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DUO VII – Dialogue Under Occupation

Anais: Textos Completos - 2016

28 a 30 de outubro de 2015
Auditório do Prédio 32 – PUCRS

Porto Alegre/RS – Brasil


ISBN: 978-85-397-0799-7

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul


Faculdade de Letras
Programa de Pós-Graduação em Letras

Anais: Textos Completos


DUO VII – Dialogue Under Occupation

28 a 30 de outubro de 2015
PUCRS, Porto Alegre/RS – Brasil

Organizadores:
Maria da Glória Corrêa di Fanti
Pedro Theobald
Bernardo Kolling Limberger
Tamiris Machado Gonçalves
Vanessa Fonseca Barbosa

EDIPUCRS
Porto Alegre/RS

2016
Anais dos textos completos do DUO VII – Dialogue Under Occupation

Realização: Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio


Grande do Sul
Financiamento: CNPq, CAPES e FAPERGS

Os textos e as imagens são de responsabilidade de seus autores.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

D536d Dialogue Under Occupation (7. : 2016 : Porto Alegre, RS)


DUO VII : Dialogue Under Occupation [recurso eletrônico] / org.
Maria da Glória Corrêa di Fanti [et al.]. – Dados eletrônicos. – Porto
Alegre : EDIPUCRS, 2016.
713 p.

Evento realizado de 28 a 30 de outubro de 2015, na PUCRS.


Modo de acesso: <http://www.pucrs.br/edipucrs>
ISBN: 978-85-397-0799-7

1. Diálogo – Análise. 2. Linguística. 3. Comunicação Intercultural.


4.Linguagem. 5. Multidisciplinaridade. I. Di Fanti, Maria da Glória
Corrêa. II. Título.

CDD 418.2

Ficha Catalográfica elaborada pelo


Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS
Reitoria
Reitor
Ir. Joaquim Clotet
Vice-Reitor
Ir. Evilázio Teixeira
Pró-Reitora de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento
Profª. Drª. Carla Denise Bonan
Pró-Reitora Acadêmica
Profª. Drª. Mágda Rodrigues da Cunha
Pró-Reitor de Administração e Finanças
Eng. Milton Sperry Winckler Junior
Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários
Prof. Dr. Sérgio Luiz Lessa de Gusmão

Faculdade de Letras
Diretora da Faculdade de Letras
Profª. Drª. Regina Kohlrausch
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras
Profª. Drª. Maria da Glória Corrêa di Fanti
Coordenadora do Departamento de Estudos Linguísticos
Profª. Drª. Lilian Cristine Hübner
Coordenador do Departamento de Estudos Literários
Prof. Dr. Paulo Ricardo Kralik Angelini
Coordenadora do Departamento de Letras Estrangeiras
Profª. Drª. Heloísa Orsi Koch Delgado

COMISSÃO ORGANIZADORA DO DUO VII


Coordenação geral
Maria da Glória Corrêa di Fanti (Presidente - PUCRS)
Ana Maria Lisboa de Mello (PUCRS)
Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA)
Lilian Cristine Hübner (PUCRS)
Marie-Hélène Paret Passos (PUCRS)
Paulo Ricardo Kralik Angelini (PUCRS)
Pedro Theobald (PUCRS)

Comitê executivo
Bernardo Kolling Limberger (Doutorando/CNPq)
Cécile Sidery (Doutoranda/Université Bordeaux 3)
Kelli da Rosa Ribeiro (Doutoranda/CNPq)
Milena Hoffmann Kunrath (Doutoranda/CAPES)
Patrick Holloway (Doutorando/CAPES)
Stéphane Rodrigues Dias (Doutoranda/CNPq)
Tamiris Machado Gonçalves (Doutoranda/CNPq)
Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq)
Apoio e realização

COMITÊ CIENTÍFICO
Adail Sobral (UCPEL)
Biagio D’Angelo (UnB)
Bruno Deusdará (UERJ)
Del Carmen Daher (UFF)
Diógenes Buenos Aires de Carvalho (UESPI)
Elise Seip Tønnesen (Universitetet i Agder, Noruega)
Fabiane Verardi Burlamaque (UPF)
Fátima Pessoa (UFPA)
Grenissa Stafuzza (UFG-CAC)
Jacqueline Penjon (Université de la Sorbonne Nouvelle, Paris 3)
Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA)
Luciane de Paula (UNESP-Assis)
Maria Cleci Venturini (Unicentro)
Maria da Graça Lisboa Castro Pinto (Universidade do Porto)
Maria José Finatto (UFRGS)
Marilene Weinhardt (UFPR)
Marília Ferreira (UFPA)
Marília Rodrigues (Unifran)
Mauro Nicola Póvoas (FURG)
Rejane Pivetta de Oliveira (UniRitter)
Rosângela Hammes Rodrigues (UFSC)
Vania Pinheiro Chaves (Universidade de Lisboa)
Vera Lúcia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ)
Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

COMITÊ CIENTÍFICO – PPGL/PUCRS


Ana Maria Lisboa de Mello
Ana Maria Tramunt Ibaños
Antonio Carlos Hohlfeldt
Augusto Buchweitz
Carlos Alexandre Baumgarten
Carlos Gerbase
Charles Kiefer
Charles Monteiro
Cláudia Regina Brescancini
Cláudio Primo Delanoy
Cristina Becker Lopes Perna
Eneida de Goes Leal
Jorge Campos da Costa
Karina Veronica Molsing
Leci Borges Barbisan
Leda Bisol
Lilian Cristine Hübner
Luiz Antonio de Assis Brasil
Maria da Glória Corrêa di Fanti
Maria Eunice Moreira
Maria Tereza Amodeo
Marie-Hélène Ginette Paret Passos
Noelci Fagundes da Rocha
Norman Roland Madarasz
Paulo Ricardo Kralik Angelini
Pedro Theobald
Regina Kohlrausch
Ricardo Araujo Barberena
Ricardo Timm de Souza
Vera Wannmacher Pereira

PROGRAMAÇÃO GERAL

28 de outubro (quarta-feira)
Manhã:
8h30min-9h30min – Credenciamento
Auditório Térreo do Prédio 32
9h30min-10h – Abertura Oficial
10h-12h - Conferência Inaugural:
“Discurso político antirracista no Brasil”
Teun A. van Dijk (Universitat Pompeu Fabra, Espanha)
Debatedora: Diana Luz Pessoa de Barros (UPM/USP)

Tarde:
13h30min-15h30min
MESA DE EGRESSOS: 45 ANOS DO PPGL
“A sociolinguística variacionista no Brasil: uma proposta que deu certo”
Dermeval da Hora (UFPB)
“A escrita criativa e a universidade”
Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS)
“O homem nasce na cultura: de uma antropologia da enunciação”
Valdir do Nascimento Flores (UFRGS)
“Minha formação: 44 anos de PPGL”
Vera Teixeira de Aguiar
Moderadora: Rejane Pivetta de Oliveira (UniRitter)
15h30min-16h30min – Lançamento de Livros
16h30min-18h30min - Mesa-Redonda:
EXPRESSÃO DE CONFLITOS: ABORDAGEM DISCURSIVA, LITERÁRIA E FILOSÓFICA
"Positioning the voices of conflict: language manipulation in the Diálogos de Paz"
Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA)
"'Eu sofro', é melhor que: ‘Esta paisagem é feia'? A literatura diante do trauma"
Marcio Seligmann-Silva (Unicamp)
“Filosofia e violência”
Ricardo Timm de Souza (PUCRS)
Moderadora: Cristina Perna (PUCRS)

29 de outubro (quinta-feira)
Manhã:
8h-10h15min - Sessões de Comunicação
10h15min–10h30min - Intervalo
10h30min-12h30min – Painel:
DILEMAS INTERCULTURAIS: ALTERIDADE, MEMÓRIA E PRODUÇÃO DE SENTIDOS
“Le choc des cultures: la femme migrante dans le roman contemporain”
Janet Paterson (University of Toronto, Canadá)
“Compartilhar as Américas: ressignificando a Americanidade em uma perspectiva relacional”
Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)
Debatedor: Patrick Imbert (Université d'Ottawa, Canadá)

Tarde:
14h-16h – Mesa-Redonda:
EXPRESSÃO DE CONFLITOS: IMPASSE, INTOLERÂNCIA E RESISTÊNCIA
“O olhar enviesado do outro: a falência da ajuda externa ao desenvolvimento”
Ricardo Seitenfus (UFSM)
“Estudos discursivos da intolerância na perspectiva semiótica: algumas reflexões sobre discursos políticos e
discursos na internet”
Diana Luz Pessoa de Barros (UPM/USP)
“Resistência ao Islã no poder: o (o)caso da Irmandade Muçulmana”
Silvia Ferabolli (UniRitter)
Moderador: Charles Monteiro (PUCRS)
16h-16h30min – Intervalo
16h30min-18h30min - Mesa-Redonda:
DIÁLOGO EM PERSPECTIVA: TRABALHO, LINGUAGEM E FORMAÇÃO
“Abordagem ergológica e necessidade de interfaces pluridisciplinares”
Yves Schwartz (Aix-Marseille Université, França)
“Práticas discursivas contemporâneas: o que se modifica no trabalho?”
Maria Cecília Pérez de Souza-e-Silva (PUC-SP)
“Educação e ergologia: diálogos pertinentes”
Maria Clara Bueno Fischer (UFRGS/Faced)
Moderadora: Maria da Glória Corrêa di Fanti (PUCRS)
20h – Jantar por adesão

30 de outubro (sexta-feira)
Manhã:
8h-9h45min - Sessões de Comunicação
9h45min–10h - Intervalo
10h-12h – Painel:
DILEMAS INTERCULTURAIS: REPRESENTAÇÃO SOCIAL, DIVERSIDADE E IDENTIDADE
“Las narrativas de resistencia”
Irene Vasilachis de Gialdino (CEIL-CONICET, Argentina)
“Reflexiones sobre los diálogos culturales en el contexto de las perspectivas culturales y a-culturales de la
modernidad”
Patrick Imbert (Université d'Ottawa, Canadá)
Debatedor: Antonio Hohlfeldt (PUCRS)

Tarde:
13h-16h - Sessões de Comunicação
16h10min-16h50min – Conferência: Memória e Linguagem
Jociane de Carvalho Myskiw (PUCRS/InsCer)
Debatedora: Lilian Cristine Hübner (PUCRS)
16h50min-17h30min – Deslocamento para a Feira do Livro
17h30min-19h30min
Painel de Encerramento na Feira do Livro de Porto Alegre
Local: Santander Cultural – Sala Leste
DIÁLOGO EM PERSPECTIVA: A LINGUAGEM NA ARTE E NA VIDA
“A linguagem é a vida da arte e a arte é linguagem da vida”
Adail Sobral (UCPEL)
“Experiência e linguagem”
Milton Hatoum (escritor, São Paulo)
Debatedor: Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS)

SUMÁRIO
A prática do diálogo 11-18
Maria da Glória di Fanti, Pedro Theobald
Vestígios de cultura em testemunhos dos povos ameríndios 19-32
Adélia Maria Evangelista Azevedo
A ausência que seremos, de Héctor Abad: uma escrita para não esquecer 33-41
Amanda Oliveira
Caracterização acústica das fricativas sibilantes em português brasileiro: uma interface entre a Linguística e a Engenharia 42-48
Ana Paula Correa da Silva Biasibetti
Sentidos em conflito no discurso sobre o massacre de Curitiba 49-57
Antonia Zago, Gabriela da Silva Zago
Linguística e Neurociência em diálogo: o processamento de múltiplas línguas no cérebro 58-67
Bernardo Kolling Limberger
Interpretações do Supremo Tribunal Federal: a atividade responsiva e o ato responsável na decisão sobre o racismo 68-78
Bruna de Carvalho Chaves Peixoto
Relação entre produção discursiva, nível de escolaridade e declínio cognitivo 79-90
Bruna Tessaro, Ellen C. Gerner Siqueira, Fernanda Soares Loureiro, Lilian Cristine Hübner
Seres estranhos: personagens em desencontros em romances de Dulce Maria Cardoso 91-98
Bruno Mazolini de Barros
Literatura: uma performance inaugural 99-106
Camila Alexandrini
História, trauma e literatura: a posição do narrador em Os anéis de saturno, de W. G. Sebald 107-114
Carla Lavorati
Fenomenologia do imaginário e literatura: uma leitura de A desumanização, de Valter Hugo Mãe 115-124
Cássia Gianni de Lima, Regina Kohlrausch
O escopo da violência em Moçambique colonial retratado em Xefina, de Juvenal Bucuane 125-133
Chimica Francisco
Discursos de instituições financeiras: a cenografia e ethos nas manifestações da identidade e da cultura organizacional 134-147
Eliana Davila dos Santos
Benefícios de um inglês jurídico com mais clareza e simplicidade 148-162
Elisa Corrêa dos Santos Townsend, Christiane Heemann
A consciência metalinguística em crianças bilíngues 163-175
Ellen Cristina Gerner Siqueira, Talita dos Santos Gonçalves
Criativo ou padronizado: o fazer literário contemporâneo 176-188
Emir Rossoni
Espaços e formas de presença do outro na ficção de Dalton Trevisan 189-201
Eneida A. Mader
Maciste no inferno: o cinema na obra de Valêncio Xavier 202-208
Fernanda Borges
Produção discursiva na afasia bilíngue: enfoque nos padrões de recuperação das línguas 209-218
Fernanda Schneider
Maus – um roer pós-moderno do Holocausto 219-231
Gabriel Felipe Pautz Munsberg
O conflito e o trauma: memórias de uma realidade dolorosa em K. Relato de uma busca de Bernardo Kucinski 232-238
Gabriela de Oliveira Guedes
A consciência textual no processamento da compreensão leitora: fundamentos teóricos e instrumentos de aplicação 239-251
Gabriela Fontana Abs da Cruz, Gabrielle Perotto de Souza da Rosa, Leandro Lemes do Prado
Paul Auster, entre outros: interfaces interartísticas e convergências 252-262
Gabriela Semensato Ferreira
Bilinguismo na infância através do método Learning Fun 263-269
Gislaine Müller de Castro, Claus Dieter Stobäus
Gestão dos usos de si na atividade laboral: tensões evidenciadas nos discursos em editoriais de um jornal de empresa 270-280
Gislene Feiten Haubrich
Bóris e Dóris: algumas notas sobre o diálogo 281-287
Guilherme Azambuja Castro
Henry Lawson em português: dilemas interculturais em tradução de literatura 288-294
Gustavo Arthur Matte
Reflexões sobre modulação pedagógica no processo ensino/aprendizagem: um estudo de caso 295-308
Gustavo Giusti, Adail Sobral
Ausência da cultura: retratos da Linguística Aplicada brasileira 309-320
Hilário I. Bohn, Luiza Machado da Silva
Livros High Tech: reflexões sobre a nova experiência literária-tecnológica 321-331
Iuli Gerbase
Psique humana como expediente literário na primeira versão de Quincas Borba 332-340
Janaína Tatim
Um diálogo entre literatura e filosofia: a representação do Mal no romance O Morro dos Ventos Uivantes 341-354
João Pedro Rodrigues Santos
A metapragmática em foco: uma proposta de estruturação de protocolo para o estudo da consciência pragmática 355-369
Jonas Rodrigues Saraiva, Patrícia Martins Valente
Valoração do trabalho doméstico não-remunerado: diálogos filosóficos entre Hannah Arendt e Yves Schwartz 370-378
Joseane Laurentino de Brito Lira
Infância roubada nas vozes que se calam: uma leitura do conto de fadas Pele de Asno contrapondo ao miniconto Cicatriz 379-388
Juliane Della Méa, Luana Teixeira Porto
Reverberações épicas no contemporâneo: o diálogo entre Gonçalo Tavares e a epopeia camoniana 389-398
Kim Amaral Bueno
Cuidado! Não rotule! Siga adiante! Uma pedagogia cultural de autoajuda em fan pages do Facebook 399-408
Lauren Escoto Moreira, Angela Dillmann Nunes Bicca
The best of young Brazilian novelists: apoio à internacionalização da literatura brasileira 409-418
Lilia Baranski Feres, Valéria Silveira Brisolara
Efeitos colaterais do progresso: desenraizamento e exclusão social em O livro das impossibilidades, de Luiz Ruffato 419-430
Luciane Figueiredo Pokulat
Linguagem e cognição: a interface do processamento sintático através de um experimento de produção de sentenças do PB 431-445
Mariana Terra Teixeira
Contribuições da teoria dos blocos semânticos para o ensino da escrita acadêmica 446-454
Maristela Schleicher Silveira
Medianeras: Buenos Aires em tempos de globalização 455-459
Michele Neitzke
Alfred Andersch: reflexões sobre o conflito não resolvido entre biografia e obra à luz da estética da recepção 460-466
Milena Kunrath
Desafios na anotação automática morfossintática de corpus de língua falada 467-478
Mônica Rigo Ayres
A pulsão da escrita feminina: ensaio passos para a narrativa autoficcional 479-485
Olívia Scarpari Bressan
A consciência textual em diálogo com o ensino de uma compreensão leitora eficaz 486-494
Patricia de Andrade Neves, Danielle Baretta, Fernanda Schneider
Mães e filhos na Literatura Hispanoamericana: conflitos e (não) diálogos entre gerações 495-505
Pedro Afonso Barth, Rafaelly Andressa Schallemberger
Compreensão do sentido de discursos em tiras com base numa interface entre as concepções dialógica e argumentativa de 506-513
linguagem
Rafael S. Timmermann, Telisa Furlanetto Graeff
Projeto Balbúrdia: Escrita Criativa no espaço de fronteira 514-522
Renata Silveira da Silva, Sandro Martins Costa Mendes
A categoria de pessoa, o testemunho e a (im)possibilidade do diálogo entre culturas 523-536
Renata Trindade Severo
Sobre o que fazemos: diálogo de Bernardo Carvalho com Ramón Nieto sobre o processo de criação ficcional 537-550
Rodrigo Alfonso Figueira
A cultura e o comportamento linguageiro do líder como um discurso da identidade de marca 551-563
Rosana Vaz Silveira, Ernani Cesar de Freitas
A nostalgia do encontro: memória e fragmentação na obra Mamma, son tanto felice, de Luiz Ruffato 564-575
Roseli Bodnar
O estudo do humornonsense: das metarregras de coerência aos blocos semânticos 576-585
Roseméri Lorenz
Compreensão leitora e auditiva na afasia: uma revisão sistemática 586-599
Sabrine Amaral Martins
Diálogo literatura e cinema: o personagem Dorival, de Tabajara Ruas 600-609
Sandro Martins Costa Mendes
Insane Lucy: mental health in Charlotte Brontë’s Villette 610-620
Sophia Celina Diesel
Reasoning via dialogue: an illustrative analysis of deliberation 621-632
Stéphane Dias, Jane Rita Caetano da Silveira
Charges polêmicas: vozes sociais em tensão 633-642
Tamiris Machado Gonçalves
O papel da linguagem na fundação da singularidade do ser e da ação: diálogos filosóficos entre M. Bakhtin e H.Arendt 643-649
Thaís de Andrade Lima
Choque de culturas em Quarenta Dias 650-657
Tiago Dantas Germano, Laila Ribeiro Silva
A atividade de trabalho do revisor de textos: um fazer dialógico 658-673
Vanessa Fonseca Barbosa
História, Teoria e Ficção e a impossibilidade de narrar a história na obra Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares 674-683
Vanessa Hack Gatteli
Livro eletrônico em duplo formato: diálogo entre Psicolinguística, Pragmática, Educação e Computação 684-695
Vera Wannmacher Pereira, Thaís Vargas dos Santos
O sujeito pós-moderno e a impossibilidade da comunicação: uma análise de Reprodução, de Bernardo Carvalho 696-702
Virgínea Novack Santos da Rocha
A vida como ela é, segundo O olhar de Silviano Santiago 703-713
Wilson Ferreira Barbosa
Anais do DUO VII - 2016
Dialogue Under Occupation
Porto Alegre, RS, outubro de 2015
Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL)
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

A PRÁTICA DO DIÁLOGO

Maria da Glória Corrêa di Fanti1


Pedro Theobald2

Para comemorar os 45 anos de atividade, o Programa de Pós-Graduação em


Letras (PPGL) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
acolheu, entre os dias 28 e 30 de outubro de 2015, o DUO VII, Dialogue Under Occupation,
evento internacional, interdisciplinar e itinerante.
O Dialogue Under Occupation (DUO) teve sua origem em um Grupo de Pesquisa,
composto por pesquisadores de universidades ocidentais, médio-orientais e orientais.
A proposta do evento, de modo geral, tem sido discutir com a comunidade acadêmica
dois conceitos-chave: diálogo e ocupação. A sede de referência do DUO é
a Northeastern Illinois University, tendo em vista que lá se encontra o fundador do
Grupo, o professor Lawrence N. Berlin.
O primeiro DUO aconteceu em 2006, em Chicago, na própria Northeastern
Illinois University. Em 2007, o evento foi para Abu Dis, em Jerusalém Oriental. Em
2009, o congresso foi sediado na Pontificia Universidad Javeriana, em Bogotá
(Colômbia). Em 2010, o evento retornou aos Estados Unidos, sendo realizado em
Washington DC, com a cooperação da American University e da George Mason
University. Em 2011, o congresso foi para a parte oriental do globo, sendo
sediado pela Okinawa International University, em Okinawa (Japão). Em 2012, o
encontro aconteceu no Oriente Médio, sendo acolhido pela Lebanese American
University, em Beirute (Líbano).
Em 2015, em sua sétima edição, o evento se propôs a reunir especialistas do
Brasil e do exterior para refletirem sobre estudos relativos ao diálogo em diferentes
configurações, delineadas a partir de três grandes eixos temáticos: Diálogo em
Perspectiva, Dilemas Interculturais e Expressão de Conflitos. Além de concentrar-se
nas especificidades do evento em sua origem, foram consideradas particularidades do
PPGL/PUCRS, que sediou o DUO VII. Tendo em vista as áreas de concentração do
Programa – Linguística, Teoria da Literatura e Escrita Criativa – e as interfaces com
diferentes campos do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, Comunicação,
Educação, Psicologia etc., o DUO VII voltou-se, a partir de variados enfoques, a

1
Doutora pela PUC/SP, professora da PUCRS. E-mail: gloria.difanti@pucrs.br
2
Doutor pela UFRGS, professor da PUCRS. E-mail: perth@pucrs.br

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aprofundar teorias e metodologias que pudessem iluminar estudos sobre os eixos


temáticos focalizados no evento.
No eixo Diálogo em Perspectiva, foram contempladas pesquisas que tratam do
tema diálogo em diferentes abordagens e/ou colocam em diálogo diferentes objetos
de investigação. Desse modo, diferentes pesquisas referentes ao diálogo, advindas da
produção acadêmica das variadas áreas do conhecimento, foram bem-vindas. Dentre
elas, destacamos: identidade, alteridade, interação entre discursos, interação entre
sujeitos sócio-históricos, interação face a face, diálogos intersemióticos, interfaces
entre áreas.
O eixo Dilemas Interculturais propôs discussões a respeito do panorama
complexo de problemas enfrentados no mundo intercultural contemporâneo,
aprofundando o debate sobre aspectos discursivos, culturais e sociais envolvidos nesse
panorama de conflitos. Nesse eixo temático, foram contempladas considerações
teóricas e práticas acerca dos diferentes universos simbólicos e discursivos que
envolvem os tensos contatos entre culturas, levando-se em conta os choques de
valores sociais, ideológicos e políticos que se impõem. Na agenda dos estudos sobre
dilemas interculturais, foram incluídas investigações que versam sobre os seguintes
temas: multiculturalismo e transculturalismo, multilinguismo, hibridismo cultural,
choque de culturas, gerações, crenças e valores, relativismo e universalismo cultural,
orientalismo e ocidentalismo, apelos midiáticos, materialismo e humanismo,
modernidade e pós-modernidade, individualismo e coletividade, dentre outros.
Em Expressão de Conflitos, foram enfocados possíveis caminhos teóricos e
práticos no sentido de problematizar diferentes situações de interação social de
confronto, desacordo ou frustração, presentes em estudos de campos diversos.
Partindo da ideia de que o conflito abre espaços para variadas investigações e
possibilita o diálogo nas suas diversas dimensões e expressões de linguagem, foram
contempladas, nesse eixo temático, pesquisas sobre distintos contextos culturais de
convivência em que haja conflitos, impasses e relações tensas, em diferentes esferas
de atividade humana, tais como: laboral, artística, educativa, política, midiática, clínica,
hospitalar, ambiental, econômica e assim por diante.
Considerando o exposto, o principal objetivo do DUO VII foi criar um espaço
privilegiado de discussão entre estudiosos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros
das áreas de Linguística, Literatura, Escrita Criativa e áreas afins para intercâmbio de
experiências sobre estudos atuais relativos ao diálogo, contemplando os três eixos
temáticos: Diálogo em Perspectiva, Dilemas Interculturais e Expressão de Conflitos.
Também buscou promover o encontro entre pesquisadores seniores e juniores para o
desenvolvimento de trabalhos e estudos nas áreas focalizadas; divulgar pesquisas

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realizadas no País e no exterior sobre os temas do evento; e estimular o interesse por


questões que envolvem a relação entre diálogo e ocupação.
Contando com o apoio de CNPq, CAPES, FAPERGS e PUCRS, o evento reuniu
convidados e participantes do Brasil e exterior e foi organizado em conferências,
painéis, mesas-redondas e sessões de comunicação (individual e coordenada). Quanto
às conferências, foram proferidas duas conferências individuais, seguidas de debate. A
conferência inaugural, “Discurso político anti-racista no Brasil”, esteve a cargo de Teun
A. van Dijk, da Universitat Pompeu Fabra, de Barcelona (Espanha), e teve como
debatedora Diana Luz Pessoa de Barros (UPM/USP). A outra conferência, “Memória e
linguagem”, foi proferida por Jociane de Carvalho Myskiw (PUCRS/InsCer) e teve como
debatedora Lilian Cristine Hübner (PUCRS).
Os três painéis que integraram a programação do DUO VII foram organizados
com duas conferências, seguidas de debate. O painel “Dilemas interculturais:
alteridade, memória e produção de sentidos” teve como conferencistas Janet Paterson
(University of Toronto, Canadá) e Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS), e como debatedor
Patrick Imbert (Université d'Ottawa, Canadá). Outro painel, “Dilemas interculturais:
representação social, diversidade e identidade”, contou com as conferências de Irene
Vasilachis de Gialdino (CEIL-CONICET, Argentina) e Patrick Imbert (Université d'Ottawa,
Canadá) e o debate de Antonio Hohlfeldt (PUCRS). O painel de encerramento, que
ocorreu na 61ª Feira do Livro de Porto Alegre, teve a participação de Adail Sobral
(UCPEL) e Milton Hatoum (escritor, São Paulo), com a moderação de Luiz Antonio de
Assis Brasil (PUCRS).
Foram organizadas quatro mesas-redondas. A primeira delas, “Mesa de
egressos: 45 anos do PPGL”, teve a participação de Dermeval da Hora (UFPB), Luiz
Antonio de Assis Brasil (PUCRS), Valdir do Nascimento Flores (UFRGS) e Vera Teixeira de
Aguiar, com moderação de Rejane Pivetta de Oliveira (UniRitter). Da segunda mesa,
“Expressão de conflitos: abordagem discursiva, literária e filosófica”, participaram como
palestrantes Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA), Marcio
Seligmann-Silva (Unicamp) e Ricardo Timm de Souza (PUCRS), tendo como moderadora
Cristina Perna (PUCRS). A mesa “Expressão de conflitos: impasse, intolerância e
resistência” teve a participação de Ricardo Seitenfus (UFSM), Diana Luz Pessoa de
Barros (UPM/USP) e Silvia Ferabolli (UniRitter), com a moderação de Charles Monteiro
(PUCRS). A quarta mesa, “Diálogo em perspectiva: trabalho, linguagem e formação”,
contou com as palestras de Yves Schwartz (Aix-Marseille Université, França), Maria
Cecília Pérez de Souza-e-Silva (PUC-SP) e Maria Clara Bueno Fischer (UFRGS/FACED),
com a moderação de Maria da Glória Corrêa di Fanti (PUCRS).
As sessões de comunicação foram organizadas a partir dos trabalhos aceitos

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Dialogue Under Occupation
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Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)

pela Comissão Científica do DUO VII, atendendo às orientações de participação no


evento. Participaram pesquisadores de diferentes níveis de formação (mestrandos,
mestres, doutorandos e doutores) de vários Estados do Brasil e do exterior, distribuídos
em 27 sessões de comunicações individuais e 17 de comunicações coordenadas.
Receber a sétima edição do DUO no ano em que o PPGL completou 45 anos de
atividade e a Faculdade de Letras, 75 anos, foi um marco para a história do PPGL, não
só pela oportunidade de colocar em debate temas atuais, que tocam grande parte das
pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, mas também por proporcionar o encontro
de diferentes pesquisadores, dentre eles os egressos do Programa, engajados no tema
maior do evento: o diálogo. Em seu histórico, consta que o Programa foi autorizado em
1969 e começou as atividades em 1970, com mestrado em Linguística Aplicada (hoje
Linguística) e, em 1972, em Teoria Literária (hoje Teoria da Literatura). A partir de 1978,
introduziu o doutorado nas duas áreas. Em 2012, após comprovada experiência, inovou
ao criar uma nova área – Escrita Criativa – com origem na Teoria da Literatura. Desde
então as áreas se organizam da seguinte forma: a Linguística com duas linhas de
pesquisa (Teoria e Análise Linguística e Teorias e Uso da Linguagem), a Teoria da
Literatura com duas linhas (Teorias Críticas da Literatura e Literatura, História e
Memória) e a Escrita Criativa com uma linha (Leitura, Criação e Sistema Literário). As
áreas têm em comum uma linha de pesquisa: Fundamentos Linguístico-Literários da
Linguagem.3
O PPGL, tendo formado 988 mestres e 434 doutores até dezembro de 2015,
passou por variadas etapas até chegar ao momento atual. Na fase inicial, entre 1970 e
1977, houve uma integração mais regional, com ênfase no acolhimento de alunos de
diferentes Instituições do Ensino Superior do Rio Grande do Sul, ainda que os
professores viessem de outros espaços culturais. Foi nessa fase que a Revista Letras de
Hoje (criada em 1967) vinculou-se ao PPGL. Na fase seguinte, de 1978 a 2004, houve
uma expansão do Programa, notadamente com a contratação de professores
estrangeiros e o acolhimento de alunos das cinco regiões brasileiras, o que contribuiu
para o crescimento da pós-graduação nacional. Em 1985, a Oficina de Criação Literária,
ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, veio a público para incentivar a
produção artística de novos autores.
Na fase atual, iniciada em 2005, tendo como marco a gestão do Reitor Joaquim
Clotet, o PPGL registrou um avanço na produção de conhecimento, tanto em nível
docente quanto discente, notadamente na produção científica de qualidade, na

3
Para maiores informações, consulte o site do Programa: http://www.pucrs.br/fale/ppgl/
apresentacao/. Acesso em 27 abr. 2016.

Dialogue Under Occupation 14


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qualificação de pós-doutorado e de estágio-sanduíche e na internacionalização. De


2006 a 2011, a área de Teoria da Literatura passou a destinar três vagas de mestrado
para alunos que quisessem elaborar trabalho criativo. O diferencial do trabalho de
conclusão consistia na elaboração de uma criação literária, além de um ensaio sobre o
processo criativo. Em 2011, com 12 mestrados e 1 doutorado concluídos com trabalho
criativo, o PPGL propôs a área de Escrita Criativa, aprovada pela Câmara de Pós-
Graduação, que iniciou em 2012, com disciplinas teóricas de reflexão sobre o processo
criativo. Além da criação literária, a nova área acolhe a produção de documentários,
roteiros de websérie e narrativas híbridas. Com inspiração interdisciplinar, a nova área
credenciou docentes da Comunicação, Filosofia e História da PUCRS.
Com a reestruturação do Programa, foram fortalecidos os intercâmbios com
pesquisadores do Brasil e do exterior; cresceu o número de doutorandos em estágio-
sanduíche no exterior (média de 09 por ano), com apoio do CNPq, CAPES, DAAD e
Fulbright, e o número de pós-doutorados dos docentes no exterior (73% dos
professores têm pós-doutorado), com o apoio do CNPq, CAPES e Fundação Carolina;
intensificaram-se relações internacionais com reciprocidade na realização de eventos,
publicações, intercâmbio de docentes, coorientação e cotutela de teses. Além das
parcerias nacionais com instituições como UFRGS, UFSC, FURG, UFPR, UnB, UFRN,
PUCSP, UERJ, UFF, USP, UFPA, UNISINOS, UPF, UNISC, UCPEL, o PPGL da PUCRS possui
parceria com importantes instituições do exterior, como Universidade de Lisboa,
Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris 3, Freie Universität Berlin, Universidade de
Coimbra, University of Ottawa, ITEM – Institut de Textes et Manuscrits Modernes,
Université Michel de Montaigne, Universidad de Barcelona, École des Hautes Études en
Sciences Sociales de Paris, Université d’Aix-Marseille, Université de Montréal, City
University of New York (Cuny), Universidade do Porto, Vrije Universiteit Amsterdam,
Université de La Sorbonne – Paris 4, Universidade de Santiago do Chile, Brock
University e University of Toronto.
Ao longo dos anos, o PPGL ampliou e fortaleceu, dentre outras, as parcerias
nacionais e internacionais, a liderança em grupos de pesquisa certificados pelo CNPq,
as pesquisas desenvolvidas, a participação nos Grupos de Trabalho na ANPOLL, a
organização de eventos e a participação em eventos importantes da área, as
orientações de mestrado, doutorado e pós-doutorado, e a publicação qualificada em
livros e revistas. Na última avaliação trienal da CAPES, algumas considerações apontam
para o reconhecimento do Programa em termos de relevância “na área da pós-
graduação no país, formando professores e pesquisadores que atuam em outras
instituições”. A avaliação também destaca:

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[…] Sua inserção [...] local, regional e nacional, estendendo-se para o


cenário internacional, por meio de intercâmbios, convênios,
pesquisas conjuntas, co-tutelas, entre outros. O trabalho em equipe
favorece a produção de relevo que pode ser verificada na formação
do acervo de escritores, nos livros e periódicos de responsabilidade
dos docentes e dos discentes. Trata-se assim de um programa
consolidado, com experiência de liderança e contribuição efetiva para
a construção do conhecimento no país, com impacto nos diversos
níveis de ensino […].4

O ano de 2015, duplamente histórico, para o PPGL e a Faculdade de Letras,


constituiu, pois, uma ocasião mais do que justificada para, em associação com outras
instituições, realizar a celebração de um grande evento. Reconhecendo a importância
do DUO VII para o fortalecimento de parcerias de pesquisa entre os participantes do
evento e para a divulgação dos trabalhos desenvolvidos em distintos centros de
investigação, foram propostas três publicações. Foi organizado um número especial
(suplementar) da Revista Letras de Hoje, publicado em 2015, com o tema “PPGL em
Diálogo – 45 anos”. Será publicado, em 2016, um número especial da Revista
Letrônica, cuja temática é “Diálogos”, contendo artigos de participantes do evento. Por
fim, e não menos importante, vêm a público os Anais do evento, contendo os textos
completos dos trabalhos apresentados no DUO VII.
Tendo em vista esse cenário, temos muito a agradecer àqueles que
colaboraram para a realização do evento. Sem esgotar os colaboradores que merecem
reconhecimento, em nome da comissão organizadora do DUO VII (professores Ana
Maria Lisboa de Mello, Lawrence N. Berlin, Lilian Cristine Hübner, Maria da Glória
Corrêa di Fanti, Marie-Hélène Paret Passos, Paulo Ricardo Kralik Angelini e Pedro
Theobald), não podemos deixar de registrar os seguintes agradecimentos:

- aos convidados – brasileiros e estrangeiros – que participaram das


conferências, dos painéis e das mesas-redondas, pelas brilhantes contribuições
durante os três dias do encontro;

4
Sobre a avaliação trienal de 2013 (2010-2012) do PPGL/PUCRS, consultar o site:
http://conteudoweb.capes.gov.br/conteudoweb/ProjetoRelacaoCursosServlet?acao=detalham
entoIes&codigoPrograma=42005019009P1&descricaoGrandeArea=LING%DC%CDSTICA%2C+LE
TRAS+E+ARTES+++++++++++++++++++++++++++++++++&descricaoAreaConhecimento=LING%
DC%CDSTICA Acesso em: 10 out. 2015.

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- ao professor Lawrence N. Berlin, fundador do Dialogue Under Occupation, e à


Northeastern Illinois University, pela oportunidade da parceria na realização da
sétima edição do DUO;
- ao comitê executivo, constituído por doutorandos do PPGL/PUCRS (Bernardo
Kolling Limberger, Kelli da Rosa Ribeiro, Milena Kunrath, Patrick Holloway,
Stéphane Dias, Tamiris Machado Gonçalves, Vanessa Fonseca Barbosa) e pela
doutoranda Cécile Sidery da Université Bordeaux (em cotutela de tese com
dupla titulação), pela qualificada contribuição antes, durante e depois da
realização do evento;
- ao Comitê científico, formado por professores de diversas instituições
brasileiras e estrangeiras, pela importante colaboração na avaliação dos
trabalhos para apresentação e para publicação nos Anais;
- aos órgãos de fomento – CNPq, CAPES e FAPERGS – pelo incentivo financeiro
para a realização do evento; e
- aos setores da PUCRS que apoiaram a realização do DUO VII: Coordenadoria de
Pesquisa Interdisciplinar, Assessoria para Assuntos Internacionais e
Interinstitucionais, Programa de Pós-Graduação em Letras, Faculdade de
Letras, Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, Pró-Reitoria
Acadêmica e Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento.

Por fim, agradecemos aos participantes do DUO VII, representados pelos


autores que publicam nestes Anais, pela apresentação dos trabalhos, participação dos
debates e presença nas variadas atividades do evento. Foram três dias intensos de
reflexão e discussão, em que foi possível vislumbrar A prática do diálogo, em seus
eixos temáticos: Diálogo em Perspectiva, Dilemas Interculturais e Expressão de
Conflitos.

Referências

[Avaliação Trienal 2013 do PPGL, CAPES]. Disponível em:


http://conteudoweb.capes.gov.br/conteudoweb/ProjetoRelacaoCursosServlet?acao=d
etalhamentoIes&codigoPrograma=42005019009P1&descricaoGrandeArea=LING%
DC%CDSTICA%2C+LETRAS+E+ARTES+++++++++++++++++++++++++++++++++&desc
ricaoAreaConhecimento=LING%DC%CDSTICA. Acesso em 10 out. 2015.
LETRAS DE HOJE, PPGL em Diálogo – 45 Anos, Porto Alegre, EDIPUCRS, v.50, n. esp.
(supl.), dez., 2015. Disponível em:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/issue/view/1018

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LETRÔNICA, Diálogos, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2016 (no prelo). Disponível em:
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/letronica
[Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS]. Disponível em:
http://www.pucrs.br/fale/ppgl/apresentacao/ Acesso em 27 abr. 2016.

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VESTÍGIOS DE CULTURA EM TESTEMUNHOS DOS POVOS AMERÍNDIOS

Adélia Maria Evangelista Azevedo1

A opção pela Linguística de Benveniste e as aproximações com a Antropologia: em


busca de vestígios

No primeiro dia de aula chegou um professor chamado Mario ele era


estranho para nós tínhamos medo deles mas o cacique Juarez sabia
falar muito bem a língua portuguesa então ele nos explicou que o
professor iria nos ensinar a falar outras língua, ele nos ensinou a
sermos educados e como falara o português corretamente. (RED 050)

[...] mas o que ela [criança] aprende, na verdade, não é o exercício de


uma faculdade “natural”, é o mundo do homem. (BENVENISTE, 2006,
p. 20-21)

Apresentamos duas epígrafes que se implicam em torno da reflexão dos


“Vestígios2 de cultura em testemunhos3 dos povos ameríndios”. A primeira é
considerada por nós, no bojo da análise enunciativa, um testemunho que foi retirado
da produção textual RED4 050. A segunda, diz respeito ao princípio epistemológico de

1
Doutora em Letras pelo PPGL – UFRGS. Docente efetiva da Universidade Estadual de Mato Grosso do
Sul. E-mail: adeliaevan@hotmail.com
2
O termo vestígio é utilizado por Benveniste, no estudo de 1956, por ocasião da reflexão do
procedimento metodológico do psicanalista quando da escuta do testemunho do paciente pelo analista.
Aqui, vestígio segue o direcionamento linguístico-enunciativo visto que interpreta o dado como
acontecimento empírico no e pelo discurso, sem o qual não há dimensão constitutiva nem para o
trabalho investigativo do analista, nem mesmo para a realidade do testemunho do sujeito.
3
O conceito de testemunho(s) é compreendido a partir do princípio enunciativo de Émile Benveniste,
mais propriamente, em parte do trabalho de 1970, O aparelho formal da Enunciação visto que primeiro
o termo é tomado pela realização individual de língua pelo sujeito. O segundo direcionamento para o
termo segue interpretações do filósofo italiano Giorgio Agamben (2008), com dois outros
desdobramentos: o primeiro no campo da subjetivação enquanto ato do acontecimento da palavra no
discurso. O segundo tem compreensão na dimensão filosófica de dessubjetivação enquanto
esvaziamento do indivíduo real “eu” para constituição do “eu” que se dá no discurso. Em síntese, o
testemunho é o ato do discurso que pressupõe a passagem de locutor a sujeito pela apropriação da
língua no discurso.
4
A sigla compreende o uso da palavra “redação” e faz parte do corpus de pesquisa disponibilizado pela
Comissão Permanente de Seleção – COPERSE. O material coletado deu origem aos dados que compõem
as análises e discussões na tese de doutorado: A experiência na e pela língua(gem) em testemunhos de

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Émile Benveniste, o qual elucida a respeito da apropriação da língua como sendo a


passagem do sujeito ao mundo do homem.
As pistas iniciais têm por objetivo apresentar ao leitor o nosso interesse pelo
ato de verbalização, no caso a enunciação escrita em língua portuguesa, produzida por
indígenas. Percorremos leituras epistemológicas de Émile Benveniste com diálogos
herdeiros desses princípios enunciativos em Laplantine (2013), Teixeira (2012), Flores
(2013), a Filosofia com Agamben (2005; 2006) e a Antropologia com Castro (2011) e
demais linguistas. Eis que tais escolhas teóricas revelam parte do percurso
metodológico, no caso, nosso batismo, na Teoria da Enunciação, quando da seleção
dos textos do linguista sírio, sob a orientação de Flores (2008; 2012) durante o
doutorado no PPG - Letras∕UFRGS, na linha de pesquisa da Teoria do Texto e do
Discurso.
Além dessa orientação, incluímos a experiência de linguagem de mais de vinte
anos com a leitura dos textos produzidos por índios da etnia Terena, de MS; e da
vivência no processo de formação de professores índios e não-índios, no Curso de
Letras da UEMS. São trilhas que se encontram, em prol dos sentidos e na busca de
vestígios de cultura, em testemunhos produzidos pelos povos ameríndios. Em síntese,
desejamos, continuamente, conhecer mais sobre questões enunciativas de sujeitos
que se apropriam da língua viva na sociedade.
Para essa situação de comunicação, elaboramos questionamentos em torno da
temática escolhida: de que forma os simbolismos dos povos ameríndios manifestam-se
em vestígios nos testemunhos escritos, em língua portuguesa, durante o processo
interlocutivo da Prova de Vestibular para Estudantes Indígenas da UFRGS∕2012? Em
busca de respostas ao questionamento, organizamos a presente reflexão em itens que
se dispõem em torno das relações entre a Linguística e as demais áreas das ciências
humanas que se voltam ao estudo de questões que envolvem língua(gem), homem e
cultura. Incluímos nessa discussão as análises dos vestígios no e pelo discurso
produzido pelo sujeito, com vistas às leituras dos sentidos na enunciação escrita dos
povos ameríndios e tecemos algumas considerações finais a respeito da temática.
Antecipamos que a enunciação é o ato de realização da língua em discurso; ela é
responsável pela singularidade de uso da língua e de relatos das experiências de
linguagem pelo sujeito na cultura.

povos ameríndios: a instauração de lugares enunciativos. A pesquisa é de nossa autoria e foi defendida
em 2014, no PPGL∕UFRGS, na área de Teorias do Texto e do Discurso, por meio do Programa Dinter
Letras – Novas Fronteiras, convênio celebrado entre a UFRGS e a UEMS, com reconhecimento da CAPES.

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A Linguística e os diálogos possíveis com a Filosofia e a Antropologia para a


compreensão simbólica dos povos ameríndios

Consideramos, aqui, duas entradas; a primeira está no percurso de leitura


realizada pelas escolhas de leituras centradas em estudos retirados da obra Problemas
de Linguística Geral – PLG, volumes I e II, e das reflexões filosóficas de Agamben (2005;
2006) ao utilizarmos da palavra testemunho. Com Castro (2011), recuperamos as
interpretações antropológicas a respeito do perspectivismo dos povos ameríndios, por
causa da visão simbólica e distinta dos indígenas. Também passamos pelo estudo da
categoria de pessoa (eu-tu) e não-pessoa, a terceira, conforme os estudos de
Benveniste, e por diálogos com as demais áreas do conhecimento humano.
Em Castro (2011, p. 351), encontramos o conceito de perpectivismo dos povos
ameríndios que consiste na visão distinta em ver os seres que habitam o mundo. Essa
visão compreende o homem, o animal e, até mesmo, o espiritual. Desses três, o único
que ainda conserva o traço de humanidade é o homem, visto que ainda não evoluiu
totalmente em relação aos demais. Por isso, nem todos os homens têm poderes
suficientes para a metamorfose, ou seja, usam “roupas” para dialogarem com os
diferentes seres que transitam entre lugares.
O centro do modo de pensar dos povos ameríndios está na personitude, ou
perspectividade, que se relaciona à questão de ocupar um ponto de vista com o
mesmo corpo, fazendo uso da metamorfose. A diferença é que os animais, ou mesmo
os espíritos, são gente; por isso, eles se vêem nas pessoas. Essa distinção está no fato
de eles dialogarem com pessoas para enganá-las ou para conduzi-las para mundos
distintos. Para isso, usam roupas ou transformam-se em pessoas. No entanto, há,
entre os homens, alguns que herdam esse dom ou a capacidade de usar “roupas” ou
“peles” que permitem transitarem entre mundos com a missão de recuperar o que
está perdido. No caso do simbolismo dos povos ameríndios, isso se personifica na
figura do xamã ou pajé que usa disfarces com a intenção de ocupar lugares, uma vez
que só alguns têm o poder de dialogar entre mundos distintos.
Aqui, acrescentamos a analogia do sujeito bilíngue nas comunidades indígenas
ou mesmo a figura do professor indígena, ou do líder da comunidade, ou de qualquer
outro sujeito que viva experiências de linguagem com capacidades de se transmutar
entre mundos por meio do diálogo e da apropriação de língua(s). Para isso, fazem uso
da metamorfose. Assim, usam “peles” ou, ainda, línguas para assumirem diferentes
pontos de vistas e, ainda, voltarem ao que eram antes. O sujeito bilíngue é o que
transita entre dois mundos, a sociedade indígena e a sociedade não-indígena,
dominando línguas e vivendo experiências; por isso, dá testemunho de si e daqueles

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que não podem falar. Também auxiliam, no processo de comunicação, as demais


testemunhas que não falam a língua portuguesa. As inter-relações entre as ciências, as
Teorias da Enunciação e a Antropologia são fundamentais para se conhecer mais a
respeito da enunciação escrita, em língua portuguesa, a partir da categoria
pronominal. As aproximações são concedidas por Benveniste (1995; 2006), que é um
dos linguistas que realiza diálogos com áreas inéditas para a Linguística, em inúmeros
trabalhos publicados nas décadas de 60 e 70 na Europa, para públicos distintos.
Além dessas, inserimos aqui as reflexões de Laplantine5 (2013), uma vez que a
linguista francesa realiza um levantamento de títulos e obras lidas e citadas por
Benveniste, na Etnologia e na Antropologia, na Europa e na América, nos estudos
publicados no PLG tomo I e II. Além disso, o linguista sírio, naturalizado francês,
elabora problematizações sobre língua e linguagem, com vistas a ampliar fundamentos
epistemológicos em torno da Ciência Geral do Homem.
Guiamo-nos, também, pelas reflexões de Teixeira (2012), visto que foi tal
linguista brasileira quem nos apresentou a dimensão do campo enunciativo
redimensionando o alcance dos princípios enunciativos e das férteis discussões nas
Ciências Humanas, sob o viés antropológico da Enunciação. Em Flores (2013),
encontramos direcionamentos a respeito da Teoria da Enunciação e as orientações de
pesquisas e leituras, sob o viés antropológico6 dos estudos benvenistianos, que são
motivadas pela complexidade epistemológica empreendida pelos princípios
enunciativos. Assim, concebemos, a partir de Benveniste (1985∕2006), o ato de
comunicar como algo que é tomado num primeiro momento como acontecimento
único e irrepetível, inscrito na enunciação. Interessamo-nos, também, pela dimensão
trinitária dos princípios enunciativos quando dos processos interlocutivos e das
relações do homem na língua.
Eis que apresentamos a segunda entrada que ocorre pelo discurso. Afinal, é no
e pelo discurso que os processos interlocutivos estabelecidos pelos povos ameríndios
mantêm-se nas relações entre homem e homens ou homens e animais e são
ampliadas porque consideram homens e espíritos, ou outros seres que usam “roupas”

5
Artigo de Chloé Laplantine disponível em: http:∕∕hiphilanggsci.net∕2013∕10∕02∕emile-benveniste-et-les-
langes-amerindiennes-4 (acesso em 10∕02∕2013).
6
Para Flores (2013, p. 190), a vasta produção científica de Benveniste pautada pela tríade epistêmica
favorece diálogos com outras áreas. Isso garante a profundidade teórica e a dimensão antropológica,
porque mantém o diálogo interdisciplinar e a renovação das reflexões. Outros importantes herdeiros,
entre eles Meschonnic (2009), Dessons (2006) e outros, compartilham dessa visão. No Brasil,
importantes teses surgem sob tal discussão antropológica, entre elas Silva (2013), Azevedo (2014) e
outras.

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ou “peles” para transitarem entre mundos distintos assumindo diferentes pontos de


vistas com o mesmo corpo.
Dessa forma, o objetivo desta reflexão é compreender, a partir da leitura de
testemunhos produzidos em língua portuguesa, os simbolismos próprios e específicos
decorrentes do processo interlocutivo da enunciação escrita que emergem da
comunicação especificada proposta da Prova de Redação. O interesse está em
apresentar a singularidade da enunciação escrita nos testemunhos dos sujeitos. A
Teoria da Enunciação em diálogo com a Antropologia permite compreender parte
desses vestígios que estão no e pelo discurso.

Em busca de vestígio no e pelo discurso7

Benveniste (1995), em Observações sobre a função da linguagem na descoberta


freudiana, no PLG I, envereda a questão da interpretação do dado pelo acontecimento
empírico no e pelo discurso, sem o qual não há a dimensão constitutiva nem para o
trabalho investigativo do analista, nem mesmo para o testemunho do paciente.
Recortamos a seguinte passagem do estudo de 1963:

Em primeiro lugar, porque o analista não pode conhecê-lo sem a


ajuda do paciente, que é o único a saber “o que lhe aconteceu”.
Mesmo que o pudesse, não saberia que valor atribuir ao fato.
Suponhamos mesmo que, num universo utópico, o analista possa
reconhecer, em testemunhos objetivos, o vestígio de todos os
acontecimentos que compõem a biografia do paciente: conseguiria
ainda pouca coisa e não, salvo um acidente feliz, o essencial. De fato,
se ele precisa de que o paciente lhe conte tudo – mesmo que se
expresse ao acaso e sem propósito definido – não é para reconhecer
um fato empírico que não haja sido registrado em parte nenhuma a
não ser na memória do paciente: é porque os acontecimentos
empíricos não têm realidade para o analista a não ser no – e pelo –
“discurso” (BENVENISTE, 1995, p. 83). (itálico do autor) – (grifos
nossos)

No estudo de 1956, a passagem de língua ao discurso impõe a presença de


vestígio; esse é tomado por acontecimentos empíricos inscritos no dizer; ou seja,
Benveniste compreende que aquilo que está obscuro ou escondido está na
verbalização de quem fala e nas rupturas produzidas no e pelo discurso individual.
7
O termo discurso nos estudos benvenistianos, no PLG I e II, tem alcances complexos e heterogêneos
próprios das inúmeras teias epistemológicas forjadas a partir de problematizações distintas. Para tal
discussão, sugerimos a leitura do artigo, A noção de discurso na teoria enunciativa de Émile Benveniste,
de Flores & Endruweit (2012).

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Lembramos que o trabalho de compreensão da presença de um determinado termo,


ou palavra, no estudo de Benveniste, no caso, vestígio, exige do leitor muita atenção.
Essa orientação está em Ono (2014, p. 257), quando da leitura dos estudos publicados
e das recentes fontes manuscritas do linguista francês, que “mostra que, para ler e
para entender bem seu texto [estudos de Benveniste], é preciso também tentar
encontrar os vestígios dessas notas por trás de seu texto final, como se faz em um
trabalho de escavação; e isso pode ser feito mesmo na falta do manuscrito do artigo
em questão [...]”. Acreditamos nessa advertência8, por isso, resgatamo-na como algo
muito importante para a compreensão do homem na língua.
Benveniste posiciona-se em torno do pensamento de Lacan, por conta do
método analítico, visto que esse caminho interessa tanto à Linguística quanto à
Psicanálise: “além do simbolismo inerente à linguagem, perceberá um simbolismo
específico que se constituirá, sem o conhecimento do sujeito, tanto a partir do que
omite como a partir do que enuncia.” (BENVENISTE 1995, p. 84) (grifos nossos). Por
pensar assim, o sujeito, no estudo de 1956, é compreendido por meio do discurso,
uma vez que é nele que se tem a ação e construção de todo o simbolismo inerente à
linguagem. Em síntese, é no e pelo discurso que o sujeito revela os acontecimentos
que estão no passado, ocultos, em outros sentidos construídos.
Desejamos considerar para esta reflexão a questão de vestígios em
testemunhos escritos e, por isso, preocupamo-nos com a significação e investigamos
os simbolismos na passagem da língua ao discurso. Além desse direcionamento do
estudo de 1956, escolhemos seguir pelos princípios enunciativos de Benveniste no
artigo O aparelho formal da enunciação, de 1970. É um procedimento teórico natural
incluir aqui o estudo de 1970, porque o estudo contém o ápice da noção e de
princípios fundantes. Sem contar que o trabalho não só se abre para a noção de
enunciação como também inclui a noção de referência, que é concebida como “parte
central da enunciação” (BENVENISTE, 2006). Isso não significa que excluímos os demais
estudos benvenistianos; ao contrário, ligamo-os ao estudo de 1956, tendo esse recorte
de leitura justificativa nas proximidades transversais entre noções de vestígio,
enunciação, discurso e referência.
Para o conceito complexo de enunciação, reportamo-nos à seguinte passagem
do linguista francês:

8
A compreensão de leitura dos estudos de Benveniste proposta por Ono (2014) encanta-nos pela
questão de que é uma prática, na qual o pesquisador∕leitor faz escavações, ou melhor, busca ler nas
profundidades, seguem por vestígios e orienta-se pela compreensão de sentidos. Vemos como
orientação de leitura para os testemunhos dos povos ameríndios.

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A enunciação é este colocar em funcionamento a língua por um ato


individual de utilização. O discurso, dir-se-á, que é produzido cada vez
que se fala, esta manifestação da enunciação, não é simplesmente a
fala? – É preciso ter cuidado com a condição específica da enunciação:
é o ato mesmo de produzir um enunciado, e não o texto do enunciado,
que é o nosso objeto. Este ato é o fato do locutor que mobiliza a língua
por sua conta. A relação do locutor com a língua determina os
caracteres linguísticos da enunciação. Deve-se considerá-la como o
fato do locutor, que toma a língua por instrumento, e nos caracteres
linguísticos que marcam a relação (BENVENISTE, 2006, p. 82) (grifos
nossos).

Enumeramos alguns fundamentos responsáveis pelas noções para enunciação a


partir da passagem acima: 1) “[...] é o colocar em funcionamento a língua [...]”; 2) “[...]
por um ato individual de utilização”; 3) não se confunde com a fala; 4) “[...] ato mesmo
de produzir um enunciado [...]”; 5) “[...] não se confunde com o texto [...]”; 6) “[...] ato
de fato do locutor que mobiliza a língua por sua conta”; 7) “[...] relação do locutor com
a língua determina os caracteres linguísticos da enunciação”. Assim, a rede de fios que
compõe a trama da noção de enunciação é complexa, dada a natureza constitutiva
centrada no ato, na apropriação individual da língua e nas relações empreendidas em
instaurar a presença do locutor por meio do colocar em funcionamento a língua. Esse
colocar tem relações com o emprego da língua enquanto ato único e individual de
utilização da língua, o que remete à subjetividade na linguagem.
Não há outro caminho para compreender a enunciação a não ser pelo ato.
Benveniste repete três vezes, apenas na passagem supracitada, o termo “ato” e em
cada uma delas há alcances constitutivos da própria noção de enunciação: “ato
individual de mobilizar a língua”, “ato mesmo de produzir um enunciado” e “ato de
fato do locutor”. O ato de realização é sempre individual, como o é a capacidade do
locutor em mobilizar a língua por sua conta. Além disso, a enunciação implica “as
situações em que ele se realiza” e “os instrumentos de sua realização.” (BENVENISTE,
2006, p. 83). Dessa forma, o ato, a situação em que se ela realiza e os instrumentos são
princípios essenciais para o linguista quando se volta à enunciação, seja ela falada ou
escrita.
Encontramos em Barthes (1984, p.151) o reconhecimento do teor dado ao
conceito de enunciação. O crítico considera a conceituação do termo como sendo um
trabalho de vanguarda de Benveniste, visto que o linguista francês apresenta à
academia a ciência da fala. O centro está em apresentar a enunciação como “o ato
individual pelo qual se utiliza da língua introduz em primeiro lugar o locutor como
parâmetro nas condições necessárias da enunciação”. No Dicionário de Linguística da

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Enunciação (FLORES et al., 2009, p. 197), o conceito para o termo referência volta-se à
“significação singular e irrepetível da língua cuja interpretação realiza-se a cada
instância de discurso contendo um locutor”. Essa noção é oriunda da característica do
uso do pronome “eu”, palavra que por excelência “expressa a fala instantânea e
efêmera do locutor.” Significa, assim, a própria enunciação.
Em Benveniste, o termo referência abrange muitas interpretações. Nesse
sentido, reconhecemos, novamente, o importante trabalho de Aresi (2012) ao realizar
todo um levantamento de variação epistemológica para o termo referência, nos
diferentes trabalhos publicados por Benveniste, no PLG I e II. Como contribuição à
ampliação do termo referência, acrescentamos, aqui, o interessante trabalho, A frase
nominal, de 1950, publicado para o Bulletin de la Société de Linguistique de Paris, XLVI.
A justificativa está em constatarmos que o termo nasce de discussões empreendidas
pelo experiente linguista A. Meillet, e pela necessidade em rediscutir o tema da frase
nominal no indo-europeu pelo caminho das línguas e da sintaxe quando os linguistas o
faziam pela morfologia, Benveniste surpreende a todos com o estudo de 1950
seguindo por outro percurso, e mesmo, projetando para um leque de outros caminhos
a serem problematizados pela Linguística.
Assim, entendemos que o termo referência é discutido por longos anos e sobre
diferentes ângulos até ser compreendido como parte do processo de simbolização e
de significação que se dá no e pelo uso que o locutor faz da língua(gem). A nossa
compreensão de referência é construída quando da passagem de locutor a sujeito, por
meio de experiências descritas, no interior da prática social, ou melhor, em
testemunhos de experiência de língua(gem), no sentido de projeção do sentido que
está na enunciação. Reportamo-nos à passagem do trabalho de Benveniste Níveis da
análise linguística, de 1964, em que o linguista francês conceitua a frase e com ela a
questão do sentido e da referência:

A frase é a unidade, na medida em que é um segmento de discurso, e


não na medida em que poderia ser distintiva com relação a outras
unidades do mesmo nível – o que ela não é, como vimos. É porém,
uma unidade completa, que traz ao mesmo tempo sentido e
referência: sentido porque é enformada de significação, e referência
porque se refere a uma determinada situação, sem a qual a
comunicação como tal não se opera, sendo inteligível o “sentido”
mas permanecendo desconhecida a “referência” (BENVENISTE, 1995,
p. 140).

Na frase, a unidade, ou segmento do discurso, não é mais compreendida pela


relação distintiva, porque em todos os níveis (fonético, morfológico, sintático e

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semântico) há a questão do sentido e da referência. Benveniste (1964) compreende


sentido como enformada de significação e, ao mesmo tempo, de referência porque se
relaciona diretamente à situação, sem a qual a comunicação não opera. Os problemas
linguísticos devem ser estudados por meio das relações inter-humanas com vistas a
compreender os processos de subjetividade na linguagem. Interessamo-nos pela
questão que transcende o mero estudo dos pronomes como categorias verbais, pois
elas passam a designar a (inter)subjetividade na língua(gem), fato importante para os
vestígios de cultura em testemunhos dos povos ameríndios.

Leituras possíveis de vestígios em testemunhos dos povos ameríndios

A entrada do analista no discurso tem um pouco desse trabalho de ouvir, ou


seja, de escutar as oralidades e as significâncias remontadas nos testemunhos dos
povos ameríndios, com orientações de leituras epistemológicas e de vivências. A
sensibilidade adquirida pela vivência e pela dedicação aos princípios enunciativos
apresentados à academia por Benveniste, exceção francesa, é quem nos ensina a
respeito das problemáticas linguísticas e as formas de entrada no discurso pelo
caminho do sujeito. Antes, apresentamos as relações interlocutivas instauradas no
discurso.
Orientamo-nos em princípios enunciativos de Benveniste (1995) e nas leituras
de Castro (2011) para a leitura de testemunhos recortados da RED 050, como segue:

B) No primeiro dia de aula chegou um professor chamado Mario ele


era estranho para nós tinhamos medo dele mas o cacique Juarez
sabia falar muito bem a lingua portuguesa então ele nos explicou que
o professor iria nos ensinar a falar outras lingua, ele nos ensinou a
sermos educados e como falar o português corretamente.
Digamos que o português era fascinante para nós principalmente
para mim, porque eu não queria estuda e muito menos falar outra
língua. (RED 050)

Lemos os testemunhos, nos quais o sujeito mobiliza a 3ª pessoa do singular e


depois a 1ª p.s. “eu”. Isso se dá por vestígios oriundos dos processos de interlocução
entre quem fala e quem ouve, quanto dos simbolismos subjetivos do “eu” para a
cultura (BENVENISTE, 1995, p.83). O direcionamento dado pelo linguista francês está
no fato de que na alocução o “eu” fala de si por meio da linguagem. Cumpre, assim, na
palavra a historização, seja essa “incompleta e falsa”.
O importante é que o vestígio acontece por conta da regra, quase geral, de que
o processo de interlocução para os povos ameríndios, entre seres é, na maioria das

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vezes, perigoso, ou seja, é interpretado como algo que inspire perigo sentimentos de
insegurança, ou mesmo, dúvidas em relação à representação do outro que fala ao
“eu”. Em B, a terceira pessoa do singular “ele”, professor, é simbolizado pela relação
de medo e desconfiança: “[...] chegou um professor chamado Mario ele era estranho
para nós tínhamos medo [...]”. O diálogo é marcado por desconfianças. Castro (2011,
p. 397) é quem descreve a respeito desse perigo latente instaurado pelas aparências e,
elas são mais comuns do que se imagina, principalmente, entre humanos. Dessa
forma, acreditamos que as escolhas realizadas pelo sujeito por meio da apropriação da
língua: “nós tinhamos medo dele” – primeira pessoa do plural, indique a presença
marcante do “eu” que amplia pela junção de objetos, “eu+não-eu (eles∕não subjetivo).
Reafirmando por meio da língua o medo das relações interlocutivas como algo
recorrente na alocução.
A reversibilidade entre as pessoas no simbolismo é sempre motivo de grave
desconfiança para os povos ameríndios. Na maioria das vezes, é preciso convocar a
presença do “ele”, não-pessoa do discurso, ou a pessoa presentificada pela relação de
poder. O “ele”, na cultura dos povos ameríndios, é ocupado pelo papel do xamã, ou
outra figura detém poderes capazes de dialogar com seres oriundos de diferentes
lugares. Este é quem salva o “eu” enfeitiçado, porque é o único que tem o
conhecimento necessário para transitar entre mundos distintos fazendo acordos e
resgatando o “eu”, enfeitiçado pelo “tu”, por meio do uso da palavra. Esse vestígio,
inscrito na capacidade de simbolizar pela língua, é recuperado no testemunho das
experiências de língua(gem) em B.
Na escola, por exemplo, quem cumpre o papel de mediador entre o aluno e o
professor, em alguns momentos, é o cacique de quem se tem a seguinte referência:
“[...] mas o cacique Juarez sabia falar muito bem a lingua portuguesa então ele nos
explicou [falou na língua materna sobre a importância do professor e do ensino de L2,
língua portuguesa] que o professor iria nos ensinar a falar outras línguas”.
A ausência re-presentada para a terceira pessoa “ele”∕cacique é fundamental
para amenizar a situação de desconfiança entre relação “eu” aluno e o “tu” (professor
não-indígena) na enunciação falada. O cacique, a exemplo, do xamã, no testemunho
tem poderes, porque domina a língua materna (L1) e a língua portuguesa (L2). Por isso,
o “ele”, 3ª pessoa do singular, no testemunho, é quem colabora com o coletivo
quando salva em situações de perigo, porque transita entre dois mundos, salvando, ou
resgatando ao fazer uso de língua(s). A língua, nesse caso, é mais do que instrumento é
forma de significação no processo de interlocução, detém os simbolismos próprios do
sujeito na cultura.

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Outras realidades são referenciadas pelo sujeito para o professor, 3ª p.s., elas
estão relacionadas às realidades da prática do professor em sala de aula: “bons
modos” e a “[falar] o português corretamente”, isso denuncia o fato de que a
aprendizagem em sala de aula tem um peso maior em regras e normas da aquisição do
semiótico da enunciação escrita da língua. Para o locutor, a aquisição da língua
portuguesa, oportuniza revelar o simbolismo que é constituído de vivências
historicizadas entre o locutor e o alocutário, em dois momentos, a sala de aula e o
ambiente externo, fora da sala de aula, por conta do ato de enunciar, em sociedade,
de modo particular, inclui a passagem da fala a escrita.
A alocução é intermediada pela presença da 3ª p.s. “ele”, em casos, especiais,
alguém que possa transitar entre dois mundos, no testemunho B1, o cacique. Como
consequência, o “eu” está em alerta aos processos de interlocução com o “tu”,
principalmente, quando do uso da língua portuguesa, no caso, porque ela é a “outra
língua”.
Na enunciação, tem-se o uso de categorias pronominais que se alternam entre
o “nós”, ampliado e coletivo, e o “eu”, individual e singular: “Digamos que o português
era fascinante para nós principalmente para mim, porque eu não queria estuda e
muito menos falar outra língua.”. A alternância, entre o uso da 1ª p.p., nós, e a 1ª p.s.,
“eu”, revela a dialética da subjetividade na e pela linguagem, visto que o sujeito que dá
testemunho do não-homem quando instaura o “outro”. Ao fazer isso, mobiliza no ato,
o emprego da língua, e compartilha os sentidos com o “outro” (alocutário), por conta
da realidade distinta da aprendizagem da língua portuguesa, em sala de aula, marcada
pelas primeiras experiências de aquisição que estão na negação da língua do outro,
centrada na escrita.
As simbolizações realizadas pelo locutor em língua materna são mais fortes e
causam a recusa da aprendizagem da L2, ou seja, o não desejo em aprender a língua
portuguesa. Outro aspecto importante está na oscilação entre a necessidade de
adquirir a língua portuguesa e o fato de rejeitá-la por receio em perder-se. Para essa
situação, tem-se a interpretância de que se possa deixar de ser quem se é, no caso,
índio, ou esquecer a língua materna a ponto de não mais conseguir transitar entre os
dois mundos.
A representação simbólica do “medo”, ou da “desconfiança” de perder é algo
importante para a construção da significação na língua. Isso marca as diferenças e
inclui as especificidade inerentes às experiências de língua(gem), em sociedade. Os
simbolismos de desconfianças estão nos processos interlocutivos, entre as categorias
de pessoa. Eles são transportados para o ambiente de sala de aula, tendo em vista as
representações construídas pela interpretância que o sujeito faz de si e do outro. Essas

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representações são transportadas para o jogo comunicativo da sala de aula e em


demais situações fora da sala, quando dos processos de aquisição da L2, língua
portuguesa.
A função mediadora da língua(gem), em L2, é capaz de propor pelo emprego
em ação da língua, não só o funcionamento da língua, ou do aparelho, mas por
considerar a criação da significação própria e singular, na enunciação escrita, em língua
portuguesa, necessária aos dois planos previstos. Em Benveniste (2006, p. 90), a
enunciação escrita é compreendida pelo seguinte fundamento: “[...] o que escreve se
enuncia ao escrever e, no interior de sua escrita, ele faz os indivíduos se enunciarem.”.
Nessa passagem, encontramos a dimensão na qual se dá o ato de realização da
passagem da língua a discurso. Nesse ato, o sujeito não só se instaura, mas se
constitui. O sujeito faz ecoar outras vozes, enunciações de outros indivíduos que falam
quando da sua enunciação escrita. Para o locutor, isso é traduzido pela complexidade
que implica pensar na língua materna, considerando que as primeiras simbolizações
são construídas ocorrem em L1 e na cultura, num segundo ato de passagem, aqui,
incluímos o fenômeno da semantização, ou seja, para que o sujeito possa enunciar é
preciso que o faça pelo ato da escrita. Para essa situação, o locutor apropria-se de
outra língua, no caso, a L2 e é com essa língua que o sujeito emerge ao semantizar.
Não se pode passar de um sistema a outro, visto que não há entre língua a tradução
entre semióticos distintos.
Assim, a função mediadora da língua portuguesa está em semantizar a respeito
das simbolizações que ocorrem em L1. Eis a complexidade da experiência de
linguagem vivida pelos povos ameríndios quando da apropriação da língua para
comunicar.

Considerações finais

As leituras em Benveniste e as reflexões antropológicas a respeito do


perspectivismo dos povos ameríndios de Castro (2006; 2011) auxiliam-nos a
compreender a respeito dos simbolismos nas enunciações escritas, em língua
portuguesa, na Prova de Redação, processo específico para estudantes indígenas,
elaborada pela COPERSE∕2012∕UFRGS. Somos favoráveis a propostas distintas para a
Prova de Redação do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, por considerar a
diversidade linguística e cultural das comunidades indígenas. As análises enunciativas
apontam para simbolismos específicos e próprios que se sustentam em torno da
singularidade de uso da língua.

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A língua utilizada pelos sujeitos carrega vestígios de cultura na enunciação


escrita. Por isso, cabe à Teoria da Enunciação de base benvenistiana contribuir para a
discussão em torno das experiências de linguagem dos povos ameríndios, ao lado de
outras abordagens linguísticas. Cabe também a ela ampliar e consolidar as reflexões
em torno da heterogeneidade e do respeito aos simbolismos específicos.
O percurso enunciativo aponta para uma ampliação dos processos
interlocutivos no e pelo discurso que faz a constituição do sujeito, cuja origem é
distinta dos povos ocidentais. É no ato de realização que o sujeito faz ecoar vozes.
Emergem testemunhos daqueles que falam a respeito das experiências de linguagem,
porque ocupam diferentes lugares. Além disso, emergem testemunhos dos demais
sujeitos que são impossibilitados, porque não dominam a língua do outro. Assim,
lembramos que a Linguística proposta por Benveniste permite continuamente
conhecermos sobre os mistérios da língua e dos processos interlocutivos em culturas
distintas.

Referências

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Tradução Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005.
_____. O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha (Homo Sacer III). Tradução
Selvino J. Assumann. São Paulo: Boitempo, 2008.
ARESI, Fábio. Síntese, organização e abertura do pensamento enunciativo de Émile
Benveniste: uma exegese de O Aparelho Formal da Enunciação. Dissertação
(Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.
AZEVEDO, Adélia Maria Evangelista. A experiência na e pela língua(gem) em
testemunho de povos ameríndios: a instauração de lugares enunciativos. Tese
(Doutorado) Porto Alegre: UFRGS, 2014.
BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral I. Tradução Maria da Glória Novak;
Maria Luisa Neri; Rev. Prof. Isaac Nicolau Salum. 4ªed. Campinas, São Paulo:
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_____. Problemas de Linguística Geral II. Trad. Eduardo Guimarães et al., 2. ed.
Campinas, São Paulo: Pontes Editores, 2006.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo
ameríndio. 1996. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0104-93131996000200005 Acesso em 20 de março de
2012.
DESSONS, Gerard. Émile Benveniste: l’invension du discours. Paris. Limoges, 2006.

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FLORES, Valdir do Nascimento; BARBISAN, Leci Borges; FINATO, Maria José Bocorny;
TEIXEIRA, Marlene. Dicionário de Linguística da Enunciação. São Paulo: Contexto,
2009.
FLORES, Valdir do Nascimento. Introdução à Teoria Enunciativa de Benveniste. São
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LAPLANTINE, Chloé. ‘Emile Benveniste et les langues amérindiennes’. History and
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de fevereiro de 2013.
ONO, Aya; SILVA, Carmem Luci da Costa; MILANO, Luiza. Sobre as relações entre a
linguagem e o homem: caminhos de leitura em Émile Benveniste. Tradução de
Daniel Costa Silva. São Leopoldo: Calidoscópio, v. 12, n. 2, p. 255-260.
SILVA, Silvana. O homem na língua: uma visão antropológica da enunciação escrita
para o ensino da escrita. Porto Alegre: UFRGS, 2013. (Tese de Doutorado)
TEIXEIRA, Marlene. O estudo dos pronomes em Benveniste e o projeto de uma ciência
geral do homem. Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da
Universidade de Passo Fundo, v. 2, n. 1, p. 71-83, jan∕jun. 2012.

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A AUSÊNCIA QUE SEREMOS, DE HÉCTOR ABAD: UMA ESCRITA PARA NÃO ESQUECER

Amanda Oliveira1

Aquele que foi já não pode mais não ter sido: doravante, esse fato
misterioso, profundamente obscuro de ter sido é o seu viático para a
eternidade. (Vladimir Jankelevich)

O que eu buscava era isto: que minhas memórias mais profundas


despertassem. E se minhas lembranças entrarem em harmonia com
alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for
compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou
sentiram, então este esquecimento, esta ausência que seremos
poderá ser adiada por mais um instante, no fugaz reverberar dos seus
neurônios, graças aos olhos, poucos ou muitos, que alguma vez se
demorarem nestas letras. (ABAD, 2011, p. 317)

A memória, por vezes, parece um movimento cíclico: num vai-e-vem, ela


estabelece os padrões de nossas vidas pela lembrança do que fomos, somos e
seremos. É por isso que inicio este texto com uma referência indicada por Héctor Abad
nas últimas páginas de A ausência que seremos. Se os fins possam justificar os meios,
aqui, para os autores envolvidos – tanto da obra, quanto dessas reflexões (da obra) –,
também justificam seu início.
A ausência que seremos é um texto de memória, de história e de
esquecimento, parafraseando a célebre obra de Paul Ricoeur2. De memória, porque é
a representação gráfica de uma história que se quer garantir eternidade, apesar da
impossibilidade, como o próprio autor indica. De história, porque faz parte da
formação identitária da Colômbia do século XX, em que a injustiça social era marcada
pela pobreza e pela falta de condições sanitárias mínimas para a sobrevivência de
todos. E de esquecimento porque, invariavelmente, a obra, segundo o autor, tem
validade finita.

1
Graduada em Letras Português/Espanhol pela Universidade Feevale, Especialista em Literatura
Brasileira pela UFRGS e Mestre em Teoria da Literatura pela PUCRS. Atualmente é doutoranda em
Teoria da Literatura pela PUCRS, bolsista integral CAPES.
E-mail: amanda.oliveira.002@acad.pucrs.br
2
O presente texto é uma breve resenha da obra de Héctor Abad, que está sendo estudada a partir do
pensamento de Paul Ricoeur, para futura publicação.

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Para Abad, é justamente essa a justificativa da escrita: como um evitar do


apagamento da memória, a palavra é o recurso do não esquecer:

Todos somos condenados ao pó e ao esquecimento, e as pessoas que


evoquei neste livro ou já estão mortas, ou estão a ponto de morrer,
ou no máximo morrerão - ou melhor, morreremos - depois que
alguns anos que não podem ser contados em séculos, e sim em
decênios. [...] Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns
frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória
pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de
desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese
para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais
perdurável o que é irremediavelmente finito. (p. 315)

Sendo os livros esse simulacro de lembrança, a obra representa também a


formação da identidade de quem, vendo-se como parte do outro, reconhece-se a si
mesmo. A identidade cultural e política de um médico sanitarista colombiano é o tema
central da obra de Héctor Abad. Publicado no Brasil em 2011, o texto biográfico narra
a história do pai do autor: a vivência do filho com o pensamento libertário,
confusamente confundido com o comunismo; a experiência de fazer da medicina a
forma de melhoria de vida de muitas pessoas; o papel do professor como mestre de
aprendizagens para a vida; a confusa criação de um pai ateu e uma mãe fervorosa – e
pragmaticamente – católica. Abad nos apresenta a seu pai, e suas histórias, de pai e de
filho, se mesclam num discurso carregado de emotividade, carinho, saudade e amor.
As partes do livro vão revelando a intencionalidade do autor que, ao contar a
história do pai, também conta a sua própria. Em A ausência que seremos, de um verso
atribuído a um poema de Borges, passamos a identificar não só a vida de Abad pai,
nem só a de Abad filho, mas o quanto a escrita identifica as marcas identitárias de uma
América Latina negligenciada e injusta à maioria da população.
Na primeira parte, intitulada Um menino pela mão do pai, o narrador Abad
indica a sua formação familiar, quase como divina e sagrada:

Em casa moravam dez mulheres, um menino e um senhor. As


mulheres eram Tatá, que fora babá de minha avó, tinha quase cem
anos e estava meio surda e meio cega; duas empregadas – Emma e
Teresa –; minhas cinco irmãs – Maryluz, Clara, Eva, Marta, Sol –;
minha mãe e uma freira. O menino, eu, amava o senhor, seu pai,
sobre todas as coisas. Amava-o mais que a Deus. Um dia tive que
escolher entre Deus e meu pai, e escolhi meu pai. Foi a primeira
discussão teológica da minha vida [...]. (p. 11)

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O menino Abad, sendo o único filho homem, era o preferido do pai. Descobriu
desde pequeno que, na falta de habilidade das irmãs na oratória, deveria recorrer à
escrita para ser ouvido: “acho que tive que aprender a escrever para poder me
comunicar de vez em quando, e desde muito pequeno mandava cartas a meu pai, que
as festejava como se fossem epístolas de Sêneca ou obras-primas da literatura” (p. 22).
Ao refletir sobre essa experiência vivida, através da memória, e sua condição atual de
escritor, complementa:

Quando vejo como meu talento para escrever é limitado (raras vezes
consigo que as palavras no papel soem tão claras quanto as ideias no
pensamento; o resultado me parece um balbucio pobre e canhestro
perto do que minhas irmãs poderiam ter dito), recordo a confiança
que meu pai tinha em mim. Então levanto a cabeça e sigo em frente.
Se ele gostava até das minhas linhas de garatujas, que importa se o
que escrevo não me satisfaz por completo? Acho que o único motivo
que, nesses anos todos, me levou a continuar escrevendo e a publicar
meus escritos foi a certeza de que meu pai, mais do que ninguém,
teria gostado muito de ler essas páginas que ele não pôde ler. Que
nunca lerá. Esse é um dos paradoxos mais tristes da minha vida:
quase tudo o que tenho escrito, foi escrito para alguém que não me
pode ler, e mesmo este livro não passa de uma carta para uma
sombra. (p. 22)

Mesmo que o desejoso destinatário dos escritos não atinja seus feitos, o livro-
carta de Abad corresponde, aqui, mais um elemento importante da produção literária:
o escrever para ser lido. O fazer literário do autor está sempre sendo questionado –
seu objetivo, seu resultado, seu fim –, assim como sua própria independência como
indivíduo (“aos vinte e oito anos, quando mataram meu pai, de vez em quando eu
ainda recebia ajuda dele ou da minha mãe” (p. 32)). No entanto, a angústia pelo
escrever é maior que as necessidades econômicas; talvez a maior das necessidades. É
ela que define o pertencimento identitário do autor.
A organização social latino-americana sempre foi pautada pela discussão acerca
de sua identidade. Através de uma formação cultural de combates, contrastes e
rupturas entre nativos e/ou estrangeiros, a mescla da nova cidade interage num
cenário plural e heterogêneo. Essa pluralidade essencial do ser latino-americano
resulta em dois aspectos: em primeiro, na questão cultural de uma imposição
dominadora espanhola/portuguesa; em segundo, na língua importada que agora
devem se utilizar para significar. São essas relações do eu-outro-(novo)mundo que a
história latino-americana possui, em que o espírito de luta revolucionária passa a ser a
exigência máxima para a aquisição de uma justa identidade.

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A arbitrariedade identitária do latino-americano fica na possibilidade do


progresso pelas mãos e espadas europeias. A formação da cidade latino-americana,
como definiu Ángel Rama, é a noção de que essa cidade corresponde ao que não é
palpável nem observável diretamente, mas vivida por todos seus cidadãos através das
leis internas que regem a cultura (RAMA, 1984). Como servidores intelectuais do
poder, os letrados estabeleciam o ponto de conexão entre o poder político e o povo e,
nesse sentido, tinha em sua organização a afirmação do poder através da defesa da
palavra escrita – fator que diferenciava os civilizados dos bárbaros. Através da
valorização da letra, a imposição cultural da nova organização política também passou
a ser a imposição linguística de uma nova forma de comunicar, de propriedade do
dominante europeu, defendida pela fortaleza letrada.
A supremacia da cidade letrada, restritiva e forçosamente urbana, marca uma
segunda doutrinação de fé religiosa pela palavra escrita, que é o idioma das leis que
agora regem e fazem organizar as cidades. A cidade e a linguagem – uma e várias,
porque a necessidade do apagamento também reforça o controle pela manutenção –
atuam, unidas, no campo das significações e nas autonomias dos sistemas, e ambas –
sejam físicas e/ou simbólicas – marcam-se pelas mensagens persuasivas a vastos
públicos.
A Colômbia era um dos centros de poder virreinal durante o período da colônia,
organizada a partir da massa indígena trabalhadora, “donde había encontrado sus
formas plenas la concepción de la ciudad letrada” (p. 122). Rama diz, no capítulo
intitulado La ciudad revolucionada, que no ano de 1911 “se inició en América Latina la
era de las revoluciones que habría de modelar ese siglo XX que entonces se iniciaba”
(p. 103). O autor indica que compartilha com a opinião de Abelardo Villegas,
“poniendo el acento en el componente cambio social profundo, más que en el de
ruptura violenta, habla de ‘las dos revoluciones latinoamericanas de este siglo: la
mexicana y la uruguaya’ (p. 103). Para Rama, “ambas revoluciones, aun habido cuenta
de sus diferencias, depararán regímenes cuyos rasgos podrán reencontrarse en otros
contextos y en otras dosis, en sucesivos movimientos transformadores que en
adelante vivirá en continente” (p. 103), localizando, entre outros países, a Colômbia e
seu “’nuevo liberalismo’ juvenil de Alfonso Lopez” (p. 103). Isso é definidor do que o
autor chama de “órbita modernizadora del ‘cesarismo democrático’” (p. 104) e afirma:

En estas décadas transcorridas del XX, nuestras interpretaciones


letradas han abandonado las categorías biológicas, telúricas y
restrictamente políticas, para descansar con más firmeza en
categorías sociales y económicas, pero sin embargo en esas mismas
décadas nada identifica mejor las transformaciones habidas, con

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sucesivas irrupciones de grupos sociales, que los nombres de sus


caudillos respectivos. Incluso la duración del fenómeno se mide en
ocasiones por el tiempo de su acción dirigente. (p. 104)

No século XX, Rama enfatiza que a literatura foi um espaço prolífico para a
formação dos discursos de denúncia e revolta sociais: “no hubo caudillo revolucionario
que no fuera acompanhado de consejeros intelectuales [...]”. (p. 123). Para o autor,
“fueron ellos, como únicos ejercitantes de la escritura, quienes nos han llegado
nutridos y ácidos testimonios sobre la tormenta revolucionaria” (p. 123).
A ausência que seremos pode ser considerado, nesses termos de Rama, como
uma obra revolucionária. Na parte intitulada Um médico contra a dor e o fanatismo,
Abad relembra uma passagem sobre a desigualdade vivida em Medellín, apesar de
essa realidade estar tão distante de sua casa:

Meu primeiro contato com o sofrimento não foi com o meu próprio,
nem com o da minha família, mas com o dos outros. Isso porque meu
pai fazia questão de que nós, seus filhos, soubéssemos que nem todo
mundo era tão feliz e favorecido pela sorte, mostrando-nos, desde
pequenos, a penúria de muitos colombianos, quase sempre causada
por calamidades e doenças ligadas à pobreza. Alguns fins de semana,
como não havia aulas na universidade, ele os dedicava ao trabalho
social nos bairros pobres de Medellín. (2011, p. 45)

A preocupação com a realidade que se mostrava fora da casa correspondia a


um comportamento do pai que, no entanto, era claramente repudiado: “muitos
médicos o detestavam por defender essas ideias contrárias a seus grandes projetos de
clínicas particulares, laboratórios, altas técnicas de diagnóstico e exames
especializados” (p. 54). Mas seu problema não era só na área médica, pois “em geral,
sua maneira de trabalhar não era bem-vista na cidade” (p. 54). De um lado, “os mais
ricos acham que, com sua mania de igualdade e de consciência social, ele estava
organizando os pobres para fazerem a revolução” (p. 54); de outro, na própria
universidade de medicina, onde “vivia se esquivando das rasteiras de quem queria vê-
lo pelas costas” (p. 55). A postura do médico, no entanto, parecia não incomodá-lo;
seu objetivo de poder possibilitar aos menos assistidos uma vida melhor era superado
pelas adversidades que o sistema tentava lhe oprimir:

No fim de seus dias, costumava dizer que sua ideologia era um


híbrido: cristão em religião, pela figura amável de Jesus e sua
evidente preferência pelos mais fracos; marxista em economia,
porque detestava a exploração econômica e os infames abusos dos

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capitalistas; e liberal em política, porque não suportava a falta de


liberdade e as ditaduras, nem mesmo a do proletariado, pois os
pobres no poder, ao deixarem de ser pobres, não eram menos
tirânicos e desumanos que os ricos. (p. 54-55)

A questão da religiosidade é outro elemento bastante perturbador para o


escritor. Entre o pragmatismo cristão da mãe e o pai ateu, a formação da fé do menino
Abad está mais relacionada às aprendizagens e benfeitorias do pai aos mais
necessitados do que a fé divina em Deus, simbolizado pelas crenças, ritos e rotinas da
casa, mas nada mais que isso. A formação identitária inicial é pautada por essa dupla
referência parental:

Meu pai e minha mãe eram um oposto de outro em matéria de


crenças e comportamento, mas na vida cotidiana eram
complementares e muito amorosos. Havia entre os dois um contraste
tão claro de atitude, caráter e formação, que para o menino que eu
era essa diferença radical entre meus modelos de vida se impunha
como o mais difícil dos enigmas. Ele era agnóstico; ela, quase mística.
Ele odiava o dinheiro; ela, a pobreza. Ele era materialista no plano
ultraterreno e espiritual no plano material, ela deixava o espiritual
para o além e no aquém perseguia os bens materiais. A contradição,
porém, não parecia afastá-los, e sim atraí-los mutuamente, talvez
porque, antes de mais nada, compartilhavam um núcleo de ética
humana no qual se identificavam. Meu pai consultava minha mãe em
tudo, ao passo que minha mãe via o mundo pelos olhos dele,
demonstrando um amor profundo, incondicional, à prova não só de
contratempos mas de qualquer discrepância radical e de qualquer
informação perniciosa ou maligna que alguma “alma caridosa” lhe
desse sobre ele. (p. 129)

A perda da irmã, vítima de leucemia, no entanto, faz com que a fé do autor seja
questionada, e a identidade, definida:

Até que, depois desse parêntese de felicidade quase perfeita que


durou alguns anos, o céu invejoso se lembrou de nossa família, e
aquele Deus furibundo no qual meus antepassados acreditavam
sobrecarregou o raio de sua ira sobre nós, que, talvez sem perceber,
éramos uma família feliz, e até muito feliz. Costuma ser assim
mesmo: quando mais vivemos a felicidade é quando menos nos
damos conta de que somos felizes, e talvez as alturas nos mandem
uma boa dose de dor para que aprendamos a ser bem-agradecidos.
Essa na verdade é uma explicação da minha mãe, que nada explica, e
embora eu não a assuma nem endosse, mesmo assim a transcrevo,

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porque, de fato, enquanto a felicidade nos parece sempre uma coisa


natural e merecida, as tragédias nos parecem enviadas de fora, como
uma vingança ou um castigo decretado por potências malignas por
causa de culpas obscuras, ou por deuses justiceiros, ou anhos que
executam sentenças inelutáveis. (p. 165)

Caracterizando a figura de Deus como um punidor, os questionamentos do


autor indicam a própria relação de mundo que os latino-americanos viveram, desde
seu processo de colonização. Ao serem obrigados a negar seus deuses e invocações
místicas em prol do cristianismo do Deus único dos espanhóis, não só a fé lhes foi
arrancada, como também a possibilidade de se identificar como parte dessa
religiosidade. Se antes a própria cultura lhes era apagada, junto com seus dialetos, em
valoração imposta pelo idioma estrangeiro, o próprio idioma foi o que direcionou
centenas de milhares de latino-americanos a pensar e conversar com um deus que não
conheciam, não se familiarizavam, que os punia e os ameaçava.
A escrita, no entanto, é alheia a qualquer crença. Ela é a forma de expor, de
negar o que não se crê ou que não pode ser possível, de refletir sobre o que se nos
coloca, ou de tornar validado e eterno, pela letra, o que a memória oculta, nega ou
esquece. "Não é a morte que dissolve o amor, é a vida que dissolve o amor" (p. 197),
disse o pai Abad como agradecimento aos médicos da filha, mesmo na impossibilidade
da cura. E parece ser o amor o único tributo ofertado pelo filho, em forma de palavras,
para também homenagear o pai.
Em outra parte do livro, intitulada Anos de luta, Abad indica que as dores da
perda são mediadas pelas noções de realidade que temos. Numa passagem, ele
escreve:

Não sei em que momento a sede de justiça ultrapassa essa perigosa


fronteira em que se transforma numa tentação de martírio. Um
sentimento moral muito elevado sempre corre o risco de se
exacerbar e cair na exaltação da militância frenética. Uma fé otimista
muito forte na bondade intrínseca dos seres humanos, quando não
atenuada pelo ceticismo de quem conhece mais profundamente as
inevitáveis mesquinharias ocultas na natureza humana, leva a pensar
que é possível construir o paraíso na terra, com a "boa vontade" da
maioria. [...]
Tenho certeza de que meu pai não sofreu a tentação do martírio
antes da morte da Marta, mas depois dessa tragédia familiar
qualquer inconveniente parecia menor, e qualquer preço já não
parecia tão alto como antes. (p. 205)

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Na dor sofrida pela perda da filha, o pai faz da militância pela justiça a todos
uma forma de tentar expurgar sua impotência frente à doença dela, mesmo sendo
médico, e com todos os recursos possíveis, inviáveis para curá-la. Nesse sentido, o
escritor, na sua posição de registrar as histórias alheias através das palavras tomadas a
esmo, na tentativa de significar, completa:

A compaixão é, em boa medida, uma qualidade da imaginação:


consiste na capacidade de pôr-se no lugar do outro, de imaginar o
que sentiríamos se sofrêssemos uma situação análoga. Sempre achei
que os impiedosos carecem de imaginação literária - essa capacidade
que os grandes romances nos dão de nos pôr na pele dos outros -, e
são incapazes de ver que a vida dá muitas voltas, e que o lugar do
outro uma hora pode ser ocupado por nós: em dor, pobreza,
opressão, injustiça, tortura. (p. 206)

As palavras remetem à recordação e, para o autor, "se recordar é passar outra


vez pelo coração, eu sempre o recordei" (p. 294). A demora para escrever reflete na
própria forma como encara o processo criativo literário, que não consegue passar
imune à lembrança emotiva: "não escrevi em todos esses anos por um motivo simples:
sua recordação me comovia demais para poder escrevê-la" (p. 294). O desejo de não
correr o risco de algum "excesso de sentimentalismo" (p. 294) transforma os vinte
anos de dor entre o dia da perda e o processo de escrita: "a ferida continua aqui, no
lugar por onde passam as recordações, porém mais que uma ferida já é uma cicatriz"
(p. 294). E completa: "O caso dele não é único, e talvez não seja o mais triste. Há
milhares e milhares de pais assassinados neste país tão fértil para a morte. Mas é um
caso especial, sem dúvida; e para mim, o mais triste. Além disso, reúne e resume
muitíssimas das mortes injustas que temos padecido aqui" (p. 294).
Assim, a identidade latino-americana é plural, marcada pela mescla de culturas
e de linguagens, organizações políticas e sociais. Na ânsia por defini-la, identificamos o
que a configura, e é justamente essa multiplicidade que nos faz interpretarmos como
latino-americanos. Mais que uma dominação política e territorial, o que contrasta na
América Latina é o desejo de identidade libertária igualitária a todos, por mais utópico
que isso possa parecer.
Em A ausência que seremos, a morte de Héctor Abad, em função dos seus
ideais de igualdade para toda a população de Medellin é mais uma morte injusta pelas
mãos daqueles que viam na América Latina um espaço de poucos, fosse a elite
intelectual, como mostrada por Rama, fosse pela elite política, opressora e violenta,
das ditaduras e/ou falsas democracias. O poema de Borges encontrado no bolso,
rabiscado num pedaço de papel, parecia anunciar a única necessidade do doutor Abad

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Gómez: ser lembrado, mesmo após a morte, pelo que acreditava, e na tentativa de
uma mudança social justa a seu país. Muito se tem mudado na América Latina, e isso
se deve sobretudo na literatura. Talvez como afirmava José Marmol, argentino exilado
no Rio de Janeiro dos anos 1845, a independência e o espírito progressista da América
só pode ocorrer por conta da juventude progressista, em que a pena e o papel sejam
as armas de militância. Se depender da obra de Héctor Abad, ainda podemos seguir
nesse valor da literatura: a mudança. Porque se as palavras não podem confessar tudo,
elas ainda podem ser a única forma de tentar eternizar.

Há uma corrente familiar que não se rompeu. Os assassinos não


conseguiram nos exterminar e nunca vão consegui-lo, porque aqui há
entre nós um vínculo de força e de alegria, de amor à terra e à vida
que os assassinos não puderam vencer. Além disso, aprendi uma
coisa do meu pai que os assassinos não sabem fazer: pôr a verdade
em palavras, para que ela dure mais que sua mentira. (ABAD, 2011,
p. 298)

Referências

ABAD, Héctor. A ausência que seremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
RAMA, Ángel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1984.

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CARACTERIZAÇÃO ACÚSTICA DAS FRICATIVAS SIBILANTES EM PORTUGUÊS BRASILEIRO:


UMA INTERFACE ENTRE A LINGUÍSTICA E A ENGENHARIA

Ana Paula Correa da Silva Biasibetti1

Este estudo-piloto tem por objetivo caracterizar acusticamente as fricativas


sibilantes surdas que ocorrem em coda silábica nas variedades faladas em Porto
Alegre/RS e Florianópolis/SC, a saber, os sons consonantais [s] e [ʃ].
Pesquisas sobre a fonologia do português brasileiro revelam que, na
subjacência, um arquifonema /S/ ocorre em coda silábica, sendo subespecificado
quanto ao ponto de articulação (alveolar ou palato-alveolar) e ao vozeamento (sonora
ou surda). Isso significa que a sibilante em coda pode realizar-se foneticamente como
[s], [z], [ʃ] ou [ʒ]. O vozeamento é sensível ao contexto seguinte, ou seja, a sibilante é
realizada como sonora se o segmento seguinte for sonoro e como surda se o segmento
seguinte for surdo ou, ainda, se houver pausa. Quanto ao ponto de articulação, as
formas variantes são marcadores dialetais, isto é, algumas regiões optam pelas
sibilantes alveolares em detrimento das palato-alveolares enquanto que outras regiões
preferem as palato-alveolares às alveolares. Além disso, a frequência de uso das
variantes pode oscilar em função de variáveis linguísticas (contexto seguinte, por
exemplo) e sociais (sexo, escolaridade, idade, etc.) (CALLOU; MORAES, 1996).
Em posição de coda silábica, há o predomínio da variante alveolar em Porto
Alegre (doravante POA) e da variante palato-alveolar em Florianópolis (doravante
FLO). A investigação acústica que conduzimos no estudo-piloto aqui apresentado
revelou, todavia, que algumas das ocorrências coletadas em POA e identificadas de
oitiva como sibilantes alveolares apresentaram a distribuição espectral de uma
sibilante palato-alveolar. Em contrapartida, alguns dos dados coletados em FLO e
identificados por oitiva como palato-alveolares apresentaram a distribuição espectral
de uma alveolar.
Poder-se-ia levantar a hipótese de que essa gradiência fonética é significativa
no sentido de que as formas acusticamente identificadas como variantes poderiam
indexicar alguma informação social. Possíveis correlações entre formas variantes e
conteúdos indexicais nas variedades faladas em POA e em FLO serão verificadas
através da aplicação de testes de percepção de categorias linguísticas e de categorias

1
Doutoranda em Linguística na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Bolsista CNPq.
E-mail: biasibetti.ana@gmail.com

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sociais em etapas futuras deste estudo. Por ora, o objetivo é apresentar a metodologia
aplicada à caracterização acústica das sibilantes em dados de POA e FLO. Tal tarefa,
para tanto, demanda conhecimentos e instrumental teórico-metodológico que
extrapolam o campo da Linguística. Assim sendo, torna-se imprescindível tecer uma
interface entre a Linguística e a Engenharia de modo a apropriar-se de conhecimentos
e práticas específicos da área de Acústica.

Fricativas sibilantes

Os sons consonantais utilizados na produção de fala apresentam diferentes


modos de articulação, tais como o oclusivo, o fricativo, o nasal, entre outros. Os sons
fricativos são produzidos através da passagem da corrente de ar proveniente dos
pulmões por uma constrição em algum ponto do trato oral, gerando ruído ou fricção.
Entenda-se por constrição um estreitamento causado pela aproximação de dois
articuladores, tais como a língua, dentes, alvéolos, palato, entre outros.
As fricativas são, portanto, os sons resultantes da turbulência de ar que ocorre
na constrição em si ou no choque da corrente de ar em alta velocidade contra algum
obstáculo após o ponto de constrição (LADEFOGED; MADDIESON, 1995, p. 138).
São consoantes fricativas em português brasileiro os sons [f, v, s, z, ʃ, ʒ, x, ɣ, h,
ɦ]. As fricativas alveolares [s, z] e palato-alveolares [ʃ, ʒ] diferem-se acusticamente das
demais fricativas por apresentarem sibilância. Sibilância é uma propriedade acústica
definida pela concentração de energia em frequências altas (acima de 3kHz): [s], por
exemplo, ocorre em frequências acima de 3kHz e alguns picos são visualizados entre
4kHz e 7kHz; a energia de [f], por outro lado, concentra-se abaixo de 1kHz e não há
picos pronunciados (BAART, 2010, p. 71).

Fundamentação teórica

O presente estudo fundamenta-se nas premissas teórico-metodológicas da


Sociofonética (FOULKES; DOCHERTY, 2006; DIPAOLO; YAEGER-DROR, 2010; THOMAS,
2011), a qual contempla a variação fonética que ocorre tanto em nível dialetal quanto
em grupos sociais específicos. A Sociofonética tem por aporte teórico as premissas da
Sociolinguística Quantitativa (LABOV, 1972) e faz uso do instrumental técnico
desenvolvido pela Fonética Acústica (LADEFOGED; MADDIESON, 1995; STEVENS, 2000;
KENT; READ, 2002) que se beneficia, por sua vez, de estudos e achados da área de
Engenharia.

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Metodologia

Foram utilizados dados de entrevistas realizadas com 4 informantes adultos de


Porto Alegre/RS e de Florianópolis/SC, sendo 1 homem e 1 mulher de cada localidade.
Essas entrevistas pertencem à amostra Brescancini & Valle, a qual está depositada
junto ao banco de dados VARSUL (Variação Linguística Urbana no Sul do Brasil). Os
áudios das referidas entrevistas foram capturados por gravadores digitais com taxa de
amostragem de 44,1kHz e consistem em entrevistas de experiência pessoal realizadas
de acordo com a metodologia de coleta de dados proposta por Labov (1972).
Consideraram-se apenas os 30 minutos iniciais de cada gravação e as
ocorrências cuja sibilante em coda não fosse a desinência nominal indicativa de plural.
Assim, levantaram-se 32 ocorrências de sibilantes surdas em posição de coda silábica.
Os segmentos sibilantes foram segmentados e etiquetados através do
programa Praat (BOERSMA; WEENINK, 2015) e, na sequência, submetidos a um script
de extração de momentos espectrais baseado no método Time Averaging. O referido
método extrai os quatro momentos espectrais, a saber, o centro de gravidade, o
desvio padrão, a assimetria e a curtose. Os momentos espectrais são ponderações
estatísticas que visam representar a distribuição de energia do sinal acústico analisado.
Tais ponderações refletem dados articulatórios que, no caso das fricativas, informam
sobre a sibilância e o ponto de articulação dos segmentos. Reproduzimos abaixo uma
ilustração do método Time Averaging:

Figura 1 – Procedimento Time Averaging

Fonte: Adaptado de Jesus & Shadle (2002, p. 444)

Observa-se na Figura 1 acima que um segmento /s/ é fracionado em n janelas


ao longo de seu eixo temporal. Uma Transformada Discreta de Fourier (Discrete
Fourier Transform) é aplicada a cada janela e, ao final do processo, obtém-se a média
das transformadas. É dessa média que se extraem os momentos espectrais. Isso
significa que a DFT média é o estimador espectral da metodologia Time Averaging.

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A referida metodologia fundamenta-se no pressuposto de que ainda que o sinal


acústico verificado nas fricativas seja um processo estocástico, cada uma das porções
que compõem o segmento fricativo pode ser entendida como estática. Dessa forma,
ao extraírem-se transformadas de cada um desses trechos e, após, a média das
transformadas, neutralizar-se-iam as mudanças que ocorrem ao longo da duração do
segmento.
Cada uma das ocorrências levantadas em POA e em FLO foi fracionada em 6
janelas de 15ms cada. O valor médio obtido pelas 6 transformadas foi utilizado para a
mensuração de apenas dois momentos espectrais, a saber, o centro de gravidade e a
assimetria haja vista que a literatura sobre fricativas aponta que os demais momentos
espectrais nada informam em termos de diferenciação de sibilantes por ponto de
articulação (FORREST et al, 1988; JONGMAN et al., 2000).
O centro de gravidade (ou primeiro momento espectral) é o ponto onde ocorre
a maior concentração de energia gerada pela constrição. A assimetria (ou terceiro
momento espectral) calcula o formato da distribuição de energia abaixo e acima do
centro de gravidade: valores positivos são indicativos de que a constrição se localiza
mais posteriormente no trato oral, enquanto que valores negativos estão associados à
anterioridade da constrição (OLIVEIRA, 2011).

Resultados

Considerando-se as 32 ocorrências analisadas, há 7 casos em que uma fricativa


identificada de oitiva como alveolar apresenta a distribuição espectral de uma fricativa
palato-alveolar, assim como há casos em que uma fricativa identificada como palato-
alveolar apresenta a distribuição de uma alveolar. Reproduzimos a seguir os resultados
obtidos em relação aos segmentos divergentes:

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Quadro 1 - Assimetria da sibilante em coda

LOCALIDADE SEGMENTO ASSIMETRIA

co/S/tura 1.25

PORTO ALEGRE/RS di/S/cutiu 1.45

ba/S/tante 2.26

go/S/tava 1.55

LOCALIDADE SEGMENTO ASSIMETRIA

su/S/ -2.40
FLORIANÓPOLIS/SC
ve/S/ -0.30

e/S/tá -0.64

Observa-se no Quadro 1 acima que as sibilantes em coda das palavras costura,


discutiu, bastante e gostava coletadas em Porto Alegre são articuladas em um ponto
mais posterior do trato, teoricamente aproximando-se da variante palato-alveolar
produzida em Florianópolis. As sibilantes em coda coletadas em Florianópolis nas
palavras SUS, vez e está, por sua vez, são articuladas mais anteriormente,
aproximando-se da variante alveolar produzida em Porto Alegre.

Discussão dos resultados

A caracterização divergente encontrada para a sibilante nas duas localidades


decorre, por hipótese, de uma configuração articulatória diferenciada que pode ter
motivação fisiológica, linguística e/ou social. Em outras palavras, essa diferença
articulatória detectada através da análise acústica pode ser consequência de aspectos
relacionados ao trato vocal dos informantes, a fatores linguísticos ou a fatores sociais.
No entanto, os resultados apresentados no Quadro 1 baseiam-se em dados
produzidos por um número muito reduzido de informantes. Logo, as hipóteses
propostas não podem ser testadas nesse corpus. Essas e outras hipóteses deverão ser
testadas em uma amostra ampla que contemple um grande número de informantes,

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os quais deverão ser tratados estatisticamente como uma variável aleatória. Prevê-se,
portanto, a utilização de um modelo de efeitos mistos a fim de que variáveis preditivas
e aleatórias sejam conjuntamente ponderadas em relação aos seus efeitos em relação
à variável dependente.
Anterior a esse tratamento estatístico, todavia, será necessário verificar as
estimativas espectrais dos segmentos sibilantes através de um método que ofereça
uma probabilidade de erro ainda menor que aquela oferecida pelo método Time
Averaging, pois, nas palavras de Menezes (2014, p. 71), “ (...) a aplicação das janelas no
domínio do tempo reduz a quantidade de informação do sinal, elevando, por sua vez, a
variância do estimador”.
Nesse sentido, Blacklock (2004) e Shadle (2006) sugerem a metodologia
Multitaper como a mais indicada para a análise das fricativas, uma vez que seu
estimador apresenta uma variância bastante reduzida em relação a outros métodos
comumente utilizados na análise acústica da fala:

With this method, a single short signal segment is used, but it is


multiplied by many different windows – called tapers – before
computing and averaging their DFTs. The particular shape of the
tapers satisfies the requirement for statistical independence of the
signals being averaged (SHADLE, 2006, p. 449).

Próximas etapas

Serão realizadas 80 entrevistas (40 em cada localidade) com informantes


adultos de diferentes perfis sociais. Para tanto, as seguintes variáveis sociais serão
controladas: sexo, orientação sexual, classe social e escolaridade.
A caracterização acústica será realizada através do método Multitaper. Esse
procedimento garantirá uma análise espectral ainda mais acurada, o que é crucial para
a investigação e validação de possíveis padrões sociofonéticos correlacionados à
produção variável da sibilante em coda nas variedades estudadas.
O estudo-piloto aqui apresentado tem um viés interdisciplinar entre a
Linguística e a Engenharia e, a partir de seu objetivo principal, a saber, a caracterização
acústica das sibilantes, tem por objetivo secundário a identificação de possíveis
padrões sociofonéticos e aplicações nas áreas de síntese de fala e de comparação
forense de locutor.

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Referências
BAART, Joan. A field manual of acoustic phonetics. Dallas: SIL International, 2010.
BOERSMA, P. WEENINK, D. Praat: doing phonetics by computer [Computer program].
Versão 5.4.10, 2015. Disponível em http://www.praat.org/. Acessado em 27 jun.
2015.
BLACKLOCK, O. S. Characteristics of variation in production of normal and disordered
fricatives using reduced-variance spectral methods. Unpublished doctoral
dissertation. University of Southampton, England, 2004.
CALLOU, D.; MORAES, J. A. de. A norma de pronúncia do S e R pós-vocálicos:
distribuição por áreas regionais. In: CARDOSO, S. A. M. (Org.). Diversidade
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SENTIDOS EM CONFLITO NO DISCURSO SOBRE O MASSACRE DE CURITIBA

Antonia Zago1
Gabriela da Silva Zago2

Introdução

No dia 29 de abril de 2015, professores estaduais do Paraná entraram em um


confronto com a polícia. Eles estavam protestando contra um projeto de lei proposto
pelo governador Beto Richa. Entretanto, o ato saiu do controle e, com a intervenção da
polícia, resultou em cerca de 200 feridos (LIMA, 2015).
Devido à dimensão do episódio, ele passou a ser retratado de diferentes
formas. Ainda que na imprensa tradicional tenham predominado referências ao caso
como um mero “conflito” (PINTO, 2015) ou “confronto” entre policiais e manifestantes
(CARAZZAI, 2015; JUSTI, 2015), usuários nos sites de redes sociais passaram a se referir
ao evento de outras formas, em especial usando o termo “massacre”.
Com base nesse contexto, o trabalho procura abordar o discurso em torno do
episódio ocorrido em Curitiba no confronto entre professores, governador e polícia. A
partir de um corpus de tweets contendo os termos “massacre” e “Curitiba”,
identificamos as principais formações discursivas observadas sobre o tema.
O artigo está organizado da seguinte forma: em um primeiro momento,
aborda-se o conceito de formação discursiva. Na sequência, o foco recai sobre o
episódio ocorrido e sua relação com as redes sociais na internet. Após, os
procedimentos metodológicos são apresentados, seguidos de resultados e discussão.

Formação discursiva

Para Charaudeau & Maingueneau (2004), o conceito de formação discursiva


(FD) tem dupla origem, tendo resultado dos estudos de Pêcheux e de Foucault. No
entanto, é com Pêcheuax que essa noção é acolhida na Análise do Discurso. Para
Foucault (1986), uma FD é tida como um conjunto de enunciados (e não apenas

1
Mestre em Letras pela UCPel. Professora da Faculdade IDEAU – Bagé.
E-mail: antoniazago@gmail.com
2
Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS.
E-mail: gabrielaz@gmail.com

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objetos linguísticos), na medida em que é preciso considerar, para a sua compreensão,


as condições históricas para o aparecimento desses objetos discursivos.
Em A arqueologia do saber, Foucault (1986) desenvolve a noção de Formação
Discursiva, apresentando-a como um dispositivo metodológico para a análise
arqueológica dos discursos, daí a sua definição:

No caso em que se puder descrever, entre um certo número de


enunciados, semelhante sistema de dispersão e, no caso em que entre
os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas
se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e
funcionamentos, transformações) diremos, por convenção, que se
trata de uma formação discursiva [...] (FOUCAULT, 1986, p. 43).

Para o autor, o discurso vai além do enunciado e abrange também o conjunto


ideológico em que as formações discursivas se inserem. Nesse sentido, mais do que
observar os enunciados, busca-se também observar as regularidades do discurso, para
o que os estudos acerca da filosofia do autor colaboram.
Assim, Foucault (1986, p. 43) compreende o discurso como “um conjunto de
enunciados na medida em que eles provêm da mesma formação discursiva”. Para o
autor, o discurso que se apoia em uma FD não possui apenas um sentido ou uma
verdade, ele possui acima de tudo uma história. Esses discursos refletem o
funcionamento da sociedade, o modo como as instituições e seus processos
econômicos e sociais dão lugar a tipos definidos de discursos. Conforme já
mencionado, para o autor, é necessário, pois, considerar as condições históricas para o
aparecimento de um objeto discursivo.
Desse modo, estão no centro das reflexões de Foucault o exercício da função
enunciativa bem como suas condições, suas regras de controle e o campo em que esta
se realiza. Para o autor, entre o enunciado e o que ele enuncia não existe apenas uma
relação gramatical: há uma relação que envolve sujeitos, perpassa a história e abarca a
própria materialidade do enunciado. É a partir desse ponto de vista que o autor
afirma: “Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que mais fazem é mais
que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à
língua e ao ato de fala. É esse “mais” que é preciso fazer aparecer e que é preciso
descrever” (FOUCAULT, 1986, p. 56).
Nesse sentido, Orlandi (2005) também defende que “os sentidos não estão nas
palavras elas mesmas”. Os sentidos são derivados da formação discursiva em que se
apoiam, posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as
palavras são produzidas. Para a autora, as palavras tanto tiram seu sentido dessas

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posições ideológicas em que se inscrevem, quanto mudam de sentido de acordo com


as posições daqueles que as empregam.
Para Orlandi (2005), “A noção de FD, ainda que polêmica, é básica na AD, pois
permite compreender o processo de produção dos sentidos, a sua relação com a
ideologia e também dá ao analista a possibilidade de estabelecer regularidades no
funcionamento do discurso”. Para a autora, disso decorre a compreensão de dois
pontos. O primeiro ponto diz que “O discurso se constitui em seus sentidos porque
aquilo que o sujeito diz se inscreve em sua formação discursiva e não outra para ter
um sentido e não outro”. Pelo segundo ponto, tem-se que “É pela referência à
formação discursiva que podemos compreender, no funcionamento discursivo, os
diferentes sentidos” (ORLANDI, 2005, p.43-44).
A partir de Foucault (1994; 1995), Gregolin (2006a) afirma que há discursos
midiáticos que produzem uma rede simbólica que forja identidades a partir de uma
“estética de si”. Essas práticas discursivas levam à formação de identidades e de
subjetividades com singularidades históricas.
Assim, compreender o discurso envolve também compreender os sentidos por
trás dos mesmos, representados pelas formações discursivas nas quais os discursos se
inserem. O primeiro passo para entender o discurso para além da materialidade
linguística envolve compreender o contexto sócio-histórico no qual os discursos se
inserem. Assim, a seguir, apresenta-se o caso que serve como base para o presente
estudo, para, na sequência, proceder-se à análise das sequências discursivas.

O “massacre” de Curitiba

Um discurso que se insere em uma FD não possui apenas um sentido ou uma


verdade; ele possui, acima de tudo, uma história. Desse modo, o papel do arqueólogo
do discurso é revelar como as instituições e os processos sociais dão lugar a tipos
definidos de discurso. Assim, é preciso levar em conta as condições históricas para o
aparecimento de um objetivo discursivo para poder compreendê-lo dentro de sua
formação discursiva.
Nesse sentido, o objeto discursivo aqui analisado deriva de um episódio
ocorrido no dia 29 de abril de 2015 na cidade de Curitiba, no Paraná. Um conflito entre
professores estaduais e policiais militares deixou mais de 200 feridos. O ato,
organizado pelas redes sociais, buscava protestar contra a aprovação de um projeto de
lei do governador Beto Richa (PSDB), que altera as regras de pagamento de
aposentadorias dos servidores estaduais (ZERO HORA, 2015). Após o ocorrido, o

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evento passou a ser chamado com expressões como “massacre do dia 29 de abril”,
“massacre de Curitiba”, e outros.
Sites de redes sociais como o Twitter foram utilizados para narrar e criticar o
episódio. Assim, os usuários da internet se valeram do potencial de espalhamento da
rede (JENKINS; FORD; GREEN, 2013) para dar visibilidade a seus posicionamentos sobre
o ocorrido. Mais do que manifestar opinião sobre o ocorrido, os sites de redes sociais
propiciam a fácil reprodução de conteúdos com os quais o usuário se identifica,
potencializando a circulação das informações (ZAGO, 2014).
No espaço das redes, ocorre uma disputa por visibilidade (RECUERO, 2009),
com diferentes atores sociais buscando dar destaque a seus pontos de vista sobre os
acontecimentos. Essa disputa por visibilidade guarda relação com uma economia do
retweet. Para Recuero e Zago (2012), ao reproduzir um conteúdo no Twitter (através
do botão de retweet), está-se aderindo a um determinado posicionamento e
contribuindo para dar visibilidade àquela versão do fato. Como há uma limitação de
espaço de até 140 caracteres em cada mensagem, escolher quem retuitar é uma
questão econômica – quando mais de um usuário ou entidade posta a mesma coisa, é
preciso selecionar aquelas às quais se dará visibilidade através do retweet. Assim,
mesmo o ato de retweet envolve uma escolha (quem retuitar / quem referenciar como
autor original da mensagem reproduzida), que traz implicações para os sentidos de um
determinado discurso.

Procedimentos metodológicos

Para operacionalização do estudo, compusemos um corpus de tweets contendo


os termos “massacre” e “Curitba”. Os dados foram coletados no dia 06 de maio de
2015, utilizando o software NodeXL, e abrange um período de uma semana,
capturando tweets a partir do dia 29 de abril, data em que ocorreu o primeiro
confronto entre manifestantes e polícia. Ao todo foram obtidas 2993 unidades
textuais. O recorte utilizado para este trabalho compreende apenas os tweets dos dias
29 e 30 de abril de 2015. Como o corpus inclui tweets e retweets, muitos enunciados
são repetidos, na forma de retweets.
Após a coleta de dados, partimos para uma leitura flutuante, através da qual
foram identificadas as regularidades do discurso. Cada tweet é tomado como uma
unidade textual composta por uma, duas, ou mais sequências discursivas, e, a partir
dessas SDs, identificamos as principais formações discursivas.

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No exemplo abaixo, a primeira parte da mensagem “Canalhas do PSDB”


representa a SD 240A, ao passo que a segunda parte, “Pres da Comissão de Direitos
Humanos vai a Curitiba pedir fim do massacre”, compõe a SD 240B.

RT @midiacrucis: Canalhas do PSDB / Pres da Comissão de Direitos


Humanos vai a Curitiba pedir fim do massacre

Os trechos foram considerados SDs diferentes na medida em que a SD 240B


apenas reproduz uma mensagem postada originalmente por outro usuário, ao passo
que a SD 240A representa uma manifestação de opinião sobre o caso.
A análise das FDs permitiu identificar algumas recorrências no discurso, como
no caso de identificar quem são os atores responsáveis pelo ocorrido e o conteúdo das
mensagens. A partir da observação desses discursos, percebe-se que evidenciam a
construção de discursos de identidade desses grupos. Com isso, deixam de ser meros
signos e passam a ser vistos como práticas que formam sistematicamente os objetos
de que falam.
Segundo Foucault (apud GREGOLIN, 2006b, p.7), “desde sua raiz, o enunciado
se delineia em um campo enunciativo onde tem lugar e status, que lhe apresenta
relações possíveis com o passado e que lhe abre um futuro eventual, isto é, que o
insere na rede da História e, ao mesmo tempo, o constitui e o determina”.

Resultados e discussão

Assim, no contexto do conflito discursivo analisado, identificamos quem são os


atores responsáveis pelo massacre e os conteúdos postos em circulação. Em alguns
casos, a autoria é atribuída ao governador (“massacre de Beto Richa em Curitiba”) ou
ao governo (“Governo tucano promove massacre”), em outros, o massacre não possui
autoria (“Praça é palco de massacre”), e, ainda, há casos em que a culpa é atribuída à
PM (“PM cumpriu seu papel”), ou à presidente (“culpa da Dilma”). Em termos de
conteúdo, há situações em que a própria nomenclatura do episódio é discutida
(confronto ou massacre). A partir da identificação das principais formações discursivas,
foi possível perceber os diferentes sentidos atribuídos ao episódio por diferentes
atores, tanto indivíduos quanto a mídia, que utilizaram os termos “massacre” e
“Curitiba” para descrever o evento em seus tweets.
A autoria do massacre é atribuída a diferentes atores. A maior parte dos tweets
atribui esse papel ao governador do PR, Beto Richa, como na SD 96:

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RT @enioverri13: Mais de 100 feridos no massacre autorizado por


Beto Richa no Centro Cívico de Curitiba.

O segundo autor mais frequente é o “governo tucano”, como pode ser visto na
SD 471:

RT @JornaldoBrasil: Paraná: governo tucano promove massacre de


professores
Pelo menos 200 pessoas ficaram feridas http://t.co/n0OX0Xxz6t

Mas há também tweets que atribuem a autoria do massacre aos policiais que
entraram em confronto direto com os professores, aos próprios professores (como na
SD 129, abaixo), e até mesmo a Dilma (SD 742) ou a um governo federal omisso.

SD 129: Os caras querem partir p cima da polícia e ñ querem reação.


Aliás, querem e conseguem derramamento d sangue. Aí falam em
"massacre de Curitiba"

SD 742: Vejam o que dizem jornais internacionais sobre o massacre


de Curitiba: culpa da Dilma. O que diz a Dilma? Nada.
http://t.co/f1YZIwvRqZ

Ainda que várias mensagens discutam quem seriam os culpados pelo


confronto, a grande maioria dos tweets não discute a autoria, e sim outros aspectos
relacionados ao episódio.
Assim, é possível observar, por exemplo, inúmeros tweets que discutem a
própria nomenclatura do episódio, dizendo que deveria ser “massacre”, e não
“confronto”, como até então a mídia tradicional vinha reportando.

SD 627: RT @edufeuerh: O que acontece no Centro Cívico de Curitiba


não é confronto, é tentativa de massacre

SD 149A e SD 149B: “@g1: Confronto entre PM e professores deixa


mais de 100 feridos em Curitiba http://t.co/N8tKOQJg68 #G1
http://t.co/eKbnWWy4sX” MASSACRE!!!

SD 154: RT @palmeriodoria: Só a Folha pra chamar o massacre dos


professores em Curitiba de "confronto" com a PM, observa Miguel do
Rosário.

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Há ainda tweets que comparam o episódio com casos ocorridos na ditadura, e


até com o nazismo, em expressões como “governo nazitucano” ou “Beto Ritler”.

SD 234: RT @turquim5: Comissão de Direitos humanos vai a Curitiba


pedir fim do massacre tucano de #BetoRitler!!!
http://t.co/AscaeZxozi

SD 423: Governo Nazitucano promove massacre de professores e


estudantes em Curitiba #opiniao http://t.co/3Hk8nVTQkZ via
@JornaldoBrasil

SD 331: http://t.co/7itlzBGC6N Houve um massacre em Curitiba hoje.


Me fez lembrar 1968 nas ruas de Belo Horizonte em plena ditadura.
Que horror!

Ainda que diferentes olhares tenham sido lançados sobre o evento, dentre
aqueles que tuitaram usando os termos “massacre” e “Curitiba” há um certo consenso
no sentido de que os professores foram “vítimas” de um “massacre” promovido por
“Beto Richa”. Esse resultado está diretamente ligado com as palavras-chave usadas
para fazer a coleta de dados (“massacre” e “Curitiba”).

Considerações finais

A partir de um corpus composto por tweets contendo os termos “massacre” e


“Curitiba”, o artigo procurou discutir os sentidos em conflito acerca do episódio
ocorrido em Curitiba no confronto entre professores e polícia diante da Assembleia
Legislativa do Paraná no dia 29 de abril de 2015.
Para identificar esses sentidos em conflito, foram identificadas as principais
formações discursivas acerca do tema. A partir da discussão desses sentidos em
conflito, observaram-se os usos que se dão em condições diferentes de produção, que
podem ser referidos a diferentes FDs.
Especificamente no caso abordado, foi possível perceber os diferentes atores
identificados como responsáveis pelo ato, bem como o conteúdo das mensagens. Não
apenas professores e policiais são apontados como atores, como também – e
principalmente – o próprio governador do estado do Paraná, Beto Richa. Em relação
ao conteúdo, comparações são feitas com regimes extremistas (nazismo, fascismo,
ditadura), ao mesmo tempo que o episódio é narrado e criticado. A própria
nomenclatura do evento também é discutida.

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É preciso considerar as condições históricas para o aparecimento de um objeto


discursivo, uma vez que os sentidos dependem das relações constituídas nas / pelas
FDs. A partir da observação desses trajetos temáticos, percebe-se a construção de
discursos de identidade desses grupos.

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<http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2015/04/professores-entram-em-
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LIMA, Julio Cesar. “Confronto entre PM e professores no PR deixa cerca de 200
feridos”, Estadão, 29 abr. 2015. Disponível em:
<http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,confronto-entre-pm-e-
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ZAGO, Gabriela. Circulação e recirculação de narrativas do acontecimento no


jornalismo em rede: a copa de 2014 no Twitter. Tese (Doutorado em Comunicação
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professores em Curitiba. Zero Hora, 29 abr. 2015. Disponível em:
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apos-acao-da-pm-em-manifestacao-de-professores-em-curitiba-4750212.html>.
Acesso em: 06 nov. 2015.

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LINGUÍSTICA E NEUROCIÊNCIA EM DIÁLOGO:


O PROCESSAMENTO DE MÚLTIPLAS LÍNGUAS NO CÉREBRO

Bernardo Kolling Limberger1

Introdução

O multilinguismo é cada vez mais frequente em países como o Brasil, onde são
faladas 216 línguas, segundo informações coletadas no Ethnologue: languages of the
world (LEWIS et al., 2015). Cada vez mais, fala-se que o multilinguismo (bem como o
bilinguismo) está se tornando a regra, não sendo mais a exceção (BIALYSTOK et al.,
2009; GROSJEAN, 2010). Sendo assim, é imprescindível estudar o fenômeno a partir de
várias perspectivas, de modo que os interessados na sua manutenção possam se
pautar nesse conhecimento. Para tanto, é preciso ultrapassar as fronteiras da
Linguística, rumo à interdisciplinaridade (MACKEY, 1972).
Neste trabalho, considera-se o multilinguismo de acordo com a Linguística e a
Neurociência Cognitiva. Os trabalhos que se situam nessa interface, com relação a
multilinguismo, se concentram, muitas vezes, em responder parcialmente às seguintes
perguntas: Como o cérebro se adapta à fascinante habilidade de processar duas, três
ou mais línguas? Há diferentes redes neurais para o processamento de cada língua? Há
diferenças entre o processamento de segunda língua (L2) em bilíngues e o
processamento de terceira língua (L3) em multilíngues? Essas questões estão entre as
mais desafiadoras da Neurociência e da (Neuro)linguística contemporâneas (ANDREWS
et al., 2013). Essa interface é, portanto, bastante prolífera e requer, ainda, muitas
investigações.
Este trabalho se concentra na pergunta sobre as redes de processamento de
múltiplas línguas. O seu objetivo é apresentar um panorama de estudos sobre o
processamento de múltiplas línguas no cérebro. Para tanto, discutem-se alguns
pressupostos da Linguística e, então, da Neurociência Cognitiva, com relação ao
processamento multilíngue. Trata-se, portanto, de uma pesquisa bibliográfica. Saliento

1
Mestre e doutorando em Letras (área de concentração: Linguística) pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq).
E-mail: bernardo.limberger@acad.pucrs.br

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que esta pesquisa é de caráter preliminar, devido à limitação de espaço e de tempo,


pois ela se relaciona a uma tese de doutorado em andamento.

1 Multilinguismo na Linguística

O estudo sobre o multilinguismo, mais recente que o estudo sobre o


bilinguismo, teve sua terminologia emprestada e adaptada principalmente da área da
Aquisição de Segunda Língua (Second Language Acquisition). Por se tratar de uma área
recente, o uso da terminologia na pesquisa é problemático (JESSNER, 2008) e
inconsistente (DE ANGELIS, 2007). Os termos ‘segunda língua’ (L2), ‘língua estrangeira’
(LE) e ‘língua adicional’ são, muitas vezes, usados indistintamente para fazer menção a
uma língua que não é a materna (ELLIS, 1994). No entanto, sobre o uso desses termos
há muito debate na literatura2. O multilinguismo envolve, necessariamente, mais de
duas línguas; por isso, é preciso debater também sobre uma terceira língua (L3).
Jessner (2008) discute o uso dos termos especificamente na área do
multilinguismo. A autora postula que na pesquisa sobre aprendizagem de L2, por
exemplo, o termo L1 é usado para fazer menção à língua dominante do falante, mas é
de difícil aplicação ao contexto de aprendizagem multilíngue. A dominância não
corresponde necessariamente à ordem cronológica da aprendizagem ou à idade
aquisição e é sujeita à mudança. Conforme De Angelis (2007), uma terceira língua ou
língua adicional é frequentemente referida como uma L3, independentemente se for a
terceira, a quarta ou a sexta língua. De Bot e Jaensch (2013) consideram a L3, mas
enumeram as outras línguas de acordo com a idade de aquisição – L1, L2, L3, Ln (DE
BOT; JAENSCH, 2013). Todavia, Grosjean (2010) não diferencia multilíngues de
bilíngues. Desse modo, os trilíngues e multilíngues estão incluídos na sua definição de
bilinguismo, uma vez que bilíngues são “aqueles que usam duas ou mais línguas (ou
dialetos) nas suas vidas cotidianas” (GROSJEAN, 2010, p. 22).
Os multilíngues, conforme Cenoz e Jessner (2000), possuem algumas
peculiaridades, principalmente no que se refere à aprendizagem da L3. Entretanto,
muitas características são comuns ao bilinguismo e à aprendizagem de uma L2.
Conforme Jessner (2008), no estudo do multilinguismo há uma ponte entre a
aprendizagem de L2 (processo) e o bilinguismo (produto). Desse modo, o falante
multilíngue dispõe de ferramentas que podem ser usadas para estudar sistemas de
aprendizagem e também de sistemas já estabilizados. Segundo Cenoz (2013), as duas
abordagens são indispensáveis e se complementam.

2
Por exemplo, Ellis (1994), Rampton (1990) e Menezes (2014) discutem a terminologia pertencente à
Second Language Acquisition.

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Além de fatores individuais e sociais que afetam a aprendizagem das línguas, o


processo de aprendizagem e o produto (bilinguismo) podem influenciar
potencialmente a aprendizagem de uma terceira. Segundo Cenoz (2013), aprendizes
de uma L3 têm mais experiência linguística que aprendizes de uma L2, dispõem de
mais estratégias de aprendizagem/uso de línguas e níveis mais altos de consciência
metalinguística. Desse modo, se considerarmos as duas línguas que o multilíngue
normalmente já possui, ele tem um repertório linguístico maior que pode ser usado
como base para melhorar a aprendizagem de outras línguas. No multilinguismo, as
sequências de aprendizagem/aquisição das línguas podem possuir padrões diversos,
pelo menos quatro, segundo Jessner (2008): (1) as três línguas são aprendidas
consecutivamente (L1 → L2 → L3); (2) as três línguas são aprendidas simultaneamente
(Lx/Ly/Lz); (3) L1 e L2 são aprendidas simultaneamente antes da aprendizagem da L3
(Lx/Ly → L3) e (4) L2 e L3 são aprendidas simultaneamente depois da aquisição da L1
(L1 → Lx/Ly).
O multilinguismo não é, então, uma mera extensão do bilinguismo. Os
multilíngues não devem ser estudados e descritos considerando que eles são bilíngues
que falam línguas adicionais. Essa visão vem ao encontro da visão holística do
bilinguismo, defendida por Grosjean (2010). Essa definição é produtiva também para o
estudo do multilinguismo. Segundo De Bot e Jaensch (2013), talvez a definição de
Grosjean seja o modo mais apropriado de definir o estado atual do sistema linguístico
do multilíngue, por considerar o uso das línguas e não o nível de proficiência.
Portanto, as várias concepções do multilinguismo e os modos de descrevê-los
mostram fenômenos complexos e multifacetados, pois envolvem muitos fatores que
podem influenciar a experiência linguística e cognitiva (BIALYSTOK et al., 2009). Esses
fenômenos podem ser analisados de acordo com diferentes aspectos. Neste trabalho,
consideram-se os aspectos cognitivos, foco de investigação bastante recente dos
estudos do multilinguismo e até mesmo do bilinguismo (ZIMMER; FINGER; SCHERER,
2008; KROLL; BIALYSTOK, 2013).

2 Multilinguismo na Neurociência: método da busca pelos artigos

Estudos neurolinguísticos com multilíngues têm sido pouco frequentes, o que


reflete a variabilidade dessa população e a imaturidade da área de estudos, conforme
mencionado na seção anterior. Da busca em bases de dados3, com os indexadores
“multilingualism”, “brain” e “fMRI”, resultaram somente oito artigos que abordam o
processamento das línguas em falantes de mais de duas línguas. A ideia inicial era
3
As pesquisas foram realizadas nas seguintes bases de dados: PubMed, Science Direct, SciELO, APA
PsycNET e Web of Science. Os estudos foram selecionados depois da leitura do resumo.

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priorizar a leitura (foco da minha pesquisa de doutorado, em andamento); porém,


após os resultados iniciais da pesquisa nas bases de dados, o indexador “leitura” foi
excluído, restando, então, estudos sobre o processamento multilíngue nas diferentes
modalidades. Foram excluídos artigos com estudos (1) que contemplam estímulos não
linguísticos, (2) que investigam populações clínicas, (3) que contam somente com
tarefas comportamentais e (4) que abordam o controle executivo. Foram priorizados
estudos com ressonância magnética funcional (RMF), ferramenta utilizada para
estudar mudanças no cérebro enquanto os participantes fazem alguma tarefa. Como
explicam Huettel, Song e McCarthy (2004), a RMF utiliza fortes campos magnéticos
para criar imagens do tecido biológico, isto é, da organização da atividade funcional do
cérebro com uma resolução espacial muito boa.
Dentre os artigos selecionados, o primeiro publicado em 1996 (YETKIN et al.,
1996), o único publicado nessa década. Outros três artigos selecionados foram
publicados na década dos anos 2000 (BLOCH et al., 2009; BRIELLMANN et al., 2004;
VINGERHOETS et al., 2003). A maioria dos artigos foi publicada nos últimos anos
(ABUTALEBI et al., 2013; ANDREWS et al., 2013; KAISER et al., 2015; VIDESOTT et al.,
2010). O panorama dos estudos apresentado a seguir mostra, efetivamente, que a
área é incipiente e está, ainda, em desenvolvimento.

3 O processamento de múltiplas línguas no cérebro

A população anteriormente descrita, isto é, falantes de mais de duas línguas,


não tem sido alvo muito frequente de investigação – talvez devido à complexidade e
peculiaridades acima descritas. Sob a égide da Neurociência do bilinguismo, segundo
Perani e Abutalebi (2005), os estudos se limitaram principalmente à modulação de
processos neurais de acordo com a proficiência e idade de aquisição. Além disso, os
estudos com neuroimagem têm investigado as representações da L1 em comparação à
L2, adquirida precoce ou tardiamente, e têm estudado se a L1 e as outras línguas
compartilham os mesmos substratos neurais (VIDESOTT, 2009). A idade de aquisição e
o nível de proficiência têm sido as variáveis mais investigadas nessa área. No entanto,
esse panorama do processamento das línguas é observado principalmente em
bilíngues, falantes de duas línguas, com características diversificadas.
Em alguns estudos, foram investigadas as redes neurais do processamento das
línguas (L1, L2 e L3). O seu principal objetivo era verificar se os participantes
processavam as três ou mais línguas utilizando as mesmas áreas do cérebro em tarefas
de geração de palavras (YETKIN et al., 1996), de fluência verbal fonológica, nomeação
de figuras e leitura de narrativas (VINGERHOETS et al., 2003), de geração de verbos
com base em substantivos (BRIELLMANN et al., 2004) e de nomeação de figuras

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(VIDESOTT et al., 2010). Todos esses estudos foram consistentes no sentido de que
encontraram redes de ativação semelhantes para as três línguas. Houve ativação
principal na rede clássica da linguagem (PRICE, 2010), que abrange áreas do córtex
frontal (principalmente a região de Broca, ou giro frontal inferior esquerdo) e do
córtex temporoparietal do córtex (sobretudo a região de Wernicke, ou giro temporal
superior posterior). No entanto, como os estudos investigaram o processamento de
múltiplas línguas, essa rede não foi suficiente para descrever todo o mecanismo de
substratos neurais que estão relacionados a esse complexo processamento. Em alguns
estudos com multilíngues, foram encontrados também redes adicionais, no hemisfério
direito, especialmente nas regiões frontais do cérebro (VINGERHOETS et al., 2003;
ANDREWS et al., 2013) e, especificamente, pré-frontais (VIDESOTT et al., 2010).
Essa ativação homóloga à região de Broca pode ser interpretada no sentido de
processos cognitivos adicionais e necessários para o processamento da língua menos
proficiente; este engajamento também pode ser correlacionado com índices de
desempenho e velocidade de processamento (por exemplo, quanto mais acurado e
fluente a leitura, maior o engajamento de áreas pré-frontais). À medida em que o nível
de proficiência aumenta, a dependência da tradução da L1 pode diminuir; as redes que
subjazem o processamento da L2 convergem para as redes que subjazem o uso da
língua por falantes nativos. Pode haver, portanto, uma consequente convergência
entre representações semânticas encontradas, inclusive, na convergência de processos
neurais, hipótese já formulada por Green (2003) para bilíngues.
Além das regiões corticais envolvidas no processamento das línguas (sobretudo
a região de Broca e de Wernicke), Abutalebi et al. (2013) encontraram diferenças entre
multilíngues e monolíngues na ativação e no volume das estruturas subcorticais do
putâmen esquerdo. Os multilíngues teriam essa região mais desenvolvida e, também,
mais ativada. O putâmen é uma região do cérebro envolvida em processos
articulatórios na língua com menor nível de proficiência, ele faz parte dos gânglios
basais do cérebro e, em bilinguismo, está associado com o aprendizado de regras e
faria parte de um centro, ou hub, em inglês, controlador dos processos a serem
executados. Para o multilíngue, este controle sobre as diferentes línguas precisa estar
desenvolvido (BUCHWEITZ; PRAT, 2013). No multilinguismo, há um repertório
articulatório complexo, que desenvolve estruturas articulatórios como o putâmen.
Outra variável investigada nos estudos com multilíngues é a idade de aquisição,
assim como nos estudos com bilíngues, que demonstram, com frequência, que uma
língua adquirida tardiamente, em geral pode estar associada, em geral, com a ativação
de processos cognitivos adicionais àqueles da L1, mas com o desenvolvimento da
proficiência, mesmo em idade tardia, há um processo de convergência entre os

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substratos neurais – principalmente aqueles associados a processos semânticos


(PERANI; ABUTALEBI, 2005; INDEFREY, 2006).
Um estudo com multilíngues demonstrou que os níveis de ativação não são
necessariamente dependentes da idade na qual cada língua é aprendida (BRIELLMANN
et al., 2004), mas isso dependeria do nível de proficiência, justamente porque a idade
de aquisição não determina, necessariamente, o nível de proficiência em cada uma das
línguas (JESSNER, 2008). No entanto, nesse estudo, foram aplicados testes de
proficiência limitados, como teste de escrita de palavras e produção oral de história
com base numa história em quadrinhos. Seriam necessários testes nas outras
habilidades para determinar o nível de proficiência em cada uma das línguas, de modo
a não confundir idade de aquisição com nível de proficiência.
Por outro lado, Bloch et al. (2009) investigaram diferentes grupos (multilíngues
simultâneos, sequenciais e tardios) numa tarefa de narração silenciosa. Como
resultado, os multilíngues com exposição precoce demonstram menor variabilidade
nos níveis de ativação (Broca e Wernicke) nas três línguas do que os multilíngues
tardios. Isso indica que a exposição precoce a mais de uma língua daria origem a uma
rede que é ativada de forma mais homogênea no processamento das múltiplas línguas.
Outras diferenças entre multilíngues precoces e tardios foram encontradas por Kaiser
et al. (2015), que investigaram a diferença entre os dois grupos no que tange ao
volume da substância cinzenta das regiões da linguagem. Os multilíngues tardios
tiveram maior volume em várias áreas associadas à linguagem – essa aprendizagem
aumentaria o volume das áreas corticais associadas à linguagem, porque elas precisam
ser mais exercitadas (o processamento da L2 e da L3 não é automático, como no caso
dos multilíngues precoces). No cérebro dos adultos que aprenderam as línguas na
infância, a aprendizagem não teve tanto impacto no volume.
Os estudos com multilíngues não são consensuais quanto ao papel da idade de
aquisição no processamento das línguas. Dentre os poucos estudos já realizados,
parece haver uma influência dessa variável no desempenho dos participantes no
processamento das três ou quatro línguas (BLOCH et al., 2009; KAISER et al., 2015). Em
ambos estudos, foram utilizadas auto-avaliações e testes de duas a três horas, o que
pode resultar na distinção clara entre idade de aquisição e nível de proficiência. Testes
de tanta duração não foram aplicados no estudo de Briellmann et al. (2004). Estes
autores postulam que somente a proficiência é um fator que influencia o
processamento das línguas. Se a idade de aquisição tivesse sido mais bem controlada,
talvez os resultados teriam sido diferentes.

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Conclusão, diálogos e possibilidades

O panorama da pesquisa demonstra que as variáveis mais estudadas no


multilinguismo são proficiência (níveis diversos) e idade de aquisição. Apesar de
algumas generalizações serem possíveis, elas são extremamente frágeis, porque os
estudos variam muito no que concerne aos experimentos (produção no nível da
palavra e da sentença, leitura de palavras e pequenos textos, escuta passiva de
narrativas), aos grupos linguísticos (falantes de línguas muito diferentes foram
agrupados) e às comparações nas análises da RMF (em alguns estudos, o
processamento das línguas foi comparado ao processamento de caracteres sem
sentido; em outros, foi comparado ao processamento auditivo). Logo, é imprescindível
interpretar os resultados dos estudos com muita cautela e correlacioná-los com os
experimentos e os processos psicológicos investigados por cada estudo.
Os estudos conduzidos com as ferramentas neurocientíficas colocam em
diálogo Linguística e Neurociência, pois não seriam possíveis sem a utilização do
arcabouço teórico da Linguística, tanto com relação ao nível linguístico investigado
(fonético, fonológico, morfológico, lexical, sintático ou discursivo), quanto ao grupo
linguístico investigado, como no caso dos multilíngues. Além disso, Linguística e
Neurociência compartilham, como explicam Andrews et al. (2013), o foco no uso das
línguas e na aquisição, e também tem um design de pesquisa que é sensível a avanços
importantes do campo da Linguística em geral, como paradigmas da Psicolinguística e
a Sociolinguística. Os dados robustos sobre a proficiência em cada língua, contribuição
fundamental da Linguística, são um componente fundamental para a interpretação
dos resultados que surgem da RMF. É necessário, então, basear-se em toda a pesquisa
da Linguística, de modo a desenvolver experimentos ecologicamente válidos4, ou seja,
relacionados ao uso normal de cada língua.
Diante dos estudos acima apresentados, há uma gama de possibilidades de
pesquisas, necessárias para alcançar dados mais convergentes. Primeiramente, países
menos desenvolvidos, como o Brasil, podem contribuir com a pesquisa nessa interface,
devido à abundância de línguas que aqui são faladas, inclusive as minoritárias (línguas
indígenas e de imigração). Ainda, podem ser conduzidos estudos longitudinais como o
de Andrews et al. (2013), com experimentos nos níveis mais complexos das línguas

4
A expressão se refere à preocupação com a cientificidade dos métodos de pesquisa. Segundo
Bonfenbrenner (1979), uma investigação é considerada ecologicamente válida se é realizada em
configurações naturais e envolve objetos e atividades da vida cotidiana. Dependendo da investigação,
contudo, o laboratório pode ser um local totalmente apropriado para uma investigação, mas outros
ambientes da vida real podem ser inapropriados.

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(como o discursivo), que são mais ecologicamente válidos. Desse modo, segundo esses
autores, os resultados poderiam ser mais robustos.
As lacunas na literatura nos fornecem demandas e hipóteses para pesquisas
futuras. Não há consenso quanto à ativação bilateral no processamento da L2 ou da L3,
que não foi encontrada por todos os pesquisadores. Categorias linguísticas como a
exposição às línguas, o status das línguas e a consistência ortográfica, no caso de
tarefas de leitura, podem ser mais investigadas e controladas nos estudos. Seria
interessante incluir grupos maiores e mais homogêneos nas pesquisas, como no
estudo de Videsott et al. (2010), que contemplou falantes de uma comunidade do Tirol
do Sul, falantes da língua ladina; entretanto, essa tarefa é de difícil execução, pois a
variabilidade dos falantes multilíngues é grande: uma miríade de fatores faz essa
experiência profundamente heterogênea e potencialmente altera as suas
consequências (BIALYSTOK et al., 2009). É necessário, ainda, mensurar
adequadamente o nível de proficiência em todas as línguas, de modo que o nível de
proficiência e a idade de aquisição não sejam confundidos. De um lado, estamos diante
desses enormes desafios (tanto no nível técnico quanto prático), de outro estamos
diante da demanda, uma vez que tais estudos podem fornecer, futuramente, um
melhor entendimento da interação entre as línguas no cérebro e subsídios para
práticas de ensino de línguas estrangeiras. Ademais, como afirma Videsott (2010), o
entendimento entre os estudos linguísticos e a neurobiologia da linguagem permite
avançar o conhecimento sobre processos de aprendizagem, como esses se dão, e
sobre processos de compreensão e produção, como esses interagem e convergem
entre as línguas.

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INTERPRETAÇÕES DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL:


A ATIVIDADE RESPONSIVA E O ATO RESPONSÁVEL NA DECISÃO SOBRE O RACISMO

Bruna de Carvalho Chaves Peixoto1

Introdução

Primeiramente, cumpre elucidar que a atividade exercida pelo Supremo


Tribunal Federal - STF, como a mais alta instância do Poder Judiciário, consiste –
consoante a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 – na interpretação
última dessa. A mencionada atividade se materializa através de suas decisões, em cujo
processo há a interferência de diferentes vozes sociais, compondo o cenário sócio-
histórico-ideológico que as fundamenta, bem como, consequentemente, as legitima.
Ao final, após a análise da decisão sobre a qual se debruçará este trabalho, bem como
a partir do dialogismo bakhtiniano, dos conceitos de ato ético, ato responsável e
atividade responsiva, verificaremos se a Suprema Corte realiza sua atividade
responsiva pautada nos conceitos mencionados, como consequência da interferência
dos fatores extralinguísticos e das diversas possibilidades de sentido da norma jurídica.
Destarte, no exercício de sua função, o STF, ao se deparar com questões
deveras polêmicas, deve se posicionar, realizando uma atividade responsiva, diante do
caso concreto que se lhe apresenta, considerando fatores extralinguísticos, isto é - o
contexto histórico, social, cultural, além dos valores considerados essenciais pela
sociedade. Nesse sentido, a Suprema Corte, em 2003, decidiu denegar a ordem
de habeas corpus ao livreiro Siegfried Ellwanger, acusado de racismo em virtude de
suas publicações contra os judeus. Neste caso, o Supremo teve que cotejar alguns
direitos, como a liberdade de expressão, que considerou não ser absoluta, com o
racismo, considerado, em entendimento que se tornou consolidado, vedação
constitucional de discriminação por qualquer motivo de raça, cor, religião,
etnia, origem nacional. Ao final, posicionou-se frente aos discursos antagônicos e
proferiu o Acórdão2 em tela, quando fez-se necessário, diante da unicidade do caso
1
Mestranda em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco.
E-mail: brunadccpeixoto@gmail.com
2
Trata-se o acórdão de uma decisão de um órgão colegiado ou de um tribunal, prolatado seja por
desembargadores seja por ministros de tribunais superiores.

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concreto, realizar uma interpretação extensiva do que seria racismo, crime


constitucionalmente previsto, para abarcar a conduta discriminatória do supra
mencionado livreiro.
A decisão final dependia do que seria definido como racismo e quais práticas
discriminatórias seriam abrangidas pelo conceito. Caso contrário, seria considerado
fato não tipificado penalmente e o réu seria absolvido, ou seria mero preconceito,
sobre o qual incidiria outra lei, mais benéfica ao editor-réu. A defesa do réu aduzia a
liberdade de expressão e a restrição do conceito de racismo, para tornar inexistente o
crime, uma vez que preconceito e discriminação contra judeu não seriam racismo, e
sim mero preconceito. O STF considerou que a realidade de fato vivida era compatível
com o conceito de racismo, condenando o réu por crime imprescritível.

Da interpretação do Supremo Tribunal Federal

No caso ora exposto, o qual será analisado à luz do dialogismo bakhtiniano, na


perspectiva da atividade responsiva e do ato responsável, abordaremos o dinamismo
interpretativo dos conceitos jurídicos pelos ministros – intérpretes – do STF, em
relação a um acontecimento do ser: a questão se a publicação de livros de conteúdo
antissemita se adequaria ao conceito de crime de racismo. Nesse sentido, serão
analisadas: as vozes sociais materializadas nos discursos/votos dos ministros da
Suprema Corte inseridas no contexto histórico-cultural e ideológico no qual está
inserida a decisão, a maneira pela qual o STF age responsivamente frente às demandas
que chegam até ele e sua decisão final. Não é suficiente, pois, verificar se o
acontecimento do ser, único, enquadra-se nos moldes do texto de uma norma
genérica e abstrata. Faz-se necessário um trabalho interpretativo, ético, de cuidado
com a repercussão da decisão na sociedade, considerando seus valores essenciais e
respondendo a eles através da decisão.
Nesse sentido, relativamente à atividade responsiva do STF, esta consiste na
elaboração da decisão a partir da interação-reação dos atores discursivos e na
interpretação ativa-responsiva, considerando fatores extralinguísticos que
condicionam o discurso. Destarte, analisaremos o processo discursivo do STF, cuja
base é a lei – produto teórico – que, através do ato responsável dos ministros diante
da realidade de fato vivida – o caso concreto –, constroem uma nova realidade,
operando uma mudança social, em um processo dialógico. Este estudo, portanto, tem
por objetivo demonstrar a legitimidade da decisão a partir
do dinamismo interpretativo, decorrente da irrupção do conceito teórico pela

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singularidade do caso concreto, evitando um preconceito e encontrando a pravda32: a


verdade como justiça.
Para alcançar o objetivo deste estudo, partimos do pressuposto de que, como
todo enunciado, as decisões no âmbito do Direito não são neutras: ao contrário, trata-
se de uma enunciação carregada de vozes transcendentes àquela materialmente
produzida, sendo imperiosa uma análise dialógica. A percepção dessas vozes sociais
indica que o discurso não é uma construção individualista; para Bakhtin, pois, eu sou
um eu participativo, em um conjunto de outras vozes veladas naquela proferida.
No entanto, para se chegar a essa conclusão e proceder às análises, em um
primeiro momento, é importante reconhecer que o Direito é linguagem, é discurso, de
modo que o dialogismo, a filosofia da linguagem, bem com os
conceitos de responsividade, ato ético, ato responsável são fundamentais para
compreender os posicionamentos do STF e, no caso em análise, a decisão do
racismo. As normas jurídicas, pois, dialogam entre si, integrando um sistema que deve
ser harmônico. Por isso, é de suma importância a atividade interpretativa do STF para
viabilizar a aplicação do Direito, respeitando todo o ordenamento, prevenindo
contradições, e ainda de acordo com a realidade de fato vivida. A atividade
interpretativa e o dinamismo do Direito, portanto, é que permite sua vigência, sua
justeza, sua segurança e a respeitabilidade da norma pela sociedade.
Nesse sentido, Bakhtin (1998) tem como centro de seus estudos o enunciado,
que, para ele, está intrinsecamente ligado ao sujeito que o profere, considerando o
meio sócio-histórico-cultural e ideológico, bem assim a realidade de fato vivida.
Ademais, impende frisar que, quando da enunciação de qualquer discurso, nesse caso
o jurídico, e da compreensão deste, os intérpretes exercem suas influências
ideológicas, daí a possibilidade de várias interpretações e manipulações, pois as
normas escritas constituem apenas as orações, conceito teórico, isto é – o ponto de
partida da construção do sentido. Desta feita, o processo de construção e segurança
desses direitos é dinâmico, mutável e não estanque, mesmo porque existe uma
interação do social e do sujeito intérprete, no caso o STF, quando do processo de
significação.
Outrossim, além dos fatores sociológicos, os interlocutores igualmente
condicionam o discurso, pois o outro é levado em consideração no ato da enunciação,
visto que – nessa interação – ocorre uma atividade responsiva, sendo a sociedade, no
caso das decisões do STF, o alfa do ômega do processo discursivo.

3
O conceito de pravda em Bakhtin está relacionado à ideia de verdade como justiça.

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O enunciado, portanto, é elaborado a partir da previsível reação-resposta do


outro. Sendo assim, quem profere o enunciado considera o contexto no qual está
inserido e no qual interage, sendo impossível separar o enunciado de seu contexto de
produção, sob pena de não se compreender seu sentido.
Destarte, ao se proferir um discurso, além de ele já ser uma atividade
responsiva, diante de outro discurso e do contexto sócio histórico cultural ideológico -
pois ninguém é o primeiro agente discursivo - o enunciador já pressupõe a
compreensão ativamente responsiva do outro. Consoante explica Bakhtin4:

O próprio falante está determinado precisamente a essa


compreensão ativamente responsiva: ele não espera uma
compreensão passiva, por assim dizer, que apenas duble o seu
pensamento em voz alheia, mas uma resposta, uma concordância,
uma participação, uma objeção, uma execução, etc.

Nesse sentido, é que se considera a sociedade o alfa e o ômega da


interpretação do discurso, uma vez que a produção de sentido é determinada pelos
anseios, necessidades e valores considerados essenciais pela sociedade. A
manifestação discursiva do Supremo Tribunal Federal, pois, deve ser considerada no
contexto, não só em consonância com o que a literalidade da norma permite, como
também com fatos passados e ainda – sobretudo –, levando em conta o contexto
presente, pois, como sujeito ativo, que é no ato interpretativo (responsável), o STF, por
seus ministros, através de sua atividade responsiva, consubstanciada no
discurso/enunciado, são capazes de modificar a realidade das estruturas sociais
preexistentes.
No caso concreto sob análise, o julgamento do habeas corpus do livreiro, além
de o STF ter realizado uma atividade responsiva diante dos discursos que atravessaram
o Acórdão, realizou, sobretudo, o que o filósofo russo chama de ato responsável, pois,
segundo a defesa do réu, não haveria que se falar em crime de racismo, tendo em vista
que a lei não discrimina expressamente o crime contra judeu. Ademais, a defesa fala
ainda que, não existindo raça humana, não existiria o crime, pois este seria impossível.
No entanto, embora não estivesse compreendido no conceito estrito de racismo,
nenhum conteúdo, por mais autossignificativo que seja, pode ser tão categórico e
peremptório, a ponto de excluir do âmbito de proteção, da normal, a flagrante
discriminação preconceituosa.

4
Trata-se o acórdão de uma decisão de um órgão colegiado ou de um tribunal, prolatado seja por
desembargadores seja por ministros de tribunais superiores.

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No caso concreto sob análise, o julgamento do habeas corpus do livreiro, além


de o STF ter realizado uma atividade responsiva humana, não existiria o crime, pois
esse seria impossível. No entanto, embora não estivesse compreendido no conceito
estrito de racismo, nenhum conteúdo, por mais autossignificativo que seja, pode ser
tão categórico e peremptório, a ponto de excluir do âmbito de proteção, da normal, a
flagrante discriminação preconceituosa.
Relativamente ao ato responsável, para Bakhtin, em Hacia una teoria del acto
ético (1998), existe a responsabilidade especializada e responsabilidade moral, como
dois aspectos que devem estar presentes no ato, compondo de forma unitária a
bilateralidade do ato ético. Aplicando os mencionados conceitos do filósofo russo ao
presente trabalho, verifica-se a responsabilidade especializada através das leis,
enquanto que a responsabilidade moral coincide com a proteção que se dá aos direitos
fundamentais do ordenamento jurídico brasileiro, por meio, sobretudo, da atividade
exercida pelos intérpretes do Direito.
Existe, pois, uma responsabilidade moral, ética, de proteger o Direito, em sua
essência, no dever ser. Se assim não fosse, se não existisse essa responsabilidade, o
STF poderia ter aceitado a tese da defesa, de cunho formalista, que alegava que,
porque não existe raça no sentido genético, o crime seria impossível de se consumar, o
que seria apenas uma responsabilidade especializada, destituída de ética, senão, eis o
que explica Bakhtin (1998, p.8)5:

Para poder proyectarse hacia ambos aspectos – en su sentido y en su


ser -, el acto debe encontrar un plano unitario, adquiriendo la unidad
de la responsabilidad bilateral tanto em su contenido
(responsabilidad especializada) como en su ser (responsabilidad
moral), de modo que la responsabilidad especializada debe aparecer
como momento adjunto de la responsabilidad moral única e unitária.
Es la única manera como podria ser superada la incompatibilidad y la
impermeabilidad recíproca viciosa entre la cultura y la vida.

Nesse sentido, o Supremo Tribunal acima do formalismo com que se defendia o


réu, busca a justiça. Se a Suprema Corte julgasse apenas com base na cognição teórica,
ou seja, no que está escrito na lei restritivamente, estaria excluída realidade de fato
vivida, restando endossada pelo Supremo - órgão da justiça - uma gritante injustiça.
Consoante Bakhtin (1998), o dever ser tem natureza ética, e não meramente teórica,
afirmando ainda que o ato responsável não pode ser encontrado no conteúdo teórico
e, consequentemente, em relação ao presente trabalho, na lei, porque, nesse caso, ela
5
BAKHTIN, Mikhail. Hacia uma filosofia del acto ético. Espanha: Anthropos Research & Publication,
1998, p. 8.

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é uma abstração, e não um fato vivido. A lei não consegue dar conta de todas as
situações, devendo o intérprete verificar se determinado caso particular corresponde
ao dever ser objetivado pela lei.
Segundo sugere Bakhtin (1998), em Hacia una filosofia del acto ético, o objeto
do conhecimento teórico, que, no presente trabalho é representado pela lei, não
pode pretender ser suficiente em todas as situações, uma vez que é geral e abstrata,
pretendendo ser unificada e total. Contudo, em diversas situações, como esta do HC
82424 RS, a lei é irrompida pela singularidade. Sendo assim, diante dos fatores
extralinguísticos mencionados e das vozes sociais sobre preconceito, foi necessário se
distanciar da técnica e do formalismo, para julgar como realmente o fato da
publicação dos livros se deu, em sua particularidade realmente vivida e se esse fato,
de acordo com o contexto social, histórico e ideológico do momento julgamento,
estaria em consonância com o dever ser pretendido pela norma.
O ato de julgamento do STF é, pois, também, responsivo, uma vez que
considera as vozes sociais a respeito dos valores essenciais da sociedade, estando o
julgado, consequentemente, permeado por elas, opondo-se igualmente a outras vozes
formalistas, e é também um ato responsável, pois, para afastar o formalismo do
mundo teórico abstrato e geral, teve que considerar a singularidade do fato realmente
vivido, com o fito de se encontrar o que Bakhtin (1998) chama de pravda.
Eis o que afirma Bakhtin (1998, p. 51), em Hacia una filosofia del acto ético6:

El aspecto del sentido abstracto, sin correspondencia con la unicidad


inexorablemente real, tiene capacidad de proyectarse; se trata de
una especie de borrador de un hacer posible, documento sin firma
que no es obligatorio para nada ni nadie.

O HC 82424

Feita uma breve análise das teorias que embasarão o estudo, segue um resumo
do caso concreto, da realidade de fato vivida, que foi objeto da decisão do Supremo, a
fim de explicar melhor o que fora dito acima.
O Supremo Tribunal Federal, em 2003, no Habeas Corpus 82424 RS, deparou-se
com a polêmica do racismo em uma de suas manifestações, até aquele momento não
discutida. O presente caso, consoante verifica-se a partir da ementa do processo

6
BAKHTIN, op. cit, p. 51.

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disponível também no próprio sítio eletrônico do STF, trata do caso em que um


escritor e editor, Siegfried Ellwanger, publicava livros de conteúdo antissemitas.
O editor foi acusado pela prática do crime de racismo, em virtude da edição e
venda de livros fazendo apologia a ideias preconceituosas e discriminatórias. No
entanto, a defesa, na fundamentação do pedido de habeas corpus questionou o
conceito de racismo, afirmando que judeu não seria raça; e, portanto, o crime de
racismo – neste caso – seria impossível. Destarte, através de argumentos meramente
formais sobre a abrangência do conceito do termo, em sua literalidade, a defesa
buscava a concessão da ordem. Para a defesa, a prática do réu não tinha conotação
racial, pretendendo afastar a imprescritibilidade do crime, uma vez que, na CF/88, só
existem dois crimes imprescritíveis e um deles é o racismo.
Em breve síntese, para explicar o que é imprescritibilidade e o porquê de a
defesa querer afastá-la, pode-se dizer que é a característica excepcional de um crime
deveras grave, que jamais poderá ser esquecido pela sociedade, sendo permanente o
interesse do Estado em puni-lo, não se apagando pelo decurso do tempo.
Sendo assim, se a defesa conseguisse a desclassificação do crime de racismo
para outro crime, estaria afastada a imprescritibilidade, para que, até o final do
julgamento do HC em tela, fosse possível a suspensão da execução da sentença,
reconhecendo-se, finalmente, a extinção da punibilidade pela prescrição (decurso do
tempo que apagaria a pretensão executória do Estado).
Percebe-se, portanto, que a defesa do réu baseava-se apenas em meros
formalismos para, ao final, extinguir a punibilidade, e não o crime. A fundamentação
não se baseou em negar a existência do crime, ou da falta de dolo (intenção) de
praticar o racismo. Procurava-se apenas afastar o poder punitivo do Estado, por
questões processuais, ou seja, a extinção da punibilidade, à qual se chegaria através da
restrição do conceito de racismo, de raça, e, consequentemente, afastando esse crime
e classificando outro, que estaria prescrito ao final do processo.
O paciente do mencionado Habeas Corpus vendeu, publicou e editou obras de
sua autoria, como Holocausto Judeu ou Alemão? – Nos bastidores da mentira do século
e de autoria de outras pessoas tanto nacionais quanto estrangeiros, como Hitler –
Culpado ou Inocente?. Nestes livros, embora a defesa tentasse restringir o conceito de
racismo, o STF entendeu que os livros publicados defendiam ideias discriminatórias e
racistas, disseminando o ódio, o desprezo e o preconceito contra o povo de origem
judaica, em contraposição à defesa que, conforme já foi dito, alegou questões apenas
formais.
Para a definição do crime de racismo, o ponto oito da ementa do Acórdão
proferido pelo STF define bem as bases que influenciaram o alcance da norma,

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demonstrando a influência de fatores extralinguísticos, bem como a interferência de


diversas vozes sociais no discurso de cada ministro, quando de seus votos, e,
consequentemente, no discurso do próprio STF materializado no Acórdão.
Para o Ministro Marco Aurélio, o livreiro não teria cometido o crime de
racismo, defendeu ainda, em contraposição ao crime, a liberdade de expressão, direito
fundamental previsto na CF/88, afirmando que a Carta Magna não se referia ao povo
judeu quando cuidou da prática do crime de racismo, e sim dos negros.
Para esse ministro, a publicação desses livros é manifestação da liberdade de se
expressar, expondo suas ideias, seu ponto de vista, e que teria se configurado o crime
de racismo se ele, ao invés disso, tivesse ido para as ruas disseminar ideias de morte
aos judeus, ou expulsão dos judeus do país.
A questão do HC 82424 RS é verificar se a realidade de fato vivida levada à
discussão no STF está inserida no conceito teórico do crime de racismo, isto é, se a
publicação de livros de conteúdo preconceituoso e antissemita é racismo, crime
imprescritível, por ser considerado deveras grave.
Finalmente, os ministros entenderam que a prática de racismo abrange a
discriminação contra os judeus.
Importante mencionar que a questão semântica foi expressamente
mencionada pelos ministros, quando da aferição da abrangência do conceito de raça.
Afastaram o conceito tradicional de raça e afirmaram que essa classificação dos seres
humanos decorre de um processo político social, senão veja-se o ponto oito da ementa
do Acórdão7:

8. Racismo. Abrangência. Compatibilização dos conceitos


etmológicos, etnológicos, sociológicos, antropológicos ou biológicos,
de modo a construir a definição jurídico-constitucional do termo.
Interpretação teleológica e sistêmica da Constituição Federal,
conjugando fatores e circunstâncias históricas, políticas e sociais que
regeram sua formação e aplicação, a fim de obter-se o real sentido e
o alcance da norma.

Percebe-se claramente o tratamento do Direito como linguagem, a importância


da interpretação, da influência de fatores extralinguísticos na definição da norma,
diante das variadas formas de interpretação.
Destarte, a partir da mencionada decisão, uma das mais importantes do STF,
analisaremos o ato responsável dos ministros e a questão do conceito teórico que não

7
http://www.stf.jus.br/portal/geral/verPdfPaginado.asp?id=79052&tipo=AC&descricao=Inteiro%20Teor
%20HC%20/%2082424 acesso em: 27 de outubro de 2015, p. 524.

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é capaz de abranger a totalidade das realidades de fato vividas. Outrossim, será


importante neste trabalho a consideração do ato ético, o dever ser do caso particular.
A defesa, pois, ao tentar descaracterizar o crime de racismo e enquadrar a
prática do editor em outro crime com tratamento mais brando, pretendia afastar a
imprescritibilidade, ao afirmar que, se o Constituinte8 quisesse que o sentido de
racismo fosse tão abrangente, a norma constitucional não teria se referido apenas a
racismo, mas teria falado em qualquer prática discriminatória.
O Supremo, no entanto, demonstrou que a intenção do Constituinte era
realmente que o conceito fosse aberto, o que seria mesmo que não fosse sua vontade,
pois a abertura conceitual é característica dos conceitos teóricos, que não existem em
um vácuo, exilados da realidade de fato vivida. Ainda, comprovando a vontade de que
o conceito seja mais flexível, do que pretende a defesa ao tentar engessá-lo, eis o texto
in verbis da norma: “a prática de racismo constitui crime inafiançável e imprescritível,
sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei.” (grifado).
E, com a transcrição acima, o STF afirma que não era intenção do Constituinte
fechar o conceito, tornando-o imutável e estanque, tendo, ao contrário, deixado que o
legislador definisse o conceito, que abrange não só preconceito referente à cor, como
também, à religião, à etnia ou origem nacional.
Isto porque, fechando o conceito, seria impossível a lei se sustentar diante da
pluralidade e complexidade das relações jurídicas, da realidade de fato vivida, uma vez
que o conceito teórico não é suficiente diante do dinamismo da vida. Dessa forma, a
melhor alternativa para permitir a integração da norma é pela interpretação de forma
coerente com o contexto histórico, social, cultural e ideológico. Segundo afirma
Bakhtin9 (1998, p. 14), é impossível separar o ato ético do momento histórico, do
momento vivido, senão veja-se:

Una vez separado el aspecto de contenido semántico de la


congnición de lacto histórico de su realización, sólo mediante un
salto podemos salir de ahí hacia el deber ser; de modo que buscar el
acto ético real de conocimiento em un contenido semántico
separado es lo mismo que levantarse a si mismo por el cabelo.

Segundo o Ministro relator, Moreira Alves, o problema discutido em sede de


habeas corpus é a abrangência do sentido do conceito jurídico do racismo. E,
considerando o conceito em seu sentido mais estrito, o ministro respondeu

8
Constituinte é expressão que equivale a Poder Constituinte, que é o responsável pela elaboração da
Constituição.
9
BAKHTIN, op. cit, p. 14.

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negativamente sobre os judeus serem ou não pertencentes uma raça judaica.


Afirmou que, não sendo raça, deve-se qualificar o crime do livreiro como
discriminação, e não como racismo, sendo prescritível a pretensão punitiva do Estado
neste caso.
O então Presidente o STF, o Sr. Maurício Corrêa, através de um longo relato
sobre a história dos judeus, desde o início até a Segunda Guerra Mundial, relacionando
esses fatos com a prática criminosa do réu, demonstrando que, embora não sejam
raça, os judeus são um povo deveras sofrido devido à estigmatização por que
passaram. Diante disso, ele questiona se a Carta Magna, ao estabelecer o crime de
racismo, pretendeu excluir da proteção constitucional outros segmentos do povo
brasileiro, protegendo só os negros.
Para ilustrar como a consciência histórica influenciou o voto do ministro 10, eis
uma passagem de sua fundamentação, na página 551, do processo em questão:

Se formos catalogar todo o sofrimento dos judeus desde a época em


que Abraão de Ur até hoje, presenciaremos repetidos fatos –
amargos e terríveis – que denegriram a história, humilhando e
martirizando não uma raça, salvo as tresloucadas concepções de
Hitler e de seus asseclas-, mas um povo. E a mais dura quadra, a mais
triste, a mais cruel, aquela que nos deixou marcados para o resto da
vida foi a da Segunda Guerra Mundial, em que mais de seis milhões
de judeus foram mortos, exterminados nos campos de concentração
de Auschwitz, de Dachau e em tantos outros. Antes, porém,
experiências sem nenhum sentido científico utilizaram esses seres
humanos como cobaias vivas, legando a alguns sobreviventes, a seus
amigos e familiares, e à humanidade como um todo lúgubres
memórias e marcas indeléveis de dor e aflição.
Há de perguntar-se qual a relação disso tudo com o presente
julgamento?
Sei que a loucura de Hitler nada tem a ver com o caso em si – e não
falo isso para situar-se nesse terreno. Estou apenas dizendo que o
povo judeu foi estigmatizado. Nas casas e passaportes judaicos havia
um J como sinal indesejado, do proscrito. Veja-se o que esse povo
sofreu e vem sofrendo até hoje...

Além destas discussões sobre a abrangência do conceito e o acontecimento do


ser concreto, os ministros ainda realizaram uma ponderação entre a proteção
constitucional contra o racismo e outros direitos fundamentais, como a liberdade de
expressão e, ainda assim, prevaleceu o entendimento de que o preconceito contra os
judeus é racismo, negando-se a ordem de habeas corpus.
10
CORRÊA, Maurício. Ex-ministro do STF. HC 82424, Rio Grande do Sul, 2003, p. 551.

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Conclusão

Finalmente, visto que a questão central que definiria o julgamento foi a colisão
entre o conceito teórico e a realidade particular do caso concreto, o dialogismo
bakhtiniano e os conceitos de atividade responsiva e ato responsável são
imprescindíveis para a interpretação da norma e construção de um Direito justo e
legítimo, com força normativa perante a sociedade. Não existe, pois, um conceito tão
definitivo e categórico que, para o alcance do significado, seja suficiente a mera leitura
e sua aplicação à realidade de maneira meramente formalista.
Dessa forma, a decisão, uma vez que o problema central seria a abrangência do
conceito teórico – a lei –, só poderia se dar se fosse elaborada dentro de seu contexto
social, histórico e ideológico, agindo o STF responsivamente em relação aos valores
que a sociedade considera essenciais, respeitando não só a responsabilidade formal (a
lei), ou seja, o produto cultural, como também a responsabilidade moral, adimplindo o
compromisso de garantir que o sentimento da norma seja respeitada, que o direito
dos judeus seja protegido.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Hacia uma filosofia del acto ético. Espanha: Anthropos Research &
Publication, 1998.
______. Estética da criação verbal. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado, 1988.
http://www.stf.jus.br/portal/geral/verPdfPaginado.asp?id=79052&tipo=AC&descricao
=Inteiro%20Teor%20HC%20/%2082424 acesso em: 27 de junho de 2015.

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RELAÇÃO ENTRE PRODUÇÃO DISCURSIVA, NÍVEL DE ESCOLARIDADE E DECLÍNIO COGNITIVO

Bruna Tessaro1
Ellen C. Gerner Siqueira2
Fernanda Soares Loureiro3
Lilian Cristine Hübner4

Introdução

O aumento da expectativa de vida da população mundial traz consigo um maior


número de casos de demência. De acordo com o Relatório Mundial de Alzheimer
(World Alzheimer Report) (PRINCE, 2015), estima-se que 46,8 milhões de pessoas
vivem com demência no mundo, e a tendência é que este número dobre a cada vinte
anos. Em países da América Latina, como o Brasil, a falta de assistência para pessoas
demenciadas e seus cuidadores é visível e estratégias emergentes são cada vez mais
necessárias. Além disso, a pesquisa em demência ainda é deficitária se comparada às
pesquisas feitas nos países de primeiro mundo. Diante desse cenário, é cada vez mais
importante que os pesquisadores direcionem seus esforços para entender melhor o
processo demencial, visando diagnosticá-lo precocemente e até mesmo retardá-lo. A
Doença de Alzheimer (DA) é uma das formas de demência mais comuns e caracteriza-
se por uma degeneração cerebral. De acordo com os critérios mundialmente aceitos e
usados por profissionais da área médica, o National Institute of Neurological
Communicative Disorders and Stroke/Alzheimer’s Disease and Related Disorders
Association (NINCDS/ADRDA) (MCKHANN et al., 2011), para um diagnóstico acurado
de DA, o paciente deverá apresentar déficits de memória e alterações em, no mínimo,
um dos seguintes domínios cognitivos: linguagem, atenção, funções executivas,
1
Mestranda em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul. Bolsista CNPq.
E-mail: btessaro@icloud.com
2
Graduanda de Licenciatura em Língua Portuguesa e respectivas Literaturas. Bolsista de Iniciação
Científica BPA da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
E-mail: ecgsiqueira@gmail.com
3
Doutora em Ciências da Saúde pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
E-mail: fernanda0801@gmail.com
4
Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Letras e da Faculdade de Letras da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
E-mail: lilian.c.hubner@gmail.com

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habilidades visuoespaciais e habilidades psicomotoras. O Comprometimento Cognitivo


Leve (CCL) tem sido apontado como uma possível fase inicial da DA, tendo uma forte
associação com a demência. Um dos fatores de maior risco para a evolução para
estágios demenciais é a idade (GARCIA, REILLY, 2015), ou seja, quanto mais idade,
maior a propensão para a DA, porém outro fator também pode impactar a cognição: a
escolaridade. No entanto, pouco se sabe sobre sua relação com a linguagem no
declínio cognitivo. No que concerne aos estudos de linguagem na DA, a maior parte
dos estudos concentra-se no nível lexical, como em testes de nomeação e associação
semântica, demonstrando um acometimento principalmente em categorias de itens
animados (GARRARD, et al., 2005; REILLY et al., 2011). No entanto, poucos são os
estudos no nível do discurso, principalmente entre as populações de baixa
escolaridade.
Neste trabalho, são discutidas as produções de dois gêneros discursivos
diferentes, a produção de uma notícia atual e a produção de uma história
autobiográfica engraçada. Embora as duas produções envolvam a representação
linguística de um evento por meio de uma narração, a notícia depende mais da
memória de eventos recentes, enquanto que a produção da história engraçada
envolve a memória autobiográfica, portanto, de longo prazo. Segundo Soares, Brandão
e Lacerda (2012), o prejuízo no discurso é um dos maiores problemas comunicacionais
enfrentados pelas pessoas com DA. Em tarefas conversacionais, por exemplo,
pacientes com DA apresentam mudanças abruptas de tema e dificuldade de
manutenção do tópico. No envelhecimento saudável, Salles e Brandão (2013) apontam
para casos de um comportamento verborrágico, característico de um discurso mais
incoerente, com inclusão de informações irrelevantes. De acordo com as autoras, duas
hipóteses podem explicar esse discurso. A primeira é a hipótese do déficit de inibição,
caracterizada pela falta de objetividade discursiva originada na dificuldade em inibir as
informações irrelevantes. A segunda hipótese sinaliza para um déficit de cunho
pragmático, em que se valoriza a intenção comunicativa do falante, associada ao seu
contexto social. Em uma revisão sistemática, Jerônimo e Hübner (2014, p. 13) listam as
principais dificuldades discursivas em pessoas com DA encontradas na literatura:

dificuldade em encontrar palavras, repetições lexicais, problemas


com coerência global, uso de proposições incompletas e repetidas,
uso de proposições pouco informativas, necessidade de maior tempo
na resolução da atividade e menor acurácia linguística, falta de
marcadores temporais e referenciais, pouca coerência global, falta de
um padrão discursivo, dificuldade na microestrutura e no modelo
situacional da narrativa, utilização de frases curtas e fragmentadas,

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pouca complexidade sintática, falta de manutenção do tema, baixa


acurácia do conteúdo e um discurso pouco informativo, assim como
prejuízos de escrita. (JERÔNIMO, HÜBNER, 2014, p. 13)

Um dos maiores desafios ao estudar linguagem em populações com declínio


cognitivo é a complexidade da interação linguagem e memória (GARCIA, REILLY, 2015).
Os dois processos estão intrinsecamente conectados, de forma que déficits nas tarefas
de discurso podem ser atribuídas a ambos os processos cognitivos.
Além da avaliação da produção oral discursiva de pessoas com DA e CCL, foi
avaliada a mesma produção de idosos saudáveis de acordo com seus níveis de
escolaridade (alto e baixo). Busca-se saber se o nível de escolaridade estará associado
ao desempenho das tarefas realizadas, uma vez que os anos de educação formal, os
hábitos de leitura e escrita, o tipo de profissão, dentre outros fatores, têm sido
reportados na literatura como relacionados às reservas cognitivas, que por sua vez
estão conectadas a uma proteção diante do declínio cognitivo (STERN, 2012).

Método

Foram avaliadas, no total, 73 transcrições de produções discursivas dos quatro


grupos que participaram deste estudo. As produções foram coletadas na PUCRS e no
Hospital São Lucas, a partir de uma parceria com pesquisadores do Programa de
Envelhecimento Cerebral (PENCE). O programa atende a moradores dos bairros
próximos à universidade. O diagnóstico de DA e CCL foi dado pelo neurologista do
programa, segundo critérios do NINCDS/ADRDA (MCKHANN et al., 2011; ALBERT et al.,
2011). As transcrições seguem as Normas Urbanas Cultas5.

Participantes

Participaram do estudo 37 pessoas, divididas em quatro grupos. O grupo


diagnosticado com DA é composto por 7 participantes, com idade entre 60 e 80 anos
(média de 71,3); o grupo CCL é composto por 7 participantes com idade entre 64 e 80
(média de 72); ambos os grupos com declínio cognitivo (CCL ou DA) são de baixa
escolaridade e terão como grupo de controle o de saudáveis de baixa escolaridade; o
grupo de saudáveis foi dividido em dois grupos de acordo com a escolaridade: o grupo

5
Normas Urbanas Cultas: NURC/SP nº 338 EF, 331 D2 e 153 D2

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de saudáveis de alta (SA) escolaridade tem 18 participantes com idade entre 60 e 73


anos (média de 66,9) e mais de 8 anos de escolaridade; o grupo de saudáveis de baixa
(SB) escolaridade é composto por 5 participantes com idade entre 64 e 76 anos (média
de 70,03 anos) e com 2 a 8 anos de escolaridade. Todos os participantes deram seu
consentimento formal para participação na pesquisa, protocolada no Comitê de Ética
em Pesquisa da PUCRS sob registro de número 21006913.0.0000.5336, resolução
466/12.

Instrumentos e procedimentos para a coleta

O Mini Exame do Estado Mental (FOLSTEIN, FOLSTEIN, MCHUGH, 1975) foi


aplicado em todos os participantes a fim de verificar o estado cognitivo, e os pontos de
cortes foram baseados no estudo adaptado para a população brasileira de Laks et al
(2003).
O Geriatric Depression Scale (SHEIKH, YESAVAGE, 1986) validado para a
população brasileira (ALMEIDA, ALMEIDA, 1999) foi administrado para avaliar estados
de depressão dos participantes, sendo que os diagnosticados como depressivos foram
excluídos do estudo.
Dois instrumentos foram aplicados, com a instrução dada oralmente pelo
examinador ao participante:

I. Produção de uma notícia: Por favor, agora me conte uma notícia ou fato
recente que tenha ouvido no rádio, assistido na TV ou lido no jornal.
II. Produção de uma narrativa: Gostaria que o(a) senhor(a) me contasse uma
história engraçada que aconteceu com o(a) senhor(a), ou que o(a) senhor(a)
presenciou, ou que lhe contaram.
As coletas foram feitas em sessões individuais em ambiente silencioso. As
produções dos participantes foram gravadas em áudio e transcritas posteriormente.

Análise dos dados

Os textos produzidos pelos participantes foram analisados de forma quantitativa


e qualitativa, tendo como base os seguintes critérios: dificuldade de compreensão da
instrução, necessidade de encorajamento para começar, relato exclusivo do tópico,
troca de tópico, perseveração (repetição contínua e persistente na exposição de uma
ideia), verborragia (uso excessivo de palavras para explicar algo não relacionado ao
tópico), confabulação (ideia fantasiosa acerca de algo, fruto da imaginação), anomias

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(ausência de palavras), parafasias (troca de palavras), solicitação de auxílio, recusa a


falar. A pontuação de cada critério deu-se da seguinte forma: 0 para sim (presença), 1
para parcialmente e 2 para não (ausência). Desta forma, quanto maior a pontuação,
melhor era a produção discursiva. Na análise quantitativa, realizada pelo software SPSS
(versão 17), considerou-se a soma da pontuação de todos os critérios para se chegar
ao escore total de cada produção, com máximo de 24 pontos para a narrativa e 30
para a notícia. Na tarefa da narração da história engraçada, analisou-se também a
hierarquia dos acontecimentos, ou seja, a narrativa deveria apresentar um começo,
um meio e um fim, com classificação baseada na superestrutura da narrativa de Adam
(1987). Na tarefa de produção de uma notícia, analisou-se a presença dos elementos
mais importantes na narração de um fato, segundo paradigmas do jornalismo
moderno: quem, o quê, onde e quando (LAGE, 2006). Durante a análise dos dados,
sentiu-se a necessidade de contabilizar os julgamentos pessoais feitos pelos
participantes com relação à notícia, uma vez que, segundo Lage (2006), a notícia não
deve ser avaliada por seu conteúdo moral, ético ou político. Portanto, comentários
como “a gente vê tanta notícia ruim por aí” não foram contabilizados no escore total,
mas foram analisados qualitativamente em separado, como “avaliação pessoal”.

Resultados

Não houve diferença estatisticamente significante entre as idades dos


participantes dos grupos (p>0,05), com exceção dos grupos saudáveis, em que os SA
são mais jovens do que os SB (p=0,007). Em relação ao MMSE, o grupo SA obteve
escores mais altos (<0,001). Porém, os grupos de saudáveis não se distinguiram
estatisticamente em nenhum quesito na comparação entre as duas produções
(p>0,05). A Tab. 1 resume os resultados, incluindo dados sociodemográficos e das
tarefas.

Tabela 1 – Características dos grupos e resultados dos teste t.


Grupos
DA CCL SB SA
n 7 7 5 18
Idade 71,3 ± 9,5a 72 ± 8,4a 70,3 ± 6,3a 66,9 ± 6,3b
MMSE 16,2 ± 4,5a 20,8 ± 4,6b 25,7 ± 3,7c 28,2 ± 1,9d
GDS 2,8 ± 3,4a,b 3,7 ± 1,8a 1,9 ± 1,6a,b,c 2,5 ± 2,7c
Notícia 12,3 ± 10,9a 12,9 ± 12,3a 24,8 ± 4,1b,c 23,6 ± 6,7c
Narrativa 11,3 ± 10,7a,b 13,3 ± 9,4a 22 ± 2,6b,c 18,3 ± 7,1c
Fonte: As autoras.

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Notas: Em cada teste, os valores assinalados com a mesma letra não tiveram diferença estatisticamente
significante (p<0,05) entre eles. DA: Doença de Alzheimer; CCL: Comprometimento Cognitivo Leve; SB:
Saudáveis de baixa escolaridade; SA: Saudáveis de alta escolaridade. MMSE: Mini-Exame do Estado
Mental; GDS: Geriatric Depression Scale.

O grupo DA, na comparação com SB, obteve escores significativamente mais


baixos no MMSE (p<0,001), na produção da notícia (p=0,024) e na história engraçada
foi marginalmente significativo (p=0,051), tendo também escores inferiores ao seu
grupo controle. O grupo CCL obteve desempenho significativo mais baixo no MMSE
(p<0,001), no GDS (p=0,012), na notícia (p=0,045) e na história engraçada (p= 0,039),
na comparação com SB. As comparações entre os grupos DA e CCL mostraram que eles
diferem somente no MMSE (p=0,002). Alguns participantes recusaram-se a produzir as
histórias. A história engraçada não foi produzida por um participante com DA, três com
CCL e dois SA. A notícia não foi produzida por três participantes do grupo DA, três do
CCL e um do SA.
A análise qualitativa da produção da narrativa mostrou que os grupos clínicos DA
e CCL tiveram dificuldades em compreender a instrução, fazendo com que o
examinador tivesse que explicar com outras palavras o que deveria ser feito. O grupo
DA necessitou muito mais encorajamento do examinador para iniciar a sua produção.
Nessas situações, o examinador deu ideias ou fez perguntas para encorajar o
participante a falar. O relato exclusivo do tópico não foi feito de forma significativa por
esses participantes. O grupo DA apresentou muita dificuldade em manter-se no tópico,
mudando de assunto bastante frequentemente. O grupo CCL demonstrou
perseveração, enquanto que os outros grupos, de saudáveis, tiveram desempenhos
semelhantes. Todos os grupos apresentaram comportamentos verborrágicos. Nenhum
grupo apresentou confabulações ou solicitou auxílio ao entrevistador durante a tarefa.
O grupo de SA apresentou algumas anomias, interessantemente, pois se esperava que
os grupos DA e CCL apresentassem anomias. O grupo DA produziu histórias mais
incompletas que os outros grupos, e isso se revelou na análise da sequência
cronológica dos acontecimentos.
Já na produção da notícia, o grupo CCL demonstrou mais dificuldades na
compreensão da instrução na comparação com os demais grupos. Todos os grupos
necessitaram encorajamento para a produção da notícia, sendo que o grupo DA foi o
que mais precisou. O relato exclusivo do tópico também foi feito por grande parte dos
participantes. Troca de tópico, perseveração e confabulação não foram problemas
para nenhum dos grupos nesta tarefa. De todos os grupos, apenas dois participantes
do grupo CCL, um do SA e um do SB, foram verborrágicos na sua produção. Nenhum
dos participantes solicitou auxílio para completar a tarefa. Quanto aos elementos da

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notícia, o QUEM e O QUÊ foram os mais mencionados pelos participantes, enquanto


que ONDE e QUANDO foram menos. Em relação à comparação dos grupos, o grupo DA
foi o que apresentou menos elementos da notícia, seguido pelos grupos CCL, SB e SA,
evidenciando uma produção reduzida de elementos feita pelo grupo DA.

Discussão

De uma forma geral, as tarefas linguísticas se mostraram sensíveis na


diferenciação dos grupos clínicos dos saudáveis, porém não entre os grupos DA e CCL,
e entre SA e SB. A diferença de idade e escolaridade entre os grupos SA e SB pareceu
não influenciar o desempenho dos grupos nas tarefas, uma vez que eles não
apresentaram diferenças significativas nas produções. A familiaridade com as
produções discursivas dos grupos pode ter ajudado nisso, uma vez que, para grupos
sem declínio cognitivo (SA e SB), falar sobre um acontecimento pessoal e sobre uma
notícia recente pode ser algo rotineiro e fácil. Uma análise mais detalhada dessas
produções talvez pudesse encontrar diferenças significativas entre os grupos
saudáveis. Embora os grupos não tenham se diferenciado estatisticamente, a média
geral do grupo SA (18,3 ± 7,1) foi menor que a do grupo SB (22 ± 2,6), e isso esteve
relacionado ao fato de que mais pessoas do grupo SA recusaram-se a falar, enquanto
que nenhuma pessoa do SB recusou-se. Além disso, o grupo SA apresentou mais
anomias que todos os outros grupos, interessantemente. As produções dos grupos de
saudáveis, e principalmente do grupo de alta escolaridade, foram muito mais ricas em
conteúdo na comparação com as produções dos grupos CCL e DA, que se mostraram
mais sucintas. Essa produção mais complexa pode ter dado margem às anomias
apresentadas pelo grupo SA. Além disso, sabemos que a sensação de palavra na ponta
da língua aumenta com a idade (NICHOLAS et al., 1997; BURKE, SHAFTO, 2004). O
estudo de Connor et al. (2004) aponta que a habilidade de nomear coisas decai
também no envelhecimento saudável. Portanto, o fato de termos encontrado anomias
na produção de saudáveis não é surpreendente. Porém, anomia é um dos sintomas
mais comuns do declínio cognitivo (ADLAM et al., 2006) e ainda assim não
encontramos na análise dos grupos DA e CCL. Argumentamos que a produção desses
grupos foi tão reduzida que déficits de anomia não puderam ser detectados nesses
participantes. Esta produção mais sucinta se reflete na necessidade de encorajamento
do grupo DA e na falta de elementos tanto da história engraçada como da notícia.
Os escores de MMSE diferentes nos três grupos são esperados conforme os
pontos de corte adaptados para a população brasileira, de acordo com declínio
cognitivo e escolaridade. Embora tenha havido diferenças significativas entre os

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escores da escala de depressão, nenhum dos participantes foi considerado depressivo


de acordo com os pontos de corte.
Em relação aos grupos com declínio cognitivo, uma visão geral da análise
qualitativa dos textos nos leva a crer que a produção discursiva dos participantes com
DA e CCL pode estar prejudicada e isso se reflete principalmente na necessidade de
encorajamento, nas trocas de tópico e na falta de sequência dos acontecimentos da
história e elementos da notícia. Os resultados também parecem permitir inferir que,
como a memória autobiográfica de longo prazo, envolvida na história engraçada,
encontra-se mais preservada na DA do que a memória de evento recente envolvida na
notícia, a produção da notícia mostrou-se mais prejudicada na DA. Sabemos que a
memória episódica é um dos primeiros domínios cognitivos, junto à linguagem, a
mostrar deterioramento em função do declínio cognitivo (ALBERT, et al., 2011).
Portanto, como a notícia é mais dependente deste tipo de memória, espera-se que os
grupos com declínio tenham um desempenho inferior. Além disso, deve-se olhar para
as diferentes naturezas das produções discursivas. A narração da história engraçada,
em geral, envolveu uma memória autobiográfica, por isso ela tornou-se mais fácil para
o participante, uma vez que ele vivenciou o que está contando. Trata-se de uma
narração mais familiar a ele. Por outro lado, a notícia é proveniente de ambientes mais
formais, como jornais, programas de televisão ou de rádio, logo, uma linguagem com a
qual o participante está acostumado somente a ouvir, mas nem tanto a reproduzir,
principalmente em um ambiente de testagem. Com base nessa diferença, decidimos
não comparar as duas produções, dados os motivos óbvios de que se trata de
produções de natureza diversa e a produção da história engraçada sairia em vantagem.
A fim de exemplificar alguns resultados da análise qualitativa, listamos no Quad.
1 um exemplo de cada produção para cada grupo.

Quadro 1. Exemplos de produções para cada tarefa de acordo com os grupos.


Notícia História
SA P: eu não queria dar uma coisa P: na verdade aconteceu::... no
trágica mas infelizmente é uma Rio de Janeiro e::... aonde eu
coisa que me marcou um morava e::... e nós estávamos
monte... a história do se/ do do saindo pra praia eu e a minha
da morte do menino do irmã e::... quando no caminho
Bernardo... atravessamos o o o o... o ali o
E: e como é que foi essa parque pra chegar na praia e de
história... repente nós vimos um
P: ah tem que contar?... tá... é::... caranguejo... e era de verdade
primeiro eu vi a notícia na pegamos o caranguejo... com a
televisão... e achei que não mão mesmo... o bicho tava vivo

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poderia ser... e depois no dia botamos dentro da sacola...


seguinte eu leio a notícia no pra::... pra levar o caranguejo e
jornal que uma criança tava botar na praia quando nós
desaparecida e que no::... e chegássemos só que o
foram procurar a criança e caranguejo quando nos demos
quando acharam a criança tava conta tava saindo pela... pela...
morta e que... na verdade na pelo buraco da bolsa então foi
verdade foi a madrasta... uma gritaria por causa da
auxiliada por uma outra amiga história do caranguejo...
que mataram a criança e o pai
me parece que tá... tá envolvido
na história...
SB Esse negócio do... esse acidente O que aconteceu comigo é que...
do Luciano Huck... aí com toda eu sempre pego o ônibus glória
família... porque encheu o saco no centro... e o cobrador já me
de tanto que falaram disso... e conhece... e quando nós
agora desse... desse presidente chegamos aqui na carlos
da fifa que foi reeleito aí... e... o barbosa... ele faz a curva aqui
mundo acho... não tá gostando pra entrar na niterói... eu já
da reeleição dele... tá todo levanto antes da parada... e o
mundo contra...no acidente do cobrador olhou pra mim e disse:
Luciano Huck caiu o avião... ele vó, te segura! cuidado que vem a
tava com toda a família e mais curva... aí eu achei muito
duas babás... só ele machucou e engraçado... mas eu agradeci... e
ela também... e um dos filhos só disse pra ele muito obrigado por
teve um arranhão no rosto, mas me cuidar
nada grave.. perguntaram pro
presidente da fifa se ele não
tinha medo de ser preso... e ele
perguntou por quê?... isso aí me
chamou atenção... ele disse que
não temia isso

CCL P: o avião que caiu... com... o... P: ma daí se eu for conta daí é
me esqueci o nome dele coisas feia né que eu vo
também... contaram pra mim daí não da pra
ACOMPANHANTE: Eduardo mim fala coisa feia
Campos... E: não magina...uma coisa
P: é... também... foi triste... achei engraçada....um fato uma
triste... situação engraçada...
E: sim... e a senhora sabe o que P: não que a minha irmã::
aconteceu?... poderia me contar quando eu vo lá a minha irmã
assim como é que... caiu... onde conto pra mim quando ela era
caiu... mais nova né...e ela foi corre
P: não sei... acho que o piloto ( atrás duma duma ambulista
)... ambulista é uns bichinho assim
E: e onde é que caiu... e onde é sabe...dai ela queria pega aquela
que caiu o avião... ambulista porque ambulista se
P: aonde?... lá em... São Paulo... se comia né o pai dizia que se
ou Pernambuco... eu não me comia né...e ela disse pra mim

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lembro... só sei que ele nasceu que foi foi atrá da ambulista a
parece Pernambuco né... ambulista a ambulista era só
E: sim... e quem morreu nesse faixa ela correu e não conseguia
acidente?... pega a tar de ambulista pego foi
P: o... como é o nome mesmo?... lá e deu correu correu a
A: Eduardo Campos... ambulista fugiu dela e ela não
P: Eduardo Campos... conseguiu pega ela
E: e ele era o que?...
P: ( ) candidato... ele era...
presidente da República...

DA E: o que está acontecendo em P: ah pra contar isso... me


nosso país? (eleições) divertia... brigava com a
P: as eleições gurizada... porque eles não
E: e quem é que está queriam trabalhar certo... eu
concorrendo? dizia que eu entregar pro patrão
P: não sei... a dilma e não sei qual e ali eu fazia...
outro. E: e teve algum evento em
E: e o que aconteceu com um dos especial que marcou a senhora?
candidatos? que um deles sofreu P: não... eu marco que lá eu
um acidente. pude criar meus filhos...
P: eu não sabia que tinha dado trabalhando... a pensão era
acidente. pouca do marido... trabalhando
eu criei quatro filhos... graças a
deus estão todos casados... tudo
bem. foi uma coisa muito boa
que eu fiz na vida... mas com
todo sacrifício.

Fonte: As autoras.

Considerações finais

Buscamos traçar um perfil do discurso de idosos saudáveis de dois níveis de


escolaridade diferentes e de dois grupos com declínio cognitivo. Apesar das amostras
reduzidas, os resultados sugerem que ambas as tarefas discursivas (notícia e história
engraçada), em especial a notícia, diferenciam grupos clínicos de saudáveis, podendo
ser adotadas como instrumentos complementares na avaliação de declínio cognitivo
em populações de baixa escolaridade. Consideramos que uma análise linguística mais
aprofundada, como feita por Vargas (2015), que investigou a questão da referenciação
na demência e na variação de escolaridade, pode elucidar mais detalhadamente
questões acerca da linguagem na população com declínio cognitivo, bem como nas
saudáveis com diferentes níveis de escolaridade.

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Referências

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SERES ESTRANHOS:
PERSONAGENS EM DESENCONTROS EM ROMANCES DE DULCE MARIA CARDOSO

Bruno Mazolini de Barros1

Dulce Maria Cardoso integra, neste século, o grupo de escritoras portuguesas


contemporâneas que, principalmente desde o século XX, são responsáveis por
significativas composições literárias, como Augustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão e
Lídia Jorge. Elas não são meras escritoras; são, na verdade, arqueólogas criativas:
arqueólogas do ser humano.
Para Italo Calvino, no ensaio O olhar do arqueólogo,

Em sua escavação, o arqueólogo torna a descobrir utensílios cujo


destino ignora, cacos de cerâmica que não se encaixam, jazidas de
eras distintas daquela que ele esperava encontrar ali: sua tarefa é
descrever peça por peça também e sobretudo aquilo que não
consegue sistematizar numa história ou numa utilização, reconstruir
numa continuidade ou num todo (2006, p. 314).

Assim é o trabalho de Dulce Maria Cardoso: ela ficcionaliza peças soltas. Seu
descrever não é um simples relato de características: é colocar sobre a tensão
romanesca todos os cacos de o que poderia, como um todo, ser denominado como
realidade, existências, seres complexos e sofridos.
Seus romances demonstram a força de sua inventividade e a ousadia de suas
escolhas criativas, seja pela forma como narra, seja pelas personagens que desenvolve.
Escreve de dentro das personagens, revelando seus mundos internos em conflito com
a realidade externa que as desafiam e tratando de temas como identidade, família,
traição, luto — todos eles subordinados à implacável ação do tempo.
No final da década de 1920, Virginia Woolf faz uma perspectiva de o que as
mulheres passarão a escrever:

Seus romances tratarão das mazelas sociais e soluções para elas.


Seus homens e mulheres não serão totalmente observados nas
relação emocional que mantenham uns com os outros, mas sim por

1
Doutorando em Teoria da Literatura, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS,
bolsista CNPq. E-mail: brunomazolini@gmail.com

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se juntarem e entrarem em conflito, como grupos e classes e raças.


[...] Para além das relações pessoais e políticas, elas [as escritoras] se
voltarão para as questões mais amplas que o poeta tenta resolver –
as de nosso destino e dos sentido da vida (2014, p. 281).

Com isso, não busca se dizer aqui que a escrita de Dulce Maria Cardoso seja uma
escrita “feminina” simplesmente. Cada um de seus romances são construídos com
linguagens e estruturas narrativas bem distintas, e todos realizam o que a romancista
inglesa colocou em questão: eles tratam dos destinos e sentidos que a vida pode ter.
Em contato com sua escrita de ruínas – ela cria ruinas de ser, de
relacionamentos, de famílias ou de um país —, tem-se acesso a seres que são, cada um
a sua maneira, desajustados no mundo em que vivem. São peças soltas de si mesmas
ou de um grupo que os percebe como estranhos de alguma maneira. No entanto, não
é somente a eleição de seres peculiares o mérito do romance de Dulce Maria Cardoso,
já que, o centro desta arte, como analisa Orham Pamuk, em O romancista sentimental
e o ingênuo, “não é a personalidade ou o caráter dos protagonistas, mas a maneira
como veem o universo dentro da história” (2011, p. 53).
Isso é perceptível desde o seu primeiro romance, Campo de sangue, de 2002.2
Nele, um inominado mentiroso, preguiçoso, fóbico a insetos, sustentado pela ex-
esposa e com “unhas de cão” leva quatro mulheres a uma sala de espera para
deporem devido a um assassinato. Esse homem que obtém conforto em cheiro de
inseticida e que rouba sem necessidade vive de mentiras, satisfaz-se com seu mundo
irreal:

Mas o que fez ficar, além da eficácia com que a senhoria exterminava
os insectos, foi o que tinha inventado ser. Tinha construído uma vida
que lhe agradava, cumpria um horário de trabalho, levantava-se
sempre à mesma hora, quando regressava contava histórias da
empresa (2005, p. 63).

A única personagem nomeada no romance é Eva, a ex-mulher desse homem, e


quem ela sustenta financeiramente. Este nome próprio é umas entre outras
referências bíblicas que a narrativa possui: ela está atravessada por epígrafes retiradas
de diferentes livros da Bíblia e o próprio título também o é. “Campo de Sangue”, como
aparece em uma das epígrafes do romance, é a tradução de “Hakeldamá”, o terreno
comprado por Judas Iscariotes.
Ao final desse livro, a autora agradece a Dulce María Loynaz “a definição de ilha”.

2
As datas correspondem à primeira edição de cada uma das obras em Portugal.

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Que ilha é essa? Quem estaria ilhado? O inominado com unhas de cão ou cada uma
das mulheres que testemunham cada uma das vidas que ele construiu? Sejam abrindo
as obras de Dulce Maria Cardoso como epígrafes ou aparecendo como citações
finalizando-os, os quatro romances trazem menções a escrituras de Loynaz, escritora
cubana.
Já em Os meus sentimentos, de 2005, uma “mostrenga” — como se
autodenomina a personagem Violeta, obesa, vendedora de cera em tempos de
depilação a laser, que pratica sexo casual com caminhoneiros — percebe que existe da
seguinte maneira:

sou uma obesa indecisa entre o tipo I e o tipo II, da tabela que os
profissionais da saúde tiveram o cuidado de elaborar, não fosse essa
tabela e o mais certo era andar perdida nesta vista, assim, ainda que
oscile entre o tipo I e o tipo II, sei a que tabela pertenço e em relação
a que categorias hesito (2012b, p. 33-34).

Suas histórias de desajuste vem à tona em um acidente de carro. De cabeça para


baixo, suspensa pelo cinto de segurança, Violeta revê o dia que resultou nesse
acidente. Fixada numa gota de água suspensa, retoma seu passado e projeta um
futuro que lhe escapa, sofrendo e até se alegrando com coisas que ainda não
aconteceram ou talvez nem chegarão a acontecer.
Seu terceiro romance, lançado em 2009, O chão dos pardais traz uma miríade de
personagens que estão sob o estilhaçamento que é a própria vida de cada um deles.
Seja um professor de história, uma prostituta de luxo ou uma refugiada ucraniana, seja
por meio de um bate papo pela internet ou por um amor não correspondido, todas
elas estão em decadência em diferentes níveis e emaranhadas na tensão romanesca
da iminência de um assassinato na festa de aniversário do milionário Afonso. De certa
maneira, a ociosa Alice, esposa de Afonso, capta como as relações podem ser
capciosas:

Alice percebeu imediatamente que seria através do projecto que


conseguiria que Gustavo aceitasse o que lhe propunha. A ideia de
projecto era a maior vulnerabilidade da espécie humana. Não tivesse
a capacidade de se projectar no futuro e de acreditar que nele era
possível realizar o que o presente negava, a espécie humana seria
indubitavelmente menos subornável (CARDOSO, 2009, p. 94).

Independentemente da vida que têm, as personagens desse romance são como


pardais mesmo: comuns, de certa maneira, e podem até ser perniciosos, uma praga.

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No entanto, estão todos unidos por essa busca de um futuro, nessa execução de
projetos que os tornam tão humanos e que, buscando a realização disto, submetem-se
a diferentes situações que poderiam ser entendidas como subornos em diferentes
níveis, com o uso de diferentes moedas.
Já em O retorno, de 2012, Dulce Maria Cardoso apresenta Rui, nascido em
Angola e que, em Portugal, descobre um novo local para sua vida, com o peso da
responsabilidade de ser o homem da família. Se nos três primeiros romances há
momentos de volta à infância e adolescência de algumas das personagens — os
conflitos e perdas, e as ligações e desconexões improváveis que eles desencadearam
—, em O retorno, temos a adolescência em si, na voz potente do jovem Rui. Nessa
obra, temas já abordados pela autora estão entremeados à derrocada portuguesa em
Angola e à vida dos retornados, portugueses e seus descendentes que precisaram
voltar a Portugal, ou ir pela primeira vez, na famosa ponte aérea de 1975.
O monólogo interior que revela angústias e descobertas do adolescente, que
sente a necessidade de assumir uma posição da qual acredita não dar conta. Além
disso, em Portugal, descobre que é alguém diferente: “Explicaram-nos, IARN quer dizer
Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. Agora somos retornados. Não sabemos
bem o que é ser retornado mas nós somos isso. Nós e todos os que estão a chegar de
lá” (2012a, p. 77).
Sua nova situação é estranha a ele mesmo, mas também o é para os outros: Rui
faz parte de um grupo que os portugueses locais descriminam. A maioria dos
retornados não possuíam o mínimo para assegurar uma noção digna de pertencimento
à Portugal: uma casa no país. Alojados em hotéis, eram comunidades ilhadas. Além
disso, para os angolanos da Angola independente, Rui é português. Para os
portugueses, Rui é africano.
Particulares como são, suas personagens acabam muitas vezes não se
entendendo, sejam consigo mesmas ou com as outras. Curiosamente, a poética de
Dulce Maria Cardoso parece explicitar-se na fala de uma de suas personagens. Alice, a
entediada milionária de O chão dos pardais, declara o seguinte: “O conhecimento é
uma extravagância em qualquer relacionamento e o entendimento uma extravagância
ainda maior” (2009, p. 72). As personagens desses romances, muitas vezes, não
reconhecem ou entendem umas as outras ou acabam entrando em conflito, já que
possuem expectativas frustradas em relação ao outro.
As dores das relações, dos conflitos, das perdas são tratadas habilmente, não
tornam o leitor um expectador sádico, visto que há uma proposta de reflexão em seus
romances, como a própria romancista afirma:

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Senão, fica-se muito parecido com aquelas pessoas que param o


carro para ver os acidentes. Só se expõe o sofrimento, há mais nada.
Eu andei à procura de uma proposta de reflexão que me servisse. A
ideia é de perda, é de estar a deriva. É a perspectiva de o futuro ser
negro (MARQUES, 2015, p. 329).

Em Campo de sangue, o inominado de meia idade inventa diferentes vidas para


cada uma das mulheres com que se relaciona, e, à medida que sua obsessão por uma
desconhecida aumenta e resulta em um crime, esses mundos falíveis revelam-se, mas
não para que eles simplesmente se explicitem ao leitor, mas para que as relações se
revelem mais capciosas ainda. Há conflitos de realidades: elas irão depor sobre o
mesmo homem, mas cada uma delas têm um determinado conhecimento dele.
Essas relações perturbadas também é perceptível em Os meus sentimentos, em
que Violeta não se entende com a sua mãe, assim como também não se entende com
o pai, com o irmão bastardo e com a filha. Violeta, por não ser a criança, e depois a
jovem, que a mãe esperava ter, ouve constantemente: “a vergonha que tenho de ti”
(2012b, p. 34) ou “a vergonha que o teu pai tem de ti, Violeta” (idem, p. 35). As
personagens não se entendem, como se não falassem a mesma língua.
Sobre Rui, de O retorno, Dulce Maria Cardoso declara:

Há nele uma questão de linguagem: a linguagem de lá, a linguagem


de cá, as diferentes palavras, o facto de mesmo os negros de lá não
se entenderem. É muito engraçado como a linguagem nos define
tanto e nos incapacita tanto. Ao mesmo tempo que também nos
torna muito poderosos (MARQUES, 2015, p. 331).

Há também o conflito que pode emergir pela diferença de experiências prévias


das personagens, que não podem ser explicadas, muito menos quando não se domina
a língua portuguesa. Em O chão dos pardais, a imigrante do leste europeu pensa o
seguinte em relação a filha da patroa:

Em que raio de mundo vivia aquela mulher para pensar que Elisaveta
podia confiar nela. [...] Elisaveta sabia que não podia confiar em
ninguém, muito menos em quem soubesse o que a fome e o frio
faziam. Aquela mulher não sabia que a fome acorda o corpo e que o
frio o atordoa e que era só por isso que ela tinha sobrevivido (2019,
p. 99).

No entanto, esse conhecimento e entendimento limitados vai além das relações

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interpessoais, entre relações entre classes sociais diferentes ou nacionalidades. Há


também o conflito entre a história pessoal e a coletiva. Seja a Revolução dos Cravos
em Os meus sentimentos, a independência de Angola em O retorno ou a morte da
princesa Diana em O chão dos pardais, esse fatos não passam desapercebidos em suas
vidas, despertam sentimentos que vão desde a curiosidade mórbida até a revolta. Isso
fica bem explícito, por exemplo, na irritação de Rui com o bombardeamento de ideias
sobre os retornados e sobre a decadência portuguesa:

Nem todos os homens têm fumos. O João comunista não tem,


aquelas terras não nos pertenciam, é justo que tornem aos que
foram roubados, e na televisão um dos revolucionários, o império
está a chegar ao fim, hoje podemos dizer que temos orgulho de
Portugal, viva Portugal.
Eu não tenho fumo, não sei o que é justo, não tenho orgulho, não
tenho vergonha, e nem sei do que falam. A única coisa que sei é que
mataram o pai (2012a, p. 154).

As situações históricas principalmente nos três últimos romances são mais do


que pano de fundo nas narrativas, são o que Milan Kundera denomina “uma situação
existencial em desenvolvimento” (2009, p. 42). Elas estão afetando as personagens
ativamente, não são um mero cenário, são cruciais para forma como as personagens
estão no mundo.
Em O retorno, especialmente, o evento histórico é muito relevante, é um dos
dispositivo que move a narrativa. Para José Saramago, há duas atitudes no uso da
história na ficção, e esse romance parece se encaixar no segundo tipo:

Duas serão as atitudes possíveis do romancista que escolheu, para a


sua ficção, os caminhos da História: uma, discreta e respeitosa,
consistirá em reproduzir ponto por ponto os fatos conhecidos, sendo
a ficção mera servidora duma fidelidade que se quer inatacável; a
outra, ousada, levá-lo-á a entretecer dados históricos não mais que
suficientes num tecido ficcional que se manterá predominante.
Porém, estes dois vastos mundos, o mundo das verdades históricas e
o mundo das verdades ficcionais, à primeira vista inconciliáveis,
podem vir a ser harmonizados na instância narradora (2001, p. 502-
503).

Essa miríade de desajustados em diferentes conflitos parece refletir o próprio


Portugal desajustado, deslocado, que nos últimos 40 anos ocupa um entre lugar. Como
Boaventura de Souza Santos explicita em Portugal: ensaio contra a autoflagelação, os

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portugueses estão deslocados identitariamente do continente europeu, porque são


órfãos da queda do Império Ultramar e contemporâneos de um projeto de Europa que
não se realizou completamente. Assim também o são as personagens de Dulce Maria
Cardoso.
Além disso, percebe-se um Portugal pequeno, uma Lisboa pequena. As
personagens de O chão dos pardais, e suas vidas, cruzam-se, quer eles tenham
consciência disso ou não. No entanto, outras, mesmo sendo de diferentes romances,
acabam por esbarrar-se também, além de devotar certo tempo analisando o outro,
tentando entender o que acontece e ouvir a sua conversa. Existem juntos, mesmo que
por momentos, em Lisboa.
Enquanto Dora, filha de Violeta, de Os meus sentimentos, está em um café de
Lisboa, ela repara em um homem que aguarda impacientemente e, mais tarde, na
mulher que entra e que senta à mesa dele:

a mulher que chegou tem um casaco cinzento [...] e cheira a perfume


caro. [...] Dora detém-se nas mãos da mulher, umas mãos muito
magras, quase de cera [...] repara nos lábios da mulher que são da
cor das bagas de romã, nunca tinha visto ninguém com lábios da cor
das bagas de romã (CARDOSO, 2012, p. 340-341).

Essa mulher que Dora observa e de quem ouve parte da conversa é Eva, de O
campo de sangue, que “Cheirava a perfume caro e tabaco. [...] As mãos de Eva
estavam iguais, mãos magras de cera [...]. Eva finalmente falou, os lábios de romã”
(CARDOSO, 2005, p. 158-159). Em um jogo semelhante, a sequência do acidente de
carro sofrido por Violeta, de Os meus sentimentos, parece revelar-se no romance
seguinte, O chão dos pardais:

Faltavam duas estações para o destino deles, quando uma mulher


muito gorda, com cabelo molhado, apesar de estar um dia bonito de
fim de verão. Cheirava a tabaco e a cerveja e carregava dois sacos.
Sofia espreitou para os sacos, com a mania de olhar para dentro de
tudo, e viu várias amostras de ceras de depilatórias. Sofia calou-se.
Não queria que a mulher os ouvisse. Apesar do calor a mulher vestia
collants e Sofia reparou que tinham uma malha caída. A mulher
atenta ao olhar de Sofia disse, Foi por um acidente. Sofia virou a cara.
Não estava interessada em saber nada (CARDOSO, 2009, p. 84).

De qualquer maneira, frente ao que experienciam, os seres estranhos que


povoam Campo de sangue, Os meus sentimentos, O chão dos pardais e O retorno

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adotam as mais variadas estratégias para encarar, negar, ludibriar ou recriar a


realidade e assim, dentro dos textos, outras narrativas menores, as das personagens,
desenrolam-se. Essas histórias, que contam para si mesmos ou para os outros — um
panteão de memórias e projeções do futuro, movidos pela esperança e pelo medo —,
são um exemplo da perspicácia da autora não só em relação à complexidade da
existência de suas personagens, mas também em relação à complexidade de o que
denominamos vida.

Referências

CALVINO, Italo. O olhar do arqueólogo. In: Assunto encerrado: discursos sobre


literatura e sociedade. In: São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p.312-315.
CARDOSO, Dulce. Campo de sangue. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
______. O chão dos pardais. Alfragide, Portugal: ASA, 2009.
______. O retorno. Rio de Janeiro: Tinta-da-china do Brasil: Rio de Janeiro, 2012ª.
______. Os meus sentimentos. Rio de Janeiro: Tinta-da-china do Brasil: Rio de Janeiro,
2012b.
KUNDERA, Milan. A arte do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
MARQUES, Carlos Vaz Marques. As palavras não se afogam ao atravessar o Atlântico.
Rio de Janeiro: Tinta-da-China Brasil, 2015.
PAMUK, Ohram. O romancista ingênuo e o sentimental. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Portugal: ensaio contra a autoflagelação. São Paulo:
Cortez, 2011.
SARAMAGO, José. História e Ficção. In: REIS, Carlos. O conhecimento da literatura:
introdução aos estudos literários. Coimbra: Almedina, 2001.
WOOLF, Virgínia. Mulheres e ficção. In: O valor do riso e outros ensaios: Virginia Woolf.
São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 270-283.

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LITERATURA: UMA PERFORMANCE INAUGURAL

Camila Alexandrini1

Não há como negar os encontros interartes ou ainda os debates sobre os


limiares da literatura e os saberes que são produzidos e disseminados a partir dela no
estudo de muitos pesquisadores do campo dos estudos literários; entretanto, não há
como negar igualmente a resistência dos estudos literários quando a teoria literária
depara-se com outros objetos de análise.
Em busca de uma rota que repense os objetos de análise da literatura, será
apresentado uma proposta de percurso teórico-crítico que se direciona à performance
– na literatura e na teoria da literatura – ou à palavra-performance, noção em
desenvolvimento no projeto de doutoramento atual. De acordo com Zumthor (2007,
p.27), pensar a performance nos estudos literários provoca um problema de método e
de compreensão crítica do objeto literário. Para ele, “de saída é necessário, com
efeito, entreabrir conceitos exageradamente voltados sobre eles mesmos em nossa
tradição, permitindo assim a ampliação de seu campo de referência”.
A noção de palavra-performance se direciona à reelaboração de princípios e
práticas da performance para se constituir enquanto teoria literária e, desse modo,
compreender percursos outros tomados pela literatura e pelo leitor que se constitui a
partir dela na contemporaneidade. Nesse artigo, encontram-se: (1) apontamentos
iniciais da pesquisa, (2) um pontual discernimento de performance e (3) uma proposta
de compreensão desse termo em relação à literatura, feita por Jacques Derrida.
Dizer o que é ou o que pode ser performance tem se demonstrado para mim
ser muito diferente de dizer ou se perguntar o que é literatura. Tentar responder a
essa pergunta – “O que é literatura?” ou, pior, “O que é a literatura?” – me esgota, me
enreda em um discurso tautológico sem fim de professores e pesquisadores
universitários desprovidos de inovação didática e/ou metodológica. Mas não os culpo
de todo modo, pois eu me encontro diante de um pulsar que se vê, muitas vezes,
diante da dúvida do que pode ser literatura principalmente na contemporaneidade.
Vendo-me assim, durante o Mestrado, entreguei-me à dispersão de Maurice Blanchot

1
Doutoranda em Teoria da Literatura (PUCRS).
E-mail: camilalexandrini@msn.com

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e almejei encontrar os não-lugares da literatura. Busquei, como diz o filósofo,


apaixonadamente descobrir o não da literatura, a não-literatura.
Ao iniciar o projeto de tese atual, intitulado Palavra-Performance, serrei livros.
Alexandre Pandolfo e eu serramos livros2, talvez com propósitos diferentes, mas
serramos. Eu, antes de tudo, buscava uma violência que sempre me foi necessária ao
pensamento teórico. Quis ver o músculo rígido do braço direito, para tentar escrever
tão rigidamente quanto a força que empregava na hora do corte, torto, mas certeiro.
Além disso, me lancei à criação de alguns trabalhos artísticos para poder compreender
questionamentos decorrentes da pesquisa. Os processos construídos por mim, na
elaboração de uma pesquisa teórica, bem como de sua escritura, a fim de lidar com as
inquietações, são fortemente marcados por uma subjetividade. Não nego, nem nunca
neguei a presença do self na teoria, ao contrário, faço dele subjétil e projétil de outros
eus que há em mim. Negar o substrato sempre presente do eu na teoria é trair a
possibilidade de outras vozes. Mesmo que eu, branca, classe média, universitária, não
configure exatamente uma outra voz, diferente da que sempre prevaleceu na
academia, não posso me abster de mim. E isso já é uma performance.
Não se trata de uma metáfora, tampouco de uma profanação. A performance
direciona-se a tudo. Richard Schechner, um dos principais teóricos dos estudos da
performance na atualidade, em Performance Studies: an introduction (2013), dirá que
(praticamente) tudo pode ser entendido como performance3. É recorrente o medo de
palavras que remetam a totalidades. Em um mundo em que se deva prevalecer o
direito às diferenças, dizer tudo sempre será um perigo. No entanto, esse tudo em
relação à performance me concede, assim como concedeu a diversos teóricos, a
liberdade que sempre é necessária no exercício teórico.
“O termo inglês “performance” significa “atuação”, “desempenho”,
“rendimento”, mas começou a assumir significados mais específicos nas artes e nas
ciências humanas a partir dos anos 1950 como ideia capaz de superar a dicotomia
arte/vida” (KLINGER, 2008, p.19). Os estudos da performance, entendidos como
disciplina, iniciam-se em 1970 na New York University (NYU) e na Northwestern
University (NU), em Chicago. O primeiro grupo, voltado à performance por meio da

2
Observações sobre essa ação artística podem ser encontradas na publicação Rastros, julho/agosto,
2013. Disponível em: <http://culturaebarbarie.org/rastros/n7.html> Acesso em 12 de novembro de
2015.
3
O teórico constrói uma diferença entre “é performance” e “como performance”. Segundo Schechner
(2013, p.38): “There are limits to what “is” performance. But just about anything can be studied “as”
performance. Something “is” performance when historical and social context, convention, usage, and
tradition say it is.”

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perspectiva do ritual; o segundo, pelo viés da comunicação, da retórica e do discurso.


Após quarenta anos, os estudos da performance se constituem hoje como um dos
mais plurais campos de análise das ciências que não são só as humanas. Schechner
(2013, p.31), também professor da NYU, por exemplo, apontará oito tipos de
performances: a cotidiana, nas artes, nos esportes ou outro entretenimento popular,
nos negócios, na tecnologia, no sexo, em rituais sagrados, e em ações 4. Em uma rápida
pesquisa na internet, podemos observar a ampla abrangência do termo performance:
Performance Fitness, Performance em Vendas, Alta Performance Tecnológica,
Coaching para Performance – sem contar as variantes possíveis quando acompanhada
da palavra arte. Segundo Regina Melim, em Performance nas artes visuais (2008):

O termo performance é tão genérico quanto as situações nas quais é


utilizado. Na vida, bem como em distintas áreas do conhecimento, a
palavra transita em muitos discursos. Talvez por isso, por resistir
tanto a uma única classificação, torna-se tão instigante para o campo
de arte (MELIM, 2008, p.1).

Marvin Carlson, em Performance: uma introdução crítica (2009), analisa a


performance com base na antropologia, na etnografia, na sociologia, na psicologia, na
linguística, nos estudos culturais e na arte da performance. É possível atualmente
encontrar, inclusive, pesquisadores de áreas diversas a essas, que se utilizam da
performance como metáfora, ferramenta analítica, apropriação teórica. Ainda assim,
se, no exterior, a performance tem sido amplamente estudada, em nosso país, ela vem
se estabelecendo, sobretudo nas duas últimas décadas, em grupos de pesquisa
voltados principalmente às artes. “Se de um ponto de vista prático muito se realizou
no Brasil, em termos de performance, de 1982 para cá, o mesmo não aconteceu de um
ponto de vista conceitual, sendo raras as formulações teóricas sobre esta expressão”
(COHEN, 2011, p.25). Quando a intersecção esperada é com a literatura, no sentido
posto pelos estudos literários, pouco podemos encontrar5.
4
No original “Play”. A escolha por “ação” segue a tradução utilizada por outros pesquisadores. Play é
uma das principais manifestações da performance, sobre a qual Schechner se dedica longamente no
quarto capítulo de Performance Studies: an introduction (2013). Segundo o teórico, embora não seja
simples separar a ação física do universo dos games, “play” se direciona não somente a jogos
(esportivos, de crianças e adultos), mas também a diversas ações estruturadas, sejam elas no teatro, no
trabalho, no estudo acadêmico, na vida cotidiana etc.
5
Constam no Diretório dos Grupos de Pesquisa (CNPq) 318 grupos de pesquisa que possuem como uma
das palavras-chave a performance. Desses, apenas 16 são localizáveis, segundo os critérios da
plataforma, na área de Letras. Ao restringir a busca pelas palavras-chave “performance” e “literatura”,
encontramos apenas 6 grupos de pesquisa, sendo 3 da área de Letras (Núcleo de Estudos em Letras e
Artes Performáticas [NELAP – UFMG], Núcleo de Estudos em Literatura, Artes e Saberes [NELAS –

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Em outra via, a performance também pode, como costumeiramente é, ser


entendida como arte da performance. Considera-se, segundo Roselee Goldberg (2006),
que a história da arte da performance tem seu início no primeiro manifesto futurista
do poeta Filippo Tommaso Marinetti, em 1909, publicado em grande circulação pelo
jornal francês Le Figaro, além de ter contado com representantes nas demais
vanguardas europeias, passando pelo Dadaísmo, Surrealismo, Construtivismo e a
Escola Bauhaus. Naquele momento, a performance representava aos seus praticantes
“a liberdade de ser, ao mesmo tempo, “criadores” no desenvolvimento de uma nova
forma teatral, e “objetos de arte”, porque não faziam nenhuma separação entre sua
arte como poetas, como pintores ou performers” (GOLDBERG, 2003, p.4). Jorge
Glusberg (2003, p.11-12) apontará, entretanto, um início tripartido à performance, o
qual pode estar em Yves Klein (Salto no Vazio, 1962), Alfred Jarry (Ubu Rei, 1896), ou
ainda, na força motriz do ritual – presente em toda a história de nossa sociedade –
essa última semelhante à abordagem de Cohen (2011, p.41), o qual remonta a
performance a uma corrente ancestral.
Na década de 1960, o termo performance foi utilizado para se referir a
intervenções em que os artistas faziam uso de seus corpos para realizar ações
ensaiadas, repetidas e apresentadas em diferentes lugares – em distinção aos
happenings de Allan Kaprow. Fluxus, grupo híbrido de artistas, tais como John Cage,
Robert Filliou e Joseph Beuys, queria que o cotidiano fosse incorporado à arte e ao
corpo encarnado. A arte conhecida como experimental ecoava ensinamentos vividos
na Black Mountain College, instituição fundada em 1933, em Asheville (EUA), tendo
em vista as propostas pedagógicas de John Dewey. No fim dos anos 60, o termo arte
da performance já era reconhecido por seus participantes e intrigava o público das
grandes cidades.
Bem-humorada e clandestina, a performance estende suas fronteiras e delineia
espaços cada vez mais largos para si. Entretanto, de acordo com Cohen (2011, p.28),
“apesar de sua característica anárquica e de, na sua própria razão de ser, procurar
escapar de rótulos e definições, a performance é antes de tudo uma expressão
cênica”. A partir dessa compreensão, a performance também revelou ao teatro outras
formas de criação da cena, de entendimento da ação do ator, de transformação dos
elementos e dos espaços. Há também, nessa expressão cênica, a tentativa de
abandono do teatro-literário ou ainda do domínio do texto sobre a cena. É, pois, nesse
sentido, que a compreensão de texto na performance amplia-se por completo. “A

UFVJM] e Estudos da Palavra Cantada [UFRJ]), os demais configuram-se no campo das Artes. Disponível
em: <http://lattes.cnpq.br/web/dgp> Acesso em 27 de julho de 2015.

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palavra “texto” deve ser entendida no seu sentido semiológico, isto é, como um
conjunto de signos que podem ser simbólicos (verbais), icônicos (imagéticos) ou
mesmo indiciais (sombras, ruídos, fumaças, figuras delineadas por luzes etc)” (COHEN,
2011, p.29).
Com a explosão da cultura pop, os anos 80 foram marcados por uma série de
performances que iam dos shows de rock a manifestações em praça pública. Os
acontecimentos políticos do período, bem como a veiculação rápida de informação
através das novas tecnologias, impeliram artistas à discussão a respeito da
globalização, dos regimes de colonização, da sociedade do consumo. Por ser uma arte
jovem, embora de memória antiga, a performance permite se reinventar, sua tradição
é marcada em um tempo histórico altamente volátil e instável e seus participantes
interessados demais na contestação de seus princípios. Nesse sentido, performance e
literatura possuem um distanciamento profundo. Mesmo que possamos perceber o
empenho de certos escritores na inauguração de uma outra instituição literária, a
teoria ainda se debate para também renovar seu conjunto de noções. A renovação
da/na teoria literária é da ordem do urgente, e isso só me parece possível se ela estiver
disponível a abandonar-se, a repensar os objetos de análise da tradição literária, a
almejar não só o contato interartes, mas também a sua contaminação. Nesse sentido,
a performance aqui se insere primeiramente como um investimento à disponibilização
de outros espaços ao que chamamos de literatura e, desse modo, possibilitar que ela
seja entendida, lida e desenvolvida também de outras maneiras teóricas. Vejamos um
exemplo de como isso pode ser operado na teoria da literatura.
No ano passado, mulheres corriam nuas pela cidade de Porto Alegre. Gosto
muito dessa imagem e gostaria que vocês a imaginassem6. (a) Sob o ponto de vista das
leis que regem a nossa sociedade, tal ato poderia ter sido considerado inapropriado,
sob pena de detenção. (b) Já a partir do olhar que percebe essas mulheres
interrompendo a ordem cotidiana, ver uma mulher nua passar pela janela do ônibus
pode ser uma mais ou menos agradável surpresa. Diante dessas mulheres, que sem
pudores, exibem o corpo nu, (c) poderíamos cogitar também uma manifestação
artística. Até mesmo, (d) o discurso psiquiátrico, principalmente aquele que indica
estatutos de normalidade, foi uma das ferramentas de assimilação do
incompreensível. Eu as vi como palavras em fuga e – novamente, isso não é uma
metáfora.
6
Mais uma mulher é fotografada correndo nua em Porto Alegre, notícia publicada no Jornal Zero Hora,
em 09/11/14. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2014/11/mais-uma-
mulher-e-fotografada-correndo-nua-em-porto-alegre-4639030.html> Acesso em 12 de novembro de
2015.

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A performance está em todas essas esferas: na política, na antropologia, na


sociologia, na sexualidade, na literatura e em tantos outros campos das ciências – não
apenas as humanas. Observem que me refiro agora à performance, não à arte da
performance, tampouco ao performático ou performativo7. Pois bem, é cada vez mais
plural o uso desse termo, performance, na abordagem de teóricos, profissionais,
especialistas e outros cidadãos que não se encaixam nessas anteriores denominações
para indicar um “conjunto de ações/comportamentos”, as quais movem
conhecimentos de áreas comunicáveis, mas de algum modo ainda distantes. Explico-
me.
Um corpo corre. Essa não é uma ação, mas ações. Se percebo a mulher
correndo sob o ponto de vista da interrupção cotidiana, há várias ações que ali são
desempenhadas ou dadas. O corpo que se movimenta, o olho que a vê, a cidade que
para, a fotografia que circula pelas redes sociais, eu que penso sobre esse corpo... Em
outras palavras, no momento em que percebo uma ação, posso vê-la isoladamente,
sem agenciar outros discursos, ou posso entendê-la como agenciamento provocador
de outros discursos. Nosso pensamento na contemporaneidade é invariavelmente em
rede, isolar o objeto, distanciar-se dele, é aniquilar o pensamento, ou pior, é pensar
sabendo onde quer e onde vai chegar. É correr como todos correm.
E eu não quero correr como todos correm. Na verdade, idealista como sou,
ainda acredito que todos nós desejamos uma porção de inaugural na nossa vida
individual, social, cultural, sexual etc. A primeira porção de inaugural que gostaria de
comentar com vocês, já que meu texto se intitula Literatura: uma performance
inaugural, é a do desconhecido. Dizemos inaugural ao que não foi visto antes; ou, uma
vez visto, se esquece de que aquilo já existiu antes. A performance lida com o
inaugural, pois mexe com aquilo que não conhecemos ou não entendemos
diretamente. É muito comum, nesse sentido, por exemplo, chamar de performance
ações artísticas que movem muitas práticas, muitos suportes, muitas ações que
somadas produzem um sem-nome. Em nossa organização scriptocêntrica, não há lugar

7
Mostra-se relevante informar, inclusive, que a aproximação dos campos da literatura e da performance
poderia ser pensada a partir do ponto de vista da linguagem, o qual, segundo Carlson (2009), emerge
com a teoria linguística de Chomsky, passa pelo dialogismo de Bakhtin, pela intertextualidade de
Kristeva, até tocar os fundamentos dos atos de fala de Austin, em How to do things with words (1975).
“Austin chamou a atenção para um tipo especial de fala, que ele denominou de “performativa”. Ao
emitir um “performativo”, simplesmente não se faz uma afirmação (o foco tradicional de análise
linguística que Austin rotula de “constativo”), mas performa-se uma ação como, por exemplo, quando
alguém batiza um navio ou realiza um casamento” (CARLSON, 2009, p.73).

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para o sem-nome, desse modo, chamamos o incompreensível, muitas vezes, de


performance. “Ao andar pelo arroio dilúvio, vi pessoas nuas dançarem.” Ou
denominamos a ação por algum verbo correspondente, ou chamamos a ação artística
do grupo Falos & Stercus de performance8.
A segunda porção de inaugural que gostaria de brevemente apresentar diz
respeito à literatura. Jacques Derrida, em uma recente tradução ao português da
entrevista intitulada Essa estranha instituição chamada literatura (2014), irá retomar
uma vez mais essa nebulosa instituição na qual tantos procuram o encaminhamento
de seus questionamentos. De modo confuso, diz ele, a literatura é essa instituição em
que se permite dizer tudo, ou onde tudo está por dizer.
A literatura, por ser mais potência do que essência, se estebelece a partir de
intencionalidades e experiências, e, segundo Derrida, de semelhante maneira, a lei que
produz é nela mesma contestada. Sendo assim, o traço paradoxal da literatura
suspende a ingenuidade da leitura transcendente, promovendo antes o acesso à sua
fenomenologia. Para Derrida (2014, p.116), “cada obra é única e uma nova
instituição”, cujo leitor é por ela inventado. Na literatura, desse modo, haveria sempre
uma performance inaugural, nas palavras do filósofo.
Aprecio muito o termo utilizado por Derrida, o de performance inaugural, mas
gostaria antes de ressaltar que há de haver um tempo em que não existam obras, que
tampouco se deixe a obra para ir ao texto, mas que, na teoria literária, se analisem
nadas e tudos, sem-nomes, não-lugares, performances – sem necessariamente
retomar o texto (o livro) como ponto de encontro intransponível da análise literária.
Sendo eu leitora formadora de outras competências de leitura, todos nós podemos ser
se quisermos, me torno contrassignatária (termo de Derrida), ou seja, se eu estiver
disposta a contra-assinar, a reinventar os paradigmas dessa instituição fictícia e
instituída, que é a literatura, invento outros modos de ler o mundo e lhe proponho
ações (performances) que podem ser entendidas como literatura.
Diante disso, não consigo mais ver a literatura presa ao objeto-livro, quero
antes o livro-objeto; não consigo mais me deparar com análises estruturais da
literatura, prefiro antes compreender o corpo que corre como uma escrita sem rastros
no espaço urbano, que também tem suas histórias; não sei se consigo mais ensinar
sobre literatura sem apontar para o além da literatura strito sensu. Aliás, não há
expressão a meu ver mais antiquada que stritu sensu, almejo antes o non-sense. E,

8
Intervenção do grupo intitulada Ilha dos Amores - Um Diálogo Sensual com a Cidade, parte do 20º
Porto Alegre Em Cena, 2013. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=FAqCXNXG-JM >
Acesso em 12 de novembro de 2015.

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alguns podem dizer, como já me disseram, e onde foi parar a disponibilidade em se


fazer entender, isto é, compartilhar da mesma dicção para não soar estranha no coro?
Respondo que o entendimento mútuo e compartilhado não seria um entrave se a
educação à e pela sensibilidade fosse a principal competência a ser continuamente
desenvolvida em quaisquer campos de atuação humana.
A performance, então, depara-se com a literatura com três principais objetivos
em minha pesquisa: (1) reunir perspectivas de performance para a proposição de uma
rota à renovação do aporte teórico da teoria literária, (2) agenciar um campo de
pesquisa da literatura que não tema a pluralidade de seu objeto e (3) valorizar relações
que promovam a literatura, a partir de outras práticas – práticas que não temam a
liberdade. Identificando a performance como uma noção que não só amplifica, mas
também atualiza compreensões da escrita literária, sobretudo na contemporaneidade,
encontro um objeto de análise amorfo. Por mais que a literatura possa ainda ser
entendida como um estranho que a habita, as teorias da literatura devem também se
debruçar efetivamente aos interstícios de outras linguagens, já que à literatura tudo
interessa, sem produzir necessariamente um retorno tautológico – comum em nossas
práticas.

Referências

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CARLSON, Marvin. Performance: uma introdução crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2009.
COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2011.
DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura. Minas Gerais: UFMG,
2014.
GLUSBERG, Jorge. A arte da performance. São Paulo: Perspectiva, 2003.
GOLDBERG, Roselee. A arte da performance – Do Futurismo ao Presente. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.
KLINGER, Diana. A escrita de si como performance. In: Revista Brasileira de Literatura
Comparada, v. 12, p. 11-30, 2008.
MELIM, Regina. Performance nas Artes Visuais [Ebook Kobo Edition]. Rio de Janeiro:
Zahar Editor, 2008.
SCHECHNER, Richard. Performance Studies: an introduction. 3. ed. New York & London:
Routledge, 2013.
ZUMTHOR, Paul. Recepção, performance, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

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HISTÓRIA, TRAUMA E LITERATURA:


A POSIÇÃO DO NARRADOR EM OS ANÉIS DE SATURNO, DE W. G. SEBALD

Carla Lavorati1

O narrador de Anéis de Saturno é um andarilho. Viajante solitário que, a passos


lentos, observa, pesquisa, conversa, faz anotações para construir sua narrativa
conforme se movimenta pelas paisagens naturais e espaços urbanos da costa leste da
Inglaterra. Em sua caminhada encontra ruínas e fragmentos do passado, que podem
estar associados a objetos, à arquitetura, a histórias pessoais (reais ou fictícias), que de
alguma forma se relacionam com a experiência de destruição proporcionada pela
segunda guerra mundial e pelo holocausto.
A narrativa inicia com o narrador internado em um quarto de hospital, abatido
pela imobilidade que acomete seu corpo após o encontro com o excesso de traços de
destruição pelo caminho. Essa paralisia diante do olhar consciente dos traços de
destruição deixados pelo passado no presente se relaciona à postura melancólica do
narrador e à própria problemática da incomunicabilidade da experiência vivida nos
encontros recorrentes com a destruição. Assim, a imobilidade está relacionada às
marcas de destruição encontradas a cada passo, o que reforça a desilusão e o
comportamento melancólico do narrador, que tem consciência que “Basta uma fração
de segundo [...] e toda uma era passa.” (SEBALD, 2010, p. 41). É possível associar a
postura melancólica à angústia do passar do tempo, à sensação de que não estamos
caminhando no rumo certo, à consciência de que somos e seremos sempre
incompletos, e que, inevitavelmente, o obscuro, o intangível faz parte de nossa
complexa e efêmera existência. “E como a pedra mais pesada da melancolia é a
angústia do fim inelutável de nossa natureza, Browne procura entre aquilo que
escapou à aniquilação os vestígios da misteriosa capacidade de transmigração que
observou tantas vezes em lagartas e mariposas” (SEBALD, 2010, p. 35).
O narrador de Os Anéis de Saturno se coloca em movimento, anda e relaciona
sua memória pessoal, a memória histórica e coletiva, constituindo-se como agente de

1
Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Bolsista
Capes/CNPq: início em março de 2014. E integrante do grupo de pesquisa Literatura e Autoritarismo,
coordenado pela professora Dra. Rosani Ketzer Umbach.
E-mail: ca_lavorati@yahoo.com.br

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ação e do discurso2. Certo que está que esquecer representa um risco. Assim, assume
a tarefa de comunicar o que a tempestade do progresso apaga, e que impele os
indivíduos para o futuro, mesmo com toda crescente ruína do passado. O narrador de
Os Anéis de Saturno vence a força que o impele para futuro, e no olhar melancólico
que dirige ao passado, consegue, escapar do “vento” progresso, para voltar,
lentamente juntando os cacos da história da Europa pós-guerra. Nesse movimento,
revela o lado obscuro do “projeto” racionalismo humanista, que não conseguiu evitar a
banalização do mal. E nesse sentido, é possível nos referirmos a todos os personagens
que compõem as obras de W. G. Sebald de experiências incomunicáveis, advindas das
relações que mantém com os processos de destruição de massa. Na maioria, são
personagens que representam gerações posteriores a experiências diretas de trauma
(não são testemunhas oculares), mas estão ligados a experiências de
incomunicabilidade. O narrador de Sebald conta essa história sem ser testemunha
ocular dos fatos, mas sim no entrecuzamento de histórias que, de alguma forma,
sentiram as consequências, materiais e psicológicas, dos horrores das guerras.
No texto Posição do narrador no romance contemporâneo, Adorno (2003)
refere-se ao romance como um gênero que exige narração, num mundo onde a
capacidade de narrar está em decadência, tanto pelo declínio da experiência, que fica
prejudicado pelas relações traumáticas de esvaziamento de sentido - na incapacidade
da linguagem comunicar o incomunicável dos horrores da destruição em massa - como
também pelo próprio declínio da memória histórico-coletiva, em um mundo
capitalista, envolvido nas engrenagens do consumo intermitente, e, portanto,
sufocado pelo cotidiano alienante, pois “Contar algo significa ter algo especial a dizer,
e justamente isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandardização e pela
mesmice” (ADORNO, 2003, p 56).
2
Hanna Arendt, na obra A condição humana (2005), fala sobre a relação entre discurso e ação, onde
observar-se a revelação do agente da ação. A ação, para existir, precisa estar inserida na sociedade dos
homens, pois depende da existência dos outros. Apenas nós, seres humanos, relacionados por aspectos
de igualdade e diferença podemos comunicar nossa subjetividade, nossa própria pluralidade e distinção.
Nesse sentido, na prática do discurso, o sujeito se mostra, pois é no discurso que ficam registradas as
marcas da ação. Portanto, o fundamental para existir narrativa é a presença de um agente que
impulsione a ação. Nesse sentido, o romance é uma categoria do gênero de ação, mais especificamente
da ação do homem em sociedade. A representação do indivíduo moderno, isolado, angustiado e de um
mundo sem deuses que muito bem se adequou a forma do romance. A literatura pode ser considerada,
desse modo, como uma expressão privilegiada do homem em sua relação com o mundo, com a
alteridade e consigo mesmo. No romance Os Anéis de Saturno, o narrador empreende a ação de juntar
os cacos do passado e contar a história a contrapelo. Portanto, além de uma postura de ação é também
uma postura ética, um trabalho em prol da recuperação da memória e da história dos vencidos. O que,
por sua vez, liga-se à própria consciência crítica do autor. Essa perspectiva relacional entre narrador e
autor será trabalhada, de modo mais específico, no desenvolvimento do artigo.

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Nesse sentido, o romance para Adorno (2003) se transforma pela própria


relação que sua forma estética mantém em com a sociedade. Sociedade que caminha,
cada vez mais, para o isolamento, alienação e petrificação das relações humanas. Para
estabelecer paralelos, o autor recupera aspectos no narrador nos romances do século
XIX e relaciona-os às mudanças de perspectiva do narrador contemporâneo. Já no
século XX, como observa Adorno (2003), o narrador irá apresentar aspectos diferentes
sobre a narrativa. Não sendo mais “possível” – principalmente após os eventos
traumáticos de destruição em massa – construir, sem soar anacrônico, um narrador
que se posicione como um observador onisciente e que organize a narrativa de modo
pretensamente objetivo, pretendendo uma representação que mantenha a ilusão da
verdade.
Portanto, é interessante observar que a própria sociedade burguesa que
ofereceu as condições para a consolidação do romance, o que vai levá-lo – num
contexto onde o capital e o consumo atingem situações “extremas” de alienação – a
novas configurações, que o tornarão mais subjetivo e fragmentado, pois o indivíduo –
inserido num contexto de insegurança e de desconfianças em relação às narrativas
totalizantes – não consegue empreender um sentido seguro para a realidade
circundante, o que impulsiona o mal-estar e mesmo a crise existencial que segue
períodos traumáticos. Isso seria, portanto, um paradoxo enfrentado pelo narrador do
romance contemporâneo. Dessa forma, torna-se comum a construção de narradores,
que afetados pela desconfiança da linguagem e do próprio limite de conhecimento de
si mesmo e das coisas, reforçam aspectos de subjetividade e consciência dos limites da
representação, o que coloca este tipo de narrador numa posição ideológica
contraposta a do narrador onisciente, comum ao romance realista do século XIX, que
se limita a descrever e não comentar, evitando a subjetividade na composição do
romance.
A tendência de subjetivação do narrador pode ser observada, de modo mais
expressivo, na técnica do fluxo de consciência que muitos romances passam a utilizar,
acrescentando características psicológicas à narração, a exemplo de Virginia Wolf,
Marcel Proust, James Joyce. Segundo Adorno (2003), isso tem relação com o contexto
social do século XX, pois “o que se desintegrou foi a identidade da experiência, a vida
articulada e em si mesma contínua, que só a postura do narrador permite” (ADORNO,
2003, p. 56), por isso, a narração que se apresentasse como uma forma segura e
verdadeira de representação da realidade soaria como anacrônica, e nas palavras de
Adorno, são recebidas “[...] com impaciência e ceticismo” (p. 56). O autor chama
atenção, ainda, para a relação entre as novas formas do romance e a sociedade da

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informação, da indústria cultural, em que o grande desafio é superar a linguagem


objetiva e explicativa do relato, que domina os textos midiáticos, e reduz as
possibilidades de interpretações do leitor. Nessas narrativas, assim que a informação é
consumida, é também descartada; fica logo envelhecida, pois nela não encontramos o
trabalho estético de potencialização dos sentidos da linguagem, como faz a ficção de
qualidade.
E nesse sentido, Adorno (2003) julga o romance, como poucas outras formas de
arte, como um dos modos de expressão mais qualificados, para representar a própria
coisificação das relações humanas, num questionamento da relação alienante que o
indivíduo mantém, mesmo que muitas vezes de modo inconsciente, com a própria
“maquinaria” do sistema capitalista. Nesse caso, a própria alienação torna-se uma
possibilidade estética para o romance, “Pois quanto mais se alienam uns dos outros os
homens, os indivíduos e as coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns
para os outros” (ADORNO, 2003, p. 59). Portanto, o romance caminha rumo à tentativa
de decifrar o enigma da vida exterior, a busca por uma certa essência, que fica
obscurecida pelo próprio contexto de “estranhamento” das convenções sociais, pois “o
momento anti-realista do romance moderno, sua dimensão metafísica, amadurece em
si mesmo pelo seu objeto real, uma sociedade em que os homens estão apartados uns
dos outros e de si mesmos” (ADORNO, 2003, p. 58). E, por isso, torna-se comum nos
romances do século XX, a recorrência de expressões subjetivas do narrador, que coloca
a própria narração nos limites da esfera psicológica, negando qualquer forma de
verdade essencial, num questionamento dos próprios limites do conhecimento.
Desse modo, o narrador de Os Anéis de Saturno é um peregrino
contemporâneo, um desenraizado, que em suas andanças dirige o olhar para os
destroços que ficaram pelo caminho como resto do projeto civilizatório e como marcas
das lutas de poder. É, pois, um narrador em primeira pessoa, que narra inserindo os
limites de sua subjetividade. E, justamente, pela consciência das dificuldades de
trabalhar de modo ético com assuntos relacionados a esse tema, mantém a
preocupação de não subscrever os relatos da guerra. O narrador deixa evidente em
determinadas passagens do romance os próprios limites e (im)possibilidade do
narrador e da própria narrativa. Por isso, os narradores dos romances de W. G. Sebald
são todos conscientes das próprias limitações da linguagem para descrever a
realidade, mas, mesmo assim, não se eximem da tarefa necessária de lembrar e refletir
sobre as consequências e rumos da história da humanidade, dos horrores que a
compõem, das destruições das guerras, dos absurdos do holocausto, e, mesmo de

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modo mais geral, do nosso racionalismo e burocracia aplicados ao extremo, num


projeto de progresso, que na visão do narrador mostra provas de seus fracassos.
Portanto, o romance seria um gênero que representa a profunda perplexidade
de quem vive. Nesse sentido, consideramos Os Anéis de Saturno nas fronteiras do
romance3, pelo próprio caráter de busca de sentido, de um homem solitário e
desenraizado, em relação à história mundial e à própria vida. No caminho oposto aos
gêneros trágicos, onde é comum a existência de uma tensão trágica para a posterior
recuperação do ponto de equilíbrio, no romance, a própria vida é trágica, não se tem
um ponto de equilíbrio. E, em Os Anéis de Saturno, essa vida é mais trágica ainda
porque está submersa num período pós-catástrofes.
Apesar de Adorno (2003) referir-se à relação dos traumas e das catástrofes com
a impossibilidade de narração, observa-se em romances como de W. G. Sebald uma
amostra que refuta essa constatação, pois o que o narrador empreende é justamente
a narração do inenarrável. No trecho abaixo, podemos notar um pouco da
perplexidade do narrador em relação aos silêncios que encobrem os eventos
relacionados às catástrofes.

Seja como for, desde então tentei descobrir tudo que estivesse ligado
à guerra aérea. No inicio dos anos 50, quando estive em Lüneburg
com o exercito de ocupação, cheguei até aprender um pouco de
alemão, a fim de poder ler o que os próprios alemães, imaginei,
haviam escrito sobre a guerra [...] para minha surpresa, porém, logo
verifiquei que a busca por tais relatos nunca dava em nada. Ninguém
parece ter escrito a respeito na época nem se lembrar do fato mais
tarde. E mesmo se eu perguntasse diretamente às pessoas, era como
se tudo estivesse sido apagado de suas cabeças (SEBALD, 2010, p.
49).

Para Benjamin, as formas épicas da antiguidade já continham dentro de si


formas do romance4, mas foi com o fortalecimento da burguesia que alcançou a

3
O autor W. G. Sebald não denominava seus livros de romances, mas sim de prosa ficcional. No entanto,
justamente pelo romance ser um gênero que vem sofrendo constantes modificações, acreditamos ser
pertinente a referência ao gênero romance, não no sentido de estancar a obra dentro de uma categoria
(até porque nos parece que isso é o menos importante), mas para tornar possíveis as aproximações
observadas na composição de Anéis de Saturno em relação à forma de expressão individual e à função
catártica que o romance apresenta como “prosa do mundo”.
4
É interessante observar que os teóricos divergem quanto à gênese do romance. Bakhthin diz que tem
romance desde a antiguidade, Lukács diz que surge com a burguesia, Aurebach como subgêneros da
novela. Adorno (2003) e Benjamin (1983) relacionam o aparecimento do romance e a “decadência” dos
outros gêneros com o início da era burguesa.

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condição necessária para seu florescimento. Portanto, quando o romance torna-se


independente da epopeia, ocorrem consequentemente mudanças na sua estrutura, na
concepção de herói e nas relações entre memória, eternidade e tempo mítico. O
romance transforma tempo em forma, não narrando mais os fatos num tempo
imemorial. Já as formas arcaicas de narrativa, tais como as lendas, as fábulas, os mitos,
tinham um papel regulador e conservador da sociedade. O narrador, nesses textos,
estaria na categoria dos sábios, dos professores, daquele que dá conselhos. Portanto,
o leitor clássico encontrava nas narrativas da antiguidade a moral exemplar, enquanto
os leitores do romance buscam sentido para a vida, pois o sentido geral da narrativa se
desfez.
Nesse caso, o narrador, de certo modo, lembra o narrador arcaico pautado na
tradição oral e na vivência de experiências referido por Benjamin (1983), posto que
empreende, numa narrativa lenta e digressiva, a representação ficcional do que vê e
do que ouve, das histórias pessoais (reais e fictícias), dos objetos, no decorrer de sua
longa caminhada, adquirindo uma espécie de autoridade para narrá-las, posto que as
vive enquanto experiência concreta e/ou imaginária. Os Anéis de Saturno, de certa
forma, escreve - tal qual sugerido em textos de Benjamin5 - uma história a contrapelo,
que dê conta de “retirar” do silêncio os mortos e esquecidos. No entanto, ao contrário
do narrador onisciente, o narrador do romance analisado compõe sua trama nos
limites do conhecimento e da perspectiva sempre limitada da percepção individual. É,
portanto, um narrador oposto à onisciência do romance moderno do século XIX e mais
próximo ao narrador subjetivo dos romances contemporâneos, pois traz para o texto
marcas da consciência, da subjetividade e, mesmo, marcas de dúvidas e incertezas
quanto as suas próprias impressões e sentimentos.
A estrutura de Os Anéis de Saturno6 difere dos romances tradicionais, não
apresentando nem enredo, nem narrador ao estilo estritamente tradicional, o que, por
sua vez, faz-nos pensar que a própria forma da narrativa mantém relações com o
contexto histórico do século XXI, época que sofre o perigo de cair numa amnésia
profunda, que corre o risco - na sufocante alienação do modo capitalista e da mesmice
cotidiana - de “estagnar” o pensamento, impossibilitar a reflexão e repetir os mesmos
erros do passado. E, nesse sentido, o narrador alicerça sua narrativa nos processos de
rememoração, num movimento contrário ao desmemorialismo e alienação comum ao
contexto social da era da velocidade, da tecnologia e das informações compactadas
5
Ver: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política - ensaios sobre literatura e história da cultura.
Obras escolhidas, volume I, 2ª edição, São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

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que encolheram as frases e o próprio potencial do pensamento. O narrador criado por


Sebald é avesso à velocidade e ao progresso. Suas caminhadas são reflexivas e sua
narrativa é composta por frases longas, muitas descrições, associações e digressões
apoiadas no conhecimento, na memória e na imaginação criadora do narrador. Na
passagem abaixo, observamos a crítica do narrador à superficialidade dos relatos
jornalísticos, o que possibilita o paralelo com os próprios desdobramentos da indústria
cultural na atualidade.

Embora eu soubesse de tudo isso, não estava preparado para o


desconsolo que logo se apoderou de mim em Lowestoft, pois uma
coisa é ler nos jornais reportagens sobre unemploymentblackspots, e
outra é caminhar numa tarde sombria pelas fileiras de casas com
suas fachadas deterioradas e seus grotescos jardinzinhos de frente, e,
tendo finalmente chegado ao centro, não encontrar outra coisa além
de salões de jogo, casas de bingo, betting shops, lojas de vídeos,
bares que exalam um cheiro de cerveja azeda de suas escuras portas
entreabertas, mercados de segunda e duvidosos estabelecimentos de
bed e breakfast com nomes como OceanDawn, Beachcomber,
Balmoral, Albion e LaylaLorraine (SEBALD, 2010, p. 51).

É um romance que se alicerçava no esforço de juntar os pedaços do passado,


numa luta contra o esquecimento, escrevendo a sombra do trauma do coletivo
holocausto. Mas o narrador não nega que talvez seja uma luta vã, mas necessária, em
busca de um possível compreensão do incompreensível.
E nesse sentido, talvez, a narrativa de Os Anéis de Saturno ofereça respostas às
(im)possibilidades narrativas após auschwitz, pois se posiciona de modo ético diante
da memória histórica dos fatos, sem, no entanto, subscrever os discursos do
holocausto. Ao mesmo tempo que sua estrutura formal se constrói no movimento
contrário ao indivíduo desmemoriado, imediatista e eufórico do XXI. Mesmo com essa
postura crítica e esse tom consciente, e talvez justamente por isso, o narrador reflete
também sobre os limites do conhecimento, sobre o inapreensível, que mesmo com
todo o avanço da ciência e da técnica não deixou de “assombrar-nos”, posto que
desvela nossa própria incompletude e fragilidade enquanto ser.

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Referências

ADORNO, Theodor. Posição do narrador no romance contemporâneo. Trad. Jorge de


Almeida. In: _____. Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades, 2003.
ARENDT, Hannah. Ação. Trad. Roberto Raposo. In: _____. A condição humana. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2005.
BENJAMIN, Walter. O narrador. Observações acerca da obra de Nicolau Leskow. In:
_____. BENJAMIN et al. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
SEBALD, W. G. Os anéis de saturno: uma peregrinação inglesa. Trad. José Marcos
Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

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FENOMENOLOGIA DO IMAGINÁRIO E LITERATURA:


UMA LEITURA DE A DESUMANIZAÇÃO, DE VALTER HUGO MÃE

Cássia Gianni de Lima1


Regina Kohlrausch2

Diz-me qual é o teu infinito e saberei o sentido do teu universo:


é o infinito do mar ou do céu,
o infinito da terra profunda ou o da fogueira?
Gaston Bachelard

O contato com a realidade pode suscitar muito mais do que uma experiência
imediata e passageira, muito mais do que uma busca, própria do ser humano, de
explicar objetivamente o visível. Há, em muitos casos, a necessidade de ultrapassar as
visões provocadas pelas primeiras impressões na relação com a matéria. A realidade é,
para o sonhador, uma porta de entrada para um universo complexo, subjetivo,
imaginado, sentido; provoca uma ação circunscrita para além da superfície, transcende
o visível. O homem que imagina é, usando as palavras de Bachelard (1994), antes um
pensativo que um pensador, embora os limites da distinção sejam difíceis de traçar.
A fenomenologia do imaginário desenvolveu-se como o campo de estudo que
pretende dar conta dessa imaginação, individual ou coletiva, nas diferentes maneiras
em que se manifesta. A literatura apresenta-se, nesse sentido, um campo fértil para a
interpretação das relações profundas entre o homem e o universo que o circunda.
Certos textos literários dão vida ao imaginário, contêm o que está para além das
imagens simbólicas da linguagem, para além do espaço, para além da estabilidade das
certezas.
É o que parece acontecer em A desumanização, último romance publicado pelo
escritor português Valter Hugo Mãe, que apresenta como narrador a personagem
Halldora, uma criança de onze anos que, após perder a irmã gêmea, conta sua árdua

1
Mestranda em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
com bolsa de incentivo CNPq.
E-mail: cassia.gianni@acad.pucrs.br
2
Professora titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
E-mail: regina.kohlrausch@pucrs.br

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tarefa de buscar sentido à existência, refletindo sobre o amor, o ódio, a esperança, seu
crescimento, deus e, principalmente, sobre a morte e a solidão. Como todos os
enredos propostos por Valter Hugo, A desumanização, por tratar sobretudo do
humano, parece poder pertencer a qualquer lugar. Entretanto, não é por acaso que
tem como pano de fundo os fiordes islandeses. A protagonista vive em uma ilha
composta de vulcões, montanhas, rochas, mar e muita neve, onde é muito difícil
chegar e ainda mais improvável permanecer. É através das imagens da Islândia que as
personagens pensam sua condição e seus sentimentos. O espaço é o responsável por
dar vida à sua imaginação e aos seus sonhos.
Gaston Bachelard, que elabora sua fenomenologia do imaginário a partir da
compreensão dos devaneios materiais surgidos pelo contato com elementos da
natureza – fogo, água, ar e terra –, oferece interpretações que parecem permitir a
compreensão, também, dos devaneios de Halldora, suscitados por sua relação com o
ambiente terrível que a rodeia e pela necessidade de responder às questões de seu eu.
Procura-se fazer, neste trabalho, portanto, um diálogo entre a fenomenologia
proposta pelo teórico e a obra de Valter Hugo Mãe, interseccionando perspectivas e
possibilitando novo olhar sobre o texto.
A Islândia pensa. Em A desumanização, os fiordes islandeses funcionam como
um personagem que age constantemente, com gestos majoritariamente opressivos e
destruidores. O mar, os vulcões, as nuvens, as montanhas, o vento e as rochas,
agressivos e exuberantes, definem a vida das pessoas que circundam. Halldora ou
Halla, como é chamada a protagonista, tem uma relação profunda com o pai, que é
quem lhe ensina o seu lugar na imensidão confinadora dos fiordes. Sendo poeta,
parece ser capaz de compreender bem as armadilhas conjeturadas pela terra onde
vivem e, orientando as crianças sobre os perigos da Islândia, é o primeiro a fazer do
espaço alguém:

Não te aproximes demasiado das águas, podem ter braços que te


puxem para que morras afogada. Não subas demasiado alto, podem
vir pés no vento que te queiram fazer cair. Não cobices demasiado o
sol de verão, pode haver fogo na luz que te queime os olhos. Não te
enganes com toda a neve, podem ser ursos deitados à espera de
comer. Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento
aqui. Milagres e mais milagres, falava assim. E tudo pensa o pior.
(MÃE, 2014, p.30)

A solidão, que configura quase uma tese em A desumanização, é o que permite


que as personagens imaginem. O sonho vem porque as pessoas sentem-se sós em um

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lugar onde é impossível estar sozinho. A solidão faz com que os homens percebam que
existe alguém em tudo que os rodeia. Halldora, a partir do momento em que perde a
irmã, ainda criança, passa a ter um contato profundo com o abandono e o isolamento,
não é capaz de encontrar-se nem consigo mesma, porque tem uma parte na morte,
pertence àquele óbito inteiramente, é a “menos morta” das duas meninas.
Sigridur, enterrada no alto de uma montanha, passa a ser visitada
constantemente pela irmã gêmea, que espera que, do túmulo, brote nova vida, nasça
uma árvore de folhas e unhas, que germine “a criança plantada”. Halla quer reviver e,
por isso, passa a ter uma relação de dependência com a terra. Na terra, está sua outra
metade, sufocada, com frio e sozinha. Nos momentos de pânico, cobre-se de terra e
de folhas até que se sinta capaz de resistir mais uma vez. A terra passa a ser o
elemento que a reconecta à irmã, fazendo com que se sinta completa novamente.
Gaston Bachelard afirma que, para o imaginário, enterrar os mortos é como
impedi-los de morrer completamente. Os enterrados ainda estão presentes, podem
ser visitados, permanecem perto. Sigridur é, para a irmã, ainda uma esperança, como
uma semente que é soterrada para tornar-se vida nova.

Poderia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto
abandonado dos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto.
[...] Achei que minha irmã podia brotar numa árvore de músculos,
com ramos de ossos a deitar flores de unhas. (MÃE, 2014, p.9)

A árvore, segundo Bachelard (2001, p.207), é importante, principalmente, por


ser uma imagem verticalizante. Segundo ele, é uma força evidente que leva uma vida
terrestre em direção ao céu: “seja como eu, diz a árvore ao sonhador caído, levanta-
te”. Há, na árvore, um movimento de ascensão, como há também no imaginário da
morte. Além disso, de acordo com Bachelard, a árvore configura, na natureza, o único
elemento vertical como o homem. Para Halldora, nascer árvore é uma possibilidade
confortante como destino para a irmã (que indiretamente também é o seu), que
poderia, assim, colocar-se novamente próxima à condição humana e caminhar em
direção ao paraíso.
Criança de duas almas, Halldora sente-se leve, como se fosse feita de ar e tem
sonhos de voo, que lhe permitiriam “enxergar os fiordes inteiros e sua intermitência”.
Há, na protagonista, o que Bachelard (2001, p.29) chama de leveza substancial, que
assombra o sonhador, mas permite o voo como uma libertação. Sonhar que está
voando torna possível que Halla migre em direção a um lugar melhor para fazer sua
vida, que fuja da vida triste dos fiordes.

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Mas a felicidade dura pouco nos sonhos dos habitantes da Islândia. Em muitos
momentos, é a queda a principal intérprete da imaginação. Cair parece condizer mais,
como porvir, para os que ali vivem. Nesse sentido, durante toda a narrativa, há
associação da morte, vivida ou imaginada, com a queda. Os fiordes islandeses são uma
terra repleta de montanhas rochosas que, entre si, produzem espaços enormes,
escuros e vazios. A boca de deus, como são chamados os precipícios, representam o
desconhecido, a queda infinita, a morte constante. Einar, personagem com quem
Halldora vive sua sexualidade, tem o pai assassinado com um empurrão de cima de
uma montanha e o filho depositado na mesma imensidão, depois de nascer morto.
Além disso, a protagonista imagina-se, muitas vezes, como sendo uma queda
constante, uma lágrima que cai incapaz de secar, “chorava por si só. Significava a
tristeza com seu corpo inteiro” (MÃE, 2014, p.85) e vê, no suicídio, que fica como
ambiguidade ao final da narrativa, um desejo, como aqueles que são feitos às estrelas
cadentes.
A imaginação material do ar, para Bachelard, tem essa dualidade de leveza
(voo) e peso (queda). Segundo ele, “a queda e o escuro preparam dramas fáceis para a
imaginação inconsciente” (BACHELARD, 2001, p.91). O que é mais interessante é que,
para ele, deve-se estudar a queda como sendo uma “espécie de doença da imaginação
da subida, como a nostalgia inexplicável da altura” (BACHELARD, 2001, p.95). As
muitas quedas no romance de Valter Hugo Mãe são mesmo uma impossibilidade, o
lado negro e infeliz da morte, a negação da subida.
As nuvens também são uma imagem aérea recorrente em A desumanização e,
para as personagens representam ora a leveza, ora o peso da morte. Para Halldora, as
nuvens são almas que cruzam o ar e são capazes de refletir a vida:

Contei as nuvens. As que pareciam raposas, cães ou gatos. As que


pareciam rostos zangados. As que pareciam coisas de vestir. As que
pareciam, simplesmente, montanhas. As almas das montanhas
mortas que, por serem grandes, vagavam ainda pelo céu. [...] Pensei
que, se a minha alma passasse no ar, não seria vista de tão pequena
e, se fosse de ver, teria a forma de duas meninas a dormir [...]. (MÃE,
2014, p.53)

Einar, que passa a viver com Halldora após a gravidez e a perda do filho, torna-
se a personagem com quem a protagonista compartilha seus sonhos. Diferentemente
de Halla, ele sente ímpetos de destruir as nuvens, porque tem rostos e falam. Para
Einar, as nuvens são seus medos que “ficam a cobrir o céu e a fazer invernos e
tempestades” (MÃE, 2012, p.53).

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Segundo Gaston Bachelard, a nuvem é a imagem que ajuda a sonhar a


transformação. As nuvens podem assumir o que o sonhador deseja que assumam. As
nuvens são como um devir, à espera de quem as caracterize, dê-lhes a forma da
imaginação. Por isso talvez tenham designações tão particulares. Bachelard afirma que

Nesse amontoado globuloso, tudo rola ao nosso gosto, montanhas


deslizam, avalanches desmoronam e depois se acomodam, os
monstros inflam e depois se devoram um ao outro, todo o universo
se regula segundo a vontade e a imaginação do sonhador.
(BACHELARD, 2001, p.190)

As nuvens são, portanto, um sonho em aberto, um elemento que espera uma


forma, que não é senão aquilo que o sentimento implica.
A relação de Halldora com a morte perpassa todo o romance. A protagonista
sente-se sozinha, mas é acompanhada durante todo o tempo pela sombra do fim. Vai
perdendo, pouco a pouco, seus afetos, mas morre principalmente por dentro. Halla é
uma morte constante, dolorosa e violenta. É na fúria do desgosto que, em A
desumanização, relacionam-se as imagens do fogo. A associação da morte com o fogo
parece ser coletiva na Islândia, faz parte da imaginação de todos.

Contava-se que deus se sentara pelos fiordes e, de rabo tão pesado, a


rocha cedera, como se fosse um monte de areia. Outras pessoas
achavam que aquilo era o diabo, descansando de andar a acender
caldeiras, regurgitando a as almas dos infelizes para dentro das
crateras fundas dos vulcões, enchendo os vulcões do estranho ódio
que o fogo continha. Jurava o meu pai: é um estranho ódio que o
fogo contém. Deve vir do mal dos mortos. Os zangados. (MÃE, 2014,
p.31)

O fogo é, portanto, a manifestação de morte das almas iradas. Diferentemente


da leveza da nuvem ou do peso da queda, o fogo mostra-se, no romance, vinculado à
fúria, à agressividade. São os zangados que ardem nos vulcões. O fogo é o símbolo do
ódio e da culpa, da inconformidade e da violência.
Quando Halla engravida de Einar, ainda criança, e passa a sofrer por esperar um
filho, compara o feto a um peixe dourado que vive no aquário de Steindór, uma
espécie de prior que orienta espiritualmente os habitantes dos fiordes. Halla tem a
sensação de que seu filho queima o seu corpo, é como um peixe em fogo resistindo à
vida trágica que espera por ele.

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Eu era um círculo fechado de água, habitada por uma labareda.


Insistia: sinto que arde. [...] Talvez o meu filho mordesse na pequena
poça de água da barriga. Teria vidências do futuro. Escutaria a
tristeza dos nossos dias. Recusava-se a nascer para aquilo. Para ser o
que éramos nós. (MÃE, 2014, p.75)

Bachelard (1994, p. 55) reconhece o caráter violento do fogo. Considera que “o


fogo é o fenômeno objetivo de uma raiva íntima, de uma mão que se enerva”. Para
ele, tudo que recebe o fogo, arde e, portanto, corrói. O fogo é o elemento da
destruição, da revolta, do mal que nasce no homem.
Há momentos, na narrativa, em que o fogo é também comparado à falta, à
transgressão. Os vulcões da Islândia são vistos como dragões cumprindo uma pena
pela gula de devorar o mundo todo. É esse ímpeto, a vontade incontrolável de alguma
coisa que aparece ligada à imaginação do fogo.
Outro ponto interessante de se observar é o fato de que o romance termina
com um incêndio. Halla decide finalmente fugir dos fiordes, não se sabe de que jeito, e
deixa para trás tudo que lhe causou tristeza até então. Responsável pelo cuidado das
chaves da igreja onde morava de favor com Einar, tranca todas as portas, despeja óleo
pelo chão e vai embora assistindo à destruição dos que ficaram para trás – dentre eles
os adultos que tomavam conta dela. O fim da narrativa é a libertação necessária
buscada pela protagonista desde sempre. Halldora queima, aniquila a vida que levou
até então.

Eis o espetáculo de um imenso incêndio. [...] O amor, a morte e o


fogo são unidos num mesmo instante. Por seu sacrifício no coração
das chamas, a falena nos dá uma ligação de eternidade. A morte total
e sem vestígios é a garantia de que partimos plenamente para o
além. Tudo perder para tudo ganhar. (BACHELARD, 1994, p.27)

Halldora perde e ganha tudo em um mesmo instante, ao incendiar a igreja. É a


destruição violenta e necessária da realidade. E ela sabe que será perdoada. “Quem
não sabe perdoar, só sabe coisas pequenas” (MÃE, 2014, p.151). É o fogo o
responsável pela morte completa, que não deixa rastros, que permite desvencilhar-se
de ser o que se era. De todos os elementos, talvez o fogo seja o maior transformador.
As chamas representam a morte mais significativa dentre as muitas que acontecem no
romance, que é a morte do passado, da tristeza, da resistência, da prostração, de tudo
pelo qual se sofre durante a obra. “Pelo fogo tudo muda. Quando se quer que tudo
mude, chama-se o fogo” (BACHELARD, 1994, p.86).

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Em oposição clara à imaginação do fogo no romance, mas igualmente


significativos, estão os sonhos da água. Os fiordes são banhados pelo mar e possuem
inúmeros pequenos lagos que se formam nas montanhas. A água é, para a pequena
Halldora, sinônimo de esperança. Mesmo que os adultos a alertem sobre os perigos do
mar, que parece querer afogar todos com suas ondas violentas, seus monstros
aquáticos e suas viagens sem volta, para ela, a água vincula-se sempre à limpeza, ao
conforto e à fé.
Se o diabo está ligado às coisas do fogo, quem permite que as águas não
sequem é deus. Haver água nos fiordes é um sinônimo de que deus existe, mesmo que
esse deus seja desatento ou desconheça os pobres dali. Além disso, para Halldora, a
água contém toda a humanidade que falta ao fogo, a água é a matéria das lágrimas.
Halla identifica-se com os lagos, porque eles são fruto da tristeza, do pranto de alguém
que sofre tanto quanto ela.

As águas todas eram lágrimas. Eu gritava e meu pai pedia que ficasse
calma. Perguntava-lhe: pai, quem chorou o mar. Foram as baleias,
pai. Quem choraria tanta agua. E quem chorou dentro de mim. (MÃE,
2014, p.79-80)

Mais do que compreensão e empatia, a água parece, desde sempre, para a


protagonista, uma chance de ser salva. Quando ainda junto da irmã, depositavam
bilhetes em garrafas para que as ondas levassem aos mais corajosos heróis, que viriam
buscá-las para salvá-las dos fiordes e oferecer-lhes casamento. O homem que vem do
mar, em sua imaginação, é o mais corajoso dos homens, é o único capaz de salvá-la
dos tamanhos perigos da vida nos fiordes. Bachelard afirma que o navegador é sempre
um homem destemido, que vence tudo, inclusive a morte.

Parece que a utilidade de navegar não é bastante clara para


determinar o homem pré-histórico a escavar uma canoa. Nenhuma
utilidade pode legitimar o risco imenso de partir sobre as ondas. Para
enfrentar a navegação, é preciso que haja interesses poderosos. [...]
O primeiro marujo é o primeiro homem vivo que foi tão corajoso
quando um morto. (BACHELARD, 2013, P.76)

O oceano é, portanto, a morada dos heróis, dos salvadores, dos bravos. Para
Halla, eles são uma possibilidade, um caminho em retirada.
O mar representa, também, a generosidade que tanto falta à natureza nos
fiordes. O mar dispersa as coisas pelas águas, leva embora o sofrimento, apaga o
sangue que jorra das ovelhas sacrificadas, do corpo da mãe que se corta, o mar, assim

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como a chuva, limpa o sofrimento. Essa purificação que a água oferece é, segundo
Bachelard (2013, p.148), ao mesmo tempo ativa e substancial e o que garante a
participação do sonhador de uma força fecunda, renovadora. O sonho de limpeza e
purificação surge, também, para Halla, da capacidade que a água tem de
movimentação.

As águas, um dia, acordadas de raiva, haveriam de se levantar,


verticais e furiosas, para fustigar tudo. As quentes e as frias.
Espanando os icebergs, os glaciares inteiros, libertando todas as
coisas como a fazer com que viessem flutuar à procura de um novo
tempo para parar. (MÃE, 2014, p.38)

Há, ainda, no romance, a ideia de água maternal, defendida por Bachelard


(2013, p.136). De acordo com ele, “dos quatro elementos, somente a água pode
embalar. Dos quatro elementos, ela é a única que pode embalar como uma mãe. [...] A
água leva-nos. A água embala-nos. A água adormece-nos. A água devolve-nos à nossa
mãe.”. Mergulhar nos tanques de água quente formados nas montanhas, para
Halldora, como um abraço, uma sensação de agrado e proteção. “Gostava dos
tanques. O modo como ficavam de varanda para o mar. Gostava do conforto materno
das águas quentes” (MÃE, 2014, p.34). A água, para a protagonista, é, dessa forma,
fonte de calmaria e otimismo, de ventos de mudança, de sonhos bons.
Faz-se interessante analisar, como último elemento, os sonhos relacionados
aos rochedos, à atividade das pedras, porque eles são recorrentes durante toda a
narrativa tanto pelas imagens do gelo, da neve, quando pelas imagens das montanhas.
Kjarval, o maior dos pintores islandeses, é citado muitas vezes na narrativa por retratar
pedras que conspiram, que magicam maneiras de viver. Seus quadros são um mistério
fascinante da energia das pedras para as personagens. A igreja, nos fiordes, é
enfeitada pelas suas imagens e parece fazer sempre muito sentido para quem as
observa. “O Kjarval não se ilude com a aparente simplicidade da paisagem e não vê o
vazio. As pedras do Kjarval são como bichos aninhados à espera” (MÃE, 2014, p.44).
O fato é que não é somente o pintor que não se ilude com o ambiente, Halldora
também sabe que as pedras vivem. Para ela, o rochedo gesticula, é responsável por
movimentos e não por inércias. (As pedras) “ferravam-me muito. Podiam bem ter-me
engravidado, vingando-se. Aquela pedra vingou-se de mim, mãe. Ferrou-me só para se
vingar de eu estar a brincar e ela não” (MÃE, 2014, p.61). Parece, ainda, para Halla,
que as pedras têm mais juízo que as pessoas, mais intenções: “Poderia ter nascido
pedra e rolar naquele instante por pensar melhor do que andavam a pensar os
homens” (MÃE, 2014, p.136). A pedra tem a rigidez e o estímulo, ao mesmo tempo, e

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transforma isso em poder de ação, de resistência, de energia e, por isso, inspira os


homens.
É interessante como, para Bachelard, as pedras (o rochedo) também não têm
nada de inatividade, são inteiramente ativos, movimentados. O sonho da pedra é um
sonho de atividade, não de paralisação:

Em vão a razão diz que o rochedo é imóvel. Em vão a percepção


confirma que a pedra está sempre no mesmo lugar. Em vão a
percepção confirma que a pedra está sempre no mesmo lugar. Em
vão a experiência nos ensina que a pedra monstruosa é uma forma
plácida. (BACHELARD, 2001, p. 152)

As pedras representam, para os fiordes, a força e a luta. Assim como na


fenomenologia de Bachelard (2001, p.163), em A desumanização “os rochedos
ensinam a linguagem da dureza”.
Por fim, e em relação ao conjunto do imaginário na obra, percebe-se como
esses sonhos todos são decisivos. É pelo imaginário de Halldora e das “suas pessoas”
que se reflete sobre a condição da existência e sobre muitas questões que se
apresentam cotidianamente a qualquer um, habitante dos fiordes ou de outro lugar do
mundo, porque trata majoritariamente da humanidade. Entretanto, acima da razão, é
pelas imagens da obra que a literatura cumpre seu papel mais nobre, que é o de fazer
sentir.

Até então, e avisada pelo meu pai, esperei sempre os meus


predadores criados pela decisão da Islândia. Os temperamentos da
Islândia. Fossem as águas ou os fogos, fossem os ventos ou a pedra
que se abrisse sob os meus pés. Fossem os bichos de um elemento
ou de outro. Os bichos da Islândia. O monstro que o medo criava, por
um lado, chegava de dentro. Sabia de coração cada gesto e
pensamento meu. Sabia como me devorar. Parecia de uma página de
texto. De um poema. Algo mal distinto entre a realidade e a fantasia,
como todos os dizeres de todas as pessoas, escritos ou não. (MÃE,
2014, p.72)

Analisar A desumanização com o olhar sobre o espaço, enfocando o imaginário,


faz perceber que existem leituras que nunca se encerram. Os exemplos aqui elencados
são apenas alguns dentre os tantos cuidadosamente desenvolvidos na obra e
permitem, indubitavelmente, interpretações outras e igualmente importantes. Este
trabalho apresenta-se como uma possibilidade e está aberto para novas ideias e
discussões, que enriqueçam e valorizem a literatura.

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Referências

BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. São Paulo: M. Fontes, 1994.


______. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: M.
Fontes, 2013.
______. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. 2. ed. São Paulo:
M. Fontes, 2001.
_______. A terra e os devaneios da vontade: ensaio sobre a imaginação das forças. 2.
ed. São Paulo: M. Fontes, 2001.
MÃE, Valter Hugo. A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

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O ESCOPO DA VIOLÊNCIA EM MOÇAMBIQUE COLONIAL RETRATADO EM


XEFINA, DE JUVENAL BUCUANE

Chimica Francisco1

Introdução

O presente artigo pretende trazer um breve estudo sobre a situação de


violência que se verificou no período de dominação colonial portuguesa em
Moçambique, identificando e explicando as suas manifestações. Tomou-se como base
a obra Xefina (1989), de Juvenal Bucuane, que retrata a situação que se viveu nessa
época em que o colonialismo português, na pessoa do homem branco, subjugava o
homem negro através de trabalhos desumanos, violência física, privação de liberdade
entre outros males.2
A partir do conceito de violência, sobretudo, uma violência de âmbito político e
social apresentados fundamentalmente por Arendt (1985) e Ginzburg (2013), é
possível perceber como em Xefina, naquele espaço reclusão, os negros e mulatos
passaram por sevícias e maus tratos nas mãos dos portugueses durante a dominação
colonial. Será adotada uma metodologia analítica e descritiva que se baseará na leitura
e apreciação da obra em estudo, passando antes por uma teorização que servirá como
suporte de evidências de violência constantes da obra.
Como resultados pode-se afirmar que a obra Xefina apresenta marcas
evidentes de violência do regime colonial português contra a integridade física e até
psicológica dos moçambicanos negros e mulatos. A questão da cor da pele foi um
estigma muito doloroso e que levou a comportamentos selvagens no que se refere ao
tratamento entre os homens.

Conceito de violência

O conceito de Violência e as suas variadas nuances vão merecer um tratamento


preferencial neste artigo. Assim, numa perspectiva mais simplista entende-se que
1
Doutorando em Letras (Estudos Literários) na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Bolsista do
PEC-PG CAPES.
E-mail: chimicafrancisco@yahoo.com.br
2
O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Estudantes-Convênio de Pós-Graduação –
PEC-PG, da CAPES/CNPq – Brasil.

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Violência seja toda a forma que resultaria no mal-estar por parte da pessoa que a
sofreria a partir de outra pessoa que a exerceria.
Assim, importa sobremaneira a violência de âmbito político-social e psicológico
que se verifica em Xefina (1989) e que será o foco de interesse deste artigo.
Robbio, Mattencci e Pasquino (2008, p. 1291-1292) têm como conceito de
Violência o seguinte:

Por Violência entende-se a intervenção física de um indivíduo ou


grupo contra outro indivíduo ou grupo (ou também contra si
mesmo). Para que haja Violência é preciso que a intervenção física
seja voluntária (...). Além disso, a intervenção física, na qual a
Violência consiste, tem por finalidade destruir, ofender e coagir. É
Violência a intervenção do torturador que mutila sua vítima; (...).
Exerce Violência quem tortura, fere ou mata; quem, não obstante a
resistência, imobiliza ou manipula o corpo de outro; quem impede
materialmente outro de cumprir determinada ação. Geralmente a
Violência é exercida contra a vontade da vítima.

Os mesmos autores afirmam que a Violência pode ser direta ou indireta. “É


direta quando atinge de maneira imediata o corpo de quem a sofre. É indireta quando
opera através de uma alteração do ambiente físico no qual a vítima se encontra (por
exemplo, o fechamento de todas as saídas de um determinado espaço)” (Idem, 2008,
p. 1292).
A violência que incide na intervenção física ou mais concretamente no “corpo
de quem a sofre” está marcadamente presente na obra Xefina (1989), do
moçambicano Juvenal Bucuane. É, pois, notável nessa obra as desmedidas e violentas
ameaças, as molestações corporais até a privação de liberdade que tanto os soldados
quanto os prisioneiros sofrem, quando o sagaz e autoritário comandante da ilha da
Xefina Grande lhe apetece, demonstrando, desse modo, o seu “poder” sobre todos
seus subordinados. Trata-se de uma violência na ordem de mau uso de poder que é
exercido por uma pessoa investida de uma autoridade colonial como se pode notar:
“... o recurso à Violência é um traço característico do poder político ou do poder do
Governo” (ROBBIO, MATTENCCI e PASQUINO, 2008, p. 1293). Os autores lembram que
violência não é poder como se pode constatar na citação a seguir:

A Violência é a alteração danosa do estado físico de indivíduos ou


grupos. O poder muda a vontade do outro; a Violência, o estado do
corpo ou de suas possibilidades ambientais e instrumentais.
Naturalmente as intervenções físicas podem ser empregadas como
um meio para exercer o poder ou para aumentar o próprio poder no

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futuro. (...). Isto, porém, não muda o fato de que, por si só,
independentemente dos seus efeitos mediatos, a intervenção física é
Violência e não poder (ROBBIO, MATTENCCI e PASQUINO, 2008, p.
1292).

Na obra Da Violência, o poder segundo Voltaire, citado por Arendt (1985, p.


20), “consiste em fazer com que os outros ajam como eu quero”, ora, se o ‘outro’ tem
que agir de acordo com os interesses de quem pode, está-se claramente diante do
“poder” exercido na ordem da violência. O mesmo pode ser aludido quanto às
palavras de Sartre que lembram sobre a violência: “um homem sente-se mais homem
quando se impõe e faz dos demais instrumentos de sua vontade” (ARENDT, 1985, p.
20). A submissão do outro para que, contra sua vontade, realize alguma atividade, por
ínfima que pareça, carateriza a violência ainda que da ação não resulte ou não
signifique uma agressão física ou uma lesão no corpo da vítima.
Como lembra Ginzburg (2013, p. 35), a violência é construída no tempo e no
espaço e suas configurações estéticas estão articuladas com processos históricos.
Adiante Ginzburg (2013) chama atenção para a necessidade de examinar quais os
discursos hegemônicos prevalecentes no período em torno das condições de produção
de uma obra. Considera esse autor discursos hegemônicos aqueles que “incluem
produções institucionais da política, da economia, do sistema jurídico, do militarismo,
da imprensa, entre outros que são responsáveis por formação de opinião pública”
(GINZBURG, 2013, p. 35-36).
No prosseguimento com este conceito de violência, Velho (1994, p. 34), no seu
artigo intitulado Autoritarismo e Violência no Brasil Contemporâneo, tem a violência
como algo que em torno do qual não existe consenso, considera a instituição da
escravatura de uma violência de proporções extraordinárias, apesar de ter sido vista,
durante séculos, como uma coisa natural. E acrescenta ainda que “A violência no
regime escravocrata é uma violência marcante, inesquecível, e que marca
indelevelmente essa sociedade” (VELHO, 1994, p. 35). Dando seguimento à linha de
pensamento de Velho (1994), a violência do regime escravocrata tal como a guerra
civil que ocorreu em Moçambique, outra forma de violência, deixou marcas negativas
em quase todas as povoações, comunidades e famílias. A memória coletiva dessas
sociedades lembra que não houve nenhuma família que não tenha tido um dos seus
membros violentamente levado para a escravatura, igualmente que, durante a guerra
civil, não há uma única família sequer que não tenha perdido um dos seus membros
mais próximo.

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É do conhecimento comum que a relação que se manteve entre branco e


negro, no período colonial, em Moçambique, foi na sua essência violenta; uma
violência física que criou muitas vezes sentimentos de revolta do negro contra o
branco.
Efetivamente é interesse do presente trabalho realizar uma busca dessas
marcas de violência na obra em questão.

Violência em Xefina, de Juvenal Bucuane

No que se refere à violência na obra Xefina, importa salientar que ela é


marcadamente de âmbito político. A personagem principal da narrativa, o comandante
Vossemecê, é a figura sobre a qual vai gravitar todo o tipo de violência patente na
obra, seja ela física, seja ela psicológica. A autoridade do comandante Vossemecê, na
sua qualidade de “dono” da ilha da Xefina Grande com todas as pessoas que nela
habitam, torna essa personagem (comandante Vossemecê) um tirano, um indivíduo
que pode, por motivos infundados e até certo ponto fúteis, matar uma pessoa (recluso
ou militar), chicotear, ou encarcerar por um período indeterminado. Tudo isso
caracteriza violência nos mais variados níveis, aliás, lembra Galle (2012, p. 90) que,
“em um ato de violência sempre estão envolvidas duas pessoas: quem exerce a
violência e quem a sofre, perpetrador e vítima”; por isso, pode se identificar que o
comandante Vossemecê, por um lado, é o que exerce a violência e, por outro lado, a
pessoa coletiva de todos os outros habitantes da ilha da Xefina Grande, como vítima,
que sofre a violência. Para o comandante Vossemecê, a violência era sinônima de
poder, contrariamente ao que afirma Arendt (1985, p. 28): “o poder não precisa de
justificativas, sendo inerente à própria existência das comunidades políticas; mas
precisa, isto sim, de legitimidade. A percepção dessas duas palavras como sinônimas
não é menos enganosa do que a atual equação de obediência e apoio”.
Muitas vezes com justificativas assentes em ideários colonialistas de dominação
e subjugação do homem negro africano a autoridade e a violência eram exercidas com
pretexto de manutenção de disciplina e ordem perante uma população julgada de
“selvagem” e de difícil civilização, como a seguir se pode ver:

Sabem, nossos furriel, é que os preto não aguenta civilização dos


branco, não quer saber nada, mas roubar, aí sim, até mãe deles pode
roubar. Quando eu estava em Angola a fazer comissão, tinha um
amigo que era doutor, tinha um moleque velho, preto, que deu até
casa de alvenaria, com água e luz, casa de banho, tudo, para ele ficar
com mulher dele, com os filho. Sabem quê que ele fez? (...):

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Construiu palhotas no quintal. De dia ficava com família dele na casa


que meu amigo doutor deu neles, mas a noite ia tudo nas palhotas
dormir, dizia que é para os antepassados não zangar e dar azar. Já
viram isto, nossos furriel? Onde que se pode civilizar preto desta
maneira? (BUCUANE, 1989, p. 40).

Este exemplo, por mais pacífico que pareça e pelo seu caráter sócio-político
com fim civilizacional, e com perspectiva de melhoramento da condição de vida do
“moleque velho”, pode constituir uma violência simbólica ao se pretender que o
moleque e sua família deixem seus hábitos e costumes, aquilo que lhes caracteriza,
que é sua essência que é habitar em palhotas para passar a habitar numa casa de
alvenaria. Assim se caracterizou o sistema colonial português que, de forma violenta se
impôs nas colônias, violentando os hábitos e costumes das populações, profanando os
mais sagrados ritos, tradições e modus vivendi de todo um povo, tudo em nome da
civilização.
O excerto acima transcrito também pode ilustrar bem a capacidade que o
colonialismo português teve de, a partir de alfabetização de alguns nativos, poder
através destes subjugar seus semelhantes em benefício de sua política administrativa
colonial. De forma indireta, o comandante Vossemecê pretendia dar a entender que só
se torna civilizado aquele que aceita as novas regras de jogo, regras por si impostas,
por exemplo, quem aceita viver na casa de alvenaria, como os furriéis militares, seus
subordinados. Uma boa estratégia de cativar ou alienar as mentes, segundo ilustra a
passagem seguinte dita pelo próprio comandante Vossemecê: “Mas eu não estou dizer
isto para os nossos furriel que estão aqui no meu gabinete, vossemecês são civilizados,
até estudaram até ser furriel (...) estou falar daqueles pé-descalço que anda aí, esses
restera que nem vale nada” (BUCUANE, 1989, p. 40). A palavra “restera” vem reforçar
ainda mais a ideia de subalternidade, daquilo que se encontra em nível mais baixo, na
superfície, que pode ser pisado porque “nem vale nada”.
Pode-se depreender que a alfabetização, a civilização equivaleria a uma posição
de superioridade, a do branco, enquanto o contrário, “restera”, corresponderia à
permanente selvajaria, indigenização, a falta de cultura na perspectiva do colonizador
branco.
Com efeito, a violência, que consiste em isolar o indivíduo do seu convívio com
os demais através de encarceramento no vulgo e sempre lembrado sete-e-meio, era
uma das preferências do comandante Vossemecê, cujas vítimas saíam do cativeiro
assim que ele se lembrasse de tirá-las ou quando cumprida a pena, sobrevivendo
durante os sete dias e meio que simbolizavam a designação “sete-e-meio”, à base de

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pão e água. O exemplo a seguir confirma o que foi aludido: “até comandante meaça
mais, diz que se não tem cuidado ainda pode meter no sete-e-meio” (BUCUANE, 1989,
p. 30). Uma ameaça vinda da pessoa do comandante Vossemecê, com todo o
autoritarismo que emana da sua personalidade, torna-se violência contribuindo para
que os seus subordinados, entre o medo e a coragem que um e outro podiam ter,
procurem, de algum modo, vingar-se desse comportamento desumano.
No conto A Estória do Furriel Amadeu (BUCUANE, 1989, p. 25-33), narra-se a
história de um furriel Amadeu, mulato, conotado como um sujeito malandro, um
pervertido sexual pelo seu envolvimento amoroso com quase todas as mulheres da
ilha da Xefina Grande, até mesmo com as prostitutas, sem as pagar como se pode
constatar na citação: “- Diz que era malandro esse furriel Madeu, nenhuma que
escapava, até aquelas puta lá nas palhota, nenhuma se salvou, nem pagava nelas nada,
enganava elas dizer que lhes amava, que não se compra amor, é só dar e receber”
(BUCUANE, 1989, p. 28). Neste seu percurso de “amor sensível”, envolvera-se
intimamente com a filha do comandante Vossemecê, desonrando-a, segundo
testemunha, como se observa na seguinte passagem de um pequeno diálogo entre as
duas personagens-contadores (Alfredo e Jôta), confidentes da obra:

- Pôça, esse gajo não brincava! (...)


- Mas engatou nela, e depois? (...)
- Quê que fez, pá? – (...).
- Lhe fez coisa de ajineira muito grande!...
- Quê que foi, antão?
- Lhe cavalou e tirou as tribeira! (BUCUANE, 1989, p. 28).

O comportamento do furriel Amadeu, que é eticamente condenável e até certo


ponto considerado violento que consistiu na desonra ou estupro da filha do
comandante Vossemecê, uma jovem branca, foi tomado como uma vingança de toda
comunidade da ilha da Xefina Grande, uma comunidade que se sentia oprimida e
reprimida, sem meios para poder se defender dos maus tratos impingidos pelo
comandante. O furriel Amadeu tornou-se, por assim dizer, num herói que conseguiu
ferir no mais profundo o orgulho do soberano, do autoritário e violento comandante
Vossemecê: “dessa vez Vossemecê saldara parte das suas contas. Amadeu
envergonhara-lhe e vingara todos os que até ali haviam sido alvos dos desmandos do
comandante” (BUCUANE, 1989, p. 32).
Ato contínuo o furriel Amadeu temendo as consequências da sua imensurável
imprudência meteu-se ilha adentro receando ser morto pelo comandante Vossemecê,
salvaguardando, assim, a sua vida, pois, “Madeu sabia, lhe contaram, que uma vez

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Vossemecê despachou com um tiro na cabeça um preso que descobriu e começou a


bufar os segredos do velho. O preso foi deitado, depois, lá no outro lado onde as ondas
parece quer engolir a ilha toda” (BUCUANE, 1989, p. 30). Relembrando Arendt (1985,
p. 20) quando sublinha na sua obra Da Violência, que “... não existe então nenhum
poder maior do que aquele que provém do cano de uma arma,...”, no seu mais
sanguíneo estado a decisão imediata tomada pelo comandante Vossemecê, face aos
acontecimentos, foi empunhar em sua arma (pistola), como se pode ler: “- Vossemecê
quando descobriu na filha que foi o furriel Madeu, não era búfalo que tinha ferida
aquilo! Pegou na sua perna-de-galinha3...” (BUCUANE, 1989, p. 30). Para ajudar na
efetivação do seu intento de pôr a mão no foragido furriel Amadeu, mandou seus
soldados realizarem uma busca pelas matas da ilha da Xefina Grande, o que resultou
num insucesso como documenta a seguinte passagem: “Pegou na pistola e toca de
vasculhar tudo, ver se panha Madeu, mas Madeu parecia que era nome de uma coisa
que não existe, enquanto é nome de uma pessoa! Ninguém que panhou nele, nem
Vossemecê que parecia que era côboi, nem os soldado que ele mandou...” (BUCUANE,
1989, p. 31). A expressão “Vossemecê que parecia que era côboi” acentua cada vez
mais a sua posição de um sujeito determinado e de seu estado de agressão e de
violência.
O insucesso por parte dos soldados na busca do furriel Amadeu pode estar
associado ao desinteresse desses pela captura de seu colega, soldado e furriel, uma
vez que o ato por ele cometido havia sido, como se disse anteriormente, uma vingança
de todos sobre a pessoa do comandante Vossemecê, por um lado, e, por outro lado,
eles (os soldados) na sua maioria mulatos e negros, todos eles moçambicanos, sabiam
que a captura do furriel Amadeu significava sua morte certa.
Nessas cenas de violência, o narrador assume uma posição que se pode
considerar quase que realista pela forma como relata os acontecimentos ocorridos.
Ginzburg (2013, p. 33) chama atenção para as possíveis implicações para com esse tipo
de narrador: “Trata-se de uma concepção formal pautada pelo cartesianismo, por uma
caracterização do conhecimento que tem a expectativa de objetividade. Entre a
realidade representada e a matéria ficcional, existiriam semelhanças suficientes para
permitir um reconhecimento” (GINZBURG, 2013, p. 33). Prosseguindo, Ginzburg (2013)
afirma que, para que se possa viabilizar a chance de um reconhecimento da realidade,
precisa-se assumir as seguintes condições: “a realidade deve ser previamente
entendida; as relações de analogia e os pontos de vínculo entre as duas materialidades

3
Perna-de-galinha refere-se, nesse contexto, a uma arma de tipo pistola.

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concretas, realidade e literatura, devem ser devidamente estabelecidas” (GINZBURG,


2013, p. 33).
Xefina circula com uma vontade entre a realidade e a ficção, segundo se pode
constatar a partir da nota do autor:

Como facilmente se pode depreender, o golpe de estado de 25 de


Abril em Portugal eclodiu quando eu me achava na Xefina. Vivi o
antes e o pós 25 de Abril na ilha reclusão, em que bebi as vivências
das personagens desse tempo, militares e reclusos, mairitariamente
militares a cumprirem penas de prisão, pelos mais diferentes crimes
praticados, de índole militar.
Conheci, em carne e osso, o lendário capitão, com o qual tive alguns
conflitos por insubordinação às suas macabras exigências (BUCUANE,
Nota do autor).

O recurso à arma, como Arendt (1985) afirma, e os exemplos extraídos da obra


Xefina, corpus deste trabalho, reportam a uma violência ao extremo, pois uma arma,
quando usada, elimina fisicamente o outro, não havendo, por isso, a passibilidade de
negociação ou de comutação de uma medida por outra. O uso de uma arma de fogo
ou mesmo de uma arma branca (faca ou catana) revela-se como sendo a incapacidade
do detentor da arma resolver suas divergências ou diferenças usando outros
mecanismos menos coercivos e agressivos. Igualmente essa atitude lembra o
comportamento dos capatazes portugueses que, no período colonial, empunhavam
espingardas (armas de fogo) ou chicotes (cavalo-marinho) para controlar simples
trabalhadores indefesos nos campos agrícolas de cultivo de milho, algodão, chã, sisal,
entre outras culturas. A arma de fogo é tida como a segurança daquele que está ou se
sente sempre inseguro.

Referências

ARENDT, Hannah. Da violência. Trad. Maria Claudia Drummond. Brasília: Editora


Universidade de Brasília, 1985.
BUCUANE, Juvenal. Xefina, Maputo: Tempográfica – INLD, 1989.
GINZBURG, Jaime. Literatura, violência e melancolia. São Paulo: Autores Associados,
2013.
ROBBIO, Norberto; MATTENCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política.
13. ed. Brasília: Editora UnB, Vol. 1, 2008

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VELHO, Gilberto. Autoritarismo e violência no Brasil contemporâneo. In SCHWARTZ,


Jorge; SOSNOWSKI, Saul (Orgs.). Brasil: o trânsito da memória. São Paulo: Edusp,
1994. p. 31-40.

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DISCURSOS DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS: A CENOGRAFIA E ETHOS NAS MANIFESTAÇÕES DA


IDENTIDADE E DA CULTURA ORGANIZACIONAL

Eliane Davila dos Santos1

Introdução

Definir o que é identidade e o que é cultura não é uma tarefa fácil. A realidade
remete às representações identitárias e ao próprio caráter transversal da cultura, que
perpassa diferentes campos da vida cotidiana. O dinamismo cultural revela que todas
as formas de manifestação da cultura têm vínculos com contextos sócio-históricos,
tendo recíprocas relações com as sociedades de que participam. Não há como pensar
em cultura sem ser levado à análise da forma como a linguagem é produzida e
interpretada em contextos da comunicação midiática corporativa. Essa prática
discursiva revela que a linguagem carrega em si valores e crenças dos ambientes
sociais e corporativos. Este estudo dá ênfase às manifestações culturais
organizacionais e é delimitado à análise do discurso corporativo por meio da
cenografia e do ethos – como imagem de si – apresentados nos sites de duas
instituições bancárias Citibank e Itaú Unibanco.
As manifestações culturais estão repletas de conteúdo e de significado que
instigam à reflexão e ao entendimento dos sentidos que ordenam as pessoas, tanto no
convívio social como no empresarial. Nessa linha de pensamento, é possível atender
ao objetivo do presente estudo, que visa compreender e mostrar como as
manifestações culturais e a identidade corporativa são reveladas no discurso
empresarial e apresentadas em documentos de circulação externa de instituições
financeiras, por meio de cenografias construídas no contexto da comunicação
organizacional.
A questão norteadora desta pesquisa é o fato de o discurso institucional
relacionado às políticas de gestão e perfil de pessoas revelar traços da cultura
organizacional e da identidade corporativa de instituições bancárias, que são
representados mediante cenografias das quais emergem imagens de si – o ethos
discursivo. Desse modo, este trabalho contribui para o entendimento dos princípios

1
Mestranda em Processos e Manifestações Culturais, Universidade Feevale.
E-mail: elianedavila@yahoo.com

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que norteiam a construção da imagem de si, o ethos discursivo dos bancos Citibank e o
Itaú Unibanco. O objetivo é analisar os discursos desses agentes, em contextos
comunicacionais, que contribuem para a compreensão da cenografia e do ethos
discursivo corporativo, correlacionando a cultura organizacional e a construção da
identidade corporativa, no que diz respeito ao perfil profissional idealizado por essas
empresas.
Para compor os estudos, utilizam-se os ensinamentos de Geertz (2008), Morgan
(1996), Freitas (1991) e Schein (2009). O marco teórico principal de análise do discurso
é o da escola francesa, em especial de Dominique Maingueneau (1997, 2008) e Patrick
Charaudeau (2008, 2009). A metodologia utilizada é de uma pesquisa exploratória,
com abordagem qualitativa, mediante estudo de casos múltiplos. A análise das
informações direciona a resultados parciais da pesquisa: o ethos discursivo, como
imagem de si, é apoiado em cenografias enunciativas que auxiliam na compreensão de
discursos organizacionais, os quais revelam aspectos da identidade corporativa e o
perfil ideal de funcionários para trabalhar nas instituições analisada
As seções estão assim dispostas: primeiramente, um espaço dedicado às
questões de cultura organizacional e identidade. Na seção seguinte, apresentam-se
reflexões sobre o ato de linguagem. Na próxima seção abordam-se questões sobre a
cenografia e o ethos corporativo. Segue-se com as questões metodológicas e a seção
de resultados de cada caso em cada categoria selecionada; ao final, faz-se uma seção
de síntese das análises das duas instituições objetos de análise deste estudo.

A cultura e a identidade nas organizações

A análise das manifestações culturais contribui para o gerenciamento de


mudanças nas organizações. Esse raciocínio vai ao encontro da ideia de que a
globalização pode provocar mudanças também nas identidades culturais e
corporativas (HALL, 2006). Todas as culturas têm o mesmo valor e poderiam conviver
de uma forma pacífica e harmoniosa. No entanto, Hall (2006) alerta que a
interdependência global está levando a um colapso de todas as identidades culturais
fortes, gerando a fragmentação dos códigos culturais e a multiplicidade de estilos que
resultam no pluralismo cultural. Geertz (2008) traz à antropologia um conceito de
cultura como um sistema simbólico, sendo característica fundamental e comum da
humanidade atribuir, de forma sistemática, significados e sentidos a todas as coisas do
mundo.
Conforme Morgan (1996), a cultura vem sendo utilizada para afirmar que
diferentes grupos de pessoas têm diferentes estilos de vida. Trazer o estudo da cultura

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para o ambiente organizacional desperta o interesse de muitos teóricos em virtude de


sua complexidade. Essa atenção à cultura organizacional é justificada como uma das
“formas de entender como as organizações trabalham e como é, de fato, a vida que
pulsa dentro delas” (MARCHIORI, 2011, p. 75). Uma das definições mais conhecidas de
cultura organizacional é a de Schein (200 , p. 11) “o con unto de pressupostos b sicos
que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com os
problemas de adaptaç o e terna e integraç o interna”. Seguindo o propósito de
Freitas (1991, p. 79), a área de recursos humanos tem um papel importante para a
aceitação, consolidação, manutenção de mudanças culturais. O autor, ao tematizar o
perfil profissional e o trabalho nas organizações, destaca a área de recursos humanos
como fonte de conhecimento da cultura corporativa, por meio de estratégias da
empresa. Destaca-se que o estudo tem o enfoque direcionado para o entendimento de
qual é a identidade, a imagem de si, das empresas analisadas, assim como o perfil de
profissionais que valorizam para dar continuidade à história de cada uma delas,
fazendo propagar suas culturas. Nesse sentido, Hall (2003) defende que, para a
construção e estruturação das identidades, a linguagem e o discurso são basilares e
representações, nas organizações, são relevantes para o entendimento dessas
questões. Sendo fundamental o discurso organizacional para evidenciar a cultura nas
empresas, elege-se a análise do discurso como meio de compreensão do ethos
discursivo.

Ato de linguagem nas organizações

Acredita-se que as organizações mostram-se inseridas em um mundo


permeado de símbolos, artefatos e criações subjetivas. Essa abordagem leva a
compreender a dinamicidade e a complexidade que envolvem o contexto
organizacional. O dialogismo, conceito emprestado de Bakhtin (2000), refere-se às
relações que todo o enunciado mantém com os enunciados produzidos anteriormente,
bem como com os enunciados futuros que poderão os destinatários produzir. O termo
é “carregado de uma pluralidade de sentidos, muitas vezes, embaraçantes [...]”
(CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2012, p. 160). A noção de dialogismo perpassa as
construções metodológicas deste estudo, principalmente porque permite
aproximações entre o outro-eu-outro, ou seja, o princípio do dialogismo está ligado à
própria concepção da língua como interação verbal. Afinal, não existe enunciado
concreto sem interlocutores. As associações do dialogismo de Bakhtin (2002) e do ato
de linguagem compõem uma reflexão que nasce de um sujeito que é, ao mesmo
tempo, externo e interno à linguagem e esse dueto de posições se concretiza por meio

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de um jogo de simulações ou encenações. As escolhas linguísticas que se percebe na


encenação discursiva (mise-en-scène) construída pelos sujeitos do ato de linguagem
(CHARAUDEAU, 2009) levam à construção da imagem de si – ethos discursivo por meio
de cenografias (MAINGUENEAU, 2008).
Pela perspectiva da análise do discurso, o contrato de comunicação pode ser
visto como um conceito da produção discursiva, o que depende da situação de
comunicação. Cabe afirmar que a ideia central de Charaudeau (2008) constitui-se na
assimetria da comunicação, que é composta por quatro sujeitos: sujeito comunicante
(EUc) e o sujeito interpretante (TUi) seres sociais; o enunciador (EUe) e o destinatário
(TUd), seres de fala. No circuito do ato de linguagem, o EUc tem como objetivo passar
uma mensagem para um TUi. Para se constituir esse circuito do ato de linguagem,
percebe-se que existem dois círculos de produção do saber: 1) o circuito da fala
configurada, ou seja, um espaço interno que acomoda os seres de fala, que são
percebidos como imagens de um sujeito enunciador EUe, e um sujeito destinatário
TUd, proveniente “de um saber intimamente ligado às representações linguageiras das
pr ticas sociais” (CHARAUDEAU, 2008, p. 53); 2) o círculo e terno à fala configurada,
ou seja, um espaço externo onde se acomodam o sujeito comunicante EUc e de um
su eito interpretante TUi, “conforme um saber ligado ao conhecimento da organizaç o
do “real” (psicossocial) que sobredetermina estes su eitos”. (CHARAUDEAU, 2008, p.
53, grifo do autor). Dessa forma, é possível depreender que o mundo falado, conforme
nomeia Charaudeau (2008), impõe aos sujeitos uma dupla representação, ou seja, de
acordo com o ambiente em que se situam “quando esse mundo é considerado no
circuito de fala, corresponderá a uma representação discursiva; se ele for considerado
no circuito externo, como testemunha do real, corresponderá a uma representação da
situaç o de comunicaç o” (CHARAUDEAU, 2008, p. 53).

Cenografia e ethos discursivo no âmbito corporativo

Em seus postulados, Maingueneau (2011) propõe o entendimento do discurso


por meio da integração de seus planos. Esta pesquisa não pretende ser um estudo
puramente linguístico, mas, sim, discursivo-comunicacional, que abarca o modo de
enunciação, a maneira de dizer, a partir da inserção dos sujeitos linguageiros (eu e tu) e
da dêixis enunciativa (o aqui e o agora), ou seja, tempo e espaço discursivos. Assim,
evidenciam-se os planos da cenografia, do ethos e seus desdobramentos. O estatuto
do enunciador e do destinat rio compreende que, “em termos de discurso, tanto o
enunciador quanto o destinatário dispõem de um lugar e, nesse espaço, o enunciador
pro eta uma imagem de si no discurso a partir da qual o legitima” (FREITAS; FACIN,

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2011, p. 5).
Para melhor entendimento, esclarece-se que a cena de enunciação é composta
por três cenas: englobante, genérica e a cenografia. A cena englobante atribui ao
discurso um estatuto pragmático. A cena genérica é a do contrato associado a um
gênero, como editorial, sermão, guia turís co, consulta médica etc. (MAIN UENEAU,
2013). ode-se dizer que “a cenogra a, com o ethos da qual ela par cipa, implica um
processo de enlaçamento desde sua emerg ncia, a fala é carregada de certo ethos,
que, de fato, se valida progressivamente por meio da pr pria enunciaç o […] ela
legitima o discurso” (MAIN UENEAU, 2008, p. 71). A constituiç o do ethos, segundo
Maingueneau (2011), relata um ponto de vista pré-discursivo desse mesmo ethos, que
trabalha como uma âncora do discurso. Articular o ethos à enunciação permite
diferenciar o ethos dito do ethos mostrado. O ethos é resultante de diversas
articulações entre os elementos do ethos pré-discursivo, do ethos discursivo, do ethos
dito, do ethos mostrado. Maingueneau (2011) acrescenta que, nesse espaço subjetivo,
encarnado, o “fiador” do discurso é construído a partir do processo de incorporaç o. O
“mundo ético” regula as representações socioculturais e a instância sub etiva n o é
percebida apenas como um estatuto, mas como uma “voz” associada a um “corpo
enunciador”.
O enunciador aciona os estereótipos, valores, princípios, um imaginário que
pode ser coletivo ou social, elevando o percentual de possibilidade de aderência do
enunciatário. Considera-se, a partir disso, que esses valores, princípios e o imaginário
est o relacionados à cultura organizacional, pois “a construç o discursiva de uma
imagem de si é suscetível de conferir ao orador sua autoridade, isto é, o poder de
influir nas opiniões e modelar atitudes” (AMOSSY, 2008, p. 142). O ethos permite
entrar em contato com a imagem do fiador que, por meio de seu dizer, legitima a si
próprio uma identidade equivalente ao mundo que está construindo em seu
enunciado. Nesse particular, este estudo, considerando a identidade corporativa,
possibilita a reflexão sobre qual tipo de perfil funcional os agentes financeiros
idealizam e selecionam para suas instituições. A seguir é abordada a questão
metodológica deste trabalho.

Metodologia

A metodologia segue as recomendações de Prodanov e Freitas (2013), sendo


utilizada a pesquisa exploratória com abordagem qualitativa, mediante estudo de casos
múltiplos. Este trabalho não pretende ser um estudo puramente linguístico. Como se
trata de uma investigação discursiva, são utilizados alguns conceitos teóricos de análise

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do discurso da escola francesa, em especial, de Patrick Charaudeau (2008, 2009) e


Dominique Maingueneau (1997, 2008). Os critérios para escolha dos objetos empíricos
deram-se em razão da disponibilidade das informações e acesso ao site de cada
instituição. As informações disponíveis permitem acessar dados sobre as estratégias
sobre gestão de pessoas, especificamente em relação ao perfil profissional e aos
elementos culturais das instituições, e políticas utilizadas nas organizações. Ao analisar
os anúncios dos bancos e suas diretrizes, é possível compreender, com mais
profundidade, as manifestações da cultura nas organizações e a correlação com a
identidade corporativa das empresas, o ethos organizacional. Optou-se pelos bancos
Citibank e Itaú Unibanco devido à possibilidade de haver contrastes em função da
origem cultural dos bancos analisados, visto que o banco Citibank é americano e o Itaú
Unibanco é brasileiro.
O estudo foi organizado da seguinte forma: primeiramente apresentam-se as
informações comunicacionais. Na sequência, apresentam-se as análises a partir das
três categorias teóricas selecionadas: cultura e identidade, ato de linguagem e
cenografia e ethos de cada banco. Por último, elabora-se uma síntese comparativa que
contempla as duas instituições analisadas.

Resultados e análise

Informações comunicacionais sobre os bancos Citibank e Itaú Unibanco

Apresenta-se, neste momento, a comunicação do Citibank e do Itaú Unibanco


que são corpora desse estudo.

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Figura 1 – Comunicação do Citibank

Fonte: site do banco Citibank (2015)

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Figura 2 – Comunicação do Itaú-Unibanco

Fonte: site do Banco Itaú Unibanco (2015)

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Análise da comunicação do banco Citibank

As análises da comunicação da instituição financeira Citibank, a partir das três


categorias, apresentam os seguintes resultados:
a) Categoria Cultura e Identidade as pistas discursivas, em “uma marca global
com uma rede inigual vel para atender a clientes em qualquer lugar do mundo”,
colaboram para demonstrar o pluralismo cultural existente no mundo globalizado.
Cada empresa, por meio de sistemas simbólicos (GEERTZ, 2008), tenta legitimar sua
capacidade de atuar em ambientes globalizados onde cada organização vai adaptando
a identidade corporativa para se diferenciar no mercado capitalista. As marcas
discursivas, em “que desempenha um papel central no desenvolvimento e
financiamento da economia mundial”, promovem uma reflexão sobre a identidade
(HALL, 2006) que cada empresa quer enfatizar na linguagem que utiliza nos seus
discursos comunicacionais. O enunciado “o Citi tem mais de 200 anos, o que reafirma a
solidez” apresenta a cultura (MORGAN, 1996) como forma de afirmação da identidade
em que o banco Citibank se destaca pela solidez empresarial. Embora seja considerada
uma empresa global e com fins lucrativos, tenta valorizar os aspectos sociais e
humanos.
b) Categoria Ato de Linguagem: participam os seres reais e os seres de fala.
Pode-se conceber que o EUc (banco Citibank S.A – ser social) por meio de um (EUe)
tem como objetivo revelar a cultura organizacional da instituição a um (TUd) que
aciona um TUi (leitor ou e possível funcionário – ser sociais) que se interesse e mostre
adesão aos propósitos comunicativos do banco. Percebe-se que o banco Citibank
elabora seus enunciados tendo em vista o princípio do dialogismo apresentado por
Bakhtin (2002). A comunicação, na perspectiva de Charaudeau (2008), identifica um
espaço de produção de saberes onde se situa o contrato de comunicação entre os
sujeitos, o que depende também da situação de comunicação. Pode-se dizer que,
nesse circuito do ato de linguagem, o sujeito no espaço de fala corresponde às
representações discursivas e o espaço externo corresponde à situação de comunicação
(CHARAUDEAU, 2008).
c) Cenografia e Ethos: as cenografias procuram trazer a evidência de ser um
banco sólido, global e que se preocupa com seus clientes, funcionários e stakeholders.
O funcionário idealizado do banco deve ter perfil de liderança e criatividade,
procurando fazer uma carreira profissional na instituição. O Ethos dito: apresenta-se
como um banco sólido, tradicional, com excelência no mercado global e ainda apoia a
diversidade cultural e a inclusão social. O ethos mostrado: organização líder no

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segmento, que está repleta de oportunidades para aqueles que querem fazer parte de
um banco global e sólido. A comunicação interpela o coenunciador a uma visão de
banco em que todos gostariam de trabalhar. Percebe-se, conforme Maingueneau
(2008), que o aspecto relativo ao ethos do banco Citibank permite aos enunciatários
entrar em contato com a imagem do fiador, que por meio do seu dizer, legitima a
identidade da instituição financeira.

Análise da comunicação do banco Itaú Unibanco

a) Categoria Cultura e Identidade as pistas discursivas “nosso eito de fazer”


revelam os mecanismos simbólicos (MORGAN, 1996) em que as empresas estão
inseridas nesse mundo contemporâneo. Pode-se perceber que as estratégias
sintetizadas em “nosso eito de fazer” retratam como a instituiç o trabalha
(MARCHIORI, 2011) e identifica pressupostos básicos e aspectos culturais
organizacionais corporativos (SCHEIN, 2009). As marcas discursivas “liderança ética
responsável; foco na inovação com foco; ágil e descomplicado; brilho nos olhos;
carteirada não vale; sonho grande; paixão pela performance; craques jogam em time e
processos servindo pessoas” manifestam a importância da área de recursos humanos
na aceitação, consolidação e manutenção da cultura corporativa (FREITAS, 1991). A
identidade corporativa identificada nos enunciados declara a importância que o banco
Itaú Unibanco confere às pessoas que trabalham na instituição, assim como a seus
clientes externos.
b) Categoria Ato de Linguagem: O banco Itaú Unibanco, ou a equipe de
publicidade que representa a instituição (EUc), por meio do ser de fala (EUe), acionado
pelo (EUc), o destinatário ideal da fala (TUd), que faz parte da enunciação e que aciona
um (TUi), ou seja, os leitores ou possíveis funcionários e atuais empregados do banco à
adesão do discurso. Na perspectiva dialógica de Bakthin (2002), a comunicação da
instituição financeira Itaú Unibanco revela os jogos de simulação e encenação feitos
pelos sujeitos que, ao mesmo tempo, são internos e externos à linguagem
(CHARAUDEAU, 2008). Identifica-se a assimetria da comunicação em que os quatro
sujeitos da linguagem (EUc, EUe, TUd e TUi) se relacionam (CHARAUDEAU, 2008).
c) Cenografia e Ethos: a partir das marcas discursivas “nosso jeito de fazer,
brilho nos olhos, todos pelo cliente, processos servindo pessoas”, as cenografias
evidenciam um ambiente de respeito ao projetar uma empresa agradável de se
trabalhar, com uma equipe unida e uma cultura organizacional bastante sólida. O
funcionário idealizado tem um perfil interessado, inventivo, imprevisível, gosta de

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pessoas, gosta de trabalhar em time e tem uma postura consultiva. O ethos dito
apresenta-se mediante a ênfase nas pessoas e no ambiente organizacional agradável
para se trabalhar. O ethos mostrado revela uma organização global, com mais de 105
mil funcionários que possui expertise para atender clientes externos e internos com
uma cultura sólida. A comunicação interpela o coenunciador a uma visão de banco em
que todos gostariam de trabalhar. Acredita-se que o ethos (MAINGUENEUAU, 2008) do
banco Itaú Unibanco, a partir das marcas discursivas evidenciadas, seja construído a
partir das representações culturais coletivas e individuais que legitimam o fiador na
enunciação e permitem a possibilidade de aderência do enunciatário ao discurso.

Síntese comparativa dos resultados do Citibank e do Itaú Unibanco

Depreende-se, em síntese, que as análises dos discursos nos sites das duas
instituições apresentam as informações constantes no Quadro 1, mediante os recortes
discursivos de textos selecionados nesse estudo.
.
Quadro 1- Síntese dos resultados do banco Citibank e Itaú Unibanco
CITIBANK ITAÚ UNIBANCO
RESUMO
Manutenção da cultura organizacional a partir de
Empresa com marca global e fins lucrativos,
dez atributos do nosso jeito de fazer.
CULTURA E mas que serve à sociedade e às nações.
Principal ativo do banco na comunicação
IDENTIDADE Valorização de aspectos da solidez empresarial.
institucional são as pessoas.

Identificação dos espaços sociais e de fala. Identificação dos espaços sociais e de fala.
EUc banco Citibank; EUe representação EUc banco Itaú Unibanco; EUe representação
ATO DE
discursiva do banco – ser de fala; TUd ser de discursiva do banco – ser de fala; TUd ser de fala
LINGUAGEM
fala idealizado – ser de fala; TUi, leitores ou idealizado – ser de fala; TUi, leitores ou possíveis
possíveis funcionários do banco. funcionários do banco.
Empresa agradável de se trabalhar, com uma
Banco sólido, global preocupado com seus
equipe unida e uma cultura organizacional
clientes, funcionários e stakeholders.
bastante sólida.
Ethos dito: banco sólido, tradicional, com
Ethos dito: apresenta-se mediante a ênfase nas
excelência no mercado global e ainda apoia a
pessoas e no ambiente organizacional agradável
diversidade cultural e a inclusão social.
CENOGRAFIA para se trabalhar.
Ethos mostrado: organização líder no
E ETHOS Ethos mostrado: organização global, com mais de
segmento que está repleta de oportunidades
105 mil funcionários que possui expertise para
para aqueles que querem fazer parte de um
atender clientes externos e internos com uma
banco global e sólido.
cultura sólida.
Visão de banco em que todos gostariam de
Visão de banco em que todos gostariam de
trabalhar.
trabalhar
O funcionário idealizado do banco deve ter O funcionário idealizado tem um perfil interessado,
PERFIL perfil de liderança e criatividade, procurando inventivo, imprevisível, gosta de pessoas, gosta de
FUNCIONAL DOS fazer uma carreira profissional na instituição trabalhar em time e tem uma postura consultiva.
BANCOS

Fonte: Elaborado pela pesquisadora (2015)

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As duas instituições, conforme Quadro 1, evidenciam em seus comunicados


marcas textuais discursivas da cultura organizacional e da identidade corporativa, pois
os fiadores do discurso, ou seja, as próprias instituições, são quem legitimam os
discursos divulgados ao público pelos sites corporativos. A cenografia e ethos em
discursos de organizações financeiras revelam o mundo competitivo de “disputa” de
talentos na pós-modernidade, quando os bancos precisam agir com rapidez na busca
de profissionais qualificados para que não percam espaço no mercado financeiro em
que atuam. A cenografia instituída nas duas análises delimita o perfil de funcionário
ideal que integra a cultura organizacional de cada uma das instituições, assumindo
quem faz parte e integra suas ações. Essa cenografia é amparada na constituição de
estereótipos manifestados por um ethos discursivo corporativo que projeta uma
imagem de si construída no discurso, o que constitui a imagem organizacional. As
cenas discursivas analisadas dos dois bancos estão materializas em textos aqui
denominados “comunicados institucionais”, cu a divulgaç o é feita no site de cada
empresa. A imagem de si, revelada por cada instituição analisada, mostra a
representação de um ethos corporativo que leva à ideia de que são bancos que
valorizam seus funcionários e clientes. A identidade corporativa dessas instituições
sinaliza para empresas que são ideais para se trabalhar.

Considerações finais

Este estudo tematizou as manifestações culturais organizacionais verificadas no


discurso corporativo, por meio da cenografia e do ethos – como imagem de si –
apresentados nos sites de duas instituições bancárias: Citibank e Itaú Unibanco.
As análises dos discursos desses agentes financeiros, em contextos
comunicacionais, permitem a compreensão da cenografia e do ethos corporativo,
correlacionando a cultura organizacional para a construção da identidade corporativa e
o perfil de funcionários selecionados. A pesquisa revelou que as instituições
denunciam um ethos corporativo que converge à ideia de que são bancos que
valorizam seus funcionários e sinalizam uma identidade de empresas ideais para se
trabalhar. Os elementos discursivos colaboraram para a construção das identidades
corporativas, revelando a manifestação da cultura organizacional e da identidade.
Identificar o perfil dos funcionários de cada uma das empresas denota muito de como
cada banco constr i a imagem do “colaborador ideal”. Acredita-se na relevância de
promover estudos sobre a compreensão da cultura organizacional, tendo como base a
análise do discurso e discutindo sobre o processo de comunicação que há entre a

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sociedade e as organizações. Em suma, com a premissa de que toda produção de


linguagem é discurso, o jogo de imagens de si manifesta o modo com que cada
empresa, para construir seu discurso, elabora sua própria identidade, especialmente
na maneira que utiliza para identificar o perfil profissional que deseja contratar.

Referências

AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. In: AMOSSY, Ruth
(org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto,
2008.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução: Maria Ermantina Galvão;
revisão da tradução Marina Appenzeller. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso: modos de organização. 2. ed. São Paulo,
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3. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2012.
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FREITAS, Ernani Cesar. FACIN, Débora. Semân ca global e os planos constitutivos do
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p. 198-218, jul./dez. 2011.
FREITAS, Maria Ester. Cultura Organizacional: formação, tipologias e impacto. São
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GEERTZ, C. . Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
2008.
HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. da
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MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise de discurso. 3. ed.
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Acesso em: 15.out. 2015.
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BENEFÍCIOS DE UM INGLÊS JURÍDICO COM MAIS CLAREZA E SIMPLICIDADE

Elisa Corrêa dos Santos Townsend1


Christiane Heemann2

Introdução

O estudo do “Legal English” (Inglês Jurídico) como parte do ensino de ESP


(“English for Specific Purposes”) parece ter crescido em importância no Brasil na
medida em que crescem certos fatores, tais como o número de firmas de advocacia
cujos clientes são internacionais.
Nos dias de hoje, a vida de pessoas de variadas origens culturais tende a ser
permeada pela presença de documentos que necessitam ser lidos antes de assinar.
Assim, sugere-se que quem cria, atualiza, ou revisa um documento legal ou de
negócios, seja em papel, seja online, na tentativa de maximizar a compreensão de seu
texto e de promover maior inclusão social no consumo dos bens e serviços subjacentes
a estes contratos e documentos, procure primar, dentre outros elementos possíveis na
otimização de seu teor, pela implementação de uma linguagem dotada de clareza,
simplicidade e precisão.
Nos últimos anos, alguns governos (brasileiro, americano e outros) parecem ter
dado especial atenção, em suas leis e Políticas Públicas, à inclusão de todos os
cidadãos em face à tendência a determinar que o texto de documentos destinados ao
público tenha uma redação fácil de compreender.
Nesse sentido, esperar-se-ia que uma linguagem clara, precisa e simples, que
acomodasse as necessidades da maioria dos leitores – diferente da linguagem
acadêmica que ora utilizamos, tendo em vista o público a que se destina – propiciasse
uma experiência geralmente tranquila, acolhendo um maior e mais variado público
possível e com mais “usabilidade” e “legibilidade” que se possa conceber, evitando, o
máximo possível, dar margem a potenciais omissões, dúvidas, questionamentos e
interpretações dúbias.

1
Mestranda em Letras-UNISC e Advogada Pós Graduada-UFRGS. Country Representative for “Clarity
International”. Tradutora jurídica e Professora de ESL. UNISC-Bolsista Capes.
E-mail: elisacorrea@mx2.unisc.br
2
PhD em Letras-UCPel e Doutorado Sanduíche Univ. De Bath-UK. Professora da UNIVALI.
E-mail: cheemann@univali.br

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Ademais, ao possibilitar que um maior número de pessoas possa ler e


compreender os documentos do dia a dia, uma linguagem mais clara, simples e precisa
tende a gerar um menor número de interpretações errôneas de seu conteúdo e, por
conseguinte, no Brasil, um menor número de ações judiciais, por exemplo, envolvendo
contratos protegidos pelo Código do Consumidor. Logo, tenderá a diminuir o acúmulo
de tarefas não atendidas pelos provedores de serviços e produtos, porque se espera
que o consumidor que compreende o que lê use menos o telefone, e-mails e visitas
presenciais a estabelecimentos para, dentre outros, sanar dúvidas, o que
potencialmente aumentaria a eficiência na oferta dos serviços e produtos.

Benefícios da “Clarity in Legal English” (Clareza no Inglês Jurídico)

Consoante Tiersma (1999, p. 204)3, o problema seria a comunicação com o


público. O que é corriqueiro ao jurista pode ser uma incógnita ao leigo. Diz o autor –
linguista ele próprio – que linguistas, em geral, não precisam explicar a representação
fonêmica ou gramática ao público leitor de um texto. Em contraste, as pessoas têm o
direito de saber o significado dos textos jurídicos, dos contratos que assinam e por
cujas obrigações responderão. Explicando, se provado que alguém foi obrigado a
assinar contrato sem ter tido a chance de lê-lo e entendê-lo, esse contrato tem a
possibilidade de vir a ser juridicamente anulável porque violou o princípio da
autonomia da vontade de contratar.
Para Butt & Castle (2006), quando o sujeito tem o dever e/ou direito de
compreender documentos legais, estes devem ser despidos de termos técnicos e
jargões o tanto quanto possível. Quando um termo técnico for inevitável, ele deve,
pelo menos, ser explicado em linguagem simples4.
No entanto, o contrato de consumo em massa não é uma negociação
tipicamente bilateral, porque há uma emissão unilateral do negociante para o
consumidor, o qual não opina na redação do contrato. No mais das vezes recebe-o
pronto. “É pegar ou largar”, e é, pois, chamado de “contrato de adesão” (TIERSMA,
1999, p.205). Justo por isso parece importante a clareza de linguagem. Além disso,
esse tipo de contrato, no Brasil, é protegido pelo Código do Consumidor (MARQUES,
2002, Cap. 1).
Concentramos a presente pesquisa na linguagem jurídica da língua inglesa, ou
seja, o inglês jurídico (“legal English”), devido à tendência ao crescimento do uso do
3
Livre tradução, adaptada à realidade brasileira.
4
Neste ponto, no mesmo sentido de Tiersma (Op. Cit. p. 204), o ensinamento de Butt & Castle (2006, p.
127 e ss.).

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inglês como língua franca, às necessidades de empresas internacionais que usam o


inglês em seu dia a dia no território brasileiro e fora deste (e cujo número parece se
expandir constantemente) e, por conseguinte, às necessidades dos profissionais das
firmas de advocacia que atendem a essas empresas e que, por isso, demonstram
necessitar compreender o jargão jurídico que, além de ser em outro idioma, é regido
por outro sistema legal, o sistema da “Common Law”, cujos conceitos e pressupostos
não correspondem aos nossos (brasileiros).
Nos doze anos em que trabalhamos em uma empresa, nos comunicamos com
empresários dos EUA e da Câmara do Comércio5. Lá, a economia é dita mais liberalista6
e menos intervencionista do que no Brasil e, por isso, muitos pareciam não entender
algumas de nossas leis que são, para eles, deveras protetivas ao trabalhador e ao
consumidor7, a exemplo do que ocorria nas reuniões semanais de “debriefing” dos
casos legais com seus advogados do Brasil. Estes contavam com nossa ajuda para
explicar a diferença entre os dois sistemas jurídicos no tocante ao instituto jurídico sob
exame para, apenas então, conseguir explicar o andamento do processo do cliente
norteamericano no Brasil8.
Não é incomum conhecer quem tenha passado por situação em que leu
documento ou formulário que não entendeu, que não sabia preencher com confiança,
ocasião em que, quiçá, tenha titubeado antes de assiná-lo receoso/a de seu conteúdo.
Isso se dá porque, de acordo com Lindsey (1990, n. 2)9, “os textos jurídicos constituem-
se no mais vasto corpo de textos mal escritos pela raça humana”.

5
Da Nashville Hispanic Chamber of Commerce, a autora Elisa recebeu o troféu “President’s Champion of
Excellence Award” pelos trabalhos de tradução realizados entre inglês e português e inglês e espanhol
com relação aos contratos e reuniões jurídicas das empresas membros da Câmara do Comércio (legal
English) para quem ela prestava serviços.
6
Fato notório em revistas como The Economist, jornais como The New York Times, Washington Post etc.
7
Nos EUA – e falamos das mais de trinta Fortune 500 às quais prestamos serviços – não há licença
o
maternidade: o tempo que a mãe falta ao trabalho não recebe. Não há 13 salário, nem FGTS, nem
indenização. Não há férias de 30 dias (salvo raras exceções, após senioridade na empresa). A proteção
ao consumidor não é tão tuitiva (protetiva) como no Brasil. Entre outras coisas. Isso, dizem os
economistas, é o que alavanca a economia deles.
8
Outra razão para a clareza no inglês jurídico, enfrentamos frequentemente entre 2014 e 2015.
Advogados norteamericanos atendem a seus clientes com filial no Brasil da mesma forma como estão
acostumados (i.e., de acordo com o FRCP – Federal Rules of Civil Procedure). Por exemplo, enviam uma
carta ao advogado brasileiro da parte contrária, no Brasil, para “citá-la”, por carta simples. Ainda que
válido nos EUA, esse procedimento é nulo no Brasil. Vale dizer, nos EUA qualquer um pode proceder ao
“Summons” (Chamamento ao Processo), mais especificamente, à citação (“process serving”). No Brasil
isso é ato privativo do Oficial de Justiça, funcionário público concursado. A respeito, escrevemos o artigo
“Summons in Brazil 101 for American Lawyers” no website de “networking” Linkedin.
9
Livre tradução, com comentários, da frase (…) “Law books are the largest body of poorly written
literature ever created by the human race” (LINDSEY, 1990, at 2).

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Há obra de linguistas que mencionam a clareza do discurso em uma variedade


de gêneros, inclusive jurídico. Em Bakhtin (1986, pp. 62-63)10, o estudo da natureza de
um enunciado e da diversidade das formas genéricas que tomam os enunciados em
vários ramos da atividade humana é imensamente importante para quase todas as
áreas da linguística de da filologia. Isso ocorre porque qualquer pesquisa que tenha por
objeto a linguagem concreta, a história de um idioma, a gramática normativa, a
compilação de qualquer tipo de dicionário, a estilística da linguagem e assim por
diante, inevitavelmente labora com enunciados concretos (escritos e orais)
pertencentes a várias esferas da atividade humana e da comunicação: crônicas,
contratos, textos de lei, textos religiosos e outros documentos, vários gêneros
literários, científicos e comentários, cartas formais ou pessoais, respostas no diálogo
diário (em todas as suas subcategorias) etc.
Nesse ponto os acadêmicos podem encontrar informações linguísticas que lhes
podem ser úteis. Pensamos ser necessária uma ideia clara da natureza do enunciado
(primário e secundário), isto é, de vários gêneros discursivos para se pesquisar em
qualquer área específica11.
Ideia correlata encontra-se em Bazerman (2004, p. 309 e ss) quando aduz que a
linguagem deve ser adequada às atividades nas quais elas se insere. Ademais, há teoria
possivelmente relevante ao assunto – ideia a ser investigada mais a fundo – na obra de
Wenger (2002), para quem o mero fato de fazer parte de uma “comunidade de
prática”, realizando suas atividades sociais rotineiras, gera necessidade de adequação
de linguagem.12
10
Bakhtin usa os vocábulos “texto legal” e “leis” (1986, pp. 62-63). Aduz, falando em clareza, que: “A
clear idea of the nature of the utterance in general and of the peculiarities of the various types of
utterances (primary and secondary), that is, of various speech genres, is necessary, we think, for
research in any special area”.
11
Tradução livre e comentada de Bakhtin (1986, pp. 62-63). O original, em inglês, é: “A study of the
nature of the utterance and of the diversity of generic forms of utterances in various spheres of human
activity is immensely important to almost all areas of linguistics and philology. This is because any
research whose material is concrete language-the history of a language, normative grammar, the
compilation of any kind of dictionary, the stylistics of language, and so forth-inevitably deals with
concrete utterances (written and oral) belonging to various spheres of human activity and
communication: chronicles, contracts, texts of laws, clerical and other documents, various literary,
scientific, and commentarial genres, official and personal letters, rejoinders in everyday dialogue (in all
of their diverse subcategories), and so on. And it is here that scholars find the language data they need.
A clear idea of the nature of the utterance in general and of the peculiarities of the various types of
utterances (primary and secondary), that is, of various speech genres, is necessary, we think, for
research in any special area”.
12
O termo CoP (Communities of Practice) ou “comunidades de prática” foi cunhado por Lave & Wenger
em 1991, embora há quem diga que no mesmo ano Brown & Duguit (2001, p 198-213) já empregavam o
termo, usado como NoP (Network of Practice), isto é, “rede de prática”.

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Clareza e precisão de linguagem: definições e tendências

Conforme as obras jurídicas dos últimos vinte ou trinta anos, a tendência antes
prevalente do uso do “legalese” arcaico parece sofrer limitações na atualidade em
termos de redação jurídica13, visto não ser inclusiva, para que todos possam ler,
entender e livremente contratar.
Consoante Kimble14 (1994-1995, p. 52)15, ao contrário do que dizem os que são
contra a “clareza da linguagem jurídica”, linguagem simples não significa linguagem
“anti literária, anti intelectual, não sofisticada, simplória, feia, infantil ou vulgar”. A
razão de ser da linguagem simples tem relação, nada mais nada menos, com a
comunicação clara e eficaz. E, por isso, requer adotar uma nova atitude e uma
mudança fundamental que quebra com as práticas do passado16. Kimble possui
inúmeras publicações, as quais tornaram “Clarity International” uma organização
conhecida mundialmente17.
O movimento pela clareza e simplicidade da linguagem aparenta difundir-se
proporcionalmente ao número de organizações e autores que trabalham com o tema e
que parece multiplicar-se diariamente tais como o “Center for Plain Language”, a
“PLAIN - Plain Language Association International”, a “Plain Language”, do governo
norte americano, a Plain Language Network18, entre outras.
13
De acordo com a ideia, Freedman (2007), Dickerson (1980, 1986, 1986b), Garner (2013), Gémar
(2005) e Hathaway (2015). Também no mesmo sentido, Jenkins (2006), Kimble (2000, 2006 e 2014),
Joseph (2015), Mellinkoff (1963), Wydick (2005) e Martineau (1996). Alguns destes são linguistas e
juristas.
14
Dr. Joseph Kimble é Professor Emeritus da Cooley Law School da Western Michigan University, autor
de várias obras sobre o tema. Um dos maiores ícones defensores da Clarity na atualidade, é aclamado e
premiado pela Bar Association (Ordem dos Advogados) e outras entidades dos EUA e do mundo.
Membro, ex-presidente e fundador da organização “Clarity International”, membro da PLAIN e outras
ONGs (Organizações Não Governamentais) do ramo, que se reúnem em congressos mundiais
periodicamente.
15
Esta obra de Kimble (1994-1995, p.52.) também foi publicada online pela “PLAIN – Plain Language
Association International”. Disponível em: www.plainlanguagenetwork.org/kimble/critics.html.
16
Tradução livre de: (...) “Plain language is not anti literary, anti intellectual, unsophisticated, drab, ugly,
babyish, or base” (...) “Plain language has to do with clear and effective communication -- nothing more
or less. (...) It does, though, signify a new attitude and a fundamental change from past practices (...)”
(Op. Cit p. 52).
17
Joh Kirby, da Austrália, é a atual Presidente Mundial da Clarity International. Enquanto Kimble
(supramencionado) é ex-presidente e atual tesoureiro. Entidade encontrável em: www.clarity-
international.net.
18
Encontráveis, respectivamente, em www.CenterForPlainLanguage.org, www.PLAIN2015.ie,
www.PlainLanguage.gov, www.plainlanguagenetwork.org etc.

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O linguista e jurista David Mellinkoff é visto por parte dos profissionais da área
como o “pai” da Linguagem Clara (“Clarity”) e, antes disto, da Linguagem Jurídica nos
EUA. Para quem não prescinde de uma definição formal de clareza no inglês jurídico, é
nele que encontrarão uma das primeiras definições publicadas do que é e do que não
é. Mellinkoff (2004, p. 24) rejeita a linguagem arcaica – que considera sem clareza –
atribuindo-lhe as características de “wordy” (prolixa, com palavras em excesso), “não
clara”, “pomposa” e “aborrecedora”.
Vejamos o verbete da definição de Mellinkoff (1992, p.83) para “Clarity”
(clareza):

Clear. Clearly. Clearly, this adjective and adverb lack clarity. <‘I want
to make that perfectly clear.’> In a Micawberish hope that something
clearer will turn up, the law often teams them with other criteria,
e.g., clear and concise, clear and conspicuous, clearly and manifestly.
Yet lack of clarity, once recognized, need not be fatal. Where
flexibility is called for, clear and clearly have a legal role. (…)
1. (...) Clear nudges in the direction of clarity, as do its substitutes
intelligible, [lain, simple, understandable. <‘Written in a clear and
coherent manner using words with common and everyday
meanings’- NY Plain Language Law.> The essential in clarifying clear
and clearly, as well as their lack of independent clarity, is the
question ‘Clear to whom?’ <This instruction may have been clear to
lawyers, but it certainly wasn’t clear to the jury.>
2. Having a high degree of certainty (but not too high). a. Related to
evidence and proof - clear and compelling, clear and convincing:
weightier than the ordinary preponderance, though not necessarily
persuasive beyond reasonable doubt.” (…)19

19
Livre tradução do verbete e subverbetes do dicionário de Mellinkoff (falecido no fim do século XX),
sob análise: "Claro. Claramente. Claramente, este adjetivo e advérbio carecem de clareza. <'Eu quero
deixar isto perfeitamente claro."> Em uma esperança estilo Micawber (personagem de Charles Dickens
que foi acusado, mas era inocente) de que algo mais claro aparecerá, a lei muitas vezes se utiliza de
critérios adicionais, e.g., claro e conciso, claro e visível, clara e manifestamente. No entanto, a falta de
clareza, uma vez reconhecida, não necessita ser fatal. Onde for necessário flexibilidade, 'claro' e
'claramente' desempenham um papel jurídico. (...)
1. (...) 'Claro' se aproxima de 'clareza', assim como seus substitutos 'inteligível', 'descomplicado',
'simples', 'compreensível'. <(clareza é o que está) 'Escrito de forma clara e coerente usando palavras
com significados comuns e cotidianos.' - Lei da Linguagem Simples de Nova Iorque.> O essencial no
esclarecimento de 'claro' e 'claramente', bem como a sua falta de clareza independente, é fazer a
pergunta 'Claro para quem?' (Em relação às instruções dadas ao júri antes de decidir:) <Esta instrução
pode ter sido clara para advogados, mas certamente não o foi claro para o júri.>.
2. dotado de um grau de certeza bem alto (mas não demasiado alto). a. com relação a provas
processuais - claro e persuasivo, claro e convincente: mais forte do que a média preponderante, embora
não necessariamente convincente para além de qualquer dúvida razoável"(...) (sinais e caracteres
alfanuméricos originais mantidos).

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Dentre os benefícios do uso da linguagem clara e simplificada, está a


diminuição das dúvidas, das perguntas e dos problemas ao preencher formulários e
contratos, físicos ou digitais (eletrônicos), com a consequente diminuição da
necessidade de alocar tempo dos funcionários das organizações para auxiliar a resolver
dúvidas e problemas.
Para Mills & Duckworth (1996), o Direito teve (e tem) sua parcela de bons
redatores. No entanto, a esmagadora maioria é de redatores de “legalese” 20.
Projetando como possivelmente poderá ser o futuro, o processo de assimilação
das mudanças, o tempo que levará para que os redatores desses documentos
desenvolvam a técnica de escrever com clareza, para que se acostumem a esse novo
modo de redigir que, ainda que seja mais fácil, os fará pensar até automatizar o
processo, há que se considerar o prognóstico de Kimble (1994-1995, p.53) quando
propõe que “requererá (adquirir) destreza e (prática no) trabalho, além de
considerável tempo”21 para conseguir redigir um texto até que atinja sua redação ideal
final.

Estudo de casos e resultados práticos da aplicação das regras de clareza

Há um artigo de título curioso que parece bem esclarecedor a respeito da


clareza na linguagem contratual. Foi publicado por David Daly (1999, p. 1155) e se
chama Domando a cláusula contratual do Inferno: um estudo de caso 22. Nele, o autor
dá uma boa ideia de como a linguagem jurídica, às vezes, pode ser difícil, hermética,
restrita a uns poucos iniciados. Ele trabalhou muitos dias para conseguir desenrolar e
reescrever um contrato cujas cláusulas, antes da mudança, pareciam ilegíveis, como
segue:

Caso 1 - Antes 23:


20
É o que ensinam Mills & Duckworth (1996, VII, VIII, 67-68). Tradução livre de: “Of course, the law has
had its share of fine stylists, but it has been overwhelmed by legalese. And the costs must be
enormous”. Legalese significa termo pejorativo que designa inglês jurídico pomposo e difícil de
entender, conforme os autores.
21
Tradução livre de: “It takes skill and work and fair time to compose” (KIMBLE, Op. Cit., p. 53).
22
Livre tradução do título da obra, assim como, mais adiante, do ‘Caso 1-Antes’ e do ‘Caso 1-Depois’, de
Daly.
23
No original, em inglês: "8. Indemnification: (c) Promptly after receipt by an indemnified party under
the Section 1(g), 8(a) or 8(b) hereof of notice of the commencement of any action, such indemnified
party shall, if a claim in respect thereto is to be made against an indemnifying party under such Section,
give notice to the indemnifying party of the commencement thereof, but the failure so to notify the
indemnifying party shall not relieve it of any liability that it may have to any indemnified party, except to

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“8. Indenização: (c) Prontamente após recebimento, pela parte indenizada, sob a égide
da Seção 1(g), 8(a) ou 8(b) em epígrafe, de notificação de propositura de qualquer
ação judicial, tal parte indenizada deverá24, se uma demanda a respeito do retro
mencionado for ser proposta contra uma parte indenizante sob a tutela da referida
seção, dar notificação à parte indenizadora quanto à propositura desta, mas a falta de
tal notificação à parte indenizadora não deverá isentá-la de qualquer responsabilidade
que possa porventura ter, de indenizar a qualquer parte indenizada, exceto até ao
limite de que a parte indenizadora possa provar que a defesa quanto à referida ação
tenha sido, destarte, prejudicada (...)”25.

No estudo do primeiro caso, aplicaram-se regras de clareza tais como editar


sentenças demasiado longas, alterar enunciados que não começavam com a cláusula
principal, retirar vocábulos dispensáveis para remover excesso de palavras nas frases,
subdividir o texto que se apresentava como um todo – um só bloco – em subpartes
mais bem dispostas e com mais espaços “brancos” a fim de facilitar a leitura, entre
outras melhorias. O efeito final, com a cláusula contatual reescrita, resultou como
segue.

Caso 1 - Depois 26:

the extent the indemnifying party demonstrates that the defense of such action is prejudiced thereby. If
any (...)"
24
Note-se as palavras que costumam apresentar problemas de compreensão e que, por isto, são
normalmente editadas. O vocábulo “deverá”, no original, é “shall”. Ressalte-se que no português usa-se
a palavra “deve” para designar tanto o termo “shall” (dotado de uma conotação mais cogente) como
para o termo “should” (cuja conotação é de mera faculdade, possibilidade), embora este último, em
português, normalmente apareça no pretérito imperfeito: “deveria”. Nota de Daly, op. cit.
25
Na exposição dos textos dos estudos de casos, ‘antes’ e ‘depois’ da aplicação das regras de clareza,
estaremos, excepcionalmente, e apenas quando necessário, quebrando as regras de formatação
prescritas pelas normas do presente trabalho acadêmico a fim de evidenciar o contraste entre o ‘antes’
e o ‘depois’ tal qual demonstrado no exemplo original. Dentre as regras de clareza o uso do espaço em
branco é crucial para uma melhor visualização, leitura e compreensão, conforme se constata lendo as
obras referidas.
26
No original, em inglês: “8.3 Legal Action Against Indemnified Party.
(A) Notice of the Action
A party that seeks indemnity under paragraph 1.7, 8.1 or 8.2 must promptly give the other
party notice of any legal action. But a delay in notice does not relieve an indemnifying party of
any liability to an indemnified party, except to the extent that the indemnifying party shows
that the delay prejudiced the defense of the action.
(B) Participating in or Assuming the Defense (...) ".

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“8. Indenização
8.3 Ação Legal Contra a Parte Indenizada.
(A) Notificação (de Início da) Ação: A parte que buscar indenização sob o parágrafo
1.7, 8.1 ou 8.2 deve prontamente dar à outra parte notificação sobre qualquer ação
jurídica. Mas o atraso na notificação não libera a parte indenizante de qualquer
responsabilidade para com a parte indenizada, salvo se a parte indenizante provar
que tal demora prejudicou a possibilidade de defesa contra a ação.

(B) Participação na Defesa (ou Assumir a Defesa): (...)”.

Sem dúvida, o “depois” é mais agradável de ler, fácil de entender. Após ler o
‘antes’, evidencia-se por que Daly chamou tal cláusula de “infernal”. Ele passou horas
editando-a. Vejamos outros exemplos que, por limitação de espaço, serão mais
breves27:

Caso 2 - Antes (do ‘U.S. Department of Health and Human Services’):


“The Dietary Guidelines for Americans recommends a half hour or more of moderate
physical activity on most days, preferably every day. The activity can include brisk
walking, calisthenics, home care, gardening, moderate sports exercise, and dancing.”

Caso 2 - Depois (do “U.S. Department of Health and Human Services”):


“Do at least 30 minutes of exercise, like brisk walking, most days of the week.”

Caso 3 - Antes (do “U.S. Government Fishing Directive”):


“After notification of NMFS, this final rule requires all CA/OR DGN vessel operators to
have attended one Skipper Education Workshop after all workshops have been
convened by NMFS in September.”

Caso 3 - Depois (do “U.S. Government Fishing Directive”):


“Vessel operators must attend a skipper education workshop before commencing
fishing.”

27
Os dois exemplos abaixo encontram-se no www.plainlaguage.gov, sendo o primeiro do Departamento
de Saúde e Serviços Humanos e o segundo da Diretiva para a Pesca do Governo Americano. Alguns são
também encontrados no material disponível no sítio da American Society of Legal Writers.

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Dentre os meios de simplificação da linguagem jurídica adotados pelos autores


em epígrafe, citam-se ainda alguns exemplos da coleção de Tiersma (1999, p. 205 e
206):
a) Ao invés de “no person shall obstruct this passageway”28, diga-se “do not obstruct
this passageway” (em livre tradução, “não obstrua esta passagem”).
b) No lugar de “it is your duty to”, “it is required that”, “it is necessary” [em livre
tradução, “é seu dever”, “é requerido que”, “é necessário (que)”, deve-se usar “you
must…” (i.e., “você deve”, com sentido cogente, por isto, mais adequada seria a
tradução: “é obrigatório”).
Aparentemente, após editados pelos autores, os textos, especialmente o de
David Daly, tornaram-se mais diretos, específicos, curtos e fáceis de visualizar e
entender.

Legislação e clareza da linguagem

Um dos objetivos pelos quais as leis são publicadas é para dar conhecimento ao
público a respeito de ato considerado como proibido pela lei (TIERSMA, 1999, p. 205).
Por isto a linguagem legal deve ser acessível ao público, especialmente se
considerarmos a tendência nacional e as políticas públicas pela ampla inclusão social.
Os contratos de massa fazem consumidores novos todos os dias. Esses, às
vezes, nem sabem que acabam de contratar um serviço por clicar no botão errado de
mensagem estilo “pop-up”29 em seu telefone celular, computador, tablete, nos
serviços de televisão, internet, entre outros. Desde a receita federal, em cujo sítio 30 há
ferramentas para fazer declaração de imposto de renda, passando por websites de
educação31, saúde32, notícias33, Correios34 e muitos outros serviços e produtos
oferecidos por empresas privadas ou públicas, do governo35 ou não36, ONGs37, e.g.,
28
Em livre tradução, “nenhuma pessoa deve obstruir esta via de passagem”.
29
Mensagens que aparecem espontaneamente nos telefones celulares e demais aparelhos sem o cliente
haver solicitado.
30
Disponível em www.receita.fazenda.gov.br/PessoaFisica/IRPF/2015/declaracao/download-
programas.htm. Acessado em 15 jul, 2015.
31
Por exemplo, UAB – Universidade Aberta do Brasil – disponível online em:
uab.capes.gov.br/index.php/cursos-274841/cursos-ofertados. Acessado em Abril de 2015.
32
Exemplificação: www.saude.gov.br.
33
Como os sites da BBC, Globo, Terra, Folha de São Paulo, Estadão etc.
34
Que se encontram em www.correios.com.br .
35
Exemplo: Governo Eletrônico: www.governoeletronico.gov.br.
36
Exemplo: CEEE: www.ceee.com.br/ .
37
Exemplo de ONG (Organização Não Governamental): Instituto Sócio Ambiental, em
www.socioambiental.org.

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com informações sobre direitos do consumidor, ou para a mulher vítima de violência e


até sítios de redes sociais, genealogia, sites de compras, de namoro online etc.
Em face ao grande número de pessoas que pode atingir e que pode não
conhecer linguagem jurídica, nos EUA há uma lei chamada “The Plain Writing Act” (A
Lei da Escrita Simples) de 2010, que entrou em vigor em 2011. Ela determina que toda
a agência governamental use linguagem clara em seus documentos online ou
impressos.
Após haver entrado em vigor em 2011 nos EUA, a ideia de clareza e
simplicidade parece ter se espalhado de forma tal que não nos surpreenderá quando
disserem que se espalhou pelo mundo. A inclusão social tende a abarcar vários
âmbitos da sociedade. O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão do Brasil
disponibiliza em seu site a minuta do anteprojeto de Lei Orgânica da Administração
Pública Federal e Entes de Colaboração de 200938, o qual tramita no legislativo:

Art. 53. Os órgãos e as entidades estatais devem, anualmente, até 31


de março, fazer publicar, em meio eletrônico, em linguagem acessível
ao cidadão, seu relatório de atividades, indicando as metas e os
resultados institucionais alcançados e circunstanciando os obstáculos
encontrados.

O dispositivo retro determina que seja tornado público, por meio eletrônico,
anualmente, em linguagem acessível ao cidadão um relatório das atividades dos
órgãos públicos, incluindo metas, resultados e óbices à sua obtenção.
Além disto, o Manual de Redação da Presidência da República de 2002 afirma:
“A clareza deve ser a qualidade básica de todo texto oficial39. Texto similar é
encontrado em outras websites e instrumentos legislativos, como o do Manual de
Padronização de Atos Administrativos Normativos, do Senado Federal40. De acordo
com o exposto, parece haver vários estudos, leis e projetos de lei surgindo sobre a
“clarity” (clareza) ou “plain language” (linguagem simples) nos textos de documentos,
jurídicos ou não, físicos ou eletrônicos, expandindo a tendência à previsão legal da
proteção à inclusão social.

38
Disponível para baixar em www.direitodoestado.com.br/leiorganica/anteprojeto.pdf e para visualizar
em ww.planalto.gov.br. Acessado e baixado em 20 de julho de 2015.
39
MENDES, Gilmar Ferreira e FORSTER, Jr., Nestor José. Manual de redação da Presidência da República.
Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/manual/manual.htm . Acesso em 20/09/2015.
40
Manual de Padronização de Atos Administrativos Normativos. Diretoria Geral do Senado Federal.
Brasília: Ed. Preliminar, 2012. Disponível em:
www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/496338/000960587.pdf?sequence=1. Acesso em:
10/09/2015.

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Nos livros dos autores supra parece predominar a prática de constante e


repetida “revisão” dos textos que estejam despidos de clareza. Essa parece ser a
ferramenta primordial tanto antes (enquanto se elabora), como depois da elaboração
de um texto41.

Considerações finais

Tradicionalmente, a linguagem jurídica tendia a uma constante busca pela


precisão e luta contra a ambiguidade. Quase como uma obsessão, conforme Kimble
(Op. Cit. 1994-1995). No entanto, ao que parece, a linguagem legal tende a ser
compreendida apenas pelo especialista, mantendo os leigos a distância.
A busca de clareza e simplicidade na redação de documentos para o público
dos contratos de massa e demais documentos legais parece haver crescido em
relevância diretamente proporcional às organizações internacionais que se preocupam
com o assunto. Isso se dá com vistas a propiciar maior inclusão social e democratização
da informação, maior igualdade de acesso do cidadão aos direitos, serviços e produtos,
obedecendo, assim, às Políticas Públicas. O inglês como língua franca é usado não
apenas em países que interagem com empresas anglo-americanas, mas também em
países com outros idiomas que negociam entre si: Coreia com a China, Índia com o
Brasil etc. E uma parcela desses países assina contratos e documentos legais em inglês.
Beveridge (2000, p. 10) considera o ensino do inglês jurídico como a melhor solução
para começar a resolver muitos dos problemas aqui tratados.
Considerando a aparentemente incessante criação das ONGs
supramencionadas, bem como das normas legais defendendo a clareza da linguagem
jurídica, no Brasil e no exterior, pode-se dizer que um provável futuro poderia bem ser
o crescimento do estudo da clareza no inglês jurídico até que atinja sua meta. E, após
isso, possivelmente tendesse a continuar como um controle de qualidade dos textos
legais para que o público em geral tivesse acesso a entender melhor aquilo que assina.

41
Para que não se omita o tema, vale comentar uma vantagem do ciberespaço em relação ao texto
impresso: aquele pode ser editado com mais facilidade e prontidão do que este. Nesse sentido, ver
Morkes & Nielsen (1998).

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A CONSCIÊNCIA METALINGUÍSTICA EM CRIANÇAS BILÍNGUES

Ellen Cristina Gerner Siqueira1


Talita dos Santos Gonçalves2

Introdução

Este estudo encontra-se no espaço de interação entre estudos da Psicologia


Cognitiva e da Psicolinguística, no que diz respeito ao bilinguismo infantil e à
consciência metalinguística, inserindo-se no inventário de estudos que investigam
possíveis vantagens advindas da experiência bilíngue.
O bilinguismo é uma realidade do mundo, seja originado pelos movimentos
migratórios, configurações familiares, negócios, necessidade acadêmica, interesse
pessoal ou relações históricas, geográficas e políticas, entre tantos outros motivos que
fazem com que uma pessoa ou comunidade viva uma experiência com duas ou mais
línguas. Por envolver muitos aspectos, como idade de aquisição, status das línguas,
nível de proficiência, contexto de aprendizagem das línguas, por exemplo, o
bilinguismo é conceituado e classificado a partir de muitas perspectivas, gerando
muitas discussões.
Neste trabalho, entende-se por bilinguismo a capacidade que um indivíduo
possui para funcionar em duas línguas ou dialetos de acordo com suas necessidades
diárias (GROSJEAN, 2010). Nesse sentido, muitas pessoas se encaixam nessa
perspectiva de bilinguismo, fazendo com que a população bilíngue e as circunstâncias
do bilinguismo gerem muitos aspectos a serem investigados, como, por exemplo, as
possíveis vantagens metalinguísticas no bilinguismo infantil.
A consciência metalinguística refere-se à habilidade de segmentar e manipular
a língua reflexivamente em seus diferentes níveis (GOMBERT, 1990; MALUF, 2003). Por
volta dos dois anos de idade, a criança já apresenta comportamentos reflexivos sobre
aspectos fonológicos (BARRERA; MALUF, 2003). Posteriormente, outros aspectos da

1
Licenciada em Comunicação Social, bolsista BPA (PUCRS).
E-mail: ecgsiqueira@gmail.com
2
Doutoranda em Letras, bolsista CAPES (PUCRS).
E-mail: talita.goncalves@acad.pucrs.br

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língua serão objeto do pensamento, como a morfologia, a sintaxe, a semântica, a


pragmática e o texto. O objetivo deste estudo foi discutir evidências de vantagens no
desenvolvimento metalinguístico de crianças bilíngues em comparação com crianças
monolíngues.
Este artigo é uma revisão bibliográfica e está estruturado em seções.
Apresentam-se considerações sobre consciência metalinguística e bilinguismo infantil
na parte teórica. Na sequência, expõe-se o método adotado para esta investigação e,
posteriormente, os resultados e as discussões. Ao final, são levantadas algumas
reflexões sobre esta investigação.

1 Consciência metalinguística e bilinguismo infantil

Para Bialystok e Barac (2012), a consciência metalinguística refere-se ao


conhecimento explícito da estrutura linguística e à capacidade de acessar esse
conhecimento intencionalmente. Esse conhecimento é crucial no desenvolvimento das
crianças para os usos complexos da linguagem e da alfabetização. Assim, a consciência
metalinguística permite que as crianças separem a estrutura subjacente da língua do
significado e possam fazer julgamentos semânticos, sintáticos, fonológicos e aspectos
morfológicos da língua. Com essa habilidade, as crianças analisam representações
linguísticas para extrair regras gerais da gramática e torná-las explícitas para
diferenciar aspectos das sentenças ou palavras.
A habilidade fonológica refere-se à capacidade de identificar e manipular os
fonemas das unidades linguísticas (GOMBERT, 1992), enquanto que a habilidade
morfológica consiste na capacidade de reflexão sobre os morfemas das unidades
linguísticas (SPINILLO et al., 2010). No nível sintático, essa consciência corresponde à
habilidade de reflexão consciente sobre os aspectos sintáticos da linguagem e o
controle do uso das regras gramaticais. Já a consciência semântica é atribuída tanto à
capacidade de reconhecer o sistema linguístico como um código arbitrário e
convencional quanto à habilidade de manipular, automaticamente, as palavras sem
que seus significados sejam afetados (GOMBERT, 1992). A consciência pragmática
revela-se na capacidade do indivíduo de refletir sobre os aspectos contextuais que
determinam o uso da língua, bem como de manipular informações advindas dessa
relação. Por fim, a consciência textual diz respeito à capacidade de pensar sobre a
estrutura do texto, suas partes, convenções e marcadores linguísticos que constituem
o texto como uma unidade.

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A criança é capaz de usar a língua como instrumento para comunicar-se, antes


mesmo da alfabetização, pois durante a interação social vai adquirindo os mecanismos
que lhe permitem expressar seu pensamento ao mundo. Além disso, antes de
qualquer instrução formal, a criança é capaz de analisar deliberadamente os aspectos
formais da língua. Em geral, a criança é capaz de usar tanto o conhecimento sobre
línguas como usar a língua.
Estudos do início da década de 60 lançaram a hipótese da vantagem bilíngue
ancorada na conclusão de Peal e Lambert (1962) de que crianças bilíngues teriam uma
flexibilidade cognitiva superior em relação a seus pares monolíngues. Essa conclusão
foi explicada através da alternância entre os dois códigos linguísticos que o bilíngue
utiliza durante suas interações verbais. Após essa investigação de Peal e Lambert, as
pesquisas sobre bilinguismo focaram no desempenho linguístico e metalinguístico,
evidenciando um desenvolvimento metalinguístico mais precoce em crianças bilíngues
(BIALYSTOK, 2001).
Galambos e Hakuta (1988) indicam que as primeiras evidências do efeito
benéfico do bilinguismo surgiram de estudos da consciência metalinguística de
crianças. A vantagem metalinguística de bilíngues manifesta-se, principalmente, no
desempenho de tarefas de funções executivas3 que incluem conflitos e requerem
controle (BIALYSTOK, 1986), apontado para uma capacidade cognitiva mais
especializada em bilíngues. Piantá (2011) aponta que crianças bilíngues possuem
habilidade de refletir sobre a natureza e as funções da linguagem diferentemente das
crianças monolíngues.
A explicação mais comum é de que as duas línguas estão sempre ativas nos
bilíngues, fazendo com que as funções executivas atuem sobre o processamento
linguístico, focando atenção em uma dessas línguas. Dessa maneira, o bilinguismo
“treina” as funções executivas através da seleção constante de um dos idiomas,
tornando-as mais desenvolvidas. Ou seja, a vantagem metalinguística dos bilíngues
residiria muito mais na sua capacidade cognitiva do que no processamento linguístico
em si (BIALYSTOK, 2015). A partir disso, vale ressaltar o que se entende por bilinguismo
infantil.
Do ponto de vista da aquisição da linguagem, o bilinguismo infantil apresenta
duas formas de classificação: o simultâneo e o sucessivo. Segundo Yip (2013), a linha

3
Conforme Diamond (2013), essas funções são responsáveis pelo jogo mental que o indivíduo realiza
com suas ideias, tornando possível o pensamento antes da ação, o enfrentamento de desafios
imprevistos, a resistência a tentações e a conservação do foco. Para a autora, dentre as principais
funções executivas encontram-se a inibição, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva.

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que divide os dois tipos de bilinguismo é arbitrária, uma vez que diferentes estudiosos
do tema discordam sobre a idade que definiria se a aquisição das línguas é simultânea
ou sucessiva. Baseada em Grosjean (2008), a autora define o bilinguismo simultâneo
como aquele em que a criança está exposta às duas línguas desde o nascimento,
fazendo uso de ambas regularmente durante a primeira infância, antes mesmo de
ingressar na pré-escola. Assim, a autora exclui da definição de bilinguismo simultâneo
as crianças expostas a duas línguas, mas que produzem apenas em uma delas.
Em termos de nomenclatura, os teóricos também divergem sobre as
classificações das línguas. Uma vez simultâneas, não poderiam ser definidas,
tradicionalmente, como L1 e L2, ou língua materna e segunda língua. Assim, tem-se
utilizado terminologia como Língua A e Língua B ou, ainda, Língua A e Língua α.
Já o conceito de bilinguismo sucessivo está presente nas teorias de aquisição de
linguagem relacionada a diversas idades, não somente à infância. Segundo Li (2013),
enquanto os termos “primeira língua” (L1) e “segunda língua” (L2) não são bem aceitos
no bilinguismo simultâneo, dada sua natureza sincrônica, nos estudos sobre
bilinguismo sucessivo os impasses surgem em relação à aquisição da segunda língua,
principalmente no que diz respeito à idade de aquisição e no impacto que isso traz à
produção do falante. No bilinguismo infantil sucessivo, segundo Wei (2000), o período
sensível para aquisição da segunda língua gira em torno dos cinco anos de idade.
O estudo da consciência metalinguística relacionada ao bilinguismo infantil é de
grande relevância, pois a literatura indica que processos metalinguísticos parecem
desenvolver-se precocemente em crianças bilíngues (BIALYSTOK, 1986, 1993). Essa
hipótese poderia ser explicada pelo uso de dois códigos linguísticos. A criança bilíngue
teria uma noção antecipada sobre a arbitrariedade da língua, porque entenderia que
um objeto do mundo teria uma representação em cada língua. Após essas
considerações breves sobre o tema, apresenta-se o método e, logo após, os resultados
e discussões.

2 Método

Este trabalho apresenta uma discussão sobre o desenvolvimento


metalinguístico no bilinguismo a partir de uma revisão bibliográfica e abrangeu
publicações indexadas nas bases de dados eletrônicas: Apa Psycnet, Directory of Open
Access Journals, ProQuest Central New Platform, EBSCOhost Academic Search Premier,
Elsevier ScienceDirect Journals, PUBMED e Scielo. Os artigos foram publicados em
inglês, entre os anos de 2000 e 2015. Os indexadores empregados foram “children
AND metalinguistic awareness AND bilingualism” e “crianças AND consciência

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metalinguística AND bilinguismo”. Além desses indexadores, foram utilizadas as


combinações “children AND metalinguistic awareness” e “crianças AND consciência
metalinguística”. Foram selecionados artigos experimentais, revisados por pares.
Os artigos identificados pela estratégia de busca inicial foram avaliados
conforme os seguintes critérios de inclusão: (1) os participantes das pesquisas foram
crianças bilíngues, (2) foram revisados por pares, (3) foram escritos em inglês,
português ou espanhol, (4) foram disponibilizados na íntegra, (5) avaliam ao menos
uma habilidade metalinguística (6) os participantes apresentam processamento típico;
e (7) os participantes fazem parte do contexto formal de ensino. Os artigos de revisão
ou aqueles que não atenderam aos critérios estipulados foram excluídos.

3 Resultados e discussão

Foram encontrados na primeira estratégia de busca (children AND


metalinguistic awareness AND bilingualism) nove artigos, todos em inglês e revisados
por pares. Na segunda estratégia (crianças AND consciência metalinguística AND
bilinguismo), nenhum artigo foi encontrado. Na terceira estratégia, retornaram 81
resultados, 26 deles revisados por pares. Na última estratégia, apenas um artigo em
língua portuguesa foi encontrado, mas já havia aparecido na busca anterior. Outros
dois artigos apareceram entre a primeira e a terceira busca. Excluindo-se esses artigos
repetidos, a revisão bibliográfica organizou-se, então, em torno dos 33 artigos
revisados por pares.
Após a leitura do resumo, 24 artigos foram excluídos – alguns eram de revisão
bibliográfica, outros tiveram adultos jovens como participantes, e ainda outros não
avaliaram nenhuma habilidade metalinguística ou investigaram crianças monolíngues,
como foi o caso do único artigo publicado em língua portuguesa. Ao final, nove artigos
atenderam aos critérios propostos. O Quadro 1 apresenta as principais informações
dos artigos selecionados.

Quadro 1 – Informações dos artigos selecionados


Autor/ano Idade/n Línguas Tarefas Tipo de
consciência
Laurent; 8-10 anos/N = 110 Francês Apagamento de sílaba e de fonema
Martinot (2010) Francês/Provençal Permuta de sílabas e fonemas Fonológica
Inteligência verbal
Cheung et al. 5-9 anos/ N=141 Chinês /Inglês Memória de curta duração verbal Morfológica
(2010) Leitura de palavras Fonológica
Produção e apagamento de rima
Apagamento de fonema; Vocabulário
Percepção da fala

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Quadro 1 (continuação) – Informações dos artigos selecionados


Autor/ano Idade/n Línguas Tarefas Tipo de
consciência
Tarefa de edição e correção
Francis (2002) 7-13 anos/ N=45 Espanhol/Náuatle Análise de categorias; Correção Considera as
ortográfica ao nível da palavra habilidades
Morfossintaxe/semântica ao nível da como uma
sentença; Narrativa oral; Reconto unidade.
Leitura; Escrita; Efetividade de
correção/edição
Serratrice et al. 6-10 anos/N=167 Inglês/Italiano Julgamento gramatical de sentenças Sintática
(2009) Italiano/Espanhol
Correspondência de fonema inicial
Kang (2010) 5-6 anos/ N=126 Inglês/Coreano Correspondência de rima PAL-RW Fonológica
Teste de rima estranha
Teste de sílaba estranha
Peabody Picture VocabularyTasks-III
Identificação de palavras
Partes A e B do PAL
Bateria de leitura e escrita (PAL-RW)
Bialystok; Peabody Picture Vocabulary Tasks
Mcbride-Chang; 5-6 anos /N= 200 Inglês Apagamento de sílaba Fonológica
Luk; Inglês/Cantonês Apagamento de sílaba onset
(2005) Contagem de fonema
Decodificação de palavra
Bialystok; Barac E1 8 anos /N=100 E1 – Inglês/Hebreu Tarefas de conhecimento linguístico -
(2011) E2 7-10 anos /N=80 E2 – Inglês/Francês Questionário sobre o uso de cada Morfológica
língua
Peabody Picture Vocabulary Test
KBIT-2; Tarefas metalinguísticas -
Wug task e Julgamento gramatical
Davidson; E1 5-6 anos/ N=20 Inglês Urdu/Inglês Peabody Picture Vocabulary Test
Raschke; Pervez E2 3- 6 anos/N=72 Julgamento sintático Sintática
(2010)
E1- Julgamento de rima e onset
Chen et al. E1 8-12 anos/N= 337 Mandarim E2-Teste de QI - Raven’s Standard Fonológica
(2012) E2 7-8 anos/N=62 Dialetos Minnan,
Progressive Matrices, Julgamento de
E3 6-8 anos/N=90 Puxian e Mindong
rima e onset
E3 -Teste de consciência de sílaba e
tom
E – Experimento; KBIT-2 - The Kaufman Brief Intelligence Test, Second Edition; PAL - Process Assessment
of the Learner; RW- Reading and Writing

Através do Quadro 1, observou-se que a maioria dos artigos investiga a


consciência fonológica, há dois que pesquisam a consciência morfológica e outros dois
a consciência sintática. Entre os artigos, encontrou-se um que avalia a consciência
metalinguística como uma habilidade única. As habilidades investigadas,
principalmente a habilidade fonológica, são desenvolvidas e requisitadas
principalmente na infância, durante a alfabetização. Os participantes têm idade entre
três e treze anos de idade e foram recrutados em ambientes formais de ensino.

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Entre as línguas estudadas, o inglês é a língua predominante, principalmente


em relação a alguma língua asiática. O francês e o chinês parecem em duas
investigações cada. Uma das pesquisas estuda o bilinguismo provocado pelo uso do
mandarim e dialetos regionais chineses. Além desses dialetos chineses, algumas
línguas minoritárias são investigadas, como o náuatle, o cantonês e o provençal.
Dentre os estudos, quatro envolvem alguma língua de origem latina, mas nenhum a
língua portuguesa.
O estudo de Laurent e Martinot (2010) buscou determinar se a experiência
bilíngue aumenta o desenvolvimento da consciência fonológica em leitores bilíngues
iniciantes (de escolas bilíngues) comparados a seus pares monolíngues (de escolas
monolíngues). Os resultados da pesquisa sugerem que os alunos de escola bilíngue
apresentam uma consciência fonológica mais desenvolvida que seus pares
monolíngues.
Cheung et al. (2010) examinaram as correlações entre a percepção da fala, a
consciência metalinguística (fonológica e morfológica), a leitura de palavras e o
vocabulário em uma primeira língua (L1) e uma segunda língua (L2). Os resultados
dessa investigação indicam que, primeiro, a percepção da fala foi mais preditiva da
leitura e do vocabulário na L1 do que L2. Segundo, enquanto a consciência morfológica
foi preditiva da leitura e do vocabulário em ambas as línguas, a consciência fonológica
desempenhou um papel depois que a consciência morfológica foi controlada na L2
(inglês). A percepção da fala em L1 e a consciência metalinguística predisseram a
leitura de palavras em L2, mas não o vocabulário. Por fim, as diferenças de
desempenho nas tarefas são atribuídas às variações nas propriedades e aos contextos
de aprendizagem de cada língua.
O trabalho de Francis (2002) examinou a relação entre fatores envolvidos na
proficiência bilíngue, na alfabetização e no desenvolvimento da consciência
metalinguística. A investigação teve três objetivos: (1) descrever as tendências que
emergem de um inventário de correções e revisões de amostras de uma primeira
produção escrita de crianças de séries iniciais; (2) comparar essas tendências com
descobertas de estudos anteriores em que as amostras foram tomadas a partir de
reflexões metalinguísticas de participantes focados em aspectos do conhecimento de
suas duas línguas; e (3) propor um quadro para pesquisas futuras na relação entre o
bilinguismo e a consciência metalinguística. Em geral, Francis observou que a
capacidade de mudança nos textos aumentou da segunda para a sexta série, crianças
mais velhas são mais propensas a focar sua atenção sobre os níveis de processamento
da linguagem para além do nível mais local de correções ortográficas. O

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desenvolvimento da proficiência linguística bilíngue implica em uma capacidade de


começar a refletir conscientemente sobre padrões que envolvem sequências de textos
mais longos sucessivamente.
Serratrice et al. (2009) investigaram se a capacidade de julgar a gramaticalidade
de uma sentença em uma língua é afetada pelo conhecimento da construção
correspondente na outra língua. Embora o desempenho em inglês tenha sido em geral
pobre, não houve diferenças significativas entre os bilíngues inglês/italiano e seus
pares monolíngues. Em contrapartida, verificou-se que o conhecimento de inglês
afetou a capacidade dos bilíngues de discriminação entre as sentenças gramaticais e
agramaticais em italiano. Os bilíngues inglês/italiano foram significativamente menos
precisos que os monolíngues e os bilíngues espanhol-italiano. A língua da comunidade
e a idade também desempenharam um papel significativo na acurácia das crianças.
A investigação de Kang (2010) examinou se há vantagens bilíngues em termos
de consciência fonológica em crianças que estão adquirindo duas línguas alfabéticas
diferentes fonológica e ortograficamente, além de investigar fatores da alfabetização
que explicam as variâncias na consciência fonológica, em comparação com crianças
monolíngues. Os resultados indicam que crianças bilíngues tiveram vantagens em
tarefas de consciência fonológica tanto na L1 como na L2, existiu transferência
linguística no processamento da consciência fonológica da L1 e da L2 e a consciência
fonológica dos dois grupos foi explicada por diferentes fatores. Esses resultados são
discutidos de acordo com as características específicas da L1 e os efeitos das
diferenças de instrução na língua.
Bialystok, McBride-Chang e Luk (2005) examinaram o efeito do bilinguismo na
aprendizagem de leitura em duas línguas que não compartilham o mesmo sistema de
escrita. Os autores apontaram para a importância de avaliar as características de cada
língua e o contexto de instrução em que as crianças tornam-se alfabetizadas, pois o
bilinguismo exerce efeito sobre a alfabetização.
O objetivo da investigação de Bialystok e Barac (2011) foi examinar crianças
que estavam em processo de tornarem-se bilíngues, avaliando o nível de proficiência e
o tempo no programa de imersão. Segundo os autores (2011), os resultados avançam
a compreensão da relação entre o bilinguismo e o desempenho metalinguístico. Ao
contrário do controle executivo, as vantagens metalinguísticas foram relatadas em
níveis modestos de bilinguismo, mostrando que o que fez as crianças progredirem no
desenvolvimento metalinguístico não foi o bilinguismo, mas a proficiência linguística.
Davidson, Raschke e Pervez (2010) compararam o desempenho de crianças
bilíngues e monolíngues em tarefas de julgamento gramatical. Nos dois experimentos

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apresentados, observou-se que bilíngues de 5 e 6 anos de idade superam seus pares


monolíngues em tarefas que avaliam a consciência sintática. Além disso, a investigação
mostra que crianças bilíngues superam monolíngues em pelo menos algumas medidas
de capacidade metalinguística.
O estudo de Chen et al. (2013) investigou o efeito da experiência com os
dialetos min na consciência fonológica do mandarim de crianças chinesas. Os
resultados indicam que a experiência dialetal interfere na consciência fonológica do
mandarim de crianças chinesas de 1ª e 2ª série, mas o efeito desaparece quando as
crianças avançam as séries. Essa experiência com dois dialetos afeta de maneira mais
efetiva a consciência fonológica do mandarim, mas de uma forma semelhante à
experiência com um dialeto.
Entre os nove estudos apresentados, seis apresentam alguma vantagem
metalinguística de crianças bilíngues sobre seus pares monolíngues (LAURENT,
MARTINOT, 2010; FRANCIS, 2002; SERRATRICE et al., 2009; KANG, 2010; BIALYSTOK,
MCBRIDE-CHANG, LUK, 2005; DAVIDSON, RASCHKE, PERVEZ, 2010). A vantagem
refere-se ao desenvolvimento e ao progresso da consciência fonológica e sintática, que
parecem ser mais ampliadas em crianças bilíngues. Essas habilidades são evidenciadas,
geralmente, nas duas línguas da criança e melhoram durante a alfabetização.
Além disso, essa revisão bibliográfica mostra que o conhecimento
metalinguístico de uma língua, no caso o inglês, impacta na capacidade de julgamento
gramatical na outra língua (italiano) (SERRATRICE et al., 2009) e implica na reflexão
deliberada sobre padrões sintáticos (FRANCIS, 2002). Em geral, os estudos
apresentados mostram que crianças bilíngues superam monolíngues em algumas
medidas de capacidade metalinguística e que o bilinguismo exerce efeito positivo na
alfabetização.
Quatro artigos apontaram para a importância da análise das especificidades das
línguas dos bilíngues, pois suas características exercem papel fundamental no
desempenho linguístico das crianças. Além disso, alguns artigos mencionam o contexto
de aprendizagem dessas línguas, incluindo a idade e o tipo de instrução recebida pela
criança, como fatores significativos para a performance das crianças bilíngues.
Dois artigos apontam para uma influência menos significativa do bilinguismo
em relação à consciência metalinguística. Por exemplo, no estudo de Serratrice el al.
(2009), os bilíngues inglês/italiano apresentaram uma acurácia menor que os
monolíngues e os bilíngues espanhol-italiano em tarefas de julgamento gramatical.
Talvez o segundo grupo de bilíngues tenha sido favorecido pela proximidade entre as
línguas. Já no estudo de Bialystok e Barac (2011), o progresso no desenvolvimento

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metalinguístico sofreu maior impacto da proficiência linguística do que do bilinguismo


em si.
A partir desses resultados, observa-se que a vantagem bilíngue em tarefas
metalinguísticas surge na maioria dos estudos elencados, porém seria inapropriado
afirmar categoricamente que essa vantagem é uma característica do bilinguismo, já
que alguns estudos indicam a inexistência de diferenças de desempenho entre crianças
mono e bilíngues. Após a apresentação e discussão dos dados encontrados, passa-se às
palavras finais.

Considerações finais

A consciência metalinguística tem sido extensivamente estudada em


populações bilíngues. Segundo Bialystok (2001), as pesquisas com tarefas
metalinguísticas direcionam-se para a hipótese de que o bilinguismo melhora o
desempenho do sistema de funções executivas tanto em processamento verbal
quanto não verbal. Essas investigações citadas pela autora e aquelas apresentadas
neste trabalho mostram que a experiência de falar duas línguas diariamente provoca
algumas consequências na maneira como os processos cognitivos operam, resultando
em um desenvolvimento na capacidade de inibição e atenção. Contudo, nem todos os
estudos apontam para uma superioridade bilíngue em relação aos monolíngues em
tarefas de metalinguagem.
Dentre as diferentes habilidades metalinguísticas, a consciência fonológica tem
recebido maior destaque, pois é um dos componentes-chave para o progresso da
alfabetização, assim como as habilidades morfológica e sintática. Essas duas
habilidades também são importantes para a aprendizagem da leitura e da escrita, por
isso são recorrentes nos estudos com crianças bilíngues, ao contrário do que ocorre
com as habilidades semântica, pragmática e textual, que são menos estudadas.
Nesta revisão, verificou-se que alguns estudos que avaliaram a consciência
fonológica evidenciaram que a similaridade entre as línguas e a regularidade da
estrutura fonética pode facilitar o acesso à consciência fonológica de uma língua para a
outra. Além disso, em relação à consciência sintática, crianças bilíngues superam seus
pares monolíngues quando julgam a gramaticalidade de sentenças que contêm erros
semânticos, assim elas têm uma demanda adicional para ignorar o significado, porém
o desempenho entre bilíngues e monolíngues não difere quando a sentença é
semanticamente adequada. Essa vantagem também é evidenciada no desempenho de
tarefas que avaliam a consciência morfológica (DAVIDSON et al., 2010).

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Através deste estudo, percebeu-se que não há artigos revisados por pares que
investiguem bilíngues falantes de português brasileiro ou línguas nativas do Brasil,
embora haja estudos desse tema, principalmente no sul do país. Tampouco se
verificaram investigações sul-americanas, sugerindo uma lacuna a ser preenchida por
estudos futuros com as diferentes línguas dessa região e as habilidades
metalinguísticas menos destacadas.
Estudos sobre metalinguagem, sob a perspectiva psicolinguística, são
necessários para identificar as habilidades que são afetadas pelo bilinguismo, pois isso
tem importante implicação na compreensão teórica da estrutura cognitiva e em uma
melhor aplicação prática das duas línguas do bilíngue em programas educacionais. A
partir desta revisão de estudos, espera-se contribuir com a discussão sobre a cognição
bilíngue na infância, com ênfase na questão da existência ou não da vantagem bilíngue
em termos da metalinguagem.

Referências

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CRIATIVO OU PADRONIZADO: O FAZER LITERÁRIO CONTEMPORÂNEO

Emir Rossoni1

O artista, e aqui vamos nos ater a artistas escritores, está inteiramente ligado
ao objeto a que se dedica através de duas pontas. A primeira é o estímulo. A segunda é
o resultado. Muitos buscam esse estímulo através das mais variadas formas. Isso para
se chegar a um resultado mais próximo possível do esperado. Outros apenas seguem o
estímulo, o impulso criador. O resultado é a pura consequência.
Este texto não pretende canonizar uma maneira correta ou encontrar a melhor
forma de se alcançar um fazer literário. Mas servirá como reflexão do que se fez e do
que se vem fazendo nessa área tão fascinante e ao mesmo tempo tão sombria.
Barthes, em O grão da voz, apresenta dez razões para escrever, que cito abaixo:

1. Por necessidade de prazer, que como se sabe, não deixa de ter


alguma relação com o encantamento erótico;
2. Porque a escrita descentra a fala, o indivíduo, a pessoa, realiza
um trabalho cuja origem é indiscernível;
3. Para pôr um “dom”, satisfazer uma atividade instintiva, marcar
uma diferença;
4. Para ser reconhecido, gratificado, amado, contestado,
constatado;
5. Para cumprir tarefas ideológicas ou contra-ideológicas;
6. Para obedecer às injunções de uma tipologia secreta, de uma
distribuição guerreira, de uma avaliação permanente;
7. Para satisfazer amigos, irritar inimigos;
8. Para contribuir para fissurar o sistema simbólico de nossa
sociedade;
9. Para produzir sentidos novos, ou seja, forças novas, apoderar-
me das coisas de um modo novo, abalar e modificar a subjugação dos
sentidos;
10. Finalmente, como resultado da multiplicidade e da contradição
deliberadas dessas razões, para burlar a ideia, o ídolo, o fetiche da
Determinação Única, da Causa (causalidade e “boa causa”) e
credenciar assim o valor superior de uma atividade pluralista, sem
causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto.2

1
Mestrando em Escrita Criativa, PUCRS, bolsista CAPES.
E-mail: emir.rossoni@acad.pucrs.br
2
BARTHES, Roland. O grão da voz. Lisboa: Edições 70, 1982.

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Pretendo discutir o fazer literário. O fazer no sentido mais sujo. Mais operário.
Mais servil. Entre esse fazer, um aspecto que surge com muita significância, gerando
debates, formulando conceitos e incitando opiniões que vão do desconhecimento
sobre o tema a teses como é o caso do livro de José Hidelbrando Dacanal, Oficinas
literárias: fraude ou negócio sério?, estão exatamente as oficinas literárias. Um
estímulo à criação? Um fomento à leitura? Elas têm surgido com extremo vigor,
principalmente na cidade de Porto Alegre, e vêm se ramificando pelo Brasil.
Retomando Barthes, que, em suas dez razões, afirma que escrever não é uma
atividade normativa nem científica. E complementa: “não somos obrigados a imaginar
a escrita de amanhã... isso é revolucionário porque não está ligado a outro regime
político, porém a ‘uma outra maneira de sentir, uma outra maneira de pensar’.”
Mas por não sermos obrigados a imaginar a escrita de amanhã não significa que
não o façamos. Podemos imaginar como ela será produzida. E como chegará à outra
ponta. Ao leitor.
No artigo Criação literária na idade digital, Carlos Reis nos diz o seguinte:

Produzido em termos industriais e, por isso, progressivamente


democratizado, o livro, barato e acessível graças à energia do vapor,
origina uma transformação decisiva, que Eça de Queirós bem
percebeu: “A ideia de leitura hoje – escreveu Eça – lembra apenas
uma turba folheando páginas à pressa, no rumor de uma praça”.3

Carlos Reis prossegue em seu artigo fazendo uma análise do objeto livro.
Analisa seu formato e, é claro, a dimensão econômica que isso começa a projetar.

O fato literário passou a ser uma mercadoria e o seu autor, para além
da responsabilidade estético-cultural que lhe era inerente, reclamou
para si um direito de propriedade, compartilhada ou discutida com
outros agentes: editor, livreiro, distribuidor, etc.4

Mas se este texto pretende discutir a forma como escreve, por que motivo
estaria eu agora falando de negócio do livro, da era digital e do jeito como as pessoas
leem, ou do jeito que não leem, que também vem ao caso.
Trago essa discussão, porque na forma como se produz literatura estão as
oficinas literárias. E elas estão no centro de uma discussão que envolve o negócio e o

3
REIS, Carlos. A oficina do escritor e a construção da memória: problemas éticos e responsabilidade
cultural. Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS, Porto Alegre, v.4, n.1, p. 10-16, 1998.
4
Idem.

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criar. Desse modo, acho interessantíssima a reflexão de Carlos Reis, no mesmo artigo,
que transcrevo abaixo:

Assim se gerou uma lógica de produção literária que, incluindo a


criação propriamente dita mas não se restringindo a ela, se
apresentava bem distinta do que até então era dominante, também
porque escrever, do ponto de vista material, foi sendo cada vez mais
fácil e mais barato. Imaginando, por oposição, um rápido exercício,
pode dizer-se que Camões ou Cervantes, sem editor à vista, lidando
com técnicas e compositivas inerentes a esses condicionamentos:
pode conjeturar-se que a memória ocupava, então, um papel
determinante na elaboração da escrita literária, porque o verso ou a
frase longa eram pensados com demora, interiormente enunciados e
consolidados, antes de serem lançados a esse suporte quase precioso
que era o papel; além disso, emendava-se pouco, porque a escrita
era ponderada, já que escrever e reescrever eram atos lentos e de
complexa rasura; e publicar um livro, a partir dessa escrita, obrigava
a saltar obstáculos vários, das censuras às limitações econômicas,
estas últimas eventualmente superadas com o apoio de mecenas; e
assim o livro publicado era um objeto artesanal, algumas vezes
próximo do artefato singular, como o mostram as variantes de
impressão que podiam inçar uma edição. Para tudo dizer: se Camões
tivesse podido dispor de um processador de texto e de acesso à
internet, Os Lusíadas teriam sido bem diferentes; e mesmo em
tempo de industrialização do livro, se Flaubert tivesse sido obrigado a
respeitar exigentes normas editoriais como as dos nossos dias, não
teria certamente emendado tanto.5

Como elucida o texto, a tecnologia esteve, está e sempre estará ligada à criação
literária. Se não à criação propriamente dita, ao fazer literário. E já que o fazer
também é o ato de ler, Reis fala da circulação de textos, que com a era digital, tem se
dado com muita facilidade, para o bem e para o mal. Segundo ele, a circulação em
redes é ilimitada, em escala universal, sem limites espaciais e em tempo real.
Se parte do discutido acima é o processamento do texto, cito aqui a oficina
literária como um processamento de ideias. Ideias que se discutem, formulam-se,
misturam-se e, de certo modo, dissipam-se. De novo, para o bem e para o mal.
Ernest Hemingway, Prêmio Nobel de Literatura de 1954, tinha fama de escrever
em pé. No livro Escritores em ação: as famosas entrevistas à Paris Review, o autor
afirma escrever todas as manhãs. Isso por uma razão muito simples: o clima era mais
fresco, não havia barulho e a entrega ao trabalho era muito maior.

5
Ibidem.

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E a disciplina em Hemingway era levada tão a sério que ele cita, na mesma
entrevista:

Leio o que escrevo e, como sempre paro quando sei o que irá
acontecer a seguir, parto do ponto em que parei. Escrevo até um
ponto em que ainda disponho de “sumo” e sei o que acontecerá em
seguida; então paro e procuro viver até o dia seguinte, quando me
entrego de novo à coisa.6

Em contrapartida, Georges Simenon, romancista nascido na Bélgica e radicado


na França, usava um método totalmente diverso. Ao iniciar um novo romance,
Simenon isolava-se e permanecia assim até terminar o trabalho. Período que levava
em média duas semanas. No final desse tempo, o autor estava tão exausto que
necessitava de atendimento médico.
Um método totalmente diverso ao do autor de O Velho e o Mar. No entanto,
uma semelhança vital entre as duas formas: a disciplina. Talvez seja a disciplina uma
das principais formas que credenciam as oficinas literárias. A disciplina imposta por
objetivos. O passo a passo.
José Hidelbrando Dacanal, em seu livro Oficinas literárias: fraude ou negócio
sério?, cita quatro tipos de oficina, classificadas por ele como Tipo 1, Tipo 2, Tipo 3 e
Tipo 4.
A oficina Tipo 1, Dacanal diz seguir o padrão clássico, idêntica a outras áreas
como pintura, dança e demais artes. O objetivo seria o conhecimento rigoroso e
profundo, como:

Estudo da Gramática, estrutura das línguas indo-européias, história


da língua portuguesa, estilística e retórica.
Leitura sistemática dos grandes clássicos portugueses e brasileiros.
Leitura das obras mais importantes da narrativa, do teatro, da lírica,
da história, da retórica e da política do Ocidente.
Leitura e análise de A poética, de Aristóteles e de Estética, de Hegel.
Estudo da formação e do desenvolvimento das principais literaturas
do Ocidente.
Produção de textos de natureza variada e sobre temas diversos,
submetidos a rigorosa correção estilística e retórica.7

6
HEMINGWAY, Ernest. Escritores em ação: as famosas entrevistas à Paris Review. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1968.
7
DACANAL, José Hildebrando. Oficinas literárias: fraude ou negócio sério? Porto Alegre: SOLES, 2009,
p.17.

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E complementa dizendo que as oficinas desse tipo estariam fazendo o que as


boas escolas do passado faziam.
No Tipo 2, segundo Dacanal, a oficina ensina macetes para quem quiser ser
ficcionista ou coisa parecida. E segue “Se for este o caso, trata-se de uma atividade
inócua, ou até prejudicial – por ser perda de tempo. E nem vale a pena explicar por
que é assim. Basta ler meia dúzia de padronizados e insossos contos produzidos em
tais oficinas.”
No Tipo 3, Dacanal classifica oficinas que afirmam, segundo as palavras do
autor, “ter o poder ou a competência de ensinar alguém a escrever contos, romances,
dramas ou poemas.”. Ele diz que essas oficinas são uma fraude que pode ter razões de
natureza psicológica, pedagógica, ética ou financeira. Cito abaixo dois argumentos
utilizados por Dacanal para defender tal ponto de vista e que, segundo ele, são
falácias:

A primeira falácia
Coloca à venda um produto que nunca existiu, não existe nem
existirá enquanto a natureza humana for a mesma.
A segunda falácia
Não fornece o único produto autêntico que pode ser vendido por
quem dele dispuser e adquirido por quem dele carecer: o
conhecimento profundo da língua – no caso, da Língua Portuguesa –
e a leitura diuturna e a análise exaustiva das obras de seus peritos
mais sofisticados, isto é, os grandes clássicos.8

No Tipo 4, Dacanal descreve:

Um grupo de pessoas se reúne, formal ou informalmente, para


discutir um tema, um autor, uma obra, etc sobre a coordenação de
alguém, geralmente pago... Há algo para criticar neste tipo de
atividade? Não. Afinal, todos têm o direito de abrir sua lojinha e de
vender o produto que bem entenderem pelo preço que os clientes
estiverem dispostos a pagar.9

Talvez o movimento expressivo, ou a busca por ele, seja um reflexo da própria


condição humana. A eterna causa-consequência. O artigo O processo criador10, de
Dante Moreira Leite, nos diz: “Pode-se falar em processo criador ou pensamento

8
Ibidem, p. 20.
9
Idem, p. 22.
10
LEITE, D.M.; LEITE, R.M. (Orgs.). Psicologia e Literatura. Ed. rev. São Paulo: UNESP, 2002.

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produtivo sempre que ocorra o aparecimento de nova solução para um problema


anterior”.
Os modos de expressão, ou a sua tentativa, estão se moldando de acordo com
nosso tempo, nossas condições financeiras e nossas necessidades de individualização.
Se pensarmos dessa forma, talvez seja plausível pensarmos que estamos entrando
numa era onde há mais escritores que leitores. Não é um dado científico. É uma
impressão. E uma leitura não propriamente sociológica, mas de comportamento.
Voltando a Dacanal, no mesmo livro, do qual não faço juízo de valor, pelo
menos por enquanto, e no qual também não percebo nenhum dado que comprove
suas teses, faz um levantamento sobre as causas do surgimento de tantas oficinas
literárias. Coincidentemente, ou talvez tenha o autor algum conceito e pré-disposição
a usar este número, também cita quatro causas para o surgimento e proliferação das
oficinas literárias.
A primeira seria enquadrada como Causas pedagógico-educacionais. Não
reproduzirei o raciocínio feito no livro. Em suma, Dacanal diz:

O salto tecnológico-industrial do Brasil nas últimas décadas devastou


o sistema pedagógico-educacional. Mas pela natureza humana
continuar a mesma, muitos indivíduos buscam o conhecimento
através de outras formas e alguns julgariam encontrá-lo nas oficinas
literárias, que Dacanal grifa como sendo “o horror! o horror!”.11

A segunda seria nominada como Causas cultural-tecnológicas. Num texto não


claro que não aponta necessariamente uma causa, Dacanal afirma que por
intempestivos e sucessivos saltos tecnológicos, as pessoas perderam os referenciais
civilizatórios e já não mais conseguem fazer a distinção entre tékne e sofia
(ferramental e sabedoria). E compara a oficina literária com outros fenômenos
sociológicos numa frase que transcrevo: “Em outros segmentos sociais e com
motivações de outra ordem, o florescimento das igrejas pentecostais é um fenômeno
sociologicamente idêntico”.
O terceiro ponto é nomeado como Causas socioeconômicas. E cita que há um
significativo número de pessoas entre 40 e 45 e entre 60 e 65 anos de idade que
dispõem de vitalidade biológica, de sobras financeiras e de tempo livre, que são
investidos em variadas atividades, como busca de parceiros, viagens, cursos,
academias de ginástica etc. E complementa:

11
DACANAL, José Hidelbrando, op. cit., p. 27.

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Por outro lado, os cursos de Letras, de Jornalismo etc. continuam a


despejar no mercado centenas e centenas de bacharéis, licenciados
mestres e doutores, não raro de reduzida capacitação técnica e com
ainda mais reduzidas perspectivas de emprego, particularmente em
um estado como o Rio Grande do Sul, no qual o setor pedagógico-
educacional está saturado e o gráfico-editorial-jornalístico é pouco
significativo.12

O quarto e último fator na avaliação de José Hildebrando Dacanal seria por ele
chamado de Causas histórico-literárias, sobre as quais diz o seguinte:

No Rio Grande do Sul a arte da palavra também foi a alma da


Província, mas em ciclo tão fugaz que mal superou cinco décadas, ao
longo das quais feneceu e desapareceu para sempre o secular poder
do patriciado rural/pastoril da Fronteira, que, operando da periferia
para o centro, organizou o Estado Nacional brasileiro moderno, do
qual logo a seguir o Sudeste se apropriaria, também para sempre.
Mas naquelas poucas e efêmeras décadas entre o nadir e o ocaso, a
arte literária no Rio Grande do Sul atingiu o zênite, alcançando
dimensão nacional/ocidental na lírica perene de Mario Quintana e
pelo milagre de O tempo e o vento – que permanecerá como uma das
poucas grandes criações épicas do século XX, ainda que o restante da
obra de seu autor tenha sido impiedosamente devastada pelos
anos.13

É sempre válido ter uma descrição de como Hemingway ou Simenon escreviam.


Eles ilustram nosso imaginário. Mas possivelmente sejam fantasmas de um tempo em
que a própria sociedade gerava grandes escritores. Aproximando a realidade atual,
percebemos novos meios e novos clamores sociais. A tecnologia, que facilitou muitas
coisas e dificultou outras, a rapidez da informação e a disseminação de gostos e
conhecimentos têm produzido uma nova forma de encarar a literatura. Não há mais
Hemingways nem Simenons. E tampouco sobreviveram suas formas de produzir. Fui
conversar com Pedro Gonzaga, um autor de Porto Alegre. E não aleatoriamente.
Escolhi Pedro e sua opinião para confrontar. Primeiro, para confrontar com processo
criativo. Depois para confrontar com a exposição que fiz acima do professor José
Hidelbrando Dacanal. Pedro Gonzaga é escritor e também professor de oficina
literária.
Pedro Gonzaga é natural de Porto Alegre. Depois de uma carreira na música,
passou a se dedicar ao magistério, lecionando literatura em faculdades e pré-
12
Idem, p. 28.
13
Idem, p. 29.

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vestibulares. Traduziu mais de 20 livros para o português, de nomes consagrados como


Charles Bukowski, Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Patricia Highsmith, Jack London,
Mario Benedetti e Raymond Chandler. É mestre e doutor em literatura pela UFRGS.
Autor de quatro livros, entre conto e poesia, participou também de coletâneas digitais
e impressas. Seu livro mais recente é Falso começo (2013), finalista do Açorianos. Há
dez anos ministra oficinas de escrita criativa, e lança em junho de 2015 um livro em
parceria com Jane Tutikian reunindo técnicas de escrita chamado Escreva. Também é
cronista do jornal Zero Hora.
Inspirado pela forma como os clássicos escreviam, achei pertinente perguntar
para Pedro Gonzaga onde e de que forma ele o fazia.

Escrevo geralmente em cafés. Tanto à mão, em cadernetas, quanto


direto no Iphone, no bloco de notas. Quando se trata de texto em
prosa, crônicas, por exemplo, eu elejo um tema prévio, se tiver a
sorte de ter me ocorrido há algum tempo, já pensado, inclusive,
sendo a escrita o processo de descobrir e organizar o que falta. No
caso da poesia, que tem sido minha principal forma de expressão,
tudo começa com um sopro, um palpite que chega ao cérebro, vindo
muitas vezes dos sentidos. Aí é sentar e esperar que o poema se
realize. Depois é cortar os versos e ver seu som.14

No livro A arte do romance, Milan Kundera nos diz que o romance se


transformou no transcorrer do tempo. Se os primeiros romances falavam de viagens e
descobertas pelo mundo, depois passaram a se voltar para o mundo interior,
retratando as viagens através do infinito interior do ser humano. Ou seja, depois de
descobrirmos o que havia fora, tentamos entender o que havia dentro. Uma tarefa
bem mais subjetiva e capaz de fornecer inúmeros conflitos. Em O ofício de escrever15,
Ramon Nieto sugere que se deveria fazer uma pesquisa para saber quantos escritores
hoje compõem diante de uma tela. A verdade é que tanto O QUE se diz, quanto COMO
se diz e a forma de PRODUZIR, vão se transformando. Isso não é questão de mérito.
Mas questão de se usar as tecnologias que se oferecem e de se refletir na literatura os
anseios humanos. Por conta disso, quis saber de Pedro o que ele achava sobre o “ato
de escrever”. Teria este se transformado no decorrer do tempo, assim como a
literatura?

Acho que a forma como se dá o ato sem dúvida mudou. Da pena ao


teclado. E como a forma termina por repercutir no conteúdo, é

14
GONZAGA, Pedro. Em entrevista ao autor deste artigo. 2015.
15
NIETO, Ramón. A inspiração. In: ______. O oficio de escrever. São Paulo: Angra, 2001.

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provável que tenha mudado também. Agora para quem já nasce


dentro de certa tecnologia e não a vê cambiar radicalmente, não
creio que tenha essa percepção para si. Fora de uma possível história
da escrita, essa percepção é só o que importa.16

Pedro também menciona que o prazer da escrita, para ele, está na escrita. O
resultado final seria prazeroso num sentido de reconhecimento, de vaidade. “Mas
nada pode superar os instantes em que se está mergulhado nesse lugar onde o tempo
e a própria realidade transcorrem de maneira diferente”. Segundo ele, escrever é
conceber mundos. E isso, por si só, deveria fazer com que todos pudessem ter um
mínimo treinamento para ter esse prazer. Como tocar um instrumento pode trazer,
mesmo ao músico que nunca se apresentará. E segue: “Tento escrever alguma coisa
todos os dias. Achar alguma coisa que preste é, para mim, uma questão de
probabilidade. Quanto mais se escreve, mais chance tem de surgir alguma coisa boa
entre tantas coisas dispensáveis”. Então me lembrei de Ramon Nieto, que listou doze
tipos de estímulos, que iam dos espontâneos aos provocados. Não citei Ramon Nieto
ou sua lista de estímulos a Pedro Gonzaga. Mas provoquei-o sobre sua forma de
libertação.

Há muitos exercícios de libertação da criatividade. Para mim funciona


não olhar para a folha ou tela em branco. Pensar em outra coisa.
Ficar olhando para a estante, conversando com os autores. Eles são
generosos, sempre sopram alguma coisinha. A ideia, quem dera
pudéssemos saber de onde vem a ideia. Mas ela se manifesta, ao
menos para mim, assim como tu pergunta: com uma ideia pequena,
com uma impressão, com um enredo às vezes pronto, com uma
frase, com uma imagem, às vezes só como uma difusa sensação, que
é preciso apanhar antes que ela se desvanesça. As ideias são muito
mais fecundas que as formas em que se plasmam.17

E sobre as influências:

Leio sempre que posso. Creio que as influências são fundamentais.


Lembro de ler uma vez uma entrevista do Kenny G, dizendo que não
ouvia nenhum saxofonista porque queria ter um som próprio. Já se
vê o resultado dessa vida longe das influências. Acho que aprendi
com dois escritores bem díspares, Charles Bukowski, a paixão da
adolescência e inicio da vida adulta, e Carlos Drummond de Andrade,
a paixão do homem. Do primeiro, aprendi que é preciso escrever com

16
Idem.
17
Idem.

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as vísceras, nunca economizando na força para se chegar ao coração


do mundo. Com o segundo, aprendi o mesmo, mas o contrário, o
controle, a ponderação, a ironia e a espera pelo melhor verso.18

Sobre o ato de reescrever levando em conta leituras críticas, Pedro diz que
submete seus originais a uns três amigos que são leitores diferentes entre si. Diz saber
mais ou menos o que esperar de suas leituras. Assim, pode ver, por suas reações, se
alcançou aquilo que pretendia ou não, e ainda se seria possível ter chegado aonde
nem ele mesmo imaginara.
Olhando para o mercado literário, instiguei Pedro a responder se criava
pensando em atingir algum público específico ou por algum objetivo ou se escrevia
pela arte de escrever. “Penso em atingir leitores que estejam dispostos a sair um
pouco de seus centros de leitura, que estejam dispostos a melhorar o que escrevo.
Assim, meus leitores são sempre pessoas mais inteligentes do que eu. Escrever por
escrever sempre me pareceu meio frívolo”.
Para ir um pouco mais longe, e lembrando Barthes, em O rumor da língua, quis
saber de Pedro Gonzaga sobre este tema, um pouco mais acadêmico. E perguntei se
ele achava que o autor havia morrido. Se o importante era a obra. Ou hoje o autor
deve ser um ator com suas performances.

Acho que cada autor deve encontrar seu caminho, de acordo com
suas convicções. Quanto à morte do autor, ou da obra, isso é tralha
acadêmica que acadêmicos repetem por preguiça ou má-fé. De que
se possa encontrar belas ideias sobre isso em Barthes e Derrida não
deriva que seja assim na prática. As livrarias estão cheias de autores e
de obras de qualidade, escritas depois desses decretos bizantinos.19

No decorrer da história, é comum vermos grandes nomes da literatura


procurando referências para sua vida ou sua obra. Um dos exemplos mais populares
seria o de Rimbaud, que, jovem, viveu com Verlaine, tendo com este uma relação num
primeiro momento de aprendizado para depois se transformar numa relação afetiva.
Estas referências, creio, sempre irão existir, pois fazem parte do cerne da literatura. E
falando em cerne, é pertinente retornar ao polemista José Hidelbrando Dacanal e ao
livro mencionado anteriormente.

18
Ibidem.
19
Idem.

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Num capítulo chamado A colonização mental-tecnológica, o professor fala de


cultura, de conhecimento e da produção literária. Mais especificamente a produção de
grandes nomes da literatura. Cito:

Afinal, como foi visto, os grandes gênios da literatura, da filosofia, da


história e de todas as áreas das ciências exatas nada sabiam de
linguística, de árvores sintáticas, de morfemas, lexemas, sememas,
etc. Os grandes artistas da palavra no Ocidente conheciam apenas – e
muito bem – a gramática, isto é, a estrutura e o funcionamento de
sua língua, indo-européia por definição. E este conhecimento foi a
matéria-prima com que moldaram as obras que os eternizaram. Logo
– lógica aristotélica primária - todas as teorias linguísticas, antigas ou
modernas, são inúteis. Os gênios da arte literária são o argumento,
incontestável e irrecorrível.20

Deixando de lado o escritor que tinha em mãos, mudei a sintonia para o


professor:
Pedro Gonzaga, que escritores você indica a seus alunos? Por quê?

Como a oficina trabalha com textos curtos de ficção, costumo indicar


contistas, mas claro que também passamos por romancistas. Os que
mais tenho indicado são Tchekhov e Raymond Carver, porque acho
que ajudam de maneira evidente a entender o que é um bom
conto.21

A forma criativa de seus alunos muda conforme o andamento das aulas? “Creio
que eles vão descobrindo o tipo de escritores que são. Essa é a função de uma oficina,
permitir essa descoberta, então é natural que mudem”.22
Quais as semelhanças entre os alunos? E as principais diferenças? “Não vejo
muitas semelhanças, senão de interesses. São pessoas diferentes, que escrevem
diferente. Sempre acho que ensinar as técnicas, centrar o trabalho no aprendizado das
técnicas é uma maneira de respeitar essas diferenças”.23
Faulkner disse que o jovem escritor só aprende pelos próprios erros. Você
concorda? Por quê?

Concordo no sentido de introjetar um aprendizado, mas não no sentido


geral da proposição, porque também se pode aprender por observação.

20
DACANAL, José Hidelbrando, op. cit, p. 59
21
GONZAGA, Pedro, op. cit.
22
Idem.
23
Idem.

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Acho que o que ele quis dizer é que não adianta criticar os erros dos
outros, é preciso, como se fosse um músico no palco, tocar seu
instrumento. E quando toca se erra. Depois se pratica e se acerta, ou
transforma o erro em virtude.24

O erro é uma expressão que tem me fascinado. E o contato duplo com ela nas
últimas semanas me deu uma impressão, mesmo que possivelmente errada, de estar
no caminho certo. A possibilidade de transformar o erro em acerto, segundo Pedro
Gonzaga, é para mim libertadora. Então, tenho uma liberdade ao quadrado, pois
poucos dias antes, ouvira Bernardo Carvalho, em seu curso Desconfie de mim, no
espaço Delfos da PUCRS, mencionar que “a boa literatura é o entendimento dos seus
defeitos”.
Já o livro Oficinas literárias: fraude ou negócio sério?, de J. H. Dacanal, provoca,
num primeiro momento, uma discussão pertinente. No entanto, os argumentos ali
contidos tendem a ser incompletos, o que limita a discussão. Dacanal analisa a oficina
e sua produção literária de dentro para dentro. No momento em que fala de uma
padronização, não estuda a literatura como um todo, mas assim mesmo afirma que a
produção literária da oficina é padronizada. Estamos teorizando em cima da teoria.
Produzindo suposições sem conferir a prática. Talvez nos falte rever as razões de
Barthes. Talvez seja plausível estudar Ramon Nieto, mas também conectar seus
estímulos a obras literárias. Afinal, no começo, no meio e no fim disso tudo, o que nos
interessa é a literatura. E ela simplesmente não existe se faltarem os livros. Talvez
devêssemos tirar o rótulo de produção da oficina e analisar a literatura
contemporânea como um todo. A literatura é como a vida, e é composta de infinitas
redes, vivências e projeções. Quem sabe, com essa visão de conjunto, e somente com
ela, pudéssemos fazer a pergunta:
A literatura contemporânea está padronizada?

Referências
BARTHES, Roland. O grão da voz. Lisboa: Edições 70, 1982.
BARTHES, Roland. O rumor da Língua. Trad. Mario Laranjeira. 2. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2004.
DACANAL, José Hildebrando. Oficinas literárias: fraude ou negócio sério? Porto Alegre:
SOLES, 2009.
GONZAGA, Pedro. Em entrevista ao autor. 2015.

24
Idem.

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HEMINGWAY, Ernest. Escritores em ação: as famosas entrevistas à Paris Review. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 1968.
KUNDERA, Milan. A arte do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LEITE, D. M.; LEITE, R. M. (Orgs.). Psicologia e Literatura. Ed. rev. São Paulo: UNESP,
2002.
NIETO, Ramón. A inspiração. In: ______. O ofício de escrever. São Paulo: Angra, 2001.
p. 67-70.
REIS, Carlos. A oficina do escritor e a construção da memória: problemas éticos e
responsabilidade cultural. Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS,
Porto Alegre, v.4, n.1, p. 10-16, 1998.

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ESPAÇOS E FORMAS DE PRESENÇA DO OUTRO NA FICÇÃO DE DALTON TREVISAN

Eneida A. Mader1

No presente trabalho, pretende-se analisar o conto “Cemitério de elefantes”,


do escritor paranaense Dalton Trevisan, à luz de teorias que abordam as formas de
identidade e alteridade na literatura contemporânea, bem como a condição humana e
a maneira de encarar o espaço intersubjetivo e social do Outro, tal como o vê e o
vivencia a narrativa ficcional.
O conto “Cemitério de elefantes” possibilita um diálogo com questões relativas
à alteridade, à exclusão social e à construção da identidade, uma vez que focaliza a
condição dos sujeitos excluídos socialmente – os bêbados da metrópole.
Dessa forma, este estudo apresenta a questão dos espaços do Outro e de suas
formas de presença, expressas na relação social não harmônica no conto “Cemitério
de Elefantes”, sob a perspectiva de que a leitura do discurso literário pode
proporcionar um debate ligado às questões culturais e filosóficas do homem.
O conto “Cemitério de elefantes” encaminha o leitor para um espaço situado à
margem do mundo no qual vivem sujeitos que se encontram reclusos da sociedade e
ausentes de um quadro socialmente instituído como modelar. Os bêbados são os
protagonistas do conto e simbolizam todos os “marginalizados” que vivem em
exclusão e que são alimentados com os restos que a sociedade lhes dá.
Há uma alegoria entre os elefantes e os bêbados do conto de Trevisan, no
sentido em que o narrador empresta aos bêbados as características daquele mundo
‘animal’, porém nada animalesco: os elefantes são solidários na vida e na morte. E,
embora os bêbados estejam assemelhados à imagem dos elefantes quanto ao peso, à
lentidão e à aceitação resignada da situação que se impõe – doença e velhice – e que
não pode ser mudada, de outra forma, também, os personagens se importam uns com
os outros, mesmo beirando a morte.
A narrativa tem início com uma informação importante – “à margem esquerda
do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os
bêbados são felizes”. Nessa passagem, observa-se um narrador em terceira pessoa e

1
Doutoranda em Teoria da Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, bolsista
CAPES.
E-mail: eneida.mader@gmail.com

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onisciente, que expõe a situação ao leitor e demarca o espaço que ambienta a


narrativa: uma praça que beira o rio.
No conto, aponta-se “o lado esquerdo da margem” como um lugar
desprivilegiado e que simbolicamente representa o negativo, um espaço reservado aos
vitimados pela exclusão: quem se importa com os bêbados? Por uma questão
‘cultural’, geralmente, a imagem de bêbado está associada à preguiça, à
vagabundagem e à marginalidade.
Além disso, esse espaço ‘ausente’, onde residem os bêbados do conto, fica nos
fundos de um mercado de peixe. É, portanto, um lugar fétido, e que, em geral, situa-se
à margem do rio e da cidade, devido ao mau cheiro e à presença de insetos. É nesse
espaço aparentemente abandonado e esquecido pelo mundo que o narrador marca
também a presença de um velho ingazeiro, além dos protagonistas – “os bêbados que
ali vivem em comunidade e são felizes à sua moda” (TREVISAN, 2009, p. 14).
Nas primeiras linhas da narrativa, o narrador fornece uma imagem do estrato
social onde convivem os protagonistas, de forma suficiente para marcá-los na sua
marginalidade e miséria: eles são velhos, doentes, apartados, ausentes do resto do
mundo, e estão reclusos.
Os personagens de “Cemitério de elefantes” estão ‘fora’ do eixo social, apesar
de estarem em pluralidade, coabitando na praça, um espaço popular, destinado ao
lazer ou à passagem da população urbana. Essa pluralidade demarcada no conto é “a
condição da ação humana”, como salienta a cientista política Hannah Arendt (2014),
em A condição humana. Conforme Arendt, a ação é a atividade que corresponde à
condição humana da pluralidade, ao fato de que a Terra e o mundo são habitados não
pelo Homem, mas por homens e mulheres portadores de uma singularidade única –
iguais enquanto humanos, mas distintos radicalmente e irrepetíveis, de forma que a
pluralidade humana, mais que a infinita diversidade de todo os entes, é a “paradoxal
pluralidade dos seres únicos”. (ARENDT, 2014, p. 218).
No trecho “Curitiba os considera animais sagrados”, tem-se dois importantes
focos para análise: a cidade de Curitiba e os elefantes como sagrados. A metrópole
paranaense serve como pano de fundo para a narrativa, mas percebe-se que essa
cidade ficcional de Trevisan é atípica, pois o olhar narrativo denota que nesse espaço
urbano só existe o submundo que abriga os personagens socialmente esquecidos.
No segundo foco, na referência aos “animais sagrados”, o conto remete à lenda
do cemitério de elefantes, segundo a qual esses animais têm uma espécie de
santuário, um lugar escolhido pela espécie, para morrerem em paz. Lendas africanas
contam que os elefantes, quando pressentem a morte, abandonam a manada e,

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guiados pelo instinto, vão para um lugar que só eles conhecem, no qual há abundância
de água, vegetação tenra, e onde estão os ossos dos antepassados. Ali, dispostos sobre
uma extensão de vários hectares, os paquidermes se deitariam para dormir o último
sono. Em geral, seriam esses recantos que acolheriam as manadas de paquidermes
velhos e doentes.
Essa simbologia, entre a lenda africana do espaço-santuário dos elefantes e a
praça na qual se encontram os personagens do conto, é empregada para aproximar as
criaturas humanas (os bêbados) e as humanizadas (os elefantes) que, embora oriundas
de espécies diferentes, encontram-se em igualdade de condições existenciais no
espaço ficcional: estão solidárias frente à morte. Dessa forma, elefantes e bêbados,
ambos se encontram relegados a um espaço reduzido, porém solidário, onde não
poderão perturbar o resto do mundo, uma vez que o mundo ao redor nem se importa
com a existência dos ‘pestilentos’.
Na passagem “quando ronca a barriga, a ponto de perturbar a sesta, saem do
abrigo e, arrastando os pesados pés, atiram-se à luta pela vida” (TREVISAN, 2009, p.
15), o conto remete às imagens trazidas pela lenda em que os elefantes idosos e
doentes, ao se tornarem mais lentos e se arrastarem, com isso atrasam toda a manada
em suas longas jornadas.
Mesmo velhos e doentes, os elefantes possuem o instinto de buscar um local
adequado para passar o final da sua existência e ali conviver com os animais de sua
espécie em igualdade de condições. Nesse sentido, o mesmo instinto de sobrevivência
dos bêbados de Trevisan está presente naquele da lenda dos elefantes: a luta solidária
pela sobrevida ou pela vida em defesa da morte.
Há muitos diálogos possíveis entre o conto “Cemitério de elefantes” com as
teorias da alteridade e identidade, pois a narrativa contemporânea dialoga com outras
linguagens artísticas e com outras áreas do saber. Desse modo, pretende-se destacar
também nesta pesquisa os aspectos que aproximam a obra de Dalton Trevisan de
teorias que tratam da alteridade e identidade, e que singularizam o autor no
panorama literário brasileiro.
O texto literário de Trevisan, ao abordar olhares oblíquos, trazendo para o
centro do espaço narrativo as representações de sujeitos que estão à margem da
sociedade, possibilita, assim, uma análise à luz de teorias filosóficas e culturais.
Uma vez que o conto focaliza os ‘bêbados’ como personagens num espaço
público – seres rotulados, posicionados à margem de um grupo de referência, que os
condena e despreza, é possível aproximar essa narrativa do estudo sociossemiótico
que Eric Landowski (2002) estabelece em Presenças do Outro.

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Landowski procura analisar, sob um prisma semiótico, as estratégias de


presenças do Outro e a origem da diferença que se interpõe entre os modelos de
padronização que o grupo de referência estabelece no cotidiano do mundo
contemporâneo, especialmente em locais públicos diversificados e nos espaços em
que o Outro procura coabitar.
No plano das práticas sociais, quando se encaram as relações entre sujeitos em
situação, não há relação de simetria nem de igualdade perfeitas. Evidenciam-se, então,
as diferenças e as discriminações de toda ordem, pois os sujeitos estão transformados
em atores sociais, como afirma Landowski, desempenhando posições e papéis
relativos que diferenciam os grupos uns dos outros, ressaltando as marcas sociais.
Mesmo que todo mundo seja em princípio sujeito do mesmo modo, cada um se
apresenta na realidade como pertencente a sua categoria sócio-profissional, a seu
grupo linguístico ou confessional, a seu meio étnico ou cultural, a sua faixa etária, a sua
geração, a seu sexo, e assim por diante.
Landowski (2002) define o “gênero de dissimetria”, como aqueles relacionados
aos estereótipos produzidos pelos grupos sociais que valorizam sistematicamente a
posse de certos atributos sociais, herdados ou adquiridos, em que se baseia mais
comumente o orgulho identitário deles. Esses grupos consideram-se, no âmbito de
uma determinada sociedade, como os que constituem o “Nós” de referência. E eles
mesmos acreditam ser, por oposição aos indivíduos ou às comunidades particulares
que suas diferenças assinalam (com graus de estranheza variável), como avatares
previsíveis do Outro.
Os grupos de referência estabelecem, assim, rotulações de toda ordem em uma
escala de estereotipia identitária, que vai do antissocial ao caipira, do transviado ao
marginal, do gringo ao puro estrangeiro, ou, até mesmo em outros planos – num
vocabulário chulo – do “deficiente ao bicha”.
Através das expressões empregadas pelo narrador de “Cemitério de elefantes”
para descrever as “marcas sociais” dos bêbados, é possível visualizar as formas em que
o sujeito receptor é solicitado a compor sentidos, tornando perceptível medir a
dimensão que essa iconografia é capaz de fazer ao solicitar a presença dos excluídos
(os bêbados), assemelhando-os aos elefantes.
O narrador conversa com o leitor quando diz “A você o caminho se revela na
hora da morte”, e, nesse ponto, é possível perceber um diálogo do conto com a
questão formulada pelos estudos filosóficos acerca da ética, como uma forma de
aceitar e entender o Outro, o ser responsável pela existência de outrem, conforme
Emmanuel Lévinas (2010) propõe em Entre nós.

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A escrita de Trevisan, ao dar voz aos excluídos, promove uma ruptura da


indiferença (uma preocupação pelo Outro, a ponto de assumir uma responsabilidade
por ele), como trata Lévinas ao referir-se ao “acontecimento ético: a possibilidade do
um-para-o-outro” (LÉVINAS, 2010, p. 18).
Para Lévinas,

a vocação de um existir-para-outrem é mais forte que a ameaça da


morte, ou seja, a aventura existencial do próximo importa ao eu
antes que a sua própria, colocando o eu diretamente como
responsável pelo ser de outrem. O em-si do ser persistente-em-ser
supera-se na gratuidade do sair-de-si-para-o-outro, no sacrifício ou
na possibilidade do sacrifício (LÉVINAS, 2010, p. 18).

O ser é também, necessariamente, ser para o outro, como define Landowski


(2002). É ser visto, avaliado, sondado e, classificado em algum lugar, em função de
algumas categorias que organizam o espaço social, como o espaço adotado pelos
bêbados, em relação às coordenadas definidas por um determinado “grupo de
referência, seja qual for a posição (interna, marginal ou externa) dos sujeitos
individuais ou coletivos” (LANDOWSKI, 2002, p. 42).
Os personagens de “Cemitério de Elefantes” carregam em seus fardos o
desprezo da sociedade, além das perebas e das agruras decorrentes do vício. O
narrador salienta que a sociedade os alimenta e faz suas provisões para que eles não
saiam daquele local imundo, de modo que não passem a ocupar outros espaços
sociais, pois trariam consigo o mal estar social da morte que a todos espreita, além da
imundície do lugar em que vivem.
É possível, assim, perceber no conto “Cemitério de Elefantes” o diálogo entre
esses espaços tão distantes – do Mesmo e do Outro – tão apropriado no exemplo que
se revela na conversa entre o pescador e o bêbado chamado de Papa-Isca. O pescador
pergunta-lhe o porquê da bebida, e Papa-Isca responde que é maldição de mãe.
A escrita de Trevisan é provocativa, pois é para a consciência moral do leitor
que esse narrador hesitante, esses personagens perdidos aguardam a adesão
emocional, ou, ao menos, estética, e esperam ansiosamente que se conclua a
existência.
Os “Outros” – não os mais distantes –, mas os que ficam aí perto, à margem,
supondo-se que eles veem e que sentem que não são exatamente o que “deveriam
ser”, assim como do lugar em que estão (uma praça-cemitério, no conto de Trevisan,
por exemplo), eles poderiam captar exatamente o que deveriam tornar-se se quiserem

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encontrar um dia seu lugar admitido entre aqueles mesmos com que sua estranheza
estabelece contradição. E Landowski questiona-se: “eles conseguirão um espaço ‘entre
nós?’” (LANDOWSKI, 2002, p. 46).
É na metrópole conturbada que Trevisan reconstrói histórias próprias e alheias,
de personagens que representam os excluídos da sociedade, e que são transformados
pelo estranhamento da linguagem em “animais sagrados”, “elefantes malferidos” ao
se comparar homens bêbados com elefantes à beira da morte.
Para Maria Zilda Cury, “tal estranhamento, no entanto, não tira destes textos
um profundo sentido político e de reflexão sobre a realidade social urbana brasileira”
(CURY, 2007, p. 17).
Através desse espaço social e intersubjetivo proporcionado pela ficção do conto
de Trevisan, é possível aproximar o leitor dos problemas com os quais “o Outro é
confrontado enquanto sujeito coletivo diante do grupo dominante, este último
ocupando uma posição ‘espacial’ definida como centro de referência” (LANDOWSKI,
2009, p. 61).
O conto de Trevisan estabelece essa pertença identitária entre homens e
elefantes em condição terminal. Nessa microesfera social, os bêbados da metrópole de
Trevisan estão às margens e, nessa prática da marginalidade, o espaço animalesco dos
elefantes torna-se humanizado pela igualdade de condições que vivenciam os homens
velhos e bêbados. Enquanto experiência de uma alteridade concretamente vivida – os
bêbados e os elefantes à deriva –, pode-se remeter a uma espacialidade outra, a uma
topografia e a uma cinética identitárias que apresentam um grau maior de
complexidade.
Analisado sob o prisma da semiótica das relações intersubjetivas, o espaço
social que o narrador adota em “Cemitério de elefantes” não está distante
espacialmente de um ‘Nós’ de referência; ao contrário, é um local muito próximo,
situado no coração da metrópole – a praça –, um ponto em que normalmente ocorrem
os encontros. É nessa encruzilhada de todas as mundanidades sociais, artísticas e
culturais de qualquer parte do mundo que os ‘marginalizados’ vivenciam o mundo ao
seu redor.
Para Landowski,

é preciso o tempo todo voltar-se e olhar nos arredores, pois então,


diante de nós, essa multidão heteróclita, poliglota, espalhada por
todos os lados, aparentemente sem destinação e que, de fato,
permanecerá ali praticamente até a aurora, como qualificá-la nos
termos de que dispomos? – Ursos, camaleões, dândis ou o quê? De

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fato, sentimos que nenhuma de nossas etiquetas convém


perfeitamente, como se aqueles ‘marginais’ não jogassem realmente
o jogo (LANDOWSKI, 2002, p. 62).

Assim, a cultura, a história, e a produção artística passam a ter seus contornos


redefinidos, e revisados a partir da narrativa de experiências desses sujeitos que
adquirem poder através do texto literário: mulheres, colonizados, grupos minoritários,
os portadores de sexualidades policiadas, os excluídos socialmente.
Para Homi Bhabha (1998),

conhecer ou definir o presente passa pelo reconhecimento de que


esse tempo não pode mais ser encarado simplesmente como uma
ruptura ou um vínculo com o passado e o futuro, não mais uma
presença sincrônica: nossa autopresença mais imediata, nossa
imagem pública, vem a ser revelada por suas descontinuidades, suas
desigualdades, suas minorias (BHABHA, 1998, p. 23).

Ali naquela praça do conto, cruzam-se diariamente universos que a priori não
se esperaria ver superpostos; de um lado, os pescadores e, de outro, os bêbados que
estão à deriva.
De um lado da margem do rio, encontra-se uma sociedade considerada ‘grupo
de referência’; do outro lado, vindo não se sabe bem de onde, tudo o que de
improvável de ser recuperado e que o Terceiro Mundo deposita em torno da capital: o
seu ‘entulho’ humano. Enquanto alguns atravessam a praça, os bêbados a ocupam,
formando uma comunidade ao ar livre. E de que modo eles serão rotulados? De
acordo com o microuniverso social, definido por Landowski, os bêbados não se
enquadrariam em nenhuma das qualificações – não são ursos, não são esnobes, nem
dândis, nem camaleões. É como se esses seres marginalizados “não jogassem o jogo
social” (LANDOWSKI, 2002, p. 62).
O espaço urbano do conto de Trevisan é desfigurado pelos “invasores” – os
bêbados. Eles perturbam os princípios de uma “sadia geometria urbana”, que foi
construída, muitas vezes, com o maior cuidado e transformado em verdadeiros
espaços-vitrinas, em que a cidade só oferece a melhor imagem de si mesma. Essa
sadia geometria urbana é a mesma que, segundo Landowski, “funda uma leitura
normal da cidade e o reconhecimento mútuo das identidades que ali coabitam”
(LANDOWSKI, 2002, p. 63).
Os bêbados e o seu ‘habitat’ são descritos pelo narrador de Trevisan de forma
nada ingênua, pois a linguagem do texto literário é endereçada a outrem e o invoca.

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Emmanuel Lévinas (2010), em Entre nós, define o modo como essa invocação é dada
pela linguagem:

ela não consiste em invocá-lo como representado e pensado, mas é


precisamente porque a distância entre o mesmo e o outro, onde a
linguagem se verifica, não se reduz a uma relação entre conceitos,
um limitando o outro, mas descreve a transcendência em que o
outro não pesa sobre o mesmo, apenas o obriga, torna-o
responsável, isto é, falante (LÉVINAS, 2010, p. 54).

A narrativa de Trevisan, como linguagem, não pode englobar outrem como


conceito, mas como pessoa. Para Lévinas, a invocação é anterior à comunidade, ou
seja, ela é relação com um ser que só está em relação comigo à medida que é
inteiramente por relação a si.
O bêbado, que se assemelha ao elefante santificado à beira da morte, é
assinalado no conto de Trevisan como um ser que está para além de todo atributo,
como uma presença sensível de um ‘rosto’ (o “outramente”, de Lévinas, “a consciência
moral”), “que se coloca em face de mim”, sem que o “em face” represente hostilidade
ou amizade. Essa é a particularidade de outrem na linguagem, para Lévinas, e que
dialoga com a condição em que se situam os personagens de “Cemitério de elefantes”.
Ao equiparar os moribundos bêbados à imagem dos velhos elefantes, o conto
de Trevisan está longe de representar uma animalidade ou o resíduo de uma
animalidade. Ao contrário disso, o enredo do conto constitui “a humanização total do
Outro” (LÉVINAS, 2008, p. 55).
Os bêbados convivem em um espaço ocupado pela pluralidade dos homens,
mas que se apresenta em alteridade para os personagens do conto, ao impor-lhes uma
condição de infortúnio e exclusão e por viverem uma vida diferente em relação ao
mundo.
A distinção humana não é idêntica à alteridade, como trata Hannah Arendt
(2014), “nem é idêntica à curiosa qualidade da alteritas, comum a tudo o que existe e
que é classificada como uma das quatro características básicas e universais do Ser,
transcendendo toda qualidade particular” (ARENDT, 2014, p, 218). Para Arendt, a
alteridade é aspecto importante da pluralidade,

é a razão pela qual todas as definições humanas são distinções. Em


sua forma mais abstrata, a alteridade está presente somente na mera
multiplicação de objetos inorgânicos, ao passo que toda vida
orgânica já exibe variações e distinções, inclusive entre indivíduos da
mesma espécie. Só o homem, porém, é capaz, de exprimir essa

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distinção e distinguir-se, e só ele é capaz de comunicar a si próprio e


não apenas comunicar alguma coisa – como sede, fome, afeto,
hostilidade ou medo (ARENDT, 2014, p. 218).

Desse modo, a alteridade que o homem partilha com tudo o que existe (no
conto, por exemplo, isso se aplica aos bêbados em relação ao espaço em que se
situam) e a distinção que ele partilha com tudo o que vive tornam-se unicidade. Então,
como diz Arendt, é por isso que “a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de
seres únicos”.
Assim, o homem tem o arbítrio de sua individualidade – os homens podem
viver do trabalho ou deixar que outros trabalhem por eles; podem simplesmente usar
e fruir do mundo das coisas sem lhe acrescentar um só objeto útil. As vidas podem ser
até injustas – alguns trabalham, outros só bebem – mas certamente são vidas
humanas.
Ao descrever não só o convívio dos bêbados, o espaço narrativo de “Cemitério
de elefantes” focaliza a morte dos personagens. É um espaço de morte, em que a vida
mostra a sua face mais frágil. Nesse aspecto, a escrita de Trevisan dialoga com a
doutrina da “Epifania do rosto”, descrita por Emmanuel Lévinas.
A epifania de que trata Lévinas consiste no “despertar para o outro homem na
sua identidade indiscernível para o saber; o rosto com a própria mortalidade do outro
homem”. É como se a Morte de cada personagem do conto remetesse para a
consciência de cada leitor – como se fosse sua a responsabilidade daquele indivíduo
(rosto) que falece às margens do rio. É um cemitério ficcional, criado para que se possa
também refletir que a morte do Outro homem põe em xeque e questiona a alteridade
de cada ser. Para Lévinas, a alteridade e esta separação absoluta manifestam-se na
epifania do rosto, no face a face:

A morte do outro homem me põe em xeque e me questiona, como


se desta morte o eu se tornasse, por sua indiferença, o cúmplice, e
tivesse que responder por esta morte do outro e não deixá-lo morrer
só. É precisamente neste chamado à responsabilidade do eu pelo
rosto que o convoca, que o suplica e que o reclama, que outrem é o
próximo do eu (LÉVINAS, 2010, p. 212-213).

O conto focaliza nos bêbados e nos elefantes a mesma condição de isolamento,


morte e fragilidade – o estar isolado é estar privado da capacidade de agir. A antiga
crença popular, como apresenta Arendt, indicava que um “homem forte” seria aquele
que, isolado dos outros, atribuiria sua força ao fato de estar só. Essa mera superstição,

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assim classificada por Arendt, estava baseada na ilusão de que ‘o estar só’ levaria à
condição ideal para que se ‘produzisse’ algo no domínio dos assuntos humanos.
Assim, o homem isolado seria capaz de ‘produzir’ instituições ou leis, tal como
se produzem mesas e cadeiras; também seria capaz de ‘produzir’ “homens melhores
ou piores”. Essa crença da produção através do isolamento também pode expressar “a
desesperança consciente de toda ação, política e não política, aliada à esperança
utópica de que seja possível tratar os homens como se tratam outros ‘materiais’”.
(ARENDT, 2014, p. 233).
E, para se contrapor a tudo isso, o escritor tenta, através de seus escritos
ficcionais, modificar o leitor e, assim, transformar os severos transtornos da sociedade,
em especial a brasileira, uma das campeãs mundiais em desigualdades sociais e em
preconceitos de toda espécie.
A escrita de Dalton Trevisan, dando ênfase aos excluídos sociais, através dos
personagens de sua escrita ficcional, segue na intenção de responsabilidade social e
está dedicada ao destino último do homem – certamente, o de alcançar a plenitude e a
felicidade na Terra, contribuindo para dirimir as desigualdades e as diferenças de toda
ordem, a partir do exercício libertador decorrente do texto literário.
O texto literário de Trevisan conduz a uma abordagem humanizadora desses
“elefantes” (os bêbados), pois eles se juntam em comunidades. Juntos, sabem que
formam um grupo harmônico dos excluídos, dos marginalizados, dos párias – daqueles
que vivem de restos. E esperam o que é inevitável a todos – a morte. Aguardam a
morte com naturalidade e, enquanto esperam pelo decreto final, convivem em paz e
em ajuda mútua.
Após a leitura sociossemiótica de “Cemitério de elefantes”, não é mais possível
olhar para um bêbado com a mesma visão anterior; descobre-se que eles estão ‘entre
nós’, não são ‘mera paisagem’. Os bêbados de Trevisan, que representam o homem à
deriva, têm alma de elefante: eles são solidários e se respeitam.
Os bêbados ocupam o mesmo espaço do resto do mundo e é para essa reflexão
que o conto conduz, pois, os “bêbados-elefantes-humanizados-desprezados” optaram
viver por eles mesmos, com toda desenvoltura, apesar das normas e códigos sociais.
Eles são felizes em um local fétido e sujo, apesar de saberem que os outros seres
vivem “outramente”, no conforto de seus lares. E, por que não, um dia, os indivíduos à
margem estarão “conosco, se nós também, mudando nossas leis e nossas posturas,
quiséssemos um dia nos tornarmos nós mesmos, isto é, outros – um pouquinho?”
(LANDOWSKI, 2002, p. 66).

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O texto literário proporciona esse ‘diálogo’ entre o ficcional e o real, a fim de


que se possa refletir sobre a ausência e a indiferença da sociedade em relação aos
sujeitos que sofrem na carne o opróbrio da condição humana e as injustiças.
O espaço que os bêbados ‘ocupam’ é aquele definido como espaço marginal,
em duplo sentido: o sentido de margem ou beira do rio e, também, conotativamente,
como um local de partidas ou o espaço dos excluídos, em relação ao grupo de
referência social.
Para o narrador de “Cemitério de Elefantes”, entretanto, os bêbados não
ocupam um lugar insignificante; ao contrário, mediante um olhar sensível, a narrativa
fornece um recorte humanizado do sujeito que está às margens, desses “pequenos
nadas” para a esfera social. Embora os bêbados sejam velhos, possam ser desprezados
e serem imperceptíveis para o mundo, não são insensíveis ao olhar do narrador.
Os marginalizados sociais do conto de Trevisan, contudo, são verdadeiros, pois
mal sabem o que são – uma espécie de “cegos sociais” –, assim considerados no
sentido em que Landowski define que eles não veem (não querem ou não podem ver)
que os Outros, “os videntes, os olham; e, na melhor das hipóteses, eles apenas
entreveem de modo difuso o que os outros, por sua vez, veem demasiado dele.”
(LANDOWSKI, 2002, p. 46).
“Nunca estamos presentes na insignificância”, como afirma Landowski e, ao
equiparar-se a condição existencial dos bêbados com a solidariedade dos elefantes à
beira da morte, a narrativa posiciona-se frente a uma consciência moral que não isola
a culpabilidade advinda da exclusão social.
A estereotipia baseia-se numa crença múltipla e cristalizada, de forma que é
comum o seguinte raciocínio – o Outro não sou Eu, então, não sou responsável por
esse Outro.
A literatura de Trevisan, como arte que enseja metamorfose, permite refletir
sobre as ausências de uma dada sociedade em relação aos desiguais, e reflete-se sobre
a dimensão da condição humana. O conto revisa questões ligadas à consciência moral
e cria, assim, um não-mundo, através do espaço de alteridade em que vivem os
personagens do conto. Esse poder que emana do conto é comunicativo e aberto-ao-
mundo, transcende e libera no mundo uma apaixonada intensidade que estava
aprisionada no si-mesmo (self).
É algo mais que uma transformação – bêbados e elefantes –, trata-se de uma
transfiguração, uma verdadeira metamorfose, como se o curso da natureza mortal –
que requer que tudo se extinga vire em ossos, pó ou cinzas – fosse invertido, de modo
que até o pó pudesse irromper em chamas. Essa é a permanência do texto literário,

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que permite refletir sobre as questões que englobam o humano, assim como as
abordadas no conto “Cemitério de elefantes”.
Naquele espaço da praça, onde estão os personagens à deriva, a existência
acaba, mas a condição humana, não: sobrevive por meio da narrativa, que lhe tira das
cinzas e lhe confere a ‘memorialidade’ – essa capacidade que a obra literária contém,
ou seja, a possibilidade de ficar permanentemente fixada na lembrança da
humanidade.
Dessa forma, o conto “Cemitério de elefantes”, como obra literária e artística,
proporciona um universo ficcional “artificial” de coisas, nitidamente diferente de
qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras, contudo, é abrigada cada ‘vida’
individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas elas. É
por isso que a condição humana da obra é a sua mundanidade – a capacidade que o
homem possui de estar em pluralidade, sendo tão singular.
A ficção de Trevisan, em “Cemitério de elefantes”, comprova que a literatura é
a arte que promove a representação de todas as alteridades, o encontro com todas as
diferenças. Na representação da realidade da ficção, os espaços que jamais poderiam
ser mantidos juntos encontram abrigo na palavra, no texto, na criação subjetiva do
humano.
Na instância do texto literário, as palavras não carregam categorias de espaço,
nem de tempo, nem de lugar, mas a essência primordial de sua significação. Uma
significação que não cessa e que não se encerra, e que promove a revisão e a
diferença.
A reflexão de Landowski remete a outros planos semióticos, nos quais se
encontra a obra literária, ‘engajada’ implicitamente em um projeto político capaz de
repensar as diferenças e incluí-las, através das narrativas ficcionais. Nessas obras, tais
como o conto “Cemitério de elefantes”, de Dalton Trevisan, os narradores são
verdadeiros Robinsons à procura obstinada de vencer a alteridade que se lhes
configura. Assim que, para Landowski,

somos todos pequenos Robinsons com pés no chão: somos heróis de


romances que vagamos por mundos em construção, obrigados que
estamos, para advir à existência no interior de nosso próprio texto, a
fazer de nós também construtores de cenários, planejadores
urbanos, geômetras, agrimensores, sinalizadores do espaço – e do
tempo (LANDOWSKI, 2002, p. 70).

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Nesse sentido, a escrita literária dá voz ao Outro, e procura promover um


diálogo com a sociedade a fim de atenuar ou extinguir as fraturas sociais do mundo
contemporâneo, marcadas pela estereotipia, pela injustiça e pela exclusão social. A
literatura oferece essa porta aberta, que produz sentidos, de tal forma que se reflita
sobre as presenças do Outro e se permita a análise e a reflexão da condição humana
das minorias excluídas e que sofrem a ação da estereotipia.
O espaço habitado pelos personagens do conto “Cemitério de elefantes”
comprova que a ficção é um lugar em que o homem pode viver e contemplar, através
dos personagens, a plenitude de sua condição humana, e no qual se torna
transparente a si mesmo.
O espaço da narrativa é um lugar em que o homem, transformando-se
imaginariamente no Outro – no bêbado, no elefante, no louco, no dândi, no camaleão
etc. – e vivendo outros papéis, destaca-se de si mesmo.
Desse modo, a literatura proporciona ao homem uma presença no horizonte –
“que meu próximo seja o Ente por excelência” – e lhe possibilite viver a sua condição
fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de se desdobrar,
caleidoscopicamente, distanciar-se de si mesmo e de objetivar sua própria situação,
responsabilizando-se pelo Outro, conferindo-lhe um Rosto, apreendendo o Outro na
abertura do ser em geral, como elemento singular da sua identidade plural.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro:


Forense Universitária, 2014.
BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis,
Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CURY, Maria Zilda Ferreira. Novas geografias narrativas. Letras de Hoje, v. 42, n.4.
Porto Alegre, 2007.
LANDOWSKI, Eric. Presenças do outro: ensaios de sociossemiótica. São Paulo:
Perspectiva, 2002.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Trad. Pergentino Pivatto et
al. (Coord.). 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
TREVISAN, Dalton. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso,
2009.

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MACISTE NO INFERNO: O CINEMA NA OBRA DE VALÊNCIO XAVIER

Fernanda Borges1

Valêncio Xavier nasceu em São Paulo, mas viveu durante grande parte de sua
vida no Paraná. Apelidado por Joca Reiners Terron de Frankenstein de Curitiba (em
paralelo a Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba), escreveu uma série de narrativas
visuais, híbridas. Seus livros contêm fotografias, desenhos, mapas, anúncios
publicitários, excertos de jornal e, também, palavras e frases, claro. Sua sintaxe não é
apenas verbal, mas, sobretudo, visual. Valêncio Xavier foi um artista que trabalhou em
diversas áreas e transitou por inúmeros meios, o que permite que pensemos em uma
poética interartística. Ele faleceu em 2008, deixando-nos várias obras a serem lidas e
redescobertas, pois muitos de seus textos foram publicados em pequenas editoras e
diversas vezes financiados pelo próprio autor. Em 1998 a editora Companhia das Letras
publicou uma reunião de textos do escritor sob o título O mez da grippe e outros
livros2, os quais haviam sido publicados separadamente.
O cinema, além de estar presente na estrutura de muitos textos, também é um
tema abordado pelo autor. Em Maciste no Inferno, publicado primeiramente em 1983
e depois em O mez da grippe e outros livros, acompanhamos os pensamentos da
personagem no cinema e assistimos com ela a trechos da história. A narrativa intercala
imagens do filme de 1925, que dá título à obra, à descrição das cenas, bem como à
narração dos principais acontecimentos do enredo e do constrangimento do homem
que, excitado pelas personagens, pelas cenas que vê na tela e pelo contato com o
braço da moça ao seu lado, masturba-se e sai à francesa do cinema para ninguém
perceber a grande mancha em suas calças...
“Negro como o inferno até acostumar a vista fico em pé as mãos na mureta de
madeira que separa as fileiras de cadeiras da grande porta com cortinas de velludo que
separa a salla de exibições da salla de espera”.3 Um homem vai ao cinema e entra na
sala quando a sessão já iniciou. Ao invés de procurar um bom lugar para se acomodar e
apreciar o filme, como normalmente se costuma fazer com lentidão e cuidado na sala
1
Doutoranda em Teoria da Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Bolsista CNPq.
E-mail: fernanda_etc@hotmail.com
2
Essa publicação recebeu em 1999 o Prêmio Jabuti de Melhor Produção Editorial.
3
Não há numeração de páginas em Maciste no inferno.

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escura, ele observa especialmente os lugares ocupados: quer se sentar ao lado de uma
mulher. O filme? Talvez não seja o mais importante para esse espectador: “Olho a tela
e nada vejo”, diz ele. Quem vê o filme é o leitor. Aliás, o leitor-espectador assiste a dois
filmes, ou melhor, a um filme somente, mas pensado em montagem paralela:
enquanto o narrador e a personagem assistem a Maciste no Inferno, nós assistimos ao
que se passa nas poltronas e na tela do cinema; vemos o narrador propor um jogo à
moça enquanto ela está mais interessada em descobrir o destino do herói do filme. E,
nós, no terceiro “enquanto”, queremos descobrir todos esses desfechos.
Maciste no inferno é um filme mudo italiano de 1925 dirigido por Guido
Brignone e protagonizado por Bartolomeo Pagano, um dos astros do peplum, gênero
épico italiano; é também um filme de 1962 dirigido por Riccardo Freda, realizador
famoso do gênero e, ainda, é um texto de Valêncio Xavier, de 1983, presente em O
mez da grippe e outros livros, de 1998.

Figura 1 – Maciste em três tempos: 1925, 1962, 1983.4

O filme assistido pelo narrador do texto é o de 19255. As descrições das cenas


na tela são intercaladas às da personagem em sua tentativa de aproximação e de
intimidação da mulher ao lado. Ele não ousa tocá-la, contudo, ao considerá-la bonita e
atraente, cruza os braços para, com a ponta dos dedos, conseguir roçar em sua blusa

4
Fontes: http://letterboxd.com/film/maciste-in-hell/
http://www.moviepostershop.com/maciste-in-hell-movie-poster-1931
http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-718068049-raros-maciste-no-inferno-valncio-xavier-
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5
Para assistir ao filme: https://www.youtube.com/watch?v=DiGkUD6f_uc

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de seda. Isso é o suficiente para que o narrador se sinta excitado e comece a se


masturbar ao lado da moça. Ela não tira os olhos da tela e não quer participar de seu
jogo, ameaçando chamar o guarda caso o narrador não fique “quieto”. Mesmo assim,
ele goza e tenta sair discretamente para o banheiro. É o primeiro a deixar a sessão e é
observado pelas pessoas na sala de espera, pois está com o chapéu cobrindo a mancha
úmida nas calças.
Como o narrador entra na sala de cinema após o filme já ter iniciado, os
fotogramas antecedem a sua narração. O filme também antecede as palavras na
narrativa que estamos lendo. Ainda é interessante observar que a primeira página de
Maciste no inferno remete aos filmes que estão ou estarão em cartaz naquela sala de
cinema. Todos os títulos correspondem a filmes da década de 1920 e apresentam certa
conotação erótica: Noite de Amor, Vertigem de Luxo, Caminho da Perdição, Gigolô,
Rouge e Pó de Arroz, Perdida em Paris, Os Mysterios de Hollywood, Bachanal, Sodoma
e Gomorra, Três Noites de D. Juan, Macho e Femea, Maciste no Inferno…
A ausência de pontuação no texto escrito e de paginação no livro demonstra
que ele não se diferencia do texto fílmico, ou seja, explicita que são uma mesma
narrativa, em que imagens e palavras passam a se imiscuir por meio de sua
interpretação e de sua linguagem – um português antigo para um filme antigo
assistido no início do século XX. A mudança no foco narrativo – narração em primeira e
em terceira pessoa – ocorre por meio da mudança na fonte do texto: o filme é narrado
em arial, e as impressões do homem no cinema em letras times new roman em
negrito. Desse modo, os dois pontos de vista podem ser lidos também separadamente.
Além disso, se o Maciste da tela do cinema desce ao inferno ainda em uma
perspectiva heróica e hercúlea, o anti-herói valenciano – ou herói sem moral – vai ao
cinema em busca de prazeres obscuros: no escuro da sala, ele se sente à vontade para
dar vazão ao seu desejo ignorando quase que por completo o filme exibido. A mulher
no cinema representa a tentação do narrador, tentação essa buscada por ele e não
infligida por deuses ou demônios. A montagem dos fotogramas com a narração de
cenas de Maciste no inferno e com a narração da personagem também caracteriza a
atmosfera sensual buscada pelo narrador. A seleção de imagens do filme presentes na
narrativa remete à sedução, ao corpo feminino e à libertação do desejo, características
do inferno retratado na película. Tais fotogramas estão dispostos nas páginas em outra
ordem que não a do filme, ou seja, a montagem que lemos não é exatamente a mesma
a que assistimos. Somente percebi isso, obviamente, ao assistir ao filme no
computador e me deparar com a imagem que abre o texto de Valêncio, a qual está
presente no meio da história de 1925. As mulheres em trajes mínimos constam como

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tentações de Maciste no inferno, mas são a apresentação escolhida por Valêncio Xavier
para o texto que vamos ler.

Figura 2 – A introdução do texto de Valêncio Xavier

No filme Maciste no inferno, Bartolomeo Pagano dá vida ao herói, que nos


remete a Hércules: com bom coração e com braços fortes. A personagem fílmica foi
criada pelo poeta italiano Gabrielle d’Annunzio, que escreveu o roteiro do épico
Cabíria, de 1914. Nesse filme, Maciste não é a personagem principal, mas seus
atributos mitológicos fizeram-no popular a ponto de estrelar outras diversas
produções até os anos de 1960. Na narrativa retomada por Valêncio Xavier, livremente
inspirada em A divina comédia, de Dante Alighieri, o herói é desafiado por Plutão que,
por invejar a força física e moral da personagem, envia o demônio Barbadilha para
provocar Maciste e atraí-lo ao inferno. Lá, ele deve superar a tentação da carne se
quiser voltar à sua vida. Mesmo entre Plutão, os demônios e os condenados, Maciste
se mostra um líder, porém, ao ser beijado por Proserpina, a esposa de Plutão, é
novamente sentenciado a permanecer no inferno. Mas herói que é herói, se não conta
com os seus próprios trunfos, conta com os deuses, com a sorte ou com a vontade do
autor e do público de vê-lo superar tais provas demoníacas. Quando nada mais parece

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poder salvar o paladino, a prece de agradecimento da criança a qual Maciste defendeu


de Barbadilha o faz voltar à Terra. A prece infantil salva o herói do inferno, afinal, ele
precisa viver mais histórias e aventuras no cinema.

Figura 3 – A salvação de Maciste

Os filmes Maciste no inferno de 1926 e de 1962 pertencem ao gênero peplum,


um tipo de gênero épico específico do cinema italiano. Segundo Jacques Aumont e
Michel Marie,

O termo (oriundo do latim peplum, que designa um vestuário)


apareceu na crítica francesa por volta de 1958-1959, para designar
produções italianas populares que representam de forma muito
fantasista personagens da antiguidade greco-romana (AUMONT,
MARIE, 2009, p. 192).

As túnicas características desse período dão nome ao gênero, que retratam


figuras inspiradas na mitologia clássica. Tais produções populares, com baixo
orçamento e com histórias fantásticas e hiperbólicas, influenciaram cineastas
contemporâneos, como Quentin Tarantino, o qual realiza uma paródia do gênero nos
filmes Kill Bill, volumes 1 e 2, em que também se utiliza de referências aos “filmes B”
de artes marciais, por exemplo.

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A tradição do filme que reconstitui a antiguidade é muito precoce no


cinema italiano das origens, até Cabíria (1914) e depois no cinema
americano. Mas o termo “peplum” só se aplica à produção italiana e
ítalo-americana de filmes com temas antigos, do final dos anos 50
aos anos 70. Estes filmes não são superproduções com orçamentos
colossais, mas pertencem antes à categoria do “cinema bis”.
Exploram tanto quanto possível as técnicas de trucagem, o grande
ecrã do Cinemascópio e a cor. As narrativas estão sempre no limite
da paródia e nunca procuram a verossimilhança. O desempenho dos
actores é caracterizado por uma certa desenvoltura. Esta forma de
cinema marca um regresso às “atracções de feira” das origens
(AUMONT, MARIE, 2009, p. 192).

Assim como os pepla não dispunham de um grande orçamento para produção,


o mesmo ocorreu com o cinema e a literatura de Valêncio Xavier. Somente a partir da
publicação de O mez da grippe e outros livros pela Companhia das Letras em 1998, os
textos do autor tiveram um alcance nacional e não mais ficaram restritos a pequenas
editoras de distribuição regional. No entanto, as publicações anteriores somente são
encontradas a preços bastante restritivos, e a edição de Maciste no inferno, de 1983, é
uma raridade.
Se O mez da grippe é definido por seu autor como uma novella, Maciste no
inferno é concebido como raconto. Remetendo ao italiano racconto (conto, em
português), Valêncio Xavier evidencia a sua brincadeira de recontar a história do herói
popular Maciste filmada em 1926. Tem-se, portanto: o filme de Guido Brignone, o
narrador valenciano no cinema e o peplum sob a perspectiva do escritor – gênero de
massa retomado em uma narrativa que prima por escancarar seu caráter ordinário e
barato. Afinal, como não imaginar certa sordidez na poltrona do cinema e nas calças
do narrador?
Se usualmente é a literatura que é levada às telas do cinema, neste texto de
Valêncio Xavier é o cinema que é levado às páginas do livro. Com uma estratégia de
composição que se utiliza da mise en abyme para encaixar as narrativas e as diferentes
linguagens em obras que propõem a iconicidade e a verbalidade como elementos que
se espelham – o texto, de um modo bastante direto, constitui-se, portanto, a partir do
cinema na literatura. Não o cinema intelectualizado e cult ou o cinema hollywoodiano
e repleto de glamour, mas aquele que nos remete puramente ao entretenimento, à
cultura popular, sem grandes orçamentos ou pensamentos: o épico de massa. Em
entrevista com Valêncio Xavier, Ricardo Aleixo sintetiza tal atributo do autor:

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Como quem não quer nada além de se divertir, Xavier testa os limites
de cada gênero, sempre à procura da forma mais adequada a cada
assunto, mas age como quem transita em um ambiente próprio, fora
da literatura reconhecida como tal, esforçando-se por nos fazer crer
que seu conhecimento é ‘de almanaque’, não erudito (ALEIXO, 1998,
p. 3).

No entanto, o conhecimento “de almanaque” presente nos livros de Valêncio


Xavier é bastante enciclopédico em certa medida, pois demanda um leitor-
pesquisador, ou seja, um leitor que busque as referências e as brincadeiras do autor
realmente em um processo investigativo. Esse leitor também se torna híbrido ao ter de
lidar com labirintos e enigmas a fim de compreender tais “narrativas em abismo”. E
isso se constitui como um grande prazer. Em uma noite destinada ao estudo e à escrita
acadêmica, surge a possibilidade de se assistir a um filme de 1925 e de se descobrir um
novo gênero cinematográfico. A escritura limiar de Valêncio Xavier não estabelece
distinções e hierarquias entre palavras e imagens e configura-se não somente como
arte, mas como entretenimento, jogo e, também, literatura: uma literatura mais
eclética, híbrida, popular, lúdica, divertida, livre.

Referências

AUMONT, Jacques ; MARIE, Michel. Peplum. In: Dicionário teórico e crítico do cinema.
Trad. Carla Bogalheiro Gamboa e Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições Texto &
Grafia, 2009.
MACISTE NO INFERNO (Maciste in hell). Produzido por Stefano Pittaluga. Escrito por
Riccardo Artuffo. Dirigido por Guido Brignone. Intérpretes: Bartolomeo Pagano,
Elena Sangro, Lucia Zanussi, Franz Sala et al. 87 min, 1925, mono, preto e branco.
XAVIER, Valêncio. O mez da grippe e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras,
1998.
______. “Mez da grippe” revela escritor polígrafo. O Tempo, Belo Horizonte, p. 3, 3
out. 1998. Entrevista concedida a Ricardo Aleixo.

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PRODUÇÃO DISCURSIVA NA AFASIA BILÍNGUE:


ENFOQUE NOS PADRÕES DE RECUPERAÇÃO DAS LÍNGUAS

Fernanda Schneider1

Introdução

No nosso atual contexto, não é exagero afirmar que quase metade da


população mundial é bilíngue ou multilíngue (GIUSSANI, ROUX, LUBRANO, GAINI,
BELLO, 2007; WEEKES, 2010). O bilinguismo é comumente definido como o uso de dois
idiomas ou dialetos na vida diária, independentemente da situação de uso (ANSALDO,
MARCOTTE, SCHERER, RABOYEA, 2008; GROSJEAN, 1994). Definição semelhante é
atribuída a um indivíduo multilíngue que faz uso de três ou mais idiomas ou dialetos.
Na contramão de ser um dado positivo - como na questão do bilinguismo -,
encontramos estimativas que apontam para o crescente número de novos casos de
afasia, muitos deles, afasia bilíngue - o que justifica o enfoque deste estudo. A afasia
consiste na alteração do conteúdo, na forma e no uso da linguagem e de seus
processos cognitivos subjacentes, tais como percepção e memória (ORTIZ, 2010, p. 47)
e pode surgir em decorrência de uma lesão no sistema nervoso central. No Brasil,
apesar de ter aumentado o interesse de pesquisadores que abordam a afasia, ainda
temos lacunas e há muito a ser pesquisado. E no que se refere especificamente à
afasia na população bilíngue, o desafio ainda é maior (SCHERER, 2011), primeiro,
porque existem fatores que influenciam, como idade de aquisição e proficiência;
segundo - e bem importante - devido à existência de dois sistemas linguísticos que co-
operam (FABBRO, 2001). Desse modo, isso deve ser considerado na avaliação e na
terapia tanto da produção quanto da compreensão linguística.
Diante dessas considerações, o presente estudo aborda noções acerca da
produção discursiva na afasia bilíngue. Para isso, partimos da seguinte questão: Qual é
a relação entre o tipo de tratamento e a recuperação das línguas na afasia bilíngue?

1
Doutoranda em Letras - Linguística, com ênfase em Neuropsicolinguística, na Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). É professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus Ibirubá e bolsista da CAPES (Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
E-mail: fernanda.schneider.001@acad.pucrs.br

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Para refletirmos sobre essa questão, buscamos respostas nas investigações presentes
na literatura existente, mais especificamente nos estudos de Fabbro (2001), Obler e
Park (2012), Adrover-Roig, Marcotte, Scherer e Ansaldo (2012), Verreyt (2013) e
Ansaldo e Saidi (2014) e no resultado de uma revisão sistemática nas bases de dados
Scielo, Scopus e ScienceDirect. Para tanto, apresentamos, primeiramente, algumas
noções acerca da afasia bilíngue, e na sequência, resultados dos estudos. Por fim,
discutimos esses resultados e apresentamos alguns apontamentos para a questão aqui
abordada.

Processamento discursivo, tratamento e recuperação das línguas na afasia bilíngue

Vários estudos clínicos têm demonstrado que afásicos bilíngues não


necessariamente manifestam as mesmas características, em termos de grau de
gravidade em ambas as línguas. Por essa razão, de acordo com Paradis (1995), já não é
eticamente aceitável avaliar pacientes afásicos em apenas uma de suas línguas.
Entretanto, cabe ressaltar que ainda são poucos, especialmente no Brasil, os
profissionais habilitados para trabalhar com a afasia bilíngue e os instrumentos
disponíveis para a avaliação –mesmo se tratando da afasia monolíngue.
A afasia bilíngue é caracterizada por desordens de natureza linguística. Dentre
essas desordens, destacam-se (SCHERER, 2011): a mistura de códigos (language
mixing) – que é caracterizada pela inclusão de elementos de uma língua na produção
da outra; a troca de códigos (language switching) – o falante inicia sua fala em uma
língua e, em seguida, passa a falar na outra língua, trocando o código inicialmente
utilizado; e problemas relacionados à tradução – que podem acarretar falta de
habilidade em tradução, necessidade de traduzir tudo o que é dito, tradução sem
compreensão ou paradoxal, em que o paciente consegue traduzir para a língua que
não fala de modo espontâneo.
Durante a fase aguda de recuperação, um afásico bilíngue pode apresentar
diferenças drásticas nas línguas, o que resulta numa variedade da dinâmica dos
padrões de recuperação. Lorenzen e Murray (2008) apresentam uma adaptação (Tab.
1) de Paradis (2004) e Fabbro (2001) para sintetizar essas diferenças.

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Tabela 1 - Bilinguismo e afasia


Padrões de Características
recuperação

Paralela Recuperação de línguas paralela às capacidades relativas anteriores à afasia. Se uma


(61%) língua era mais forte, voltaria a ser a mais forte.

Diferencial Uma língua é recuperada de modo muito melhor do que a outra em comparação com as
(18%) habilidades anteriores à afasia.

Antagônica Uma língua está inicialmente disponível; à medida que a outra língua é recuperada, a
inicial é inibida.

Antagonismo Repetição do padrão anterior com as línguas alternando em disponibilidade. Isso pode
alternado ocorrer dentro de ciclos que variam de 24 horas a vários meses.

Mistura (7%) Mistura incontrolável de palavras e construções gramaticais de duas ou mais línguas,
mesmo quando há a tentativa de se falar em apenas uma delas (é diferente da prática
comum de code-switching).

Seletiva (5%) Perda de linguagem somente em uma língua sem déficit mensurável na outra.

Sucessiva Recuperação de uma língua anterior à outra.


Fonte: Lorenzen, Murray (2008)

Na Tab. 1, podemos observar as principais características dos padrões de


recuperação das línguas. A recuperação pode ser paralela, diferencial, antagônica,
antagonismo alternado, mistura, seletiva e sucessiva. Apesar de se ter alguns
indicativos, exatamente o que contribui para o padrão de recuperação ainda é
debatido. O que podemos afirmar é que “compreender as características do discurso
afásico mono- e bilíngue é de fundamental importância para o tratamento”
(SCHERER, 2011, p. 947). Isso porque a recuperação da habilidade discursiva – crucial
no meio familiar e social – possibilita ao afásico melhor interação e consequentemente
sua readaptação social.
Nesse sentido, destacamos um aspecto relacionado ao processamento
discursivo, a ser considerado na afasia bilíngue: o contexto discursivo (SCHERER, 2011).
Faz-se necessário considerar o fato de que bilíngues podem privilegiar uma língua ou
outra, dependendo da situação. Por exemplo, no ambiente familiar o bilíngue utiliza
uma língua e com pessoas que não sejam da família utiliza outra. Como o afásico pode
apresentar dificuldade maior em uma das línguas, isso pode acarretar prejuízo do

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discurso num determinado contexto – o que deve ser observado e considerado pelo
terapeuta.
Assim, ao avaliar o afásico bilíngue, no que diz respeito ao processamento
discursivo, faz-se necessária a observação desses aspectos e é fundamental a
verificação dos elementos indicativos da complexidade e da eficiência da compreensão
e da produção discursiva do paciente a ser avaliado. O que implica, dentre outras
questões, considerar a habilidade de inferenciação, coesão e coerência discursiva,
conteúdo comunicativo e intencionalidade, linguagem não verbal e gestualidade.

Algumas investigações acerca da afasia bilíngue

Ao focar o tema deste estudo, realizamos uma revisão da literatura existente


(Tab. 2) e uma revisão sistemática (Tab. 3). O objetivo era o de verificar evidências da
relação entre o tipo de tratamento e a recuperação das línguas na afasia bilíngue. A
Tabela 2 apresenta 4 estudos relevantes para o tema proposto.

Tabela 2 – Estudos sobre afasia bilíngue


AFASIA BILÍNGUE
TÍTULO AUTORES OBJETIVOS RESULTADOS
1 Impairment Grasemann, Criar métodos computacionais Prediz que a língua mais fraca, a
and Sandberg, que podem complementar a primeira ou a segunda, é menos
Rehabilitatio Kiran, investigação clínica no resistente a danos do que a mais
n in Bilingual Miikkulainen desenvolvimento de uma forte. O modelo de tratamento
Aphasia: A melhor compreensão dos prevê que utilizando a língua
SOM-Based mecanismos subjacentes de menos danificada para tratamento
Model recuperação, e que poderiam beneficia a mais danificada, mas
(2011) ser utilizados no futuro para não vice-versa.
prever o tratamento mais
benéfico para os pacientes, de
modo individual.
2 The Nele Verreyt Explorar o controle da língua Pacientes com afasia diferencial
underlying por bilíngues não afásicos como mostraram priming cross-
mechanism uma função de comutação de linguístico da língua mais afetada
of selective linguagem diária (destacando- para a língua mais preservada. Isso
and se o fato de que o controle da demonstra que a língua menos
Differential língua passa a ser crucial para o recuperada pode ainda influenciar
recovery in estudo da afasia). O segundo o processamento sintático na
bilingual objetivo foi investigar as outra língua. Os resultados estão,
aphasia interações cross-linguísticas e em grande parte, em
(2013) controle cognitivo em conformidade com o modelo
participantes com afasia proposto por Hartsuiker et al.
bilíngue. (2004), e apoiam um controle com
base nos diferentes padrões de
afasia bilíngue.

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Tabela 2 (continuação) – Estudos sobre afasia bilíngue


TÍTULO AUTORES OBJETIVOS RESULTADOS
3 The Study of Obler, Investigar, na literatura Os estudos apresentados sugerem
Bilingual Park existente, qual língua retorna que as questões propostas não são
Aphasia: The primeiro na afasia bilíngue e se de fácil resolução. O que se tem,
Questions essa é a L1 ou a língua mais como resposta, são apontamentos
Addressed usada. e aspectos importantes a serem
(2012) considerados, como o fato de a
língua mais usada próximo ao AVC
ser mais facilmente recuperada.

4 Bilingual Adrover-Roig, Apresentar e refletir a A literatura sugere que a terapia


Aphasia: Marcotte, literatura existente intensiva, especificamente com
Neural Scherer, sobre representação em L1 e foco na disfunção linguística, é a
Plasticity and Ansaldo L2, focando a troca e a mistura chave para a recuperação.
Consideratio na linguagem patológica. Pressupõe-se que o estudo de
ns for estimulação magnética
Recovery transcraniana (TMS) e modelagem
(2012) causal dinâmica (DCM) permitirão
focar o impacto da abordagem
terapêutica como fator que pode
modular a transferência entre as
línguas.

Destacamos desses estudos, alguns aspectos. Grasemann et al. (2011) tinham o


objetivo de criar métodos computacionais que poderiam complementar a investigação
clínica no desenvolvimento de uma melhor compreensão dos mecanismos subjacentes
de recuperação, e que poderiam ser utilizados para prever o tratamento mais benéfico
para os pacientes de modo individual. Como resultado, o modelo (GRASEMANN et al.
2011) fez previsões testáveis.
Em primeiro lugar, os efeitos dos danos do ruído na nomenclatura sugerem
que, na maioria dos casos, o dano cerebral subjacente à afasia, não apenas o
comprometimento, é muito parecido para ambas as línguas. Em segundo lugar, prediz
que a linguagem mais fraca, se é a primeira ou a segunda, é menos resistente a danos
do que a mais forte. O modelo de tratamento prevê que utilizando a linguagem menos
danificada para tratamento beneficia a mais danificada, mas não vice-versa.
Já o estudo de Verreyt (2013) tinha por objetivo investigar as interações cross-
linguísticas e o controle cognitivo em participantes com afasia bilíngue. Como
resultados, destaca-se que os participantes com afasia diferencial mostraram priming
cross-linguístico da língua mais afetada para a língua mais preservada – a língua menos
recuperada pode ainda influenciar o processamento sintático na outra língua. Os
resultados estão, em grande parte, em conformidade com o modelo proposto por

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Hartsuiker, Pickering, Veltkamp (2004), e apoiam um controle com base nos diferentes
padrões de afasia bilíngue.
Por fim, os estudos de Obler e Park (2012) investigaram na literatura existente
qual língua retorna primeiro na afasia bilíngue e se essa é a L1 ou a língua mais usada,
e Adrover-Roig, Marcotte, Scherer e Ansaldo (2012) apresentam reflexões acerca da
representação em L1 e L2, focando a troca e a mistura na linguagem atípica. Os
estudos apresentados (OBLER, PARK, 2012) sugerem alguns apontamentos e aspectos
importantes a serem considerados, como o fato de que a língua mais usada próximo
ao AVC é mais facilmente recuperada (PITRES, 1895 apud OBLER, PARK, 2012). Outro
aspecto relevante é o apego emocional (MINKOWISK, 1963 e KRAPF, 1955 apud
OBLER, PARK, 2012) como fator ligado ao padrão de recuperação das línguas.
Os resultados dos estudos de Adrover-Roig et al. (2012) indicam que a
literatura aponta para o fato de que a terapia intensiva, especificamente com foco na
disfunção linguística, é a chave para a recuperação. Além disso, pressupõem que o
estudo de estimulação magnética transcraniana (TMS – transcranial magnetic
stimulation) e modelagem causal dinâmica (DCM – dynamic causal modelling)
permitirão focar o impacto da abordagem terapêutica como fator que pode modular a
transferência entre as línguas.
Na revisão sistemática, encontramos, a partir das palavras-chave (aphasia and
bilingual and recovery), 84 artigos. A busca foi realizada em 3 bases de dados: Scielo,
Pubmed e ScienceDirect. Ao aplicar os critérios de ano de publicação (2012 a 2015),
enfoque do estudo e excluindo revisões, textos repetidos e adaptações de testes,
chegamos a 5 artigos, conforme pode ser observado na Tabela 3.

Tabela 3 - Resultado das bases de dados


Afasia bilíngue

TÍTULO AUTORES OBJETIVOS RESULTADOS

1 A language teacher in Samar; Investigar o padrão de Os resultados revelaram a recuperação


the haze of bilingual Akbarib recuperação das línguas. não paralela das línguas. O estudo
aphasia: A Kurdish- mostrou que uma combinação de
Persian case (2012) variáveis influentes pode explicar o
padrão de recuperação de línguas pós-
acidente vascular cerebral.

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Tabela 3 (continuação) - Resultado das bases de dados


TÍTULO AUTORES OBJETIVOS RESULTADOS

2 Language Amberber Investigar o efeito do Os resultados demonstraram melhora


intervention in tratamento na segunda - específica da produção após o
French–English língua (L2), para um bilíngue tratamento em L2, e indicam cautela
bilingual aphasia: francês-inglês com afasia, em assumir que ocorrerá transferência
Evidence of limited anteriormente proficiente, 5 de terapia em proficientes bilíngues
therapy transfer anos pós- AVC. altamente motivados. O uso do BAT
(2012) como uma ferramenta de avaliação
cross-linguística é recomendado para
pesquisas na afasia bilíngue.

3 Semantic processing Sebastian, Analisar o efeito da língua Os resultados deste estudo


in Spanish–English Kiran, corrente uso/exposição na demonstraram que os substratos
bilinguals with Sandberg representação neural das neurais da linguagem de recuperação
aphasia (2012) línguas em participantes em pacientes bilíngues com afasia são
afásicos bilíngues (espanhol- semelhantes aos das regiões
inglês) usando uma tarefa de envolvidas por bilíngues típicos,
julgamento semântico. entretanto, incluir regiões adicionais
refletiria uma rede compensatória
para subservir a um processamento de
linguagem bem-sucedido.

4 A Computational Kiran, Aplicar um modelo O estudo sugere como a modelagem


Account of Bilingual Grasemann, computacional para simular computacional pode ser utilizada no
Aphasia Sandberg, um sistema de linguagem futuro para projetar receitas de
Rehabilitation (2013) Miikkulainen bilíngue Inglês-Espanhol em tratamento personalizado que
que representações resultam em uma melhor recuperação
linguísticas podem variar em do paciente.
idade de aquisição e
proficiência relativa nas duas
línguas para modelagem
individual de participantes.

O resultado dos estudos da tabela acima apresenta algumas indicações.


Amberber (2012) sugere que o tratamento pode ter de ser fornecido em cada língua
falada por um bilíngue com afasia. Os estudos de Samara e Akbarib (2012) indicam a
recuperação não paralela das línguas. Kiran et al. (2013) apontam para uma
modelagem computacional que pode ser utilizada no futuro para projetar tratamento
personalizado que resulte em uma melhor recuperação das línguas – o que poderia
também facilitar a escolha do tratamento. A pesquisa de Sebastian, Kiran e Sandberg
(2012) demonstrou que os substratos neurais da linguagem de recuperação em
pacientes bilíngues são semelhantes aos das regiões envolvidas por bilíngues normais,
entretanto incluir regiões adicionais refletiria uma rede compensatória para subservir
a um processamento de linguagem bem-sucedido que também pode ser considerado.

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Diante das investigações e resultados dos estudos, o que se pode afirmar é que
apesar do crescente número de pesquisas (ex. Tab. 2 e Tab. 3) sobre a afasia bilíngue,
ainda é difícil garantir se é vantajoso o paciente receber tratamento em apenas uma
ou nas duas línguas, ou se a opção por uma língua gera benefícios na recuperação da
língua não tratada.

Considerações finais

Como mencionamos anteriormente, ao focar o tema deste estudo, realizamos


uma revisão da literatura existente a fim de verificar evidências da relação entre o tipo
de tratamento e a recuperação das línguas na afasia bilíngue. Apresentamos alguns
estudos considerados relevantes para o tema proposto, presentes em obras
publicadas, e, além disso, realizamos uma revisão sistemática em bases de dados, a fim
de verificar estudos e buscar respostas para a questão abordada.
Partindo-se das reflexões e das investigações apresentadas: qual seria a relação
entre o tipo de tratamento e a recuperação das línguas na afasia bilíngue? O que pode
ser verificado é que apesar do crescente interesse pelo tema, os resultados ainda não
são suficientes para afirmar se é vantajoso o paciente receber tratamento em apenas
uma ou nas duas línguas, ou se a opção por uma língua gera benefícios na recuperação
da língua não tratada. Considerando-se que cada afásico é diferente, o que podemos
afirmar é que a avaliação, o tratamento do processamento discursivo e a recuperação
das línguas, no caso de um bilíngue, oferecem desafios a pesquisadores e terapeutas.
O grande desafio talvez seja o de se desenvolverem estratégias comunicativas
compensatórias, que proporcionem ao afásico a possibilidade de reinserir-se em seu
meio social, familiar e até mesmo profissional, apesar de suas limitações linguísticas.

Agradecimentos: Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS
(Campus Ibirubá) pela concessão à primeira autora de afastamento total para capacitação e à
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, pela bolsa de estudos.

Referências

ADROVER-ROIG, D., et al. Bilingual aphasia: neural plasticity and considerations for
recovery. In.: GITTERMAN, M. R.; GORAL, M.; OBLER, L. K. Aspects of Multilingual
Aphasia. Bristol, UK: Multilingual Matters, 2012.
AMBERBER, A. M. Language intervention in French–English bilingual aphasia: Evidence
of limited therapy transfer. Journal of Neurolinguistics, v. 25, p. 588–614, 2012.

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ANSALDO, A. I. et al. Language therapy and bilingual aphasia: clinical implications of


psycholinguistic and neuroimaging research. Journal of Neurolinguistics, 2008.
FABBRO, F. The bilingual brain: bilingual aphasia. Brain and Language, v. 79, n. 2, p.
201-210, 2001.
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Based Model. Presented at the 8th Workshop on Self-Organizing Maps, (WSOM
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GIUSSANI, C. et al. Review of language organization in bilingual patients: what can we
learn from direct brain mapping? Acta Neurochirurgica, 2007.
GROSJEAN, F. Individual bilingualism. In: ASHER, R. E. (Ed.). The encyclopedia of
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HARTSUIKER, R. J.; PICKERING, M. J.; VELTKAMP, E. Is syntax separate or shared
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MAUS – UM ROER PÓS-MODERNO DO HOLOCAUSTO

Gabriel Felipe Pautz Munsberg1

Um dos mais promissores e visitados trabalhos das narrativas pós-modernas é o


lançar-se à procura de respostas em um cotidiano extremamente fragmentado e
solúvel que, posto frente ao passado traumático do século XX, não consegue
sustentar-se sem exprimir o próprio padecimento da existência contemporânea. A
vasta literatura baseada na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é demonstração da
insistente dúvida em relação, não só ao passado macabro dos prisioneiros dos campos
de concentração, mas também à própria condição humana dos dias atuais, pois o
Holocausto parece, por vezes, não ter sido um evento traumático o suficiente para que
a humanidade como um todo percebesse sua errância contra o próprio homem. Em
Maus – a história de um sobrevivente ([1991] 2009), Art Spiegelman realiza o pesado
trabalho da investigação do passado de seu pai, um judeu polonês, em Auschwitz e,
através do consciente uso de linguagens, expressa sua própria situação como sujeito
pós-moderno, fruto das inquietações subjugadas pelo Holocausto. Ao tentar penetrar
no denso campo do Holocausto, o indivíduo se vê preso em um labirinto e retorna ao
ponto inicial de sua confusão.

O resgate da história

A releitura crítica da história é uma das funções propostas pelas narrativas


históricas, as quais se valem de vozes por vezes ignoradas e informações negadas pela
História2. Ao pensarmos a História como um aglomerado de histórias particulares
(“histórias de ALGO”, como chama Guarinello, 2004) em uma sequência específica que

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura, linha de Teoria, Crítica e
Comparatismo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com fomento do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
E-mail: gabriel_munsberg@yahoo.de
2
O uso de História, com H maiúsculo, ocorrerá neste artigo para realizar fácil distinção da história real,
conjunto de experiências vividas que envolvem o sujeito e que constituem seu passado e presente. Ao
grafarmos História com letra maiúscula pretendemos também conceder-lhe a classificação de ciência,
disciplina escolar, como o faz Norberto Luiz Guarinello, em seu artigo “História científica, história
contemporânea e história cotidiana” (2004), ao discutir os impasses da história contemporânea como
disciplina científica.

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resulte em unidades de sentidos coerentes para a descrição e explicação de tais fatos,


conclui-se que a História não possui um olhar abrangente sobre toda a história
humana. O trabalho dos historiadores acaba sendo, dessa forma, questionado, uma
vez que,

na tentativa de dar conta dos processos históricos, buscam os


recursos da abordagem literária, referem-se à literatura como ficção
ou como narrativa, em geral usando os dois termos como
equivalentes, mas não aludem especificamente à ficção de caráter
histórico, campo em que o problema já existia muito antes da atual
tendência de aproximação dos estudos históricos e literários
(WEINHARDT, 1995, p. 49).

Porém a problematização da narrativa histórica conter a verdade histórica é


refutada logo de início, visto “que todas as formas de resgate do passado são
permeadas pela consciência de que a construção verbal não é o fato e não é ingênua”
(idem, p. 49). O acontecimento está ligado diretamente à experiência, ao passo que ao
ser tratada com linguagem, que é falha, se torna ficção. E, sendo assim, o pensamento
contemporâneo sobre o histórico é um pensamento crítico e contextualizador da
história (HUTCHEON, 1991). A História, como ciência, ignora esta problemática da
linguagem, tratando seu texto como a representação da experiência.
Entre a necessidade e a impossibilidade de relatar as histórias particulares, o
testemunho surge como um paradoxo contemporâneo da representação da
experiência, pois existe neste encontro a complexidade do evento com a linguagem,
ou seja, a linguagem não consegue dar conta do real, porém, por sua vez, nos obriga a
rever as noções herdadas pela História. Sobre tal representação da experiência,
Giorgio Agamben atualiza, em Infância e história (2006), a discussão de sua
decadência, colocada em crise já por Walter Benjamin desde a Primeira Guerra
Mundial. No ensaio “Experiência e pobreza”, de 1933, o crítico alemão relata que os
combatentes voltavam dos fronts "mais pobres em experiências comunicáveis, e não
mais ricos" (BENJAMIN, 2012, p. 115), apesar de toda gama de experiências e
estratégias às quais foram expostos, ou seja, a experiência da guerra não se reflete
beneficamente na experiência de vida dos soldados. Dessa forma, a experiência
coletiva – Erfahrung3 – entra em vias de extinção para Benjamin. Por sua vez, Agamben

3
A Erfahrung, dentro dos conceitos benjaminianos, é o conhecimento obtido e acumulado através de
uma experiência empírica, como em uma viagem (o verbo erfahren, em alemão, pode significar "saber"
ou "sofrer"; quando adjetivado, significa "experimentado"), analisado sempre em confronto com

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define a experiência já como destruída pela “pacífica existência cotidiana em uma


grande cidade” (AGAMBEN, 2005, p. 22), pois ela nada tem mais a oferecer como
traduzível à experiência.
Notavelmente, a representação da experiência só se dá pelo verbo, logo, trata-
se de ficção. Por mais que a narrativa baseie-se em acontecimentos4 e personagens
históricas, ela não conterá a “verdade” da experiência relatada. Sendo assim, a
literatura trabalha com a linguagem – e suas falhas – para contar a história em texto. A
narrativa pós-moderna é, nesse sentido, posicionada fora do polo central de poder5,
sendo este pulverizado às vozes marginalizadas e questionadoras dos conhecimentos
e, até mesmo, dos fatos. Tal qual na geometria, a excentricidade joga a verdade para
fora de um eixo central e a pulveriza às suas margens, de forma que surgem novas
verdades fragmentadas que interrogam e discutem o monopólio narrativo, detentor
da voz narrativa tida como única. Isso não quer dizer que o pós-modernismo rejeite o
conhecimento anterior, mas sim que pretende, por sua vez, subvertê-lo em sua
constância. Mais do que isso, não se nega a existência de um centro, mas sim se
concede a esse ponto a qualidade de ser indispensável à relativização das histórias.
O uso do testemunho na literatura, por exemplo, propõe expor experiências
individuais ao mesmo tempo em que analisa a versão oficial dos fatos narrados em
dimensão coletiva. Esta passa a ser, inclusive, uma das ocupações da literatura
contemporânea, posterior aos grandes eventos traumáticos do século XX.

Se a arte e a literatura contemporâneas têm como seu centro de


gravidade o trabalho com a memória (ou melhor, o trabalho da
memória), a literatura que situa a tarefa do testemunho de seu
núcleo, por sua vez, é a literatura par excellence da memória. Mas
não de simples rememoração, de “memorialismo”. Antes, essa
literatura trabalha no campo mais denso da simultânea necessidade
do lembrar-se e da sua impossibilidade; para ela não há uma mera
oposição entre memória e esquecimento (SELIGMANN-SILVA, 2003,
p. 388).

Erlebnis, o qual significa um conceito de vivência (erleben, em alemão, é o verbo que remete a "viver"
ou "presenciar").
4
Linda Hutcheon (1991) utiliza o termo “acontecimento” referente ao evento empírico, que aconteceu.
Ao relatar-se sobre determinado acontecimento, utiliza-se, então, o termo “fato”.
5
Toma-se aqui o conceito de Lyotard sobre poder: "este não é somente o bom desempenho, mas
também a boa verificação e o bom veredicto. O poder legitima a ciência e o diretor por sua eficiência, e
esta por aquelas. Ele se autolegitima como parece fazê-lo um sistema regulado sobre a otimização de
suas performances" (LYOTARD, 1986, p. 84).

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Márcio Seligmann-Silva aponta, ainda, que a historiografia tradicional coloca-se


como ciência do passado, substituindo a experiência pessoal e rejeitando a memória
coletiva. Contra este poderio da História, o qual reproduz o distanciamento entre
experiência e sujeito pós-moderno, se pretende utilizar a força do trabalho da
memória, uma vez que ela “a um só tempo destrói os nexos (na medida em que
trabalha a partir de um conceito forte de presente) e (re)inscreve o passado no
presente” (idem, p. 389).

Relatar o Holocausto

Recontar os horrores da Segunda Guerra Mundial, particularmente o


Holocausto, é uma atividade que tem sido cada vez mais utilizada pelos descendentes
dos participantes destes acontecimentos para buscar por compreensão e
entendimento do que se passou nos campos de concentração e, em especial, do que
tais eventos acabaram por influenciar na vida atual dos seus sobreviventes. Veronika
Zangl, em Poetik nach dem Holocaust (Poética após o Holocausto, em tradução livre,
2009), aponta três categorias de pensadores quanto às suas posições referentes à
representação do Holocausto. Os primeiros dizem que o Holocausto não deve ser
representado sem que haja uma necessidade por parte das vítimas do evento. Os
segundos afirmam que não se pode representar o Holocausto, levando em
consideração a impossibilidade de discutir tal tema. O último grupo vê na
representação do Holocausto um problema técnico, pois existe uma tentativa de
expressar a experiência particular como o coletivo em um quadro interpretativo já
socialmente constituído, porém isto se tornou impossível no momento em que os
nazistas, através do terror, exterminaram a condição de grupo nos campos de
concentração6.
Assim, o cartunista sueco naturalizado norte-americano Art Spiegelman, filho
do judeu polonês Vladek Spiegelman, sobrevivente do Holocausto, realiza esse
trabalho em sua obra Maus – A história de um sobrevivente ([1986-1991] 2009), na
qual as lembranças de seu pai desde antes do início da guerra até a liberação dos
prisioneiros dos campos de concentração de Auschwitz e Dachau são apresentadas

6
“Os chamados man made disasters [desastres produzidos pelo homem], como o Holocausto, a guerra e
as perseguições políticas e étnicas, objetivam a aniquilação da existência histórica e social do homem
através de diferentes maneiras de desumanização e destruição da sua personalidade. Pode não ser
possível para um indivíduo isolado inserir esse tipo de experiência traumática em um contexto narrativo
por meio de um ato idiossincrático, pois, para isso, é preciso também uma discussão social sobre a
verdade histórica do acontecimento traumático e sobre a negação e a defesa em face dele” (BOHLEBER,
2007, p. 169).

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envoltas no relacionamento de pai e filho e nas problemáticas da própria


representação literária – logo, ficcional – de ambos os eventos.
Ao retroceder ao passado de seu pai e tentar racionalizar a situação da
comunidade judaica durante o Holocausto, Art Spiegelman reflete também a sua
própria existência como judeu, então radicado nos Estados Unidos, durante os anos 80
e 90. A partir das memórias de Vladek, Spiegelman relê e reavalia a história dos judeus
europeus durante a guerra, reordenando assim aquilo que lhe falta como experiência,
visto que nasceu em 1946 na Suécia e não esteve nos campos de concentração. A falta
de experiência é sentida pelo personagem-narrador, não apenas por não ter memória
dos fatos, mas também por ser um descendente direto de sobreviventes do
Holocausto:

Sei que é maluquice, mas até que eu gostaria de ter estado em


Auschwitz com meus pais para poder saber mesmo tudo o que
sofreram! ... acho que é algum tipo de culpa por não ter passado pelo
que eles passaram no campo de concentração (SPIEGELMAN, 2009,
p. 176).

As tentativas de relatar fatos ocorridos nos campos de concentração são falhas,


tendo em vista questões como o uso da memória e da linguagem para suas
construções. A memória, como faculdade que conserva imagens dos acontecimentos
que sucederam, constitui-se como função social ao utilizar a linguagem para comunicar
e expandir suas experiências, ou seja, torna-se produto da sociedade. Sendo assim,
não há opção viável de transmissão de memórias sem que haja “perdas” de realidade
factual ao desenvolvê-la em linguagem.
Ao final dos livros, o leitor descobre que Vladek, responsável pelas memórias,
sofre do Mal de Alzheimer. Ao receber a visita de Art, Vladek reage com surpresa e
nega lembrar-se do telefonema do filho no dia anterior para conversarem ainda sobre
o final da guerra: “A guerra... iá, disso ainda me lembro” (idem, p. 288). Logo, o leitor
gera suspeitas sobre as lembranças do sobrevivente, pois não é possível ter certeza de
suas afirmações. Jacques Le Goff, ao discorrer sobre a memória no campo das ciências
sociais, afirma que a perda de memória manifesta-se também na linguagem, como
uma afasia, e

num nível metafórico, mas significativo, a amnésia é não só uma


perturbação no indivíduo, que envolve perturbações mais ou menos
graves da presença da personalidade, mas também a falta ou a
perda, voluntária ou involuntária, da memória coletiva nos povos e

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nas nações que pode determinar perturbações graves da identidade


coletiva (LE GOFF, 1996, p. 425).

Tal suspeita já pode ser levantada no momento em que Vladek, quando, ao


comentar sobre as marchas às quais os prisioneiros eram submetidos ao irem
trabalhar, é lembrado por Art da orquestra que, supostamente, tocava nos campos de
concentração. O pai diz lembrar-se apenas de marchar, dos gritos e tiros dos nazistas e
nega a existência de uma orquestra:

ART: Li sobre a orquestra que tocava quando vocês saíam do campo...


VLADEK: Orquestra? ... Só lembro de marchar. Não de orquestra...
Guardas acompanhava nós do portão até oficina. Como podia ter
orquestra ali?
ART: Sei lá. Mas está bem documentado...
VLADEK: Não. Só ouvia era as guardas gritando (SPIEGELMAN, 2009,
p. 214).

Quanto a isto, abrem-se duas suposições: ou não existiam orquestras nos


campos de concentração, o que negaria a versão oficial da História, ou que a memória
do prisioneiro não absorveu acontecimentos banais do Lager, como a cotidiana
marcha ao trabalho ao som de uma orquestra. Em outro momento, até mesmo o
tempo do que é narrado acaba não batendo com o tempo total de Vladek em
Auschwitz:

ART: Quanto tempo passou na quarentena ensinando inglês?


VLADEK: Uns dois meses... Foi bom, eu...
ART: Você já contou. Quantos meses você trabalhou na funilaria?
VLADEK: Tempo de funilaria mais sapataria... total cinco ou seis
meses.
ART: E três meses de trabalho forçado.
VLADEK: Iá... não! Agora eu lembra... Depois eu fiquei mais dois
meses no funilaria com Yidl... eles...
ART: Espere! São doze meses. Você falou que tinha ficado dez!
VLADEK: É? Então é menos tempo de trabalho forçado. Lá nós não
usa relógio... (idem, p. 228)

Percebe-se aqui que o período de trabalho forçado ao qual Vladek foi


submetido pode, conforme sua última fala, ter sido menor do que pensava ser
anteriormente. Isso reflete também o poderio da violência contra a saúde mental dos
prisioneiros, uma vez que mesmo uma escala invariável como o tempo acaba sofrendo

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variações a partir das narrativas do sobrevivente, a fim de que o conjunto total seja
tomado como verossímil.
O psicanalista alemão Werner Bohleber, ao tratar da especificidade da
importância da reconstrução do passado no tratamento analítico, aborda também a
recordação coletiva do Holocausto e seus resultados ulteriores, assim como o
esquecimento encontrado nos relatos de seus sobreviventes:

É bem verdade que essas recordações traumáticas estão sujeitas a


enganos e a processos de esquecimento ao longo do tempo, como
ocorre com qualquer outro tipo de recordação. No caso de
acontecimentos com grande intensidade emocional [..] aspectos
centrais do evento e da vivência são mais lembrados do que detalhes
que não têm relação com o núcleo do evento. O fator decisivo neste
caso é o eu, que deve ser capaz de manter atuante pelo menos sua
função de observação durante o evento traumático (BOHLEBER,
2007, p. 162).

Representar o Holocausto

Além da problematização sobre a recuperação de eventos traumáticos através


da memória de personagens dos mesmos, Maus demonstra em sua arquitetura
narrativa um problema maior, pois se trata de uma graphic novel e, como tal, utiliza de
elementos gráficos constantemente carregados de metáforas, distanciando-se
naturalmente da realidade a que se propõe um texto memorial. A metáfora possui
uma associação de semelhança implícita entre os elementos da realidade e da ficção,
ou seja, realiza a transposição de um significado para outra palavra ou, no caso das
narrativas imagéticas, a objetos visuais. Cabe ao leitor realizar o processo de
interpretação do objeto instituído pelo autor da ficção.
O fator estético desta obra convém para uma análise crítica sobre uma obra de
cunho memorial, a qual pretende constituir-se como parte de uma realidade.
Spiegelman projeta os personagens de Maus como animais conforme suas
nacionalidades: alemães são gatos, norte-americanos são cães, poloneses são porcos,
franceses são sapos e os judeus, independentemente de sua nacionalidade, são
representados por ratos. Percebe-se nesta última projeção – a principal da narrativa –
que Spiegelman trata os judeus não necessariamente como membros de uma
nacionalidade à parte, mas se apropria da propaganda nazista, na qual o povo judeu
era simbolizado por ratos, uma vez que deveria expor a epidemia especulativa

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comercial deste povo que supostamente era o responsável pelos males que a
Alemanha atravessava e que, como tal, deveria ser extirpado7.
O rato, conhecido por ser um animal sujo e de comportamento furtivo,
podendo viver em esgotos e invadir residências, acaba por representar uma etnia
considerada, tal qual o animal, como uma praga aos olhos do regime nacional-
socialista, exposto por gatos, predadores naturais dos camundongos. Este
antropomorfismo é reforçado também pela citação de Adolf Hitler como prefácio do
primeiro capítulo do livro: “Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são
humanos” (SPIEGELMAN, 2009, p. 10). Ou seja, Spiegelman apropria-se em sua
narrativa da posição dada ao judaísmo na propaganda nazista, porém o que o leitor
encontrará é o rompimento com o ideário de que judeus sejam sempre mesquinhos e
sujos, mas que possuam variadas qualidades, tanto positivas quanto negativas, de
forma individual. O uso da propaganda nazista como forma de expressão na narrativa,
a qual pretende sobretudo indagar, é prova do (re)uso do centro, uma vez que a partir
da mesma linguagem do colonizador é possível questionar sua colonização. Esta
utilização do linguajar do colonizador também é encontrada na epígrafe do segundo
volume de Maus – E aqui meus problemas começaram, momento em que o autor traz
trechos de um artigo de jornal da região alemã da Pomerânia, datado de 1930, no qual
o judeu é novamente exemplificado como um rato, neste caso, Mickey Mouse8:

Mickey Mouse é o ideal mais lamentável de que se tem notícia [...] As


emoções sadias mostram a todo rapaz independente, todo jovem
honrado, que um ser imundo e pestilento, o maior portador de
bactérias do reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal [...]
Abaixo a brutalização do povo propagada pelos judeus! Abaixo
Mickey Mouse! Usem a Suástica! (idem, p. 164).

7
A pesquisadora Jeanne Marie Gagnebin analisa que, segundo tendências que Max Horkheimer defende
em seu artigo Die Juden und Europa (Os judeus e a Europa, 1939), “o anti-semitismo decorreria da
necessidade, para o capitalismo monopolista do Estado, de lutar contra formas de capital comercial e
financeiro independentes, tais quais os empreendimentos judeus” (GAGNEBIN, 2003, p. 90).
8
Sobre Mickey Mouse, Walter Benjamin escreve em seu breve artigo “Zu-Micky Maus” ([1931] 1991)
sobre como os seres humanos tinham, desde então, uma representação, através do camundongo de
Walt Disney, de como se poderia persistir no mundo sem a experiência. Tal ausência de experiência não
era definida necessariamente pelas guerras, mas sim pelo cotidiano com sua rotina que expropria o
pensamento e os valores humanos. Benjamin ressalta, em seu ensaio “A obra de arte na era de sua
reprodutibilidade técnica”, escrito entre 1935 e 1940, que nos filmes contemporâneos da Disney é
revelada uma “tendência a aceitar confortavelmente a bestialidade e a violência como aparições que
acompanham a existência” (BENJAMIN, 2013, p. 85). Poucos anos após estes textos, os prisioneiros de
guerra, principalmente os judeus, encontravam-se precisamente sem similitude ao humano nos campos
de concentração, sendo que as construções sociais eram banalizadas e, muitas vezes, inexistentes
durante o confinamento militar.

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Permeado de desenhos antropomorfizados, vale destacar o uso de fotos reais


de Anja, Richieu e Vladek Spiegelman na obra. Uma foto de Anja com o próprio Art
aparece na reprodução dos quadrinhos de Prisioneiro do Planeta Inferno, publicada
anteriormente na revista Short Order Comics de 1973, narrativa na qual Spiegelman
trata do suicídio de sua mãe e de seu sentimento de culpa. A dedicatória do segundo
volume de Maus possui também uma foto de Richieu, o irmão morto durante a guerra.
Por fim, um retrato de Vladek usando o uniforme listrado, típico dos prisioneiros nos
campos de concentração, é oferecido ao leitor quase ao final da obra. Da mesma
forma que este retrato foi utilizado por Vladek para mostrar a Anja que estava vivo
após a guerra, o leitor recebe a imagem como uma amostra de realidade à qual a obra,
em seu objetivo maior, pretende dar-se.
Sobre esta foto justifica-se uma discussão maior. Logo após o término da
guerra, Vladek está a salvo na Alemanha buscando informações sobre sua esposa e, ao
passar por um salão fotográfico em que há um uniforme de prisioneiro, resolve
fotografar-se para, posteriormente, enviar a foto para Anja. Qual a razão que leva um
sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz e Dachau a fotografar-se,
meses após sua libertação, com um uniforme semelhante ao utilizado por ele quando
prisioneiro? É de se imaginar que os traumas vividos dentro dos campos de
concentração ultrapassam os limites que um ser humano possa aguentar e, por vezes,
são necessários outros meios para confirmar o passado que, apesar de marcado
literalmente na pele em formato de número de registro, insiste em ser negado. Tal
foto exprime, assim, um par de certezas aos envolvidos, principalmente para o próprio
Vladek, frente ao apagamento de todo um povo pelo genocídio escancarado através,
não somente dos atos, mas também das vozes dos soldados nazistas nos campos de
concentração:

Seja qual for o fim desta guerra, a guerra contra vocês nós ganhamos;
ninguém restará para dar testemunho, mas, mesmo que alguém
escape, o mundo não lhe dará crédito. Talvez haja suspeitas,
discussões, investigações de historiadores, mas não haverá certezas,
porque destruiremos as provas junto com vocês. E ainda que fiquem
algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos
narrados são tão monstruosos que não merecem confiança: dirão
que são exageros e propaganda aliada e acreditarão em nós que
negaremos tudo, e não em vocês. Nós é que ditaremos a história dos
Lager (LEVI, 2004, p. 9).

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As fotos, constituintes dos novos arquivos familiares – “a iconoteca da memória


familiar” –, trazem “uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas,
permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica” (LE GOFF,
p. 466) e possuem peso de realidade factual. Da mesma forma, a inserção de
documentos verídicos em uma obra de ficção propõe uma aproximação à realidade,
ainda mais quando sua trama envolve-se tão diretamente com a proposta de
representar a realidade. Maus, apesar de classificado também como “biography” em
suas versões originais em inglês, é uma obra de ficção e, como tal, não reproduz a
realidade factual, mas sim representa a realidade. Por mais realista que seja uma
narrativa, ela nunca conseguirá ser real.
A frase, provavelmente, mais conhecida de Theodor Adorno – “Escrever um
poema após Auschwitz é um ato de barbárie, e isso corrói até mesmo o conhecimento
de por que hoje se torna impossível escrever poemas” (ADORNO, 1998, p. 26) –
remete à impraticabilidade de poesia após os campos de concentração, porém não no
sentido de ser a arte uma instância impossível de ser executada. Adorno aponta,
assim, a barbárie do esquecimento proposto pelo entretenimento sem crítica e
ressalta, em Negative Dialektik [Dialética negativa, 1966], sua crítica contra a doutrina
que a esfera cultural propõe (ou deixa de propor) com sua máquina de entretenimento
ao relegar Auschwitz:

Que isso possa ter acontecido no meio de toda tradição da filosofia,


da arte e das ciências do Esclarecimento, significa mais que somente
o fato desta, de o espírito, não ter conseguido empolgar e
transformar os homens. Nessas repartições mesmas, na pretensão
enfática à sua autarquia, ali mora a não-verdade. Toda cultura após
Auschwitz, inclusive a crítica urgente a ela, é lixo (ADORNO apud
GAGNEBIN, 2003, p. 99).

Narrar o Holocausto

O leitor de Maus percebe na obra a constante insistência de Art Spiegelman em


tratar do assunto Holocausto, mas também em demonstrar o caminho percorrido por
ele próprio na execução deste processo penoso, tanto para ele quanto para seu pai.
Lançada inicialmente em capítulos esparsos na revista Raw desde 1980, a graphic
novel é dividida em dois volumes: My father bleeds history (Meu pai sangra história) e
And here my troubles began (E aqui meus problemas começaram), publicados por sua
vez em 1986 e 1991, respectivamente. Por esta razão, o segundo volume de Maus

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apresenta também a visão do cartunista após o sucesso de sua obra, realizando assim
uma atividade metatextual, mais nítida e frequente em sua narrativa.
Logo na primeira página de E aqui meus problemas começaram, Spiegelman
retrata sua dúvida em como desenhar sua esposa francesa que se converteu ao
judaísmo:

FRANÇOISE: O que você está fazendo?


ART: Tentando descobrir como desenhar você...
FRANÇOISE: Quer que eu pose?
ART: Não, é para meu livro. Que animal você vai ser?
FRANÇOISE: Quê? Uma rata, lógico.
ART: Mas você é francesa!
FRANÇOISE: Bom... Que tal a coelhinha?
ART: Nah. É dócil demais.
FRANÇOISE: Hmmf.
ART: Estou pensando nos franceses em geral. Todos aqueles séculos
de antissemitismo. Pense no caso Dreyfus! Nos colaboradores
nazistas! Nos...
FRANÇOISE: Ok! Mas... Se você é rato, eu também devia ser. Afinal,
eu me converti!
ART: Já sei! ... Quadrinho 1: meu pai pedalando na ergométrica...
Chego e digo que me casei com uma sapa... Quadrinho 2: ele cai
desmaiado, em choque. Aí a gente fala com um rato rabino. Ele diz
umas palavras mágicas e zap! ... no fim da página a sapa se
transformou numa linda rata! (SPIEGELMAN, 2009, p. 171-172).

Pouco adiante, quando o personagem de Art relata a Françoise sua pretensão


de relatar a relação de Vladek com Auschwitz e o Holocausto, mesmo sem conseguir
entender a própria relação com o pai, fica evidente sua preocupação em “reconstruir
umas realidade pior do que os meus sonhos mais pavorosos. E ainda por cima em
quadrinhos!” (idem, p. 176). A arquitetura narrativa de Spiegelman mostra por si só
como é problemática ao tentar dar conta de uma realidade tão complexa como o
Holocausto pela própria dificuldade estética e construção de diálogos, no qual a voz de
Art é exposta por três páginas sem suspensão: “Na vida real, você nunca ia me deixar
falar isso tudo sem me interromper” (idem, p. 176).
No capítulo seguinte, Art surge desenhado desta vez não mais como um rato,
mas semelhante a um humano usando uma máscara de rato, enquanto fala sobre a
vida de Vladek, sua própria vida, sobre o processo de escrita do referido capítulo (“Eu
comecei essa página no finzinho de fevereiro de 87”; idem, p. 201), dados sobre os
mortos no Holocausto e do primeiro volume de Maus. Logo, repórteres, todos

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semelhantes a humanos, mas igualmente usando máscaras de diferentes animais


(gatos, cães, ratos) invadem a cena e realizam uma conferência sobre o livro,
pressionando Art através de perguntas até que ele diminua em tamanho e chore,
levando-o a uma consulta com Pavel, seu psicólogo. Pavel é um judeu tcheco que
sobreviveu aos campos de concentração de Terezin e Auschwitz, mas também é
retratado como um ser humano usando uma máscara de rato. Ao possuir remorso
sobre ter, talvez, exposto seu pai ao ridículo ao retratá-lo praticamente como o
estereótipo do judeu rabugento em Meu pai sangra história, Art pensa que seu
trabalho de contar sobre o Holocausto não é válido no momento em que não dá real
voz às vítimas do evento, mesmo que trabalhando a partir das entrevistas gravadas
com seu pai, a ponto de citar o escritor Samuel Beckett: “Toda palavra é como uma
mácula desnecessária no silêncio e no nada” (idem, p. 205). Porém, é esta mesma
frase que lhe demonstra o paradoxo da escrita, pois Beckett teve que transformar seu
pensamento exatamente em linguagem: “ele FALOU isso” (idem, p. 205).

Conclusão

De modo geral, Maus expõe a complexidade da rememoração do Holocausto.


Apesar do testemunho de um sobrevivente dos campos de concentração, a narrativa
não consegue constituir-se fielmente ao acontecimento empírico do Holocausto. Em
virtude do trabalho da linguagem, a experiência torna-se ficção e pontua o paradoxo
da história. O processo do testemunho e da memória, também exercidos através da
linguagem, mostra-se falho, por vezes incompleto, e coloca toda a narrativa em
dúvida. Como reflexo do pós-moderno, a subversão dos centros de poder é acionada
pela arquitetura narrativa de Art Spiegelman que, mobilizado, demonstra sua
deliberada labuta de questionar o fato da mesma forma que o acontecimento, no
incômodo roer das memórias.

Referências

ADORNO, Theodor. Crítica à cultura e à sociedade. In: ADORNO, Theodor. Prismas.


Trad. A. Werner e J. Mattos Brito de Almeida. São Paulo: Ática, 1998.
AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história.
Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Trad.
Gabriel Valladão Silva. Porto Alegre: L&PM, 2013.

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BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história
da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BENJAMIN, Walter. Zu Micky-Maus. In: BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften.
Frankfurt am Main: Suhrkamp, [1931] 1991. p. 460-462.
BOHLEBER, Werner. Recordação, trauma e memória coletiva: a luta pela recordação
em psicanálise. Trad. Edith Vera Laura Kunze. Revista Brasileira de Psicanálise, São
Paulo, v. 41, n. 1, p. 154-175, mar. 2007.
ESTEVES, Antônio. O romance histórico brasileiro contemporâneo. São Paulo: UNESP,
2010. p. 17-43.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Após Auschwitz”. In. SELIGMANN-SILVA, Márcio (Org.).
História, memória, literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas:
Editora da UNICAMP, 2003. p. 89-110.
GUARINELLO, Norberto Luiz. História científica, história contemporânea e história
cotidiana. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, n. 48, p. 13-38, 2004.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro:
Imago, 1991.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão [et al.]. Campinas: Editora
da UNICAMP, 1996.
LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. Trad. Luiz Sérgio Henriques. São Paulo:
Paz e Terra, 2004.
LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1986.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Catástrofe, história e memória em Walter Benjamin e Chris
Marker: a escritura da memória. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (Org.). História,
memória, literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas: Editora da
UNICAMP, 2003. p. 387-413.
SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. Trad. Antônio Macedo Soares.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
SPIEGELMAN, Art. Maus: a survivor’s tale. I: My father bleeds history (1986). New York:
Pantheon Books, 1992.
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York: Pantheon Books, 1992.
WEINHARDT, Marilene. Considerações sobre o romance histórico. Revista de Letras,
Curitiba, Editora da UFPR, n. 43, p. 49-59, 1995.
ZANGL, Veronika. Poetik nach dem Holocaust: Erinnerungen – Tatsachen –
Geschichten. Paderborn: Wilhelm Fink, 2009.

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O CONFLITO E O TRAUMA: MEMÓRIAS DE UMA REALIDADE DOLOROSA


EM K. RELATO DE UMA BUSCA DE BERNARDO KUCINSKI

Gabriela de Oliveira Guedes1

Representando conflitos e traumas

A América Latina foi marcada por duras repressões e ditaduras advindas de


diretrizes que buscavam combater a expansão comunista. Entre 1964 e 1990, Brasil,
Uruguai, Chile e Argentina enfrentaram anos de silenciamento forçado, torturas,
desterros e “desaparecimentos políticos” daqueles que fossem contra o
posicionamento instituído pelo governo da época. Após o restabelecimento das
democracias, coube aos sobreviventes divulgar o que realmente acontecera nos
porões da ditadura e ficara encoberto pelo crescimento econômico propalado pelos
defensores do sistema instaurado pelos militares.
Walter Benjamin, em sua tese Sobre o conceito da história, declara: “Articular
historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal como ele propriamente foi’.
Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela cintila num instante de perigo”. 2
Em 2015, assistimos às passeatas de uma parcela da população brasileira pedindo o
retorno dos militares ao poder. Esse pedido nos assombra devido ao esquecimento da
outra face que acometeu a sociedade durante a ditadura, e representaria um
retrocesso a todas as nossas conquistas democráticas e nas leis de direitos humanos.
Podemos dizer que esse instante de perigo emerge no século XXI, sendo ele
contraditório a todo um processo histórico que foi constituído em prol de uma
democracia. Devemos analisar a história por todos os lados, para que possamos tomar
conhecimento do que acontecia em todas as instâncias desse tempo nefasto de nossa
história.
A narrativa memorialística é uma instância que se posiciona no limiar entre
ficção e história. A escrita memorialista parte de uma reminiscência, do ato de
rememorar tudo que houve no passado e de repensar as lacunas dos esquecimentos
da nossa História. Assim,

1
Mestranda em Estudos Literários na Universidade Federal Fluminense – UFF - bolsista CNPq.
E-mail: gabrieladeoguedes@gmail.com

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Ao narrar, estamos sempre no entorno e no centro, pois o sujeito


que narra não conta a história de si mesmo sem narrar a história dos
que viveram com ele, dos que lutaram com ele, dos que caíram com
ele, dos que foram silenciados com ele, dos que voltaram a falar2com
e através dele. Nessa percepção, o sujeito que narra literariamente
num determinado Tempo e Espaço, dilatado ele também como um
coletivo de vozes, um ser plural, uma legião, pois dele ouviremos
e/ou leremos as ressonâncias de um ou vários grupos sociais com os
seus mais distintos signos, toda uma poética que, singular, é plural
(PORTO, 2011, p. 200).

A partir dessa reflexão, podemos compreender o porquê de não encontrarmos


em K. Relato de uma busca uma narrativa exclusivamente autobiográfica ou ficcional.
Ao utilizar-se do aparato estético ficcional, a liberdade criacional é expandida. Não há a
necessidade de se apoiar em documentos que suportem a versão dos fatos
apresentados na narrativa. Pode-se fazer um deslocamento do tempo e do espaço e
uma fusão de personagens para, assim, resgatar da memória individual de cada leitor a
lembrança de algum relato escutado previamente. Ao adotar essa abordagem, atribui-
se uma identificação com a realidade inserida na ficcionalidade.

O local da diferença

“O passado não é aquilo que passa, / é aquilo que fica do que passou”. As
palavras do escritor Alceu Amoroso Lima se encaixam aqui, pois a vida dos familiares
dos desaparecidos políticos foi marcada pelo trauma do sumiço de seus entes
queridos. K. Relato de uma busca possui como fio condutor da narrativa a busca
labiríntica de um pai por sua filha, uma professora universitária de Química. O autor do
livro, Bernardo Kucinski, é irmão de uma militante desaparecida que lecionava no setor
de Química na USP. Majer Kucinski, seu progenitor, foi um pai que buscou pistas
incessantes sobre o paradeiro de sua filha, Ana Rosa Kucinski.
Bernardo Kucinski foi um militante estudantil durante o regime militar e teve
que partir para o exílio depois de ser preso, podendo retornar à pátria amada apenas
após a anistia. Em diversas entrevistas, Kucinski fala sobre o impacto do regime em sua
vida. Destaco uma de suas respostas a uma entrevista dada ao jornal A Gazeta do
Povo:

2
BENJAMIN, Walter. “Über den Begriff der Geschichte”. In: Gesammelte Werke, vol. 1-2. Frankfurt/
Main: Suhrkamp, 1974, p. 695 e 701. Tradução de J.M.G.

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Rogério Pereira: De que maneira a ditadura militar o marcou como


cidadão? Quais as cicatrizes que este período da história do Brasil
deixou no senhor?
Bernardo Kucinski: A marca que se impôs foi a do desaparecimento
da minha irmã e de meu cunhado. Todo o resto, em especial a
censura nos jornais alternativos em que trabalhei, o exílio voluntário
de quatro anos, foram meros percalços, frente à tragédia que se
abateu sobre minha família. Eu diria que a ditadura ofereceu a nós
jornalistas da época uma oportunidade — sem dúvida dramática —
de nos realizarmos como pessoas e como criadores. De
transcendermos o trabalho banal e o comodato com o poder. Muitos
dos nossos grandes jornalistas foram forjados pelas condições da
ditadura, assim como muitos jornais alternativos talvez não tivessem
existido, sem o fator ditadura.

Podemos imaginar, através das páginas do romance desse autor, a dor


pungente desse caso em sua família e de como a literatura se apresenta como uma
forma de catarse por meio da escrita do trauma:

(A narrativa) abrange tanto a denúncia da barbárie e das atrocidades


por ele (o inimigo) cometidas como a reconstituição do rosto
desfigurado dos mortos, os quais tentaram, no passado, construir
uma vida diversa da do atual presente. Narrar as ruínas dessa
tentativa é um modo de atualizá-las (SELIGMANN-SILVA, 2001, p.
366).

Nas palavras do autor em uma entrevista concedida a Nahima Maciel do


Correio Braziliense, “Creio que a ficção permite a catarse. E a catarse ajuda a suportar
o trauma. O relato factual é mais próximo de um ajuste de contas com a história, com
os outros. A ficção é mais adequada a um ajuste de contas consigo mesmo”.

Representando o conflito

Como narrar o inenarrável? Como descrever com palavras o drama vivido por
diversas famílias afetadas pelo trauma da busca incansável por respostas sobre o
paradeiro de seus entes queridos? Como contar ao outro as torturas psicológicas e
físicas vividas dentro dos quarteis e locais de tortura? E como não narrar? Cada autor
perpassará um caminho criativo que apontará a estratégia narrativa que virá a ser
utilizada para o relato do passado.
A narração fragmentada realizada a partir de diversos pontos de vista permite
ao leitor uma “visita” à mente dos personagens. A breve prosa preenche lacunas da

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História com o exercício de imaginação desencadeado por esse processo de inventário


de perdas de uma perda.
Mikhail Bakhtin considerou o romance como sendo um gênero detentor de
vozes sociais díspares que se confrontam, destoam, revelando, dessa maneira,
pensamentos sociais distintos sobre um mesmo assunto; assim sendo, este é um
gênero polifônico em sua essência. Para esse autor, em sua análise sobre a obra de
Dostoiévski, os personagens serão seres autônomos possuidores de suas
características individuais, suas visões de mundo e suas reações em relação a um
determinado contexto. O mesmo conceito pode ser aplicado à obra kucinskiana.
Segundo Bakhtin, o enunciado é impregnado por pontos de vista e ideias,
nunca neutro, ele é permeado por intenções:

O enunciado existente, surgido de maneira significativa num


determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar
os milhares fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência
ideológica em torno de um dado objeto de enunciação, não pode
deixar de ser participante ativo do diálogo social. Ele também surge
desse diálogo com seu prolongamento, com sua réplica, e não sabe
de que lado se aproxima desse objeto (BAKHTIN, 1993, p.86).

Isto posto, podemos notar na composição do discurso uma influência da


dialogicidade da linguagem. O romance englobará as respostas cujos discursos
proporão por intermédio da compreensão. Essas diferentes vozes do discurso e suas
distintas visões de mundo possibilitam ao romance uma pluridiscursividade ou
plurilinguismo:

Introduzido no romance, o plurilinguismo é submetido a uma


elaboração literária. Todas as palavras e formas que povoam a
linguagem são vozes sociais e históricas, que lhe dão determinadas
significações concretas e que se organizam no romance em um
sistema estilístico harmonioso, expressando a posição sócio-
ideológica diferenciada do autor no seio dos diferentes
discursos da sua época (BAKHTIN, 1993, p.106).

Em K. Relato de uma busca, a opção pela escolha do foco narrativo


predominantemente em terceira pessoa recai sobre a intencionalidade de
distanciamento desse autor-narrador que envolverá questões singulares sobre sua
sabedoria relativa ao assunto narrado. Davi Arrigucci Júnior, em Teoria da narrativa:
posições do narrador (ARRIGUCCI, 1998), argumenta que a escolha da voz narrativa
infere uma maneira de difundir valores:

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A escolha da técnica, do ponto de vista, nunca é inocente. Escolher


um ângulo de visão ou voz narrativa (...) tem implicações de outra
ordem, ou seja, toda técnica supõe outras questões que são
problemas do conhecimento, epistemológicas, questões que podem
ser também metafísicas, ontológicas (...) (ARRIGUCCI JÚNIOR, 1998,
p.20).

A intencionalidade do autor ao escolher um tipo de voz narrativa confere à


obra características peculiares de distanciamento de acontecimentos vividos e uma
possibilidade de ambientar diferentes posicionamentos sem cair na discussão
maniqueísta do certo ou errado, exibindo, desse modo, posições individuais
diferenciadas mais profundas.
O capítulo inaugural da obra de Kucinski intitulado “As cartas à destinatária
inexistente” inicia-se com uma declaração feita em primeira pessoa pelo autor-
narrador:

De tempos em tempos, o correio entrega no meu antigo endereço


uma carta de banco a ela destinada; sempre a oferta sedutora de um
produto ou serviço financeiro. (...) / Sempre me emociono à vista de
seu nome no envelope. E me pergunto: como é possível enviar
reiteradamente cartas a quem inexiste há mais de três décadas? Sei
que não há má-fé. Correio e banco ignoram que a destinatária já não
existe; o remetente não se esconde, ao contrário, revela-se
orgulhoso em vistoso logotipo (KUCINSKI, 2014, p.9).

O conteúdo dessa abertura reitera a advertência realizada pelo autor ao leitor


no prefácio: “Caro leitor: / Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”. O
leitor deve se preparar para o contato com a narrativa que mesclará ficção e
testemunho de alguns episódios que serão descritos, alertando, assim, o leitor de que
nem tudo é verdade, mas nem tudo é produto do processo criativo imaginativo.
No capítulo seguinte “Sorvedouro de pessoas”, somos apresentados ao
personagem K e toda a sua angústia:

A tragédia já avançara inexorável quando, naquela manhã de


domingo, K. sentiu pela primeira vez a angústia que logo o tomaria
por completo. Há dez dias a filha não telefona. / (...) / Pronto, estava
instalada a tragédia. O que fazer? Os dois filhos, longe, no exterior. A
segunda esposa, uma inútil. As amigas da universidade em pânico. O
velho sentiu-se esmagado. O corpo fraco, vazio, como se fosse
desabar. A mente em estupor. De repente, tudo perdia sentido. Um
fato único impunha-se, cancelando o que dele não fosse parte;

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fazendo tudo o mais obsoleto. O fato concreto de sua filha querida


estar sumida há onze dias, talvez mais. Sentiu-se muito só. / Passou a
listar hipóteses. Quem sabe um acidente, ou uma doença grave que
ela não quisesse revelar. A pior era a prisão pelos serviços secretos. O
Estado não tem rosto nem sentimentos, é opaco e perverso
(KUCINSKI, 2014, p. 13 e 16).

A escolha pela narrativa em terceira pessoa para descrever o desespero de um


pai permite ao leitor uma visão mais ampla da história e a entrada e saída da mente
dos personagens com mais facilidade, garantindo uma experiência de leitura única e
emocionante.
O livro ainda apresenta o entre-lugar dos informantes, que escondem suas
contribuições com os agentes do sistema por meio de aparências e comportamentos
sociais; Reminiscências de um pai saudoso; A descoberta de K. sobre a vida clandestina
da filha, relacionada à militância política e ao casamento com Wilson Silva; A tortura
psicológica perpetrada pelos aliados da ditadura; O “depoimento” da amante de um
dos delegados; Uma entrevista entre uma psicóloga e uma faxineira da antiga Casa da
Morte; Os extorsionários, dentre outros. Nesses outros episódios, o leitor poderá
entender como funcionavam os posicionamentos individuais em relação a um mesmo
contexto por meio das falas desses personagens.

Conclusão

K. Relato de uma busca é uma narrativa pungente, que parte do trauma, em


uma tentativa de elaboração simbólica, enquanto palavra, em uma necessidade de
deixar registrada a presença da desaparecida dos rols dos vivos e precocemente levada
aos rols dos mortos. Uma tentativa, emocionante, de manter a memória de sua busca
viva e a exigência de respostas para que esse assunto não caia no esquecimento e não
haja um apagamento de rastros. A escrita deixará marcas e permitirá a luta contra o
esquecimento.

Mas existe um direito à memória que é um dever de transgressão e


resistência, um dever que se configura num sujeito que ressignifica
em si uma sintaxe do inominável e, criando uma outra linguagem,
interrompe desde dentro, através da sua obra, a vida de outros
sujeitos. Essa interrupção, pela sua obra, significa um encontro com a
memória de outro – um processo de educação pela arte – em que
essa criação é o toque do humano (VILELA, Eugénia, 2000, p.46).

A utilização da polifonia bakhtiniana na tessitura de seu primeiro romance


revela na ficção de Kucinski a apresentação de diferentes posições sociais de uma

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mesma época em relação a um mesmo contexto. A literatura é convocada para dar


forma ficcional a um trauma e apresenta, ainda, a representação de posicionamentos
conflitantes por meio das vozes discursivas inseridas no texto. Ao longo dos capítulos,
os leitores vivenciarão a angústia, a dor, a busca labiríntica e infrutífera de informações
que levem à restituição do corpo da filha desaparecida para a conclusão dessa jornada
contra o esquecimento e em prol de respostas que levem a uma responsabilização
pelos atos praticados durante o regime militar.

Referências

ARRIGUCCI JÚNIOR, Davi. Teoria da narrativa: posições do narrador. Jornal de


psicanálise, v. 31, n. 57, 1998.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. Trad.
Aurora Fornoni Bernadini et al. 4. ed. São Paulo: Unesp; Hucitec, 1993.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. In: Magia e técnica, arte e política –
ensaios sobre literatura e história da cultura – Obras escolhidas I. 7.ed. Tradução
de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Braziliense, 1994 [Obras Escolhidas, v.1].
KUCINSKI, Bernardo K. – Relato de uma busca. 2. Reimpressão. São Paulo: Cosac Naify,
2014.
MACIEL, Nahima. Cinquenta anos da ditadura militar é relembrada com lançamento de
livros. Disponível em: <http://divirta-se.uai.com.br/app/noticia/arte-e livros/2014/
03/11/noticia_arte_e_livros,152383/cinquenta-anos-da-ditadura-militar-e-
relembrada-com-lancamento-de-livros.shtml>. Acesso em 12 nov. 2015.
PEREIRA, Rogério. A libertação de Kucinski. Disponível em:
<http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-libertacao-de-kucinski> Acesso em 12
nov. 2015.
PORTO, Patrícia de Cássia. Narrativas memorialísticas: memória e literatura. Disponível
em: <http://www.fe.ufrj.br/artigos/n12/11_Narrativas_Memorialisticas_
Memoria.pdf>. Acesso em 10 nov. 2015.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A catástrofe do cotidiano, a apocalíptica e a redentora:
sobre Walter Benjamin e a escritura da memória. In: DUARTE, Rodrigo;
FIGUEIREDO, Virginia (Orgs.). Mímesis e expressão. Belo Horizonte: UFMG, 2001.
VILELA, Eugénia. Corpos inabitáveis: errância, filosofia e memória. Enharonar. Porto, n
31, p.35-52, 2000.

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A CONSCIÊNCIA TEXTUAL NO PROCESSAMENTO DA COMPREENSÃO LEITORA:


FUNDAMENTOS TEÓRICOS E INSTRUMENTOS DE APLICAÇÃO

Gabriela Fontana Abs da Cruz1


Gabrielle Perotto de Souza da Rosa2
Leandro Lemes do Prado3

Introdução

Dados fornecidos por mecanismos medidores da situação de aprendizagem do


Brasil, como IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), Prova Brasil e PISA
(Programa de Avaliação Internacional de Estudantes), têm indicado a necessidade de
uma reorganização da essência da educação brasileira, a partir da reavaliação do papel
da escola como formadora de cidadãos capacitados em todos os níveis de ensino. Um
dos principais componentes avaliados e que causa alerta é a compreensão leitora.
Os dados do INEP4 (2011) mostram que, apesar de as metas estabelecidas pelo
governo estarem sendo alcançadas, o IDEB5 (2011) brasileiro continua com índices
baixos, visto que a nota obtida tende a baixar com o avanço do aluno dos anos iniciais
para os anos finais. O IDEB dos anos iniciais do Ensino Fundamental é 5,0; dos anos
finais é 4,1 e do Ensino Médio é 3,7. Essas notas baixam ainda mais quando analisamos
apenas alunos oriundos das escolas públicas.
A Prova Brasil, avaliação feita pelo SAEB (Sistema de Avaliação da Educação
Básica), tem verificado o desempenho de alunos do 5º e 9º anos do Ensino
Fundamental e 3º ano do Ensino Médio. Os resultados também revelam índices abaixo
dos desejados no desempenho em leitura.

1
Doutoranda em Letras (PUCRS); bolsista CAPES; docente do IFRS – Campus Restinga. E-mail:
gabriela.abs@gmail.com
2
Doutoranda em Letras (PUCRS); bolsista CAPES.
E-mail: gabiperotto@gmail.com
3
Doutorando em Letras (PUCRS); bolsista CNPq.
E-mail: professorleoprado@gmail.com
4
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. Disponível em: <http://ideb.inep.gov.br/resultado>. Acesso
em: 30 mar. 2014.
5
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Disponível em: <http://ideb.inep.gov.br/resultado>.
Acesso em: 30 mar. 2014.

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O PISA, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento


Econômico (OCDE), pesquisa, com periodicidade de três anos, a competência em
leitura de estudantes na faixa dos 15 anos de idade. Os resultados com os estudantes
brasileiros colocam o país nas últimas posições nas edições de 2003, 2006, 2009 e
2012. Na avaliação mais recente, a de 2012, cerca de 49% dos estudantes brasileiros
estão abaixo da linha de base proposta pelo programa. Isso significa que esses
estudantes conseguem, em geral, apenas reconhecer o tema principal ou o objetivo de
um texto, desde que este seja sobre um assunto de seu conhecimento prévio, e
conseguem fazer conexões simples entre o que está no texto e o seu conhecimento.
Apenas 0,5% dos avaliados obteve resultados que os classificassem no nível 5 de
proficiência, isto é, em que o aluno consegue lidar com textos não familiares, no que
diz respeito à forma e ao conteúdo, e consegue realizar uma análise mais refinada do
texto.
Tendo em vista esses resultados, as investigações feitas na área da
Psicolinguística dão importante atenção aos processos e aos aspectos envolvidos na
leitura e compreensão leitora. Um dos aspectos que vem ganhando destaque nesses
estudos é a consciência textual, a qual se estabelece através do diálogo entre
diferentes níveis de consciência linguística (fonológica, morfológica, lexical, sintática,
pragmática, e textual).
Neste artigo, o foco será, portanto, a consciência textual e sua relação com a
compreensão leitora e o objetivo principal será dar luz aos caminhos teóricos que se
percorre para tratar de tais temas. Para tanto, serão apresentados um panorama da
fundamentação teórica sobre o referido nível de consciência; a forma como se dá o
processamento da leitura; bem como os elementos linguísticos que constituem o texto
e que estabelecem um diálogo com o contexto. Para finalizar, serão apresentados
alguns instrumentos de aplicação, referentes a projetos desenvolvidos no Centro de
Referência para o Desenvolvimento da Linguagem (Celin/PUCRS).

Compreensão leitora

Dada a relevância à compreensão leitora e seu processamento e à consciência


textual para o desenvolvimento deste artigo, alguns tópicos que tangem a estas
questões serão abordados, a fim de se compreender sua importância para o acesso a
todas as áreas do conhecimento para o domínio da Língua Portuguesa,
A perspectiva teórica aqui assumida é a da Psicolinguística em interface com a
Linguística do Texto e as Neurociências, e foca no processamento cognitivo da leitura
com ênfase em desenvolver estratégias cognitivas e metacognitivas. Nesse

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entendimento, o texto não deve ser visto como um simples conjunto de elementos
gramaticais, nem como um repositório de mensagens e de informações (KLEIMAN,
1996), e a leitura é vista como um processo cognitivo que pode ocorrer
interativamente de forma ascendente – bottom-up – e de forma descendente – top-
down (SCLIAR-CABRAL, 2008).
O processamento ascendente se realiza das unidades menores para as maiores,
com a atenção do leitor se dirigindo para as pistas visuais do texto. De modo geral,
esse processamento é utilizado em situações em que o leitor tem poucos
conhecimentos prévios sobre o conteúdo ou a linguagem do texto, que o objetivo da
leitura exija uma atenção a detalhes e que o texto a ser lido seja complexo, exigindo
uma leitura cuidadosa.
O processamento descendente se realiza das unidades maiores para as
menores, com o leitor se apoiando nas informações extratextuais. De modo geral, esse
processamento é utilizado quando o leitor tem conhecimentos prévios sobre o assunto
e a linguagem do texto, quando seu objetivo exige uma leitura geral e a densidade do
texto não oferece dificuldades grandes de compreensão.
A combinação dessas formas está baseada num conjunto de variáveis:
intervenientes no processamento da Leitura tais como: Conhecimentos prévios do
leitor e estilo cognitivo do mesmo; gêneros textuais literários e não literários com
predominância narrativa, descritiva, expositiva, argumentativa, injuntiva; além, é claro,
dos processos de Coesão, Coerência e Superestrutura, que dão unidade e sentido ao
texto.
De acordo com Soares (1991), a leitura não é uma atividade apenas de
decodificação, em que o leitor apreende a “mensagem” do autor, mas é processo
constitutivo do texto com base na interação autor-leitor. Ou seja: o texto não preexiste
à sua leitura, pois esta é construção ativa de um leitor que, de certa forma, “reescreve”
o texto, determinado por seu repertório de experiências individuais, sociais, culturais.
Durante a leitura, o leitor utiliza estratégias de leitura (PEREIRA, 2010), como
skimming (leitura geral e rápida para uma aproximação inicial ao texto); scanning
(leitura de busca de uma informação específica no texto); leitura detalhada (leitura
minuciosa dirigindo a atenção para todos os detalhes); predição (antecipação do
conteúdo do texto, com base nas pistas linguísticas e nos conhecimentos prévios);
automonitoramento (observação, pelo leitor, do próprio processo de leitura);
autoavaliação (verificação, pelo leitor, da adequação das hipóteses de leitura
levantadas); e autocorreção (alteração, pelo leitor, das hipóteses formuladas, caso
constate inadequações).

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Com essas estratégias, tem-se a ativação dos conhecimentos prévios, a seleção


de informações, a realização de inferências, a antecipação e localização de
informações no texto, a articulação de relações textuais e contextuais, e também a
construção e a generalização de informações. Com isso, o uso de estratégias dá ao
texto e à leitura a perspectiva da prática social, pois o leitor, ao estabelecer relações
com o texto, interage com a sua própria realidade, ampliando-a, modificando-a,
percebendo-a de maneira mais nítida.
Além disso, a utilização dessas estratégias faz com que o leitor manipule os
elementos linguísticos do texto e os elementos extratextuais. Os elementos linguísticos
abrangem os fônicos (fonemas/letras, ritmo, entonação), os morfossintáticos (limites
de palavra e frase, estrutura vocabular, elos gramaticais), os semânticos (léxico,
significação vocabular, elos lexicais), os pragmáticos (situação de uso) e os textuais
(superestrutura, coerência, coesão). Os elementos extratextuais estão nos
conhecimentos prévios do leitor, em seus arquivos de memória e no contexto.
O paradigma de ensino da leitura constitui um conjunto de concepções dos
fundamentos já expostos. A compreensão textual e o seu processamento cognitivo,
por exemplo, são marcados pela situação de leitura. Para tanto é importante ter
critérios claros para a seleção do texto, levando-se em consideração suas
características como gênero (BAZERMAN, 2009) e as da situação da qual é oriundo, os
interesses pedagógicos do ano escolar, considerando o planejamento definido pela
escola, os objetivos de leitura e os conhecimentos prévios dos alunos.
É importante que seja estabelecido claramente o objetivo de leitura
considerando essas concepções. A opção por um texto com sequências descritivas,
narrativas ou argumentativas dominantes (ADAM, 2008) revela as necessidades de
quais procedimentos de leitura são os mais adequados a serem usados e explicitados.
A compreensão do texto tem suporte nos seus elementos linguísticos, isto é,
nos constituintes fônicos (ritmo, rima, aliteração...), morfológicos (limite e estrutura
dos vocábulos, classes gramaticais, flexões...), sintáticos (limite e estrutura das
frases/versos, paralelismo, combinações entre os segmentos...), léxico-semânticos
(vocábulos e seus significados, paralelismo...), pragmáticos (relações entre o texto e a
situação comunicativa) e textuais (superestrutura, coerência e coesão). Assim, a
proposta de leitura passa por uma análise linguística criteriosa do texto para que se
possa alavancar o entendimento do texto e alicerçar sua compreensão.
Considerando o aprendiz em situação de leitura, é importante que a análise
linguística se constitua de atividades que direcionem a atenção dos alunos para a
organização do texto em seus elementos constitutivos: os elementos coesivos lexicais

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relevantes para o sentido do texto – seus significados e estruturas, suas repetições,


seus modos de agrupamentos, suas substituições; os elementos gramaticais – os
processos de retomada linguística, os nexos, as relações entre os vocábulos, as elipses;
os traços da superestrutura – formato, moldura, esquema, suporte, sequências
dominantes; os traços de coerência – tema, tópicos de desenvolvimento, relações
entre os tópicos e entre esses e o tema; as marcas da situação de produção (autor,
propósito, fonte, suporte) e de recepção do texto (elementos linguísticos e tópicos que
integram e que não integram os conhecimentos prévios dos alunos, objetivo da
leitura).
A compreensão do texto se apoia na análise linguística, pois assim possibilita a
compreensão dos fatos e dos argumentos utilizados. Nesse sentido, destacam-se,
paralelamente à análise dos elementos linguísticos, atividades sobre o conteúdo do
texto – o tema e seus tópicos, os fatos e suas relações e os argumentos e seus vínculos
com a tese em desenvolvimento (ADAM, 2008).
Os conhecimentos prévios armazenados na memória declarativa são acionados
pelo leitor para a compreensão do texto. Assim, o professor, paralelamente ao
trabalho de ensino da análise linguística, deve também propor atividades que levem o
aluno a acionar seus conhecimentos prévios, expondo-o a textos com maior ou menor
correspondência com eles.
Nesse sentido, a seleção dos textos deve apresentar a diversidade necessária
de modo a exigir a ativação de conhecimentos que já possui e a busca de
conhecimentos que não estão ainda armazenados em sua memória declarativa, de
modo a contribuir para o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem.

Atenção e consciência

Os estudos sobre atenção têm apresentado um constante desenvolvimento,


principalmente quanto à sua relação com a linguagem e a cognição. Na obra Psicologia
Cognitiva, no capítulo sobre Atenção e Consciência, Robert Sternberg (2000) cita o que
outros autores teorizam sobre atenção: “A atenção é o meio pelo qual processamos
ativamente uma quantidade limitada de informação a partir da enorme quantidade
disponível através de nossos sentidos, de nossas memórias armazenadas e de nossos
outros processos cognitivos”. O cérebro humano, apesar de guardar muita
informação, precisa selecionar aquilo que tem maior importância e descartar
informações pouco utilizadas ou irrelevantes. E a atenção envolvida nessa seleção
ajuda a priorizar qual foco será dado para a informação, se maior ou menor atenção.

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Sternberg (2000) afirma que “a informação pré-consciente são as memórias


que não estamos usando, mas podemos acessar quando necessitarmos”. O priming é o
estímulo que afeta o reconhecimento de alguns estímulos. É o exemplo de quando
encontramos um ex-colega e ele nos pergunta se lembramos daquela professora
específica. Logo, a memória que não estava sendo usada é ativada e nos recordamos
como se tivéssemos pensando nisso ontem.
O número de alvos e fatores de distração afeta a dificuldade de atenção na
tarefa. Quando o estímulo-alvo tem características semelhantes aos outros elementos
e há algo bastante distinto, o item distinto chama mais atenção. Há facilidade de se
conduzirem buscas por características e dificuldade de buscas conjuntas. Alvos muito
semelhantes a fatores de distração são difíceis de detectar. Os que são muito distintos
são mais fáceis.
Na leitura, é mais fácil ler textos longos em letras minúsculas do que em
maiúsculas, pois as maiúsculas tendem a ser mais semelhantes entre si e as minúsculas
têm mais características distintivas. Para isso, conhecer o estímulo ajuda a encontrá-lo
mais facilmente, pois o conhecimento facilita a busca visual.

Atenção seletiva e dividida

Na atenção seletiva, escolhemos prestar atenção em alguns estímulos e ignorar


outros. (COHEN, 2003; DUNCAN, 1999). Os estímulos externos não nos afetam se
estiverem no nível da habituação. E na atenção dividida, nós dividimos nossos recursos
de atenção para coordenar nosso desempenho em mais de uma tarefa
simultaneamente. Para isso, é necessário estar vigilante aos sinais – prestar atenção a
um campo de estimulação por um período prolongado, buscando um estímulo-alvo de
interesse –, para que não se perca a atenção em determinado distrator e se deixe de
lado um sinal importante. Por meio da detecção de sinais é que somos submetidos ao
priming para agir com rapidez ao estímulo. E realizamos buscas ativas por alguns
estímulos determinados, por exemplo, uma mãe, quando leva seu filho na praça e
inicia uma conversa com outra mãe, fica atenta aos sinais de choro de criança.
Para o estudo da atenção seletiva, há um mecanismo de teste chamado
Sombreamento. Funciona da seguinte forma: o participante ouve duas passagens
simultâneas diferentes e deve repetir apenas uma o mais rápido possível. Os
experimentos mostram que as pessoas ouvem os dois, um pouco de cada. E percebem
mudanças de voz, tipo de sinais, etc, mas não percebem mudanças semânticas, nem
de idiomas.

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Há seis teorias de atenção seletiva baseadas em filtro e gargalo, mas neste


artigo iremos tratar somente das Teorias de atenção seletiva baseadas em recursos de
atenção. Baseado na questão “Como podemos realizar mais de uma tarefa que
demande atenção ao mesmo tempo?” é que se pensou em desenvolver as teorias
citadas, pois elas ajudam a explicá-la.
A resposta é simples: as pessoas dividem melhor sua atenção quando as tarefas
concorrentes pertencem a modalidades sensoriais diferentes. Se ela estiver ouvindo
música clássica e redigindo um texto, estará utilizando recursos auditivos e visuais, que
são diferentes. Já redigir um texto ouvindo uma notícia na televisão não funciona
porque ambas as tarefas são verbais e visuais, e uma acabará afetando o desempenho
da outra. Os processos pré-atencionais podem ocorrer de forma simultânea, mas os
processos que requerem atenção precisam ocorrer em ordem. Mas à medida que as
tarefas vão se tornando automáticas, o desempenho demanda menos atenção,
podendo assim ser realizadas simultaneamente com outras. Spelke, Hirst e Nesser
(1976) mostram que as tarefas controladas podem ser automatizadas de forma a
consumir menos recursos de atenção. Duas tarefas controladas diferentes podem ser
automatizadas para funcionar juntamente como uma unidade. Mas as tarefas não se
tornam totalmente automáticas.

Consciência de processos mentais complexos

Conforme Nisbett e Wilson (1977), estamos conscientes dos produtos de nosso


pensamento, mas apenas vagamente conscientes dos processos do pensamento. O
acesso consciente das pessoas aos seus processos de pensamento e o controle que
elas têm sobre eles é bastante reduzido. Exemplo disso é não tentar pensar em alguém
ou em algo. A técnica não funciona, pois quanto mais se tenta não pensar, mais
obcecado pela coisa se fica. Os comportamentos adaptativos sugerem que tenhamos
muita atenção a mudanças em nosso ambiente. Porém, estudos mostram que as
pessoas são pouco capazes de reconhecer mudanças do que se pode esperar,
principalmente mudanças visuais e bastante visíveis.
A atenção envolve a interação de diversas áreas específicas do cérebro. Fora de
nossa consciência, estamos sempre tentando entender um fluxo constante de
informações sensoriais. Quando escolhemos uma hipótese satisfatória, excluímos
várias possibilidades de atenção limitada. Porém, a atenção não é sobrecarregada, pois
é substituída e os processos de atenção são entrelaçados aos processos de percepção.

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Segundo Sternberg (2000), “os recursos de atenção limitados de modalidades


específicas parecem influenciar outros aspectos da atenção. Na verdade, as
descobertas da pesquisa cognitiva proporcionaram muitos conhecimentos sobre a
atenção, mas também se tem obtido outros por meio do estudo dos processos de
atenção no cérebro”.

Consciência textual

A consciência textual é uma atitude reflexiva que o indivíduo faz sobre o seu
objeto de análise, o texto, de forma deliberada, em que o foco atencional está no
próprio texto. Além disso, Gombert (1992) afirma que esse tipo de consciência está
centrado no monitoramento e na atenção a traços que constituem o texto e que os
determinam como pertencentes a um determinado gênero. Esses traços estão
relacionados à coesão, à coerência e à superestrutura.
A coesão é um componente que diz respeito às relações de sentido que existem
no interior do texto e que o definem como tal. Essas relações são estabelecidas por
mecanismos, os quais são denominados por Halliday e Hasan (1976) coesão gramatical
e coesão lexical. A coesão gramatical envolve a referência, a substituição, a elipse e a
conjunção.
A referência diz respeito a itens linguísticos que são “vazios” de significados,
mas que, no discurso, remetem a outros itens e, assim, são passíveis de serem
compreendidos. São itens linguísticos conhecidos como dêiticos e possuem como
principais exemplares os pronomes pessoais e demonstrativos.
A substituição é um mecanismo de relação interna no texto. Um elemento
(desde um simples nome a uma frase inteira) é colocado no lugar de outro, ocorrendo
sempre uma redefinição.
A elipse refere-se à omissão de um item lexical, ou até mesmo um enunciado,
visto que podem ser recuperados com muita facilidade a partir do contexto. Esse
mecanismo seria, pois, uma espécie de substituição, porém por zero, por um espaço
vazio.
A conjunção, também chamada de conexão, permite que relações significativas
entre elementos do texto sejam estabelecidas, como as que ocorrem por marcadores
formais, os quais correlacionam o que será dito ao que já o foi.
A coesão lexical, por sua vez, ocorre por meio de dois mecanismos: a reiteração
e a colocação. O primeiro refere-se à repetição, bem como ao uso de sinônimos e
hiperônimos. A colocação refere-se ao uso de palavras de um mesmo campo
semântico.

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O segundo constituinte do texto é a coerência, que se refere à possibilidade de


instauração de um sentido ao texto, isto é, está relacionada à significação global, à
macroestrutura do texto. Para tanto, deve haver a possibilidade de estabelecimento
de alguma unidade ou tipo de relação entre os seus elementos componentes.
Charolles (1997) compreende a coerência como uma relação conjunta entre os níveis
textuais micro e macrolinguístico e propõe quatro macrorregras que precisam ser
levadas em consideração para que um texto seja identificado como coerente: a
repetição, a progressão, a não-contradição e a relação.
A repetição está relacionada à retomada de elementos, por meio de uma série
de recursos, tais como pronominalizações, determinações, referenciações contextuais,
substituições lexicais, recuperações pressuposicionais, retomadas de inferência,
entre outros. Um texto coerente apresenta uma continuidade semântica, ou seja, há
elementos de retomada de ideias e conceitos na superfície do texto para o seu
desenvolvimento linear.
A progressão diz respeito ao equilíbrio entre a retomada de elementos dados
no texto e as informações novas. O texto não poderá apresentar somente ideias novas,
pois será progressivo; nem apenas a retomada de informações, pois se tornará
redundante.
A não-contradição, por sua vez, é o respeito aos princípios lógicos do texto,
expressos nos elementos linguísticos e no vocabulário, por exemplo. As informações
de um texto não podem se contradizer; devem ser compatíveis entre si e com o
mundo que o texto representa.
A última metarregra é a relação. Charolles (1997) diz que esta metarregra está
vinculada à forma como os conceitos dentro de um texto se encadeiam e se
organizam, além da função que exercem uns em relação aos outros.
Por fim, o último componente da consciência textual a ser apresentado é a
superestrutura, a qual está relacionada à estrutura esquemática convencional do
texto. Sendo esta estrutura convencional, entende-se que ela é variável, podendo
sofrer alterações conforme a cultura à qual está submetida. Em outras palavras, a
superestrutura “é uma forma global que organiza a macroproposição (o conteúdo
global do texto)” (VAN DIJK, 2004, p.30) e ela “fornece a sintaxe completa para o
significado global, isto é, para a macroestrutura do texto” (idem). Assim, os discursos
caracterizam-se por terem um significado global, que faz com que o tema seja
formalizado, e, portanto, permite que haja uma coerência global no texto. Essas
estruturas podem ser frequentemente expressas “pelos títulos ou cabeçalhos, ou por
posição temática inicial ou derivadas por macrorregras (tais como supressão,

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generalização e construção), a partir das proposições expressas pelo texto e do


conhecimento ativado do mundo” (VAN DIJK, 2004, p.70). Além disso, são organizadas
por uma ordem geral de princípios, o que possibilita a especificação de funções
esquemáticas, além de categorias das partes dos textos, como, por exemplo, os
parágrafos contendo as premissas e a conclusão em uma dissertação escolar.

Projetos Celin

Após a discussão teórica sobre compreensão leitora, atenção e consciência


textual, cabe agora apresentar alguns projetos desenvolvidos pelo CELIN (Centro de
Referência para o Desenvolvimento da Linguagem) que investigam esses aspectos
teóricos. São eles:

Caminhos de Leitura Virtual pelo RS/Brasil: PROUCA, Universidade e Escola em Rede


de Ensino, Pesquisa e Extensão

O projeto vinculado ao “Grupo de Pesquisa/CNPq Aquisição, Aprendizado e


Processamento Cognitivo da Linguagem: instrumentos, procedimentos e tecnologias”
consistiu em uma busca de resposta à indagação: em que medida um trabalho
pedagógico com estratégias de leitura virtuais contribui para a compreensão leitora de
alunos de séries finais do Ensino Fundamental e para a formação e ades