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UNIVERSIDADE CIDADE DE SÃO PAULO

PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DIAGNÓSTICA

FRANCISCO ADALBERTO PESSOA DE CARVALHO

ESTUDO DE CASO DE FISSURAS ORIGINADAS NAS


ARGAMASSAS DE ASSENTAMENTO E REVESTIMENTO

NATAL
2016
FRANCISCO ADALBERTO PESSOA DE CARVALHO

ESTUDO DE CASO DE FISSURAS ORIGINADAS NAS


ARGAMASSAS DE ASSENTAMENTO E REVESTIMENTO

Monografia apresentada ao Curso Engenharia


Diagnóstica, Universidade Cidade de São
Paulo, como requisito parcial para obtenção do
título de Especialista.

NATAL
2016
FRANCISCO ADALBERTO PESSOA DE CARVALHO

ESTUDO DE CASO DE FISSURAS ORIGINADAS NAS


ARGAMASSAS DE ASSENTAMENTO E REVESTIMENTO

Monografia apresentada ao Curso Engenharia


Diagnóstica, Universidade Cidade de São
Paulo, como requisito parcial para obtenção do
título de Especialista.

Área de concentração: Engenharia Diagnóstica


Data da apresentação:

Resultado:______________________

BANCA EXAMINADORA:

Prof.
Universidade Cidade de São Paulo ______________________________________

Prof.
Universidade Cidade de São Paulo ______________________________________
Dedico a meus pais, à minha companheira, e
aos meus filhos, parceiros ativos nesta
expressiva conquista da minha vida.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, a quem sempre recorro nos momentos de dificuldade, e com quem
aprendi o valor do agradecimento.
Agradeço a Dona Alice e Tinéu, meus pais, que além de me ensinarem os primeiros
passos, ousaram oferecer a possibilidade de formação acadêmica a seus filhos, migrando para
horizontes desconhecidos, em época onde a educação era questionada como patrimônio.
Aos meus filhos, Pedro Fiel Pereira de Carvalho, Ranulfo Fiel Pereira Pessoa de
Carvalho e Francisco Adalberto Pessoa de Carvalho Segundo, que aprenderam, e me
ensinaram, a viver as dificuldades e vence-las com respeito.
Aos meus enteados Rooswelt de Oliveira Caldas, Isabel Helena de Oliveira Caldas e
Isabel Cristina de Oliveira Caldas, que me ofereceram a oportunidade de praticar a conquista
e o domínio das relações sadias, baseado no tripé do carinho, do amor e do respeito.
Á minha companheira, Neidja Maria de Oliveira, pelo incentivo, compreensão,
carinho, companheirismo, expressos no silêncio inteligente ou na palavra oportuna, nos
momentos de dificuldade que enfrentamos na lida diária.
À minha primeira professora, Dona Dagmar, como ainda me permito lembrar, que
diante de sua importância no início das atividades escolares, não permitiu que minha memória
a esquecesse.
Agradeço também a todos os meus antigos e recentes professores, e aos meus colegas
de sala de aula.
“Acrescentemos alguma coisa a uma qualidade,
e ela parecerá defeito. Tiremos alguma coisa de
um defeito e ele parecerá qualidade”
Émile Faguet
RESUMO

Num tempo em que as construções populares encheram paisagens antes ocupadas por matas e
planícies virgens a alcançar o conforto de uma casa digna com fundações seguras, pisos, paredes
e esquadrias impermeáveis, instalações e coberturas aptas ao uso das pessoas, somou-se a busca
inadequada de lucros à custa da baixa qualidade das unidades produzidas para populações
pobres. Nesse contexto, falhas de projetos, erros e vícios construtivos, formaram um cenário
que anos depois mostraram seus efeitos. No princípio da civilização, os humanos procuraram
refúgios em cavernas, que substituíram por construções toscas, talharam as pedras, formaram
conjuntos de pouca estabilidade, e aí resolveram untar, argamassar os componentes que se
verticalizavam, iniciando a composição das argamassas. Este trabalho prioriza a importância
de identificar e analisar as causas de fissuras, apresentadas como manifestações patológicas
causadas por uso de argamassas inadequadas, tanto na sua formulação como na aplicação,
fornecendo a peritos e assistentes técnicos, ferramentas adequadas para a elaboração de seus
laudos ou relatórios técnicos. Nesse trabalho, o termo fissura será utilizado sem distinção para
todas as aberturas, como trinca, rachadura ou outros termos utilizados. A pesquisa realizada
envolveu uma revisão bibliográfica sobre o aparecimento de fissuras em edificações
residenciais populares, originadas nas reações alcançadas pelas argamassas diante de
intempéries e vícios praticados. Nessa revisão são analisadas as principais causas das
manifestações patológicas, provocados por reações térmicas, higroscópicas, descolamentos,
destacamentos, que se notabilizam em argamassas frágeis, e como essas alterações provocam
fissuras, trazendo incômodos e prejuízos à edificação. O trabalho também apresenta um estudo
de caso, a partir de uma perícia técnica realizada e expressa em laudo judicial, que serviu
inclusive como elemento comparativo com a revisão bibliográfica, gerando conclusões
esclarecedoras sobre causa, e efeito real. O trabalho finaliza mostrando a pertinência da
identificação e conhecimento da causa dos danos, oferecendo ao Juiz subsídios, com o grau de
certeza esperado, para o objeto de valor da justiça, a sentença.

Palavras-chave: Argamassa. Fissura. Manifestação Patológica.


ABSTRACT

At a time when popular buildings filled landscapes previously occupied by forests and virgin
plains to reach the comfort of a decent house with secure foundations, floors, walls and
waterproof casings, facilities and covers suitable for the use of people, added to inadequate
search profits at the expense of the poor quality of the units produced for the poor. In this
context, project failures, mistakes and constructive vices, formed a scenario that years later
showed its effects. In the beginning of civilization, humans have sought refuge in caves, which
replaced for rough constructions, carved stones, formed sets of little stability, and then decided
grease, grout components that verticalizavam, beginning the composition of mortars. This work
emphasizes the importance of identifying and analyzing the causes of cracks, presented as
diseases caused by use of inappropriate mortars, both in its formulation and application,
providing experts and technical assistants, proper tools for the preparation of their reports or
technical reports . In this paper, the term fissure will be used without distinction to all openings
such as cracks, crack or other terms used. The survey involved a full literature review on the
appearance of cracks in popular residential buildings, originated in the reactions reached by
mortars before prevailing weather and addictions. In this review the main causes of diseases are
analyzed, caused by thermal reactions, hygroscopic, detachments, detachments, which are
notable in fragile mortars, and how these changes cause fissures, bringing discomfort and
damage to the building. The work also presents a case study, from a technical expertise held
and expressed in judicial report, which served also as a baseline with the literature review,
generating enlightening conclusions about cause and effect real. The work concludes by
showing the relevance of identification and knowledge of the cause of damage, providing the
Judge grants, with the expected degree of certainty to the justice of value, the sentence.

Keywords: Mortar. Fissure. Manifestation Pathology.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 01 – Desempenho da alvenaria e da argamassa compressão..................................... 17

Figura 02 – Movimentações em laje de cobertura................................................................ 22

Figura 03 – Movimentações em laje de cobertura................................................................ 22

Figura 04 – Movimentações em laje de cobertura................................................................ 23

Figura 05 – Trinca no topo da parede paralela à largura da laje........................................... 23

Figura 06 – Fissuras com abertura regular no topo da parede.............................................. 23

Figura 07 – Trinca vertical causada por movimentações térmicas....................................... 24

Figura 08 – Trinca vertical por falta de aderência na interface argamassa/bloco................. 24

Figura 09 – Trinca horizontal causada por expansão dos tijolos.......................................... 25

Figura 10 – Trinca no concreto causada por expansão dos tijolos....................................... 26

Figura 11 – Fissura vertical no canto do edifício por absorção da umidade........................ 26

Figura 12 – Gradativa destruição do revestimento por umedecimento/secagem................. 27

Figura 13 – Fissura horizontal na base da alvenaria por umidade do solo........................... 27

Figura 14 – Fissura horizontal na base da alvenaria por umidade do solo........................... 28

Figura 15 – Fissura horizontal na base da alvenaria por umidade do solo........................... 28

Figura 16 – Fissura horizontal na base da alvenaria por umidade do solo........................... 29

Figura 17 – Fissuras na alvenaria devida abertura de vãos de janelas.................................. 32

Figura 18 – Fissuras na alvenaria por sobrecarga vertical.................................................... 33

Figura 19 – Recalque provocado em solo geralmente pouco compactado........................... 34

Figura 20 – Fissuras na presença de solo compressível sob a edificação............................. 35

Figura 21 – Fissuras na presença de raízes sob a edificação................................................ 35

Figura 22 – Fissuras e procedimentos de recuperação......................................................... 36


LISTA DE FOTOGRAFIAS

Fotografia 01 – Fissura por movimentação térmica............................................................... 37


Fotografia 02 – Fissura por movimentação higroscópica....................................................... 38
Fotografia 03 – Fissura recalque de fundação........................................................................ 38
Fotografia 04 – Fissura de canto por ausência de amarração das alvenarias.......................... 39
Fotografia 05 – Fissura por ausência de contra verga............................................................. 39
Fotografia 06 – Fissura por esmagamento.............................................................................. 40
Fotografia 07 – Fissura por ausência de verga........................................................................ 40
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Problemas em revestimentos pelo uso de argamassas com saibros.................... 12


Quadro 2 - Fissuras e Procedimentos de Recuperação......................................................... 20
Quadro 3 – Percentual de fissuras encontradas na perícia analisada..................................... 37
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 11
1.1 Objetivos....................................................................................................................... 13
1.2 Justificativa....................................................... ........................................................... 13
1.3 Metodologia....................................................... ........................................................... 14

2. REFERENCIAL TEÓRICO......................................................................................... 15
2.1 Manifestações Patológicas............................................................................................ 15
2.2 Argamassa..................................................................................................................... 16
2.3 Definição de fissuras..................................................................................................... 18
2.4 Definição de fissuras segundo suas atividades........................................................... 19
2.5 Definição de fissuras segundo a forma....................................................................... 19
2.6 Definição de fissuras segundo a causa........................................................................ 20
2.7 Principais causas das fissuras em argamassas............................................................ 21
2.7.1 Fissuras por movimentação térmica........................................................................... 21
2.7.2 Fissuras por movimentação higroscópica.................................................................. 25
2.7.3 Fissuras por alteração química nas argamassas........................................................ 29
2.7.4 Fissuras provenientes de aberturas nas alvenarias.................................................... 31
2.7.5 Fissuras por atuação de sobrecargas.......................................................................... 32
2.7.6 Fissuras por recalques de fundação............................................................................ 33

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES................................................................................. 36
3.1. Resultados Estatísticos................................................................................................. 36

4. CONCLUSÕES............................................................................................................... 43

REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 45
11

1. INTRODUÇÃO

Pela importância na construção, a ABNT NBR 13.529 (1995), definiu argamassas com
duas funções; uma como argamassa de revestimento, que consiste em uma mistura homogênea
de agregado miúdo, aglomerante inorgânico e água, contendo ou não aditivos ou adições, com
propriedades de aderência e endurecimento. E argamassa colante como mistura constituída de
aglomerante hidráulico, agregados minerais e aditivos, que possibilita, quando preparada em
obra com adição exclusiva de água, a formação de uma massa viscosa, plástica e aderente,
empregada no assentamento de peças cerâmicas e de pedras de revestimento.
Em relação às adições nas argamassas, à norma ABNT NBR 13.529:1995, definem
adições como materiais inorgânicos naturais ou industriais finamente divididos, adicionados às
argamassas para modificar suas propriedades com quantidade proporcionada. Dentre as adições
estão saibro, solo fino, filito cerâmico e pó calcário. Adições minerais são substitutivas da cal
hidratada, garantindo plasticidade da massa a custo reduzido.
No Quadro 1, Carasek apud Isaias (1996), lista os importantes problemas associados a
saibros presentes nas argamassas, e apresenta designações regionais, além de comentar sobre a
necessidade de cuidados quanto sua utilização. Os saibros foram amplamente empregados no
Brasil com essa finalidade, recebendo mais variadas designações regionais, como: taguá,
arenoso, caulim, massara, piçarra, salmorão, argila de goma, barro, areia de reboco, areia de
meia liga, areia rosa, etc. Este material, constituído em parte por argilominerais, empregado
indiscriminadamente causa frequentes manifestações patológicas em revestimentos de
argamassa, sendo as principais: fissuração, pulverulência, eflorescência e descolamento.
Mesmo que, nem todo saibro seja deletério, este material deve ser empregado com grande
cautela, pois além dos inconvenientes listados, trata-se de material decomposto de rochas, muito
heterogêneo, e portanto, exige rigoroso controle para suas dosagens em todas as etapas de uso
de argamassas na obra.
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Quadro 1 – Problemas em revestimentos pelo uso de argamassas com saibros


Problema Causa/explicação
O excesso de partículas finas de argila aumenta o consumo de água
Fissuração para garantir a trabalhabilidade adequada. A saída dessa água causa a
mapeada retração e a consequente fissuração do revestimento
Como o saibro entra na composição da argamassa para substituir cal
hidratada (efeito plastificante no estado fresco) pode ocorrer da
argamassa ser proporcionada com pouco aglomerante (pois esta
adição não possui efeito cimentante), gerando um revestimento
Desagregação pulverulento. Por outro lado partículas de argila podem recobrir grãos
e de areia e prejudicar a adesão entre a pasta aglomerante e a areia,
Pulverulência reduzindo a coesão interna da argamassa.
Os grãos muito finos de argila podem penetrar no interior dos poros
do substrato tomando lugar de produtos de hidratação do cimento que
se formariam na interface e produziriam o travamento mecânico da
Descolamento pasta nos poros.
Alguns saibros possuem alto teor de álcalis que favorecem ao
Eflorescência aparecimento das eflorescências.
A presença de sais no saibro torna os revestimentos mais
Bolor e mofo higroscópicos ficando úmidos por mais tempo. .
Fonte: CARASEK, 1996.

Na classificação apresentada na ABNT NBR 13.529:1995 estabelece-se que os saibros


e solos finos recebem as mais variadas designações regionais, conforme citado acima, mas não
cita o “arisco”, que se enquadra perfeitamente nas características dos saibros e solos finos,
sendo amplamente utilizado na região de Mossoró/RN, de onde extraímos o estudo de caso.
As argamassas produzidas na região à base de argilominerais, passam por uma questão
econômica relevante pois conforme Selmo (1989), os materiais componentes das argamassas
correspondem a 6% do valor da edificação, o que leva a arranjos desfalcados da qualidade
necessária para uso das argamassas.
Restou, portanto, à atividade de perícias de engenharia, o papel de identificar causas e
efeitos de vícios de projeto, de construção, em todas as suas dimensões, numa promoção
punitiva através das ações administrativas ou judiciais, suprindo a ausência tempestiva da
atividade técnica resultante na qualidade da edificação, particularmente em relação às fissuras.
Evolução rápida resumiu o uso de argamassas a partir da mistura de cimento, cal, areia
e água. No início sabia-se pouco dos efeitos dessas misturas, e diante desses efeitos, surgiram
soluções. Assim, começou a preocupação pela qualidade e tipo do cimento, cal, água, e areia a
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utilizar, além da escolha seletiva de áreas a ocupar, e ainda, a possibilidade de aplicação


competente de limitadores urbanísticos, como oferta de serviços públicos, na busca de soluções
para os problemas reativos.
Assistimos reações ocorridas nas argamassas diante da infiltração, principalmente em
construções populares, com reedições que alcançaram as contemporâneas casas do Programa
do Governo Federal designado Minha Casa Minha Vida. Fissuras fazem parte do cotidiano
construtivo, mas nessas moradias, em nome de tradição regional, fazer uso indiscriminado de
materiais ricos em matéria orgânica, em desacordo com as Normas da ABNT e as boas práticas
da engenharia, em detrimento da baixa qualidade dessas construções populares, é inexplicável.
A opção de adição indiscriminada de argilominerais às argamassas proporciona ao
operador a melhoria da trabalhabilidade, mas traz também, consideráveis diminuições na
capacidade de aderência como na de resistência no estado endurecido, devido ao teor e natureza
dos finos presentes nas misturas, cujos procedimentos ultrapassam o conhecimento técnico dos
Responsáveis pela qualidade da obra.

1.1 Objetivos

Estudar as manifestações patológicas em unidades residenciais unifamiliares populares,


localizadas em Conjuntos Residenciais na cidade de Mossoró/RN, construídas na década de
1980, pertencentes a programa residencial de casa própria para população de baixa renda..

1.2 Justificativa

Considerando as argamassas mal elaboradas como sendo as principais responsáveis


pelas concorrentes manifestações patológicas, amplamente caracterizadas nas formas de
fissuras nas argamassas endurecidas, devidas às inadequações do seu uso, a partir da escolha
pouco criteriosa dos materiais utilizados, finalizando com as inconformidades verificadas nas
suas aplicações, que poderiam ser evitadas caso fossem consideradas, na sua plenitude, normas
técnicas da ABNT.
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É através da Perícia Técnica de Engenharia, em especial as Perícias Judiciais, que se


concentra grande parte do objeto de valor da Justiça. O juiz, que é um bacharel em direito, cujas
dúvidas em áreas específicas das ações judiciais, são esclarecidas através da linguagem
apropriada dos peritos e assistentes técnicos. Nesta pesquisa foram analisadas várias
manifestações patológicas, amplamente demonstradas nas fissurações que ocorreram nas casas
vistoriadas do estudo de caso, notadamente nos rebocos, encontros de alvenarias, nos pisos, e
nos elementos que foram utilizados como fundações das edificações. Diante desses problemas
identificados em construções antigas, e até nas casas do novo Programa de Governo Minha
Casa Minha Vida, foi desenvolvida a presente pesquisa com o fito de fornecer elementos
genéricos aos profissionais que atuam como peritos e assistentes.

1.3 Metodologia

A metodologia aplicada ao presente trabalho se constituiu em coletânea de dados e


informações através da literatura técnica relativa às manifestações patológicas em edificações,
especialmente voltadas para as fissuras em paredes e pisos, e a vistoria de Nível 1, composta de
compilação de dados estatísticos das sete principais fissuras encontradas, num caso real de
perícia judicial de engenharia, para identificar os danos causados por vícios praticados, e por
uso de materiais inadequados.
O estudo de caso mostrará os conhecimentos técnicos para realização de uma perícia de
engenharia, constatando a incidência de manifestações patológicas em 31 imóveis residenciais
populares de baixa renda, localizados num conjunto residencial na cidade de Mossoró/RN,
construído na década de 1980. A perícia judicial foi realizada por solicitação do Juiz de Direito
da cidade de Mossoró/RN, que intimou o perito técnico Francisco Adalberto Pessoa de
Carvalho, para realizar a perícia objeto do processo.
Foram preservados nomes, endereços e a Vara do Tribunal de Justiça, afim de não
comprometer os participantes na questão.
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2. REFERENCIAL TEÓRICO

MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS

Inicialmente utilizado na medicina, onde tem o significado de estudos das manifestações


de doenças nos seres vivos, o termo Manifestação Patológica assume, na engenharia, os estudos
da natureza e das modificações das condições físicas e/ou funcionais produzidas pelas
anomalias construtivas e falhas das edificações, através de vistorias, inspeções, perícias,
auditorias e ensaios técnicos em laboratório. Assim, como na medicina, onde as manifestações
patológicas podem ser congênitas, na engenharia podem ter surgido durante a elaboração dos
projetos, ou na execução da obra, ou ainda, na escolha e aplicação de materiais inadequados.

2.1 Manifestações Patológicas

Como ocorre na medicina, o termo “patologia” diferencia da expressão “manifestação


patológica” quando o primeiro significa o estudo sobre conjunto de teorias buscando explicar a
causa da ocorrência e seu mecanismo de funcionamento, o segundo termo “manifestação
patológica”, representa o resultado da degradação ocorrida, de como ela se apresenta.
Segundo a ABNT NBR 13752: (Norma Brasileira para perícias de engenharia na
construção civil) são os seguintes, os conceitos que referenciam as manifestações patológicas:
Defeito: são anomalias que podem causar danos efetivos ou representar ameaça
potencial de afetar a saúde ou segurança do dono ou consumidor, decorrentes de falhas ou erros
de projetos, ou execuções de um produto ou serviço, ou ainda, de informações incorretas ou
inadequadas de sua utilização ou manutenção.
Vícios: são aquelas anomalias que afetam tanto o desempenho de produtos ou de
serviços, ou os tornam inadequados aos fins a que se destinam, causando transtornos ou
prejuízos materiais aos consumidores. Os vícios podem decorrer de falhas ou erros de projetos,
ou de execução, ou ainda da informação defeituosa sobre sua utilização ou manutenção.
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2.2 Argamassa

As argamassas mal elaboradas e aplicadas representam grande parte dos problemas


encontrados nas construções populares, porque além de serem produzidas, na sua grande
maioria, no próprio canteiro de obra através de métodos tradicionais, descuidados, também são
aplicadas de forma artesanal com grande predominância de facilitações de uso definidas pelos
próprios operários. Condições de armazenagem e qualidade dos aglomerados e aglomerantes,
tempo de preparo, de uso da massa, e de cura entre camadas, e até de acabamentos finais como
pinturas ou revestimentos, são costumeiramente causadores de vícios e suas consequências.
A ABNT NBR 7200:1998, define argamassa como mistura de aglomerantes e agregados
com água, possuindo capacidade de endurecimento e aderência.
Segundo Kazmierczak (1989), argamassa é um material complexo, constituído
essencialmente de materiais inertes de baixa granulometria e de uma pasta com propriedades
aglomerantes.
Portanto, as argamassas são compostas de aglomerados (materiais inertes), unidos por
aglomerantes (cal, cimento, aditiva). Importância especial deve-se dar aos aglomerantes
cimento e cal.
No presente trabalho não é foco do estudo um tipo específico de cimento Portland,
considerando sempre, as composições usuais para argamassas de rejuntamento e de
revestimento, inclusive nas argamassas mistas, com traços em volume comumente utilizados
no tipo de construção utilizado no estudo de caso escolhido. Os cimentos são aglomerantes
hidráulicos, e assumem importâncias nas argamassas, dependendo do seu teor de finura, nas
propriedades de impermeabilização, trabalhabilidade, e capacidade de retenção de água,
condições que merecem atenção do construtor, e do perito, diante de possíveis vícios causadores
de manifestações patológicas, ou dos seus efeitos.
Para Sabbatini (1998), os cimentos que apresentam maior finura (maior superfície
específica) têm potencial para tornar a argamassa mais trabalhável e com maior retenção de
água. Os cimentos de endurecimento mais lento podem produzir argamassas mais resilientes.
A cal é um aglomerante aéreo e não hidráulico, com grande importância na composição
das argamassas, interferindo nas propriedades das mesmas, no tocante às resistências à
compressão, aderência, trabalhabilidade e retenção de água.
O uso de cal extinta em obra supera em qualidade a cal hidratada em fábrica que exige
que a argamassa experimente um tempo de descanso ainda na forma de pré mistura, ou
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argamassa intermediária, obtida apenas com areia e água. Na cal extinta em obra, o excesso de
água utilizada proporciona uma hidratação completa de todos os seus óxidos, permitindo rápida
e segura alteração nas partículas e cristais de hidróxidos.
A pasta de cal hidratada é uma suspensão coloidal de hidróxido de cálcio, que envolve
os grãos de areia, e melhora a trabalhabilidade e a retenção de água ótima, em relação a outros
tipos de argamassa. A obtenção da resistência ocorre lentamente, requerendo a manutenção da
umidade, porque o endurecimento inicial se dá por transferência de umidade para os blocos.
Assim, deve-se evitar o uso da cal nas argamassas que se destinam ao assentamento dos blocos
da alvenaria.
Segundo Franco (1988), a resistência à compressão da argamassa pouco influencia a
resistência à compressão da alvenaria; a Figura 01 demonstra que com a gradual diminuição da
quantidade de cimento na argamassa, ocorre uma drástica diminuição na resistência à
compressão da argamassa, mas uma pequena influência na resistência da alvenaria.

Figura 01 – Desempenho da alvenaria e da argamassa à compressão.

Fonte: FRANCO (1988).

Em relação à aderência, o entendimento é inverso. Conforme Franco (1988), as


propriedades mecânicas das argamassas endurecidas são importantes, porém a resistência de
aderência entre a argamassa e os blocos é entre todas as de maior importância. A aderência
influencia o desempenho da parede em vários requisitos. Se a aderência é frágil, a resistência à
tração, flexão, cisalhamento, durabilidade e estanqueidade, também o serão.
18

A areia é outro importante componente de enchimento da argamassa, e muitas vezes é


considerada a vilã nas manifestações patológicas das argamassas, devido suas origens e
inadequações de armazenagem, manipulação e aplicação. A areia mais facilmente obtida pode
ser de origem natural, através de dragagem de leito ou margens de rios, ou ainda por escavação
do solo. Mas também pode ter origem artificial quando obtida por britagem. As areias de origem
natural são vastamente utilizadas no Brasil, com diferenças bem definidas por região, com
variações acentuadas tanto em relação à origem, como em relação à granulometria, ou de sua
composição. As areias mais usadas no sul do país são de origem siliciosa (fortes presenças de
sílica ou óxido de silício), ou da mistura desta com silte e argilas, formando-se uma areia
argilosa conhecida como saibro. Em Mossoró/RN, berço do Estudo de Caso deste trabalho, o
saibro utilizado é conhecido como “arisco”.

2.3 Definição de Fissuras

Toda a literatura existente a respeito de manifestações patológicas nas edificações


reconhece a verdade de que não existe construção feita pelas mãos humanas que não apresentem
ou apresentarão fissuras. Essas fissuras são manifestações patológicas comuns tanto em
alvenarias, como em revestimentos, concretos, pisos, sendo, geralmente, causadas pelas tensões
que ultrapassam a resistência dos materiais utilizados. Se estes materiais forem solicitados por
esforços maiores que suas resistências, acontece a falha que consequentemente é acompanhada
pela abertura, e conforme sua espessura classificam-se como fissuras, trincas, rachaduras,
fendas ou brechas (embora, como já esclarecido anteriormente, nesse trabalho, o termo utilizado
será sempre “fissura” sem distinção entre fissuras, trincas, ou outros termos utilizados para as
aberturas).
A ABNT NBR 8802:1994, traz para peças de concreto armado sem prejuízo de
utilização nas alvenarias, a seguinte definição sobre fissura e trinca:
- Fissura: ruptura provocada por ação mecânica ou físico-química de abertura até 0,5 mm;
- Trinca: ruptura ocorrida acima de 0,5 mm.
Duarte, (1998), cita também, que outros autores propõem diferentes escalas,
relacionadas com as dimensões das aberturas, como aquelas fissuras que apresentam aberturas
inferiores a 0,1 mm, chamadas de capilares e consideradas insignificantes por não causar
qualquer prejuízo à durabilidade das edificações, e tão somente incômodos visuais.
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2.4 Definição de fissuras segundo suas atividades

Outra classificação das fissuras, é quanto às suas atividades. Duarte (1998), define que
as fissuras podem ser classificadas, segundo suas atividades, como fissuras ativas, e fissuras
inativas. Fissuras ativas são aquelas que podem apresentar variações de abertura em
determinado período de tempo, podendo ser causadas por variação térmica, por exemplo,
podendo também, apresentar comportamentos cíclicos, alternando a abertura conforme as
variações de temperatura. Já as fissuras ativas causadas por recalque de fundação tendem a
apresentar aberturas crescentes. As fissuras inativas, ou estabilizadas, são aquelas que não
apresentam variações, de abertura ou de comprimento, ao longo do tempo. Estas fissuras
costumam ser causadas por solicitação externa constante tais como sobrecargas ou fundações
estabilizadas.

2.5 Definição de fissuras segundo a forma

Quanto à forma da fissura, Duarte (1998), classifica como isoladas as fissuras de causas
diversas seguindo direção predominante, acompanhando as juntas de argamassa ou partindo
componentes, seguindo fiadas horizontais ou fiadas verticais, ou ainda, prolongando-se na
interface entre os componentes da alvenaria e a junta de argamassa. Já as fissuras disseminadas
são aquelas que apresentam a forma de rede de fissuras, sendo mais comuns em revestimentos.
A Revista Téchne, da Editora PINI, na sua Edição nº 160, traz um esclarecedor artigo
assinado por SAHADE, Renato, (2010). Trinca ou Fissura? Como se originam, quais os tipos,
as causas e as técnicas mais recomendadas de recuperação de fissuras. Neste artigo, o Autor
apresenta com ótima didática, tanto as técnicas de recuperação, como a classificação das
fissuras mais comuns encontradas nas edificações. No quadro 2, a seguir, estão relacionadas as
fissuras e os procedimentos de recuperação conforme o citado artigo.
20

Quadro 2 - Fissuras e Procedimentos de Recuperação.

Geométricas Mapeadas
Ativas Passivas Ativas Passivas
Sazonais Progressivas Sazonais
Membranas Reforço de Substituição do Membranas Papel de pare-
acrílicas fundação revestimento acrílicas de (interno)
Reforço Papel de pare- Substituição do
Bandagem estrutural Tela metálica de (interno) revestimento
Argamassa ar-
Tela metálica Tirante mada
Armadura hori- Pintura
Tirante zontal convencional
Argamassa ar-
Selagem mada
Substituição de
Junta de movi- unidades dani-
mentação ou ficadas
de controle Grampeamento
Fonte: Sahade.

2.6 Definição de fissuras segundo a causa

Outra classificação feita por Duarte (1998) define as fissuras quanto à causa, da seguinte
forma:
As fissuras segundo a causa, que podem ser reagrupadas como:
 Fissuras causadas por excessivo carregamento em forma de compressão
(sobrecargas);
 Fissuras causadas por variações de temperatura (movimentações térmicas);
 Fissuras causadas por retração e expansão;
 Fissuras causadas pela deformação de elementos da estrutura de concreto
armado;
 Fissuras causadas por recalques de fundações;
 Fissuras causadas por reações químicas;
 Fissuras causadas por detalhes construtivos incorretos.
21

2.7 Principais causas das fissuras em argamassas

Foram escolhidas as principais manifestações geradoras das fissuras nas argamassas,


listadas abaixo, que serão detalhadas no presente trabalho. São elas:

2.7.1 Fissuras por movimentação térmica

Segundo Thomaz (1989), essas fissuras normalmente ocorrem devido às fortes


variações de temperaturas durante as 24 horas do dia, onde partes do mesmo componente
sofrem movimentação de dilatação ou retração. Esses movimentos atingem as ligações internas
dos componentes de argamassas e peças de revestimento, diretamente nas suas propriedades
físicas proporcionais aos máximos e mínimos de temperaturas experimentados, provocando
tensões nos materiais envolvidos, que podem provocar as fissuras.
Outra causa muito comum é quando ocorrem as movimentações entre componentes e
elementos de natureza diferenciada, como por exemplo, no encontro de materiais com
diferentes coeficientes de dilatação térmica (alvenaria e concreto), ou exposições diferentes
entre paredes e lajes expostas ao tempo, ou ainda, por dilatações entre alvenarias e terças de
madeira da cobertura, quando estas são chumbadas diretamente nas paredes. No caso de lajes
expostas, pelo fato do concreto ser um péssimo condutor de temperatura, a superfície desta no
interior da edificação apresenta uma temperatura bem mais baixa que a parte externa exposta
ao sol, promovendo dilatações diferentes no mesmo componente, que provocam fissuras na
própria peça, e nas paredes laterais.
Para Thomaz (1989),
as movimentações térmicas de um material estão relacionadas com as propriedades
físicas do mesmo e com a intensidade da variação da temperatura; a magnitude das
tensões desenvolvidas é função da intensidade da movimentação, do grau de restrição
imposto pelos vínculos a esta movimentação e das propriedades elásticas do material.
As principais movimentações diferenciadas ocorrem em função de:
- Junção de materiais com diferentes coeficientes de dilatação térmica, sujeitos ás
mesmas variações de temperatura (por exemplo, movimentações diferenciadas entre
argamassa de assentamento e componentes de alvenaria);
- Exposição de elementos a diferentes solicitações térmicas naturais (por exemplo,
cobertura em relação ás paredes de uma edificação);
- Gradiente de temperatura ao longo de um mesmo componente (por exemplo,
gradiente entre a face exposta e a face protegida de uma laje de cobertura).
22

As figuras 2 a 6 representam movimentações comuns em lajes de cobertura, segundo


Thomaz (1989).
Figura 02 – Movimentações que ocorrem numa laje de cobertura.

Fonte: THOMAZ (1989).

Figura 03 – Movimentações que ocorrem numa laje de cobertura.

Fonte: THOMAZ (1989).


23

Figura 04 – Movimentações que ocorrem numa laje de cobertura.

Fonte: THOMAZ (1989).

Segundo Thomaz (1989), a figura 5


demonstra trinca típica presente no topo da parede paralela à largura da laje. A trinca
normalmente apresenta-se com traçado bem definido, realçando o efeito dos esforços
de tração na face interna da parede (Figura 5). Fissura com abertura regular no topo
da parede, resultante do abaulamento e da dilatação plana da laje (Figura 6).

Figura 05 – Trinca no topo da parede paralela à largura da laje.

Fonte: THOMAZ (1989)

Figura 06 – Fissura com abertura regular resultante do abaulamento e da dilatação


plana da laje.

Fonte: THOMAZ, 1989.


24

os muros muito extensos apresentam fissuras devidas a movimentações térmicas


sendo essas fissuras tipicamente verticais, com aberturas da ordem de 2 a 3 mm. Em
função dos componentes da alvenaria, as fissuras manifestam-se a cada 4 a 5 m,
podendo ocorrer nos encontros das alvenarias com os pilares ou mesmo no corpo da
alvenaria, conforme ilustrado na figura 6.
(THOMAZ, 1989).

Segundo Thomaz (1989), as fissuras provocadas pelas movimentações térmicas,


conforme pode ser visto na figura 7, onde normalmente iniciam-se na base do muro, em razão
das restrições que a fundação oferece à sua livre movimentação. Em função da resistência à
tração da argamassa de assentamento e dos componentes de alvenaria as fissuras poderão
acompanhar as juntas verticais de assentamento ou mesmo estenderem-se através dos
componentes de alvenaria.
Figura 07 – Trincas verticais causadas por movimentações térmicas:
A) destacamento entre alvenaria e pilar, B) trinca no corpo da alvenaria.

Fonte: THOMAZ, (1989).

Segundo Thomaz (1989), as paredes heterogêneas, com baixa aderência entre juntas e
componentes, tendem a apresentar fissuras nesta interface, gerando linhas quebradas ou
acompanhando as fiadas, distorcendo o sistema típico de fissuração (Figura 08).

Figura 08 – Trinca vertical: a resistência à tração dos componentes de alvenaria é


superior à resistência à tração da argamassa ou à tensão de aderência argamassa/blocos.

Fonte: THOMAZ, 1989


25

2.7.2 Fissuras por movimentação higroscópica

Segundo Thomaz (1989),

as mudanças higroscópicas provocam variações dimensionais nos materiais porosos


que integram os elementos e componentes da construção; o aumento do teor de
umidade produz uma expansão do material enquanto que a diminuição desse teor
provoca uma contração. No caso da existência de vínculos que impeçam ou restrinjam
essas movimentações poderão ocorrer fissuras nos elementos e componentes do
sistema construtivo. THOMAZ (1989).

Portanto, a quantidade de água presente na argamassa, solo, meio ambiente, e


características físicas (de porosidade e capilaridade) dos materiais envolvidos, criam variações
do teor de umidade presente no corpo da argamassa endurecida.
Afirma Thomaz (1989), que se registram ocorrência de trincas provocadas por expansão
de tijolos cerâmicos com elevada resistência à compressão, conforme apresentado nas Figuras
8 a 10.
Figura 09 – Trincas horizontais na alvenaria provenientes da expansão dos tijolos: o
painel é solicitado à compressão na direção horizontal.

Fonte: THOMAZ (1989).


26

Figura 10 – Trincas nas peças estruturais: a expansão da alvenaria solicita o concreto à


tração.

Fonte: THOMAZ (1989).

A figura 11 demonstra a expansão dos tijolos por absorção de umidade provoca o


fissuramento vertical da alvenaria no canto do edifício.

Figura 11 – Fissuramento vertical da alvenaria no canto do edifício.

Fonte: THOMAZ (1989).

Manifestações comuns em construções de habitações populares, notadamente as


construídas entre 1970 a 1990, ocorreram em grande parte, por indiscriminada adição de saibro
(no nosso caso o uso de arisco) à argamassa para construção de paredes, na junção de tijolos, e
revestimentos, com manifestações patológicas identificadas visualmente por peritos e
assistentes técnicos, em ações judiciais como a apresentada no estudo de caso desse trabalho.
27

O uso de saibro provocou a retração inicial e movimentações higroscópicas do material, em


função das grandes variações volumétricas que a argila apresenta ao variar seu teor de umidade.

Figura 12 – Os sucessivos ciclos de umedecimento e secagem do material constituído


por solo, favorecidos cada vez mais pelos danos no revestimento, provocam a gradativa
destruição da parede.

Fonte: THOMAZ (1989).

De acordo com Thomaz (1989),


As fissuras horizontais por expansão da alvenaria são causadas por movimentações
higroscópicas de absorção de umidade de seus constituintes. Ao absorver a umidade,
tijolos, blocos e argamassas podem sofrer expansão e gerar movimentação
diferenciada entre fiadas da alvenaria ou entre os tijolos e as juntas da argamassa.
Neste caso as fissuras predominam na horizontal. Essas fissuras podem se manifestar
em qualquer local da alvenaria desde que haja presença de umidade ou junto a bases
das paredes, provocadas por umidade ascendente, na maioria das vezes na presença
de eflorescências facilitando o diagnóstico.

Figura 13 – Fissura horizontal na base de alvenaria provocada por movimentação da


umidade do solo.

Fonte: THOMAZ (1989).


28

Figura 14 – Fissuras horizontais junto à base da parede por efeito da umidade do solo
com presença de eflorescência.

Fonte: THOMAZ (2001)

Figura 15 – Visualização mais aproximada das fissuras mostradas na Figura 14.

Fonte: THOMAZ (2001).


29

Figura 16 – Fissuras causadas por movimentação higroscópica.

Fonte: THOMAZ (2001).

2.7.3 Fissuras por alteração química nas argamassas

Segundo Thomaz (1989), os materiais de construção são susceptíveis de deterioração


pela ação de substâncias químicas.
[...] sendo assim, devem ser estáveis quimicamente ao longo do tempo, principalmente
quando em contato com a água. As alterações de umidade dos materiais porosos
provocam variações dimensionais nos elementos e componentes da edificação, estas
podem ser de dois tipos: reversíveis ou irreversíveis. Além disso, os materiais contêm
com frequência excesso de sais solúveis ou reativos por falta de qualidade no processo
de fabricação. Estes sais, quando em presença de umidade, podem sofrer reações
expansivas durante o processo de cristalização com o aumento de volume provocando
fissuras nas paredes, e muitas vezes o descolamento do revestimento. Este tipo de
fissuras se agrava em meios altamente agressivos, como atmosferas industriais com
alta concentração de poluentes.
(THOMAZ, 1989)
[...] a degradação dos concretos e das argamassas, por corrosão da armadura, ou por
degradação da matriz cimentícia, se dá normalmente devido a ações químicas e
eletroquímicas, cujas causas principais são:
- Gases da atmosfera (CO2, SO2 e outros) atuando sobre eles;
- Águas puras, selenitosas ou marinhas;
- Compostos fluídos ou sólidos de natureza orgânica (azeites, graxas, combustíveis e
outros).
(CANOVAS, 1988)
30

A Norma da ABNT NBR 12655:2015, no seu anexo A (informativo), que trata do


concreto sujeito a meios agressivos (geralmente em elementos enterrados ou em contato com o
solo) traz recomendações relativas à durabilidade das estruturas feitas com argamassas de
concreto de cimento Portland. De maneira geral, as estruturas de concreto apresentam
desempenho satisfatório quando expostas a variadas condições ambientais, incluindo o contato
com água e solos contendo agentes agressivos. Entretanto, determinadas condições de
exposição podem comprometer a vida útil de uma estrutura, caso não sejam tomadas medidas
adequadas para prevenir ou reduzir o risco potencial de deterioração.
Ainda segundo a ABNT NBR 12655:2015, para serem nocivos ao concreto e produzir
um ataque significativo, os agentes químicos agressivos devem estar em uma determinada
proporção, diluídos nas soluções aquosas, uma vez que normalmente o concreto não é atacado
por substâncias sólidas (ocorrência muito rara e específica).
Esta Norma estabelece os requisitos mínimos exigíveis para o concreto de estruturas
expostas a soluções contendo sulfatos (conforme 5.2.2.3 e Tabela 4). Contudo, as estruturas de
concreto expostas a águas puras, águas ácidas, águas magnesianas e águas amoniacais também
podem experimentar danos, dependendo das concentrações dos agentes dissolvidos na água.
Quando pura, a água é agressiva, por atuar como dissolvente dos compostos hidratados do
cimento, e, quando contém determinados íons, estes reagem com os mesmos compostos
hidratados do cimento, alterando uma estrutura estável, responsável principalmente pela
resistência mecânica do concreto. O concreto, quando em contato com essas águas, deve
apresentar determinadas propriedades, entre elas as decorrentes da relação água/cimento e da
resistência característica à compressão, em função da agressividade do meio com vistas a
aumentar a sua durabilidade e vida útil.
Segundo Thomaz (1989) a umidade pode ter acesso aos materiais de construção através
de diversas vias:
a) Umidade resultante da produção dos componentes.
Na fabricação de componentes construtivos à base de ligantes hidráulicos emprega-se
geralmente uma quantidade de água superior à necessária para que ocorram as reações
químicas de hidratação. A água em excesso permanece em estado livre no interior do
componente e, ao se evaporar, provoca a contração do material.

b) Umidade proveniente da execução da obra.


É usual umedecerem-se componentes de alvenaria no processo de assentamento, ou
mesmo painéis de alvenaria que receberão argamassas de revestimento; esta prática é
correta pois visa impedir a retirada brusca de água das argamassas, o que viria
prejudicar a aderência com os componentes de alvenaria ou mesmo as reações de
hidratação do cimento. Ocorre que nesta operação de umedecimento poder-se-á elevar
o teor de umidade dos componentes de alvenaria a valores muito acima da umidade
higroscópica de equilíbrio, originando-se uma expansão do material; a água em
31

excesso, a exemplo do que foi dito na alínea anterior, tenderá a evaporar-se,


provocando uma contração do material.
c) Umidade do ar ou proveniente de fenômenos meteorológicos.
O material poderá absorver água de chuva antes mesmo de ser utilizado na obra,
durante o transporte até a obra ou por armazenagem desprotegida no canteiro. Durante
a vida da construção, as faces de seus componentes voltadas para o exterior poderão
absorver quantidades consideráveis de água de chuva ou, em algumas regiões, até
mesmo de neve. Também a umidade presente no ar pode ser absorvida pelos materiais
de construção, quer sob a forma de vapor, quer sob a de água líquida (condensação do
vapor sobre as superfícies mais frias da construção).
d) Umidade do solo.
A água presente no solo poderá ascender por capilaridade à base da construção, desde
que os diâmetros dos poros capilares e o nível do lençol d’água assim o permitam.
Não havendo impermeabilização eficiente entre o solo e a base da construção, a
umidade terá acesso aos seus componentes, podendo trazer sérios inconvenientes a
pisos e paredes do andar térreo. (THOMAZ, 1989)

Thomaz (1989) ainda afirmou que em função da trabalhabilidade necessária, os


concretos e argamassas normalmente são preparados com água em excesso, acentuando a
retração.
Três tipos de retração ocorrem com frequência num produto preparado com cimento.
- Retração química: a reação química do cimento e água se dá com redução de
volume; a força de coesão interna reduz o volume da água em 25%.
- Retração de secagem: a água em excesso evapora e isto gera forças capilares
equivalentes a uma compressão, produzindo, redução de volume.
- Retração por carbonatação: a cal hidratada reage com o gás carbônico e forma o
carbonato de cálcio. Esta reação é acompanhada de redução de volume e gera
retração. (TORRESCANA, 1999)

Para Thomaz (1989), retração de lajes poderá provocar compressão de pisos cerâmicos,
somando-se a esse inconveniente a deflexão promovida pela retração diferenciada do concreto
entre as regiões armadas e não armadas da laje. Em situações muito desfavoráveis poderão
surgir fissuras no piso ou mesmo o destacamento do revestimento cerâmico. As fissuras
desenvolvidas por retração das argamassas de revestimento apresentam distribuição uniforme,
com linhas mapeadas que se cruzam formando ângulos bastante próximos de 90°.

2.7.4 Fissuras provenientes de aberturas nas alvenarias

É comum o surgimento de fissuras nas aberturas dos vãos decorrentes da não utilização
de vergas e contra vergas, ou até mesmo da sua utilização deficiente, subdimensionada. Nas
edificações encontram-se fissuras devido à presença de aberturas, geralmente com direções
inclinadas, conforme ressalta Thomaz (1989).
32

É necessária utilização de peças rígidas, que recebem a designação de vergas e contra


vergas, em todas as situações cujas aberturas sejam superiores a 0,50 m. As vergas deverão ser
utilizadas nas janelas, portas e outras aberturas, mais precisamente na parte superior, e as contra
vergas na parte inferior das aberturas. Quanto ao material a ser utilizado como vergas ou contra
vergas, pode-se usar concreto pré-moldado, blocos tipo canaleta, ou peças moldadas no local.
A ausência dessas vergas e contra vergas podem causar o surgimento de fissuras inclinadas a
partir dos vértices das aberturas, ou no centro dessas aberturas quando se trata de contra vergas,
conforme mostrado na figura abaixo.

Figura 17 – Fissuras na alvenaria devida abertura de vãos de janelas.

Fonte/Foto: Autor, 2016.

2.7.5 Fissuras por atuação de sobrecargas

Segundo Thomaz (1989), a sobrecarga é uma solicitação externa que pode ou não ser
prevista em projeto, e que é capaz de fissurar um componente do sistema, mesmo que este não
tenha função estrutural.
A condição de previsão da ação de sobrecargas no projeto de estrutura pode caracterizar
vício de projeto, erro ou falha. Mas se foi previsto a ocorrência de fissuras deve-se por vício,
erro ou falha na execução. Essas sobrecargas podem produzir fissuras nas peças de concreto, e
nas alvenarias, ou nos revestimentos de paredes e pisos próximos às peças de concreto, que
sofrem os efeitos dos movimentos dessas peças de concreto.
33

São comuns ocorrências típicas de fissuras nas alvenarias, provocadas por sobrecargas.
Normalmente existem dois tipos característicos de trincas que surgem em trechos
contínuos de alvenarias solicitadas por sobrecargas uniformemente distribuídas mostradas a
seguir:
a) Trincas verticais, provenientes da deformação transversal da argamassa sob ação
das tensões de compressão, melhor dizendo, da flexão local dos componentes de
alvenaria;
b) Trincas horizontais, provenientes da ruptura por compressão dos componentes de
alvenaria ou da própria argamassa de assentamento, ou ainda de solicitações de
flexocompressão da parede.
(THOMAZ, 1989)

Figura 18 – Fissuração típica de alvenaria causada por sobrecarga vertical.

Fonte: THOMAZ, (1989).

2.7.6 Fissuras por recalques de fundação

Conforme a ABNT NBR 6122: fundação superficial (ou rasa ou direta) é definida como.
Elementos de fundação em que a carga é transmitida ao terreno, predominantemente
pelas pressões distribuídas sob a base da fundação, e em que a profundidade de
assentamento em relação ao terreno adjacente é inferior a duas vezes a menor
dimensão da fundação. Incluem-se neste tipo de fundação as sapatas, os blocos, os
radier, as sapatas associadas, as vigas de fundação e as sapatas corridas.

E fundação profunda:
Elemento de fundação que transmite a carga ao terreno pela base (resistência de
ponta), por sua superfície lateral (resistência de fuste) ou por uma combinação das
duas, e que está assente em profundidade superior ao dobro de sua menor dimensão
34

em planta, e no mínimo 3 m, salvo justificativa. Neste tipo de fundação incluem-se as


estacas, os tubulões e os caixões.
Nota: Não existe uma distinção nítida entre o que se chama estaca, tubulão e caixão.
Procurou-se nesta Norma seguir o atual consenso brasileiro a respeito.

Para Thomaz (1989), “quando no caso em que as deformações sofridas pelo solo sejam
diferenciadas ao longo do plano das fundações de uma obra, tensões de grande intensidade
serão introduzidas na estrutura da mesma, podendo gerar o aparecimento de trincas”.
Figura 19 - Recalque provocado em solo geralmente pouco compactado.

Fonte: THOMAZ (1989).

Segundo Thomaz (1989), “A presença de solo compressível, ou de um solo de baixa


resistência, pode provocar movimentação diferencial da estrutura, o que causa o surgimento de
fissuras”.

Figura 20 – Presença de solo compressível sob a edificação.

Fonte: THOMAZ (1989).


35

Outro caso ocorre quando existem raízes vegetais distribuídas no solo sob a construção,
que deixam o solo mais úmido podendo provocar o recalque, ou podendo tornar aquela região
das raízes mais compactas, o que causaria o surgimento de fissuras. (Thomaz, 1989).
Figura 21 – Presença de raízes vegetais de arvores de porte considerável, no solo sob a
edificação.

Fonte: THOMAZ (1989).

Figura 22 – Fundações contínuas solicitadas por carregamentos desbalanceados: o


trecho mais carregado apresenta maior recalque, originando-se trincas de cisalhamento no
painel.

Fonte: THOMAZ, (1989).


36

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A metodologia aplicada ao presente trabalho se constituiu na coletânea de dados e


informações, tratadas através da literatura técnica relativa às manifestações patológicas em
edificações, especialmente voltadas para as fissuras em paredes e pisos devidas ao preparo e
aplicação das argamassas, e a compilação de dados estatísticos das principais fissuras
encontradas num caso real de perícia de engenharia para identificar os danos causados por
vícios praticados, e por uso de materiais inadequados, em unidades residenciais populares
localizadas na Cidade de Mossoró/RN.
No estudo de caso foram aplicados os conhecimentos de engenharia e de elaboração de
Laudo Pericial Judicial, para realização de uma perícia de engenharia civil para a constatação
de manifestações patológicas, suas origens e seus efeitos, em 31 (trinta e um) imóveis
residenciais populares de baixa renda, localizados num conjunto residencial na cidade de
Mossoró/RN, construído na década de 1980. A perícia foi realizada por solicitação do Juiz de
Direito da 15ª Vara Civil da Comarca Mossoró/RN, que intimou o perito cadastrado, para
realizar a perícia objeto do processo nº 0704348-49.XXXX.X.XX.0106.
Foram preservados nomes, endereços e a Vara do Tribunal de Justiça, afim de não
comprometer os participantes na questão.

3.1 Resultados estatísticos

O estudo de caso, trazido a esse trabalho, mostrou os resultados estatísticos referentes


às manifestações patológicas identificadas nas 31 (trinta e uma) casas vistoriadas. Dessas
manifestações, foram tabulados as 7 (sete) manifestações de maior incidência nas unidades
vistoriadas, relacionadas às causas das fissuras encontradas com os porcentuais de suas
ocorrências, mostrados no Quadro 03 a seguir.
37

Quadro 3 – Percentual de fissuras encontradas na perícia analisada.


Item Causa das fissuras encontradas % das fissuras

01 Movimentações térmicas 31

02 Movimentações higroscópicas 30

03 Recalques de fundação 22

04 Fissuras de canto 06

05 Ausência de contra vergas 05

06 Esmagamento de alvenaria 04

07 Ausência de vergas 02

Fonte: Própria do Autor, 2016.

Estão mostrados a seguir, registros fotográficos colhidos nas casas, representativos de


cada uma das seis causas das fissuras mostradas no Quadro 2.

Fotografia 01 - Movimentações térmicas.

Fonte: Própria do Autor, 2016.


38

Fotografia 02 – Movimentações higroscópicas.

Fonte: Própria do Autor, 2016.

Fotografia 03 – Recalques de fundação.

Fonte: Própria do Autor, 2016.


39

Fotografia 04 – Fissura de canto.

Fonte: Própria do Autor, 2016.

Fotografia 05 – Ausência de contra verga.

Fonte: Própria do Autor, 2016.


40

Fotografia 06 – Esmagamento.

Fonte: Própria do Autor, 2016.

Fotografia 07 – Ausência de verga.

Fonte: Própria do Autor, 2016.

No estudo de caso escolhido, as casas construídas seguiram projetos básicos


incompletos, gerando uma construção sem a qualidade esperada. Como aliados, esses projetos
encontraram um processo construtivo de má qualidade, além de orçamentos e especificações
técnicas frágeis. Na época da construção a proposta do Governo Federal era de proporcionar
41

casas populares a baixo custo, e na busca da redução dos custos foram negligenciadas algumas
determinações da ABNT, e como consequência foram produzidas casas de baixa qualidade,
como, aliás, estão sendo propostas até hoje. Exageros à parte, o mínimo seria construir casas
com condições de habitabilidade, insalubres e seguras.
A casa simples pode ser confortável mesmo que seja de telha aparente, tinta a óleo nas
paredes molháveis, esgotamento sanitário através de fossas e sumidouros, com peças estruturais
da cobertura de maneira adequada, e não chumbadas diretamente nas alvenarias. Fundações
diretas com uso de alvenaria de pedra apenas para enclausurar os aterros, mas acompanhadas
de cintas, pilares, além de aplicações de impermeabilizações. Contra pisos em concreto sobre
aterro bem compactado, cimentados nos pisos, com traços adequados, e unidos com juntas de
dilatação espaçadas. Alvenarias de tijolos devidamente amarradas, aprumadas e alinhadas,
executadas com tijolos com o mínimo de matéria orgânica, bem queimados, bem cortados e
assentados com argamassas que atendam exigências de segurança e estanqueidade, Cintas nos
respaldos das alvenarias, ou mesmo peças de madeira sobre as paredes para receberem as
estruturas da cobertura. Uso de vergas e contra vergas nos vãos das portas e janelas.
Caixas d’água pré-fabricadas em materiais que não sejam reconhecidamente
prejudiciais à saúde humana, ou mistas de alvenaria e concreto pré-fabricado com a
estanqueidade necessária. Esquadrias de madeiras, mesmo de segunda qualidade, mas
devidamente tratadas, secas e alinhadas. Estrutura de cobertura em madeira serrada de
qualidade, com inclinação correta, uso de três ripas por telha, e telhas estanques, bem casadas,
bem queimadas e com os espaçamentos de cobertura adequados. Instalações elétricas, mesmo
que em parte sejam aparentes, mas de acordo com as normas de segurança. Instalações hidro
sanitárias adequadas ao normativo, com uso de peças e conexões funcionais. E por fim,
construção de calçadas de contorno com a competência de proteger as fundações.
Mas o visto foram casas atacadas por infiltrações ascendentes, laterais, descendentes,
fissuras, ataques de pestes de insetos, mofo, bolores e apodrecimentos, em peças carregadas de
matéria orgânica, manifestações estas, adquiridas ou trazidas na escolha de materiais, aliados a
baixa qualidade de mão de obra empregada, num conjunto de vícios e falhas. As ocorrências
são dispersas num grande espaço geográfico onde milhares de casas populares foram
construídas, em solos particularmente semelhantes, que ao tempo da construção possuíam
expressiva cobertura vegetal, que foram tombadas com uso de maquinário pesado sem nenhum
critério, deixando no subsolo raízes, troncos e galhos que com o passar dos anos apodreceram
gerando zonas de vazios a pequenas profundidades, prejudicando a resistência natural do solo,
42

além de proporcionar as perfeitas condições para reprodução de insetos, formigas, cupins, que
hoje fazem parte do cotidiano de vida dos moradores.
Exemplos de como não se fazer, tão rapidamente identificados na análise individual de
unidades, que se prestava a abrigar grupos familiares, e se transformaram em escombros ou
depósitos de pessoas e famílias.
43

4. CONCLUSÃO

A literatura pesquisada deixa clara a possibilidade de utilização de argilominerais na


composição das argamassas. Mas essa prática é dependente da correta partição dos
componentes, garantindo as propriedades definidas pelas Normas Técnicas, e de pronto
conhecimento dos agentes técnicos de engenharia e arquitetura. É fundamental conhecer a
origem, propriedades e funções dos aglomerados utilizados, principalmente os argilominerais
facilitadores da trabalhabilidade das argamassas.
O excesso desses materiais poderá causar reações impactantes nas propriedades das
argamassas, tanto no estado fresco como no estado endurecido, não só por um traço mal
proporcionado, mas também pela carga de álcalis muito frequentemente encontradas nos
saibros, ou o excesso de sais capaz de tornar as argamassas mais higroscópicas conservando a
umidade por um período de tempo indesejável, ou diminuindo o poder aglomerante do cimento
ao substituir a cal ou parte dela no traço, gerando um revestimento pulverulento. A grande
incidência de vícios praticados na construção das casas populares vistoriadas, registra o pouco
controle dado à composição das argamassas, resultando em manifestações patológicas
desconfortantes ao uso, e desvalorizantes do patrimônio dos consumidores. Diante de tudo isso,
conclui-se que o uso das argamassas não produziu as fissuras; podem ter conduzido ao
surgimento de anomalias, que sem as credenciais normativas, produziram as fissuras, exigindo,
antes da aplicação de manutenções, dispendiosas recuperações e correções de vícios praticados
nas construções.
O uso indiscriminado de saibro provocou a retração inicial e movimentações
higroscópicas acentuadas das argamassas, em função das grandes variações volumétricas que
os argilominerais apresentam ao variar seu teor de umidade. Falhas desde a escolha dos
terrenos, até os acabamentos, ofertaram aos moradores a exigência prematura de utilização de
recursos financeiros para a simples continuidade de ocupação das casas, e que por sua vez,
devido às suas pequenas condições financeiras, pouco puderam fazer para corrigir as
manifestações patológicas adequadamente, e se ativeram a conviver com intervenções
paliativas, sem possibilidade de correção das causas.
E, sem dúvida, a ferramenta da perícia técnica, vem a fomentar os argumentos para a
decisão de correção definitiva dos vícios, falhas e erros praticados. As manifestações
patológicas ocorridas por recalque das fundações, esmagamentos nas alvenarias, infiltrações
generalizadas, movimentações térmicas e higroscópicas, ausência de vergas e contra vergas, e
44

ausência de amarrações responsáveis pelas fissuras, trincas e rachaduras apresentadas,


poderiam ter sido evitadas bastando para isso, que os conhecimentos simples, e os controles de
escolha dos materiais adequados e da mão de obra empregada, fossem devidamente
empregados. Ainda estamos longe de alcançar a plenitude do controle dos custos para deter o
profissional de engenharia ou de arquitetura, atuando num espaço geográfico limitado, com o
tempo necessário para a tomada de decisão na obediência correta dos projetos, das
especificações, e principalmente dos métodos construtivos desquitados da tradição e dos vícios
tão comuns.
Uma forma de evitar o problema também está na necessidade de correção das atuais
práticas de fiscalização através dos agentes financeiros, públicos ou privados, envolvida, e que
não acompanham a execução real dos serviços, mas o cumprimento de etapas, com visitas às
obras diante do atendimento físico das etapas para liberação do financeiro. Esta prática conduz
a significativos casos de vícios redibitórios que mostram seus efeitos ao longo da vida útil das
casas.
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