RESENHA - O que é Direito?

de Roberto Lyra Filho Cotidianamente nos questionamos os conceitos das palavras, tais questionamentos se tornam mais presentes quando galgamos uma graduação. Para o aluno do curso de Ciências Econômicas cabe indagar, antes mesmo de iniciar os estudos sobre direito econômico, a definição de Direito. E foi com o intuito de responder este questionamento, que também presencia a vida acadêmica de graduandos em outros cursos e de cidadãos, sobretudo os que se interessam pela área, que Roberto Lyra Filho, graduado em Letras e Direito, produziu a obra ‘O que é direito?’. Publicado pela primeira vez em 1982, pela editora Brasiliense, São Paulo, trata-se de um livro dividido em cinco partes, curto, de linguagem simples e base ideológica predominantemente socialista. Para fins de exemplificar algumas teorias, há, no decorrer da obra, o uso de imagens de cunho crítico. Direito e Lei A princípio, o autor nos leva a desconstruir a idéia errônea de que direito e lei estão estritamente ligados um ao outro sem que seja possível haver Direito sem lei. Logo, nos mostra que isso se trata, primeiramente, de um problema que advém da língua inglesa, onde Law designa as duas coisas (direito e lei) e por um problema de senso comum. Lyra Filho diz que a lei emana do estado, mas que em análise mais profunda e direta, está ligada as ideologias da classe dominante. Já o Direito, ao mesmo tempo em que nada é tudo é. Isso porque não podemos nos limitar ao que se definem por Direito de maneira limitada levando-nos a crer que lei é seu sinônimo, pois ele é uma forma de liberdade constante que se adapta, ou ao menos deveria se adaptar, às necessidades do todo social da atualidade, não podendo assim se limitar a definições prontas e inquestionáveis. E aqui está a diferença entre a obra em questão e as demais que tentam nos alienar apresentando conceitos ditos imutáveis e inquestionáveis. Mas, mesmo assim, não foge ao pensamento o questionamento sobre o que realmente vem ser apresentado através do livro “O que é Direito?” já que o próprio autor nos diz que este conceito pronto e estritamente correto não existe. Para isso, o que Lyra faz no decorrer da obra é definir o Direito conforme visões distintas, a maioria de cunho socialista - e aqui se apresenta um ponto fraco da obra deixando claro que, por mais próximo que se chegue da essência do Direito, todo conceito não atingirá esta meta. Todavia, nos é apresentado o que é tido como correto pela grande maioria, e para isso, são apresentadas as ideologias jurídicas.

pois não se trata da apresentação de ideologias jurídicas. é exposto que não há um único conceito. ou até mesmo parar a leitura do livro não dando importância ao que vem a partir daqui. ao contrário do que parece. Para fins de análise. onde. a próxima parte do livro detalha sobre as principais ideologias jurídicas. mas sim de uma introdução ao conceito e tipos de ideologias existentes. Para o positivista a ordem é a justiça. ideologia como falsa consciência e ideologia como instituição. negação e/ou reformulação das ideologias jurídicas existentes e das que estão por vir. em Positivismo Historicista/Sociologista . que dá a lei a superioridade. Ideologias Jurídicas Na verdade. são impostas regras. esclarecerá melhor o que pensam os profissionais de Direito. é o que predomina atualmente. O Direito Positivista caracteriza-se pelo predomínio da ordem estabelecida.O que podemos perceber nesse capítulo é que. por um dito consenso geral. em suas ideologias jurídicas. por exemplo. é descrito o conceito de ideologia e. Lyra usa este nome para não levar o leitor a ‘’pular’’ este capítulo. A terceira é aquela estabelecida. A segunda refere-se às evidencias que nos levam a desacreditar no que nos foi dito ou apresentado. E assim como no conceito. e que os vários que existem não excluem uns aos outros. A primeira. Lyra diz o que não o é e talvez por isso sua leitura possa parecer um pouco sem objetividade. que não precisam ser necessariamente as leis. afirmação. estando essas discrepâncias no centro entre o certo e errado. ou seja. podendo sim estar dentre estas idéias as religiosas. servindo cada uma de base para a construção. mas se completam a fim de tornarem-se cada vez mais próximos da verdade absoluta. A fim de nos mostrar o que pensam os juristas. Lyra nos diz que é impossível repassar todas as ideologias jurídicas. nos é dito que também há discrepância entre os juristas quanto ao modo de pensar. trata-se do Direito Positivista e do Direito Iurisnaturalista. As Principais Ideologias Jurídicas Neste tópico. Sinteticamente. Este Direito se subdivide em Positivismo Legalista. novamente. da lei. não está ligada unicamente a religião. Primeiro. e exigido o seguimento do que foi imposto. classificaram-se as ideologias em três grandes grupos: Ideologia como crença. mas que através da apresentação de dois grandes grupos. ao invés de definir o que é Direito. mas ao terminar de ler a obra percebe-se que este é o mais direto dos capítulos do livro. pelos estatutos e legislações. mas sim ao conjunto de idéias que o ser humano adquiriu durante a sua vida.

Teológico. conflito e coação". Começamos a ver que Lyra repete bastante esta teoria de que nada é perfeito. explana ser necessária uma abordagem sociológica do Direito e uma abordagem jurídica da Sociologia. relativo às culturas. Tal teoria defende a manutenção do Estado e é falha. baseado nos princípios religiosos. mas que na verdade o que foge a esses dois grupos vem a ser uma mistura dos dois e não um terceiro com características particulares. Sociologia e Direito Para Roberto Lyra Filho. pois se se trata de uma ordem estabelecida conforme o que o povo já tinha como certo. ou seja. algo controlado. Lyra Filho expõe que. mas que os imperfeitos se completam a fim de tornar-se melhor. mais antigo. É ressaltado aqui pelo autor que há outras ideologias. "mudança. Ressalta ainda que ambos possuem falhas. o autor nos apresenta duas correntes de pensamento: • • "estabilidade. Este por sua vez subdivide-se em: • • • Natural Cosmológico que surgiu e se evoluiu paralelamente ao homem. Considerando a importância do estudo da Sociologia para a compreensão do Direito. ou seja. mas que um completa o outro. apenas praticadas. não tem necessidade de mudá-la. às normas antes da lei. onde a classe dominante imperava e.que recorre ao pré-legislativo. onde a ideologia. segundo Lyra Filho. A Sociologia da Estabilidade explica o fenômeno do Direito como algo que foi construído através de consenso geral refletindo os costumes e regras de um povo que vivia em perfeita harmonia. um dos passos para se chegar a essência do direito é através dos fatos históricos que influenciaram nas ideologias jurídicas. harmonia e consenso". onde há o predomínio da ordem justa. posteriormente sendo levados à criação das instituições de Direito. que não eram escritas. assim tornando um ou outro grupo “fora da lei” já que em nenhum caso os grupos sociais possuem . Já a Sociologia da Mudança explica que não existe apenas um grupo social e que os ideais destes grupos são divergentes e tendem ao conflito. Natural Antropológico. respectivamente. Do outro lado temos o Direito Iurisnaturalista. ‘’surge como uma flor’’. para isso. não há Estado que defenda todas as ideologias ao mesmo tempo. pois considera a não existência de grupos que vão contra a ordem estabelecida antes e depois desta criação de instituições. as quais só permitem mudanças dentro do limite. em Direito Psicológico. o Direito Sociológico e a Sociologia do Direito. pois ocupam o mesmo espaço.

as forças centrífugas. São Paulo: Ática. As forças responsáveis pela manutenção do sistema vigente. é encerrada a obra “O que é Direito” de Roberto Lyra Filho que finalmente. na verdade não há revolução e sim uma forma brusca de conservar. Por fim. abre um parêntese para dizer que nem toda revolta é pacífica e nem toda revolução é violenta e para completar. em revoltas e revoluções que surgem no decorrer dos tempos. composta pelos dominados. Lyra. ou seja. que quando se trata de uma revolução advinda das forças centrípetas. Por outro lado.cada um o seu Estado e isso leva as revoltas e revoluções em todas as esferas e tamanhos. buscam mudanças expressas. 1982. seja ele qual for. diz que as discrepâncias de ideologias entre estes dois grupos tendem a um fim comum: as revoluções e revoltas. se apresenta como positivação da liberdade conscientizada é conquistada nas lutas sociais e formula os princípios supremos da Justiça Social que nelas se desvenda. Assim. também chamadas de forças centrípetas. nos dá uma definição simples. Neste ponto. A Dialética Social do Direito Aqui é exposto que. existe um dialética acerca do Direito. ultrapassando as fronteiras culturais. Lyra. padronizam a ordem vigente e estabelecem um controle através das normas. em suas últimas páginas. em alguns casos mais extremos. direta e clara do que é “Direito.” Referências Bibliográficas: FILHO. Roberto Lyra. tenta começar apresentando um ponto em comum entre todos os países/sociedades do mundo: as forças que buscam a mudança e as forças responsáveis pela manutenção do sistema vigente. O que é Direito? . buscam controlar as mudanças do sistema através de métodos que nem sempre são burocráticos. devido à estrutura sócio-econômica do mundo. O QUE É DIREITO? ROBERTO LYRA FILHO . Para nos explicar de uma forma mais clara. tal dialética. em resumo. Esta dialética existe devido à heterogeneidade dos países e seus respectivos modos de produção. a questão do Direito é algo um pouco maior do que pensávamos até então. o autor.

Porém. em seu sentido correto. como se unir. para combater isso. não segue um modelo fixo. Contudo. havendo ameaças de sanções. É nele que estão as crenças. Porém. IDEOLOGIAS JURÍDICAS Ideologia é uma palavra que permite o emprego de diversos significados. Os Direitos Humanos não só estabelecem o fim da exploração. independentemente delas serem feitas de formas pacíficas ou democráticas. o Direito não é algo exato. Partindo desse princípio. o ministro Francisco Manoel Xavier de Albuquerque tentou instituir essa Declaração acima de qualquer desvio legislativo. ideologia como falsa consciência e ideologia como instituição. direitos reconhecidos por meio de lutas sociais. há leis que não coincidem com a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Devido a isso. Mesmo assim não é impossível determinar sua essência e o defini-lo dentro do mundo histórico e social. organizadas em certo padrão”. até mesmo a de países socialistas. aprofundando o conhecimento sobre as ideias e seus padrões. que são absorvidas pela nossa mente a partir do meio em que vivemos. geralmente. baseando-se no pressuposto de que as leis são imaculadas e indiscutíveis. reuniram-se diferentes abordagens de ideologia em três modelos: ideologia como crença. pela educação e pela posição ocupada na . a base para as considerações é o indivíduo. Entretanto. ideologia passou a significar “uma série de opiniões que não correspondem à realidade”. existe os Direitos Humanos. Na primeira. Esse ponto é positivo para o governo. não nos permitindo analisá-la criticamente. também idealiza a dignidade para todos. descobriram-se deformações do raciocínio. Mas as leis não são imaculadas e. acarretando numa disparidade entre a imagem mental e a realidade. O Brasil é um exemplo e. ideologia como crença. Uma das primeiras definições a serem apresentadas considerava ideologia um “conjunto de ideias duma pessoa ou grupo. atendem a interesses classistas que privilegiam aqueles que comandam o processo econômico. pois impede a massa a se opor. examinar toda e qualquer legislação. existem governos.DIREITO E LEI Direito e lei: duas palavras geralmente associadas e erroneamente confundidas que. Essa ideia mal concebida de Direito e lei serem sinônimos resulta numa limitação de nossa visão sobre a legislação. principalmente os mais autoritários que repelem aversões. formando assim o chamado Direito legal. é necessário. de forma acrítica. Condenando essas ditaduras burocrático-policiais. a estrutura de suas opiniões. opiniões pré-concebidas. De acordo com isso. podem tanto de opor. Da mesma forma que pode sofrer influências conformo for conveniente para o poder em exercício. em muitos países.

Enfim. nos deparamos com a falsa consciência. Marx e Engels não classificam falsa consciência como má-fé. É a partir da falsa consciência que evidências inexistentes viram convicções que guiam nossas opiniões e atitudes. Conforme as ‘rachaduras’ no sistema são mais visíveis. mesmo havendo progressos. No cenário atual. seria justiça. nos deparamos com o “Marxismo. Apesar de muitos autores contestarem essa divisão. o termo mais . Entretanto. os pensamentos ideológicos vão regredindo. para superarmos essas determinações. devemos conscientizá-las. abrindo espaço aos avanços da ciência. Há certas condições sociais que favorecem isso. A ideologia sempre se manifesta como crença. que propôs uma explicação das origens da ideologia. Racistas e machistas são exemplos disso. Dessa forma. devemos trocar a afirmação que só merecemos aquilo que nos foi imposto por devemos receber os resultados do nosso trabalho. todos apresentam em suas ideias características que os classificam dentro de uma dessas concepções. Deslocando-se para as origens. alegando que não se enquadram sem nenhum desses modelos. Outro exemplo aparece nas diferenças sociais. Nisso se baseia a ideologia como instituição. essas condições sociais podem ser observadas na crise econômica que ‘abre os olhos’ de muitas pessoas para as ideologias impostas pela sociedade. serve de base para pensarmos. Porém. Ao chegarmos nesse ponto. ideologia é uma crença falsa que exprime uma deformação inconsciente do que consideramos real. apontando os interesses e conveniências dos que controlam a vida social”. o oposto do que é falsa consciência. pois má-fé é “uma distorção consciente e voluntária”. PRINCIPAIS MODELOS DE IDEOLOGIAS JURÍDICAS Simplificando a imensa variedade de ideologias jurídicas existentes “tomaremos dois modelos básicos”: o direito natural (concepção iurisnaturalista do Direito) e o direito positivo (concepção positivista). Se o iurisnaturalismo fosse reduzido a uma única palavra. mas não é o foco a ser analisado. “as formações ideológicas estariam relacionadas com a divisão de classes. Marx afirma que não somos totalmente determinados e que. A partir disso. pois surgem quando uma crise “torna claros os contrastes entre a realidade e as ideologias”.estrutura social. do mesmo modo que para definir o positivismo. as definições externas criam a ideologia que o sujeito assimila. consideramos a ideologia sendo criada e manifestada na sociedade e posteriormente. na ciência não existe uma verdade absoluta e sim. onde as classes privilegiadas trocam a realidade pelo cenário que lhes é mais favorável e o querem impor as demais pessoas. Mudando algumas concepções. pois como tal. absorvida pelo indivíduo. favorecendo uma e se impondo à outra”. um limite ideal. esse modelo nos limita a seres determinados que simplesmente recebem as influências exteriores.

“O comportamento divergente dos grupos e classes dominados. É assegurada segurança aos cidadãos a partir de que a legislação impõe sanções aos que descumprirem os deveres impostos. Dessa forma. O direito natural. com pretensões ‘românticas’. procura melhorar a legislação a fim de manter a estrutura em ordem. ligado à dominação classista. chegamos ao terceiro grupo. “tudo ficando subordinado ao que ela determina”. a fenomenologia tem como finalidade trabalhar mentalmente “a ordem estabelecida e os métodos de controle social visando extirpar tudo que não seja ‘essência’ da dominação”. O positivismo historicista ou sociologista foca nas formações jurídicas anteriores à lei. Além disso. pois ele atingiu o patamar que está por meios que o próprio estabeleceu. Por isso que o Estado é considerado apenas um porta-voz da classe privilegiada. Retornando à classificação positivista. defende sua visão de Direito e ordem com o simples fato de dominação. Há inúmeras espécies de positivismo. Também sendo um positivismo psicologista. ‘natureza das coisas’. mas aceitas afirmando-se que são costumes essenciais para se manter a ordem social. entre eles destacam-se três: o positivismo legalista. A ordem que é assegurada pelos padrões de conduta. O direito natural cosmológico serve para “justificar uma determinada ordem social estabelecida”. O positivismo legalista baseia-se na lei e a considera soberana. buscado na natureza. o positivismo historicista ou sociologista e o positivismos psicologista. é o Direito completo para os positivistas. utilizando-se de normas não escritas e não organizadas de forma legislativa. Outra questão apresentada pela ideologia positivista é a de segurança jurídica. Considerado o ‘sentimento do direito’. esses costumes não mudam a posição da legislação porque correspondem a ordem das mesmas pessoas (classe dominante) do positivismo legalista (Estado). podemos usar o regime . seus padrões de conduta” são considerados comportamentos antijurídicos e são repreendidos. não tem uma visão crítica e profunda da ordem estabelecida. isto é. Essa expressão deriva de outra. normalmente as pessoas que compõem o governo são integrantes da classe dominante. o positivismo psicologista. o direito natural teológico e o direito natural antropológico. o Direito se apresenta como meio de controle social. o universo físico. As normas são impostas única e exclusivamente pela classe dominante porque o positivismo não considera normas vindas de grupos dominados como elemento jurídico. Pelo contrário. O direito natural cosmológico liga-se ao cosmo. por sua vez. Como exemplo. apresenta-se em três modos: o direito natural cosmológico. Porém.adequado seria ordem. Mas algo que a ideologia positivista não questiona é a ilegitimidade do poder. pois.

poderia ser justificado por ser o pilar econômico de muitas sociedades da época. que seguindo esse raciocínio. que procura a razão. o soberano dita a particularização dos preceitos divino em suas leis humanas” e o povo obedece. reconhecem que não há uma teoria dialética do Direito perfeita. o saber do homem e considera o conhecimento como obra social. Essa polarização obrigatória entre o direito natural e o direito positivo é de certa forma o agente deformador das ideologias jurídicas. havendo algumas participações individuais. o direito natural antropológico. e a sociologia que é mostrada de forma múltipla construindo modelos conforme os traços comuns. Muitos autores. dessa forma não abrangendo a visão histórico-social do Direito. servindo de base para sentenças da justiça alemã. Também existe a Sociologia do Conhecimento. Outro ponto que apresenta falhas é a desunião insistente entre o positivismo e o iurisnaturalismo. entre eles Dujardin e Michel. O iurisnaturalismo tem seu espaço nos momentos de tensão. A Sociologia do Direito estuda a base sociológica de um direito específico enquanto que a Sociologia Jurídica analisa o conjunto geral do Direito. SOCIOLOGIA E DIREITO Concebida por Marx e Engels. A segunda forma é o direito natural teológico. o homem faz e não o que ele pensa. Dessa formaas abordagens históricas e sociológicas se completam criando um apoio recíproco. que “registra o concreto-singular”. ele reaparecia. Quando a abordagem sociológica é aplicada ao Direito. juridicamente. Após a conquista do poder. o sacerdote abençoa o soberano. A forma de correção para essas distorções é começar a avaliar o que. Na Idade Média. período em que o direito natural teológico prevaleceu. Ele foi usado na Alemanha Ocidental. não achando um ponto em comum entre ambos. que se baseia na lei divina.escravocrata. Apesar de. que pregava a razão e inteligência do homem. Isto é. A contestação burguesa nessa época deu início ao terceiro modelo. existem duas maneiras de se ver isso: “a que origina uma Sociologia Jurídica e a que produz uma Sociologia do Direito”. ele servia de base para as estruturas do regime aristocrático-feudal. durante o nazismo. a primeira poderia equiparar-se a um capítulo da História social ao mesmo tempo em que a segunda pode ser comparada a um capítulo de Sociologia Geral. a Sociologia histórica une a História. pois quando o positivismo estava desgastado. geralmente. A Sociologia Geral (Sociologia Jurídica) aponta duas posições: Sociologia ‘da . elas apresentam abordagens diferentes. as duas expressões serem consideradas sinônimos. os burgueses descartaram o direito natural dando espaço ao pensamento positivista. De acordo com isso haveria uma hierarquia: “Deus manda.

estabilidade. conflito e coação’. divergindo do primeiro. guiados por normas que são divididas em usos. destaca bastante a opressão. pois originam movimentos na sociedade. os padrões de avaliação “das normas dominantes continuam muito vagos”. abranger acomodações e confrontações. os dois modelos tentam afastar o aprofundamento dialético: o primeiro não mostra as evidências de opressão e espoliação como o segundo que omite a espoliação. importantes para a dialética do Direito. folkways e mores em um determinado espaço social. ocupando um espaço social bastante contestado. onde repercute a correlação de forças e ecoa a divisão dos mundos (capitalista. que. por exemplo. harmonia e consenso’ e Sociologia ‘ da mudança. tendo sido originado no auge do capitalismo. mas por se diferenciarem por questões étnicas. costumes. essa superestrutura pode conter contradições. a primeira forma é a resposta de uma burguesia no auge enquanto que o segundo é a tradução das inquietações sentidas pela pequena burguesia. O segundo modelo apresenta um cenário distinto do primeiro: várias pessoas em conflito devido aos diversos costumes. mas. socialista. folkways. harmonia e consenso’ é o mais antigo. as oposições de espoliados e espoliadores. A primeira citada consiste em vários grupos estabelecerem relacionamentos estáveis. religiosas e sexuais. o primeiro modelo de Sociologia encaixa-se na visão positivista enquanto que o segundo modelo adequa-se melhor ao iurisnaturalismo. A organização social é incontestável e o controle social é feito pelo Estado e pelas classes dominantes. na dialética do poder e contestação. que não segregaram por motivos sócio-econômicos ou jurídicos. terceiro mundo)”. Também existem nessa sociedade minorias. O modelo Sociologia da ‘mudança. Relacionando a divisão do Direito. Porém. Apesar das grandes diferenças. entre outros. Importantes também para as dialéticas sociais são a luta de classes. de certa forma. Em síntese. entretanto. . e mores. que modela as suas estruturas conforme as condições sócio-econômicas e “desenvolve as superestruturas peculiares. podem ser consideradas iguais. os dois modelos não se cancelam. por isso Dahrendorf indica que devem ser usados pelos sociólogos juntos. abrangendo a dialética. pois normalmente os representantes do Estado pertencem à classe dominante. não impõe a ela uma solução plausível. Além disso. existem os oprimidos e espoliados que são excluídos do sistema. conflito e coesão’ apareceu quando foi desencadeada a crise social do capitalismo. O modelo Sociologia ‘da estabilidade. A DIALÉTICA SOCIAL DO DIREITO Há uma sociedade internacional. As sociedades nacionais têm uma infraestrutura homogênea e as classes são separadas. ‘nãoalinhado’. resultando no domínio classista. e como tal. com vários blocos disputando a supremacia das normas. Em comum. tal como os Estados podem.

folkways e mores. essa questão das classes origina opressão a grupos. a dialética criou um processo de desorganização. nos deparamos com o socialismo. legais. Todavia.” As instituições dominantes são sustentadas pelo padrão de organização social. citadas no capítulo anterior como Sociologia ‘da estabilidade. As contestações podem ser definidas como reformistas ou revolucionárias.Sobre a base das infraestruturas internacional e nacional. inclusive. a massa se comporta de maneira passiva. Voltando a questão de divisão de classes. da mesma forma que o estabelecimento de algumas leis não influencia na legitimidade do pode. harmonia e consenso’. devido às contestações contra as normas do ramo dominante. resultando em contestações de grupos e classes dominados em desafio às classes dominantes. a passividade popular não legitima uma organização social. que criam na estrutura uma desorganização social. Isso significa que vários ângulos do Direito serão tratados por sociólogos. que destaca as normas ilegítimas e as falhas desse sistema. Não somente na organização social. antropólogos e historiadores. Há critérios para avaliar essas normas. Paralelamente. A classe dominante impõe seus princípios ideológicos sob a falsa alegação de que é o desejo da população em geral. Tanto no regime socialista como no capitalista. Aparentemente. porém em sociedades socialistas subsistem classes. As forças centrípetas. a palavra Direito está sendo empregado “em sentido apenas nominal e nas suas ligações com o processo sociológico”. que se limita a justificar o poder pelo simples fato de dominação. que encaixa-se perfeitamente nos pontos antes citados. conflito e coesão’. propõe outras normas em outros setores da vida social. Opondo-se a organização social. anteriormente citado como Sociologia ‘da mudança. são estabelecidas as forças centrípetas e centrífugas. costumes. socialismo não se relaciona com esse conflito. mas não busca uma mudança nas bases estruturais. as normas jurídicas ocasionam uma série de conflitos dentro da estrutura social. Já o regime comunista não admite divisões classistas. “cujos Direitos Humanos são postergados por normas. Isso pode ser mais bem entendido observando-se o nazi-fascismo. se baseiam em relações sociais uniformes sob a soberania de grupos dominantes que agem conforme os usos. Ao mesmo tempo. Na visão social dialética. só emitindo sua opinião conforme as leis eleitoreiras. O primeiro tipo de contestação baseia-se nos princípios do ramo centrípeto. Enquanto que o segundo visa uma remodelação na estrutura das bases. Já o ramo centrífugo. entre eles. trata-se das “cristalizações de normas de classes e grupos espoliados e oprimidos”. impossibilitando a existência de uma visão distorcida por preconceitos ou privilégios. os .

A Justiça verdadeira não se encontra nas leis. o Direito limita a liberdade para garantir que não afete os outros. . Por sua vez. Outro equívoco de concepção é considerar o Direito limitador da liberdade. Apesar das benevolências sociológicas. são conquistas sociais e históricas. Para finalizar. Inspirado no socialismo. pois são o contrário. “Quando falamos em justiça. apesar de estar um pouco misturada a elas. as declarações dos Direitos Humanos são consideradas inatuais. impor a Justiça. nas lutas sociais que a fez emergir. Ambos excluem dogmas. limitando essas às normas do Estado”. A Moral restringe a nossa liberdade para nos tornar pessoas socialmente melhores. não estamos nos referindo àquela imagem ideológica da Justiça ideal. Como as leis normalmente favorecem as classes privilegiadas. pois ele constitui a liberdade conscientizada e viável.considerados mais plausíveis são baseados no vetor histórico-social. não está nos princípios ideias. Uma grande confusão que se produz a partir disso “é tomar as normas como Direito e. que idealiza a igualdade dos homens perante o Estado. que a classe e grupos dominantes invocam para justificar as normas e leis”. declaração criada como resposta às lutas sociais. entretanto. As normas pretendem concretizar a concepção de Direito. vamos desconstruir a falsa ideia de que o Direito e Moral são o mesmo. depois. essa declaração é a concretização do que denominamos justiça. Mas de qualquer forma. definir o Direito pelas normas. A Justiça real se encontra no processo histórico que a resultou. princípios eternos. emergiu os Direitos Humanos. quer extirpar a exploração capitalista sobre os trabalhadores ou grupos minoritários. pois não acompanham os aspectos conquistados surgidos em lutas sociais posteriores.