Você está na página 1de 50

A Missão Integral da Igreja

Breve história de uma idéia que mudou a face da Igreja Evangélica

Alfredo dos Santos Oliva


Júlio Paulo Tavares Zabatiero
Wander de Lara Proença
Prefácio

Um novo século em um novo milênio. Tempo de mudanças ocorrendo em


altíssima velocidade. Internet, transgênicos, governo de esquerda, pluralismo
religioso jamais visto antes no Brasil, fragmentação do Protestantismo, novos
movimentos religiosos, são apenas alguns dos sintomas dos novos tempos em
que vivemos. O II Congresso Brasileiro de Evangelização se realiza em um
período extremamente rico e conturbado da história do nosso país e da Igreja
Evangélica.
Novos tempos, novos desafios. Problemas e possibilidades sequer
imaginados quando da realização do I CBE ocupam a nossa agenda
contemporânea. A fragmentação das identidades eclesiásticas é um deles, que
veio a reboque de grande crescimento numérico das Igrejas Protestantes. O
sucesso de mídia e de número de membros e valores financeiros do Neo-
Pentecostalismo e da Teologia da Prosperidade colocou o mundo evangélico de
sobreaviso. A busca de maior comunhão fraternal nas igrejas locais e de um
despertamento para uma nova visão da espiritualidade cristã são sintomas do
mover do Espírito entre nós. Em vinte anos, além das mudanças, aprofundaram-
se velhos problemas: a pobreza continua alarmante no Brasil, taxas elevadas de
desemprego, exclusão social, mortalidade infantil continuam a nos provocar a
indignação e a busca de justiça social. A corrupção continua existindo como um
câncer que corrói a ética e o tecido social. O clamor por justiça permanece
ecoando alto em todos os cantos de nosso grande país.
Novos e antigos desafios nos convocam, como evangélicos, a discernir os
tempos e a nos engajarmos mais intensamente na missão integral que Deus
confiou à Igreja. Nas palavras da convocatória para o II CBE: “Reconhecemos a
necessidade de se elaborar uma nova síntese que seja capaz de responder às
seguintes questões: Quais os desafios que a igreja precisa enfrentar? Que
respostas estão sendo dadas para estes desafios? As respostas estão em sintonia
com a vontade de Deus e os paradigmas do Seu Reino? Como podemos ser
apoio e inspiração comunitária para os líderes e igrejas periféricas, lutando contra
toda espécie de opressão, em circunstâncias tão adversas? Qual é a palavra de
Deus para a nossa geração?”
Com este pequeno livro queremos contribuir para a resposta a essas
questões. Uma contribuição claramente delimitada. Nós nos propusemos a
escrever uma pequena história de uma grande idéia. Optamos por concentrar
nossa memória sobre o tema da difusão da idéia de missão integral. Focalizamos
apenas três agentes dessa difusão. Uma instituição e dois movimentos: Visão
Mundial do Brasil, Aliança Bíblica Universitária do Brasil e Fraternidade Teológica
Latino-Americana seção Brasil. Certamente elas não foram as únicas difusoras da
missão integral. Uma idéia abraçada por inúmeras igrejas locais e movimentos
evangélicos. Uma prática de milhares de pessoas comprometidas com o Reino de
Deus, uma vivência de centenas de igrejas locais e projetos ministeriais que
fervilham em nosso país neste exato instante. Mas foram as três principais
responsáveis pela reflexão teológica sobre a missão integral e pela difusão desta
idéia, que veio do Espírito de Deus para seu povo, em todo o nosso país.
A nossa contribuição tem a seguinte estrutura: na introdução (escrita por
Wander) aborda-se O Contexto Social Brasileiro e a Urgência da Missão Integral,
seguida por três capítulos que abordarão, individualmente, a contribuição da Visão
Mundial (escrito por Wander de Lara Proença), da ABUB (escrito por Alfredo dos
Santos Oliva) e da FTL-Brasil (escrito por Júlio Paulo Tavares Zabatiero) na
difusão e aperfeiçoamento da compreensão e prática evangélicas da missão
integral. Após esses capítulos, uma reflexão final (coletiva) tentará apontar alguns
rumos para a atividade teológica diante dos desafios do presente, em sintonia com
a convocatória do II CBE.
Nosso convite é para que você reflita conosco e, ao reler antigos – mas
tão próximos – caminhos, ajude a Igreja a perceber onde Deus está andando e
agindo hoje, nos ajude a ouvir a Sua voz com nitidez em nosso tempo presente.

Os autores
‘Introdução
O Contexto Social Brasileiro e a Urgência da Missão Integral
Conforme a narrativa de Mateus 2:1-12, ao procurarem pelo menino
recém-nascido surpreenderam-se os magos do oriente: afinal, não deveriam
encontrar o “rei dos judeus” na importante cidade de Jerusalém, no aconchego de
uma família socialmente destacada naquela sociedade, ou ainda, estando ainda
acercado de pessoas ilustres? Que surpresa constatar que o novo rei se revelara
na efrata Belém! Também, à semelhança do que fora dito aos pastores, dois mil
anos depois o sinal comunicativo de Deus à humanidade continua, pela sua
simplicidade, a surpreender: “encontrareis uma criança envolta em panos e
deitada em manjedoura.”(Lc. 1:12). Ou seja, o rosto de Jesus no contexto
brasileiro atual assume feições que continua a surpreender a muitos que
imaginam mais facilmente encontrá-lo em suntuosos templos ou, quem sabe, nos
ambientes religiosos que, em seu nome, atraem geram competitivas
aglomerações. Sem desconsiderar, evidentemente, tal possibilidade, é preciso que
se atente para os traços e perfis com Ele mesmo se identificou conforme relato do
evangelho de Mateus, anteriormente citado.
Neste sentido, não será difícil encontrá-lo nas diferentes e precárias regiões
que configuram o nosso país. Nossa realidade é fortemente marcada pela
opressão política, econômica e cultural, o que se traduz em fome, miséria,
injustiça, forte distinção entre pobres e ricos, alto índice de prostituição, violência a
menores e marginalização. Como resultado de uma miséria espiritual geradora do
egoísmo, da ambição, e da desumanidade, que se expressa ainda em sistemas
político-econômicos descomprometidos com a justiça e o bem comum,
convivemos hoje com uma triste realidade de morte, de contrastes sociais, onde a
miséria e a marginalização mantêm milhões de pessoas em condições sub-
humanas. Denominando este contexto de "sociedade de crucificados", o teólogo
brasileiro Leonardo Boff utiliza as seguintes palavras:
Há uma cruz dolorosa e persistente que pesa sobre as
culturas dominadas dos indígenas e dos negros latino-
americanos... milhões e milhões de classes subjugadas
continuam sendo crucificadas com salários de fome, em
condições de trabalho que lhes encurtam a vida... Outras
pessoas penam sob a cruz da discriminação pelo fato de
serem mulheres, pobres, negros e outras formas de exclusão
social.1

Vale ressaltar que no momento da inserção da Visão Mundial no Brasil,


na década de 1970, à semelhança de todo o contexto latino-americano, o país
passava por intensas transformações sociais. Ronaldo Muñoz, citando o
documento produzido pelo Concílio Católico de Puebla, realizado no México, em
1979, descreve os dramas de tal realidade social:
Lançando um olhar sobre nosso mundo latino-americano,
nos deparamos com a verdade de que aumenta, cada dia
mais, a distância entre os muitos que têm pouco e os poucos
que têm muito. Estão sendo violados os direitos
fundamentais do ser humano. Comprovamos, pois, como o
mais devastador e humilhante flagelo a situação de pobreza
desumana em que vivem milhões de latino-americanos e que
se exprime, por exemplo, em mortalidade infantil, em falta de
moradia adequada, em problemas de saúde, salários de
fome, desemprego e subemprego, desnutrição, instabilidade
no trabalho, migrações maciças, forçadas e sem proteção.
Somam-se a isto as angústias produzidas pelo abuso do
poder, típicas de regime de força... Angústias ante uma
injustiça submissa e manietada.2

O sistema em que estamos inseridos, marcado pelo consumismo e pela


busca escalonária de produção, classifica e valoriza o ser humano por sua
capacidade de produzir. Por isso, crianças, idosos, doentes e indígenas, que
“nada produzem”, mas que, ao contrário, são causa de "gastos" aos cofres do
sistema, representam quase que nenhum interesse. Com isso, o ser humano é
agredido em sua dignidade. A imagem de Deus é ultrajada, violentada.

Analisando esta realidade que mantém as grandes massas em


situação de pobreza desumana e intolerável opressão, Muñoz descreve com
detalhes as feições do Cristo que se solidariza com o seu povo:
Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na
vida real, feições sofredoras de Cristo, o Senhor, que nos

1
BOFF, Leonardo. Como pregar a Cruz hoje em uma sociedade de crucificados? Petrópolis: Vozes,
1986, p.19-20.
2
MUÑOZ, Ronaldo. Evangelho e libertação na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1981, p.14.
questiona e interpela: feições de crianças, golpeadas pela
pobreza ainda antes de nascer...; feições de jovens,
desorientados por não encontrarem seu lugar na sociedade e
frustrados... feições de indígenas... e também de afro-
americanos, que, vivendo segregados e em situações
desumanas, podem ser considerados como os mais pobres
dentre os pobres; feições de camponeses, que, como grupo
social, vivem relegados ..., em situação de dependência
interna e externa, submetidos a sistemas de comércio que os
enganam e os exploram; feições de operários, com
freqüência mal remunerados, que tem dificuldade de se
organizar e defender os próprios direitos; feições de
subempregados e desempregados, despedidos pelas duras
exigências das crises econômicas e, muitas vezes, de
modelos desenvolvimentistas que submetem os
trabalhadores e suas famílias a frios cálculos econômicos;
feições de marginalizados e amontoados de nossas cidades,
sofrendo o duplo impacto da carência dos bens materiais e
da ostentação da riqueza de outros setores sociais; feições
de anciãos cada dia mais numerosos, freqüentemente postos
à margem da sociedade do progresso, que prescinde das
pessoas que não produzem.3

Não obstante tão grande visibilidade da face de Jesus em nossa


realidade, prevalecem ainda, infelizmente, atitudes de indiferença e de
negligência: “E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome,
com sede, com sede, forasteiro, nu enfermo ou preso, e não te assistimos?” (Mt.
25:44)

Tais impercepções advêm de diferentes órgãos oficiais do poder


público, mas também da própria igreja situada no contexto brasileiro. Uma grande
crise de identidade doutrinária e missiológica da igreja contemporânea tem gerado
a falta de discernimento e de compreensão quanto à sua razão de ser no mundo:
servir a Jesus Cristo dando continuidade à missão integral por Ele mesmo
inaugurada, para que o Reino de Deus seja então consolidado em plenitude. Os
obstáculos para o desenvolvimento da missão integral decorrem, ainda, de dois
extremos de espiritualidade vivenciados pela igreja brasileira. Primeiro, o extremo
do “celeste porvir”, conforme o conceitua o pesquisador Antônio de Gouvêa
3
MUÑOZ, ibid, p.29.
Mendonça, ao falar de um "vazio histórico" como marca do protestantismo
histórico que se inseriu no Brasil a partir do século XIX, ao mesmo tempo em que
faz também uma denúncia:
Tanto a cristologia católica como protestante deixaram para
trás a história da América Latina: a primeira apresentou o
Cristo morto, a segunda o Cristo vivo mas distante, em
nenhuma delas aparece o Cristo vivo dos evangelhos
anunciando o Reino em meio aos homens. 4

Falando ainda da alienação, do comodismo e da omissão da igreja em


realizar sua missão integral, Mendonça faz um alerta:
A visão do Cristo do céu implantou na América Latina um
protestantismo já de inicio em crise, porque colocou a igreja
numa encruzilhada até aqui não superada. O Cristo do Céu
nas apresenta saída entre duas alternativas: ou arrebata a
Igreja para que vá ao seu encontro ou desce novamente
para encerrar a história e inaugurar o milênio. Qualquer
dessas alternativas tem levado as igrejas a expectativas de
plenitude além da história. São comunidades de espera (...). 5

O resultado desta proposta de espiritualidade é a alienação ou a


indiferença para com as dificuldades de ordem social em que vivem milhões de
brasileiros. São pessoas que buscam uma vida "espiritual" de contemplação e
pureza pessoal apenas. Apesar de não aceitarem a dura realidade dos dias atuais,
não fazem praticamente nada para mudar tal situação, preferindo apenas
aguardar que por meio de acontecimentos apocalípticos haja alguma intervenção
sobrenatural e catastrófica de Deus na história humana, com o propósito de julgar
o mundo e dar, então, aos "puros" o direito de usufruir do novo céu e da nova
terra. Ou seja, projetam para o além pós-morte toda a perspectiva de uma vida de
justiça e de paz.

Também ao falar desta crise que envolve a identidade da igreja, o


teólogo Júlio Zabatiero aponta para alguns fatores de ordem litúrgica, que
evidenciam tal realidade:

4
MENDONÇA, Antônio de Gouvêa. “A Bíblia cativa, Cristo no céu e a igreja ausente”. In: Ciências
da Religião n.6. São Bernardo do Campo: UMESP, 1989, p.169.
5
MENDONÇA, ibid, p. 169,170
O individualismo subjetivo de nossos cânticos é patente e
preocupante. Considerando-a como um todo, a hinódia
protestante é alienante. Desvia os olhares dos cristãos da
história e os transfere a um mundo místico, inexistente (...) a
práxis cristã que a prática do culto oferece, além de
alienante, é individualizante. Destaca o cristão da igreja e o
transfere para o mundo do céu. Prejudica tanto a vida interna
da igreja como sua inserção no mundo.6

Em contrapartida, há hoje um outro extremo de espiritualidade


vivenciada por determinados segmentos cristãos, que poderíamos chamá-lo de
“terrestre presente”. Tem se convencionado denomina-se a isto de “teologia da
prosperidade”. Segundo tal proposta religiosa, o usufruto de toda forma de
consumismo que o mercado moderno oferece é um direito assegurado ao cristão.
À semelhança do grupo dos saduceus da época de Jesus, tais religiosos se
acomodam ao "status quo", do qual se beneficiam, e por isso mesmo, não estão
nem um pouco preocupados em transformar a realidade em que estão inseridos.
Parafraseando o texto de Rm.12:2, pode-se que estão "conformados com este
século", ou com este “esquema". Por meio de tal "teologia", tais pessoas justificam
a posse egocêntrica e individualista de grandes riquezas no nome de Deus,
indiferentemente à realidade de miséria e falta por que vivem milhões de outros
seres humanos ao seu redor. A assimilação de tais conceitos tem levado os
incautos à alienação quanto a verdadeira origem dos males sociais, e à
transferência de responsabilidades pessoais ou coletivas, uma vez que são
atribuídas ao diabo as causas de todas as mazelas. Assim, se eximem de suas
responsabilidades pessoais, não se engajam na práxis libertadora, não podendo
conseqüentemente exercer função profética de denúncia contra um sistema do
qual se beneficiam, fazendo-os "prosperar" no nome de Deus.
Em síntese, há que se dizer que não podemos conhecer o Deus que
se revelou em Jesus Cristo, buscar sua face e fazer sua vontade, se voltamos as
costas para o que está acontecendo em nossa história e fazemos ouvidos surdos
ao clamor do povo sem salvação e fechamos os olhos para o quadro socialmente
agravante em que vive grande parcela da população brasileira.
6
ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. “Amós e a missão da igreja brasileira na atualidade”. In: Boletim
Teológico n.7. São Leopoldo: FTLA,1985, p. 99.
VISÃO MUNDIAL E MISSÃO INTEGRAL:
ENXERGANDO EM MATEUS 25 A FACE BRASILEIRA DE JESUS
Wander de Lara Proença7

Introdução
O texto bíblico de Mateus 25;31-46 apresenta um dos parâmetros
estabelecidos por Jesus ao orientar aqueles que dariam continuidade à missão por
Ele desenvolvida: os sinais da chegada e da presença efetiva do reino de Deus
deveriam ser materializados por atitudes que expressassem solidariedade aos que
experimentam diferentes formas de necessidade. O caráter cristocêntrico de tais
ações, explicitado nas palavras “sempre que o fizestes a um destes meus
pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25:40), ganha delineamento com
representações extremamente fortes, e até dramáticas, mas que revelam, ao
mesmo tempo, a plena identificação do Salvador com a humanidade em
sofrimento: “(...) tive fome, (...) tive sede, sendo forasteiro (...) estando nu (...)
achando-me enfermo e preso (...) (Mt.25:42,43).
Na verdade, quis Jesus assim mostrar que a sua identidade
continuaria a ser aquela que a cruz definiu, quando solidariamente, ali,
experimentou com e pela a humanidade as diferentes formas de violência que
uma história ainda sob a égide do pecado é capaz de gerar: prisão, torturas,
humilhação, fome, sede, desamparo, rejeição, exclusão. E, de igual modo, o grito
desesperador do Calvário - “Deus meu, Deus, por que me desamparaste?” (Mt.
27:46) – continua a ser um memorial que profética e escatologicamente ecoa a
espera de justiça, de solidariedade, de amor, de acolhimento em favor de todos
aqueles anseiam pelo direito e pela oportunidade de continuarem vivendo.
Por isso na narrativa do evangelho, anteriormente citada, o próprio
Cristo faz questão de ressaltar que quem quiser encontrá-lo e servi-lo, que o
procure entre os desabrigados que vagueiam pelas ruas, entre os famintos, os
excluídos, nas selas frias das prisões que lentamente destroem o sentido da
existência, entre os abandonados pelos sistemas incapazes de oferecer
oportunidade de vida a todos, ou ainda, na face de uma criança que, à espera do
leite e do pão, insistentemente luta pelo sagrado direito de viver.
7
Professor de História e Teologia da Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina; mestre
em Teologia (FTSA); doutorando em História (UNESP); pastor presbiteriano.
Este capítulo tem como objetivos identificar os traços sociais da face
brasileira de Jesus; analisar a atitude de diferentes segmentos da sociedade frente
a tais necessidades; e destacar como a Visão Mundial tem conseguido, mediante
a missão integral, fazer diferença qualitativa na vida de milhares de pessoas no
contexto brasileiro.

1. Surgimento e Propósitos da Visão Mundial


Com a finalidade colocar em prática o ensinamento de Jesus,
anteriormente citado, foi fundada, em 1950, pelo jornalista Bob Pierce, a Visão
Mundial. Pierce, evangelista norte-americano, de 1947 a 1949, sob auspícios da
Mocidade Para Cristo, viajou para a China e Coréia, onde se deparou com o
sofrimento e o desespero humanos causados pela guerra. Chocado com a miséria
e o sofrimento, sobretudo de crianças, registrou tudo em um filme que foi exibido
nos Estados Unidos. Preocupados com a realidade a que foram expostos, muitos
começaram a contribuir financeiramente. Torna-se clara diante do volume das
contribuições, a necessidade de se fundar uma organização que pudesse
canalizá-las adequadamente. A Visão Mundial viria, assim, a constituir-se na maior
Organização Não Governamental cristã de apadrinhamento do mundo, estando
hoje presente em mais de 90 países.
Desde o seu momento inicial, a Visão Mundial tem adotado o seguinte
propósito:

Para a glória de Deus, unir pessoas em todos os


lugares, no sentido de assistir os mais carentes,
ajudando-os a atingir o potencial que Deus lhes
deu, dentro de sua própria cultura e dando-lhes
uma oportunidade válida de aceitar o evangelho de
Jesus Cristo. 8

Preocupada com o ingente desafio da evangelização no mundo, a


Visão Mundial participou ativamente do grande Congresso de Evangelização
Mundial, realizado em Lausanne, em 1974. As questões ali debatidas foram
aprofundadas na Consulta de Evangelização Mundial, realizada no período de 16

8
Boletim da Visão Mundial, ano I, n.7, set., 1981, p.2
a 27 de Junho de 1980, em Pattaya, Tailândia, do qual participaram mais de 800
cristãos, procedentes de diversas origens confessionais, nações e culturas.
Nestes congressos foram discutidos importantes aspectos teológicos e
metodológicos para a abordagem evangelizadora dos diferentes grupos humanos,
reafirmando-se a necessidade de cooperação para um trabalho mais efetivo com
implicações sociais.
Através do seu boletim oficial, com circulação mensal no Brasil, a
Visão Mundial procurou divulgar o Pacto de Lausanne: “ consideramos a
divulgação do Pacto de Lausanne um serviço relevante à igreja no Brasil”,
destacando o quinto item do Pacto que aponta para a responsabilidade social
cristã: “devemos participar da solicitude divina pela justiça e Reconciliação em
toda a sociedade humana, pela libertação do homem de toda forma de opressão.”
9

Procurando promover a justiça, o desenvolvimento transformador


sustentável e o socorro em situações de emergência, a Visão Mundial tem, assim,
como princípio de existência:

Seguir a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador,


trabalhando com os pobres e oprimidos para
promover a transformação humana, buscar a
justiça e testificar das boas novas do reino de
Deus. 1 0

E os valores que orientam a sua atuação são desta forma declarados:

(1) Somos cristãos; (2) estamos comprometidos


com os pobres; (3) valorizamos as pessoas; (4)
administramos com responsabilidade; (5) somos
parceiros; (6) Somos sensíveis. 11

No Brasil, a Visão Mundial se estabeleceu oficialmente em 22 de


agosto de 1975, trazendo na bagagem um ideal de transformação, tendo como
seu primeiro diretor o Rev. George Doepp, há nove anos missionário no Estado do

9
Idem.
10
http:// www. visaomundial.org.br (Acessado em 03 de agosto de 2003)
11
Idem.
Maranhão. Com escritório central instalado na cidade de Belo Horizonte, 12 a Visão
Mundial logo procurou identificar a face brasileira de Jesus para, então, passar a
servi-Lo, assumindo também uma postura profética:

Afirmamos que o evangelismo e o envolvimento


sócio-político são ambos expressões necessárias
das nossas doutrina acerca de Deus e do homem,
do nosso amor para com o próximo e da nossa
obediência a Jesus Cristo. A mensagem da
salvação implica também em uma mensagem de
juízo sobre toda forma de alienação, opressão,
discriminação, e não devemos ter medo de
denunciar o mal e a injustiça aonde quer que
prevaleçam. 1 3

Com o compromisso de promover a vida, esta organização direciona


seus investimentos em projetos sociais que enfatizam o desenvolvimento da
criança. Através de programas de saúde preventiva, com enfoque na prevenção,
na nutrição, educação infantil e acompanhamento escolar, a Visão Mundial busca
oferecer uma vida mais digna às crianças brasileiras. Também presta suporte
técnico, social, cultural, econômico-financeiro aos beneficiados, trazendo
esperança não somente às crianças empobrecidas, mas também às comunidades
onde vivem com as suas famílias.
A Visão Mundial mobiliza-se com outras organizações não
governamentais na defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Fomenta a
articulação das instituições com os movimentos sociais e grupos que atuam na
promoção da justiça e incentiva a participação em fóruns e conselhos municipais e
estaduais, inclusive para elaboração de políticas públicas. Incentiva também, as
comunidades a uma participação social responsável e solidária contribuindo,
assim, para a construção de uma consciência de cidadania e defesa dos direitos
da criança e do adolescente.
Como organização cristã, trabalha com os pobres e oprimidos para
promover a transformação humana, buscar a justiça e testemunhar as boas novas

12
A sede da Visão Mundial no Brasil está localizada na Rua Tupis, 38 - 20º andar, Centro - Belo
Horizonte -MG.
13
Boletim da Visão Mundial, ibid.
do reino de Deus. Entende o desenvolvimento transformador sustentável como o
desenvolvimento em que se pode conciliar o crescimento econômico, saúde,
educação e a espiritualidade plena, visando o crescimento integral das pessoas e
comunidades, à luz dos valores do reino de Deus.
2 . A Visão Mundial Enxerga a Face Brasileira de Jesus
Desde os seu momento de inserção no Brasil, a Visão Mundial dedicou
incansáveis esforços no sentido de mobiliza a igreja e a sociedade brasileira de
um modo gera para a promoção da vida em todas as suas dimensões. Para criar e
promover consciência da missão integral a ser desenvolvida, seguiu algumas
estratégias: (1) criou o Boletim da Visão Mundial, com tiragem mensal e
distribuição gratuita, trazendo através do mesmo artigos com fundamentação
bíblica e teológica sobre evangelismo e responsabilidade social, além de apontar
as grandes necessidades sociais do país, prestando relatórios de trabalhos em
desenvolvimento, além de apontar meios de contribuição; (2) participou da
publicação e divulgação de livros que estivessem com os propósitos de sua visão,
como por exemplo, a Série Lausanne, em pareceria com a ABU, com dez títulos,
tendo como o primeiro destes: “Tive Fome: um desafio a servir a Deus no Mundo”,
publicado em 1983; (3) a organização de congressos e simpósios, tematizando a
missão integral, buscando diretrizes para o evangelismo, o serviço e a ação social.
Neste sentido, vale ressaltar que deu grande destaque em seu boletim oficial, nas
edições de 1983, ao primeiro Congresso Brasileiro de Evangelização, como se
pode observar nos exemplos de manchete publicados na ocasião, transcritos, a
seguir:

Congresso Brasileiro de Evangelização - CBE.


Propósito: conclamar o povo evangélico, espalhado
nas mais diversas denominações e regiões do
Brasil, para a obra de evangelização. (...) O CBE –
1983 quer conclamar todas as igrejas evangélicas
a participarem, plena e intensamente desse
objetivo, colocando-se de mãos dadas, a serviço
do grandioso propósito da salvação da parte de
Deus. 1 4

14
Boletim da Visão Mundial, ano III, n.4, jun., 1983, p.1
O Boletim da Visão Mundial também apresentava os passos dados para a
realização daquele evento:

O CBE nasceu da reflexão e da oração de um


pequeno grupo de irmãos que se reuniu, com certa
regularidade na cidade de São Paulo. Um
documento, a partir de uma pesquisa elaborada
pela SEPAL, confirmava o desejo das bases da
igreja evangélica quanto à realização de um
congresso. O grupo de irmãos para desencadear
um empreendimento de tamanho vulto, convocou,
no dia 10 de setembro de 1981, um outro grupo de
líderes representativos do espectro mais amplo da
igreja evangélica brasileira, e decidiu três coisas:
(1) que se realize o Congresso Brasileiro de
Evangelização; (2) que à comissão iniciante
fossem acrescentados mais 10 pessoas, votado
pelo grupo presente; (3) que se trabalhasse no
espírito de Lausanne, cujo pacto se tornaria o
marco de referência teológica do CBE – 83. 1 5 .

Nota-se que o CBE-83 nasceu em um momento de dados sociais


alarmantes. Relatório de 1980 sobre o desenvolvimento mundial elaborado pelo
Banco Mundial, apontava que

800 milhões de pessoas estão presas à pobreza


absoluta (...) Uma condição de vida de tal modo
caracterizada pela desnutrição, analfabetismo,
doença, ambiente miserável, alta mortalidade
infantil e baixa perspectiva de vida, que está
abaixo de qualquer definição razoável de decência
humana. Há dois bilhões de pessoas mal
alimentadas e quase meio milhão, de fato,
morrendo à míngua, metade destas sendo crianças
abaixo de cinco anos de idade. 1 6

Diante deste quadro que o Brasil, infelizmente, ajudava a desenhar, a


Visão Mundial foi incisiva em somar forças: “Eis a razão porque, neste número,
17
fazemos explícito o nosso apoio ao CBE-83.”
Após a realização daquele evento, a Visão Mundial noticiou:
15
Ibid. p.6
16
Boletim da Visão Mundial, ano II, n.1, mar, 1982, p.3
17
Boletim da Visão Mundial, ano II, n.1, mar.,1982, p. 2
Para que o Brasil e o mundo ouçam a voz de Deus,
realizou-se em Belo Horizonte, de 31 de outubro a
5 de novembro o CBE, que reuniu 2009
participantes, membros de mais de 60
denominações, procedentes de todos os Estados
brasileiros, exceto Acre. A responsabilidade
social cristã também foi enfatizada como
essencial (...) quando aproximadamente 75% da
população brasileira vive em pobreza, e deste
total, cerca de 30% em miséria extrema. 1 8

Para cumprir, então, a sua vocação no Brasil, a Visão Mundial


estrategicamente concentra suas atividades em regiões específicas, buscando a
mobilização de toda a comunidade para a solução dos problemas. Trabalha com
projetos de longo prazo, que possibilitam o desenvolvimento auto-sustentável das
famílias assistidas. A partir da organização social, as comunidades são
incentivadas a encontrar alternativas transformadoras, até que consigam caminhar
com as próprias pernas.
Priorizando o trabalho com os mais pobres, esta instituição procurou
concentrar suas ações no Nordeste brasileiro, em Tocantins, no Norte de Minas
Gerais, no Amazonas e em grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de
Janeiro e Belo Horizonte. Atualmente, o trabalho desenvolvido alcança cerca de
2,5 milhões de brasileiros carentes. Atende a mais de 57.500 crianças e beneficia
indiretamente 3,7 milhões de pessoas. São também desenvolvidos e apoiados 76
projetos/programas sociais, que se concentram em regiões empobrecidas como o
Nordeste do Brasil, Norte de Minas Gerais, Amazonas, Tocantins e nos grandes
centros urbanos de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A Visão Mundial busca a mobilização de toda a comunidade para a solução


dos problemas. Há também um esforço de fazer com as empresas sejam
parceiras ao na transformação social e na busca do desenvolvimento sustentado.
Trabalha com projetos de longo prazo, que possibilitam o desenvolvimento auto-
sustentável das famílias assistidas. A partir da organização social, as comunidades
são incentivadas a encontrar alternativas transformadoras, até que consigam

18
Ibid., n.9, p.1 (grifo nosso)
caminhar com as próprias pernas. Mas é também realizado um trabalho que se
volta para as necessidades imediatas. Um exemplo disto é uma doação de
colchões feita neste ano e que veio a beneficiar de 2050 crianças:

09 de Junho de 2003 – Sai hoje de Belo Horizonte


em direção a cidade de São José da Tapera, no
sertão de Alagoas, três caminhões carregados com
2050 colchões. A doação é fruto de uma campanha
realizada pela ONG Visão Mundial entre seus
doadores a fim de atender crianças e famílias que
dormiam em condições precárias nas comunidades
em que vivem. Essas famílias fazem parte de
programas sociais realizados pela Organização,
recebendo apoio nas áreas de combate à
desnutrição, saúde e educação. Os colchões
doados receberam um reforço especial no tecido
usado para sua confecção, uma vez que muitas
dessas pessoas os utilizam diretamente no chão. 1 9

Outro exemplo está no Projeto Tapera Brasil, que hoje atende a 581
crianças e suas famílias. Neste, é desenvolvido um programa de reforma e
construção das moradias, com o objetivo de diminuir a quantidade de insetos nas
casas, uma vez que muitas das casas são feitas de taipa, propícia a proliferação
de barbeiros, insetos transmissores da Doença de Chagas.
Para agir nas situações em que a vida pede socorro, a Visão Mundial
criou os projetos emergenciais. Quando busca a reabilitação de pessoas em
situações de calamidade, a Visão Mundial também apresenta soluções
duradouras para os problemas. Foi o que aconteceu no Programa SOS Seca, que
ajudou centenas de famílias no interior do Estado de Alagoas. Além de distribuir
cestas básicas para resolver imediatamente o problema da fome, a Visão Mundial
construiu reservatórios que garantem o abastecimento de água para as famílias e
criou o banco de sementes. Atuando em todas as circunstâncias em que a vida
está ameaçada, a Visão Mundial alia-se a outras ONGs para fazer valer o Estatuto
da Criança e do Adolescente. Uma das maiores preocupações é o combate à
exploração e abuso sexual de crianças, e ao turismo sexual.

19
http:// www. visaomundial.org.br (Acessado em 03 de agosto de 2003)
Os Programas de Desenvolvimento de Área (PDAs) são instrumentos para
a promoção de um tipo de desenvolvimento comunitário integrado. Os projetos
sociais apoiados devem ter suas ações orientadas por um planejamento
estratégico, proporcionando mudanças sociais mais eficientes e efetivas. O
planejamento estratégico prevê a análise do contexto, a elaboração do
diagnóstico, o estudo da viabilidade e dos riscos, definição de objetivos e metas,
procedimentos de monitoramento e critérios de avaliação. Aliada aos aspectos
técnicos, a participação dos beneficiários no planejamento, na execução e na
gestão dos projetos sociais é um dos fatores mais relevantes para o seu sucesso.
Destacam-se os seguintes programas, de diferentes áreas, apoiados pela
Visão Mundial.
Saúde: Cuida para que as mães recebam atenção especial durante a
gestação, parto e amamentação. São desenvolvidos programas de atenção
primária à saúde infanto-juvenil, incluindo o aleitamento materno, a imunização, o
controle nutricional, o acesso a água limpa e o saneamento básico.

Educação: Viabiliza o ingresso da criança com menos de seis anos à


pré-escola, facilita o acesso da criança em idade escolar à escola pública, assim
como a permanência e o progresso nos estudos. Apóia a organização de oficinas
culturais, de recreação e a capacitação profissional para adolescentes.

Desenvolvimento Comunitário: Incorpora em seu trabalho conceitos


de integração de recursos, mobilização, organização e formação de lideranças
locais, de forma que as pessoas e associações estejam aptas a enfrentar, de
forma pró-ativa, os problemas sociais.

Desenvolvimento Econômico: Disponibiliza linhas de microcrédito


urbano e rural, investe na formação profissional de trabalhadores e provê
assistência técnica para produção, gerência e comércio de produtos.

Direitos Humanos: Participa e promove o envolvimento de grupos em


fóruns internacionais, nacionais, estaduais e municipais. No Brasil, atua junto a
órgãos governamentais e não-governamentais, intervindo em políticas públicas,
através dos conselhos de direitos. O foco de atuação é a criança e o adolescente
em seu contexto. Desenvolve, juntamente com outras OGs e ONGs, a Campanha
de Combate à Violência Doméstica e Exploração Sexual Contra Crianças e
Adolescentes de Minas Gerais, o Pacto São Paulo e os Fóruns Permanentes de
Enfrentamento no Rio de Janeiro e Espírito Santo. Essas ações visam a estimular
as denúncias, formando e articulando, junto às instituições parceiras, profissionais
aptos a intervirem, de forma eficaz, no combate ao problema. As ações visam
também a estimular a formulação de políticas públicas nos municípios nos quais
atuam.

Agroecologia: Apóia o desenvolvimento de tecnologias produtivas


apropriadas às pequenas propriedades, o que inclui a preservação do ambiente, o
cultivo de safras e animais, o comércio solidário e a capacitação de agricultores.
Também cria programas de apoio a pequenos produtores e empreendedores,
lutando pela concessão de micro-crédito rural e urbano, orientação técnica,
projetos de irrigação e manejo da agricultura com preservação do meio ambiente,
comercialização e abertura de mercados no Brasil e no exterior.
Emergência e Reabilitação: Luta, ao lado de outras organizações,
para amenizar o sofrimento de pessoas vítimas de desastres naturais, reduzindo o
risco de novas ocorrências. Atuando em todas as circunstâncias em que a vida
estiver ameaçada. Um exemplo disto ocorreu na década de 1980, quando a Visão
mundial direcionou recorrentes esforços para a situação avassaladora da seca no
Nordeste do Brasil:

A Visão Mundial apoiou 10 projetos de emergência


desenvolvidos por igrejas e instituições cristãs,
nas regiões mais necessitadas do Nordeste. Cerca
de 6.000 pessoas foram diretamente beneficiadas.
As atividades desenvolvidas incluem: programa de
nutrição (distribuição de cestas de alimentos às
famílias e merenda às crianças); atividades que
contribuam para o aumento da renda familiar;
desenvolvimento de obras que se revertam em
benefício à comunidade, tais como projetos de
irrigação, hortas comunitárias, distribuição de
sementes, construção de cisternas, poços para
armazenamento de água; criação de projetos que
dêem à comunidade condições de responder às
suas próprias necessidades. 2 0

Combate à Violência, Abuso e Exploração Sexual Contra a


Criança e o Adolescente: Referendada pelos Conselhos Estaduais dos Direitos
da Criança e do Adolescente da Região Sudeste, a Visão Mundial trabalha no
processo de dar visibilidade à realidade de violência e exploração sexual contra
crianças e adolescentes. As atividades de combate à violência, abuso e
exploração sexual contra a infância, iniciadas em abril de 2000, no Estado de
Minas Gerais, Região Sudeste do Brasil, como ação de uma rede articulada de
instituições governamentais e não governamentais consolidaram esta temática. Na
fase inicial, a Campanha preocupou-se em chamar a atenção para o fenômeno,
colocando a discussão na sociedade, bem como agregou importantes parceiros,
mobilizando propostas para o enfrentamento de todas as formas de agressão
contra crianças. Nossa intervenção contribuiu sobremaneira para uma construção
coletiva, através da criação/fortalecimento de redes de conscientização social.

Recursos utilizados para a divulgação: Ligadas à organização da


sociedade pela garantia dos direitos, pesquisas são elaboradas e realizadas por
universidades. A temática da violência contra a infância ganha os meios de
comunicação e estimuladas organizações de auto-ajuda aos agressores para
reversão dessa postura. Surgem Frentes, Fóruns, Observatórios de Defesa dos
Diretos, resultando, entre outras coisas, no fortalecimento dos Conselhos
Municipais e Tutelares. Além do que, têm sido fortalecidas iniciativas regionais
para a construção de estratégias, cada vez mais eficazes, conscientizando e
mobilizando a população à eliminar as agressões.

A Visão Mundial também desenvolve reflexões sobre temas ligados à


espiritualidade e missão integral com as equipes funcionais. As instituições
parceiras são incentivadas ao desenvolvimento de ações de educação cristã

20
Boletim da Visão Mundial, ano IV, n.2, abril, 1984, p.3
infanto-juvenil, oficinas de reflexão bíblica e articulação com igrejas e pastorais
populares. Estes são alguns exemplos da atuação transformadora da Visão
Mundial para incentivar o desenvolvimento auto-sustentável.
Há ainda um trabalho que busca ativamente conscientizar e mobilizar os
internautas em relação às ações de desenvolvimento social. Mediante um
programa denominado Comunidade Fazendo a Diferença, composto por Sites que
disponibilizam Banners da Visão Mundial, muitas pessoas poderão fazer a
diferença na vida de crianças e famílias das regiões empobrecidas do nosso país.
Agindo como multiplicadores podemos garantir um futuro melhor para n Nação. A
Visão Mundial como uma organização que está, assim, sintonizada com o seu
tempo, vê o uso da internet como ferramenta necessária para atingir suas metas e
ajudar a construir um mundo mais digno e justo.

Anualmente, a Visão Mundial prestar contas a toda sociedade dos recursos


que lhe são confiados. Mesmo que um relatório – por mais que queira – não
consiga captar e traduzir a verdadeira importância do trabalho desenvolvido, é
possível se obter, a partir do mesmo, alguma estimativa das ações solidárias que
têm impactado a vida de milhares de crianças e suas famílias. A prestação de
relatórios é também uma maneira de se dirigir aos colaboradores, funcionários,
voluntários, doadores, comunidades, enfim, a todos que de forma abnegada
confiam a ela os seus recursos.

Não obstante a conjuntura sempre difícil para os que vivem em condição de


pobreza – o que é agravado ainda mais pelo número cada vez mais crescente
dos que se encontram em tal situação – os programas desenvolvidos pela Visão
Mundial vão criando mais possibilidades e esperanças no enfrentamento da
miséria. Alguns desses programas são inovadores e por si mesmos não são
capazes de transformar toda a realidade, mas o são à medida que são referências
e incorporados nas políticas públicas.

Enfim, a rede de solidariedade que integra a Visão Mundial é cada vez mais
extensa: em uma ponta, doadores, gente sensível e comprometida com um mundo
melhor para todos; em outra ponta as milhares de crianças, famílias e
comunidades. Dessa maneira se criam a esperança e a possibilidade de vida.

Conclusão

Inegavelmente, a Visão Mundial, nestas três décadas de existência no


Brasil, tornou significativamente marcante a presença cristã no país, não apenas
ajudando a criar uma consciência quanto à missão integral, mas principalmente
transformando em realidade os princípios de vida, de justiça e de solidariedade
postulados pelo reino de Deus estabelecido por Jesus Cristo. Tal reconhecimento
tem vindo de diferentes segmentos e instituições da sociedade. Exemplo disto é o
fato de ter ganhado o Prêmio Bem Eficiente 2002, que é concedido às
organizações sociais de destaque em ações sociais no país. Foi também lhe
dedicado o Prêmio de Excelência em Serviços de Desenvolvimento Empresarial
2002, concedido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por seu
programa de Comércio Solidário. O Prêmio é um reconhecimento às entidades
que agem com transparência e eficiência, como a Visão Mundial. Vidas que
transformam vidas. É acreditando nisso que a Visão Mundial mantém o seu
trabalho.
Finalizando, é preciso que permanentemente se retome a indagação
feita pelo próprio Cristo, “e vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt.16), e também o
imperativo, “segue-me.” (Mc.) Estas duas questões são das mais inquietantes e
decisivas para aquele que se propõe a ser cristão. Afinal, da resposta dada à
primeira, dependerá a atitude, o comportamento e vivência da fé por parte
daqueles que desejam segui-lo. Diante disto, é preciso perguntar com que face de
Cristo a igreja tem se identificado no contexto brasileiro atual. As palavras de John
Stott são desafiadoras, neste aspecto:

O Cristo que alguns seguem inspira amor, mas não


justiça; oferece alívio, mas não desafios. Outros
estão muito dispostos a cumprir a ordem para
evangelizar, mas não ouvem o chamado a ocupar-
se dos pobres, dos enfermos, dos famintos e dos
desesperados. 2 1

Em síntese, a partir de exemplos de missão integral praticada pelo


trabalho da Visão Mundial no Brasil, o que se espera é que haja mais
despertamento e motivação mobilizadora por parte da igreja brasileira no sentido
de fazer com que este trabalho prossiga em proporções ainda maiores - uma vez
que imensos ainda são os desafios trazidos pelo alvorecer deste novo milênio -,
até que haja a vitória definitiva da vida em todas as suas dimensões.

A Aliança Bíblica Universitária e a missão integral no Brasil


Alfredo dos Santos Oliva22

Introdução

21
STOTT, Jonh. “A compaixão de Jesus”. In: Tive Fome: um desafio a servir a Deus no mundo.
Belo Horizonte: Visão Mundial; São Paulo: ABU, 1989, p. 21.
22
Historiador, professor da Faculdade Teológica Sul Americana, e-mail alfredo@ftsa.edu.br.
Todo discurso (conceito teológico elaborado e pronunciado espontânea ou
formalmente) está atrelado a uma série de práticas (concretizadas através de
instituições ou ações espontâneas de pessoas). A missão integral não foge a este
princípio. Embora seja um conceito que ainda não recebeu o devido tratamento
sistemático, há bastante tempo circula em solo brasileiro através de pessoas,
movimentos e instituições. Um desses movimentos é a Aliança Bíblica
Universitária do Brasil (ABUB). Desta agremiação de estudantes e profissionais e
de sua relação com o conceito de missão integral no Brasil é que este capítulo se
ocupa.
A trajetória para levar adiante o propósito acima colocado começa por uma
busca da identidade teológica e institucional da ABUB. Procuro responder a
questões como: Que é a ABUB? Como está estruturada institucionalmente? Quais
os seus objetivos? Que concepções teológicas endossa e procura difundir? Que
sociabilidades procura construir?
No segundo ítem deste capítulo passo a me ocupar especificamente da
concepção de missão integral da ABUB. Começo conceituando missão integral, de
uma forma geral, para depois colocar o foco sobre como esta elabora,
compreende ou difunde o conceito em seu meio.
O terceiro passo será analisar as estratégias que a ABUB utilizou ou tem
utilizado para difundir sua concepção de missão integral. Alguns veículos de
comunicação e socialização de idéias serão analisados, como sua Editora, a
organização de congressos e treinamentos e seu site na rede mundial de
computadores.

1- A identidade da Aliança Bíblica Universitária do Brasil


A ABUB é “essencialmente um movimento missionário,
interdenominacional, eclesiástico e confessional, liderado pelos seus próprios
participantes”. Os estudantes (do ensino médio e universitários) bem como os
profissionais se “organizam em grupos por cidades, filiando-se assim ao
movimento nacional da ABUB, respectivamente em seus grupos de ABS (Aliança
Bíblica Secundarista), ABU (Aliança Bíblica Universitária) e ABP (Aliança Bíblica
de Profissionais)”.23
Além disso, a ABUB está ligada a um movimento internacional de
estudantes evangélicos. Esta afiliação é reconhecida pela liderança da
agremiação estudantil e profissional brasileira como um dos elementos
fundamentais de constituição de sua identidade teológica: “Há um conjunto de
bases de fé que compõem o núcleo da identidade evangélica dos participantes.
Essas bases de fé são conforme as da Comunidade Internacional de Estudantes
Evangélicos (CIEE), da qual a ABUB faz parte como membro filiado”. 24
A identidade teológica do movimento parece estar em perfeita sintonia
com o que se poderia denominar de evangélico no Brasil ou evangelical na
Europa. Esta forma de auto-identificação doutrinária pode ser evidenciada pela
afirmação de dogmas bastante tradicionais neste meio por parte da ABUB em sua
base de fé, como autoridade das Escrituras, Jesus Cristo como único mediador
entre o ser humano e Deus, bem como sua ressurreição e segunda vinda. A ABUB
professa acreditar nos seguintes aspectos:
a) A existência de um só Deus Pai, Filho e Espírito Santo, um
em essência e trino em pessoas; b) A soberania de Deus na
criação, revelação, redenção e juízo final; c) A inspiração
divina, veracidade e integridade da bíblia, tal como foi
revelado originalmente e sua suprema autoridade em
assuntos de fé e conduta; d) A pecaminosidade universal e a
culpabilidade de todos os homens, desde a queda de Adão,
pondo-nos sob a ira da condenação de Deus; e) A redenção
da culpabilidade, pena, domínio e corrupção do pecado,
somente por meio da morte expiatória do Senhor Jesus
Cristo o filho encarnado de Deus, nosso representante
substituto;
f) A ressurreição corporal do Senhor Jesus Cristo e sua
ascensão à direita de Deus Pai; g) Missão pessoal do
Espírito Santo para o arrependimento, a regeneração e a
santificação dos crentes; h) A justificação do pecado somente
pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo; i) A
intervenção de Jesus Cristo como único intercessor entre
Deus e os homens; j) A única igreja santa e universal, que é o
corpo de Cristo, à qual todos os crentes verdadeiros

23
ESTRUTURA organizacional da ABUB. http://www.abub.org.br.
24
Ibid.
pertencem e que, na terra, se manifesta nas congregações
locais; k) A segurança da segunda vinda de cristo em corpo
glorificado e a consumação de seu reino nesta manifestação;
l) A ressurreição dos mortos, a vida eterna dos salvos e a
condenação eterna dos injustos.25

Para levar adiante sua missão, desde uma perspectiva evangélica, a


ABUB se estrutura a partir de grupos dirigidos por estudantes e profissionais
espalhados por todo território nacional. Principalmente os estudantes são
assessorados por ex-abeuenses e profissionais remunerados:
Atualmente a ABUB possui grupos em todos os Estados
brasileiros, atingindo mais de 100 cidades. Como forma de
suporte ao universitário, contamos com uma estrutura de
assessoria aos Grupos. Os assessores geralmente são
profissionais ex-abeuenses, pastores ou seminaristas, que
dedicam alguns anos da sua vida à obra, ajudando no
treinamento local e no discipulado de líderes. A ABUB possui
10 assessores remunerados, muitos em parceria com igrejas
locais, e mais de 150 assessores auxiliares que oferecem
trabalho voluntário.26

Para organizar seu trabalho a liderança da ABUB dividiu o país em seis


regiões:

[1] ABU Região Norte: Acre; Amapá; Amazonas; Maranhão;


Pará; Rondônia; Roraima; [2] ABU Região Nordeste: Alagoas;
Bahia; Ceará; Paraíba; Pernambuco; Piauí; Rio Grande do
Norte; Sergipe
[3] ABU Região Centro-Oeste: Distrito Federal, Goiás, Mato
Grosso, Minas Gerais, Tocantins; [4] ABU Região Leste:
Espírito Santo e Rio de Janeiro; [5] ABU Região São Paulo:
Mato Grosso do Sul e São Paulo; [6] ABU Região Sul:
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.27

A filosofia de trabalho da ABUB se baseia em dois princípios, um de


caráter doutrinário e outro estrutural/prático. O movimento de estudantes e
profissionais se baseia teologicamente na centralidade da pessoa de Jesus Cristo
25
BASE de fé da ABUB. http://www.abub.org.br.
26
ESTRUTURA organizacional da ABUB. http://www.abub.org.br.
27
Ibid.
e estrategicamente na ação evangelizadora de estudantes pelos próprios
estudantes.

A ABUB é um movimento que tem filosofia


CRISTOCÊNTRICA e ESTUDANTECÊNTRICA. Já que a
filosofia da ABUB é baseada no estudante, logo os objetivos
só poderão ser cumpridos se houver iniciativa e
responsabilidade do estudante. O estudante
secundarista/universitário é o melhor evangelista, pois está
no meio estudantil e entende melhor os problemas e a
linguagem. A iniciativa estudantil evita o paternalismo do
obreiro ou assessor auxiliar. Sem a responsabilidade
estudantil o trabalho da ABUB é impossível.
Responsabilidade que é conseqüência de uma vida cristã
autêntica e de amor pela obra e que envolve: assiduidade;
vida prática; amor pela obra; e doação financeira. 28

2- A concepção da Aliança Bíblica Universitária do Brasil de missão


integral
Antes mesmo de analisar o adjetivo integral, que busca caracterizar um
certo modo de fazer missão, é preciso conceituar o que entendo por este
substantivo. Vou tomar como a base a definição de David Bosch para quem a
palavra missão deve ser compreendida de forma distinta de seu plural, missões:
Temos de distinguir entre missão (no singular) e missões (no
plural). O primeiro conceito designa primordialmente a missio
Dei (missão de Deus), isto é, a auto-revelação de Deus como
Aquele que ama o mundo, o envolvimento de Deus no e com
o mundo, a natureza e atividade de Deus, que compreende
tanto a igreja quanto o mundo, e das quais a igreja tem o
privilégio de participar. Missio Dei enuncia a boa nova de que
Deus é um Deus-para as/pelas-pessoas. Missões (as
missiones eclesiae, os empreendimentos missionários da
igreja) designa formas particulares, relacionadas com
tempos, lugares ou necessidades específicos, de
participação na missio Dei.29

O fato de Deus ter enviado seu Filho Amado ao mundo por amor e
solidariedade para com o gênero humano (missão de Deus), exige uma resposta

28
FILOSOFIA da ABUB. http://www.abub.org.br.
29
David BOSCH, Missão transformadora: mudanças no paradigma na teologia da missão, p. 28.
de sua igreja de também agir com o mesmo amor e solidariedade para com a
humanidade. Estas ações da igreja precisam ser adequadas ao tempo e ao
espaço que tem ocupado no mundo contemporâneo, o que significa que ela deve
se preocupar em contextualizar cultural e socialmente suas formas de ação
(missões).
Concebida da forma como foi exposta acima, missão é um modo de ação
que possui duas dimensões, uma de caráter positivo e outra de cunho negativo. A
realização da missão implica em um sim de Deus ao mundo, expresso através sua
de solidariedade para com o sofrimento e a desesperança humanos, bem como
um não de Deus, expresso de forma conflitiva com os valores e as ações do
mundo que são contrários ao seu reinado. 30 O que significa que a igreja deve agir
para difundir o reinado de Deus sobre o gênero humano anunciando e vivenciando
amor e solidariedade, como deve também exercer seu papel profético e denunciar
todas as formas de opressão e injustiça que ofuscam o brilho da vida, humana e
não-humana.
Uma vez que a missão da igreja desemboca sempre em um processo de
contextualização de sua forma de ação no mundo, acho que seria bastante útil
qualificar esta missão a partir do adjetivo usado, sobretudo, por missiólogos
evangélicos latino-americanos. Para lembrar as igrejas que a sua missão não
deve optar por um dos pólos opostos, salvação pessoal/espiritual ou libertação
social/econômica, os missiólogos latino-americanos têm usado o qualificativo
integral para a missão. Vou procurar detalhar um pouco mais a expressão missão
integral a seguir.
A expressão missão integral é utilizada sempre de modo a propor a
superação de dualismos. René Padilla, em artigo clássico sobre o assunto de
título homônimo, utiliza os termos para se referir à superação da dualidade
crescimento quantitativo versus crescimento qualitativo:
É possível usar as estatísticas de crescimento das igrejas
para pintar um quadro luminoso da igreja nos últimos anos.
Isto é, com efeito, o que se tem feito em círculos onde o
crescimento quantitativo da igreja é considerado como “a
tarefa principal” da missão. O quadro será mais sóbrio se
30
Ibid., p. 28-29.
juntamente com os avanços numéricos forem colocados os
problemas que afetam a igreja e que colocam em dúvida o
futuro do cristianismo em certas regiões do mundo. Nesta
perspectiva, o maior desafio que a igreja enfrenta é o desafio
de uma missão integral.31

O mesmo autor utiliza a expressão com o intuito de superar o dualismo


necessidades espirituais versus necessidades materiais. A cidade contemporânea
é o símbolo de uma desumanização que afeta a vida humana como um todo, logo
as ações da igreja devem estar voltadas para a revigoração destas vidas na sua
integralidade:
A missão urbana, portanto, é uma prioridade em todas as
partes. Lá, na cidade, com todo seu poder desumanizante,
vê-se a necessidade de um evangelho com poder para
transformar a totalidade da vida. Num mundo que que está
se urbanizando rapidamente, a cidade é, sem dúvida, o
símbolo do desafio que a evangelização e o discipulado
colocam para a igreja.32

A missão integral da igreja tem como horizonte de sua ação o Reino de


Deus. O Reino ainda não se encontra em sua plenitude no mundo
contemporâneo, mas isto não é motivo para se negar que seus sinais não estejam
já entre nós. Os sinais do Reino foram semeados por Nosso Senhor Jesus Cristo,
encontrando n'Ele sua expressão privilegiada, mas não se esgotando em suas
ações. A missão integral da igreja deve ser concretizada tendo Jesus como
modelo de manifestação dos valores do Reino e com vistas à superação do
dualismo pregação conversionista versus serviço social amoroso:

Já que o Reino foi inaugurado por Jesus, não é possível


entender corretamente a missão da igreja independente da
presença do Reino. A missão da igreja é uma extensão da
missão de Jesus. É a manifestação, ainda que não
completa, do Reino de Deus tanto por meio da proclamação
como por meio da ação e do serviço social. (...) Como
comunidade do reino, a igreja confessa e proclama ao
Senhor Jesus Cristo. Ela também realiza boas obras que
Deus preparou de antemão para que as faça, para o que

31
Rene PADILLA, Missão integral: ensaios sobre o reino e a igreja, p. 139.
32
Ibid., p. 142.
Deus a criou em Jesus Cristo (...) As boas obras, portanto,
não são um mero apêndice da missão, mas uma parte
integral da manifestação presente do Reino: elas apontam
para o Reino que já veio e para o Reino que está porvir.33

A ação integral da igreja também se fundamenta em uma concepção


antropológica. Uma vez que se considere o ser humano como uma totalidade
inseparável que possui dimensões diferentes, a igreja deve ser um meio pelo qual
o amor de Deus é expresso a este todo. Mais um dualismo é, desta forma,
desarticulado, agora o que vê o corpo como realidade distinta de alma e/ou
espírito:
Um ministério integral verdadeiro define a evangelização e a
ação social como funcionalmente separadas, mas
relacionalmente inseparáveis e necessárias para um
ministério integral da igreja. (...) A idéia de ministério integral
tem raízes bíblicas profundas. Tanto no Antigo como no Novo
Testamento a Bíblia ordena à igreja que ministre à pessoa
como um todo. Isto quer dizer que se deve atender tanto às
necessidades físicas como às espirituais, que estão
inseparavelmente relacionadas, ainda que sejam separadas
em termos funcionais.34

O conceito de missão integral da ABUB aparece de forma sutil já na


descrição de seus objetivos, que são quatro: “A) Evangelização de estudantes; B)
Maturidade do homem integral em Cristo; C) Missão e serviço e D) Assistência”. 35
Três destes objetivos, quando se observa a explicação que a liderança do
movimento dá ao seu conteúdo, evidenciam um compromisso com o que se pode
compreeender por missão integral acima analisado. A “maturidade do homem
integral em Cristo” implica em:
Desenvolvimento Pessoal - A ABUB tem por filosofia o
discipulado um a um como Cristo fez. A VIDA PESSOAL
(Intelectual, Espiritual, Psicológica, Física) é importante.
Desenvolvimento Comunitário - O cristão maduro tem que
influenciar o meio. A ABUB forja cristãos que sejam influentes
no meio em que vivem e não alienados.36

33
Ibid., p. 202-203.
34
Tetsunao YAMAMORI, Servindo com os pobres na América Latina: modelos de ministério
integral, p. 14-15.
35
FILOSOFIA da ABUB. http://www.abub.org.br.
36
Ibid.
O objetivo de cumprir sua “missão e serviço” implica em uma atitude
profética, a de confronto da igreja com as estruturas sociais que estejam
ofuscando a vida humana:

A ABUB tem por objetivo a MISSÃO a partir do estudante,


começando no seu âmbito estudantil até os confins do
mundo. A ABUB tem por objetivo o serviço na Igreja e no
mundo. Ser sal e luz e um verdadeiro profeta na situação
atual. A ABUB tem por objetivo incentivar os estudantes a
descobrirem sua função na sociedade e na igreja. E que
tenham uma verdadeira ética cristã.37

O seu objetivo de prestar “assistência” não tem como objeto apenas o


estudante secundarista ou universitário nas suas dificuldade e conflitos, mas
também à “comunidade - Através de projetos de assistência as comunidades, com
serviços úteis. O amor de Deus deve ser demonstrado aos homens através da
prática e discurso”.38

A ABUB procura manter a coerência entre a teoria (aquilo que crê e


professa formalmente) e a prática (vivência destes valores professados)
transcendendo a mera atividade de evangelizar ou assistir ao estudante em suas
necessidades. A instituição estudantil procura estimular os estudantes a se
comprometerem com a totalidade da missão, o que envolve cuidar de questões
espirituais tanto quanto de questões materiais, através de próprio exemplo.

A Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) é um


movimento missionário interdenominacional sem fins
lucrativos de estudantes evangélicos que, por intermédio de
núcleos de estudo bíblico, literatura e encontros de
treinamento, promove a evangelização e a edificação de
secundaristas, universitários e profissionais. Desenvolvemos
esse trabalho em mais de 100 cidades em todos os Estados
de nosso País, como também o Projeto Missionário Castelão
em Fortaleza (CE), que oferece educação básica gratuita
para mais de 500 crianças carentes.39

37
Ibid.
38
Ibid.
39
QUEM Somos. http://www.abub.org.br.
3- A Aliança Bíblica Universitária do Brasil e a difusão da concepção de
missão integral

Através de seus Congressos, publicações, cursos e treinamentos; bem


como através da participação de seus membros em eventos missionários, a ABUB
tem contribuído significativamente para a difusão da concepção de missão integral
no Brasil. Dois de seus congressos são fundamentais sob esta ótica, o que
tematizou “Jesus Cristo: Senhorio, Propósito e Missão” e o que tematizou a
“Igreja: Comunidade Missionária”. Além da conscientização da missão integral dos
seus participantes, esses Congressos tiveram suas idéias difundidas através de
livros homônimos publicados pela ABUB, ambos já esgotados, e que ajudaram a
moldar a idéia de missão de muitas lideranças evangélicas. Se olharmos para a
linha editoral da ABU Editora poderemos perceber o alcance de sua contribuição
para a difusão da idéia de missão integral:
“Vida Cristã - Livros para discipulado, liderança cristã,
aconselhamento e edificação, segundo uma perspectiva
bíblica equilibrada. Materiais para Evangelização - Folhetos e
livretos ótimos para serem usados na evangelização de
pessoas questionadoras. Ideal para estudantes e jovens.
Igreja e Sociedade Atual - Temas relevantes à igreja que
aceitar o desfio de ser bíblica, contextualizada e relevante
para o mundo hoje. Doutrina e Bíblia - Livros importantes
para aqueles que buscam o sadio entendimento das
doutrinas da Bíblia através de enfoques honestos e atuais.
Série: A Bíblia Fala Hoje - A série procura levar a sério o texto
bíblico, aplicando-o sempre ao mundo moderno.
Recomendado pelos seminários. Evangelização e
Apologética - Obras de referência indispensáveis para a
defesa da fé, evangelização e compreensão da realidade
segundo as Escrituras. Estudo Bíblico Indutivo - Obras de
referência para liderar e criar um grupo de estudo ou para
preparar e dirigir um estudo bíblico.” 40

A Editora da ABUB tem se notabilizado pela amplitude dos temas


publicados, que abrangem a quase totalidade das preocupações da missão
integral. Pode-se perceber a importância do estudo da Bíblia, tanto em ótica
40
http://www.abub.org.br/editora/livros.htm
exegética quanto em teológica, presente em duas áreas de publicação: a de
“doutrina e Bíblia” e a série de comentários bíblicos expositivos “A Bíblia Fala
Hoje”. Juntamente com a ênfase no estudo bíblico-teológico, há forte ênfase em
material para evangelização em geral e de universitários em particular,
especialmente através do estudo bíblico indutivo, marca registrada da estratégia
evangelizadora dos abeuenses. Quem faz a missão integral precisa de uma
espiritualidade integral. A linha de escritos sobre a “Vida Cristã” tematiza a
espiritualidade necessária para a ação missionária no mundo atual, obviamente
concentrando seus esforços em ajudar a juventude cristã a ser espiritual em meio
aos desafios da vida universitária e profissional.
Duas outras linhas complementam a visão da integralidade: “Igreja e
Sociedade Atual”, na medida em que discernir o tempo presente é fundamental
para se realizar a missão integral; e a série “Evangelização e Apologética”, que
destaca a importância que a ABUB, como o movimento estudantil internacional, dá
ao debate sobre a validade da fé cristã no ambiente intelectual contemporâneo. É
aqui, a meu ver, que se encontra a maior contribuição peculiar da ABUB à
concepção de missão integral e sua difusão no Brasil: fazer missão exige que
sejamos capazes de responder aos desafios que o mundo intelectual apresenta à
Igreja Evangélica. É parte integrante da missão “responder qual é a razão da
nossa esperança”, e a ABUB se esmera em preparar a juventude evangélica para
fazê-lo.
É, por outro lado, praticamente impossível relatoriar a importância da
ABUB na difusão da concepção de missão integral através da consciência
missionária integral de seus participantes e, através deles, a influência que, qual
fermento, permeia as Igrejas Evangélicas. Mas este é um dado que deve ser
ressaltado: através do ministério e da influência de cada abeuense e ex-abeunse,
a concepção de missão integral foi se espalhando pelo território nacional e por
entre as várias denominações evangélicas. Testemunhas do evangelho,
abeuenses também têm sido testemunhas da missão integral para a Igreja no
Brasil.
Bibliografia
ALIANÇA Bíblica Universitária do Brasil. http://www.abub.org.br.
BAUMAN, Z. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
BITTENCOURT, J. “Do protestantismo sincrético: um ensaio teológico-pastoral
sobre o pentecostalismo brasileiro”. In: BEOZZO, J. O. (Org.). Curso de verão ano
VII. São Paulo: Paulus, 1993.
BOSCH, D. Missão transformadora: mudanças no paradigma na teologia da
missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002.
DOMINGUES, J. M. Sociologia e modernidade. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1999.
LEMERT, C. Pós-modernismo não é que você pensa. São Paulo: Loyola, 2000.
LYON, D. Pós-modernidade. São Paulo: Paulus, 1998.
PADILLA, R. Missão integral: ensaios sobre o reino e a igreja. São Paulo: FTL,
1992.
____. (Org.). La iglesia local como agente de transformación: una eclesiología
para la misón integral. Buenos Aires: Kairós, 2003.
QUIROZ, P. A. et ali. El trino Dios y la misión integral. Buenos Aires: Kairós, 2003.
STEUERNAGEL, V. R. (Org.). A missão da igreja: uma visão panorâmica sobre os
desafios e propostas para a igreja na antevéspera do terceiro milênio. Belo
Horizonte: Missão, 1994.
YAMAMORI, T. et ali. Servindo com os pobres na América Latina: modelos de
ministério integral. Londrina: Descoberta, 1998.
WARREN, R. Uma igreja com propósitos. São Paulo: Vida, 1997.
WILLARD, D. A conspiração divina: o verdadeiro sentido do discipulado cristão.
São Paulo: Mundo Cristão, 2001.

A Fraternidade Teológica Latino-Americana Brasil e a missão integral

Júlio Paulo Tavares Zabatiero41

A FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) é um movimento


dedicado à reflexão teológica a serviço da vida e missão do Povo de Deus.
41
Professor e diretor da Faculdade Teológica Sul Americana. Presidente da FTL-Brasil. Doutor em teologia
e pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
Iniciada em 1975, continua a exercer seu ministério em vários países da América
Latina e também na América do Norte. Em seu Estatuto, a FTL declara sua
identidade e missão:

1. Promover a reflexão em torno do Evangelho e seu


significado para o ser humano e a sociedade na América
Latina. Com esta finalidade estimula o desenvolvimento de
um pensamento evangélico atento aos desafios da vida no
continente latino-americano. Para tal reflexão se aceitar o
caráter normativo da Bíblia como a Palavra escrita de Deus,
ouvindo, sob a direção do Espírito Santo, a mensagem
bíblica em relação às ambigüidades da situação concreta.
2. Constituir uma plataforma de diálogo entre pensadores
que confessam a Jesus Cristo como Salvador e Senhor e
que estejam dispostos a refletir, à luz da Bíblia, a fim de
comunicar o Evangelho em meio às culturas latino-
americanas.
3. Contribuir à vida e missão das Igrejas Evangélicas no
Brasil e na América Latina, sem pretender falar em nome
delas e nem assumir a posição de seu porta-voz no Brasil.”

No âmbito continental, a FTL tem desempenhado um papel significativo no


crescimento da reflexão teológica e na prática da missão integral, e tendo se
tornado a principal promotora dos CLADEs (Congresso Latinoamericano de
Evangelização), encontros que têm sido os grandes responsáveis pelo avanço da
teologia e da prática da missão integral em nosso continente. No Brasil, a FTL-B
(como é chamado o Núcleo-Brasil da FTL Continental) tem desempenhado papel
similar, de forma mais modesta e mais semelhante ao fermento que leveda a
massa. A FTL-B deve ser vista como um movimento e não como uma instituição.
Com uma organização mínima, Diretoria e Núcleos Regionais, ela tem cumprido a
missão declarada em seus Estatutos sem propaganda e alarde. A partir dela, ou
lado a lado com ela, outros movimentos nasceram e se desenvolveram, como, por
exemplo, o MEP - Movimento Evangélico Progressista. Como movimento, a FTL-B
tem enfrentado, a partir da segunda metade dos anos noventa, as vicissitudes de
todo movimento: institucionalizar-se para permanecer; dissolver-se por não ser
mais uma resposta significativa para os novos desafios; ou renovar-se para
enfrentar a nova realidade. Ao que tudo indica, a terceira opção é a que está se
concretizando.
Enquanto um movimento a força da FTL-B se encontra no reunir pessoas
para refletir comprometidamente sobre a teologia e a missão. Pessoas que, por
sua vez, espalham a semente da missão integral e da teologia contextualizada
pelos terrenos férteis – e nem tão férteis assim – do solo evangélico nacional. Um
movimento, por sua própria natureza, não deixa grandes monumentos. Produz
pequenas trilhas, deixa rastros que só podem ser seguidos por um olhar
perscrutador. Ao olharmos para a produção teológica e missiológica da FTL-B
vislumbraremos os rumos do pensamento sobre a missão integral no Brasil nos
últimos vinte anos. Pensamento este que sempre acompanhou a prática da
missão, jamais sendo uma reflexão desencarnada, meramente acadêmica. A
teologia praticada nos círculos ligados à FTL-B é uma teologia nascida da vida e
da prática da missão e, por isso, refletir sobre a sua história tem papel importante
para nos tornarmos capazes de enxergar, hoje, os novos desafios da missão.
A breve história da FTL-B pode ser dividida em dois períodos principais.
No primeiro, que durou mais ou menos a primeira década de sua existência, a
FTL-B não conseguiu se consolidar como movimento significativo no meio
evangélico brasileiro. Vários fatores, internos e externos, contribuíram para que
isso acontecesse. Entretanto, nos seus primeiros anos de vida no Brasil, a FTL-B
começou a deitar raízes que foram germinar mais tarde do que se esperava. O
segundo período da FTL-B pode ser datado a partir de sua reorganização em
âmbito nacional, ocorrida ao final de 1983, a partir de um encontro realizado em
Campinas, no estado de São Paulo. Várias pessoas – principalmente das
denominações luterana, presbiterianas, metodistas e batistas – estavam se
encontrando em núcleos isolados entre si, continuando a busca de uma teologia
contextual, e, finalmente, se reuniram para canalizar melhor seus esforços. Uma
diretoria foi eleita, o Boletim Teológico começou a ser publicado, consultas
nacionais começaram a ser realizadas, e núcleos regionais se organizaram a
fortaleceram a partir dessa data. Um sinal da providência divina: dentre essas
pessoas, quase todas ligadas, de uma forma ou de outra, à ABU e à VMB .
Movimento sem recursos financeiros em um país de proporções
continentais como o Brasil, a FTL-B atuou de forma quase que silenciosa, tendo
suas reflexões se difundido “boca-a-boca” através de seus membros, consultas
nacionais (que reuniam de 30 a 60 pessoas!) e o Boletim Teológico que, no auge
de sua publicação, distribuía cerca de seiscentos exemplares. O primeiro grande
compromisso foi o de refletir teologicamente sobre a missão da Igreja. A idéia e a
prática da missão integral marcaram a atividade da FTL-B desde cedo. Nos
primórdios da década de 80, do século passado, as Igrejas Evangélicas
concentravam seus esforços na evangelização e missões. Missão integral ainda
era uma exceção à regra – e o I CBE foi um marco decisivo na percepção dessa
situação e na sua transformação.
Em seus núcleos, a FTL-B refletia sobre como fazer teologia bíblica e
relevante para o nosso contexto. Uma teologia que desse conta dos desafios
missionários que a realidade brasileira apresentava ao povo de Deus. Dois
grandes desafios foram a tônica dos primeiros anos: como enfrentar a pobreza e
como atuar politicamente como cristãos mantendo, simultaneamente, a identidade
bíblica e o compromisso evangelizador. Justiça social e participação política foram
temas marcantes e decisivos na década de oitenta. Em um período marcado pela
grande vitalidade da Teologia da Libertação, tratar de justiça social e participação
política era arriscado no meio evangélico brasileiro. Era necessário distinguir-se
claramente da Teologia da Libertação: afirmar a Bíblia como única regra de fé e
prática, a conversão pessoal como caminho de acesso inicial a Deus, o
compromisso com a igreja como marca da espiritualidade e identidade. Foi um
tempo de afirmar a responsabilidade social da Igreja Evangélica, sem perder a
identidade doutrinária e eclesial. Foi um tempo de afirmar a necessidde de uma
teologia brasileira e latino-americana, sem perder os laços com o povo de Deus
espalhado em todos os continentes.
Isso se pode ver nos temas das primeiras consultas nacionais e nos
primeiros números do Boletim Teológico: cristologia, hermenêutica bíblica, crítica à
teologia, Espírito Santo, missão urbana, ação política. Para firmar a integralidade
da missão era necessário atuar em duas frentes simultaneamente: (1) valorizar a
produção teológica contextual, autóctone, mostrando que teologia se faz, não se
reproduz. Mostrar que fazer teologia não significa abandonar a fé e a tradição,
mas, sim, revitalizar a fé e a tradição a partir da vivência decidida e comprometida
do Reino de Deus no tempo presente e no contexto sócio-cultural da igreja.
Mostrar que fazer teologia é parte integrante da vida e missão da Igreja e que sem
reflexão teológica bíblica e contextual deixamos de perceber boa parte do que
Deus está fazendo e propondo ao seu povo. (2) defender a urgente e imperiosa
necessidade das igrejas se engajarem no serviço social aos mais pobres e
necessitados, através de projetos viáveis de desenvolvimento comunitário, e na
ação social, através de envolvimento político inteligente e crítico. E fazer isso
vencendo a desconfiança então reinante de que o social era “coisa da Teologia da
Libertação”, mostrando que o amor de Deus pela humanidade não poderia ser
plenamente compreendido se o povo de Deus não o demonstrasse tanto em
palavras quanto em ações amorosas a serviço das pessoas e comunidades fora
da Igreja.
O caminho escolhido, então, foi o de mostrar – em primeiro lugar – que o
compromisso missionário integral estava presente na vida e missão de Jesus
Cristo. Para sermos fiéis ao Senhor da Igreja, deveríamos trilhar os mesmos
caminhos que Ele trilhou, caminhos que incluíam a prioridade dos pobres, a
consciência crítica quanto aos poderes espirituais e terrenos, o engajamento
integral do povo de Deus na obra missionária integral, em resposta à totalidade do
Evangelho que Jesus viveu e pregou. Construir uma cristologia bíblica e
contextual era imperativo para a que o povo de Deus percebesse a validade do
engajamento nas questões sociais e políticas, para que o povo de Deus visse
esse engajamento não como um abandono da responsabilidade evangelística,
mas como o parceiro necessário da evangelização no testemunho do Evangelho
na sua totalidade. A espiritualidade cristã passou a ser vista como espiritualidade
cristocêntrica, espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo na fidelidade
missionária ao Pai. Ser um cristão espiritual era visto como ser semelhante a
Jesus em sua atuação ministerial.
Imediatamente após a reflexão cristológica, tratou-se da “vida no Espírito”.
A espiritualidade não era um tema marcante naquele tempo, que se caracterizou
por amplos debates a respeito do poder e da ação do Espírito Santo. Uma
pneumatologia latino-americana começava a se delinear então. Era necessário
perceber que o Espírito de Deus não só renovava a igreja, mas também toda a
humanidade e a criação. Precisávamos abrir os olhos para o fato de que o Espírito
Santo não estava restrito às fronteiras eclesiásticas, mas era a pessoa da
Trindade que agia em toda a criação e trazia a luz e a semente da vida para toda a
humanidade. Precisávamos discernir a presença do Espírito no mundo e os
desafios que essa presença lançava sobre o povo de Deus. Era tempo de
reafirmar que o poder do Espírito Santo estava disponível para a igreja
contemporânea e que esse poder era essencialmente poder para a missão. O
Espírito foi compreendido primariamente como o Espírito de Cristo, revestindo o
povo de Deus de poder para ser semelhante a Jesus, de poder para, como o
Mestre, cumprir a missão integral de Deus.
Com uma renovada cristologia e uma renovada pneumatologia, a reflexão
teológica na FTL-B se ocupou intensamente da justiça social e da ação política.
Realizou consultas sobre a responsabilidade política dos cristãos e sobre a
integralidade da missão nas cidades. A integralidade da missão tornou-se o foco
principal. Todavia, as lutas contextuais da época, fizeram com que se enfatizasse
mais a responsabilidade social e política, lado a lado com a evangelização, do que
propriamente a integralidade enquanto tal. O foco da reflexão missiológica, então,
iluminava a multidimensionalidade da missão da igreja. Cumprir a Grande
Comissão exigia, além de fazer discípulos, obedecer a tudo o que o Senhor havida
ordenado – especialmente em socorrer os necessitados e em agir politicamente
para transformar a sociedade injusta. O tema teológico que predominou, então, foi
o do Reino de Deus. A redescoberta do tema do Reino de Deus na Escritura foi
fundamental para o avanço da reflexão sobre a responsabilidade sócio-política da
Igreja. A integralidade do Reino de Deus era a base da integralidade da missão da
Igreja. A percepção de que o Reino é maior do que a Igreja, e a abrange, foi
fundamental para o desenvolvimento da missiologia integral. Era libertador,
naquela época, perceber que o propósito de Deus era a consumação do Seu reino
sobre a face da terra e que esse Reino era dEle e não nosso. Por isso, era maior
do que a igreja, maior do que a missão, maior do que o povo de Deus. A
soberania de Deus-Pai, então, foi o terceiro grande foco teológico trabalhado nos
anos 80.
A missão integral da Igreja só podia ser justificada a partir de uma
renovada compreensão e experiência de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Se hoje
é possível ver isto com clareza, naquele tempo essa noção foi se construindo
progressivamente. Não houve um planejamento estratégico para se desenvolver
um pensamento sistemático. Os temas trinitários foram surgindo ao longo da
reflexão sobre a prática integral da missão e sobre a necessidade de mostrar a
sua fidelidade à Escritura. Parcialmente ausente, então, das reflexões nesse
período, foi a eclesiologia. A palavra de ordem era o Reino de Deus. A igreja só
poderia ser entendida claramente se vista à luz do Reino de Deus, se percebida
como a comunidade do Reino, e não como uma instituição auto-suficiente. A Igreja
era compreendida, então, como agente da missão, como testemunha do Reino.
Não havia necessidade, portanto, de se refletir especificamente sobre a igreja –
sua organização, governo, natureza. A reflexão sobre a missão era, naturalmente,
reflexão sobre a igreja. Missão e ministérios eram a marca da Igreja. O
crescimento da igreja era visto então como conseqüência do engajamento na
missão integral e como uma dádiva de Deus. O crescimento da igreja deixou de
ser visto como um fim em si mesmo, mas como um meio para o cumprimento da
missão de testemunhar do Reino de Deus em todo o mundo.
Paralela e simultaneamente à reflexão sobre esses grandes temas
teológicos e missiológicos, a FTL-B se ocupou da contextualidade. Dois grandes
desafios foram enfrentados sob esse tópico. O primeiro era o desafio de discernir
nosso contexto. Era tempo de se afirmar que para fazer missão era necessário
conhecer o contexto social, econômico, político e cultural onde a Igreja estava
inserida. Compreender o Brasil, a América Latina; vivenciar plenamente a
brasilidade e a latinidade eram questões fundamentais para a missão integral. Foi
um tempo de reconhecimento da nossa ignorância a respeito de nossa própria
realidade social e cultural. Víamo-nos como “estrangeiros em nossa própria terra.”
Era necessário mudar essa situação. O segundo era o desafio da hermenêutica
contextual da Bíblia. Para mostrar a validade da inserção em nosso contexto era
fundamental percebermos a contextualidade do povo de Deus na Escritura. Era
necessário mudar o foco da discussão bíblica, da natureza da Bíblia para a
interpretação da Bíblia. Afirmando, sem nenhuma reserva, que a Bíblia é a Palavra
de Deus, é necessário interpretar a Escritura dentro de seus contextos e buscando
respostas para as perguntas que nascem do contexto do intérprete. Exegese se
tornou uma atividade fundamental. Exegese da Bíblia e exegese do contexto
presente. Para se fazer missão integral é necessário encontrar as respostas da
Palavra de Deus para os dramas e angústias do presente mundo pecaminoso.
Na primeira metade dos anos noventa, a reflexão teológica da FTL-B
passa a ter duas marcas: (a) reafirmar as conquistas dos anos oitenta; e (b)
ampliar a abrangência temática de sua reflexão. Muitos temas passaram a ser
abordados, a partir das questões que iam surgindo nas Igrejas e Seminários que
se envolviam com a missão integral. Dentre esses temas, pode-se destacar: a
questão da mulher na igreja e missão, o lugar e papel do culto na vida missionária
da igreja, a estrutura econômica da sociedade, a espiritualidade pessoal. Em um
certo sentido, a FTL-B cumpriu sua tarefa primordial como movimento: em cerca
de dez anos ajudou a difundir a missiologia integral no meio evangélico brasileiro.
Missão integral deixou de ser uma questão estranha e passou a ser parte
integrante da vida das Igrejas evangélicas e de muitos Seminários Teológicos.
Simultaneamente, novas e imprevisíveis mudanças no cenário religioso e
protestante no Brasil trouxeram problemas, possibilidades e desafios prementes,
que colocaram em segunda plana a questão missiológica e a reflexão teológica. O
crescimento espantoso do neo-pentecostalismo e o sucesso da sua teologia, a
teologia da prosperidade, colocaram as igrejas e instituições evangélicas em uma
situação de luta pela sobrevivência e afirmação da identidade. Uma das
conseqüências dessa nova situação foi a fragmentação da Igreja Evangélica, que
afetou profundamente a FTL-B. A segunda metade da década de 90 foi um tempo
de enfraquecimento da reflexão teológica, dos encontros de pequenos grupos
para discutir e produzir teologia. Paradoxalmente, foi tempo de grande
crescimento da teologia – surgimento de novos Seminários e Faculdades
Teológicas, crescente número de livros teológicos publicados em português,
valorização do saber como parte integrante da espiritualidade cristã.
De tempos tão recentes é difícil fazer a história. Por isso, encerramos a
reflexão sobre a FTL-B no início da década passada. Sob a ótica da missão
integral, os anos oitenta e o início dos anos noventa foram a idade áurea da
reflexão teológica no Brasil encorajada pela FTL-B. Foi o tempo da afirmação da
teologia da missão integral. Foi o tempo da afirmação da prioridade do Reino de
Deus sobre a igreja e a vida cristã. Foi o tempo da afirmação que teologia se faz
na conjugação da reflexão e do compromisso missionário integral. Foi o tempo da
auto-afirmação da Igreja evangélica no Brasil como igreja maior de idade, capaz
de fazer a sua teologia para servir a sua missão. Agora, o tempo é diferente.
Novas perguntas, novos desafios. Qual será o papel da teologia hoje?

Reflexão Final - Desafios para a missão integral na atualidade


Pensamos que a Missão Integral enfrenta na atualidade pelo menos cinco
grandes desafios. Gostaríamos de detalhá-los a seguir.

Primeiro desafio: Evangelizar considerando o que o evangelizado tem a


dizer sobre seu mundo. Os primeiros católicos que nestas terras chegaram no
século XVI não estavam preocupados com que os índios tinham a dizer sobre seu
mundo e sobre sua religião. Apenas pensavam em lhes incutir sua cultura e sua
religião. A mesma atitude etnocêntrica tiveram os primeiros protestantes que para
cá vieram no século XIX. Não houve a preocupação de conhecimento e adaptação
à realidade cultural e religiosa brasileira, mas a imposição da mensagem do
Evangelho com uma forte roupagem cultural ocidental.
O mundo plural contemporâneo exige que evangelizemos através de um
diálogo com a cultura brasileira e considerando que os sujeitos a serem
evangelizados têm a dizer sobre seu próprio mundo. A liderança da Igreja precisa
saber dialogar com as pessoas a quem evangeliza e, assim, ser exemplo de
diálogo para seus evangelistas na sua relação com os que fizeram uma opção
religiosa não evangélica. Mais do que nunca precisamos evangelizar, para isso é
que a igreja e as instituições para-eclesiáticas sempre existiram, mas cada vez
mais este imperativo deve ser levado adiante com amor, sabedoria e
discernimento.
At 8:26-40 é um texto que narra um líder etíope sendo evangelizado por
Filipe. Filipe vê que o etíope está lendo um texto bíblico e sente uma oportunidade
para se aproximar. O etíope ia lendo em voz alta, como era de costume na época
e Filipe vê que se trata de uma pessoa que tem sede de conhecer a Deus e
estabelece o diálogo a partir de uma pergunta que o faz entrar no mundo do outro.
Este texto nos ensina algumas coisas relevantes para o nosso contexto
missionário de hoje: 1) Tal como na época de Filipe, estamos diante de um mundo
que anseia por uma resposta, por um projeto de vida saudável e libertador; cabe a
nós percebermos que Deus quer nos usar para evangelizar/expandir o
conhecimento da Boa-Notícia; 2) Precisamos ter ousadia para chegar até as
pessoas e lhes perguntar se entendem o que lêem, se estão satisfeitas com suas
vidas; 3) Temos que respeitar as pessoas e nos aproximar delas por amor e
somente se elas o permitirem e quiserem a nossa ajuda; 4) Devemos romper as
barreiras dos preconceitos, pois não há etnia, categoria social ou nacionalidade, a
quem Deus não queira demonstrar seu amor; se nossos irmãos e irmãs do
passado não tivessem vencido preconceitos, não conheceríamos o cristianismo;
5) Não podemos parar de evangelizar, pois o texto mostra que Filipe não para
quando o etíope aceita a Jesus, mas é arrebatado pelo Espírito para evangelizar
em outro local; a tarefa de evangelização é o motivo de existência da igreja; a
tarefa de evangelização só termina quando todos ouvirem a respeito de Cristo.
Precisamos de cristãos que saibam evangelizar como Filipe, afinal ainda
temos um mundo cheio de pessoas sedentas por um projeto de vida consistente
como o é o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. A tarefa urgente e bela da
evangelização não deve, todavia, atropelar a vontade e os limites do
evangelizado. A evangelização não pode ser um monólogo, mas sim um diálogo.
Segundo desafio: Superar a comunicação predominantemente
intelectualizada e conceitual que predomina sobretudo no meio acadêmico e nos
púlpitos das igrejas históricas. O que as pessoas procuram como meio de conferir
sentido para suas vidas? Um belo sermão, milimetricamente planejado e
construído, ou uma palavra simples e poderosa que transforme a sua vida?
Parece-me que muitos líderes evangélicos, sobretudo os que estão em igrejas
tradicionais, pensam que as pessoas querem uma mensagem bem articulada
intelectualmente apenas. Mas estamos cada vez mais convencido de que as
pessoas querem mesmo é uma palavra simples, poderosa e relevante para suas
vidas.
Um fato urgente que precisa ser percebido pela liderança evangélica
brasileira é que o púlpito excessivamente racional e intelectualizado está em crise,
o que não significa que devamos ser tragados pelo irracionalismo, mas que as
pessoas precisam viver nos dias de hoje o que alguns dos primeiros seguidores
de Cristo puderam receber, o poder transformador do Reino de Deus. Jesus
anunciou e evidenciou a presença do Reino entre nós. Os sinais do Reino não se
constituíam apenas de mensagens bem preparadas academicamente e bem
faladas, embora Jesus tenha feito isto com muita eficácia, mas se manifestavam
através de curas, milagres e libertação de demônios, de conceitos espirituais
equivocados e escravizadores.
Mesmo quando “pregava” Jesus estava muito longe de usar uma
linguagem árida e intelectualizada, mas antes preferia as metáforas. Sua
comunicação primava pelas belas e cotidianas imagens dos trabalhadores rurais
de seu tempo. Seu ensino empolgava as pessoas porque as suas palavras eram
de vida e não de hipocrisia e legalismo.
Não é a toa que o Antigo Testamento tem sido usado preferencialmente
em igrejas populares como as de linhagem neopentecostal, pois sua linguagem é
predominantemente figurativa e não conceitual como a do Novo testamento,
exceção feita justamente aos Evangelhos. Os pentecostais perceberam isto, mas
alguns ramos protestantes tradicionais ainda não conseguiram aprender tão
importante lição. O desafio de uma linguagem apropriada ao povo brasileiro é
urgente para a missão integral hoje.
Terceiro desafio: Construir um modelo de espiritualidade capaz de integrar
sensibilidade para o poder do Espírito Santo tanto quanto para as questões
sociais. Dallas Willard diz que existe na atualidade duas formas de expressão do
Evangelho que, por seu reducionismo, apenas se limitam a administrar o pecado
humano, o Evangelho da direita e o Evangelho da esquerda. 42 O primeiro modelo
reducionista diz que o pecado é uma realidade apenas pessoal e que tudo que a
pessoa precisa é se arrepender e, depois, esperar o fim da vida para ir ao céu,
não importando muito o que venha a fazer neste interregno. O segundo modelo é
apenas uma inversão do anterior e acentua a realidade estrutural do pecado,
passando a propor uma visão de espiritualidade engajada nas questões sociais,
mesmo que o caráter da pessoa não seja significativamente transformado.
Como se pode ver, o velho dualismo está sempre ressurgindo de formas
diferentes! A descrição acima de Dallas Willard serve muito bem para desmascarar
mais esta forma de dualismo, esta tipicamente moderna, que opõe o
pessoal/espiritual ao social/material. Penso que aprender a superar este dualismo
é talvez o maior desafio para as lideranças evangélicas brasileiras. Cremos que o
Reino/Reinado de Deus transforma a vida humana na sua integralidade, o que
inclui a sua vida íntima/pessoal bem como o meio social em que esta vida está
inserida. Se a primeira modernidade é dualista, a modernidade tardia precisa ser

42
Dallas WILLARD, A conspiração divina: o verdadeiro sentido do discipulado cristão, p. 55-80.
holística, não no sentido vulgar/místico da palavra, mas no sentido de que vivemos
em uma realidade sistêmica. Todas as coisas estão ligadas às demais.
Nínguém é liberto se sua mente, seu corpo e seu espírito não forem
curados e tocados pelo poder de Deus, mas se o mesmo poder não agir sobre as
estruturas sociais até que sejam também transformadas, não haverá libertação na
sua plenitude. Nenhum indivíduo pode ser liberto se a sociedade não for também
liberta. O cristianismo não pode tolerar o egoísmo e a exploração econômica e
social, mas se o poder de Deus não agir na vida individual dos sujeitos, jamais
será construída uma sociedade justa.
Por enquanto podemos observar líderes preocupados em orar, jejuar e ter
experiências sobrenaturais, mas não são suficientemente piedosos para estender
suas mãos para os aflitos. Por outro lado, podemos ver outros líderes engajados
em um ativismo social vazio do poder sobrenatual de Deus. O momento é o de
construirmos a síntese, a ponte de ligação entre as duas realidades e passarmos
a viver e a pregar um Evangelho integral, onde o poder sobrenatural de Deus age
para mudar o âmago das pessoas tanto quando age para recriar a vida social e a
natureza!
Quarto desafio: Vivemos em uma sociedade e economia sem
solidariedade. A dimensão mais concreta da chamada pós-modernidade é a
economia capitalista pós-industrial, ou neo-liberal. A sociedade capitalista neo-
liberal é perversa e sem compaixão. Nela só há lugar para as pessoas capazes e
competentes, que conseguem cumprir todas as exigências do mercado de
trabalho e de consumo. Cada vez mais as empresas exigem maior qualificação
para seus trabalhadores, e cada vez mais as máquinas substituem as pessoas no
desempenho de funções e realização de serviços - e com isso aumenta o
desemprego, a economia informal e a marginalidade. Todavia, o capitalismo neo-
liberal afirma que esse é o único caminho para a prosperidade das nações! Decre-
tando o “fim da história” o capitalismo neo-liberal tomou o lugar do marxismo como
a religião messiânica sem Deus.
Precisamos de compaixão e solidariedade para fazer a missão em nossos
dias! Ao olhar para as pessoas e para as multidões de seus dias, Jesus as via
como “ovelhas sem pastor” e demonstrava-lhes compaixão. A compaixão
(solidariedade) era o motor de suas ações a favor das pessoas (v. Mt 9,36; 14,14;
15,32; 20,34; Mc 6,34; 8,2; Lc 7,13, etc.). Jesus demonstrava, através de seus
atos, a compaixão de Deus pelos seus filhos e filhas escravizados ao pecado;
demonstrava a solidariedade do Deus encarnado para com a humanidade
pecadora (cf. Hb 2,14-17; 4,15-16). Para pregar o Evangelho não posso ver o
“outro” como adversário - a “batalha espiritual” não pode gerar inimigos, mas, sim,
pessoas reconciliadas com Deus e, conseqüentemente conosco e com elas
mesmas - geramos, com a pregação do Evangelho, amigos e amigas de Jesus
Cristo (Jo 15,14-15).
Para realizarmos a missão é necessário resistir à tendência
desumanizadora e brutalizante de nossa sociedade pós-moderna; precisamos
resistir à tentação de vivermos apenas em função de nós mesmos e de nossos
interesses e desejos. Precisamos de solidariedade, compaixão: sentir o sofrimento
do outro, como o nosso próprio sofrimento. Participar na libertação do outro, como
se a nossa própria libertação disso dependesse. Se somos amigos e amigas de
Cristo, fazemos o que Ele manda. E o que Ele manda? “Eu vos escolhi para irdes
produzir frutos e para que o vosso fruto permaneça ... O que eu vos ordeno é que
vos ameis uns aos outros” (Jo 15,16-17). A Igreja existe para anunciar o
Evangelho - essa é a grande comissão de Jesus (Mt 28,18-20 e paralelos), e esse
é o poder do Espírito (At 1,8) - e se ela não o faz, deixa de ser povo de Deus, e se
identifica com o mundo; torna-se sal sem sabor, não prestando para nada.
Assim como Jesus fez acompanhar sua pregação de sinais visíveis do
amor de Deus pelos pecadores, também a Igreja solidária, na pós-modernidade,
fará sua pregação da salvação ser acompanhada dos sinais do Reino. Quem ama,
é compassivo e solidário com a pessoa toda, não faz divisão entre “alma” e
“corpo”, pregando para salvar “a alma” e deixar o “corpo” morrer. Jesus cuidava
das doenças do corpo, das doenças espirituais, dos problemas econômicos e
sociais. Paulo, o evangelista aos gentios, recebeu a recomendação de “nos
lembrar dos pobres, o que eu tive muito cuidado de fazer” (Gl 2,10). A diaconia
cristã é a expressão concreta da compaixão evangelizadora da Igreja. A diaconia é
o meio pelo qual a Igreja pratica as boas-obras para as quais cada cristão foi
chamado por Deus (Ef 2,10).
Na atualidade, precisamos discernir quais são as boas-obras mais
urgentes, ou quais as formas mais importantes de ação diaconal. Por exemplo:
projetos sociais de capacitação profissional, projetos sociais de desenvolvimento
comunitário; movimentos sociais de luta contra o desemprego, contra a fome;
movimentos políticos pela adoção de mecanismos de defesa econômica dos
cidadãos, garantidos pelo Estado - por exemplo: renda mínima, salário educação,
etc. No âmbito da saúde, é preciso também atuar através de projetos de
desenvolvimento (ambulatórios, clínicas voluntárias, etc.), e de movimentos
sociais e políticos (campanhas contra certos tipos de câncer, instituições
especializadas no atendimento a certos tipos de doenças e deficiências, etc.;
movimentos políticos que visem forçar o Estado a cumprir as metas de saúde
pública mínimas para garantir a dignidade dos cidadãos).
No âmbito da cultura, é preciso que as Igrejas atuem no despertamento de
formas criativas de ação cultural - seja na música, no teatro, nas artes plásticas,
na literatura, etc. É importante atuar em movimentos que visem o controle, pela
sociedade, dos bens culturais produzidos e difundidos pelos meios de
comunicação de massa (TV, rádio, cinema, etc.). Em uma palavra, é preciso que a
Igreja atue de forma a contribuir para que a cidadania seja uma verdade prática, e
não apenas um direito constitucional. Para que a mensagem do Reino pregada
pela Igreja seja entendida, é necessário que a Igreja demonstre os sinais do Reino
através de sua vida e da vida de seus membros. Na pós-modernidade, em que a
pessoa só é vista como consumidora, ou como produtora de bens, precisamos
ajudar a resgatar a condição cidadã das pessoas, com todas as implicações
sociais, econômicas e políticas da cidadania. Como cidadãos do Reino de Deus,
somos chamados a lutar para sermos cidadãos de um país justo e livre e para
demonstrar solidariedade plena para com os não-cidadãos! Para isso o Espírito
que ungiu Jesus, também pode nos ungir (cf. Lc 4,18-21; 7,18-23)
Quinto desafio: Finalmente, acreditamos que um dos maiores desafios que
a Igreja precisa enfrentar na atualidade é o da construção de uma liderança
renovada e renovadora. Predomina, atualmente, no meio evangélico o modelo
gerencial de liderança e pastorado. Esse modelo é a concretização do projeto
capitalista dentro da Igreja. É exemplo de conformidade com o mundo atual e
depõe contra a natureza da Igreja e contra a graça de Deus demonstrada no
Evangelho. É um modelo centrado em técnicas de gerenciamento, planejamento
estratégico, realização de metas, crescimento numérico permanente e
centralização do poder, mesmo com a descentralização de atividades. Nas
palavras de Ricardo Barbosa de Sousa:
O que falta não me parece ser alguma nova técnica que
ainda não foi incorporada ou algum curso que ainda se deva
fazer. O grito das ovelhas liderança que temos hoje, ou
melhor, o modelo de líderes que temos buscado não está
satisfazendo os anseios das almas das ovelhas de Jesus
Cristo. Temos boa tecnologia, bons administradores, bons
professores, excelentes gerentes que tocam a igreja... Mas
não temos pastores.43

A missão integral é realizada pelo povo de Deus liderado por homens e


mulheres de Deus. Formar essa liderança segundo o coração de Deus é um
desafio imenso, tanto para as igrejas e denominações, quanto para os seminários
e faculdades teológicas. Não podemos continuar nos conformando aos modelos
mundanos de liderança. É preciso renovar a educação cristã e a educação
teológica para que formemos homens e mulheres que liderem como Jesus Cristo
liderou – servindo ao povo, e não se servindo do povo. Ao invés de nos
submetermos aos imperativos da competência e da competição, devemos nos
submeter ao imperativo da graça: sermos pessoas semelhantes a Jesus em tudo.
Em resumo, eu apontaria caminhos para um estilo de
liderança atual e bíblico: o trabalho em equipe e a renúncia
ao personalismo, o reconhecimento da diversidade de dons
sem o pragmatismo utilitarista, o respeito e a tolerância com
as diferenças unidos ao compromisso com a unidade, o
diálogo e o envolvimento com as questões sociais, a postura
crítica diante do modelo empresarial vigente e, por fim, a
releitura do papel que a estrutura denominacional deve ter no
exercício da totalidade do ministério da igreja, Sem nunca,
porém, esquecer a compaixão que se expressa no cuidado
43
“Peneirando líderes, formando pastores”, em STEUERNAGEL, V. & SOUSA, R. B. (orgs.) Nova
Liderança. Paradigmas de liderança em tempo de crise, Curitiba, Encontro, 2.002, p. 66s.
às ovelhas a nós confiadas, dentro e fora do mundo
eclesiástico (Jo 21:15-17).44

Que o Deus Pai, Filho e Espírito Santo nos ilumine e capacite para
cumoprirmos a grande vocação missionária que temos, como Povo de Deus, no
Brasil e no mundo de hoje!

44
SANTOS, L. De A. “A busca por um estilo de liderança”, em STEUERNAGEL, V. & SOUSA, R. B.
(orgs.) Nova Liderança. Paradigmas de liderança em tempo de crise, Curitiba, Encontro, 2.002, p. 200.