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CONVÉM QUE ELE CRESÇA E QUE EU DIMINUA (Jo 3.

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Vivemos tempos de valorização da imagem, de endeusamento da figura, de busca da


visibilidade, de celebridades instantâneas – e certamente a Igreja evangélica não está isenta
dessas influências. A espetacularização eclesiástica, onde a liturgia (ou a sua ausência) tem
se transformado em reality show, promove a exaltação de figuras humanas que saibam se
afirmar no centro das atenções, na maioria das vezes à custa do bom senso e do
compromisso com a ética do reino de Deus. Nessa feira de vaidades, o segredo do sucesso é
vender bem a imagem, ainda que ela não revele tudo que se é. Uma boa embalagem e uma
propaganda bem feita suprem as lacunas deixadas por um conteúdo medíocre – ou falso.

Debaixo dessa perspectiva, cresce o número de igrejas, ministérios e movimentos


encabeçados por indivíduos que afirmam ter recebido um comissionamento peculiar de Deus.
A multiplicação dos apóstolos e portadores de títulos afins no meio chamado evangélico é um
fenômeno que não causa mais surpresa. Cada um deles, segundo sua própria ótica, foi
especialmente chamado por Deus para uma missão voltada para os últimos dias. E, de
acordo com seus próprios depoimentos, conhecidos através de literatura ou meio eletrônico,
seu chamado é sempre cercado de sinais miraculosos – evidência de sua incontestabilidade e
fonte de autoridade para o exercício da sua missão. Não é difícil constatar que a intenção de
cada novo título que surge é lograr proeminência sobre o anterior, numa escalada sem a
mínima base bíblica, chegando às raias da insensatez e da bizarrice.

A letra da canção O Evangelho, gravada pelo Grupo Logos (CD CONTEÚDO, 1996), inicia com
os versos: “Eu sinto um verdadeiro espanto no meu coração/em constatar que o evangelho
já mudou./Quem ontem era servo agora acha-se senhor/e diz a Deus como ele tem que
ser...”. Esses versos retratam bem a mudança de mentalidade existente em nossos tempos.
Ser um servo de Deus hoje tem se tornado, cada vez mais, sinônimo de seu antônimo.

Não somente líderes, mas igrejas e denominações têm sucumbido ao desejo de


autoglorificação. Cremos que a Igreja contemporânea faria bem se, ao invés de grandes
títulos, buscasse engrandecer o Nome daquele a quem temos que anunciar, como arautos
enviados ao mundo, a exemplo de João Batista (Jo 1.6-9). É fato incontestável de que João
foi único como ser humano e como servo de Deus, bem como único em sua missão. No
entanto, percebemos que há valores e princípios em sua vida e em seu serviço que
encontram aplicação para todos os cristãos, em todas as épocas e lugares, especialmente
aqueles que têm um chamado ministerial.

Uma característica desse tipo de liderança que se opõe totalmente à prática de João é fazer
questão de propalar a forma miraculosa como se deu o seu chamado, os sinais do seu
pretenso apostolado, seus dons e os milagres que operam. João nunca se referiu sequer ao
fato de ser o único homem que já nasceu cheio do Espírito Santo (Lc 1.15)! Mas hoje parece
haver uma necessidade de impressionar os homens, e muitos líderes e pastores optam pela
autopromoção.

João reconhecia que seu valor como servo deveria ser atribuído por Deus, e que esse valor
era determinado pela sua relação com Cristo. Ele conhecia sua identidade e sua missão, e
sabia que ambas estavam diretamente ligadas à pessoa de Jesus. Nós também não somos
nada à parte de Jesus Cristo. Nossa identidade é aquilo que somos em Cristo: servos,
discípulos, amigos, novas criaturas, salvos, chamados e adotados por Deus, santificados,
amados pelo Pai, selados pelo Espírito, e assim por diante. Nisso está o sentido e a
segurança da vida de cada um de nós. Nosso valor não reside no que fazemos para Deus,
mas naquilo que ele fez por nós em Cristo.

João Batista não significava nada sem Jesus, e sabia disso. Aprendamos que nossa
identidade e nossa missão só existem por causa de Cristo, e que em nossa relação com ele
está o nosso valor. Ao exaltar a pessoa de Cristo em nossa vida e ministério, afirmamos o
sentido de nossa própria existência.

Rev Roberto Mouzinho Ferreira