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10/07/2017 O Recife Assombrado | O Colecionador de Sacis

O Colecionador de Sacis
04.23.2016

Jornalista sul-mato-grossense garante: o mais famoso duende brasileiro “está naquele vento frio que
percorre a espinhela, no repuxar das tripas, no cabelo que arrepia”.

Andriolli de Brites da Costa, 26 anos, nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Graduou-se em jornalismo na
UFMS, em Campo Grande, e depois fez mestrado na UFSC, em Florianópolis, Santa Catarina. Atualmente o jornalista
faz doutorado na UFRGS em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Mas seu trabalho mais conhecido está relacionado a uma
longa e sincera amizade com o mais conhecido personagem do folclore brasileiro: o duende perneta de gorro vermelho.
Ele mantem o blog “O Colecionador de Sacis” (www.colecionadordesacis.com.br) e também faz palestras nas quais
revela: o negrinho acapetado é uma entidade muito mais assustadora do que se costuma imaginar. Nesta conversa com
O Recife Assombrado, Andriolli conta muito do que aprendeu sobre o Saci.

O Recife Assombrado – Quando começou o seu fascínio pelo mito do Saci?

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10/07/2017 O Recife Assombrado | O Colecionador de Sacis

Andriolli Costa – Não sei exatamente quanto a idade, mas meu fascínio veio ainda durante a infância. Meus avós
vivem na zona rural de Mato Grosso do Sul, e em todas as oportunidades que tinha, passava minhas férias por lá. E algo
que sempre captou minha atenção era que meu pai, um professor universitário muito sério, no caminho para a chácara
dos avós se pegava comentando: “O Saci assoviou para mim nessa porteira”, ou “ali ele me perseguiu”. Ele não falava
em tom de brincadeira, mas com o respeito de algo que fez parte de sua vivência e experiência. Desde cedo me
interessei pelo Saci e aprendi que o temor ou o respeito a seres fantásticos nada tinha a ver com nível de instrução.

Mais tarde, perguntando sobre o assunto, descobri que o Saci faz parte da história da minha família há gerações! Minha
tataravó, dona Floriza, se vestia de Saci para assustar os filhos. Ela dizia que ia visitar uns parentes, deixando a comadre
cuidando das crianças. Dava uma bela volta pela serra e voltava com a cara preta de carvão, roupas masculinas de
manga longa e um saco cheio de tocos nas costas. Dizia que ali estavam os filhotes de Saci, doidos para devorar crianças
mal educadas que tem preguiça de varrer o terreiro, que xingam os pais, etc. As crianças morriam de medo e, por uns 10
dias, ficavam que eram uns anjos!

Minha avó aprendeu com a avó dela, e também imitava o Saci. Só que sem a performance, só o assovio. É que para a
avó, Saci é invisível. Você não o vê, mas sente. O Saci está naquele vento frio que percorre a espinhela, no repuxar das
tripas, no cabelo que arrepia. Então ela assoviava fazendo o típico som do diabinho, e meus tios morriam de medo.
Tanto que uma vez ela fez isso e um dos meus tios correu tão desesperado que prendeu o pescoço na corda do balanço e
quase sufocou. Desde então a vó nunca mais imitou Saci, e o Saci nunca mais apareceu.

– Ora, vô! – perguntei a ele – Não está uma coisa relacionada à outra? A questão, depois entendi, é que não era um
simples arremedo, mas um chamamento. Quando você assovia imitando saci, você na verdade atrai o saci. E aí ele
cumpre toda sua função: acabar com o marasmo da rotina da vida do caboclo.

Atualmente como o saci está envolvido em sua vida?

Desde janeiro de 2015 eu coordeno o blog O Colecionador de Sacis, um espaço dedicado a falar sobre cultura popular
com enfoque jornalístico, trazendo entrevistas, resenhas e artigos de opinião que nos ajudam não apenas a conhecer a
produção contemporânea de obras de inspiração folclórica, mas também a pensar o lugar da tradição nos dias de hoje, a
importância da simbolização, o valor do saber ancestral.

Paralelamente, dirigi, roteirizei e editei no ano passado o curta-metragem também chamado “O Colecionador de Sacis”
– um filme de drama sobre um homem de meia idade que vive sozinho em uma casa repleta de garrafas vazias. Em cada
uma delas, ele jura, existe um saci diferente. Desde dezembro comecei a organizar um evento chamado “Mostra Curta
Saci”, onde exibo vários filmes diferentes, todos sobre sacis, que são seguidos de uma palestra onde conto histórias
sobre sacis, discuto sua origem, seus significados e a importância do folclore em tempos de modernidade.

No momento estou escrevendo um livro infantil, chamado “Esquadrão Saci”. A ideia era terminar em abril, mas graças
ao doutorado tempo acabou se tornando uma moeda escassa, mas o resultado está me deixando muito satisfeito. A arte
é do também escritor Vilson Gonçalves, de “A Canção de Quatrocantos”.

Afinal, quem é mesmo o Saci?

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É sempre difícil definir Saci, assim como qualquer criatura do folclore brasileiro, pelo simples fato de que a diversidade
de versões não cabe em verbetes de dicionário. É sempre um erro nos apegarmos a uma versão única de Saci tendo ela
como definitiva. O que podemos fazer é pensar nas suas linhas gerais: o Saci é um duende brasileiro, perneta, com pele
escura ou negra, ostentando um gorrrinho vermelho que lhe dá poderes e um pito sempre aceso que leva à boca.

Dito isso, podemos pensar que existem sacis de todos os tipos! De duas pernas; só com uma perna direita, esquerda ou
ao centro; indígena; adulto, velho ou criança; de pequeno ou médio porte, enfim… É comum a versão de que o saci
nasce do gomo do taquaruçu, nas noites de tempestade, quando o bambuzal estala. Mas já me contaram histórias de
que o Saci nasce do incêndio nos bambuzais e que por isso sua pele não seria negra, mas coberta de fuligem e cinzas.

Isso mostra que não podemos nos prender puramente na aparência para identificar a criatura, mas sim pensar a sua
essência. E a essência do Saci é ser um brincalhão, um pregador de peças, um trickster – como se diz nos estudos de
mitologia. O grau das brincadeiras varia nas versões, podendo ir da quase maldade à simples pilhéria, mas o Saci
sempre vai se divertir com elas.

Por que ele é um personagem tão forte no imaginário popular brasileiro?

É claro que a exposição midiática – desde Monteiro Lobato – o tornou mais famoso personagem do imaginário
brasileiro, mas devemos pensar numa camada anterior a essa, que é “por que as pessoas gostam e se identificam tanto
com o Saci”. A resposta pode ser que é porque o saci concentra a trindade formadora da cultura popular brasileira:
indígena, negro e europeu.

Explico: os primeiros relatos de um Yasy Yateré dizem de um anão Guarani, com duas pernas. Mais tarde, quando as
escravas negras assumem o monopólio da contação de histórias, o saci passa a ser descrito como negro e perde uma das
pernas. Os motivos são vários, mas gosto especialmente da versão que diz que ele era um escravo que cortou uma das
pernas para fugir das correntes e fugiu pulando para a mata. É o Saci como símbolo de resistência, e a perna que lhe
falta como uma manifestação de liberdade condicionada, dos sacrifícios que devemos fazer para não nos deixarmos
aprisionar.

Por fim, a herança europeia está manifesta especialmente em seu gorro vermelho, objeto de encantamento que guarda a
magia do Saci. Tal qual um duende europeu, dizem que o barrete carmesim é símbolo de poder desde os tempos
romanos. Existem versões que descrevem pessoas que conseguem palácios e riquezas roubando a carapuça do Saci, mas
tão logo ele a recupere faz tudo virar areia e a pessoa volta à pobreza de corpo e espírito que sempre lhe pertenceu.

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Andriolli Costa em palestra sobre o Saci

Qual a história mais assustadora sobre o Saci que você já ouviu?

A mais assustadora certamente foi uma que escutei após uma apresentação em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul. Uma
moça de uns 45 anos se aproximou após o evento e pediu desculpas por ter saído mais cedo. Disse que assim que ouviu
o assovio do saci em um dos filmes da Mostra de curtas-metragem que eu apresento, sentiu um forte enjoo e só
conseguiu voltar no final. Não entendi o motivo do enjoo e insisti na dúvida. Ela contou o seguinte:

“Quando eu era criança, sempre que meu pai voltava do trabalho, ele assoviava para avisar que havia chegado. Se eu
estivesse acordada, assoviava de volta. Mas um dia , acordei de madrugada ouvindo um assovio e o respondi. Só que
não era meu pai que estava assoviando”.

Desse dia em diante ela ouvia um assovio incessante, 24 horas por dia, que parecia soar dentro de sua cabeça. Foram
quase 30 dias desse barulho terrível, que só ela escutava. Ao ponto de ela quase não conseguir mais dormir. Foi só
quando chamaram uma benzedeira para a casa que se descobriu: a menina havia irritado um Saci. Depois de um
trabalho bem feito para acalmar o duende, a menina nunca mais sofreu com isso.

Você é jornalista e fez um trabalho acadêmico sobre a relação entre a mídia e as lendas. A mídia
destrói, preserva ou recria o imaginário?

Essa é uma ótima pergunta sobre a qual me debrucei durante vários anos. O que percebi foi o seguinte: normalmente
mitos e lendas são temas de difícil apreensão pelo jornalismo tradicional. Lugar de objetividade e precisão, o comum é
que as matérias ou tentem explicar os fenômenos cientificamente ou apenas debochar das crendices populares,
esvaziando seus significados. O lendário encontra seu espaço positivo nas páginas do jornal normalmente quando é
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alçado à categoria de arte: é um quadrinho sobre o Curupira, um filme sobre o Saci, uma peça sobre a Iara. Aí a
abordagem é totalmente outra, fala-se de identidade, valorização, etc.

Um caso muito peculiar que eu estudei foi no Paraguai. Lá há uma lenda muito famosa que diz que existem toneladas
de tesouros escondidos no subsolo do país, apenas esperando um escolhido de coração puro para se revelar. Chama-
se Plata Yvyguy. Acontece que a lenda é tão famosa que faz com que pessoas – de padres a ministros, de
desempregados a funcionários públicos – tenham como grande hobby a caça ao tesouro. Ao ponto de muitos morrerem
todos os meses em buracos mal escavados, ou serem presos invadindo propriedade privada por que encontraram um
mapa informando aquelas coordenadas. Nesse caso o jornalismo não consegue se furtar de falar da lenda, o que
certamente colabora em um processo dialético para que ela continue a inspirar ainda mais pessoas a buscar o ouro
encantado.

Você faz palestras sobre o Saci. Como elas são agendadas? E como tem sido a receptividade do público?

O primeiro convite para falar sobre sacis veio após uma participação que fiz no podcast “Papo Lendário”, falando sobre
minha página, o Colecionador de Sacis. Fui convidado para palestrar em uma universidade sobre Sacis e criatividade,
num evento que ainda não ocorreu, mas que está na agendo para o mês de outubro. Depois disso, comecei com a
“Mostra Curta Saci” em Mato Grosso do Sul, com quatro apresentações em cidades diferentes. Em cada uma
trabalhamos com um público específico: crianças, universitários e adultos em geral. Foi sensacional! Professoras
estavam empolgadas em contar novas histórias de sacis para seus alunos, pais relembravam suas infâncias e estavam
ansiosos para proporcionar o mesmo encantamento para seus filhos, jovens se perguntavam sobre racismo e inclusão…
As discussões que o saci levanta atingem todos os públicos e todas as idades.

Quando voltei para o Rio Grande do Sul, onde moro hoje, optei por dividir a Mostra em dois eventos distintos: um para
o público infantil e outro para o geral, cada um com seu próprio conjunto de filmes e histórias. A receptividade está
muito boa e tem várias pessoas querendo levar nossos sacis para suas cidades. Para saber mais basta entrar em contato
pelo e-mail andriolli_costa@hotmail.com, que mandamos o projeto completo, ou acessar
www.colecionadordesacis.com.br .

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1 Comentário O Recife Assombrado  Andriolli

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Marília Maciel • um ano atrás


Que maravilha saber que há gente dedicada à causal! E viva o saci! Viva o folclore brasileiro! Sem medo de relatar as histórias!
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1 comentário • 20 dias atrás• 1 comentário • 6 meses atrás•
Simone Batista — Custava nada essa proprietária ter avisado da Marília Maciel — Eita que texto bom Roberto!!! Gostei demais!
assombração! kkkkkkkkkkkk opapafigo.blogspot.com.br

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1 comentário • um mês atrás• 2 comentários • um ano atrás•
Paulo Henrique — Que interessante! Lembra o mito do Anhagá, Marília Maciel — Muito boa a contextualização histórica!
como narrado com Luís da Câmara Cascudo em Geografia dos Realmente eu achava que o casarão havia pertencido a Branca
mitos … Dias. …

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