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NA MEMÓRIA DO SAPATEIRO, UMA HISTÓRIA SE RESCONSTRÓI:

Classe e Sindicato em Novo Hamburgo (1974-1979)1

Evandro Machado Luciano

Mestrando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

lucianomachadoevandro@gmail.com

RESUMO: Classe trabalhadora e sindicalismo são binômios pouco estudados na historiografia


brasileira. Contudo, menores ainda são as produções relativas ao movimento operário na segunda
metade da ditadura civil-militar brasileira. Este estudo busca compreender um pouco melhor como se
dava a relação entre a classe os sindicatos entre os anos de 1974 e 1979, na cidade de Novo Hamburgo.
No intuito de apresentar uma análise mais sistemática, reduz-se a escala de análise para a categoria
dos trabalhadores do calçado e seu respectivo órgão sindical. Através de documentos oficiais,
periódicos e de um depoimento de um sapateiro - respaldado pela metodologia da História Oral -
entende-se que este estudo se acentua no âmbito das novas produções sobre memória e história na
segunda metade dos 1970. Parte deste texto foi apresentado e defendido em minha monografia,
contudo, documentos recentemente utilizados na pesquisa foram incorporados, a bibliografia revisada
para os fins deste texto.

PALAVRAS-CHAVE: Classe. Sindicalismo. Ditadura civil-militar. História. Memória.

ABSTRACT: Working class and unionism are binomial with very studies about him in brasilian
historiography. However, there aren’t so much papers about the worker moviment in second half of
the civil-military dictatorship on Brazil. This article pretends understand some better how the class,
union and the State related among them, between the years 1974 and 1979, in Novo Hamburgo. On
intention of to show a systematic analysis, the analysis scale was reduced for the shoesworkers
category and them respectives unions. Through oficials documents, journals, and a shoesworkes
testimony – supported by the Oral History methodology – it considers that this study accents in new
produtions’s scope about memory and history on the second half of the years 1970.

KEY-WORDS: Class. Unionism. Civil-military dictatorship. Oral History. Memory.

1
Parte deste texto é uma adaptação do Trabalho de Conclusão de Curso (Monografia) de Luciano (2016). As
alterações em alguns pontos, somam-se aqui, à inserção de novas fontes e bibliografia mais ampla.
INTRODUÇÃO:

A história é um cemitério em que há, sempre, lugar para novas covas. Assim descreveu
Halbwachs (1990) a complexidade da disciplina de História Em compensação a memória é viva, é vivida
diariamente, é mais colorida, mas pode apresentar desvios e rotas criadas a posteriori.

O texto que escrevo aqui trata de um diálogo entre essas duas formas de olhar o passado; a
partir de uma análise prática de como a história e a memória agem no cotidiano do historiador, busco
aplicar pressupostos metodológicos da História Oral, no intuito de compreender um pouco sobre o
que se passou entre a classe trabalhadora e os sindicatos entre os anos de 1974 e 1979, na cidade de
Novo Hamburgo. Como o espaço curto não me permitiria discorrer longamente sobre a classe de forma
mais ampla, reduzi a escala de análise para a categoria de trabalhadores do calçado, e sua respectiva
representação sindical.

Assim sendo, ao longo do texto avalio conceitos-chave para este estudo, bem como, processos
teóricos que embasam cientificamente essa problemática. A fonte principal da narrativa apresentada
é o depoimento de um trabalhador do calçado que vivenciou os processos problematizados e
analisados nessa pesquisa. Lanço mão, concomitantemente, de documentos oficiais, periódicos, e uma
bibliografia calcada na história do movimento operário brasileiro.

De início, considero primordial estabelecer uma reflexão teórica no que concerne ao conceito
central dessa discussão: a classe trabalhadora.

Marx e Engels (2011) escreveram: “A história de toda a humanidade, até os nossos dias, é a
história da luta de classes”. A apocalíptica afirmação gerou uma infinidade de interpretações, que
durante muitos anos, influenciaram produções reducionistas no debate da história da classe operária
pelo mundo. Não pretendo estafar o leitor, relembrando essas produções - até porque, não interessa
a este artigo. Basta deixar claro, de antemão, que a produção marxiana sobre classe, serviu por muito
tempo, como base para o pensamento historiográfico no que concerne ao estudo do movimento
operário. Entretanto, o revolucionário estudo de Thompson (1987; 2012) apresentou ao mundo uma
nova forma de compreender a formação da classe operária. A partir da produção literária desse autor,
a literatura com base em Marx, passou a sofrer as consequências da dialética.
De todo modo, para o estudo que apresento aqui, a perspectiva thompsoniana acerca da classe
se mostra mais contundente. Tomarei como horizonte essa conceituação, conquanto se compreenda
que ela não servirá para comprovar ou refutar alguma tese sobre a formação do proletariado
hamburguense. Os processos de formação de classe são longos, e o intento deste trabalho, nem de
longe, poderia ser suficiente para problematizar esta questão.

O que Thompson (1987) apresentou em seu texto clássico, no que concerne à conceituação de
classe, foi resumido por Batalha (2006, p.163) como “[...] um processo mais ou menos demorado, cujos
resultados podem ser verificados na medida em que concepções, ações, instituições coletivas de
classe, tornam-se uma realidade”. Nestes termos, apresenta-se aqui uma terminologia que não
encerra em si uma visão unilateral baseada na produtividade. A formação da classe é mais complexa
do que uma união baseada na produção em comum. Assim como os operários ingleses não foram “os
filhos primogênitos da revolução industrial [SIC]” (THOMPSON, 1987b, p.71) – pois havia um processo
de formação anterior à introdução das máquinas – não podemos considerar que a classe operária no
brasil se formou de uma hora para outra, com o simples adendo da produção industrial.

O que o autor inglês afirma em sua tese, é que a classe é um acontecimento histórico. Assim
sendo, analisar separadamente um grupo restrito, estabilizado numa delimitação cronológica
específica, não contempla uma análise da classe, como um todo. Minha ponderação, nesse sentido, é
de estabelecer uma conexão entre o pensamento thompsoniano e o estudo que apresento aqui: não
busco, através deste artigo, analisar a classe como um todo, mas apresentar elementos que
possibilitem o estudo desse grupo.

Uma desses elementos, está calcado na discussão teórica sobre o que estudar. E é a partir
desta discussão que inicio este artigo.

HISTÓRIA E OS MUNDOS DO TRABALHO: UM DEBATE HISTORIOGRÁFICO

Existe um debate no âmbito da história do movimento operário no Brasil, sobre o ponto de


vista do historiador com relação às organizações operárias versus classe operária.

Conforme Batalha (1997, p. 91):


No campo de estudos do movimento operário, há muito que foi incorporada
a perspectiva crítica de que o historiador deve priorizar o trabalhador comum
aos militantes ou aos dirigentes, a classe às instituições [...]. Se esse novo
enfoque permitiu escapar de uma historiografia reducionista e legitimadora
da atuação e das ideias da militância, é preciso recolocá-la em novos termos.
Evitar o equívoco de confundir a classe operária com suas instituições e o
conjunto dos trabalhadores com os militantes não pode significar deixar de
lado o estudo dos dirigentes, dos militantes e nem das instituições operárias.

O que Batalha (1997) se propõe a discutir é o objeto de pesquisa da história operária. Antes
de seguir adiante nesse debate, apresenta-se outra visão – não oposta, mas complementar:

As análises historiográficas da produção sobre a classe operária brasileira [...]


acentuam frequentemente uma transformação ocorrida na década de 1980:
de um interesse prioritário pelas manifestações organizadas e pelas ideias
políticas formalizadas teria se passado para uma ênfase na cultura, na vida
quotidiana e nas visões de mundo difusas e informais [...]. Parece-me,
contudo, e não se trata de uma crítica, apenas de uma constatação, que a
maioria dos estudos voltados à história operária no Rio Grande do Sul não
acompanhou, ou ao menos não totalmente, tal transformação. Nas nossas
investigações a atenção continuou recaindo predominantemente sobre o
movimento operário, suas formas de ação e de expressão (SCHMIDT, 2011,
p. 151).

Apresentam-se aqui duas visões sobre a historiografia especializada no proletariado brasileiro,


que valem uma pausa para breve análise. No entender de ambos os autores, ao findar da década de
1980, a história operária brasileira distanciou-se de narrar e problematizar acontecimentos e
processos históricos que envolviam organizações operárias, militantes e partidos políticos formados
por trabalhadores – ou em prol destes – e passou a analisar questões do cotidiano, da cultura, e da
classe operária. Para Batalha (1997) esse agravante configura um problema para os estudos da
temática. Sua análise visa a importância de organizações operárias, sejam elas sindicatos, associações
beneficentes, mutualistas, círculos operários, etc. Em sua visão, não é possível ter uma compreensão
do todo, se olharmos apenas para o ambiente fora das fábricas e das instituições. Longe de defender
uma História institucional, sua preocupação é de que as histórias de vida de trabalhadores militantes
não se percam, bem como a importância dessas organizações para o a história do país.

Em contrapartida, Schmidt (2011) levanta outra questão: a de que o Rio Grande do Sul não
acompanhou, efetivamente, essa mudança na historiografia brasileira pós-1980. E dessa visão, exposta
no excerto supra, depreende-se que o movimento operário, tanto quanto a classe operária, são
passíveis de um estudo aprofundado, que compreenda a interligação entre ambos. As organizações
operárias e o estudo do cotidiano fora das fábricas, em consonância, podem nos possibilitar uma
compreensão mais ampla do proletariado brasileiro no século XX e no anterior. Noutros termos, “[...]
se a história institucional não pode ser isolada da ação dos sujeitos, a recíproca é verdadeira”
(PETERSEN, 1997, p. 76). Entretanto, é preciso “desmitologizar” (PETERSEN, 1997) o espaço
institucional de organização operária. Assim como na crítica feita por Hall e Pinheiro (1985), entende-
se aqui, que não se deve buscar nas organizações operárias uma teoria explicativa de fracassos ou
vitórias do proletariado, que muitas vezes foi denominado como incompetente de suas funções
revolucionárias.

Sob essa perspectiva, entendo que o estudo do operariado brasileiro sob a ótica da História,
deve englobar, como objeto, tanto a classe quanto os sindicatos - estes como objeto ou como
elemento importante na articulação da classe.

Para além disso, há um ponto que justifica necessidade de estudos com essa temática, e que
se encontra no âmbito nacional.

Há muito tempo historiadores preocupados com a história do movimento operário no Brasil


apontam para a necessidade de pesquisas que envolvam o operariado brasileiro numa localização
espacial fora do eixo Rio-São Paulo2. Não obstante, trabalhos de grande respaldo no ambiente
acadêmico, provenientes destes estados, são imprescindíveis no que tange ao estudo historiográfico
nesta temática. Para citar apenas alguns dos trabalhos mais clássicos, lembro os nomes de Batalha
(1991/92; 1999; 2000), Hall e Pinheiro (1985) e Decca (1997). O que se propõe no debate da ampliação
geográfica da discussão sobre o estudo da história da classe operária, é a visão de que a regionalização
de conceitos referentes ao operariado, pode levar a uma generalização que não compreende as
diferenças entre relações sociais existentes em cada região, distintas entre si, em muitos casos. A
necessidade de abrir um leque de discussões concernentes à temática do movimento operário em
outros locais se mostrou mais urgente no período inicial deste século3.

O trabalho realizado por Petersen (2009) apresentou um grande avanço no estudo


historiográfico, ao compilar em uma bibliografia abrangente os diversos estudos sobre o proletariado
brasileiro em outros locais do país. Essa descentralização proporciona uma visão mais aprofundada da

2
Um exemplo se encontra no debate proposto por Petersen (2009).
3
É bem verdade que em recente texto, Batalha (2006) argumenta que já há um aumento na descentralização de
estudos sobre a história do movimento operário, mas compreendo que ainda existem novas abordagens e novos
olhares que podem ser apresentados.
importância que associações, sindicatos, uniões, e organizações operárias em geral, tiveram na
trajetória de nosso país. As características do operariado de cada região diferem entre si, e para que
possam ser respeitadas como tal, é preciso que haja uma produção diversificada, englobando as
nuances de cada estado do Brasil.

Por outro lado, uma história operária que tenha por base uma “construção regional” pode
impossibilitar a compreensão de significados no âmbito nacional. Por isso a necessidade de uma inter-
relação de pesquisas é necessária, para que a compreensão de pesos relativos a cada região seja
estabelecida4.

No Rio Grande do Sul, de acordo com Petersen (2009), 394 trabalhos (entre eles: teses,
dissertações, livros, monografias, etc.) tendo o operariado gaúcho como objeto de pesquisa, foram
realizados entre 1970 e 2006. É uma quantia generosa, visto que outros estados não chegam a
contabilizar uma centena cada um, excluindo-se o eixo Rio-São Paulo. Ainda assim, uma outra
problemática pode ser levantada.

A grande maioria dos trabalhos do Rio Grande do Sul levantados por Petersen, dá conta de
esmiuçar o operariado de três cidades: Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Não por acaso estas cidades
são notáveis pelo alto índice de industrialização no século XX. É preciso que outros trabalhos envolvam
as organizações de trabalhadores urbanos, bem como o cotidiano e as relações sociais entres estes,
em outros ambientes fora dos grandes centros, consagrados pela historiografia recente como lócus
privilegiado para a formação do proletariado, por ter um grande contingente de trabalhadores5. Ao
deslocar estes estudos, a historiografia fornece subsídios para que se possa estabelecer relações entre
estas regiões e compreender a formação e atuação do operariado gaúcho de modo mais denso,
tamanha complexidade de existência.

Desse modo, quando apresento minha intenção em focar na cidade de Novo Hamburgo, ela
não se justifica apenas por uma questão regional – ainda que seja importante – mas também, por que
entendo que essa localidade se acentua pela relevância no cenário capitalista internacional, de acordo
com trabalhos recentes (MARTINS, 2011).

A cidade de Novo Hamburgo é conhecida nacionalmente como a Capital Nacional do Calçado.


O setor coureiro-calçadista foi objeto de inúmeras pesquisas no início do milênio, e todas com sua

4
Sobre a necessidade de inter-relação de trabalhos regionais, ver Petersen (1997).
5
Sobre a crítica dessa historiografia regional, ver Schmidt (2011).
importância ímpar6. Contudo, poucas obras dão conta de problematizar a atuação dos trabalhadores
hamburguenses7. Entende-se que o projeto apresentado aqui tem condições de contribuir nessa
construção historiográfica, apresentando um estudo específico da cidade de Novo Hamburgo, mas que
não se finda nesta delimitação territorial, posto que se apresenta articulado a outros estudos, de
outras regiões.

Além disso, sabe-se que há uma grande gama de trabalhos analisando a atuação de
trabalhadores brasileiros na Primeira República. Rapidamente, trabalhos como o de Batalha (1991;
2000; 2006) no que diz respeito à formação da classe, Luca (1980) com relação ao período mutualista,
e Schmidt (1999; 2005) no que concerne às greves e ao socialismo nesse período, se tornaram
relevantes para a compreensão das organizações da classe trabalhadora em seu período.

No que diz respeito ao período varguista, considero que trabalhos de muita qualidade foram
publicados. Sem dúvida alguma, o estudo de Fortes (2004) foi impactante ao apresentar em sua
narrativa, uma classe trabalhadora ciente dos processos políticos, e ativa no que concerne às decisões
no âmbito social. O desenvolvimento de sua tese de doutorado permite uma análise diferenciada
sobre a classe, haja visto que nesse período – momento de vinculação dos sindicatos ao governo de
Vargas – os trabalhadores e os sindicatos eram considerados nulos, no que tange às decisões políticas.

Fortes (2004) conseguiu demonstrar que há sempre uma nova forma de abordar os processos
e acontecimentos passados. Para ele, se já existem muitos trabalhos acerca das mudanças ocorridas
na Era Vargas, “do ponto de vista macrossocial”, pouco se sabe “sobre o modo como essas mudanças
foram processadas em termos de experiência e cultura de classe” (FORTES, 2004, p.22).

Entretanto, ainda que importantes trabalhos, que investigam o período da ditadura civil-
militar, tenham sido publicados recentemente8, a historiografia necessita de uma produção mais
específica, voltada à relação entre os sindicatos, a classe trabalhadora, o Estado e as empresas, na
segunda metade da década de 1970. Permanece, no pensamento comum, a ideia de que os sindicatos,

6
Ver Schemes et. al, (2005).
7
O trabalho clássico de Saul (1983) é um dos poucos estudos de peso historiográfico dessa região. Ver também o
recente estudo sobre a classe trabalhadora na cidade durante os anos 1970, realizado por Luciano (2016).
8
O trabalho desenvolvido por Negro (2001) se acentua no âmbito das produções que privilegiam o estudo do
movimento operário, no período do regime iniciado com o golpe de 1964. Speranza (2007) realizou um estudo
importante, ressaltando o movimento na Empresa Jornalística Caldas Júnior. Ver ainda, o estudo dos movimentos
culturais e de lazer dos trabalhadores cearenses em Santos (2014).
após o período de perseguição inicial da ditadura civil-militar, se envolveram num manto de apatia
política, e que a classe não dialogou com suas instituições.

Assim como foi escrito por Fortes (2004, p. 431), não se pode considerar a classe trabalhadora
como “uma massa amorfa manipulada”. Tampouco é possível dizer que na segunda metade dos anos
1970 a classe se tornou politizada e buscou a derrubada da ditadura. Os processos de amadurecimento
da consciência de classe são longos e demorados, e não dizem respeito apenas ao modelo macro-
político estabelecido em determinado período; outrossim, é de fundamental expressividade,
compreender como a classe utilizou dos mecanismos postos, para se beneficiar, e deslizar no plano
das mudanças sociais possíveis. Não é possível desvelar esses processos, sem que existam minuciosos
estudos, resolvendo antigos imbróglios historiográficos.

Entendo que o enfoque no período 1974-1979 – delimitação cronológica para este artigo - é
de suma importância para a construção de uma historiografia preocupada em compreender a
caminhada da classe trabalhadora no Brasil. O recorte cronológico, para além da motivação
explicitada, foi estabelecido por se encontrar num processo macroeconômico, desenvolvido no país
naquele momento, e que atingiu a cidade de Novo Hamburgo em seu âmago. Nesse contexto, a cidade
passou por um crescimento industrial baseado numa política de exportação - momento em que ocorre
o denominado boom do calçado. Esse processo gerou um aumento populacional sem precedentes, de
acordo com o estudo realizado por Luciano (2016). Apesar das inúmeras investigações sobre o
crescimento econômico da cidade, bem como sobre a ótica do crescimento empresarial, poucos
avanços foram apresentados com relação ao estudo dos trabalhadores dessa região.

De certo modo, o texto que apresento aqui, busca se inserir nesse ínterim pouco analisado
ainda pela historiografia. Portanto, pego emprestada a metodologia da História Oral, para analisar a
fala de um dos milhares de trabalhadores do calçado, que durante o período que estudo aqui,
colaboraram na construção de uma cidade, ao mesmo tempo em que produziam calçados.

MEMÓRIA: A LEMBRANÇA DE UM SAPATEIRO

Com 19 anos, Carlos Gilberto Koch (Betinho) se casou. Era o ano de 1974, e a situação
econômica da cidade de Novo Hamburgo era inspiradora. O crescimento da produção industrial de
calçado tinha superado as expectativas, e o processo de construção de uma lógica de exportação na
cidade, teve êxito. A partir desse ano, houve um decréscimo acentuado de fábricas, e uma elevação
no número de trabalhadores do calçado9. O boom do calçado conhecia sua apoteose.

O colaborador deste trabalho, Carlos Gilberto Koch (Betinho), percorreu esse processo de
expansão da produção calçadista em Novo Hamburgo. Seu depoimento, cronologicamente bem
organizado, me permite tecer alguns comentários sobre a categoria dos trabalhadores do calçado em
nessa cidade.

Com doze anos, Betinho iniciou no mundo do trabalho. Sua primeira tarefa era a de colaborar
na produção de calçados numa pequena fabriqueta de calçados, no bairro Santo Afonso (zona sul da
cidade). Nada mais do que uma pequena oficina em que trabalhavam 4 ou 5 funcionários – a maioria
ligada à família do dono, homem mais velho e com o posicionamento de artesão da oficina. Segundo
Koch, ali eram produzidas “[...] sandália feminina, bem simples, e chuteira para futebol”. De acordo
com a cronologia traçada pelo colaborador, esse período corresponde ao final dos anos de 1960.

Já em 1970, Betinho iniciou o trabalho em sua primeira fábrica com envergadura industrial.
Iniciou seu trabalho lá, por que:

[...] minha tia era costureira, aí deu uma vaga e eu fui pra lá. Trabalhei 3 anos
com ele, aí a fábrica teve problema, fechou. Mas ele pagou todo mundo. Nós
éramos, na época cerca de 25, 30 funcionários, pouca gente[...] Eu levava
todo dia o almoço pra ela, até que eu comecei a trabalhar lá também.
Trabalhei lá 3 anos e 6 meses, aí como a fábrica teve problemas... E era uma
fábrica que ela fazia... sapatilhas, pantufas, com pelo envolta, pro inverno.
Essa era a grande marca, e no verão era sandália, sandalinhas simples. Mas
vendia bastante.

Ao trabalhar nessa pequena fábrica, no centro de Novo Hamburgo, Betinho ganhava o


suficiente para se manter e contribuir na renda familiar, porque, segundo ele, “eram momentos
difíceis”. Seu pai trabalhava em uma olaria na zona sul da cidade, nos períodos em que os trabalhos
com a construção civil não eram suficientes para a manutenção dos materiais para a família.

A firma Soares & Dias, a primeira de médio porte em que Betinho trabalhou, passou por um
processo muito difícil em 1973, e acabou falindo. Nesse momento, ao analisarmos o cenário
macroeconômico da região, é possível ver que uma grande quantidade de fábricas fecharam, por não

9
Em 1974, havia na cidade 150 fábricas de calçado, sendo que quatro anos antes, o número chegava a 235. Com
relação ao número de trabalhadores, houve um aumento importante na segunda década, que influenciou a
aglomeração de operários por fábrica, chegando a contabilizar uma média de 130 operários por estabelecimento
fabril (LUCIANO, 2016).
conseguirem se adaptar ao modelo de exportação, estabelecido pela política desenvolvimentista da
ditadura civil-militar.

A solução encontrada por Betinho para manter-se, foi iniciar seus dias de trabalho na empresa
Superly Garoty. Uma das grandes empresas da cidade, que congregavam uma quantia de quase mil
pessoas, em todas as suas filiais, espalhadas pelo Vale do Rio dos Sinos. Foram quatro anos de trabalho
nessa empresa, segundo o colaborador. Depois, trabalhou em outras empresas pequenas, grandes, e
foi transitando entre diferentes estabelecimentos, até chegar ao Sindicato dos Trabalhadores do
Calçado, já nos anos 1980.

A narrativa criada por Carlos Koch é muito organizada e nos permite problematizar diversas
questões. Entretanto, entendo que, nesse curto espaço de discussão, me cabe problematizar duas
passagens centrais da fala de Betinho.

Mas na ditadura, não tinha movimento operário, imagina! Por exemplo


assim, as grandes greves, grandes movimentos, eles se dão a partir dos anos
80, as grandes greves. Antes disso, não tinha. Por exemplo, em 88, quando
já presidente Milton Rosa, parou quase 20 mil trabalhadores sapateiros em
Novo Hamburgo. Metalúrgico, cinco mil, pararam. Então tinha essa
organização. E até tem história, quadros, fotos, no sindicato dos sapateiros,
dessa maior greve que teve em Novo Hamburgo, teve até polícia batendo
nos trabalhadores. Mas essas mudanças vem no início dos anos 80, a criação
do Partido dos Trabalhadores, o próprio PCdoB... Por que Novo Hamburgo
sempre foi... até hoje é uma cidade muito difícil de trabalhar ela.

Neste excerto fica muito claro um posicionamento ideológico, aliado a uma distorção de
lembranças. A memória costuma pregar peças, e o esquecimento é fruto destes deslizes que a mente
promove. Contudo, algumas memórias são selecionadas.

De acordo com o que pensa Pollak (1992), a memória é organizada numa lógica voltada à
disputa pela memória nacional. Na prática, é possível enxergar essa linha teórica na narrativa contada
pelo colaborador. Segundo Koch, não era possível a existência de movimento operário no período da
ditadura. Obviamente, a história pós-democratização, tratou de solidificar esse pensamento, e que
induz até os dias de hoje, a uma análise dos movimentos operários como passivos. Assim sendo, de
acordo com o depoente, não havia força sindical relevante no período anterior a sua entrada no
sindicato dos sapateiros – que ocorreu já nos anos 1980. Se lembrarmos bem das palavras de
Halbwachs (1990, p.71) perceberemos que “a lembrança é [...] uma reconstrução do passado com
ajuda de dados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas
anteriores, e de onde a imagem de outrora já se manifestou bem alterada”. Portanto, não se trata de
esconder ou desejar não contar, unicamente. Excluir totalmente a hipótese de existência de
movimento operário organizado entre 1974 e 1979, para nosso colaborador, trata-se de um apelo
involuntário à seleção ideológica da memória, aliado à reconstrução da lembrança, fragmentada, e
balizada sob aspectos de outras épocas.

Somado a isso, pode-se apresentar uma outra questão que diz respeito à fala de Koch, e sua
visão do passado. Para ele, não existia movimento operário, por este se tratar, unicamente, de
mobilização massificada, e de grandes greves. Essa visão é, também, fruto de uma conceituação
marxista tradicional da consciência de classe revolucionária.

O fato de não existirem greves na segunda metade dos anos de 1970 – ainda que fosse um
momento de explosão grevista em outras regiões industriais do país - não está atrelado ao fato de
inexistir movimento operário. Isso porque, para o trabalhador industrial, não era necessário que um
governo popular se estabelecesse, ou que a ditadura fosse dissolvida. Em verdade, boa parte dos
trabalhadores não enxergava problemas econômicos, como sendo oriundos do sistema político. Isso
fica muito evidente quando folheamos as páginas dos periódicos dessa época.

Em 1974, o Jornal NH, periódico diário da cidade de Novo Hamburgo, fez uma entrevista com
algumas mulheres, denominadas na matéria de “donas-de-casa”. Questionando-as sobre a escassez
de alimentos e o alto preço dos produtos nos mercados. Uma das respostas está reproduzida no
excerto abaixo:

O que eles [comerciantes] mereciam era uma boa cadeia, para aprenderem
a ser honestos. [...] O governo tem de abrir o olho, por que já estão dizendo
por aí que vai faltar arroz e açúcar e, garanto que já tem muito espertalhão
por aí cobrando por um quilo o preço de um saco. Tenho nojo de gente que
explora o povo10.

Pode-se depreender desse depoimento, que havia uma orquestra preocupada em manter a
sinfonia organizada de tal modo, que todo e qualquer problema social, recaísse sobre a iniciativa
privada. O projeto de manutenção da ordem pela ditadura, era efetivado sob a ótica de um discurso
bem elaborado, e que raramente poderia sofrer atritos com o pensamento do trabalhador. Para esta
dona de casa, o problema do alto preço dos alimentos, não estava localizado na incapacidade de

10
JORNAL NH. “É caso de polícia”. 26/04/1974, p.10
gestão do regime existente na época, mas sim, dos comerciantes, pertencentes à mesma classe que a
depoente.

Não basta, portanto, afirmar que não havia movimento operário organizado na cidade, por
que não havia movimentação grevista. É possível encontrar no mesmo periódico, informações que nos
induzem a pensar sob outras perspectivas.

Anualmente, o Jornal NH noticiou as negociações entre os sindicatos patronais e os sindicatos


de trabalhadores em Novo Hamburgo. No que diz respeito aos sapateiros, por conta da grande
expansão do calçado na cidade, eram os mais noticiados pelo periódico. Em 1977, por exemplo, o
jornal noticiava um dissídio de 43%, dois anos antes, um dissídio de 16%, e assim por diante. Percebe-
se, diante disto, uma constante negociação burocrática realizada pelo sindicato. Obviamente não é
possível encontrar uma massa de trabalhadores organizados para reivindicar aumento salarial através
de paralização. Mas isso não impedia o sindicato de atuar juridicamente. Em 1974, o então presidente
do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Calçados de Novo Hamburgo (Sindicato dos
Sapateiros), Orlando Müller, informou que o aumento naquele ano, de 18%, não era o “que se
necessita, porém, o Sindicato [...] tinha opções a fazer. Ou concordava com 18% no acordo, ou 16% no
Tribunal. Preferimos ficar com a primeira hipótese [...] embora saibamos que o aumento deveria ser
na ordem dos 40 ou 50%”11.

Para além disso, seguidamente, o jornal buscava o sindicato para entrevistas sob as mais
diversas temáticas. Em abril de 1974, a imprensa questionava um diretor do Sindicato dos Sapateiros
sobre suas impressões acerca de movimentações de “vagabundos e meretrizes” que frequentavam o
hotel em frente ao sindicato. O jornal apresentava a matéria, dizendo que “os operários que a toda
hora procuraram sua entidade de classe, também observam o movimento no hotel, e comentam a
situação no sindicato”12. Esse tipo de matéria, nos possibilita imaginar uma influência forte que o nome
da instituição provocava nos trabalhadores. Citar o Sindicato era, para o jornal, o respaldo que o
trabalhador precisava para compactuar com a informação que o periódico produzia.

Em entrevista especial para a comemoração do “Dia do Trabalho”, no ano de 1977, o


presidente do Sindicato dos Sapateiros de Novo Hamburgo, já mencionado Orlando Müller, afirmou
que: “[...] estão ocorrendo [pressões políticas]. Mas aqueles que lutam por trás dos bastidores são
covardes”. Questionando sobre o nome dessas pessoas que o pressionavam, Orlando disse: “Depois

11
Jornal NH. 18 % DE AUMENTO PARA SAPATEIROS. 3/04/1974, p. 3.
12
Jornal NH. LÍDER SINDICAL ACREDITA NA MELHORIA DO HOTEL. 19/04/1974, p.17.
do dia 1º de maio, domingo, pode me procurar que eu dou os nomes de quem anda querendo me
prejudicar”13. O jornal não publicou nenhuma matéria sobre esse caso no dia posterior ao Primeiro de
Maio.

Portanto, me parece equivocado, sob a luz da História, concordar com a lembrança do


sapateiro. Não me parece que inexistiu, nesse primeiro passar de olhos sobre as fontes, uma apatia
política por parte dos sindicatos. Ao que os periódicos revelam, pode-se compreender que as
negociações e a movimentação sindical, eram muito sutis, e careciam de movimentações massificadas.
Mas os trabalhadores podiam se organizar também de outras formas.

A pesquisa que se desdobra deste artigo, tem grande interesse em compreender como os
trabalhadores se articulavam e utilizavam dos mecanismos do Estado e do empresariado, para se
beneficiar da melhor forma possível. Neste texto, apresento duas formas importantes para a
organização dos trabalhadores nos anos 1970, que até então, foram pouco analisadas. Uma delas é o
esporte.

O depoente central para este artigo, Carlos Koch, argumenta sobre a importância que o futebol
tinha na época:

E uma das coisas importantes: por que era bom de organizar os


trabalhadores? É que na época tinha o campeonato do Sesi, organizado pelo
Sesi, na época da Ditadura ainda. Como tu não podia se organizar para
reivindicar salário, tu jogava futebol. E o Sesi cumpria esse papel, que é o do
social. Articulado, claro, pela Ditadura. Ele tinha esse papel... Sesi, Fenac... E
aí tinha esse papel muito importante, de jogar futebol, de conhecer os
amigos. Hoje mesmo, vivos, eu encontro trabalhadores da minha época, que
a gente trabalhava juntos... tinha muita unidade. As pessoas conviviam mais
junto, até por falta de um outro espaço. [grifo meu]

De acordo com Torresini (2016), o Sesi cumpria o papel de nutrir os trabalhadores com lazer e
bem-estar. Sem dúvida alguma, esta instituição contribuiu para o entrelaçamento sócio-cultural entre
os trabalhadores de Novo Hamburgo. Na cidade, existiam diversos campeonatos de futebol, que
colocavam trabalhadores de diferentes fábricas em comunhão. A lembrança de “Betinho” é fortuita, e

13
Jornal NH. ENTREVISTA: ORLANDO MÜLLER. 29/04/1977, p.8, 9 e 10.
se alinha aos documentos que a instituição SESI dispõe, ao que o Jornal NH documentou (havia uma
coluna diária sobre os Esportes do SESI) e sobre o que outros estudos mostraram ao longo do país14.

Resta saber em que medida esses campeonatos foram relevantes na organização da classe. É
irônico que uma instituição vinculada ao empresariado brasileiro atuasse para a organização da classe
trabalhadora, mas não é impossível de se pensar nisso. Contudo, não posso afirmar concretamente
que essa teoria está sólida, sob os aparatos científicos da História. O intuito aqui, é o de levantar
hipóteses, que serão averiguadas ao longo do desdobramento desta pesquisa.

Ainda assim, Betinho apresenta outros elementos que são relevantes:

E o pessoal se organizava através do Primeiro de Maio, organizada pela


prefeitura, de vez em quando. Eu lembro uma vez, na Fenac, não me lembro
se foi sessenta e... A fenac foi inaugurada, no prédio que tem hoje em 69,
quando eu tava na escola na Fenac. Em 1969 o Costa e Silva era o presidente
e veio inaugurar a FENAC. Nós fomos ver ele na frente da BR 116,
engomadinhos e fazendo sinal pro presidente. Ele nem olhava pra nós, mas
nós estávamos ali.

Não seria inédito na história do Brasil, se a lembrança de Betinho se comprovasse nos


documentos. A tradição varguista de comemoração do Primeiro de Maio, nesse país, perdurou até
meados dos anos 1990 com muita força, senão nos anos subsequentes, com menor impacto. Contudo,
a distorção que a memória provoca, coloca o depoimento de nosso colaborador em atrito com o que
os documentos mostram. Isto por que, de acordo com as leituras realizadas do Jornal NH, não era a
prefeitura de Novo Hamburgo que realizava as festividades em comemoração ao Dia do Trabalhador
(denominado, na época, dia do trabalho).

Havia, nos dias anteriores à comemoração ao “dia do trabalho”, a denominada “Semana


Sindical”. A prefeitura, ao menos diretamente, não tinha ligação com as organizações de festividades
para o festejo no Primeiro de Maio. O Estado, desse modo, delegava às instituições de classe o papel
de articular os trabalhadores, no intuito de estabelecer uma conexão entre trabalhador e sindicato.
De qualquer modo, esse ambiente festivo favorecia a união da classe. Como bem lembrou Santos
(2014, p.256) - em recente trabalho sobre as festividades na cidade de Camocim, Ceará, “as
comemorações do Primeiro de Maio [...] parecem tomar, além do caráter combativo do movimento

14
Do outro lado do país, Santos (2014) afirma que durante os anos 1970, o SESI atuava em Camocim, Ceará.
Suas atividades eram variadas, e a sede da unidade da cidade, era palco de diferentes atividades esportivas e
culturais.
operário, um lado festivo, o que não quer dizer que, ao assumir esse formato, esteja desprovido de
conteúdo de combate”.

Já, em Novo Hamburgo, para além de uma via festiva, o sindicato dos trabalhadores do calçado
tinha atribuições assistencialistas importantes, que corroborava sua união à categoria. Obviamente
que não se tratava de uma exceção à regra.

No Rio Grande do Sul, na segunda metade dos anos 1970, houve um aumento significativo de
associados a sindicatos da classe trabalhadora. Em 1969, havia uma média estadual de 138 mil
associados a sindicatos. Esse número subiu para 224 mil trabalhadores filiados a alguma entidade
sindical, em 1974 (LUCIANO, 2016). É um número significativo e revelador da situação em que se
encontrava o país em relação aos trabalhadores.

A lógica de que o Estado deve prover a saúde e a educação dos trabalhadores, foi construída
ao longo dos anos, e no período do regime Geisel, não estava solidificada nos meandros da sociedade.
Por assim dizer, o sindicato cumpria o papel que, à luz do pensamento contemporâneo, concebemos
como dever do Estado. Assim sendo, independente de vinculação ou posição política, o trabalhador
precisava de uma boa educação para seus filhos, e de bons planos de saúde para sua família. Essas
providências eram desempenhadas pelos sindicatos. Por isso houve um aumento significativo na
segunda metade dos anos 1970 e um crescimento de representatividade do Sindicato dos Sapateiros
para sua categoria, em Novo Hamburgo.

Aos poucos, pode-se dizer que o Sindicato dos Sapateiros, a categoria profissional de
trabalhadores do calçado, o SESI e a prefeitura municipal, foram se mesclando na amálgama social da
ditadura civil-militar. Trabalhadores buscavam melhoria de condições de vida, instituições ligadas ao
empresariado, buscavam solidez nos negócios, o Estado, buscava a paz social e o sindicato, buscava a
representação do trabalhador. Todos os elementos trabalhando em disputa política.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do artigo, busquei problematizar essa lembrança de vida que Carlos Koch trouxe à
entrevista, sob a ótica da História Oral. Sob a perspectiva de uma história oral temática, híbrida, e que
confronta o lugar comum com metodologia científica. Longe de apresentar soluções frescas para
imbróglios já desgastados pelo tempo, busquei revirar o caldeirão de histórias que a ditadura civil-
militar ainda pode proporcionar, e dentro dessas histórias, o enfoque no proletariado hamburguense.

Para Pollak (1992, p.207), “[...] a História Oral nos obriga a levar ainda mais a sério a crítica das
fontes”. Cito esta referência no debate sobre memória e história, por que entendo que o que se faz
neste texto, tem relação com a solidez que uma produção historiográfica precisa ter, ao analisar a
lembrança. Nem tudo o que se diz em uma entrevista é a verdade. E nem sempre é a verdade que
importa para o historiador. Por vezes, é na omissão, na distorção dos fatos, que conseguirmos analisar
a sociedade passada.

Entendo também, que a lembrança e a documentação oficial, formam um arsenal importante


para o historiador que se detém em estudar o passado recente. Do lado de cá, sigo nesse caminho, em
busca de respostas para, cada vez mais, questionamentos históricos.

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