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AS ORIGENS DO AA (Alcoólicos Anônimos) E DOS 12 PASSOS

O autor Philip Yancey, em um artigo chamado A IGREJA DA MEIA NOITE, supreende,


explicando que uma das suas experiências mais marcantes de igreja local, não foi em uma igreja.
Acompanhando um amigo a uma reunião que começava à meia noite em um salão alugado, Yancey
experimentou realidades de amor, aceitação e transformação que saltavam das páginas do seu Novo
Testamento. O amigo de Yancey era um alcoólatra em recuperação e a reunião a qual Yancey havia sido
convidado, era uma reunião regular de Alcoólicos Anônimos, uma comunidade de pessoas que se reúnem
para alcançar e manter a abstinência no consumo de bebidas alcoólicas.
O movimento teve seu início em 1935, quando Bill Wilson, um alcoólatra inveterado, foi visitado
por um amigo, também, alcoólatra, de quem Bill, “este daí não tem jeito”. Só que, para a surpresa total
de Bill, seu amigo Ebby, não só estava sóbrio, mas recusou a bebida que lhe fora oferecida! “Não preciso
mais”, respondeu seu amigo, “eu me tornei crente.”
Podemos imaginar muitas reações naquele momento, mas talvez só um outro alcoólatra iria
adivinhar qual foi o primeiro pensamento de Bill. Ele mesmo relata que seu primeiro pensamento foi,
“Que bom, vai sobrar mais pra mim!”
Mas a verdade é que o aspecto saudável e o amor e humildade demonstrados naquele dia e em
visitas seguintes tiveram efeito. Poucas semanas depois Bill se internou para desintoxicação pela quarta
e última vez. Os médicos achavam uma perda de tempo, mas desconheciam o poder de Deus. Sofrendo
terrivelmente os efeitos da sua dependência, Bill mergulhou em uma depressão profunda. Citamos suas
próprias palavras para entender o que aconteceu:
“A minha depressão se tornou insuportável e me senti como se estivesse no fundo de um
poço. Mesmo assim, quando eu lembrava das palavras do meu amigo, eu não conseguia
engolir a possibilidade de existir um Poder maior do que eu. Finalmente, só por um momento,
os últimos vestígios do meu orgulho obstinado foram esmagados. De repente me vi clamando,
“Se existe um Deus, que Ele se mostre! Eu estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer
coisa!” De repente o quarto se iluminou, com uma enorme luz branca, e fui tomado por um
êxtase indescritível. Era como se eu, no meu mundo interior, estivesse no topo de uma
montanha e um vento, não de ar, mas do espírito, estivesse soprando. Aí explodia na minha
consciência o seguinte pensamento, “Eu sou um homem livre!” Aos poucos este êxtase foi
passando. Eu continuava deitado na minha cama, mas agora, por um tempo, eu estava em um
outro mundo, um mundo de uma consciência nova. Ao redor de mim e dentro de mim havia
uma maravilhosa sensação de Presença, e pensei comigo mesmo, “Então este é o Deus sobre o
qual pregam!” Uma enorme paz tomou conta do meu ser e pensei, “Não importa quão erradas
as coisas parecem estar, estão bem. Tudo está bem com Deus e o Seu mundo.”
O que esta experiência desencadeou na vida de Bill Wilson está escrita em muitos livros e faz
parte do folclore do AA. O novo convertido se juntou a um grupo de estudo de evangélicos fervorosos,
parte de um movimento de reavivamento da época, chamado de “Oxford Groups”. Bill passou a
freqüentar reuniões dominicais na igreja de Calvary, sendo pastoreado pelo ministro episcopal Sam
Shoemaker, um dos líderes deste movimento nos Estados Unidos. Bill escreveu depois que, “O início do
AA adquiriu suas idéias de auto-exame, confissão de defeitos de caráter, restituição por danos causados,
e serviço aos outros direto dos “Oxford Groups” e do ensino de Sam Shoemaker, seu líder na América, e
de nenhum outro lugar.”
Para Bill, o serviço aos outros se tornou uma verdadeira cruzada de resgate de outros alcoólatras,
entendendo que parte da sua recuperação se dava à medida que ele contava sua história e ajudava o seu
próximo. Da mesma forma que Bill ajudava outros, estes outros, por sua vez, também procuravam
ajudar seus próximos. Procedimentos foram adotados para orientar os diversos grupos. Mais
importante ainda, o conteúdo foi se organizando. Tudo era, e é, muito simples. Tudo está dividido em
pequenos passos do tamanho que uma pessoa quebrada consegue tomar, mas sem fugir das duras
realidades que precisam nortear a vida do recuperando. A espinha dorsal do programa do que hoje é o
AA se chama os 12 Passos, e são, na essência, uma caminhada espiritual.
Bill levou esta mensagem primeira a um, depois a outro, depois a um grupo e depois a vários
grupos. Desse modesto início, a mensagem de esperança e restauração, através de entrega a um “Poder
Superior” tem se espalhado ao redor do mundo. Infelizmente, com o crescimento e a integração à
liderança do movimento de pessoas de diversas visões religiosas, vieram mudanças. Dentro de cinco
anos os primeiros grupos de AA já tinham se desligado dos “Oxford Groups”, considerados muito
fervorosos e religiosos. A visão de Bill era de uma comunidade de alcoólatras DEDICADOS À AJUDA
MÚTUA na batalha de se manterem sóbrios, através de um PROGRAMA DE CRESCIMENTO
ESPIRITUAL, mas que não teria doutrina ou afiliação a qualquer linha de crença específica. O grupo
seria aberto a pessoas de todas as fés, ou nenhuma fé. Para os “Oxford Grupos” o alvo era Jesus Cristo,
mas para Bill, era a simples sobriedade. Mesmo com este desligamento das suas origens, o DNA do AA
já estava estabelecido e o que Deus começou na vida do Bill Wilson e aqueles outros alcoólatras se tornou
o modelo que até hoje orienta os grupos de 12 Passos.
Hoje o AA está presente em mais de 145 países, com 89 mil grupos e mais de 20 milhões de
sócios. No Brasil, foi fundado em 1947, e hoje conta com aproximadamente 5.170 grupos e 5.275.000
sócios.
Como se isto não fosse o suficiente, o estilo e conteúdo deste programa, sintetizado nos 12 passos,
foram imediatamente adaptados e aplicados para a restauração de pessoas sofrendo de uma ampla
variedade de problemas. Conhecidos genericamente como “grupos de 12 Passos” ou “grupos de
anônimos”, hoje são mais de 200 programas formados para lidar com problemas tais como o desejo
compulsivo de jogar ou de comer demais, o vício em nicotina ou em outras drogas, e uma ampla gama de
dificuldades emocionais.
Apesar de o movimento de Doze Passos ser mais forte na América do Norte, onde começou, tem
penetração considerável em outros lugares do mundo. Por exemplo, segundo os dados fornecidos pelas
respectivas associações em 1993, o Al-Anon, programa de ajuda aos familiares de alcoólatras, tinha 32
mil grupos em mais de 104 países, e o NA – Narcóticos Anônimos, tinha 19 mil grupos em 87 países.
Mais recentes são os Neuróticos Anônimos, os Comedores Compulsivos Anônimos e os Dependentes de
Amor e Sexo Anônimos, entre vários outros. Todas essas associações têm grupos em funcionamento no
Brasil.
O programa do Celebrando a Recuperação segue, em muitas das suas atividades, o modelo
repetido pelos grupos de 12 Passos (também chamados de grupos de “ajuda mútua”) ao redor do mundo.
Como crentes, porém, o sucesso do programa no mundo não é motivo suficiente para desenvolvermos
um ministério semelhante na igreja. A Bíblia diz que precisamos “discernir o que é melhor”. Não é nossa
intenção imitar o mundo, nem mesmo os sucessos do mundo. Por isso, é necessário ler, estudar e
conhecer os programas, literaturas e pessoas experientes, tanto dos grupos de 12 passos seculares, como
cristãos.
O que fica claro é que quem está imitando quem é exatamente o oposto do que parece. Na
verdade, pelas suas origens, seu estilo de funcionamento e seu conteúdo, os grupos de 12 Passos ao redor
do mundo e, independente do perfil do público alvo, estão, consciente ou inconscientemente, imitando e
até propagando o evangelho de Jesus Cristo. Não queremos dizer com isto que os grupos de 12 Passos
(AA, NA, Al-Anon, etc.) são cristãos. Não são. Mas temos a convicção de dizer que o modelo dos 12
Passos é. CONVICÇÃO DE PECADO, CONVERSÃO, ENTREGA A DEUS, AUTO-EXAME,
CONFISSÃO, RESTITUIÇÃO, ORAÇÃO E TESTEMUNHO;
estes são todos elementos clássicos de uma fé genuinamente bíblica e cristã. Do ponto de vista
oficial do AA e dos demais grupos de ajuda mútua, como as pessoas escolhem compreender a relação
entre recuperação e salvação é completamente individual. O foco único do AA é ajudar alcoólatras a
manter a sobriedade, independente da sua fé, ou até da sua falta de fé. Mas porque os 12 Passos são uma
estrutura de discipulado espiritual firmado em princípios bíblicos, não só podem orientar a recuperação
de quem sofre de vícios, traumas e maus hábitos, como podem servir como uma ponte verdadeira fé
cristã.