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SHEILA DE CASTRO FARIA

A COLÔNIA
EM

MOVIMENTO
Fortuna e Família no Cotidiano Colonial

2a impressão

Á
EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
INTRODUÇÃO

Este trabalho é decorrente de minha tese de doutoramento em História, defendi-


da na Universidade Federal Fluminense, em 1994. Apesar da manutenção de
grande parte do conteúdo original, foram feitas modificações na composição dos
capítulos, visando dar maior fluidez ao texto.
Analiso histórias individuais e corriqueiras, ressaltando o que elas têm em
c o m u m , buscando, sempre, procurar o "exemplo", não o "exemplar". O título —
A Colônia em movimento— decorre da constatação do comportamento preferen-
cial dos homens coloniais — a mobilidade, tanto no espaço geográfico quanto no
social. Fortuna e família no cotidiano colonial, subtítulo do trabalho, pretende
mapear o movimento, em ritmos diferenciados, dos diversos grupos sociais. For-
tuna, aqui entendida como "destino", "fado", "sorte" e, mesmo, no seu sentido
material, "haveres" (independente se muitos ou poucos), é vista pela ótica da
família, forma privilegiada para abordar o comportamento cotidiano de livres,
libertos e escravos, ricos, pobres ou remediados nas suas estratégias matrimoniais,
procriação, morte, produção, moradia, enriquecimento e empobrecimento.
Este enfoque corresponde à fundamental importância que a família exer-
ceu na montagem e funcionamento das atividades econômicas coloniais, em par-
ticular as ligadas ao mundo agrário. É pela e para a família, não necessariamente
a consangüínea, que todos os aspectos da vida cotidiana, pública ou privada,
originam-se ou convergem. É a família que confere aos homens estabilidade ou
movimento, além de influir no statuse na classificação social. Pouco, na Colônia,
refere-se ao indivíduo enquanto pessoa isolada — sua identificação é sempre com
um grupo mais amplo. O termo "família" aparece ligado a elementos que extrapo-
lam os limites da consangüinidade — entremeia-se à parentela e à coabitação,
incluindo relações rituais.
O s antropólogos estão mais predispostos a notar a questão do parentesco
do que, em geral, os historiadores, pela importância que este assume nas socieda-
des ditas "primitivas". Nas "complexas", aspectos demográficos são privilegiados,
deixando de lado, muitas vezes, a análise dos grupos de parentesco. N e m todos,
entretanto, tiveram na família mais ampla a base de sustentação da organização
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social, mas, no Brasil, seu peso é indubitável. Somos obrigados a ser, portanto,
mais antropólogos do que demógrafos. Acrescente-se ser a Colônia uma sociedade
formada por escravos, livres e libertos das mais variadas origens étnicas e inseridos
em diferentes contextos, o que se configura um universo complexo o bastante
para questionar esquemas explicativos gerais que não dão conta da diversidade daí
decorrente. São necessárias, portanto, mais pesquisas, apoiadas em fontes varia-
das, para se chegar a conclusões abrangentes ou elaboração de teorias explicativas.
Considero que o trabalho apresentado, embasado em documentação ampla e se-
riada, contribua para ampliar o conhecimento sobre o período colonial brasileiro.

* * *

* D u r a n t e muitos anos, a historiografia brasileira privilegiou o estudo da


plantation escravista, apresentando-a como modelo da produção brasileira até o
final do século X I X . Pensado como um bloco, todo o período teria no escravismo,
na granHe prodMÇão e na exportação as razões da uniformidade. Considerava-se,
também, que senhores de terras e de escravos eram os privilegiados na distribui-
ção das riquezas internas; e comerciantes sediados em Portugal, os arrecadadores
dos lucros do comércio exportador e importador de mercadorias e de escravos. 1
C o m base nestes dados, criaram-se modelos explicativos amplos e complexos,
que pretendiam dar conta da realidade do que se convencionou chamar "sistema
colonial", onde o capital mercantil metropolitano preponderava como financiador
da montagem da agroexportação e, ao mesmo tempo, captador de seus lucros.
O mercado externo se constituiria, portanto, em início e fim da produção colonial.
A sociedade colonial resultante deste modelo escravista, latifundiário e ex-
portador compunha-se, basicamente, de senhores e escravos. Somente nesta rela-
ção poder-se-ia encontrar a lógica do sistema que funcionou durante quase qua-
trocentos anos no Brasil. A população que não se enquadrasse num dos dois
grupos era caracterizada como destoante, marginal e desclassificada, devido à flui-
dez e ambigüidade de comportamento na produção e nas atividades sociais.
N o contexto assim descrito, mercado interno, produção de alimentos e
pequenos e médios produtores seriam supérfluos, "marginais", e não influíam na
forte economia agroexportadora e auto-suficiente.
Estudos posteriores vieram questionar muitos destes pressupostos, não só
através de análises teóricas como, e principalmente, através de pesquisas de base, 2
com forte massa documental. Infelizmente, mesmo estudiosos atuais, muitos com
franca passagem pelo mercado editorial, elaboram textos, ignorando (ou parecen-
INIRODUÇAO 23

do ignorar) esta produção historiográfica que estabelece outros termos e condicio-


namentos para se pensar o período escravista brasileiro.
J á nos anos de 1970, Ciro Cardoso e Jacob Gorender discutiram a ênfase
na dependência externa, alegando uma lógica interna que permitiria a criação da
teoria do modo de produção escravista colonial, 3 duramente criticada pelos segui-
do resda_chjmiad^^ Nos ampios e acirrados debates, que se es-
tenderam pela década de 1980, argumentos de economistas e historiadores foram
basicamente teóricos.
E m finajs da década de 1970 e, principalmente, nos anos 80 e 90, multipli-
caram-se pesquisas com fontes primárias, resultado da maior dinamização dos
centros de pós-graduação do país. Inúmeras teses e trabalhos foram realizados e, a
partir deles, questões tiveram de ser reconsideradas. 5 Pesquisadores começaram a
ter como seu objeto central o mercado interno. Em Minas Gerais, estudos sobre
os séculos XVIII e X I X constataram a presença marcante de produções escravistas
agrícolas e pecuárias, ligadas ao mercado interno, redimensionando o peso das
atividades mineradoras na região 6 e mesmo sua tão generalizada e hoje contestada
"decadência".
N o Rio de Janeiro, nos anos 8 0 / realizaram-se trabalhos calcados em fon-
tes até então pouco ou nunca consultadas, no Brasil, com ênfase na história
agrária e na história regional, quase todos relativos ao século XIX. 8 As diferenças
regionais, marcadas por tais trabalhos, permitiram que emergisse a complexidade
do m u n d o agrário escravista e o perigo de elaboração de modelos explicativos
sem bases empíricas. E m muitos deles, produtores de lavouras nobres (como
açúcar e café, por exemplo) de pequeno e médio portes e lavradores de alimentos,
escravistas ou não, deixaram de ser considerados "marginais". Inseriram-se, as-
sim, na história.
N o final da década de 1980, alguns balanços historiográficos já puderam
ser elaborados, tendo como base estas novas pesquisas. 9 Entre todos os estudos, o
que enfrentou decidida e corajosamente os debates teóricos sobre o período
escravista brasileiro foi, sem dúvida alguma, o de João Fragoso, esboçado, inicial-
mente, numa resenha editada em 1988 1 0 e, depois, apresentado completo em
1990 como tese de doutoramento" (editada, posteriormente, em livro, em 1992 1 2 ).
Apoiado numa ampla documentação, o autor inverteu pontos, antes tidos como
inquestionáveis, principalmente os referentes à dinâmica do mercado interno co-
lonial do século XVIII.
Segundo Fragoso, o capital interno, oriundo do comércio de cabotagem e
do tráfico atlântico de escravos, na segunda metade do século XVIII, financiou a
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montagem de áreas agroexportadoras, tradicionalmente consideradas como cre-


doras do capital externo. O autor demonstrou, também, que grandes fortunas
coloniais eram, diferentemente do que se pensava, mercantis, e não agrárias.
O poder econômico estava nas mãos de comerciantes, em particular dos de grosso
trato. Dificilmente os produtores rurais, por mais ricos e influentes que fossem,
possuíam um conjunto de bens cujo valor estivesse próximo do dos comerciantes.
Surpreendentemente, apesar da riqueza, os que exerciam atividades mercantis e
financeiras não se colocavam como os detentores de statusjnais elevado. A hierar-
quia social estava encabeçada pelos senhores de terras e escravos, demonstrando
que a organização social possuía uma lógica que não se restringia somente à ri-
queza e nem se explicava exclusivamente por fatores econômicos.
A comprovação empírica do controle do crédito, por parte de um grupo
mercantil residente, teve como resultado a demonstração de uma acumulação de
capital interna, que redefine a forma de reprodução da economia escravista co-
lonial. Se, por um lado, havia um mercado interno, cujo setor mercantil e acumu-
lador de riquezas se encarregava de distribuir produtos agropecuários, por outro,
existiam produções expressivas voltadas para este mesmo mercado interno, como
é o caso, por exemplo, das freguesias interioranas, estudadas por Francisco Carlos
Teixeira da Silva, abastecedoras do mercado da Cidade da Bahia 13 , grande centro
colonial receptor e redistribuidor de alimentos. 14
O período colonial, durante a década de 1980 e os primeiros anos da de
1990, foi contemplado com menos estudos de história econômica e social do que
o século X I X , apesar da discussão inicial ter ali seu ponto de partida. Embora
poucos, foram elaborados trabalhos excelentes, como os de Stuart Schwartz, Manolo
Florentino, Silvia Lara e os já citados Francisco Carlos Teixeira da Silva e João
Fragoso. 1 5
Nos útimos anos, alguns trabalhos relativos ao período colonial brasileiro
receberam influências de outras correntes historiográficas, distantes das análises
econômico-sociais. Privilegiaram-se estudos da sexualidade, mentalidades 1 6 (ou
de história cultural, como preferem alguns 1 7 ) e, em publicações recentes, da mu-
lher e da vida privada. 18 Mulheres, maternidade, crianças, feitiçaria, religiosida-
de, espaços domésticos, ritos domésticos, morte e temas afins, inseridos numa
corrente historiográfica de origem européia, comumente identificada como "nova
história", passaram a ser objeto de historiadores brasileiros, desvendando aspectos
até então pouco abordados.
N u m a outra vertente, elaboraram-se avaliações sobre a família, muitas li-
gadas à demografiahistórica, como foi o caso das realizadas por Mariza Correia,
INTRODUÇÃO 25

Eni de Mesquita Samara e Maria Luiza Marcílio, 1 9 onde vários pressupostos vêm
sendo questionados, como o patriarcalismo, a situação da mulher, etc. C o m u m
enfoque um pouco diferente, encontram-se os estudos que consideram a família
pela sua vertente econômica, como os de Elizabeth Kusnesof, Murriel Nazzari e
Alida Metcalf. 20 Todos referem-se ao estado de São Paulo, principalmente à cida-
de, no período colonial. Importantes e esclarecedoras conclusões aí contidas per-
mitem que se reelaborem noções sobre a atuação e constituição dos grupos fami-
liares, no cotidiano local, embora pouco possa ser considerado, em termos
comparativos. A grande ausência, neste tipo de enfoque, são as regiões nordesti-
nas, estas, sim, base da historiografia que tanto se quer combater.
E m relação aos escravos, uma série de pesquisas colocaram em outros ter-
mos a atuação e o cotidiano dos cativos, questionando pressupostos como pro-
miscuidade jjassividnde e ariilriiraçjin Escravos emergem, nestas pesquisas, como
agentes históricos, apesar de socialmente desprestigiados. 2 1 Robert Slenes, ini-
cialmente analisando dados demográficos, 2 2 avança pelos estudos culturais e de
comportamento^tentando desvendar a organização e a lógica interna do m u n d o
escravo.
E m linhas gerais, pode-se dizer que interesses se deslocaram das macro par^
as microanál.ises, fundamentais para a composição de teorias gerais mais amplas.
Obviamente, tal tipo de enfoque, no Brasil, só foi possível após os questionamen-
tos anteriores sobre a existência de uma lógica interna que permitisse, com algum
sentido e representatividade, estudos mais localizados e prpftmtiflf. Elaborar tal
tipo de trabalho, na época do predomínio inquestionável da teoria do "sistema
colonial", seria retornar ao que tanto se buscava combater, a história factual. 2 3
A construção teórica de uma sociedade escravista ligada ao exterior, mas não ab-
solutamente dele dependente, possibilitou pesquisas que, em conjunto, impedem
a aplicação dos antigos modelos amplos e irrestritos.
Apesar da proliferação das pesquisas e das grandes inovações e questiona-
mentos decorrentes, cujos alvos privilegiados foram os já clássicos trabalhos de
Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Celso Furtado, continua-se a tomar o perío-
do escravista como um bloco. As especificidades, no tempo, perdem-se na evi-
dente constatação de que um mesmo tipo de sociedade escravista ultrapassou o
século X I X . O processo da abolição da escravidão teria sido o verdadeiro marco
divisor de águas — o rompimento com o passado colonial. Creio que, ao se
tomar a presença do regime escravista como uma unidade (pressupondo-se ser a
escravidão — e escravidão negra — a mesma entre os séculos X V I e X I X ) e,
justamente por esta unidade, definidora da organização social, corre-se o risco de
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ignorar o peso de outros aspectos fundamentais para o entendimento das trans-


formações sociais.
Q u a s e nada se tem escrito em relação aos anos dos seiscentos e setecentos.
A carência de fontes pode explicar a ausência. Muita coisa foi perdida ou, pelo
menos, armazenada em arquivos inacessfveis,aQ historiador, com expressiva exce-
ção dos processos eclesiásticos (em particular os inquisitoriais) e da documentação
administrativa e fiscal além, obviamente, de escritos eruditos sobre a Colônia.
Necessariamente, nestes casos, tende-se a escolher temas mais gerais ou questões
de conjuntura internacional.
Estudos demográficos, da família, do cotidiano e das formas de se produ-
zir, quase todos necessitando de fontes cartorárias (inventáriospost-mortem, testa-
mentos e processos judiciais) j ^ i a q u i & i ? (registros de batismo, casamento e óbi-
to), não são, em geral, possíveis. São Paulo parece ter sido um dos únicos lugares
do Brasil que preservou suas fontes mais antigas, além de permitir a pesquisa nos
acervos. 24 J á para os séculos XVIII e X I X existem fontes variadas de muitas re-
giões, principalmente para o XIX, e é neles que historiadores centram esforços.
Dentro do contexto historiográfico assim definido situo meu trabalho,
entendendo que é somente com a utilização exaustiva de fontes diversificadas
tf que se pode compor um perfil mais nítido do cotidiano dos variados homens
coloniais.
Áreas em estabelecimento de atividades econômicas sempre se colocaram
como grande chamariz. Foi assim no litoral nordestino, no início da colonização,
com o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o fumo, as produções de alimentos e o comér-
cio. O ouro das Minas Gerais se transformou no tipo limite deste modelo de
movimento. O enriquecimento rápido exacerbou o espírito de aventura do ho-
mem moderno.
Foi a múltipla abertura de novas áreas de fronteira agrícola, em várias re-
\ giões, entretanto, que imprimiu o ritmo da movimentação dos homens durante
todo o período colonial. Algumas se transformaram em ricas zonas de exportação
ou com produções voltadas para um amplo mercado interno. Outras se caracteri-
zaram por um povoamento mais esparso, com agricultura de alimentos para sub-
sistência e pouca comercialização dos resultados do trabalho. Houve ainda as que,
apesar de iniciado algum tipo de atividade, foram simplesmente abandonadas por
vários séculos.
A extensa região denominada atualmente de Norte Fluminense, antiga
capitania da Paraíba do Sul ou, mais comumente, Campos dos Goitacases, é um
exemplo de uma área em processo de expansão agropecuária, nos séculos XVII e
INTRODUÇÃO 27

XVIII. Nela vamos encontrar os mais diversos tipos de pessoas e perceber suas
atuações na produção, no acesso à mão-de-obra escrava, no estabelecimento de
alianças rituais, na organização familiar, nas formas e tipos de casas de morada,
nos casamentos, enfim, nos sucessos e insucessos de alguns aspectos das suas
vidas.
Tento compreender, sob a ótica da história da família, a dinâmica de áreas
em implantação e expansão de atividades econômicas rurais, entendendo que esta
é uma situação encontrada em praticamente todas as épocas da história do Brasil,
estendendo-se até mesmo aos dias atuais. Pretendo, portanto, ao privilegiar uma
ampla região — os C a m p o s dos Goitacases — torná-la exemplo — e, repito, não
"exemplar" — do que pode ter havido em inúmeras outras. N ã o me restrinjo a
ela. Analisei, também, dados de freguesias da cidade do Rio de Janeiro e do
recôncavo da Guanabara, sempre que a comparação se mostrou fundamental.
A mobilidade, tanto econômico-social quanto espacial, tornou-se objeto central.
Analisar a riqueza, a família e a vida cotidiana dos diversos grupos que compu-
nham uma sociedade em rápida transformação significa tratar, de fato, das ten-
sões decorrentes desta própria mobilidade, que engloba perda, manutenção e/ou
ampliação dos mais variados tipos de poder.

* * *

" C a m p o s dos Goitacases", "Capitania da Paraíba do Sul" e "Paraíba do


Sul" 25 eram expressões genéricas que, até o início do século X I X , designavam
uma vasta área, atualmente conhecida como Norte Fluminense, no estado do Rio
de Janeiro(mapa 1).
N o final do século XVI, antes de chegar aos C a m p o s dos Goitacases, o
viajante tomava contato com informações terríveis sobre os gentios que lá habita-
vam. Ferozes, apreciadores de carne humana, exímios caçadores de tubarões e
jacarés, vingativos e colecionadores de ossos humanos. Contavam que os poucos
a terem mantido contato com os famosos goitacases não ficaram vivos para relatar
o que viram.
As lendas se espalhavam. Atribuíam aos goitacases (ou goiatacás), nome
genérico dado aos índios que habitavam a grande baixada, 2 6 os mais variados
traços da bestialidade humana. Constava que andavam nus, com os cabelos cres-
cidos além dos ombros e só cortados no topo da cabeça, como se fossem calvos.
Tudo o que comiam provinha da coleta, da pesca e de seus arcos, através da caçada
aos mais perigosos animais, como "tigres", dos quais não tinham medo algum.
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MAPA 1
C A M P O S D O S GOITACASES

Fonte: M a p a Rodoviário e Político - Estado do Rio de Janeiro. G e o m a p a s Produções Cartográficas Ltda São
Paulo, 1 9 8 2
INTRODUÇÃO 29

Diziam, até, que capturavam tubarões usando apenas um pedaço de pau afilado
nas extremidades. Ao mordê-lo, o tubarão ficava preso e era então puxado para
fora do mar.
Segundo relato de Simão de Vasconcelos, 27 os goitacases ocupavam uma
das áreas mais notáveis e aprazíveis de toda a Colônia, com campinas extensas
quase tão rasas como o mar, toda recortada de verdes e de inúmeras lagoas. N o
meio de uma delas mal se enxergava a terra, habitada por um número sem fim de
patos e aves variadas. Esta terra, tida como o Paraíso, estava, portanto, defendida
por povos bárbaros e selvagens, que resistiam ao contato com o europeu.
E m 1531, Pero de Góis recebeu a área em donataria, chamada de capitania
de São Tomé. Possuía, então, uma extensão de trinta léguas de costa (264km)
entre as de São Vicente e do Espírito Santo. Contam que Pero de Góis foi expulso
pelos goitacases em suas duas tentativas de ocupação, desistindo, por fim, em
1546. Gil de Góis, seu filho, sucedeu-lhe na donataria, renunciando, porém, em
1619, em favor da Coroa portuguesa. J á então era a capitania denominada de
Paraíba do Sul e não mais de São Tomé. A fama do gentio da terra afastava os que
pudessem ter interesse na ocupação.
E m 1627, parte da Paraíba do Sul foi doada, em regime de sesmarias, aos
capitães Miguel Aires Maldonado, Gonçalo Correia, Duarte Correia, Antônio
Pinto, João de Castilho, Manoel Correia e Miguel Riscado, denominados " O s
Sete Capitães". Receberam-nas por terem prestado serviços à Coroa, nas lutas
contra os franceses e seus aliados indígenas. Repartiram as terras entre si e inicia-
ram a construção de currais, atividade então priorizada.
A descrição desta eficaz tentativa de ocupação das terras dos goitacases
encontra-se num roteiro escrito por Miguel Aires Maldonado, relatando toda a
viagem de reconhecimento, entre 1632 e 1634. Segundo ele, o grupo explorador
armou-se para enfrentar a terrível violência dos índios. N o tão esperado contato,
foram recebidos com festejos e presentes, o que provocou grande surpresa. A ex-
plicação de Maldonado para o fato foi a de que aqueles não eram os índios real-
mente selvagens, os quais estariam na parte norte da capitania, e não naquela
onde se iriam estabelecer. Era a única explicação possível. A cada vez que o branco
se aproximava, a imagem do gentio terrível transportava-se para lugares mais
remotos, longe do olhar do colono. Persistia, assim, a lenda sobre os homens-
animais. Relatos posteriores incumbiram-se de minimizar a ferocidade dos goitacás.
A observação de métodos de vida muito diferentes do que se conhecia na
Europa criou visões especialmente coloridas sobre os habitantes das Américas. 2 8
Isto serviu, em certa medida, para o retardamento da ocupação de inúmeras áreas
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coloniais, principalmente as que não se situavam em locais imediatamente cobi-


çados pelos colonos. A partir do momento em que os interesses eram despertados,
o destino dos índios foi c o m u m a todos; mesmo com lutas sangrentas ou grandes
resistências não escaparam da assimilação ou do extermínio.
N ã o foram ali se estabelecer os "Sete Capitães". Permaneceram alguns em
seus engenhos, na Guanabara e em Tapacorá (assim denominada a atual Região
dos Lagos fluminense), ocupando a planície, na qualidade de arrendatários dos
sesmeiros, pessoas dos mais variados graus de riqueza.
Era governador do Rio de Janeiro, nessa época, o general Salvador Correia
de Sá e Benevides, português influente no reino. Historiadores locais, como Lamego,
entre outros, 2 9 contam que alegando não terem sido as terras da Paraíba do Sul
demarcadas em seu interior, o general ameaçou os sesmeiros de que seriam resti-
tuídas ao domínio da Coroa, caso o fato fosse levado ao conhecimento de Portu-
gal. Propôs, então, um acordo: uma nova divisão das terras, o que foi concluído
com uma escritura de composição, em 9 de março de 1648. Por esta escritura
foram as terras divididas em 12 quinhões, assim distribuídos: 4,5 para os capitães
e seus herdeiros, 3 para o general Salvador Correia de Sá e Benevides, 3 para os
padres da C o m p a n h i a de Jesus, 1 para o capitão Pedro de Souza Pereira e 0,5 para
os frades de São Bento. 3 0 A entrada de brancos em território tido como habitado
por índios ferozes produzia frutos. A existência de solos férteis e, principalmente,
de pastagens naturais para o gado interessou a várias pessoas. O s índios estavam
teoricamente distantes desses campos. O general e as ordens religiosas puderam
apossar-se das terras, cuidando também da pecuária.
Temos, no caso, o móvel da primeira fase da ocupação da terra pelo ho-
mem branco que atingiu algumas partes dos campos: a criaçãoJ.e_gado. Segundo
alguns autores, a opção pela criação de gado ainda se deu pela existência de índios
bravios. 31 Animais são bens fáceis de ser transportados, o que não é o caso da
agricultura. M e s m o sendo área de solos extremamente férteis para a lavoura
canavieira, durante praticamente cem anos a pecuária predominou. A existência
de índios, mesmo tidos como ferozes, nunca impediu, de maneira suficientemen-
te forte, a implantação de atividades econômicas no Brasil. Podia ser, no máximo,
causa de relativo e curto retardamento. Q u a n d o se tornou efetivamente interes-
sante, as terras dos C a m p o s dos Goitacases foram ocupadas, com ou sem índios.
Outras são as explicações pela opção da pecuária.
E m primeiro lugar, pastos naturais colocavam-se como condicionamento
geográfico de peso para introdução da pecuária. Al ie-se o fato de existir um mer-
cado consumidor próximo, o recôncavo da Guanabara, pontilhado de engenhos,
INTRODUÇÃO 31

necessitados de animais de serviço e de corte. Economicamente, tornava-se inte-


ressante a criação de gado.
E m segundo lugar, o domínio dos Asseca somava ainda mais um dado. E m
1674, o general Salvador Correia de Sá e Benevides conseguiu para seu filho,
Martim Correia de Sá, recentemente intitulado visconde de Asseca, a doação da
capitania da Paraíba do Sul. Protestos exacerbados partiram dos heréus (assim
denominados pelos contemporâneos os descendentes dos "Sete Capitães") e de-
mais proprietários, entre eles, as ordens religiosas. A donataria, entretanto, tor-
nou-se uma realidade, assim como as lutas, cada vez mais constantes e agressivas.
O domínio formal das terras da região por homens que queriam usufruir rendas
de taxas, impostos e aluguéis, aí incluídos todos os grandes sesmeiros, configurava
uma situação instável para o ocupante não proprietário, mas produtor efetivo. Ao
lavrador interessava uma relativa estabilidade na terra em que trabalhava. O gado
reafirma-se, assim, como opção mais viável, no caso de possíveis expulsões, devi-
do à sua característica de mobilidade. Historicamente, caracterizou-se um quadro
precário até que a relação homem/terra viesse a estabelecer majoritariamente uma
atividade agrícola.
O período que se seguiu foi marcado por grandes_hutas entre os diversos
interesses nas terras da Paraíba do Sul. Nesse meio tempo, o p r o b l e m a indígena"
encontrou a mesma solução de quase todas as áreas brasileiras, com o controle ou
extinção violenta do índio pelo branco europeu. As ordens religiosas tornaram-se
o motor da "pacificação" dos "terríveis" goitacás que, na realidade, não se mostra-
ram tão terríveis assim. Criou-se, em finais-do século XVII, a aldeia de Santo
Antônio de Guarulhos, na margem esquerda do rio Paraíba, justamente na área
onde Miguel Aires Maldonado acreditava estarem os ferozes goitacás.
Enquanto os índios enquadravam-se na nova conjuntura, imposta pelo
homem branco, os currais foram se espalhando pela planície campista e a ocupa-
ção tornou-se cada vez mais densa, assim como as rivalidades entre proprietários e
ocupantes de terras sob os mais variados títulos.
Desde a concessão da donataria ao primeiro visconde de Asseca, a situação
tornou-se mais conflituosa. As crises por que passou a região atingiram uma tal
gravidade que, em 1713, houve o primeiro seqüestro da capitania, que retornou
ao domínio da Coroa. O rei devolveu a donataria aos herdeiros do visconde, em
1725. Tributações tidas pela população como exageradas, feitas pelo donatário e
demais sesmeiros sobre as terras ocupadas por posse, arrendamento ou aforamento,
culminaram numa grande movimentação popular que resultou em lutas armadas,
na região, e diplomáticas, em Portugal.
32 A C O L Ô N I A KM M O V I M E N T O

O s opositores assim se constituíram: de um lado, grandes proprietários,


muitos absenteístas, incluindo ordens religiosas; de outro, produtores locais ricos
ou enriquecidos, proprietários ou não das terras que ocupavam, pleiteando o uso
das terras para si, livres de taxas, segundo eles, abusivas. N a realidade, o que
ocorreu não foi uma luta do "povo" pobre campista contra opressores ricos, como
quis fazer crer Alberto Lamego. 3 2 O s confrontantes eram, a meu ver, combatentes
poderosos: uns, pela influência no reino e pela adoção de termos europeus de
taxações das "glebas", onerando pesadamente seus ocupantes; outros, produtores
y locais escravistas, influentes e importantes para a ocupação do solo, ainda tão cara
aos interesses do projeto de colonização da Coroa, naquele momento.
E m 1733, a capitania reverteu novamente ao domínio da Coroa, para
retornar, em 1739, aos Asseca. O poder de ambos os lados era tal que a C o r o a
portuguesa oscilava entre concessão e retirada da donataria. U m levante armado,
em 1748, tendo como um dos principais líderes uma mulher, Benta Pereira de
Souza, com 73 anos de idade, e seus filhos (os Manhães Barreto), acarretou a
ocupação da região por tropas do reino, que sitiaram a vila até 1752. Logo após,
em Portugal, o rei decidiu-se, finalmente, pela compra da capitania ao donatário,
com a população dos C a m p o s arcando com parte da soma fixada. O s Asseca
mantiveram, na área, suas terras e produções, em forma de morgadio, só saindo,
realmente, em 1848, após a lei de extinção de morgadio, quando venderam seus
bens a pessoas da região.
Efetivamente, após a retirada da donataria, os C a m p o s dos Goitacases se
transformaram em grande chamariz de homens e capitais. O processo de "liberta-
ção do domínio Asseca", na primeira metade do século XVIII, deu-se ao mesmo
tempo que se implantaram, num ritmo relativamente lento, canaviais e engenhos.
A possibilidade de se ter mais uma área açucareira colonial pareceu tornar-se um
argumento poderoso para a retirada da donataria dos Asseca e a "pacificação" dos
ânimos. A segurança maior do domínio da terra, a médio e a longo prazos, fixou
o homem e habilitou-o a exercer uma atividade agrícola, mesmo não sendo ele o
proprietário legal.
Aliado a este fato, ocorreram dois movimentos intrinsecamente relaciona-
dos, que deram um cunho explicativo mais "econômico" à proliferação acelerada
de engenhos na área, na segunda metade do século XVIII. Primeiro, a decadência
da produtividade do açúcar no recôncavo da Guanabara, cujas terras resistiam a
novas plantações. Investimentos antes direcionados para esta produção foram li-
berados e passaram a financiar a de outros lugares. Segundo, a transferência da
capital da Colônia, de Salvador para o Rio de Janeiro, provocando uma maior
INTRODUÇÃO 33

dinamização da cidade e seus recôncavos, o que veio a se somar ainda a um rela-


cionamento direto com as minas de ouro, colocando-se, então, Minas e Rio,
como consumidores em potencial do açúcar dos Campos. Outro fato que pode
ter ajudado na transformação dos pastos em canaviais foi a expulsão dos jesuítas,
cujas terras, extensíssimas, eram destinadas a uma grande criação de gado. C o m a
saída dessa Ordem, seus bens territoriais foram adquiridos em leilões, por parti-
culares, que acompanharam o rush e transformaram grande parte em canaviais.
N o início do século XIX, quase nenhum gado era exportado. O mercado
local incumbia-se de receber toda produção. Algumas áreas se mantiveram com
pecuária, principalmente as de solos menos aptos à produção canavieira — o
litoral e suas restingas. O resto da planície, de solo aluvional muito fértil, foi
pontilhado de engenhos que, segundo alguns, impressionavam pelo pequeno por-
te, se comparados aos do Nordeste açucareiro. 33
O século XVIII foi um período de transição da pecuária para a cana-de-
açúcar, processo concluído em inícios do século XIX, ao mesmo tempo que marca,
o fim dos grandes conflitos pelo domínio da região. A partir da década de 1750, a
Paraíba do Sul tornou-se interessante para a agroexportação. Tornou-se lugar de
convergência de homens das mais diversas origens e riqueza. Coloca-se, portanto,
como lugar de estudo adequado para a compreensão das formas como a organiza-
ção de uma sociedade escravista e colonial produzia e reproduzia áreas de frontei-
ra, reafirmando a cada momento a mobilidade espacial como ponto de partidae de
chegada dos muitos homens que por aqui estiveram por muito ou pouco tempo.
Será dentro dos^s paços geográfico e cronológico anteriormente definidos
que analisarei alguns aspectos da vida cotidiana de homens que foram levados ou
se dirigiram para os Campos dos Goitacases, durante todo o século XVIII, através
de uma documentação numerosa e diversificada, como os inventáriospost-mortem,
testamentos, registros paroquiais de batizado, casamento e óbito, processos de f
banhos (e de dispensas de impedimentos) matrimoniais, mapeamentos agrários e
populacionais e literatura de época. A opção foi privilegiar fontes passíveis de
seriação e foi através do cruzamento dos dados dessas fontes que pude perceber,
muitas vezes de forma bastante impressionista, noutras bem mais nítidas, as for-
mas de viver de alguns de nossos homens do período colonial. A ênfase recaiu
sobre o século XVIII, mas foram feitas incursões, sempre que possível — e de
maneira comparativa — nos anos antecedentes e subseqüentes.
Dividi o trabalho em seis capítulos.
O primeiro faz um balanço das principais abordagens sobre a história da
família, no Brasil, eixo das considerações que permeiam os capítulos subseqüen-
34 A C O L Ô N I A KM M O V I M E N T O

tes, incluindo acesso ao casamento, legitimidade de crianças, virgindade pré-nupcial,


exposição de "enjeitados" em casas particulares e filhos "mestiços", entendendo
que, não custa repetir, a família teve um enorme peso nos cálculos sociais, cultu-
rais e econômicos dos colonos e, mesmo, dos escravos.
N o s quatro capítulos seguintes, dividi homens e mulheres em grupos
sociais, desde os saídos do cativeiro, passando pelos mais ricos e pelos que po-
dem ser considerados c o m o socialmente detentores de prestígio, posto que
pobres, até chegar nos escravos e nas possibilidades que se lhes davam ou con-
quistavam de formar famílias. O capítulo II trata dos "Andarilhos da sobrevi-
vência", homens livres e pobres, que têm na extrema mobilidade espacial sua
principal característica. Analiso as formas costumeiras de acesso à terra e ao
escravo, relacionando-as com a migração e a paradoxal busca pela formação de
famílias, contemporaneamente fundamental para a sobrevivência e estabilidade
em zona agrária.
O terceiro capítulo aborda a elite agrária local, sua forma privilegiada de
enriquecimento — o comércio — e as estratégias usadas para a criação, manuten-
ção e/ou ampliação do poder político, econômico e social, incluindo alianças ma-
trimoniais. O capítulo IV trata dos que não podem ser considerados pobres nem
componentes da elite, numericamente expressivos, e explica os motivos que os
mantêm como médios produtores sem possibilidade de enriquecimento pela ati-
vidade agrícola — os sistemas de crédito e de herança do reino português são eixos
privilegiados de análise. O s escravos são estudados no capítulo V, onde analiso a
demografia, a possibilidade senhorial de acesso ao casamento legal — diretamente
ligado ao tamanho da escravaria em que se inseriam — e os motivos que os
levavam a buscar a legitimação do matrimônio pelos moldes da religião católica,
sempre que lhes era dada esta possibilidade; trato, também, das diferenças de
costumes entre os séculos XVIII e X I X , tanto no matrimônio como nos procedi-
mentos no momento da morte.
O último capítulo refere-se ao espaço doméstico — as "casas de morada" — ,
local emblemático da vida na Colônia, fosse ela rural ou urbana. Lugar tido como
absolutamente privado, hoje, ligado intrinsecamente ao sentido de casa/dormitó-
rio ou casa/descanso, no período colonial era o conjunto onde se passava a maior
parte do tempo. N a d a tinha de relacionado a privado ou só a descanso ou lazer.
A referência a "casas" significava a proximidade do local de beneficiamento da
produção, das senzalas (quando havia), das casas de agregados ou arrendatários,
das casas de filhas, das casas onde se cozinhava e se dormia, dos animais ou de
lavouras em torno delas, de paióis e casas de despejo, onde se formava um comple-
INTRODUÇÃO 35

xo que fazia com que a referência à moradia fosse, sempre, no plural. O s materiais
empregados, as divisões, o que cercava a habitação em determinado tipo de ativi-
dade econômica e a proximidade física e cotidiana entre livres e escravos explicam
muito de uma sociedade que baseava sua verdade no "ouvi dizer" ou o no que era
"público e notório".
Vejamos, portanto, um pouco dessa sociedade.
36 A COLÔNIA KM MOVIMENTO

NOTAS

1 Cf. Prado Júnior (1971); Furtado (1959); Novaes (1979); Arruda (1980).
2 Segundo João Fragoso, "boa parte da polêmica (...) se ressentia, quando do seu
surgimento, nos anos 70, de pesquisas de base". Fragoso (1990), p. 87.
3 Cf. Cardoso (1973(a) e 1973(b)); Gorender (1978).
4 Cf. Arruda (1980); Mello (1982). Para uma análise historiográfica, ver Fragoso (1992).
5 Cf. Dias (1972); Martins (1983); Lenharo (1979); Gorenstein (1978); Maxwell (1978);
Mattoso (1978); Silva (1991); Fragoso (1990).
6 Cf. Martins (1983); Guimarães & Reis (1986), Carlos Magno; Reis, Liana Maria.
Agricultura e escravidão em Minas Gerais (1700/1750). In Revista do Departamento de
História, U F M G , Belo Horizonte, n° 2, junho de 1986.
7 A maior parte dos trabalhos, no Rio de Janeiro, foi desenvolvida por influência dos
professores dra. Maria Yedda Leite Linhares e dr. Ciro Flamarion Santana Cardoso.
8 Cf. Muniz (1979); Mattos de Castro (1987); Faria (1986); Fragoso (1983); Graner
(1985); Motta (1989); Saleto (1985).
9 Cf. Cardoso (1988).
10 Cf. Fragoso (1988).
11 Cf. Fragoso (1990).
12 Cf. Fragoso (1992).
13 "Cidade da Bahia" foi a denominação encontrada em inventários e testamentos para
designar a cidade de Salvador.
14 Cf. Silva (1991).
15 Cf. Schwartz (1988); Florentino (1991); Silva (1991); Fragoso (1990); Lara (1988).
16 Cf. Souza (1986); Vainfas (1989); Priore (1990); Lima (1987); Reis (1991); Mott
(1988); Campos (1987 a e b ) .
17 Para uma discussão sobre história das mentalidades e história cultural ver Vainfas,
Ronaldo. História das mentalidades e história cultural. In Cardoso & Vainfas (1997).
18 Cf. Priore (1997); Novaes (1997).
19 Cf. Samara (1989); Correia (1982); Marcílio (1973) e (1986). Para um balanço
historiográfico ver Faria, Sheila de Castro. História da família e demografia histórica.
In Cardoso & Vainfas (1997).
20 Cf. Kusnesof (1986); Nazzari (1991); Metcalf (1983).
21 Cf. Chalhoub (1989); Lara (1988); Slenes (1988), (1994) e (1991-92); Karash (1987).
22 Cf. Slenes (1987).
23 Cf. Le Goff & Nora (1976).
INTRODUÇÃO 37

24 N ã o causa estranheza, portanto, que trabalhos sobre São Paulo sejam em maior núme-
ro do que os de outras áreas. Em relação à escravidão indígena, posso ressaltar o exce-
lente estudo de Monteiro (1994).
25 N ã o há uniformidade para a denominação da região nos documentos de época, nem
mesmo para a vila de São Salvador, criada em 1673 e instalada em 1676. Em inventá-
rios post-mortem, por todo século XVIII, ela é indicada como "Vila de São Salvador da
Paraíba do Sul" (cuja grafia original era "Villa de Sam Salvador da Parayba do Sul"),
ultrapassando o período em que era sede da "Capitania da Paraíba do Sul". Segundo a
"Legislação sobre os Municípios, Comarcas e Distritos de 1835 a 1925" (Cf. Oliveira
(s/d), ver fontes impressas), a partir de 1753 a antiga capitania foi incorporada à capi-
tania do Espírito Santo, retornando à já então denominada província do Rio de Janeiro
em 1832, obtendo o título de comarca em 1833. Em 28 de março de 1835 a "Vila de
São Salvador dos C a m p o s " foi elevada à categoria de " C i d a d e de C a m p o s dos
Goitacases". Apesar do nome "Paraíba do Sul" ter custado a entrar em desuso, em
documentos de meados do século XVIII há a convivência com outros, como o de "Vila
de São Salvador dos Campos dos Goitacases". Cf. Lamego (1913), vol. 2, em inúmeras
citações. Couto Reis, em 1785, a denomina de "Distrito dos Campos Goaitacas". Cf.
Reis (1785) (ver fontes manuscritas).

26 Segundo Joaquim Norberto, habitavam essa área várias tribos, entre elas os goitacá-
guaçu, goitacá-jacoritó, goitacá-mopie e os guarus. Cf. Silva (1854) (ver fontes impres-
sas).

27 Vasconcelos, Simão de. Vida do padre João de Almeida, da Companhia de Jesus, na


província do Brasil. Apud Feydit (1979), p. 19.
28 Cf. Souza (1987), principalmente capítulo 1 e Raminelli (1996).
29 Cf. Lamego (1913); Feydit (1979).
30 Cf. Lamego (1913), vol. 1, p. 45 a 49.
31 Cf. Bernardes (1957); Lamego Filho (1945).
32 Cf. Lamego (1913).
33 Cf. Feydit (1979); Lamego (1913).
C O L E Ç Ã O HISTÓRIAS D O BRASIL

A c o l e ç ã o HISTÓRIAS DO BRASIL b u s c a divulgar r e s u l t a d o s

expressivos da pesquisa histórica produzida no país nos últimos

anos. Inclui, assim, contribuições valiosas e indicativas da

renovação de nossa historiografia. Renovação vigorosa, vale dizer,

p o r q u e ancorada na pesquisa sistemática de fontes primárias, na

descoberta de novos problemas de investigação e na exploração

de territórios durante muito tempo eclipsados pelos estudiosos.

T u d o isso sem abrir m ã o do diálogo crítico c o m as interpretações

clássicas da história do Brasil, em sintonia c o m os debates e

polêmicas da historiografia internacional.

T Í T U L O S PUBLICADOS:

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D A S CORES D O SILÊNCIO: OS SIGNIFICADOS DA LIBERDADE N O S U D E S T E


ESCRAVISTA - B R A S I L SÉCULO X I X
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A C O L Ô N I A EM M O V I M E N T O : FORTUNA E FAMÍLIA N O COTIDIANO


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A H I S T Ó R I A CONTADA: CAPÍTULOS DE HISTÓRIA SOCIAL DA LITERATURA


NO BRASIL.
Sidney C h a l h o u b e Leonardo A f f o n s o de M i r a n d a Pereira (org.)

N A SENZALA UMA FLOR: AS ESPERANÇAS E RECORDAÇÕES NA


FORMAÇÃO DA FAMÍLIA ESCRAVA
Robert W. Slenes