, por períodos semelhantes. O Vasco da

Gama celebrou uma parceria com o Bank of America para vigorar até 2099, cujos valores não

foram divulgados oficialmente.

3. Um fabricante de polpa de tomates do interior paulista – subsidiária de uma

multinacional com atuação em vários mercados no Brasil – comprou um time regional,

mudou seu nome e uniforme e, passando a investir enormes verbas, transformou-o na grande

sensação das divisões inferiores do futebol paulista. Outrora obscuro nos campeonatos

estaduais, disputando suas chances na 3a divisão, já chegou, após menos de 30 meses da

incorporação pela multinacional, à conquista do título da 3a divisão e, no ano seguinte, à

disputa do título da 2a. Em 2002, participou do disputado e tradicional Torneio Rio–São

Paulo. Apesar disso, a cidade ainda torce pelo antecessor, o clube que morreu por interesse do

capitalismo, e vai ao estádio vestida com as cores da antiga agremiação, que nem são mais as

19
Empresa suíça de marketing esportivo, responsável pela promoção das Copas do Mundo, organizadas pela
FIFA, dos Torneios de Tênis da ATP – Associação de Tenistas Profissionais e do Campeonato Mundial de
Fórmula 1, cuja organização compete à FIA – Federação Internacional de Automobilismo.
20
“Esporte S. A!: Quando a parceria foi anunciada em 1999, Cesar Baez (vice-presidente da Hicks Muse) disse
que o investimento no primeiro ano seria de US$ 30 milhões (R$ 55 milhões), mais contratação de jogadores,
que já somou cerca de R$ 70 milhões. Foi isso que a Hicks Muse já investiu (R$ 125 milhões) até agora.
LAW: Não tenho os números exatos, mas deve ser por aí.
Esporte S. A!: Qual a expectativa de retorno do investimento? Quando a operação Corinthians vai atingir o
ponto de equilíbrio (quando as receitas obtidas empatam com os investimentos feitos e os custos rotineiros)?
LAW: Em dois anos, o que é um prazo inferior ao que havíamos calculado no começo. Isso pode acontecer
porque estamos sendo muito disciplinados nos nossos planos e projetos, trabalhando muito.” (Disponível em:
http://esportesa. lancenet. com. br/Entrevista/entrevis27. htm. Acesso em 12/7/2000.)
23

mesmas.21

4. Em ascensão fulminante, o Brasiliense Futebol Clube, adquirido pelo

empresário milionário da capital federal Luiz Estêvão, ex-senador da República, cassado por

suspeitas de co-participação no superfaturamento da obra do Fórum Trabalhista de São Paulo,

chegou, menos de três anos após sua fundação, às finais da Copa do Brasil, após eliminar os

centenários Fluminense Football Club e Clube Atlético Mineiro. Organizado como empresa,

buscando auferir lucro com seus êxitos desportivos, foi derrotado nas finais para o Sport

Clube Corínthians Paulista e perdeu a chance de disputar a Taça Libertadores, o milionário e

mais importante torneio entre clubes das Américas.

5. São noticiados, a todo momento, negócios e vendas de passes de jogadores de

futebol por 15, 20 milhões de dólares. Jogadores são contratados com salários mensais de 400,

500 mil reais. Poucos, é verdade, pois a grande maioria mal recebe um salário mínimo para

jogar,22 apesar de estarem sujeitos à mesma regulamentação de trabalho. Técnicos de futebol

21
Trata-se do Etti Jundiaí, clube de futebol da cidade do interior de São Paulo, antigo Paulista de Jundiaí, que foi
comprado pela multinacional Parmalat S. p. A. O antigo uniforme, azul e branco, passou a ostentar a cor
vermelha, com o objetivo de lembrar o produto da multinacional: o extrato de tomate Etti.

22
MAIORIA dos jogadores ganha até r$ 360. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 jan. 2002, p. D4:
“Apesar dos salários milionários pagos pelos principais clubes do país, a vida da maioria dos jogadores
brasileiros está longe do glamour e da mordomia de craques como Romário, do Vasco, e Edílson, do Cruzeiro.
De acordo com documentos do Departamento de Registro e Transferência da CBF obtidos pela Folha, 82,17%
dos atletas nacionais receberam em 2001 até dois salários mínimos. Ou seja, 16. 785 dos 20. 428 registrados na
CBF ganharam até R$ 360 mensais.
Na pirâmide salarial do ano passado, os jogadores que recebem até um salário mínimo formam o maior grupo.
Os clubes pagam apenas R$ 180 mensais para 42,62% dos atletas.
Os jogadores que recebem grandes salários formam o grupo mais reduzido. No total, eles são menos de mil
atletas. Segundo a CBF, apenas 3,75% dos jogadores ganham mais de 20 salários mínimos – R$ 3. 600 por mês.
O ano passado foi marcado por uma grave crise financeira no futebol brasileiro. Até grandes clubes atrasaram
salários.
Mesmo com a péssima distribuição de renda no futebol brasileiro, a elite dos atletas cresceu em 2001 depois de
quatro anos seguidos de queda.
O percentual de jogadores que recebem mais de 20 salários mínimos diminui desde 1997. Naquele ano, eles
representavam 5,20% do bolo salarial. No ano seguinte, a elite dos jogadores diminuiu para 4,30%. Em 1999,
houve nova queda entre os ricos da bola – 3,70%. No ano passado, a elite chegou ao seu pior percentual –
3,35%.
O número de jogadores que formam a base da pirâmide salarial também foi reduzido. Em 2000, 44,91% dos
atletas recebiam até um salário mínimo. No ano passado, a marca foi de 42,62%.
A estatística da pirâmide salarial dos jogadores é feita anualmente pela CBF, com base nos dados fornecidos
pelos clubes. Obrigatoriamente, todos os contratos são registrados na principal entidade do futebol brasileiro.
24

renomados ganham salários na mesma proporção, ao passo que outros, desconhecidos,

seguem trabalhando muitas vezes por ideal e amor ao esporte. A situação antes da Lei Pelé

poderia ser comparada quase a um regime de escravidão,23 pois o atleta, ao final de seu

contrato, permanecia vinculado ao clube, sem receber salários e sem poder se transferir

livremente para outra entidade desportiva. Era obrigado a aguardar a conveniência do

dirigente desportivo (na maior parte das vezes, tomado pela paixão de torcedor e pouco

profissional na administração do clube), ficando proibido de exercer sua profissão e sem ser

remunerado.

6. No Brasil, clubes e federações desde sempre resolvem criar normas e

regulamentos específicos para atender exclusivamente a seus interesses. À custa de conchavos

políticos, cometem ilegalidades, rebaixando times de pequena expressão apenas para

beneficiar clubes tradicionais, porém mal administrados e, conseqüentemente, com pouca

eficiência no esporte.24

O levantamento tem distorções por causa dos clubes que não declaram o valor verdadeiro dos salários dos seus
jogadores. Muitos dirigentes pressionam os jogadores a assinar contratos no valor de um salário mínimo, mas
pagam por fora até mais de R$ 2 mil.
A péssima distribuição salarial no futebol não é diferente da dos outros trabalhadores brasileiros.
De acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio) do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística), apenas 1,6% dos trabalhadores brasileiros receberam mais de 20 salários mínimos em
1999.
O Departamento de Registro e Transferência da CBF ainda não conseguiu fazer um levantamento do número de
atletas desempregados no país.”
23
“A escravidão propriamente dita é o estabelecimento de um direito que torna um homem tão próprio de outro
homem, que este é o senhor absoluto de sua vida e de seus bens. Não é boa por natureza; não é útil nem ao
senhor, nem ao escravo: a este, porque nada pode fazer por virtude; àquele, porque contrai com seus escravos
toda sorte de maus hábitos e se acostuma insensivelmente a faltar contra todas as virtudes morais; torna-se
orgulhoso, brusco, duro, colérico, voluptuoso, cruel.” (MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de. O
espírito das leis. Trad. Cristina Murachco. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 253.) Essa noção
emprestada de Montesquieu talvez explique por que a classe dirigente desportiva tenha as atitudes que tem.
24
Como no caso do Campeonato Brasileiro de Futebol de 1999, que sofreu mudanças de última hora para manter
clubes conhecidos nacionalmente, como o Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro, time tradicional do
futebol brasileiro que surgiu em 1942 a partir da fusão do Clube de Regatas do Botafogo, de 1o de julho de 1894,
com o Botafogo de Foot Ball Club, de 18 de agosto de 1904, rebaixando a Sociedade Esportiva do Gama, de
Brasília, nascido em 1975 e de pouca expressão no restante do país.
25

A legislação brasileira atual

A Lei n. 9.615/98 previu a possibilidade da prática formal e não-formal do

desporto, sendo a primeira regulada por normas nacionais e internacionais e pelas regras de

prática desportiva de cada modalidade, aceitas pelas respectivas entidades nacionais de

administração do desporto, enquanto a segunda se caracteriza pela liberdade lúdica de seus

participantes. Considerou que pode ainda ser reconhecido o desporto segundo as seguintes

manifestações:

a) desporto educacional, praticado nas escolas, estabelecimentos de ensino e em

formas assistemáticas de educação, no qual são evitadas a seletividade, a

hipercompetitividade entre seus participantes, tendo por finalidade a integração

do indivíduo à sociedade, formando-o para o exercício pleno da cidadania e a

prática do lazer;

b) desporto de participação, de modo voluntário, compreendidas as atividades

desenvolvidas pelos praticantes com o intuito de buscar a interação social, a

promoção da saúde, a educação e a preservação meio ambiente;

c) desporto de rendimento, praticado segundo as normas gerais da Lei n. 9.615/98 e

as regras de prática desportiva nacionais e internacionais, buscando obter

resultados, integrando pessoas e comunidades, mas em caráter competitivo.

Interessa-nos apenas esta última modalidade de prática desportiva, pois envolve a

observância de regras claras, competição, divulgação, remuneração, seriedade e aplicação no

seu desempenho. Afinal, não se paga para assistir a uma competição entre crianças, nos jogos

da escola, como também não interessam ao direito a interação social num condomínio quando

os vizinhos se reúnem para uma partida de peteca ou o encontro de amigos no clube ou no


26

campinho situado naquele lote vago. Esses são meros eventos sociais; são atos-fatos que não

repercutem no Direito. Podem interessar a outras ciências humanas, que estudam a interação

da sociedade, relacionamentos interpessoais, etc. É o que pondera Pontes de Miranda:

Há fatos que não interessam ao mundo jurídico, isto é, são estranhos ao


direito. A nuvem que está passando, a estrela cadente, o eclipse do Sol ou da
Lua, o que ocorre no fundo dos mares, ou na estratosfera, mesmo fatos que
são de grande importância para o nosso corpo e para a vida dos animais, a
cachoeira que está murmurando há milênios, tudo isso é fático e não é
jurídico. Se algum desses fatos entra no mundo jurídico, é porque o direito
se interessou por ele. A técnica que tem o direito, mero processo social de
adaptação, para chamar a si o fato que antes não lhe importava, é a regra
jurídica.25

O desporto de rendimento pode ainda ser praticado de modo profissional ou não-

profissional, sendo este caracterizado pela liberdade de prática e inexistência de qualquer

forma de remuneração, salvo incentivos materiais e de patrocínio, enquanto aquele será

identificado por remuneração pactuada em contrato formal de trabalho celebrado entre o atleta

e a entidade de prática desportiva. Justamente em função do caráter de remuneração do

trabalho encontrado nessa manifestação do esporte é que o Direito deve se ocupar.

Pretendemos analisar a repercussão da nova legislação sobre o desporto apenas

sob a perspectiva do clube de futebol. Não só porque é a grande paixão nacional, cujos fatos

repercutem no dia-a-dia de grande parcela da população, chegando a parar totalmente o país

em certas oportunidades, como se viu na final da Copa do Mundo ou no retorno recente da

Seleção Brasileira pentacampeã, mas principalmente porque estabeleceu o art. 94 da Lei n.

9.615/98 ser obrigatória a transformação em clube-empresa apenas para as entidades de

prática profissional da modalidade de futebol, sendo as disposições apenas facultativas para os

demais desportos, disposição, aliás, impertinente na Lei Geral sobre Desportos, pois cria

25
PONTES DE MIRANDA. Tratado das ações – Ação, classificação e eficácia. Atual. por: Vilson Rodrigues
Alves. Campinas: Bookseller, 1998. t. I, p. 21.
27

norma específica para uma modalidade.

Enquanto alguns times de futebol recebem aportes milionários de investimentos,

clubes menos conhecidos chegam a buscar doações para a manutenção de seus atletas. Mas a

legislação não tratou de forma diferente os desiguais, fazendo-os, assim, iguais. Manteve

exatamente o mesmo critério para todo e qualquer clube que pretenda disputar competições

desportivas profissionais. Impôs a forma mercantil, sob pena de equiparação às sociedades

irregulares ou de fato.

Mas agiu corretamente o legislador? Analisando as atividades diárias, não poderia

o operador do Direito concluir pela natureza mercantil dos clubes? Seria necessário impor

uma regra genérica e tão contundente para todas as entidades desportivas? E como fica o

interesse do sócio que, ao se agregar ao clube, busca apenas usufruir dos benefícios da

associação, a interação com amigos, o desenvolvimento social de seus filhos, sem, jamais,

importar-se com a possibilidade de auferir lucros daquela sociedade? Mais ainda: Qual a

qualidade desse sócio que não aderiu ao clube para obter vantagens pecuniárias? Porque toda

espécie de sociedade comercial admitida no Direito Brasileiro tem uma característica comum:

o direito à partilha dos lucros entre seus membros.


Capítulo 2

O COMÉRCIO

A palavra comércio nos dá a noção de troca de mercadorias, de compra e revenda.

Mas é também a atividade profissional daquele que pratica atos para facilitar o tráfico de

mercadorias. Deriva do latim commerciu(m), adição da preposição cum ao substantivo merx,

significando mercadoria, comestível, mas também coisa, pessoa.26

É importante, de qualquer forma, não perder as noções de troca e especulação

embutidas na palavra comércio. Enquanto troca, traz-nos a lembrança de circulação de bens, o

contrato mais singelo praticado pelos povos primitivos. “Seu mecanismo consiste na entrega

de uma coisa por outra – rem pro re – objetivando a prestação de cada um dos contratantes

uma coisa em espécie”, como preleciona Caio Mário da Silva Pereira.27 Mas também troca de

coisa por dinheiro, ou compra e venda, lembrada por Orlando Gomes como o “contrato pelo

qual uma das partes se obriga a transferir a propriedade de uma coisa à outra parte, recebendo,

em contraprestação, determinada soma de dinheiro ou valor fiduciário equivalente”.28 E, nessa

idéia de especulação, está embutida a noção de lucro, vantagem, inerente à atividade

comercial e dela não se podendo admitir separar-se.

No conceito de comércio, necessariamente, está embutida a idéia de


especulação, de vantagem, de atividade que visa a obtenção de lucro pela
transferência de um produto ou mercadoria a outro, tendo a compra e venda
26
FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. 2. ed. Rio de Janeiro: Companhia Nacional de Material
de Ensino, 1956. p. 586, apud COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante
ao produtor rural. 1994. Tese (Doutorado em Direito) Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte. p. 13.
27
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1990. v. III, p.
137.
28
GOMES, Orlando. Contratos. Atual. por Humberto Theodoro Jr. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1999. p. 221.
29

como seu pressuposto mais importante.


Afinal, o comércio implica numa atividade que busca atingir o consumidor
final, propiciando-lhe oportunidade para aquisição de produtos ou
mercadorias que são colocadas à sua disposição. Em muitos casos, quem
assim age, interpondo-se entre o produtor e o consumidor, é chamado de
atravessador, como ocorre com aqueles que adquirem produtos rurais para
vendê-los nas feiras e mercados, forçando considerável aumento dos
preços.29

No início da civilização, os grupos humanos permaneciam isolados, sob a

proteção de um patriarca, chefe supremo da organizações sociais da época. Então, não se fazia

troca de mercadorias. O grupo trabalhava a terra e os animais domésticos, buscando a

produção para a própria subsistência. Ao patriarca cabiam os ônus de proteção de seu

grupamento de indivíduos. Em contrapartida, o povo a ele entregava sua produção. Enquanto

chefe daquela organização social, o patriarca se encarregava da distribuição, segundo sua

vontade e conveniência, outorgando a cada um sua parcela, segundo suas necessidades,

concebidas pela ótica do senhor. A produção de então não permitia trocas, pois não havia

sobras suficientes para tanto. E o próprio patriarca continha a produção, a fim de evitar que,

com o enriquecimento das classes menos abastadas, estas se insurgissem contra seu poder.

Assim, a sociedade humana, nesta raça, não se expandiu à maneira de um


círculo que se alastrasse paulatinamente, de um lugar a outro, mas, ao
contrário, pela junção de pequenos grupos, já constituídos há muito tempo.
Muitas famílias30 formaram a fratria,31 muitas fratrias a tribo,32 e muitas
tribos a cidade.33 Família, fratria, tribo, cidade são, portanto, sociedades

29
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural. 1994.
Tese (Doutorado em Direito): Faculdade de Direito da UFMG, Belo Horizonte, p. 14.
30
“Família. A família antiga assentava no culto do antepassado comum, sendo o pai, o sacerdote o juiz e o
chefe. A família transmitia-se pelo homem e não pela mulher.” (Glossário organizado por AGUIAR, Fernando
de. In: FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga. Trad. Fernando de Aguiar. 4. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1998. p. 573.)
31
“Fratria. (Do lat. phratria. ) Subdivisão da tribo na Ática e em muitos outros estados gregos. (Glossário
organizado por AGUIAR, Fernando de. In: FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga, p. 576.)
32
“Tribo. (Do lat. tribus. ) Aglomeração de famílias sob a autoridade de um mesmo chefe, vivendo na mesma
localidade e com interesses comuns. Para os antigos era uma das divisões do povo: a Ática teve sucessivamente
quatro, dez e até treze tribos; em Roma primitivamente só houve três tribos. (Glossário organizado por
AGUIAR, Fernando de. In: FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga, p. 621.)
33
“Cidade. Temos na terminologia arqueológica portuguesa um termo que, de qualuqer maneira, nos define a
cidade dos antigos – citânia. Assim, a palavra civitas não significa para os romandos o mesmo que para nós a
cidade, centro de povoação constituído pela contigüidade de muitos moradores, mas sociedade política
independentemente organizada, Estado, numa palavra. Para designar a nossa cidade tinham as palavras oppidum
30

perfeitamente análogas e nascidas umas das outras por uma série de


federações. (...)
A cidade era uma confederação. Por isso se viu obrigada, pelo menos
durante alguns séculos, a respeitar a independência religiosa e civil das
tribos, das cúrias e das famílias, e ainda por isso não teve desde logo o
direito de intervir nos negócios particulares de cada um desses pequenos
corpos. A cidade nada tinha a ver com quanto se passasse no seio de cada
família: não era juiz do que por lá se passava e deixava ao pai o direito e o
dever de julgar sua mulher, seu filho ou o seu cliente. Por essa razão o
direito privado, prefixado na época do isolamento das famílias, pôde durar
nas cidades até muito tarde, sem se modificar.34

Mas, mesmo assim, a necessidade de aumentar a produção era patente. Seja

porque cada grupamento obtinha melhores resultados na produção de determinados bens, seja

porque não conseguiam gerar todos os artigos de necessidade, seja por mera curiosidade em

relação a bens de consumo diferentes dos que sabia obter. Iniciou-se, então, a especialização

na produção. Cada grupamento de indivíduos, lançando mão de ferramentas e insumos

característicos, incrementou a obtenção de determinados bens, passando a havê-los em

quantidade suficiente para o consumo interno do grupo e com excedentes destinados à troca

por utilidades que não produzia.

Deu-se início, então, ao escambo de mercadorias. Posteriormente, fez-se

necessária a criação de moedas e, por conseqüência, iniciou-se o processo de compra e venda.

Percebendo a vantagem de tal forma de abastecimento das necessidades dos indivíduos, cada

vez mais se especializaram a produção e troca. O comércio se desenvolveu por exigência da

humanidade, que começava a se organizar. Em A República,35 Platão discorre sobre o Estado

organizado, fundado na noção de justiça, para ele o Estado ideal. Já se percebia a necessidade

e urbs, implicando a primeira ainda a idéia de fortificação. Nos primeiros tempos, quando só os habitantes de
Roma eram cidadãos, civitas e urbs coincidiam, o mesmo sendo a Roma urbs que a Roma civitas. Depois, ao
estender-se o direito de cidadania, Roma continuou sendo a urbs, mas já não foi toda a civitas, mas unicamente
sua capital. Cícero (Pro-Sextio, 42) distingue bem: tum conventicula hominum, quae postea civitates nominatae
sunt; tum domicilia conjuncta, quae urbes dicimus (então tiveram início as associações de homens, que se
chamaram cidades; então os domicílios juntos, que se dizem urbes).” (Glossário organizado por AGUIAR,
Fernando de. In: FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga. p. 555.)
34
FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga, p. 134.
35
PLATÃO. A república. Trad. Leonel Vallandro. 23. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
31

de um comércio para abastecer a sociedade. Nessa incipiente atividade de comércio, surgiram

logo os profissionais especializados na obtenção dos excessos e em sua troca aos carentes de

tais produtos. Esses – os primeiros comerciantes – passaram a ter como profissão econômica a

intermediação entre a fonte e o destino dos bens. No dizer da doutrina comercialista, entre o

produtor e o consumidor.

Não é unicamente a atividade de intermediação, entretanto, que caracteriza a

profissão do comerciante. Enquanto explora determinada atividade profissionalmente, pode o

ser humano intermediar a troca de produtos. Mas, sendo essa conduta secundária no resultado

final de seu objetivo, não necessariamente poderá ser considerado comerciante. A mediação

só se constituirá em profissão quando for praticada de forma habitual, como atividade

principal de quem exerça tal ofício. Pode ocorrer que, para atingir determinado objetivo, o ser

humano pratique também outras atividades. Essas, no entanto, por não serem primordiais para

a consecução de sua proposta, não serão suficientes para distinguir sua atividade. Para Wille

Duarte Costa, a atividade preponderante exercida assume importância para a caracterização da

profissão de comerciante:

Se a atividade de mediação, praticada com habitualidade, não superar as


demais, será atraída por outra atividade do conjunto, que representa aquela
que busca o objetivo principal. Se essa atividade não for mercantil, as
demais ficam afetadas por ela. A atividade preponderante é que prevalecerá,
como ocorre com determinadas instituições esportivas, recreativas,
religiosas, científicas e outras. Essas instituições, em muitas ocasiões, têm
necessidade de ativar um ou outro comércio. Exercitam a compra e venda,
interpõem-se entre o produtor e o consumidor. No entanto, sob o aspecto
jurídico não são mercantis.36

Mas a noção econômica de comércio restringe demais o entendimento da

atividade. A norma jurídica busca generalizar atividades semelhantes dentro de um mesmo

conceito. Ao aplicador da lei caberá a particularização dos conceitos. Explicava João Eunápio

36
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 40.
32

Borges:

Já dizia Straccha que ‘verbum commercium generale est ad omnem


contractum’, aplicando-se a todos os contratos cujo objeto seja a transmissão
de uma coisa ou de um direito. É nesse sentido, amplo e geral, que se diz que
uma coisa está ‘no comércio’ ou está ‘fora do comércio’. (...)
Num sentido próprio, que técnica e cientificamente é o que nos interessa,
comércio é a indústria, é o ramo da atividade humana que tem por objeto a
aproximação de produtores e consumidores para a realização ou facilitação
das trocas.37

Com a evolução do pensamento humano, substituiu-se a noção de comerciante

pela de empresário, como falaremos adiante. Não se diz mais que quem exerce atividade

profissional de mediação e troca, buscando lucro, é comerciante. Por ser mais abrangente, o

termo empresário empresta melhor noção à atividade econômica profissionalmente exercida,

com finalidade lucrativa.

Assim, uma escola pode manter uma cantina para a alimentação de seus

estudantes. Pode, também, ter um setor para cópias xerográficas de material didático, sendo

este serviço cobrado dos seus usuários. Sua atividade final é o ensino. Mas a venda de

alimentos constitui matéria de comércio. A produção de cópias também gerará renda,

consistindo em atividade típica de uma papelaria. Será, então, mercantil a atividade do

estabelecimento de ensino? Logicamente, podemos deduzir que não. As atividades acima

mencionadas são, apenas, meios para a melhor entrega do objetivo final pretendido: o ensino.

Continua Wille Duarte Costa:

Se os elementos são os mesmos, o entendimento de que a pessoa não se


qualifica como comerciante só se justifica porque o objetivo dela é outro,
que não a prática do comércio. Para ela, o comércio será sempre uma
atividade secundária, que sofre atração da atividade diferente, chamada
principal (recreação, esportes, religião, arte, cultura, ciência ou outra
atividade semelhante).
Nem podia ser de outra forma, quando o comércio exercido por tais pessoas

37
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre. Rio de Janeiro: Forense, 1959. v. 1, n. 3, p. 11.
33

quase sempre busca melhorar ou ajudar sua situação econômica e financeira,


cujo resultado é empregado na atividade-fim, numa espécie de sustentação
ou alicerce para dar continuidade ao que busca oferecer a terceiros.38

Nesse caso também se enquadram os clubes e agremiações desportivas que

competem em caráter profissional? Afinal, dirão alguns, seu objetivo final é proporcionar o

divertimento e a prática de esporte para seus sócios e incentivadores.

O exercício de atividade mercantil será apenas suporte para o exercício da


atividade principal. Também não se pode dizer que assim ocorre porque a
atividade-fim ou principal, preponderante, não busca a especulação, o lucro,
pois este elemento não tem o menor sentido e não é importante para a
conclusão final, que independe dele. Depois disso, o lucro é necessário para
que seja mantida a atividade principal. Não importa o nome que se lhe dê:
lucro, ganho, sobra, resultado positivo, superávit ou outro qualquer. Esse
resultado é o que se busca em qualquer atividade, pelo que não pode ser
elemento caracterizador do comércio. Mesmo porque, nas atividades civis
mencionadas e em muitos casos, é do lucro, extraído da atividade
secundária, que a atividade principal se mantém e realiza seu fim.39

Com a modernização e profissionalização do desporto, no entanto, preferimos não

responder de imediato se é apenas civil a atividade desenvolvida por tais grupamentos.

Conceitos econômico e jurídico

Buscamos conceituar econômica e juridicamente o comércio, como também todos

os institutos em análise no presente trabalho, com finalidade estritamente voltada para os

objetivos desta tese. Não pretendemos, no caminhar do raciocínio lógico-jurídico aqui

desenvolvido, apresentar definições inquestionáveis e impassíveis de crítica. Apesar de

tecermos considerações e objeções às conclusões dos juristas estudados, pretendemos apenas

consolidar nossa opinião sobre o tema. Tomando emprestadas as reflexões de Osmar Brina

38
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 40.
39
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 40.
34

Corrêa Lima,40 sabemos que este trabalho não pretende, nem quer ser completo e perfeito.

Fugimos, apenas, do efeito perigoso e paralisante que o perfeccionismo exagerado impõe.

Para a filosofia, conceito, em geral, é todo processo que torna possível a

descrição, a classificação e a previsão dos objetos cognoscíveis. Para a filosofia, a função do

conceito pode ser admitida de duas maneiras fundamentais diferentes, isto é, como final e

como instrumental.

Do ponto de vista final, a função confunde-se com a própria natureza do conceito,

posto que atribui ao conceito o objetivo de exprimir ou revelar a substância das coisas.

Com características instrumentais, o conceito serve, primeiramente, para

descrever os objetos da experiência para permitir o seu reconhecimento. Em segundo lugar,

citando E. Mach, ensina-nos Nicola Abbagnano:

A variedade das reações biologicamente importantes é muito menor do que a


variedade dos objetos existentes. Por isso, o homem foi levado a classificar
os fatos nos conceitos. O mesmo procedimento se reproduz quando, numa
profissão, defrontam-se fatos que não oferecem mais interesses biológicos
imediatos.41

O conceito também tem a função de organizar os dados da experiência de modo

que se estabeleçam entre eles conexões de natureza lógica. Porque o conceito não se limita a

descrever e classificar os dados empíricos, mas permite a sua inferência dedutiva,42 a

formulação das teorias científicas tende à axiomatização, inclinando-se a levar ao extremo o

caráter organizativo do conceito.

Por último, fundamental sobretudo nas ciências físicas, o conceito tem a função da

40
CORRÊA-LIMA, Osmar Brina. Responsabilidade civil dos administradores de sociedade anônima. Rio de
Janeiro: Aide, 1989, p. 11.
41
MACH, E. Erkenntniss und irrtum, 1905, cap. VIII, Trad. fr., p. 136, apud ABBAGNANO, Nicola.
Dicionário de filosofia. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 168.
42
DUHEM. La théorie physique, p. 163 et seq, apud ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 3. ed. São
Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 168.
35

previsão. Assim, o conceito seria um meio ou procedimento antecipatório ou projetante.

Para nosso estudo, portanto, buscaremos revelar a substância dos institutos

pesquisados, sem necessariamente outorgar opiniões definitivas e imutáveis.

Para Carvalho de Mendonça, “o conceito fundamental do comércio é o mesmo na

ciência econômica e no direito comercial. Aquele estuda o comércio na sua função orgânica,

este nas relações jurídicas que se derivam do exercício dessa função.”43 E prossegue o

mestre, para quem cada uma das ciências aprecia o comércio sob o ponto de vista que lhe é

peculiar. Por tal razão, sua natureza substancial não muda pelo simples fato de várias ciências

dele se ocuparem. Como ensinou Romangnosi, “como as palavras na boca do economista

devem ter um significado diverso daquele que vem inserto, seja do público, seja da

jurisprudência, tratando-se de definir o mesmo fato?”44

Sem se ocupar da diferenciação econômica e jurídica da palavra, Waldemar

Ferreira apenas lembra que “todos os homens, sujeitos à fatalidade universal das leis

econômicas, exercitam atos mercantis, diariamente. Efetuá-los não é privilégio de ninguém.

Nem dos comerciantes.”45 Mas ressalta a importância da prática reiterada de atos de comércio

para caracterizar profissionalmente a pessoa do comerciante. Citando Cesare Vivante,

prossegue o tratadista:46

É de mister a pluralidade dêles. Quem esse mercatorem demonstrat pluritas


negotiorum. Mas pluralidade na unidade de ação e intuito, mercê de vontade

43
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos, 1957. v. I, p. 424.

44
Comme mai le parole in bocca dell’economista debbono avere un significato diverso da quello che viene
inteso sai dal pubblico, sai dalla giurisprudenza, trattandosi di definire lo stesso fatto?” (ROMAGNOSI.
Disputa sull’idea del commercio. p. 132, apud MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial
brasileiro, v. I, p. 425. )
45
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial – O estatuto do comerciante. São Paulo: Saraiva, 1960.
v. 2, p. 32.
46
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial – O estatuto do comerciante, v. 2, p. 33.
36

constante, dirigida para um só objetivo, de modo a, no reparo de Cesare


Vivante, repetir-se seu exercício continuamente, quase organicamente, a
ponto de constituir, para o que o opere, especial condição de existência e
vida social.

O comerciante não pratica atos de comércio de maneira gratuita. Ao contrário,

busca, em todas as suas atividades, remunerar-se pelo fato isolado ou pelo complexo de

serviços, de utilidades e de comodidades que presta. O lucro, ainda que não seja o objetivo

exclusivo de comerciantes, pois toda atividade econômica o procura, caracteriza

irremediavelmente essa categoria profissional que, na prática de seus atos, tem sempre a

intenção de lucro, jamais a do benefício. Nessa busca, o comerciante pratica atos

especulativos. Essa especulação afasta do comércio a prática de atos por motivos de ordem

afetiva e sentimental.
Capítulo 3

O EMPRESÁRIO – SUJEITO DA ATIVIDADE

ECONÔMICA ORGANIZADA

Ainda é necessário para nosso estudo a distinção entre sociedades ou associações

civis e comerciais. Além de o Código não ter conceituado comerciante nem ter disposto de

maneira clara a forma de diferençar a sociedade civil da comercial, o ordenamento jurídico

pátrio mantém – apesar do novel Código Civil – a distinção entre as sociedades,

especialmente para fins de falência e concordata.

Sabe-se, contudo, que “a forma não deve jamais prevalecer à substância, nem a

aparência à realidade; porém é com o escopo que a sociedade se proponha a atingir que se

deve levar em conta para distinguir uma sociedade comercial de uma sociedade civil”.47

Obedecendo à lição do mestre italiano, pretendemos analisar as teorias que

estudam as atividades econômicas, com o fim de caracterizá-las como civis ou comerciais.

Em seguida, passaremos à análise dos modelos vigentes de desenvolvimento e exploração do

desporto profissional. Nesse ponto, verificaremos a possibilidade de sujeição da atividade

desportiva ao Direito Comercial.

Não nos importa o fato de a maioria dos clubes serem constituídos como

sociedades civis sem fins lucrativos ou associações. Para o estudo eficiente e sistemático do

Direito, especialmente do Direito Comercial, imprescindível é a caracterização das atividades

47
La forma non deve mai prevalere alla sostanza, nè l’apparenza alla realtà; epperó egli è allo scopo che la
società si propone di conseguire che si deve badare per distinguere una società commerciale da una società
civile. (VIDARI, Corso di diritto commerciale. 5. ed. v. 1, n. 688, apud MENDONÇA, J. X. Carvalho de.
Tratado de direito comercial brasileiro, v. III, p. 54.)
38

desenvolvidas. Se à forma adotada não corresponde o efetivo exercício econômico, cabe a

nós, aprendizes e estudiosos da matéria jurídica, tecer críticas aos modelos adotados – muitas

vezes contrariamente à intenção legal – e prover de subsídios os aplicadores da lei, a fim de

melhor desenvolverem e atingirem seus objetivos de bem prestar a tutela dos direitos.48

Tomamos o cuidado de analisar concretamente a realidade social da organização

clubística brasileira, sem simplesmente nos fiar nos objetivos traçados nos estatutos das

agremiações desportivas. Não é porque se autodenomina uma associação civil que o

centenário clube estará exercendo atividade típica de tal sociedade civil. Por outro lado, em

virtude da opção legislativa de não traçar parâmetros específicos para o enquadramento das

atividades como civis ou mercantis, devemos analisar, sob a ótica de cada um dos critérios

doutrinários para caracterização do empresário mercantil, a atividade econômica exercida

pelos clubes e, só então, enquadrá-lo como civil ou comercial.

Devemos cuidar, com critério e imparcialidade, da análise da situação fática

apresentada. Sabemos do perigo da proposta, pois nossas conclusões poderão demonstrar a

irrealidade de se considerar apenas civil a atividade desenvolvida pelos clubes. Concluindo

pela comercialidade, iremos, por conseqüência, vislumbrar a possibilidade de aplicação de

normativos exclusivos de comerciantes às associações desportivas, ensejando sua falência, já

que a maioria segue economicamente desestabilizada, desrespeitando seus compromissos

financeiros, impondo verdadeiros calotes aos seus fornecedores, empregados e ao erário.

Conhecemos a posição da doutrina tradicional, para quem o clube desportivo, se organizado

como associação civil, deverá ser sempre visto sob essa ótica. Para estes, será importante a

atividade preponderante. E o clube foi criado para o exercício e promoção do esporte

profissional e amador. Qualquer desvio a esta proposta, pela prática reiterada de atos de
48
São interessantes as lições de Dennis Lloyd e Chaïm Perelman sobre a idéia de lei contraposta às noções de
justiça e ética, bastante esquecidas por nossos administradores desportivos e, infelizmente, pela maioria dos
juízes, ao apreciarem lides entre clubes e seus fornecedores ou empregados. (LLOYD, Dennis. A idéia de lei.
Trad. Álvaro Cabral. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998, 440p.; PERELMAN, Chaïm. Ética e direito. Trad.
Maria Ermantina Galvão G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1996, 722p.)
39

comércio típicos, será visto como meio de proporcionar a consecução de sua atividade

principal ou preponderante.

Não é nossa intenção proferir a palavra definitiva na concepção desse raciocínio.

Conhecemos, ao contrário, os riscos da empreitada, passível de críticas. Qualquer conclusão

no sentido de se caracterizar uma agremiação desportiva como exercente de atividade

comercial irá de encontro à maioria da doutrina tradicional, bem como à realidade fática dos

clubes no Brasil.49 Sabemos, contudo, que mediante objeções ao status quo vigente no meio

desportivo brasileiro, podemos estar contribuindo para o desenvolvimento e aprimoramento

da grande paixão nacional, o esporte.

3.1 Caracterização do Empresário – Teorias admitidas na doutrina

A legislação brasileira não estabeleceu critérios para caracterizar o empresário

civil e o comerciante. Nem no Código Civil nem no Comercial vigentes ou no novo Código

Civil encontramos parâmetros claros para a diferenciação. E esta, não se discute, tem

importância capital, na medida em que não se oferecem ao empresário civil os mecanismos de

conservação da atividade econômica postos à disposição do empresário comercial.

Especialmente o tratamento conferido ao devedor mercantil é mais benéfico, sem sombra de

dúvidas, que o que se dá ao civil.

Cabe, portanto, à doutrina a tarefa de distinguir as duas iniciativas. Não sem

críticas, pois cada um dos critérios desenvolvidos pelos juristas tem seus defeitos e merece

ressalvas, sabemos que nenhum dos métodos de identificação da iniciativa civil ou comercial

é plenamente eficaz e imune.


49
No sentido ora proposto, foi publicada em 14 de junho de 2002 a Medida Provisória n. 39, alterando a Lei n. 9.
615/98, portanto enquanto o presente trabalho estava sendo escrito. O novo texto legal atinge frontalmente os
interesses da maioria dos clubes, porque os equipara a sociedades de fato ou irregulares, na forma da lei
comercial vigente, para todos os fins de direito. A Medida Provisória 39, rejeitada pelo Congresso Nacional, foi
reeditada com o número 79, em novembro de 2002.
40

Entretanto, para os objetivos do presente trabalho, pretendemos identificar cada

um dos métodos desenvolvidos. A partir daí, analisando as atividades econômicas praticadas

pelo clube, concluiremos pela sua comercialidade ou não.

3.1.1 MERCANCIA E ATOS DE COMÉRCIO

O termo mercancia é antiquado, pois nada define e não serve de parâmetro claro

para a satisfação de nosso propósito. Apesar de inúmeras tentativas da doutrina, as pesquisas

não concluem pela definição objetiva do que seja matéria de comércio. Diz-se, comumente,

que o comerciante é aquele que faz da mercancia sua profissão habitual. Pouco informa o

conceito, posto que considera mercancia o exercício de uma profissão. Então mercancia seria

a prática habitual de determinados negócios. Mas não diz que negócios seriam esses. Melhor

seria que o legislador de 1850 tivesse dito que o exercício da empresa caracterizaria a

mercancia. Entretanto, já se discutiu, o termo empresa não foi suficientemente explorado na

época, sendo portanto incabível exigir-se tal refinamento e clareza no vetusto Código

Comercial de 1850. Interessante é a exposição crítica de Wille Duarte Costa, para quem os

conceitos de mercancia e ato de comércio não se confundem, mas criam confusão e nada

esclarecem.50

Carvalho de Mendonça,51 citando Ferreira Borges, ensina que mercancia é a arte

do mercador, o trato de mercadejar, a ciência e prática do comércio. Considerando defeituosa

essa definição, conclui que a omissão do Código Comercial quanto ao conceito de mercancia

foi suprida pelas disposições do art. 19 do Regulamento 737. Assim o fazendo, tendeu à

objetividade na caracterização do comerciante, apesar de o sistema do Código Comercial de

1850 ser subjetivo, pois assentado na figura do comerciante. Na verdade, o legislador

50
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 80.
51
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. I, p. 451.
41

procurou, no Regulamento 737, enumerar de forma exemplificativa as situações em que

atividades são consideradas como mercancia, sem contudo conceituar o que seja essa última.

Não se discute a utilidade prática da enumeração legal, é verdade. Não se pode

olvidar, reiteramos, que o Regulamento 737 de 1850 não conceituou a mercancia, apesar de

descrever fatos considerados como atos de comércio. Seguindo o sistema objetivo, dispôs:

Art. 19. Considera-se mercancia:


§ 1o. A compra e venda ou troca de efeitos móveis ou semoventes, para os
vender por grosso ou a retalho, na mesma espécie ou manufaturados, ou para
alugar o seu uso.
§ 2o. As operações de câmbio, banco e corretagem.
§ 3o. As empresas de fábricas, de comissões de depósito, de expedição,
consignação e transporte de mercadorias, de espetáculos públicos.
§ 4o. Os seguros, fretamentos, risco, e quaisquer contratos relativos ao
comércio marítimo.
§ 5o. A armação e expedição de navios.

Essa disposição legal, contudo, teve apenas a intenção de complementar o Código,

para efeito de se determinar a competência dos Tribunais do Comércio relativamente aos

comerciantes. Não se pode generalizar a todos a profissão de comerciante, apenas com fulcro

na enumeração legal dos atos de comércio. Afinal, muito mais que atos civis, os atos

mercantis são freqüentes na vida cotidiana. A todo momento o homem compra alguma coisa,

emite cheque ou aceita duplicata para o pagamento de suas transações. Despacha mercadorias

ou interesses. Adquire passagem terrestre, marítima, aérea. Utiliza meios de transporte. Nem

por isso, contudo, o homem comum se transforma em comerciante, podendo gozar da lei

protetiva editada para essa classe profissional.

Waldemar Ferreira argumentou em seu Tratado que mais de um aspecto é

relevante para caracterização do comerciante. Não basta a prática da mercancia. Para ele, “do

confronto no entanto do disposto no art. 1o, com o consignado no art. 4o, se pôde configurar o
42

comerciante pela confluência de quatro requisitos”.52 Além de fazer da mercancia sua

profissão habitual, deve o agente achar-se na livre administração de sua pessoa e bens,

matricular-se no Registro de Comércio e não estar expressamente proibido de comerciar. Não

concordamos com o mestre. Na sua linha de raciocínio, ter-se-ia, no máximo, a observância

de critérios para definição do comerciante regular. O comerciante de fato, ainda que não

esteja regularmente matriculado, ou seja proibido de comerciar, ou ainda tenha restrições na

administração de seus bens, pode fazer da mercancia sua profissão habitual. Exigência

tolerável há cinqüenta anos, hoje o Direito Comercial se depara com situações novas, sendo

estreito o raciocínio de se observar legislação específica a determinada atividade profissional

apenas pelo preenchimento de requisitos formais, que não necessariamente espelham a

realidade prática diária.

O sistema de caracterização da profissão apenas pela prática reiterada de atos de

comércio não se sustenta, como assevera Carvalho de Mendonça. Para o autor, se uma

operação comercial é concluída entre comerciante, de um lado, e pessoa não comerciante, de

outro, não se pode admitir o bifrontismo do ato. O Direito Comercial Brasileiro estabelece “o

princípio da integridade do ato de comércio, repudiando a inexplicável anomalia do mesmo

ato ser comercial para uma e civil para outra parte”.53

Apesar da insistência de alguns doutrinadores em considerar o sistema objetivo na

caracterização do comerciante, entendemos, apoiados na discordância de João Eunápio

Borges a Carvalho de Mendonça, que o Código Comercial brasileiro adota o sistema

subjetivo, pois o legislador quis, propositadamente, afastar-se do direito francês nessa parte:

O equívoco, parece, não foi do legislador de 1850. Foi dos comercialistas


nacionais que, transviados pelo direito francês, do qual, nessa parte, nosso
Código se afastou deliberada e decisivamente, construíram sua doutrina

52
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial: O estatuto do comerciante, v. 2, p. 25.
53
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. I, p. 453.
43

sobre o Código francês e não sobre o nosso. E o fizeram, sem desculpas,


apesar da insistência como que os eminentes autores do Código de 1850
afirmaram, por ação ou omissão, que, nessa parte, se apartaram do figurino
francês.54

A teoria dos atos de comércio e, por conseqüência, o sistema objetivo perdem sua

importância com o advento do novel Código Civil Brasileiro. Quando trata do Direito de

Empresa, verificamos que o legislador contemporâneo não tratou da empresa, fazendo

referência ao termo no art. 968, quando estabeleceu critérios para a inscrição do empresário,

sem contudo defini-lo previamente. Isso porque, apesar de freqüentes menções da expressão

empresário, o anteprojeto de Sylvio Marcondes não cuidou de conceituar a empresa, sendo de

se deduzir apenas como a atividade econômica profissionalmente exercida pelo empresário.

Mas também não abordou, ou sequer mencionou, a prática de atos de comércio para

caracterizar o empresário mercantil.

Dispõe o texto legal que será considerado empresário – e reafirma-se o sistema

subjetivo para sua caracterização – quem exerce profissionalmente atividade econômica

organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Assim, deixou a legislação

de diferenciar a iniciativa civil da mercantil, passando a tratar de ambas sob um mesmo signo:

a empresa. Excetua da qualificação de empresário quem exerce profissão intelectual, de

natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores,

salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.

Com o advento do novo Código Civil, é despicienda a delimitação dos campos de

aplicação do direito civil e comercial, ficando a lição de Fábio Konder Comparato

desatualizada e, desde logo, interessante apenas como consulta histórica da dicotomia do

Direito Privado, recentemente abolida:

54
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre, v. 1, p. 154.
44

Delimitados, assim, os campos respectivos do direito comercial e do civil,


em matéria obrigacional, importa assinalar que, no próprio regime do
Código Comercial, o princípio é a aplicação de normas civis, figurando os
dispositivos do Código de Comércio como autênticas normas de exceção –
não no sentido de restrição de direito, mas de aplicação especial a casos
determinados. O art. 121 declara que ‘as regras e disposições do direito civil
para os contratos em geral são aplicáveis aos contratos comerciais, com as
modificações deste Código’. Temos, pois, que não há, propriamente,
contraposição de dois sistemas jurídicos distintos, em matéria de obrigações:
o do Código Civil e o do Código Comercial. O que há é um só sistema, no
qual os dispositivos do Código de Comércio aparecem como modificações
específicas das regras gerais da legislação civil, relativamente às obrigações
e contratos mercantis. A duplicidade legislativa aparece, tão-só, no que tange
a essas regras de exceção, dentro do sistema global.55

A definição e conceituação de ato de comércio deixa de ser relevante para a

qualificação do comerciante. Não mais sendo o direito dos comerciantes, mas sim o direito

dos empresários – repetindo a norma legal, quem exerce profissionalmente atividade

econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços – está superado

para o Direito Comercial a conceituação e delimitação da mercancia, tema que jamais foi

satisfatoriamente enfrentado na doutrina.

3.1.2 TEORIA OBJETIVA

Esta teoria trata da conceituação do comerciante a partir do ato de comércio.

Assim, seria comerciante aquele que praticasse determinados atos reputados comerciais. Essa

comercialidade, contudo, surge apenas da vontade do legislador. Aí o seu defeito, pois os atos

considerados mercantis serão arrolados em função do momento econômico ou político. Liga-

se profundamente à noção econômica do comércio, como ressalta Ruy de Souza, concluindo

que o ato de comércio se conceitua como uma “manifestação jurídica da atividade econômica

comercial, ou seja, a atividade de interposição entre a oferta e a procura de dinheiro,

55
COMPARATO, Fábio Konder. Novos ensaios e pareceres de direito empresarial. Rio de Janeiro: Forense,
1981, p. 251.
45

mercancias e serviços, com o objetivo de especulação”.56

Não sendo possível, entretanto, construir um conceito científico para descrever os

atos de comércio, surgiram os sistemas enumerativo e descritivo. No primeiro caso, compõe o

legislador uma relação de atos que reputa mercantis. Essa enumeração, contudo, não

necessariamente dá certeza se foi exemplificativa ou taxativa. O problema surge porque,

muitas vezes, dispensando o auxílio dos juristas, o legislador, sem técnica ou critério

científico, compõe relações esdrúxulas e sem a mínima coerência, legando aos aplicadores da

lei a árdua tarefa de entender seus objetivos.

No critério descritivo, também, logra-se pouco êxito. Parte-se de uma descrição

genérica do ato de comércio, concebendo exclusões expressas de alguns. Da mesma forma,

não há critério para tais exceções, ficando o legislador com o poder discricionário de, ao seu

bel-prazer, mencionar as situações que não se enquadram na regra geral. Novamente, por

defeito nas redações, têm os juristas a inglória tarefa de compreender a vontade – política, na

maioria das vezes; raramente técnica – do legislador.

Não bastasse a insegurança social, pois o momento político-econômico pode

incentivar enumerações legislativas incoerentes, e sendo perceptível o quanto é falha a teoria

objetiva, prefere a doutrina, na sua maioria, incentivar o estudo de outros métodos, a fim de

abandonar esse velho e ultrapassado sistema de enumeração legal de atos de comércio.

3.1.3 TEORIA SUBJETIVA

Pela teoria subjetiva, não mais tem importância o estudo dos atos de comércio. O

direito se importa, apenas, com o sujeito da atividade econômica: o comerciante. Busca-se o

conceito deste para se construir o estudo científico da matéria. Decorre dessa concepção

56
SOUZA, Ruy de. Direito das empresas – Atualização do direito comercial. Belo Horizonte: Bernardo Álvares,
1959, p. 129.
46

subjetiva a característica de direito de classe, corporativo, que se empresta ao Direito

Comercial, pois é fundamental para sua existência o estudo de seu sujeito.

Critica a teoria o eminente Prof. João Eunápio Borges, para quem o direito

comercial tradicional, nascido para proteger os interesses de determinada classe – dos

membros das corporações – era aplicado unicamente aos comerciantes, enquanto

comerciantes.57

Sustenta ainda o autor que o Código Comercial Alemão de 1897 fundamentou o

Direito Mercantil na noção do comerciante. Estabeleceu que comerciantes seriam todos

aqueles que exercessem uma profissão comercial. Em seguida, enumera as atividades

profissionais consideradas mercantis (um total de nove, excluindo-se expressamente o

trabalho artesanal e a atividade industrial cuja exploração não seja considerada como

atividade comercial, nos termos do art. 1o) e conclui que negócios comerciais são os negócios

de um comerciante.

Centrando seu estudo na pessoa do comerciante, porém, o HGB58 não define

claramente o comerciante, considerando que será “todo aquele que exerce uma profissão

comercial”. Apesar de abrangente, a enumeração dos atos reputados comerciais, pois

praticados por comerciante, na exploração de seu comércio, está jungida ao panorama político

da época. Mesmo mencionando os atos que considera comerciais, o Código é considerado

subjetivista, pois tais atos só são comerciais porque praticados pela pessoa do comerciante.

Não é o ato que caracteriza a pessoa como comerciante; é o comerciante, enquanto

profissional, que torna o ato comercial.

Também mudou o enfoque a legislação italiana. No Código de Comércio de 1882

eram elencados vários atos de comércio no art. 3o. O exercício reiterado e freqüente de

mencionados atos faziam da atividade de quem os exercia sua profissão. Mas a lei se abstinha

57
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre, v. 1, p. 147.
58
Handelsgesetzbuch – Código Comercial Alemão.
47

de definir os atos de comércio, fazendo apenas uma enumeração dos que assim considerava.

Com a reforma de 1942, o Código deixa de se ocupar dos atos e passa a relevar o

comerciante, porém vinculando-o ao desenvolvimento da empresa. Para o art. 208259 do

Código Civil Italiano, aquele que exercita profissionalmente uma atividade econômica

organizada em busca da produção ou troca de bens e serviços, com escopo lucrativo, é

comerciante (empresário, na orientação moderna italiana, sem razão criticada por Waldemar

Ferreira60). Passa a lei a ocupar-se, precipuamente, do sujeito da atividade econômica,

deixando para trás a enumeração de atos reputados comerciais. Pressupõe, contudo, o

exercício da atividade com finalidade econômica e de forma profissional para caracterizar o

comerciante. A construção, entretanto, é passível de críticas, como expõe Giuseppe Ferri:

Naturalmente estabelecer se se trata de uma atividade profissional ou, ao


contrário, de uma atividade ocasional, pode na prática apresentar notáveis
dificuldades.
Por profissão se entende um constante e normal encaminhamento da própria
atividade, mas naturalmente valer-se destes elementos não deve ser em
abstrato, mas em concreto, isto é, com referência às diversas atividades
práticas, as quais possam ter um ciclo de desenvolvimento diverso, ser
continuadas ou, ao contrário, transitórias ou periódicas.61

Também refuta a teoria o Prof. Wille Duarte Costa, para quem

59
“2082. (Imprenditore) É imprenditore chi esercita professionalmente uma attività economica organizzata al
fine dellaproduzione o dello scambio di beni o di servizi.”
60
“Mudou o Código Civil de 1942 o nome do comerciante. Batizou-o de imprenditore, ou seja empresário.
Deixou-se o legislador, como era correntio na época do fascismo, seduzir pelo prestígio do vocábulo, em sua
expressão oral. É empresário quem exercita profissionalmente uma atividade econômica, organizada para os fins
da produção ou de escambo de bens e serviços. Di-lo o art. 2. 082. Poder-se-ia divisar, em face dessa definição,
no imprenditore, expressão genérica, a compreender o produtor e o comerciante, embora não pudesse fazer
desaparecer sua função histórica, social e política.” (FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial: O
estatuto do comerciante, v. 2, p. 21).
61
Naturalmente lo stabilire se si trata di una attività professionale o invece di un’attività occasionale, può in
pratica presentare notevoli difficoltà.
Per professione si intende un costante e normale indirizzo della propria attività, ma naturalmente la ricorrenza
di questi elementi deve essere fissata non in astratto, ma in concreto e cioè con riferimento alle diverse attività
pratiche, le quale possono avere un diverso ciclo di svolgimento, essere continuative o invece stagionali o
periodiche. (FERRI, Giuseppe. Manuale di diritto commerciale. A cura di Carlo Angelici e Giovanni B. Ferri.
10. ed. Torino: Unione Tipografico-Editrice Torinese, 1997, p. 45-46.)
48

a falta de rigor, no entanto, só nos permite admitir que a teoria subjetiva não
resolve inteiramente o problema, tal como a teoria objetiva. Ela é também
insatisfatória, porque, exteriorizando-se para muitos a profissão mercantil na
compra e venda como atividade fundamental para sua caracterização, como
se a profissão fosse apenas a prática de tal atividade, a maioria dos autores
procura ver no comerciante aquele que se interpõe entre o produtor e o
consumidor. Ressalta-se a mediação, que muitos julgam ser a única a
explicar a atividade do comerciante. Exame dessa forma não pode chegar a
solução alguma, já que só permite ver um aspecto ou uma parte do
problema.62

É verdade, contudo, que dizer que o traço característico do comerciante é o

exercício de determinados atos pouco acrescenta, pois o ato mercantil em nada difere do ato

civil, além, é claro, da sua prática reiterada e de forma profissional, com intuito lucrativo.

Assim, a busca do lucro na prática desses atos torna relevante para a

caracterização do comerciante, pois quem reiteradamente compra bens para seu consumo,

como livros para sua biblioteca particular, evidentemente, não será comerciante. Georges

Ripert63 considera que o comerciante busca proveito pecuniário, devendo, além do mais,

praticar atos reiterados com profissionalismo.

Dizer, portanto, apenas que o comerciante é caracterizado como aquele que

pratica atos de comércio, traduz uma simplificação estéril, que não nos permite tecer um

conceito próprio e suficientemente claro. O Direito Comercial deve fugir dessa simplificação,

pois não obteve êxito na conceituação também dos atos de comércio, dizendo que são os

praticados por comerciantes, na concepção subjetiva, simplória e que não é suficiente para

conceituar o comerciante genericamente, precisando particularizar seus atos para obter êxito

na empreitada.64

62
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 97.
63
RIPERT, Georges. Tratado elemental de derecho comercial. Trad. Felipe de Solá Cañizares. Buenos Aires:
Tipográfica Editora, 1954. v. I, p. 108.
64
A doutrina também discute e desenvolve as teorias do ato acessório e do ato misto. Para a primeira, o ato que
tivesse a mínima conexão com atos de comércio também seriam assim considerados e, por conseqüência,
sujeitos à lei mercantil. A segunda teoria desenvolve o raciocínio de que o ato praticado entre um comerciante e
49

3.1.4 TEORIA DOS ATOS EM MASSA

Em 1902, Heck publicou sua teoria, segundo a qual o Direito Mercantil é aquele

próprio da prática de operações em massa. Percebendo a dificuldade em estabelecer uma

doutrina fundada no conceito econômico de comércio, graças à extensão das atividades e fatos

jurídicos relacionados e submetidos às normas jurídicas mercantis, o autor concebeu sua

teoria na prática reiterada e de forma profissional de determinados atos.

Abandonou assim a idéia de mediação que anteriormente caracterizava a profissão

de comerciante. Essa noção já se demonstrava defasada, tendo em vista que passaram a se

equiparar ao comerciante também o produtor, o industrial e até mesmo o extrativista.

Fabricantes de embutidos, indústrias de beneficiamento de carne e leite, engarrafadores de

água mineral, construtores e incorporadores, mineradoras, todos estes estão sujeitos às leis do

comércio, apesar de fugirem à noção econômica de comerciante, como sendo aquela pessoa

que se interpõe entre o produtor e o consumidor, mediando a transferência do produto.

Essa doutrina, contudo, sofre várias críticas, pois toma-se por base a empresa em

sentido econômico – “reunião de forças econômicas: capital e trabalho – para a obtenção de

ganhos ilimitados”.65 Este instituto, perfeitamente definido no plano econômico, carece ainda

de satisfatória conceituação jurídica. Além do mais, empresas há que não estão incluídas no

um não-comerciante seria regida por duas jurisdições. O comerciante teria de acionar o não-comerciante no juízo
civil. Este, ao contrário, teria de ingressar no juízo comercial. Ambas perdem a importância no direito nacional,
seja porque o direito comercial exerce uma força atrativa (vis atractiva) sobre tais atos, submetendo-os a sua
jurisdição, seja porque o legislador brasileiro não adotou o sistema objetivo de caracterização do comerciante,
seja porque os Tribunais de Comércio deixaram de existir desde o final do século XIX, seja ainda porque a
recente unificação da legislação civil e comercial acabou por completo com a dicotomia (jurisdicional) do direito
privado. Tais teorias nos parecem irrelevantes para os objetivos propostos, servindo apenas para alimentar
discussões acadêmicas, históricas ou comparativas.
65
GARRIGUES, Juaquín. Tratado de derecho mercantil. Madrid, I, 1, p. 28, apud MARTINS, Fran. Curso de
direito comercial. 22. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 27.
50

âmbito do direito comercial, razão por que este não pode ser enxergado genericamente como

o direito das empresas.

No direito italiano, que modernamente optou pela conceituação do empresário

(imprenditore) em detrimento da noção de comerciante, Auletta e Sanalitro enumeram, para

caracterizá-lo, o exercício de: a) uma atividade; b) econômica; c) profissionalmente exercida;

d) de forma organizada; e) destinada a atingir o mercado; f) com finalidade lucrativa; e g)

lícita.66

Sabe-se, contudo, que determinadas atividades não se caracterizam como

empresas comerciais pois têm, na sua essência, a aplicação do conhecimento técnico na

prática dos atos. Exemplo disso são os profissionais liberais, advogados e médicos, que, no

exercício de sua atividade profissional, praticam a empresa sob a ótica econômica, mas não do

ponto de vista jurídico. Estes não transferem seus conhecimentos no decorrer do exercício de

seus atos. Há, para estes profissionais, a aplicação de suas noções científicas na consecução de

objetivos. Nem por isso, contudo, estão transferindo a seus clientes o conhecimento adquirido

durante anos de estudo.

O novel Código Civil Brasileiro ressalvou o exercício da profissão liberal quando

estabeleceu que não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza

científica, artística ou literária, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores.

Portanto, não bastou para o legislador brasileiro o exercício profissional de atividade

econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou serviços.

3.1.5 TEORIA DA PREPONDERÂNCIA

Revela-se importante em nosso entendimento a atividade preponderante para a

66
AULETTA, Giuseppe. SANALITRO, Niccolò. Diritto commerciale. 12. ed. Milão: Giuffrè, 2000. p. 14-17.
51

caracterização efetiva do empresário. Deve ser assim caracterizado aquele profissional que

pratica atos em massa, buscando satisfazer ou suprir o mercado com seus produtos ou

serviços. Mas não basta isso.

O médico, por exemplo, aplica em seus pacientes diversos produtos – dentre eles

o conhecimento adquirido em anos de estudos em bancos escolares – para o exercício de sua

profissão. Só que não transfere ao paciente o conhecimento técnico fundamental para sua

prática profissional. Portanto, ainda que tenha aplicado um montante significativo de bens

materiais no seu paciente, o produto fundamental em sua profissão – o conhecimento

científico – não foi transferido ao cliente. Portanto, a preponderância de sua atividade não é a

aplicação de materiais, insumos e outros. O imprescindível para o exercício de sua prática

profissional foi o conhecimento técnico, e este não foi transmitido ao paciente. Sua atividade

é, sem sombra de discussão, civil.

Importante é que a atividade que prepondera seja mercantil. Se no exercício da

empresa são exercidas várias práticas de natureza civil ou comercial, deve-se buscar a que

prepondera. As demais, secundárias ou acessórias, não se prestam para caracterizar a

atividade como civil ou mercantil. Estas, como o próprio nome diz, são acessórias da

principal, servindo apenas para fornecer meios de consecução do objetivo principal do agente

econômico. Disse Wille Duarte Costa, em sua tese de doutoramento, num raciocínio que,

como concluiremos adiante, não espelha a realidade dos clubes que exploram o esporte

profissional em atividade no País:

Nestes casos, principalmente nos chamados clubes recreativos ou esportivos,


encontramos a entidade explorando diretamente um bar, restaurante ou
lanchonete, praticando a mediação em seu próprio nome, vendendo produtos
de terceiros a seus associados, que são consumidores. Mesmo assim, tais
clubes não pode ser considerados comerciantes, já que a atividade
preponderante é a recreação ou a prática esportiva.67

67
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 113.
52

Para a teoria da preponderância, não importa que as atividades praticadas tenham

o intuito de lucro, mesmo porque este não é elemento fundamental da empresa, no sentido

jurídico. É verdade que a empresa mercantil busca o lucro. Mas também a atividade civil

assim se conduz, sendo portanto insuficiente para a diferenciação.

O Código Civil de 2002, contudo, relega a segundo plano a importância da

diferenciação entre sociedades civis e mercantis, no Livro II, do Direito de Empresa.

Decorrente de sua metodologia, caracteriza o empresário como a pessoa que exerce

profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou

de serviços. Com digressões obscuras e confusas, não define claramente o que seja empresa

nem esclarece qual será o objeto da sociedade simples. Consagra, no entanto, novas e claras

regras para as associações, afastando qualquer possibilidade de impor-lhes as regras próprias

das sociedades.
Capítulo 4

EMPRESA – A ATIVIDADE PROFISSIONAL

DO EMPRESÁRIO

Não só a prática de atos de comércio visa ao lucro. Porque a noção de comerciante

era pouco abrangente, a doutrina alargou o seu conceito, passando a abordar numa mesma

noção o comerciante e o empresário, chegando, modernamente, a utilizar as expressões como

sinônimas.

Porque o Direito Comercial deixou de ser o direito da classe dos comerciantes,

melhor seria que também seu sujeito deixasse de ser apenas o comerciante. Muito mais

importante para a vida econômica da sociedade, empresário é um termo que prevê não só a

noção de comerciante como aquele que pratica atos de comércio, mas também o

empreendedor que, utilizando meios próprios de produção, especulação e prestação de

serviços, almeja o lucro na sua atividade.

Além do mais, a noção de empresário se coaduna melhor com o moderno enfoque

emprestado pelo Direito à empresa. Não estamos confundindo empresa com o

estabelecimento, com a atividade ou, mesmo, com o próprio empresário. Apenas,

modernamente, assume importância a empresarialidade68 da atividade.

Ao tratar da empresa, diverge a doutrina, demonstrando a enorme dificuldade para

conceituar o instituto. Conforme Waldírio Bulgarelli, “seguramente que o termo empresa

68
Segundo Waldírio Bulgarelli, empresarialidade é o “termo que utilizamos para exprimir numa idéia geral e
abstrata aquilo que é próprio da empresa. e isto, certamente, por influência da doutrina italiana, que utiliza,
contudo, a expressão genérica imprenditorialità; não estando ausente a inspiração da doutrina alemã, que, por
força das próprias características do idioma, sói utilizar expressões assim genéricas e abstratas.”
(BULGARELLI, Waldírio. Tratado de direito empresarial. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1995. p. 23, n. 42.)
54

poderia ficar fora do Direito. Em decorrência do que a empresa não teria lugar no Direito

Comercial, pois este se basta com a trilogia ‘empresário, atividade econômica organizada e

estabelecimento’ – aliás, como se deu conta, com sagacidade, uma vasta corrente

doutrinária.”69

O novel Código Civil Brasileiro trata, inclusive, no seu Livro II, do Direito de

Empresa. É verdade que o legislador não se preocupou em conceituar empresa. Em vez de

críticas, preferimos agradecer-lhe por evitar conceituar tão discutido e importante tema para o

Direito Comercial. É melhor que caiba à doutrina, e não ao legislador, atribuir conceitos a

institutos jurídicos. Quando o faz, salvo raras exceções, o legislador cerceia o pensamento

livre dos pensadores do Direito, coibindo (senão impedindo) o desenvolvimento das noções

teóricas e dos institutos jurídicos. Kelsen diferencia norma e enunciado, lição que podemos

tomar para entender por que o legislador não conceituou a empresa:

Admite-se a expressão: a norma ‘reza’ que algo deve ser ou acontecer,


contanto que através dessa expressão não se induza confundir a norma com
um enunciado. Pois a norma não é nenhum enunciado e – como ainda
mostraremos com mais pormenores – precisa ser claramente diferenciado de
um enunciado, nomeadamente também de enunciado sobre uma norma. Pois
o enunciado é o sentido de um ato de pensamento, e a norma, como foi
observado, é o sentido de um ato de vontade intencionalmente dirigido a
uma certa conduta humana.70

A mesma liberdade de pensamento não ocorreu, por exemplo, com o instituto da

falência. Quando editou a lei falimentar, o legislador brasileiro dispôs no art. 1o do Decreto-

Lei n. 7661/45 que se considera falido o comerciante que não paga no vencimento obrigação

líquida, constante de título que legitime a ação executiva, sem relevante razão de direito.

Quando assim caracterizou o estado de falência, o legislador incorreu em pelo menos dois

erros capitais para o desenrolar da atividade econômica organizada.


69
BULGARELLI, Waldírio. Tratado de direito empresarial, p. 23.
70
KELSEN, Hans. Teoria geral das normas. Trad. José Florentino Duarte. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris,
1986, p. 34.
55

Primeiro, outorgou apenas ao comerciante a prerrogativa de ser declarado falido.

Ora, ainda se debate na doutrina e na jurisprudência acerca da caracterização do comerciante.

Se em 1945 a definição legal poderia bastar (sabe-se, na verdade, que não bastava...), os fatos

mostraram que diversas atividades, não consideradas comerciais, deixaram de sujeitar-se à

falência e por isso proporcionaram enormes danos a seus credores. O setor de serviços, que

não exerce ato de comércio na sua essência, pode, facilmente, provocar prejuízos e arrastar

consigo à bancarrota seus credores. Exemplo disso é que, durante muitos anos, questionou-se

se empresas de construção civil e incorporação poderiam estar sujeitas ao instituto falimentar,

apesar de exercerem atividades tipicamente civis. Só se pacificou a discussão quando foram,

por determinação legal, tornadas comerciais.

Também demonstra a falibilidade de se conceituar institutos jurídicos por

intermédio da lei o fato de o dispositivo legal considerar falido o comerciante que, sem

relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida e certa. Ora, a doutrina

é pacífica em considerar pressuposto da falência o estado de insolvabilidade, que não se

confunde com a insolvência objetiva,71 na lição de Provincialli.

Insolvável é quem não tem capacidade econômica para solver suas dívidas. O

estado econômico prescinde da vontade do devedor. Estar inadimplente não induz em estar

incapacitado para suportar seus pagamentos vencidos. Pode o devedor deixar de pagar suas

obrigações no vencimento sem que isso traduza um estado econômico de difícil reversão, este

sim caracterizador do estado de falência. Insolvável é quem deve, mas não pode pagar;

insolvente (ou inadimplente), é quem deve e não quer adimplir. São situações diferentes, mas

o legislador preferiu o estado imediato para caracterizar o falido. Assim, retirou ou propiciou

que fossem retirados do comércio e da produção empresários com experiência e

conhecimento de determinado setor da economia, por uma circunstância transitória e, muitas

71
Apud ÁLVARES, Walter T. Direito falimentar. 5. ed. São Paulo: Sugestões Literárias, 1973. p.63.
56

vezes, contornável. O Direito Comercial deve, necessariamente, ater-se à importância social

da atividade econômica,72 desvinculando-se da idéia exclusiva de lucro que muitos insistem

lembrar para caracterizar o tema.

Voltando ao texto codificado em 2002, o legislador tece considerações apenas

sobre o empresário, caracterizando-o como aquele que exerce profissionalmente atividade

econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços, e sobre o

exercício coletivo da empresa, mediante a celebração do contrato de sociedade.

Apesar de ter inserido no Código um livro sobre o Direito de Empresa, deixou o

legislador de tratar especificamente sobre essa. Sabe-se, contudo, que o fenômeno econômico

da empresa não se deve adequar, forçosamente, ao seu sentido jurídico, posto que ela é, antes

de tudo, um fenômeno econômico-social. O Prof. Alberto Asquini, entretanto, observando a

empresa sob a ótica jurídica, em seu artigo Profili dell’impresa, elaborou quatro perfis.

Justamente por falta de definição legislativa na unificação italiana de 1942, seu estudo adquire

contorno importante e pode facilmente ser tomado emprestado pela doutrina nacional para a

análise do instituto perante a recente legislação codificada.

Asquini trata inicialmente da empresa que se confunde com o empresário. Este é,

para o professor italiano, o chamado “perfil subjetivo”. Daí decorre a idéia de que o

empresário é quem exercita uma atividade econômica organizada de produção para a

comercialização de bens e serviços, profissionalmente e em caráter continuado, sem intenção

de lucro, contudo. Wille Duarte Costa critica a elaboração,73 pois não se pode conceber que a

empresa figure como sujeito de direito. É, pois, o empresário quem responde pessoalmente

pelos riscos da atividade econômica, participando pessoalmente das relações jurídicas

72
“Entre nós, excluída a insolvabilidade das instituições financeiras e sociedades seguradoras, tradicionalmente
submetidas ao regime de liquidação administrativa forçada, o direito falimentar é pobre em distinções quanto à
qualidade ou importância social das empresas insolváveis.” (COMPARATO, Fábio Konder. Direito empresarial.
São Paulo: Saraiva, 1995, p. 15)
73
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 137.
57

decorrentes.

Um segundo perfil, o funcional, permite à empresa a realização da atividade

produtora, realizando a circulação de bens e serviços, organizando o trabalho e o capital, a fim

de praticar uma série de atos jurídicos. Seria a própria atividade econômica em pleno

desenvolvimento.

Pelo perfil patrimonial ou objetivo, a empresa é vista como um patrimônio

especial distinto pela sua finalidade, voltado para o exercício da atividade econômica

proposta. Este patrimônio, contudo, não se confunde com o estabelecimento (azienda), apesar

de os autores nacionais terem identificado a empresa, por este perfil, como sinônimo de

estabelecimento.74

Por último, Asquini trata do perfil corporativo, segundo o qual a empresa adquire

contornos de instituição, ou um conjunto de pessoas formado pelo empresário e seus

colaboradores, prestando-lhe serviços, de forma organizada e orientada pelo primeiro. O

interesse individual deste funde-se com o daqueles, criando o fim comum buscado pela

empresa, no qual todos desejam um melhor resultado econômico e financeiro.

Diz, afinal, o autor italiano que o Direito não consegue abraçar e dominar o

fenômeno econômico da empresa, uma vez que nela se expressam vários aspectos importantes

para o seu entendimento. Seguindo a orientação legislativa, que conceituou o imprenditore e a

azienda, conclui Alberto Asquini seu estudo sem traçar, de forma clara e definitiva, um

conceito jurídico de empresa.

Na concepção da empresa, vários autores buscaram um conceito unitário. Dentre

as várias doutrinas, podemos citar os defensores da teoria da personalidade jurídica:

Washington Albino Peluso de Souza, Valeri e Endemann; aqueles que defendem a empresa

74
Nesse sentido, podemos citar BULGARELLI, Waldírio. Tratado de direito empresarial, p. 23; ABRÃO,
Nelson. A continuação do negócio na falência. 1975 (Tese (Livre-docência). Faculdade de Direito da USP –
São Paulo, p. 12.
58

como um direito incorpóreo, cujo maior expoente é Francesco Messineo; Cesare Vivante,

Saleilles, Bekker, Winscheid, Wilson de Souza Campos Batalha e outros entendem que a

empresa é uma universalidade; Francesco Ferrara, Rotondi, Guarrigues, Pisko e outros são

partidários da idéia de corporação emprestada à empresa; Waldírio Bulgarelli, chamando sua

teoria da empresarialidade, pressupõe a manifestação do empresário, da atividade e do

estabelecimento, sem os quais a empresa não teria existência; segundo a teoria atomista,

defendida por Sylvio Marcondes, Fran Martins, Fábio Ulhôa Coelho e outros, contrária à

concepção da universalidade, rejeita-se identidade com o estabelecimento ou fundo de

comércio e sem se confundir também com o empresário.75

Podemos mencionar ainda que Santi Romano encontra na empresa os caracteres

próprios da “instituição”, teoria também admitida por Van Ryn; Asquini identifica a empresa

apenas como a organização das pessoas; Barbero diz que é o exercício de um

empreendimento a partir de um sujeito que, nessa função, assume a qualificação jurídica de

empresário; Santoro Passarelli a define como o empreendimento produtivo estável de grande

ou média dimensão; Mossa insiste que a empresa, substancialmente, não se diferencia do

empreendimento; Carnelutti a enquadra como um ato jurídico; Baldassare, conforme

interpreta Santi Romano, considera-a uma instituição social, isto é, um complexo de relações

sociais nas quais se exprimem primordialmente as contradições e os contrastes igualmente

relevantes dentro da sociedade em geral; Nicolò, desenvolvendo suas considerações, define a

empresa como a “complexa situação jurídica ativa que tem por objeto o empreendimento e

por conteúdo o direito de gestão desse empreendimento (ou seja, o direito à empresa)76”;

outros autores, como Graziani, Ascarelli e Messineo, relevam que o legislador, definindo o

75
Cf. Wille Duarte Costa (A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 149),
que também não conceitua a empresa.
76
Complessa situazione giuridica attiva che ha per oggetto l’azienda e per contenuto il diritto di gestione di
essa (c. d. diritto all’impresa). (FIALE, Aldo. Diritto commerciale. 9. ed. Napoli: Edizione Simone, 1994, p.
19.)
59

empresário, quis definir implicitamente a empresa.

Aldo Fiale sistematiza as teses acima e conclui que o legislador italiano preferiu

adotar um critério idêntico àquele já empregado para a definição dogmática do direito de

propriedade, no qual, enunciando os poderes do proprietário, delineou também os caracteres

daquele instituto. E finaliza, concluindo:

Conseqüentemente, partindo do pressuporto que o empresário é o titular da


empresa, esta ultima se pode definir como a atividade econômica
organizada pelo empresário e por ele exercida profissionalmente com
finalidade de produção ou de troca de bens ou de serviços.
De tal definição se deduz que a empresa não se pode considerar nem como
sujeito, nem como objeto de direito, nem como instituição (Santi Romano),
nem se pode identificar com o estabelecimento; ela se constitui ao contrário
uma atividade organizada, ou melhor ainda, uma atividade de organização
dos fatores de produção. (...)

Não se deve contudo esquecer que o legislador preferiu, ainda, abster-se de


fornecer uma definição bastante rígida de alguns institutos fundamentais do
sistema (como a empresa e a propriedade), que – estando em contínua
evolução – não se prestam a cristalizações definitivas.77

Para Ruy de Souza, a empresa é atividade, sendo portanto objeto, e não sujeito, do

Direito Comercial:

É empresa a instituição jurídica não personalizada, que se caracteriza pela


organização, com certa permanência e com autonomia administrativa, de
uma atividade econômica destinada à produção de bens ou de serviços para o
mercado, ou à intermediação deles no circuito econômico; essa organização
põe em funcionamento um fundo de comércio, a que se vincula, através do
empresário individual ou societário, ente personalizado cuja função é

77
“Conseguenzialmente, partendo dal presupposto che l’imprenditore è il titolare dell’impresa, quest’ultima può
definirsi come l’attività economica organizzata dall’imprenditore e da lui esercitata professionalmente al fine
della produzione o dello scambio di beni o di servizi.
Da tale definizione si evince che l’impresa non può considerarsi né come soggetto, né come oggetto di diritto, né
come istituzione (Santi Romano), né può identificarsi con l’azienda; essa costituisce invece un’attività
organizzata, o meglio ancora un’attività di organizzazione dei fattori produttivi. ...
Non si deve però dimenticare che il legislatore ha, altresì, preferito astenersi dal fornire uma definizione troppo
rigida di alcuni istituti fondamentali del sistema (come l’impresa e la proprietà), che – essendo in contitua
evoluzione – mal si prestano a cristallizzazioni definitive.” (FIALE, Aldo. Diritto commerciale, p. 19.)
60

representar juridicamente a empresa no mundo dos negócios e cujos atos são


praticados repetidamente, em série orgânica, e são sempre comerciais, pela
sua própria natureza.78

Rubens Requião, ao se deparar com o tema, prefere não enfrentá-lo, tecendo um

conceito jurídico de empresa, pois não vê êxito na empreitada. Em suas digressões, conclui

ser a empresa um organismo econômico, que combina os fatores natureza, capital e trabalho,

buscando sempre a produção ou circulação de bens ou serviços, sendo sujeito dessa atividade

o empresário individual ou o empresário coletivo, que se constitui como sociedade

comercial.79 Não conceitua juridicamente, entretanto, a empresa. Ao contrário, toma

emprestadas as lições econômicas de Giuseppe Ferri e J. B. Say:

O Prof. Giuseppe Ferri observa que a produção de bens e serviços para o


mercado não é conseqüência de atividade acidental ou improvisada, mas sim
de atividade especializada e profissional, que se explica através de
organismos econômicos permanentes nela predispostos. Estes organismos
econômicos, que se concretizam da organização dos fatores de produção e
que se propõem à satisfação das necessidades alheias e, mais precisamente,
das exigências do mercado geral, tomam na terminologia econômica o nome
de empresa.80

E prossegue o professor paranaense:

O conceito jurídico de empresa se assenta nesse conceito econômico. Em


vão, os juristas têm procurado construir um conceito jurídico próprio para tal
organização. Sente-se em suas lições certo constrangimento, uma verdadeira
frustração por não lhes haver sido possível compor um conceito jurídico
próprio para empresa, tendo o comercialista que se valer do conceito
formulado pelos economistas. Por isso, persistem os juristas no afã de
edificar em vão um original conceito jurídico de empresa, como se fosse
desdouro para a ciência jurídica transpor para o campo jurídico um bem
elaborado conceito econômico.81

78
SOUZA, Ruy de. Direito das empresas – Atualização do direito comercial. Belo Horizonte: Bernardo Álvares,
1959, p. 299.
79
REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. Atual. por Rubens Edmundo Requião. 24. ed. São Paulo:
Saraiva, 2000. v. 1, p. 49.
80
REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial, v. 1, p. 50.
81
REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial, v. 1, p. 50.
61

Recorrendo às lições do mestre italiano, percebemos sua inquietação quanto ao

tema e notamos que evita o conceito jurídico de empresa. E assim se expressa:

Estes organismos econômicos, que se concretizam na organização dos


fatores da produção e que se propõe à satisfação das necessidades alheias, e
mais precisamente das exigências do mercado em geral, assumem na
terminologia econômica o nome de empresa.”82
E, após tecer considerações acerca das perspectivas do conceito de empresa para a

ciência jurídica,83 conclui:

82
Questi organismi economici, che si concretano nella oranizzazione dei fattori della produzione e che si
propogono il soddisfacimento dei bisogni altrui e più precisamente delle esigenze del mercato generale,
assumono nella terminologia economica il nome di imprese. (FERRI, Giuseppe. Manuale di diritto
commerciale. A cura di Carlo Angelici e Giovanni B. Ferri. 10. ed. Torino: Unione Tipografico-Editrice
Torinese, 1997, p. 35.)
83
Dal punto di vista giuridico, l’impresa assume rilevanza soltanto per ciò che tocca la sfera giuridica di altri
soggetti e diversi possono essere i profili, sotto i quali questa rilevanza si determina. Così l’impresa viene in
considerazione:
a) anzitutto, in quanto essa è espressione dell’attività dell’imprenditore. L’esercizio di questa attività, come
quello di ogni altra, viene assoggettato a precise norme, le quali pongono particulari obblighi o prevedono
in determinate situazioni particulari effetti o subordinano l’esercizio dell’impresa a determinate condizioni
o presupposti o li circondano di particolari garaznie.
A questa categoria di norme appartengono le disposizioni sulle imprese commerciali e sulle altre imprese
soggette a registrazione (artt. 2188-2221 cod. civ. ); le disposizionei sul fallimento, amministrazione controllata
ecc. (R. D. 29 marzo 1942, n. 267); le norme per la tutela della concorrenza e del mercato poste con la legge 10
ottobre 1990, n. 287); la disposizione dell’articolo 2084 cod. civ., la quale trova i suoi sviluppi in uma ampia
serie di leggi speciali, tra le quali tradizionalmente si segnalano quelle concernenti le imprese assicurative e le
imprese bancarie, più in generale ora le imprese operanti nel mercato finanziario;
b) in secondo luogo, in quanto in essa si concreta la idea creativa dell’imprenditore alla quale la legge
intende apprestare tutela. A questo profilo si ricollegano le disposizioni sulla repressione della concorrenza
sleale (artt. 2598-2601 cod. civ. ); le disposizioni sulla tutela dei segni distintivi (artt. 2563, 2568, 2569 cod.
civ. ); le disposizioni sui brevetti industriali (artt. 2584-2594 cod. civ. );
c) in terzo luogo, in quanto attraverso la organizzazione di determina uma combinazione di cose in funzione
dell’unitarietà della destinazione economica, dalla quale deriva l’applicazione di particulari princìpi. A
questo profilo si ricollegano le nrome sull’azienda e sul trasferimento della titolarità o della gestione di
essa (artt. 2555-2562 cod. civ. );
d) infine, in quanto nell’ambito della organizzazione economica si realizza uma formazione sociale nella
quale collaborano imprenditore e lavoratori e nella quale i rapporti tra l’uno e gli altri assumono uma
particolare conformazione, per cui non soltanto il lavoratore, nella esplicazione della sua atività, è tenuto
all’osservanza di determinate regole, ma lo stesso imprenditore deve informare la sua azione a determinate
direttive fondamentali. A questo profilo si ricollegano da un lato le disposizioni che prevedono
l’applicazione del principio gerarchico nell’ambito dell’impresa (art. 2086 cod. civ. ), che prevedono
l’applicazione di sanzioni disciplinari a carico del lavoratore in caso di inosservanza dei suoi doveri (art.
2106 cod. civ. ); d’altro lato le disposizioni contenute nello statuto dei lavoratori (legge 20 maggio 1970, n.
300) a tutela della libertà e della dignità del lavoratore e della sua libertà sindacale, nonché a tutela
dell’attività sindacale, e in via programmatica le disposizioni dell’art. 46 della Costituzione che prevede la
collaborazione dei lavoratori alla gestione dell’impresa.
In tutte le norme sopra richiamate la nozione d’impresa è presupposta: la legge fa riferimento a quella nozione
che è nella realtà sociale, limitandosi a coblierne gli aspetti rilevanti per il diritto, salvo naturalmente a porre
62

Frente a esta pluralidade de perspectivas através das quais o fenômeno pode


ser observado, mais que de uma noção jurídica de empresa é oportuno falar
dos perfis jurídicos da empresa econômica e é oportuno perceber que, ainda
que estes perfis jurídicos possam ser diversos, todavia não constituem nada
mais que diversos aspectos de um único fenômeno econômico-social: a
empresa.84

Wille Duarte Costa, em sua tese de doutoramento, cita e critica Wilson de Souza

Campos Batalha, que confunde empresa com estabelecimento:

Wilson de Souza Batalha entende que a empresa ‘é todo o conjunto de


elementos pessoais, materiais e imateriais, agrupados para realização de
determinadas finalidades, quais que elas sejam’. Nestas condições, a
empresa poderá ser confundida com o estabelecimento, unidade técnica que
lhe serve de base.85

Para Enneccerus, empresa não é sujeito nem mesmo objeto do direito, sendo

assim definida:

I. A empresa (negócio mercantil, negócio, cf. §§ 112, 1.367, 1.405; C.com.


§§ 20 e 22) é a soma de coisas, direitos e circunstâncias de fato
(probabilidades, fundo de comércio) combinados através de um sujeito de
direito (empresário) em uma unidade de organização.
II. A empresa se aproxima do patrimônio separado pela circunstância de não
se tratar do objeto de um direito, mas de um conjunto de direitos. Mas este
conceito é mais amplo que o do patrimônio separado porquanto à empresa
pertencem também as oportunidades (a clientela, o renome, os segredos do
negócio, a boa organização, a propaganda, etc.) que constituem precisamente
a essência e o valor da empresa. Uma soma de direitos só pode constituir um
patrimônio, mas não uma empresa. Mas, por outro lado, a empresa é menos
vantajosa que a posição jurídica do patrimônio separado, pois a favor do
empresário individual não tem lugar uma separação jurídica de seu
patrimônio particular, podendo dirigir-se os credores tanto contra este como
contra o patrimônio da empresa. Não se reconhece um concurso especial

nelle singole norme i presupposti specifici della loro applicazione. (FERRI, Giuseppe. Manuale di diritto
commerciale, p. 38).
84
Di fronte a questa pluralità di prospettive dalle quali il fenomeno può essere riguardato, più che di una
nozione giuridica di impresa è opportuno parlare di profili giuridici della impresa economica ed è opportuno
rilevare che, se questi profili giuridici possono essere diversi, essi tuttavia non costituiscono che diversi aspetti
di un único fenomeno economico-sociale: l’impresa. (FERRI, Giuseppe. Manuale di diritto commerciale, p. 40.)
85
COSTA, Wille Duarte. A possibilidade de aplicação do conceito de comerciante ao produtor rural, p. 128.
63

sobre a empresa.86
O Código Civil de 2002 não conceitua a empresa. Diz apenas que a sociedade

pode ser caracterizada como a pessoa jurídica organizada, por meio de um contrato, para o

exercício de atividade econômica, partilhando os resultados entre seus sócios.

Não duvidamos da importância de conceituar a empresa como instituto jurídico,

objetivo que a doutrina não atingiu satisfatoriamente. Ao contrário. Teria o legislador

percorrido enorme caminho se tivesse conseguido esse conceito. Entendemos porém ser

despiciendo para nossos propósitos. Preferimos, apenas, guardar a noção de empresa como o

exercício regular, constante e organizado de atividade que busca finalidade econômica. Ou,

ainda, a vontade objetiva e organizada do empresário, de modo a dirigir os bens da

sociedade para a consecução do fim a que se propõe. Essa vontade será, por disposição legal,

exercida através de um ente personificado ou não: a sociedade regular, a sociedade irregular

ou de fato.

86
I. La empresa (negocio mercantil, negocio, cf. §§ 112, 1. 367, 1. 405; C. com. §§ 20 y 22) es la suma de cosas,
derechos y circunstancias de hecho (probabilidades, goodwil) combinados al través de un sujeto de derecho
(empresario) en una unidad de organización.
II. La empresa se aproxima al patrimonio separado por la circunstancia de no tratarse del objeto de un derecho,
sino de un conjunto de derechos. Pero este concepto es más amplio que el del patrimonio separado por cuanto a
la empresa pertenecen también las oportunidades (la clientela, el renombre, los secretos del negocio, la buena
organización, la propaganda, etc. ) que constituyen precisamente la esencia y el valor de la empresa. Una suma
de derechos sólo puede constituir un patrimonio, pero no una empresa. Pero, por otro lado, la empresa es
menos ventajosa que la posición jurídica del patrimonio separado, pues a favor del empresario individual no
tiene lugar una separación jurídica de su patrimonio particular, pudiendo dirigirse los acreedores tanto contra
éste como contra el patrimonio de la empresa. No se reconoce un concurso especial sobre la empresa.
(ENNECCERUS, Ludwig. Tratado de Derecho Civil. Parte General. Volumen primero. Traducción de la 39.
Edición Alemana por Blas Pérez González y José Alguer. 2. ed. Barcelona: Bosch, p. 604.) Atualizando o
magistral Tratado alemão, González e Alguer assim se manifestam:
I. El concepto jurídico de empresa mercantil ha sido recientemente determinado por nuestra jurisprudencia,
pues, según la S. de 23 marzo 1946, a falta de su definición en la legislación vigente, ha de recurrirse a la
doctrina de las Sentencias de 13 de marzo y 3 de mayo de 1943 y 7 de diciembre de 1945, en las cuales se
establece que son sus elementos integrantes ‘el trabajo’, ‘el capital’ y ‘la organización’ de ambos, a los fines de
producción económica, el último de duyos elementos, o sea, la organización es el verdaderamente esencial para
que el conjunto de bienes y de trabajo tenga el carácter de empresa mercantil, con valor económico en su
conjunto, superior a la suma de los factores singulares que la componen y cuya responsabilidad en orden al
éxito o fracaso de la empresa es exclusivamente del empresario, por lo que es el elemento al que principalmente
se atiende en los negocios jurídicos que tienen por objeto la empresa mercantil. (ENNECCERUS, Ludwig.
Tratado de derecho civil. Parte general. Traducción de la 39. Edición Alemana por Blas Pérez González y José
Alguer. 2. ed. Barcelona: Bosch, v. 1, p. 605.)
Capítulo 5

A ATIVIDADE ECONÔMICA PERSONIFICADA E NÃO

PERSONIFICADA

5.1 Sociedade regular ou sociedade personificada

5.1.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA

O Código Comercial Brasileiro não tratava das sociedades comerciais irregulares

ou de fato, deixando para a doutrina a responsabilidade pela elaboração dos conceitos, efeitos

e repercussões de ambas no mundo empresarial.

Sabe-se, contudo, que o homem, desde tempos remotos, agrupa-se e organiza-se

para atingir determinados objetivos sociais e econômicos. Primeiro buscando a segurança de

suas famílias; posteriormente, constituindo-se em grupos, vislumbrou a utilidade de reunir

seus esforços também para a obtenção de melhores resultados na produção.

Reunidos em pequenos organismos, os primeiros empreendedores utilizavam a

união de seus esforços sem se preocupar em observar regras exteriores. O que lhes importava

era a distribuição interna de suas atribuições, respeitando-se mutuamente em decorrência de

direitos e deveres por eles próprios definidos.

Com o incremento da organização dos grupamentos sociais, verificou-se a

necessidade de regulamentar também essas incipientes iniciativas empresariais de comércio e

indústria. Daí surgiram os primeiros diplomas legais relativos à atividade societária, nos
65

diversos povos. Scialoja noticiava, ainda no período medieval, o surgimento das primeiras

sociedades, que depois se chamaram em nome coletivo. Florença, entendia também Ageo

Arcangeli, pode ser considerada a pátria natural deste modelo societário. De fato, os

florentinos emprestavam a suas companhias todas as suas forças e honestidade, garantindo a

terceiros que contratavam com a sociedade a máxima garantia e segurança do crédito.87

O Direito Romano se caracteriza, especialmente, pela noção pessoal das

sociedades, instituídas em função de caracteres pessoais de seus integrantes, como defende

Eduardo Goulart Pimenta.88 Por causa dessa orientação, os diversos ordenamentos que se

inspiraram no Código Napoleão trouxeram arraigado o caráter intuitu personae dessas

primeiras organizações societárias concebidas pela legislação. Nosso Código Comercial de

1850 segue o exemplo da legislação francesa do início do século XIX.

Na evolução do raciocínio jurídico, diversos autores iniciaram discussões sobre a

eventual personificação dessas sociedades. Trazendo a discussão para a perspectiva brasileira,

a fim de evitar digressões extensas e prolixas, podemos encontrar quem entendia que a

sociedade não gozava de personalidade jurídica, enquanto outros autores defendiam a

personificação do ente.89

5.1.2 AS SOCIEDADES REGULARES

87
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial – O estatuto da sociedade de pessoas. São Paulo:
Saraiva, 1961, v. 3, p. 166.
88
PIMENTA, Eduardo Goulart. Considerações sobre a personalidade jurídica das sociedades comerciais
irregulares. Revista da Faculdade Mineira de Direito, Belo Horizonte, v. 3, n. 5 e 6, p. 53, 1o e 2o sem. 2000.
89
Carvalho de Mendonça relata a pulsante divergência doutrinária acerca da personalização jurídica das
sociedades comerciais, no seu Tratado de direito comercial brasileiro. 1958, v. III, p. 77.
66

No que respeita ao contrato de sociedade, seja civil, seja comercial, a doutrina se

pacifica, entendendo ser a sociedade um negócio jurídico, celebrado por duas ou mais

pessoas, com o objetivo de perseguir determinado fim.

Assim, empresa não se confunde com sociedade.90 A “sociedade é o negócio

jurídico pelo qual duas ou mais pessoas se obrigam mutuamente a somar esforços e recursos

para o exercício da atividade econômica em proveito comum”.91

Para Rubens Requião, “celebram sociedade comercial as pessoas que mutuamente

se obrigam a combinar seus esforços ou recursos, para lograr fins comuns de natureza

comercial”.92

Roberto de Ruggiero nos remete à discussão sobre a personificação da sociedade

comercial, estudada por Vivante, Manara, Marghieri, Navarrini, Bonelli, Ferrara, De Semo,

dentre outros, mencionando que havia discussão entre os escritores, para os quais certas

figuras jurídicas não se constituíam pessoas jurídicas:

Mas não se devia na verdade duvidar quanto às sociedades comerciais, que


quer por declaração da lei, quer pela sua estrutura se designam nitidamente
como pessoas jurídicas, pôsto que de natureza diversa de tôdas as outras
figuras. Os arts. 77 e 239 do Cód. Com. declaram realmente que a sociedade
em nome coletivo, e em comandita simples ou em comandita por ações, a
anônima, bem como as associações de socorro mútuo, constituem, com
relação a terceiros, entes coletivos distintos das pessoas dos sócios. A estas
são equiparadas, pelo art. 219, as sociedades cooperativas. Mas precisamente
pelo código ter falado de ‘entes coletivos’, em vez de ‘corpos’ ou ‘pessoas
morais’, e por ter acrescentado que são considerados como entes coletivos
apenas com relação a terceiros, sustentam alguns que as sociedades
comerciais não são pessoas jurídicas. Esta opinião não se deve, porém,

90
Dispõe o Código Civil de 1916, no art. 1363: “Celebram contrato de sociedade as pessoas que mutuamente se
obrigam a combinar seus esforços ou recursos, para lograr fins comuns.” A Lei 10. 406/2002 (novo Código
Civil) mantém a mesma proposta conceitual, no art. 981: “Celebram contrato de sociedade as pessoas que
reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a
partilha, entre si, dos resultados.”
Nota-se que o legislador não tratou, em nenhum dos textos legais, da responsabilidade pelos prejuízos. Porém, ao
prever a partilha dos resultados, outorga ao sócio a responsabilidade pelo resultado negativo. Nesse sentido,
veja-se MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. III, 5, p. 14 e nota n. 2.
91
GOMES, Orlando. Contratos. Atualização e notas de Humberto Theodoro Júnior. 18. ed. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p. 393.
92
REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial, 24. ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 329.
67

seguir. A expressão ‘ente coletivo’ não tem na terminologia legislativa valor


diverso daquele de todos os outros têrmos com promiscuidade usados pela
nossa lei para designar as pessoas jurídicas; não constitui a expressão ‘com
relação a terceiros’ uma limitação tal da unidade orgânica dêsses entes que a
aniquile; e é sempre verdadeiro que o fenômeno mais marcante a que dá
lugar qualquer pessoa jurídica, isto é: o apresentar-se como entidade distinta
capaz de obrigar-se e centralizar relações jurídicas, se reflete nelas em tôda a
sua integridade, pôsto que as operações comerciais se desenvolvam
diretamente no interêsse dos sócios.93

Como ensina Giuseppe Ferri, a sociedade é uma organização ativa, que se propõe

à realização de um objetivo. Não se contenta com a obtenção de frutos. Busca, através de sua

atividade produtiva, atingir a coletividade para a obtenção de resultados econômicos. Sua

atividade produtiva não é um fim em si mesma; é, ao contrário, elemento da atividade

especulativa que busca no seu mercado específico.94

O Código Comercial de 1850, sem conceituar as sociedades mercantis, dispunha

no art. 287 ser da essência das companhias e sociedades comerciais que o objeto e fim a que

se propõem sejam lícitos, e que cada um dos sócios contribua para o seu capital com alguma

quota, ou esta consista em dinheiro ou em efeitos e qualquer sorte de bens, ou em trabalho ou

indústria, para adiante aduzir que o contrato de qualquer sociedade comercial se prova por

escritura pública ou particular, cujo teor deve ser lançado no Registro de Comércio onde se

houver estabelecido.

O Código Civil de 1916, que vigorou desde o início do século XX, dissipou todas

as dúvidas sobre a personalização da sociedade mercantil quando enumerou, no art. 16, dentre

as pessoas jurídicas de direito privado: I – as sociedades civis, religiosas, pias, morais,

científicas ou literárias, as associações de utilidade pública e as fundações; II – as sociedades

mercantis; III – os partidos políticos. Previu, contudo, no § 2o, para as sociedades mercantis, a

continuidade da regência pelas leis comerciais.

93
RUGGIERO, Roberto de. Instituições de direito civil. Tradução da 6. ed. italiana, com notas remissivas aos
Códigos Civis Brasileiro e Português pelo Dr. Ary dos Santos. São Paulo: Saraiva, 1957. v. I: Introdução e parte
geral; direito das pessoas, p. 499-500.
94
FERRI, Giuseppe. Manuale di diritto commerciale, p. 236.
68

Quanto às sociedades regulares, é hoje pacífica a doutrina que lhes confere

personalidade jurídica. O Código Comercial de 1850 realmente não tratou do assunto, mas o

Estatuto de 1916 veio acabar com as dúvidas acerca do tema, dispondo, no art. 16, sobre a

personificação da pessoa jurídica. O ordenamento codificado, apesar de não tratar

expressamente de matéria comercial, inclui as sociedades mercantis no rol das pessoas

jurídicas de direito privado, ao lado das sociedades civis, religiosas, pias, morais, científicas

ou literárias, associações, fundações e partidos políticos. Manteve contudo o regramento

especial das sociedades comerciais, dispondo que estas continuam regidas pelas leis

comerciais. Adiante, no art. 18, estabelece que a existência legal das pessoas jurídicas de

direito privado inicia-se com a inscrição de seus contratos, atos constitutivos, estatutos ou

compromissos no registro peculiar ou com autorização governamental, quando necessária.

Regra semelhante é reproduzida no Código Civil de 2002, que dispõe, no art. 44,

serem pessoas jurídicas de direito privado as associações, as sociedades e as fundações, sendo

sua existência legal verificada no momento de sua inscrição no registro competente, pelo

registro do respectivo ato constitutivo, precedida, quando necessária, de autorização ou

aprovação do Poder Executivo. A sociedade se diferencia das associações e fundações em

virtude de seus fins.

Já agonizantes, o Código Civil e o Código Comercial, sofreram diversas

alterações por leis esparsas, seja modificando em grande parte o direito de família, seja

reformando integralmente a legislação falimentar e societária, o legislador feriu de morte as

codificações quase centenárias vigentes no Brasil. Várias propostas foram apresentadas,

buscando a reforma dos vetustos Códigos. Dentre os mais destacados – motivo de orgulho

para nossa cultura jurídica –, citamos o Projeto de Orlando Gomes, de 31 de março de 1963, e

o Código das Obrigações de Caio Mário da Silva Pereira, em 25 de dezembro do mesmo ano.

Em decorrência das enormes manifestações buscando a reforma do Código Civil –


69

que, no entender daqueles renomados juristas, introduziria também modificações na

legislação comercial, com a revogação do mais antigo Código em vigor no país –, nomeou-se,

em 1969, pelo então Ministro da Justiça, uma comissão encarregada de elaborar um novo

código. Dessa comissão, cuja supervisão ficou a cargo de Miguel Reale, surgiu em 1972 um

anteprojeto, subdividido em sete livros. Integravam a comissão original os professores

Agostinho de Arruda Alvim (direito das obrigações), Sylvio Marcondes (atividade negocial),

Ebert Vianna Chamoun (direito das coisas), Clóvis do Couto e Silva (direito de família) e

Torquato Castro (direito das sucessões). Após recebidas inúmeras emendas, o Anteprojeto foi

publicado em 1973.

Novas modificações foram introduzidas no Anteprojeto, ficando a cargo do Poder

Executivo a elaboração do projeto definitivo, que foi encaminhado ao Congresso Nacional em

1975, transformado no Projeto n. 634. Em 17 de maio de 1984, com algumas alterações, foi

publicada a redação final, aprovada pela Câmara dos Deputados.

Sob muitos aspectos ultrapassado,95 a história política do País não permitiu que

esse projeto fosse devidamente analisado. Recentes modificações legislativas de importância,

como o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto da Criança e do Adolescente, sem

mencionar a aprovação da Constituição da República de 1988, impediram o prosseguimento

das discussões acerca do já antiquado Projeto n. 634/75. Novamente, o Prof. Miguel Reale foi

chamado a estudar o projeto, desta vez acompanhado do Ministro José Carlos Moreira Alves.

Os dois juristas passaram à tarefa de atualizá-lo, reestruturando-o e dando-lhe andamento.

Com as constantes modificações políticas pelas quais passou o país, dentre elas a realização

95
O Prof. Sylvio Marcondes defende que o Código Civil não pretendeu inovar: “Com esse espírito, com essa
preocupação de sistematicidade da matéria, é que o Projeto só acolheu, como Projeto de Código que é, aquilo
que já está sedimentado no ordenamento jurídico brasileiro: na lei, na jurisprudência, na doutrina ou na prática.
Não se trouxe para dentro do Projeto nenhum experimento, mas sim a experiência do passado, sem nenhuma
tentativa de inovações estranhas.” (Exposição de Motivos – Diretrizes fundamentais, “i”, n. 4, p. 109 do
Suplemento, Diário do Congresso Nacional de 10/4/76.)
70

da Assembléia Nacional Constituinte, de 1987 a 1988,96 e o posterior impeachment do

Presidente Fernando Collor de Mello, em 1992,97 os trabalhos ficaram excessivamente

prejudicados, só sendo possível a aprovação tão ansiada da reforma do Código Civil em 2002,

pela Lei n. 10.406, de 10 de janeiro.

Este novo Código toma emprestado do ordenamento civil de 1916 os artigos

essencialmente técnicos, que permanecem com a mesma redação ou, por vezes, têm

simplificada a linguagem da antiga lei para melhor entendimento, atendendo à buscada

operosidade defendida por Miguel Reale.

Diferença marcante do novo ordenamento está na indissociação das sociedades de

caráter civil das mercantis. Mantendo a coerência sobre o tema, o novel Código Civil não

propõe qualquer dicotomia na matéria societária, pondo fim, pelo menos em termos

legislativos, à discussão doutrinária sobre a classificação das sociedades em civis e

comerciais. Adiante, o legislador, inspirado no projeto de Sylvio Marcondes, incluiu o Livro

II – Do Direito de Empresa, para tratar da matéria empresarial e societária sem distinção do

objeto civil ou mercantil do empreendimento.

A inclusão do direito empresarial no Código Civil é novidade das mais

importantes para o nosso estudo, cuja conveniência e funcionalidade somente o futuro

demonstrará. De qualquer forma, é essa a legislação civil que nos guiará no século XXI.

Logo no art. 44, o novo texto enumera as pessoas jurídicas de direito privado. Ali,

menciona as associações, as sociedades e as fundações. Simplificando a sistemática

anteriormente adotada, deixou o Código Civil Brasileiro de distinguir as sociedades em civis e

mercantis.98

96
Disponível em: http://www.fugpmdb.org.br/c_cidada.htm. Acesso em 5/5/2003.
97
Disponível em: http://www.arquivonacional.gov.br/memoria/crapp_site/presidente.asp?rqID=31. Acesso em
5/5/2003.
98
Entendemos, entretanto, permanecer a dicotomia, posto que o objeto da sociedade é que determinará sua
natureza. Essa diferenciação é de suma importância para digressões acerca da possibilidade de falência ou
71

Contém o texto codificado de 1916 a seguinte definição do contrato de sociedade:

“Art. 1.363. Celebram contrato de sociedade as pessoas que mutuamente se obrigam a

combinar seus esforços ou recursos, para lograr fins comuns.”

Atualizando o novo Código Civil, a Lei n. 10.406/02, no art. 981, assim dispõe

sobre o pacto de sociedade: “celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente

se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a

partilha, entre si, dos resultados”.

A definição legal pátria toma emprestada a lição germânica, que define o contrato

de sociedade no art. 705 do BGB: “Pelo contrato de sociedade se obrigam os sócios

reciprocamente a procurar a consecução de um fim comum na forma determinada no contrato,

em especial a realizar as contribuições pactuadas.”99

Carvalho de Mendonça ensina que a sociedade comercial é espécie do gênero

sociedade, portanto sujeita ao regramento contido na legislação civil. Além do mais, continua

o mestre, “sobreleva notar que, surgindo do contrato a personalidade jurídica das sociedades,

mutilar-se-iam a unidade e a harmonia das regras dominantes no instituto se não as

apreciássemos na sua complexidade”.100 E finaliza, conceituando a sociedade comercial:

A sociedade comercial surge do contrato mediante o qual duas ou mais


pessoas se obrigam a prestar certa contribuição para um fundo, o capital
social, destinado ao exercício do comércio, com a intenção de partilhar os
lucros entre si.101

concordata da sociedade civil, fato à primeira vista possível, tendo em vista a ausência de diferenciação da
norma legal. Não é, no entanto, o que deverá prevalecer. O instituto falimentar é inerente ao comerciante, tendo
em vista a natureza de sua atividade. Sobre o tema, voltaremos à discussão adiante.
99
Art. 705 – Por el contrato de sociedad se obligan los socios recíprocamente a procurar la consecución de un fin
común en la forma determinada en el contrato, en especial a realizar las aportaciones pactadas. (Alemanha:
Código Civil Aleman. Traducción directa del alemán al castellano acompañada de notas aclaratorias, con
indicación de las modificaciones habidas hasta el año 1950, por INFANTE, Carlos Melon. Barcelona: Bosch,
1994, p. 145. )
100
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. III, p. 8.
101
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. III, p. 14.
72

Daí, facilmente se pode concluir pela conceituação de sociedade regular. É ela o

contrato mediante o qual duas ou mais pessoas, contribuem proporcionalmente à sua

participação social, buscando um objetivo comum, desde que os atos constitutivos e livros

fiscais estejam devidamente registrados, observadas as normas legais a respeito da atividade

exercida.

5.2 Sociedades não-personificadas, irregulares e de fato: Sociedades em Comum

Importante tema a ser discutido com o advento do novo Código Civil Brasileiro é

o que diz respeito à sociedade em comum. Os dispositivos legais contidos nos arts. 986 a 990

induzem ao entendimento de que se trata da regulamentação da sociedade irregular ou de fato,

que a doutrina muito estudou, com base nos antigos Códigos Civil e Comercial.

Reflexões sobre a matéria devem ser feitas sob o ponto de vista das novas

disposições legais. Se anteriormente, como trataremos a seguir, discutia-se a personificação

ou não de referidos organismos econômicos, chegando alguns autores a defender que a

sociedade irregular tem personalidade jurídica, o novo Código lança novas luzes sobre as

discussões doutrinárias. Inova a legislação mercantil ao tratar da sociedade em comum

(assunto que era omisso nas legislações anteriores), incluindo referida forma societária no

Subtítulo que trata das sociedades não personificadas, juntamente com a sociedade em conta

de participação.

A mesma simplificação legislativa adotada em relação às sociedades regulares,

entretanto, não foi estendida à irregular. Nas codificações anteriores, seja a comercial de
73

1850, seja a civil do início do século XX, evitou-se tratar das sociedades irregulares ou de

fato. Desta omissão legislativa surgiram discussões inclusive sobre a semelhança ou diferença

entre ambas.

Carvalho de Mendonça102 defende que as sociedades irregulares se diferenciam

das de fato porque as primeiras “funcionam durante certo tempo sem o cumprimento das

solenidades legais da constituição, registro e publicidade”, enquanto as últimas são “afetadas

por vícios que a inquinam de nulidade”, apesar de ter vivido, contratado, participado de fatos

consumados e imutáveis. A responsabilidade dos sócios em ambas é solidária e ilimitada para

com terceiros, sanção destinada a desestimular a existência de sociedades irregulares ou de

fato.

Por outro caminho traça sua doutrina Waldemar Ferreira,103 entendendo que a

sociedade de fato, “formada por mero ajuste verbal, sem contrato escrito, não tem, nem

poderá ter existência legal como pessoa jurídica de Direito Privado”. Esta sociedade “vive,

funciona e prospera. Mas vive de fato. Como sociedade de fato se considera”. Já a sociedade

irregular se caracteriza por ter sido “constituída por escrito não levado a arquivamento no

Registro do Comércio”. Nesta escritura particular são previstos os direitos, ônus e obrigações

sociais, porém enquanto não levados seus atos constitutivos ou alterações a arquivamento no

Registro de Comércio funcionam irregularmente. Enquanto não houver o arquivamento de

seus atos constitutivos, a sociedade não adquire personalidade jurídica, sendo, portanto, um

patrimônio em comum dos sócios. Conclui no mesmo sentido de Carvalho de Mendonça em

relação aos credores, pois ambas não se diferenciam perante estes, respondendo os sócios (do

patrimônio ou sociedade em comum) solidária e ilimitadamente pelas obrigações contraídas.

Em raciocínio próximo se encontram os argumentos de Rubens Requião, para

quem tanto as sociedades de fato quanto as irregulares não possuem personalidade jurídica,

102
MENDONÇA, J. X. Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro, v. III, p. 130.
103
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial: O estatuto da sociedade de pessoas, v. 3, p. 179-197.
74

pois lhes falta a inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis.104 Para o autor

paranaense, no entanto, a responsabilidade dos sócios é ilimitada, porém subsidiária, e por

isso “o credor da sociedade deve primeiro, pelas dívidas sociais, executar a sociedade, para,

na falta de bens, realizar a responsabilidade ilimitada do sócio, que por isso é subsidiária”.

Theóphilo de Azeredo Santos105 também conclui na sua tese de doutoramento, que, apesar de

não possuir personalidade jurídica, a sociedade irregular está sujeita ao regime jurídico a que

está ligada.

Para João Eunápio Borges,106 a diferenciação que Carvalho de Mendonça e

Waldemar Ferreira propunham (seguida, entre vários, por Rubens Requião) entre a sociedade

de fato e a sociedade irregular é totalmente irrelevante, sendo certo que não se verificam

resultados práticos naquela diferenciação, posto que em ambas a responsabilidade dos sócios

será a mesma, solidária e ilimitada. José Maria Rocha Filho107 e Fábio Ulhôa Coelho108

acompanham o mestre mineiro, sendo que o último insiste em que as expressões devem

tomar-se como sinônimas. Em atualização de sua obra, o grande comercialista mineiro chega

a defender que a expressão “sociedade de fato” deveria ser proscrita da linguagem jurídica.109

Ao final, contudo, conclui pela personificação da sociedade irregular, atentando para o fato de

não haver, na legislação comercial brasileira, razão para não lhe conferir personalidade

jurídica.

Fran Martins110 é de opinião que a sociedade será irregular quando “se organiza

legalmente, arquiva os seus atos constitutivos no Registro do Comércio, mas, posteriormente,

104
REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial, v. 1, p. 355.
105
SANTOS, Theóphilo de Azeredo. Regime jurídico das sociedades comerciais. Rio de Janeiro: Imprensa
Universitária da UMG, 1958.
106
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre, v. 2, p. 42.
107
ROCHA FILHO, José Maria. Curso de direito comercial. Belo Horizonte: Del Rey, 1994.
108
COELHO, Fábio Ulhôa. Curso de direito comercial. V. 2. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 394.
109
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre, p. 284.
110
MARTINS, Fran. Curso de direito comercial. 22. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 237.
75

pratica atos que desnaturam o tipo social”. A sociedade passa, então, a funcionar

irregularmente, tornando-se os sócios ilimitadamente responsáveis. Já a sociedade, quer tenha

os atos constitutivos escritos e não arquivados, quer resulte apenas de atividade comercial em

comum, com ânimo societário, será considerada uma sociedade de fato. Esta sequer possui

personalidade jurídica, pois não teve seus atos constitutivos inscritos no Registro do

Comércio. A existência ou não de contrato escrito será apenas meio de prova bastante entre os

sócios, nenhum reflexo tendo em relação a terceiros, pois é um contrato particular que faz lei

apenas entre as partes nele envolvidas. A doutrina do professor cearense, parece, serviu de

suporte ao legislador de 2002, que aprovou a regulamentação da sociedade em comum

naqueles termos, como veremos adiante.

O novel Código Civil prevê o início da existência legal das pessoas jurídicas de

direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando

necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas

as alterações por que passar o ato constitutivo. Sendo as sociedades espécie do gênero pessoas

jurídicas de direito privado, segundo a sistemática adotada em 2002 e seguindo a orientação

do Código Civil anterior, é com o registro de seus atos constitutivos que se inicia legalmente a

vida da sociedade.

Adiante, o novo Código prevê expressamente a existência da sociedade em

comum, entendida como aquela sociedade cujos atos constitutivos não estejam ainda inscritos

no registro próprio. Só com o advento desse registro é que a sociedade adquirirá

personalidade jurídica, deixando fora de dúvidas as hipóteses aventadas na doutrina anterior

sobre uma possível personificação da sociedade sem prévio registro.111

111
Sobre a personificação das sociedades irregulares, Eduardo Goulart Pimenta publicou, na Revista da
Faculdade Mineira de Direito, excelentes comentários.
76

Fábio Ulhôa Coelho,112 atualizando seu Curso de Direito Comercial segundo o

novo Código Civil, resume as lições aplicáveis à sociedade irregular ou de fato para concluir

que a nova legislação as trata sob um mesmo signo, como “sociedades em comum”.

Prevendo o diploma civil a existência de uma sociedade despersonificada (por

isso, sociedade em comum, ou sociedade cujo patrimônio é comum aos sócios) enquanto não

inscritos os atos constitutivos no registro próprio, seus sócios, nas relações entre si ou com

terceiros, só por escrito poderão provar a existência da sociedade. Os terceiros, no entanto,

poderão prová-la de qualquer modo.

A lei civil não estabelece meios para a citada prova, razão por que poderemos

tomar emprestados os termos do antigo Código Comercial Brasileiro. Assim dispõe o art. 304

do Código Comercial de 1850 que “a existência da sociedade pode provar-se por todos os

gêneros de prova admitidos em comércio (art. 122), e até por presunções fundadas em fatos de

que existe ou existiu sociedade”. Continua o art. 305 aduzindo que a existência da sociedade é

presumida sempre que alguém exercita atos próprios de sociedade, e que regularmente se não

costumam praticar sem a qualidade social, dentre os quais exemplifica:

1. negociação promíscua e comum;

2. aquisição, alheação, permutação, ou pagamento comum;

3. se um dos associados se confessa sócio, e os outros o não contradizem por uma

forma pública;

4. se duas ou mais pessoas propõem um administrador ou gerente comum;

5. a dissolução da associação como sociedade;

6. o emprego do pronome nós ou nosso nas cartas de correspondência, livros,

faturas, contas e mais papéis comerciais;

7. o fato de receber ou responder cartas endereçadas ao nome ou firma social;

112
COELHO, Fábio Ulhôa. Curso de direito comercial, v. 2, p. 395.
77

8. o uso de marca comum nas fazendas ou volumes;

9. o uso de nome com a adição – e companhia.

Os meios de prova da existência da sociedade, previstos no anterior Código

Comercial, estão enumerados em artigos revogados pela lei de 2002. Os critérios, no entanto,

são admitidos pela doutrina pátria113 como mera exemplificação de indícios que provam a

existência da sociedade. Devido à omissão do novo Código Civil, nada obsta a que continuem

sendo utilizados.

Os bens e dívidas da sociedade em comum constituem um patrimônio especial,

cuja titularidade pertence em condomínio aos sócios. Esses ativos respondem por obrigações

sociais contraídas com terceiros, independentemente da alegação de prática de atos com

excesso de poderes por qualquer dos sócios. Não estando a sociedade regularmente

constituída, ou seja, não estando seus atos constitutivos regularmente inscritos no registro

próprio, não se pode exigir de terceiros que conheçam as restrições de poderes conferidas a

cada um dos componentes da sociedade. Entretanto, terceiros que conheciam ou poderiam

conhecer tais restrições contratuais ficam sujeitos às condições previstas no estatuto

societário.

Finalmente, conclui o legislador de 2002 que a responsabilidade dos sócios é

solidária e ilimitada perante terceiros, para o cumprimento de obrigações sociais. Com o art.

990, exclui-se qualquer dúvida acerca da solidariedade ou subsidiariedade da obrigação dos

sócios. O entendimento de Rubens Requião sobre a matéria torna-se ultrapassado, ante a

expressa disposição legal. Para dirimir quaisquer dúvidas, o legislador dispõe que o sócio que,

113
João Eunápio Borges (1959), Waldemar Ferreira (1961) e Carvalho de Mendonça (1958), dentre outros,
consideram os critérios adotados pelo Código Comercial para identificação e prova da sociedade irregular como
enumeração exemplificativa do legislador, podendo o terceiro interessado se valer de outros métodos para
consecução de seu objetivo. Se os indícios de prova foram meramente relacionados na lei revogada, nada obsta a
que continuem valendo os critérios, em especial porque a lei nova não traçou novos critérios para o operador do
direito utilizar.
78

em nome da sociedade, contratou e assumiu obrigações não poderá exigir sequer que primeiro

se executem os bens comuns. Tendo participado do negócio jurídico, o benefício de ordem

fica terminantemente excluído ao sócio.

Deixou a entender o legislador, entretanto, que a sociedade em comum será

entendida enquanto não regularmente constituída a pessoa jurídica. Faz parecer que só houve

preocupação com aquela chamada por Fran Martins de sociedade de fato. Entendemos não ser

esta, no entanto, a melhor exegese.

O legislador de 2002, aparentemente, em nenhum ponto discorreu sobre uma

possível irregularidade da sociedade. Como ensinava o mestre nordestino, diante do disposto

na legislação revogada, será irregular a sociedade

que se organiza legalmente, arquiva os seus atos constitutivos no Registro do


Comércio, mas, posteriormente, pratica atos que desnaturam o tipo social
(por exemplo: uma sociedade em comandita simples por prazo determinado
ultrapassa esse prazo sem renovar o contrato social; continua a sociedade a
funcionar irregularmente, perdendo os sócios que limitaram sua
responsabilidade, ou seja, os sócios comanditários, esse benefício, tornando-
se ilimitadamente responsáveis); ou que funciona sem cumprir as obrigações
impostas por lei (não possui livros obrigatórios, não levanta o balanço
anual).114

A lição é inteiramente aplicável às disposições do novo Código Civil.

Não houve, entretanto, omissão legislativa quanto à sociedade irregular. Ao

contrário. Enquanto regularmente constituída, a sociedade tem seus negócios expressamente

regulamentados. Deixando, porém, de promover o registro de seus atos modificativos ou de

praticar qualquer obrigação para permanecer regular, a sociedade deixa de estar legalmente

constituída, regularmente formada. Esta sociedade, não observando os preceitos legais que lhe

são impostos, deverá sofrer uma sanção. E a mais severa, em nosso entendimento, é a

extensão à sociedade irregular dos dispositivos sancionatórios aplicáveis à sociedade em

comum.

114
MARTINS, Fran. Curso de direito comercial, p. 237.
79

A expressão contida no art. 986 – “enquanto não inscritos os atos constitutivos” –

deve ser interpretada como “se não inscritos os atos constitutivos ou não registradas as

modificações posteriores”. Assim, deixando o sócio de descumprir preceitos legais relativos à

regularidade da sociedade de que participa, sofrerá o ônus da responsabilização pessoal por

dívidas da pessoa jurídica, de forma solidária e ilimitada. Se a ninguém é lícito descumprir a

lei sob o argumento que não a conhece, menos ainda podem deixar de observar preceitos

legais aqueles que constituem uma sociedade para contrair direitos e obrigações em nome da

pessoa jurídica, que é personificada graças à ficção legal que a equipara à pessoa natural.

Como ensina Vivante, “a sociedade mercantil constitui um sujeito de direito distinto das

pessoas dos sócios que estão interessados na mesma: ela é o verdadeiro titular dos direitos e

das obrigações que se criam por sua atividade”.115

A sociedade irregular não perderá contudo sua personalidade jurídica. Tendo-a

adquirido com a inscrição de seus atos no registro público competente, a teor do art. 985, só

nas hipóteses previstas na lei civil para cada um dos modelos societários regulamentados é

que perderá sua personificação. Assim, terminará a existência da sociedade simples na forma

prevista nos arts. 1033 e seguintes. A sociedade em nome coletivo se dissolve de pleno direito

na forma do art. 1033 e, também, pela decretação da falência (se sociedade empresária). Da

mesma forma, dissolvem-se a sociedade em comandita simples e a sociedade por quotas de

responsabilidade limitada. A sociedade anônima, segundo os critérios estabelecidos no art.

219 da Lei n. 6404/76.

Continua existindo a sociedade com personalidade jurídica e patrimônio próprios.

A responsabilidade dos sócios, em cada um dos modelos societários admitidos na legislação,

porém, independentemente de qualquer dispositivo contratual ou estatutário que a limite,

115
La sociedad mercantil constituye un sujeto de derecho distinto de las personas de los socios que están
interesados en la misma: ella es el verdadero titular de los derechos y las obligaciones que se crean por su
actividad. (VIVANTE, Cesar. Tratado de derecho mercantil: Las sociedades mercantiles, v. 2, p. 13.)
80

passa a ser solidária e ilimitada, como na sociedade em comum, desde que violados

dispositivos legais relativos à constituição e funcionamento sociais, tornando-a, por isso, uma

sociedade irregular.

Promovendo a regularização, contudo, deixam os sócios de ser solidários entre si

e com a sociedade pelas dívidas sociais, voltando à limitação da responsabilidade da forma

contratada nos respectivos estatutos sociais. Entretanto, mesmo sanada a irregularidade,

permanece a responsabilidade solidária dos sócios pelos atos praticados enquanto era irregular

a sociedade, posto que aqueles que contrataram com a sociedade irregular foram conduzidos à

celebração do contrato com base na situação que lhes era apresentada. Uma posterior

regularização da sociedade não muda negócios jurídicos anteriormente pactuados e não exclui

a responsabilização solidária e ilimitada dos sócios.

Com o novo Código Civil, não restam dúvidas sobre a responsabilidade dos

sócios na sociedade em comum ou de fato. Esta é, irremediavelmente, solidária e ilimitada,

em vista dos dispositivos expressos que regulam a sociedade em comum.

O mesmo tratamento deve ser emprestado à sociedade irregular, que surge quando

os sócios deixam de observar, criteriosamente, os dispositivos legais para seu funcionamento.

Esta, independentemente da estrutura societária escolhida, será equiparada, para fins de

responsabilização, à sociedade em comum, estendendo-se ao patrimônio dos sócios a

responsabilidade pelo pagamento das obrigações sociais, de forma ilimitada e solidária. O

benefício de ordem previsto no art. 1024 também não é aplicável a esta sociedade, em função

da sua equiparação à sociedade em comum.

Esse agravamento da responsabilidade, tanto num quanto noutro modelo,

permanece para todos os atos jurídicos praticados enquanto tiver durado a irregularidade

societária.
Capítulo 6

ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA – ORIGEM E DESTINAÇÃO

DOS RECURSOS

No Brasil, adotou-se, desde o princípio, o modelo associativo para os clubes. A

associação desportiva é ente que, por força do disposto no Código Civil, tem personalidade

jurídica, obrigando-se ao cumprimento de formalidades previstas em lei, destinadas à sua

identificação e publicidade.116 É ainda importante diferenciar a associação da sociedade civil

em virtude da posição jurídica de seus membros, apesar da advertência de Caio Mário da

Silva Pereira117 de ter o Código Civil de 1916 deixado de se referir à distinção que a doutrina

faz, o que não se repetiu no novo Código Civil, que prevê normas específicas para as

associações entre os artigos 53 e 61.

Enneccerus define a associação como

a união estável de uma pluralidade de pessoas, independente em sua


existência da troca de membros, que tem uma constituição corporativa e um
nome coletivo correspondendo à administração dos assuntos da associação
aos membros. A associação tem, portanto, membros e administração
própria.118

Enquanto a associação tem fim ideal (religioso, cultural, político, assistencial,

esportivo), na sociedade busca-se o proveito dos sócios. Nesta, um grupo, em geral reduzido

116
GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, p. 193.
117
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998, v. I, p.
215.
118
La unión estable di una pluralidad de personas, independiente en su existencia del cambio de miembros, que
tiene una constitución corporativa y un nombre colectivo correspondiendo la administración de los asuntos de
la asociación a los miembros. La asociación tiene, por tanto, miembros y administración propia.
(ENNECCERUS, Ludwig. Tratado de derecho civil. Parte general, v. 1, p. 479-480.)
82

de indivíduos, vincula-se por direitos e obrigações recíprocas. Na primeira, os associados não

guardam obrigação ou ônus por prestações correlatas.119

Optou-se pelo modelo associativo na formação das entidades desportivas

exatamente em virtude do seu caráter não econômico. É verdade que existem também

associações de fins econômicos e sociedades de fins não econômicos, como lembra Pontes de

Miranda.120 Mas não é a regra. Buscavam os incentivadores do desporto no início do século

passado a melhor maneira de divulgar a incipiente modalidade. Domingos Sávio Zainaghi, em

sua tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da PUC/SP e convertida em livro,

ao narrar a introdução do futebol na sociedade brasileira por Charles Miller, que retornava em

1884 da Inglaterra e trazia consigo duas bolas e as regras do futebol,121 demonstra o ideal

associativo de que se revestiu o esporte nos primórdios.

No Brasil, há muito a atividade desportiva deixou de ter objetivos não

econômicos. Em 1941, surgia o primeiro diploma legislativo consistente sobre o desporto no

Brasil, o Decreto-Lei n. 3.199, de 14/4/41. Na biografia de Garrincha,122 um dos maiores

jogadores de todos os tempos, Ruy Castro narra a evolução do amadorismo ao

profissionalismo no esporte, durante a década de 50.

Obrigadas a qualificarem suas equipes representativas nos níveis reclamados


para a conquista de vitórias nos jogos e torneios que passaram a suceder-se,
foram impulsionadas a perseguir a captação de atletas melhor aparelhados
para tal, os quais estavam em oferta no mercado em formação a preços
inalcançáveis para os esquálidos orçamentos de então. Evidencia-se que, ao
adquirir o atleta, a associação não só se onerava pelo vínculo (passe) obtido
da entidade vendedora, mas, igualmente, pelo suporte de seu custo laboral,
traduzido em luvas, salários, encargos e etc.
Por outro lado, o patrimônio se bipartiu: além dos bens físicos dele natural e
materialmente integrantes, passou a incorporar também os imateriais,

119
GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil, p. 190.
120
PONTES DE MIRANDA. Tratado de direito privado, v. I, p. 321.
121
ZAINAGHI, Domingos Sávio. Os atletas profissionais de futebol no direito do trabalho. São Paulo: LTr,
1998, p. 29.
122
CASTRO, Ruy. Estrela solitária; um brasileiro chamado Garrincha. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
83

compostos dos ‘passes’ conquistados.


Desde então – faz isto mais de cinqüenta anos – a prática e a administração
do futebol, neste país, abandonaram a seara civil. De fato, impossível repartir
entre os filiados, cooperativada e permanentemente, o custo não só de
sustento de um patrimônio desse jaez, como ademais requerente de
investimentos contínuos e sistemáticos na sua configuração.123

Em decorrência dessa profissionalização do esporte, abandonou-se na prática a

idéia teórica do associativismo como forma de incentivo e organização da atividade física de

caráter competitivo.

6.1 Fontes de financiamento dos clubes – receitas ordinárias

Buscamos, na fase de pesquisa e coleta de informações, obter junto aos principais

clubes de futebol do Brasil dados econômico-financeiros para desenvolver o presente

capítulo. Entretanto, após a conclusão dos trabalhos de duas Comissões Parlamentares de

Inquérito, enfrentamos excessiva dificuldade em obter as informações necessárias para a

elaboração desta tese.

Apesar de termos solicitado a trinta e dois clubes de futebol os necessários dados,

as poucas informações que recebemos não seriam suficientes para a análise pretendida neste

trabalho. Além do mais, a utilização de qualquer dado ficou vinculada à promessa de não-

publicação do nome da respectiva agremiação esportiva. Coisas do esporte profissional no

Brasil. E, depois, reclama-se da instauração de CPIs para apuração de responsabilidades na

condução e administração das entidades desportivas, clubes, federações e confederações...

Prosseguindo nos trabalhos de pesquisa, tivemos acesso ao Relatório Final da

Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal, criada por meio do Requerimento n.

123
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 80-81.
84

497, de 2000-SF, “destinada a investigar fatos envolvendo as associações brasileiras de

futebol”. Presidiu aquela CPI o Senador Álvaro Dias, relatando-a o Senador Geraldo Althoff.

Analisando informações econômico-financeiras da Confederação Brasileira de Futebol,

clubes, atletas, dirigentes e técnicos, buscava-se apurar a sonegação de recolhimento de

contribuições da previdência social por clubes e outras entidades futebolísticas; sonegação de

pagamento de imposto de renda por clubes, jogadores e técnicos de futebol, consoante

investigações da Receita Federal; irregularidades referentes a vendas de passes de jogadores

brasileiros para o exterior, tendo o Banco Central já constatado problemas relativos a essas

transações, abrangendo cerca de U$ 40,000,000.00 (quarenta milhões de dólares);

irregularidades envolvendo clubes de futebol e bingos; possíveis ilegalidades existentes no

contrato de patrocínio firmado entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a empresa

de artigos esportivos Nike.

As notícias já estavam, há muito, sendo veiculadas na imprensa. Em sua edição de

26 de agosto de 2000, por exemplo, O Estado de S. Paulo informava que a Secretaria da

Receita Federal estava investigando sonegação de imposto de renda praticada por entidades

futebolísticas, empresas patrocinadoras e, também, por clubes e jogadores. Em 17 de fevereiro

do mesmo ano, a Folha de S. Paulo noticiava que a Receita Federal havia multado em US$

23,5 milhões clubes, jogadores, técnicos e empresários ligados ao futebol nos últimos dois

anos. Em 9 de julho de 2000, os jornais divulgavam a prisão do presidente da Federação

Paranaense de Futebol, condenado a quatro anos e dois meses de prisão por apropriação

indébita de R$ 525.605,00 que deveriam ter sido creditados à Previdência Social entre 1995 e

1997. Em 20 de janeiro, a Folha de S. Paulo publicava que os grandes clubes do futebol

brasileiro são também grandes devedores do INSS. Em 2 de agosto, os jornais O Globo e O

Estado de S. Paulo citavam que o Banco Central do Brasil estava investigando a venda de

passes de jogadores de futebol do país para clubes do exterior. Seriam vinte e dois os clubes
85

investigados em diversos estados.

A CPI investigou a situação da CBF e de seu presidente, Sr. Ricardo Terra

Teixeira, do ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Vanderley Luxemburgo, de

empresários de futebol citados em transações milionárias de atletas, das Federações de

Futebol do Estado do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, além das contas do Clube de

Regatas do Flamengo, Botafogo de Futebol e Regatas, Club de Regatas Vasco da Gama,

Fluminense Football Club, Sociedade Esportiva Palmeiras, Santos Futebol Clube, Grêmio

Football Portoalegrense e Sport Club Internacional. Os dados coletados pela CPI, havidos

graças à quebra do sigilo bancário dos investigados, informações da Receita Federal e das

contabilidades das pessoas jurídicas envolvidas, foram de grande valia para o

desenvolvimento da presente tese.

Aliado a esse trabalho investigativo parlamentar, utilizamos também excertos

obtidos no livro do Dr. Antonio Carlos de Azambuja, intitulado Clube Empresa; preconceitos,

conceitos e preceitos, editado por Sérgio Antonio Fabris Editor em 2000.

Percebe-se, pela análise das informações obtidas durante nossas pesquisas, que os

clubes de futebol investigados desenvolvem várias atividades desportivas e recreacionais,

sendo organizados como uma associação civil sem finalidade lucrativa.

Sendo os clubes paradigmas associações civis, assim definida em seus estatutos

sociais, e uma vez que os respectivos patrimônios são de uso exclusivo de seus associados, a

contribuição correspondente ao rateio de despesas de manutenção do patrimônio social deverá

ser admitida como única receita ordinária. Sendo ainda admitido que todos os serviços e bens

disponibilizados pelos clubes, tais como piscinas, saunas, aparelhos de ginástica, etc.,

compõem parcela do patrimônio das respectivas associações e, portanto, parcela do

patrimônio dos próprios associados, donos estes que são do próprio patrimônio social,

nenhuma contraprestação pecuniária poderia ser devida para seu uso. Afinal, sendo o
86

associado um condômino daquelas piscinas, quadras, etc., como se admitir que ele seja

compelido a pagar para utilizar esses serviços?

Essa modalidade de remuneração por serviços é comum nos chamados “clubes de

serviços”, que surgiram nos Estados Unidos. Estes, cujo aspecto comercial é evidente, não

correspondem aos clubes desportivos brasileiros. A remuneração do uso de serviços só

poderia ser admitida em empreendimentos comerciais, tais como quadras de aluguel e

academias de ginástica. Jamais se poderia conceber e admitir a cobrança pelo uso de bens

componentes do patrimônio do clube, associação civil, dos próprios associados.

Nessa linha de raciocínio, podemos admitir que a origem dos recursos financeiros

classificados como ordinários seriam, apenas e tão-somente, as receitas advindas do

condomínio, cobrado dos associados mediante rateio proporcional, decorrente da manutenção

das partes e patrimônio comuns do clube.

O crescimento do volume das receitas ordinárias importaria no aumento das

despesas, por conseqüência da crescente demanda, com a admissão de novos sócios – e que,

por isso, passariam a ter direito de usufruir de seu patrimônio em comum – ou com o aumento

das instalações para absorver um maior número de interessados em utilizar os bens comuns.

De outra sorte, se apenas fossem incentivadas as adesões à associação, sem o correspondente

aumento da capacidade instalada de bens e serviços para atendimento da nova demanda,

certamente os antigos sócios, acostumados ao conforto de uma determinada proporção de

pessoas para usufruir das instalações sociais preexistentes, iriam insurgir-se contra o

acréscimo do número de condôminos, chegando até mesmo a sair da associação se deixasse

de atender aos seus anseios de comodidade, serviços e instalações de lazer.

Campanhas de arregimentação de sócios-torcedores, como as que promoveram o

Clube de Regatas do Flamengo, o Fluminense Football Club, o São Paulo Futebol Clube ou o

Clube Atlético Mineiro, inspirados no exemplo de clubes europeus, como o Barcelona F. C.,
87

aumentando o número de associados para, com isso, terem uma maior base de contribuintes,

certamente não funcionam no Brasil. Seja porque não estamos num país de primeiro mundo,

onde a renda per capita de nossa população é muitas vezes menor que a do povo catalão, seja

porque a oferta de serviços de saúde, educação e primeiras necessidades da população não é,

nem de longe, satisfatoriamente provida pelo Estado, fazendo com que a massa popular –

filão buscado nas campanhas de incentivo à adesão de sócios – não possa destinar seus parcos

recursos para atividades de lazer e entretenimento providas pelos clubes recreativos. Assim,

numa economia como a brasileira, o engajamento à associação desportiva preferida se torna

um luxo, uma futilidade dos mais abastados.

6.2 Fontes de financiamento dos clubes – receitas extraordinárias

Da análise do balanço dos clubes paradigmas conclui-se que todas as demais

receitas registradas seriam consideradas extraordinárias. Isso porque as fontes de

financiamento ali mencionadas decorrem da exploração de bens sociais por terceiros, além da

cobrança por serviços postos à disposição dos associados mediante cobrança, bem como

outras receitas, adiante especificadas.

Tanto a utilização de bens sociais por não-sócios quanto a remuneração pelos

serviços postos à disposição dos associados são atividades diversas dos fins perseguidos pela

associação. Quem não é associado deve remunerar o clube pela utilização dos serviços postos

à disposição apenas dos sócios. Quanto aos associados, condôminos do patrimônio da

associação, para serem cobrados pelos serviços prestados pelo clube, estarão se sujeitando a

tratamento semelhante ao ofertado por tantos empreendimentos de fins econômicos.

Diante de cada uma das receitas a seguir enumeradas, podemos analisá-las uma a

uma.
88

6.2.1 AUDIÊNCIA E TELEVISIONAMENTO DOS JOGOS

Substancial parcela da arrecadação mencionada no demonstrativo financeiro

decorre da remuneração pelos jogos. Essa remuneração ocorre de duas formas: a renda

auferida pelo clube em decorrência da venda de ingressos e o pagamento dos direitos de

imagem, pelo televisionamento das partidas de futebol. Esse manancial de recursos decorre da

participação do clube em várias competições. A cobrança nada mais é que a remuneração

paga pelos interessados para assistir a um espetáculo desportivo. Considerando-se pois a

natureza desta receita, podemos concluir tratar-se de renda típica de um empreendimento

mercantil, pois as empresas de espetáculos públicos, desde o Regulamento n. 737,124 são

consideradas comerciais e sujeitas à legislação dos comerciantes.

Sabe-se ainda que a fidelidade dessa informação é discutível, pois a sangria das

roletas de jogos, apesar de não comprovada125 (pois, se fosse, certamente os autores teriam

que ser exemplarmente responsabilizados civil e criminalmente), é fato admitido nos

bastidores. Alguns clubes, com a conivência dos organizadores das competições e

administradores dos estádios (quando não atuam em seu próprio campo), diminuem a receita

verdadeiramente auferida nas entradas de torcedores para evitar a penhora desses valores,

determinada por magistrados em busca de patrimônio desimpedido dos clubes para garantia

de execuções judiciais.

124
Art. 19. Considera-se mercancia:
§ 1o. A compra e venda ou troca de efeitos móveis ou semoventes, para os vender por grosso ou a retalho, na
mesma espécie ou manufaturados, ou para alugar o seu uso.
§ 2o. As operações de câmbio, banco e corretagem.
§ 3o. As empresas de fábricas, de comissões de depósito, de expedição, consignação e transporte de mercadorias,
de espetáculos públicos.
§ 4o. Os seguros, fretamentos, risco, e quaisquer contratos relativos ao comércio marítimo.
§ 5o. A armação e expedição de navios.
125
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol. Brasília: Senado Federal, 2001. v. IV, p. 90.
89

Curiosa, senão estarrecedora, a falta de habilidade, honestidade e profissionalismo

desses dirigentes. Numa época em que, cada vez mais, a fidelidade, a paixão do torcedor, a

maior projeção e exposição do clube geram benefícios econômicos a longo prazo, um dos

melhores meios de comprovação desse amor coletivo pela agremiação – o público que

freqüenta os estádios e assiste aos jogos – é manipulado para ocultar a verdadeira receita e

público decorrentes dos prélios desportivos. Percebemos, na análise dos processos de

negociação de marcas e parcerias entre clubes e investidores, a relevância dessa informação.

Afinal, o parceiro econômico se interessará muito mais pela marca de um clube que conta

com uma torcida fanática e assídua freqüentadora dos campos, capaz de lotar um Maracanã ou

um Mineirão, que por uma desconhecida ou pouco amada agremiação de segunda linha, que

sequer consegue encher seu estádio com capacidade para parcos dez mil espectadores. Quanto

mais apaixonados os torcedores, maior será a freqüência nos estádios, maior será a demanda

por produtos feitos com a marca do clube, como macacões, bolsas, camisas, canetas, canecos

de cerâmica, calções e até bonés, (tirei “preservativos” por solicitação feita na pré-banca...)

que já ostentam o símbolo da agremiação desportiva.

6.2.2 VENDA DE ATLETAS

Importante fonte de receita para o clube decorre da venda de atestados liberatórios

dos atletas. A Lei Pelé, é verdade, acabou com o absurdo que era o passe de jogadores

profissionais.

Segundo a legislação anterior, o clube adquiria o passe do atleta e, após celebrado

o acordo trabalhista de remuneração do trabalho, sempre por prazo determinado, passava a

contar com o jogador para atuar em jogos e competições desportivas oficiais. Abuso existia,

porém, quando o contrato de trabalho do atleta terminava e não havia interesse em sua
90

renovação. O jogador ficava impedido de atuar, por não estar em condições de jogo,126 não

podendo exercer sua profissão. Mas também não podia transferir-se para outro clube, pois o

passe era propriedade da primeira agremiação. Então, só com a concordância da diretoria do

clube, vendendo ou emprestando o passe, podia o atleta celebrar novo contrato de trabalho e

voltar a atuar. Num meio como o esporte profissional no Brasil, em que os dirigentes eram e

ainda são amadores e, como já dissemos, movidos e engajados na direção do clube

exclusivamente por paixão e emoção, era muito comum um atleta permanecer seis, oito, dez

meses impedido de atuar porque suas atitudes haviam “irritado” a cúpula do clube, a torcida

ou o técnico, ou simplesmente por implicância do emotivo dirigente.

Simplesmente se acaba com o aprisionamento de um atleta profissional a


uma entidade de prática desportiva, extinguindo o monstruoso vínculo que se
denominava passe. O passe nada mais era que o grilhão que atrelava o atleta
a uma entidade de prática desportiva, digamos, a um clube, tornando-o
escravo desse clube e não um empregado, simplesmente porque, mesmo
após o encerramento do período do contrato de trabalho, o atleta continuava
aprisionado ao clube, não se podendo transferir para outro, ou seja, sem ter a
liberdade de escolher outro empregador para o qual trabalhar. O atleta se
tornava, com o instituto do passe, um trabalhador que não tinha o direito de
mudar de emprego, que não podia discutir bilateralmente seu contrato de
trabalho, que se via obrigado a aceitar as condições impostas por seu
empregador, sob pena de não poder exercer sua profissão.127

E não bastou a Constituição da República de 1988 ter determinado, no art. 5o,

XIII, que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as

qualificações profissionais que a lei estabelecer”. Diversos autores opinavam pela

inconstitucionalidade da disposição legal que previa a existência do passe, ante o novo

ordenamento constitucional brasileiro. Opina, por exemplo, Adilson Bassalho Pereira:

126
Segundo Marcílio Krieger, condição de jogo é um conjunto de circunstâncias específicas de que depende o
atleta para que possa atuar validamente por determinada associação de prática desportiva. Para que o atleta
participe validamente de uma partida é necessário que tenha, simultaneamente, a condição legal e a condição de
jogo, que não se confundem entre si. (KRIEGER, Marcílio Cesar Ramos. Alguns conceitos para o estudo do
direito desportivo. Revista Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 41, 1° sem. 2002.)
127
NUNES, Inácio. Lei Pelé; comentada e comparada: Lei Pelé x Lei Zico. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Lumen
Juris, 2000, p. 43.
91

Ora, não é necessário qualquer conhecimento de Direito para se concluir, de


imediato, que a figura do ‘passe’, ou atestado liberatório, com as
características de mecanismo autodefensivo das associações esportivas, que
possui em nossos meios futebolísticos, é absolutamente incompatível com os
textos constitucionais acima transcritos. Ou, em outras palavras, que a figura
do ‘passe’, com as referidas características, é de todo inconstitucional, quer
por impedir o livre exercício da profissão dos jogadores de futebol, quer por
transformá-los em verdadeiras mercadorias, que se ‘compram’ e se
‘emprestam’, sem qualquer consideração para com a sua dignidade de seres
humanos.128

O direito do trabalho, contudo, já se definiu pela constitucionalidade do passe,

seja do atleta profissional, seja de qualquer outro empregado a que o instituto possa ser

aplicado. Afinal, se na prática o passe pode proporcionar situações impeditivas para o

exercício da profissão, o mesmo não poderá ser simplesmente extinto, sob pena de acarretar

prejuízos a todos os interessados. A legislação deve, ao contrário, cuidar para que as

distorções não ocorram, impedindo destarte que o empregador, mais forte economicamente,

possa se beneficiar de sua situação, quando em confronto de interesses com o menos

capacitado.

Com o advento da Lei Pelé, o atleta não está mais vinculado ao clube no final de

seu contrato de trabalho. No entanto, como garantia de segurança para as partes envolvidas

nessa nova relação trabalhista, fica permitida a fixação de cláusula penal para a hipótese de

descumprimento, rompimento ou rescisão unilateral do contrato de trabalho. Não permanece

mais em vigor a sistemática anterior que mantinha o vínculo do atleta com seu clube. Os

critérios adotados pelo legislador estabeleceram, no art. 28 da Lei n. 9.615/98, o desfazimento

do vínculo desportivo entre o atleta e o clube juntamente com o término do contrato de

trabalho. Passa a ser ilegal qualquer indenização para liberação do passe do atleta, salvo na

hipótese expressamente prevista do § 3o, inciso b, do art. 29 da lei. Ali, estabeleceu-se o

128
PEREIRA, Adilson Bassalho. O contrato de trabalho do jogador profissional de futebol e a legislação
brasileira. Revista de Direito do Trabalho, n. 3, p. 179, apud ZAINAGHI, Domingos Sávio. Os atletas
profissionais de futebol no direito do trabalho. São Paulo: LTr, 1998, p. 114.
92

direito de o antigo empregador exigir do novo a chamada indenização de promoção. Essa será

devida após até seis meses do término do primeiro contrato e apenas se a entidade formadora

estiver pagando os salários do atleta, enquanto não firmado novo vínculo de trabalho. Essa

indenização não poderá ultrapassar a cento e cinqüenta vezes o montante da remuneração

anual. Durante a vigência do primeiro contrato profissional do atleta é lícita a cobrança de

uma indenização de formação de até duzentas vezes o montante da remuneração anual.

Entretanto, estabelece-se que apenas o clube formador do atleta poderá cobrar tais

indenizações numa eventual transferência do atleta.

Para o caso de atletas que já superaram o primeiro contrato, descabe qualquer

cobrança para a liberação do seu vínculo. Entretanto, preservando os direitos econômicos do

clube, estabeleceu-se o direito à cobrança da cláusula penal, que poderá ser estabelecida de

comum acordo pelas partes, até o montante de cem vezes o valor da remuneração anual do

atleta. Assim, pretendendo o atleta desvincular-se da atual entidade desportiva, esta poderá

licitamente ver-se indenizada com a mencionada cláusula penal.

Não se pode olvidar, contudo, que transações envolvendo a transferência de

atletas de um clube para outro configuram, claramente, um ato de comércio. Negocia-se o

passe do atleta, quando não interessa mais à entidade, como se negocia um bem de consumo,

um veículo, um terreno. Leva o atleta o clube que pagar mais.

6.2.3 MARCA

O mais importante bem do clube é, sem sombra de dúvida, sua marca. Afinal,

como é conhecido aquele clube cuja sede fica às margens da Lagoa da Pampulha e enverga as

cores azul-celeste e branco? Cruzeiro. O rubro-negro carioca, conhecido nos quatro cantos do

planeta? Flamengo, todos sabem. E o clube que lançou Pelé para o estrelato, conquistou duas
93

vezes o título mundial interclubes e tem como símbolo o peixe? É o Santos Futebol Clube.

Não se deve ignorar a importância da marca dos clubes. Em 1999, estava em

férias nos Estados Unidos, passeando em um parque temático da Disney, vestido com a

camisa do Clube Atlético Mineiro. Qual não foi a minha surpresa ao ser abordado três ou

quatro vezes por turistas americanos que me cumprimentavam pelo simples fato de eu estar

envergando o uniforme do time de futebol. E, mais incrível ainda, dois deles propuseram

comprar minha camisa! Naquele ano, o Atlético disputou a final do Campeonato Brasileiro,

sagrando-se vice-campeão em três disputados jogos na época do Natal. Meu passeio pelas

terras americanas, contudo, ocorreu em outubro, quase dois meses antes dos jogos finais. Não

fui reconhecido porque o time disputava o título nacional, mas simplesmente porque sua

marca, seu uniforme, seu emblema e suas cores são conhecidos até fora do Brasil.

Quanto à marca, sua cessão temporária ou locação consubstancia-se num dos


pontos nevrálgicos da mutação por que passam atualmente as idéias e os
costumes que informaram, ao longo dos anos, desde as fundações
respectivas, toda a ação social desses clubes. Como dado objetivo, no
entanto, preliminarmente há que se gizarem os negócios pertinentes, os quais
contribuíram, no exercício-referência, com o percentual de 12,32% sobre o
total das receitas.
A denominada ‘marca’ da sociedade, caracterizada pelo que seria chamado,
em outra esfera, de Fundo de Comércio, composta pelo nome da instituição,
o tempo de vida, sua história e tradição, raízes sociais, conquistas pretéritas,
elementos visuais indicativos, peculiaridades identificadoras – cores,
símbolos, hinos e etc. – e, sobretudo, grau de galvanização de massas
simpatizantes, passou a ter um valor específico que, embora se origine de
acervo incorpóreo, integra-se ao patrimônio físico como elemento adicional
de exploração comercial, posto a serviço da veiculação dos produtos de
terceiros, seus locatários momentâneos.129

Realmente, a noção que Waldemar Ferreira, apoiado nos trabalhos da comissão

francesa de reforma do Código de Comércio e do Direito Societário, dá do fonds de commerce

se aproxima da importância do nome do clube, suas tradições e conquistas, seu hino, cores,

129
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 49.
94

uniforme, símbolos e sinais característicos, compondo o que se poderia chamar do fundo de

comércio do clube, se este fosse indubitavelmente uma empresa mercantil.

Cristalizou-se, porém, a fórmula de ser o fundo de comércio o conjunto de


bens mobiliários destinado ao exercício de atividade econômica. Ele
compreende obrigatoriamente a clientela ou achalandage. E também
compreende, salvo prova contrária, todos os outros bens necessários à
exploração do fundo, tais como a insígnia, o nome comercial, o direito ao
arrendamento do prédio, o material, os utensílios, as mercadorias, as patentes
de invenção, marcas de fábrica, desenhos e modelos, direitos de propriedade
literária e artística.130

Como didaticamente ensina João Eunápio Borges, seus elementos podem ser em

quantidade variável e de natureza diversa, dependendo do ramo e da importância da atividade.

Sempre, contudo, dois grupos são percebidos dentre os bens do fundo de comércio: o das

coisas corpóreas ou materiais e o das coisas incorpóreas ou direitos. E prossegue o mestre

mineiro:

Coisas incorpóreas ou direitos são, entre outros, os créditos ou dívidas


ativas, o direito de exclusividade para o uso do título ou nome do
estabelecimento e respectiva insígnia, marcas de indústria e de comércio,
patentes de invenção, de modelos de utilidade, de modelos industriais, etc.131

É comum constatarmos pessoas de todas as classes sociais envergando uma

camiseta de determinado clube. Produtos confeccionados com o símbolo do clube do coração

de cada torcedor têm maior ou menor procura em função da projeção do time, dos resultados
130
FERREIRA, Waldemar. Tratado de direito comercial: O estatuto do estabelecimento e a empresa mercantil.
São Paulo: Saraiva, 1962. v. 6,p. 12. Alfredo Rocco também preleciona: La hacienda, juridicamente, es ‘el
conjunto de cosas (bienes y servicios) reunidos y organizados para ejercer el comercio; el elemento económico
‘capital’, juridicamente, se traduce en el concpeto ‘bien’; el económico ‘trabajo’, en el concepto de ‘servicios’ o
‘prestación’. En rigor, a los servicios y prestaciones que contribuyen a constituir el establecimiento, deberia
agregarse el trabajo personal del empresario; pero como es el derecho-habiente de su hacienda, no puede
juridicamente tomarse en cuenta su trabajo; cabe, sin embargo, que el titular del establecimiento no lo sirva
personalmente; desde el punto de vista jurídico, por lo tanto, los servicios se consideran elementos del
establecimiento en cuanto se prestan por el personal adscrito a él y el titular del mismo tenga un derecho, esto
es, siempre que el personal esté ligado por un contrato de trabajo o de empleo; los servicios, o, con mayor
exactitud, los derechos a los servicios, también se incluyen entre la amplia clase de cosas. (ROCCO, Alfredo.
Principios de derecho mercantil. Parte general. Cidade do México: Editora Nacional, 1950, p. 239).
131
BORGES, João Eunápio. Curso de direito comercial terrestre, v. 1, p. 288-289.
95

alcançados. O mascote do time, desenhado numa caneca, transforma um simples objeto de

cerâmica num bem procurado e desejado, passível de figurar em destaque na prateleira de um

colecionador e admirador daquela agremiação desportiva.

Outra questão vinculada aos negócios com a marca versa sobre as contínuas
oscilações de demanda a que estão sujeitos todos os artefatos, os quais, de
uma forma ou de outra, contenham alusões visuais ao clube, seu distintivo e
suas cores, mercê de concessões especiais para tanto contratadas.
Ocorre que esse mercado, talvez por ser por demais recente e ainda não bem
dimensionado e compreendido, foi invadido por uma horda de interesses
desordenada, partida de industriais e comerciantes das mais exóticas
espécies de produtos, todos em princípio a acreditar que a força da paixão
dos aficcionados aceitaria desde angu com caroço até bala de mel, sem mel.
Surpreendidos com essa procura inusitada e repentina, os clubes
deslumbraram-se com o insuspeitado: afinal, eis aí um negócio a se realizar
com produto sem custo de formação algum: imediatamente puseram-se a
distribuir autorizações de uso da marca a torto e a direito. Encontram-se no
mercado, hoje vendidos com o símbolo deles, os mais incríveis objetos,
desde bodoques estilizados até escovas para cachorro sarnento, passando por
canudos para soprar bolhas de sabão e quinquilharias de todos os gêneros,
tudo por um e noventa e nove, mas se não der, serve noventa e nove, quiçá,
nove.
Não se duvide de, algum dia, encontrar-se papel higiênico – calcinhas e
cuecas já andam por aí – sendo divulgado via superposição gráfica de
distintivos centenários, antes gloriosos e que não mereciam fim tão
deprimente.132

Tradicionais na vida dos brasileiros, com sessenta, oitenta, e até cem anos de

história, os clubes têm especial vínculo com a memória do povo. E esse laço decorre,

evidentemente, do nome da agremiação, de suas cores, de seus símbolos e de seu uniforme,

dos títulos disputados e conquistados. Atingindo o mais íntimo e suspeito dos sentimentos

humanos, a paixão por este ou aquele clube não tem explicação racional. É pura emoção, que

o direito não explica. Talvez a psicologia o faça...

O fato, contudo, indiscutível, é a utilização comercial que se faz da marca do

clube. E a renda daí advinda não é outra senão uma receita de natureza mercantil, pois é a

marca de um negócio que está sendo utilizada para venda de produtos.

132
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 58-59.
96

6.2.4 LOJAS PRÓPRIAS PARA COMERCIALIZAÇÃO DE MATERIAL

ESPORTIVO, LEMBRANÇAS E PRESENTES COM A MARCA DO CLUBE

No intuito de apresentar a seus torcedores e associados as últimas novidades

relacionadas com o clube, diversas agremiações constituem lojas próprias, que comercializam,

exclusivamente, produtos alusivos à paixão do torcedor. Dependendo do interesse dos

aficcionados e também de acordo com a diversificação de produtos postos à venda, utilizando

símbolos correlatos ao time, pode o negócio representar substancial fonte de recursos para o

caixa da associação civil.

É bem verdade que toda e qualquer instituição conhecida que atraia a atenção do

público explora esse tipo de comércio. Na cidade do Vaticano, anexa à Basílica de São Pedro

ou na saída da Capela Sistina, explora-se o comércio de bugingangas. Em Assis, da mesma

forma, são vendidas lembranças de São Francisco e de Santa Clara. Não só santos em

miniatura, medalhas e livros sobre o local, mas também camisetas, bonés, agasalhos. Então,

diriam alguns, se até o Papa pode manter um comércio nas dependências do Vaticano, que

mal há em se manter uma loja para comercializar lembranças do time do coração?

Não se questiona aqui a moralidade ou imoralidade do comércio que se faz em

torno da fé e devoção ou do amor ao clube. Seja a figura de João Paulo II na medalha vendida

no Vaticano, seja o agasalho do Clube de Regatas do Flamengo vendido na Gávea, o intuito

de criação do estabelecimento comercial é um só: vender aos interessados determinado

produto, perseguindo retorno financeiro. Certamente a loja de venda de lembranças e

quinquilharias alusivas à instituição não terá outra finalidade que não auferir lucro com a

negociação. Se não houvesse vantagem econômica na manutenção do empreendimento, não


97

se duvide que as portas do negócio já estariam fechadas. Nem o Vaticano nem o clube de

futebol manteriam abertas as portas única e exclusivamente para fornecer ao fervoroso

admirador pequenas lembranças da instituição.

A manutenção de lojas próprias é, sem sombra de dúvida, o exemplo mais

marcante da mercantilização do esporte profissional. A exploração da marca, seja produzindo

ou licenciando produtos para venda, tais como relógios, chapéus, chaveiros, roupas de cama,

toalhas de banho e roupões, bonecos falantes a pilha, réplicas de troféus, camisetas, calças e

bermudas, sungas e toucas de natação, óculos de sol, buzinas de automóveis, adesivos, fraldas

descartáveis e o que mais a criatividade do setor de marketing do clube puder sugerir,

demonstra o quanto o esporte deixou de ser uma atividade meramente lúdica e de

divertimento, incorporando o espírito capitalista que alimenta a vontade do comerciante.

6.2.5 PATROCÍNIO NO UNIFORME

É também importante fonte de receita o patrocínio no uniforme. Como meio de

veiculação e divulgação, o patrocínio na camisa perpetua-se por vários anos, trazendo frutos

significativos ao patrocinador. O torcedor que compra o uniforme de seu time não joga fora a

camisa quando a agremiação troca de patrocínio. Ao contrário. Como objeto de coleção, passa

a ser visto com desejo e cobiça, especialmente se o patrocínio ficou vinculado a um período

de especiais realizações e conquistas da agremiação.

Quando a receita não pode ser equiparada à da contribuição espontânea dos

associados, certamente o patrocínio em camisa será caracterizado como fonte típica de

atividade econômica, pois normalmente não se divulga a marca de outrem sem a

contraprestação econômica. É verdade que o espírito consumista, inerente ao capitalismo,

proporciona e incentiva a ostentação, até por status e para atender aos padrões de beleza e
98

estética da sociedade moderna, de marcas famosas, conhecidas e respeitadas. Uma coisa,

porém, é envergar um terno da marca Giorgio Armani, de corte impecável e cuja etiqueta só

aparece na parte interna da vestimenta. Outra é divulgar, ostensivamente, nas costas da

camisa, em dimensões de 30 cm x 10 cm, a marca da multinacional Parmalat S.p.A., do

lubrificante de automóveis Lubrax ou dos últimos lançamentos de automóveis da marca Fiat.

A marca que se vinculou à imagem do clube, via patrocínio, permanece sendo

divulgada durante muito tempo, gerando a exposição e promoção do produto do patrocinador

e sua veiculação até mesmo na mídia, posto que o torcedor enverga, com orgulho, seu

uniforme a cada êxito do time ou, até mesmo, no dia-a-dia, uma vez que a camisa não é nada

mais nada menos que um artigo de vestuário.

6.2.6 LOCAÇÃO DO PATRIMÔNIO E CATERING

Na maioria das vezes, os clubes desportivos têm sedes sociais, com salões, bares e

restaurantes. Em alguns casos, mantém também um estádio próprio, onde realizam seus

prélios, sem a necessidade de ceder parte substancial da renda para o custeio do aluguel do

local do jogo.

São verificadas aí fontes de receita substancial. A associação pode auferir renda

decorrente do arrendamento das suas instalações de bar e restaurante. Em lugar de explorá-los

diretamente, o clube poderá transferir a terceiros a utilização desse recurso.

Os salões da sede social são requisitados para a realização de festas, recepções e

encontros. Muitas vezes, aliás, têm utilização muito maior por terceiros que pelo próprio

clube ou seus associados. Poucas são as agremiações que prevêem a exclusividade de uso dos

salões, mediante locação, apenas a seus associados. O que sói ocorrer é a concessão de

benefícios para os associados, tais como a cessão por preço mais baixo, a desnecessidade de
99

se conceder uma garantia à instituição pela utilização do salão, a prioridade na reserva do

espaço ou outra vantagem semelhante. Entretanto, sabe-se que o comodato gratuito do espaço

não ocorre, pois a receita obtida pela agremiação com o aluguer é substancial e considerável.

... alternativamente se buscam outras fontes de recursos permanentes e a que


primeiro avulta é a disseminação indistinta do uso do patrimônio, seja pelos
sócios, de qualquer categoria, a preços subsidiados, seja por terceiros, a
preços reais, através do arrendamento de próprios físicos da entidade,
acrescido, muitas vezes, da locação de serviços disponibilizados por ela,
direta ou indiretamente (terceirizados).
Essa nova destinação do patrimônio por si só desconstitui (note-se: sem
qualquer ingerência de custos extras produzidos por departamentos
específicos do esporte a que ela se dedica, de índole profissional) o ente
jurídico civil, uma vez que o afasta de seu fim primeiro, o qual era o de
existir para a exclusiva satisfação dos associados.
Ademais, essas práticas, porque efetuadas de forma contínua e em escala,
qualificam esse patrimônio como suporte essencial de negócios de risco,
uma vez que se torna disponível e concorrente em todo o mercado (e não
somente no formado pelos sócios), induzido pela demanda do tipo de
instalações dele componentes. Neste caso, ginásio, saunas e etc.
Em conclusão: pela necessidade de se obter matrizes financeiras alternativas
para se auto-sustentarem, ingressam naturalmente tais sociedades no
universo da competição mercadológica de bens e serviços, para isso usando
o patrimônio para gerar mais patrimônio (lucro), ao completo arrepio do
primitivamente contratado. Isto indubitavelmente é comércio, e o simples
fato da inocorrência de distribuição de resultados pela instituição não faz
civil os interesses em questão.133

Sendo ainda proprietário de estádio, o clube também obtém abundante receita.

Seja locando o campo para os fins a que se destina – a prática desportiva –, seja para a

realização de eventos diversos, tais como shows de música, cultos religiosos e, até, exposições

e leilões de animais.

Mas também há outras oportunidades advindas da propriedade do estádio. Os

freqüentadores costumam passar várias horas no campo, como verdadeiro programa de

domingo, muitas vezes acompanhados da família ou grupo de amigos. Nessas situações, é

natural que tenham necessidade de beber um refrigerante ou uma cerveja, provar um biscoito,

133
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 90-91.
100

tomar um sorvete. Não raramente, famílias de torcedores almoçam nos tradicionais bares ao

redor (e, muitas vezes, dentro) do estádio. Um jogo de final de campeonato, se o espaço

comportar, costuma atrair oitenta, noventa, cem mil torcedores. Estão, na maioria das vezes,

ansiosos por uma bebida gelada, alimentação farta. Salgados e picolés são consumidos em

profusão. O clube bem administrado enxerga esse filão. Cria a oportunidade de receita,

construindo espaços adequados para a instalação de bares de todo gênero. O “Maracanã” (não

pertence a particulares, mas sim ao Poder Público) tem até lanchonetes do Mac Donald’s,

gigante multinacional do setor de alimentação tipo fast food, em seu interior. Mas o Clube

Atlético Paranaense inovou no Brasil, ao reformar inteiramente sua “Arena da Baixada”,

construindo um verdadeiro shopping center conjugado ao estádio. Ali, os torcedores podem

encontrar restaurantes de todo gênero, lojas que vendem artigos desportivos, presentes, roupas

e todo tipo de quinquilharia. O clube paranaense seguiu o exemplo da meca do capitalismo, os

Estados Unidos. Lá, onde o esporte há muito deixou de ser lúdico, sendo hoje um dos maiores

responsáveis pela alocação de receita publicitária no maior mercado de consumo do mundo, é

comum encontrar-se nos ginásios esportivos e estádios todo tipo de loja, oferecendo os mais

variados produtos e serviços para o freqüentador. Esses espaços todos, é certo, não são

cedidos gratuitamente para sua exploração. Mediante rentáveis contratos de locação, auferem

os proprietários dos estádios considerável receita.

Mas não termina aí. Fonte generosa de financiamento, o estádio ainda proporciona

a locação de vagas, pois nenhum torcedor se arrisca, nos dias de hoje, a parar seu veículo em

lugar ermo quando há a possibilidade de estacioná-lo próximo ao local do jogo, em segurança,

dentro de um estacionamento pago e, teoricamente, mais seguro.

Buscando também visibilidade para seus produtos, empresários alugam placas,

letreiros, outdoors e painéis de anúncios no interior do estádio. Seja para divulgar sua marca

diretamente aos freqüentadores do jogo, seja aproveitando a transmissão televisiva da partida,


101

simples placas metálicas de alguns metros quadrados são disputadas a peso de ouro por

produtores e comerciantes dos mais diversos ramos de atividade econômica.

Não se pode esquecer, ainda, dos torcedores que querem conforto e tranqüilidade

durante as partidas de seu time do coração. Para os mais abastados, em lugar de comprar

ingressos, possibilita-se a regalia da locação de cadeiras cativas. Por contratos geralmente

anuais, despendem os torcedores receita certa em proveito do dono do estádio. As cadeiras

cativas, apesar do alto preço (em Belo Horizonte, o aluguel anual de cada uma das cinco mil

cadeiras cativas do Estádio Magalhães Pinto, o Mineirão, custa aproximadamente R$

420,00134), são disputadas avidamente por novos torcedores, a cada início de temporada. Os

maiores estádios privados do Brasil (Morumbi, do São Paulo Futebol Clube;135 Beira Rio, do

Sport Clube Internacional;136 Olímpico, do Grêmio Football Porto Alegrense;137 Arena da

Baixada, do Clube Atlético Paranaense;138 Fonte Nova, do Esporte Clube Bahia139) têm pelo

menos duas mil cadeiras cativas. A receita anual proveniente da locação dessas cadeiras chega

a ser suficiente para custear a folha de pagamento mensal de um grande clube de futebol no

país.

Prevista tanto na codificação civil quanto na mercantil em vias de revogação, a

locação é tratada no novo Código Civil nos arts. 565 a 578 e caracterizada como o contrato

mediante o qual uma das partes se obriga a ceder à outra o uso e gozo de coisa não fungível,

mediante certa retribuição. Pode ser por prazo determinado ou indeterminado. Deve, contudo,

ter a natureza onerosa, sob pena de se confundir com o comodato. Oneroso, ensina Caio

134
Informações obtidas em visita à Administração dos Estádios de Minas Gerais (ADEMG).
135
Disponível em: Em http://www. saopaulofc. net/,=. Acesso em 3/6/2002.
136
Diponível em: Em http://www. internacional. com. br/. Acesso em 3/6/2002.
137
Disponível em: http://www. gremio. net/. Acesso em 3/6/2002.
138
Disponível em: http://www. atleticopr. com. br/. Acesso em 3/6/2002.
139
Disponível em: http://www. esporteclubebahia. com. br/. Acesso em 3/6/2002.
102

Mário da Silva Pereira,140 pois proporciona vantagens e benefícios para os contratantes, que

têm direito à respectiva prestação.

Devido a esta reiterada e freqüente exploração onerosa dos bens de uso comum da

associação, não podemos deixar de concluir pelo caráter mercantil emprestado à locação

destes bens, podendo considerar extraordinária essa fonte de recursos.

6.2.7 CONCURSOS DE PROGNÓSTICOS

Repetindo as permissões legais anteriores, contidas no art. 7o da Lei n. 6.251/75,

art. 23 do Decreto n. 8.0228/77, art. 39 da Lei n. 8672/93, sob a denominação “Dos Recursos

para o Desporto”, a Lei n. 9615/93 e o Decreto n. 2.574/98 permitiram, nos arts. 56 e 69,

respectivamente, a exploração de concursos de prognósticos.

A loteria tem sido uma das maiores responsáveis pelo sustento e financiamento

dos grandes clubes no Brasil, a maioria em situação deficitária, em decorrência de má

administração, seja sonegando impostos e, por isso, sujeitando-se ao pagamento de elevadas

multas fiscais, seja com o peculiar amadorismo que cerca a administração dos recursos

humanos dos clubes, em especial dos contratos de trabalho dos atletas e técnicos, com

vultosos valores mensais, rescisões astronômicas, compras inadvertidas de passes para

satisfazer à exigente torcida, sôfrega por novas e gloriosas conquistas.

Críticas pertinentes são feitas à citada fonte de recursos, seja porque a agremiação

desportiva, em seu nascedouro, teve apenas objetivos lúdicos, seja em decorrência do

preconceito social em relação à exploração de jogos de azar. É realmente reprovável essa

fonte de recursos, em função do seu caráter totalmente divorciado das finalidades propostas

pela entidade desportiva. Afinal, poder-se-ia até encontrar relação entre a exploração e

140
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil, v. III, p. 189.
103

utilização dos bens sociais do clube, tais como sauna, salões de festas, estádios, etc. Todos

estes poderiam estar, de alguma forma, ligados aos interesses dos associados e torcedores, na

medida em que proporcionam melhores acomodações, conforto nos prélios, oportunidades de

congraçamento e contato social. Mas a exploração e venda de bilhetes lotéricos não têm

qualquer relação com a proposta inicial de qualquer clube: a interação desportivo-social entre

seus freqüentadores, torcedores e sócios.

Certamente não se pode admitir que a receita daí advinda seja peculiar a uma

associação civil sem finalidade lucrativa. Não se pode equiparar as loterias promovidas pelos

clubes com bingos beneficentes organizados pela paróquia do bairro. É, evidentemente, em

função do resultado econômico que o clube promove, periodicamente, sorteios e promoções,

apelando, muitas vezes, à paixão do torcedor para obter sucesso na venda dos bilhetes

lotéricos. Não há razão, pois, para se considerar ordinária a presente fonte de financiamento,

sendo sua natureza claramente mercantil.

6.2.8 EMPRÉSTIMOS BANCÁRIOS OU DE DIRIGENTES E RECURSOS

ADVINDOS DE SONEGACÃO FISCAL

Em virtude da inexperiência ou inconseqüência dos dirigentes desportivos

amadores, sempre presentes nas administrações dos clubes, as associações são obrigadas a

recorrer ao mercado financeiro a fim de obter capital de giro para sustentar suas atividades

cotidianas. Seja porque a torcida clama por uma nova contratação, ainda que além das

possibilidade econômicas do clube no momento, seja porque o atleta desrespeitou o técnico,

fugiu da concentração ou se negou a treinar às vésperas do jogo, alegando cansaço, existe aí,

na cabeça miúda do dirigente desportivo amador, motivo suficiente para mudanças no plantel.

Muitas vezes já com o orçamento do clube estourado e em via de uma insolvência


104

fática, o diretor se esquece da obrigação maior de preservar o patrimônio social e, para salvar

a honra da quase centenária instituição, contrata, por alguns milhões de dólares, uma nova

estrela, freqüentemente convocada para a Seleção nacional, onerando ainda mais o caixa da

associação.

Alguém já ouviu essa história antes?

Mais graves que essas atitudes irresponsáveis, no entanto, são certas atitudes de

dirigentes que, com a desculpa de preservar apenas os interesses da associação e se “auto-

sacrificando”, emprestam ao clube, a juros menores que os praticados no mercado financeiro,

seus próprios recursos. Ficam, então, com a faca e o queijo na mão. Se as instituições

financeiras remuneram-se a taxas mensais de 5%, esses diretores concedem às agremiações

mútuos com módicos juros de 3,5%, além da correção monetária (enquanto uma aplicação

financeira regular renderia 0,5%, 1% no máximo, para o poupador, descontada a

desvalorização da moeda), sem exigir qualquer garantia. Não se esqueça que, além de se

beneficiar com o empréstimo de elevadas quantias para contornar problemas de caixa criados

por sua própria má administração, aparecendo perante os demais associados, alijados do

controle e fiscalização das contas do clube, como salvadores da pátria, os gestores ainda

mantêm o controle da situação, pois eles próprios decidirão quando essas dívidas serão pagas,

fazendo-o a qualquer momento, se o Conselho Deliberativo do clube decidir pela substituição

dos administradores.

Outro meio corrente de obtenção de recursos de que freqüentemente lançam mão

os dirigentes desportivos é a suspensão de obrigações fiscais e previdenciárias. Em lugar de

perpetuar essa prática ilícita, deveriam os clubes observar a correta manutenção dos

pagamentos em dia, a fim de não onerar ainda mais o caixa da associação e, por conseqüência,

prejudicar o patrimônio comum dos associados.


105

Existem delitos também: dentre as vertentes de recursos manejadas, além do


elenco já enunciado e dos indefectíveis financiamentos bancários,
muitíssimas vezes – quase que numa atitude generalizada e permanente – são
utilizados os valores das contribuições fiscais e previdenciárias, retidas de
seus funcionários em geral, atletas ou não, para deles fazer capital de giro,
com isso incidindo em infrações das mais sérias entre as praxis comerciais
conhecidas, de natureza até penal.
Quase como num ritual litúrgico, volta e meia se apresentam os infratores
nos balcões das repartições competentes para realizarem renegociações,
parcelamentos e reparcelamentos, dos quais nada mais resulta do que
agregação de custos sobre custos, tudo no escopo de sustentar por mais
algum tempinho a ficção de se está tratando com alguma coisa de verdade. E
séria.
Interessante observar o contra-senso: na realidade, a repactuação dos débitos
fiscais e previdenciários, efetuada de forma contínua e permanente (até que
um dia, alguma autoridade, com suficiente caráter, até patriótico, coloque
um basta nisso) serve indiretamente para o alimento dos imensos salários e
luvas pagos aos atletas – alguns poucos – adquiridos e sustentados a peso de
ouro pelo clube (civil, sem fins lucrativos...). Sabe-se de contratos
celebrados nesse sentido com números astronômicos, quase folclóricos, para
nossa capacidade de pagamento. De ordinário, vêem-se nas ruas de nossas
grandes cidades desfilarem novos ricos, ontem descamisados, a bordo de
potentes máquinas, cabelos encaracolados e enfeitados de berloques,
praticamente a zombar da pobreza da qual emergiram pela graça de Deus e
da cúpula diretiva dos clubes nacionais. Dia desses um deles, parece,
comprou uma ilha...141

Segundo relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito constituída para

investigar fatos envolvendo as associações brasileiras de futebol, realizada no Senado Federal,

foram fiscalizados 123 clubes e 10 federações de futebol. Também foram visitados pela

fiscalização do INSS, e estão sendo acompanhados, outros 103 clubes de futebol profissional

e 17 federações, os quais seriam fiscalizados após o término dos trabalhos da CPI. Do total de

226 clubes de futebol já fiscalizados e/ou visitados, apenas seis estavam em dia com os

recolhimentos das contribuições previdenciárias: Monte Azul, Moji Mirim/SP, Ipiranga,

Ipatinga/MG, São José/RS e Comercial/ES.

Foram lavrados pela fiscalização 322 autos de infração, em valor superior a R$

5,4 milhões, pelo descumprimento de obrigações acessórias por parte dos clubes e federações

(ex.: deixar de preparar folha de pagamento, não apresentar Livro Diário, não contabilizar em

141
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 75-76.
106

títulos próprios fatos geradores de contribuição previdenciária, não inscrição de segurados

empregados etc). Em 69 dos clubes e em 4 das federações já fiscalizadas (54,5% do total)

foram emitidas Representações Fiscais para Fins Penais em virtude de retenção de valores

descontados dos empregados e da receita bruta dos jogos sem o respectivo repasse ao INSS, o

que caracteriza crime de apropriação indébita previdenciária, e em razão da comprovação de

pagamento de remunerações em valores acima dos declarados, com o propósito de reduzir os

encargos previdenciários, o que caracteriza crime de sonegação fiscal. Esses fatos acarretaram

a instauração de processos criminais contra os dirigentes responsáveis pelos clubes e pelas

federações estaduais de futebol.

A dívida dos clubes e federações de futebol com o INSS, em setembro de 2001,

atingiu o valor de R$ 288 milhões. Os clubes devem R$ 256 milhões, enquanto as federações

R$ 32 milhões. Somente os valores inscritos em Dívida Ativa atingem mais de R$ 80

milhões. Outros R$ 35 milhões que também estavam inscritos como Dívida Ativa passaram a

contar como parcelamento, tendo em vista a adesão de clubes e federações ao REFIS.

Para efeitos de comparação, em outubro de 2000, quando o então Ministro da

Previdência e Assistência Social, Senador Waldeck Ornelas, realizou apresentação perante a

Comissão Parlamentar de Inquérito, os clubes e federações deviam R$ 218 milhões. A tabela

a seguir apresenta a dívida dos clubes e federações com o INSS por Unidade da Federação:
107

TABELA 1

Dívida dos clubes e federações com o INSS

UF DÍVIDA UF DÍVIDA
SP R$ 72,081 milhões ES R$ 3,292 milhões
RJ R$ 70,776 milhões PB R$ 1,777 milhão
RS R$ 27,077 milhões CE R$ 1,607 milhão
MG R$ 24,870 milhões MS R$ 1,082 milhão
PR R$ 20,453 milhões RN R$ 843 mil
PE R$ 17,690 milhões DF R$ 724 mil
SC R$ 9,044 milhões MT R$ 645 mil
BA R$ 8,709 milhões AP R$ 520 mil
GO R$ 8,687 milhões SE R$ 326 mil
PA R$ 4,936 milhões PI R$ 264 mil
AM R$ 4,708 milhões TO R$ 168 mil
AL R$ 4,030 milhões AC R$ 9 mil
MA R$ 4,022 milhões RO R$ 2 mil
TOTAL R$ 288,342 milhões
FONTE: INSS – Outubro/2000

Apenas os 30 clubes de futebol com maiores dívidas junto ao INSS deviam, à

época, a importância de quase R$ 172 milhões, o que representa 60% da dívida total. A tabela

a seguir apresenta esses 30 clubes de futebol que mais devem à Previdência:


108

TABELA 2

Clubes de futebol que devem à Previdência

CLUBE UF REFIS DÍVIDA


2 Fluminense Football Club RJ Sim R$ 13,864 milhões
3 Botafogo de Futebol e Regatas RJ Não R$ 12,282 milhões
4 Sociedade Esportiva Palmeiras SP Não R$ 11,014 milhões
5 Clube Atlético Mineiro MG Sim R$ 9,961 milhões
6 Sport Club Internacional RS Sim R$ 8,487 milhões
7 São Paulo Futebol Clube SP Não R$ 7,509 milhões
8 Santos Futebol Clube SP Sim R$ 7,417 milhões
9 Sport Club do Recife PE Não R$ 7,286 milhões
10 Grêmio Football Portoalegrense RS Sim R$ 6,702 milhões
11 Clube Náutico Capibaribe PE Sim R$ 5,334 milhões
12 Guarani Futebol Clube SP Sim R$ 4,776 milhões
13 Paraná Clube PR Sim R$ 3,578 milhões
14 Esporte Clube Bahia BA Sim R$ 3,485 milhões
15 Santa Cruz Futebol Clube PE Sim R$ 3,400 milhões
16 Atlético Rio Negro Clube AM Não R$ 3,262 milhões
17 Clube do Remo PA Não R$ 3,164 milhões
18 São José Esporte Clube SP Não R$ 3,164 milhões
19 América Football Club RJ Sim R$ 3,106 milhões
20 Coritiba Football Club PR Não R$ 2,856 milhões
21 Vila Nova Futebol Clube GO Sim R$ 2,829 milhões
22 Esporte Clube Vitória BA Sim R$ 2,619 milhões
23 Clube Atlético Paranaense PR Não R$ 2,441 milhões
24 Botafogo Futebol Clube SP Sim R$ 2,421 milhões
25 Londrina Esporte Clube PR Não R$ 2,306 milhões
26 Soc. Esportiva e Recreativa Caxias RS Sim R$ 2,046 milhões
27 Figueirense Futebol Clube SC Sim R$ 2,030 milhões
28 Sport Clube Corinthians Paulista SP Não R$ 1,885 milhão
29 Comercial Futebol Clube SP Não R$ 1,858 milhão
30 Cruzeiro Esporte Clube MG Sim R$ 1,831 milhão
TOTAL: R$ 171,556 milhões
FONTE: INSS – Outubro/2000

A tabela a seguir apresenta as dívidas das federações/confederações com o INSS:


109

TABELA 3

Dívidas das federações/confederações com o INSS

FEDERAÇÃO / CONFEDERAÇÃO REFIS DÍVIDA


Federação Paranaense de Futebol Sim R$ 6,908 milhões
Federação Mineira de Futebol Sim R$ 4,669 milhões
Confederação Brasileira de Futebol Não R$ 4,569 milhões
Federação Paulista de Futebol Não R$ 4,538 milhões
Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro Sim R$ 3,928 milhões
Federação Gaúcha de Futebol Sim R$ 1,273 milhão
Federação Bahiana de Futebol Sim R$ 1,264 milhão
Federação Goiana de Futebol Sim R$ 779 mil
Federação Alagoana de Desportos (FAD) Não R$ 703 mil
Federação Catarinense de Futebol Não R$ 649 mil
Federação Matogrossense de Futebol Sim R$ 578 mil
Federação Maranhense de Futebol Não R$ 510 mil
Federação Norte-Riograndense de Futebol Não R$ 411 mil
Federação Amazonense de Futebol Não R$ 408 mil
Federação de Futebol do Estado do Espírito Santo Sim R$ 181 mil
Federação Tocantinense de Futebol Não R$ 135 mil
Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul Sim R$ 66 mil
Federação Pernambucana de Futebol Não R$ 28 mil
Federação Paraense de Futebol Não R$ 19 mil
Federação Cearense de Futebol Não R$ 18 mil
Federação Brasiliense de Futebol Não R$ 15 mil
Federação Paraibana de Futebol Não R$ 15 mil
Federação Amapaense de Futebol Não R$ 7 mil
Federação de Futebol do Estado de Rondônia Não R$ 2 mil
TOTAL : R$ 31,673
milhões
FONTE: INSS – Outubro/2000

Tal situação, realmente, não constitui propósito nem objetivo de nenhuma

associação civil sem finalidade lucrativa, como são constituídos, em geral, os clubes de

futebol e as Federações Desportivas no Brasil. Essa desordem generalizada entre as entidades

desportivas profissionais só cessará quando houver um tratamento específico, com a criação

de legislação própria e inteiramente aplicável a elas.


110

6.2.9 TÍTULOS SOCIAIS

A maioria dos clubes se organiza como associação civil sem fins lucrativos. É

verdade que sem necessidade, porque nenhuma legislação determinou a adoção dessa forma

societária. No entanto, a razão de terem optado pela associação civil, prevista no Código Civil

de 1916, é histórica.

Reunidos no intuito de promover o desporto e a interação social, no princípio do

século passado, os primeiros idealistas do esporte escolheram essa modalidade de sociedade

por não buscar resultados econômicos. Eram impulsionados pelo ideal olímpico, então

efervescente com a retomada dos jogos no final do século XIX, após séculos de

esquecimento. Naturalmente tomados pelo amadorismo e pela vontade única de promover o

desporto, esses buscaram no Poder Público e na vontade particular de cada um as necessárias

doações para constituição do patrimônio das incipientes associações. Não havendo motivação

para que assumissem outra forma societária, era natural que a associação civil fosse a

escolhida para embalar os sonhos coletivos de harmonia, incentivo ao desporto e à idéia de

que não importa vencer ou perder, mas sim competir. Contudo, com o passar do tempo, as

agremiações se tornaram cada vez mais competitivas. Seus torcedores e admiradores

passaram a exigir novos e melhores resultados nos prélios então organizados. O que fazer,

então, para melhorar a qualidade do espetáculo senão recorrer à contratação de jogadores?

Sim, porque como amadores, os clubes só podiam contar com seus membros, muitas vezes de

qualidade técnica questionável. E assim foi feito. Iniciaram as associações um novo mercado,

o de comércio de atletas, atuando como verdadeiras sociedades mercantis, contratando os

melhores, pagando-lhes salários cada vez mais altos, pois estes representariam maior

qualidade desportiva e proporcionariam espetáculos ainda mais atraentes ao público. Nessa

esteira, seguiram-se as contratações de pessoal de suporte e treinamento, como preparadores


111

físicos e técnicos de futebol. O primeiro diploma legal relativo à regulamentação da atividade

esportiva, Decreto-Lei n. 3.199, de 14/4/41, data dessa fase de profissionalização do esporte,

como noticia Manoel Tubino.142

Nesse ponto, já se podem individualizar características no exercício da atividade

que desvirtuaram o clube como associação desportiva. Além do novo mercado de atletas,

criado e alimentado por interesse único e exclusivo dos clubes, que passam a transacionar

entre si os mais requisitados e conceituados técnicos e jogadores, vê-se que a impulsão desse

mercado ocorre única e exclusivamente porque os espetáculos desportivos então promovidos

pelos clubes necessitavam de melhor qualidade e beleza para atrair cada vez mais público.

Ora, como já lembramos no item 3.1.1, o Regulamento 737 previa, no art. 19, que uma das

atividades consideradas mercancia era a exercida por empresas de promoção de espetáculos

públicos. Sendo o esporte um evento voltado para o público, que atrai pela sua qualidade

técnica e emoção que proporciona ao espectador, nada mais natural que sejam os clubes

equiparados às empresas de espetáculos e, portanto, de natureza mercantil.

De qualquer forma, sabemos que os clubes, associações civis que eram, não

detinham meios de captação de recursos além da contribuição espontânea de seus associados.

Para angariar fundos, lançavam (e ainda o fazem) Títulos de Fundo Social, representativos do

patrimônio do clube.

Sabe-se que esse procedimento costuma importar em pelo menos duas

irregularidades. Pela Portaria Ministerial n. 254, de 01/10/41 (itens 27, 30 e 31), publicada no

DOU de 3/10/41, regulada pela Deliberação 30/44 do CND, de 25/5/44 (DOU 29/5/44); pela

Deliberação 72/53 do mesmo CND, de 4/9/53, itens 35, 36, 37 e 38; pelos arts. 110, 111 e 112

do Decreto n. 80.228, de 25/8/77 e pelo art. 1o do Decreto 82.877, de 18/12/78, a

universalidade dos associados de sociedades integradas por mais de duzentos componentes

142
TUBINO, Manoel. 500 anos de legislação esportiva brasileira – Do Brasil-Colônia ao início do século XXI.
Rio de Janeiro: Shape, 2002, p. 25.
112

perdeu o controle político-administrativo de suas entidades. Por essas normas legais, esse

direito passou a ser exercido isoladamente por um segmento de cada grupamento social,

limitados em número proporcional ao global de seus integrantes (até 300 no máximo),

denominado Conselho Deliberativo, composto em parte por associados especialmente

qualificados e em parte por associados comuns. A primeira irregularidade portanto é

percebida quando o Conselho Deliberativo, e não os sócios patrimoniais do clube, aprova o

lançamento desses Títulos. Associação civil que é, o ativo da agremiação pertence apenas aos

sócios que contribuíram para a formação desse patrimônio. Os demais, sócios contribuintes,

não detêm parcela do ativo, sendo meramente agraciados com o direito de uso dos bens

sociais. Portanto, como qualquer condomínio, apenas os donos dos bens podem manifestar-se

pela modificação de suas respectivas frações ideais no todo.

Tal espécie de sócios, os proprietários (não simples contribuintes), foram


alijados do processo político-administrativo clubístico, na medida que o
antigo regime legal, pré-Constituição Federal de 1988, deixou-lhes de
conferir (Art. 1o, do Decreto 82.877, de 18/12/78, e Art. 14 da Res. 05/77 do
CND, de 20/10/77, DOU de 7/11/77) assento vitalício (em iguais condições
aos fundadores, ex-presidentes, grandes beneméritos, laureados – Art. 13, da
Res. 05/77 do CND) nos Conselhos Deliberativos, únicos órgãos nas
hierarquias internas capazes de, exclusivamente (Art. 110, do Decreto
80.228, de 29/8/77), decidir tanto sobre a direção executiva da entidade,
quanto sobre o destino dos bens patrimoniais, entre outras atribuições. Dele
fariam parte apenas se regularmente eleitos (em igualdade de condições com
os meros contribuintes) pela Assembléia Geral, desconsiderada, portanto,
sua importância e titularidade na partilha dos haveres sociais. Restaram,
pois, todos os integrantes dessa importante e capital categoria social
confinados à aludida Assembléia, a qual, também por força de dispositivo
legal (Art. 111 do Decreto 80.228, de 29/8/77), acabou investida de poderes
restritíssimos, quais fossem os de decidir apenas sobre fusão ou extinção da
sociedade.143
Uma segunda irregularidade que pode ser percebida diz respeito à divisão dos

bens havidos por doações. Ora, enquanto dispõe das contribuições recebidas dos associados,

na constituição da associação, pela deliberação da integralidade dos titulares do patrimônio

comum, está o clube agindo corretamente. Entretanto, para granjear interessados na aquisição

143
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 169.
113

dos chamados Títulos de Fundo Social, o clube compartilha os bens recebidos em doação. Há

que se observar se as citadas doações, muitas vezes recebidas do Poder Público, permitem ao

donatário a disposição deste patrimônio, seja vendendo-o inteiro ou em pedaços.

Ora, nesses empreendimentos, a sociedade civil sem fins lucrativos, por não
ter como objeto social este tipo de atividade nem a sua exploração comercial
(jogos desportivos, locações e etc.), ao captar valores dessa forma junto ao
público, não importa quem e sob que emulações, agiu (e age) mera e
indiscutivelmente como incorporadora, restando os aplicadores como os
efetivos senhores dominiais dos bens incorporados, se bem que não
exatamente no molde pevisto no diploma legal da espécie (Lei 4.591, de
16/12/64). Os aplicadores, inobstante, restam como efetivos senhores dos
bens incorporados, vale dizer, estádios e todo o acervo correlato e
complementar havido nessas condições, se, para o global do patrimônio – e
não apenas para o campo de jogo – servissem os aportes. Isso quer dizer que
os verdadeiros donos desses patrimônios, tidos como “do clube” – exceção
feita àqueles próprios havidos por concessão pública – são os portadores
desses Títulos de Fundo Social. Sócios entre si e não simplesmente
associados da agremiação, deveriam os estatutos conferir-lhes os direitos
especiais inerentes a essa condição, inclusive e principalmente os políticos,
coisa que não o fizeram, nem o fazem na sua generalidade, eis que, desde há
muito tempo, as elites dirigentes usurparam desses efetivos senhores dos
ativos os poderes de administração, gerenciamento e disposição dos bens e
interesses sociais. Isto materializou-se através da admissão estatutária – a
bem da verdade, respaldada na gelatinosa legislação que veio reger a matéria
– do exercício do direito de voto igualitário por todas as categorias sociais, o
que passa pelas dos simples contribuintes, além dos aprazamentos
condescendentes (de ação eleitoral) atribuídos excludentemente a certos
órgãos da estrutura político-administrativa, tudo cumulado com situações
fáticas privilegiadas (controle dos registros sociais –
Secretarias/Tesourarias).144

De qualquer forma, apesar de não ser substancial a receita havida com o

lançamento dos Títulos de Fundo Social, denota-se a irregularidade das entradas de capital na

associação, pelo que não podem ser qualificadas como receitas ordinárias, típicas desse

modelo societário.

Por outro lado, podem ser feitos lançamentos de cotas para acréscimo do

patrimônio do clube, com a aquisição de nova sede, reforma e melhoria das instalações já

144
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 84.
114

existentes. Da mesma forma, a atitude denota um intuito incorporador de que se imbui o

clube, em atitude semelhante à tomada por companhias, em aumentos de capital, quando

lançam novas ações no mercado. Esta receita é, sem sombra de dúvidas, mercantil.

6.3 Despesas dos clubes

Causa assombro a análise da destinação da receita dos clubes no Brasil. A

Comissão Parlamentar de Inquérito apurou gastos astronômicos em todas as entidades

investigadas.

A facilidade com que dirigentes dos mais diversos clubes e entidades de

administração do desporto, jogadores e técnicos falam de gastos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão,

denota a hipocrisia com que se trata o esporte no Brasil.

Durante depoimentos à CPI, declarações confusas e obscuras foram feitas por

quase todos os depoentes. Dentre os fatos curiosos, podemos citar a constatação do relator,

Senador Geraldo Althoff, sobre investigações feitas a partir de denúncias contra o ex-técnico

da Seleção Brasileira de Futebol, Sr. Vanderlei Luxemburgo, após a CPI apurar que o

depoente tinha 30 contas bancárias em seu nome, apesar de suas declarações de imposto de

renda informarem apenas uma conta bancária:

O Sr. Luxemburgo afirmou em seu depoimento nunca ter realizado remessas


de dinheiro ao exterior, sendo que todos os seus investimentos se
concentrariam no Brasil.
Entre os fatos investigados pela CPI, foi descoberto que o Sr. Luxemburgo
foi proprietário de um imóvel situado à Rua Prefeito Mendes de Moraes,
1.500, apartamento 601, São Conrado, Rio de Janeiro. Quando questionado
sobre o assunto, lembrou-se de detalhes da operação, não obstante boa parte
de seu depoimento tenha se caracterizado pelos lapsos de memória,
mormente quando se tratavam de assuntos financeiros.145

145
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. III, p. 16-17.
115

Entre os pagamentos questionados pela CPI, havia uma empresa investigada pela

CPI do Narcotráfico que estava ligada à lavagem de dinheiro e remessa ilegal de divisas ao

exterior, no valor de R$ 200 mil, que o depoente afirmou desconhecer. A Comissão

Parlamentar de Inquérito, analisando apenas as movimentações superiores a R$ 5 mil (em seis

anos, foram 1.478 movimentações nesse montante), concluiu que o Sr. Vanderlei

Luxemburgo sonegara mais de R$ 10 milhões ao fisco, dinheiro, segundo constatou a CPI,

recebido de clubes nos quais atuou como treinador ou de clubes para os quais fez indicação de

atletas, demonstrando absoluta falta de transparência tanto do depoente quanto dos clubes que

lhe pagaram pela indicação desses jogadores, ou ainda de outros negócios, cuja licitude não se

pôde apurar. E conclui o relatório:

O ex-técnico da seleção brasileira alegou desorganização de sua parte para


justificar tamanha disparidade entre rendimentos e recolhimento dos
impostos devidos. Afirmou ainda que esta é uma característica comum a
todos os ex-atletas de futebol; nas suas próprias palavras ‘até um pouco a
maneira desorganizada de um ex-atleta – e sou um ex-atleta do futebol –,
nossa maneira desorganizada por sermos ex-atletas, de não levar muito as
coisas como têm que ser levadas’.
É justamente essa ‘maneira desorganizada de fazer as coisas’ que impera no
futebol, não só entre ex-atletas, mas também entre dirigentes, atletas, clubes
e federações. Por esse motivo afirmou-se que a situação do Sr. Luxemburgo
é um retrato da situação do futebol brasileiro.146
O jornal Folha de S. Paulo publicou, nas edições dos dias 13/11/2000, Folha D4,

e 26/11/2000, Folha D7, denúncia de irregularidade na compra do jogador Dejan Petkovic, do

Clube Venezia, por US$ 6,5 milhões, em 2000, dos quais cerca de US$ 2 milhões utilizados

na compra do jogador foram desviados para as empresas Lake Blue Development Limited e

Picoline Corporation, ambas com sede no paraíso fiscal das Ilhas Virgens, por determinação

do presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Sr. Edmundo dos Santos Silva. Ainda sobre

contas correntes em paraísos fiscais, extraímos interessante trecho do relatório da CPI do

Senado:

146
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. III, p. 29.
116

Questionado se o Flamengo tem ou teve conta no exterior, o senhor


Edmundo dos Santos Silva, em seu 1º depoimento (30/8/2001), respondeu da
seguinte forma:
‘O Flamengo, no passado, já teve conta corrente no exterior, mas, na minha
gestão, não a movimentamos. O Flamengo teve uma conta, se não me
engano, no Banco Bilbao y Viscaya e no Banco do Brasil. Se não me
engano, foram só essas duas contas, mas, na minha gestão, não foram
movimentadas. Os recursos destinados ao Flamengo, na minha gestão,
chegaram e foram enviados via Banco Central e não há movimentação de
contas bancárias no exterior.’
Tendo em mente a afirmação contida no relatório da Deloitte de que a atual
administração estaria providenciando o encerramento dessa conta, os
Senadores membros desta CPI elaboraram os seguintes questionamentos ao
senhor Edmundo naquela mesma reunião:
‘O SR. PRESIDENTE (Álvaro Dias) – O senhor se lembra quando
determinou o encerramento da conta?
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Não lembro. Não lembro. Eu
não lembro.
O SR. PRESIDENTE (Álvaro Dias) – Esse relatório é de maio, e o senhor
assumiu em janeiro.
O SR. GERALDO ALTHOFF – O senhor recebeu esse relatório em maio
de 1999.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – É, mas eu não lembro. Eu
tenho que verificar com o Vice-Presidente da época hoje à noite ainda ou
amanhã, para ele responder. Eu lhe informo essa resposta amanhã.
O SR. GERALDO ALTHOFF – Fique bem claro: está aqui caracterizado
que também o Clube de Regatas do Flamengo faz sonegação fiscal e evasão
de divisas.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Não, senhor Senador, o
Flamengo não faz sonegação fiscal e nem evasão de divisas. Se houve,
houve uma falha. Eu vou responder aos senhores, detalhadamente, sobre o
que foi feito com essa conta.
O SR. GERALDO ALTHOFF – Na data referida, existia nesta conta US$
908 mil – o que foi feito com esse dinheiro?
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Eu vou lhe informar,
detalhadamente – de cabeça, lhe confesso que não sei.
O SR. GERALDO ALTHOFF – Mas eu acho – e esta é minha visão – que o
senhor estava sabendo ...
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Eu confesso a Vossa
Excelência que, de cabeça, eu não sei como foi feito.
O SR. GERALDO ALTHOFF – Se V. Sª me permite, eu confesso que tenho
dificuldade em aceitar que um dado de tal significativa importância não
tenha a sua lembrança clara e definitiva a respeito desse assunto porque
estava se tratando de uma situação – para o senhor, inusitada – porque o
Flamengo estava fazendo sonegação fiscal e evasão de divisas. O senhor
estava tomando as providências. O senhor tinha conhecimento – porque está
dito no Relatório – de que estava tomando as providências para o
encerramento dessas contas. É lamentável mas fica claro, repito, que esta
sendo caracterizado em mais de um clube brasileiro – sonegação fiscal e
evasão de divisas.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Sr. Senador, eu vou me
permitir lhe responder este assunto dentro de 24 horas.
O SR. GERALDO ALTHOFF – É importante, ainda, fazer-se referência a
117

um outro dado: obtivemos confirmação do saldo diretamente com o banco.


De acordo com informações obtidas no Clube – quer dizer, o Clube de
Regatas do Flamengo deu a informação à Deloitte, no transcorrer de 1999 –
ele só foi entregar isso em maio, quer dizer, foi no transcorrer de janeiro a
maio de 1999 –, de que esta conta não é registrada no Banco Central. O
senhor, obrigatoriamente, tinha conhecimento deste fato, e a sua atual
administração está providenciando o encerramento dessas contas – fica
claro isso.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Todos os recursos que entram
ou que saem do Flamengo vêm através do Banco Central – todos.
O SR. PRESIDENTE (Álvaro Dias) – Está no Relatório da Auditoria que
não – que esta conta não é registrada, não foi registrada, não estava
registrada junto ao Banco Central. Portanto, trata-se, realmente, de evasão
de divisas e crime contra o Sistema Financeiro Nacional e contra a ordem
tributária. E há, também, a surpresa nossa e do Relator – porque este é um
assunto tão importante, é um fato marcante porque se trata de uma
irregularidade flagrante, de um ilícito – que caberia ao Presidente se
recordar bem, especialmente ao destino dado a mais de US$ 900 mil que se
encontravam marginalmente – de forma ilegal – depositados nessa conta em
paraíso fiscal.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – Com certeza, ele foi aplicado
dentro do Clube.
O SR. GERALDO ALTHOFF – Sr. Presidente, se V. Exª me permite, eu
lerei o último parágrafo a posteriori – que foi este que acabei de ler
anteriormente. O Clube utiliza agentes no exterior para remeter recursos em
reais diretamente para os credores do Clube no Brasil. Alertamos que esse
tipo de operação pode também vir a ser questionada pelas autoridades
fiscais no País.
O SR. EDMUNDO DOS SANTOS SILVA – O Flamengo, hoje – desde 1º
de janeiro, na minha gestão –, não fez nenhum tipo de operação usando esse
tipo de procedimento, e digo a V. Exª que amanhã eu vou prestar contas a
respeito dessa pendência que V. Exª disse aí. Eu confesso que, nesse
momento, esta resposta está me falhando.

O senhor Edmundo dos Santos Silva, após o seu primeiro depoimento, não
cumpriu o compromisso de enviar a esta Comissão os esclarecimentos
prometidos, o que não causou nenhuma estranheza a esta CPI, pois tal
postura – a de não colaborar em absolutamente nada com os trabalhos – foi
sistematicamente adotada por todas as agremiações de futebol
investigadas.147

Após apuração detalhada sobre a citada conta no paraíso fiscal, o depoente,

presidente do Clube de Regatas do Flamengo, em novo depoimento à CPI disse lembrar-se da

conta e alegou que se tratava de um valor incorretamente depositado em favor do Clube e que,

por sua ordem, fora devolvido. Posteriormente, o advogado do Clube e então presidente da

147
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. IV, p. 39-41.
118

agremiação na data da abertura da conta tentou minimizar a questão e confundir a CPI

afirmando que o saldo da conta não era de US$ 908 mil, conforme apurou uma empresa de

auditoria, mas sim de US$ 908.00. Finalmente, a CPI obteve cópias dos extratos bancários da

referida conta corrente pela redação do Jornal do Brasil, quando o presidente do Clube

afirmou perante a Comissão que não dispunha destes documentos na contabilidade da

associação. Foi unânime entre os senadores a conclusão:

Causa-nos estranheza o fato de a redação de um jornal possuir os extrato


oficiais da conta do Flamengo em Grand Cayman, enquanto o próprio Clube,
demonstrando não os ter arquivados, tem que solicitar oficialmente esses
extratos à instituição financeira, decorridos mais de dois anos do teórico
encerramento da conta. Tal fato, infelizmente, atesta mais uma vez a incrível
desorganização do maior Clube de Futebol do Brasil.
[...]
Portanto, todos os indícios confirmam que a conta foi aberta ao arrepio da
Lei, ou seja, não era de conhecimento da autoridade fiscal e monetária
brasileira. Há fortes suspeitas de que essa conta funcionou diversas vezes
como um Caixa 2 do Clube, com pagamentos e recebimentos não declarados
às autoridades governamentais ou sequer contabilizados pela entidade. Tal
fato provavelmente acarretou significativos prejuízos à Agremiação e deverá
merecer especial atenção do Ministério Público, da Receita Federal e do
Banco Central.148

Também assombram declarações de dirigentes de futebol, tais como as que

envolveram a transação do jogador Guilherme entre o Club de Regatas Vasco da Gama e o

Grêmio Football Porto-alegrense. Consta no Relatório da CPI do Futebol:

Pode ser citado como exemplo dos prejuízos dos clubes devido à
intermediação dos agentes, em contraponto aos lucros astronômicos
auferidos pelos empresários, a transferência do atleta Guilherme (atualmente
no Atlético Mineiro), do Grêmio para o Vasco da Gama, em 1998.
Conforme publicado pela Revista ISTO É, em 25 de novembro de 1998, o
então vice-presidente de futebol do Club de Regatas Vasco da Gama, Eurico
Miranda, decidiu comprar o passe do atleta Guilherme junto ao Grêmio pelo
valor de US$ 3,3 milhões ‘para salvar o Grêmio’, nas palavras do dirigente
vascaíno. O intermediário na negociação foi o empresário Reinaldo Pitta,
que embolsou o equivalente a 15% da negociação, ou US$ 495 mil.

148
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. IV, p. 55-59.
119

Segundo declaração do dirigente vascaíno, quando indagado sobre a


comissão paga ao empresário, coube ao Grêmio o pagamento ao Sr.
Reinaldo Pitta. Nas palavras do Sr. Eurico Miranda: ‘Eu não paguei. Isso
deve ser dívida antiga do Grêmio’.
A versão apresentada pelo então presidente do Grêmio, Luiz Carlos Silveira
Martins, foi diferente. Segundo ele, a comissão ao empresário foi paga pelo
Vasco. Nas palavras do dirigente gremista: ‘Eurico é mentiroso e mau-
caráter. Ele pagou ao Pitta com um cheque enviado ao Grêmio’.
A reportagem publicada na revista traduz como se deu a transação.
Transcrevemos, abaixo, parte da matéria:
‘Meio milhão em três atos
Como ganhar R$ 584,8 mil sem fazer esforço
Pitta liga para Eurico Miranda,do Vasco:
– O Grêmio quer vender o Guilherme por US$ 4 milhões. Topa?
– Por esse valor não compro.Tem que baixar.
Pitta liga para Cacalo, do Grêmio:
– Tem um clube que quer o Guilherme.
– Eu vendo por US$ 2,9 milhões,o valor que eu paguei para trazer
o jogador da Espanha.
– Esse clube paga US$ 2,8 milhões.
– Negócio fechado. Perco US$ 100 mil, mas o Guilherme está
encostado mesmo, por indisciplina.
Pitta liga para Eurico:
– O Grêmio aceitaUS$ 3,3 milhões, incluindo a minha comissão.
– Pode dizer que eu compro.
R$ Diálogos segundo as versões de Eurico Miranda e Cacalo. Pitta,
procurado por ISTOÉ, não respondeu as ligações.’
Ainda conforme divulgado pela Agência JB, em 17/11/1998, o presidente do
Grêmio assume nunca ter tratado com Eurico Miranda nas negociações, mas
apenas com o empresário Reinaldo Pitta.
Demonstrando total descaso com os prejuízos acarretados a seu clube, o
dirigente vascaíno declarou ao jornalista Jorge Eduardo Antunes, do Jornal
de Brasília, edição de 15/08/2001, na coluna ‘De frente pro crime’ que ’A
comissão foi paga pelo Grêmio. A quem interessa se o Reinaldo deu o
dinheiro a mulheres ou a alguém? E se foi para mim? O que eles têm com
isso? Isso interessa a alguém ou é só sacanagem? Estão jogando para
alimentar uma coisa morta’.
A CPI teve acesso ao contrato da transferência do atleta Guilherme. No
instrumento está claro que coube ao Vasco o pagamento de US$ 3,3 milhões,
assim distribuídos:
• ao Grêmio: US$ 1,71 milhão (cláusula 4.4);
• ao atleta US$ 427 mil (cláusula 4.3);
• assunção de dívida do Grêmio junto ao Club Rayo Vallecano (Espanha): US$ 668 mil (cláusula
4.1);
• diretamente à Gortin Promoções Ltda, como remuneração pelo trabalho de assessoria e
intermediação: US$ 495 mil (cláusula 4.2).
Depois de uma temporada no Vasco, o atleta foi emprestado ao Atlético
Mineiro com o passe fixado em US$2,5 milhões.149

A informalidade, o descaso e o desrespeito às leis são evidentes nos depoimentos

149
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. III, p. 35-36.
120

colhidos ao longo da realização dos trabalhos na Comissão Parlamentar de Inquérito do

Senado Federal de atletas, dirigentes de clubes e federações, empresários de profissionais do

esporte, técnicos. Ao longo das mais de 1100 páginas do relatório da CPI, constata-se uma

sistemática distorção de ferramentas jurídicas, desorganização e desconhecimento da lei para

justificar as ilegalidades. Toda a atividade desenvolvida nos clubes os caracterizam,

certamente, como sociedades de natureza mercantil, mal administradas, inadimplentes com o

fisco, carentes de regulamentação própria e rigorosa, com dirigentes que se aproveitam de

oportunidades legais e da conivência do Conselho Fiscal e do Conselho Deliberativo para

aprovar seus desmandos, em detrimento da tradição de conquistas do clube, da paixão de seus

torcedores e do renome que detêm. Em lugar de uma administração profissional e correta,

como a atividade exige, permanecem nos clubes os dirigentes amadores, reiterada e,

inconseqüentemente, causando prejuízos à associação.

6.3.1 CUSTOS FINANCEIROS

Os custos exagerados para a manutenção de atletas de renome – que são, na

verdade, meros empregados da agremiação que, portanto, está sujeita ao recolhimento

previdenciário sobre o total do salário –, aliados à sonegação fiscal de toda natureza e à

freqüente e reiterada renovação de dívidas, com a incorporação de juros, multas e acréscimos,

impõem aos clubes a busca de receita em instituições financeiras ou no cofre dos dirigentes,

remunerando os empréstimos com altíssimas taxas. Sabe-se que nenhuma atividade

econômica suporta o ônus do funcionamento prolongado à custa de capital de terceiros. Esta

é, em reiterados casos, a causa para a bancarrota iminente.

Regra básica no meio empresarial – pagar-se pontualmente o que se deve,

evitando os ônus do atraso –, a adimplência e o respeito aos contratos e obrigações fiscais não
121

sói acontecer entre os clubes de futebol.

Em 2000, segundo o Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado

Federal, por exemplo, o Clube de Regatas do Flamengo excedeu seu orçamento em mais de

R$ 70 milhões. Por absurdo, a agremiação simplesmente estava repetindo o resultado

econômico do ano anterior, cujo excedente do orçamento ultrapassou R$ 43 milhões.150

Pagando salários mensais de até R$ 500 mil para atletas, fica difícil aceitar tratar-se de uma

associação civil.

6.3.2 DEPARTAMENTOS AMADORES, SOCIAIS E CATEGORIAS DE BASE

Sabe-se, também, que diversos clubes investem nos esportes amadores e nas

categorias de base.151 Esse investimento é considerado por muitos defensores do status quo

como exercício de uma função social pelo clube e, portanto, descaracterizador de atividade

especulativa pela agremiação. Não procede, contudo, a argumentação. Qualquer empresa

150
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, v. IV, p. 82.
151
“Clubes apóiam atletas”
“Os principais clubes do futebol mineiro se esforçam para evitar que falte alguma coisa para os seus jovens
atletas, oferecendo uma infra-estrutura completa. Isso inclui atendimento médico e odontológico,
acompanhamento escolar, pedagógico e psicológico. A alimentação é de qualidade, balanceada por nutricionistas
especializadas na área esportiva, além de oferecer moradia e transporte. ‘A gente assume a tutela do menino e
não pode faltar assistência. Muitos já vêm com grandes problemas de casa, nós aqui procuramos facilitar suas
vidas’, conta o diretor da categoria de base do América Futebol Clube, Luiz Alberto.
Toda a equipe que acompanha o desenvolvimento físico e psicológico dos jogadores, às vezes, não é suficiente
para afastar a sensação de solidão que a maioria tem. No Cruzeiro, as crianças contam com a ajuda da pedagoga
Maria Efigênia, apelidada por eles de Kiki. Ela auxilia os garotos em tudo e ainda faz o papel de mãe de todos.
‘São todos meus filhos, cada um tem uma necessidade diferente e eu ajudo no que é possível para aliviar a
saudade deles’, conta.
Já Fábio Guimarães, que assumiu há apenas dois meses o cargo de diretor das categorias de base do Atlético,
acredita na necessidade de um amadurecimento precoce. Já que aos 18 anos o jogador passa para a equipe
profissional e precisa de responsabilidade para seguir uma carreira de sucesso. ‘Se o sonho é a curto prazo, ele
precisa amadurecer mais cedo, e se for craque será um vencedor’, explica Fábio Guimarães.
E os mais velhos apóiam e incentivam os mais novos. Os meninos contam que o único jeito de amenizar o
problema é fazendo amigos no clube. Eles vão se juntando e formando seus grupos. A regra básica para tentar
driblar a saudade, é nunca ficar sozinho.” (ESTADO DE MINAS, 25 jun. 2001, p. 23).
122

moderna, na busca incessante por melhores resultados econômicos, investe na formação de

seus empregados, promove cursos e incentiva a adesão a programas de melhoramento da

qualidade do trabalho.

O investimento em atletas em início de carreira ou, ainda, a manutenção de

escolinhas e categorias de base, objetivando sempre a formação de material humano a ser

explorado futuramente na busca pelo lucro, não pode ter outra perspectiva senão a da

aplicação de capital pela agremiação no cultivo de frutos futuros: os atletas que despontarão

para o mercado, gerando receita para os clubes com a venda de seus passes ou com a

exploração de seu trabalho. Não se deve olvidar da importância que o clube tem na formação

do indivíduo,152 na contribuição social exercitada nas categorias de base:

O interesse geral e o social caminham acoplados, demonstrando que há


consciência dos efeitos danosos que a atividade econômica pode ocasionar
ao meio ambiente ou, ainda, que investir em aperfeiçoar o ser humano
produzirá frutos de enorme valor social. O que se supõe é que pessoas
preocupadas com o bem-estar geral darão preferência, ao decidirem investir
em valores mobiliários, a tais companhias.153

152
“Considerando esses aspectos repontados, a Medida Provisória n. 2. 141 deu nova redação ao § 2o do art. 28,
bem como ao caput e § 3o do art. 29 da Lei n. 9. 615/98, com o fito de resguardar os clubes formadores,
ampliando, de 2 (dois) para 5 (cinco) anos, o prazo máximo do primeiro contrato de trabalho profissional do
atleta. Aliás, o próprio acórdão do ‘caso Bosman’ é explícito quando assinala que qualquer espécie de
indenização de transferência ‘apenas seria aceitável quando se tratasse da primeira transferência de clube e o
antigo clube tivesse formado o jogador’ (item CCXXXIV). Sem dúvida, essa passa a ser a única motivação para
os clubes persistirem no trabalho de base, arcando com notórias despesas para revelar novos valores, oriundos de
suas escolinhas, prestando, induvidosamente, relevantes serviços à sociedade, pois, ao assumir a formação de
milhares de jovens atletas, não raro, retira-os da rua e da marginalidade.
Não se pode olvidar, nesse passo, que os clubes formadores investem nos atletas, concedendo-lhes, entre outros
benefícios, alimentação, assistência médica e odontológica, transporte, ajuda de custo, material desportivo e
pagamento de corpo técnico-administrativo, daí a imperiosidade de garantir-se o retorno econômico dos gastos
na formação de atletas antes da sua profissionalização. Nesse contexto, as indenizações de formação ou de
promoção, tanto previstas na regulamentação da Fifa quanto inseridas no novel § 3o do art. 29 da Lei n. 9.
615/98, com limites e sem constituir barreiras desproporcionais, são instrumentos eficazes e justos para o
ressarcimento de tantas e permanentes despesas, assegurando a continuidade dessa função social exercitada pelos
clubes formadores, mesmo com a abolição do ‘passe’.” (MELO FILHO, Álvaro. Medida Provisória n. 2. 141:
Uma revolução sem armas no desporto. Revista Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 29, 1º sem.
2002).
153
SZTAJN, Rachel. A responsabilidade social das companhias. Revista de Direito Mercantil, São Paulo, v. 114,
p. 50, abr./jun. 1999.
123

Essa é, aliás, a melhor forma de o clube obter recursos a valores baixos. Ao

investir na categoria de base, o custo do jovem atleta se resume a alimentação, moradia e

escola. No máximo, uma bolsa equivalente a um salário mínimo mensal. Ao cabo de três ou

quatro anos, se a qualidade do atleta é boa – e ninguém melhor que os próprios técnicos e

“olheiros” dos clubes para descobrir esses talentos em formação –, o clube aufere imenso

retorno com a venda de seus direitos federativos (o antigo “passe”, extinto pela Lei n.

9.615/98). Cite-se, por exemplo, o caso do atacante Ronaldo Nazário de Lima, o Ronaldinho,

formado no Cruzeiro Esporte Clube como atleta amador, transformado posteriormente em

profissional e vendido a peso de ouro para clubes europeus.

O desporto, enquanto prática amadorista, também é uma atividade civil, aqui


de fins não lucrativos.
No caso das sociedades civis, ordinariamente celebram esse tipo de contrato
pessoas que mutuamente se obrigam a combinar seus recursos (e esforços)
para lograr os fins comuns (Código Civil, Art. 1363), no caso, por exemplo,
desenvolver e estimular a educação física em todas as suas modalidades –
em particular o futebol (ou o hipismo, o tênis, a natação, a ginástica olímpica
e etc.) – além de incentivar e exercer atividades de caráter social, cultural e
cívico.
Como se vê, um projeto eminentemente civil.154

E, de fato, essas atividades necessitam de instalações e equipamentos adequados

para atingir seus fins. O ideal é que invista em bens afetados a este objetivo e que se

constituirão no patrimônio da associação. Para a manutenção desses bens, necessariamente se

faz a partilha das despesas, na forma da contribuição por seus associados. A disposição desses

ativos, é certo, dependerá da aprovação dos condôminos, sob pena de se ferir a propriedade de

cada um.

154
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), cit., p.
109.
124

6.3.3 RESULTADO ECONÔMICO APURADO

Em interessante análise do balanço de um clube, Antonio Carlos de Azambuja

demonstra o total de receitas e despesas apurado num determinado exercício financeiro,

enumerando a origem daquelas, sua natureza e o resultado econômico da agremiação, ao final

do período analisado.

TABELA 4

A escala de receitas

Receitas – Gênero Receitas – Espécie Percentual


Ordinária Mensalidades 8,13%
Extraordinária Espetáculos – jogos 28,17%
Extraordinária Loterias 23,12%
Extraordinária Locações/concessões 12,83%
Extraordinária Marca 12,32%
Extraordinária Passes 7,75%
Extraordinária Lojas 2,40%
Extraordinária Outras – excepcionais 2,11%
Extraordinária Departamentos amadores-sociais 1,53%
Extraordinária Títulos 1,29%
Extraordinária Financeiras 0,35%
Receitas – Total 100,00%

FONTE: ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a


investigar fatos envolvendo as associações brasileiras de futebol. Brasília: Senado Federal, 2001.

TABELA 5
A Escala das Despesas
Despesas – Gênero Despesas – espécie Percentual
Ordinária Departamentos amadores-sociais 6,27%
Extraordinária Departamento de futebol 45,75%
Extraordinária Loterias 13,64%
Extraordinária Financeiras 9,64%
Extraordinária Lojas 1,10%
Gerais Administrativas 23,50%
Despesas – total 100,00%

FONTE: ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a


investigar fatos envolvendo as associações brasileiras de futebol. Brasília: Senado Federal, 2001.
125

TABELA 6
O financiamento da atividade
Receitas – Gênero Receitas – Espécie Percentual de cobertura
das despesas totais
Ordinária Mensalidades Nihil R$
Extraordinária Espetáculos – Jogos 31,09%
Extraordinária Loterias 25,52%
Extraordinária Locações/concessões 14,15%
Extraordinária Marca 13,60%
Extraordinária Passes 8,56%
Extraordinária Lojas 2,64%
Extraordinária Outras – Excepcionais 2,36%
Extraordinária Departamentos amadores-sociais 1,68%
Extraordinária Títulos Nihil R$
Extraordinária Financeiras 0,40%
Receitas – Total 100,00%

FONTE: ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a


investigar fatos envolvendo as associações brasileiras de futebol. Brasília: Senado Federal, 2001.

OBS.: R$ – Observações: receitas dispensáveis, posto que somente com as demais seria o bastante
para o sustento das despesas totais do clube, no exercício considerado.

Comprometendo, no decorrer do exercício, todo o patrimônio comum da entidade

em negócios, por vezes arriscados, além da inadimplência de uma série de obrigações que não

foram descontadas, por não terem sido efetivamente suportadas, o autor conclui pela

incoerência da manutenção da atividade nos moldes então propostos e executados.

Para bem se avaliar esse resultado, observem-se dois fatos: (a) no exercício
social em questão (anterior ao Plano Real), equivalente ao do ano civil, os
índices do IGPM atingiram o percentual de variação de 1800,00%
aproximadamente. Isto quer dizer que para cada unidade monetária
representativa daquele acervo, naturalmente arriscada pelo clube nos seus
negócios naquele ano, ele recuperou 19,50, enquanto se essa mesma unidade
monetária tivesse sido depositada em caderneta de poupança, computados os
juros legais, teria ela rendido, sem risco nenhum, 19,08; e (b) a referência
percentual de 6,75% foi efetuada tomando em consideração o valor do
patrimônio tal como o escriturado (visto há muitos anos não ter ocorrido
reavaliação do ativo no clube paradigma), significando afirmar que, uma vez
comparado o resultado obtido com os efetivos valores de mercado dos bens
dele integrantes, na época do encerramento do exercício, o ‘lucro’
percentualmente considerado reduzir-se-ía necessária e significativamente.
O resultado, pois, é pífio.
Percebe-se, outrossim, que o imenso esforço empreendido para gerar receitas
a partir dos vários gêneros de atividades comerciais a que se dedica – desde
os mais simples como, v.g., concessões de serviços no estádio, alojados na
área patrimonial, até os mais complexos, como os do futebol profissional e
126

da exploração lotérica – esforço esse que, num só exercício, elevou o giro


financeiro à equivalência do próprio patrimônio social, sucumbe diante das
também enormes despesas, principalmente financeiras e salariais incorridas
para produzir aquelas. Vê-se que o resultado obtido, em termos percentuais
(6,75%), atingiu quase exatamente os rasos limites da taxa legal de juros
admitida pelo nosso vetusto Código Civil (Art. 1062).155

Lucro e prejuízo estão irremediavelmente ligados. Atividade econômica alguma

busca o empate no resultado financeiro. Não se justifica arriscar, dia após dia, o patrimônio

social em busca apenas de satisfação pessoal e orgulho dos associados, quando a atividade

indica enorme resultado financeiro, capital elevado e possibilidade de retorno plenamente

satisfatório. Não fosse assim, não teríamos a repetição de parcerias, patrocínios e tanto

interesse de empresas mercantis, bancos e fundos de investimento na atividade “desporto”.

6.3.4 DESVIO DE RECURSOS

A CPI do Senado Federal, nas investigações levadas a efeito, obteve informações

bancárias e fiscais de diversos clubes de futebol (Clube de Regatas do Flamengo, Botafogo de

Futebol e Regatas, Club de Regatas Vasco da Gama, Fluminense Football Club, Sociedade

Esportiva Palmeiras, Santos Futebol Clube, Grêmio Football Portoalegrense e Sport Club

Internacional), apurando, em todos eles, indícios de desvio de recursos para dirigentes, com a

utilização de esquemas de falsificação de documentos fiscais, contas em nome de terceiros

(“laranjas”), superfaturamento de despesas, envolvimento com empresas envolvidas em

lavagem de dinheiro (investigadas pela CPI do Narcotráfico) e intermediação espúria nas

transações de atletas, dentre outras irregularidades.

Partindo, no entanto, do pressuposto de que o clube desportivo é uma associação

civil e, portanto, seu patrimônio pertence à coletividade dos associados, a conclusão a que se

155
AZAMBUJA, Antonio Carlos de. Clube-empresa; preconceitos, conceitos e preceitos (O 1001º gol), p. 99.
127

chega é de desvio de recursos desses condôminos em proveito de alguns poucos desonestos,

pertencentes à casta de dirigentes que assumiu, longos anos atrás, a direção das agremiações

e, graças a manobras nos Conselhos Deliberativos, perpetuam-se na administração clubística.

No modelo societário adotado pelas entidades do desporto – associação civil – a possibilidade

de fraudes no trato da coisa comum se torna evidente, graças aos elevados valores envolvidos

nos negócios entabulados pelos clubes.

A necessidade de aprovação de uma nova regulamentação é premente, a fim de

impedir o locupletamento indevido dos dirigentes amadores que hoje predominam na maioria

dos clubes de futebol do país, mantidos na administração graças a conluios com conselheiros,

que irregularmente administram e usufruem do patrimônio comum dos clubes em proveito

próprio. Esse novo modelo societário deve impor aos administradores a responsabilidade por

seus atos, praticados em detrimento da coisa comum e do interesse dos associados.


Capítulo 7

CLUBE-EMPRESA: MODELOS DE GESTÃO

Modernamente, por todo o mundo tem sido verificada a modificação dos

conceitos inerentes aos clubes que atuam em campeonatos profissionais. Há muito

abandonou-se o ideal romântico da competição por prazer, da sensação de vencer

simplesmente por disputar.

Em iniciativa louvável, rompendo com a tradição desportiva espanhola, editou-se

em 15 de outubro de 1990 a Lei n. 10/1990 – Ley Española del Deporte –, regulamentando,

dentre outras atividades relacionadas ao esporte, as “Sociedades Anônimas Desportivas”,

modelo recomendável para todas as entidades participantes de competições desportivas

profissionais. Seguindo a regulamentação das sociedades anônimas, a Espanha promoveu

peculiaridades às SADs, a fim de adequá-las à atividade desenvolvida: o esporte profissional.

Por intermédio do Real Decreto n. 449/1995, de 24 de março, modificando o RD

n. 1.084, de 5 de julho de 1991, impõe-se a obrigatoriedade de adoção do regime de sociedade

anônima desportiva às entidades de prática participantes de competições desportivas

profissionais.

Modificada em 1998 pela Ley 50, a Ley Española del Deporte passou a permitir

às sociedades anônimas desportivas o lançamento de ações e valores mobiliários no mercado

acionário espanhol, de modo a permitir a captação de investidores, interessados nos resultados

financeiros dos clubes espanhóis.


129

A regulamentação possibilitou um crescimento e desenvolvimento técnico

extraordinário do futebol espanhol. Na última década, clubes daquele país obtiveram

resultados expressivos em competições internacionais.

Em Portugal, paralelamente às iniciativas do país vizinho, também foi

desenvolvida regulamentação diversa da atividade dos clubes desportivos. Com a Lei de

Bases do Sistema Desportivo (Lei n. 1/90, de 13 de janeiro, posteriormente modificada pela

Lei n. 19/96, de 25 de junho), inseriu-se a sociedade com fins desportivos. Posteriormente, o

Decreto-Lei n. 67/97, de 21 de junho, trouxe nova modificação ao ordenamento, preferindo a

forma de sociedade anônima para os clubes participantes de competições desportivas

profissionais. Para os clubes que não pretendam modificar sua natureza jurídica, a lei

portuguesa exige a adoção do “Regime Especial de Gestão”.

Ao criar esse novo modelo administrativo, o legislador conferiu autonomia aos

setores profissionais dos clubes desportivos. Formulou regras próprias e específicas para sua

contabilidade, prevendo ainda responsabilidade civil, criminal e administrativa dos dirigentes

envolvidos na gestão da seção profissional do desporto.

O Regime Especial de Gestão é aquele em que os clubes desportivos


participantes de competições de natureza profissional, fazem a sua opção,
como alternativa à constituição de uma SD.
O legislador apresentou, portanto, dois caminhos, duas soluções.
Tem início a configuração legal desse modelo organizacional desportivo,
consagrando-se a autonomização das secções profissionais em relação às
demais, impondo-se a organização de uma contabilidade própria, com clara
discriminação das receitas e despesas.
A autonomia contabilística, permite diferenciar, a atividade desportiva de
natureza profissional das outras atividades desportivas do clube.
As regras do Plano Oficial de Contabilidade são reguladas por diploma
próprio (DL n. 410, de 21/11/89).156

156
BARBOSA, Alberto dos Santos Puga. O modelo societário como resposta organizativa no futebol
profissional em Portugal e no Brasil; Uma análise hermenêutico-dialéctica na perspectiva das cências do
desporto. 2001. Tese (Doutorado em Ciências do Desporto) Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação
Física da Universidade do Porto – Porto, p. 46.
130

O novo modelo societário proposto já se espalhava por todo o Velho Continente.

Na Inglaterra, a partir do Relatório Taylor, estabeleceu-se amplo rol de exigências de conforto

e segurança para os estádios, bem como de prevenção e repressão a crimes e contravenções

durante os jogos. Na verdade, a recuperação dos estádios aumentou significativamente as

receitas globais do futebol inglês, não apenas porque a presença do público tenha crescido,

mas porque os times tiveram que ser mais rigorosos com a gestão dos negócios, uma

imposição dos financiadores que bancaram as reformas dos estádios.

Em França, após a edição da Lei n. 84.610, de 16 de julho de 1984, estabeleceu-se

que as iniciativas que tenham finalidade desportiva deverão adotar a forma mercantil. E assim

os países europeus de maior tradição no futebol reorganizaram seus campeonatos,

determinando regras para a modernização do esporte. Na maior parte, a modificação passava

pela adoção de nova forma societária, a chamada “sociedade anônima desportiva”, obrigatória

na maioria das vezes. Quando houve a possibilidade de outro modelo de sociedade, como

Portugal, por exemplo, a lei impôs uma forma especial de gestão da atividade.

O Brasil pretendeu traçar um caminho semelhante. Criou-se, em 1983, na Câmara

Federal, a Comissão de Esporte e Turismo, constituindo-se num foro de discussão do esporte

brasileiro. Em 1985, instituiu-se Comissão para Estudos sobre Desporto Nacional.

Finalmente, a Constituição de 1988 incluiu em seu texto a proteção do desporto. Assim,

tratando da Educação, Cultura e Desporto, previu, no art. 217, o dever do Estado de fomentar

práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, observando-se a

autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, quanto~à sua organização e

funcionamento, dentre outros.

Conferindo autonomia às associações desportivas quanto à sua organização e

funcionamento, o ordenamento constitucional brasileiro seguiu algumas constituições

modernas, que também regulam a matéria. Pode-se destacar o texto da Constituição da


131

Espanha de 31/10/1978, cujo art. 47 trata do fomento ao desporto por parte dos poderes

públicos; a Constituição de Portugal de 25/4/1976, que prevê, nos arts. 70 e 79 normas gerais

sobre a educação física e o desporto; a Constituição da República Oriental do Uruguai, de

1966 e emendada em 1977, que declara, no art. 71, de utilidade oficial a gratuidade do ensino

oficial, em todos os níveis, da educação física; a Constituição do Peru, que dispõe dever o

Estado promover a educação física e o desporto, especialmente sem fins lucrativos.

Constituições em vigor ou revogadas, na Alemanha Oriental (arts. 18, 25, 35, 44), Bulgária

(art. 47), Cabo Verde (art. 16), China (arts. 21, 46, 89, 107, 109), Cuba (arts. 8o, 38, 41),

Grécia (art. 74), Guiné-Bissau (art. 17), Nicarágua (art. 65), Polônia (arts. 49 e 69), Romênia

(art. 27), Suíça (art. 27) e Thecoslováquia (art. 15), também tratam do desporto em seu texto.

A Constituição de 1988, ao tratar Da ordem social, no Título VIII, faz

regulamentação, na Seção III, Do desporto. Devendo o Estado fomentar práticas formais e

não formais do desporto, o inciso I do art. 217 dispõe expressamente sobre a autonomia das

entidades desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização e funcionamento.

Estabelecendo como princípio constitucional a autonomia das entidades de prática, muito se

critica a Lei Geral sobre Desportos ao dispor sobre a obrigatoriedade na transformação dos

clubes em sociedades de fins econômicos. Não se pode, contudo, considerar absoluta essa

autonomia, sob pena de se confundir com o conceito de soberania.

Como explica Pinto Ferreira, o conceito de autonomia, preciso e específico, como

um poder de autodeterminação, apresenta-se, no caso das entidades esportivas, com os

seguintes perfis: 1o) poder de auto-regulação de seus destinos; 2o) livre critério na escolha de

seus dirigentes, mediante processo democrático; 3o) utilização de recursos e realização

direcionada de seus interesses. E prossegue:

A autonomia está configurada no art. 217, com a observância de diferentes


incisos que a limitam e a orientam. Ela deve ser exercida dentro dos limites
132

constitucionais previstos, sendo que o controle de parametricidade ou a


aferição dos parâmetros de inconstitucionalidade se verifica diretamente
perante o texto constitucional ou da legislação que reflita o espírito ou a letra
da Constituição, e não da lei que contrarie o princípio constitucional da
autonomia.157

Ainda que livre para se organizarem, segundo o texto insculpido no art. 5o, XVII e

XVIII, da Constituição da República, as entidades desportivas devem obediência às normas

internas. Não são órgãos soberanos,158 que fazem suas próprias leis; devem respeito à

legislação nacional, observados os princípios constitucionais que as regem.

Estabeleceu-se, na Lei n. 8.672/93, a facultatividade da adoção do regime

empresarial. Com sua revogação, pela Lei n. 9.615/98, passou a ser obrigatória a finalidade

econômica, seja por meio de sociedades civis com este fim, seja por meio de sociedades

comerciais admitidas na legislação em vigor. A Lei Pelé ainda determinou que os clubes se

adaptassem ao novo modelo societário até 25 de março de 2000, quando todas as entidades

deveriam revestir-se de uma das formas previstas no art. 27. A Lei n. 9.940/99 alterou o prazo

para que os clubes se amoldassem à nova legislação de dois para três anos.

Passível de críticas por seu aspecto cogente e obrigatório, a Lei Pelé sofreu

diversas alterações nos artigos destinados a regular o clube-empresa. Em 14 de julho de 2000,

nova modificação da Lei Pelé, pela Lei n. 9.981, voltando a facultatividade na transformação

do clube em empresa. Além de a facultatividade não permitir o questionamento da

inconstitucionalidade da lei, por ferir a autonomia das entidades desportivas, o texto melhor se

amolda a diversos outros princípios constitucionais, dentre os quais o respeito ao ato jurídico

perfeito. Afinal, se o clube é organizado como associação civil sem finalidade lucrativa, por

exemplo, lei posterior não pode determinar a adoção de um novo modelo societário. Mas não

157
PINTO FERREIRA. Comentários à Constituição brasileira. São Paulo: Saraiva, 1995. v, 7, p. 181.
158
Soberania interna, para José Luiz Quadros de Magalhães, é sinônimo de poder supremo, significando que não
existe nenhum poder paralelo ou acima do poder do Estado, nos seus limites territoriais. Por outro lado,
externamente, o Estado soberano não guarda vínculo de submissão, não admitindo nenhum tipo de intromissão
nos seus assuntos internos ou internacionais. (Direito constitucional. Belo Horizonte: Mandamentos, 2002, t. II,
p. 127).
133

por violar a autonomia da entidade, e sim por tornar ilegal um ato jurídico perfeitamente

válido perante o ordenamento jurídico anterior.

Já durante a redação do presente trabalho, o Governo Federal editou, em 14 de

junho de 2002, a Medida Provisória n. 39, com o intuito de “moralizar o futebol no Brasil”.

Modificou-se o caput do art. 27 e acrescentaram-se alguns parágrafos, passando a ter a

seguinte redação:

Art. 27. Em face do caráter eminentemente empresarial da gestão e


exploração do desporto profissional, as entidades de prática esportiva
participantes de competições profissionais e as ligas em que se organizarem
que não se constituírem em sociedade comercial ou não contratarem
sociedade comercial para administrar suas atividades profissionais
equiparam-se, para todos os fins de direito, às sociedades de fato ou
irregulares, na forma da lei comercial.
§ 1o (parágrafo único original) (Revogado).
§ 2o A entidade a que se refere este artigo não poderá utilizar seus bens
patrimoniais, desportivos ou sociais para integralizar sua parcela de capital
ou oferecê-los como garantia, salvo com a concordância da maioria absoluta
da assembléia geral dos associados e na conformidade do respectivo estatuto.
§ 3o REVOGADO (MP n.º 2.141)
§ 4o REVOGADO (MP n.º 2.141)
§ 5o O disposto no art. 23 aplica-se, no que couber, às entidades a que se
refere o caput.
§ 6o A entidade que não se constituir regularmente em sociedade comercial,
na forma deste artigo:
I – fica impedida, ainda que presentes os requisitos da Lei n. 9.317, de 5 de
dezembro de 1996, de optar pela inscrição no Sistema Integrado de
Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas
de Pequeno Porte - Simples;
II – não se sujeita à contribuição de que trata o § 6o do art. 22 da Lei n.
8.212, de 24 de julho de 1991, incidindo, no caso, às contribuições de que
tratam os incisos I e II do mesmo artigo, sem prejuízo das demais
contribuições para o custeio da seguridade social;
III – fica impedida de gozar de qualquer benefício fiscal em âmbito federal.
§ 7o Os associados demandados pelos débitos contraídos por entidade
equiparada a sociedade comercial de fato ou irregular na forma do caput têm
o direito de que sejam excutidos primeiramente os bens de seus dirigentes.

A Medida Provisória n. 39 foi, no entanto, rejeitada pela Câmara dos Deputados

em 5/11/02, voltando a redação do art. 27 para sua versão anterior:

Art. 27. É facultado à entidade de prática desportiva participante de


134

competições profissionais:
I – transformar-se em sociedades civis de fins econômicos;
II – transformar-se em sociedades comerciais;
III – constituir ou contratar sociedade comercial para administrar suas
atividades profissionais.
§ 1o (parágrafo único original) (Revogado).
§ 2o A entidade a que se refere este artigo não poderá utilizar seus bens
patrimoniais, desportivos ou sociais para integralizar sua parcela de capital
ou oferecê-los como garantia, salvo com a concordância da maioria absoluta
da assembléia geral dos associados e na conformidade do respectivo estatuto.
§ 3o REVOGADO (MP n. 2.141)
§ 4o REVOGADO (MP n. 2.141).

Três semanas após a revogação da Medida Provisória 39, o Governo Federal edita

nova medida provisória, a Medida Provisória 79, tratando também do tema moralização do

futebol.

Não só por sua aparente inconstitucionalidade, pois foi editada nova medida

provisória dentro da mesma sessão legislativa, tratando do mesmo assunto e com a mesma

redação, após ter sido anteriormente rejeitada no Congresso Nacional, violando o art. 62, § 10,

da CR/88, com as alterações da Emenda Constitucional n. 32, de 11/9/2001, mas ainda por ser

norma de caráter não definitivo, não pretendemos nos alongar em análises desse texto, sob

pena de ficarmos impedidos de concluir o presente trabalho acadêmico.

A redação do texto suscita algumas dúvidas: equiparando os clubes às sociedades

irregulares ou de fato, as medidas provisórias mencionadas impõem aos sócios a

responsabilidade subsidiária e ilimitada por dívidas sociais. Mas que sócios seriam esses? Por

raciocínio lógico, apenas os patrimoniais, condôminos do patrimônio social. Entretanto,

também os sócios contribuintes, que pagam o rateio mensal de despesas do clube, mas não

detém a propriedade de nenhum quinhão da associação, exercem cargos diretivos no clube.

Portanto, também responderão com seu patrimônio pessoal? Além disso, há necessidade de lei

para equiparar determinada atividade às sociedades de fato? Não bastaria a análise da situação

jurídico-econômica da empresa para se concluir pela sua irregularidade? Afinal, se é assim

com todo tipo de iniciativa empresarial, por que o tratamento desigual aos clubes desportivos?
135

E ainda perguntamos: Por que impor expressamente as restrições contidas no art. 9o da

Medida Provisória 79159? Se é uma sociedade irregular, não decorre daí a impossibilidade de

se beneficiar da utilização do Simples, Refis e outros programas de facilitação à regularidade

tributária? Finalmente, se a Lei n. 9.615 é a Lei Geral sobre Desporto, por que criar nela

regras específicas para uma única modalidade esportiva?

Não se pode olvidar, porém, que, ainda que facultativa ou obrigatória a

transformação do clube em sociedade civil de finalidade econômica ou comercial, a tentativa

moralizadora do legislador esbarra em inconvenientes de toda ordem. Por exemplo, à pessoa

adere ao clube desportivo porque este dispõe de instalações adequadas à prática de esportes

para si e para sua família pouco importa o resultado financeiro que a entidade possa

proporcionar a seus associados. Afinal, ela não se associa para auferir lucros. Seu interesse é

meramente o de gozar e usufruir a piscina, a quadra de esportes, a área de lazer, no dia-a-dia

ou nos finais de semana. Para isso ela adquire uma cota e paga seu condomínio (rateio das

despesas comuns do clube) mensalmente. Não quer comprometer seu patrimônio pessoal (que

responderá pelas dívidas sociais, no caso de equiparação do clube às sociedades irregulares ou

de fato) para garantir dívidas contraídas pela sociedade desportiva. Também não espera

retorno financeiro de seu investimento. Não busca lucro na empreitada. A affectio societatis,

premissa de toda sociedade harmônica, não é a de auferir rendimento e receita. Ao contrário,

associa-se tendo pleno conhecimento que terá despesas com a manutenção de sua cota.

Como, então, exigir dessa pessoa manter-se como sócio de uma sociedade

comercial, por exemplo, por quotas, de responsabilidade limitada, ou anônima, na qual o

159
Art. 9º As entidades desportivas que não se constituírem regularmente em sociedade empresária segundo o
art. 7º:
I – ficam impedidas de obter empréstimos, financiamentos ou patrocínios de entidades ou órgãos públicos,
inclusive empresas públicas, sociedades de economia mista e demais entidades controladas, direta ou
indiretamente, pela União;
II – não têm direito ao ressarcimento de que trata o art. 3º; e
III – sujeitam-se ao regime da sociedade em comum, em especial ao disposto no art. 990 da Lei n.º 10.406, de
2002 – Código Civil.
136

clube poderá transformar-se? Ou, por outro lado, como admitir a responsabilidade solidária e

ilimitada, inserida no art. 9o, III, da Medida Provisória 79? E, mais: teria o sócio da limitada

ou o acionista da companhia legitimidade para inscrever seus familiares como dependentes, a

fim de que estes possam também usufruir das instalações sociais dos clubes?

O lucro auferido na iniciativa mercantil deve, salvo deliberação, ser revertido em

proveito dos sócios. No modelo associativo, qualquer resultado econômico é obrigatoriamente

convertido em benefício para o clube. O conflito é evidente.

Em recente banca de exame de monografias para conclusão de curso de graduação

da qual participamos, tendo como tema o “clube-empresa”, discutiu-se a possibilidade de se

manter, na sociedade comercial em que se transformaria o clube, parcela de associados que

teriam apenas direito de usufruir dos benefícios e instalações sociais, pagando por essa

utilização. Sendo modelo de associação inteiramente diversa de qualquer das classes de sócios

atualmente existentes na legislação brasileira e, portanto, em dissonância com o texto da

LGSD, essa participação se revestiria de natureza contratual, na qual o clube-empresa

ofereceria serviços ao interessado que não pretendesse participar dos seus resultados

financeiros. Assemelhar-se-ia, portanto, aos clubes de serviços, muito comuns nos Estados

Unidos, nos quais o uso e gozo dos bens sociais se dá mediante remuneração. Um completo

desvirtuamento da tradição clubística brasileira.

O modelo adotado no Brasil, contudo, não responde aos anseios da sociedade.

Resolve, em parte, os problemas de arrecadação fiscal do Governo; impõe responsabilidade

aos dirigentes desportivos; permite a profissionalização da administração das entidades

desportivas; mas dificilmente se encontra na legislação brasileira um modelo societário que se

adapte à realidade fática que são os clubes desportivos. Nem a sociedade simples, a sociedade

em nome coletivo, a sociedade em comandita simples ou por ações, a sociedade limitada ou

ainda a companhia permitem facilmente a adequação a um modelo societário que engloba


137

tanto o sócio com interesse econômico quanto aquele que busca alternativas de lazer,

divorciado da finalidade lucrativa inerente às empresas com fim econômico.

É forçoso admitir também que a série de modificações por que passa a

normatização e organização do clube desportivo impõe a reflexão quanto à conveniência da

manutenção do atual art. 27. A despeito da insegurança jurídica imposta pelas freqüentes

tentativas de moralização do futebol, por intermédio da caneta do Legislativo, detectamos a

seguir alguns modelos possíveis de organização dos clubes.

7.1 Antecedendo a mudança: O Due Diligence

Antecede a qualquer das formas a seguir discutidas o prévio interesse de

investidores prontos a destinar substancial recurso no desenvolvimento da atividade

desportiva por entidades de prática. Sendo em geral negócios de elevada monta, precede-se à

contratação a celebração de um “Protocolo de Intenções”, no qual as partes envolvidas

estabelecem um modelo preliminar de investimento, com cláusulas de exclusividade,

confidencialidade e prazo para concretização do negócio.

A seguir, busca-se a realização de uma auditoria legal e contábil na entidade de

prática desportiva, o chamado due diligence. Essa fase implica uma “revisão do negócio com

objetivo de confirmar as hipóteses sobre as quais se tomou determinada decisão vinculada,

habitualmente, a processos de fusão, aquisição ou venda de negócios, joint ventures, saídas da

Bolsa ou obtenção de financiamento”.160 Essa conduta permitirá analisar não só aspectos

financeiros, mas também aspectos comerciais, fiscais, legais, trabalhistas, etc. Como um

elemento a mais para análise, o due diligence permitirá ao investidor melhorar a compreensão

160
Revisión del negocio con objeto de confirmar las hipótesis sobre las que se há tornado una determinada
decisión vinculada, habitualmente, a procesos de fusiones, adquisiciones o ventas de negocios, joint ventures,
salidas a Bolsa, u obtención de financiación. (PÉREZ-ÍÑIGO, Juan Mascareñas. Fusiones y adquisiciones de
empresas. 3. ed. Madrid: Mc Graw Hill, 2000, p. 402. )
138

do negócio, conferindo-lhe informações sobre aspectos concretos da atividade ao identificar

pontos fortes e fracos do negócio, assim como potenciais problemas e oportunidades.

É importante lembrar que não existe uma regulamentação técnica por parte de

organismos nacionais ou internacionais para a consecução do due diligence, devendo os

interessados estabelecer o alcance do trabalho a ser desenvolvido durante a revisão do

negócio.

Entendemos ser necessário conhecer a fundo o clube, sua história e o potencial de

exploração de sua marca, percebendo o montante de seu ativo e passivo. Como informação

chave para uma visão geral do negócio, sugerimos um esboço das atividades desenvolvidas

pelo clube, considerando receitas e despesas nos últimos exercícios, com perfeita

identificação dos pontos fortes e fracos nas atividades desenvolvidas.

Em seguida, procede-se à análise dos vínculos desportivos, valioso patrimônio do

clube e de rápida liquidez. Verifica-se a situação previdenciária e fiscal do clube. É

importante observar o passivo trabalhista, pois os elevados salários pagos ou contratados para

atletas e técnicos, amadoristicamente contratados e dispensados, geralmente resultam em

elevadíssimas ações trabalhistas, onerando sobremaneira o caixa dos clubes. Deve ser

considerado também o passivo trabalhista devido a roupeiros, massagistas e demais

funcionários de apoio, que são os primeiros a chegar aos treinos e os últimos a deixar os

vestiários, nos treinamentos e jogos, fazendo jus, pois, a horas extras e adicionais noturnos,

normalmente não pagos. Os contratos civis e comerciais celebrados pelo clube são

importantes para que o investidor possa perceber por quanto tempo será obrigado a manter-se

vinculado aos negócios anteriormente celebrados pela entidade, tais como patrocínio,

fornecedor de material esportivo, etc.

É importante ainda conferir a situação dos imóveis da associação. Clubes

centenários, em dificuldades econômicas, geralmente pactuam cessões de longo prazo de


139

parte de seu patrimônio em troca de receitas não necessariamente correspondentes, porém

imprescindíveis a curto prazo para fazer frente às desmedidas atitudes tomadas pelos

dirigentes amadores. Podemos citar como exemplo o Clube Atlético Mineiro, que cedeu um

terreno de um quarteirão na região mais valorizada de Belo Horizonte para a construção de

um shopping center, devendo receber o empreendimento ao cabo de 25 anos, livre de

qualquer ônus. Posteriormente, em decorrência de necessidades financeiras momentâneas,

estendeu o prazo anterior para 40 anos, em troca de uma injeção urgente de capital. Também é

relatado pela CPI do Senado Federal a celeuma de contratos e prazos em que o Club de

Regatas Vasco da Gama se envolveu com o Bank of America, com sucessivas reformas e

repactuações, em clara e evidente demonstração de despreparo da direção da agremiação

desportiva para manter a centenária agremiação. Segundo o relatório,

a realidade atual do Club de Regatas Vasco da Gama é um perfeito exemplo


da desorganização e do desmando instalados no futebol brasileiro. É de se
lamentar que uma instituição centenária, com tantos serviços prestados à
nação brasileira e ao desporto nacional, tenha chegado ao ponto em que se
encontra atualmente. A atual administração transformou um clube que era
parâmetro em organização em uma instituição à beira do caos. Agindo de
maneira ditatorial, impede que haja oposição dentro do clube, perseguindo
aqueles que ousam se levantar contra ela.161

Analisam-se também os contratos de cessão e exploração das marcas notórias do

time, tais como seu nome, símbolos e sinais característicos, a fim de conferir a conveniência

de manutenção das linhas de produtos porventura licenciados pela agremiação. Verificam-se

as vendas históricas e possibilidades futuras de consumo e venda de produtos licenciados,

bem como a rentabilidade e potenciais mercados não explorados. Estima-se a cota de mercado

disponível e custos das políticas de marketing.

É certo que algumas projeções dependem de fatores externos, especialmente o

sucesso ou fracasso do clube nas competições que disputar. Quanto mais jogos ganhar, mais

161
ALTHOFF, Geraldo. Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar fatos
envolvendo as associações brasileiras de futebol, cit. ,v. IV, p. 164.
140

repercussão terá, mais espaço e destaque conseguirá na mídia. A divulgação da marca ainda

poderá ser menos onerada, pois é interesse dos veículos de comunicação a divulgação de

jogos e resultados.

Os custos deste trabalho, evidentemente, não são baixos. Porém, a repercussão

futura de um due diligence bem elaborado certamente contribuirá fundamentalmente para a

assunção da posição de negociação na transação, bem como na exigência de garantias a ser

prestadas pelas partes para a conclusão do negócio.

Após o investidor conhecer todo o clube e sua história e verificar o potencial de

exploração e retorno do investimento, resta adentrar a questão societária da entidade. Com

base nos estatutos sociais e na possibilidade de sua modificação, estabelece-se o modelo ideal

de parceria. Nesse momento, importa colaboração dos associados para, se necessário e com

base nas normas internas do clube, a alteração do modelo societário então adotado

(normalmente, associação civil) para sociedade civil com finalidade econômica ou sociedade

mercantil.

Na tentativa de profissionalizar o esporte no País, algumas iniciativas isoladas,

ainda sob os auspícios da Lei n. 8.672 (Lei Zico), foram notadas. São pequenas empresas que

surgiram com o intuito único de promover, de forma empresarial, a exploração e

desenvolvimento do desporto no país. Cronologicamente, podemos citar a criação do Rio de

Janeiro Futebol Clube Ltda. (setembro/96), razão social modificada posteriormente para CFZ

do Rio Sociedade Esportiva Ltda., primeiro clube-empresa do Brasil, de propriedade do ex-

jogador de futebol Artur Antunes Coimbra (Zico), sociedade comercial por quotas, de

responsabilidade limitada. Em outubro de 1996, surge o Unibol – Universidade do Futebol de

Pernambuco S/C Ltda., sociedade civil criada por vários desportistas em Recife/PE com o

objetivo social de recrutamento, seleção e treinamento, formação de mão-de-obra na área do

desporto nacional, com desenvolvimento de atividades físicas e intelectuais, desportos


141

educacionais, de participação e de rendimento, praticado de forma profissional,

semiprofissional e amadora. O Etti Jundiaí Futebol Ltda., em maio de 1998, sociedade

comercial por quotas, de responsabilidade limitada, foi resultado da aquisição, pela

multinacional Parmalat S.p.A., por intermédio de sua subsidiária Santal Prosport Ltda., do

Lousano Paulista Futebol Clube, denominação dada em 1995 ao Paulista Foot Ball Club, de

1909, que, por sua vez, sucedia ao Jundiahy Foot Ball Club, fundado em 1903. E, finalmente,

o Malutrom S.A., iniciativa das famílias Malucelli e Trombini, de Curitiba/PR, criado em

dezembro de 1994 como associação civil de natureza recreativa e que, em julho de 1998,

transforma-se em sociedade anônima, com o ingresso de outros acionistas.

De outra parte, os antigos clubes do Brasil demonstram total inapetência ou

incapacidade de se transformarem em empresas, como era o desejo da legislação de então, em

virtude do interesse dos sócios em suas unidades recreativas. Analisando as parcerias

celebradas, pudemos detectar os seguintes modelos comerciais, cujas características próprias,

seguindo o comando do art. 27 da Lei Geral sobre Desportos,162 serão adiante analisadas e

comentadas.

7.2 Sociedade

Esse modelo foi adotado pelo Vitória da Bahia, em negociação com o Banco

Excel, criando-se o Vitória S.A., e pelo Esporte Clube Bahia e o Banco Opportunity,

resultando no Esporte Clube Bahia S.A.

O clube cria uma sociedade, preferencialmente anônima, à qual chamaremos

“clube s.a.”. Para a realização do capital social, cede para a nova empresa todos os ativos

162
“Art. 27. É facultado à entidade de prática desportiva participante de competições profissionais:
I – transformar-se em sociedades civis de fins econômicos;
II – transformar-se em sociedades comerciais;
III – constituir ou contratar sociedade comercial para administrar suas atividades profissionais.”
142

relacionados ao esporte profissional: direitos de exploração das marcas notórias do clube,

vínculos desportivos dos atletas, contratos de patrocínio e fornecimento de material

desportivo e imóveis afetados ao desenvolvimento das atividades desportivas profissionais:

campos e centros de treinamento, salas de ginástica e fisioterapia, vestiários, etc.

De outro lado, o investidor, diretamente ou por meio de uma subsidiária integral

(investidor s.a., por exemplo), celebra a compra e venda de ações do clube s.a.,

concomitantemente à celebração de um acordo de acionistas.

O prazo desse modelo societário é, geralmente, indeterminado. As atividades de

administração e fiscalização da nova companhia, dentro do que dispõe o estatuto social, ficam

vinculadas ao acordo de acionistas. O investidor pagará ao clube sua participação no negócio,

segundo o preço acordado no contrato de compra e venda das ações, e na distribuição dos

dividendos. Sendo uma sociedade anônima, a nova companhia poderá lançar em mercado de

balcão suas ações para negociação futura de eventuais interessados.

7.3 Administração

Modelo pretendido pelo Clube Atlético Mineiro e pelo Santos Futebol Clube nas

negociações com o consórcio CIE-Octagon-Koch Tavares, a administração geralmente tem

prazo determinado. O clube define previamente os ativos a serem cedidos para administração

externa, a ser exercida pelo parceiro. Normalmente, o departamento de esportes profissionais

permanece sob orientação e comando do clube, ficando a cargo do administrador apenas a

condução dos negócios e transações financeiras. Como não detém o capital necessário para a

consecução do empreendimento, o administrador busca no mercado interessados no

investimento. O clube mantém vínculos contratuais apenas com o administrador, e este com

os investidores.
143

Se desejar, o clube poderá também criar uma empresa comercial (clube s.a.),

cedendo-lhe ativos a serem administrados profissionalmente. Esta nova companhia manterá

relacionamento contratual com o administrador, ficando o clube por trás do novo negócio,

apenas participando da gestão da sociedade anônima.

O pagamento ao administrador, nesse modelo societário, depende de acerto no

contrato de administração. Preferencialmente, fixa-se uma porcentagem sobre os contratos

celebrados. A supervisão do negócio, contudo, permanece com o clube, sendo o administrador

mero contratado para a realização dos negócios.

7.4 Licenciamento

Adotado no Club de Regatas Vasco da Gama, em contrato com o Nations Bank,

posteriormente incorporado ao Bank of America (Vasco da Gama Licenciamentos S.A.), no

Cruzeiro Esporte Clube (Cruzeiro S.A.) e no Sport Club Corínthians Paulista (Corínthians

S.A.), ambos com o fundo de investimentos HMTF – Hicks, Muse, Tate & Furst, o

licenciamento lembra o modelo de sociedade.

O clube define os ativos a serem explorados comercialmente. Pode, para seu

intuito, criar uma empresa comercial (clube s.a.), não sendo, contudo, obrigatória. Nos casos

em apreço, houve a criação de sociedades limitadas ou companhias, para as quais o clube

cedeu a marca e símbolos característicos, tais como o mascote estilizado. Após as negociações

preliminares, o clube (ou o clube s.a.) celebra com o investidor contrato de licenciamento para

a exploração da marca e símbolos.

Nos casos analisados, o papel de investidor coube a empresas de grande porte ou

fundos de investimento, com patrimônio elevado, atuação e investimento em diversas áreas

econômicas. Assim, por prevenção, fez-se necessária a criação de uma subsidiária integral,
144

sociedade anônima, com o objetivo de gerir os ativos do clube que lhe foram licenciados. A

esta empresa denominaremos investidor s.a. Sua tarefa, como gestora desses ativos, é a

contratação com terceiros, por meio de autorização ou licenciamento, para produção dos mais

diversos produtos para divulgação da marca e/ou símbolos. É interessante que sejam impostas

restrições no contrato celebrado entre o clube e o investidor; caso contrário, poderão ser

licenciados desde artigos de vestuário até preservativos e papel higiênico, passando por jogos,

álbuns de figurinhas, planos de saúde, bijuterias, aparelhos eletrônicos, etc.

Permanece com a agremiação o controle e a administração dos departamentos

desportivos, sendo teoricamente vedada a ingerência do investidor nesse setor, uma vez que

foram objeto do contrato apenas o licenciamento e a utilização dos sinais e símbolos

característicos do clube. O prazo do contrato é obviamente determinado, devendo ainda

prever a forma de remuneração, percentagens de divisão da renda auferida com os produtos

originados da parceria comercial, valores devidos pelo investidor em contraprestação à

utilização da marca, etc.

A investidor s.a. também pode passar a deter o vínculo desportivo de atletas, em

comunhão com o clube, pois a LGSD prevê, no art. 28, a obrigatoriedade do contrato de

trabalho do atleta profissional “com entidade de prática desportiva, pessoa jurídica de direito

privado”. Pode-se ainda, como sói acontecer, estabelecer a obrigatoriedade de construção de

estádios, arenas desportivas ou centros de treinamento como forma de remuneração

antecipada ao clube, pela exploração da marca licenciada ao investidor.

7.5 Co-gestão

A Parmalat S.A. manteve o regime de co-gestão com a Sociedade Esportiva

Palmeiras e com o Esporte Clube Juventude até que se consolidasse no mercado brasileiro. Ao
145

iniciar sua parceria com o Palmeiras, a multinacional italiana era conhecida apenas como uma

marca de leite de consumo da elite, posto que comercializava seu produto em embalagens

“longa vida”. Naquela época, o costume do brasileiro médio era a aquisição de leite em

“saquinhos”, com validade para apenas um dia. Em função do preço mais elevado e por falta

de hábito, o laticínio de longa duração era relegado a segundo plano, servindo apenas para

abastecer as residências de maior poder aquisitivo.

Inicia-se em 1992 a parceria da fábrica de alimentos com o clube paulista. No ano

seguinte, celebra-se contrato semelhante com o Esporte Clube Juventude, de Caxias do

Sul/RS. A relação surte resultados imediatos, levando a multinacional italiana a ser conhecida

em todos os lares nacionais, como “patrocinadora” de clubes que obtiveram expressivo

sucesso na década de 90 nos campeonatos estaduais de São Paulo e Rio Grande do Sul, como

ainda no campeonato brasileiro, tendo a Sociedade Esportiva Palmeiras sagrado-se campeã

em 1993, 1994 e 1997.

Modelo mais flexível de relacionamento comercial, basta que o clube defina o que

será gerido em conjunto com o investidor. Celebra-se um contrato163 em que são estabelecidos

direitos e obrigações de ambos, responsabilidades pecuniárias e administração dos

departamentos desportivos do clube. Existe liberdade plena de atuação e relacionamento,

sendo inteiramente desnecessária a criação de subsidiárias para o desenvolvimento das

atividades. Constituindo verdadeira sociedade em comum, o clube e o investidor assumem os

ônus da parceria em plena liberdade, dentro de princípios éticos e morais, obedecidas as

formalidades exigidas pelo estatuto do clube.

Nos casos analisados – Sociedade Esportiva Palmeiras e Esporte Clube Juventude

–, não se pode concluir que a parceria foi bem ou mal sucedida para os clubes. Enquanto

durou, não há dúvidas, ambos lograram êxitos e conquistas. Porém, o investidor relegou a

163
Nos dois clubes mencionados nesse modelo não tivemos acesso aos contratos. Segundo nos foi informalmente
revelado, a multinacional não tinha acerto escrito com nenhuma das duas agremiações.
146

segundo plano as categorias de base das duas agremiações, optando por contratar jogadores já

formados. Findada a parceria, a torcida já acostumada a grandes contratações, os clubes foram

obrigados a se adequarem à carestia da nova realidade.

O clube paulista limitou seus atletas a um teto salarial. Não poderia ser de outra

forma, pois não havia mais injeção permanente de recursos. No primeiro certame nacional,

após o fim da parceria, teve um desempenho modesto, longe do brilho da década anterior.

Buscando reabilitar-se, lançou mão de novos reforços, sem obter êxito, entretanto. Não se

pode afirmar, mas a aparente falta de profissionalismo dos dirigentes condenou o Palmeiras,

três vezes campeão brasileiro nos últimos dez anos, ao rebaixamento no campeonato nacional

de 2002. Enquanto no passado, gerido profissionalmente e com reconhecida competência, o

clube passou ileso por crises de relacionamento entre atletas, técnicos e dirigentes, dada a

mentalidade empresarial implantada entre seus membros, que privilegiava a estabilidade e os

resultados, apenas em 2002 o time do Palmeiras foi dirigido por cinco técnicos diferentes.

De outro lado, pudemos perceber no clube gaúcho uma sensível melhora de

desempenho. A harmonia e o profissionalismo no relacionamento prevaleceram entre atletas e

direção. No último ano de vigência do regime de co-gestão com a multinacional italiana

(1999), o Juventude conquistou a Copa do Brasil e o direito de representar o Brasil na Copa

Libertadores da América. Apesar do pífio resultado no Campeonato Brasileiro daquele ano,

manteve-se na elite do futebol nacional. Melhorando cada vez mais seu desempenho, chegou

ao final da fase classificatória do certame de 2002 em 4o lugar, após ter mantido a primeira

colocação por várias rodadas.

Não se pode, portanto, diante da análise prática em duas parcerias semelhantes,

mantidas com o mesmo investidor, dizer se foi benéfica ou prejudicial para os clubes o regime

de co-gestão, após seu término. Sabe-se, apenas que, passados mais de dois anos do final da

relação com o mercado, nenhuma das entidades desportivas conseguiu ainda emplacar um
147

novo regime empresarial de parceria. Percebemos, nas entrevistas realizadas com

profissionais durante o período de coleta de dados para o presente trabalho, que o modelo

profissionalizado de administração do desporto, em ambos, encontra-se esgotado. O

comentário corrente é que nenhum grande investidor se entusiasma com a idéia de se aliar a

qualquer um dos dois clubes cuja imagem ainda se encontra excessivamente vinculada ao

antigo parceiro econômico.


CONCLUSÃO

Qualquer que seja a forma de organização adotada pelo clube, é importante que os

dirigentes mantenham o controle da atividade. Não porque alguns clubes conseguiram

enormes contratos de patrocínio e parceria, ou porque se noticia que o esporte é altamente

rentável164 (após contabilizado o lucro havido durante a Copa da França, estimava-se que o

montante de contratos envolvidos na Copa do Mundo 2002 – Japão/Coréia, seria de,

aproximadamente, 1 bilhão de dólares. Estss valores foram superados, segundo estimativas da

Fifa,165 e qualquer um poderá se lançar na empreitada da direção de entidades desportivas. O

ramo, cada vez mais profissionalizado, sofre com os humores da economia globalizada.166

164
PRONI, Marcelo Weishaupt. A metamorfose do futebol. Campinas: Unicamp, 2001, 266p.
165
Conforme LAUDÍZIO, Fábio. Do esporte ao negócio. In: SEMINÁRIO DE DIREITO DESPORTIVO, 2,
2002, Belo Horizonte.
166
“O crash do futebol – Após a euforia, clubes e investidores pelo mundo vêem o negócio encolher.
A crise financeira não é uma primazia hoje do futebol brasileiro. Poderosos clubes europeus, Fifa, confederações
continentais e torneios de países que até bem pouco tempo eram exemplo de sucesso econômico no esporte
passam por momento financeiro ruim.
As ações de ricos times de Inglaterra, Itália, Alemanha e Holanda em Bolsas de Valores despencaram em 2001.
Os clubes britânicos tiveram, em média, por exemplo, uma perda de 27,8% no valor de suas ações, segundo
pesquisa feita pelo Soccer Investor, grupo inglês que estuda negócios e marketing envolvendo o esporte mundial.
Uma ação do Manchester United, considerado o clube mais rico do planeta, custava 224 libras (cerca de R$ 760)
no final de 2000. No último dia de 2001 a ação do clube podia ser adquirida por 145 libras (cerca de R$ 490).
Reflexo do retrocesso, o Manchester pode vender sua maior estrela, o meia-atacante Beckham, por não querer
bancar mais um salário de US$ 200 mil mensais.
A Roma, a campeã da temporada passada na Itália, e a Lazio, a campeã retrasada, viram suas ações caírem no
último ano, respectivamente, 51,6% e 47,1%.
O alemão Borussia Dortmund experimentou uma perda de 38,7% no valor de suas ações em 2001. O Ajax,
tradicional time holandês, observou uma queda de 26,5% no valor das suas.
As bolsas em quase todo o mundo apresentaram queda no último ano, mas não como os clubes. A Bolsa de
Londres, por exemplo, teve queda de 16% em 2001; as ações do Arsenal, principal time londrino, tiveram
desvalorização de 33% no período.
''Práticas como a adoção de pisos salariais para os atletas mostram que os clubes estão se esforçando para
diminuir os gastos'', diz Oliver Butler, responsável pelo Soccer Investor.
A Europa ainda não assimilou bem a falência da ISL, empresa de marketing suíça que esteve atrelada à Fifa por
quase duas décadas. A quebra da parceira da Fifa não foi bem explicada. Importantes dirigentes europeus, em
especial, querem uma devassa nas contas da máxima entidade do futebol.
Joseph Blatter, presidente da Fifa, contratou uma empresa para fazer auditoria na entidade, enfraquecida
economicamente.
A Fifa foi obrigada a cancelar a segunda edição do Mundial de Clubes, perdeu a sua seguradora original da Copa
e transformou a sua mais importante competição em títulos no mercado financeiro. ”
149

Certo é, porém, que a atual legislação brasileira impõe aos clubes uma situação

peculiar. Inspirado em modelos de desenvolvimento do desporto bem-sucedidos no exterior, o

legislador brasileiro, ao impor a forma mercantil para as agremiações desportivas, não teve o

cuidado de adaptar à realidade brasileira os conceitos, mecanismos e modelos societários

alienígenas. Divorciada da realidade nacional, em que os clubes contam com a colaboração

espontânea de seus associados, na forma da contribuição condominial mensal, além da

formação de jovens atletas nas categorias de base, a Lei Geral sobre Desportos impõe a

adoção de modelos societários incompatíveis.

“Crise financeira afunda o futebol nos EUA e no Japão – Países que investiram nos anos 90 passam por
fase de contenção de despesas.
Dois grandes exemplos do momento financeiro delicado por que passa o futebol mundial são os EUA e o Japão.
Os dois países lançaram ambiciosas ligas profissionais (a MLS e a J-League) na década de 90 e hoje estão
vivendo fase de contenção de despesas.
A liga norte-americana fechou dois clubes: o Miami Fusion e o Tampa Bay Mutiny. Já a liga japonesa, segundo
a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS), foi apenas o 32º mais forte campeonato
nacional do planeta em 2001, empatado com o Campeonato Paraguaio.
Na MLS e na J-League os craques estão rareando. Grandes nomes internacionais, como o colombiano Rincón,
encontram dificuldade para jogar nos EUA devido ao alto salário. E os principais atletas brasileiros que estavam
no Japão já voltaram ao país.
Os norte-americanos, cuja liga não figura nem entre os 50 melhores torneios nacionais do mundo, estão cortando
investimentos também no futebol estrangeiro.
O fundo HMTF, com grande prejuízo na Argentina, está revendo seus planos para a América Latina. No Brasil,
Cruzeiro e Corinthians já sentiram o ''pé no freio'' de seu milionário parceiro. A PSN, canal de esportes do
HMTF, também sente os efeitos da crise.
A empresa de material esportivo Nike cogitou rescindir contrato de patrocínio com a CBF e acabou reduzindo
em 25% o valor total que pagará à entidade.
A Confederação Sul-Americana de Futebol vive momento difícil. A empresa TyT diminuiu em 30% o valor
pago aos clubes na Libertadores, principal torneio do continente. A Toyota estuda encerrar sua parceria com a
entidade que rege o futebol sul-americano. A Copa Mercosul, que dava bons prêmios aos clubes, foi extinta.
A Confederação Africana transformou as eliminatórias para a Copa da África em eliminatórias para o Mundial
para dar um respiro em seu calendário, mas, com a redução no número de jogos, ameaça federações que
dependem das rendas das partidas.
Na América do Sul, enxugar as eliminatórias para a Copa causa medo, pois as dez federações querem que a
competição siga no sistema todos contra todos, em turno e returno, mais lucrativo.
A Copa América e a Copa da África, torneios bienais de seleções, estão sendo instigadas a acontecer de quatro
em quatro anos, mas as confederações dos dois continentes temem a perda de dinheiro com a diminuição de
edições dessas competições.
O calendário mundial unificado traçado pela Fifa está ameaçado pela necessidade financeira de confederações,
federações e clubes. Da mesma forma, o calendário quadrienal lançado pela CBF, que pode deixar times grandes
quase quatro meses sem atuar nesta temporada, corre risco.
A imagem da Copa
Vários países, como o México, não conseguiram ainda garantir a recepção de imagens da Copa. A aquisição de
anunciantes para o Mundial está sendo dificultada pelo horário em que os jogos serão exibidos no Ocidente.
A própria organização da Copa deste ano passou aperto financeiro. Os sul-coreanos não deram conta das
despesas e acabaram recebendo ajuda dos japoneses, que também abrigam o torneio.
Em meio à crise financeira, a Fifa liberou até publicidade no uniforme dos árbitros, uma nova forma de aumentar
a receita.
O dinheiro nunca foi tão essencial para o futebol como agora. ” BUENO, Rodrigo. Folha de S. Paulo, 27 jan.
2002, p. D1.
150

No caso das companhias a responsabilidade social de que aqui se pretende


cuidar, consiste na tomada de decisões administrativas que levem em conta
valores éticos, o respeito às pessoas, à comunidade, o cumprimento das
normas legais, o cuidado com o meio ambiente. Quer dizer, responsabilidade
social implica em administrar a sociedade de forma a atender ou superar os
anseios éticos, jurídicos e negociais do público, tendo em vista as atividades
exercidas.167

Correto seria que se adotasse, como em alguns países europeus, uma estrutura

societária nova, na qual poderiam ser admitidos o associado contribuinte ao lado do sócio-

proprietário, os investimentos em categorias de formação – que engloba não só o treinamento

técnico-desportivo específico, mas também o fornecimento de alimentação, moradia, saúde,

educação e bem-estar aos jovens atletas das categorias de base –, além das diversas

peculiaridades que caracterizam o clube desportivo. A finalidade social dos clubes que

exploram o desporto de natureza profissional não é exclusivamente o lucro. E a empresa com

fins econômicos, seja civil, seja comercial, não se coaduna com a atividade desportivo-

recreacional.

Entretanto, não se pode deixar de constatar que os clubes, como associações civis,

hoje vivem na marginalidade. Praticando atos reputados mercantis de forma reiterada e

constante, não se conclui de outra forma senão pelo caráter comercial de que se reveste a

atividade, constatando-se que não passam de sociedades irregulares ou de fato. A Lei Geral

sobre Desporto não resolve a questão. Ao contrário, impõe regimes incompatíveis com o

sistema desportivo nacional. Enquanto determina a adoção de modelos societários admitidos

no ordenamento jurídico nacional, o legislador obriga instituições centenárias à adaptação em

moldes que não se encaixam na realidade social.

Marca registrada de identificação do País em todos os recantos do mundo, o

167
SZTAJN, Rachel. A responsabilidade social das companhias. Revista de Direito Mercantil, São Paulo, v. 114,
p. 35, abr./jun.1999.
151

desporto, nomeadamente o futebol, constitui-se numa paixão ou ‘quase-


religião’ nacional que conjumina multidões e gerações, ricos e pobres, como
elemento de integração social e cultural, como agente do processo
educacional, como mecanismo auxiliar à política da saúde e como veículo de
promoção do lazer, exigindo permanente e especial atenção do Governo
brasileiro, até porque, enquanto no futebol o Brasil integra o Primeiro
Mundo, em outros setores e atividades, infelizmente, ainda pertencemos ao
Terceiro Mundo.
De todo modo, é notória a progressiva mercantilização do desporto que
passou do ócio (lazer) para o negócio (sport business), fazendo com que a
filosofia olímpica de que o importante é competir fosse substituída pela
máxima de que o importante é lucrar. E num contexto em que o fenômeno
desportivo, nas suas diversas vertentes, interessa tanto ao Estado quanto à
sociedade exsurgem dilemas e contradições.168

A lei deve adaptar-se à realidade. O contrário constitui aberração, conduz a

chacotas e desrespeito e leva ao ostracismo a iniciativa louvável de modernização de

importante patrimônio da cultura nacional, o desporto. Disse Keynes que as palavras devem

ser um pouco selvagens, pois são a agressão do pensamento àqueles que não pensam. Não

pode ser outra nossa conclusão, diante da análise da legislação brasileira sobre desportos

profissionais. Movido pela necessidade de satisfazer à mídia e à sociedade, o Governo

Federal, atabalhoada e inconstitucionalmente, edita reiteradas medidas provisórias, impondo

normas fadadas ao insucesso e descrédito.

De lege ferenda, entendemos ser necessária, na realidade brasileira, a adoção de

um modelo societário próprio para os clubes desportivos, nos seguintes moldes:

• Esse novo tipo societário deve prever uma ou mais classes de sócios que não se

responsabilizam pelo resultado financeiro do empreendimento, mas também não são

contemplados com o lucro obtido com a atividade. Os modelos societários existentes no

Brasil não admitem sócios que têm direito a lucros ao lado de sócios que só contribuirão

com as despesas e jamais pleitearão dividendos.

• O tratamento fiscal deve ser diferenciado, a fim de proporcionar a efetivação de medidas

168
MELO FILHO, Álvaro. Medida Provisória n. 2. 141: Uma revolução sem armas no desporto. Revista
Brasileira de Direito Desportivo, São Paulo, v. 1, p. 27, 1° sem. 2002.
152

na formação de jovens atletas, permitindo-se ao clube custear a moradia, saúde e

educação. Sabe-se que, ante a realidade social do país, a grande maioria dos atletas é

egressa de classes mais baixas da população. E não porque não têm outra alternativa, ao

contrário dos mais ricos, que podem optar pelo sucesso mediante o estudo ou a

constituição de empresas dos mais variados tipos, mas porque o Brasil tem cerca de

metade da população próxima da linha de pobreza. Se há um grande número de habitantes

sem recursos, naturalmente dessa parcela da população poderão emergir profissionais de

destaque, pois o ser humano é capaz, independentemente de sua classe social e origem. O

empresário, porém, deve ser contemplado com vantagens econômicas, na forma de

incentivos fiscais, uma vez que, concomitantemente com sua atividade econômica, estará

desempenhando importante papel social, inerente ao Estado.

• Dado o elevado volume de recursos aplicados no esporte, pelo entusiasmo e mobilização

que cria na população, os mecanismos de fiscalização devem ser revistos, a fim de não

ferir a autonomia desportiva, constitucionalmente garantida.

Só com a adoção de um novo regime jurídico próprio, a par da legislação geral

sobre desporto e societária já existentes, destinado a adaptar-se às peculiares situações que

caracterizam esse importante ramo da cultura brasileira, poderemos migrar do modelo

associativo, hoje em franca decadência, para o modelo empresarial, que vige e se destaca no

cenário mundial. A adaptação de instituições arraigadas na cultura brasileira às leis sobre

sociedades mercantis já existentes fatalmente proporcionará ilegalidades, contestações

jurídicas, questionamentos sobre a constitucionalidade das medidas e instabilidade social.


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