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Medida e Integração

Manuel Ricou
Departamento de Matemática
Instituto Superior Técnico

Abril 2009
Prefácio
Rb
Mas antes do mais: o que entendemos por a f (x)dx?
Bernhard Riemann, 1854

A pergunta acima foi formulada por Bernhard Riemann no trabalho em


que definiu o que hoje chamamos o “integral de Riemann”. O objectivo
do presente texto é, sobretudo, o de expor respostas que esta pergunta tem
tido no decurso dos últimos 150 anos, e sugerir, mesmo que parcialmente, o
enorme impacto que as correspondentes investigações tiveram na evolução
da Matemática, durante este mesmo perı́odo.
A compreensão de qualquer área da Matemática é facilitada pelo recon-
hecimento prévio do contexto que a viu nascer. No caso da Teoria da Inte-
gração, esse contexto abrange um perı́odo temporal particularmente longo.
Na realidade, diversos problemas de Geometria e Estática, resolvidos na
Antiguidade Clássica com recurso ao chamado “método de exaustão”, e
envolvendo o cálculo de determinadas áreas, volumes, e centros de massa,
correspondem, na terminologia moderna, ao cálculo de integrais. Por esta
razão, a Teoria da Integração é certamente uma das mais antigas áreas da
Matemática, e beneficia de raı́zes heurı́sticas muito sugestivas, que ajudam
ao seu entendimento.
A Teoria da Integração começou a tomar a sua forma moderna no século
XVII, com os trabalhos de Newton e Leibnitz, e de percursores como Fermat
e Barrow. Data deste perı́odo a surpreendente descoberta que, mais do que
qualquer outra, marca o nascimento do Cálculo Infinitesimal: a integração e
a diferenciação são operações inversas uma da outra, o que ainda hoje des-
crevemos no que dizemos serem os “Teoremas Fundamentais do Cálculo”.
Datam também deste perı́odo as primeiras aplicações do Cálculo a questões
cientı́ficas fundamentais, muito em especial a Teoria da Gravitação Univer-
sal, do próprio Newton, um marco ı́mpar na história do pensamento humano.
Foi apenas nos finais do século XVIII que a sofisticação dos problemas
a estudar se começou a revelar incompatı́vel com a informalidade e falta de
rigor com que até aı́ tinham sido tratadas as noções mais básicas do Cálculo
Infinitesimal. Nos primeiros anos do século XIX, o grande matemático
Cauchy iniciou um cuidadoso exame das ideias mais centrais do Cálculo,
como as de limite, derivada, integral, e continuidade, efectivamente lançando

i
ii Prefácio

as bases da nossa práctica actual. Neste processo, apresentou a primeira


definição satisfatória de integral, se bem que restringindo a sua aplicação a
funções contı́nuas. O desenvolvimento da Teoria da Integração acelerou-se
novamente a partir dos meados do século XIX, em especial a partir da pu-
blicação do trabalho de Riemann que mencionámos, desta vez sob a pressão
de difı́ceis problemas de natureza teórica, suscitados pelas ideias de Fourier
sobre as séries que hoje têm o seu nome. Muito naturalmente, a questão de
saber quais as funções que podem ser representadas por séries de Fourier,
originada por sua vez por questões mais “práticas” relativas à resolução das
principais equações diferenciais parciais da Fı́sica Matemática, levava ine-
vitavelmente a uma reapreciação da própria noção de “função”. Requeria
também a integração de funções sobre as quais não parecia razoável impôr
condições de continuidade, sob pena de se desvirtuarem alguns dos princi-
pais objectivos das investigações em curso. A pergunta de Riemann que
citámos acima é um reflexo deste tipo de preocupações.
A Teoria da Integração tornou-se desde então um motor importante na
crescente axiomatização e abstracção da Matemática, estas últimas parti-
cularmente evidentes desde os finais do século XIX. A tı́tulo de ilustração,
o clássico Teorema de Riesz-Fischer, demonstrado sob diversas formas no
perı́odo 1907-1910, revelou uma profunda analogia entre, por um lado, sofisti-
cadas construções matemáticas formadas por (classes de equivalência de)
funções somáveis e, por outro, objectos tão “simples” como a recta real,
estudados há mais de 25 séculos. Em certo sentido, este teorema mostra
que as funções somáveis “no sentido de Lebesgue” completam as funções
integráveis “no sentido de Riemann”, precisamente como os números reais
completam os números racionais. Resultados desta natureza foram, e são,
convites abertos à criação e estudo de novas entidades abstractas, que per-
mitem a exploração deste tipo de analogia de forma sistemática, rigorosa, e
muito eficiente do ponto de vista intelectual.
Hoje, a Teoria da Integração é certamente um dos blocos fundamentais
da Matemática, e é especialmente relevante para múltiplas das suas áreas
fundamentais e aplicadas, como a Análise Funcional, o Cálculo de Variações,
as Equações Diferenciais, e a Teoria das Probabilidades. As suas ideias
repercutem-se em algumas das teorias mais centrais da Fı́sica Moderna, e são
prevalentes no esclarecimento de questões oriundas da Engenharia. Afinal
de contas, o “espaço de estados” do átomo de hidrogénio, o mais simples
átomo da natureza, é um espaço de (classes de equivalência de) funções
de quadrado somável no sentido de Lebesgue, e o exemplo mais clássico
na literatura actual de um problema variacional de “descontinuidade livre”
resulta de trabalhos sobre reconhecimento de imagens por computador.(1 )
Pelas razões acima, a Teoria da Integração é naturalmente uma parte
1
D.Mumford e J.Shaw, Boundary Detection by Minimizing Functionals, IEEE Confer-
ence on Computer Vision and Pattern Recognition, San Francisco 1985.
Prefácio iii

importante da formação dos alunos da Licenciatura em Matemática Apli-


cada e Computação (LMAC) do IST, e foi sobretudo para estes alunos que o
presente texto foi escrito. O ensino da Teoria da Integração no contexto do
3o ano da LMAC sempre representou para o autor um desafio e uma opor-
tunidade muito interessantes, que se pode resumir nas seguintes questões:

• Como conciliar a necessidade prática de apresentar uma área difı́cil e


extensa, indispensável à formação dos alunos, sem a desligar da sua
base intuitiva, e sem a tornar demasiado difı́cil para a maioria dos
estudantes?

• Como transformar o nı́vel de abstracção da teoria, de um obstáculo


à sua compreensão, em uma oportunidade de entender melhor o cres-
cente papel da abstracção na Matemática contemporânea?

• Como aproveitar o estudo desta teoria para apresentar a Matemática


não como um saber estático, mas como um processo dinâmico e apaixo-
nante de construção de poderosas metáforas da realidade fı́sica, de
crescente sofisticação e subtileza?

Na sua modesta tentativa de responder a estas questões, o autor socorreu-


se com frequência de ideias e comentários dos principais criadores da teoria,
em especial Henri Lebesgue e Emile Borel. Em particular, o texto está
escrito, mesmo nas secções mais abstractas, no respeito rigoroso pelo que
Lebesgue chamava a “definição geométrica” do integral, que não é outra
senão a ideia, desde sempre muito satisfatória do ponto de vista intuitivo,
que, para qualquer função não-negativa f ,

Integral da função f = Medida da região de ordenadas de f .

Entendemos aqui a palavra “medida” como significando “área”, “volume”,


ou o análogo apropriado destas noções em espaços de dimensão mais elevada.
A apresentação da teoria não segue assim o percurso que é hoje mais
tradicional, e é importante entender que alguns resultados básicos assumem
por vezes um papel diferente, menos convencional, no seu desenvolvimento:
veja-se como ilustração o Teorema de Fubini-Lebesgue, tal como é enunciado
e demonstrado no Capı́tulo 3, para a medida de Lebesgue em RN . É apenas
após a sua apresentação que encontramos neste texto, pela primeira vez, o
resultado, aqui um teorema, que é usualmente tomado como a definição de
“função Lebesgue-mensurável”. A técnica que seguimos permite ainda uma
demonstração muito simples dos resultados clássicos sobre “limites e inte-
grais”, o teorema de Beppo Levi, ou da Convergência Monótona, o lema de
Fatou, e o teorema de Lebesgue, ou da Convergência Dominada, e evidencia
a sua relação directa com as ideias mais básicas da Teoria da Medida. Por
outras palavras, revela que estas propriedades são essencialmente a chamada
iv Prefácio

“σ-aditividade”, esta uma propriedade comum a qualquer medida, e obser-


vada e registada com muita clareza por Borel.
A exposição inspira-se em múltiplos aspectos no desenvolvimento histó-
rico da Teoria, e esforça-se por deixar clara a continuidade entre as teorias de
integração de Riemann e de Lebesgue. Em especial, e repetindo fielmente o
próprio Lebesgue, a sua teoria é apresentada como uma evolução “natural”
da de Riemann, sobretudo enquanto adaptação de ideias de Peano e Jordan,
entretanto melhoradas por Borel. Discutimos algumas das principais difi-
culdades técnicas da teoria de Riemann, e a respectiva resolução pela teoria
de Lebesgue, em especial as relacionados com os Teoremas Fundamentais do
Cálculo. Estes são aqui tratados com amplo recurso a técnicas e resultados
da Teoria da Medida, i.e., com base no “modelo geométrico” da integração.
Neste contexto, o grande teorema de diferenciação de Lebesgue é provado
por uma adaptação simples do belo argumento de Riesz (o seu “Lema do
Sol Nascente”), mas a demonstração do teorema de Banach-Zaretski afasta-
se bastante das técnicas usadas por Banach. As múltiplas referências a
Cantor feitas neste texto devem ainda recordar-nos que a sua genial Teoria
dos Conjuntos é mais um exemplo de abstracções fundamentais entradas na
Matemática em grande parte pela necessidade de enunciar e estudar com
clareza questões suscitadas pela Teoria da Integração.
A apresentação dos resultados principais da Teoria, incluindo o Teorema
de Radon-Nikodym-Lebesgue, o Teorema de Fubini-Lebesgue, e os Teoremas
de Representação de Riesz, não faz qualquer concessão à tentação de tornar
estas magnı́ficas construções intelectuais mais simples do que efectivamente
o são.
Naturalmente apenas a leitura atenta do texto poderá revelar se este
responde de forma satisfatória às preocupações acima manifestadas, e se
representa um equilı́brio razoável entre os diversos objectivos que pretende
atingir. Ao autor resta somente desejar que outros encontrem na sua leitura
um prazer comparável à satisfação que a sua escrita lhe trouxe.
Lisboa, Fevereiro de 2008
Manuel Ricou
Departamento de Matemática
Instituto Superior Técnico
1096 Lisboa Codex
PORTUGAL
Manuel.Ricou@math.ist.utl.pt
Conteúdo

1 Integrais de Riemann 7
1.1 Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN . . . . . . . . . 8
1.2 Álgebras, Semi-Álgebras e Funções Aditivas . . . . . . . . . . 19
1.3 Conjuntos Jordan-Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
1.4 O Integral de Riemann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
1.4.1 O Espaço das Funções Integráveis . . . . . . . . . . . 44
1.4.2 Integrais Indefinidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
1.4.3 Continuidade e Integrabilidade . . . . . . . . . . . . . 52
1.5 Os Teoremas Fundamentais do Cálculo . . . . . . . . . . . . . 60
1.6 O Problema de Borel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71

2 A Medida de Lebesgue 89
2.1 Espaços Mensuráveis e Medidas . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
2.2 A Medida de Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
2.3 Os Espaços de Borel e de Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . 114
2.4 Conjuntos Não-Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
2.5 Medidas Exteriores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139

3 Integrais de Lebesgue 149


3.1 O Integral de Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150
3.2 Limites, Mensurabilidade e Integrais . . . . . . . . . . . . . . 162
3.3 O Teorema de Fubini-Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . . . 171
3.4 Funções Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186
3.5 Funções Somáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
3.6 Continuidade e Mensurabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . 209

4 Outras Medidas 217


4.1 A Decomposição de Hahn-Jordan . . . . . . . . . . . . . . . . 218
4.2 A Variação Total de uma Medida . . . . . . . . . . . . . . . . 228
4.3 Medidas Absolutamente Contı́nuas . . . . . . . . . . . . . . . 234
4.4 Medidas Regulares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
4.5 Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R . . . . . . . . . . . . . . 245
4.6 Funções de Variação Limitada . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255

v
vi Prefácio

4.6.1 Funções Absolutamente Contı́nuas . . . . . . . . . . . 263


4.7 Os Teoremas Fundamentais do Cálculo em R . . . . . . . . . 268
4.7.1 O Teorema de Diferenciação de Lebesgue . . . . . . . 268
4.7.2 A Decomposição de Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . 277
4.7.3 Diferenciação de Funções de Variação Limitada . . . . 285

5 Outros Integrais de Lebesgue 295


5.1 A Medida µ ⊗ m . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296
5.2 Funções Mensuráveis e Integrais . . . . . . . . . . . . . . . . . 309
5.3 O Teorema de Radon-Nikodym-Lebesgue . . . . . . . . . . . 319
5.4 Os Espaços Lp . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 327
5.5 Teoremas de Representação de Riesz . . . . . . . . . . . . . . 338
5.6 Teoremas de Egorov, Lebesgue e Riesz . . . . . . . . . . . . . 352
5.7 O Teorema de Fubini-Lebesgue . . . . . . . . . . . . . . . . . 358

Índice Remissivo 368


Capı́tulo 1

Integrais de Riemann

A teoria da integração evoluiu rapidamente na segunda metade do século


XIX. Por um lado, e sobretudo como resultado das descobertas fundamen-
tais de Fourier sobre séries trigonométricas, hoje ditas séries de Fourier, a
dificuldade dos problemas a esclarecer com esta teoria ultrapassou, defini-
tivamente, os recursos pouco sofisticados da teoria existente, até então as-
sente, essencialmente, numa base informal e intuitiva. Em 1854, quando
Riemann quis caracterizar as funções que podem ser representadas por séries
de Fourier, foi-lhe necessário analisar a noção de “função integrável” à luz
de mais exigentes critérios de generalidade, exactidão e rigor. A definição
que apresentou ainda hoje deve ser conhecida por quem quer que deseje
compreender os conceitos mais centrais da Análise Matemática.
Por outro lado, em paralelo com estes estudos de Riemann, mas ainda no
contexto da escola Alemã, o genial Cantor descobriu a Teoria dos Conjuntos
e, simultaneamente, atingiu-se um novo patamar de precisão na forma como
são definidos os próprios números reais. Ao procurar respostas a questões
suscitadas tanto pela nova teoria de Riemann, como pela teoria de Fourier,
retomaram-se problemas tão antigos como a própria Matemática, conheci-
dos da Geometria elementar, mas que podiam agora ser estudados à luz
destas novas ideias. O que é a área de uma figura plana? O que é o volume
de um sólido? Qualquer figura plana limitada tem área? Qualquer subcon-
junto de uma recta tem comprimento? É possı́vel calcular, por exemplo,
o comprimento do conjunto dos números racionais? Uma primeira solução
para este tipo de problemas foi descoberta pelo matemático italiano Peano,
já perto do final do século XIX. O próprio Peano compreendeu a relação di-
recta entre a sua teoria, que definia a medida de conjuntos, e a de Riemann,
que definia o integral de funções, e sabia que as duas teorias são, em certo
sentido, completamente equivalentes.
Neste primeiro capı́tulo, estudamos sobretudo as ideias de Riemann e de
Peano, mas não seguimos a cronologia da sua descoberta, nem usamos sem-
pre os conceitos exactamente como originalmente definidos. Procuramos,

7
8 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

em vez disso, evidenciar o mais directamente possı́vel a sua equivalência.


Apontaremos também algumas das deficiências técnicas que apresentam e
que estão na origem da sua substituição, já no século XX, pela teoria des-
coberta por Henri Lebesgue.
Uma observação simples sobre terminologia: é comum usar as palavras
“medida” ou “conteúdo”, em vez de “comprimento”, “área” ou “volume”,
porque estas últimas estão irremediavelmente associadas à dimensão dos
conjuntos em causa (respectivamente, um, dois ou três), e a teoria que aqui
estudamos é basicamente independente dessa dimensão e aplicável mesmo
quando essa dimensão é superior a três. Neste capı́tulo, usaremos sobretudo
o termo “conteúdo”, normalmente na forma “conteúdo-N ”, onde N é a
dimensão do espaço subjacente, reservando a palavra “medida”, que como
veremos tem um sentido técnico muito preciso, para utilização posterior.

1.1 Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN


A determinação do conteúdo-N de subconjuntos de RN é muito simples
para os conjuntos que são rectângulos ou uniões finitas de rectângulos. O
principal objectivo desta secção é o de definir o conteúdo dos conjuntos deste
tipo e identificar e demonstrar as suas propriedades mais básicas.

Figura 1.1.1: União finita de rectângulos.

O cálculo da área de um rectângulo no plano é imediato, porque sabemos


da geometria elementar que essa área é o produto dos comprimentos dos seus
lados. Em particular, e como ilustrado na figura seguinte, um rectângulo
bidimensional (em R2 ) da forma R = I × J, onde I e J são intervalos em R,
tem área igual ao produto dos comprimentos de I e de J.
Claro que usaremos o termo “rectângulo” com um sentido mais geral,
independente da dimensão N do espaço RN em causa: qualquer produto
cartesiano (finito) de intervalos na recta R é um rectângulo:
1.1. Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN 9

Figura 1.1.2: Área de R = (comprimento de I)×(comprimento de J).

Definição 1.1.1 (Rectângulos em RN ). R ⊆ RN é um rectângulo se e


só se R = I1 × I2 × · · · × IN , onde I1 , I2 , · · · , IN são intervalos em R.

Sempre que nos referirmos a um rectângulo e for conveniente indicar


explicitamente a dimensão N do respectivo espaço RN , usamos a expressão
“rectângulo-N ”. Em particular, um rectângulo-1 é um intervalo, um “rec-
tângulo” no sentido mais usual do termo é, nesta terminologia, um rectân-
gulo-2, e um rectângulo-3 é um prisma rectangular. Reservamos o termo
“intervalo” apenas para rectângulos-1.
Notamos que o conjunto vazio ∅ é um rectângulo-N para qualquer N .
Na verdade, se R = I1 × I2 × · · · × IN , então um ou mais dos intervalos
Ik pode conter apenas um ponto ou ser vazio, caso em que o rectângulo
se diz degenerado. Por exemplo, um rectângulo-2 degenerado pode ser um
segmento de recta, um ponto ou vazio.
O comprimento ou conteúdo-1 do intervalo I ⊆ R designa-se por
c1 (I). Se I é limitado com extremos a ≤ b, do tipo [a, b], [a, b[, ]a, b] ou ]a, b[,
então c1 (I) = b − a. Se I é ilimitado, i.e., se a = −∞ e/ou b = +∞,
então c1 (I) = +∞. Se J é também um intervalo, então R = I × J é
um rectângulo-2 e a sua área ou conteúdo-2 designa-se por c2 (R), onde
c2 (R) = c1 (I) × c1 (J).
Analogamente, o produto cartesiano de três intervalos I, J e K é um
prisma rectangular P em R3 e o seu volume ou conteúdo-3 é dado por

c3 (P ) = c1 (I) × c1 (J) × c1 (K).

Nestes como noutros produtos envolvendo factores que podem ser infinitos,
usaremos as seguintes convenções, salvo menção em contrário:

• Qualquer produto que inclua pelo menos um factor nulo é nulo,


mesmo que todos os outros factores sejam infinitos.
10 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

• Qualquer produto de factores não nulos que inclua pelo menos um


factor infinito é infinito.

• O sinal do produto é calculado pelas habituais “regras dos sinais”.

A tı́tulo de exemplo, o eixo dos yy em R2 é um rectângulo-2 com conteúdo-2


igual a 0, já que este eixo é o produto cartesiano R = [0, 0]×] − ∞, +∞[, e
portanto c2 (R) = 0 × ∞ = 0.
É imediato generalizar as observações anteriores para o caso de RN :

Definição 1.1.2 (Conteúdo de Rectângulos em RN ). Se R = I1 ×I2 ×· · ·×IN


é um rectângulo em RN , o conteúdo-N de R designa-se por cN (R), ou
apenas c(R), e é dado por

cN (R) = c1 (I1 ) × c1 (I2 ) × · · · × c1 (IN ).

O conteúdo-N é portanto uma função definida numa classe de conjuntos,


ou seja, é um exemplo do que chamamos uma função de conjuntos.
Neste caso, é uma função com valores no intervalo [0, +∞] definida, para já,
na classe de todos os rectângulos-N .
Uma das propriedades mais fundamentais da noção de conteúdo é a sua
aditividade. Especializada para rectângulos, esta propriedade significa
simplesmente que, quando um rectângulo R é dividido em dois rectângulos
disjuntos A e B, a soma dos conteúdos de A e de B é o conteúdo de R, i.e.,

c(R) = c(A) + c(B).

Esta propriedade é intuitivamente evidente para as noções usuais de


comprimento, área e volume, mas deve ser demonstrada como válida para
o conteúdo-N , independentemente de N . A proposição seguinte generaliza-
a para uma famı́lia finita de rectângulos e a respectiva demonstração está
esboçada nos exercı́cios 13 a 16 desta secção.

Proposição 1.1.3 (Aditividade do Conteúdo). Se R1 , · · · , Rm são rectân-


gulos-N disjuntos e R = ∪mi=1 Ri é também um rectângulo-N , temos

m
X
cN (R) = cN (Ri ).
i=1

No cálculo de somas que podem incluir parcelas infinitas, usamos as


seguintes convenções:

• Se a soma inclui parcelas infinitas todas com o mesmo sinal, então o


seu resultado é infinito, com o sinal das parcelas em causa.
1.1. Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN 11

• Se a soma inclui parcelas infinitas com sinais diferentes, então o seu


resultado não está definido, ou seja, a soma é uma indeterminação.

Quando R é um conjunto e P é uma famı́lia de conjuntos disjuntos cuja


união é R, dizemos que P é uma partição de R. Se R é um rectângulo e P é
uma partição finita de R em subrectângulos, podemos escrever a identidade
em 1.1.3 na forma X
cN (R) = cN (r).
r∈P

O diâmetro de R ⊆ RN é definido por

diam(R) = sup {kx − yk : x, y ∈ R} .

O diâmetro da partição P do conjunto R é definido por

diam(P) = sup {diam(r) : r ∈ P} .

O diâmetro de uma partição é um indicador simples da sua granularidade.


Exemplos 1.1.4.
1. A famı́lia {[0, 1[, [1, 1], ]1, 2]} é uma partição de I = [0, 2].

2. A famı́lia P = P1 = [0, 1] × [0, 12 ], P2 = [0, 1]×] 21 , 1], P3 =]1, 2] × [0, 1] é uma

partição de R = [0, 2] × [0, 1], com diam(P) = diam(P3 ) = 2, e está ilustrada
na figura abaixo. É óbvio que

c2 (R) = c2 (P1 ) + c2 (P2 ) + c2 (P3 ).

P2 P3
= √
2
am

P1
di

Figura 1.1.3: Partição P do rectângulo R = [0, 2] × [0, 1].

refinar uma partição é, simplesmente, subdividir cada um dos conjuntos


que a constituem. Mais formalmente, se P e R são partições de R, dizemos
que R é um refinamento de P, ou que R é mais fina do que P, se e
12 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

R1 R2 R4 R5

R6 R7
R3

Figura 1.1.4: Refinamento R da partição P da figura 1.1.3.

só se cada conjunto r ∈ R está contido em algum conjunto p ∈ P. Neste


caso, Rp = {r ∈ R : r ⊆ p} é uma partição de p. É claro que se R é um
refinamento de P então diam(R) ≤ diam(P). Se P e Q são duas quaisquer
partições do mesmo conjunto R, qualquer partição R de R simultaneamente
mais fina do que P e do que Q diz-se um refinamento comum das partições
P e Q. É fácil obter um refinamento comum de quaisquer duas partições do
mesmo conjunto:
Proposição 1.1.5. Se P e Q são partições de R, então
R = {p ∩ q : p ∈ P, q ∈ Q}
é um refinamento comum de P e Q.
Se P e Q são partições de R em rectângulos, então o refinamento comum
mencionado em 1.1.5 é também uma partição em rectângulos, porque a in-
tersecção de dois rectângulos é sempre um rectângulo. Esta observação é
aliás aplicável a qualquer famı́lia finita de partições de R em rectângulos.

P Q R

Figura 1.1.5: Partições P e Q, e um refinamento comum R.

Se S ⊆ R é um subrectângulo de R, existem partições P de R em rec-


tângulos que incluem o rectângulo S. A figura 1.1.6 ilustra esta ideia, que
implica em particular:
1.1. Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN 13

R R1 R2 R5

S R3 = S

R4

Figura 1.1.6: Rectângulos S ⊆ R e uma partição P de R com S ∈ P.

Proposição 1.1.6. Se S e R são rectângulos, então R\S (1 ) é uma união


finita de rectângulos.

No que se segue, referimo-nos com frequência a conjuntos que são uniões


finitas de rectângulos (é muito fácil mostrar, com base na proposição
1.1.6, que estes rectângulos podem sempre ser supostos disjuntos, como é
referido no exercı́cio 4).

Definição 1.1.7 (As classes U(RN ) e E(RN )).

a) U(RN ) é a classe formada pelos conjuntos que são uniões finitas de


rectângulos-N ,

b) E(RN ) é a classe formada pelos conjuntos limitados em U(RN ), ou


seja, pelos conjuntos que são uniões finitas de rectângulos limitados.
Os conjuntos em E(RN ) dizem-se elementares,

c) Mais geralmente, se S⊆ RN então U(S) = E ∈ U(R N) : E ⊆ S e

analogamente E(S) = E ∈ E(RN ) : E ⊆ S .

A proposição seguinte regista que as classes U(RN ) e E(RN ) são fechadas


em relação às operações de união, intersecção e diferença de conjuntos. A
respectiva demonstração é o exercı́cio 9.

Proposição 1.1.8. Se C = U(RN ) ou C = E(RN ) então

A, B ∈ C =⇒ A ∪ B, A ∩ B, A\B ∈ C.

É fácil definir o conteúdo de qualquer conjunto em U(RN ). Basta decom-


por o conjunto em causa numa união finita de rectângulos disjuntos, i.e.,
escolher uma sua partição em rectângulos, e adicionar os conteúdos desses
rectângulos. Por exemplo,

• Se A = [0, 1]∪]3, +∞[ então c1 (A) = 1 + ∞ = ∞, e


1
Se X e Y são conjuntos, X\Y = {x ∈ X : x 6∈ Y } é a diferença de X e Y .
14 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

• Se B = [0, 1]∪]2, 5[, então c1 (B) = 1 + 3 = 4.

É no entanto evidente que a decomposição de um dado conjunto S numa


união finita de rectângulos disjuntos pode ser feita de múltiplas maneiras,
como ilustrado na figura 1.1.7. Portanto, a ideia referida só pode ser a base
de uma correcta definição se a soma obtida depender apenas do próprio
conjunto S, e não da partição utilizada para decompor S em subrectângulos.
A demonstração deste facto assenta somente na aditividade do conteúdo para
rectângulos, expressa em 1.1.3, e está feita imediatamente a seguir.

Figura 1.1.7: Partições distintas do conjunto S, e um refinamento comum.

Proposição 1.1.9. Se P e Q são partições de S ∈ U(RN ) em rectângulos,


então X X
cN (p) = cN (q).
p∈P q∈Q

Demonstração. A famı́lia R = {p ∩ q : p ∈ P, q ∈ Q} é um refinamento co-


mum das partições P e Q (ver figura 1.1.7). Observamos que

• Fixado p ∈ P, a famı́lia Rp = {r ∈ R : r ⊆ p} é uma partição de p e

• Fixado q ∈ Q, a famı́lia Rq = {r ∈ R : r ⊆ q} é uma partição de q.


X X
Segue-se de 1.1.3 que cN (p) = cN (r) e cN (q) = cN (r).
r∈Rp r∈Rq
Por agrupamento das parcelas das somas finitas em causa, temos
X X X X X X X
cN (p) = cN (r) = cN (r) = cN (r) = cN (q).
p∈P p∈P r∈Rp r∈R q∈Q r∈Rq q∈Q

Concluı́mos que a definição seguinte não é ambı́gua e generaliza 1.1.2.


1.1. Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN 15

Definição 1.1.10. Se U ∈ U(RN ) o conteúdo-N de U é dado por


X
cN (U ) = cN (r),
r∈R

onde R é uma qualquer partição finita de U em rectângulos-N .

A proposição seguinte regista propriedades do conteúdo em U(RN ).

Proposição 1.1.11. Se A, B e C são uniões finitas de rectângulos-N então:

a) Aditividade: A ∩ B = ∅ =⇒ cN (A ∪ B) = cN (A) + cN (B),

b) Positividade: cN (A) ≥ 0,

c) Monotonia: A ⊆ B =⇒ cN (A) ≤ cN (B),

d) Subaditividade: A ⊆ B ∪ C =⇒ cN (A) ≤ cN (B) + cN (C).

Demonstração. a) Se P e Q são partições finitas dos conjuntos A e B em


rectângulos, então R = P ∪ Q é uma partição de A ∪ B e temos
X X X
cN (A ∪ B) = cN (r) = cN (r) + cN (q) = cN (A) + cN (B).
r∈R p∈P q∈Q

b) É evidente que cN (A) ≥ 0.

As propriedades c) e d) nesta proposição podem obter-se de a) e b) e das


propriedades indicadas em 1.1.8. Temos assim:
c) Se A ⊆ B então B = A ∪ (B\A), onde B\A é disjunto de A e B\A é
uma união finita de rectângulos-N . Segue-se de a) e b) que

cN (B) = cN (A) + cN (B\A) ≥ cN (A).

d) B ∪ C e C\B são uniões finitas de rectângulos e B ∪ C = B ∪ (C\B),


onde B e C\B são disjuntos. Segue-se de a), b) e c) que

cN (A) ≤ cN (B ∪ C) = cN (B) + cN (C\B) ≤ cN (B) + cN (C).

A afirmação seguinte pode ser encarada como uma outra generalização


da definição 1.1.2, ou como uma generalização da regra elementar “o volume
de um prisma é o produto da área da base pela altura”. Na realidade, de um
ponto de vista intuitivo, deve ser tão natural e “óbvia” como a propriedade
de aditividade, mesmo quando N + M > 3. De um ponto de vista mais
formal, é na verdade uma versão muito preliminar do Teorema de Fubini,
que discutiremos repetidas vezes no que se segue.
16 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Proposição 1.1.12 (Conteúdo do Produto Cartesiano). Se A ∈ U(RN ) e


B ∈ U(RM ), então A × B ∈ U(RN +M ) e cN +M (A × B) = cN (A) × cM (B).
Além disso, se A e B são elementares então A × B é também elementar.
Demonstração. O resultado é evidente quando A e B são rectângulos. Basta
notar que se A = I1 × · · · × IN e B = J1 × · · · × JM , onde os conjuntos Ii e
Jj são intervalos em R, então
A × B = I1 × · · · × IN × J1 × · · · × JM é um rectângulo-(N + M ), e
cN +M (A × B) = c(I1 ) × · · · × c(IN ) × c(J1 ) × · · · × c(JM ) = cN (A) × cM (B).
Se P e Q são partições finitas dos conjuntos A e B em rectângulos, é fácil
verificar que R = {p × q : p ∈ P, q ∈ Q} é uma partição finita de A × B em
rectângulos, e em particular A × B ∈ U(RN +M ). Temos assim
  
X X XX
cN (A)cM (B) =  cN (p)  cM (q) = cN (p) cM (q) =
p∈P q∈Q p∈P q∈Q
XX X
= cN +M (p × q) = cN +M (r) = cN +M (A × B)
p∈P q∈Q r∈R

S+x

x
Translação de S

Reflexão de S

Figura 1.1.8: Translação e reflexão (em x2 = 0) do conjunto elementar S.

Convencionamos aqui que, se S ⊆ RN e x ∈ RN , então S + x designa


a translação {y + x : y ∈ S}. Notamos que qualquer translação de um
rectângulo é um rectângulo com o conteúdo do rectângulo original. A mesma
observação é verdadeira para qualquer reflexão de um rectângulo num
qualquer dos hiperplanos de equação xk = 0. A próxima proposição forma-
liza esta ideia, ilustrada na figura 1.1.8 para conjuntos elementares. A sua
demonstração é o exercı́cio 17.
1.1. Rectângulos e Conjuntos Elementares em RN 17

Proposição 1.1.13 (Invariância sob Translações e Reflexões). Se E ∈


U(RN ) e T é uma translação de E ou a reflexão de E num dos hiperplanos
xk = 0, então T ∈ U(RN ) e cN (T ) = cN (E). Se E é elementar então T é
igualmente elementar.

Se I é um intervalo limitado de extremos a < b e b − a > 2ε > 0, os


intervalos F = [a+ ε, b− ε] e U =]a− ε, b+ ε[ são, respectivamente, fechado e
aberto, F ⊆ I ⊆ U e c(U \F ) = 4ε. Dizemos por isso que qualquer intervalo
pode ser aproximado, por defeito, por um intervalo fechado, e por excesso,
por um intervalo aberto, com “erro arbitrariamente pequeno”. A genera-
lização desta afirmação para conjuntos elementares fica igualmente como
exercı́cio (18):

cN (U ) − ε cN (F ) + ε
cN (S)

cN (F ) cN (U )
cN (S) − ε cN (S) + ε

Proposição 1.1.14. Se S ⊆ RN é elementar e ε > 0, existem conjuntos


elementares F (fechado) e U (aberto) tais que F ⊆ S ⊆ U e cN (U \F ) < ε,
donde cN (S) − ε < cN (F ) ≤ cN (S) ≤ cN (U ) < cN (S) + ε.

Exercı́cios.

1. Quantos vértices, arestas e faces tem um rectângulo-N ?

2. Existem 4 intervalos limitados com extremos a e b, que são [a, b], ]a, b], [a, b[,
e ]a, b[. Quantos rectângulos-N limitados existem com os mesmos vértices?

3. Existem conjuntos ilimitados E ⊂ RN com conteúdo finito arbitrário?

4. Demonstre a proposição 1.1.6 e mostre que qualquer conjunto que seja uma
união finita de rectângulos é uma união finita de rectângulos disjuntos.

5. Calcule c4 (U ), onde U = R1 ∪ R2 ∪ R3 , R1 = [0, 6] × [0, 5] × [0, 6] × [0, 10],


R2 = [−1, 4] × [2, 6] × [3, 8] × [4, 12] e R3 = [−2, 3] × [−1, 4] × [−1, 4] × [−2, 7].

6. Mostre que se E ∈ U(RN ) então cN (∂E) = 0. Conclua que cN (E) =


cN (int(E)) e portanto int(E) = ∅ ⇔ cN (E) = 0.(2 )
2
Se X ⊆ RN , designamos a fronteira de X por ∂X e o fecho de X por X. O
interior e o exterior de X designam-se, respectivamente, por int(X) e ext(X). Temos,
em particular, que ∂X = X\int(X).
18 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

7. Mostre que se E ∈ U(R) então c(E) = 0 se e só se E é finito.

8. Mostre que se E ⊂ RN é infinito numerável(3 ) então E 6∈ U(RN ).

9. Demonstre a proposição 1.1.8.

10. Generalize as alı́neas 1.1.11 a) e 1.1.11 d) para famı́lias finitas de conjuntos.

11. Sejam A e B rectângulos e considere R = A × B. Mostre que

a) Se RA e RB são partições de A e de B, então R = {a × b : a ∈ RA , b ∈ RB }


é uma partição de R.
b) Se P é uma partição qualquer de R em rectângulos, existe um refinamento
R para a partição P do tipo referido em a).

12. Mostre que, se C ∈ U(RN +M ), então existem rectângulos-N R1 , · · · , Rn ,


disjuntos e conjuntos Bi ∈ U(RM ) tais que
n
[
C= Ri × Bi .
i=1

13. Seja I ⊆ R um intervalo e I = {I1 , I2 , · · · , In } uma partição finita de I em


intervalos. Prove que

X n
X
c(I) = c(i) = c(Ik ).
i∈I k=1

14. Seja R = I × J ⊆ R2 um rectângulo-2, onde I e J são intervalos em


R. Dadas partições P = {I1 , I2 , · · · , In } de I e Q = {J1 , J2 , · · · , Jm } de
J, onde os Ik e Jj são intervalos, definimos ∆xk = c(Ik ) e ∆yj = c(Jj ) e
R = {i × j : i ∈ P, j ∈ Q}. Prove que
n X
X m X
c2 (R) = ∆xk ∆yj = c2 (r).
k=1 j=1 r∈R

15. Sendo R = I × J ⊆ R2 um rectângulo, onde I e J são intervalos em R, e P


uma partição de R em rectângulos, prove que
X
c2 (R) = c2 (p).
p∈P

Sugestão: Mostre que P tem um refinamento R do tipo referido no exer-


cı́cio anterior e no exercı́cio 11. Aplique em seguida o resultado anterior ao
rectângulo R e a cada rectângulo p ∈ P.
3
O conjunto X é numerável se e só se existe uma função sobrejectiva φ : N → X,
sendo que X pode ser finito ou infinito. X é infinito numerável se e só existe uma bijecção
φ : N → X, e dizemos neste caso que φ é uma enumeração dos elementos de X.
1.2. Álgebras, Semi-Álgebras e Funções Aditivas 19

16. Demonstre 1.1.3. sugestão: Proceda por indução em N , generalizando as


ideias nos exercı́cios 14 e 15 e aproveitando os exercı́cios 11 e 13.

17. Demonstre a proposição 1.1.13.

18. Demonstre a proposição 1.1.14.

1.2 Álgebras, Semi-Álgebras e Funções Aditivas


Introduzimos nesta secção um conjunto de noções abstractas, mas relativa-
mente elementares, que são úteis no estudo de funções de conjuntos e são
extensivamente utilizadas na teoria da medida. Estas ideias serão ainda
enriquecidas e completadas nas secções 1.6 e 2.1. Começamos por uma clas-
sificação para classes de conjuntos, parcialmente inspirada em propriedades
das classes E(RN ) e U(RN ).

Definição 1.2.1 (Álgebras e Semi-álgebras de Conjuntos). Seja X um con-


junto arbitrário e S uma famı́lia não-vazia de subconjuntos de X. S diz-se
uma semi-álgebra (em X) se e só se:

a) Fecho em relação à união: A, B ∈ S ⇒ A ∪ B ∈ S, e

b) Fecho em relação à diferença: A, B ∈ S ⇒ A\B ∈ S.

A semi-álgebra S diz-se uma álgebra (em X) se, além disso,

c) X ∈ S.
Exemplos 1.2.2.
1. As classes U(RN ) e E(RN ) são semi-álgebras, de acordo com 1.1.8.

2. A classe E(RN ) não é uma álgebra, porque RN não é elementar.

3. A classe U(RN ) é uma álgebra, porque RN é um rectângulo.

4. Se S ⊆ RN , a classe E(S) é uma semi-álgebra. Se S é um conjunto elementar,


então E(S) é uma álgebra em S.

5. A classe dos rectângulos em RN não é uma semi-álgebra em RN , porque não


é fechada nem para a união nem para a diferença.
6. A classe dos conjuntos abertos em RN não é uma semi-álgebra em RN , porque
não é fechada para a diferença (apesar de ser fechada para a união e a intersec-
ção). O mesmo se passa com a classe dos conjuntos fechados em RN .
7. Sendo X um qualquer conjunto, a classe de todos os subconjuntos de X, que
designamos P(X), é a maior álgebra de conjuntos em X.

8. A classe {∅, X} é a menor álgebra de conjuntos em X.


20 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

O próximo teorema indica propriedades algébricas que são comuns a


qualquer semi-álgebra de conjuntos.

Teorema 1.2.3. Seja S uma semi-álgebra no conjunto X. Temos, então:

a) ∅ ∈ S.

b) Fecho em relação à intersecção: A, B ∈ S ⇒ A ∩ B ∈ S.

c) Fecho em relação a uniões e intersecções finitas:


n
[ n
\
A1 , A2 , · · · , An ∈ S ⇒ Ak , Ak ∈ S.
k=1 k=1

Se S é uma álgebra em X, temos ainda:

d) Fecho em relação à complementação: A ∈ S ⇒ Ac ∈ S.(4 )

Demonstração. a) A classe S é por definição não-vazia. Sendo A ∈ S, temos


∅ = A\A ∈ S.
b) A ∩ B = A\(A\B) ∈ S.
c) É facilmente demonstrável por indução.
d) Como por hipótese X ∈ S, concluı́mos que Ac = X\A ∈ S.

Alguma da terminologia definida a seguir já foi informalmente utilizada


na secção anterior. Note-se que nos referimos a funções de conjuntos com va-
lores em [0, +∞], como por exemplo o conteúdo-N na classe dos rectângulos,
ou com valores reais.

Definição 1.2.4 (Propriedades de funções de conjuntos). Seja λ : S → Y


uma função, onde S é uma classe de subconjuntos de um conjunto fixo X
e Y = R ou Y = [0, +∞]. Supondo que as afirmações seguintes são válidas
para quaisquer conjuntos A, B, C ∈ S, a função de conjuntos λ diz-se:

a) Aditiva: Se A ∪ B ∈ S e A e B disjuntos ⇒ λ(A ∪ B) = λ(A) + λ(B).

b) Subaditiva: Se C ⊆ A ∪ B ⇒ λ(C) ≤ λ(A) + λ(B).

c) Monótona: Se A ⊆ B ⇒ λ(A) ≤ λ(B).

d) Não-negativa: Se λ(A) ≥ 0.
Exemplos 1.2.5.
1. Conteúdo-N: O conteúdo-N , tal como o definimos em E(RN ), é uma função
aditiva, subaditiva, monótona e não-negativa.
4
Quando o conjunto “universal” X é evidente do contexto da discussão, usamos a
notação Ac = X\A.
1.2. Álgebras, Semi-Álgebras e Funções Aditivas 21

2. Cardinal: Dado um conjunto Y , o cardinal de Y designa-se por #(Y ) e


é igual ao número de elementos de Y , se Y é finito, ou igual a +∞ , se Y é
infinito. Qualquer que seja o conjunto X, o cardinal é uma função de conjuntos
aditiva, subaditiva, monótona e não-negativa definida na classe P(X).

3. Probabilidades: Na Teoria das Probabilidades, associamos uma probabili-


dade, que é um número entre 0 e 1, a acontecimentos. Os acontecimentos são
subconjuntos de um conjunto fixo X e formam uma álgebra A (porquê?). A
probabilidade p : A → [0, 1] é portanto uma função de conjuntos, que é sempre
aditiva, subaditiva, monótona e não-negativa. Por exemplo, o conjunto X, que
é um acontecimento certo, tem probabilidade 1, ou seja, p(X) = 1.

4. Muitas grandezas fı́sicas, ditas extensivas, como a massa, carga eléctrica,


energia, entropia, momento linear, etc., podem ser representadas por funções
aditivas de conjuntos. Os conjuntos em causa são normalmente regiões do
espaço ou partes de um dado corpo material.

5. Introduzimos aqui uma famı́lia de exemplos que referiremos com frequência


nos Capı́tulos seguintes. Consideramos:

• A classe C formada pelos intervalos do tipo ]a, b] com −∞ < a ≤ b < ∞,


• Uma qualquer função real f : R → R, e
• A função de conjuntos λ : C → R dada por λ(]a, b]) = f (b) − f (a).

A classe F (R) formada pelas uniões finitas de intervalos em C é uma semi-


álgebra, como é fácil verificar. Para alargar a definição de λ a toda a classe
F (R), basta observar que qualquer conjunto A ∈ F(R) é uma união finita de
intervalos disjuntos I1 , I2 , · · · , In em C e tomar
n
X
λ(A) = λ(Ik ).
k=1

(Para mostrar que esta definição não é ambı́gua, observe que λ é obviamente
aditiva em C e adapte o argumento que utilizámos em 1.1.9.). É ainda imediato
que

• λ é aditiva em F (R) e
• λ é não-negativa, monótona e subaditiva se e só se f é crescente.

Casos tı́picos desta famı́lia de exemplos são as distribuições de probabilidade na


recta real, onde é comum escolher para f a chamada distribuição (comulativa)
de probabilidade. Neste caso, o valor f (x) é a probabilidade do acontecimento
E = {X ∈ R : X ≤ x}, e por isso f é uma função crescente em R tal que
0 ≤ f ≤ 1. É também claro que f (b)−f (a) é a probabilidade do acontecimento
A = {X ∈ R : a < X ≤ b}, que podemos designar por λ(]a, b]).
O próprio conteúdo de Jordan (restrito à classe F (R)) resulta de escolher
f (x) = x.

6. Os seguintes casos especı́ficos do exemplo anterior são muito simples mas


interessantes:
22 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

• Se f é a função de Heaviside(5 ) (a função caracterı́stica do intervalo


[0, +∞[), então λ é o impulso, medida ou distribuição de dirac(6 ).
O cálculo de λ é imediato:

1, se 0 ∈ A
λ(A) =
0, se 0 6∈ A

• Se f (x) = int(x), onde int(x) = max{k ∈ Z : k ≤ x} é a parte inteira


de x, então λ(A) conta os inteiros que pertencem a A, i.e., λ(A) =
#(A ∩ Z) e λ tem o pitoresco nome de pente de dirac.

Estes exemplos são frequentemente utilizados na Fı́sica para representar dis-


tribuições de massas (ou cargas) pontuais unitárias numa recta. Repare-se de
passagem que em qualquer destes exemplos é fácil alargar a definição de λ
à classe de todos os subconjuntos de R, como é igualmente simples adaptar
as respectivas definições a contextos mais gerais (e.g., referindo outros pontos
que não 0 e outros conjuntos que não Z, substituindo R por outro qualquer
conjunto X, etc.).

7. Continuando o exemplo 5, note-se que não só é verdade que qualquer função
f : R → R determina uma função de conjuntos λ aditiva na semi-álgebra
F (R), como é igualmente verdade que qualquer função aditiva λ definida e
finita em F (R) determina uma correspondente função f , que na realidade é
única a menos de uma constante aditiva arbitrária. Para obter f , podemos
sempre tomar 
+λ(]0, x], se x ≥ 0
f (x) =
−λ(]x, 0]), se x < 0

B A
A∩B
A\B

Figura 1.2.1: λ(A) = λ(A ∩ B) + λ(A\B)

Indicamos abaixo propriedades comuns a quaisquer funções aditivas de-


finidas em semi-álgebras, de que a figura 1.2.1 ilustra um exemplo.

Teorema 1.2.6. Se λ : S → Y é uma função aditiva definida na semi-


álgebra S e Y = R ou Y = [0, ∞], então:
5
De Oliver Heaviside (1850 - 1925), engenheiro, fı́sico e matemático inglês.
6
Do célebre fı́sico inglês Paul Adrien Maurice Dirac (1902 - 1984), prémio Nobel em
1933. Foi um dos distintos ocupantes da Cátedra Lucasiana da Universidade de Cambridge
(1932-1969), hoje ocupada pelo famoso fı́sico Stephen Hawking. Terminou a sua vida nos
Estados Unidos, onde ensinou nas Universidades de Miami e do Estado da Flórida.
1.2. Álgebras, Semi-Álgebras e Funções Aditivas 23

a) λ(∅) = 0, ou λ(A) = +∞ para qualquer A ∈ S.(7 )

b) Se A, B ∈ S então (8 )

λ(A ∩ B) + λ(A ∪ B) = λ(A) + λ(B) e λ(A) = λ(A ∩ B) + λ(A\B).

c) λ é não-negativa ⇐⇒ λ é monótona ⇐⇒ λ é subaditiva.

d) Se A1 , A2 , · · · , An ∈ S e A1 , A2 , · · · , An são disjuntos então


n
[ n
X
λ( Ak ) = λ(Ak ).
k=1 k=1

Demonstração. a) Se A ∈ S, segue-se, por aditividade, que

λ(A) = λ(A) + λ(∅).

Se existe algum conjunto A tal que λ(A) 6= +∞, é claro que λ(∅) = 0.
b) A\B e B são disjuntos e A ∪ B = (A\B) ∪ B, donde

(1) λ(A ∪ B) = λ(A\B) + λ(B).

Analogamente, A ∩ B e A\B são disjuntos e A = (A ∩ B) ∪ (A\B), donde

(2) λ(A) = λ(A ∩ B) + λ(A\B).

Concluı́mos de (1) e (2) que

λ(A ∩ B) + λ(A ∪ B) = λ(A ∩ B) + λ(A\B) + λ(B) = λ(A) + λ(B).

c) Se λ é não-negativa e A ⊇ B, então λ(A\B) ≥ 0 e

λ(A) = λ(A ∩ B) + λ(A\B) = λ(B) + λ(A\B) ≥ λ(B),

i.e., λ é monótona. Se λ é monótona e C ⊆ A ∪ B então

λ(C) ≤ λ(A ∪ B) = λ(A ∪ (B\A)) = λ(A) + λ(B\A) ≤ λ(A) + λ(B),

ou seja, λ é subaditiva. Finalmente, se λ é subaditiva e como ∅ ⊆ A ∪ A


então λ(∅) ≤ 2λ(A) e λ é não-negativa.
d) A demonstração fica como exercı́cio.

No caso das funções subaditivas, deixamos como exercı́cio obter:


7
Em geral, consideramos apenas funções λ que não são constantes e iguais a +∞.
8
Estas identidades devem ser manipuladas com cuidado quando λ toma valores infini-
tos. Note que só podemos escrevê-las na forma λ(A ∪ B) = λ(A) + λ(B) − λ(A ∩ B) e
λ(A\B) = λ(A) − λ(A ∩ B) quando não conduzem a indeterminações do tipo (∞ − ∞).
24 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Teorema 1.2.7. Se λ : S → Y é uma função subaditiva definida na semi-


álgebra S e Y = R ou Y = [0, ∞], então:

a) λ é não-negativa,
n
[ n
X
b) A1 , A2 , · · · , An ∈ S ⇒ λ( Ak ) ≤ λ(Ak ), e
k=1 k=1

c) Se λ(∅) = 0 então λ é monótona.

Exercı́cios.

1. Sendo A uma classe de subconjuntos de X, prove que A é uma álgebra em


X se e só se A é não-vazia, fechada em relação à união (ou intersecção), e à
complementação.

2. Pode substituir-se a união pela intersecção na definição 1.2.1?

3. Mostre que a classe S dos conjuntos limitados é uma semi-álgebra em RN .


Considere a função λ : S → R, dada por

λ(A) = diam(A) = sup {kx − yk : x, y ∈ A} , para A ∈ S.

Quais das propriedades referidas em 1.2.4 são satisfeitas por λ?

4. Os subconjuntos finitos do conjunto X formam uma semi-álgebra? Uma


álgebra?

5. Sendo R um rectângulo-N limitado, mostre que E(R) é a menor álgebra em


R que contém os subrectângulos de R.

6. Demonstre as afirmações feitas no texto a respeito do exemplo 1.2.5.5.

7. Generalize o exemplo 1.2.5.5 para o plano R2 , sendo agora f uma função de


duas variáveis.

8. Considere a seguinte experiência aleatória, para selecção de um número no


intervalo [0, 6]. Primeiro, usamos uma moeda para decidir um de dois métodos:
no caso “caras”, escolhemos ao acaso um número no intervalo [0, 6] (com uma
densidade de probabilidade constante); no caso “coroas”, rolamos um dado
para escolher um número do conjunto {1, 2, 3, 4, 5, 6}. Descreva a distribuição
de probabilidade λ associada a esta experiência, calculando a correspondente
função de distribuição cumulativa f .

9. Conclua a demonstração de 1.2.6 e prove 1.2.7.


1.3. Conjuntos Jordan-Mensuráveis 25

1.3 Conjuntos Jordan-Mensuráveis


A teoria desenvolvida no inı́cio deste Capı́tulo é manifestamente demasiado
pobre para esclarecer de modo satisfatório a noção de conteúdo de um con-
junto. Afinal de contas, uma região tão simples como um triângulo não é
elementar e portanto por enquanto ainda não definimos a sua área! Nesta
secção, definimos o conteúdo-N para os conjuntos Jordan-mensuráveis(9 ),
que formam uma classe bastante mais extensa do que a classe dos conjuntos
elementares. Veremos em particular que muitas figuras geométricas comuns
(triângulos, cı́rculos, elipses, etc.) são conjuntos Jordan-mensuráveis. Ex-
ploramos aqui a aproximação de conjuntos não-elementares por conjuntos
elementares, tal como ilustrado na figura 1.3.1 para um cı́rculo. Note-se

Figura 1.3.1: 2 < π < 4

que esta ideia de aproximação, se bem que formalizada por Jordan e Peano
apenas no final do século XIX, é na realidade uma descoberta fundamental
muito antiga, usualmente atribuı́da a Arquimedes(10 ).
Observe-se a este respeito que, se J ⊆ RN é um conjunto limitado, então
existem conjuntos elementares K e U tais que K ⊆ J ⊆ U. Os conjuntos K e
U aproximam J, respectivamente, por defeito e por excesso. Por esta razão,
qualquer definição “razoável” de cN (J) deve conduzir às desigualdades
1.3.1. cN (K) ≤ cN (J) ≤ cN (U ).
Como K e U são elementares, sabemos de 1.1.11 c) que
K ⊆ J ⊆ U =⇒ K ⊆ U =⇒ cN (K) ≤ cN (U ).
Tomando nesta desigualdade o conjunto K como fixo, concluı́mos que, se
K ∈ E(J), então

cN (K) é minorante do conjunto cN (U ) : U ∈ E(RN ), J ⊆ U .
9
De Camille M.E. Jordan (1838 - 1922), matemático francês, professor da Escola
Politécnica de Paris. As ideias apresentadas nesta secção foram, no entanto, introduzidas
pelo matemático italiano Giuseppe Peano, 1858-1932, professor da Universidade de Turim.
10
Arquimedes, matemático e engenheiro, viveu em Siracusa (Sicı́lia) em 287-212 A.C.,
no tempo em que esta cidade era uma colónia grega. Foi, certamente, um dos mais geniais
cientistas de todos os tempos.
26 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

U
K J

Figura 1.3.2: K e U são aproximações de J.

Como o ı́nfimo de um conjunto é o maior dos seus minorantes, temos



cN (K) ≤ inf cN (U ) : U ∈ E(RN ), J ⊆ U .

A desigualdade anterior é válida para qualquer K ∈ E(J), ou seja,



inf cN (U ) : U ∈ E(RN ), J ⊆ U é majorante de {cN (K) : K ∈ E(J)} .

O supremo de um conjunto é o menor dos seus majorantes, e portanto



sup {cN (K) : K ∈ E(J)} ≤ inf cN (U ) : U ∈ E(RN ), J ⊆ U .

O supremo e o ı́nfimo mencionados acima merecem designação especial:


Definição 1.3.2 (Conteúdo Interior e Exterior). Se J ⊆ RN é um conjunto
limitado, o seu conteúdo interior, designado cN (J), e o seu conteúdo
exterior, designado cN (J), são dados por
cN (J) = sup {cN (K) : K ∈ E(J)} e

cN (J) = inf cN (U ) : U ∈ E(RN ), J ⊆ U .
Notamos agora que se cN (J) satisfaz 1.3.1 então temos igualmente

cN (J) ≤ cN (J) ≤ cN (J).

O ponto de partida para a teoria de Jordan é a seguinte observação, genial


pela sua simplicidade:

Se os conteúdos interior e exterior de J são iguais, então o


conteúdo do conjunto J só pode ser igual a esse valor comum.

Esta é a ideia formalizada na próxima definição.


Definição 1.3.3 (Conteúdo de Jordan). (11 ) Se J ⊆ RN é limitado,
11
Esta definição foi primeiro apresentada por Peano em 1887 num trabalho muito origi-
nal que inclui, igualmente pela primeira vez, as noções de interior, exterior e fronteira de
um subconjunto de RN e uma definição abstracta de “função aditiva de conjuntos”, que
Peano chamava “função distributiva”. O correspondente artigo de Jordan é de 1892.
1.3. Conjuntos Jordan-Mensuráveis 27

a) Dizemos que J é jordan-mensurável se e só se cN (J) = cN (J).

b) Neste caso, o conteúdo de jordan de J, designado cN (J), é dado


por cN (J) = cN (J) = cN (J).

c) A classe dos conjuntos Jordan-mensuráveis de RN designa-se por J (RN ).


Mais geralmente, a classe de todos os subconjuntos Jordan-mensuráveis
de R ⊆ RN designa-se por J (R).

Se o próprio conjunto J referido em 1.3.3 é elementar, é indispensável


verificar que esta definição é compatı́vel com a que apresentámos em 1.1.10
para estes conjuntos. Por outras palavras, é necessário provar que:

• Os conjuntos elementares são Jordan-mensuráveis e

• O respectivo conteúdo pode ser indistintamente determinado usando


1.1.10 ou 1.3.3.

Para isso, supomos J elementar e tomamos K = J = U , para observar que

cN (K) ≤ cN (J) ≤ cN (J) ≤ cN (U ) = cN (K).

Quando J não é elementar, a definição 1.3.3 pode ser difı́cil de aplicar direc-
tamente, porque exige o cálculo explı́cito dos conteúdos interior e exterior
de J. É frequentemente mais prático utilizar a proposição seguinte:

Teorema 1.3.4. J ∈ J (RN ) se e só se existem para cada ε > 0 conjuntos

K, U ∈ E(RN ) tais que K ⊆ J ⊆ U e cN (U \K) < ε.

K e U podem ser supostos fechados ou abertos e temos ainda que

cN (U ) − ε < cN (K) ≤ cN (J) ≤ cN (U ) < cN (K) + ε.

Demonstração. Supomos que ε > 0 e os conjuntos elementares K e U são


tais que
K ⊆ J ⊆ U e cN (U \K) = cN (U ) − cN (K) < ε.
Como cN (K) ≤ cN (J) ≤ cN (J) ≤ cN (U ), temos

cN (J) − cN (J) ≤ cN (U ) − cN (K) < ε, donde

0 ≤ cN (J) − cN (J) < ε


Sendo esta última desigualdade válida para qualquer ε > 0, é claro que
cN (J) = cN (J), i.e., J ∈ J (RN ). Deixamos a conclusão da demonstração
para o exercı́cio 4.
28 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

U
K J

cN (J) − ε cN (J) + ε
cN (K) cN (U )

cN (J)
cN (U ) − ε cN (K) + ε

Figura 1.3.3: Aproximação de um conjunto Jordan-mensurável por conjun-


tos elementares.

Concluı́mos que os conjuntos Jordan-mensuráveis são os conjuntos que


podem ser aproximados por defeito e por excesso por conjuntos elementares,
“com erro arbitrariamente pequeno”. Pode também ser útil a seguinte al-
ternativa a 1.3.4, cuja demonstração deixamos para o exercı́cio 5:
Teorema 1.3.5. J ∈ J (RN ) se e só se existem sucessões de conjuntos
elementares Kn e Un tais que Kn ⊆ J ⊆ Un e cN (Un \Kn ) → 0 donde
lim cN (Kn ) = lim cN (Un ) = cN (J).
n→+∞ n→+∞

Exemplo 1.3.6.
Um dos problemas originalmente resolvidos por Arquimedes foi o do cálculo
da área da região entre um arco da parábola y = x2 e o eixo dos xx. Mostramos
aqui que esta região é Jordan-mensurável, deixando o cálculo da sua área para
o exercı́cio 2. Na verdade, provamos a seguir que a região de ordenadas de
qualquer função monótona é sempre Jordan-mensurável, se bem que o cálculo
da respectiva área possa ser um problema de mais difı́cil resolução.
Considere-se a figura 1.3.4. A região de ordenadas da função não-negativa f
no intervalo [a, b] é o conjunto
Ω = {(x, y) : a ≤ x ≤ b, 0 < y < f (x)} .
Supomos que f é crescente, mas o argumento é aplicável com modificações
evidentes a funções decrescentes. Fixado n ∈ N, dividimos o intervalo [a, b]
em n subintervalos de comprimento ∆x = (b−a) n , utilizando pontos igualmente
espaçados a = x0 < x1 < · · · < xn = b. Definimos intervalos Ik e rectângulos
auxiliares Ak e Bk para 1 ≤ k ≤ n, tomando
Ik = [xk−1 , xk ], Ak = Ik ×]0, f (xk−1 )[ e Bk = Ik ×]0, f (xk )[.
Sejam Kn e Un os conjuntos elementares dados por
n
[ n
[
Kn = Ak e Un = Bk donde Kn ⊆ Ω ⊆ Un .
k=1 k=1
1.3. Conjuntos Jordan-Mensuráveis 29

f (b)
Bk

f (b) − f (a)
Ak

f (a)
b−a
∆x = n
a b

Figura 1.3.4: A região de ordenadas de f é Jordan-mensurável.

Como a figura 1.3.4 sugere, é fácil verificar que


(b − a)
c2 (Un \Kn ) = (f (b) − f (a))∆x = (f (b) − f (a)) → 0.
n
Segue-se de 1.3.5 que Ω é Jordan-mensurável.

O argumento anterior pode ser adaptado para provar que triângulos,


cı́rculos e, em geral, regiões limitadas por cónicas e/ou segmentos de recta
são Jordan-mensuráveis. O próximo exemplo ilustra o cálculo do compri-
mento de subconjuntos da recta real R.
Exemplo 1.3.7.

[ 1 1
Consideramos o conjunto A = An , onde An = [
, ]. A não é
n=1
2n 2n − 1
elementar, mas é natural aproximá-lo pelos conjuntos elementares
N
[
KN = An , onde é evidente que KN ⊂ A.
n=1

Por outro lado, temos ainda



[
1 1 1
An ⊆ [0, ] =⇒ An ⊆ [0, ] =⇒ A ⊆ KN ∪ [0, ].
2n − 1 2N + 1 2N + 1
n=N +1

O conjunto UN = KN ∪ [0, 2N1+1 ] é também elementar e temos KN ⊆ A ⊆ UN .


Além disso,
1 1
c(UN \KN ) = c([0, ]) = → 0, quando N → ∞.
2N + 1 2N + 1
Concluı́mos de 1.3.5 que A é Jordan-mensurável, com comprimento dado por
N
X ∞
X ∞
X 1
c(A) = lim c(KN ) = lim c(An ) = c(An ) = .
N →∞ N →∞
n=1 n=1 n=1
2n(2n − 1)
30 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

U3
K3

U6
K6

Figura 1.3.5: Aproximação do conjunto A por conjuntos elementares.

O seguinte corolário de 1.3.4 é útil para identificar conjuntos Jordan-


mensuráveis de conteúdo nulo. A respectiva demonstração é o exercı́cio 8.

Corolário 1.3.8. Sendo J ⊆ RN , então J é Jordan-mensurável e cN (J) = 0


se e só se para qualquer ε > 0 existe um conjunto elementar U tal que

J ⊆ U e cN (U ) < ε.

Exemplo 1.3.9.
Introduzimos aqui o conjunto de Cantor(12 ), um exemplo clássico que
utilizaremos com frequência neste texto. Este conjunto obtém-se por um en-
genhoso processo iterativo de divisão de intervalos em três subintervalos iguais,
seguido da remoção do subintervalo médio, como sugerido na figura 1.3.6.

F0
F1
F2
F3
F4

U4 U3 U4 U2 U4 U3 U4 U1 U4 U3 U4 U2 U4 U3 U4

Figura 1.3.6: A construção de Cantor.

Seja I um qualquer intervalo limitado fechado e ψ(I) o intervalo aberto de com-


primento c(I)
3 centrado no ponto médio de I. Definimos T (I) = I\ψ(I), e nota-
mos que T (I) é a união de dois intervalos limitados fechados e c(T (I)) = 23 c(I).
De forma análoga, se E = ∪nk=1 Ik é uma união finita de intervalos limitados
fechados disjuntos Ik , definimos T (E) = ∪nk=1 T (Ik ), donde c(T (E)) = 32 c(E).
12
De Georg F.L. Cantor (1845 - 1918), matemático alemão nascido na Rússia, criador
da Teoria dos Conjuntos. Este conjunto foi introduzido num trabalho de Cantor publicado
em 1883. Note-se que a primeira referência à noção de conteúdo exterior, e mesmo o termo
“conteúdo”, são igualmente de Cantor, e aparecem numa sua publicação de 1884.
1.3. Conjuntos Jordan-Mensuráveis 31

O conjunto de Cantor, que designamos C(I), é dado por



\ 
[a, b] , se n = 0,
C(I) = Fn , onde Fn =
T (Fn−1 ) se n > 0.
n=0

Fn é a união de 2n intervalos disjuntos limitados e fechados, cada um com


comprimento c(I)/3n . Fn é portanto um conjunto elementar com c(Fn ) =
(2/3)n c(I) e temos por razões evidentes que

\
C(I) = Fn ⊂ Fn e c(Fn ) = (2/3)n c(I) → 0.
n=0

Segue-se assim do corolário anterior que C(I) é um conjunto Jordan-mensurável


de conteúdo nulo. Deixamos para o exercı́cio 16 verificar que C(I) é um
conjunto fechado e infinito não-numerável. Note-se igualmente que se Un =
Fn−1 \Fn para n ≥ 1 então Un é um conjunto elementar aberto formado por 2n
intervalos, cada um com comprimento 31n c(I). Temos ainda que U = I\C(I) =
∪∞n=0 Un é uma união numerável de intervalos abertos disjuntos.

Exemplo 1.3.10.
É relativamente simples indicar conjuntos que não são Jordan-mensuráveis, e
apresentamos a seguir o conjunto de Dirichlet (13 ). Trata-se do conjunto
formado pelos racionais num dado intervalo [a, b] que, para simplificar, supomos
ser o intervalo [0, 1], ou seja, consideramos o conjunto D = Q ∩ [0, 1].
Qualquer intervalo não degenerado (i.e., com interior não-vazio) contém racio-
nais e irracionais (14 ). Portanto, se um conjunto elementar E contém apenas
racionais ou apenas irracionais, então E é formado por intervalos que se re-
duzem cada um a um só ponto. Neste caso, E é um conjunto finito e tem
conteúdo nulo. Se D é o conjunto de Dirichlet e K e U são quaisquer conjuntos
elementares tais que K ⊆ D ⊆ U , então:

• Como K é elementar e só contém racionais, temos c(K) = 0.


• Como V = [0, 1]\U é elementar e só contém irracionais, temos c(V ) = 0
e segue-se facilmente que c(U ) ≥ 1.

Concluı́mos que c(U ) − c(K) ≥ 1 e portanto D não é Jordan-mensurável.

Indicámos em 1.1.8 e 1.1.11 algumas propriedades elementares básicas da


classe U(RN ) e do conteúdo-N , tal como definido nesta classe. É importante
verificar que essas propriedades se mantêm válidas na classe J (RN ).
13
Peter Gustav Lejeune Dirichlet (1805-1859), matemático alemão. O exemplo de
Dirichlet original é a função caracterı́stica dos racionais, e foi publicado em 1829.
14
Dizemos que o conjunto S ⊆ RN é denso em RN se e só se qualquer conjunto aberto
não-vazio U ⊆ RN contém pontos de S, i.e., se e só se S = RN . Nesta terminologia, os
conjuntos Q e R\Q são densos em R.
32 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Proposição 1.3.11. A classe J (RN ) é uma semi-álgebra e o conteúdo de


Jordan é aditivo e não-negativo em J (RN ). Em particular, cN é monótono
e subaditivo em J (RN ).

Demonstração. a) Provamos apenas o fecho da classe J (RN ) em relação


à união, deixando o caso da diferença para os exercı́cios. Dados A, B ∈
J (RN ), sabemos de 1.3.5 que existem sucessões de conjuntos elementares
Kn , Kn′ , Un e Un′ tais que

Kn ⊆ A ⊆ Un , Kn′ ⊆ B ⊆ Un′ , cN (Un \Kn ) → 0, cN (Un′ \Kn′ ) → 0.

Os conjuntos Kn′′ = Kn ∪ Kn′ e Un′′ = Un ∪ Un′ são elementares, de 1.1.8, e


observamos que
Kn′′ ⊆ A ∪ B ⊆ Un′′ e

Un′′ \Kn′′ = [Un \(Kn ∪ Kn′ )] ∪ [Un′ \(Kn ∪ Kn′ )] ⊆ (Un \Kn ) ∪ (Un′ \Kn′ ).

Temos de 1.1.11 que

0 ≤ cN (Un′′ \Kn′′ ) ≤ cN (Un \Kn ) + cN (Un′ \Kn′ ) → 0,

e concluı́mos de 1.3.5 que A ∪ B é Jordan-mensurável.


b) Se A e B são disjuntos, os conjuntos Kn e Kn′ mencionados acima são
igualmente disjuntos e portanto, de acordo com 1.3.5 e 1.1.11, temos

cN (Kn′′ ) → cN (A ∪ B) e cN (Kn′′ ) = cN (Kn ) + cN (Kn′ ) → cN (A) + cN (B),

ou seja, cN (A ∪ B) = cN (A) + cN (B). É evidente que o conteúdo de Jordan


é não-negativo, e as restantes afirmações seguem-se de 1.2.6.

Deixamos para o exercı́cio 9 a adaptação das proposições 1.1.12 e 1.1.13


aos conjuntos Jordan-mensuráveis, que enunciamos da seguinte forma:

Teorema 1.3.12. Se A ∈ J (RN ) e B ∈ J (RM ), então

a) A × B ∈ J(RN +M ) e cN +M (A × B) = cN (A) × cM (B).

b) Se x ∈ RN então A + x ∈ J (RN ) e cN (A + x) = cN (A).

c) Se C é uma reflexão de A num dos hiperplanos xk = 0, então C ∈


J (RN ) e cN (A) = cN (C).

Os conjuntos Jordan-mensuráveis podem ser também caracterizados pelo


conteúdo das respectivas fronteiras. Veremos mais adiante que esta condição
é um caso particular do resultado que relaciona a integrabilidade de uma
função com o conjunto de pontos onde essa função é descontı́nua.
1.3. Conjuntos Jordan-Mensuráveis 33

Teorema 1.3.13. Se J ⊂ RN é limitado, então

J ∈ J (RN ) ⇐⇒ cN (∂J) = 0.

Em particular, se J é Jordan-mensurável temos cN (J) = cN (int(J)), e


temos ainda cN (J) = 0 se e só se int(J) = ∅.

Demonstração. Supomos que J ⊂ RN é Jordan-mensurável. Dado ε > 0,


existem conjuntos elementares K e U tais que

K ⊆ J ⊆ U e cN (U \K) < ε.

Supomos sem perda de generalidade que K é aberto e U é fechado. Neste


caso, é fácil verificar que

K ⊆ int(J) ⊆ J ⊆ U , donde ∂J ⊆ U \K.

O conjunto U \K é elementar e cN (U \K) < ε, onde ε é arbitrário. Temos


portanto, de acordo com 1.3.8, que cN (∂J) = 0. Deixamos para o exercı́cio
10 a conclusão desta demonstração.

Exemplos 1.3.14.
1. Note-se do anterior que os conjuntos Jordan-mensuráveis, tal como os con-
juntos elementares, não podem ter simultaneamente interior vazio e conteúdo
positivo.

2. Vimos já que o conjunto de Dirichlet não é Jordan-mensurável, mas este facto
é também consequência do resultado anterior, porque se D = Q ∩ [0, 1] então
∂D = [0, 1], donde c(∂D) = 1 e D não é Jordan-mensurável.

Exercı́cios.

1. Generalize a desigualdade 2 < π < 4 (ver figura 1.3.1) de R2 para RN .

2. Prove que a área da região de ordenadas de f (x) = x2 no intervalo [0, 1] é 13 .


sugestão: Use a identidade:
n
X n3 n2 n
k2 = + + .
3 2 6
k=1

1
3. Mostre que J = n : n ∈ N é Jordan-mensurável e tem conteúdo nulo.

4. Conclua a demonstração do teorema 1.3.4. Porque razão os conjuntos K e


U podem ser supostos abertos ou fechados?

5. Demonstre o teorema 1.3.5.


34 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

6. Seja f : RN → RN dada por f (x) = rx. Prove que se K ∈ J (RN ) então


f (K) ∈ J (RN ) e cN (f (K)) = rN cN (K).

7. Prove que a área de um cı́rculo de raio r é πr2 e a área da região limitada


por uma elipse de semi-eixos a e b é πab.(15 )

8. Prove o corolário 1.3.8.

9. Conclua a demonstração de 1.3.11 e prove o teorema 1.3.12.

10. Conclua a demonstração de 1.3.13. sugestão: Prove que se o rectângulo


R intersecta tanto int(A) como ext(A) então R intersecta também ∂(A).

11. Sendo A ⊆ RN limitado, prove que cN (A) − cN (A) = cN (∂A).

12. Mostre que se A ⊂ RN , tanto A como Ac são densos em RN e R é um


rectângulo-N limitado com cN (R) > 0 então A ∩ R e R\A não são Jordan-
mensuráveis (16 ).

13. Mostre que se J ∈ J (RN ), cN (J) = 0 e K ⊆ J, então K ∈ J (RN ) e


cN (K) = 0.

14. Mostre que, se A ⊆ RN , B ⊆ RM , cN (A) = 0 e A e B são limitados, então


A × B é Jordan-mensurável e cN +M (A × B) = 0.

15. Suponha que K ∈ J (R2 ) e seja V o sólido de revolução obtido rodando K


em torno do eixo dos xx. Mostre que V ∈ J (R3 ).

16. Seja C(I) o conjunto de Cantor, tal como definido no exemplo 1.3.9.
a) Prove que C(I) é um conjunto limitado e fechado com interior vazio e
conclua que C(I) é a fronteira do seu complementar.
b) Verifique que C(I) é Jordan-mensurável, com conteúdo nulo.
c) Mostre que os pontos de C(I) são os pontos de acumulação de C(I),
razão pela qual C(I) se diz um conjunto perfeito(17 ).
d) Prove que C(I) é infinito não-numerável e não é elementar. sugestão:
Determine uma bijecção entre C(I) e o conjunto das sucessões binárias.
e) Mostre que {x + y : x, y ∈ C(I)} = [0, 2].

N
nPDados vectores a1 , a2o, · · · , aN em R , considere o “paralelepı́pedo” P =
17.
N
k=1 tk ak : 0 ≤ tk ≤ 1 . Prove que P é Jordan-mensurável, com cN (P ) =
| det(a1 , a2 , · · · , aN )| (o valor absoluto do determinante da matriz formada
pelos vectores a1 , · · · , aN ). sugestão: Mostre que:
15
π é naturalmente definido como a área do cı́rculo de raio 1.
16
O exemplo de Dirichlet resulta de tomar A = Q e N = 1.
17
O ponto x ∈ RN é ponto de acumulação do conjunto A ⊆ RN se e só se qualquer
vizinhança de x contém pontos de A distintos de x. As noções de “ponto de acumulação”
e de “conjunto perfeito” devem-se igualmente a Cantor.
1.4. O Integral de Riemann 35

a) Se a1 , · · · , aN são linearmente dependentes, então cN (P ) = 0.


sugestão: Considere equações cartesianas para P .
b) P é Jordan-mensurável porque a sua fronteira tem conteúdo nulo.
c) Se Q resulta de P substituindo ai por a′i = ai + λaj , com i 6= j, então
cN (Q) = cN (P ). sugestão: Suponha primeiro que 0 ≤ λ ≤ 1. Note que
neste caso Q\P é uma translação de P \Q. Considere em seguida λ ∈ N.
d) O conteúdo de P é o valor absoluto do determinante indicado. sugestão:
Reduza a matriz cujas linhas são os vectores ai à forma diagonal, pelo
processo de eliminação de Gauss-Jordan.

18. Seja T : RN → RN uma transformação linear, e K ∈ J (RN ). Mostre que


T (K) ∈ J (RN ), e cN (T (K)) = |J|cN (K), onde J é o determinante de T .

1.4 O Integral de Riemann


Como dissémos, o problema da definição do integral de funções está directa-
mente relacionado com o problema da definição do conteúdo de conjuntos.
Dada uma função f : I → R, onde para simplificar supomos que I = [a, b]
é um intervalo, designamos aqui por Ω+ e Ω− os conjuntos ilustrados na
figura 1.4.1, que são dados por

Ω+ = (x, y) ∈ R2 : x ∈ I e 0 < y < f (x) e

Ω− = (x, y) ∈ R2 : x ∈ I e 0 > y > f (x) .

O integral de f , dito unidimensional ou simples, porque f é função


de uma variável real, e designado usualmente por
Z b Z b Z Z
f (x)dx, f, f (x)dx ou f,
a a I I

é a diferença das áreas ou conteúdos-2 dos conjuntos Ω+ e Ω− . Estas


ideias generalizam-se facilmente a funções de N variáveis:

Definição 1.4.1 (Região de Ordenadas). Se R ⊆ S ⊆ RN e f : S → R,


definimos os conjuntos:

• Ω+
R (f ) = (x, y) ∈ R
N +1 : x ∈ R, 0 < y < f (x) , e


• Ω−
R (f ) = (x, y) ∈ R
N +1 : x ∈ R, 0 > y > f (x) .

A região de ordenadas de f no conjunto R é o conjunto

ΩR (f ) = Ω+ −
R (f ) ∪ ΩR (f ) ⊆ R
N +1
.
36 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

R
f R2

Ω+
b
a
Ω−

Z b
Figura 1.4.1: f (x)dx = c2 (Ω+ ) − c2 (Ω− ).
a

Neste caso mais geral, devemos ainda ter

Z
1.4.2. f (x)dx = cN +1 (Ω+ −
R (f )) − cN +1 (ΩR (f )).
R

O integral é agora a diferença dos conteúdos-(N +1) dos conjuntos Ω+ R (f )


e Ω−
R (f ) e diz-se um integral-N . Por exemplo, um integral-2, ou duplo, é a
diferença dos volumes, ou conteúdos-3, dos conjuntos Ω+ −
R (f ) e ΩR (f ). De
acordo com 1.4.2, podemos concluir que:

1.4.3. As funções de N variáveis para as quais podemos calcular


o respectivo integral-N são determinadas pelos conjuntos em RN +1
cujo conteúdo-(N + 1) está definido.

Na secção anterior, definimos o conteúdo de conjuntos Jordan-mensurá-


veis. Podemos agora definir o integral de funções para as quais os conjuntos
Ω+ −
R (f ) e ΩR (f ) são Jordan-mensuráveis, i.e., para as quais o conjunto ΩR (f )
é Jordan-mensurável(18 ). São estas as funções Riemann-integráveis.
Definição 1.4.4 (Integral de Riemann). Seja R ⊆ S ⊆ RN e f : S → R.
a) f é riemann-integrável (em R) se e só se ΩR (f ) é Jordan-mensu-
rável.
b) Neste caso, o integral de riemann de f em R é dado por
Z
f = cN +1 (Ω+ −
R (f )) − cN +1 (ΩR (f )).
R
18
Deve verificar no exercı́cio 1 desta secção que ΩR (f ) é Jordan-mensurável se e só se

Ω+
R (f ) e ΩR (f ) são Jordan-mensuráveis.
1.4. O Integral de Riemann 37

c) O conjunto das funções definidas em R e Riemann-integráveis em R é


designado por I(R).

Se f é Riemann-integrável em R então, em particular, o conjunto ΩR (f )


é necessariamente limitado, ou seja, f é limitada em R e o subconjunto de
R onde f é diferente de zero é também limitado.
Não é fácil indicar critérios de integrabilidade razoavelmente gerais mas,
recordando as observações feitas na secção anterior a propósito do exemplo
1.3.6, quando mencionámos a parábola y = x2 , é simples mostrar que

Proposição 1.4.5. Se f é limitada e monótona no intervalo limitado I,


então f é Riemann-integrável em I.
Exemplos 1.4.6.
1. A função f (x) = ex é integrável em qualquer intervalo limitado porque f é
crescente em R.

2. A função de Dirichlet dir é a função caracterı́stica (19 ) do conjunto


dos racionais, isto é,

1, quando x ∈ Q,
dir(x) =
0, quando x 6∈ Q.

Deixamos como exercı́cio verificar que esta função não é integrável em nenhum
intervalo I com c(I) > 0.

3. A função de Riemann(20 ) r é definida como se segue:



 0, quando x 6∈ Q,
r(x) = 1, quando x = 0,
 1 , quando x = p , onde p e q são inteiros primos entre si e q > 0.
q q

Deixamos também como exercı́cio verificar que r é Riemann-integrável em


qualquer intervalo limitado e o respectivo integral é nulo, apesar de r ser des-
contı́nua em todos os pontos racionais.

Sendo f : X → R uma função, definimos as suas partes positiva e


negativa, respectivamente f + e f − , por

• f + (x) = max {f (x), 0} e f − (x) = max {−f (x), 0}, donde

• f = f + − f − e |f | = f + + f − .
19
Se X é um conjunto arbitrário e A ⊆ X, a função caracterı́stica de A é a função
χA : X → R, que é constante e igual a 1 para x ∈ A, sendo igual a 0 para x 6∈ A.
20
Este exemplo foi descoberto em 1875 pelo matemático alemão Johannes Karl Thomae,
1840-1921, professor em Göttingen. Riemann foi no entanto o primeiro matemático a
mostrar que existem funções integráveis descontı́nuas em conjuntos densos, como é o caso
da função r.
38 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

As propriedades do integral de Riemann que se seguem reflectem pro-


priedades geométricas elementares do conteúdo.

Teorema 1.4.7. Supondo R ⊆ S ⊆ RN e f, g : S → R, então

a) f é Riemann-integrável em R se e só se f + e f − são Riemann-


integráveis em R e neste caso
Z Z Z
f= f+ − f −,
R R R

b) Desigualdade triangular: Se f é Riemann-integrável em R, então |f |


é Riemann-integrável em R e
Z Z Z Z
+
| f| ≤ |f | = f + f −,
R R R R

c) Monotonia: Se f e g são Riemann-integráveis em R e f ≤ g então


Z Z
f≤ g,
R R

d) Homogeneidade: Se f é Riemann-integrável em R e c ∈ R, então cf


é Riemann-integrável em R e
Z Z
(cf ) = c f.
R R

f |f |

f+ f−

Figura 1.4.2: Regiões de ordenadas de f , f + , f − , e |f |.


1.4. O Integral de Riemann 39

Demonstração. Provamos apenas, a tı́tulo de exemplo, a afirmação a). Para


isso, observe-se a figura 1.4.2. É evidente que:
• Os conjuntos Ω+ + +
R (f ) e ΩR (f ) são iguais, e

• O conjunto Ω+ − −
R (f ) é a reflexão de ΩR (f ) no hiperplano xN +1 = 0.

Deve ser claro que f é Riemann-integrável se e só se f + e f − são Riemann-


integráveis e
Z
f = cN +1 (Ω+ −
R (f )) − cN +1 (ΩR (f ))
R Z Z
+ + + − +
= cN +1 (ΩR (f )) − cN +1 (ΩR (f )) = f − f −.
R R

Registe-se desde já que a definição do integral de Riemann apresentada


em 1.4.4 é (essencialmente) equivalente à definição original de Riemann de
1854, mas é distinta desta. Actualmente, é aliás mais comum definir o
integral de Riemann usando uma terceira alternativa, com recurso às noções
de integral superior e integral inferior, e que passamos a descrever.
Para introduzir estas noções auxiliares, seja f : R → R uma função
limitada no rectângulo-N limitado R. Se r ⊆ R, escrevemos

mr = inf {f (x) : x ∈ r} e Mr = sup {f (x) : x ∈ r} .

Quando P é uma partição finita de R em rectângulos não-vazios, definimos


as somas superior e inferior de Darboux(21 ) da função f para a partição
P, designadas respectivamente por S d (f, P) e S d (f, P), por
X X
S d (f, P) = Mr cN (r) e S d (f, P) = mr cN (r).
r∈P r∈P

Volterra(22 ) introduziu as noções de integral superior e de integral


inferior em 1881. São definidas como se segue:
Definição 1.4.8 (Integral Superior, Integral Inferior). Seja f limitada em R
e designe-se por PR a classe
R de todas as partições
R finitas de R em rectângulos.
Os integrais superior R f e inferior f são dados por:
R
Z Z

f = inf S d (f, P) : P ∈ PR e f = sup {S d (f, P) : P ∈ PR }
R R
21
Jean Gaston Darboux (1842 - 1917), matemático francês, professor na Escola Normal
e na Sorbonne, e um dos principais divulgadores das ideias de Riemann em França. Estas
somas aparecem referidas em trabalhos de vários autores, todos publicados em 1875.
22
Vito Volterra, 1860-1940, matemático italiano. Volterra criou a noção de “funcional”,
e ensinou nas Universidades de Pisa, Turim e Roma. Foi forçado a exilar-se (com 71
anos!), por se recusar a prestar juramento de fidelidade ao regime fascista de Mussolini.
40 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Estas noções reduzem-se facilmente aos conceitos que introduzimos na


secção anterior. Em particular, o cálculo de somas de Darboux reduz-se ao
cálculo do conteúdo de conjuntos elementares que aproximam a região de
ordenadas de f . Para precisar esta última observação é apenas necessário
interpretar as parcelas onde mr < 0 ou Mr < 0 como fazemos no próximo
lema.
Note que, sendo A ⊆ RN +1 , seguimos a convenção natural de desig-
nar por A+ (e A− ), respectivamente, as partes de A acima (e abaixo) do
hiperplano xN +1 = 0, ou seja, escrevendo x = (x1 , x2 , · · · , xN +1 ), tomamos

A+ = {x ∈ A : xN +1 > 0} e A− = {x ∈ A : xN +1 < 0}

U+

K+

K−

U−

Figura 1.4.3: Conjuntos K e U determinados por uma partição R.

Lema 1.4.9. Se f : R → R é limitada no rectângulo-N limitado R, R é


uma partição de R em rectângulos e Ω = ΩR (f ), então existem conjuntos
elementares K ⊆ Ω ⊆ U tais que

S d (f, R) = cN +1 (K + ) − cN +1 (U − ) e S d (f, R) = cN +1 (U + ) − cN +1 (K − ).

Demonstração. Consideramos as seguintes subpartições de R:

S + = {r ∈ R : Mr > 0}, S − = {r ∈ R : Mr < 0} e

I + = {r ∈ P : mr > 0}, I − = {r ∈ P : mr < 0}.


Os conjuntos elementares U + e K − são dados por (ver figura 1.4.3)
[ [
U+ = r×]0, Mr [ e K − = r×]Mr , 0[
r∈S + r∈S −
1.4. O Integral de Riemann 41

Analogamente, os conjuntos elementares K + e U − são dados por


[ [
K+ = r×]0, mr [ e U − = r×]mr , 0[
r∈I + r∈I −

É fácil constatar que K + ⊆ Ω+ ⊆ U + , K − ⊆ Ω− ⊆ U − , e um cálculo


imediato mostra que

S d (f, R) = S d (f, I + ) + S d (f, I − ) = cN +1 (K + ) − cN +1 (U − ) e

S d (f, R) = S d (f, S + ) + S d (f, S − ) = cN +1 (U + ) − cN +1 (K − ).

O lema anterior conduz directamente a:

Lema 1.4.10 (de Peano). Se f : R → R é limitada no rectângulo-N limitado


R e Ω = ΩR (f ) então
Z Z
+ −
f = cN +1 (Ω ) − cN +1 (Ω ) e f = cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω− ).
R R

Demonstração. Se P é uma partição de R, segue-se do lema anterior e das


definições de cN e cN que

S d (f, P) = cN +1 (K + ) − cN +1 (U − ) ≤ cN (Ω+ ) − cN (Ω− ) e

S d (f, P) = cN +1 (U + ) − cN +1 (K − ) ≥ cN (Ω+ ) − cN (Ω− ).


Podemos assim concluir que
Z Z
+ − + −
(1) f ≤ cN +1 (Ω ) − cN +1 (Ω ) ≤ cN +1 (Ω ) − cN +1 (Ω ) ≤ f.
R R

Suponha-se agora que K − , K + e V, W são conjuntos elementares tais que


K + ⊆ Ω+ ⊆ V e K − ⊆ Ω− ⊆ W . Podemos sempre tomar V = U + e
W = U − , onde U é elementar (porquê?), e recordamos do exercı́cio 12 da
secção 1.1 que existe uma partição P tal que
[ [
K= r × Ir e U = r × Jr ,
r∈R r∈R

onde os Ir e Jr são conjuntos elementares em R. Um momento de reflexão


revela que, para qualquer r ∈ P, temos necessariamente

Ir ⊆]mr , Mr [⊆ Jr , donde Mr − mr ≤ c(Jr ) − c(Ir ) e portanto


X X
S d (f, P) − S d (f, P) = (Mr − mr )cN (r) ≤ [c(Jr ) − c(Ir )] cN (r) =
r∈P r∈P
42 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann
X X
c(Jr )cN (r) − c(Ir )cN (r) = cN +1 (U ) − cN +1 (K).
r∈P r∈P
Segue-se facilmente que
   
S d (f, P)−S d (f, P) ≤ cN +1 (U + ) − cN +1 (K − ) − cN +1 (K + ) − cN +1 (U − ) ,

donde obtemos ainda


Z Z
   
f− f ≤ cN +1 (U + ) − cN +1 (K − ) − cN +1 (K + ) − cN +1 (U − ) ,
R R

e finalmente
Z Z
   
(2) f− f ≤ cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω− ) − cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω− ) .
R R

As desigualdades em (1) e (2) estabelecem a igualdade a provar.

O próximo resultado é um corolário directo deste lema. É o seu conteúdo


que é actualmente a mais tradicional definição do integral de Riemann.
Corolário 1.4.11. Se f : R → R é limitada no rectângulo-N limitado R
então f é Riemann-integrável em R se e só se
Z Z Z Z Z
f= f , e neste caso f= f= f
R R R R R
R R
Demonstração. De acordo com 1.4.10, temos Rf = f se e só se
R

cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω− ) = cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω− ) ⇐⇒

⇐⇒ cN +1 (Ω+ ) − cN +1 (Ω+ ) = cN +1 (Ω− ) − cN +1 (Ω− ) = 0


R R
É portanto claro que R f = f se e só se os conjuntos Ω+ e Ω− são
R
Jordan-mensuráveis, e neste caso temos
Z Z Z
+ −
f= f = cN +1 (Ω ) − cN +1 (Ω ) = f.
R R R

É também possı́vel verificar a integrabilidade de f sem calcular explici-


tamente os seus integrais superior e inferior. Podemos em vez disso recorrer
à ideia subjacente a 1.3.4, que referimos a propósito do problema análogo de
caracterização dos conjuntos Jordan-mensuráveis. Deixamos como exercı́cio
a demonstração da proposição seguinte.
Proposição 1.4.12. Se f : R → R é limitada no rectângulo-N limitado R
então f é Riemann-integrável em R se e só se existe para cada ε > 0 uma
partição P de R tal que S d (f, P) − S d (f, P) < ε.
1.4. O Integral de Riemann 43

Em abono da verdade histórica, sublinhe-se a terminar que as ideias


sobre integrais de funções de Riemann (1854), Darboux (1875) e Volterra
(1881), obviamente precederam os trabalhos sobre o conteúdo de conjuntos
de Cantor (1884), Peano (1887) e Jordan (1892). Quase certamente, os
trabalhos de Darboux e Volterra foram inspiração decisiva em especial para
Cantor e Peano. Em qualquer caso, as ideias abordadas nesta secção eram
seguramente familiares a Peano, que conhecia, por exemplo, o lema 1.4.10,
aqui identificado com o seu nome. Mostrámos que a definição 1.4.4 é equi-
valente à afirmação no corolário 1.4.11, mas a sua equivalência à definição
original de Riemann, que aliás ainda não apresentámos, só será estabelecida
mais adiante.

Exercı́cios.

1. Prove que ΩR (f ) é Jordan-mensurável se e só se os conjuntos Ω+ −


R (f ) e ΩR (f )
são ambos Jordan-mensuráveis.

2. Mostre que se f 6=
R 0 apenas num subconjunto finito de R então f é Riemann-
integrável em R e R f = 0.

3. Suponha que o conjunto onde f 6= 0 é uma união de conjuntos Jordan-


mensuráveis disjuntos A1 , A2 , · · · , Am em RN , e que f (x) = ak , quando x ∈
Ak . Mostre que
Z m
X
f= ak cN (Ak ).
RN k=1

4. Mostre que a função f (x) = sen( x1 ) é integrável em ]0, 1].

5. Suponha que f está definida em R, R ⊇ S, g é a restrição de f a S e f (x) = 0


quando x 6∈ S. Mostre que f é integrável em R se e só se g é integrável em S
e que, neste caso, Z Z
f= g.
R S

6. Prove que se f e g são funções Riemann-integráveis em R, então as funções


m e M definidas por m(x) = min {f (x), g(x)} e M (x) = max {f (x), g(x)} são
igualmente integráveis em R.

7. Suponha que f é Riemann-integrável no conjunto limitado R. Prove que


o gráfico de f em R, i.e., o conjunto G = {(x, y) : x ∈ R, y = f (x)}, tem
conteúdo nulo. Se o gráfico da função f tem conteúdo nulo, podemos concluir
que f é integrável?

8. Seja f Riemann-integrável em RN , a ∈ RN e b ∈ R. O que pode dizer sobre


a integrabilidade e o valor dos integrais das funções dadas por

g(x) = f (x − a), h(x) = bf (x) e u(x) = f (bx)?


44 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

9. Calcule os integrais superior e inferior da função de Dirichlet num qualquer


intervalo limitado I ⊂ R.

10. Demonstre a proposição 1.4.12. Como se pode adaptar 1.4.12 para contem-
plar regiões de integração “arbitrárias”?

11. Demonstre as seguintes propriedades da função de Riemann (exemplo 1.4.6.3):

a) Se ε > 0, então o conjunto {x ∈ I : r(x) ≥ ε} é finito.


b) A função de Riemann r é integrável em qualquer intervalo limitado I.
sugestão: Dado ε > 0, e sendo Rε = I × [0, ε], mostre que Rε ∪ ΩI (r)
é um conjunto elementar.
c) A função r é contı́nua em x se e só se x é irracional.

12. Se a função f é Riemann-integrável em R, os respectivos conjuntos de nı́vel,


i.e., os conjuntos {x ∈ R : f (x) = a} são sempre Jordan-mensuráveis? E os
conjuntos {x ∈ R : f (x) > a}?

13. Mostre que o produto de funções Riemann-integráveis é Riemann-integrável.


sugestão: Comece por supor que as funções em causa não tomam valores
negativos.

14. Verifique que a composição de funções Riemann-integráveis pode não ser


Riemann-integrável. sugestão: Determine uma função Riemann-integrável f
tal que dir = f ◦ r.

15. Sendo f Riemann-integrável em [0, R] ep C = {(x, y) : x2 +y 2 < R}, considere


a função g definida em C por g(x, y) = f ( x2 + y 2 ). Mostre que g é integrável
em C e (23 )
Z Z R
g(x, y)dxdy = 2π f (r)rdr.
C 0

1.4.1 O Espaço das Funções Integráveis


A aditividade do integral em relação à função integranda é a identidade
Z Z Z
(f + g) = f+ g,
R R R

que, como veremos, é válida desde que f e g sejam ambas Riemann-integrá-


veis em R. A aditividade do integral tem ainda um significado geométrico
claro, mas já não é tão simples de demonstrar a partir de propriedades do
conteúdo de Jordan. Provamo-la a seguir usando somas de Darboux para as
23
Este cálculo é um exemplo simples de “mudança de variáveis” para coordenadas po-
lares, dadas por x = r cos θ, y = r sen θ.
1.4. O Integral de Riemann 45

diversas funções integrandas. No que se segue, o integral definido (de


Riemann, em R) é o funcional φ : I(R) → R, dado por (24 )
Z
φ(f ) = f.
R

Teorema 1.4.13. Sendo R ⊆ RN e f, g : R → R funções Riemann-


integráveis em R, então f + g é Riemann-integrável em R e:
Z Z Z
(f + g) = f+ g.
R R R

Temos ainda que I(R) é um espaço vectorial e o integral definido φ : I(R) →


R é um funcional linear.
Demonstração. Supomos para simplificar que R é um rectângulo limitado.
Designando aqui por Mr (h) o supremo da função h no conjunto r, e por
mr (h) o ı́nfimo de h em r, deve ser claro que, para qualquer r ⊆ R, temos

mr (f ) + mr (g) ≤ mr (f + g) ≤ Mr (f + g) ≤ Mr (f ) + Mr (g).

Resulta destas desigualdades que se R é uma partição de R então

S d (f, R) + S d (g, R) ≤ S d (f + g, R) ≤ S d (f + g, R) ≤ S d (f, R) + S d (g, R)

Concluı́mos que
Z Z
S d (f, R) + S d (g, R) ≤ (f + g) ≤ (f + g) ≤ S d (f, R) + S d (g, R)
R R

Como R é uma partição arbitrária de R obtemos igualmente


Z Z Z Z Z Z
f+ g≤ (f + g) ≤ (f + g) ≤ f+ g
R R R R R R

É portanto claro que se f e g são integráveis em R então f + g é também


integrável em R e Z Z Z
(f + g) = f+ g.
R R R
Combinando este resultado com a propriedade de homogeneidade esta-
belecida em 1.4.7, resulta finalmente que I(R) é um espaço vectorial(25 ) e φ
é um funcional linear.

24
A função φ diz-se um funcional, precisamente porque o seu domı́nio é uma classe de
funções. Um funcional é linear se é uma transformação linear de espaços vectoriais.
25
O conjunto de todas as funções f : X → R, por vezes designado RX , é sempre um
espaço vectorial real, com as operações usuais de soma de funções e de produto de funções
por números reais, qualquer que seja o conjunto X. Portanto, qualquer subconjunto não
vazio de RX que seja fechado em relação a estas operações é um seu subespaço vectorial.
46 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Figura 1.4.4: kf − gk1 é o conteúdo da região entre os gráficos de f e g.

R
O funcional ν : I(R) → R dado por ν(f ) = kf k1 = R |f | tem também
um papel importante na Análise, porque é frequentemente utilizado como
medida da distância entre funções integráveis f e g, tomando essa distância
como sendo kf − gk1 . Este funcional diz-se a norma L1 de f , por razões
que esclareceremos mais adiante(26 ).
A propriedade de aditividade indicada em 1.4.13 a) pode ser generaliza-
da para quaisquer somas finitas por um argumento elementar de indução.
É no entanto fundamental reconhecer que não é facilmente generalizável a
séries de funções, porque em geral as operações de integração e de passagem
ao limite (implı́cita no cálculo da soma de uma série) não comutam, i.e.,
Z Z
lim fn (x)dx é distinto de lim fn (x)dx.
n→+∞ I I n→+∞
Exemplos 1.4.14.
1. Considerem-se as funções fn dadas por:

n, se x ∈]0, 1/n[ e
fn (x) =
0, se x 6∈]0, 1/n[.
R1
Como fn (x) → 0 para qualquer x ∈ R e 0 fn (x)dx = 1 para qualquer n ∈ N,
temos que
Z 1 Z 1
lim fn (x)dx = 1 é obviamente distinto de lim fn (x)dx = 0.
n→+∞ 0 0 n→+∞

Para obter funções Riemann-integráveis g e gn tais que


X∞ Z 1 X∞ Z 1
g(x) = gn (x) e g(x)dx 6= gn (x)dx,
n=1 0 n=1 0

podemos por exemplo tomar



X
gn (x) = fn (x) − fn−1 (x) com f0 = 0, e g(x) = gn (x).
n=1
26
Este funcional é na realidade uma semi-norma no espaço I(R). Veja a este respeito
o exercı́cio 6.
1.4. O Integral de Riemann 47

Note-se que a dificuldade ilustrada neste exemplo nada tem a ver com eventuais
deficiências técnicas da definição de Riemann, porque os cálculos em causa são
inteiramente elementares.

2. A passagem ao limite sob o sinal de integral pode também ser impossı́vel


porque o limite f não é Riemann-integrável. Para ilustrar esta possibilidade,
seja I = [0, 1] e D = {q1 , · · · , qn , · · · } = Q∩I o conjunto de Dirichlet. Tomamos
Qn = {qk : k ≤ n} e definimos fn : [0, 1] → R por

1, se x ∈ Qn e
fn (x) =
0, se x 6∈ Qn .

Deve ser quase óbvio que

• fn é Riemann-integrável em qualquer intervalo e tem integral nulo, porque


é diferente de zero apenas num conjunto finito, mas
• fn (x) → f (x) = dir(x) para qualquer x ∈ R, e esta função não é Rie-
mann-integrável em nenhum intervalo com mais de um ponto.

A dificuldade exibida neste exemplo está directamente ligada com insuficiências


da definição de Riemann, e veremos adiante como é minimizada pela introdu-
ção da definição de Lebesgue. O exemplo pode ser igualmente adaptado para
ilustrar dificuldades do mesmo tipo com a integração de séries, ou seja, para
determinar funções Riemann-integráveis gn tais que

X ∞ Z
X 1 Z 1
g(x) = gn (x), gn (x)dx converge e g(x)dx não existe,
n=1 n=1 0 0

porque g não é Riemann-integrável.

Exercı́cios.

1. Sendo R = [0, 1], determine funções fn , gn ∈ I(R), tais que:



X ∞ Z
X 1
a) g(x) = gn (x) 6∈ I(R), mas gn (x)dx converge.
n=1 n=1 0
Z
b) lim fn = 0, mas lim fn (x) não existe, para nenhum x ∈ R.
n→∞ n→∞
ZR
c) lim fn não existe, mas lim fn (x) existe, para qualquer x ∈ R.
n→∞ R n→∞

2. Mostre que a função de Dirichlet dir é dada por:

dir(x) = lim lim (cos m!πx)2n .


m→∞ n→∞

P
3. Suponha que a série de potências ∞ n
n=1 an x converge para |x| < r, e mostre
que esta série pode ser integrada termo-a-termo em qualquer intervalo [a, b] ⊂
] − r, r[. sugestão: Prove que a série converge uniformemente em [a, b].
48 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

P∞ n
4. A função f (x) = n=0 (−1)
2n int(nx) é Riemann-integrável em [0, 1]? Qual é
o conjunto de pontos onde f é contı́nua?

5. Sendo H a função de Heaviside (a função caracterı́stica do intervalo [0, ∞[),


e Q ∩ [0, 1] = {qn : n ∈ N}, considere-se:

X∞
(−1)n
f (x) = H(x − qn ).
n=1
2n

A função f é Riemann-integrável em [0, 1]? Qual é o seu conjunto de pontos


de descontinuidade?
Recorde que se V é um espaço vectorial real, ou complexo, então uma função
ν : V → R diz-se uma norma se e só se ν tem as seguintes propriedades:
a) Desigualdade triangular: ν(u+v) ≤ ν(u)+ν(v), para quaisquer vectores
u, v ∈ V,
b) Homogeneidade: ν(αu) = |α|ν(u), para qualquer vector u e escalar α,
c) Positividade: ν(u) ≥ 0, e ν(u) = 0 se e só se u = 0.
Sendo ν uma norma no espaço vectorial V, que se diz neste caso um espaço
vectorial normado, a distância entre vectores u e v em V é definida por
d(u, v) = ν(u − v). Se o funcional ν goza das propriedades acima indicadas,
com a única excepção que podem existir vectores não-nulos u para os quais
ν(u) = 0, então ν diz-se uma semi-norma.

6. Mostre que o funcional ν(f ) = kf k1 é uma semi-norma em I(R).

1.4.2 Integrais Indefinidos


É usual dizer que a função real de variável real f é um “integral indefinido”
quando f é da forma Z x
f (x) = g(t)dt,
a
onde g é uma função Riemann-integrável num dado intervalo I, a variável
x ∈ I e a ∈ I está fixo. Respeitamos aqui a usual convenção de tomar
Z x Z a
g(t)dt = − g(t)dt quando x < a.
a x

A mesma terminologia aplica-se a funções de várias variáveis, usando agora


integrais em rectângulos, e.g., quando
Z xZ y
F (x, y) = G(s, t)dsdt.
a b

Introduzimos aqui uma ideia ligeiramente mais geral, que corresponde a con-
siderar o integral indefinido como uma função de conjuntos, cuja variável
1.4. O Integral de Riemann 49

independente é uma região de integração “arbitrária”, que em particular não


é necessariamente um intervalo ou um rectângulo. Mais especificamente, e
dada uma qualquer função f : R → R, consideramos a classe dos subconjun-
tos de R onde f é Riemann-integrável, que designamos por Jf (R), notamos
que Jf (R) nunca é uma classe vazia (porquê?), e introduzimos
Definição 1.4.15 (Integral Indefinido). O integral indefinido (de Rie-
mann) de f em R é a função de conjuntos λ : Jf (R) → R dada por:
Z
λ(E) = f.
E

Se a função f é Riemann-integrável em R, é fácil verificar que f é igual-


mente integrável pelo menos em qualquer subconjunto Jordan-mensurável
de R, i.e., temos neste caso que J (R) ⊆ Jf (R).
Teorema 1.4.16. Seja f : R → R uma função Riemann-integrável em
R ⊆ RN . Se E ⊆ R é Jordan-mensurável, então f é Riemann-integrável
em E, e Z Z
f= f χE .
E R

E×J
ΩR (f ) J ΩE (f )

Figura 1.4.5: ΩE (f ) = ΩR (f ) ∩ (E × J) = ΩR (f χE ).

Demonstração. A função f é limitada em R, i.e., existe m ∈ R tal que


−m < f (x) < m. Se J = [−m, m], então E ×J é Jordan-mensurável, porque
é um produto de conjuntos Jordan-mensuráveis (veja-se 1.3.12). Deve ser
evidente que
ΩE (f ) = ΩR (f ) ∩ (E × J) = ΩR (f χE ).
O conjunto ΩR (f ) ∩ (E × J) é portanto Jordan-mensurável, porque é a
intersecção de conjuntos Jordan-mensuráveis (1.3.11). Por outras palavras,
f é Riemann-integrável em E e é óbvio que
Z Z
f= f χE .
E R
50 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Podemos generalizar a qualquer integral indefinido os resultados indica-


dos para o conteúdo de Jordan em 1.3.11.
Teorema 1.4.17. Jf (R) é uma semi-álgebra e λ é aditivo em Jf (R).
Temos ainda que:
a) Se f ≥ 0 em R então λ é não-negativo, monótono e subaditivo,
b) Se f é integrável em R então Jf (R) ⊇ J (R) é uma álgebra.
Demonstração. Tal como fizémos em 1.3.11, verificamos apenas a tı́tulo de
exemplo que a classe Jf (R) é fechada em relação à união e provamos a
aditividade de λ. Simplificamos a notação, escrevendo abreviadamente, e.g.,
ΩA em vez de ΩA (f ). Sendo C = A ∪ B, onde A, B ∈ Jf (R), temos então
que (ver Figura 1.4.6):
• f é Riemann-integrável em A e em B, i.e., os conjuntos ΩA e ΩB são
Jordan-mensuráveis.
• O conjunto ΩC = ΩA ∪ ΩB é igualmente Jordan-mensurável.
• Portanto, f é Riemann-integrável em C, i.e., C ∈ Jf (R).
Se A e B são disjuntos, então Ω+ +
A e ΩB são igualmente disjuntos, assim
como Ω− −
A e ΩB . Como o conteúdo de Jordan é aditivo, temos

cN +1 (Ω+ + + + +
C ) = cN +1 (ΩA ∪ ΩB ) = cN +1 (ΩA ) + cN +1 (ΩB ), e
cN +1 (Ω− − − − −
C ) = cN +1 (ΩA ∪ ΩB ) = cN +1 (ΩA ) + cN +1 (ΩB ).

Subtraindo estas identidades, concluı́mos que λ(C) = λ(A) + λ(B).

A B A∪B

Figura 1.4.6: Regiões de ordenadas em A, B e A ∪ B.

A região de ordenadas de uma função caracterı́stica χE é o produto


cartesiano E×]0, 1[. Se E ⊆ R ⊆ RN é Jordan-mensurável, temos portanto:
Z
χE = cN +1 (E×]0, 1[) = cN (E) × 1 = cN (E).
R

Não é difı́cil mostrar que se χE é integrável em RN então E é Jordan-


mensurável, pelo que temos na verdade:
1.4. O Integral de Riemann 51

Teorema 1.4.18. O conteúdo-N é o integral indefinido da função f iden-


ticamente igual a 1 no conjunto RN .
O teorema acima é de uma simplicidade quase trivial, mas encerra uma
ideia que complementa de forma muito interessante o que dissémos em 1.4.3.
De um ponto de vista intuitivo, e como a identidade cN +1 (ΩR ) = cN (E)×1 =
cN (E) deve ser sempre válida, é também natural esperar que a seguinte
identidade seja sempre válida:
Z
cN (E) = χE .
R

Por outras palavras, determinar o conteúdo-N do conjunto E deve ser equi-


valente a determinar o integral-N da respectiva função caracterı́stica χE e,
portanto, também é verdade que

1.4.19. Os conjuntos em RN para os quais podemos calcular o res-


pectivo conteúdo-N são determinados pelas funções (de N variáveis)
cujo integral-N está definido.

Exemplos 1.4.20.
1. A teoria desenvolvida até aqui não atribui um integral à função de Dirichlet,
por exemplo, quando a região de integração é o intervalo [0, 1]. De forma
equivalente, não atribui um comprimento ao conjunto Q ∩ [0, 1], formado pelos
racionais do mesmo intervalo.
2. Recorde-se do exemplo 1.3.7 que se
[∞ X∞
1 1 1
A= [ , ], então A ∈ J (RN ) e c(A) = .
n=1
2n 2n − 1 n=1
2n(2n − 1)

Portanto, se f é a função caracterı́stica do conjunto A, temos igualmente


Z X∞
1
f= .
R n=1
2n(2n − 1)

Exercı́cios.

1. Complete a demonstração da proposição 1.4.17.

2. Suponha que f é Riemann-integrável no conjunto R e que g é limitada em


R. Mostre que, se o conjunto
R R{x ∈ R : f (x) 6= g(x)} tem conteúdo nulo, então
g é integrável em R e R f = R g.

3. Demonstração a proposição 1.4.18. sugestão: Mostre que S(χE , P) ≤


cN (E) ≤ cN (E) ≤ S(χE , P).
52 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

1.4.3 Continuidade e Integrabilidade


Desde cedo se suspeitou que a integrabilidade no sentido de Riemann de uma
função limitada depende fortemente da “extensão” do conjunto de pontos
onde a função é descontı́nua. Por outras palavras, se f : R → R é limitada
num rectângulo compacto R e descontı́nua apenas em S ⊂ R, onde S é
“pequeno”, esperava-se que f fosse integrável em R. O exemplo de Riemann
1.4.6.3 mostra no entanto que não é fácil tornar rigorosa esta ideia. Afinal de
contas, a função de Riemann é descontı́nua no conjunto dos racionais, que
não é Jordan-mensurável. Por outro lado, o conjunto dos racionais é denso
em R e era também opinião corrente entre muitos matemáticos que qualquer
teoria razoável sobre a “extensão” de conjuntos devia considerar os conjuntos
densos como “grandes”. Não é por isso surpreendente que o esclarecimento
da relação entre continuidade e integrabilidade tenha sido uma fonte de tra-
balhos inovadores, que revelaram muitas das pistas conduzindo à moderna
teoria da medida.
Supomos aqui conhecida a seguinte famosa caracterização dos conjuntos
compactos em RN :

Teorema 1.4.21 (Heine-Borel). (27 )O conjunto K ⊆ RN é compacto se e


só se é limitado e fechado. Em particular, os rectângulos compactos são os
rectângulos limitados e fechados.

É conveniente introduzir a noção de oscilação de uma função f : R → R.


Se s ⊆ R ⊆ RN é não-vazio, designamos por Ms e ms , como usualmente,
respectivamente o supremo e ı́nfimo de f em s, e definimos a função (de
conjuntos) Oscf por:

1.4.22. Oscf (s) = Ms − ms .

Dado x ∈ RN e r > 0, designamos por B(x, r) ou Br (x) a Bola Aberta


de raio r e centro em x, ou seja,

B(x, r) = Br (x) = {y ∈ RN : kx − yk < r}.

Se x ∈ R, a função φ(x, r) = Oscf (Br (x) ∩ R) ≥ 0 está definida para r > 0


e é crescente em r. Em particular, com x fixo existe sempre o limite de
φ(x, r) quando r → 0:
27
Heinrich Eduard Heine, matemático alemão, 1821-1881, referiu pela primeira vez a
ideia subjacente a este teorema, ao provar que uma função contı́nua num intervalo limitado
e fechado é uniformemente contı́nua. Félix Edouard Justine Émile Borel, matemático
e polı́tico francês, 1871-1956, deixou uma obra muita extensa, e foi um dos principais
criadores da Teoria da Medida. Borel introduziu este teorema na sua tese, publicada como
Sur quelques points de la théorie des fonctions, em Annales Scientifiques de l’E.N.S., 3e
série, tome 12 (1895), pp. 9-55. O teorema de Heine-Borel, na sua forma actual, em RN ,
foi apresentado por Vitali em 1905, num dos principais artigos sobre a moderna teoria da
integração.
1.4. O Integral de Riemann 53

Definição 1.4.23 (Oscilação de uma função limitada). Se f : R → R é uma


função limitada, a sua oscilação é a função ωf : R → R dada por:
ωf (x) = lim φ(x, r) = lim Oscf (Br (x) ∩ R).
r→0 r→0

Note-se para posterior referência que definimos igualmente:


lim sup f (y) = lim sup {f (z) : z ∈ Br (x) ∩ R} , e
y→x r→0

lim inf f (y) = lim inf {f (z) : z ∈ Br (x) ∩ R} .


y→x r→0

Exemplos 1.4.24.
1. Se f (x) = x, então Oscf (Br (x)) = 2r, e
ωf (x) = lim Oscf (Br (x)) = 0.
r→0

2. Se f é a função de Dirichlet e I é um conjunto aberto não-vazio, temos


sup {f (x) : x ∈ I} = 1 e inf {f (x) : x ∈ I} = 0. Concluı́mos que Oscf (I) = 1 e
ωf (x) = 1, para qualquer x ∈ R.
3. Se f é uma função limitada, então:
ωf (x) = lim sup f (y) − lim inf f (y).
y→x y→x

A demonstração das seguintes propriedades fica como exercı́cio.


Lema 1.4.25. Se R ⊆ RN e f : R → R é limitada em R então:
a) Para qualquer x ∈ R, f é contı́nua em x se e só se ωf (x) = 0, e nesse
caso lim sup f (y) = lim inf f (y) = f (x).
y→x y→x

b) Se U é aberto e x ∈ U ∩ R, então ωf (x) ≤ Oscf (U ∩ R),


c) Para qualquer x ∈ R, se ωf (x) < ε então existe um aberto U tal que
x ∈ U e ωf (y) < ε para qualquer y ∈ U ∩ R, e
d) O conjunto {x ∈ R : ωf (x) ≥ ε} é fechado.
Demonstração. Deixamos a demonstração de a) e b) para o exercı́cio 3.
• Para provar c), notamos que existe ρ > 0 tal que Oscf (Bρ (x)∩ R) < ε,
e tomamos U = Bρ (x).
• Para provar d), seja Uε = {x ∈ R : ωf (x) < ε}. Temos de c) que,
se ωf (x) < ε, então existe ρx > 0 tal que Oscf (B(x, ρx) ∩ R) < ε.
Notamos que
[
V = B(x, ρx) é aberto e {x ∈ R : ωf (x) < ε} = V ∩ R.
x∈Uε

F = V c é fechado e {x ∈ R : ωf (x) ≥ ε} = F ∩ R é também fechado.


54 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Convencionamos que se R é uma partiçãoS de R e T ⊆ R então RT =


{r ∈ R : r ∩ T 6= ∅}, e notamos que T ⊆ K = r∈RT r. O seguinte resultado
auxiliar será muito útil no que se segue.

Lema 1.4.26. Se ωf < ε em T ⊆ R e T é compacto, então existe δ > 0 tal


que, para qualquer partição R de R em subrectângulos,
[
diam(R) < δ =⇒ S d (f, RT ) − S d (f, RT ) ≤ εcN (K), onde K = r.
r∈RT

Demonstração. De acordo com a definição 1.4.23,

∀x∈T ∃ρx >0 0 < ρ < ρx ⇒ Oscf (Bρ (x) ∩ R) < ε.

A famı́lia de bolas abertas B(x, ρ2x ) é uma cobertura de T . Como T é


compacto, existe uma subfamı́lia finita de bolas centradas em x1 , x2 , · · · , xn ,
que é, ainda, uma cobertura de T . Tomamos δ = 12 min {ρx1 , ρx2 , · · · , ρxn }
e supomos que R é uma partição de T com diam(R) < δ.
Fixado r ∈ RT , existe x ∈ r ∩ T , e portanto existe xi tal que x ∈
ρ
B(xi , x2 i ). Para qualquer y ∈ r (mesmo que y 6∈ T ), temos então
ρxi
ky − xi k ≤ ky − xk + kx − xi k < δ + < ρxi , i.e., r ⊆ B(xi , ρxi ).
2
Concluı́mos que Oscf (r) < ε, ou Mr − mr < ε, e portanto
X X
S d (f, RT ) − S d (f, RT ) = (Mr − mr )cN (r) ≤ ε cN (r) = εcN (K).
r∈RT r∈RT

Se f : R → R é uma função limitada num rectângulo-N compacto e D é


o seu conjunto de pontos de descontinuidade, então segue-se de 1.4.25 que

[  
1
D= Dn , onde Dn = x ∈ R : ωf (x) ≥ .
n
n=1

A condição de integrabilidade indicada abaixo está enunciada em termos


dos conjuntos Dn . Mostra que o conjunto de pontos de descontinuidade de
uma função Riemann-integrável não é necessariamente Jordan-mensurável,
mas é sempre uma união numerável de conjuntos de conteúdo nulo.

Teorema 1.4.27 (Integrabilidade e Continuidade). Se f : R → R é limitada


no rectângulo-N compacto R, as seguintes afirmações são equivalentes:

a) f é Riemann-integrável em R, e
1.4. O Integral de Riemann 55

b) Os conjuntos Dn são Jordan-mensuráveis e têm conteúdo nulo.

Demonstração. a) =⇒ b): Como f é integrável, para quaisquer n ∈ N e


ε > 0 existe uma partição P de R em rectângulos tal que
ε
(1) S d (f, P) − S d (f, P) < .
n
Dado qualquer rectângulo r ∈ P, segue-se de 1.4.25 b) que

x ∈ int(r) =⇒ ωf (x) ≤ Oscf (int(r)) ≤ Oscf (r) = Mr − mr .

Definimos agora A = {r ∈ P : Mr − mr < n1 }, B = {r ∈ P : Mr − mr ≥ 1


n },
[ [
A= int(r), B = r e B̃ = R\A.
r∈A r∈B

Observamos que ωf (x) < n1 para qualquer x ∈ A, e portanto Dn ⊆ B̃. Por


outro lado, é claro que B̃\B ⊆ ∂A e cN (∂A) = 0, donde

(2) cN (Dn ) ≤ cN (B̃) = cN (B).

Para estimar cN (B), notamos primeiro que


X X1 1
(3) S d (f, B) − S d (f, B) = (Mr − mr )cN (r) ≥ cN (r) = cN (B).
n n
r∈B r∈B

Temos por outro lado de (1) que


ε
(4) S d (f, B) − S d (f, B) ≤ S d (f, P) − S d (f, P) < .
n
Segue-se de (3) e (4) que cN (B) < ε, e de (2) que cN (Dn ) < ε. Como ε é
arbitrário, concluı́mos que cN (Dn ) = 0.
Para provar a implicação b) =⇒ a), supomos que todos os conjuntos Dn
têm conteúdo nulo. Observamos que:

• Fixado n e dado ε > 0, existe um conjunto elementar aberto U tal que


Dn ⊆ U e cN (U ) < ε.
1
• T = R\U é compacto (e elementar) e ωf (x) < n para x ∈ T .

• Pelo lema 1.4.26, existe δ > 0 tal que se R é uma partição de R em


rectângulos com diam(R) < δ então
1 [
S d (f, RT ) − S d (f, RT ) ≤ cN (K), onde K = r ⊇ T.
n
r∈RT

• Como f é limitada, existe M tal que |f (x)| ≤ M para x ∈ R.


56 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

• Sendo R̃ = R\RT e Ũ = R\K, é claro que Ũ ⊆ U , donde cN (Ũ ) ≤


cN (U ) < ε, e R̃ é uma partição de Ũ . Temos portanto

S d (f, R) − S d (f, R) =S d (f, RT ) − S d (f, RT ) + S d (f, R̃) − S d (f, R̃)


1 1
≤ cN (K) + 2M cN (Ũ ) ≤ cN (R) + 2M ε.
n n

Como ε e n são arbitrários, concluı́mos que f é Riemann-integrável.

É fácil adaptar a demonstração do resultado anterior para obter um


resultado intimamente relacionado com a definição original do integral de
Riemann. Deixamos a sua verificação para o exercı́cio 11.

Corolário 1.4.28. Se f : R → R é limitada no rectângulo-N compacto R,


então f é Riemann-integrável em R se e só se

S d (f, P) − S d (f, P) → 0 quando diam(P) → 0

Vimos que se f é Riemann-integrável em R então os conjuntos Dn são


Jordan-mensuráveis e têm conteúdo nulo. Se ε > 0, existem conjuntos ele-
mentares En ⊇ Dn tais que cN (En ) < 2εn . Podemos supor sem perda de
generalidade que os conjuntos En são abertos e temos:

[ ∞
X ∞
X ε
D⊆ En e cN (En ) < = ε.
2n
n=1 n=1 n=1

Foi a propósito de conjuntos com esta propriedade que Borel introduziu(28 )


a noção de conjunto de medida nula, ou conjunto nulo:

Definição 1.4.29 (Conjunto Nulo). E ⊆ RN é um conjunto nulo se e


só se para qualquer ε > 0 existem rectângulos abertos Rn tais que:

[ ∞
X
E⊆ Rn e cN (Rn ) < ε.
n=1 n=1

Exemplos 1.4.30.
1. Se f é Riemann-integrável em R, então o conjunto D dos pontos de descon-
tinuidade de f é evidentemente um conjunto nulo.
2. Qualquer conjunto numerável E é nulo, e em particular Q é nulo. Sendo
x1 , x2 , · · · , xn , · · · os elementos de E, e dado ε > 0, tomamos 0 < ε′ < ε e,
supondo para simplificar que E ⊂ R,

[ ∞
X
ε′ ε′
Un =]xn − n+1
, xn + n+1
[, donde E ⊆ Un , e c(Un ) = ε′ < ε.
2 2 n=1 n=1

28
Em 1895, no artigo que já referimos a propósito do teorema de Heine-Borel.
1.4. O Integral de Riemann 57

3. Deve notar-se (exercı́cio 8) que a definição 1.4.29 não se altera, se nela referir-
mos rectângulos quaisquer, em lugar de rectângulos abertos. Por esta razão, é
inteiramente óbvio que qualquer conjunto numerável é de medida nula, já que
cada um dos rectângulos Rn se pode reduzir a um ponto.

É claro que qualquer conjunto Jordan-mensurável de conteúdo nulo é


nulo no sentido de Borel, mas o exemplo do conjunto dos racionais mostra
que existem conjuntos nulos no sentido de Borel que não são Jordan-men-
suráveis. A este respeito, registamos que
Proposição 1.4.31. Se K ⊂ RN é compacto, então K é nulo no sentido
de Borel se e só se K é Jordan-mensurável e cN (K) = 0.
Demonstração. Suponha-se que K é compacto e nulo no sentido de Borel e
seja ε > 0. Existem rectângulos abertos Rn tais que

[ ∞
X
K⊆ Rn e cN (Rn ) < ε.
n=1 n=1

Como K é compacto e os Rn ’s são abertos, existe um natural m tal que


m
[ m
X ∞
X
K⊆ Rn e cN (Rn ) ≤ cN (Rn ) < ε.
n=1 n=1 n=1

É evidente que ∪m
n=1 Rn é elementar e segue-se imediatamente que K é
Jordan-mensurável e tem conteúdo nulo.

Lebesgue introduziu a sugestiva convenção de usar a expressão “quase em


toda a parte”, abreviada “qtp”, como sinónimo de “excepto num conjunto
nulo”(29 ). Nesta terminologia, o teorema 1.4.27 enuncia-se de forma sucinta:

Teorema 1.4.32 (Integrabilidade e Continuidade). Se f : R → R é limitada


no rectângulo-N compacto R, então
f é Riemann-integrável em R ⇐⇒ f é contı́nua qtp em R.
Demonstração. Resta-nos provar que se o conjunto D dos pontos de descon-
tinuidade é nulo, então f é Riemann-integrável. Recorde-se que
[∞  
1
D= Dn , onde Dn = x ∈ R : ωf (x) ≥ .
n
n=1

Os conjuntos Dn são nulos no sentido de Borel, porque D é nulo, e são


compactos, pelo lema 1.4.25. Concluı́mos de 1.4.31 que os conjuntos Dn
têm conteúdo nulo, e de 1.4.27 que f é Riemann-integrável.
29
No francês original, diz-se “presque partout”, abreviado “pp”, e em inglês usa-se a
expressão “almost everywhere”, que se abrevia para “ae”.
58 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Terminamos esta secção com uma breve referência à definição de integral


introduzida por Riemann em 1854, que recorre ao que chamamos “somas de
Riemann”. Dada uma partição P do rectângulo R, para calcular uma soma
de Riemann é necessário seleccionar em cada rectângulo r um ponto xr ∈ r,
ou seja, fixar uma função “de escolha” φ : P → R tal que xr = φ(r) ∈ r
para qualquer r ∈ P. A soma de riemann depende de P e de φ e é dada
por X X
SR (f, P, φ) = f (φ(r))cN (r) = f (xr )cN (r).
r∈P r∈P

A definição original de Riemann de 1854 é a seguinte(30 ):

Definição 1.4.33 (Integral de Riemann). Supondo que R é um rectângulo


limitado e f : R → R, então f é integrável (em R) se e só se existe α ∈ R
tal que SR (f, P, φ) → α quando diam(P) → 0(31 ). Neste caso,
Z
f = α.
R

A definição de Riemann é na realidade uma generalização de uma prévia


definição, formulada por Cauchy(32 ) em 1821, apenas para funções contı́nuas
f : [a, b] → R. Cauchy demonstrou que, dada uma partição P de [a, b]
determinada por pontos a = x0 < x1 < · · · < xn = b, se xk−1 ≤ x∗k ≤ xk
então existe α ∈ R tal que
n
X
f (x∗k )(xk − xk−1 ) → α, quando diam(P) → 0.
k=1

O valor de α define assim o integral de f . Na terminologia de Riemann,


podemos dizer que Cauchy demonstrou que as funções contı́nuas em interva-
los limitados e fechados são Riemann-integráveis. Em certo sentido, também
é verdade que Riemann se limitou a considerar a classe de todas as funções
às quais a definição de Cauchy poderia ser aplicável, uma generalização que
hoje nos pode parecer pouco significativa. Mas, ao fazê-lo, levou a discussão
sobre as noções básicas da Análise, incluindo a própria ideia de “função”,
a nı́veis superiores de abstracção e rigor. Pelo menos por esta razão, foi
certamente um importante factor de progresso e renovação na Matemática
da segunda metade do século XIX.
30
Neste como em muitos outros casos que temos referido, os trabalhos originais con-
templam apenas funções reais definidas em intervalos. Os integrais múltiplos só foram
estudados com rigor bastante mais tarde, em particular por Jordan.
31
Ou seja, para qualquer ε > 0 existe δ > 0 tal que para qualquer partição P e qualquer
função de escolha φ : P → R, temos |SR (f, P, φ) − α| < ε quando diam(P) < δ.
32
Augustin Louis Cauchy, 1789-1857, francês, foi um dos grandes matemáticos de sem-
pre, como o atesta o facto do seu nome aparecer ligado a ideias fundamentais, em tantos
domı́nios distintos. O matemático Abel, que Cauchy tratou de forma particularmente
injusta, disse dele que “é louco, mas é o único que sabe como se deve fazer a Matemática”.
1.4. O Integral de Riemann 59

A equivalência entre as definições 1.4.33 e 1.4.4 resulta facilmente do


corolário 1.4.28, mas deixamos o esclarecimento desta observação para o
exercı́cio 11.
Exercı́cios.

1. Calcule a oscilação da função de Riemann.

2. Considere a função f , dada por:


(
sen( sen(1 1 ) ), quando x 6= 0, e sen( x1 ) 6= 0,
f (x) = x .
0, em todos os outros casos

Calcule a oscilação ωf . A função f é integrável em [0, 1]?

3. Demonstre as alı́neas a) e b) do lema 1.4.25.

4. Mostre que o teorema 1.3.13 é um caso particular do teorema 1.4.27.

5. Prove que se J ∈ J (RN ) é fechado, então as funções contı́nuas em J são


integráveis em J.

6. Prove que se f é limitada no rectângulo compacto R, então


Z Z Z
f− f= ωf .
R R R

7. Prove que se os conjuntos An ⊂ RN são nulos no sentido de Borel, então


A = ∪∞n=1 An é igualmente nulo no mesmo sentido.

8. Mostre que a definição 1.4.29 não se altera se considerarmos rectângulos


quaisquer, em lugar de rectângulos abertos.

9. Mostre que se E ∈ J (RN ), então E é nulo no sentido de Borel se e só se


cN (E) = 0.

10. Seja D o conjunto onde f : R → R é descontı́nua. Prove que


a) Se U ⊆ R é aberto, então f −1 (U ) = (R ∩ V ) ∪ N , onde V é aberto e
N ⊆ D.
R
b) Se f ≥ 0 e R f = 0, então f (x) = 0 qtp em R. sugestão: Mostre que
{x ∈ R : f (x) > 0} ⊆ D.
R
c) Se f (x) = 0 qtp em R e f é integrável em R então R f = 0. A hipótese
“f é integrável em R” é mesmo necessária?

11. Prove o corolário 1.4.28, e conclua que as definições de integral em 1.4.33 e


1.4.4 são equivalentes.
60 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

1.5 Os Teoremas Fundamentais do Cálculo


As operações de integração e de diferenciação são inversas uma da outra.
Esta ideia central da Análise, vislumbrada já por alguns dos precursores de
Newton e Leibnitz, é tradicionalmente descrita em dois resultados, ditos os
Teoremas Fundamentais do Cálculo. De forma por enquanto pouco precisa,
estes teoremas reduzem-se aos seguintes enunciados, que descrevem respec-
tivamente a diferenciação de um integral e a integração de uma derivada.

1.5.1 (1o Teorema Fundamental do Cálculo).


Z x
d
f (t)dt = f (x)
dx a

1.5.2 (2o Teorema Fundamental do Cálculo, ou Regra de Barrow(33 )).


Z x
F ′ (t)dt = F (x) − F (a)
a

Diferenciação

Integrais indefinidos Funções integráveis

Integração

Figura 1.5.1: Os Teoremas Fundamentais do Cálculo.

Nenhum destes resultados é particularmente surpreendente de um ponto


de vista intuitivo. Supondo
Z x
F (x) = f (t)dt e h > 0,
a

então devemos ter


Z x+h
F (x + h) − F (x) = f (t)dt ≃ f (x)h,
x
33
De Isaac Barrow, 1630-1677, o primeiro professor da Universidade de Cambridge
nomeado para a Cátedra Lucasiana. Barrow tomou a extraordinária iniciativa de se demi-
tir, para dar o lugar ao seu aluno Newton, em quem justamente reconhecia qualidades
excepcionais.
1.5. Os Teoremas Fundamentais do Cálculo 61

donde F ′ (x) = limh→0 F (x+h)−F


h
(x)
= f (x). Analogamente, se F ′ (t) = f (t)
e a = x0 < x1 < · · · < xn = x é uma partição do intervalo [a, x], então
n
X n
X Z x
F (x) − F (a) = [F (xk ) − F (xk−1 )] ≃ f (xk−1 )∆xk ≃ f (t)dt.
k=0 k=0 a

Não é difı́cil demonstrar resultados deste tipo usando a teoria de Riemann,


desde que se coloquem suficientes hipóteses sobre a regularidade das funções
f e F . Começamos por provar:

Lema 1.5.3. Se f é Riemann-integrável em I, a ∈ I e F é dada em I por


Z x
F (x) = f (t)dt + F (a), temos então que:
a

a) F é uniformemente contı́nua em I, e

b) Se f é contı́nua em c ∈ I então F ′ (c) = f (c).

Demonstração. A função F está bem definida, porque f é integrável em


qualquer subintervalo de I, e temos para quaisquer x, y ∈ I que
Z y
(1) F (y) − F (x) = f (t)dt.
x

a) f é limitada em I, ou seja, existe M tal que |f (x)| ≤ M para x ∈ I.


Supondo sem perda de generalidade que y > x, temos
Z y Z y

|F (y) − F (x)| = f (t)dt ≤ |f (t)|dt ≤ M |y − x|.
x x

Concluı́mos que F é (uniformemente) contı́nua em I.


b) Sendo ρ > 0, designamos por Mρ e mρ respectivamente o supremo e o
ı́nfimo de f em Bρ (c) ∩ I. Se x ∈ Bρ (x) ∩ I é imediato verificar que
Z x
F (x) − F (c) 1
mρ ≤ = f (t)dt ≤ Mρ
x−c x−c c

Se f é contı́nua em c temos de 1.4.25 que Mρ → f (c) e mρ → f (c) quando


ρ → 0, e é portanto óbvio que

F (x) − F (c)
lim = f (c), ou seja, F ′ (c) = f (c).
x→c x−c

Combinando este lema com o teorema 1.4.32, obtemos imediatamente:


62 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Teorema 1.5.4 (1o Teorema Fundamental do Cálculo (I)). Se f é Riemann-


integrável em I = [a, b] e F é dada em I por
Z x
F (x) = f (t)dt + F (a),
a

então F é contı́nua em I e F ′ (x) = f (x) qtp em I.


É mais difı́cil identificar hipóteses igualmente “naturais” para o 2o Teo-
rema Fundamental, uma questão que tem sido fonte de problemas sofistica-
dos muito interessantes. Demonstramos a seguir uma versão do 2o Teorema,
por enquanto longe de ser o recı́proco de 1.5.4, porque não contempla a pos-
sibilidade de F não ser diferenciável num conjunto “excepcional”.
Teorema 1.5.5 (2o Teorema Fundamental do Cálculo (I)). Se F é contı́nua
em I = [a, b], diferenciável em ]a, b[, F ′ = f é Riemann-integrável em I e
c, d ∈ I então(34 )
Z d
F (d) − F (c) = f (x)dx.
c
Demonstração. Dada uma qualquer partição de [c, d] em intervalos Ik , onde
supomos que Ik tem extremos xk−1 < xk e c = x0 < x1 < · · · < xn = d,
observamos que
n
X
F (d) − F (c) = [F (xk ) − F (xk−1 )],
k=0

porque a soma à direita é telescópica. Do Teorema de Lagrange (35 ), temos


F (xk ) − F (xk−1 ) = F ′ (x∗k )(xk − xk−1 ), onde xk−1 < x∗k < xk , e portanto
n
X
F (d) − F (c) = f (x∗k )(xk − xk−1 ).
k=0

F (d) − F (c) é assim uma soma de Riemann da função f , e é claro que


S d (f, P) ≤ F (d) − F (c) ≤ S d (f, P).
Como a partição P é arbitrária, podemos também concluir que
Z d Z d
f ≤ F (d) − F (c) ≤ f.
c c
Z d
Como f é integrável, segue-se que F (d) − F (c) = f (x)dx.
c
34
Note que a existência de F ′ (x) nos pontos x = a e x = b é irrelevante.
35
Se F é contı́nua em [a, b] e diferenciável em ]a, b[, existe θ tal que a < θ < b e
F (b) − F (a) = F ′ (θ)(b − a). Este teorema tem o nome de Joseph-Louis Lagrange, (1736-
1813), matemático francês de origem italiana, um dos primeiros professores das Escolas
Politécnica e Normal de Paris.
1.5. Os Teoremas Fundamentais do Cálculo 63

A respeito deste teorema, o próximo exemplo exibe uma função f que


não é integrável, apesar de ter uma primitiva contı́nua. É evidente deste
exemplo que a hipótese de integrabilidade de f é indispensável no resultado
que acabámos de provar. Entenda-se também do mesmo exemplo que a ope-
ração de integração é distinta da operação de primitivação e, em particular,
a integração e a diferenciação não são exactamente operações inversas uma
da outra.

Exemplo 1.5.6.
Definimos g : R → R por

x2 sen( x12 ), quando x 6= 0, e
g(x) = .
0, quando x = 0

A função g é diferenciável em R e a sua derivada é dada por



2x sen( x12 ) − x2 cos( x12 ), quando x 6= 0, e
g ′ (x) = .
0, quando x = 0

A função g é diferenciável em R, mas o integral da sua derivada g ′ em qualquer


intervalo I que contenha a origem não existe, porque g ′ é ilimitada em I.

De um ponto de vista “prático”, deve ser em qualquer caso claro que o 2o


Teorema Fundamental é, antes do mais, um processo de cálculo de integrais
pela determinação de primitivas cuja importância é difı́cil de sobrestimar.
Desta perspectiva, o enunciado em 1.5.5 é evidentemente pouco satisfatório,
porque é demasiado restritivo e portanto difı́cil de aplicar directamente,
excepto em casos muito simples. Em geral, é simplesmente impossı́vel de-
terminar uma “primitiva” F que seja diferenciável e igual à integranda em
todo o intervalo de integração, aliás como o 1o Teorema fortemente sugere.
No entanto, tal não impede que a regra de Barrow se mantenha aplicável.
Exemplos 1.5.7.
1. Seja f (x) = sgn(x) a função sinal de x, dada por

+1 para x ≥ 0, e
sgn(x) =
−1 para x < 0.

A função sgn não é contı́nua na origem, mas é integrável em qualquer


R x intervalo
[a, b]. Se F (x) = |x|, então F ′ (x) = sgn(x) para x 6= 0 e F (x) = a f (t)dt +
F (a) para qualquer x.

2. Se f é a função de Riemann e F = 0, então F é diferenciável em R, mas



RFx(x) = f (x) apenas se x 6∈ Q. Apesar disso, temos novamente F (x) =
a
f (t)dt + F (a), para qualquer x. Este exemplo evidencia também que a con-
tinuidade da integranda é uma condição suficiente, mas não necessária, para a
diferenciabilidade do integral indefinido.
64 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

É simples generalizar o teorema 1.5.5 para o caso em que a igualdade


F ′ (x)= f (x) falha apenas num conjunto finito de pontos, o que bem en-
tendido é suficiente para justificar cálculos elementares como os referidos no
exemplo 1.5.7.1. Deixamos para o exercı́cio 2 a demonstração da seguinte
versão do 2o Teorema.

Teorema 1.5.8 (2o Teorema Fundamental do Cálculo (II)). Se F é contı́nua


em I = [a, b], f é Riemann-integrável em I e F ′ (t) = f (t) excepto num
conjunto finito D, então
Z x
F (x) − F (a) = f (t)dt.
a

Claro que mesmo nesta forma o 2o Teorema Fundamental é ainda insa-


tisfatório. É inteiramente evidente que, se a função f é Riemann-integrável
no intervalo I, então existem “primitivas” de f apropriadas ao cálculo do
integral de f por aplicação da regra de Barrow, ou seja, existem sempre
funções contı́nuas F tais que F ′ = f qtp em I e que satisfazem
Z d
F (d) − F (c) = f (x)dx, para quaisquer c, d ∈ I,
c
Rx
porque basta para isso tomar, e.g., F (x) = a f (t)dt. Seria aqui especial-
mente conveniente substituir em 1.5.8 a expressão “excepto num conjunto
finito D” por “qtp em I”, o que aliás teria a virtude de transformar o 2o
Teorema num perfeito e elegante recı́proco do 1o Teorema. No entanto, e sur-
preendentemente, o exemplo seguinte revela que esta alteração de hipóteses
conduz a uma afirmação incorrecta.

Exemplo 1.5.9.

A função aqui definida, a chamada “escada do diabo”, função de Can-


tor ou de Cantor-Lebesgue, é outro exemplo clássico(36 ). Recorde-se que
o conjunto de Cantor foi definido como C(I) = ∩∞ n=0 Fn , onde os conjuntos
Fn formam uma sucessão decrescente obtida pelo processo de “remoção do
intervalo médio” descrito em n1.3.3. Tomando I = F0 = [0, 1], então o compri-
mento de Fn é c(Fn ) = 23 . Sendo fn a função caracterı́stica do conjunto
Fn , definimos as funções gn por
 n Z x  n Z 1
3 3
gn (x) = fn (t)dt, donde gn (1) = fn (t)dt = 1.
2 0 2 0

As funções gn são contı́nuas e crescentes, satisfazendo ainda gn (1) = 1. A


figura 1.5.2 ilustra os gráficos das funções gn , para 0 ≤ n ≤ 5. É simples
mostrar que a sucessão gn converge uniformemente para uma função F , que é
contı́nua e crescente, com F (0) = 0 e F (1) = 1, e F é a “escada do Diabo”.
1.5. Os Teoremas Fundamentais do Cálculo 65

g0 g1 g2

g3 g4 g5

1 1
Figura 1.5.2: |gn (x) − gn−1 (x)| < n e |gn (x) − F (x)| < n . Os segmentos
2 2
horizontais pertencem ao gráfico de F .

Deixamos para o exercı́cio 8 a verificação detalhada do seguinte resultado:

Proposição 1.5.10. A “escada do Diabo” F satisfaz F ′ (x) = 0 quando


x 6∈ C, onde C é o conjunto de Cantor.

Se F é a “escada do Diabo” e f é uma qualquer função limitada em R


tal que f (x) = 0 quando x 6∈ C, é evidente que f é Riemann-integrável e
F ′ (x) = f (x) quando x 6∈ C, ou seja, F ′ (x) = f (x) excepto num conjunto
de conteúdo nulo. Apesar disso, é também evidente que

Z 1
1 = F (1) − F (0) 6= f (t)dt = 0.
0

A determinação de “primitivas” F apropriadas ao cálculo do integral de


uma função integrável f por aplicação da regra de Barrow revela-se, assim,
um problema bem mais difı́cil do que uma leitura rápida do 1o Teorema
Fundamental na forma 1.5.4 nos pode fazer supor. Resumimos a questão
com que nos deparamos na seguinte forma:

36
Para uma aplicação talvez surpreendente, mas “prática”, deste tipo de funções, veja-se
por exemplo o artigo Devil’s Staircase-Type Faceting of a Cubic Lyotropic Liquid Crystal,
de Pawel Pieranski, Paul Sotta, Daniel Rohe, e Marianne Imperor-Clerc, em Phys. Rev.
Lett. 84, 2409, de 13 de Março de 2000.
66 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Quando f é integrável em [a, b], existem funções F tais que F ′ = f


qtp em [a, b]. Quais dessas funções satisfazem a regra de Barrow
Z b
F (b) − F (a) = f (x)dx?
a

Mais geralmente, que funções F são integrais indefinidos?

Concluı́mos para já, do exemplo da “escada do Diabo”, que


• Existem funções contı́nuas em toda a parte e diferenciáveis qtp (aliás,
diferenciáveis excepto num conjunto de conteúdo nulo), como a função
de Cantor-Lebesgue, que não são o integral da respectiva derivada.
• Dadas funções F e G contı́nuas em toda a parte e diferenciáveis qtp,
é falso que
F ′ (x) = G′ (x) qtp =⇒ F (x) = G(x) + C,
porque F − G pode ser, em particular, a função de Cantor-Lebesgue.
• É portanto evidente que a expressão “excepto num conjunto finito D”
em 1.5.8 não pode ser substituı́da por “qtp em I”.
Estudaremos adiante as soluções encontradas pela teoria de Lebesgue
para estas questões, que envolvem de forma crucial a noção de continuidade
absoluta e o grande Teorema de Diferenciação do próprio Lebesgue, desco-
berto em 1904.
É também muito interessante reconhecer que o cálculo do comprimento
do gráfico de uma função F está intimamente relacionado com a questão
de saber se F é ou não o integral da sua derivada. Para definir o compri-
mento do gráfico de F , observamos que, se F é uma função real definida
pelo menos no intervalo J ⊆ R, a selecção de um qualquer conjunto finito
P = {x0 , x1 , · · · , xn } ⊆ J determina uma linha poligonal L(F, P) inscrita
no gráfico de F , formada pelos segmentos de recta que unem pontos Pk =
(xk , F (xk )) consecutivos (ver a figura 1.5.3)(37 ). Supondo que x0 ≤ x1 ≤
· · · ≤ xn , esta linha poligonal tem comprimento
n p
X
s(L(F, P)) = (xk − xk−1 )2 + (F (xk ) − F (xk−1 ))2
k=1

O comprimento da linha poligonal L(F, P) é uma aproximação por de-


feito do comprimento do gráfico de F , sendo por isso o erro menor quando
s(L(F, P)) é maior. Segue-se que a melhor aproximação do comprimento do
gráfico de F que podemos obter a partir destas linhas poligonais é o supremo
dos seus comprimentos, o que formalizamos na próxima definição:
37
Note-se a tı́tulo de curiosidade que os gráficos na figura 1.5.2 são linhas poligonais
inscritas no gráfico da “escada do diabo”.
1.5. Os Teoremas Fundamentais do Cálculo 67

P4
P5
P2
P3 P6

P7
P8

P9 P10
P1

Figura 1.5.3: Aproximação do gráfico de F pela linha poligonal L(F, P).

Definição 1.5.11 (Comprimento do gráfico de F ). Se F : I → R e o


intervalo J ⊆ I então o comprimento do gráfico de F em J é dado por(38 )

ΛJ (F ) = sup{s(L(F, P)) : P ⊆ J, P finito }.

Se ΛJ (F ) < ∞ dizemos que o gráfico de F é rectificável em J.

Mostramos desde já como calcular o comprimento do gráfico de uma


função que satisfaz as condições do 2o Teorema Fundamental na forma 1.5.5.
É também possı́vel mostrar que a fórmula em causa é válida desde que F
seja o integral da sua derivada F ′ , mas deixamos o completo esclarecimento
desta questão para depois de desenvolvermos a teoria de Lebesgue, dada a
especial elegância dos resultados que são apenas possı́veis nesse contexto.

Teorema 1.5.12. Se F é contı́nua em I = [a, b], diferenciável em ]a, b[ e


F ′ é integrável em I então
Z bp
ΛI (F ) = 1 + F ′ (x)2 dx.
a

Demonstração. Dada uma qualquer partição P = {x0 , x1 , · · · , xn } do in-


tervalo I = [a, b], onde a = x0 < x1 < · · · < xn = b, escrevemos ∆xk =
xk − xk−1 , yk = F (xk ) e ∆yk = yk − yk−1 , donde
s  
n p n
X
2 2
X ∆yk 2
s(L(F, P)) = (∆xk ) + (∆yk ) = 1+ ∆xk .
∆xk
k=1 k=1

Esta definição adapta-se sem dificuldades a curvas em RN , onde uma “curva” é a


38

imagem de uma função F : I → RN e I ⊆ R é um intervalo.


68 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Pelo Teorema de Lagrange, existe x∗k ∈]xk−1 , xk [ tal que


∆yk F (xk ) − F (xk−1 )
= = F ′ (x∗k ) e portanto
∆xk xk − xk−1
n q
X √
s(L(F, P)) = 1 + F ′ (x∗k )2 ∆xk é uma soma de Riemann de g = 1 + F ′2 ,
k=1
e temos
p p
(1) S d ( 1 + F ′2 , P) ≤ s(L(F, P)) ≤ S d ( 1 + F ′2 , P)

Deixamos a conclusão desta demonstração para o exercı́cio 7.


Exemplos 1.5.13.
1. É fácil mostrar que o teorema anterior é igualmente válido quando F satisfaz
apenas as hipóteses de 1.5.8. Como dissémos, o resultado mantém-se mesmo no
contexto da teoria de Riemann desde que a função F seja o integral indefinido
da sua derivada, mas a verificação deste facto já não é tão simples.
2. O gráfico de qualquer integral indefinido é rectificável em intervalos limitados
(exercı́cio 3).
3. O gráfico de qualquer função monótona é rectificável em intervalos limitados
(exercı́cio 6). Em particular, a “escada do Diabo” é uma função contı́nua com
gráfico rectificável à qual a identidade do teorema 1.5.12 não se aplica (exercı́cio
8), tal como não se aplica o 2o Teorema Fundamental.

Descrevemos aqui mais um exemplo clássico, devido a van der Waer-


den(39 ), de uma função contı́nua em toda a parte que não é diferenciável
em ponto nenhum. Este exemplo sugere fortemente que a usual noção de
continuidade é pouco útil para identificar as funções que são “integrais
indefinidos” mas, como veremos, ilustra também a existência de funções
contı́nuas com outras propriedades apenas aparentemente paradoxais:
• O gráfico desta função não é rectificável em nenhum intervalo com
mais de um ponto (exercı́cio 9), e em particular

• A função não é monótona em nenhum intervalo com mais de um ponto.


Exemplo 1.5.14.
a função de van der Waerden: A função f0 : R → R dada por f0 (x) =
x − int(x + 1 ) , onde int(x) é a parte inteira de x, exprime a distância de x
2
ao inteiro mais próximo. Observamos que
39
De Bartel Leendert van der Waerden, 1903-1996, matemático holandês, grande al-
gebrista contemporâneo, que estudou e ensinou na Alemanha até à 2a Guerra Mundial.
Era desde 1951 professor na Universidade de Zurique. O exemplo aqui referido foi publi-
cado em 1930. Na literatura em lı́ngua inglesa, é comum identificar funções como a deste
exemplo pela sigla ecnd, de “everywhere continuous nowhere differentiable”.
1.5. Os Teoremas Fundamentais do Cálculo 69

• f0 é uma função contı́nua, com perı́odo 1.


1
• 0 ≤ f0 (x) ≤ 2 e f0 (k) = 0 para qualquer inteiro k ∈ Z.
1 n
Tomando fn (x) = 2n f0 (2 x) para n ≥ 0, temos igualmente
1
• fn é uma função contı́nua, com perı́odo 2n ,
1
• 0 ≤ fn (x) ≤ 2n+1 , e fn ( 2kn ) = 0, para qualquer k ∈ Z e n ∈ N.
A função de van der Waerden é definida por

X ∞
X 1
f (x) = fn (x) donde 0 ≤ f (x) ≤ = 1.
n=0 n=0
2n+1

A função de van der Waerden é contı́nua em R, porque as funções fn são


contı́nuas e a respectiva série é uniformemente convergente. A figura 1.5.4
ilustra os gráficos das funções fn para 0 ≤ n ≤ 3 e sugere o gráfico de f (40 ).

10
X
fn
n=0

f0

f1
f2
f3

10
X
Figura 1.5.4: As funções fn (0 ≤ n ≤ 3) e fn .
n=0

O gráfico de cada função fn é “em dente de serra”, formado por segmentos de


recta de declive ±1, e deste facto resulta que:
Proposição 1.5.15. A função de van der Waerden não é diferenciável em
ponto nenhum.

Demonstração. Fixado x ∈ R, se in = int(2n x) para n ∈ N então:


in in + 1 1
an = ≤x< = bn = an + n e an → x, bn → x.
2n 2n 2
Se a função f é diferenciável em x teremos portanto:
f (bn ) − f (an )
lim = f ′ (x).
n→∞ b n − an
40 P10 1
Note que |f (x)− n=0 fn | ≤ 2048
, diferença que na escala desta figura é imperceptı́vel.
70 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

A função de van der Waerden é fácil de calcular nos pontos da forma 2in com
i ∈ Z, porque para k ≥ n temos fk ( 2in ) = 0. Dito doutra forma, a série que
define a função f reduz-se nestes pontos a uma soma finita com n termos:
n−1
X n−1 n−1
i i f (bn ) − f (an ) X fk (bn ) − fk (an ) X
f( ) = f k ( ) e = = ck,n .
2n 2n b n − an b n − an
k=0 k=0 k=0

Fixado k, os declives ck,n são constantes para n > k, ou seja, ck,n = dk , onde
dk = ±1, porque o gráfico de fk (um “dente de serra”, como referimos) é linear
i
em qualquer intervalo da forma [ 2k+1 , 2i+1
k+1 ] com declive ±1. Temos assim

n−1
f (bn ) − f (an ) X
= dk .
b n − an
k=0

Como dk = ±1 não tende para zero quando k → ∞, o limite



f (bn ) − f (an ) X
lim = dk ,
n→∞ b n − an
k=0

não pode existir e ser finito. Portanto, f não é diferenciável em x.

Exercı́cios.
R∞
1. Suponha que o integral impróprio(41 ) −∞ f (t)dt é convergente. A função
Rx
F (x) = a f (t)dt para x ∈ R é uniformemente contı́nua em R?

2. Demonstre a versão do 2o Teorema Fundamental indicada em 1.5.8.


Rx
3. Suponha que f é integrável no intervalo I, a ∈ I e F (x) = a f (t)dt para
x ∈ I. Mostre que o gráfico de F é rectificável em qualquer intervalo limitado
em I.

4. Mostre que o gráfico da função definida no exemplo 1.5.6 não é rectificável


no intervalo [0, 1], e portanto a função em causa não é um integral indefinido.
Rx
5. Suponha que F é uma função crescente no intervalo I, e F (x) = a f (t)dt +
F (a), onde f é Riemann-integrável em I. Mostre que se A ⊆ I e c(A) = 0,
então c(F (A)) = 0. Prove igualmente que se A é nulo no sentido de Borel,
então F (A) é também nulo.

6. Suponha que f está definida num intervalo compacto I. Mostre que


a) Se f é monótona em I então o seu gráfico é rectificável em I.
b) Se x < y < z são pontos de I então Λ[x,z] (f ) = Λ[x,y](f ) + Λ[y,z] (f ).
41
R∞
O integral impróprio de Riemann −∞ f (t)dt diz-se convergente se o integral de
Ry
Riemann F (x, y) = x f (t)dt existe para quaisquer −∞ < x ≤ y < ∞ e a função F tem
limite finito quando x → −∞ e y → +∞.
1.6. O Problema de Borel 71

7. Complete a demonstração de 1.5.12 (verifique as afirmações feitas no final


do argumento apresentado, que envolvem somas de Darboux da integranda em
causa).

8. Considere a definição da “escada do Diabo” F apresentada em 1.5.9.


a) Calcule o máximo de |gn (x)−gn−1 (x)|. Conclua que a sucessão de funções
gn converge uniformemente para uma função contı́nua e crescente F .
b) Demonstre a proposição 1.5.10.
c) Calcule o integral de F sobre o intervalo [0, 1].
d) Calcule o comprimento do gráfico de F no intervalo [0, 1].
e) Sendo C(I) o conjunto de Cantor, mostre que F (C(I)) = I. Conclua
directamente do exercı́cio 5 que F não é um integral indefinido.
f) Prove que F não é diferenciável em nenhum ponto de C(I).

9. Prove que o gráfico da função de van der Waerden (exemplo 1.5.14) não é
rectificável em qualquer intervalo I não trivial, i.e., com mais de um ponto.
Conclua em particular que esta função não é monótona em nenhum intervalo
não trivial. sugestão: Na notação do exemplo 1.5.14, seja
m
X
gm (x) = fn (x).
n=0

Note que o gráfico de gm é uma linha poligonal inscrita no gráfico de f . Sendo


Γm o comprimento dessa linha no intervalo I = [0, 1], note que
Z 1

Γm ≥ λm = |gm |.
0
Mostre que λm → ∞. Pode aqui ser conveniente usar a aproximação de Stirling
para o factorial de n, na forma:
n!en
lim √ =1
n→∞ nn 2πn

10. Sendo f a função de van der Waerden (exemplo 1.5.14) mostre que o con-
junto onde f tem extremos locais é denso.

11. Suponha que f : I → R é diferenciável em I e ε > 0. Mostre que existem


funções contı́nuas g : I → R que não são diferenciáveis em ponto nenhum de I
e satisfazem |f (x) − g(x)| < ε, para qualquer x ∈ I.

1.6 O Problema de Borel


É justo sublinhar que a noção de “aditividade”, reconhecidamente na forma
algo vaga de princı́pios como “o todo é a soma das partes”, é uma questão
já intensamente debatida por filósofos gregos da Antiguidade Clássica, e.g.,
em torno dos famosos paradoxos de Zenão. O chamado paradoxo da seta(42 )
42
“Imagine-se uma seta em voo. Em cada instante de tempo, que não tem duração, a
seta não se move. Como o tempo é uma sucessão de instantes, a seta nunca se move!”
72 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

observa essencialmente que um segmento de recta de comprimento positivo


é formado por pontos de comprimento zero. Portanto, neste caso não é
razoável sustentar que “o comprimento do todo é a soma dos comprimentos
das partes”. O paradoxo do corredor (43 ) envolve por sua vez a partição de
um segmento de recta numa famı́lia numerável de subintervalos. A tı́tulo
de ilustração, considere-se a partição de I =]0, 1] dada por

X 1 X ∞ ∞
1 1
P = {Ik =] k
, k−1 ] : k ∈ N}, onde c(I) = 1 = k
= c(Ik ).
2 2 2
k=1 k=1

Pelo menos neste caso, a propriedade de aditividade é aplicável desde que


se considerem séries em lugar das usuais somas com um número finito de
parcelas, ou seja, continua a ser verdade que “o comprimento do todo é a
soma (da série) dos comprimentos das partes”. Muito naturalmente, este
facto não parece ter sido entendido pelos Antigos, que nunca dominaram a
noção de limite, sem a qual é impossı́vel o correcto tratamento de séries,
e não terão suspeitado da subtil diferença entre o infinito numerável e o
infinito não-numerável(44 ), que é a verdadeira justificação para a diferença
de conclusões nos dois paradoxos referidos.
Do nosso ponto de vista, o paradoxo do corredor é especialmente notável
porque a sua solução sugere como se pode definir o “conteúdo” de alguns
conjuntos que não são Jordan-mensuráveis. A ideia em causa é a base
conceptual da moderna Teoria da Medida e aparece explicitamente na tese de
doutoramento de Borel. Consiste em observar que a aditividade do conteúdo
se aplica igualmente a partições infinitas numeráveis(45 ), um resultado que
pode ser enunciado como se segue:

43
O corredor deve correr uma distância fixa. Demora um tempo finito a percorrer a
primeira metade, um tempo finito a percorrer metade do restante, e assim sucessivamente.
O tempo da corrida é uma soma infinita de termos positivos, à qual se julgava dever atribuir
um valor infinito. Ambos os paradoxos, entre muitos outros, são atribuı́dos ao filósofo
Zenão (de Eleia, no sul de Itália), que viveu no século V AC. Os paradoxos parecem
ter sido criados para exibir dificuldades lógicas da ideia de “contı́nuo”, hoje ubı́qua na
Matemática, através de exemplos como a recta real R.
44
Foi apenas em 1873 que Cantor esclareceu esta diferença, provando em particular que
Q é numerável e R é não-numerável.
45
A tese de Borel, de 1895, que curiosamente não faz qualquer referência à teoria da
integração, introduz pelo menos três ideias relacionadas entre si e fundamentais para essa
teoria: a aditividade do conteúdo para partições numeráveis (na realidade, o lema 1.6.2
para intervalos), o teorema de Heine-Borel, e a noção de conjunto de medida nula. O
teorema de Heine-Borel é indispensável para provar a propriedade de aditividade referida
e a definição de conjunto de medida nula usa partições numeráveis para atribuir uma
“medida” a conjuntos que podem não ser Jordan-mensuráveis. Esta última definição tem
aliás um domı́nio de aplicação tão geral que cedo conduziu Borel a delicadas reflexões
sobre a ideia de “conjunto”. Registe-se a tı́tulo de curiosidade que o orientador de tese de
Borel foi o já referido Darboux.
1.6. O Problema de Borel 73

Teorema 1.6.1. Se os conjuntos An ∈ J (RN ) são disjuntos, então



[ ∞
X
A= An ∈ J (RN ) =⇒ cN (A) = cN (An ).
n=1 n=1

Este teorema é uma consequência imediata dos dois lemas que passamos
a enunciar e demonstrar (1.6.2 e 1.6.3):
Lema 1.6.2. Dados conjuntos An ∈ J (RN ), então

[ ∞
X
N
A⊆ An e A ∈ J (R ) =⇒ cN (A) ≤ cN (An ).
n=1 n=1

Demonstração. Seja ε > 0. De acordo com 1.3.4, existem conjuntos ele-


mentares K (compacto) e U (aberto) tais que

(i) K ⊆ A ⊆ U e cN (U \K) < ε donde cN (A) − ε < cN (K).

Pela mesma razão, existem conjuntos elementares Kn (compactos) e Un


(abertos), tais que Kn ⊆ An ⊆ Un e
ε ε
cN (Un \Kn ) < n
e cN (Un ) < cN (An ) + n donde
2 2
∞ 
ε X

X X ∞
(ii) cN (Un ) < cN (An ) + n = cN (An ) + ε.
n=1 n=1
2 n=1
Como K é compacto, segue-se do teorema de Heine-Borel que existe m ∈ N
tal que
[∞ [∞ m
[
(iii) K ⊆ A ⊆ An ⊆ Un =⇒ K ⊆ Un .
n=1 n=1 n=1

Como o conteúdo de Jordan é subaditivo, concluı́mos de (i), (ii) e (iii) que


m
X ∞
X ∞
X
cN (A) − ε < cN (K) ≤ cN (Un ) ≤ cN (Un ) < cN (An ) + ε.
n=1 n=1 n=1

Temos assim que



X ∞
X
cN (A) − ε < cN (An ) + ε, ou cN (A) < cN (An ) + 2ε,
n=1 n=1

onde finalmente fazemos ε → 0.

Lema 1.6.3. Se os conjuntos An ∈ J (RN ) são disjuntos, então



[ ∞
X
A⊇ An e A ∈ J (RN ) =⇒ cN (A) ≥ cN (An ).
n=1 n=1
74 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Demonstração. Notamos que, como cN é aditivo,


k
[ k
X
Bk = An =⇒ cN (Bk ) = cN (An ).
n=1 n=1

Como cN é monótono e Bk ⊆ A, temos também cN (Bk ) ≤ cN (A), donde


k
X ∞
X
cN (An ) ≤ cN (A) para qualquer k ∈ N e portanto cN (An ) ≤ cN (A).
n=1 n=1

Conforme dissémos, é evidente que os lemas 1.6.2 e 1.6.3 estabelecem o


teorema 1.6.1. Este último resultado permite definir o “conteúdo” de alguns
conjuntos que não são Jordan-mensuráveis por razões fáceis de explicar.
Observamos que, Sde acordo com 1.6.1, se os conjuntos An ∈ J (RN ) são
disjuntos e A = ∞ n=1 An , então uma das seguintes alternativas é sempre
válida:

X
1) A é Jordan-mensurável e neste caso cN (A) = cN (An ), ou
n=1

2) A não é Jordan-mensurável e neste caso não podemos ter



X
cN (A) = cN (An ),
n=1

apenas porque o lado esquerdo desta identidade não está definido.


(Fazemos aqui a convenção natural de atribuir à série a soma +∞,
se esta divergir no sentido usual do termo.)

A ideia de Borel é muito simples: No caso 2),


X
a identidade cN (A) = cN (An ) deve ser a definição de cN (A).
n=1

Exemplo 1.6.4.
Seja A = Q = {q1 , q2 , · · · , qn , · · · } e An = {qn }. É óbvio que os conjuntos An
são Jordan-mensuráveis e c(An ) = 0. O conjunto Q não é Jordan-mensurável,
mas a ideia de Borel sugere que se defina c(Q) = 0.

É naturalmente necessário verificar que esta ideia não conduz a ambi-


guidades, mas isso resulta de uma adaptação simples do argumento que
utilizámos a propósito dos conjuntos elementares, já na proposição 1.1.9.
1.6. O Problema de Borel 75

Lema 1.6.5. Se P = {An : n ∈ N} e P ′ = {Bm : m ∈ N} são partições do


conjunto A ⊆ RN em conjuntos Jordan-mensuráveis, então

X ∞
X
cN (An ) = cN (Bm ).
n=1 m=1

Demonstração. Observamos que



[ ∞
[ ∞
[ ∞
[
A= An = Bm =⇒ An = An ∩ Bm e Bm = An ∩ Bm .
n=1 m=1 m=1 n=1

Como os conjuntos An ∩ Bm são Jordan-mensuráveis e disjuntos e os con-


juntos An e Bm são Jordan-mensuráveis, obtemos de 1.6.1 que:

X ∞
X
cN (An ) = cN (An ∩ Bm ) e cN (Bm ) = cN (An ∩ Bm ).
m=1 n=1

Segue-se imediatamente que



X ∞ X
X ∞ ∞ X
X ∞ ∞
X
cN (An ) = cN (An ∩ Bm ) = cN (An ∩ Bm ) = cN (Bm ).
n=1 n=1 m=1 m=1 n=1 m=1

A seguinte terminologia complementa a introduzida na secção 1.2.

Definição 1.6.6 (Funções σ-Aditivas e σ-Subaditivas). Seja S uma classe


de subconjuntos do conjunto X e λ : S → [0, +∞] uma função. Então λ é

a) σ-aditiva se e só se, para quaisquer conjuntos An ∈ S disjuntos,



[ ∞
[ ∞
X
An ∈ S =⇒ λ( An ) = λ(An ).
n=1 n=1 n=1

b) σ-subaditiva (46 ) se e só se para quaisquer conjuntos C, An ∈ S,



[ ∞
X
C⊆ An =⇒ λ(C) ≤ λ(An ).
n=1 n=1

46
P∞
Recorde-se que a soma da série n=1 λ(An ) está sempre definida, podendo, claro, ser
+∞. A noção de σ-aditividade também se aplica a funções com valores reais ou complexos,
mas, nestes casos, é necessário supôr que as séries em causa são sempre convergentes no
sentido usual do termo. É fácil verificar que a noção de σ-subaditividade requer λ ≥ 0
(porquê?), e mais uma vez a questão da convergência da série em questão é irrelevante.
76 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Nesta terminologia, o teorema 1.6.1 afirma que o conteúdo de Jordan cN


é σ-aditivo na classe J (RN ), e o lema 1.6.2 diz que cN é σ-subaditivo na
mesma classe J (RN ). Deixamos como exercı́cio a demonstração do resultado
seguinte, que pode ser usado para exibir muitos outros exemplos de funções
σ-aditivas e σ-subaditivas em classes de conjuntos apropriadas.
Teorema 1.6.7. Se R ⊆ RN e f : R → R, então o integral indefinido λ de
f é σ-aditivo em Jf (R). Se f ≥ 0 em R, então λ é σ-subaditivo.
Exemplo 1.6.8.
Apresentamos aqui um conjunto aberto limitado que não é Jordan-mensurável.
Seja D = {q1 , q2 , · · · , qn , · · · } = Q ∩ [0, 1] o exemplo de Dirichlet, ε > 0, e
considerem-se os conjuntos abertos
[∞
ε ε
Un =]qn − , qn + [ e U = Un .
2n 2n n=1

Como o conteúdo de Jordan é σ-subaditivo, se U é Jordan-mensurável então:



X ∞
X ε
c(U ) ≤ c(Un ) = n−1
= 2ε.
n=1 n=1
2

É evidente que D ⊆ U e sabemos que c(D) = 1. Podemos assim concluir que


c(U ) ≥ 1. Segue-se que, se ε < 21 , então U não é Jordan-mensurável. Note-se
de passagem que U não contém o intervalo [0, 1], contrariamente ao que a nossa
intuição nos pode fazer supor.

Qualquer união numerável de conjuntos em E(RN ) ou J (RN ) é uma


união de conjuntos disjuntos na classe em questão, porque estas classes são
semi-álgebras. A ideia de Borel permite por isso atribuir um “conteúdo”, ou
“extensão”, que designamos temporariamente por c̃N , pelo menos aos con-
juntos que são uniões numeráveis de conjuntos Jordan-mensuráveis, con-
forme registamos na próxima definição:
Definição 1.6.9 (As classes Eσ (RN ) e Jσ (RN ) e a função c̃N ).

a) Jσ (RN ) é a classe formada pelos conjuntos que são uniões numeráveis


de conjuntos Jordan-mensuráveis em RN ,
b) Eσ (RN ) é a classe formada pelos conjuntos que são uniões numeráveis
de conjuntos elementares em RN . Os conjuntos E ∈ Eσ (RN ) dizem-se
σ-elementares.
c) Se A ∈ JS N N
σ (R ) então existem conjuntos An ∈ J (R ) disjuntos tais

que A = n=1 An , e definimos

X
c̃N (A) = cN (An ).
n=1
1.6. O Problema de Borel 77

Exemplos 1.6.10.
1. Qualquer conjunto numerável é σ-elementar. Se E = {x1 , x2 , · · · , xn , · · · },
então E = ∪∞n=1 En , onde os conjuntos En = {xn } são elementares. Dado que
cN (En ) = 0, temos c̃N (E) = 0. Em particular, Q é σ-elementar.
2. Mais geralmente, E ⊆ RN é σ-elementar se e só se E é uma união numerável
de rectângulos limitados.
3. É fácil verificar que RN é um conjunto σ-elementar, e c̃N (RN ) = ∞.
4. O conjunto (aberto) do exemplo 1.6.8 é σ-elementar, mas não é Jordan-men-
surável.
5. A função c̃N é uma extensão(47 ) do conteúdo de Jordan, i.e., se A ⊆ RN é
Jordan-mensurável, então c̃N (A) = cN (A).
6. Seja f : R → R limitada e contı́nua qtp no rectângulo compacto R, e D o
conjunto de pontos de descontinuidade de f . Recorde-se que D é uma união
numerável de conjuntos de conteúdo nulo, donde D ∈ Jσ (RN ) e c̃N (D) = 0.

As observações seguintes são úteis no que se segue.


Proposição 1.6.11. Seja E ∈ Jσ (RN ). Temos então:
a) Se E ∈ Eσ (R), então c̃(E) = 0 ⇐⇒ E é numerável.
b) c̃N (E) = 0 ⇐⇒ int(E) = ∅.
c) c̃N é σ-subaditiva em Jσ (RN ), ou seja, se E, Fn ∈ Jσ (RN ) então

[ ∞
X
E⊆ Fn =⇒ c̃N (E) ≤ c̃N (Fn ).
n=1 n=1

Demonstração. Deixamos a verificação de a) e b) para o exercı́cio 9. Relati-


vamente a c), consideramos partições de E e dos conjuntos Fn em conjuntos
Jordan-mensuráveis Ei e Fnk , donde

[ ∞
[
E= Ei , Fn = Fnk .
i=1 k=1
′ = ∪m E ⊆ E são Jordan-mensuráveis, segue-se do
Como os conjuntos Em i=1 i
lema 1.6.2 que

[ ∞ [
[ ∞ ∞ X
X ∞ ∞
X
′ ′
Em ⊆ Fn = Fnk =⇒ cN (Em ) ≤ cN (Fnk ) = c̃N (Fn )
n=1 n=1 k=1 n=1 n=1 n=1

′ ) → c̃ (E), e portanto c̃ (E) ≤


P∞
É imediato que cN (Em N N n=1 c̃N (Fn ).
47
A função g : B → Y diz-se uma extensão de f : A → X se e só se A ⊆ B, X ⊆ Y e
g(x) = f (x) para qualquer x ∈ A.
78 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Exemplos 1.6.12.
1. O conjunto de Cantor C(I) não é σ-elementar porque tem conteúdo nulo e
não é numerável.
2. O conjunto U = [0, 1] \C(I) é σ-elementar, porque U = ∪∞ n=1 En , onde En é
um conjunto elementar formado por 2n−1 subintervalos, cada um de compri-
mento 31n . Repare-se por isso que Eσ (R) não é uma semi-álgebra.

O próximo teorema indica mais algumas propriedades das classes Eσ (RN )


e Jσ (RN ) e da função c̃N :
Teorema 1.6.13. As classes Eσ (RN ) e Jσ (RN ) são fechadas em relação a
uniões finitas ou numeráveis e intersecções finitas, e a função c̃N é aditiva
e σ-aditiva em Jσ (RN ).
Demonstração. Para mostrar que a classe Jσ (RN ) é fechada relativamente
a uniões numeráveis, consideramos conjuntos En ∈ Jσ (RN ) e notamos que
existem conjuntos Enm ∈ J (RN ) tais que En = ∪∞ m=1 Enm . Segue-se que

[ ∞ [
[ ∞
E= En = Enm
n=1 n=1 m=1

é uma união numerável de conjuntos Enm ∈ J (RN ), i.e., E ∈ Jσ (RN ).


(Note que este argumento se aplica sem alterações à classe Eσ (RN ).)
Para verificar a σ-aditividade de c̃N , supomos que os conjuntos En são
disjuntos e que para cada n os conjuntos Enm são igualmente disjuntos. É
imediato da definição de c̃N (E) e de c̃N (En ) que
∞ [
[ ∞ ∞ X
X ∞ ∞
X
c̃N (E) = c̃N ( Enm ) = cN (Enm ) = c̃N (En ).
n=1 m=1 n=1 m=1 n=1

É muito simples verificar a aditividade de cN e o fecho das classes Eσ (RN )


e Jσ (RN ) relativamente a intersecções finitas.

De acordo com a observação feita no exemplo 1.6.10.5 acima, e para


evitar sobrecarregar a notação utilizada, passamos a escrever “cN (E)” em
lugar de “c̃N (E)” mesmo quando E ∈ Jσ (RN ).
Exemplo 1.6.14.
Seja D o exemplo de Dirichlet e I = [0, 1] \D o conjunto dos irracionais em
[0, 1]. Sabemos que D é σ-elementar, c(D) = 0 e c([0, 1]) = 1. Se I ∈ Jσ (R),
segue-se pela propriedade de aditividade referida no teorema anterior que

1 = c([0, 1]) = c(I) + c(D) ⇒ c(I) = 1.

Sabemos que int(I) = ∅ e, como referimos acima, se I ∈ Jσ (R) então c(I) = 0.


Concluı́mos que I 6∈ Jσ (R). Em particular, Jσ (R) não é uma semi-álgebra.
1.6. O Problema de Borel 79

Jσ (RN )

Eσ (RN ) E(RN ) J (RN )

Figura 1.6.1: As classes E(RN ), Eσ (RN ), J (RN ) e Jσ (RN ).

O próximo exemplo é um conjunto perfeito muito semelhante ao de Can-


tor, mas uma aparentemente ligeira modificação na sua construção faz com
que não pertença a Jσ (R). Este conjunto revela que Jσ (R) não contém
todos os conjuntos compactos, e pode ser usado, tal como o exemplo de
Dirichlet, para mostrar que Jσ (R) não é uma semi-álgebra.
Exemplo 1.6.15.
o conjunto de volterra(48 ) - O conjunto de Cantor C(I) (exemplo 1.3.9)
é C(I) = ∩∞ n
n=0 Fn , onde Fn é uma união de 2 intervalos fechados disjuntos
Ik,n , e F0 = I = [a, b] é o “intervalo inicial”. A sucessão de conjuntos Fn
foi definida recursivamente: dividimos cada subintervalo Ik,n de Fn em três
intervalos de igual comprimento 13 c(Ik,n ), e designamos por Jk,n o subintervalo
médio (aberto) Jk,n ⊂ Ik,n . O conjunto Fn+1 resulta de extrair de Fn os
subintervalos Jk,n , i.e.,
n
2
[
Fn+1 = Fn \Un , onde Un = Jk,n .
k=1

É claro que nada nos impede de extrair, em cada passo e de cada subintervalo
Ik,n , um intervalo aberto Jk,n , ainda centrado no ponto médio de Ik,n , mas
agora com comprimento c(Jk,n ) 6= 31 c(Ik,n ). Exactamente como no procedi-
mento original de Cantor, é fácil verificar que (exercı́cio 14)

\
V = Fn é um conjunto perfeito não-numerável com interior vazio.
n=o

Sendo I = F0 o intervalo inicial, temos igualmente que



[
U = I\V = Un é σ-elementar e aberto.
n=0
48
Vito Volterra descobriu exemplos análogos a este e à “função de Volterra” descrita
mais adiante em 1881, quando era ainda estudante. Actualmente é comum dizer que
conjuntos deste tipo são “de Cantor”.
80 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Para simplificar a notação, escrevemos an = c(Jk,n ). A escolha da sucessão an


é em larga medida arbitrária, mas para efeitos do presente exemplo é suficiente
seleccionar primeiro um qualquer 0 ≤ ε < 1 e definir:
 1−ε
an = 3 c(I), se n = 0,
1
3 an−1 , se n > 0.

Dizemos que V é um conjunto de volterra, que passamos a designar por


Cε (I) (nesta notação, o conjunto de Cantor do exemplo 1.3.9 é C0 (I)). O
conjunto U é σ-elementar e por isso é fácil calcular o seu conteúdo. Cada
conjunto Un é formado por 2n subintervalos de comprimento an = 31−ε n+1 c(I),
2n
donde c(Un ) = (1 − ε) 3n+1 c(I) e

X X∞  n
1−ε 2
c(U ) = c(Un ) = ( )c(I) = (1 − ε)c(I).
n=0
3 n=0
3

Designando o conjunto U por Uε (I) para maior clareza, observamos que, se


Cε (I) ∈ Jσ (RN ), então
• c(I) = c(Cε (I)) + c(Uε (I)) ⇒ c(Cε (I)) = c(I) − (1 − ε)c(I) = εc(I), e
• Como Cε (I) tem interior vazio, temos c(Cε (I)) = 0.
Concluı́mos assim que Cε (I) 6∈ Jσ (RN ) quando ε > 0.

F0
F1
F2
F3
F4

U4 U3 U4 U2 U4 U3 U4 U1 U4 U3 U4 U2 U4 U3 U4

Figura 1.6.2: A construção de Volterra com ε = 41 .

A função cN : Jσ (RN ) → [0, ∞] é claramente uma extensão não-trivial


do conteúdo de Jordan, mas os exemplos 1.6.14 e 1.6.15 revelam que não é
ainda uma base satisfatória para o desenvolvimento da teoria. Na verdade,
quando A ⊆ B ⊆ RN e cN (A) e cN (B) estão definidos, então devemos ter, tal
como observámos acima, cN (B\A) = cN (B)− cN (A). No entanto, vimos em
ambos os exemplos referidos que podemos ter B\A 6∈ Jσ (RN ), mesmo que
A, B ∈ Jσ (RN ). Em particular, estes exemplos sugerem que uma extensão
apropriada da função cN deve estar definida numa classe de conjuntos que
seja uma semi-álgebra, além de ser fechada em relação a uniões numeráveis.
1.6. O Problema de Borel 81

Borel teve o enorme mérito de analisar e identificar com total clareza


estas dificuldades e enunciar com muita precisão o problema que entendia
dever ser resolvido, listando o que referia como “propriedades essenciais”(49 )
a satisfazer. Borel foi assim um notável pioneiro do tipo de procedimento
que hoje chamamos de “axiomático”.

1.6.16 (Problema de Borel). Determinar uma classe MN de sub-


conjuntos de RN e uma função κN : MN → [0, ∞] tais que:

a) A classe MN contém os conjuntos elementares.

b) Se E ⊂ RN é elementar então κN (E) = cN (E).

c) MN é uma álgebra fechada em relação a uniões numeráveis.

d) κN é uma função σ-aditiva.

Repare-se que a referência neste enunciado a uma álgebra em vez de semi-


álgebra é fácil de entender: como RN é σ-elementar, qualquer semi-álgebra
em RN fechada relativamente a uniões numeráveis e que contenha os con-
juntos elementares contém RN , ou seja, é uma álgebra.
κN = ?

cN
Eσ (RN ) E(RN )

MN = ?

Figura 1.6.3: O Problema de Borel

Não vamos descrever imediatamente a solução que Borel descobriu para


este problema(50 ). Estudamos para já alguns resultados auxiliares impor-
tantes, em especial o seguinte, descoberto por Cantor em 1883:

49
As suas palavras, em Leçons sur la théorie des fonctions, são muito claras: “... definir
os elementos novos que são introduzidos a partir das suas propriedades essenciais, ou seja,
daquelas que são estritamente indispensáveis aos raciocı́nios que se seguem”.
50
Veremos adiante que a classe MN = B(RN ) descoberta por Borel, formada pelos con-
juntos que hoje se dizem Borel-mensuráveis, é a menor solução deste problema. Esta
classe é uma extensão de Eσ (RN ), mas não contém todos os conjuntos Jordan-mensuráveis,
facto que Borel conhecia e sublinhava com cuidado, porventura em sinal de prudente res-
peito por Jordan, que gozava de grande influência.
82 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Teorema 1.6.17 (de Cantor). Qualquer aberto é uma união numerável de


rectângulos abertos limitados e por isso é um conjunto σ-elementar.
Demonstração. Seja Q(R) = {]q, r[: q, r ∈ Q} a classe formada pelos inter-
valos abertos de extremos racionais e, mais geralmente, considerem-se as
classes Q(RN ), formadas pelos rectângulos-N com vértices de coordenadas
racionais, i.e., os rectângulos da forma I1 × I2 × · · · × IN , com Ik ∈ Q(R).
Como Q é numerável, as classes Q(RN ) são igualmente numeráveis.
Se U ⊆ RN é um aberto e x ∈ U , existe um rectângulo aberto limitado
Rx, tal que x ∈ Rx ⊆ U . Suponha-se que

Rx = I1 × I2 × · · · × IN , onde Ik =]ak , bk [ e x = (x1 , x2 , · · · , xN ) .

É claro que existem racionais qk e rk tais que

ak < qk < xk < rk < bk e Jk =]qk , rk [∈ Q(R).

É também evidente que

J1 × J2 × · · · × JN = Qx ∈ Q(RN ) e x ∈ Qx ⊆ Rx ⊆ U.
[
Concluı́mos assim que U = Qx .
x∈U

b2
Rx
r2
(x1 , x2 )
x2
Qx
q2
a2

a1 q1 x1 r1 b1

Figura 1.6.4: Os rectângulos Qx e Rx.

Os rectângulos Qx são limitados e abertos e a classe U = {Qx : x ∈ U } ⊆


Q(RN ). Como Q(RN ) é numerável, a classe U só pode ser numerável.

Do nosso ponto de vista nesta secção e nos termos da definição 1.6.9, con-
cluı́mos que cN (U ) está definida para qualquer conjunto aberto U ⊆ RN .
1.6. O Problema de Borel 83

Além disso, e de acordo com as condições a) e c) no enunciado do “Pro-


blema de Borel”, resulta que qualquer solução MN deste problema contém
necessariamente todos os conjuntos abertos e todos os conjuntos fechados.
É muito interessante notar que o argumento usado para demonstrar
1.6.17 é igualmente válido se substituirmos os intervalos abertos de extremos
racionais ]q, r[ pelos correspondentes intervalos fechados, e portanto com-
pactos, [q, r]. O próximo teorema indica esta e outras propriedades análogas,
a demonstrar nos exercı́cios desta secção.

Teorema 1.6.18. Seja U ⊆ RN um aberto. Então,

a) U é uma união numerável de rectângulos compactos(51 ).

b) U é uma união numerável de rectângulos limitados disjuntos.

c) Se N = 1, então U é uma união numerável de intervalos abertos


disjuntos(52 ).

O próximo exemplo, que chamamos de função de Volterra, é análogo ao


que vimos em 1.5.6, porque é uma função diferenciável em toda a parte cuja
derivada não é Riemann-integrável. Mais uma vez, a regra de Barrow não é
aplicável a f = F ′ porque o integral de Riemann de f não existe, apesar de
f ter uma primitiva. A função de Volterra é particularmente interessante
porque F ′ é limitada, o que sugere que o facto de F ′ não ser integrável não
reflecte uma dificuldade “natural” como a do exemplo 1.5.6, mas reflecte em
vez disso uma deficiência da própria definição do integral de Riemann(53 ).

Exemplo 1.6.19.
a função de volterra - Consideramos primeiro a função f definida por
 2
x sen( x1 ), se x 6= 0,
f (x) =
0, se x = 0.

A função f é diferenciável em R e a sua derivada é



2x sen( x1 ) − cos( x1 ), se x 6= 0,
f ′ (x) =
0, se x = 0.

Por razões evidentes, f ′ não é contı́nua em 0, onde a respectiva oscilação é 2.


No entanto, f ′ é limitada em qualquer intervalo limitado.
51
As uniões numeráveis de conjuntos compactos dizem-se conjuntos σ-compactos.
52
Este é o resultado descoberto por Cantor em 1883. Note (exercı́cio 7) que esta de-
composição em intervalos abertos disjuntos é única.
53
O próprio Henri Lebesgue considerava este exemplo como uma das suas mais impor-
tantes motivações na busca de uma teoria de integração mais geral do que a de Riemann.
Como veremos mais adiante, a regra de Barrow é válida para a função de Volterra na
teoria da integração de Lebesgue. Veja-se aliás no exercı́cio 15 desta secção que a região
de ordenadas de F ′ é σ-elementar e o gráfico de F é rectificável.
84 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Dado a > 0, podemos facilmente adaptar esta definição para obter uma função
g : R → R, nula fora do intervalo ]0, a[, diferenciável em R, com derivada
limitada, mas descontı́nua nos pontos x = 0 e x = a, onde ωg′ (0) = ωg′ (a) = 2.
Para isso, escolhemos um ponto 0 < b < a/2 tal que f ′ (b) = 0 e tomamos


 f (x), se 0 < x < b,

f (b), se b ≤ x ≤ c = a − b,
g(x) =

 f (a − x), se c < x < a,

0, se x 6∈ ]0, a[.

g é diferenciável em R mas g ′ é descontı́nua tanto em x = 0 como x = a, onde


tem oscilação igual a 2.

f (b)

c
b a
b c a

Figura 1.6.5: Os gráfico de g e g′ .

Designamos por U = I\Cε (I)S o complementar do conjunto de Volterra no inter-



valo I e recordamos que U = n=1 ]an , bn [ é uma união numerável de intervalos
abertos disjuntos, obviamente limitados. A definição de g pode ser modificada
para obter uma função gn nula fora do intervalo ]an , bn [, diferenciável em R,
com derivada limitada, mas descontı́nua nos pontos x = an e x = bn , onde a
oscilação é 2. A função de volterra F é então dada por:

X
F (x) = gn (x).
n=1

Deixamos para o exercı́cio 15 mostrar que

• F é diferenciável em R, com F ′ (x) = 0 quando x 6∈ U , e


• F ′ é descontı́nua em todos os pontos de Cε (I) e por isso não é Riemann-
integrável em I quando ε > 0.

No entanto, e em última análise, este exemplo apenas ilustra novamente


a fragilidade da integrabilidade de Riemann em relação a operações de pas-
sagem ao limite. Afinal de contas, F ′ é o limite pontual de uma sucessão de
1.6. O Problema de Borel 85

funções Riemann-integráveis, porque

F (x + h) − F (x) F (x + n1 ) − F (x)
F ′ (x) = lim = lim 1
h→0 h n→∞
n
1
= lim gn (x), onde gn (x) = n(F (x + ) − F (x)).
n→∞ n

As funções gn são Riemann-integráveis desde que F o seja, mas daqui não


podemos concluir a integrabilidade da função limite F ′ , como bem sabemos.
Observamos ainda, para posterior referência, que a proposição 1.3.12 se
generaliza sem dificuldades de maior às classes Eσ (RN ) e Jσ (RN ):

Lema 1.6.20. Se U ∈ Jσ (RN ) e V ∈ Jσ (RM ), então

a) Fecho em relação ao produto: U × V ∈ Jσ (RN +M ) e

cN +M (U × V ) = cN (U )cM (V ).

b) Invariância sob translacções: Se x ∈ RN então U + x ∈ Jσ (RN ) e

cN (U + x) = cN (U ),

c) Invariância sob reflexões: Se W é uma reflexão de U num dos hiper-


planos xk = 0, então W ∈ Jσ (RN ) e cN (W ) = cN (U ).

Estas afirmações são igualmente verdadeiras substituindo Jσ (RN ), Jσ (RM )


e Jσ (RN +M ) respectivamente por Eσ (RN ), Eσ (RM ) e Eσ (RN +M ).

Demonstração. As afirmações b) e c) são consequências imediatas de 1.3.12.


Para provar a), supomos que

[ ∞
[
U= Un e V = Vm ,
n=1 m=1

onde os conjuntos Un ∈ J (RN ) e Vm ∈ J (RM ) formam partições, respecti-


vamente, de U e de V . É evidente que


! ∞
! ∞ [

[ [ [
U ×V = Un × Vm = Un × Vm ,
n=1 m=1 n=1 m=1

e segue-se de 1.3.12 que

Un × Vm ∈ J (RN +M ) e cN +M (Un × Vm ) = cN (Un )cM (Vm ).


86 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann

Concluı́mos que U × V ∈ Jσ (RN +M ). Como os conjuntos Un × Vm formam


uma partição de U × V , temos
∞ X
X ∞ ∞ X
X ∞
cN +M (U × V ) = cN +M (Un × Vm ) = cN (Un )cM (Vm ) =
n=1 m=1 n=1 m=1
X∞ ∞
X
= cN (Un ) cM (Vm ) = cN (U )cM (V ).
n=1 m=1

A adaptação destes argumentos a conjuntos σ-elementares é muito simples.

Exercı́cios.

1. Seja C uma classe de conjuntos tal que ∅ ∈ C e λ : C → [0, +∞] uma função
σ-aditiva em C.

a) Mostre que λ(∅) = 0, ou λ é identicamente +∞.


b) Prove que λ é aditiva.

2. Seja S uma semi-álgebra de conjuntos e λ : S → [0, +∞] uma função aditiva.


Mostre que λ é σ-aditiva se e só se λ é σ-subaditiva.

3. Prove que qualquer conjunto numerável tem conteúdo nulo.

4. Mostre que E ∈ Jσ (RN ) é nulo no sentido de Borel se e só se cN (E) = 0.

5. Suponha que 0 ≤ anm ≤ ∞ para quaisquer n, m ∈ N e prove que


∞ ∞
! ∞ ∞
!
X X X X
anm = anm .
n=1 m=1 m=1 n=1

6. Sendo R ⊆ RN e f : R → R Riemann-integrável em R, mostre que o integral


indefinido λ de f é σ-aditivo em Jf (R). (teorema 1.6.7).

7. Demonstre o teorema 1.6.18. sugestão: No caso de c) e dado x ∈ U , seja Ix


a união de todos os intervalos abertos abertos V tais que x ∈ V ⊆ U . Mostre
que os conjuntos Ix formam uma famı́lia de intervalos abertos disjuntos, que
só pode ser numerável. Mostre em particular que a decomposição referida em
c) é única.

8. Prove que, se E ∈ J (R), então E tem subconjuntos que não são Jordan-
mensuráveis se e só se c(E) > 0. sugestão: Mostre que qualquer intervalo
aberto não-vazio contém subconjuntos que não são Jordan-mensuráveis.

9. Prove que se E ∈ Jσ (RN ) então cN (E) = 0 se e só se int(E) = ∅. Mostre


igualmente que se E ∈ Eσ (R), então cN (E) = 0 se e só se E é numerável.
1.6. O Problema de Borel 87

10. Mostre que as classes Eσ (RN ) e Jσ (RN ) são fechadas em relação a inter-
secções finitas. Estas classes são fechadas em relação a intersecções numeráveis?

11. Verifique que cN é monótona, aditiva e subaditiva em Jσ (RN ).

12. Suponha que E ∈ Jσ (RN ) é limitado e prove que cN (E) ≤ cN (E) ≤ cN (E).

13. Determine o cardinal da classe dos abertos em RN . (54 )

14. Considere o conjunto de Volterra Cε (I) (exemplo 1.6.15).


a) O conjunto Fn é elementar e é formado por 2n intervalos. Sendo J um
desses 2n subintervalos, mostre que J ∩ Cε (I) = Cδ (J), onde δ é um
parâmetro que deve calcular. Conclua em particular que J\Cε (I) é σ-
elementar e calcule o seu conteúdo.
b) Mostre que Cε (I) é perfeito não-numerável e tem interior vazio.
c) Calcule c(Cε (I)), c(Cε (I)), c(Uε (I)) e c(Uε (I)).

15. Verifique as afirmações feitas no texto a propósito da função de Volterra.


Em particular, mostre que
a) g é diferenciável em R e g ′ é limitada em R, com oscilação 2 em 0 e a.
b) F é diferenciável em R, com F ′ limitada em R e F ′ (x) = 0 para x 6∈ U .
sugestão: Suponha que x 6∈ U e estabeleça a desigualdade seguinte:

F (x + h) − F (x)
≤ |h|.
h

c) O gráfico de F é rectificável em [0, 1].


d) F ′ é descontı́nua em Cε (I). sugestão: Recorde que qualquer ponto de
Cε (I) é limite de sucessões de pontos fronteira dos Fn .
e) F ′ não é Riemann-integrável, i.e., a sua região de ordenadas não é Jordan-
mensurável, mas é um conjunto σ-elementar limitado. Como definiria e
calcularia o integral de F ′ em I?

16. Considere a função f definida tal como a “escada do diabo”, mas utilizando
o conjunto de Volterra Cε (I) com ε > 0 em vez do conjunto de Cantor C0 (I).
Calcule o comprimento do gráfico de f no intervalo I = [0, 1]. Pode existir
alguma função Riemann-integrável g que satisfaça f ′ (x) = g(x) qtp em I?
Quais são os possı́veis valores de f ′ (x) nos pontos onde esta derivada exista?

17. O conjunto U do exemplo 1.6.8 é Jordan-mensurável quando ε = 12 ?

18. Seja U ainda o aberto referido no exemplo 1.6.8 e F a função de Volterra


nula fora de U . O que pode concluir sobre a integrabilidade de F ′ ?

54
Usamos as seguintes designações para cardinais infinitos: ℵ0 é o cardinal de N, ℵ1 é o
cardinal de R, ℵ2 é o cardinal de P(R), ℵ3 é o cardinal de P(P(R)), etc.
88 Capı́tulo 1. Integrais de Riemann
Capı́tulo 2

A Medida de Lebesgue

As dificuldades técnicas associadas ao integral de Riemann, algumas das


quais temos vindo a apontar, eram bem conhecidas no final do século XIX,
mas certamente prevalecia a opinião que eram inevitáveis, e inultrapassáveis.
Apenas um grupo restrito de jovens matemáticos(1 ) parece ter-se apercebido,
por volta de 1900, que era possı́vel e desejável alargar a classe das funções
às quais atribuı́mos um integral, e que dessa forma se podiam ultrapassar
algumas das limitações do integral de Riemann. Por um lado, os traba-
lhos de Jordan e Peano tinham revelado que este problema se reduz ao
de alargar a classe de conjuntos aos quais atribuı́mos um conteúdo. Por
outro lado, e como vimos, Borel tinha descoberto que certos conjuntos que
não são Jordan-mensuráveis podem ser “medidos” usando partições infinitas
numeráveis em rectângulos, e tinha igualmente identificado com muito rigor
e clareza o que ele próprio considerava como as “propriedades essenciais” a
satisfazer por qualquer possı́vel extensão do conteúdo de Jordan.
Em 1902, o então jovem professor de liceu Henri Léon Lebesgue apresen-
tou a sua própria definição de conjuntos mensuráveis e de medida, numa
excepcional tese de doutoramento, com o tı́tulo “Integral, área, volume”,
que submeteu à Universidade de Nancy. A ideia de Lebesgue combinava
de forma muito natural o trabalho de Jordan com o de Borel, retomando
a ideia de aproximação usada por Jordan, mas substituindo os conjuntos
elementares pelos conjuntos σ-elementares, cuja medida Lebesgue calculava
pela técnica de Borel. Os conjuntos mensuráveis “no sentido de Lebesgue”
dizem-se conjuntos de Lebesgue, ou conjuntos Lebesgue-mensuráveis,
e formam a classe L(RN ), que inclui a classe J (RN ). A medida de Lebes-
gue designa-se “mN ”, ou apenas “m”, é uma função mN : L(RN ) → [0, ∞],
e é uma extensão do conteúdo de Jordan cN .

1
Além de Henri Leon Lebesgue, 1875-1941, formado em 1897 pela École Normale
Supérieure, donde conhecia Borel, pelo menos o matemático italiano Giuseppe Vitali,
1875-1941, na altura assistente na Scuola Normale de Pisa, e o matemático inglês William
Henry Young, 1863-1942, então em Göttingen.

89
90 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Em 1913, Radon(2 ) deu um passo decisivo no caminho da generalização


crescente, ao aperceber-se que a medida de Lebesgue é apenas um exemplo
de um tipo de objecto matemático que hoje tem o nome genérico de medida,
e que qualquer medida pode ser utilizada para definir integrais de funções.
Na realidade, as ideias de Borel, Lebesgue e Radon, acompanharam, e fre-
quentemente precederam, a vaga de fundo de abstracção que começou a
varrer os mais diversos domı́nios da Matemática no inı́cio do século XX, e
rapidamente conduziram à identificação de uma base axiomática apropriada
para a chamada Teoria da Medida.
Na teoria axiomática da medida, os conjuntos mensuráveis são, sim-
plesmente, elementos de álgebras de conjuntos de um tipo especial, ditas
σ-álgebras, das quais a classe L(RN ), descoberta por Lebesgue, é apenas
um exemplo, se bem que de importância capital. As medidas são funções
aditivas definidas em σ-álgebras, mas para as quais a propriedade de adi-
tividade é ainda válida para partições numeráveis.
O principal objectivo deste Capı́tulo é a definição da medida de Lebesgue
propriamente dita, e a identificação das suas propriedades mais relevantes.
Aqui introduzimos também a base axiomática da Teoria da Medida, uma
das mais importantes ferramentas de trabalho em todo este texto, e que em
muitos aspectos simplifica desde já o nosso estudo da medida de Lebesgue.

2.1 Espaços Mensuráveis e Medidas


Esta secção apresenta algumas das ideias mais básicas da Teoria da Medida,
todas relacionadas com a noção de σ-aditividade, e em grande parte su-
geridas pelo enunciado do “Problema de Borel”. A primeira definição que
apresentamos resume-se aliás a abstrair a condição (c) desse problema:
Definição 2.1.1 (σ-Álgebra). Seja M uma classe de subconjuntos em X.
Dizemos que M é uma σ-álgebra (em X) se e só se M é uma álgebra de
conjuntos fechada em relação a uniões numeráveis, i.e.,

[
E1 , E2 , · · · , En , · · · ∈ M =⇒ E = En ∈ M.
n=1

Exemplos 2.1.2.
1. Nesta terminologia, a condição c) do Problema de Borel pode enunciar-se:
“MN é uma σ-álgebra em RN ”.
2. Sendo I = [0, 1], a classe J (I) é uma álgebra, mas o conjunto de Dirichlet
D = Q ∩ I mostra que J (I) não é fechada em relação a uniões numeráveis, e
portanto não é uma σ-álgebra.
2
Johann Radon (1887-1956), matemático austrı́aco. Foi professor em diversas uni-
versidades alemãs, e terminou a sua carreira na Universidade de Viena, onde se tinha
doutorado em 1910.
2.1. Espaços Mensuráveis e Medidas 91

3. A classe Jσ (RN ) é fechada em relação a uniões numeráveis, mas não é uma


σ-álgebra, porque não é uma semi-álgebra.
4. Qualquer semi-álgebra em RN que contenha os rectângulos limitadas e seja
fechada em relação a uniões numeráveis contém necessariamente o próprio
conjunto RN . É por isso uma álgebra e uma σ-álgebra.
5. De acordo com o teorema de Cantor (1.6.17), qualquer σ-álgebra em RN
que contenha os rectângulos limitadas contém todos os conjuntos abertos e
portanto todos os conjuntos fechados.
6. Sendo X um qualquer conjunto, a classe de todos os subconjuntos de
X, designada P(X), é, por razões óbvias, a maior σ-álgebra em X. A classe
{∅, X} é a menor σ-álgebra em X.

A definição 2.1.1 é complementada pela seguinte:


Definição 2.1.3 (Espaço Mensurável, Conjuntos Mensuráveis). Um espaço
mensurável é um par (X, M), onde M é uma σ-álgebra no conjunto X.
Se E ⊆ X, dizemos que E é M-mensurável se e só se E ∈ M.
Quando a σ-álgebra M é óbvia do contexto da discussão, dizemos ape-
nas que o conjunto E é “mensurável”, em vez de “M-mensurável”. Das
propriedades seguintes, apenas o fecho em relação a intersecções numeráveis
requer ainda demonstração, o que fica como exercı́cio.
Teorema 2.1.4 (Propriedades Algébricas de σ-Álgebras). Se M é uma
σ-álgebra em X, i.e., se (X, M) é um espaço mensurável, temos:
a) ∅, X ∈ M.
b) Fecho em relação à diferença: E, F ∈ M =⇒ E\F ∈ M.
c) Fecho em relação a uniões e intersecções, finitas e numeráveis:
m
[ m
\ ∞
[ ∞
\
En ∈ M, ∀n∈N =⇒ En , En , En , En ∈ M.
n=1 n=1 n=1 n=1

O objectivo da teoria da medida é o estudo de funções σ-aditivas, definidas


em σ-álgebras, e são estas as funções que chamamos medidas.
Definição 2.1.5 (Medidas: Reais, Complexas e Positivas). Supondo que
Y = R, Y = C ou Y = [0, +∞] e (X, M)) é um espaço mensurável, dizemos
que µ é uma medida se e só se µ : M → Y é uma função σ-aditiva com
µ(∅) = 0(3 ). A medida µ diz-se, respectivamente, real, complexa ou
positiva se Y = R, Y = C ou Y = [0, +∞]. A medida positiva µ é finita
se e só se µ(E) 6= ∞ para todos os E ∈ M.
3
Esta condição só não se segue automaticamente da σ-aditividade quando Y = [0, +∞],
e nesse caso é equivalente à condição de µ não ser constante e igual a +∞.
92 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Observações 2.1.6.
1. As medidas reais não-negativas são as medidas positivas finitas.
2. Se π e ν são medidas positivas finitas, então µ = π − ν é uma medida real.
3. Qualquer medida complexa α é da forma α = µ + iλ, onde µ e λ são medidas
reais.
4. Só as medidas positivas podem tomar valores infinitos, e mesmo neste caso
apenas o valor +∞.

As relações entre estes tipos de medidas ilustram-se na figura 2.1.1.

Positivas Reais Complexas


finitas

Positivas

Figura 2.1.1: Tipos de medidas.

Demonstraremos mais adiante o chamado Teorema da Decomposição de


Hahn-Jordan. Este resultado mostra que qualquer medida real µ é da forma
µ = µ+ − µ− , onde µ+ e µ− são medidas positivas finitas. De acordo com
as observações acima e o teorema de Hahn-Jordan, as medidas positivas são
naturalmente elementos base da teoria da Medida.
Exemplos 2.1.7.
1. A distribuição de dirac δ, definida em P(R) por

1, se 0 ∈ A, e
δ(A) =
0, se 0 6∈ A,

é uma medida em P(R), e diz-se, também, a medida de dirac. Conforme refe-


rimos no exemplo 1, é frequentemente utilizada para representar a distribuição
de massa associada a um único ponto material, de massa unitária, colocado
na origem. Mais geralmente, se X é um conjunto e x0 ∈ X, a distribuição de
Dirac (em x0 ) define-se por

1, se x0 ∈ A, e
δx0 (A) =
0, se x0 6∈ A,

e é uma medida em P(X).


2.1. Espaços Mensuráveis e Medidas 93

2. Sendo X um conjunto, o cardinal é uma medida em P(X). O cardinal


é uma medida positiva, que é finita se e só se o conjunto X é finito. Diz-se,
frequentemente, a medida de contagem, e é aqui designada por “#”.
3. Uma medida de probabilidade π no conjunto X 6= ∅ é, simplesmente,
uma medida positiva satisfazendo a condição π(X) = 1. Em certo sentido, é
legı́timo dizer que a Teoria das Probabilidades não passa de um subcapı́tulo da
Teoria da Medida! Um dos exemplos mais simples de medida de probabilidade
resulta de tomar π(E) = #(E)/#(X), para qualquer E ∈ P(X), onde X é
um conjunto finito. Neste caso, os diversos elementos de X correspondem a
acontecimentos igualmente prováveis, o que é o modelo mais comum no estudo
de muitas questões elementares sobre, por exemplo, jogos de azar com car-
tas e dados. A própria medida de Dirac é um exemplo trivial de medida de
probabilidade.
4. O usual pente de Dirac em R é a medida positiva π(E) = #(E ∩ Z).

Definição 2.1.8 (Espaço de Medida). Um espaço de medida é um terno


(X, M, µ), onde (X, M) é um espaço mensurável e µ é uma medida positiva
definida em M.
Exemplos 2.1.9.
1. (R, P(R), δ) é um espaço de medida.
2. O espaço da medida de contagem em N é (N, P(N), #).
3. Um espaço de probabilidade é um espaço de medida (X, M, µ) em que
µ(X) = 1, ou seja, em que µ é uma medida de probabilidade. Neste caso, é
tradicional dizer que os conjuntos mensuráveis, i.e., os conjuntos E ∈ M, são
os acontecimentos.

Utilizaremos, no que se segue, a seguinte terminologia:


Definição 2.1.10 (Espaço de Medida Finito, σ-Finito). O espaço de medida
(X, M, µ) diz-se finito se e só se µ é finita. Diz-se σ-finito, se e só se
existem conjuntos Xn ∈ M, tais que

[
µ(Xn ) < ∞ e X = Xn .
n=1

Dizemos também neste último caso que a medida µ é σ-finita.


Exemplos 2.1.11.
1. Qualquer espaço de probabilidades é um espaço de medida finito, porque,
neste caso, µ(X) = 1.
2. O espaço (N, P(N), #) da medida de contagem em N é σ-finito mas não é
finito.
S∞Sendo Xn = {1, 2, · · · , n}, é claro que #(N) = +∞, #(Xn ) < +∞ e
N = n=1 Xn .
94 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

3. O pente de Dirac (exemplo 2.1.7.4) é uma medida σ-finita que não é finita.
4. O espaço da medida de contagem (X, P(X), #), em qualquer conjunto X
infinito não-numerável, não é σ-finito. Basta notar que, se os conjuntos Xn ⊆
X têm medida finita, i.e., se são conjuntos finitos, então o conjunto ∪∞
n=1 Xn é
finito, ou infinito numerável, e portanto X 6= ∪∞ n=1 X n .

Os próximos teoremas indicam propriedades válidas para qualquer me-


dida, que utilizaremos quase constantemente no que se segue. Começamos
por resumir alguns dos resultados elementares que já apresentámos até aqui.
Teorema 2.1.12. Seja µ uma medida definida na σ-álgebra M em X. Se
os conjuntos E, F, E1 , E2 , · · · , En , · · · são M-mensuráveis, temos:
a) µ(∅) = 0.

b) Aditividade e σ-aditividade: Se os conjuntos En são disjuntos,


m
[ m
X ∞
[ ∞
X
µ( En ) = µ(En ) e µ( En ) = µ(En ).
n=1 n=1 n=1 n=1

Se µ é não-negativa, i.e., se µ é uma medida positiva, temos ainda:

c) Monotonia: E ⊆ F =⇒ µ(E) ≤ µ(F ).

d) Subaditividade e σ-subaditividade:
m
[ m
X ∞
[ ∞
X
µ( En ) ≤ µ(En ) e µ( En ) ≤ µ(En ).
n=1 n=1 n=1 n=1

Recordamos que o conjunto R = [−∞, +∞] se diz a “recta acabada”,


+
e escrevemos analogamente R = [0, +∞]. Qualquer sucessão monótona em
R converge para algum α ∈ R, e introduzimos aqui as seguintes convenções:
• Se a sucessão de termo geral xn é crescente, então α = sup xn , e
escrevemos “xn ր α”.

• Quando a sucessão é decrescente, α = inf xn , e escrevemos “xn ց α”.


Se os conjuntos En formam uma sucessão crescente, escrevemos

[
En ր E, onde se entende que E = En .
n=1

Se os conjuntos En formam uma sucessão decrescente, escrevemos



\
En ց E, onde se entende que E = En .
n=1
2.1. Espaços Mensuráveis e Medidas 95

Se os conjuntos En são M-mensuráveis e formam uma sucessão crescente,


é possı́vel usar indirectamente a σ-aditividade de µ para calcular a medida
do conjunto ∪∞ n=1 En .

Teorema 2.1.13 (da Convergência Monótona de Lebesgue). Se os conjun-


tos En ∈ M e En ր E, então E ∈ M e µ(En ) → µ(E).
Demonstração. Sendo Fk+1 = Ek+1 \Ek e F1 = E1 , notamos que os conjun-
tos Fk são disjuntos e verificam
n
[ ∞
[ ∞
[
En = Fk e E = En = Fk .
k=1 n=1 k=1

Como os conjuntos Fk são disjuntos e µ é aditiva e σ-aditiva, temos


n
[ n
X ∞
[ ∞
X
µ(En ) = µ( Fk ) = µ(Fk ) e µ(E) = µ( Fk ) = µ(Fk ).
k=1 k=1 k=1 k=1

É portanto óbvio que µ(En ) → µ(E).

Se os conjuntos En formam uma sucessão decrescente, temos


Teorema 2.1.14. Se os conjuntos En ∈ M e En ց E, então E ∈ M. Se,
além disso, µ(E1 ) 6= +∞, então µ(En ) → µ(E).
Demonstração. Os conjuntos Fn = E1 \En são M-mensuráveis e formam
uma sucessão crescente. Portanto,

[ ∞
[
µ(Fn ) → µ( Fn ), ou seja, µ(E1 \En ) → µ( (E1 \En )).
n=1 n=1

Por outro lado,



[ ∞
\ ∞
\
(E1 \En ) = E1 \ En =⇒ µ(E1 \En ) → µ(E1 \ En ).
n=1 n=1 n=1

Dado que En ⊆ E1 e ∩∞ n=1 En ⊆ E1 , se todos os conjuntos em causa têm


medida finita, é claro que

\ ∞
\
µ(En ) = µ(E1 ) − µ(E1 \En ) e µ( En ) = µ(E1 ) − µ(E1 \ En ).
n=1 n=1

\
Obtemos imediatamente que µ(En ) → µ( En ).
n=1

A hipótese adicional µ(E1 ) 6= +∞, referida no teorema anterior, só não


é automaticamente satisfeita quando µ é uma medida positiva. O exemplo
seguinte mostra que, neste caso, a hipótese é indispensável.
96 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Exemplo 2.1.15.
Considerem-se os conjuntos En = {k ∈ N : k ≥ n} no espaço de medida (de
contagem) (N, P(N), #). É claro que

\
En ց En = ∅ mas #(En ) = +∞ não converge para #(∅) = 0.
n=1

Exercı́cios.

1. Seja X um conjunto infinito. Diga, para cada um dos exemplos seguintes,


se a função de conjuntos em causa µ : P(X) → [0, +∞] é aditiva, subaditiva,
σ-aditiva, σ-subaditiva.
a) µ(E) = 0, se E é finito, com µ(E) = 1, se E é infinito,
b) µ(E) = 0, se E é finito, com µ(E) = +∞, se E é infinito.

2. Suponha que M é uma σ-álgebra em X e E1 , E2 , · · · , En , · · · são conjuntos


em M. Prove que E = ∩∞n=1 En pertence igualmente a M (Teorema 2.1.4).

3. Suponha que µ é uma medida definida na σ-álgebra M e E é M-mensurável.


Prove que a função λ definida por λ(F ) = µ(F ∩ E) é igualmente uma medida.

4. Em cada um dos casos seguintes, prove que a função µ : P(X) → [0, +∞]
dada é uma medida na σ-álgebra P(X).
a) A medida de contagem #.
b) a medida de Dirac δx0 , onde x0 ∈ X.

5. Suponha que (X, M) é um espaço mensurável e µ é uma medida complexa


definida em M. Prove que
a) Existem medidas reais α e β tais que µ = α + iβ.
b) µ(∅) = 0.
c) µ é aditiva.

6. Suponha que, para cada n ∈ N, µn : Mn → [0, +∞] é uma medida positiva


na σ-álgebra Mn em X. Considere

\ ∞
X
M= Mn e µ : M → [0, +∞] dada por µ(E) = µn (E), para E ∈ M.
n=1 n=1

Prove que M é uma σ-álgebra em X e µ é uma medida positiva em M.

7. (O Lema de Borel-Cantelli)(4 ): Seja (X, M, µ) um espaço de medida.


P∞
Suponha que os conjuntos En são M-mensuráveis e n=1 µ(En ) < ∞. Sendo
4
De Borel, e Francesco Paolo Cantelli, 1875-1966, matemático italiano, professor na
Universidade de Roma.
2.2. A Medida de Lebesgue 97

E o conjunto dos x ∈ X que pertencem a um número infinito de conjuntos


En ’s, prove que E ∈ M e µ(E) = 0. Sugestão: Prove primeiro que
∞ [
\ ∞
E= Ek .
n=1 k=n

8. Existe alguma σ-álgebra infinita numerável? Sugestão: Comece por provar


que qualquer σ-álgebra infinita contém uma famı́lia infinita de conjuntos men-
suráveis disjuntos.

2.2 A Medida de Lebesgue


Passamos a descrever a solução do Problema de Borel descoberta por Le-
besgue, que envolve:

• A classe L(RN ), dos conjuntos ditos Lebesgue-mensuráveis, e

• A medida de Lebesgue mN , que é uma função mN : L(RN ) → [0, +∞].

Notamos primeiro que qualquer solução (MN , κN ) do Problema de Borel é


uma extensão do conteúdo de Jordan tal como o definimos em 1.6.9 para
a classe dos conjuntos σ-elementares:

• Por um lado, como MN é uma σ-álgebra que contém os conjuntos


elementares, temos necessariamente Eσ (RN ) ⊂ MN .

• Por outro lado, se E ∈


S∞Eσ (RN ), existem conjuntos elementares disjun-
tos En tais que E = n=1 En , donde

X ∞
X
κN (E) = κN (En ) = cN (En ) = cN (E).
n=1 n=1

Como RN é σ-elementar, é também claro que qualquer subconjunto de RN


pode ser aproximado por excesso por conjuntos σ-elementares, i.e.,

Se E ⊆ RN , existe U ∈ Eσ (RN ) tal que E ⊆ U.

Se κN (E) é uma qualquer solução do Problema de Borel, temos então, por


monotonia,
κN (E) ≤ κN (U ) = cN (U ).
Concluı́mos que cN (U ) é uma aproximação por excesso de κN (E), i.e.,

κN (E) é minorante do conjunto cN (U ) : E ⊆ U, U ∈ Eσ (RN ) .
98 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Como já mencionámos, a próxima definição (de Lebesgue) para o que


hoje chamamos de medida exterior de Lebesgue resulta da definição de Jor-
dan e Peano para o conteúdo exterior pela simples substituição dos conjun-
tos elementares pelos conjuntos σ-elementares. Resume-se a observar que a
melhor aproximação por excesso que podemos calcular para κN (E) usando
apenas conjuntos σ-elementares é

inf cN (U ) : E ⊆ U, U ∈ Eσ (RN ) .

Definição 2.2.1 (Medida Exterior de Lebesgue ). A medida exterior de


Lebesgue em RN é a função m∗N : P(RN ) → [0, +∞], dada por

m∗N (E) = inf cN (U ) : E ⊆ U, U ∈ Eσ (RN ) .

A próxima proposição compara a medida exterior de Lebesgue com o


conteúdo interior, exterior, e com a função cN .

Proposição 2.2.2. Se E ⊆ RN , então

a) Se E é limitado, cN (E) ≤ m∗N (E) ≤ cN (E),

b) Se E ∈ J (RN ), m∗N (E) = cN (E).

Demonstração. Sendo E limitado, consideramos os conjuntos

A = {cN (K) : K ⊆ E, K ∈ E(RN )}, B = {cN (U ) : U ⊇ E, U ∈ E(RN )} e

C = {cN (U ) : U ⊇ E, U ∈ Eσ (RN )}.


a) É evidente que B ⊆ C, e portanto m∗N (E) = inf C ≤ inf B = cN (E).
Para provar que cN (E) ≤ m∗N (E), supomos que K ⊆ E ⊆ U , onde K é
elementar e USé σ-elementar. Existem conjuntos elementares disjuntos Un
tais que U = ∞ n=1 Un , e segue-se da σ-subaditividade de cN que


X
cN (K) ≤ cN (Un ) = cN (U ), ou seja,
n=1

cN (K) é minorante de C, donde cN (K) ≤ inf C = m∗N (E). Temos assim


que m∗N (E) é majorante de A, e concluı́mos que m∗N (E) ≥ sup A = cN (E).

b) É uma consequência evidente de a).

Exemplos 2.2.3.
1. O conjunto Q é σ-elementar, e portanto 0 ≤ m∗ (Q) ≤ c1 (Q) = 0, ou seja,
m∗ (Q) = 0. Note-se que escrevemos m∗ em vez de m∗1 .
2.2. A Medida de Lebesgue 99

2. Sendo D = Q ∩ [0, 1] o exemplo de Dirichlet, temos

0 = c(D) = c1 (D) = m∗ (D) < c(D) = 1.

As propriedades mais essenciais da medida exterior da Lebesgue são as


seguintes, que veremos mais adiante serem a base da definição axiomática
de “medida exterior ”.

Proposição 2.2.4. Dados E, En , F ⊆ RN , temos:

a) Monotonia: Se E ⊆ F então m∗N (E) ≤ m∗N (F ),

b) m∗N (∅) = 0,

[ ∞
X
c) σ-subaditividade: E ⊆ En =⇒ m∗N (E) ≤ m∗N (En ).
n=1 n=1

Demonstração. As afirmações em a) e b) são muito fáceis de verificar. Rela-


tivamente a c), dados conjuntos σ-elementares Un tais que En ⊆ Un , temos

[ ∞
[
E⊆ En ⊆ Un = U.
n=1 n=1

O conjunto U é σ-elementar, e segue-se de 1.6.11 c) (σ-subaditividade) que:



X
m∗N (E) ≤ cN (U ) ≤ cN (Un ).
n=1

Como os conjuntos Un são arbitrários, podemos agora concluir que:



X
m∗N (E) ≤ m∗N (En ).
n=1

Observação 2.2.5.
A medida exterior de Lebesgue coincide com o conteúdo de Jordan em Jσ (RN ):
Se E ∈ Jσ (RN ), existem conjuntos disjuntos En ∈ J (RN ) tais que

[ ∞
X
E= En , donde m∗N (E) ≤ m∗N (En ), de 2.2.4.
n=1 n=1

Segue-se de 2.2.2 que



X ∞
X
(1) m∗N (En ) = cN (En ) = cN (E), e por isso m∗N (E) ≤ cN (E).
n=1 n=1
100 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Sm
Por outro lado, como Fm = n=1 En é Jordan-mensurável e Fm ⊆ E, temos
m
X ∞
X
(2) m∗N (E) ≥ m∗N (Fm ) = cN (Fm ) = cN (En ) → cN (En ) = cN (E).
n=1 n=1

Concluı́mos de (1) e (2) que cN (E) = m∗ (E).

É por vezes conveniente calcular a medida exterior de Lebesgue usando


procedimentos distintos do que optámos por referir em 2.2.1.
Proposição 2.2.6. Dado E ⊆ RN , temos:
(∞ ∞
)
X [
m∗N (E) = inf cN (Rn ) : E ⊆ Rn , Rn rectângulo limitado ,
n=1 n=1

inf cN (U ) : E ⊆ U ⊆ RN , U aberto .
Demonstração. Escrevemos para simplificar
(∞ ∞
)
X [
R= cN (Rn ) : E ⊆ Rn , Rn rectângulo limitado ,
n=1 n=1

A = cN (U ) : E ⊆ U ⊆ RN , U aberto .

S
Dados rectângulos limitados Rn tais que E ⊆ ∞ n=1 Rn , deve ser claro que
existem rectângulos limitados disjuntos R̃n tais que

[ ∞
[ ∞
X ∞
X
(1) E ⊆ Rn = Ũ = R̃n onde cN (R̃n ) = cN (Ũ ) ≤ cN (Rn ).
n=1 n=1 n=1 n=1

O conjunto Ũ é σ-elementar, e temos assim que



X
(2) m∗N (E) ≤ cN (Ũ ) ≤ cN (Rn ) donde m∗N (E) ≤ inf R.
n=1

Qualquer conjunto σ-elementar


P U é uma união numerável de rectângulos Rn
disjuntos, e como cN (U ) = ∞
n=1 cN (Rn ) ≥ inf R, segue-se também que

m∗N (E) ≥ inf R, ou seja, m∗N (E) = inf R.


É fácil verificar que, dado ε > 0, existem rectângulos
S∞ abertos Rn′ ⊇ Rn tais
′ n ′
que cN (Rn \Rn ) < ε/2 . O conjunto V = n=1 Rn é aberto e portanto
∞ ∞ h
X X εi
inf A ≤ cN (V ) ≤ cN (Rn′ ) ≤ cN (Rn ) + = cN (U ) + ε.
2n
n=1 n=1

Como inf A ≤ cN (U )+ε, concluı́mos que inf A ≤ m∗N (E)+ε, e fazemos ε → 0


para obter inf A ≤ m∗N (E). Por outro lado, qualquer aberto é σ-elementar,
donde é óbvio que m∗N (E) ≤ inf A, e portanto m∗N (E) = inf A.
2.2. A Medida de Lebesgue 101

Observação 2.2.7.

Segue-se do resultado anterior que E é um conjunto nulo no sentido de Borel


se e só se m∗N (E) = 0.

A medida exterior de Lebesgue providencia apenas uma aproximação por


excesso da medida de Lebesgue. Lebesgue descobriu, igualmente, uma apro-
ximação por defeito apropriada, dita hoje a medida interior de Lebes-
gue, e definiu os conjuntos Lebesgue-mensuráveis, imitando Jordan e Peano,
como os conjuntos cujas medidas interior e exterior de Lebesgue são iguais.
No entanto, não se deve inferir da relativa facilidade com que introduzimos
a medida exterior de Lebesgue que a definição da correspondente medida
interior é imediata, e deixamos para os exercı́cios 8 e 10 desta secção verificar
que esta questão não é trivial, e a sua solução está longe das ideias de Jordan
e Peano. Preferimos aqui não seguir exactamente o procedimento original
de Lebesgue, e observar que:

Seja qual for a “correcta” definição de medida interior de Lebesgue,


devemos ter, para os conjuntos Lebesgue-mensuráveis, que

mN (E) = m∗N (E),

exactamente como temos, para os conjuntos Jordan-mensuráveis, que

cN (E) = cN (E).

De acordo com esta observação, a medida exterior m∗N deve coincidir


com a medida positiva mN na classe dos conjuntos Lebesgue-mensuráveis
L(RN ) e será portanto σ-aditiva em L(RN ). Por outras palavras, a medida
exterior de Lebesgue é aditiva na classe L(RN ). Por esta razão, e em vez de
nos ocuparmos da definição da medida interior de Lebesgue, propomo-nos
resolver o seguinte problema:(5 )

2.2.8 (O Problema “Fácil” de Lebesgue). Determinar uma σ-álgebra


MN ⊇ E(RN ) onde a medida exterior de Lebesgue seja aditiva.

Começamos o nosso estudo detalhado do problema “fácil” de Lebesgue


2.2.8 por uma observação muito simples, sugerida pela figura 2.2.1.

5
Recorde aliás do exercı́cio 2 da secção 1.6 que a medida exterior, que é σ-subaditiva,
é também σ-aditiva em qualquer semi-álgebra onde seja aditiva.
102 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

E
R
R∩E

R\E

Figura 2.2.1: Decomposição do rectângulo R.

Proposição 2.2.9. Se MN é solução do problema 2.2.8 então, para qual-


quer E ∈ MN e qualquer rectângulo-N limitado R, temos:

cN (R) = m∗N (R ∩ E) + m∗N (R\E).

Demonstração. Seja MN uma solução do problema 2.2.8. Temos então:

(1) R ∩ E, R\E ∈ MN , porque MN é uma semi-álgebra que contém o


conjunto E e o rectângulo limitado R.

(2) m∗N (R) = m∗N (R ∩ E) + m∗N (R\E), porque m∗N é aditiva em MN , os


conjuntos R ∩ E e R\E são disjuntos e R = (R ∩ E) ∪ (R\E).

(3) cN (R) = m∗N (R) = m∗N (R ∩ E) + m∗N (R\E), de acordo com 2.2.2.

A condição referida em 2.2.9 pode ser reformulada de diversas maneiras,


e é especialmente útil reconhecer que o rectângulo R pode ser substituı́do
por um qualquer subconjunto arbitrário de RN . Neste caso, esta reformu-
lação é uma consequência directa e quase trivial da definição da medida
exterior de Lebesgue. No entanto, a medida exterior de Lebesgue é, como
já mencionámos, apenas um exemplo concreto de uma noção mais abstracta
de medida exterior e, nesse contexto mais geral, o resultado abaixo sugere
ideias muito úteis para a definição e estudo de outras medidas de interesse.

Proposição 2.2.10. Se E ⊆ RN as seguintes afirmações são equivalentes:

a) cN (R) = m∗N (R∩E)+m∗N (R\E), para qualquer rectângulo-N limitado


R.

b) m∗N (F ) = m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E), para qualquer F ⊆ RN .


2.2. A Medida de Lebesgue 103

Demonstração. É evidente que b) ⇒ a) e portanto limitamo-nos a provar


que a) ⇒ b). Recordamos que m∗N é subaditiva, donde

m∗N (F ) ≤ m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E).

Por esta razão, temos a provar apenas a desigualdade

m∗N (F ) ≥ m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E).

Considerem-se rectângulos limitados Rn tais que F ⊆ ∪∞


n=1 Rn . É claro que


[ ∞
[
F ∩E ⊆ (Rn ∩ E) e F \E ⊆ (Rn \E).
n=1 n=1

Como m∗N é σ-subaditiva, sabemos que



X ∞
X
m∗N (F ∩ E) ≤ m∗N (Rn ∩ E) e m∗N (F \E) ≤ m∗N (Rn \E).
n=1 n=1

Adicionando as desigualdades precedentes, obtemos



X
m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) ≤ [m∗N (Rn ∩ E) + m∗N (Rn \E)].
n=1

Por hipótese, temos m∗N (Rn ∩ E) + m∗N (Rn \E) = cN (Rn ). Concluı́mos que

X
m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) ≤ cN (Rn ).
n=1

Segue-se da proposição 2.2.6 que m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) ≤ m∗N (F ).

As definições fundamentais da teoria de Lebesgue são as seguintes:

Definição 2.2.11 (Conjuntos de Lebesgue, Medida de Lebesgue). Sendo


E ⊆ RN ,

a) E diz-se Lebesgue-mensurável (em RN ) se e só se(6 )

m∗N (F ) = m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E), para qualquer F ⊆ RN .

b) L(RN ) é a classe dos conjuntos Lebesgue-mensuráveis em RN .


6
O trabalho original de Lebesgue contemplava conjuntos E ⊆ I, onde I é um intervalo
limitado. A medida interior de E é neste caso c(I) − m∗(I\E), e a igualdade entre medida
interior e medida exterior é a identidade c(I) = m∗ (E) + m∗ (I\E), que é claramente um
caso especial da aqui referida. Por outras palavras, a ideia original de Lebesgue estava
certamente muito próxima da que aqui optámos por seguir.
104 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

c) A medida de Lebesgue mN : L(RN ) → [0, ∞] é a restrição de m∗N


a L(RN ).
Exemplos 2.2.12.
1. RN é Lebesgue-mensurável: Tomando E = RN na definição 2.2.11, é claro
que F ∩ E = F e F \E = ∅, donde

m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) = m∗N (F ) + m∗N (∅) = m∗N (F ).

2. Qualquer conjunto com medida exterior nula é Lebesgue-mensurável: Se F ⊆


RN e m∗N (E) = 0 e então m∗N (F ∩E) = 0, porque F ∩E ⊆ E e m∗N é monótona.
Temos assim que

m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) = m∗N (F \E) ≤ m∗N (F ).

Por outro lado, e como m∗N é subaditiva, temos

m∗N (F ∩ E) + m∗N (F \E) ≥ m∗N (F ).

3. O conjunto Q dos racionais é Lebesgue-mensurável: porque tem medida ex-


terior nula, como vimos no exemplo 2.2.3.
4. Qualquer conjunto Jordan-mensurável é Lebesgue-mensurável: se E ∈ J (RN )
e R é um rectângulo-N limitado então

cN (R) = cN (R ∩ E) + cN (R\E) = m∗N (R ∩ E) + m∗N (R\E).

5. A classe L(RN ) é fechada relativamente a complementações: porque a con-


dição em 2.2.11 a) é evidentemente simétrica em E e E c .

Passamos a mostrar que L(RN ) é solução do problema “fácil” de Lebes-


gue, começando por alguns resultados parciais mais fáceis de estabelecer:
Proposição 2.2.13. Sejam A, B ⊆ RN :

a) L(RN ) é uma álgebra.

b) Aditividade:

A ∩ B = ∅ e A ∈ L(RN ) =⇒ m∗N (A ∪ B) = m∗N (A) + m∗N (B).

c) Em particular, se A1 , · · · , An ∈ L(RN ) são disjuntos então


n
[ n
[ n
X
Ak ∈ L(RN ) e m∗N ( Ak ) = m∗N (Ak ).
k=1 k=1 k=1

Demonstração. Vimos nos exemplos 2.2.12 que RN ∈ L(RN ) e que L(RN )


é fechada relativamente a complementações. Basta-nos por isso provar que
L(RN ) é fechada em relação à intersecção (ver figura 2.2.2).
2.2. A Medida de Lebesgue 105

A B

A∩B

R ∩ A\B
R
R\A

Figura 2.2.2: R\(A ∩ B) = (R ∩ A\B) ∪ (R\A).

a) Usamos 2.2.11 a) de duas formas:


(1) E = A e F = R ⇒ m∗N (R) = m∗N (R ∩ A) + m∗N (R\A).
(2) E = B e F = R∩A ⇒ m∗N (R∩A) = m∗N (R∩A∩B)+m∗N (R∩A\B).

Usamos (2) em (1), para obter:


(3) m∗N (R) = m∗N (R ∩ A ∩ B) + m∗N (R ∩ A\B) + m∗N (R\A).

Como sugerido na figura 2.2.2, temos R\(A∩B) = (R\A)∪(R∩A\B),


e portanto, como a medida exterior é subaditiva,
(4) m∗N (R\(A ∩ B)) ≤ m∗N (R ∩ A\B) + m∗N (R\A).

Segue-se agora de (3) e (4) que


m∗N (R) ≥ m∗N (R ∩ A ∩ B) + m∗N (R\(A ∩ B)),
e concluı́mos que A ∩ B ∈ L(RN ).
b) Tomamos E = A e F = A ∪ B em 2.2.11 a), e obtemos
m∗N (A ∪ B) = m∗N ((A ∪ B) ∩ A) + m∗N ((A ∪ B)\A).
É claro que (A ∪ B) ∩ A = A e (A ∪ B)\A = B, ou seja,
m∗N (A ∪ B) = m∗N (A) + m∗N (B).

c) Segue-se de uma indução evidente que se os conjuntos A1 , · · · , An ∈


L(RN ) são disjuntos, então
n
[ n
[ n
X
Ak ∈ L(RN ) e m∗N ( Ak ) = m∗N (Ak ).
k=1 k=1 k=1
106 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

O próximo teorema mostra que L(RN ) é efectivamente uma solução do


problema “fácil” de Lebesgue, dita a σ-álgebra de Lebesgue.

Teorema 2.2.14. m∗N é σ-aditiva em L(RN ) e L(RN ) é uma σ-álgebra.

Demonstração. Dados conjuntos En ∈ L(RN ), definimos



[ n
[
E= En e Fn = Ek .
n=1 k=1

Os conjuntos Fn são Lebesgue-mensuráveis, porque L(RN ) é uma álgebra


(2.2.13 c)), e podemos supor que os conjuntos En são disjuntos sem perder
generalidade (porquê?). Para provar que m∗N é σ-aditiva em L(RN ), basta-
nos notar que

X n
X ∞
X
m∗N (En ) ≥ m∗N (E) ≥ m∗N (Fn ) = m∗N (Ek ) → m∗N (En ).
n=1 k=1 n=1

Para verificar que E ∈ L(RN ), seja R um rectângulo limitado. Observamos


primeiro que, como Fn ∈ L(RN ) e E ⊇ Fn , temos

(i) cN (R) = m∗N (R ∩ Fn ) + m∗N (R\Fn ) ≥ m∗N (R ∩ Fn ) + m∗N (R\E).

Como os conjuntos R∩Ek são mensuráveis e disjuntos, usamos a σ-aditividade


que acabámos de demonstrar para obter
n
X ∞
X
(ii) m∗N (R ∩ Fn ) = m∗N (R ∩ Ek ) → m∗N (R ∩ En ) = m∗N (R ∩ E).
k=1 n=1

Concluı́mos de (i) e (ii) que cN (R) ≥ m∗N (R ∩ E) + m∗N (R\E), o que, como
já observámos, garante que E é Lebesgue-mensurável.

Usando o resultado anterior, registamos desde já que:

Observações 2.2.15.
1. A classe L(RN ) contém as classes Eσ (RN ) e Jσ (RN ): Qualquer conjunto Jor-
dan-mensurável é Lebesgue-mensurável, como vimos no exemplo 2.2.12.4. Como
L(RN ) é uma σ-álgebra, é claro que Eσ (RN ) ⊆ Jσ (RN ) ⊆ L(RN ).

2. Os conjuntos abertos são Lebesgue-mensuráveis, porque são σ-elementares.


Os conjuntos fechados, que são os respectivos complementares, são igualmente
Lebesgue-mensuráveis, porque L(RN ) é uma álgebra.
2.2. A Medida de Lebesgue 107

3. O conjunto do exemplo 1.6.8 é Lebesgue-mensurável: O conjunto é da forma



[ ε ε
Uε = ]qn − n
, qn + n [,
n=1
2 2

onde q1 , q2 , · · · , qn , · · · são os racionais de [0, 1]. Uε é Lebesgue-mensurável,


porque é aberto, mas não é Jordan-mensurável, pelo menos quando ε < 1/2,
4. O conjunto de Volterra Cε (I) é Lebesgue-mensurável, porque é fechado. Sen-
do Uε (I) = I\Cε (I), temos m(Uε (I)) = (1−ε)c(I), e como m(I) = m(Cε (I))+
m(Uε (I)) é claro que m(Cε (I)) = εc(I). Recorde que Cε (I) 6∈ Jσ (RN ) quando
ε > 0.
5. (L(RN ), mN ) é uma solução do problema de Borel. Poderão existir outras
soluções (MN , κN ) do problema de Borel com κN 6= m∗N , mas teremos sempre
κn (E) ≤ m∗N (E) para qualquer E ∈ MN .
6. L(RN ) é a maior solução do problema “fácil” de Lebesgue, como verificámos
na proposição 2.2.9.

O próximo resultado revela uma relação essencial entre os conjuntos Le-


besgue-mensuráveis e os conjuntos abertos: os conjuntos Lebesgue-mensu-
ráveis são os que podem ser aproximados por excesso por conjuntos abertos
com erro arbitrariamente pequeno, sendo este erro quantificado pela medida
exterior do conjunto diferença.
Teorema 2.2.16. E ∈ L(RN ) se e só se para qualquer ε > 0 existe um
conjunto aberto U ⊆ RN tal que E ⊆ U e m∗N (U \E) < ε.
Demonstração. Consideramos as afirmações
(1) ∀ε>0 ∃U ⊆RN tal que U é aberto, E ⊆ U e m∗N (U \E) < ε, e
(2) E ∈ L(RN ).
• (1) ⇒ (2): Existem neste ∗
T∞ caso abertos Un ⊇ E tais que mN (Un \E) <
1/n, e definimos B = n=1 Un . Note-se que (figura 2.2.3)
B ∈ L(RN ), B ⊇ E e B\E ⊆ Un \E.
Como m∗N (B\E) ≤ m∗N (Un \E) < 1/n → 0, temos m∗N (B\E) = 0, e
portanto B\E ∈ L(RN ), donde E = B\(B\E) ∈ L(RN ).
• (2) ⇒ (1): É conveniente separar o argumento em dois subcasos,

a) mN (E) < +∞: de acordo com 2.2.6, existe para qualquer ε > 0
um aberto U tal que E ⊆ U , e
m∗N (E) = mN (E) ≤ cN (U ) = mN (U ) ≤ mN (E) + ε.
Temos de 2.2.13 b) que mN (U ) = mN (E)+mN (U \E), e portanto
m∗N (U \E) = mN (U \E) = mN (U ) − mN (E) < ε.
108 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

b) mN (E) = +∞: tomamos En = E∩Rn , onde Rn é, por exemplo, o


rectângulo formado pelos x = (x1 , · · · , xN ) com |xk | ≤ n. Como
En ∈ L(RN ) e tem medida finita, temos de a) que existe um
aberto Un ⊇ En tal que mN (Un \En ) < ε/2n . É claro que

[ ∞
[ ∞
[ ∞
[
E= En ⊆ Un = U , e U \E = (Un \E) ⊆ (Un \En ).
n=1 n=1 n=1 n=1

U é aberto, e como a medida exterior é σ-subaditiva, temos



[ ∞
X X∞
ε
m∗N (U \E) ≤ mN ( Un \En ) ≤ mN (Un \En ) < < ε.
n=1 n=1 n=1
2n

Un

E B Um

Figura 2.2.3: Os conjuntos E, B, e os abertos Un .

O teorema anterior é muitas vezes utilizado na forma

Corolário 2.2.17. E ∈ L(RN ) se e só se existem conjuntos abertos Un ⊆


RN tais que E ⊆ Un e m∗N (Un \E) → 0, donde mN (Un ) → mN (E). Os
conjuntos Un podem sempre ser supostos formar uma sucessão decrescente.

Demonstração. De acordo com o teorema anterior, E ∈ L(RN ) se e só se


existe uma sucessão de abertos Un ⊇ E tais que m∗N (Un \E) → 0. A sucessão
pode ser suposta decrescente, porque podemos substituir os conjuntos Un
pelos conjuntos Vn = ∩nk=1 Uk . Temos ainda que

mN (E) ≤ mN (Un ) = mN (E) + mN (Un \E) =⇒ mN (Un ) → mN (E).


2.2. A Medida de Lebesgue 109

Este corolário permite-nos obter facilmente um resultado de unicidade


parcial para as soluções do Problema de Borel.
Corolário 2.2.18. Se (MN , κN ) é solução do Problema de Borel, então
κN (E) = m∗N (E) para qualquer E ∈ MN ∩ L(RN ).
Demonstração. Qualquer solução κN do Problema de Borel coincide com cN
nos rectângulos limitados, e portanto, por σ-subaditividade, κN (U ) = cN (U )
para qualquer aberto U ⊆ RN . Como κN é monótona, temos ainda, para
qualquer E ∈ MN ,(7 )

κN (E) ≤ inf{mN (U ) : E ⊆ U , U aberto } = m∗N (E)

De acordo com 2.2.17, se E ∈ MN ∩ L(RN ) existem conjuntos abertos


Un ⊇ E tais que mN (Un \E) → 0, e notamos que

κN (E) + κN (Un \E) = κN (Un ) = mN (Un ) = mN (E) + mN (Un \E).

Dado que κN (Un \E) ≤ m∗N (Un \E) = mN (Un \E), é claro que κN (Un \E) →
0, e concluı́mos que κN (E) = mN (E).

Antes de generalizar a proposição 1.3.12, sobre produtos cartesianos, e


a invariância do conteúdo sob translações e reflexões, aos conjuntos Lebes-
gue-mensuráveis, investigamos as correspondentes propriedades da medida
exterior de Lebesgue.
Proposição 2.2.19. Sejam E ⊆ RN , F ⊆ RM e x ∈ RN . Seja ainda R a
reflexão de E no hiperplano xk = 0. Temos então:
a) Invariância sob translações: m∗N (E + x) = m∗N (E).

b) Invariância sob reflexões: m∗N (R) = m∗N (E).

c) Medida exterior do produto: m∗N +M (E × F ) ≤ m∗N (E) × m∗M (F ).(8 )


Demonstração. A verificação de a) e de b) é um exercı́cio muito simples.
Por exemplo, é muito fácil mostrar que
 
cN (U ) : E ⊆ U, U ∈ Eσ (RN ) = cN (V ) : E + x ⊆ V, V ∈ Eσ (RN ) ,

porque os conjuntos V são da forma V = (U + x), e cN (U + x) = cN (U ).


Para provar c), sejam Un ⊆ RN e Vn ⊆ RM conjuntos abertos tais que

Un ⊇ E, Vn ⊇ F, cN (Un ) → m∗N (E) e cM (Vn ) → m∗M (F ).


7
Existem soluções do problema de Borel que não são soluções do problema “fácil” de
Lebesgue, i.e., para as quais existem conjuntos E ∈ MN tais que κN (E) < m∗N (E).
Veremos adiante que as soluções do problema “fácil” de Lebesgue se dizem as soluções
regulares do problema de Borel.
8
Temos na realidade que m∗N+M (E × F ) = m∗N (E) × m∗M (F ), mas só estabeleceremos
esta afirmação no próximo Capı́tulo.
110 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

É claro que E × F ⊆ Un × Vn , e portanto, usando o lema 1.6.20, temos

(i) m∗N +M (E × F ) ≤ cN +M (Un × Vn ) = cN (Un )cM (Vn ) → m∗N (E)m∗M (F ),

desde que o produto m∗N (E)m∗M (F ) não corresponda a uma indeterminação


do tipo (0)(∞).

Suponha-se agora que o produto m∗N (E) × m∗M (F ) é da forma 0 × ∞, e


que m∗N (E) = 0 e m∗M (F ) = ∞ (o argumento para o caso m∗N (E) = ∞ e
m∗M (F ) = 0 é inteiramente análogo). Definimos os conjuntos auxiliares


[ ∞
[
Fn = {y ∈ F : kyk ≤ n} , donde F = Fn e E × F = E × Fn .
n=1 n=1

Os conjuntos Fn têm medida exterior finita, porque são limitados. Segue-se


de (i) que m∗N +M (E × Fn ) = 0 × m∗M (Fn ) = 0 e portanto


X
m∗N +M (E × F ) ≤ m∗N +M (E × Fn ) = 0.
n=1

Exemplo 2.2.20.
Se E ⊂ RN tem medida exterior nula e F ⊆ RM é arbitrário, então E × F
é Lebesgue-mensurável, porque tem medida exterior nula, como acabámos de
verificar.

Podemos agora generalizar a proposição 1.3.12 aos conjuntos Lebesgue-


mensuráveis.

Teorema 2.2.21. Sejam A ∈ L(RN ) e B ∈ L(RM ).

a) Invariância sob translacções: Se x ∈ RN , A + x ∈ L(RN ) e

mN (A + x) = mN (A),

b) Invariância sob reflexões: Se C é a reflexão de A no hiperplano xk =


0, então C ∈ L(RN ), e mN (A) = mN (C), e

c) Fecho em relação ao produto: A × B ∈ L(RN +M ) e

mN +M (A × B) = mN (A) × mM (B).
2.2. A Medida de Lebesgue 111

Demonstração. As afirmações a) e b) são consequências muito simples das


correspondentes afirmações em 2.2.19 e a sua verificação fica para o exercı́cio
12. Passamos a provar apenas a afirmação c).
De acordo com 2.2.17, existem conjuntos abertos Un ⊇ A e Vn ⊇ B, tais
que mN (Un \A) → 0 e mM (Vn \B) → 0. Notamos que

Un × Vn é aberto, A × B ⊆ Un × Vn e

(Un × Vn )\(A × B) = [Un × (Vn \B)] ∪ [(Un \A) × Vn ].

Se os conjuntos A e B têm ambos medida finita, deve ser claro que

m∗N +M (Un × (Vn \B)) → 0 e m∗N +M ((Un \A) × Vn ) → 0, e portanto

m∗N +M ((Un × Vn )\(A × B)) → 0.

Segue-se do corolário 2.2.17 que A × B é Lebesgue-mensurável e

mN +M (Un × Vn ) → mN +M (A × B).

É também claro que mN +M (Un × Vn ) = cN (Un )cM (Vn ) → mN (A)mM (B) e


temos assim que

mN +M (A × B) = mN (A)mM (B).

Se A ou B têm medida infinita, basta-nos considerar os conjuntos An =


{x ∈ A : ||x|| < n} e Bn = {x ∈ B : ||x|| < n}, e notar que An ր A,
Bn ր B e An × Bn ր A × B. Aplicando o teorema da convergência
monótona 2.1.13 e o resultado que demonstrámos para conjuntos de medida
finita, concluı́mos que A × B é mensurável e(9 )

mN +M (An × Bn ) = mN (An )mM (Bn ) ր mN (A)mM (B) = mN +M (A × B).

Relativamente a produtos de conjuntos, a seguinte proposição é também


útil. É aliás válida para qualquer B ∈ L(RM ) (ver o exercı́cio 14), e como
já dissémos é mesmo válida para quaisquer conjuntos, observação que será
verificada no próximo Capı́tulo.

Proposição 2.2.22. Se A ⊆ RN e B ⊆ RM é um rectângulo-M então


m∗N +M (A × B) = m∗N (A)mM (B).
9
Neste caso não há qualquer indeterminação, porque se mN (A)mM (B) = (0)(∞) então
mN (An )mM (Bn ) = 0 para qualquer n.
112 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Demonstração. Temos a provar que m∗N +M (A × B) ≥ m∗N (A) × mM (B).


Supomos primeiro que B é um rectângulo compacto. Dado um aberto U ⊇
A × B, sabemos que

[
U= Rn × Tn , onde Rn ⊂ RN e Tn ⊂ RM são rectângulos abertos.
n=1

Fixado x ∈ A, notamos que a classe T = {Tn : x ∈ Rn } é, por razões óbvias,


uma cobertura aberta do compacto B. Existe por isso uma subcobertura
finita T ′ = {Tn1 , Tn2 , · · · , Tnk } ⊆ T de B. Observamos que
k
\ k
[
Qx = Rni =⇒ Qx × B ⊆ Rni × Tni ⊆ U.
i=1 i=1
[
O conjunto V = Qx é aberto, e A × B ⊆ V × B ⊆ U. É evidente que
x∈A
m∗N (A) ≤ mN (V ) e portanto

m∗N (A)mM (B) ≤ mN (V )mM (B) = mN +M (V × B) ≤ mN +M (U ).

Por outras palavras, m∗N (A)mM (B) ≤ mN +M (U ) para qualquer aberto U ⊇


A × B, donde m∗N (A)mM (B) ≤ m∗N +M (A × B). Deixamos como exercı́cio
a generalização deste resultado para qualquer conjunto mensurável B.

Qx × B

A×B U

x
Qx
A

Figura 2.2.4: Qx × B ⊆ U .

Exercı́cios.
2.2. A Medida de Lebesgue 113

1. Prove que a medida exterior de Lebesgue é invariante sob translacções, e con-


clua que a classe dos conjuntos Lebesgue-mensuráveis é igualmente invariante
sob translacções.

2. Prove que qualquer conjunto numerável E ⊆ RN verifica m∗N (E) = 0.

3. Determine conjuntos E ⊆ R tais que

c(E) < m∗ (E) = c(E) e c(E) < m∗ (E) < c(E).

4. Prove que se m∗N (E) = 0 então qualquer subconjunto de E é Lebesgue-


mensurável.

5. Prove que se I ⊆ R é um intervalo ilimitado então I ∈ L(R) e m(I) = +∞.

6. Prove que R\Q é Lebesgue-mensurável, com m(R\Q) = ∞.

7. Prove que se K é compacto, então m∗N (K) = cN (K).

8. Mostre que podemos ter mN (E) > 0 e int E = ∅.

9. Determine o cardinal das classes J (RN ) e L(RN ). sugestão: Considere o


conjunto de Cantor.

10. Podemos definir a medida interior de Lebesgue do conjunto E ⊆ RN usando


sup{cN (K) : K ∈ Eσ (E)}?

11. Suponha que E ⊆ R ⊂ RN , e R é um rectângulo limitado. Mostre que E é


Lebesgue-mensurável se e só se m∗N (E) + m∗N (R\E) = cN (R).(10 )

12. Complete a demonstração do teorema 2.2.21.

13. Generalize a propriedade de σ-aditividade da medida de Lebesgue da seguinte


forma: suponha que os conjuntos En ⊆ RN são mensuráveis e disjuntos, e con-
sidere quaisquer conjuntos An ⊆ En . Mostre que:

[ ∞
X
m∗ ( An ) = m∗ (An ).
n=1 n=1

Aproveite para mostrar que se os conjuntos Fn são mensuráveis e Fn ր F então


m∗N (A ∩ Fn ) ր m∗N (A ∩ F ) para qualquer A ⊆ RN . sugestão: Considere
primeiro o caso de uma união finita.

14. Seja A ⊆ RN e B ∈ L(RM ). Mostre que m∗N +M (A × B) = m∗N (A)mM (B).


sugestão: Use a proposição 2.2.22, e suponha primeiro que B é aberto. Pode
ser conveniente usar o exercı́cio anterior.
10
Mostramos assim que a definição original de Lebesgue, aplicável apenas a conjuntos
limitados, é nesse caso equivalente à definição que referimos em 2.2.11.
114 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

P∞
15. Suponha que n=1 |cn | < ∞, seja D = {xn : n ∈ N} um conjunto infinito
numerável em R, e considere a função f : R → R nula fora de D, tal que
f (xn ) = cn .
a) Prove que f ′ (x) = 0 qtp em R. sugestão: Aplique o lema de Borel-
Cantelli aos conjuntos:
  \∞ [ ∞
|cn | 1
An,k = x ∈ R : > , e Ak = An,k .
|x − xn | k m=1 n=m

b) Mostre que a conclusão anterior é igualmente válida desde que, para


qualquer intervalo limitado I, e tomando K = {n ∈ N : xn ∈ I}, se tenha
X
|cn | < ∞.
n∈K

2.3 Os Espaços de Borel e de Lebesgue


Passamos a definir os conjuntos de Borel a que já aludimos diversas vezes,
e esclarecemos a relação entre estes conjuntos e os conjuntos Lebesgue-
mensuráveis. Não usamos aqui a definição original de Borel, que é cons-
trutiva(11 ), e bastante complexa. Sabemos hoje que os conjuntos de Borel
formam a menor σ-álgebra em RN que contém os conjuntos abertos, e este
facto permite uma definição muito mais sucinta. Precisamos apenas de
provar um resultado abstracto preliminar:
Proposição 2.3.1. Se {Mα : α ∈ J} é uma famı́lia não-vazia de σ-álgebras
em X, a classe M = ∩a∈J Mα é uma σ-álgebra em X.
Demonstração. Sabemos que qualquer σ-álgebra Mα ⊇ {∅, X}, e portanto
M ⊇ {∅, X}. Em particular, M = 6 ∅. Para verificar que M é fechada em
relação à complementação, basta-nos notar que, como cada σ-álgebra Mα
é fechada em relação à complementação,
A ∈ M ⇔ A ∈ Mα , ∀α∈J ⇒ Ac ∈ Mα , ∀α∈J ⇔ Ac ∈ M.
Analogamente, e para demonstrar que M é fechado em relação a uniões nu-
meráveis, observamos que cada σ-álgebra Mα é fechada em relação a uniões
numeráveis, donde

[ ∞
[
An ∈ M ⇐⇒ An ∈ Mα , ∀α∈J =⇒ An ∈ Mα , ∀α∈J ⇐⇒ An ∈ M.
n=1 n=1

11
A opção de Borel parece ter sido motivada, pelo menos parcialmente, por razões filosó-
ficas. Borel revela algum desconforto com noções demasiado abstractas da ideia de “con-
junto”, e prefere referir conjuntos que podem ser definidos usando apenas rectângulos, e
operações de intersecção, união e complementação sobre famı́lias numeráveis de conjuntos.
Naturalmente, este facto não o impede de reconhecer que a sua própria definição de
conjunto de medida nula não se coaduna com estas reservas.
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 115

Se C é uma famı́lia inteiramente arbitrária de subconjuntos de X, então


a σ-álgebra P(X) que contém todos os subconjuntos de X contém certa-
mente todos os conjuntos em C. Portanto, existem sempre σ-álgebras de X
que contém todos os conjuntos em C. A intersecção de todas as σ-álgebras
que contêm C é, de acordo com a proposição anterior, a menor σ-álgebra
de X que contém C (porquê?). Introduzimos por isso:
Definição 2.3.2 (σ-Álgebra Gerada pela Classe C). Se C é uma classe de
subconjuntos do conjunto X, a intersecção de todas as σ-álgebras em X que
contêm a classe C diz-se a σ-álgebra gerada por C.
Exemplo 2.3.3.
Se C = {E}, onde E ⊆ X, a σ-álgebra gerada por C é M = {∅, E, E c , X}.

Definimos os conjuntos Borel-mensuráveis usando 2.3.2, com X = RN ,


e sendo C a classe dos subconjuntos abertos de RN :
Definição 2.3.4 (Conjuntos Borel-Mensuráveis). A σ-álgebra gerada pelos
subconjuntos abertos de RN diz-se a σ-álgebra de borel, e designa-se
por B(RN ). Os conjuntos em B(RN ) dizem-se borel-mensuráveis, ou
conjuntos de borel.(12 )
Exemplos 2.3.5.
1. Qualquer conjunto aberto (ou fechado) é Borel-mensurável. Em particular,
sendo S ⊆ RN um conjunto qualquer, o seu interior, exterior e fronteira são
sempre Borel-mensuráveis.
2. O conjunto de Cantor C(I) e o conjunto de Volterra Cε (I) são Borel-mensu-
ráveis, porque são fechados.
3. Se os conjuntos Un são abertos, então G = ∩∞ n=1 Un é Borel-mensurável,
apesar de G não ser necessariamente aberto, ou fechado. Analogamente, se os
conjuntos Fn são fechados, então F = ∪∞
n=1 Fn é Borel-mensurável, apesar de
F não ser necessariamente fechado, ou aberto.
4. Se B = {x1 , x2 , · · · , xn , · · · } é um conjunto numerável em RN , tomamos
Fn = {xn } (um conjunto fechado, logo Borel-mensurável), e notamos que
B = ∪∞n=1 Fn é Borel-mensurável.

Os conjuntos dos tipos mencionados em 2.3.5.3 têm nomes especiais:


Definição 2.3.6 (Conjuntos Fσ e Gδ ). Se E ⊆ RN , dizemos que
a) E é um conjunto Fσ , ou de tipo Fσ , se e só se E é a união de uma
famı́lia numerável de fechados, e
12
Esta definição é aplicável em qualquer espaço topológico (X, O): sendo O a famı́lia
dos conjuntos abertos em X, B(X) é a σ-álgebra gerada por O.
116 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

b) E é um conjunto Gδ , ou de tipo Gδ , se e só se E é a intersecção de


uma famı́lia numerável de abertos.(13 )
Exemplos 2.3.7.
1. De acordo com 1.6.18, qualquer conjunto aberto em RN é um conjunto Fσ .
2. O conjunto dos racionais é um conjunto Fσ , porque é numerável.
3. O conjunto dos irracionais é um conjunto Gδ , porque é o complementar dum
conjunto Fσ .

Sabemos que L(RN ) é uma σ-álgebra que contém os abertos. Como a


σ-álgebra de Borel é a menor σ-álgebra que contém os abertos, temos

Corolário 2.3.8. B(RN ) ⊆ L(RN ).

Note-se em particular que

• Se MN é solução do problema de Borel, temos B(RN ) ⊆ MN , porque


MN é uma σ-álgebra que contém os abertos.

• Se MN é solução do problema de Lebesgue, temos B(RN ) ⊆ MN ⊆


L(RN ), porque (RN , MN , mN ) é uma solução do problema de Borel,
e porque L(RN ) é a maior solução do problema de Lebesgue.

• Veremos na próxima secção que B(RN ) 6= L(RN ) 6= P(RN ).

Vimos no teorema 2.2.16 que os conjuntos Lebesgue-mensuráveis podem


ser aproximados por excesso por conjuntos abertos. Obtemos a seguir mais
alguns tipos de aproximações de conjuntos Lebesgue-mensuráveis, mostran-
do em particular que estes conjuntos:

• Podem ser aproximados por defeito por conjuntos fechados, e

• Diferem de conjuntos Borel-mensuráveis por conjuntos de medida nula.

Teorema 2.3.9. As seguintes afirmações são equivalentes:

a) E ⊆ RN é Lebesgue-mensurável.

b) Para qualquer ε > 0, existem F (fechado), e U (aberto), tais que

F ⊆ E ⊆ U , e mN (U \F ) < ε.

c) Existem A, B ∈ B(RN ), onde A é um Fσ , e B um Gδ , tais que

A ⊆ E ⊆ B e mN (B\A) = 0.
13
As letras “s” (σ) e “d” (δ) são as iniciais de “união” e “intersecção” na lı́ngua alemã.
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 117

Demonstração. a) ⇒ b) Se E é Lebesgue-mensurável então E c é, igualmente,


Lebesgue-mensurável. Dado ε > 0 temos, de acordo com 2.2.16, que

• Existe um aberto U tal que E ⊆ U e mN (U \E) < 2ε , e

• Existe um aberto V tal que E c ⊆ V e mN (V \E c ) < 2ε .

É claro que F = V c é fechado e F ⊆ E. Basta-nos agora notar que


ε ε
U \F = (U \E) ∪ (E\F ) = (U \E) ∪ (V \E c ) ⇒ mN (U \F ) < + = ε.
2 2
b) ⇒ c): Se n ∈ N, existem conjuntos Fn (fechado) e Un (aberto) tais que

1
Fn ⊆ E ⊆ Un e mN (Un \Fn ) < .
n
Os conjuntos A = ∪∞ ∞
n=1 Fn e B = ∩n=1 Un são, respectivamente, um Fσ e
um Gδ , temos A ⊆ E ⊆ B e B\A ⊆ Un \Fn , donde

1
mN (B\A) ≤ mN (Un \Fn ) < , para qualquer n ⇒ mN (B\A) = 0.
n
c) ⇒ a): E = A ∪ D, onde D = E\A ⊆ B\A. A é Borel-mensurável,
logo Lebesgue-mensurável, e D é Lebesgue-mensurável, porque m∗N (D) = 0.
Segue-se que E é Lebesgue-mensurável.

Os conjuntos com medida finita podem ainda ser aproximados por con-
juntos compactos, e mesmo por conjuntos elementares:

Teorema 2.3.10. Se E ⊆ RN e m∗N (E) < +∞, então as seguintes afirmações


são equivalentes:

a) E é Lebesgue-mensurável.

b) Para qualquer ε > 0, existem K (compacto) e U (aberto) tais que

K ⊆ E ⊆ U e mN (U \K) < ε.

c) Para qualquer ε > 0, existe um conjunto elementar J tal que (14 )

m∗N (E∆J) < ε.

Demonstração. É evidente de 2.3.9 que b) ⇒ a), e deixamos para o exercı́cio


5 mostrar que a) ⇒ b), ou seja, que o conjunto fechado referido em 2.3.9
pode ser substituı́do por um compacto.
14
Se A e B são conjuntos, o conjunto A∆B = (A\B)∪(B\A) é a diferença simétrica
de A e B.
118 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Para provar que b) ⇒ c), notamos que o aberto U é uma união nu-
merável de rectângulos abertos limitados Rn . Os rectângulos Rn formam,
por razões óbvias, uma cobertura aberta do compacto K. Existe por isso
uma subcobertura finita de K por rectângulos R1 , · · · , Rm , e o conjunto
J = ∪mn=1 Rn é elementar. Observamos que (ver figura 2.3.1)

K ⊆ E ⊆ U e K ⊆ J ⊆ U =⇒ E∆J ⊆ U \K =⇒ m∗N (E∆J) < ε.

U E K

Figura 2.3.1: E∆J ⊆ U \K

ε
• m∗N (E\A) ≤ m∗N (E\Jn ) < , donde m∗N (E\A) = 0, e
2n

[ ∞
X ∞
X ε
• m∗N (A\E) = m∗N ( (Jn \E)) ≤ m∗N (Jn \E) < =ε
2n
n=1 n=1 n=1

B = A∪(E\A) é Lebesgue-mensurável, contém E e m∗N (B\E) < ε. Provámos


assim que, para qualquer ε > 0, existe um conjunto Lebesgue-mensurável
B ⊇ E tal que m∗N (B\E) < ε. É fácil concluir daqui que E é igualmente
Lebesgue-mensurável (exercı́cio 5).

As propriedades dos conjuntos Jordan- e Lebesgue-mensuráveis relacio-


nadas com produtos cartesianos e com a invariância sob translacções e re-
flexões, que vimos em 1.3.12 e 2.2.21, são também comuns aos conjuntos de
Borel.

Teorema 2.3.11. Sejam A ∈ B(RN ), B ∈ B(RM ) e x ∈ RN .

a) Fecho em relação ao produto: A × B ∈ B(RN +M ).

b) Invariância sob translacções: A + x ∈ B(RN ).

c) Invariância sob reflexões: Se C é a reflexão de A no hiperplano xk =


0, então C ∈ B(RN ).
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 119

Demonstração. Demonstramos aqui a), deixando as observações em b) e c)


para o exercı́cio 9. Suponha-se primeiro que U ⊆ RN é um conjunto aberto,
e considere-se a classe de conjuntos BU , dada por:

BU = V ⊆ RM : U × V ∈ B(RN +M ) .

Deve ser claro que neste caso

(1) A classe BU contém todos os subconjuntos abertos de RM .

Temos, por razões óbvias, que



[ ∞
[
V = Vm ⇒ U × V = U × Vm .
m=1 m=1

Se os conjuntos Vm ∈ BU , então os conjuntos U × Vm são Borel-mensuráveis.


Como B(RN +M ) é uma σ-álgebra, é claro que, neste caso, U ×V é igualmente
Borel-mensurável. Por outras palavras,

(2) A classe BU é fechada em relação a uniões numeráveis.



Por outro lado, temos que U × V c = (U × V )c ∩ U × RM . Se V ∈ BU ,
então (U × V )c é Borel-mensurável, porque é o complementar do conjunto
Borel-mensurável U × V . Sendo U aberto, deve ser evidente que U × RM é
aberto, e concluı́mos que U × V c é Borel-mensurável. Temos assim,

(3) A classe BU é fechada em relação a complementações.

Podemos concluir de (1), (2) e (3) que:

(4) A classe BU é uma σ-álgebra que contém os abertos, e portanto contém


os conjuntos Borel-mensuráveis. Dito doutra forma,

(5) Se U ∈ RN é aberto e B ∈ B(RM ), então U × B ∈ B(RN +M ).

Para terminar a demonstração de a), supomos que B ∈ B(RM ) e considera-


∗ dada por:
mos a classe de conjuntos BB


BB = U ⊆ RN : U × B ∈ B(RN +M ) .

Como vimos em (5), a classe BB ∗ contém os abertos de RN , e é simples

adaptar os argumentos acima para mostrar que esta classe é, também, uma
σ-álgebra:
S S∞
• U = ∞ n=1 Un ⇒ U × B =

n=1 Un × B e, por isso, BB é fechada em
relação a uniões numeráveis.

• U c × B = (U × B)c ∩ RN × B , donde BB ∗ é fechada em relação a

complementações.
120 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Podemos concluir, mais uma vez, que


∗ é uma σ-álgebra que contém os abertos, e portanto contém
(6) A classe BB
os conjuntos Borel-mensuráveis. Dito doutra forma,

(7) Se A ∈ B(RN ) e B ∈ B(RM ), então A × B ∈ B(RN +M ).

Vimos em 2.2.6 que a medida exterior de Lebesgue pode ser calculada


recorrendo apenas a conjuntos abertos. Como os conjuntos abertos são
mensuráveis, esta observação pode ser reformulada como se segue:

Teorema 2.3.12. Se E ∈ L(RN ), então



mN (E) = inf mN (U ) : E ⊆ U ⊆ RN , U aberto .

Esta propriedade da medida de Lebesgue é na realidade partilhada por


muitas outras medidas definidas em RN , e é por isso conveniente introduzir
a seguinte:

Definição 2.3.13 (Medida Regular). Seja µ uma medida positiva definida


na σ-álgebra M ⊇ B(RN ). Dizemos que µ é regular(15 ) em N ⊆ M se e
só se

µ(E) = inf µ(U ) : E ⊆ U, U ⊆ RN aberto , para qualquer E ∈ N .

Se N é uma σ-álgebra, dizemos também que o espaço (RN , N , µ) é regular.


Exemplos 2.3.14.
1. A medida de Lebesgue é regular em L(RN ).

2. A medida de Dirac é regular em P(R).


3. Se a medida µ é o cardinal, temos inf {µ(U ) : E ⊆ U, U aberto } = +∞ para
qualquer E 6= ∅, porque qualquer aberto não-vazio é não-numerável. Como
qualquer conjunto finito é Borel-mensurável, µ não é regular em B(RN ).

4. O pente de Dirac dado por µ(E) = #(E ∩ Z) é regular. Em contrapartida,


o pente dado por λ(E) = #(E ∩ Q) não é regular.

5. As soluções do problema “fácil” de Lebesgue são as soluções regulares do


problema de Borel.
15
Mais exactamente, esta propriedade diz-se a regularidade exterior da medida µ.
Esta noção é efectivamente aplicável em qualquer espaço topológico (X, O), e a qualquer
medida µ definida numa σ-álgebra M ⊇ B(X) ⊇ O, tal como a de regularidade interior,
que é a afirmação que µ(E) = sup{µ(K) : K ⊆ E, K compacto }. A distinção entre
regularidade, regularidade interior e regularidade exterior não é especialmente importante
em RN , e em particular deve estabelecer-se no exercı́cio 4 a regularidade interior da medida
de Lebesgue, mas é mais relevante noutros espaços topológicos.
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 121

Veremos mais adiante que muitas das propriedades da medida de Le-


besgue indicadas nesta secção, depois de convenientemente reformuladas,
são comuns a todas as medidas regulares σ-finitas definidas em B(RN ), e
em especial são comuns a todas as medidas que são finitas em conjuntos
compactos de RN .(16 )
Se E é um conjunto Lebesgue-mensurável de medida nula e F ⊆ E,
sabemos que F é igualmente Lebesgue-mensurável, por razões muito simples.
Esta é uma propriedade do espaço de Lebesgue que não é partilhada por
todos os espaços de medida, e introduzimos a este respeito a
Definição 2.3.15 (Espaço Completo). O espaço (X, M, µ) é completo se
e só se todos os subconjuntos de conjuntos de medida nula são mensuráveis,
ou seja, se µ(C) = 0 e N ⊆ C ⇒ N ∈ M, donde µ(N ) = 0. Dizemos
também que a medida µ é completa.
Exemplos 2.3.16.
1. O espaço de medida de Lebesgue é completo.
2. Veremos na próxima secção que o espaço de Borel não é completo.

É fácil mostrar que qualquer espaço de medida (X, M, µ) tem uma ex-
tensão completa. Começamos por definir a classe de conjuntos(17 )

Mµ = {E ⊆ X : Existem A, B ∈ M tais que A ⊆ E ⊆ B e µ(B\A) = 0} .

Passamos a verificar que a medida dos conjuntos A e B referidos acima


depende apenas do conjunto E ∈ Mµ . Sejam A1 , A2 , B1 , B2 ∈ M tais que

Ai ⊆ E ⊆ Bi e µ(Bi \Ai ) = 0 para i = 1 e i = 2.

Com A′ = A1 ∪ A2 e B ′ = B1 ∩ B2 , temos por razões óbvias que

Ai ⊆ A′ ⊆ E ⊆ B ′ ⊆ Bi donde µ(Ai ) = µ(A′ ) = µ(B ′ ) = µ(Bi ).

Definimos µ : Mµ → R+ tomando µ(E) = µ(A), sempre supondo que


A ⊆ E ⊆ B, A, B ∈ M e µ(B\A) = 0, e observamos que µ é uma evidente
extensão de µ.
Teorema 2.3.17 (Menor Extensão Completa). (X, Mµ , µ) é a menor ex-
tensão completa de (X, M, µ). Mais especificamente,
a) (X, Mµ , µ) é uma extensão completa de (X, M, µ),
16
Estas propriedades são também frequentes em medidas definidas em σ-álgebras B(X)
noutros espaços topológicos, mas a sua aplicabilidade depende de condições adicionais
sobre o espaço X.
17
Quando M = B(RN ) e µ = mN , é claro que Mµ = L(RN ), como vimos em 2.3.9.
122 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

b) Qualquer extensão completa de (X, M, µ) é uma extensão de (X, Mµ , µ),

c) Se (X, N , ρ) é uma extensão de (X, M, µ), então ρ(E) = µ(E), para


os conjuntos E ∈ N ∩ Mµ .

ρ
N
ρ

µ
M
µ

Figura 2.3.2: Extensões do espaço (X, M, µ)

Demonstração. Começamos por mostrar que (X, Mµ , µ) é um espaço de


medida.

(1) Mµ é fechada em relação a uniões numeráveis: Supomos que os con-


juntos En ∈ Mµ , ou seja, existem conjuntos An , Bn ∈ M tais que:

An ⊆ En ⊆ Bn e µ(Bn \An ) = 0.
S S∞ S∞
Sendo E = ∞ n=1 En , A = n=1 An e B = n=1 Bn , é claro que A ⊆
E ⊆ B, A, B ∈ M, e

[ ∞
X
B\A ⊆ (Bn \An ) , donde 0 ≤ µ(B\A) ≤ µ(Bn \An ) = 0.
n=1 n=1

Concluı́mos que E ∈ Mµ .

(2) µ é σ-aditiva em Mµ : Se os conjuntos En são disjuntos, então os


conjuntos An são igualmente disjuntos, e temos

[ ∞
X ∞
X
µ(E) = µ(A) = µ( An ) = µ(An ) = µ(En ).
n=1 n=1 n=1

(3) Mµ é fechada em relação a uniões numeráveis: Se A ⊆ E ⊆ B e


µ(B\A) = 0 então B c ⊆ E c ⊆ Ac e Ac \B c = B\A.

Provámos assim que (X, Mµ , µ) é um espaço de medida e uma extensão de


(X, M, µ). Deixamos a conclusão da demonstração para o exercı́cio 6.
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 123

Aproveitamos para sumarizar aqui diversas propriedades interessantes


das soluções dos problemas de Borel e de Lebesgue.
Observações 2.3.18. Se (MN , κN ) é solução do problema de Borel, então:

1. Unicidade: κN (E) = mN (E), para qualquer E ∈ MN ∩ L(RN ). Em par-


ticular, κN (E) = mN (E) quando E ∈ B(RN ). Esta observação é o corolário
2.2.18.

2. Soluções regulares: Se κN é regular, i.e., se κN é solução do problema “fácil”


de Lebesgue, então κN é uma restrição de mN , tal como definida em L(RN )(18 ).
Em particular, (L(RN ), mN ) é a maior solução regular do problema de Borel.
Esta observação é, como notámos, consequência imediata de 2.2.9 e 2.2.10.

3. Soluções completas: Se κN é completa, então κN é uma extensão de mN , tal


como definida em L(RN ). (L(RN ), mN ) é portanto a menor solução completa
do problema de Borel. Esta observação resulta do teorema 2.3.17 e da c) do
teorema 2.3.9.

4. (L(RN ), mN ) é a única solução completa e regular do problema de Borel,


como é evidente de 2. e 3. acima.

Exemplo 2.3.19.
o conjunto de Volterra generalizado - Introduzimos aqui um outro
exemplo interessante, que é uma união numerável de conjuntos de Volterra no
sentido em que estes conjuntos foram definidos em 1.6.15, e é por isso Borel-
mensurável.
Começamos por observar que o procedimento usado para definir o conjunto
de Volterra Cε (I) é igualmente aplicável mesmo quando o conjunto inicial I é
uma união numerável de intervalos disjuntos In , i.e.,

[ ∞
[
Se I = In , tomamos Cε (I) = Cε (In ), e temos ainda m(Cε (I)) = εm(I).
n=1 n=1
S∞
Sendo Jn = Cε (In ) ⊂ In , é claro que I\Cε (I) = n=1 (In \Jn ). Deve notar-se
que o conjunto In \Jn é uma união numerável de intervalos abertos disjuntos,
independentemente do tipo de cada um dos intervalos In , e portanto o conjunto
I\Cε (I) é também uma união numerável de intervalos abertos disjuntos. Esta
operação pode assim ser aplicada recursivamente, i.e.,
• Fixamos um “intervalo inicial” U1 = I = [a, b].
• Seleccionamos uma sucessão de reais 0 < εn < 1.
• Definimos, para n ∈ N, Fn = Cεn (Un ), e Un+1 = Un \Fn .
18
Registe-se, a este respeito, as extensões não regulares da medida de Lebesgue
a σ-álgebras M ⊃ L(RN ), M 6= L(RN ), descobertas em 1950 (Kakutani,S. e Oxtoby,
J., Construction of a non-separable invariant extension of the Lebesgue measure space, e
Kodaira, K., Kakutani, S., A non-separable translation invariant extension of the Lebesgue
measure space, ambos em Ann. of Math. (2) 52, (1950).
124 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

O exemplo que desejamos introduzir aqui é o conjunto



[ ∞
\
F (I) = Fn , e referimos igualmente G(I) = Un .
n=1 n=1

O mecanismo de definição do conjunto G(I) é análogo ao que usámos para


definir os conjuntos de Cantor e de Volterra. A diferença está em que, em
vez de extrair, em cada passo, uma união finita de “intervalos médios”, aqui
extraı́mos, em cada passo, uma união numerável de conjuntos de Volterra. Por
esta razão, para n > 1 os conjuntos Un são abertos que não são elementares.
Segue-se que G(I) é de tipo Gδ , F (I) é de tipo Fσ , e G(I) e F (I) são Borel-
mensuráveis. Note-se de passagem que os conjuntos ∪N n=1 Fn são compactos.

F1 = Cε1 (U1 )

F2 = Cε2 (U2 )

F3 = Cε3 (U3 )
F4 = Cε4 (U4 )

U1 U2 U3 U4


[
Figura 2.3.3: Fn = Cεn (Un ), Un+1 = Un \Fn , F (I) = Cεn (Un ).
n=1

A medida dos conjuntos G(I) P∞e F (I) depende da sucessão ε1 , ε2 , · · · , mas em


qualquer caso m(F (I)) = n=1 m(Fn ). Fixado 0 < ε < 1, podemos tomar
ε1 = 12 ε, e é simples definir εn para n > 1 de forma a que(19 )

1 1 1 εn
m(Fn ) = m(Fn−1 ) = n εc(I), que resulta de εn+1 = .
2 2 2 1 − εn

Passamos a escrever Fε (I) e Gε (I), e obtemos:

X∞
1
m(Fε (I)) = n
εc(I) = εc(I), e m(Gε (I)) = (1 − ε)c(I).
n=1
2

O que torna este exemplo notável é a seguinte propriedade, aparentemente


paradoxal: qualquer subintervalo não-trivial de I intercepta tanto Fε (I) como
Gε (I) em conjuntos de medida positiva. Registamos este facto na:

19 εn
Se ε1 = 12 ε < 12 e εn+1 = 12 1−ε n
é fácil mostrar que εn ց 0, mas é também simples
calcular explicitamente o valor de εn .
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 125

Proposição 2.3.20. Se J ⊆ I, e c(J) > 0, então


m(J ∩ Fε (I)) > 0 e m(J ∩ Gε (I)) > 0.
Demonstração. Apenas esboçamos a demonstração, deixando os detalhes
para o exercı́cio 7. É necessário verificar cada uma das seguintes afirmações:
(1) O interior de Gε (I) é vazio, e portanto Fε (I) é denso em I, porque
o comprimento de cada um dos intervalos abertos que constituem Un
não excede 1/3n .
S
(2) Sendo Un = ∞ ′
k=1 In,k , e tomando K = In,k , existe ε > 0 tal que
Fε (I) ∩ K = Fε′ (K) e Gε (I) ∩ K = Gε′ (K). Temos em particular
m(Fε (I) ∩ K) = ε′ c(K) > 0 e m(Gε (I) ∩ K) = (1 − ε′ )c(K) > 0
O cálculo de ε′ , que depende de ε e de n, fica como exercı́cio.
6 J ⊂ I é aberto então existem naturais n′ , k′ tais que In′ ,k′ ⊂ J.
(3) Se ∅ =
• De acordo com (1), Fε (I) é denso em I e portanto se ∅ = 6 J ⊂I
então existe x ∈ J ∩ Fε (I).
S
• ComoSFε (I) = ∞ n=1 Fn , é claro que existe n tal que x ∈ Fn .
Fn = ∞ k=1 εn n,k ), e portanto existe k tal que x ∈ Cεn (In,k ).
C (I
• O conjunto Cεn (In,k ) é um conjunto de Volterra “normal”. Resta-
nos mostrar que, como x ∈ J, então J contém um dos intervalos
abertos que constituem o conjunto In,k \Cεn (In,k ) ⊂ Un+1 . Esse
intervalo é claramente do tipo In+1,k′ .
Observamos agora que J ∩Fε (I) ⊇ In+1,k′ ∩Fε (I) e J ∩Gε (I) ⊇ In+1,k′ ∩Gε (I)
e aplicamos (2).

Conforme referimos no Capı́tulo anterior, existem noções sobre a “ex-


tensão” de conjuntos que não são baseadas na Teoria da Medida, mas usam
em lugar dela conceitos de natureza topológica, sobretudo o de densidade,
e estão associadas às chamadas categorias de Baire(20 ), que afloramos
aqui. Começamos por observar que, deste ponto de vista topológico, os
conjuntos E ⊆ RN mais “insignificantes” são os que satisfazem a condição
int(E) = ∅, i.e., os que não são densos em nenhum conjunto aberto não-
vazio. Dizemos por isso que estes conjuntos são raros(21 ), e apresentamos
a seguir alguns exemplos deste tipo de conjuntos:
20
René-Louis Baire, 1874-1932, matemático francês, foi professor nas universidades de
Montpellier e de Dijon. As suas obras mais conhecidas são Théorie des Nombres Irra-
tionels, des Limites et de la Continuité, de 1905, e Leçons sur les Théories Générales de
l’Analyse, de 1907-1908. A definição de “categorias de Baire” (2.3.22) é naturalmente
aplicável em qualquer espaço topológico.
21
O termo “raro” tem sido usado em Português, mas afasta-se um pouco da terminologia
usada noutras lı́nguas para designar o mesmo tipo de conjuntos: “nowhere dense”, “nulle
part dense”, “denso en ninguna parte”, etc.
126 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Exemplos 2.3.21.
1. Os conjuntos finitos.

2. Os conjuntos de conteúdo nulo.

3. Qualquer conjunto fechado de interior vazio, em particular os conjuntos de


Cantor e de Volterra.

As seguintes definições devem-se a Baire.

Definição 2.3.22 (Categorias de Baire). E ⊆ RN é de primeira catego-


ria se e só se E é uma união numerável de conjuntos raros. Caso contrário,
E é de segunda categoria.

É fácil apresentar exemplos de conjuntos de primeira categoria:

Exemplos 2.3.23.
1. Qualquer conjunto numerável, em particular Q. Note que um conjunto de
primeira categoria pode ser denso.

2. O conjunto de pontos de descontinuidade de uma função Riemann-integrável,


porque é uma união numerável de conjuntos de conteúdo nulo. Mais geral-
mente, qualquer conjunto nulo em Jσ (RN ) é um conjunto de primeira catego-
ria.

3. O conjunto Fε (I) do exemplo 2.3.19, porque é uma união numerável de con-


juntos de Volterra, no sentido do exemplo 1.6.15.

O principal resultado sobre categorias de Baire deve-se ao próprio Baire,


e é hoje usualmente enunciado em termos abstractos numa das seguintes
formas:(22 )

Teorema 2.3.24 (de Baire). Seja X um espaço métrico completo, ou um


espaço de Hausdorff(23 ) localmente compacto. Temos então que:

a) A intersecção de qualquer famı́lia numerável de conjuntos abertos den-


sos em X é um conjunto denso em X.

b) X é de segunda categoria.
22
Note que o teorema é válido quando X é um qualquer subconjunto fechado de RN ,
em particular quando X = RN .
23
Felix Hausdorff, 1868-1942, matemático alemão de origem judaica, criou as bases
da Topologia Geral. Forçado a reformar-se em 1935 pelo regime nazi, suicidou-se com a
famı́lia mais próxima em 1942, para evitar o transporte para um dos campos de extermı́nio.
2.3. Os Espaços de Borel e de Lebesgue 127

Sendo certo que os conjuntos nulos e os conjuntos de primeira categoria


são, em certo sentido, “pequenos”, deve ser claro que estas noções são dis-
tintas(24 ). Por exemplo, o conjunto Fε (I) do exemplo 2.3.19 é de primeira
categoria, mas é difı́cil sustentar a “pequenez” de Fε (I) do ponto de vista da
Teoria da Medida! Existem também conjuntos de segunda categoria que são
nulos, como passamos a mostrar. Em particular, existem conjuntos nulos
que não pertencem a Jσ (RN ), o que certamente não é um facto óbvio.
Exemplos 2.3.25.
1. Tal como no exemplo 1.6.8, tomamos

[ ε ε
Uε = ]qn − , qn + n [,
n=1
2n 2

onde q1 , q2 , · · · , qn , · · · são agora todos os racionais de R. Tomamos


\ 2
Vk = U1/k e G = Vk , donde m(Vk ) < e m(G) = 0.
k
k=1

Sendo F = R\G = Gc , é claro que F é um conjunto de primeira categoria (Vkc


é raro, porque é fechado e não contém qualquer racional). É fácil verificar que
a união (finita ou numerável) de conjuntos de primeira categoria é ainda de
primeira categoria. Como R é de segunda categoria (pelo teorema de Baire),
segue-se que G não pode ser de primeira categoria. G é portanto um conjunto
nulo de segunda categoria.(25 )

2. Continuando o exemplo anterior, observamos que R = F ∪ G, ou seja, R é a


união de um conjunto nulo com um conjunto de primeira categoria, observação
que mostra mais uma vez como estas noções devem ser interpretadas e usadas
com precaução.
24
Existe, apesar disso, um resultado fascinante de dualidade entre os conjuntos de
primeira categoria e os conjuntos nulos (que requer a hipótese do contı́nuo!), e que se
deve a Sierpinski e ao extraordinário matemático húngaro Paul Erdös, 1913-1996. A re-
ferência essencial aqui é o livro Measure and Category, de 1971, do já mencionado John
Oxtoby. Erdös é um dos personagens mais interessantes da Matemática do século XX,
em nome de quem se inventou o “número de Erdös” (o número de Erdös de um qualquer
matemático é 1 se esse matemático publicou um artigo com Erdös, e de n + 1 se publicou
um artigo com algum matemático com número de Erdös n). Mais de 1.000 matemáticos
atingiram o número de Erdös 1! Entre muitas outras ideias originais e saudavelmente
excêntricas, Erdös é recordado pelo seu mı́tico e divino “Livro”, onde Deus supostamente
escreveu as demonstrações “correctas” para todos os teoremas relevantes da Matemática
(Erdös achava mais importante acreditar na existência do Livro do que na existência de
Deus!). Recomenda-se vivamente a obra O Homem Que Só Gostava de Números, de Paul
Hoffman, já publicada em Português.
25
Este facto parece ter sido usado por ilustres matemáticos dos finais do século XIX para
atacar as ideias de Borel, precisamente por permitirem considerar como “insignificantes”
conjuntos de segunda categoria. Curiosamente, a primeira aplicação que Borel deu à sua
definição de medida nula, na sua tese de doutoramento, envolveu um conjunto de segunda
categoria.
128 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Exercı́cios.

1. Mostre que os conjuntos elementares são de tipo Gδ .

2. Supondo que f : K → R é limitada no rectângulo-N compacto K, mostre


que o conjunto de pontos de descontinuidade de f é um Fσ .

3. Qual é a σ-álgebra gerada em RN pelos conjuntos finitos?

4. Prove que se E ∈ L(RN ) então mN (E) = sup{mN (K) : K ⊆ E, K compacto },


o que dizemos ser a regularidade interior da medida de Lebesgue.

5. Conclua a demonstração do teorema 2.3.10. sugestão:

• Verifique que se F é um conjunto fechado com medida finita então existem


conjuntos compactos Kn ր tais que Kn ⊆ F e mN (F \Kn ) → 0. Conclua
que 2.3.10 a) ⇒ 2.3.10 b).
• Para concluir a demonstração, mostre que se existem conjuntos men-
suráveis Bn ⊇ E tais que m∗N (Bn \E) → 0 então E é Lebesgue-mensurável.

6. Complete a demonstração do teorema 2.3.17.

7. Este exercı́cio diz respeito ao exemplo 2.3.19, e à proposição 2.3.20.

1 ε
a) Mostre que εn = ց 0, quando ε < 1. Calcule o valor
2 2n−1 (1 − ε) + ε
de ε′ referido no ponto (2) da demosntração de 2.3.20.
b) Cada conjunto Un é uma união numerável de intervalos disjuntos In,k .
Calcule αn = max{c(In,k ) : k ∈ N} e mostre que αn → 0 quando n → ∞.
Conclua que G(I) tem interior vazio.
c) Calcule m(Fε (I) ∩ In,k ) > 0 e m(Gε (I) ∩ In,k ) > 0, para quaisquer n, k ∈
N.
d) Para provar o ponto (3) da demonstração de 2.3.20, mostre S∞que se J é um
intervalo aberto, Cε (I) ∩ J 6= ∅ e I\Cε (I) = Uε (I) = n=1 In , onde os
In′ s são intervalos abertos disjuntos não-vazios, então existe um intervalo
In ⊂ J.

8. Determine uma função f : R → R tal que, se g(x) = f (x) qtp em R, então g


é descontı́nua em todos os pontos x ∈ R. sugestão: Suponha primeiro que f
é a função caracterı́stica de Fε (I).

9. Conclua a demonstração do teorema 2.3.11.

10. Mostre que o complementar de um conjunto raro é denso, mas o comple-


mentar de um conjunto denso não é necessariamente raro. O que pode dizer
sobre o complementar de um conjunto de primeira categoria?
2.4. Conjuntos Não-Mensuráveis 129

11. Suponha que a) do teorema 2.3.24 é válido quando X é um subconjunto


fechado de RN , e mostre que nesse caso qualquer rectângulo com medida po-
sitiva é um conjunto de segunda categoria em RN .

2.4 Conjuntos Não-Mensuráveis


É fácil enunciar múltiplas questões sobre os problemas de Borel e de Lebesgue
para as quais ainda não obtivémos qualquer tipo de resposta:
• Existem conjuntos que não são Lebesgue-mensuráveis, ou seja, temos
L(RN ) 6= P(RN )?
• Existem conjuntos Lebesgue-mensuráveis que não são Borel-mensurá-
veis, ou seja, temos B(RN ) 6= L(RN )?
• Existem soluções do problema de Borel definidas na classe P(RN )?
Veremos nesta secção que as duas primeiras questões acima têm resposta
afirmativa, i.e.,
B(RN ) 6= L(RN ) 6= P(RN ).
Relativamente à última questão, passamos a estudar um problema análogo,
mas reforçado com a usual invariância sob translacções, enunciado pelo
próprio Lebesgue em 1904, e que aqui chamamos(26 ):
2.4.1 (O Problema “Difı́cil” de Lebesgue). Determinar uma função m :
P(R) → [0, ∞] com as seguintes propriedades:
1. Normalização: Se I é um intervalo de extremos a, b, m(I) = b − a.
2. Invariância sob translacções: Se x é um real e E ⊆ R,
m(E + x) = m(E).

3. σ-aditividade: Se {En } é uma sucessão de conjuntos disjuntos em R,



[ ∞
X
m( En ) = m(En ).
n=1 n=1

Vitali(27 ) rapidamente descobriu que este problema não tem solução,


pelo menos no contexto da Teoria dos Conjuntos tal como é normalmente
concebida hoje.
26
Em “Leçons Sur L’Integration et La Recherche de Fonctions Primitives”, de H. Le-
besgue, Paris 1904 e 1928. Lebesgue enunciou a condição 1. na forma (equivalente) de
“m([0, 1]) 6= 0”.
27
Vitali, G.: Sul problema della misura dei gruppi di punti di una retta. Bologna
(1905). De Giuseppe Vitali, 1875-1941, matemático italiano, professor nas Universidades
de Pádua e Bolonha. Também publicado em “Moderna Teoria Delle Funzioni di Variabile
Reale”, de G.Vitali e G.Sansone, 1935, Parte 1, pp. 58-60 da edição de 1943.
130 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Exemplo 2.4.2.
o exemplo de Vitali: A relação ∼ definida em R por

x∼y ⇔x−y ∈Q

é de equivalência. Fixado um real x, a classe de equivalência de x é o conjunto


[x] = {x + q : q ∈ Q} e, por isso, tem representantes (elementos) em qualquer
intervalo aberto não-vazio. Em particular, existe um racional q tal que

−x < q < −x + 1, i.e., 0 < x + q < 1.

Se tomarmos v = x + q, então x ∼ v e v ∈ ]0, 1[. Por outras palavras,


2.4.3. Qualquer classe de equivalência [x] tem pelo menos um representante v
no intervalo ]0, 1[.

De acordo com o axioma da escolha, (28 )


2.4.4. Existe um conjunto V que contém exactamente um representante de
cada classe de equivalência [x], representante esse sempre em ]0, 1[.

Sendo r1 , · · · , rn , · · · os racionais de ] − 1, 1[, definimos



[
Vn = V + rn = {v + rn : v ∈ V } , e G = Vn .
n=1

Provamos, em seguida, que


2.4.5. Os conjuntos Vn são disjuntos entre si, i.e., Vn ∩ Vm 6= ∅ ⇒ n = m.

Demonstração. Se x ∈ Vn ∩ Vm , existe v ∈ V tal que v + rn = x, porque


x ∈ Vn , e existe também v ∗ ∈ V tal que v ∗ + rm = x, porque x ∈ Vm . Mas

x = v + rn = v ∗ + rm ⇒ v − v ∗ = rm − rn ∈ Q ⇒ v ∼ v ∗ ⇒ [v] = [v ∗ ].

Como V tem exactamente um representante de cada classe [v], temos v = v ∗


e rn = rm , donde n = m.

Suponha-se que o Problema 2.4.1 tem solução. Como m é invariante sob


translacções (propriedade 2), temos m(Vn ) = m(V ). Como os conjuntos Vn
são disjuntos entre si, temos, por σ-aditividade, (propriedade 3), que:

X ∞
X
m(G) = m(Vn ) = m(V ).
n=1 n=1

Concluı́mos que m(G) só pode tomar um de dois valores, dependendo do valor
de m(V ):
(1) m(V ) 6= 0 =⇒ m(G) = +∞, ou
(2) m(V ) = 0 =⇒ m(G) = 0.
28
Ver nota complementar sobre o axioma da escolha, no final desta secção.
2.4. Conjuntos Não-Mensuráveis 131

Demonstramos que o problema “difı́cil” de Lebesgue não tem solução, verifi-


cando que qualquer uma destas alternativas conduz a contradições. Provamos
primeiro que a alternativa (1) é impossı́vel:
2.4.6. G ⊆] − 1, 2[, donde m(G) ≤ m(] − 1, 2[) = 3 < +∞.

Demonstração. Basta observar que V ⊆ ]0, 1[ e −1 < rn < +1, donde Vn ⊆


] − 1, 2[ e G ⊆] − 1, 2[. Como m é monótona, temos m(G) ≤ m(] − 1, 2[) e, de
acordo com 1. (Normalização), m(] − 1, 2[) = 3.

Provamos, finalmente, que a alternativa (2) é igualmente impossı́vel, porque


2.4.7. ]0, 1[⊆ G, donde 1 ≤ m(G) e m(G) 6= 0.

Se x ∈ ]0, 1[, existe algum v ∈ V que é equivalente a x, porque V contém um


representante de qualquer classe, incluindo [x]. Naturalmente, x = v + r, onde
r ∈ Q. Sabemos também que v ∈ ]0, 1[. Como também x ∈ ]0, 1[, é claro que
r = x − v ∈] − 1, 1[. Por outras palavras, existe um natural n tal que r = rn e
x ∈ Vn , donde x ∈ G.

Como acabámos de ver, o problema 2.4.1 não tem solução, ou seja, não
é possı́vel atribuir um comprimento a todos os subconjuntos da recta real de
modo a satisfazer as três propriedades que indicámos. Como também vimos,
a medida de Lebesgue satisfaz as condições (1), (2) e (3) do Problema 2.4.1,
pelo que podemos concluir, desde já, que L(R) 6= P(R). Por outras palavras,

Existem subconjuntos de R que não são Lebesgue-mensuráveis.

A medida de Lebesgue é invariante sob translacções, e sabemos que se V é


Lebesgue-mensurável então V +x é igualmente Lebesgue-mensurável. Segue-
se imediatamente que

o conjunto V do exemplo de Vitali não é Lebesgue-mensurável.

Deixamos como exercı́cio verificar que o argumento de Vitali pode ser adap-
tado para demonstrar o seguinte

Teorema 2.4.8. Existem conjuntos não-mensuráveis VE ⊆ E ⊆ R se e só


se m∗N (E) > 0.

Aproveitamos para uma breve descrição do chamado axioma da es-


colha da Teoria dos Conjuntos, e para esclarecer um pouco melhor o seu
papel na definição do exemplo de Vitali. Uma das maneiras de enunciar este
axioma é a seguinte:

2.4.9 (Axioma da Escolha). Seja F uma famı́lia de conjuntos não-vazios, e


T = ∪C∈F C. Então existe uma função f : F → T tal que f (C) ∈ C, para
qualquer C ∈ F.
132 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Intuitivamente, a função f “escolhe” um elemento de cada conjunto C


que pertence à famı́lia F, e daı́ o nome do axioma. É por isso comum
referirmo-nos a f como uma “função de escolha”.
No caso do exemplo de Vitali, começamos por tomar Cx = [x]∩]0, 1[ para
qualquer x ∈ R. Temos, então, (porquê?)
Para qualquer x ∈ R, Cx = {y ∈ ]0, 1[: x ∼ y} , Cx 6= ∅, e ainda
[
T = Cx =]0, 1[.
x∈R
Seja agora F = {Cx : x ∈ R}. Pelo axioma da escolha, existe uma função
f : F →]0, 1[ tal que f (C) ∈ C, para qualquer C ∈ F. O conjunto A usado
no exemplo de Vitali é, exactamente,
A = f (F) = {f (C) : C ∈ F} .
Este conjunto verifica as seguintes propriedades:
(1) A contém um representante de cada classe de equivalência: Se x ∈ R,
existe a ∈ A tal que a ∼ x: basta considerar a = f (Cx ).
(2) A contém apenas um representante de cada classe de equivalência: Se
a, a∗ ∈ A, então a = f (C), e a∗ = f (C ∗ ). Se a 6= a∗ então C 6= C ∗ .
Como a e a∗ pertencem a classes de equivalência distintas, não podem
ser equivalentes entre si.
A relação entre o axioma da escolha e o problema “difı́cil” de Lebesgue
é uma questão delicada, e não completamente compreendida, envolvendo os
fundamentos da Teoria dos Conjuntos. Sabe-se (29 ) que a existência de uma
solução para o problema “difı́cil” de Lebesgue é compatı́vel com a negação
do axioma da escolha, mas não é consequência dessa negação. Existem,
mesmo, diferenças subtis em questões semelhantes em RN , dependendo da
dimensão N . Por exemplo, se substituirmos no problema de Lebesgue a
σ-aditividade pela aditividade, então existem soluções em R e R2 (30 ), mas,
sempre como consequência do axioma da escolha, não há solução em R3 . A
este respeito, é conhecido o:
2.4.10 (Paradoxo de Banach-Tarski). (31 ) Se A é uma esfera em R3 de raio
R, existem conjuntos Cn , Dn , 1 ≤ n ≤ 6, tais que:
29
Solovay, R.M.: A model of set-theory in which every set of reals is Lebesgue measur-
able, Ann. of Math. 92 (1970).
30
Banach, S. “Sur le Problème de la Mesure”, Fundamenta Mathematicae, 1923, 4, pp.6-
33. Stefan Banach, 1892-1945, polaco, foi um dos grandes matemáticos do século XX. A
sua tese de doutoramento (1920), intitulada “Sobre Operações em Conjuntos Abstractos
e as suas Aplicações a Equações Integrais” é frequentemente tomada como marcando a
criação da Análise Funcional.
31
Alfred Tarski, 1902-1983, também de origem polaca, foi professor nas Universidades
de Varsóvia e Harvard, e associou-se à Universidade de Berkeley, na Califórnia, desde 1942.
O trabalho original de Banach e Tarski é “Sur la décomposition des ensembles de points
en parties respectivement congruentes”, Fundamenta Mathematicae, 1924, 6, pp.244-277.
2.4. Conjuntos Não-Mensuráveis 133

a) Os conjuntos Cn são disjuntos, e a sua união é a esfera A,

b) Os conjuntos Dn são disjuntos, e a sua união consiste em duas esferas


disjuntas B e C, cada uma de raio R.

c) Os conjuntos Cn e Dn são isométricos (i.e., existem funções bijectivas


fn : Cn → Dn tais que kf (x) − f (y)k = kx − yk).

L(RN )

B(RN ) Eσ (RN ) Jσ (RN )

Figura 2.4.1: Relações entre classes de subconjuntos de RN .

É muito interessante reconhecer que L(R) 6= P(R) implica B(R) 6= L(R).


Antes de estabelecermos este facto, provamos alguns resultados auxiliares
que nos serão também úteis mais adiante, quando estudarmos outras medi-
das na recta real.

Lema 2.4.11. Se f : R → R é contı́nua e crescente e M é uma σ-álgebra


em R que contém os intervalos (e.g., M = B(R) ou M = L(R)), então a
classe A = {E ∈ R : f (E) ∈ M} é uma σ-álgebra que contém B(R).

Demonstração. É claro que B(R) ⊆ M, e passamos a mostrar que A é uma


σ-álgebra que contém os intervalos, para concluir que B(R) ⊆ A. Notamos
primeiro que:

(1) A contém todos os intervalos: As funções contı́nuas transformam in-


tervalos em intervalos(32 ), e por hipótese qualquer intervalo pertence
a M.

(2) A é fechada para uniões numeráveis: Para qualquer função f , temos


! ∞
[ [
f En = f (En ) .
n=1 n=1

32
Esta afirmação é o clássico Teorema do Valor Intermédio.
134 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

A função f pode não ser injectiva, e designamos por N o conjunto dos


y ∈ R para os quais a equação y = f (x) tem múltiplas soluções x ∈ R
(os pontos y ∈ N correspondem a segmentos horizontais no gráfico de
f ). Temos então:
(3) N é finito ou infinito numerável, donde N é Borel-mensurável: y ∈ N
se e só se existem x1 6= x2 tais que f (x1 ) = f (x2 ) = y. Supomos
sem perda de generalidade que x1 < x2 e notamos que, como f é
crescente, temos f (x) = y para qualquer x ∈ [x1 , x2 ]. Existe por isso
um racional ry tal que x1 < ry < x2 , donde f (ry ) = y (figura 2.4.2).
A função ψ : N → Q dada por ψ(y) = ry é obviamente injectiva, e
portanto o cardinal de N não excede o cardinal de Q.

y ′′

y′
y

x1 ry x2 ry′ ry′′

Figura 2.4.2: Os pontos y, y ′ , y ′′ ∈ N , e os pontos ry , ry′ , ry′′ ∈ Q

(4) A é fechada para complementações: Dado E ⊆ R, o conjunto K =


f (E) ∩ f (E c ) ⊆ N , por razões evidentes, e K é finito ou infinito
numerável, de acordo com (3). Segue-se que K é Borel-mensurável,
donde K ∈ M. Como f (E)∪f (E c ) = f (R), temos então (figura 2.4.3)
f (E c ) = [f (R)\f (E)] ∪ K
f (R) é um intervalo, porque R o é, e f (E) ∈ M quando E ∈ A.
Podemos neste caso concluir que f (E c ) ∈ M, ou seja, E c ∈ A.
Concluı́mos de (1), (2) e (4) que A é uma σ-álgebra que contém os intervalos,
e portanto A contém os abertos e os conjuntos Borel-mensuráveis.

Tomando M = B(R) concluı́mos em particular que as funções contı́nuas


crescentes transformam conjuntos Borel-mensuráveis em conjuntos Borel-
mensuráveis, ou seja,
2.4. Conjuntos Não-Mensuráveis 135

f (E) K = f (E) ∩ f (E c ) f (E c )

Figura 2.4.3: f (E c ) = [f (R)\f (E)] ∪ K, e K ⊆ N é numerável.

Teorema 2.4.12. Se f : R → R é uma função contı́nua crescente e E ∈


B(R) então f (E) ∈ B(R).
Exemplo 2.4.13.
O resultado anterior permite-nos apresentar um conjunto E nulo, e por isso
Lebesgue-mensurável, que não é Borel-mensurável. Usamos um engenhoso
argumento indirecto, que combina diversos exemplos que já mencionámos: a
“escada do diabo” F (1.5.9), o conjunto de Cantor C (1.3.9), e o exemplo de
Vitali V (2.4.4). Limitamo-nos a observar que:
a) Como F (C) = [0, 1] e V ⊂ [0, 1], existe E ⊂ C tal que F (E) = V .
b) E ⊂ C é um conjunto Jordan-mensurável de conteúdo nulo, e portanto
E é Lebesgue-mensurável. C é evidentemente um conjunto de Borel de
medida nula.
c) Pelo teorema 2.4.12, se E ∈ B(R) então F (E) ∈ B(R).
d) V = F (E) não é Borel-mensurável, já que nem sequer é Lebesgue-men-
surável. Segue-se de c) que E não é Borel-mensurável.
Mostrámos assim que
• Existem conjuntos Lebesgue-mensuráveis que não são Borel-mensuráveis,
• Existem conjuntos Jordan-mensuráveis que não são Borel-mensuráveis,
• O espaço de Borel não é completo, e
• É possı́vel que uma função contı́nua transforme conjuntos Lebesgue-men-
suráveis em conjuntos não-mensuráveis.

Exemplo 2.4.14.
O Exemplo de Sierpinski(33 ): Retomamos a relação de equivalência referida
no exemplo de Vitali, ou seja, se x, y ∈ R, então x ∼ y se e só se x − y ∈ Q.
Notamos que, se x 6∈ Q, então x 6∼ −x, ou seja, as classes de equivalência
33
Este exemplo é uma adaptação do apresentado em Sierpinski, W. Sur un problème
conduisant à un ensemble non mesurable. Fund. Math. 10 (1927) 177-179. Waclaw
Sierpinski, 1882-1969, professor na Universidade de Varsóvia, foi um dos mais produtivos
matemáticos polacos do século XX.
136 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

[x] e [−x] são distintas, porque x − (−x) = 2x ∈ Q é equivalente a x ∈ Q.


Designamos o conjunto de todas as classes [x] por R/Q (34 ).

• Consideramos a famı́lia W = {{[x], [−x]} : x ∈ R}, e mais uma vez


usamos o axioma de escolha para seleccionar em cada conjunto {[x], [−x]}
uma das classes de equivalência que o constituem (claro que quando x ∈ Q
existe apenas uma classe para seleccionar, que é [0]). Mais precisamente,
observamos que existe uma função “de escolha” f : W → R/Q tal que
f (ω) ∈ ω para qualquer ω ∈ W .
• O exemplo de Sierpinski é o conjunto S = {x ∈ R : [x] ∈ f (W )},
ou seja, é formado pelos reais cujas classes de equivalência foram selec-
cionadas pela função de escolha f . Note-se que, se r ∈ Q,

(1) S + r = S e S c + r = S c , e
(2) Se x 6∈ Q, então r + x ∈ S ⇐⇒ r − x ∈ S c .

É fácil obter de (2) que a reflexão do conjunto S em qualquer racional


é o conjunto Q ∪ S c , e a reflexão de S c em qualquer racional é o conjunto
S\Q. Como a medida exterior de Lebesgue é invariante sob reflexões e Q é
um conjunto nulo, podemos alargar esta observação para
Lema 2.4.15. Se I é um intervalo de extremos racionais, então

m∗ (S ∩ I) = m∗ (S c ∩ I).

Demonstração. Seja F = I\Q, q ∈ Q o ponto médio do intervalo I, e F − e


F + os conjuntos formados pelos pontos de F respectivamente à esquerda e
à direita de q, ou seja,

F − = {x ∈ F : x < q} e F + = {x ∈ F : x > q}.

Sendo ρ : R → R a reflexão em q, i.e., ρ(q + x) = q − x, notamos que

q + x ∈ S ∩ F + ⇐⇒ q − x ∈ S c ∩ F − , ou seja, S c ∩ F − = ρ(S ∩ F + )

q + x ∈ S c ∩ F + ⇐⇒ q − x ∈ S ∩ F − , ou seja, S c ∩ F + = ρ(S ∩ F − )
Como a medida exterior de Lebesgue é invariante sob reflexões, temos

m∗ (S c ∩ F − ) = m∗ (S ∩ F + ) e m∗ (S c ∩ F + ) = m∗ (S ∩ F − ).

Os conjuntos F + e F − são mensuráveis, disjuntos e F = F + ∪F − , e portanto

m∗ (S ∩ F ) = m∗ (S ∩ F + ) + m∗ (S ∩ F − ) =

= m∗ (S c ∩ F − ) + m∗ (S c ∩ F + ) = m∗ (S c ∩ F ).
m∗ (I\F ) = 0, donde m∗ (S ∩I) = m∗ (S ∩F ) = m∗ (S c ∩F ) = m∗ (S c ∩I).
34
R/Q é na verdade um grupo quociente do grupo aditivo dos reais, porque Q é um
subgrupo normal de R, mas não usamos esse facto aqui.
2.4. Conjuntos Não-Mensuráveis 137

A medida exterior de Lebesgue é também invariante sob translacções, o


que nos permite obter

Lema 2.4.16. Se I é um intervalo de extremos racionais então m∗ (S ∩I) =


λ m(I), onde λ = m∗ (S ∩ [0, 1]) ≥ 1/2.

Demonstração. No que se segue, I e J são intervalos de extremos racionais.


Começamos por mostrar que

(i) m(I) = m(J) =⇒ m∗ (S ∩ I) = m∗ (S ∩ J).

É claro que se m(I) = m(J) então J é uma translacção de I, e no caso


presente existe r ∈ Q tal que J = I + r. Notámos em (2) que S e S c
são invariantes sob translacções racionais, e concluı́mos que S ∩ J é uma
translacção de S ∩ I, já que

(S ∩ I) + r = (S + r) ∩ (I + r) = S ∩ J, donde m∗ (S ∩ I) = m∗ (S ∩ J).

Mostramos agora que, se n ∈ N,

(ii) m(I) = n m(J) =⇒ m∗ (S ∩ I) = n m∗ (S ∩ J).

É claro que existe uma partição de I em n subintervalos I1 , I2 , · · · , In , cada


um de extremos racionais e comprimento m(J), e temos assim que
n
X n
X
m∗ (S ∩ I) = m∗ (S ∩ Ik ) = m∗ (S ∩ J) = n m∗ (S ∩ J).
k=1 k=1

Para terminar, continuamos a supor que I é um intervalo de extremos


racionais, e notamos sucessivamente de (i) e (ii) que

• Se m(I) = n então m∗ (S ∩ I) = n m∗ (S ∩ [0, 1]) = n λ,

• Se m(I) = 1/n então m∗ (S ∩ I) = λ/n, e

• Em qualquer caso, m∗ (S ∩ I) = λ m(I).

É evidente que m∗ (S ∩ [0, 1]) ≤ 1, i.e., λ ≤ 1, mas temos também

m(I) ≤ m∗ (S ∩ I) + m∗ (S c ∩ I) = 2λ m(I) =⇒ λ ≥ 1/2.

Os resultados anteriores podem ser generalizados na seguinte forma:

Lema 2.4.17. Se E ∈ L(R) então m∗ (S ∩ E) = m∗ (S c ∩ E) = λ m(E).


138 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Demonstração. Observamos primeiro que se A ⊂ B são conjuntos men-


suráveis e T é um conjunto arbitrário então

m∗ (T ∩ B) = m∗ (T ∩ A) + m∗ (T ∩ (B\A)) ≤ m∗ (T ∩ A) + m(B\A).

Em particular, se m(B\A) < ε então

(i) m∗ (T ∩ A) ≤ m∗ (T ∩ B) ≤ m∗ (T ∩ A) + ε.

Se I é um qualquer intervalo limitado é evidente que existem intervalos de


extremos racionais In ⊇ I tais que m(In \I) → 0. Tomando em (i) A = I e
B = In obtemos m∗ (T ∩ In ) → m∗ (T ∩ I). Concluı́mos dos lemas 2.4.15 e
2.4.16 que

(ii) Se I é um intervalo limitado então m∗ (S ∩ I) = λ m(I) = m∗ (S c ∩ I).

É imediato generalizar (ii) para intervalos ilimitados.

Qualquer aberto U ⊆ R é uma união numerável de intervalos disjuntos


In . De acordo com o exercı́cio 13 da secção 2.2 e (ii) temos

X ∞
X
m∗ (S ∩ U ) = m∗ (S ∩ In ) = λ m(In ) = λ m(U ).
n=1 n=1

A mesma observação é válida substituindo S por S c e portanto

(iii) Se U é um aberto então m∗ (S ∩ U ) = λ m(I) = m∗ (S c ∩ U ).

A conclusão da demonstração é parte do exercı́cio 5.

O principal resultado sobre o exemplo de Sierpinski é o seguinte:

Teorema 2.4.18. Se E ∈ L(R) então m∗ (S ∩ E) = m∗ (S c ∩ E) = m(E).


Em particular, S não é Lebesgue-mensurável.

Demonstração. Sabemos que 1/2 ≤ λ ≤ 1, e provamos que na realidade


λ = 1, argumentando por contradição. Supomos assim que m∗ (S ∩ [0, 1]) =
λ < 1.
É claro que existe um aberto U ⊇ S ∩ [0, 1] tal que m(U ) < 1, e consid-
eramos o conjunto K = [0, 1]\U . Notamos que K é fechado, m(K) > 0 e
K ∩ S = ∅, e concluı́mos que λ = 1, porque

0 6= λ m(K) = m∗ (S ∩ K) = m∗ (∅) = 0 é impossı́vel.

Para mostrar que S não é mensurável, argumentamos igualmente por


contradição: Se S é mensurável e E é também mensurável com 0 < m(E) <
∞ então m(E) = m(S ∩ E) + m(S c ∩ E) = 2 m(E), o que é impossı́vel.
2.5. Medidas Exteriores 139

O conjunto de Sierpinski S permite-nos construir outros exemplos inte-


ressantes, alguns dos quais referidos no próximo teorema, cuja demonstração
deixamos para o exercı́cio 5.
Teorema 2.4.19. Definimos a classe M e a função µ : M → [0, ∞] por

M = {(E ∩ S) ∪ (F ∩ S c ) : E, F ∈ L(R)} e
1 ∗ 1
µ(A) = m (A ∩ S) + m∗ (A ∩ S c ).
2 2
Temos então que (R, M, µ) é um espaço de medida, uma extensão não trivial
do espaço de Lebesgue e uma solução não regular do Problema de Borel.
Exercı́cios.

1. Mostre que o conjunto A referido na discussão do exemplo de Vitali não é


Lebesgue-mensurável.

2. Mostre que o conjunto A indicado na discussão do exemplo de Vitali pode


ser definido de modo que m∗ (A) < ε, onde ε > 0 é arbitrário.

3. Adapte a definição do exemplo de Vitali para obter um subconjunto não-


mensurável de um qualquer conjunto E ⊆ RN com m∗N (E) > 0. Conclua que
E tem subconjuntos não-mensuráveis se e só se m∗N (E) > 0.

4. Suponha que f : R → R é uma função contı́nua crescente. Prove que f


transforma conjuntos nulos em conjuntos nulos se e só se transforma conjuntos
Lebesgue-mensuráveis em conjuntos Lebesgue-mensuráveis.

5. Este exercı́cio refere-se ao exemplo de Sierpinski S:


a) Mostre que m∗ (S ∩ E) = m∗ (S c ∩ E) = λ m(E) para qualquer E ∈ R,
para concluir a demonstração do lema 2.4.17. sugestão: Recorde que a
afirmação está demonstrada quando E é um aberto.
b) Mostre que os conjuntos T ⊆ S com m∗ (T ) > 0 não são Lebesgue-
mensuráveis. Observe que se m(E) > 0 então E ∩ S é um subconjunto
de E que não é Lebesgue-mensurável, o que é outra forma de esclarecer
a questão do exercı́cio 3.
c) Qual é a σ-álgebra gerada por S e pelos conjuntos elementares?
d) Demonstre o teorema 2.4.19. sugestão: Verifique que M é uma σ-
álgebra e µ é uma medida.

2.5 Medidas Exteriores


A medida exterior de Lebesgue é apenas um exemplo concreto de uma classe
de funções σ-subaditivas, ditas medidas exteriores, que têm um papel auxi-
liar, mas importante, na Teoria da Medida. São definidas como se segue:
140 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Definição 2.5.1 (Medidas Exteriores). A função λ : P(X) → [0, +∞] diz-se


uma medida exterior em X se e só se λ é σ-subaditiva, e λ(∅) = 0.

A principal restrição na definição anterior é, para além da σ-subaditi-


vidade, o facto de λ estar definida para todos os subconjuntos de X. A
importância das medidas exteriores resulta, como veremos nesta secção, de
que qualquer medida exterior λ determina uma σ-álgebra de conjuntos, ditos
λ-mensuráveis, e a restrição de λ a essa classe é sempre uma medida. De
forma mais sucinta,

Qualquer medida exterior determina um espaço de medida.

Exemplos 2.5.2.
1. A função λ : P(X) → [0, +∞], dada por

0, se E = ∅, e
λ(E) =
1, se E 6= ∅,

é uma medida exterior. A função λ não é aditiva, e não é uma medida, excepto
nos casos triviais em que X é vazio, ou tem apenas um elemento.

2. Se R é um subconjunto limitado de RN , o conteúdo exterior de Jordan está


definido para qualquer subconjunto E de R, e vimos, nos exercı́cios do ca-
pı́tulo anterior, que é uma função subaditiva. Deixamos para os exercı́cios
desta secção verificar que, no entanto, o conteúdo exterior de Jordan não é
σ-subaditivo, e, portanto, não é uma medida exterior em R.

O próximo resultado é muito simples de provar.

Teorema 2.5.3. Qualquer medida exterior é monótona e subaditiva.

Utilizaremos com alguma frequência o seguinte procedimento de definição


de medidas exteriores.

Teorema 2.5.4. Seja X um conjunto, S uma classe de subconjuntos de X,


e λ : S → [0, ∞] uma função. Suponha-se que:

a) ∅ ∈ S, e λ(∅) = 0,

b) Existem conjuntos Sn ∈ S, tais que X = ∪∞ 35


n=1 Sn ( ), e

c) λ∗ : P(X) → [0, ∞] é dada por


(∞ ∞
)
X [
λ∗ (E) = inf λ(Sn ) : E ⊆ Sn , Sn ∈ S .
n=1 n=1
35
Dizemos neste caso que S é uma cobertura sequencial de X.
2.5. Medidas Exteriores 141

Então λ∗ é uma medida exterior em X.


Demonstração. Como ∅ ∈ S, tomamos Sn = ∅ para qualquer n ∈ N, para
concluir que λ∗ (∅) = 0. Para provar que λ∗ é σ-subaditivo, consideramos
conjuntos E, En ⊆ X, onde

[
E⊆ En .
n=1

Dado ε > 0 arbitrário, existem conjuntos Smn , com n, m ∈ N, tais que



[ ∞
X ε
En ⊆ Smn , e λ∗ (En ) ≤ λ(Smn ) ≤ λ∗ (En ) + .
2n
m=1 m=1

A famı́lia {Smn : n, m ∈ N} é uma cobertura numerável de E por conjuntos


em S, i.e., E ⊆ ∪∞ ∞
n=1 ∪m=1 Smn , e portanto
∞ X
X ∞ ∞
X X ∞
ε
λ∗ (E) ≤ λ(Smn ) ≤ [λ∗ (En ) + n
]≤ε+ λ∗ (En ).
2
n=1 m=1 n=1 n=1

Fazendo ε → 0, obtemos o resultado pretendido.


Exemplos 2.5.5.
1. Designando por R(RN ) a classe dos rectângulos-N limitados, é claro que
R(RN ) é uma cobertura sequencial de X = RN . A medida exterior de Lebes-
gue em RN pode ser obtida fazendo S = R(RN ), e λ = cN .
2. Generalizando o exemplo anterior, qualquer função λ : R(RN ) → [0, ∞] que
satisfaça λ(∅) = 0 determina uma medida exterior λ∗ em RN , dada por
(∞ ∞
)
X [
λ∗ (E) = inf λ(Rn ) : E ⊆ Rn , Rn ∈ R(RN ) .
n=1 n=1

3. A classe F (R) formada pelos intervalos da forma ]a, b] é uma cobertura se-
quencial de R. Vimos no exemplo 1.2.5.5 que qualquer função F : R → R
determina uma função λ : F (R) → R, dada por λ(]a, b]) = F (b) − F (a). Su-
pondo que F é crescente, a função λ∗ : P(R) → [0, ∞], dada por
(∞ ∞
)
X [
λ∗ (E) = inf [F (bn ) − F (an )] : E ⊆ ]an , bn ],
n=1 n=1

é uma medida exterior em R.


4. Dados espaços de medida (X, M, µ) e (Y, N , ν), é por vezes conveniente
definir uma medida “produto” em X × Y , que aqui designaremos por µ ⊗ ν.
Esta medida deve ser tal que(36 )
se A ∈ M e B ∈ N então (µ ⊗ ν)(A × B) = µ(A)ν(B).
36
Note que a condição indicada é especialmente natural quando os espaços em causa
são espaços de probabilidade independentes.
142 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Para definir a medida µ ⊗ ν, consideraremos primeiro a classe S formada pelos


conjuntos que são produtos cartesianos da forma A × B, com A ∈ M e B ∈ N .
Esta classe contém o conjunto X ×Y , e é portanto uma cobertura sequencial de
X ×Y . Definimos λ : S → [0, ∞] por λ(A×B) = µ(A)ν(B). A medida exterior
λ∗ determinada pela função λ nos termos do teorema 2.5.4 será utilizada para
definir os conjuntos mensuráveis em X × Y e a medida µ ⊗ ν.

5. Seja µ uma medida positiva em RN definida numa σ-álgebra M que contém


os abertos. Se E ⊆ RN , definimos µ∗ (E) = inf{µ(U ) : E ⊆ U, U aberto }.
É fácil verificar que µ∗ é uma medida exterior (exercı́cio 5), e notamos da
definição 2.3.13 que µ é regular em N ⊆ M se e só se µ(E) = µ∗ (E), para
qualquer E ∈ N .

Os resultados desta secção são como dissémos aplicáveis a qualquer me-


dida exterior, e devem-se sobretudo a Caratheodory(37 ). Dada uma medida
exterior µ∗ , propomo-nos aqui:

• Definir os conjuntos ditos “µ∗ -mensuráveis”,

• Mostrar que µ∗ é aditiva na classe dos conjuntos µ∗ -mensuráveis, e

• Provar que a classe dos conjuntos µ∗ -mensuráveis é uma σ-álgebra.

Deve ser claro que neste caso a restrição de µ∗ à classe dos conjuntos µ∗ -
mensuráveis é uma medida, ou seja, a medida exterior µ∗ determina um
espaço de medida, como referimos no inı́cio desta secção. Começamos por
abstrair do problema “fácil” de Lebesgue (2.2.8) o que chamamos:

2.5.6 (Problema de Caratheodory). Dada uma medida exterior µ∗ em X,


determinar uma σ-álgebra M onde µ∗ seja aditiva.

Resolveremos este problema usando uma ideia directamente sugerida


pela definição 2.2.11.

Definição 2.5.7 (Conjuntos µ∗ -Mensuráveis). Dada uma medida exterior


µ∗ em X, o conjunto E ⊆ X diz-se µ∗ -mensurável se e só se

µ∗ (F ) = µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F \E), para qualquer conjunto F em X.

Designamos a classe dos conjuntos µ∗ -mensuráveis por Mµ∗ .

Exemplos 2.5.8.
1. No caso da medida exterior de Lebesgue, os conjuntos m∗N -mensuráveis são,
evidentemente, os conjuntos que são Lebesgue-mensuráveis no sentido de 2.2.11.
37
Constantin Caratheodory (1873-1950), matemático alemão, professor na Universidade
de Munique.
2.5. Medidas Exteriores 143

2. A medida de Dirac δ num qualquer conjunto X está definida em toda a classe


P(X), e é σ-subaditiva, porque é σ-aditiva. É, portanto, também uma medida
exterior. Neste caso, qualquer conjunto E ⊆ X é δ-mensurável, porque sendo
δ aditiva em P(X), a condição em 2.5.7 é satisfeita por qualquer E ⊆ X.
3. Se X 6= ∅ é um conjunto e E ⊆ X, definimos

0, se E = ∅, e
µ∗ (E) =
1, se E 6= ∅.

É simples verificar que µ∗ é uma medida exterior no conjunto X (trata-se do


exemplo 2.5.2.1 referido atrás). Sendo E ⊆ X µ∗ -mensurável, tomamos F = X
em 2.5.7, para concluir que µ∗ (X) = µ∗ (E) + µ∗ (E c ).
Como X 6= ∅, sabemos que µ∗ (X) = 1, e a igualdade anterior só pode ser válida
se µ∗ (E) = 0 ou µ∗ (E c ) = 0, ou seja, se E = ∅ ou E c = ∅ ( i.e., se E = X).
Por outras palavras, os únicos conjuntos que podem ser µ∗ -mensuráveis são ∅
e X. Como estes conjuntos são sempre µ∗ -mensuráveis (porquê?), neste caso
os conjuntos µ∗ -mensuráveis reduzem-se exactamente a ∅ e X.

Passamos a demonstrar que Mµ∗ é sempre uma álgebra, utilizando


uma adaptação óbvia do argumento que usámos na proposição 2.2.13.
Teorema 2.5.9. A classe Mµ∗ é uma álgebra em X, i.e.,
a) X ∈ Mµ∗ ,
b) Fecho em relação à complementação: A ∈ Mµ∗ =⇒ Ac ∈ Mµ∗ , e

c) Fecho em relação à intersecção: A, B ∈ Mµ∗ =⇒ A ∩ B ∈ Mµ∗ .


Demonstração. Deixamos as demonstrações de a) e b) como exercı́cio. Para
provar c), temos a mostrar que se A, B ∈ Mµ∗ então A ∩ B ∈ Mµ∗ , ou seja,

µ∗ (F ) = µ∗ (F ∩ (A ∩ B)) + µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ), para qualquer F ⊆ X.

Como µ∗ é, por hipótese, subaditiva, temos apenas que mostrar que

µ∗ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ (A ∩ B)) + µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ).

Para estimar µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ), notamos que

F ∩ (A ∩ B)c = (F ∩ Ac ) ∪ (F ∩ A ∩ B c ).

(Observe-se a figura 2.2.2). Como µ∗ é subaditiva, temos

µ∗ (F ∩ Ac ) + µ∗ (F ∩ A ∩ B c ) ≥ µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ).

Somando µ∗ (F ∩ A ∩ B) a ambos os membros desta desigualdade, temos

(i ) µ∗ (F ∩ Ac ) + µ∗ (F ∩ A ∩ B) + µ∗ (F ∩ A ∩ B c ) ≥
≥ µ∗ (F ∩ A ∩ B) + µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ).
144 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Como B ∈ Mµ∗ e F ∩ A ⊆ X, usamos a definição 2.5.7, com B em vez


de E e F ∩ A em vez de F , para concluir que

µ∗ (F ∩ A ∩ B) + µ∗ (F ∩ A ∩ B c ) = µ∗ (F ∩ A).

A desigualdade (i) pode, portanto, escrever-se na forma

(ii) µ∗ (F ∩ Ac ) + µ∗ (F ∩ A) ≥ µ∗ (F ∩ A ∩ B) + µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ).

Como A ∈ Mµ∗ e F ⊆ X, temos µ∗ (F ∩Ac ))+µ∗ (F ∩A) = µ∗ (F ), e segue-se


finalmente de (ii) que µ∗ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ A ∩ B) + µ∗ (F ∩ (A ∩ B)c ).

É extremamente simples mostrar que a função µ∗ é aditiva na álgebra


Mµ∗ , e é sobretudo de sublinhar que, para que seja válida a identidade

µ∗ (A ∪ B) = µ∗ (A) + µ∗ (B), com A e B disjuntos,

basta que um dos conjuntos A e B seja µ∗ -mensurável.


Lema 2.5.10. Se A e B são disjuntos e A ∈ Mµ∗ , então

µ∗ (A ∪ B) = µ∗ (A) + µ∗ (B).

Demonstração. Utilizamos a definição 2.5.7, com A no lugar de E e A ∪ B


no lugar de F . Sendo A e B disjuntos, temos

(A ∪ B) ∩ A = A e (A ∪ B)\A = B,

donde, como A é mensurável, se segue que

µ∗ (A ∪ B) = µ∗ ((A ∪ B) ∩ A) + µ∗ ((A ∪ B)\A) = µ∗ (A) + µ∗ (B).

Este resultado pode ser generalizado, fazendo intervir um segundo con-


junto arbitrário C, que também não necessita ser µ∗ -mensurável.

A B

Figura 2.5.1: B e C são arbitrários, A ∈ Mµ∗ .

Proposição 2.5.11. Se A e B são disjuntos, C ⊆ X e A ∈ Mµ∗ , então

µ∗ (C ∩ (A ∪ B)) = µ∗ (C ∩ A) + µ∗ (C ∩ B).
2.5. Medidas Exteriores 145

Demonstração. Consideramos o conjunto D dado por:

D = C ∩ (A ∪ B) = (C ∩ A) ∪ (C ∩ B).

Por hipótese, A ∈ Mµ∗ , donde temos, mais uma vez, que

µ∗ (D) = µ∗ (D ∩ A) + µ∗ (D\A).

Como, obviamente, D ∩ A = C ∩ A, e D\A = C ∩ B, concluı́mos que

µ∗ (D) = µ∗ (D ∩ A) + µ∗ (D ∩ B).

Este último resultado generaliza-se, por um simples argumento de indução


finita, ao seguinte:
Corolário 2.5.12. Se os conjuntos En ∈ Mµ∗ são disjuntos e F ⊆ X,então
m
[ m
X m
[ m
X
µ∗ ( (F ∩En )) = µ∗ (F ∩En ) e em particular µ∗ ( En ) = µ∗ (En ).
n=1 n=1 n=1 n=1

É claro do lema 2.5.10 que a função µ∗ é aditiva na álgebra Mµ∗ . Prova-


mos a seguir uma forma generalizada da propriedade de σ-aditividade(38 ),
com a particularidade muito interessante de não necessitarmos supor, no seu
enunciado, que o conjunto E = ∪∞ ∗
n=1 En é µ -mensurável.

Teorema 2.5.13. Se os conjuntos En ∈ Mµ∗ são disjuntos e F ⊆ X, então



[ ∞
X ∞
[ ∞
X
µ∗ ( (F ∩En )) = µ∗ (F ∩En ) e em particular µ∗ ( En ) = µ∗ (En ).
n=1 n=1 n=1 n=1

Demonstração. Mais uma vez, temos a provar apenas que



X
µ∗ (F ∩ E) ≥ µ∗ (F ∩ En ).
n=1

Tomamos Ẽm = ∪m n=1 En . Usamos oP corolário 2.5.12, com Ẽm no lugar de


E, para concluir que µ∗ (F ∩ Ẽm ) = m ∗
n=1 µ (F ∩ En ). Notamos que
m
X
Ẽm ⊆ E ⇒ F ∩ Ẽm ⊆ F ∩ E ⇒ µ∗ (F ∩ En ) = µ∗ (F ∩ Ẽm ) ≤ µ∗ (F ∩ E).
n=1

Obtemos, finalmente, que


m
X ∞
X
∗ ∗
lim µ (F ∩ En ) ≤ µ (F ∩ E), i.e., µ∗ (F ∩ En ) ≤ µ∗ (F ∩ E).
m→+∞
n=1 n=1

38
Recorde o exercı́cio 13 da secção 2.2.
146 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

Já demonstrámos para qualquer medida exterior µ∗ que:

• Mµ∗ é uma álgebra,

• µ∗ é aditiva, e portanto σ-aditiva, em Mµ∗ .

Para mostrar que Mµ∗ é solução do Problema 2.5.6, resta-nos provar que

• Mµ∗ é uma σ-álgebra, i.e., é fechada em relação a uniões numeráveis.

É precisamente o facto de termos demonstrado o teorema anterior sem


supor que ∪∞n=1 En ∈ Mµ∗ que agora nos permite provar que, na realidade,
temos sempre ∪∞ n=1 En ∈ Mµ∗ . Começamos por verificar esta afirmação, no
caso especial de uma famı́lia de conjuntos disjuntos.

Lema 2.5.14. Se os conjuntos En ∈ Mµ∗ são disjuntos, então



[
E= En ∈ Mµ∗ .
n=1

Demonstração. Sendo F ⊆ X arbitrário, temos a provar que

µ∗ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F ∩ E c ).

Definimos, novamente, Ẽm = ∪m n=1 En , e notamos que Ẽm ∈ Mµ∗ , porque


Mµ∗ é uma álgebra. Temos portanto µ∗ (F ) = µ∗ (F ∩ Ẽm ) + µ∗ (F ∩ Ẽm
c ).

É evidente da monotonia de µ∗ que

µ∗ (F ) = µ∗ (F ∩ Ẽm ) + µ∗ (F ∩ Ẽm
c
) ≥ µ∗ (F ∩ Ẽm ) + µ∗ (F ∩ E c ).
Pm
De acordo com 2.5.12, temos µ∗ (F ∩ Ẽm ) = n=1 µ
∗ (F ∩ En ) e, por isso,
m
X

µ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ En ) + µ∗ (F ∩ E c ).
n=1


X
Fazendo m → +∞, obtemos µ∗ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ En ) + µ∗ (F ∩ E c ).
n=1 P∞
Observamos finalmente de 2.5.13 que µ∗ (F ∩ E) = ∗
n=1 µ (F ∩ En ), e
concluı́mos assim que µ∗ (F ) ≥ µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F ∩ E c ).

O principal resultado desta secção é agora quase evidente.

Teorema 2.5.15. Mµ∗ é uma σ-álgebra e a restrição de µ∗ a Mµ∗ é uma


medida positiva.
2.5. Medidas Exteriores 147

Demonstração. Para verificar que Mµ∗ é fechada em relação a uniões nu-


meráveis, supomos que os conjuntos En ∈ Mµ∗ , e definimos

m−1
[
Ẽ1 = E1 e, para m > 1, Ẽm = Em \ En .
n=1

Os conjuntos Ẽm pertencem a Mµ∗ , porque Mµ∗ é Suma álgebra. S∞ Estes


conjuntos são, evidentemente, disjuntos. Como E = ∞ n=1 nẼ = n=1 En ,
concluı́mos de 2.5.14 que E ∈ Mµ , i.e., Mµ é uma σ-álgebra.
∗ ∗

Exercı́cios.

1. Mostre que, se µ∗ é uma medida exterior e µ∗ (E) = 0, então F ⊆ E ⇒ F é


µ∗ -mensurável e µ(F ) = 0.

2. Complete a demonstração do teorema 2.5.9.

3. Se R é um subconjunto limitado de RN , o conteúdo exterior de Jordan está


definido para qualquer subconjunto E de R. Verifique que o conteúdo exterior
de Jordan, apesar de subaditivo, não é σ-subaditivo e portanto não é uma
medida exterior em R.(Exemplo 2.5.2.2)

4. Em cada um dos casos seguintes, prove que a função µ∗ : P(X) → [0, +∞]
dada é uma medida exterior e descreva os conjuntos µ∗ -mensuráveis.

a) µ∗ (E) = #(E).

∗ 0, se E é finito ou numerável,
b) µ (E) =
1, se E é não-numerável.
(Suponha, aqui, X infinito não-numerável.)

5. Seja µ uma medida positiva em RN definida numa σ-álgebra M que contém


os abertos. Sendo µ∗ (E) = inf{µ(U ) : E ⊆ U, U aberto }, mostre que µ∗ é
uma medida exterior.

6. Suponha que µ∗ é uma medida exterior em X, F ⊆ X, e λ∗ : P(X) → [0, +∞]


é dada por λ∗ (E) = µ∗ (E ∩ F ). Mostre que λ∗ é uma medida exterior. Qual
é a relação entre os conjuntos µ∗ -mensuráveis e os conjuntos λ∗ -mensuráveis?

7. Suponha que µ∗n : P(X) → [0, +∞] é umaPmedida exterior para qualquer

n ∈ N e prove que µ∗ , dada por µ∗ (E) = ∗
n=1 µn (E), é igualmente uma
medida exterior em X.

8. Dado o espaço de medida (X, M, µ), definimos a função λ∗ : P(X) → [0, +∞]
por λ∗ (E) = inf {µ(S) : E ⊆ S, S ∈ M}. Prove as seguintes afirmações:

a) λ∗ é uma medida exterior e, sendo Mλ∗ a classe dos conjuntos λ∗ -


mensuráveis, M ⊆ Mλ∗ ,
148 Capı́tulo 2. A Medida de Lebesgue

b) λ∗ (F ) = 0 se e só se existe E ∈ M tal que F ⊆ E e µ(E) = 0. Em


particular, (X, M, µ) é completo se e só se λ∗ (E) = 0 ⇒ E ∈ M.
c) Se o espaço (X, M, µ) é finito e λ é a restrição de λ∗ a Mλ∗ , prove que
(X, Mλ∗ , λ) = (X, Mµ , µ), tal como este espaço foi definido em 2.3.17.
d) Mostre que a conclusão da alı́nea anterior é ainda válida, supondo apenas
que o espaço (X, M, µ) é σ-finito.
e) Verifique que, quando (X, M, µ) não é σ-finito, podemos ter (X, Mλ∗ , λ) 6=
(X, Mµ , µ).
Capı́tulo 3

Integrais de Lebesgue

A exposição que se segue é, em certo sentido, uma adaptação directa das
ideias de Jordan e Peano apresentadas no Capı́tulo 1: resulta destas pela
simples substituição do conteúdo de Jordan pela medida de Lebesgue. A cor-
respondente definição do integral é a que Lebesgue chamava de “geométrica”,
e tem como principal vantagem a de tornar evidente a relação entre alguns
dos principais resultados da Teoria da Medida e da Teoria da Integração.
Neste contexto, as funções Lebesgue-mensuráveis são as funções cujas
regiões de ordenadas são conjuntos Lebesgue-mensuráveis. Analogamente,
as funções Borel-mensuráveis são aquelas cujas regiões de ordenadas são con-
juntos Borel-mensuráveis. Os respectivos integrais de Lebesgue são definidos
usando a medida de Lebesgue das suas regiões de ordenadas, e dizem-se, por
isso, “em ordem à medida de Lebesgue”.
Estabelecemos muito rapidamente algumas das propriedades mais rele-
vantes do integral de Lebesgue, usando frequentemente argumentos conheci-
dos do Capı́tulo 1. As vantagens técnicas do integral de Lebesgue começarão
a tornar-se aparentes quando estudarmos os resultados clássicos sobre limi-
tes e integrais, hoje conhecidos como o teorema da convergência monótona,
ou de Beppo Levi, e o teorema da convergência dominada, ou de Lebesgue.
Estes resultados são centrais na moderna teoria da integração, e são re-
flexos directos das “propriedades essenciais” identificadas no enunciado do
Problema de Borel.
Estudamos, em seguida, o teorema de Fubini-Lebesgue. Este teorema
estabelece a mensurabilidade das secções de qualquer conjunto mensurável, e
exprime a medida desse conjunto como o integral da medida das suas secções,
convenientemente escolhidas. Um corolário directo, mas fundamental, do
teorema de Fubini-Lebesgue permite-nos caracterizar as funções mensurá-
veis de uma forma mais conveniente para o desenvolvimento da teoria: as
funções mensuráveis são limites de sucessões de funções simples mensuráveis.
Os integrais destas funções simples desempenham, na teoria de Lebesgue, o
papel das somas de Darboux na teoria de Riemann.

149
150 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

A aproximação de funções mensuráveis por funções simples, combinada


com a relativa facilidade de estudo das próprias funções simples, vai-nos
ainda permitir provar neste Capı́tulo mais algumas propriedades impor-
tantes das funções mensuráveis e dos respectivos integrais. Repetimos aqui
argumentos conhecidos do Capı́tulo 1 mas, neste caso, os teoremas sobre in-
tegração e passagem ao limite conduzem-nos a resultados muito elegantes e
fáceis de aplicar, em particular sobre a integração de séries. Como corolário
destes, obtemos uma versão preliminar do clássico Teorema de Riesz-Fischer.
Terminamos o Capı́tulo estudando a aproximação de funções mensuráveis
por funções contı́nuas. Como veremos, os resultados associados a esta ques-
tão reflectem, essencialmente, os que já estudámos sobre a aproximação de
conjuntos mensuráveis por conjuntos fechados e por conjuntos abertos, ou
seja, reflectem a regularidade da medida de Lebesgue.

3.1 O Integral de Lebesgue


A figura 3.1.1 é o ponto de partida da teoria de Lebesgue, como o foi para
a teoria de Riemann. É de notar que, em resultado directo de substituir os

R
f RN +1

Ω+

E RN
Ω−

Z
Figura 3.1.1: f dmN = mN +1 (Ω+ ) − mN +1 (Ω− )
E

conjuntos Jordan-mensuráveis, e o conteúdo de Jordan, pelos conjuntos Le-


besgue-mensuráveis, e pela medida de Lebesgue, as nossas definições básicas
passam a ser aplicáveis a funções ilimitadas, ou mesmo com valores infinitos,
e podendo ser, além disso, diferentes de zero em conjuntos igualmente ili-
mitados. Em particular, e como veremos, muitos dos integrais que se dizem
impróprios na teoria de Riemann são integrais de Lebesgue, no sentido aqui
definido.
3.1. O Integral de Lebesgue 151

Definição 3.1.1 (Funções mensuráveis, Integrais de Lebesgue). Se E ⊆


S ⊆ RN , e f : S → R, então
a) f é lebesgue-mensurável em E se e só se o conjunto ΩE (f ) é Lebes-
gue-mensurável em RN +1 . Analogamente, f é borel-mensurável
em E se e só se o conjunto ΩE (f ) é Borel-mensurável em RN +1 .

b) Se f é Lebesgue-mensurável em E, e pelo menos um dos conjuntos


Ω+ +
E (f ) e ΩE (f ) tem medida finita, o integral de lebesgue de f
(em ordem a mN ) em E é dado por
Z Z
f dmN = f (x)dx = mN +1 (Ω+ −
E (f )) − mN +1 (ΩE (f )).
E E

c) f é lebesgue-somável em E se e só f é Lebesgue-mensurável em E,


e mN +1 (ΩE (f )) < ∞.
É evidente que as funções Borel-mensuráveis são Lebesgue-mensurá-
veis, e é simples exibir funções Lebesgue-mensuráveis, e mesmo Riemann-
integráveis, que não são Borel-mensuráveis (exercı́cio 4).
Exemplificamos abaixo o cálculo de alguns integrais de Lebesgue:
Exemplos 3.1.2.
1. Funções Riemann-integráveis: A função f : E → R é Riemann-integrável
em E se e só se ΩE (f ) é Jordan-mensurável. Neste caso, ΩE (f ) é, evidente-
mente, Lebesgue-mensurável, e portanto f é Lebesgue-mensurável em E. O
integral de Riemann de f sobre E é dado por
Z
f = cN +1 (Ω+ − + −
E (f )) − cN +1 (ΩE (f )) = mN +1 (ΩE (f )) − mN +1 (ΩE (f )).
E

Por outras palavras, qualquer integral de Riemann é um integral de Lebesgue,


e o integral de Lebesgue é uma extensão do integral de Riemann, tal como a
medida de Lebesgue é uma extensão do conteúdo de Jordan.
2. Se os conjuntos An ր B ⊆ RN e a função f está definida pelo menos em
B, é evidente que ΩAn (f ) ր ΩB (f ). Em particular, se f é mensurável e
não-negativa em cada conjunto An então segue-se do teorema da convergência
monótona de Lebesgue que f é mensurável em B e
Z Z
f = mN (ΩAn (f )) = mN (ΩAn (f )) ր mN (ΩB (f )) = f dmN .
An B

Esta observação permite-nos calcular múltiplos exemplos de integrais de Le-


besgue que não são integrais de Riemann:
a) f (x) = √1x ≥ 0 é Riemann-integrável em An =] n1 , 1], e B = ∪∞ n=1 An =
]0, 1]. Concluı́mos que f é Lebesgue-mensurável em ]0, 1], e que
Z 1 Z 1  
1 1 √ x=1 1
√ dm = lim
√ dx = lim 2 x x= 1 = lim 2 1 − √ = 2.
0 x n→∞ 1
n
x n→∞ n n→∞ n
152 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

b) A função f (x) = e−x é Riemann-integrável em An = [0, n] ր [0, +∞[, e


Z Z n Z ∞
e−x dx = e−x dx = 1 − e−n → 1 = e−x dx.
An 0 0

O integral à direita é um integral de Lebesgue, e f é Lebesgue-somável


em [0, ∞[.

3. A função de Dirichlet dir em R não é Riemann-integrável em nenhum inter-


valo não-trivial. No entanto, dir é a função caracterı́stica dos racionais Q, e,
portanto, a sua região de ordenadas é ΩR (dir) = Q×]0, 1[. O conjunto ΩR (dir)
é Borel-mensurável, porque é um produto cartesiano de conjuntos Borel-men-
suráveis. Temos, ainda, m2 (ΩR (dir)) = 0 × 1 = 0. Concluı́mos que a função
de Dirichlet é Borel-mensurável, e
Z
dir dm = 0.
R

4. Mais geralmente, se f é a função caracterı́stica de um conjunto E ⊆ RN


Borel-mensurável (respectivamente, Lebesgue-mensurável), então f é uma função
Borel-mensurável (respectivamente, Lebesgue-mensurável), e o seu integral é
a medida do conjunto E:
Z
f dmN = mN (E).
RN

5. integrais impróprios de Riemann: As definições de integral que referimos


no Capı́tulo 1 não contemplam a integração de funções que são ilimitadas na
região de integração e/ou que são diferentes de zero em regiões de integração
ilimitadas. Apesar disso, e ainda antes da introdução da teoria de Lebesgue,
os chamados integrais impróprios de Riemann foram usados para ultrapassar
este tipo de dificuldades, pelo menos em alguns casos particulares(1 ). A sua
definição (quando a região de integração B ⊆ RN , N > 1) supõe que

i) Existem conjuntos Jordan-mensuráveis An ր B, tais que f é Riemann-


integrável, no sentido usual, em cada conjunto An .
ii) Existe α ∈ R tal que, se a sucessão de conjuntos An satisfaz i), então
Z
α = lim f
n→∞ An

iii) Neste caso, o integral impróprio de Riemann de f em B é dado por:


Z Z
f = α = lim f
B n→∞ An

1
O integral impróprio diz-se de primeira espécie se a integranda é ilimitada, e de
segunda espécie se a região de integração é ilimitada. Os integrais impróprios simul-
taneamente de 1a e 2a espécie dizem-se mistos. Cauchy introduziu integrais impróprios
em R, mas em RN a teoria é mais complexa, e deve-se sobretudo ao matemático alemão
Harnack, que a desenvolveu nos finais do século XIX.
3.1. O Integral de Lebesgue 153

Quando f ≥ 0, e de acordo com a observação no exemplo 2, a condição ii) é


automática, e o valor de α é o integral de Lebesgue de f em B. Dito doutra
forma, se f ≥ 0 e a condição i) é satisfeita, o integral impróprio de Riemann de
f em B existe, e é o integral de Lebesgue de f em B. Temos assim que qualquer
integral impróprio de Riemann de uma função não-negativa é um integral de
Lebesgue, e pode ser calculado usando uma qualquer sucessão de conjuntos
Jordan-mensuráveis que satisfaça i).
Deixamos para o exercı́cio 5 a análise do caso em que f muda de sinal, mas
resumimos aqui as principais conclusões:

• O integral impróprio de f existe, e é finito, no sentido indicado acima,


se e só se o integral impróprio de |f | também existe, e é finito. Dizemos
neste caso que o integral impróprio de Riemann de f é absolutamente
convergente e, mais uma vez, qualquer integral impróprio de Riemann
absolutamente convergente é um integral de Lebesgue.
• Se f : R → R, o integral impróprio de f pode existir no sentido que
referimos no exercı́cio 1 da secção 1.5 sem ser absolutamente convergente.
Neste caso, f não é Lebesgue-somável, e o seu integral de Lebesgue não
está definido.

No que se segue, e para simplificar a nossa terminologia, escreveremos


com frequência “B-mensurável”, e “L-mensurável”, em lugar de “Borel-men-
surável”, e “Lebesgue-mensurável”. Usaremos esta convenção com funções,
e com conjuntos. Por outro lado, muitos dos teoremas, demonstrações e
definições que estudamos são aplicáveis, sem qualquer alteração, quando a
expressão “Lebesgue-mensurável” é substituı́da, em todas as suas ocorrências,
por “Borel-mensurável”. É este o caso da própria definição de função “Le-
besgue-mensurável/Borel-mensurável”, que apresentámos em 3.1.1 a). Mais
uma vez para simplificar a nossa terminologia, e evitar repetições óbvias e
triviais, convencionamos que, até menção em contrário, a utilização da ex-
pressão “mensurável”, sem mais qualificativos, no contexto de um teorema,
demonstração, ou definição, significa que esta pode ser identicamente sub-
stituı́da, em todas as suas ocorrências nesse mesmo contexto, tanto por “L-
mensurável”, como por “B-mensurável”. Também até menção em contrário,
a palavra “somável” entende-se como “Lebesgue-somável”, no sentido de
3.1.1 c). Seguimos estas convenções já na próxima definição, que generaliza
M
3.1.1 a funções vectoriais f : S → R .

Definição 3.1.3 (Funções Vectoriais: Mensurabilidade e Integral). Se E ⊆


M
S ⊆ RN , e f : S → R , donde f = (f1 , f2 , · · · , fM ), com fk : S → R, então

a) f é mensurável em E se e só se as funções fk são mensuráveis em


E, para 1 ≤ k ≤ M , no sentido de 3.1.1.

b) f é somável em E se e só as funções fk são somáveis em E.


154 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

c) Se f é mensurável em E, o integral de lebesgue de f (em ordem


a mN ) em E é dado por
Z Z Z Z 
f dmN = f1 dmN , f2 dmN , · · · , fM dmN ,
E E E E

sempre que todos os integrais de Lebesgue à direita estão definidos.


Exemplo 3.1.4.
funções mensuráveis complexas: Seja f : RN → C uma função complexa,
donde f (x) = u(x) + iv(x), com u, v : RN → R. A função f é mensurável se
e só se as funções u, e v são mensuráveis, e o integral de f é dado por
Z Z Z
f dmN = udmN + i vdmN ,
E E E

sempre que existem os integrais de u e de v no conjunto E.

Se as funções f e g estão definidas pelo menos no conjunto E ⊆ RN ,


dizemos que f e g são equivalentes em E, e escrevemos “f ≃ g”, se e só
se f (x) = g(x), qtp em E. Note-se a seguir que a substituição de uma
função por outra que lhe seja equivalente, ou seja, a modificação dos seus
valores num conjunto de medida nula, não altera a sua L-mensurabilidade
nem o valor do respectivo integral. Em particular, a L-mensurabilidade de
f em E pode ser decidida mesmo quando f está apenas definida qtp em E:

Proposição 3.1.5. Sejam G ⊆ E ⊆ RN , f : E → R, g : G → R, onde


mN (E\G) = 0 e f ≃ g em G. Temos então:

a) f é L-mensurável em E ⇐⇒ g é L-mensurável em G. Neste caso,

b) O integral de f em E existe ⇐⇒ o integral de g em G existe, e


Z Z
f dmN = gdmN .
E G

Demonstração. Se D = {x ∈ G : f (x) 6= g(x)} ∪ (E\G) então mN (D) = 0.


Seja F a “faixa vertical” em RN +1 dada por F = D × R. Temos mN +1 (F ) =
mN (D)m1 (R) = 0, e é fácil verificar que

ΩE (f )∆ΩG (g) = (ΩE (f )\ΩG (g)) ∪ (ΩG (g)\ΩE (f )) ⊆ F.

As regiões de ordenadas de f e g diferem assim por um conjunto nulo.


Concluı́mos que ΩF (f ) é L-mensurável se e só se ΩE (g) é L-mensurável, e
neste caso os integrais de f (em F ) e g (em E) são iguais, sempre que algum
deles exista.
Observações 3.1.6.
3.1. O Integral de Lebesgue 155

1. A relação “f ≃ g” é efectivamente de equivalência, por exemplo na classe


das funções reais definidas em E ⊆ RN . Deve ser evidente que é reflexiva, ou
seja, f ≃ f , e simétrica, i.e., f ≃ g ⇐⇒ g ≃ f . Para verificar que a relação é
transitiva, suponha-se que f ≃ g e g ≃ h, e sejam A = {x ∈ E : f (x) 6= g(x)}
e B = {x ∈ E : g(x) 6= h(x)}. Como A ∪ B tem medida nula e f (x) = g(x) =
h(x) quando x 6∈ A ∪ B, é claro que f ≃ h.
2. Se fn (x) → f (x) qtp em E e gn ≃ fn também em E, então gn (x) → f (x)
qtp em E. Para verificar esta afirmação, sejam

[
B = {x ∈ E : lim fn (x) = f (x)}, An = {x ∈ E : fn (x) 6= gn (x)}, A = An .
n→∞
n=1

Os conjuntos An e C = E\B são nulos por hipótese, e é claro que A e A ∪ C


são igualmente nulos. Temos além disso que

x 6∈ A ∪ C =⇒ gn (x) = fn (x) → f (x), ou seja, gn (x) → f (x) qtp em E.

3. As seguintes observações são úteis, e.g., na demonstração das proposições


3.1.9 e 3.1.10.
a) Se f é L-mensurável em E e f (x) ≥ 0 qtp em E, então existe uma função
f˜ ≃ f tal que f˜ é L-mensurável em E e f˜(x) ≥ 0 para qualquer x ∈ E.
Basta considerar 
˜ f (x), se f (x) ≥ 0
f (x) =
0, se f (x) < 0

b) Se f e g são L-mensuráveis em E e f (x) ≤ g(x) qtp em E, existem


funções f˜ ≃ f e g̃ ≃ g, ambas L-mensuráveis em E, tais que f˜(x) ≤ g̃(x)
para qualquer x ∈ E. Tome-se agora
 
˜ f (x), se f (x) ≤ g(x) g(x), se f (x) ≤ g(x)
f (x) = g̃(x) =
0, se f (x) > g(x) 0, se f (x) > g(x)

4. A proposição 3.1.5 não é válida para funções B-mensuráveis: se f ≃ g e


g é B-mensurável então f pode não ser B-mensurável (exercı́cio 4), porque o
espaço de Borel (RN , B(RN ), mN ) não é completo.

Se E ⊆ RN e f : RN → R, é evidente que as regiões de ordenadas de f


em E, e de f χE em RN , são iguais. Concluı́mos que

Proposição 3.1.7. Se E ⊆ RN , e f : RN → R, então

a) f é mensurável em E se e só se f χE é mensurável em RN .

b) Se f é mensurável em E, e algum dos seguintes integrais existe, o


outro existe igualmente, e
Z Z
f dmN = f χE dmN .
E RN
156 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

O resultado seguinte inclui a usual desigualdade triangular. A sua de-


monstração, uma adaptação directa da de 1.4.7), é o exercı́cio 9.

Proposição 3.1.8. Se E ⊆ RN , e f : E → R, então

a) f é mensurável em E se e só se as funções f + e f − são mensuráveis


em E. Neste caso, a função |f | é mensurável em E, e
Z Z Z
|f | dmN = f + dmN + f − dmN .
E E E

b) f é somável em E se e só se as funções f + e f − são somáveis em E.


Neste caso,
Z Z Z Z Z
+ −

f dmN = f dmN − f dmN , e f dmN ≤ |f | dmN .
E E E E E

As duas proposições seguintes indicam as propriedades fundamentais de


monotonia do integral de Lebesgue, em relação à região de integração, e em
relação à função integranda.

Proposição 3.1.9. Se E ⊆ RN , f : E → R é mensurável em E, e F ⊆ E


é mensurável, então f é mensurável em F . Se f ≥ 0 qtp, temos ainda
Z Z
f dmN ≤ f dmN .
F E

Demonstração. Se G = F × R, é claro que ΩF (f ) = ΩE (f ) ∩ G ⊆ ΩE (f ).


Como os conjuntos ΩE (f ) e G são mensuráveis, segue-se que ΩF (f ) é men-
surável, i.e., f é mensurável em F . Caso f ≥ 0 qtp, seja f˜ a função definida
como na observação 3.1.6.3 a). Temos então
Z Z
f dmN = f˜dmN = mN +1 (Ω+ ˜ + ˜
F (f )) ≤ mN +1 (ΩE (f )), e
F F

Z Z
mN +1 (Ω+ ˜ f˜dmN =
E (f )) = f dmN .
E E

Proposição 3.1.10. Se E ⊆ RN , f, g : E → R são mensuráveis em E,


f (x) ≤ g(x) qtp em E, e os integrais de f e de g em E existem, então
Z Z
f dmN ≤ gdmN .
E E
3.1. O Integral de Lebesgue 157

Demonstração. Supomos primeiro que f (x) ≤ g(x), para qualquer x ∈ E.


Temos, então, Ω+ + − −
E (f ) ⊆ ΩE (g) e ΩE (g) ⊆ ΩE (f ), donde se segue que
Z
f dmN =mN +1 (Ω+ −
E (f )) − mN +1 (ΩE (f )) ≤
E Z
+ −
≤mN +1 (ΩE (g)) − mN +1 (ΩE (g)) = gdmN .
E

Para adaptar este argumento ao caso em que f (x) ≤ g(x) apenas qtp em
E, consideramos funções f˜ e g̃ definidas como em 3.1.6.3 b). Aplicando o
resultado que acabámos de provar a f˜ e g̃, temos
Z Z Z Z
f dmN = f˜dmN ≤ g̃dmN = gdmN .
E E E E

As seguintes propriedades são fáceis de estabelecer (exercı́cio 6), e serão


utilizadas com muita frequência:
Proposição 3.1.11. Se f ≥ 0 é uma função mensurável em E ⊆ RN , então
a) f é somável em E =⇒ f é finita qtp em E.
R
b) E f dmN = 0 ⇐⇒ f ≃ 0 em E.

Note-se em particular que se f : E → R é somável então existe f˜ : E → R


tal que f ≃ f˜.
A mensurabilidade e o integral da função f no conjunto E foram definidos
em termos do conjunto ΩE (f ) = Ω+ −
E (f ) ∪ ΩE (f ), onde

Ω+
E (f ) = {(x, y) ∈ R
N +1
: x ∈ E, 0 < y < f (x)}, e

Ω−
E (f ) = {(x, y) ∈ R
N +1
: x ∈ E, 0 > y > f (x)}.
O gráfico de f em E é GE (f ) = {(x, y) ∈ RN +1 : x ∈ E, y = f (x)}. É evi-
dente que ΩE (f ) não inclui quaisquer pontos de GE (f ), mas na realidade a
inclusão ou exclusão de pontos do gráfico de f no conjunto ΩE (f ) é em larga
medida irrelevante porque, como veremos, o gráfico de uma função mensu-
rável tem sempre medida nula(2 ). Em alternativa a ΩE (f ), considerem-se
os conjuntos ΣE (f ) = Σ+ −
E (f ) ∪ ΣE (f ), onde

Σ+
E (f ) = {(x, y) ∈ R
N +1
: x ∈ E, e 0 < y ≤ f (x)}, e

Σ−
E (f ) = {(x, y) ∈ R
N +1
: x ∈ E, e 0 > y ≥ f (x)}.
Notamos que ΓE (f ) = ΣE (f )\ΩE (f ) ⊆ GE (f ), porque ΓE (f ) é o gráfico de
f no subconjunto de E onde f (x) 6= 0. Passamos a provar:
2
Aliás, analogamente ao que ocorre para as funções Riemann-integráveis, cujo gráfico
é sempre um conjunto de conteúdo nulo.
158 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Teorema 3.1.12. Se E ⊆ RN , e f : E → R, então


a) ΩE (f ) é mensurável se e só se ΣE (f ) é mensurável.

b) Se f é mensurável então ΓE (f ) é mensurável e mN +1 (GE (f )) = 0.


Em particular, mN +1 (ΣE (f )) = mN +1 (ΩE (f )).
Demonstração. Seja g a função definida por g(x) = f (x), quando x ∈ E, e
g(x) = 0, quando x 6∈ E. A função g é mensurável em RN , e definimos

Ω = ΩE (f ) = ΩRN (g), Σ = ΣE (f ) = ΣRN (g), e Γ = ΓE (f ) = ΓRN (g).

Mostramos primeiro que:


(1) Se g ≥ 0 e Ω é mensurável então Σ é mensurável:
O conjunto Ωn = {(x, y + n1 ) : (x, y) ∈ Ω} é uma translação vertical
de Ω. Ωn é mensurável, e mN +1 (Ωn ) = mN +1 (Ω). ∆n = Ω ∪ Ωn é
mensurável e ∆n ց Σ, donde Σ é mensurável.

(2) Se g ≥ 0 e Σ é mensurável então Ω é mensurável:


Σn = {(x, y − n1 ) : (x, y) ∈ Σ} é uma translação vertical de Σ, e é por
isso mensurável. O conjunto ∆ ˜ n = Σn ∩ Σ é mensurável e ∆ ˜ n ր Ω,
donde Ω é mensurável. Notamos de passagem que
˜ n ) → mN +1 (Ω), porque ∆
(3) Se g ≥ 0 então mN +1 (∆ ˜ n ր Ω.

As implicações (1) e (2) concluem a demonstração de a) para g ≥ 0.

Provamos agora b), mantendo a restrição g ≥ 0. Um cálculo simples


mostra que
˜ n ) + mN +1 (Σn \Σ) e
(4) mN +1 (Σ) = mN +1 (Σn ) = mN +1 (∆

(5) (Σn \Σ) ⊆ E×] − n1 , 0]


Supondo que E tem medida exterior finita, podemos concluir de (5) que
˜ n ) → mN +1 (Σ), e
mN +1 (Σn \Σ) → 0, e segue-se então de (4) que mN +1 (∆
de (3) que mN +1 (Ω) = mN +1 (Σ).

Se suposermos além disso que g é somável, podemos ainda concluir que


mN +1 (Γ) = mN +1 (Σ) − mN +1 (Ω) = 0. Estabelecemos assim em particular
(6) m∗N (E) < ∞ e g somável =⇒ mN +1 (Σ) = mN +1 (Ω) e mN +1 (Γ) = 0.
Para eliminar as restrições que fizémos sobre E e g, consideramos rectângulos
limitados Rk ր RN , onde k ∈ N, e definimos

0, se x 6∈ Rk
gk (x) =
min{k, g(x)}, se x ∈ Rk
3.1. O Integral de Lebesgue 159

A função gk é mensurável, porque ΩRN (gk ) = ΩRN (g) ∩ (Rk ×]0, k[). Como
gk é limitada (não excede k) e é nula fora de Rk , é óbvio que é somável.
Escrevendo para simplificar

Ω̃k = ΩRN (gk ), Σ̃k = ΣRN (gk ) e Γ̃k = ΓRN (gk ), temos de (6) que

(7) mN +1 (Γ̃k ) = mN +1 (Σ̃k ) − mN +1 (Ω̃k ) = 0.


S
Notamos que Σ̃k ր Σ, Ω̃k ր Ω e Γ ⊆ ∞ k=1 Γ̃k , donde

mN +1 (Σ) = mN +1 (Ω) e mN +1 (Γ) = 0.

O conjunto GE (f )\ΓE (f ) é nulo em RN +1 , e por isso é L-mensurável. Segue-


se que GE (f ) é L-mensurável e tem medida nula. Observe-se também que
quando g muda de sinal basta aplicar os resultados já obtidos a g+ e g− .

A noção de integral indefinido de Lebesgue pode também ser introduzida


por uma adaptação óbvia do que fizémos a propósito do integral de Riemann.
Supondo f : E → R, onde E ⊆ RN , seja Lf (E) a classe dada por:
Z
Lf (E) = {A ⊆ E : f é L-mensurável em A e f existe }
A

O integral indefinido de Lebesgue de f é a função λ : Lf (E) → R,


onde: Z
λ(E) = f dmN .
E

Teorema 3.1.13. Seja f : E → R mensurável em E ⊆ RN , onde f ≥ 0 qtp


em E e/ou f é somável em E. Temos então que

a) L(E) ⊆ Lf (E) e Lf (E) é uma σ-álgebra em E,

b) λ é uma medida em Lf (E),

c) Para qualquer E ∈ L(E), mN (E) = 0 =⇒ λ(E) = 0.

R Se f ≥ 0 qtp em E e/ou f é somável em E e A ⊆ E, deve


Demonstração.
ser claro que A f existe se e só se f é mensurável em A, ou seja,

Lf (E) = {A ⊆ E : f é mensurável em A}

a) Se B, An ∈ Lf (E), os conjuntos ΩB (f ) e ΩAn (f ) são L-mensuráveis.


mostrar que Lf (E) é uma σ-álgebra em E, consideramos C = E\B e
Para S
A= ∞ n=1 An , e notamos que ΩC (f ) e ΩA (f ) são L-mensuráveis, porque


[
ΩC (f ) = ΩE (f )\ΩB (f ) e ΩA (f ) = ΩAn (f ).
n=1
160 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

A inclusão L(E) ⊆ Lf (E) foi estabelecida em 3.1.9.

b) Consideramos apenas o caso f ≥ 0 qtp em E. É evidente que λ ≥ 0 e


λ(∅) = 0, e supomos que os conjuntos An referidos em a) são disjuntos. Os
conjuntos ΩAn (f ) são igualmente disjuntos, e temos
Z ∞
[ ∞
X
f = mN +1 (ΩA (f )) = mN +1 ( ΩAn (f )) = mN +1 (ΩAn (f )), ou
A n=1 n=1

Z ∞
X ∞ Z
X ∞
X
λ(A) = f= mN +1 (ΩAn (f )) = f= λ(An ).
A n=1 n=1 An n=1

Concluı́mos que λ é uma medida positiva.

Deixamos a conclusão da demonstração para o exercı́cio 10.

Exercı́cios.

1. Seja f : RN → R contı́nua em RN , e E ⊆ RN B-mensurável. Prove que f é


Borel-mensurável em E.

2. Mostre que se ER ⊆ RN , e mN (E) = 0, então qualquer função f : RN → R é


somável em E, e E f dmN = 0.

3. Em cada um dos seguintes casos, diga

• Se f é B-mensurável em E, e
R
• Se o integral E f existe, como um integral impróprio de Riemann e/ou
como um integral de Lebesgue.

1
a) f (x) = x2 , E = [1, +∞[.
b) f (x) = log(|x|), E = [−1, +1].
c) f (x) = x1 , E = [0, +∞[.
sen x
d) f (x) = x , E = [0, +∞[.
e) f (x) = (+∞) dir(x), E = R.
f) f (x, y) = log(x2 + y 2 ), E = B1 (0).
g) f (x) = g ′ (x), onde g(x) = x2 sen( x12 ), para x 6= 0, e g(0) = 0, com
E = [−1, 1].

4. Prove que a função de Volterra (exemplo 1.6.19) satisfaz a regra de Barrow,


se o integral de F ′ for interpretado no sentido da definição 3.1.1.

5. Suponha que f : RN → R é Riemann-integrável em qualquer E ∈ J (RN ).

a) Mostre que f é contı́nua qtp em RN .


3.1. O Integral de Lebesgue 161

b) Prove que o integral impróprio de Riemann de f em RN existe e é finito


se e só se é absolutamente convergente.
c) Mostre que as funções f : RN → R com integral impróprio de Riemann
em RN absolutamente convergente formam um espaço vectorial, onde o
integral impróprio é uma transformação linear.
d) Prove que o integral impróprio de Riemann de f em RN existe e é finito se
e só se f é somável em RN , e neste caso o integral impróprio de Riemann
de f é o integral de Lebesgue de f .

R ∞ uma função f : R → R tal que o integral impróprio de Rie-


e) Determine
mann −∞ f (x)dx (no sentido referido no exercı́cio 1 da secção 1.5) existe
e é finito, mas f não é somável.

6. Demonstre a proposição 3.1.11. sugestão: Sendo Fα = {x ∈ E : f (x) ≥ α}


e α > 0, aplique a proposição 2.2.22 ao conjunto Fα × ]0, α[.

7. Mostre que E ⊆ RN é L-mensurável se e só se χE é L-mensurável, e nesse


caso,
Z
χE dmN = mN (E).
RN

sugestão: Recorde a demonstração da proposição 2.2.22.

8. Seja f : R → R Lebesgue-mensurável.

a) Se f ≃ g e g é contı́nua em R, f é sempre contı́nua qtp?


b) Se f é contı́nua qtp, existe sempre g contı́nua em R tal que f ≃ g?

9. Demonstre a proposição 3.1.8. sugestão: Como referido no texto, adapte


a demonstração de 1.4.7.

10. Complete a demonstração do teorema 3.1.13.


Rx
11. Seja f : R → R somável, e F (x) = −∞ f dm. Mostre que F é uniforme-
mente contı́nua em R. Generalize este resultado para RN . sugestão: Mostre
que F é contı́nua em R e tem limites em ±∞.

12. Seja f ≥ 0 uma função L-mensurável em RN e λ : Lf (RN ) → [0, ∞] o


respectivo integral indefinido de Lebesgue.

a) Mostre que λ é uma medida completa.


b) λ é sempre regular em B(RN )? sugestão: Considere o integral in-
definido de f (x) = 1/x2 em R, e o conjunto E = {0}.
c) Suponha que f é somável em qualquer compacto K ⊂ RN (dizemos
neste caso que f é localmente somável em RN ). Mostre que o integral
indefinido λ é regular em L(RN ).
162 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

3.2 Limites, Mensurabilidade e Integrais


As vantagens técnicas do integral de Lebesgue sobre o integral de Riemann
tornam-se evidentes quando reconhecemos a facilidade com que a teoria de
Lebesgue trata diversas operações de passagem de limite. Esta facilidade
advém, naturalmente, das propriedades da própria medida de Lebesgue e
da classe dos conjuntos Lebesgue-mensuráveis. A tı́tulo de exemplo, vimos
na secção anterior que o integral indefinido de Lebesgue é uma medida,
simplesmente porque a medida de Lebesgue também o é (3.1.13). Veremos
nesta secção como os teoremas sobre sucessões monótonas de conjuntos men-
suráveis (2.1.13 e 2.1.14) têm como consequência directa três resultados
clássicos sobre integrais e limites:

• O teorema de Beppo Levi,

• O lema de Fatou, e

• O teorema da convergência dominada de Lebesgue.

f
R

RN

Figura 3.2.1: ΩE (m) = ΩE (f ) ∩ ΩE (g), ΩE (M ) = ΩE (f ) ∪ ΩE (g)

Os resultados referidos aplicam-se, essencialmente sem quaisquer alterações,


tanto a funções Lebesgue-mensuráveis, como a funções Borel-mensuráveis,
porque resultam de propriedades comuns a qualquer espaço de medida. Por
esta razão, e como veremos mais adiante, o seu domı́nio de aplicabilidade é
muito mais geral do que esta primeira exposição poderia fazer supor.
Notámos ainda no Capı́tulo 1 que, se f e g são funções não-negativas, as
regiões de ordenadas das funções

m(x) = min{f (x), g(x)} e M (x) = max{f (x), g(x)}

são, respectivamente, a intersecção e a união das regiões de ordenadas de f e


de g. Convenientemente generalizada, esta observação é válida para qualquer
famı́lia numerável de funções e é a chave para mostrar que a mensurabilidade
de funções é sempre preservada em operações de passagem ao limite.
3.2. Limites, Mensurabilidade e Integrais 163

Lema 3.2.1. Dadas funções fn : E → R, onde E ⊆ RN , sejam


g(x) = sup{fn (x) : n ∈ N}, e h(x) = inf{fn (x) : n ∈ N}.
Temos então:

[ ∞
\
a) ΩE (g+ ) = ΩE (fn+ ), e ΣE (g− ) = ΣE (fn− ), e
n=1 n=1
\∞ ∞
[
b) ΣE (h+ ) = ΣE (fn+ ), e ΩE (h− ) = ΩE (fn− ).
n=1 n=1

Demonstração. Supomos primeiro que fn ≥ 0 para qualquer n e escrevemos


para simplificar:
Ωn = ΩE (fn ), Ω = ΩE (g), Σn = ΣE (fn ) e Σ = ΣE (h).
Notamos como óbvio que

[ ∞
\
(1) Ω ⊇ Ωn e Σ ⊆ Σn .
n=1 n=1

Temos agora
(2) Se (x, y) ∈ Ω então 0 < y < g(x), e existe n tal queS0 < y < fn (x) ≤
g(x), ou seja, (x, y) ∈ Ωn . Segue-se assim que Ω ⊆ ∞ n=1 Ωn .
T∞
(3) Se (x, y) ∈ n=1 Σn então 0 < y ≤ fn (x) para qualquerTn, e portanto
0 < y ≤ h(x), ou seja, (x, y) ∈ Σ. Por outras palavras, ∞ n=1 Σn ⊆ Σ.

Concluı́mos de (1), (2) e (3) que



[ ∞
\
Ω= Ωn e Σ = Σn .
n=1 n=1

Se as funções fn mudam de sinal, o lema resulta de aplicar as observações


que acabámos de provar, depois de observar (ver exercı́cio 1) que
g+ = sup fn+ , g− = inf fn− , h+ = inf fn+ e h− = sup fn− .

O próximo teorema é uma consequência directa deste lema.


Teorema 3.2.2. Se as funções fn : E → R são mensuráveis em E, então
as seguintes funções são mensuráveis em E:
a) g(x) = sup{fn (x) : n ∈ N}, h(x) = inf{fn (x) : n ∈ N},
b) G(x) = lim sup fn (x) e H(x) = lim inf fn (x).
n→∞ n→∞

Se f (x) = lim fn (x) para qualquer x ∈ E, então f é mensurável em E, e


n→∞
se a convergência é apenas válida qtp, então f é L-mensurável em E.
164 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Demonstração. Para verificar a) no que diz respeito à função g, observamos


que, de acordo com o lema anterior,

[ ∞
\
ΩE (g+ ) = ΩE (fn+ ) e ΣE (g− ) = ΣE (fn− ).
n=1 n=1

• Como as funções fn são mensuráveis, os conjuntos ΩE (fn+ ) e ΣE (fn− )


são mensuráveis.

• Como os conjuntos ΩE (fn+ ) e ΣE (fn− ) são mensuráveis, os conjuntos


ΩE (g+ ) e ΣE (g− ) são mensuráveis, porque as uniões e intersecções
numeráveis de conjuntos mensuráveis são conjuntos mensuráveis.

Concluı́mos que as funções g+ e g− são mensuráveis, ou seja, g é mensurável.


O caso da função h é inteiramente análogo, e resulta de recordar que

\ ∞
[
+
ΣE (h ) = ΣE (fn+ ) −
e ΩE (h ) = ΩE (fn− ).
n=1 n=1

A alı́nea b) deste teorema é uma consequência directa de a). Tomamos

gn (x) = sup{fk (x) : k ≥ n} e hn (x) = inf{fk (x) : k ≥ n},

e observamos de a) que gn e hn são mensuráveis. É uma propriedade ele-


mentar das sucessões numéricas que

G(x) = lim sup fn (x) = lim gn (x) = inf{gn (x) : n ∈ N}, e


n→∞ n→∞

H(x) = lim inf fn (x) = lim hn (x) = sup{hn (x) : n ∈ N}.


n→∞ n→∞

Concluı́mos que as funções G e H são mensuráveis, ainda em consequência


de a). A afirmação final é uma consequência óbvia deste facto, porque

f (x) = lim fn (x) em E =⇒ f (x) = G(x) = H(x) em E,


n→∞

e se a convergência é válida apenas qtp então f ≃ G em E.

Vimos logo no inı́cio do capı́tulo 1 que a operação de integração não


pode ser sempre trocada com a de passagem ao limite. Existem no entanto
circunstâncias razoavelmente gerais onde essa troca é possı́vel, e passamos
a enunciar e demonstrar um conjunto de resultados de grande importância
que formalizam e tornam precisa esta observação. Estes resultados são, em
larga medida, consequência directa do teorema da convergência monótona
de Lebesgue (2.1.13), ou seja, da propriedade “essencial” de σ-aditividade.
3.2. Limites, Mensurabilidade e Integrais 165

Teorema 3.2.3 (Teorema de Beppo Levi). (3 ) Se as funções fn : E →


[0, +∞] são mensuráveis em E ⊆ RN e formam uma sucessão crescente,
então fn (x) ր f (x), onde f é mensurável em E e
Z Z
lim fn dmN = lim fn dmN .
E n→∞ n→∞ E

Demonstração. Sabemos que f (x) = sup{fn (x) : n ∈ N} é mensurável, de


acordo com 3.2.2, precisamente porque

[
ΩE (f ) = ΩE (fn ).
n=1

As funções fn ≥ 0 formam uma sucessão crescente, donde ΩE (fn ) ր ΩE (f ).


Segue-se do teorema da convergência monótona (2.1.13) que
Z Z
mN +1 (ΩE (fn )) → mN +1 (ΩE (f )), ou seja, fn dmN → f dmN .
E E

Exemplo 3.2.4.
Seja f a função nula fora de ]0, 1[, e tal que f (x) = √1x , quando 0 < x < 1.
R1
Observámos no exemplo 3.1.2.2 que o integral 0 f (x)dx existe e é igual a 2.
Sendo Q ∩ ]0, 1[ = {q1 , q2 , · · · }, consideramos
n
X ∞
X
1 1
gn (x) = k
f (x − qk ) ր g(x) = f (x − qk ).
2 2k
k=1 k=1

É relativamente simples verificar (ver, por exemplo, o exercı́cio 5 da secção


R2
anterior) que as funções gn são B-mensuráveis, os integrais 0 gn (x)dx existem,
e podem ser calculados como integrais impróprios de Riemann:
Z 2 Z 2 Xn Z 2 Xn
1 1
gn dm = gn (x)dx = k
f (x − qk )dx = k−1
ր 1.
0 0 2 0 2
k=1 k=1
R2
Concluı́mos do teorema de Beppo Levi que g é B-mensurável e 0 gdm = 1.
Em particular, g é finita qtp, Rum facto que à partida pode parecer difı́cil de
x
estabelecer. A função G(x) = −∞ gdm pode ser calculada integrando a série
termo-a-termo, e é dada por

X∞ Z x  0,√ se x ≤ 0
1
G(x) = F (x − qn ), onde F (x) = f dm = 2 x, se 0 ≤ x ≤ 1 .
2n −∞ 
n=1 2, se x ≥ 1
Note-se que g é ilimitada em qualquer subintervalo não trivial de [0, 1], e por-
tanto o seu integral de Lebesgue não é um integral impróprio de Riemann.
3
Beppo Levi, 1875-1961, matemático italiano de origem judaica, estudou em Turim,
onde teve como professores, entre outros, Vito Volterra e Giuseppe Vitali. Foi professor das
universidades de Cagliari, Parma e Bolonha, donde foi demitido em 1938 pelo regime de
Mussolini. Emigrou para a Argentina em 1939, e teve um papel central no desenvolvimento
da Matemática no seu paı́s de adopção. Este teorema foi publicado em 1906.
166 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

O teorema de Beppo Levi é aplicável a sucessões decrescentes de funções,


desde que as funções em causa sejam somáveis a partir de certa ordem.
Teorema 3.2.5 (Teorema de Beppo Levi (II)). Se as funções fn : E →
[0, +∞] são mensuráveis em E ⊆ RN e formam uma sucessão decrescente,
então fn (x) ց f (x), onde f é mensurável em E. Se f1 é somável, então
Z Z
lim fn dmN = lim fn dmN .
E n→∞ n→∞ E

Demonstração. f (x) = inf{fn (x) : n ∈ N} é mensurável, de acordo com


3.2.2, porque

\
ΣE (f ) = ΣE (fn ).
n=1

As funções fn ≥ 0 formam uma sucessão decrescente, donde ΣE (fn ) ց


ΣE (f ). Como f1 é somável temos mN +1 (ΣE (f1 )) < +∞ e concluı́mos de
2.1.14 e 3.1.12 que:
Z Z
mN +1 (ΣE (fn )) → mN +1 (ΣE (f )), i.e., fn dmN → f dmN .
E E

O limite inferior de uma sucessão de funções é sempre o limite de uma


sucessão crescente, à qual podemos aplicar o teorema de Beppo Levi. Obte-
mos, assim, a desigualdade conhecida como

Lema 3.2.6 (Lema de Fatou). (4 ) Se as funções fn : E → [0, +∞] são


mensuráveis em E ⊆ RN , então
Z Z
lim inf fn dmN ≤ lim inf fn dmN .
E n→∞ n→∞ E

Demonstração. Conforme notámos na demonstração de 3.2.2,

se hn (x) = inf{fk (x) : k ≥ n} então hn (x) ր lim inf fn (x).


n→∞

Como hn ≥ 0, segue-se do teorema de Beppo Levi que


Z Z
(1) hn dmN → lim inf fn dmN .
E E n→∞

Da monotonia do integral em relação à integranda segue-se que


Z Z
hn dmN ≤ fk dmN , para qualquer k ≥ n, ou
E E
4
Pierre Joseph Louis Fatou, 1878-1929, matemático francês. Fatou referiu um lema
muito semelhante a este num artigo publicado em 1906.
3.2. Limites, Mensurabilidade e Integrais 167
Z Z
(2) hn dmN ≤ inf{ fk dmN : k ≥ n}.
E E
Deve ser claro das observações feitas na demonstração de 3.2.2 que
Z Z
inf{ fk dmN : k ≥ n} → lim inf fn dmN .
E n→∞ E

Passando ao limite na desigualdade (2) e usando (1), obtemos


Z Z
lim inf fn dmN ≤ lim inf fn dmN .
E n→∞ n→∞ E

Deixamos como exercı́cio a seguinte versão do lema de Fatou para o


limite superior de uma sucessão de funções, que é consequência de 3.2.5.
Teorema 3.2.7 (Lema de Fatou (II)). Se as funções fn : E → [0, +∞] são
mensuráveis em E ⊆ RN , e existe uma função somável F : E → [0, +∞] tal
que fn (x) ≤ F (x), qtp em E, então
Z Z
lim sup fn dmN ≤ lim sup fn dmN .
n→∞ E E n→∞

Este resultado, e o lema de Fatou, permitem-nos obter uma versão pre-


liminar do que é, seguramente, um dos resultados mais centrais da teoria
da integração de Lebesgue.
Teorema 3.2.8 (Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue). (5 )
Suponha-se que
a) As funções fn : E → R são L-mensuráveis em E,

b) Existe uma função somável F : E → [0, +∞] tal que |fn (x)| ≤ F (x),
qtp em E, e

c) f (x) = lim fn (x) qtp em E.


n→∞

Neste caso, f é L-mensurável e somável em E, e


Z Z
f dmN = lim fn dmN .
E n→∞ E

Demonstração. Supomos que as funções fn são não-negativas, deixando o


caso geral para os exercı́cios. Os limites superior e inferior da sucessão dos
integrais de fn existem sempre, e satisfazem
Z Z Z
lim inf fn dmN ≤ lim sup fn dmN ≤ F dmN < ∞.
n→∞ E n→∞ E E
5
Publicado por Lebesgue, em 1908.
168 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Aplicamos os teoremas 3.2.6 e 3.2.7 à sucessão de funções fn , para obter


Z Z
lim inf fn dmN ≤ lim inf fn dmN ≤
E n→∞ n→∞ E
Z Z
≤ lim sup fn dmN ≤ lim sup fn dmN .
n→∞ E E n→∞

O resultado é agora imediato, porque, por hipótese,

lim inf fn ≃ lim sup fn ≃ f em E.


n→∞ n→∞

Observações 3.2.9.
1. No enunciado do teorema de Beppo Levi podemos supor que as desigualdades
0 ≤ fn (x) ≤ fn+1 (x) e a relação fn (x) ր f (x) são válidas apenas qtp em E.
Definindo os conjuntos An e A por

[
An = {x ∈ E : fn (x) < 0 ou fn+1 (x) < fn (x)} e A = An ,
n=1

é claro que mN (A) = 0. Definindo também



fn (x), se x 6∈ A
gn (x) =
0, se x ∈ A

temos 0 ≤ gn (x) ≤ gn+1 (x) e gn (x) ր g(x) para qualquer x ∈ E. É imediato


que gn ≃ fn em E, e portanto as funções gn e g são L-mensuráveis em E.
É também claro que se x 6∈ A então fn (x) = gn (x) → g(x), e em particular
g ≃ f em E. Segue-se do teorema de Beppo Levi na forma 3.2.3 que
Z Z Z Z
fn dmN = gn dmN → gdmN = f dmN .
E E E E

2. É igualmente simples adaptar de forma análoga o enunciado do teorema de


Beppo Levi (II).

Deve também notar-se que estes resultados sobre limites e integrais são
com frequência indispensáveis ao estudo de funções definidas como integrais
paramétricos, ou seja, funções φ dadas por expressões do tipo:
Z
φ(x) = f (x, y)dy.
E

Por exemplo, supondo que x ∈ A ⊆ RN , y ∈ E ⊆ RM e f é contı́nua em


A × E, a questão da continuidade de φ em x0 ∈ A reduz-se ao estudo da
identidade
Z Z Z
lim f (x, y)dy = lim f (x, y)dy = f (x0 , y)dy.
x→x0 E E x→x0 E
3.2. Limites, Mensurabilidade e Integrais 169

Para aplicar resultados que enunciámos e demonstrámos para sucessões de


funções a problemas deste tipo, deve recordar-se que a usual definição de
limite de funções pode formular-se em termos de limites de sucessões, e.g.,:

3.2.10. Se f : U → R, U ⊆ RN é aberto e a ∈ U , então limx→a f (x) = b se


e só se, para qualquer sucessão com termo geral xn ∈ U \{a},

xn → a =⇒ f (xn ) → b.

A tı́tulo de ilustração, seja I ⊆ R aberto, E ⊆ R e f : I × E → R. Para cada


s ∈ I, definimos fs : I → R por fs (t) = f (s, t). Suponha-se que ψ : E → R
é somável em E e, para qualquer s ∈ I, fs é mensurável em E e |fs | ≤ ψ.
Se s0 ∈ I, temos então que
Z Z
lim f (s, t) = g(t) =⇒ f (s, t)dt → g(t)dt.
s→s0 E E

Para provar esta afirmação, basta considerar sucessões sn → s0 , e aplicar o


teorema 3.2.8 às funções gn dadas por gn (t) = f (sn , t).

Exemplos 3.2.11.
1. continuidade de um integral paramétrico: Vimos já que a função
2
dada por ψ(t) = e−t é somável em R. Estudamos agora a continuidade do
integral paramétrico dado por(6 )
Z
2
F (s) = e−t cos(st)dt.
R

2 2 2
Com f (s, t) = e−t cos(st), temos |f (s, t)| = |e−t cos(st)| ≤ e−t = ψ(t) e, em
particular, F está definida em R. Temos igualmente para qualquer s0 ∈ R que
f (s, t) → f (s0 , t) quando s → s0 , porque f é contı́nua em R2 . Podemos por
isso concluir que
Z Z
−t2 2
lim F (s) = lim e cos(st)dt = e−t cos(s0 t)dt = F (s0 )
s→s0 R s→s0 R

2. derivada de um integral paramétrico: Quando ω > 0, o integral


Z ∞
G(ω) = e−ωt sen(t2 )dt
0

é um integral impróprio de Riemann absolutamente convergente, porque


Z ∞
1
|e−ωt sen(t2 )| ≤ e−ωt e e−ωt dt = .
0 ω
6
Este integral é, como veremos, a parte real da transformada de Fourier de ψ.
Note do exercı́cio 9 que podemos facilmente estabelecer a sua continuidade uniforme em
R sem invocar o teorema 3.2.8.
170 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Para calcular a derivada de G, consideramos o quociente


Z ∞ −(ω+s)t Z ∞ −st
G(ω + s) − G(ω) e − e−ωt e − 1 −ωt
= sen(t2 )dt = e sen(t2 )dt.
s 0 s 0 s
Repare-se que neste cálculo o limite em questão é calculado com ω > 0 fixo.
Um cálculo elementar mostra que
e−st − 1 −ωt
f (s, t) = e sen(t2 ) → −te−ωt sen(t2 ) quando s → 0 e,
s
supondo agora que |s| ≤ ω/2, temos igualmente
e−st − 1 −ωt
|f (s, t)| = | e sen(t2 )| ≤ te−ωt/2 = ψ(t).
s
A função ψ é também somável em E = [0, ∞[ (porquê?), e podemos portanto
concluir de 3.2.8 que
Z ∞ −(ω+s)t Z ∞
e − e−ωt
G′ (ω) = lim sen(t2 )dt = − te−ωt sen(t2 )dt.
s→0 0 s 0

Exercı́cios.

1. Suponha que fn : E → R, g(x) = sup{fn (x) : n ∈ N} e h(x) = inf{fn (x) :


n ∈ N}. Mostre que

g + (x) = sup{fn+ (x) : n ∈ N}, g − (x) = inf{fn− (x) : n ∈ N}, e

h+ (x) = inf{fn+ (x) : n ∈ N}, h− (x) = sup{fn− (x) : n ∈ N}.

R o teorema de Beppo Levi é válido para funções fn : E → R,


2. Mostre que
desde que E f1 dmN > −∞.

3. Mostre que a região de ordenadas da função g definida no exemplo 3.2.4 é


σ-elementar, e portanto g é Borel-mensurável.

4. Demonstre o teorema 3.2.7.

5. Mostre que a desigualdade estrita é possı́vel no lema de Fatou e em 3.2.7.

6. O Lema de Fatou (II) tem como uma das hipóteses a condição


(i) fn (x) ≤ F (x), qtp em E, onde F é somável em E.
Verifique se esta condição pode ser substituı́da por
R
(ii) E fn dmN < K < ∞, para qualquer n ∈ N.

7. Demonstre o teorema da convergência dominada para fn : E → R.

8. Suponha que f : R → R é diferenciável em R, e mostre que f ′ é B-mensurável


em R.
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 171

9. Verifique os detalhes dos cálculos indicados na discussão dos exemplos 3.2.11.


Mostre igualmente que a função F é uniformemente contı́nua em R sem invocar
o teorema 3.2.8.

10. Calcule Z 
n
x n x
lim 1− e 2 dx.
n→+∞ 0 n

11. Calcule a derivada da função


Z ∞
e−t
F (s) = sen(st)dt.
0 t

3.3 O Teorema de Fubini-Lebesgue


A teoria de integração de Lebesgue inclui uma solução particularmente ele-
gante para o problema do cálculo da medida de um conjunto por integração
da medida das suas secções. Trata-se do Teorema de Fubini-Lebesgue(7 ),
que passamos a estudar.
As secções de um conjunto E ⊆ RN resultam de intersectar E com
“planos” de dimensão M < N de tipo especial. Antes de apresentarmos
uma definição mais precisa desta noção de secção, é conveniente analisarmos
alguns casos mais especı́ficos.
Exemplos 3.3.1.
1. Se E ⊆ R2 , as secções de E resultam fixar uma das duas coordenadas dos
pontos de E, ou seja, de intersectar E com rectas horizontais ou verticais (ver
figura 3.3.1). Designando por α e β, respectivamente, as rectas com equações
x = a e y = b, obtemos os conjuntos
b a = E ∩ α = {(a, y) : (a, y) ∈ E} e E
E b b = E ∩ β = {(x, b) : (x, b) ∈ E}
1 2

É no entanto mais conveniente considerar as projecções destes conjuntos em R


como as verdadeiras “secções” de E, ou seja, tomar como secções os conjuntos

E1a = {y ∈ R : (a, y) ∈ E} e E2b = {x ∈ R : (x, b) ∈ E}

Repare-se que neste caso E b t é o conjunto formado pelos pontos de E com


i
t b t em R.
coordenada i igual a t e Ei é a projecção (evidente) de Ei

2. Se E ⊆ R3 , e escrevendo x ∈ R3 na forma x = (x1 , x2 , x3 ), as secções de E


obtém-se agora de fixar uma ou duas das coordenadas dos pontos de E, ou seja,
7
De Guido Fubini, 1879-1943, matemático italiano de origem judaica, refugiado nos
EUA em 1939, depois de demitido da sua posição na Universidade de Turim. A versão
moderna deste teorema foi descoberta no perı́odo 1906-1907 por Fubini e Beppo Levi, mas
o princı́pio subjacente, dito “de Cavalieri”, do matemático italiano Bonaventura Francesco
Cavalieri, 1598 - 1647, já era conhecido por Arquimedes.
172 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

x=a

E1a
E

y=b

E2b

Figura 3.3.1: E1a e E2b são secções do conjunto E.

de intersectar E com planos paralelos a um dos planos coordenados (equação


xi = a) ou com rectas paralelas a dois dos planos coordenados (sistema xi = a
e xj = b). Adaptando a notação introduzida no exemplo anterior, temos, e.g.,
(a,b)
E3c = {(x, y) ∈ R2 : (x, y, c) ∈ E} e E(1,2) = {z ∈ R3 : (a, b, z) ∈ E}

3
a) Se E ⊂ R3 é a esfera centrada na origem de raio 4, então E3 é o cı́rculo
unitário em R2 , porque

3
E3 = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y 2 + 3 ≤ 4} = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y 2 ≤ 1}.

(0, 3)
Analogamente, a secção E(1,3) é o intervalo [−1, +1], porque

(0, 3)
E(1,3) = {y ∈ R : 0 + y 2 + 3 ≤ 4} = {y ∈ R : y 2 ≤ 1} = [−1, +1].

b) Se E ⊂ R3 é a região de ordenadas de f : R2 → R dada por f (x, y) =


x2 + |y|, então E2−1 é a região de ordenadas em R da função que podemos
designar g = f2−1 : R → R, dada por f1−1 (x) = f (x, −1) = g(x) = x2 + 1,
porque
√ √
E1 3 = {(y, z) ∈ R2 : 0 < z < f ( 3, y)} = {(y, z) ∈ R2 : 0 < z < 3 + |y|}
Neste caso, as secções do tipo E3λ têm um significado muito particular,
porque, e.g.,
E31 = {(x, y) ∈ R2 : 0 < 1 < f (x, y)} = f −1 (]1, ∞])
Por palavras, a secção E3λ é o conjunto onde f > λ. As secções do tipo
(a,b)
E(1,2) são especialmente simples, porque são sempre intervalos:
(a,b)
E(1,2) = {z ∈ R : 0 < λ < f (a, b)} =]0, f (a, b)[
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 173

3. Quando a dimensão do espaço em causa é superior a 3, a variedade de con-


juntos a que podemos chamar “secções” é ainda maior. Supondo E ⊆ R5 ,
é razoável fixar, por exemplo, a 2a e a 4a coordenada, o que corresponde a
intersectar E com um “plano” de dimensão 3, para obter uma secção do tipo
(a,b)
E(2,4) = {(x, y, z) ∈ R3 : (x, a, y, b, z) ∈ E}.

As usuais funções “de projecção” πi : RN → R, onde 1 ≤ i ≤ N e


πi (x) = xi quando x = (x1 , x2 , · · · , xN ), são úteis para tornarmos estas
noções mais precisas. Na realidade, é fácil ver que se E ⊆ R2 então, quando
(i, j) = (1, 2) e quando (i, j) = (2, 1),
  
b a = π −1 (a) ∩ E e E a = πj E
E ba = πj π −1 (a) ∩ E
i i i i i

O caso de secções de conjuntos em espaços de dimensão superior a 2 re-


quer no entanto a generalização das noções de ı́ndice i e de projecção πi
subjacentes à observação que acabámos de fazer para R2 .
Definição 3.3.2 (Índices e projecções). Um ı́ndice-K (em RN ) é um K-
tuplo de naturais I = (i1 , i2 , · · · , iK ), onde 1 ≤ i1 < i2 < · · · < iK ≤ N .
Dizemos neste caso que a função πI : RN → RK dada por

πI (x) = (πi1 (x), · · · , πiK (x)).

é uma projecção. Sendo N = K + M , o ı́ndice complementar de I,


designado I c , é o ı́ndice-M formado pelos naturais j1 < · · · < jM ≤ N que
não estão em {i1 , i2 , · · · , iK }.
Exemplo 3.3.3.
Se N = 5 e I = (2, 4), temos I c = (1, 3, 5). Repare-se que a secção de E ⊆ R5
referida no exemplo 3.3.1.3 é
(a,b) 
E(2,4) = πI c πI−1 (E)

Qualquer elemento x ∈ RN fica unicamente determinado pelas suas pro-


jecções t = πI (x) ∈ RK e y = πI c (x) ∈ RM , porque as componentes de x
resultam de uma simples permutação das componentes de u = (t, y). É por
isso conveniente introduzir
Definição 3.3.4. Seja I um ı́ndice-K em RN e N = K + M . As funções
ΠI : RN → RK × RM e ρI : RK × RM → RN (8 ) são dadas por

ΠI (x) = (πI (x), πI c (x)) e ρI = Π−1


I .
8
Os sı́mbolos πI e ρI não incluem qualquer referência ao espaço RN subjacente, para
não sobrecarregar excessivamente a notação, mas note que esta opção causa ambiguidade.
174 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

x = ρI (t, y) ⇐⇒ (t, y) = ΠI (x) ⇐⇒ t = πI (x) e y = πI c (x).

Exemplos 3.3.5.
1. Se I = (2, 4), πI : R5 → R2 é dada por

πI (x) = (x2 , x4 ), onde x = (x1 , x2 , x3 , x4 , x5 ).

Neste caso, I c = (1, 3, 5), πI c : R5 → R3 e πI c (x) = (x1 , x3 , x5 ). A função


ρI : R2 × R3 → R5 é dada por

ρI (t, y) = ρI ((t1 , t2 ), (y1 , y2 , y3 )) = (y1 , t1 , y2 , t2 , y3 ).

2. As secções de um dado conjunto E podem ser facilmente expressas em termos


das funções de projecção que acabámos de referir. Se E ⊆ R2 e x0 , y0 ∈ R então

{x ∈ R : (x, y0 ) ∈ E} = π1 (π2−1 (y0 ) ∩ E), e

{y ∈ R : (x0 , y) ∈ E} = π2 (π1−1 (x0 ) ∩ E).

3. Se E ⊆ R3 e y0 ∈ R, então

{(x, z) ∈ R2 : (x, y, z) ∈ E} = π(1,3) (π2−1 (y0 ) ∩ E).

4. Se E ⊆ R5 e (y0 , u0 ) ∈ R2 , e escrevendo α = (2, 4), αc = (1, 3, 5), então


−1
{(x, z, v) ∈ R3 : (x, y0 , z, u0 , v) ∈ E} = π(1,3,5) (π(2,4) (u0 , v0 ) ∩ E).

A definição seguinte formaliza estas ideias.

Definição 3.3.6 (Secções de E ⊆ RN ). Seja E ⊆ RN , I = (i1 , i2 , · · · , iK )


um ı́ndice-K em RN , t ∈ RK , e M = N − K. Dizemos então que o conjunto

EIt = πI c (πI−1 (t) ∩ E) = {y ∈ RM : ρI (t, y) ∈ E}.

é uma secção-M de E, ou mais simplesmente uma secção de E.


Exemplos 3.3.7.
1. Seja Ω ⊂ R3 a região de ordenadas de f : R2 → R. Escrevemos os pontos de
R3 na forma v = (x, y, z) e observamos que se f ≥ 0 então:
• Ωx1 0 = π(2,3) ({(x0 , y, z) ∈ Ω}) = {(y, z) : 0 < z < f (x0 , y)} é a região de
ordenadas da função gx0 : R → R, dada por gx0 (y) = f (x0 , y).
• Ωy20 = π(1,3) ({(x, y0 , z) ∈ Ω}) = {(x, z) : 0 < z < f (x, y0 )} é a região de
ordenadas da função hy0 : R → R, dada por hy0 (x) = f (x, y0 ).
• Ωz30 = π(1,2) ({(x, y, z0 ) ∈ Ω}) = {(x, y) : 0 < z0 < f (x, y)} é o conjunto
de pontos onde f é maior do que z0 .
(x ,y )
• Ω(1,2)
0 0
= π3 ({(x0 , y0 , z) ∈ Ω} = {z : 0 < z < f (x0 , y0 )}
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 175

R z = f (x0 , y) = fx0 (y)

R
x0

Figura 3.3.2: A secção Ωx1 0 é a região de ordenadas de fx0 .

(x ,z )
• Ω(1,3)
0 0
= π2 ({(x0 , y, z0 ) ∈ Ω} = {y : 0 < z0 < f (x0 , y) é o conjunto onde
a função fx0 dada por fx0 (t) = f (x0 , t) é maior do que z0 .
(y ,z )
• Ω(2,3)
0 0
= π1 ({(x, y0 , z0 ) ∈ Ω} = {x : 0 < z0 < f (x, y0 ) é o conjunto onde
a função f y0 dada por f y0 (t) = f (t, y0 ) é maior do que z0 .

2. Considere-se a bola S = x ∈ RN : kxk ≤ R ⊂ RN e seja y ∈ RK , onde
K < N e kyk < R. Se I é um qualquer ı́ndice-K, é fácil reconhecer que a
secção SIy é igualmente uma bola, dada por
 n p o
SIy = z ∈ RN −K : kzk2 + kyk2 ≤ R2 = z ∈ RN −K : kzk2 ≤ R2 − kyk2 .

Se as secções EIt ⊆ RM são mensuráveis, podemos determinar as respec-


tivas medidas AI (t) = mM (EIt ) e AI é uma função em RK . O teorema de
Fubini-Lebesgue que passamos a enunciar garante que, se o conjunto E é
L-mensurável, então o integral de AI existe e é a medida de E.

Teorema 3.3.8 (Teorema de Fubini-Lebesgue (I)). Seja E ∈ L(RN ), 1 ≤


K < N , t ∈ RK , M = N − K e seja ainda I = (i1 , i2 , · · · , iK ) um ı́ndice-K
em RN . Temos então que

a) Os conjuntos EIt ⊂ RM são L-mensuráveis, para quase todo o t ∈ RK ,

b) A função AI (t) = mM (EIt ) é L-mensurável em RK e


Z
AI dmK = mN (E).
RK

Exemplo 3.3.9.
176 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Designamos por E a região de ordenadas da função f : R2 → R dada por


f (x, y) = log(x2 + y 2 ), no conjunto B1 (0). Se z < 0, as secções E3z são
z
cı́rculos, de raio r = e 2 , donde A3 (z) = πez . Supondo provado o teorema
3.3.8, a medida do conjunto E é dada, portanto, por
Z 0 Z 0
m3 (E) = A3 (z)dm = πez dm,
−∞ −∞

que pode ser calculado como um integral impróprio de Riemann. Temos, assim,
Z 0
0
m3 (E) = lim πet dm = lim π et z = π.
z→−∞ z z→−∞

ACRESCENTAR AQUI O EXEMPLO DA LEI DE GAUSS A DUAS DI-


MENSÕES: Considere-se a função f (x, y) = ex2.y2, e seja Bn = Bn (0) a bola
centrada na origem com raio n. A função f é Riemann-integrável em Bn , e
podemos calcular o respectivo integral usando, por exemplo, as secções obtidas
com z constante: Como Bn . R2, concluı́mos que o integral de Lebesgue de
f em R2 é igual a . Observe-se que o mesmo cálculo, mas executado agora
com os conjuntos An = [.n, n] ¡¿ [.n, n], conduz necessariamente ao mesmo
resultado, i.e., Obtemos assim a identidade clássica:

O teorema de Fubini-Lebesgue é imediato quando E é um rectângulo-N .


Suponha-se que E = R = I1 × · · · IN , onde os conjuntos Ik são intervalos
em R, e seja I um ı́ndice-K em RN , com I = (i1 , i2 , · · · , iK ), e I c =
(j1 , j2 , · · · , jM ). É natural dizer que os conjuntos

RI = πI (R) = Ii1 × · · · IiK ⊆ RK e RI c = πI c (R) = Ij1 × · · · IjM ⊆ RM

são projecções de R, e é evidente que mN (R) = mK (RI )mM (RI c ). O cálculo


das secções RIt e da função AI é muito simples, e conduz a
 
RI c , quando t ∈ RI mM (RI c ), quando t ∈ RI
RIt = donde AtI =
∅, quando t 6∈ RI 0, quando t 6∈ RI

Concluı́mos que
Z Z
AI (t)dmK = mM (RI c )dmK = mM (RI c )mK (RI ) = mN (R).
Rk RI

Note que podemos escrever AI (t) = mM (RI c )χRI (t), e portanto a


função AI é múltipla da função caracterı́stica de RI . Obtivémos assim
o seguinte resultado preliminar:
Lema 3.3.10. Seja R um rectângulo-N , e I um ı́ndice-K em RN . Sejam
ainda RI e RI c as projecções acima referidas. Temos então que:

a) As secções RIt são rectângulos-M para qualquer t ∈ RK , sendo que


RIt = RI c quando t ∈ RI , e RIt = ∅ quando t 6∈ RI . Portanto,
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 177
Z
b) AI = mM (RI c )χRI é B-mensurável, e AI (t)dmK = mN (R).
Rk

Usaremos com frequência as seguintes observações elementares.

Lema 3.3.11. Suponha-se que I é um ı́ndice-K em RN e t ∈ RK . Se


Eα ⊆ RN para qualquer α ∈ J, temos:
[ [
a) Se A = Eα , então AtI = (Eα )tI .
α∈J α∈J
\ \
b) Se B = Eα , então BIt = (Eα )tI .
α∈J α∈J
c
c) Se E ⊆ RN então (E c )tI = EIt .

Demonstração. Provamos apenas a), a tı́tulo de exemplo. Seja ρI : RK ×


RM → RN a bijecção definida em 3.3.4. Notamos que
[
y ∈ AtI ⇔ ρI (t, y) ∈ Eα ⇔ Existe α ∈ J tal que ρI (t, y) ∈ Eα ⇔
α∈J
[
⇔ Existe α ∈ J tal que y ∈ (Eα )tI ⇔ y ∈ (Eα )tI .
α∈J

As restantes afirmações são também de verificação imediata.

Para demonstrar o teorema de Fubini-Lebesgue (I) na forma 3.3.8, prova-


remos sucessivamente lemas auxiliares (3.3.12 a 3.3.15) aplicáveis a conjun-
tos E de diversos tipos, começando pelo caso em que E ⊂ RN é elementar.
Em todos estes resultados, supomos que

E ⊆ RN , I é um ı́ndice-K em RN , t ∈ RK e N = K + M.

Lema 3.3.12. Se E é elementar então:

a) Os conjuntos EIt ⊆ RM são elementares para qualquer t ∈ RK .

b) A função AI dada por AI (t) = mM (EIt ) é B-mensurável em RK , e


Z
AI (t)dmK = mN (E).
RK

Demonstração. Como E é elementar, existe uma partição R de E em rectân-


gulos limitados disjuntos. Notamos do lema anterior que
[ [
E= R =⇒ EIt = RIt .
R∈R R∈R

Notamos agora que


178 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

• Como as secções RIt são rectângulos (lema 3.3.10), é claro que as


secções EIt são elementares, o que prova a).
• Os rectângulos RIt são disjuntos (com t e I fixos), e portanto
X
AI (t) = mM (EIt ) = mM (RIt ).
R∈R

Tal como no lema 3.3.10, se RI = πI (R) e RI c = πI c (R), então


X X
AI (t) = mM (RIt ) = mM (RI c )χRI (t).
R∈R R∈R
A função AI é assim uma combinação linear de funções caracterı́sticas
de rectângulos limitados, a sua região de ordenadas é elementar, e AI
é B-mensurável. O cálculo do seu integral (que existe no sentido de
Riemann e se reduz a uma soma de Darboux)(9 ) é imediato:
Z XZ
AI (t)dmK = mM (RI c )χRI (t)dmK =
RK R∈R RK
X X
= mK (RI )mM (RI c ) = mN (R) = mN (E).
R∈R R∈R

Passamos a considerar o caso dos conjuntos σ-elementares:


Lema 3.3.13. Se E é σ-elementar então:
a) Os conjuntos EIt ⊂ RM são σ-elementares para qualquer t ∈ RK .
b) A função AI dada por AI (t) = mM (EIt ) é B-mensurável em RK , e
Z
AI dmK = mN (E).
RK

Demonstração. E é uma união numerável de rectângulos limitados Rj , e



[ ∞
[
E= Rj =⇒ EIt = (Rj )tI .
j=1 j=1

Os conjuntos (Rj )tI são rectângulos limitados, portanto EIt é também σ-


elementar e a função AI (t) = mM (EIt ) está K
Sndefinida em R . Consideramos
os conjuntos elementares auxiliares Un = j=1 Rj , e observamos que:

(1) Un ր E, donde mN (Un ) → mN (E), e


(2) (Un )tI ր EIt , donde mM ((Un )tI ) → mM (EIt ), para qualquer t ∈ RK .
9
Recorde que ainda não estabelecemos a aditividade do integral de Lebesgue em relação
à integranda!
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 179
  
Definimos An,I (t) = mM (Un )tI e AI (t) = mM EIt . Como Un é ele-
mentar, segue-se de 3.3.12 que An,I é B-mensurável, e é claro de (2) que
An,I (t) ր AI (t) = mM EIt e AI é B-mensurável. Concluı́mos:
Z Z
(3) Do teorema de Beppo Levi: An,I dmK → AI dmK .
Z RK RK
(4) De 3.3.12 e (1): An,I dmK = mN (Un ) → mN (E).
RK
Z
Temos de (3) e (4) que AdmK = mN (E).
RK

Consideramos em seguida o caso:

Lema 3.3.14. Se E é de tipo Gδ e mN (E) < ∞ então:

a) Os conjuntos EIt ⊆ RM são de tipo Gδ para qualquer t ∈ RK .

b) A função AI dada por AI (t) = mM (EIt ) é L-mensurável em RK , e


Z
AI dmK = mN (E).
RK

Demonstração. Existem conjuntos abertos Un de medida finita tais que

(i) Un ց E, donde mN (Un ) → mN (E).

Definimos An,I (t) = mM ((Un )tI ), e observamos do lema 3.3.13, e (i), que
Z
(ii) An,I dmK = mN (Un ) → mN (E).
RK

As funções An,I são evidentemente somáveis, e em particular a função A1,I


é finita qtp. É também claro que

\ ∞
\
E= Un =⇒ EIt = (Un )tI , i.e., (Un )tI ց EIt , e EIt é um Gδ .
n=1 n=1

A função AI (t) = mM (EIt ) está, portanto, definida para qualquer t ∈ RK .


Como A1,I (t) < ∞ é finita qtp, temos An,I (t) ց AI (t) qtp, e segue-se do
teorema de Beppo Levi (II) que AI é L-mensurável, e
Z Z
(iii) An,I dmK → AI dmK .
RK RK

O resultado segue-se de comparar (ii) e (iii).

O caso dos conjuntos de medida nula é um corolário directo do anterior.


180 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Lema 3.3.15. Se E ⊆ RN e mN (E) = 0 então:

a) Os conjuntos EIt são nulos para quase todo o t ∈ RK .

b) A função AI dada por AI (t) = mM (EIt ) é nula qtp em RK , donde AI


é L-mensurável, e
Z
AI dmK = mN (E) = 0.
RK

Demonstração. É claro que existe um conjunto B de tipo Gδ tal que mK (B) =


0 e E ⊆ B. Sendo ÃI (t) = mM (BIt ), temos do lema anterior que
Z
ÃI dmK = mN (B) = 0, donde ÃI ≃ 0 em RK .
RK

Como EIt ⊆ BIt , é evidente que

ÃI (t) = 0 ⇐⇒ mM (BIt ) = 0 =⇒ mM (EIt ) = 0 ⇐⇒ AI (t) = 0.

Concluı́mos que AI ≃ 0 em RK , o que termina a demonstração.

Provamos finalmente o teorema de Fubini-Lebesgue (I) para conjuntos


com medida finita.

Demonstração. Recordamos que existe um conjunto B ⊇ E, de tipo Gδ , tal


que mN (B − E) = 0. Com Z = B − E, temos

B = E ∪ Z, e BIt = EIt ∪ ZIt .

Os conjuntos BIt são de tipo Gδ , como observámos em 3.3.14, e vimos, em


3.3.15, que ZIt é um conjunto nulo, qtp em RK . Concluı́mos assim que EIt
é L-mensurável qtp em RK , e

AI (t) = mM (EIt ) ≃ mM (BIt ) = ÃI (t), em RK .

Supondo que mN (E) < ∞, temos também que mN (B) < ∞, e segue-se do
lema 3.3.14 que a função ÃI , e portanto AI , são L-mensuráveis, e
Z Z
AI dmk = ÃI dmk = mN (B) = mN (E).
RK RK

Deixamos a generalização para conjuntos de medida infinita para o exercı́cio


2.

O teorema de Fubini refere-se usualmente ao cálculo de integrais múl-


tiplos por iteração de integrais de mais baixa dimensão. Dada uma função
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 181

f definida em RN +M , e supondo x ∈ RN e y ∈ RM , o teorema de Fubini


esclarece condições em que são válidas as identidades:
Z Z Z Z Z
f (x, y)dxdy = ( f (x, y)dx)dy = ( f (x, y)dy)dx.
RN+M RM RN RN RM

Claro que esta é apenas um caso especial entre muitas identidades análogas,
e por exemplo se N = 1 e M = 2 temos igualmente
Z Z Z Z Z
f (x, y, x)dxdydz = ( f (x, y, z)dy)dxdz = ( f (x, y, z)dxdz)dy.
R3 R2 R R R2

Adaptamos a notação já introduzida para secções de conjuntos ao problema


de designar funções quando fixamos alguns dos seus argumentos.

Exemplos 3.3.16.
(x,z)
1. Dados x, z ∈ R, seja g(y) = f (x, y, z). É natural escrever g = f(1,3) .

2. Dado y ∈ R, se h(x, z) = f (x, y, z) então escrevemos h = f2y .

Mais geralmente, se f : RN → R, I é um ı́ndice-K em RN , N = K + M


e t ∈ RK , então fIt : RM → R é a função dada por

fIt (y) = f (x) onde πI (x) = t e πI c (x) = y, i.e., fIt (y) = f (ρI (t, y)),

onde ρI : RK × RM → RN é a bijecção referida na definição 3.3.4. É fácil


mostrar que a região de ordenadas da função fIt é uma secção da região de
ordenadas de f (figura 3.3.2), e na realidade

Se E = ΩRN (f ) então ΩRM (fIt ) = EIt .

As formas mais clássicas do teorema de Fubini são por isso corolários directos
do teorema 3.3.8, e podemos desde já demonstrar um resultado aplicável a
funções mensuráveis não negativas.

Teorema 3.3.17 (Teorema de Fubini-Lebesgue (II)). Se f : RN → [0, +∞]


é L-mensurável, I é um ı́ndice-K em RN e N = K + M então

a) As funções fIt são L-mensuráveis em RM , para quase todo o t ∈ RK .


R
b) Sendo A(t) = RM fIt dmM , então A é L-mensurável em RK , e
Z Z
A(t)dmK = f (x)dmN .
RK RN
182 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Demonstração. Consideramos a região de ordenadas de f , i.e.,



E = ΩRN (f ) = (x, z) ∈ RN +1 : x ∈ RN e 0 < z < f (x) .

E é L-mensurável, porque f é L-mensurável. Conforme já observámos, I é


também um ı́ndice-K em RN +1 , e se t ∈ RK temos

EIt = ΩRM (fIt ).

Como a secção EIt é L-mensurável para quase todo o t ∈ RK , é evidente


que fIt é igualmente L-mensurável para quase todo o t ∈ RK , e a função AI
dada por
Z
AI (t) = mM +1 (EIt ) = mM +1 (ΩRM (fIt )) = fIt dmM ,
RM

que está definida qtp em RK , é também L-mensurável. Sempre de acordo


com o teorema de Fubini-Lebesgue na forma 3.3.8, temos finalmente que
Z Z Z Z 
t
f dmN = mN +1 (E) = AI dmK = fI dmM dmK .
RN RK RK RM

Exemplo 3.3.18.
A aplicação mais simples deste resultado corresponde ao caso em que escreve-
mos os elementos de RN na forma (x, y) com x ∈ RK e y ∈ RM e tomamos
I = (1, 2, · · · , K), ou seja,
Z Z
fIx (y) = f (x, y), AI (x) = fIx dmM = f (x, y)dy
RM RM
Z Z Z Z 
f (x, y)dmN = AI dmK = f (x, y)dy dx.
RN RK RK RM

Tomando Π = (K + 1, K + 2, · · · , N ), que é um ı́ndice-M , temos então


Z Z
fΠy (x) = f (x, y), AΠ (y) = fΠy dmK = f (x, y)dx
RK RK
Z Z Z Z 
f (x, y)dmN = AΠ dmM = f (x, y)dx dy.
RN RM RM RK

O teorema de Fubini-Lebesgue para funções somáveis é, igualmente, um


corolário simples deste último resultado. No entanto, requer para a sua
demonstração a aditividade do integral de Lebesgue, que ainda não estabe-
lecemos. Será por isso enunciado e demonstrado apenas na secção 3.5. A
demonstração desse resultado utilizará o seguinte corolário de 3.3.17.
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 183

Corolário 3.3.19. Se f : RN → R é L-mensurável, então f é somável


se e só se existe um ı́ndice-K em RN , aqui designado I, tal que a função
AI : RM → R, onde M = N − K, dada por
Z
AI (t) = |f |tI dmM é somável.
RM

Neste caso, se Π é um qualquer ı́ndice-P em RN , e N = P + Q, temos que


a) As funções fΠt são somáveis em RQ , para quase todo o t ∈ RP , e
b) Z Z  Z
|f |tΠ dmQ dmP = |f (x)|dmN .
RP RQ RN

Demonstração. Se I é um ı́ndice-K em RN tal que


Z
AI (t) = |f |tI dmM é somável em RK ,
RM

segue-se do teorema 3.3.17 que f é somável em RN .


Se f é somável, Π é um qualquer ı́ndice-P em RN , N = P + Q, e t ∈ RP ,
temos de acordo com o teorema 3.3.17 que
Z Z Z
AΠ (t) = |f |tI dmQ =⇒ AI (t)dmP = |f |dmN < ∞.
RQ RP RN

Segue-se imediatamente que AΠ é finita qtp em RP , ou seja, as funções fΠt


são somáveis em RQ , para quase todo o t ∈ RP .

A seguinte consequência do teorema de Fubini-Lebesgue é menos óbvia,


mas muito útil, como veremos na próxima secção. A propriedade em causa
não tem paralelo na teoria de Riemann, como já sabemos.
Teorema 3.3.20. Seja E ⊆ RN , e f : E → R uma função L-mensurável
em E. Então os conjuntos F (λ) = {x ∈ E : f (x) > λ} e G(λ) = {x ∈ E :
f (x) < −λ} são L-mensuráveis para quaisquer λ ≥ 0.

Demonstração. Quando λ > 0 é claro que



• F (λ) é uma secção de Ω+
E (f ) = (x, y) ∈ R
N +1 : x ∈ E e 0 < y < f (x) .


• G(λ) é uma secção de Ω−E (f ) = (x, y) ∈ R
N +1 : x ∈ E e 0 > y > f (x) .

Concluı́mos de 3.3.8 que F (λ) e G(λ) são L-mensuráveis, para quase


todo o λ > 0, e existe por isso uma sucessão λn ց λ ≥ 0 tais que F (λn ) e
G(λn ) são L-mensuráveis. É simples constatar que, se λn ց λ, então

[ ∞
[
F (λ) = F (λn ), e G(λ) = G(λn ).
n=1 n=1

Concluı́mos que F (λ) e G(λ) são L-mensuráveis, para qualquer λ ≥ 0.


184 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

RN
F (λ)

Figura 3.3.3: F (λ) = {x ∈ RN : f (x) > λ} é uma secção da região de


ordenadas de f .

O teorema de Fubini-Lebesgue tem um enunciado mais simples para con-


juntos e funções Borel-mensuráveis. Apresentaremos e demonstraremos mais
adiante uma versão abstracta deste teorema esclarecendo esta observação,
mas introduzimos desde já o seguinte resultado, que é relativamente fácil de
provar (exercı́cio 3).
Teorema 3.3.21. Se E é B-mensurável, os conjuntos Eit são B-mensurá-
veis, para todo o t ∈ RK . Se f : E → R é B-mensurável, então os conjuntos
F (λ) = {x ∈ E : f (x) > λ} e G(λ) = {x ∈ E : f (x) < −λ} são B-mensu-
ráveis para qualquer λ ≥ 0.
Observe-se de passagem que os conjuntos F (λ) e G(λ) são imagens in-
versas de intervalos de tipo especial, ou seja,
F (λ) = f −1 (]λ, +∞]) e G(λ) = f −1 ([−∞, −λ[).
Estudaremos na próxima secção a classe de conjuntos cuja imagem inversa
por uma função mensurável é mensurável. O exercı́cio 6 desta secção indica
para já outros tipos de intervalos que pertencem a essa classe.
Exercı́cios.

1. Send f somável em E, prove que as seguintes afirmações são equivalentes:


a) f ≃ 0 em E.
R
b) F f dmN = 0, para qualquer conjunto L-mensurável F ⊆ E.

2. Conclua a demonstração do teorema de Fubini-Lebesgue, generalizando o


resultado para conjuntos de medida infinita.

3. Demonstre o teorema 3.3.21. sugestão: Mostre que a classe dos conjuntos


E ⊆ RN tais que as secções EIt são Borel-mensuráveis é uma σ-álgebra que
contém os abertos.

4. Mostre que χE é B-mensurável se e só se E é B-mensurável. Aproveite para


mostrar que existem funções Riemann-integráveis que não são Borel-mensurá-
veis e funções f ≃ 0 em R que não são Borel-mensuráveis.
3.3. O Teorema de Fubini-Lebesgue 185

5. Sendo f : RN → [0, +∞] L-mensurável, e F (λ) = {x ∈ RN : f (x) > λ},


definimos φ(λ) = mN (F (λ)) para λ ≥ 0. Mostre que φ é L-mensurável, e
Z ∞ Z
φdm = f dmN .
0 RN

Prove que se f é somável então λφ(λ) ≤ A < ∞.

6. Sendo f : E → R mensurável, mostre que os seguintes conjuntos são mensu-


ráveis.
a) f −1 ([λ, +∞]) e f −1 ([−∞, −λ]), se λ > 0.
b) f −1 ({λ}) (que é um conjunto de nı́vel de f ), se λ 6= 0.
c) A imagem inversa f −1 (I) de qualquer intervalo I ⊆ R, desde que 0 6∈ I.
sugestão: No caso em que f é B-mensurável, deve usar o teorema 3.3.21.

7. Seja f : E → R uma função mensurável em E, e S = {x ∈ E : f (x) 6= 0}.


a) Prove que S é mensurável.
b) Prove que f é mensurável em F ⊆ E se e só se F = A ∪ N , onde A ⊆ S
é mensurável, e N ∩ S = ∅.
c) Suponha que f ≥ 0 em E, e mostre que o integral indefinido de f é uma
medida regular em Lf (E) = {A ⊆ E : f é L-mensurável em A}.falso!
2
8.R Considere a função f : RN → [0, +∞[ dada por f (x) = e−|x| . Calcule
RN f dmN . sugestão: Considere primeiro o caso N = 2.

R 2
9. Calcule o integral RN
|x|2 e−|x| dmN .

10. Suponha que f : RN → R é somável, seja λ o respectivo integral indefinido,


e En = {x ∈ RN : f (x) > n}.
a) Prove que mN (En ) → 0, e λ(En ) → 0, quando n → ∞.
b) Mostre que para qualquer ε > 0 existe δ > 0 tal que
Z Z

mN (E) < δ =⇒ f dmN ≤ |f |dmN < ε.
E E
Rx
c) Suponha que N = 1, e F (x) = −∞ f dm. Mostre que para qualquer
ε > 0 existe δ > 0 tal que, se os intervalos Ik =]xk , yk [ são disjuntos,
1 ≤ k ≤ n,(10 )
n
X n
X
(yk − xk ) < δ =⇒ |F (yk ) − F (xk )| < ε.
k=1 k=1

10
Esta propriedade é mais forte do que a continuidade uniforme, como os exemplos em
d) e e) mostram, e foi primeiro observada por Harnack, ainda no século XIX, a propósito
de integrais impróprios absolutamente convergentes. Diz-se continuidade absoluta,
conforme proposto por Vitali em 1905.
186 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

d) Verifique que a função dada por f (x) = x sen(1/x) para x 6= 0 não verifica
a propriedade descrita na alı́nea anterior no intervalo ]0, 1].
e) Verifique que a “escada do diabo”, que é uniformemente contı́nua em R,
não verifica a propriedade referida no intervalo [0, 1].

3.4 Funções Mensuráveis

f
E2 E1
y4

y3 s

y2
y1

E4 E3

Figura 3.4.1: Aproximação do integral de f por uma soma finita.

Os integrais de Lebesgue podem ser aproximados por somas finitas, que


generalizam as somas inferiores de Darboux referidas no Capı́tulo 1. Curio-
samente, a técnica utilizada, descoberta por Lebesgue e ilustrada na figura
3.4.1, utiliza, tal como na teoria de Riemann, partições em intervalos, mas
agora no contradomı́nio da função f . Sendo f : E → [0, +∞] uma função
mensurável, onde E ⊆ RN , consideramos uma partição finita 0 < y1 ≤
y2 ≤ · · · ≤ yn < +∞ do intervalo [0, +∞]. Recordamos que os conjuntos
F (λ) = {x ∈ E : f (x) > λ} são mensuráveis quando λ ≥ 0, e definimos os
conjuntos (ver figura 3.4.1):

 F (yk )\F (yk+1 ) = {x ∈ E : yk < f (x) ≤ yk+1 }, se 1 ≤ k < n
Ek =

F (yn ) = {x ∈ E : yn < f (x)}, se k = n.

Os conjuntos Ek ⊆ RN são claramente mensuráveis e disjuntos. Considera-


mos igualmente os correspondentes conjuntos Rk = Ek ×]0, yk [⊆ RN +1 , que
estão contidos na região de ordenadas Ω de f . Como a medida de Rk é dada
por mN +1 (Rk ) = yk mN (Ek ) e estes conjuntos são também disjuntos, deve
3.4. Funções Mensuráveis 187

ser evidente que


n
! n n Z
[ X X
mN +1 Rk ≤ mN +1 (Ω), i.e., mN +1 (Rk ) = yk mN (Ek ) ≤ f.
k=1 k=1 k=1 E

P
A soma nk=1 yk mN (Ek )(11 ) é na verdade um integral de Lebesgue de
uma função de tipo muito especial. Definindo s : E → R por


 yk , se x ∈ Ek


s(x) = [n ,



 0, se x ∈
6 E k
k=1
Sn
é claro que s é mensurável em E, porque k=1 Rk é a região de ordenadas
de s em E, e temos por isso
Z n
! n n
[ X X
s = mN +1 Rk = mN +1 (Rk ) = yk mN (Ek ).
E k=1 k=1 k=1

A função s aproxima f por defeito, e é o que chamamos uma

Definição 3.4.1 (Função simples). Se E ⊆ S ⊆ RN , e s : S → R, então


dizemos que s é uma função simples em E se e só se s assume um número
finito de valores em E, i.e., se e só se o conjunto s(E) é finito.

Quando s é uma função simples em E então s assume nesse conjunto n


valores distintos α1 < α2 < · · · < αn e os conjuntos Ak = {x ∈ E : s(x) =
αk } são disjuntos. Mais geralmente, diremos que os conjuntos disjuntos
E1 , E2 , · · · , Em formam uma partição apropriada à função simples s se
e só se s é constante em cada um dos conjuntos Ek , e é nula fora da sua
união. Neste caso, s é uma combinação linear das funções caracterı́sticas
dos conjuntos Ek (restritas a E), porque se s(x) = βk quando x ∈ Bk então
m
X
s= βk χEk .
k=1

As funções simples mensuráveis podem caracterizar-se da seguinte forma:

Lema 3.4.2. Se s é simples em E, então s é mensurável em E se e só


existe uma partição apropriada a s formada por conjuntos mensuráveis.

Demonstração. Seja s simples e mensurável. Se s é nula nada temos a


provar, e supomos assim que s assume n valores não nulos α1 < α2 < · · · <
αn , além de poder eventualmente assumir também o valor zero. Sendo
11
Pn As somas de Darboux mencionadas anteriormente são também somas da forma
k=1 yk mN (Ek ), mas nesse caso os conjuntos Ek são rectângulos limitados.
188 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Ak = {x ∈ E : s(x) = αk }, os conjuntos A1 , A2 , · · · , An formam uma


partição apropriada a s, porque são disjuntos e s é nula fora desses conjun-
tos. Sabemos do teorema de Fubini-Lebesgue que as secções da região de
ordenadas de s são mensuráveis, e é fácil verificar que neste caso os conjuntos
Ak são mensuráveis.
Supomos agora que existe uma partição apropriada a s formada pelos con-
juntos mensuráveis disjuntos E1 , E2 , · · · , Em tais que s(x) = βk quando
x ∈ Ek . A região de ordenadas de s em E é dada por

[m  ]0, βk [, se βk > 0
ΩE (s) = Rk , onde Rk = Ek × Ik e Ik = ∅, se βk = 0, e

k=1 ]βk , 0[, se βk < 0.
Concluı́mos que ΩE (s) é uma união finita de conjuntos mensuráveis Rk , e é
mensurável, assim como a função s.
Quando s é uma função simples mensurável, passamos a dizer que P =
{A1 , A2 , · · · , An } é uma partição apropriada à função s apenas quando
P é formada por conjuntos mensuráveis. Para evitar a introdução de ı́ndices
supérfluos, designaremos o valor da função s no conjunto c ∈ P por sc .
Exemplos 3.4.3.
1. A função de Dirichlet é uma função simples mensurável, porque é a função
caracterı́stica do conjunto mensurável Q.
2. Mais geralmente, as funções simples mensuráveis são combinações lineares
finitas de funções caracterı́sticas de conjuntos mensuráveis.

Os integrais de Lebesgue de funções simples mensuráveis são efectiva-


mente somas finitas semelhantes a somas de Darboux.
Proposição 3.4.4. Seja s : E → R simples e mensurável em E ⊆ RN . Se
P é uma partição apropriada a s então:
X
a) s é somável em E se e só se |sc |mN (c) < +∞.
c∈P

b) Se o integral de s em E existe, em particular se s ≥ 0 qtp em E, ou


se s é somável em E, então
Z X
sdmN = sc mN (c).
E c∈P

Demonstração. Se s é uma função simples não-negativa, o conjunto Ω− E (s)


é vazio, e o conjunto Ω+E (s) é a união (finita) dos produtos cartesianos dis-
juntos Rc = c×]0, sc [, onde supomos sem perda de generalidade que sc > 0
para c ∈ P. Temos neste caso
mN +1 (Rc ) = mN +1 (c×]0, sc [) = mN (c)m1 (]0, sc [) = sc mN (c).
3.4. Funções Mensuráveis 189

mN (c)
sc
Rc
sc′
Rc ′
c′′
c c′
Rc′′
sc′′

Figura 3.4.2: mN +1 (Rc ) = |sc |mN (c)

Concluı́mos que
Z [ X X
sdmN = mN +1 ( Rc ) = mN +1 (Rc ) = sc mN (c).
E c∈P c∈P c∈P

Deixamos as restantes afirmações para o exercı́cio 1.


Exemplo 3.4.5.
Num caso como o da figura 3.4.1, existe uma partição P apropriada à função
s ≤ f formada por rectângulos limitados r, e o integral de s é uma soma
(inferior) de Darboux de f , já que
X X
αr mN (r) = αr cN (r), onde αr = inf{f (x) : x ∈ r}.
r∈P r∈P

As seguintes propriedades elementares das funções simples mensuráveis,


e do respectivo integral de Lebesgue, são muito fáceis de estabelecer e serão
depois generalizadas a outras funções mensuráveis.

Proposição 3.4.6. Seja E ⊆ RN , c ∈ R, e s, t : S → R funções simples


mensuráveis em E. Temos então:

a) cs, s+ , s− , |s|, s + t, e st são simples, e mensuráveis em E.

Se s e t são não-negativas em E, ou se s e t são somáveis em E, temos


ainda
Z Z Z
b) Aditividade: (s + t)dmN = sdmN + tdmN .
E E E
190 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue
Z Z
c) Homogeneidade: (cs)dmN = c( sdmN ).
E E

Demonstração. Sejam P e Q partições apropriadas, respectivamente, a s e


a t. A partição P é apropriada a qualquer uma das funções cs, s+ , s− , e |s|,
que são, por isso, simples e mensuráveis. Sendo
[ [
A= r ⊇ {x ∈ E : s(x) 6= 0}, B = r ⊇ {x ∈ E : t(x) 6= 0},
r∈P r∈Q

juntamos o conjunto B\A (onde s = 0) a P para formar P ′ e juntamos A\B


(onde t = 0) a Q para formar Q′ . O refinamento comum R = {p ∩ q : p ∈
P ′ , q ∈ Q′ } é uma partição apropriada às funções s + t e st, que são, por
isso, simples e mensuráveis.
Se s e t são não-negativas, e c ≥ 0, então s + t e cs são, também, não-
negativas. Segue-se de 3.4.4 b) que:
Z X X
(i) (s + t)dmN = (s + t)r mN (r) = (sr + tr )mN (r) =
E r∈R r∈R
X X Z Z
sr mN (r) + tr mN (r) = sdmN + tdmN .
r∈R r∈R E E

Se s e t são somáveis então |s + t| é somável, porque |s + t| ≤ |s| + |t|, e


Z Z Z Z
|s + t| dmN ≤ (|s| + |t|) dmN = |s| dmN + |t| dmN ,
E E E E

de acordo com (i). Concluı́mos, novamente de 3.4.4 b), que (i) também é
válida para funções simples somáveis.

O próximo teorema introduz uma outra caracterização das funções mensu-


ráveis, e permite com frequência estabelecer propriedades destas funções por
generalização das correspondentes propriedades das funções simples mensu-
ráveis. De acordo com este resultado,

as funções mensuráveis são limites pontuais de sucessões de funções


simples mensuráveis.

Teorema 3.4.7. Se f : E → R, onde E ⊆ RN , então f é mensurável


em E se e só existe uma sucessão de funções simples mensuráveis em E,
sn : E → R tais que sn (x) → f (x), e |sn (x)| ր |f (x)|, para qualquer x ∈ E.
Neste caso, se f ≥ 0 ou se f é somável temos ainda que
Z Z
sn dmN → f dmN .
E E
3.4. Funções Mensuráveis 191

Demonstração. Se existe uma sucessão de funções simples mensuráveis sn ,


tais que sn (x) → f (x), para qualquer x ∈ E, então f é mensurável, de
acordo com o teorema 3.2.2. Como |sn (x)| ր |f (x)|, aplicamos o Teorema
de Beppo Levi (se f ≥ 0) ou o Teorema da Convergência Dominada de
Lebesgue (se f é somável) para obter
Z Z
sn dmN → f dmN .
E E

Supomos, portanto, que f é mensurável em E, e passamos a definir a su-


cessão de funções simples mensuráveis sn em causa. Consideramos primei-
ro o caso f ≥ 0, e recordamos do inı́cio desta secção que, dados pontos
0 < y1 < · · · < ym < +∞, é fácil determinar uma função simples mensurável
s ≤ f tomando
m
X
s= yk χEk , onde Ek = f −1 (]yk , yk+1 ]) se k < m e Em = f −1 (]ym , +∞]).
k=1

Escrevendo P = {y1 , y2 , · · · , ym }, designamos por ∆(P) o máximo compri-


mento dos intervalos [yk , yk+1 ], ou seja, ∆(P) = max{yk+1 −yk : 1 ≤ k < m}.
Definimos aqui a sucessão de funções sn a partir de uma sucessão apropriada
de partições Pn = {yn,k : 1 ≤ k ≤ mn }, onde 0 < yn,k < yn,k+1 . Os detalhes
da definição de Pn são em larga medida irrelevantes, e para efeitos desta
demonstração é apenas necessário garantir que:
(1) As partições Pn resultam de sucessivos refinamentos, i.e., Pn ⊂ Pn+1 ,

(2) max Pn ր +∞ e min Pn ց 0, e

(3) ∆(Pn ) → 0.
Estas condições são satisfeitas tomando, por exemplo,
1 k
min Pn = , max Pn = n e yn,k = n , 1 ≤ k ≤ n2n , donde mn = n2n .
2n 2
Por outras palavras, dividimos o intervalo ]0, n] em n2n subintervalos de
comprimento 21n , do tipo ] 2kn , k+1 n
2n ], onde 0 ≤ k < n2 . A correspondente
função sn : E → [0, +∞[ é dada por

n2n
X k  {x ∈ E : 2kn < f (x) ≤ k+12n }, se k < n2
n

sn = χE , com En,k =
2n n,k 
k=1 {x ∈ E : f (x) > n}, se k = n2n

As funções sn são simples e mensuráveis, e é quase evidente que


(4) Como Pn ⊂ Pn+1 , temos sn (x) ≤ sn+1 (x) para qualquer x ∈ E.
Para mostrar que sn (x) → f (x), consideramos os seguintes casos:
192 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

(5) Se f (x) = 0, então sn (x) = 0 → 0 = f (x).

(6) Se f (x) = +∞, então sn (x) = n → +∞ = f (x).

(7) Se 0 < f (x) < +∞ e n > f (x) existe k < n2n tal que
k k+1 1
< f (x) ≤ , donde sn (x) ≤ f (x) < sn (x)+ n e sn (x) → f (x).
2n 2n 2

Concluı́mos de (4) a (7) que sn (x) ր f (x) para qualquer x ∈ E.

Se f : E → R é mensurável, existem funções simples mensuráveis


un (x) ր f + (x) e vn (x) ր f − (x), donde sn (x) = un (x) − vn (x) → f (x)
para qualquer x ∈ E. É claro que

|sn (x)| = |un (x) − vn (x)| = un (x) + vn (x) ր f + (x) + f − (x) = |f (x)|.

Sublinhe-se que a demonstração do teorema anterior não usa directamente a


mensurabilidade da função f , mas apenas a mensurabilidade dos conjuntos
f −1 (]λ, +∞]) e f −1 ([−∞, −λ[) para λ > 0. Podemos por isso provar

Lema 3.4.8. Se f : E → R, onde E ⊆ RN , então as seguintes afirmações


são equivalentes:

a) f é mensurável em E,

b) f −1 (]λ, +∞]) e f −1 ([−∞, −λ[) são mensuráveis para qualquer λ > 0,

c) Existem funções simples mensuráveis sn : E → R tais que sn (x) →


f (x) para qualquer x ∈ E.

Demonstração. Notamos apenas que

• a) ⇒ b), de acordo com 3.3.20 e 3.3.21.

• b) ⇒ c), de acordo com a demonstração do teorema 3.4.7.

• c) ⇒ a), de acordo com 3.2.2.

Passamos a estabelecer diversas propriedades básicas da classe das funções


mensuráveis e do integral de Lebesgue. Baseamo-nos aqui em larga medida
na aproximação de integrais de Lebesgue por integrais de funções simples,
que como já dissémos substitui a aproximação de integrais de Riemann por
somas de Darboux.

Teorema 3.4.9. Se f, g : E → R são mensuráveis em E e c ∈ R, então


3.4. Funções Mensuráveis 193

a) As funções f g e cf são mensuráveis em E.

b) As funções f + g e f − g são mensuráveis nos conjuntos onde estão


definidas. Em particular,

c) Se f, g ≥ 0 em E, então f + g é mensurável em E.

d) Se f e g são finitas em E, então f + g e f − g são mensuráveis em E.

Demonstração. Existem funções simples mensuráveis sn , tn tais que

sn (x) → f (x), tn (x) → g(x), |sn (x)| ր |f (x)|, e |tn (x)| ր |g(x)|.

Temos sn (x)tn (x) → f (x)g(x), para qualquer x ∈ E, já que a indeter-


minação 0 × ∞ pode ser trivialmente levantada(12 ). Concluı́mos que f g
é uma função mensurável em E. Temos também csn (x) → cf (x), para
qualquer x ∈ E, o que termina a verificação de a).
Os casos da soma e da diferença são semelhantes, e ilustramos o tipo de
argumento necessário com a soma, que está definida em E\F , onde

F = {x ∈ E : |f (x)| = ∞, e g(x) = −f (x)} .

Deixamos para o exercı́cio 7 verificar que o conjunto F é mensurável. Supo-


mos as funções sn e tn definidas como na demonstração de 3.4.7, e observa-
mos que

• Quando x ∈ E\F , é óbvio que sn (x) + tn (x) → f (x) + g(x).

• Quando x ∈ F , temos f (x) = +∞ e g(x) = −∞, ou f (x) = −∞


e g(x) = +∞. No primeiro caso, sn (x) = n e tn (x) = −n, e no
segundo caso sn (x) = −n e tn (x) = n. Em ambos os casos, temos
sn (x) + tn (x) = 0 → 0.

Concluı́mos que sn (x) + tn (x) → h(x) para qualquer x ∈ E, onde h é


mensurável em E e a função f + g é a restrição de h a E\F . Como h é nula
fora de E\F , temos ainda que h = f + g é mensurável em E\F .
As afirmações c) e d) são consequências evidentes de b).

A aditividade e homogeneidade do integral, estabelecidas em 3.4.6 para


as funções simples, podem ser generalizadas como se segue.

Teorema 3.4.10. Sejam f, g : E → R mensuráveis em E, e c ∈ R. Se


f, g ≥ 0 em E, ou se f e g são finitas e somáveis em E, então
Z Z Z
a) Aditividade: (f + g)dmN = f dmN + gdmN .
E E E
12
Recorde que f g está definido em E, e convencionámos que 0 × (±∞) = 0.
194 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue
Z Z 
b) Homogeneidade: (cf )dmN = c f dmN .
E E

Demonstração. De acordo com o teorema 3.4.7, existem funções simples


mensuráveis sn e tn tais que sn (x) → f (x), tn (x) → g(x), |sn (x)| ր |f (x)|
e |tn (x)| ր |g(x)|. Por outro lado, a aditividade do integral de funções
simples (estabelecida na proposição 3.4.6) permite-nos concluir que
Z Z Z Z Z
(1) (sn + tn )dmN = sn dmN + tn dmN → f dmN + gdmN .
E E E E E

Para terminar a verificação de a), basta-nos mostrar que


Z Z
(2) (sn + tn )dmN → (f + g)dmN .
E E

Notamos que sn + tn → f + g para qualquer x ∈ E, e dividimos a demon-


stração de (2) em dois casos:

(i) Se f e g são não-negativas, então sn + tn ր f + g, e (2) é consequência


da propriedade de Beppo Levi.

(ii) Se as funções f e g são somáveis, então |sn +tn | ≤ |sn |+|tn | ≤ |f |+|g|,
e a função |f | + |g| é somável, porque, de acordo com (i),
Z Z Z
(|f | + |g|)dmN = |f |dmN + |g|dmN < ∞.
E E E

A afirmação (2) resulta agora do teorema da convergência dominada


de Lebesgue.

A propriedade de homogeneidade pode provar-se para qualquer função


f para a qual exista o respectivo integral de Lebesgue (exercı́cio 5).

Provámos a aditividade do integral para funções somáveis apenas quando


estas são finitas na região de integração, mas esta restrição é em certo sentido
supérflua. Qualquer função somável é finita qtp, e portanto a soma f + g
está definida, e é mensurável e finita em F ⊆ E, onde mN (E\F ) = 0. Se h
é mensurável em E e h ≃ f + g em F , é evidente que
Z Z Z
hdmN = hdmN = (f + g)dmN =
E F F
Z Z Z Z
= f dmN + gdmN = f dmN + gdmN .
F F E E
Veremos na próxima secção como tornear estas dificuldades usando classes
de equivalência determinadas pela relação “≃”.
Registe-se ainda o seguinte corolário do teorema 3.4.7:
3.4. Funções Mensuráveis 195

Corolário 3.4.11. Se f é somável Zem E ⊆ RN e ε > 0 existe uma função


s, simples e somável em E, tal que |f − s|dmN < ε.
E

Demonstração. Como vimos em 3.4.7, existem funções simples mensuráveis


sn tais que sn → f , e |sn | ≤ |f |. A função |f − sn | está definida e é
mensurável em E, e é também somável, porque

|f − sn | ≤ |f | + |sn | ≤ 2|f |.

Como
R |f − sn | → 0, segue-se do teorema da convergência dominada que
E |f − sn |dmN → 0, o que conclui a demonstração.

Os dois resultados seguintes são ainda consequências do teorema 3.4.7.


O primeiro é um complemento interessante do teorema 3.2.2, e a sua de-
monstração é referida nos exercı́cios 8 e 9. A demonstração do segundo está
esboçada no exercı́cio 10.

Teorema 3.4.12. Se as funções fn : E → R são mensuráveis em E ⊆ RN ,


F ⊆ E é o conjunto onde existe lim fn (x) e f (x) = lim fn (x) para x ∈ F ,
n→∞ n→∞
então f é mensurável em F .

Teorema 3.4.13. f : E → R é L-mensurável em E se e só se existe uma


função g : E → R, B-mensurável em E, tal que g ≃ f em E.

A definição de “função mensurável” que usámos até aqui é a definição


original de Lebesgue, mas não é a única possı́vel, e é útil conhecer e explorar
outras alternativas. Recorde-se do lema 3.4.8 que f : E → R é mensurável
se e só se, para qualquer λ > 0,

f −1 (A) é mensurável quando A =]λ, ∞] e quando A = [−∞, −λ[.

Propomo-nos agora estudar a classe dos conjuntos A ⊆ R com imagem


inversa f −1 (A) mensurável, e começamos com um lema abstracto.

Lema 3.4.14. Seja (X, M) um espaço mensurável, E ∈ M um conjunto


M-mensurável, Y um conjunto qualquer, e f : E → Y uma função. Se

A = A ⊆ Y : f −1 (A) ∈ M ,

então A é uma σ-álgebra em Y .

Demonstração. Basta-nos observar que:

• Como f −1 (Y ) = E ∈ M, temos Y ∈ A.

• f −1 (Ac ) = E\f −1 (A), donde A ∈ A ⇒ Ac ∈ A.


196 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue


! ∞
[ [
−1
• f An = f −1 (An ) e, por isso,
n=1 n=1


[ ∞
[
An ∈ A ⇒ f −1 (An ) ∈ M ⇒ f −1 (An ) ∈ M ⇒ An ∈ A.
n=1 n=1

Este lema pode ser aplicado a funções f : E → R, supondo que E ⊆ RN


é mensurável, e conduz facilmente a

Teorema 3.4.15. Seja E ⊆ RN um conjunto mensurável. Se f : E → R,


então as seguintes condições são equivalentes:

a) {x ∈ E : f (x) > λ} é mensurável, para qualquer λ ∈ R.

b) f −1 (I) é mensurável, para qualquer intervalo I ⊆ R.

c) f é mensurável em E.

Demonstração. A classe A = {A ⊆ R : f −1 (A) é mensurável } é uma σ-


álgebra em R, pelo lema 3.4.14.
a) ⇒ b): A σ-álgebra A contém os intervalos ]λ, ∞], para qualquer λ ∈ R.
Portanto contém igualmente:

• Os intervalos ]α, β] =]α, ∞]\[β, ∞], para quaisquer α, β ∈ R.



\ 1
• Os conjuntos {β} = ]β − , β], para qualquer β ∈ R.
n
n=1

Deixamos como exercı́cio mostrar que A contém todos os intervalos I ⊆ R.


b) ⇒ c): A σ-álgebra A contém evidentemente os intervalos [−∞, −λ[ e
]λ, ∞], para qualquer λ. Concluı́mos do lema 3.4.8 que f é mensurável em
E.
c) ⇒ a): Sabemos de 3.4.8 que a σ-álgebra A contém os intervalos
[−∞, −λ[ e ]λ, ∞], para qualquer λ > 0. Deixamos como exercı́cio mostrar
que A contém os intervalos da forma ]λ, ∞], para qualquer λ ∈ R.

O resultado anterior pode também ser adaptado como se segue.

Teorema 3.4.16. Se E ⊆ RN é mensurável e f : E → RM , então f é


mensurável se e só se f −1 (B) é mensurável, para qualquer B ∈ B(RM ).

Demonstração. Consideramos novamente a classe



A = B ⊆ RM : f −1 (B) é mensurável .
3.4. Funções Mensuráveis 197

Supomos primeiro que f = (f1 , f2 , · · · , fM ) é mensurável: Seja B = I1 ×


I2 × · · · × IM um rectângulo aberto, onde os conjuntos Ik são intervalos
abertos. Como cada função fk é mensurável, temos
M
\
f −1
(B) = {x ∈ E : fk (x) ∈ Ik , 1 ≤ k ≤ n} = fk−1 (Ik ) é mensurável.
k=1

Concluı́mos que a σ-álgebra A contém todos os rectângulos abertos, e con-


sequentemente, todos os conjuntos Borel-mensuráveis.

Supomos agora que f −1 (B) é mensurável, para qualquer B ∈ B(RM ): Sendo


B = I1 × I2 × · · · × IM , onde Ik = R, para k 6= j, e Ij = I é um intervalo
arbitrário, o conjunto B é B-mensurável, e portanto f −1 (B) é mensurável.
Como
M
\
−1
f (B) = {x ∈ E : fk (x) ∈ Ik } = fk−1 (Ik ) = fj−1 (I),
k=1

concluı́mos que fj é mensurável, para qualquer j, donde f é mensurável.

Podemos ainda mostrar que a composição de uma função B-mensurável


com qualquer função mensurável é mensurável:

Corolário 3.4.17. Seja E ⊆ RN mensurável e f = (f1 , f2 , · · · , fM ) : E →


RM mensurável em E. Se g : RM → R é B-mensurável em RM , então a
composta h = g ◦ f é mensurável em E.

Demonstração. Se A ⊆ R é B-mensurável, então B = g−1 (A) é B-mensurá-


vel, e portanto h−1 (A) = f −1 (g−1 (A)) = f −1 (B) é mensurável, e a função
h é mensurável.

É muito comum usar a afirmação a) no teorema 3.4.15 como a definição


de “função mensurável”, supondo que a função em causa está definida num
conjunto mensurável. Esta alternativa tem as seguintes vantagens:

• Torna evidente que as funções contı́nuas são Borel-mensuráveis,

• É directamente aplicável a funções f : E → RM , mesmo quando E ⊆


X, onde (X, M) é um espaço mensurável “arbitrário”.

O seu principal inconveniente, e uma das razões pela qual não foi aqui adop-
tada, é a de obscurecer as relações muito directas que existem entre as noções
de mensurabilidade para conjuntos, e para funções, e entre as noções de me-
dida para conjuntos, e integral para funções. Veremos no Capı́tulo 5 como a
definição 3.1.1, que adoptámos neste texto, pode ser generalizada para um
qualquer espaço de medida (X, M, µ).
198 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Aproveitamos para estabelecer uma versão da desigualdade de Jensen(13 ).


Recordamos para isso alguns factos elementares relacionados com as noções
de convexidade, e concavidade, tais como se aplicam a funções reais de
variável real.
αf (x) + (1 − α)f (y) g(αx + (1 − α)y)

αg(x) + (1 − α)g(y)
f (x) f (αx + (1 − α)y)

f (y) g(y) g

f g(x)

x αx + (1 − α)y y x αx + (1 − α)y y

Figura 3.4.3: f (à esquerda) é convexa, g (à direita) é côncava.

Definição 3.4.18 (Funções Convexas, Côncavas). Se f : I → R está


definida num intervalo I ⊆ R, então f é convexa em I se e só se

s, t ∈ I, α, β ≥ 0, e α + β = 1 =⇒ f (αs + βt) ≤ αf (s) + βf (t).

A função f diz-se côncava se e só se −f é convexa.(14 )


O significado geométrico destas definições é ilustrado na figura 3.4.3: f
é convexa se e só se o seu gráfico está sob qualquer uma das suas cordas, e
côncava se o seu gráfico está sobre as respectivas cordas.
Deixamos para o exercı́cio 14 a demonstração do seguinte resultado aux-
iliar:
Lema 3.4.19. Se f é convexa no intervalo aberto I então f é contı́nua em
I e
f (y) − f (x) f (z) − f (y)
Se x < y < z ∈ I, então ≤ .
y−x z−y
Teorema 3.4.20 (Desigualdade de Jensen). Seja I ⊆ R um intervalo aberto
e φ uma função real convexa em I. Se E ⊆ RN , mN (E) < ∞, f : E → R é
somável em E e f (E) ⊆ I, então
 Z  Z
1 1
φ f dmN ≤ φ(f )dmN .
mN (E) E mN (E) E
13
De Johan Jensen, 1859-1925, matemático dinamarquês.
14
z = αs + βt diz-se uma combinação convexa de s e t. Note-se que se f tem segunda
derivada f ′′ então é côncava se e só se f ′′ ≤ 0.
3.4. Funções Mensuráveis 199

Demonstração. Definimos
Z
1 φ(y) − φ(α)
α= f (x)dmN e K = inf .
mN (E) E y>α y−α

Supondo que x < α < y, segue-se facilmente do lema 3.4.19 que

φ(α) − φ(x) φ(y) − φ(α)


≤K≤ .
α−x y−α

Temos assim que φ(y) − φ(α) ≥ K(y − α), para qualquer y ∈ R. Tomando
agora y = f (x), concluı́mos que

φ(f (x)) ≥ φ(α) + K(f (x) − α), para qualquer x ∈ R.

A função φ ◦ f é mensurável, pelo corolário 3.4.17, e é fácil verificar que o


seu integral em E está definido. Temos portanto:
Z Z
φ(f (x))dmN ≥ φ(α)mN (E) + K (f (x) − α)dmN = φ(α)mN (E).
E E

Exercı́cios.

1. Complete a demonstração de 3.4.4.

2. Mostre que as funções simples mensuráveis em RN formam o menor espaço


vectorial que contém as funções caracterı́sticas dos conjuntos mensuráveis.

3. Suponha que f : E → R é mensurável, e finita qtp. Mostre que existe uma


função mensurável g : E → R tal que f ≃ g.

4. Seja s : RN → R uma função simples mensurável não-negativa, ou somável,


em RN . Supondo que s assume os valores α1 , α2 , · · · , αn , respectivamente, nos
conjuntos mensuráveis A1 , A2 , · · · , An , e E ∈ L(RN ), mostre que
Z n
X
sdmN = αk mN (Ak ∩ E).
E k=1

R
∈ R então o integral
5. Mostre que se o integral de Lebesgue E f dmNZexiste e c 
Z Z
(cf )dmN também existe, e (cf )dmN = c f dmN .
E E E

6. Sendo f : R → R L-mensurável e diferenciável qtp, mostre que a derivada f ′


é L-mensurável.

7. Mostre que o conjunto F referido na demonstração de 3.4.9 é mensurável.


200 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

8. Sendo f, g : E → R mensuráveis, mostre que D = {x ∈ E : f (x) 6= g(x)} é


mensurável, e que se E é mensurável então {x ∈ E : f (x) = g(x)} é também
mensurável. sugestão: Mostre que existe uma função mensurável h : E → R
tal que D = {x ∈ E : h(x) 6= 0}.

9. Demonstre o teorema 3.4.12. Mostre que o conjunto onde o limite existe é


mensurável, desde que o conjunto E seja mensurável. sugestão: Aplique o
exercı́cio anterior às funções lim sup fn e lim inf fn .
n→∞ n→∞

10. Mostre que f é L-mensurável em E se e só se existe uma função g, B-


mensurável em E, tal que f ≃ g em E. sugestão: Existem funções simples
L-mensuráveis sn tais que sn (x) → f (x) para qualquer x ∈ E. Observe
que existem funções simples B-mensuráveis tn tais que sn ≃ tn em E, donde
tn (x) → f (x) qtp em E.

11. Conclua a demonstração de 3.4.15.

M
12. Sendo f : RN → R mensurável, e g(x) = |f (x)|, prove que g é mensurá-
vel. Supondo que o integral à esquerda existe, demonstre ainda a desigualdade
triangular, na forma: Z Z

f dmN ≤ |f | dmN .

E E

13. Prove que se E ⊆ RN , e f : E → [0, +∞] é mensurável em E, então


Z Z 
f dmN = sup sdmN : s simples e mensurável, com s ≤ f .
E E

14. Demonstre o lema 3.4.19. sugestão: Sendo m(u, v) o declive da corda que
passa pelos pontos do gráfico de f com abcissas u e v, observe que m(x, y) ≤
m(x, z) ≤ m(y, z).

15. A função φ◦f referida na demonstração do teorema 3.4.20 é necessariamente


somável em E? O seu integral está sempre definido?

3.5 Funções Somáveis


O estudo das funções finitas qtp é simplificado identificando (i.e., tratando
como um único objecto) funções mensuráveis que diferem entre si num con-
junto de medida nula. Esta identificação resume-se a considerar, no lugar do
espaço de todas as funções mensuráveis e finitas qtp f : E → R, o respectivo
conjunto quociente pela relação “≃”, que designaremos aqui F(E). Por
outras palavras, se F (E) é o conjunto de todas as funções mensuráveis e
finitas qtp f : E → R, e se para f ∈ F (E) temos [f ] = {g ∈ F (E) : g ≃ f }
então
F (E)
F(E) = = { [f ] : f ∈ F (E) } .

3.5. Funções Somáveis 201

Dadas classes de equivalência [f ], [g] ∈ F(E), existem representantes f˜ ∈ [f ]


e g̃ ∈ [g], i.e., funções f˜ ≃ f e g̃ ≃ g, tais que f˜, g̃ : E → R, e podemos
por isso definir [f ] + [g] = [f˜ + g̃]. Se c ∈ R, podemos definir directamente
c[f ] = [cf ]. É muito simples verificar que, com estas operações algébricas,
Teorema 3.5.1. F(E) é um espaço vectorial.
Repare-se que se f : F → R é mensurável e finita qtp em F ⊆ E, onde
mN (E\F ) = 0, então f determina uma única classe em F(E), de acordo
com a proposição 3.1.5. Podemos por isso usar o sı́mbolo “[f ]”, mesmo
quando f não está definida em todo o conjunto E. Em geral, escreveremos
mesmo apenas f , no lugar de [f ]. Bem entendido, devemos sempre verificar
que as noções que associamos a uma qualquer classe [f ] são efectivamente
independentes do representante f escolhido.
Exemplos 3.5.2.
1. A soma [f ] + [g] = [f + g] está bem definida, porque se f ≃ f ∗ e g ≃ g ∗ então
f + g ≃ f ∗ + g ∗ . Repare-se que a soma [f ] + [g] está bem definida, mesmo que
a soma usual f + g esteja apenas definida qtp em E, o que resolve a questão
da soma de funções somáveis que mencionámos na secção anterior.
2. É razoável referirmo-nos a classes de equivalência “somáveis”, e ao respectivo
integral, porque se uma dada classe tem um representante somável f , então
qualquer outro representante da mesma classe é igualmente somável, e tem o
mesmo integral. Em particular, o integral está bem definido no conjunto das
classes somáveis.
3. A convergência pontual qtp está também bem definida em F (E). Por outras
palavras,

f (x) = lim fn (x) qtp em E e f˜n ≃ fn =⇒ f (x) = lim f˜n (x), qtp em E.
n→∞ n→∞

Se as classes [f ] e [g] são somáveis, e c ∈ R, é claro que [f + g] e [cf ] são


somáveis, i.e., as classes de funções somáveis formam um subespaço vectorial
de F(E).
Definição 3.5.3 (Espaço L1 ). L1 (E) é formado pelas classes de funções
f : E → R somáveis, i.e.,
 Z 
1
L (E) = [f ] ∈ F(E) : kf k1 = |f |dmN < ∞ .
E

R
A função k[f ]k1 = kf k1 = E |f |dmN é uma norma em L1 (E), e L1 (E)
é um espaço vectorial normado, porque
• Se f, g ∈ L1 (E), a desigualdade kf +gk1 ≤ kf k1 +kgk1 é a desigualdade
triangular.
202 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

• Se f ∈ L1 (E) e c ∈ R, é óbvio que kcf k1 = |c|kf k1 .

• kf k1 = 0 ⇐⇒ f ≃ 0 ⇐⇒ [f ] = [0].

Como em qualquer espaço vectorial normado, uma sucessão de termo


geral fn ∈ L1 (E) diz-se
• convergente (em L1 ) se e só se existe f ∈ L1 (E) tal que kfn − f k1 →
0, quando n → ∞, e

• fundamental ou de Cauchy (em L1 ) se e só se kfn − fm k1 → 0,


quando n, m → ∞.
R
De acordo com o teorema 3.4.10, podemos dizer que φ(f ) = E f dmN
é um funcional linear em L1 (E). É óbvio da desigualdade triangular
usual que
Z Z

|φ(f ) − φ(g)| = |φ(f − g)| = (f − g) dmN ≤ |f − g| dmN = kf − gk1 ,
E E

e portanto φ é também um funcional linear contı́nuo(15 ). O teorema


da convergência dominada de Lebesgue (3.2.8) pode ser reforçado como se
segue, e o exercı́cio 6 revela que esta observação não é trivial.

Teorema 3.5.4 (Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue). Sendo


fn ∈ L1 (E), suponha-se que

• Existe uma função somável F : E → [0, +∞] tal que |fn (x)| ≤ F (x),
qtp em E, e

• f (x) = lim fn (x), qtp em E.


n→∞

Temos então:

a) f ∈ L1 (E),

b) fn → f em L1 , e em particular,
Z Z
c) fn dmN → f dmN , quando n → ∞.
E E

Demonstração. Podemos supor, sem perda de generalidade (porquê?), que

• As funções fn e F são finitas em E,

• f (x) = lim fn (x), para qualquer x ∈ E, e


n→∞

• |fn (x)| ≤ F (x), também para qualquer x ∈ E.


15
L1 (E) é em geral um espaço vectorial de dimensão infinita, e como tal existem trans-
formações lineares em L1 (E) que não são contı́nuas.
3.5. Funções Somáveis 203

f é L-mensurável em E, e é somável e finita em E porque |f (x)| ≤ F (x).


Como as funções gn = |fn − f | satisfazem gn ≤ 2F , e lim gn (x) = 0,
n→∞
segue-se de 3.2.8 que
Z Z
lim gn dmN = lim |fn − f |dmN = 0.
n→∞ E n→∞ E

Exemplo 3.5.5.
a transformada de fourier: Se f : R → R é somável, a sua transformada
de Fourier é a função T (f ) : R → C dada por:
Z ∞ Z ∞ Z ∞
−iωx
T (f )(ω) = f (x)e dm = f (x) cos(ωx)dm−i f (x) sen(ωx)dm.
−∞ −∞ −∞

A função T (f ) está bem definida, porque a integranda acima é mensurável,


por
ser um produto de funções mensuráveis, e somável, dado que f (x)e−iωx ≤
|f (x)|. Por outro lado, se ωn → ω, segue-se da continuidade da exponencial
complexa que f (x)e−iωn x → f (x)e−iωx .
Concluı́mos do teorema da convergência dominada de Lebesgue que T (f )(ωn ) →
T (f )(ω). Por outras palavras, a transformada de Fourier de uma função
somável é uma função contı́nua. O exercı́cio 3 refere mais algumas propriedades
da transformada de Fourier.

A aditividade do integral para somas finitas de funções mensuráveis não-


negativas, ou para somas finitas em L1 (E), estabelece-se facilmente por
indução. A sua generalização a séries de funções não-negativas é sur-
preendentemente simples, e livre dos problemas técnicos existentes na teoria
de Riemann:

Qualquer série de funções mensuráveis não-negativas pode ser integrada


termo-a-termo.

A demonstração deste facto é uma ligeira adaptação do argumento que uti-


lizámos a propósito do exemplo 3.2.4.

Teorema 3.5.6. Se as funções fn : E → [0, +∞] são mensuráveis em E,



X
então a função fn é mensurável em E, e
n=1

Z ∞
! ∞ Z 
X X
fn dmN = fn dmN .
E n=1 n=1 E
204 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Demonstração. Observamos que


m
X ∞
X
gm (x) = fn (x) ր f (x), onde f (x) = fn (x).
n=1 n=1

Como gm ≥ 0, segue-se, do teorema de Beppo Levi, que


Z Z
gm dmN ր f dmN .
E E
Pela aditividade do integral para somas finitas,
Z Z X m Xm Z ∞ Z
X
gm dmN = ( fn )dmN = ( fn dmN ) ր ( fn dmN ).
E E n=1 n=1 E n=1 E

Exemplos 3.5.7.
R
1. Se as funções fn ≥ 0 são somáveis em RN , tomamos an = RN fn dmN , e
supomos sem perda P de generalidade que an > 0. Escolhemos uma qualquer
série convergente ∞ n=1 bn com bn > 0. De acordo com o resultado anterior,

X∞ Z X∞ Z X∞
bn bn
f (x) = fn (x) =⇒ f dmN = fn (x) = bn < ∞.
a
n=1 n RN a
n=1 n R
N
n=1

É muito fácil obter por este processo muitos exemplos semelhantes a 3.2.4.
2. O teorema anterior pode também ser usado para analisar a convergência
pontual de uma série de funções fn ≥ 0. Como
Z ∞
! ∞ Z
X X
fn (x) dmN = fn (x)dmN , então
RN n=1 n=1 RN

∞ Z
X ∞
X
fn (x)dmN < ∞ =⇒ f (x) = fn (x) é somável e por isso é finita qtp.
n=1 RN n=1
Temos em particular que
X∞ Z ∞
X
fn (x)dmN < ∞ =⇒ fn (x) converge qtp.
n=1 RN n=1

3. A ideia acima é aplicável a funções somáveis fn : RN → R, desde que


X∞ Z X∞
|fn (x)| dmN = kfn k1 < ∞.
n=1 RN n=1

Observamos que

X Z ∞ Z
X
g(x) = |fn (x)| =⇒ g(x)dmN = |fn (x)| dmN < ∞.
n=1 RN n=1 RN


X
A série f (x) = fn (x) converge absolutamente qtp, porque g é finita qtp.
n=1
3.5. Funções Somáveis 205

As séries de funções somáveis não são automaticamente integráveis


termo-a-termo, como as de funções mensuráveis não-negativas, mas temos,
mesmo assim, o seguinte resultado:

Teorema 3.5.8. Dadas funções L-mensuráveis fn : E → R, se


∞ Z
X  ∞
X
|fn |dmN = kfn k1 < +∞,
n=1 E n=1

então:

X
a) A série fn (x) converge absolutamente qtp em E,
n=1

X
b) A função f (x) = fn (x) é L-mensurável e somável em E,
n=1
m Z X
X m

c) fn − f = | fn − f |dmN → 0, e em particular,
E
n=1 1 n=1
Z ∞
! ∞ Z 
X X
d) fn dmN = fn dmN .
E n=1 n=1 E

Demonstração.
P∞ Observámos no exemplo 3.5.7.3 que a função g, dada por
g(x) = n=1 |fn (x)|, é somável, e finita qtp, porque
Z ∞ Z
X
gdmN = |fn |dmN < ∞.
E n=1 E
P
Por outras palavras,Pa série ∞ n=1 fn (x) converge absolutamente qtp em E.
Definindo gm (x) = m n=1 f n (x), temos:
P
• gm (x) → ∞ n=1 fn (x), qtp em E.

• |gm (x)| ≤ g(x).

Podemos assim aplicar o teorema da convergência monótona de Lebesgue,


na forma 3.5.4, à sucessão de funções gm . Usando ainda a aditividade do
integral para somas finitas, temos:
Z X
∞ Z m Z
X ∞ Z
X
fn dmN = lim gm dmN = lim fn dmN = fn dmN .
E n=1 m→∞ E m→∞
n=1 E n=1 E

O teorema 3.5.8 pode ser parcialmente reformulado com se segue:


206 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Corolário 3.5.9. Se fn ∈ L1 (E) então


m

X X
1
kfn k1 < +∞ =⇒ existe f ∈ L (E) tal que fn − f → 0.

n=1 n=1 1
P∞
Se an ∈ R, a série
P de termos reais n=1 an diz-se absolutamentePconver-
gente se e só se ∞ n=1 |an | < ∞. Sabemos que neste caso a série

n=1 an
é igualmente convergente, o que é aliás um dos mais comuns critérios de
convergência de séries reais. Por analogia com as séries reais, e quando
fn ∈ L1 (E), dizemos que a série

X ∞
X
fn é absolutamente convergente em L1 quando kfn k1 < +∞.
n=1 n=1

O corolário 3.5.9 pode resumir-se dizendo que

As séries absolutamente convergentes em L1 são convergentes em L1 .

Podemos usar este facto para mostrar que L1 (E) é um espaço de banach,
i.e., é um espaço vectorial normado em que as sucessões de Cauchy, ou
fundamentais, são convergentes.
Teorema 3.5.10 (de Riesz-Fischer). L1 (E) é um espaço de Banach.(16 )
Demonstração. Se a sucessão de termo geral fn ∈ L1 (E) é de Cauchy, i.e.,
kfn − fm k1 → 0, quando n, m → ∞, então existem (porquê?) naturais
1
nk ր ∞ tais que n, m ≥ nk ⇒ kfn − fm k1 ≤ .
2k
Temos kfnk − fk k1 → 0, e tomamos gk = fnk+1 − fnk , donde

X
1
kgk k1 = fnk+1 − fnk 1 ≤ k , e kgk k1 ≤ 1.
2
k=1
P∞ Pm
A série k=1 gk é telescópica, e portanto k=1 gk = fnm+1 − fn1 . Con-
cluı́mos de 3.5.9 que existe g ∈ L1 (E) tal que

X m

gk − g → 0, ou seja, fnm+1 − fn1 − g 1 .

k=1 1

Definindo f = fn1 + g, temos kfnk − f k1 → 0. Observamos finalmente que

kfk − f k1 ≤ kfk − fnk k1 + kfnk − f k1 → 0.

16
Este resultado é uma versão preliminar do Teorema de Riesz-Fischer.
3.5. Funções Somáveis 207

Concluı́mos aqui a apresentação do teorema de Fubini-Lebesgue, com


um enunciado aplicável a funções somáveis.

Teorema 3.5.11 (Teorema de Fubini-Lebesgue (III)). Seja f : RN → R


uma função somável, I um ı́ndice-K em RN , N = K + M e t ∈ RK .
Temos, então,

a) As funções fIt : RM → R são somáveis para quase todos os t ∈ RK .


Z
b) Sendo AI (t) = fIt dmM então AI é somável em RK e
RM
Z Z Z  Z
AI dmK = fIt dmM dmK = f dmN .
RK RK RM RN

Deixamos a demonstração para o exercı́cio 7.


Exemplos 3.5.12.
1. Supondo que f é somável e I = (1, 2, · · · , K), ou I = (K + 1, K + 2, · · · , N ),
escrevemos os elementos x ∈ RN na forma x = (t, y) com t ∈ RK e y ∈ RM ,
para concluir que
Z Z Z  Z Z 
f dmN = f (t, y)dy dt = f (t, y)dt dy.
RN RK RM RM RK

2. produto de convolução: Se f, g : RN → R, é por vezes útil formar o


respectivo produto de convolução, que é a função f ∗ g dada por:
Z
(f ∗ g) (x) = f (x − y)g(y)dmN .
RN

Se f e g são L-mensuráveis, e x está fixo, a função h(y) = f (x − y) é L-


mensurável, e o produto hg é, igualmente, L-mensurável. Por outro lado,
existe uma função B-mensurável f˜ ≃ f em RN e, para efeitos do cálculo do
integral indicado acima, podemos substituir a função f por f˜, sem modificar o
resultado final, i.e., sem alterar a função f ∗ g. Supomos, assim, e sem perda
de generalidade, que f é B-mensurável. A função G : R2N → R, dada por
F̃ (x, y) = f (x − y) é B-mensurável em R2N (porquê?). Concluı́mos, assim,
que a função F : R2N → R, dada por F (x, y) = f (x − y)g(y), é L-mensurável
em R2N . Em particular, o teorema de Fubini, na forma 3.5.11, é aplicável à
função F .
Deixamos para o exercı́cio 9 explorar esta ideia, para verificar que, se f e g
são somáveis, então a função f ∗ g está bem definida qtp em RN , é somável, e
satisfaz:
kf ∗ gk1 ≤ kf k1 kgk1 .
Sendo T a transformada de Fourier que definimos no exemplo 3.5.5, podemos
ainda mostrar que T (f ∗ g) = T (f )T (g).
208 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Exercı́cios.

1. Mostre que se f (x) = limn→∞ fn (x), qtp em E, e f˜n ≃ fn , então temos


também f (x) = limn→∞ f˜n (x), qtp em E.

2. Suponha que B 1 (E) é o quociente do espaço das funções f : E → R B-


mensuráveis pela relação “≃”, e L1 (E) é o quociente do espaço das funções
f : E → R, finitas qtp e L-mensuráveis, pela relação análoga. Qual é a relação
entre B 1 (E) e L1 (E)?

3. Supondo que f : R → R é somável, designamos aqui por T (f ) a transformada


de Fourier da função f . Demonstre os seguintes resultados:
a) Se f˜(x) = f (x − x0 ), então T (f˜)(ω) = T (f )(ω)e−iωx0 .
b) Se a função h dada por h(x) = xf (x) é somável, então T (f ) é difer-
enciável, e T (f )′ = −iT (h).
1
4. Seja f (x) = x− 3 , para x 6= 0. Dada P∞ uma enumeração dos racionais, Q =
1
{q1 , · · · , qn , · · · }, mostre que a série
P∞ n=1 n (x−qn ) converge absolutamente
2 f
qtp em R. Mostre que f (x) = n=1 n12 f (x − qn ) é Borel-mensurável no con-
junto onde a série converge simplesmente.

5. Considere o espaço L1 (R). Mostre que


a) Qualquer classe em L1 (R) tem representantes B-mensuráveis f : R → R.
b) Existem classes em L1 (R) cujos representantes são descontı́nuos em toda
a parte.
c) Existem classes em L1 (R) cujos representantes são ilimitados em qualquer
intervalo aberto não-vazio em R.

6. Consideramos aqui uma sucessão de funções fn tais que


Z Z
fn dm → f dm para qualquer E ⊆ X mensurável,
E E

mas onde não é verdade que


Z
|fn − f |dm → 0.
X

Tomamos E ⊆ X = [0, 2π], fn (x) = sen nx, e f = 0. Prove o seguinte:


R
a) Se E é um intervalo ou um conjunto elementar, então E fn dm → 0.
R
b) Se E é um conjunto mensurável, então E fn dm → 0.
R
c) Suponha que g é somável, e prove que X gfn dm → 0. (17 )
Z
d) Calcule lim |fn |dm.
n→+∞ X
17
Este resultado, que é importante na teoria das séries de Fourier, diz-se o Lema de
Riemann-Lebesgue.
3.6. Continuidade e Mensurabilidade 209
Z
e) Calcule lim fn2 dm, quando E é mensurável. Sugestão: Considere
n→+∞ E
também as funções cos2 nx.
f) Prove que se nk ր ∞ então sen nk x diverge qtp.

7. Demonstre o teorema de Fubini-Lebesgue na forma 3.5.11.

8. Calcule os dois integrais iterados para as funções indicadas. O que pode


concluir?
x−y
a) f (x, y) = 3, em [0, 1] × [0, 1].
(x + y)
xy
b) g(x, y) = 2, em [−1, 1] × [−1, 1].
(x2 + y 2 )

9. Suponha que as funções f , g, e h são somáveis em RN . Mostre que

a) O produto de convolução (Exemplo 3.5.12.2)


Z
(f ∗ g)(x) = f (x − y)g(y)dmN ,
RN

está bem definido (qtp em RN ) e f ∗ g é uma função somável em RN ,


porque
kf ∗ gk1 ≤ kf k1 kgk1 .
sugestão: Considere a função F (x, y) = f (x − y)g(y), e aplique o
teorema de Fubini.
b) O produto de convolução é comutativo e associativo.
c) Sendo T a transformada de Fourier, temos T (f ∗ g) = T (f )T (g).
sugestão: Use o teorema de Fubini.

3.6 Continuidade e Mensurabilidade


Vimos como as funções mensuráveis podem ser aproximadas por funções
simples mensuráveis. Mostramos nesta secção que as funções mensuráveis
podem ser também aproximadas por funções contı́nuas. Veremos que este
facto é consequência essencialmente dos seguintes três resultados:

• A já referida aproximação de funções mensuráveis por funções simples,

• A regularidade da medida de Lebesgue, sobretudo na forma do teorema


2.3.10 b), e

• Um resultado de natureza topológica, aqui a proposição 3.6.1, que é


um corolário do chamado Lema de Urysohn.
210 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Designamos o conjunto das funções contı́nuas de suporte compacto


f : RN → R por Cc (RN )(18 ). Designaremos por C0 (RN ) o conjunto das
funções contı́nuas f : RN → R com limite nulo quando |x| → ∞, e por
Cck (RN ), onde k ∈ N, a classe das funções de suporte compacto, que são
continuamente diferenciáveis até à ordem k ∈ N. Cc∞ (RN ) é a classe das
funções contı́nuas de suporte compacto que têm derivadas contı́nuas de qual-
quer ordem. Usaremos a mesma notação para qualquer conjunto U ⊆ RN ,
e.g., Cck (U ) é a classe das funções de suporte compacto em U , que são con-
tinuamente diferenciáveis até à ordem k ∈ N.
O corolário do “Lema de Urysohn” aqui utilizado é o seguinte:

Proposição 3.6.1. Se K ⊆ U ⊆ RN , onde K é compacto e U é aberto,


então existe f ∈ Cc (RN ) tal que χK ≤ f ≤ χU .(19 )

Demonstração. Dado x ∈ K, existem rectângulos abertos limitados Rx e


Sx tais que
x ∈ Rx ⊂ Rx ⊂ Sx ⊂ S x ⊂ U.
Existe portanto uma subcobertura finita de K por rectângulos Rxi , onde
1 ≤ i ≤ m. É simples mostrar que (exercı́cio 2)

(i) Existem funções gi ∈ Cc (RN ) tais que χRxi ≤ gi ≤ χSx i ≤ χU .

Seja g : RN → R dada por


m
X
g(x) = gi (x), donde g ≥ χK , e g tem suporte compacto em U.
i=1

Sendo agora h : R → [0, 1] uma qualquer função contı́nua e crescente, com


h(0) = 0 e h(1) = 1, tomamos f (x) = h(g(x)).

Esta proposição, combinada com a regularidade da medida de Lebesgue,


permite mostrar que as funções caracterı́sticas de conjuntos de medida finita
podem ser aproximadas por funções contı́nuas de suporte compacto.

Proposição 3.6.2. Se E ⊆ RN é um conjunto mensurável de medida finita,


e ε > 0, existe f ∈ Cc (RN ) tal que

0 ≤ f ≤ 1, e mN ({x ∈ RN : f (x) 6= χE (x)}) < ε.


18
O suporte da função f é o fecho do conjunto onde a função não é nula.
19
O “Lema de Urysohn” da Topologia Geral é um exemplo de uma propriedade de
separação. Dados conjuntos fechados A e B disjuntos num espaço topológico normal
X, o Lema garante a existência de uma função contı́nua f : X → [0, 1] tal que A ⊆
f −1 (1) e B ⊆ f −1 (0). O resultado deve-se a Pavel Urysohn, 1898 - 1924, matemático
ucraniano, que apesar da sua morte trágica ainda muito jovem deu importantes contributos
à então nascente Topologia. Deve notar-se no exercı́cio 3 que no caso da proposição aqui
apresentada podemos na verdade seleccionar f ∈ Cc∞ (RN ).
3.6. Continuidade e Mensurabilidade 211

Demonstração. De acordo com o teorema 2.3.10 b), existem conjuntos

K ⊆ E ⊆ U, K compacto, U aberto, e mN (U \K) < ε.

Pela proposição anterior, existe f ∈ Cc (RN ) tal que χK ≤ f ≤ χU , e deve


ser evidente que:

x ∈ RN : f (x) 6= χE (x) ⊆ U \K.

Exploramos aqui diversas consequências desta proposição, que são em


cada caso resultados sobre a aproximação de funções mensuráveis por funções
contı́nuas. É conveniente para já mostrar que as funções mensuráveis limi-
tadas, que são como sabemos limites de sucessões de funções simples men-
suráveis, podem ser também expressas como séries uniformemente conver-
gentes de funções simples mensuráveis.

Teorema 3.6.3. Se f : E → [0, M ] é mensurável e M < ∞, existem


conjuntos mensuráveis Tn ⊆ E tais que, se tn = 2Mn χTn , então


X
f (x) = tn (x).
n=1

Em particular, a série indicada converge uniformemente para f .

Demonstração. Sendo g = f /M , existem funções simples sn : E → R+ ,


n ∈ N, definidas como na demonstração de 3.4.7, e tais que sn (x) ր g(x).
Definimos s0 = 0 e, para n ∈ N, tn = sn − sn−1 ≥ 0. É evidente que

X
tn (x) = lim sn (x) = g(x) = f (x)/M , para qualquer x ∈ E.
n→∞
n=1

Como 0 ≤ g(x) < 1, para qualquer x ∈ E, é fácil mostrar (exercı́cio 1) que


tn = sn − sn−1 só toma os valores 0 e 1/2n , ou seja,

2n−1
[−1 ∞
X
1 M
tn = n χTn , onde Tn = En,2k+1 , e f (x) = χTn (x).
2 n=1
2n
k=1

O próximo resultado é um teorema clássico sobre a aproximação de


funções mensuráveis por funções contı́nuas.
212 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

Teorema 3.6.4 (Teorema de Vitali-Luzin). (20 ) Seja f : RN → R uma


função mensurável limitada, que é nula fora de um conjunto de medida
finita. Se ε > 0 e |f (x)| ≤ M para qualquer x ∈ RN , então existe g ∈
Cc (RN ) tal que
 
0 ≤ |g(x)| ≤ M , e mN x ∈ RN : f (x) 6= g(x) < ε.

Demonstração. Supomos primeiro que 0 ≤ f (x) ≤ 1, e f (x) = 0 quando


x 6∈ U , onde mN (U ) < ∞. Supomos sem perda de generalidade que U ⊂ RN
é um aberto. Observamos de 3.6.3 que existem funções simples mensuráveis
tn : RN → [0, 1], tais que

X 1
f (x) = tn (x), onde tn = χT .
2n n
n=1

Os conjuntos Tn são mensuráveis e de medida finita, e estão contidos em


U . Pela proposição 3.6.2, existem funções hn : RN → [0, 1], contı́nuas e de
suporte compacto em U , tais que
ε 
mN (En ) < n+1 , onde En = x ∈ RN : hn (x) 6= χTn (x) .
2
É claro que
X∞ X∞
1 1
n
hn (x) ≤ = 1,
n=1
2 n=1
2n
e portanto a série à esquerda
P converge uniformemente. Concluı́mos que a
função h dada por h(x) = ∞ 1
h
n=1 2n n (x) é contı́nua, e 0 ≤ h ≤ 1. Deve
ser também
S claro que h(x) = 0 quando x 6∈ U . Por outro lado, e tomando
E= ∞ n=1 n , temos mN (E) < ε/2 e
E

x 6∈ E ⇒ hn (x) = χTn (x), para qualquer n ∈ N ⇒ f (x) = h(x).

Temos por outras palavras que


 
mN x ∈ RN : f (x) 6= g̃(x) ≤ mN (E) < ε/2.

Como mN (U ) < ∞, existe um compacto K ⊂ U tal que mN (U \K) < ε/2, e


existe igualmente uma função h0 ∈ Cc (RN ) tal que χK ≤ h0 ≤ χU . Tomamos
finalmente g = hh0 , que é contı́nua e de suporte compacto em U . Dado que
g(x) 6= h(x) apenas quando x ∈ U \K, temos

x ∈ RN : f (x) 6= g(x) ⊆ E ∪ (U \K)

Temos assim que mN ({x ∈ RN : g(x) 6= f (x)}) < ε. Deixamos para o


exercı́cio 4 generalizar a demonstração para o caso |f (x)| ≤ M .
20
De Nikolai Luzin, 1883-1950, matemático russo, professor da Universidade de
Moscovo, onde aliás teve Urysohn como aluno.
3.6. Continuidade e Mensurabilidade 213

O resultado anterior pode ser adaptado a casos em que f é ilimitada


e/ou não é nula no complementar de um conjunto de medida finita, mas
naturalmente perdendo alguns aspectos da sua conclusão. Por exemplo,
Corolário 3.6.5. Seja f : RN → R mensurável, finita qtp, e nula no com-
plementar de um conjunto de medida finita. Então para qualquer ε > 0
existe g ∈ Cc (RN ) tal que
 
mN x ∈ RN : f (x) 6= g(x) < ε.

Demonstração. Seja Fn = {x ∈ RN : |f (x)| ≥ n}, donde Fn ց A, onde


A = {x ∈ RN : |f (x)| = ∞} é nulo. Como os conjuntos Fn têm medida
finita, temos mN (Fn ) → 0, e existe k tal que mN (Fk ) < ε/2.
Com h = f χFkc , e pelo teorema de Vitali-Luzin, existe g ∈ Cc (RN ) tal
que  
mN x ∈ RN : h(x) 6= g(x) < ε/2.
 
É claro que mN x ∈ RN : f (x) 6= g(x) < ε.

Eliminando a hipótese sobre o conjunto onde f 6= 0, podemos ainda obter


o seguinte resultado, cuja demonstração deixamos para o exercı́cio (5).
Corolário 3.6.6. Seja f : RN → R uma função mensurável e finita qtp.
Então para qualquer ε > 0 existe uma função contı́nua g : RN → R tal que
 
mN x ∈ RN : f (x) 6= g(x) < ε.

Este corolário pode agora ser usado para mostrar que as funções mensu-
ráveis e finitas qtp são limites de sucessões de funções contı́nuas.
Corolário 3.6.7. Se f : RN → R é finita qtp, então f é L-mensurável se
e só se existem funções contı́nuas fn : RN → R tais que fn (x) → f (x) qtp
em RN .
Demonstração. Pelo corolário 3.6.6, existem funções contı́nuas fn tais que
1  N

mN (En ) < , onde En = x ∈ R : f n (x) 6
= f (x) .
2n
Considerem-se os conjuntos
∞ [
\ ∞ ∞
\ ∞
[
E= En = Fk , onde Fk = En .
k=1 n=k k=1 n=k

Note-se que mN (Fk ) → 0 e Fk ց E, donde mN (E) = 0(21 ). Para finalizar


este argumento, resta-nos observar que:

x 6∈ E ⇔ ∃k∈N tal que x 6∈ Fk ⇔ ∃k∈N tal que n ≥ k ⇒ x 6∈ En ⇔


21
Esta é mais uma aplicação do lema de Borel-Cantelli que referimos no exercı́cio 7 da
secção 2.1.
214 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue

⇔ ∃k∈N tal que n ≥ k ⇒ fn (x) = f (x).


Dito doutra forma, quando x 6∈ E então fn (x) → f (x). Como vimos
que mN (E) = 0, podemos concluir que fn (x) → f (x) qtp em R.

Sabemos já que que as funções somáveis podem ser aproximadas por
funções simples, e aproveitamos agora este facto para mostrar que podem
também ser aproximadas por funções contı́nuas de suporte compacto:

Corolário 3.6.8. Se f : RN → R é somável e ε > 0, então existe g ∈


Cc (RN ) tal que kf − gk1 < ε.

Demonstração. De acordo com 3.4.11, existe uma função simples s ∈ L1 (RN )


tal que kf − sk1 < ε/2. É claro que s é nula no complementar de um con-
junto de medida finita, e existe M < ∞ tal que |s(x)| ≤ M para qualquer
x ∈ RN .
Pelo teorema 3.6.4, existe g ∈ Cc (RN ) com |g(x)| ≤ M para x ∈ RN , e

mN ( x ∈ RN : s(x) 6= g(x) ) < ε/4M.

Escrevemos E = x ∈ RN : s(x) 6= g(x) , e notamos como óbvio que
|s(x) − g(x)| ≤ 2M para x ∈ E, donde
Z
ks − gk1 = |s − g| ≤ 2M ε/4M = ε/2.
E

Concluı́mos que kf − gk1 ≤ kf − sk1 + ks − gk1 < ε.

Exemplo 3.6.9.
Designamos também por Cc (RN ) o subespaço de L1 (RN ) formado pelas classes
de equivalência de funções contı́nuas de suporte compacto. O resultado anterior
pode exprimir-se dizendo que

Cc (RN ) é denso em L1 (RN ).

Se designarmos por R1 (RN ) o subespaço formado pelas classes de equivalência


R
de funções f : RN → R tais que o integral impróprio de Riemann RN f (x)dx
é absolutamente convergente, é evidente que R1 (RN ) ⊇ Cc (RN ), e portanto

R1 (RN ) é igualmente denso em L1 (RN ).

Já vimos que L1 (RN ) é completo, i.e., é um espaço de Banach. Como


R1 (RN ) é denso em L1 (RN ), concluı́mos que L1 (RN ) é o espaço completo
determinado por R1 (RN ). Por outras palavras, o espaço L1 (RN ) está para o
espaço R1 (RN ) exactamente como o conjunto R está para o conjunto Q.

Exercı́cios.
3.6. Continuidade e Mensurabilidade 215

1. Complete o cálculo da função tn = sn − sn−1 referido na demonstração de


3.6.3. sugestão: Observe que En−1,k = En,2k ∪ En,2k+1 .

2. Para completar a demonstração de 3.6.1, mostre que dados rectângulos aber-


tos limitados R e S, tais que R ⊂ R ⊂ S, existe uma função contı́nua f ,
0 ≤ f ≤ 1, tal que f (x) = 1 para x ∈ R, e f (x) = 0 para x 6∈ S, donde f tem
suporte compacto. sugestão: Comece por provar a afirmação em R.
1
3. Verifique que a função f : R → R dada por f (x) = e− x2 para x > 0,
e por f (x) = 0 para x ≤ 0 é de classe C∞ . Conclua que g ∈ Cc∞ (R), se
g(x) = f (x)f (1 − x). Aproveite para mostrar que podemos supor no exercı́cio
anterior que f é de classe C ∞ .

4. Conclua a demonstração do teorema de Vitali-Luzin (3.6.4) tomando agora


como hipótese que |f | ≤ M . Verifique também que, se E ⊆ U , onde U é um
aberto, então a função g pode ser suposta ter suporte compacto em U .

5. Demonstre o corolário 3.6.6. sugestão: Recorde que RN é σ-compacto.

6. Seja f : RN → R uma função L-mensurável e somável. Prove que


Z
lim |f (x + y) − f (x)| dmN = 0.
y→0 RN

sugestão: Suponha primeiro que f é contı́nua de suporte compacto.

N ∞
7. Mostre que C0 (R
 ) é um espaço
de Banach, com aN norma “de L ”, dada
por kf k∞ = sup |f (x)| : x ∈ R . Prove que Cc (R ) é denso em C0 (RN ),
N

com esta norma.

8. continuidade da transformada de Fourier: Prove que se f ∈ L1 (R) e


T (f ) é a sua transformada de Fourier, então T (f ) ∈ C0 (R), onde aqui C0 (RN )
designa a classe das funções contı́nuas com valores complexos, tais que |f (x)| →
0, quando kxk → ∞. Aproveite para mostrar que T : L1 (R) → C0 (R) é um
operador (uniformemente) contı́nuo, porque

kT (f ) − T (g)k∞ ≤ kf − gk1 .

sugestão: Sabemos que T (f ) é contı́nua. Comece por mostrar que kT (f )k∞ ≤


π
kf k1 . Considere a função fα (x) = f (x − α ), e a respectiva transformada de
Fourier Fα . Aplique o exercı́cio 6 à diferença fα − f .
216 Capı́tulo 3. Integrais de Lebesgue
Capı́tulo 4

Outras Medidas

A teoria da medida não se esgota com o estudo da medida de Lebesgue, nem


a teoria da integração se esgota com o estudo dos integrais “em ordem à
medida de Lebesgue”. Estudamos neste Capı́tulo outros espaços de medida,
deixando para mais tarde a questão da definição de “integrais de Lebesgue”
em ordem a qualquer medida.
Começamos por complementar as ideias e resultados gerais sobre medi-
das que referimos no capı́tulo 2. É indispensável aqui esclarecer a estrutura
das medidas reais, i.e., provar o Teorema da Decomposição de Hahn-Jordan,
que mostra que as medidas reais são diferenças de medidas positivas finitas,
e leva ao conceito de variação total de uma medida.
Vimos que qualquer integral indefinido de Lebesgue é uma medida. Estas
medidas gozam de uma propriedade especial, dita continuidade absoluta, que
estudaremos no que se segue. Esta ideia, primeiro referida por Harnack(1 )
nos finais do século XIX, a propósito dos integrais impróprios de Riemann
de 1a espécie que ele próprio estudou, e formalmente definida por Vitali
em 1905, quando lhe atribuiu o nome que hoje utilizamos, é aplicável a
medidas e a funções, e é a chave para o entendimento actual dos Teoremas
Fundamentais do Cálculo.
Muitos dos exemplos relevantes nas aplicações envolvem medidas de-
finidas pelo menos na classe B(RN ), que chamaremos aqui “medidas de
Lebesgue-Stieltjes”. A questão da sua regularidade é frequentemente muito
importante, e provaremos diversos resultados sobre este assunto. Veremos
em particular que qualquer medida definida em B(RN ) e finita nos conjuntos
compactos tem uma única extensão regular completa, um facto que usaremos
repetidamente no que se segue. Mostraremos também que as medidas de
Lebesgue-Stieltjes regulares e σ-finitas têm propriedades muito semelhantes
às da medida de Lebesgue, tal como as estudámos no Capı́tulo 2.
As medidas de Lebesgue-Stieltjes localmente finitas na recta real são
especialmente fáceis de caracterizar e estudar, e estão associadas a funções
1
Carl Gustav Axel Harnack, 1851-1888.

217
218 Capı́tulo 4. Outras Medidas

reais de variável real, que chamaremos as suas funções de distribuição. Esta


dualidade entre medidas e funções enriquece simultaneamente a teoria da
medida e a teoria das funções. Introduzimos e estudamos aqui as classes
das funções de variação limitada e das funções absolutamente contı́nuas, e
provamos um resultado clássico sobre funções absolutamente contı́nuas: o
Teorema de Banach-Zaretsky.
Terminamos o Capı́tulo provando o grande Teorema de Diferenciação
de Lebesgue, a partir do “Lema do Sol Nascente” de F.Riesz, e obtemos
finalmente versões modernas dos Teoremas Fundamentais do Cálculo em R,
relacionando estes resultados com uma das questões mais centrais da Teoria
da Medida: a de caracterizar as medidas que são integrais indefinidos.

4.1 A Decomposição de Hahn-Jordan


Qualquer função real f : X → R pode ser decomposta na forma f = f + −f − ,
onde f + e f − são as funções f + = f χP e f − = −f χN e P e N são os
conjuntos P = {x ∈ X : f (x) > 0} e N = {x ∈ X : f (x) < 0}. É claro
que f + e f − são positivas e distintas de zero em conjuntos disjuntos. Antes
de apresentarmos uma decomposição análoga a esta para medidas reais, é
necessário introduzir uma noção auxiliar:
Definição 4.1.1 (Medida Concentrada em S). Se µ é uma medida definida
em M e S ∈ M, dizemos que µ está concentrada em S se e só se µ(E) =
µ(E ∩ S) para qualquer E ∈ M.

X
E\S E∩S
S

Figura 4.1.1: µ concentrada em S ⇐⇒ µ(E) = µ(E ∩ S) para E ∈ M.

Provamos nesta secção que qualquer medida real µ é a diferença de duas


medidas positivas finitas, µ = µ+ −µ− , que estão concentradas em conjuntos
disjuntos. Esta é a chamada decomposição de Jordan, que simplifica o
estudo de medidas reais e complexas, porque o reduz em larga medida ao
estudo de medidas positivas finitas. A decomposição de Hahn de µ,
que é, como veremos, essencialmente equivalente à de Jordan, é formada
por conjuntos disjuntos P e N = P c tais que µ+ e µ− estão concentradas
respectivamente em P e em N .
4.1. A Decomposição de Hahn-Jordan 219

Exemplos 4.1.2.
1. A medida de Dirac em R está concentrada em A = {0}. Está igualmente
concentrada em B = [0, 1], ou mais geralmente em qualquer conjunto C tal
que A ⊆ C.
2. A medida de Lebesgue em R está concentrada no conjunto dos irracionais.
Podemos também dizer que m está concentrada em R\Z, em R\ {0}, etc.
3. Se f é mensurável e não-negativa,
 ou somável, o respectivo
integral indefinido
está concentrado no conjunto x ∈ RN : f (x) 6= 0 (ver o exercı́cio 7).

No que se segue nesta secção, salvo menção em contrário, supomos que


todas as medidas referidas estão definidas num dado espaço mensurável
(X, M). Observamos desde já que, como os exemplos acima tornam evi-
dente, o conjunto onde uma dada medida está concentrada não é único. A
determinação dos conjuntos onde µ está concentrada é aliás equivalente à
identificação dos:

Definição 4.1.3 (Conjuntos µ-Nulos). E ∈ M é µ-nulo se e só se, para


qualquer F ∈ M, temos F ⊆ E ⇒ µ(F ) = 0.

Temos, portanto, que E é µ-nulo se e só se é mensurável e todos os


seus subconjuntos mensuráveis têm medida nula. Quando µ é uma medida
positiva, esta condição reduz-se, por razões óbvias, à condição µ(E) = 0.
Exemplos 4.1.4.
1. Seja A = ]−1, 0[, B = ]0, 1[, e µ(E) = m(E ∩ A) − m(E ∩ B). Então
µ([−1, 1]) = 0, mas [−1, 1] não é µ-nulo, porque, por exemplo, A ⊂ [−1, 1], e
µ(A) 6= 0.
2. A função f (x) = e−|x| sen(x) é somável em R. Se µ é o seu integral indefinido,
então µ([−π, π]) = 0, mas [−π, π] não é µ-nulo, porque µ([0, π]) > 0.

Usamos expressões como “µ-quase em toda a parte”, abreviada “µ-qtp”,


para significar “excepto num conjunto µ-nulo”. Quando a medida µ é óbvia
do contexto, em especial quando µ é a medida de Lebesgue, eliminamos o
prefixo “µ” destas expressões.
Exemplos 4.1.5.
1. A função f (x) = x é nula, δ-qtp.
2. Sendo µ o integral indefinido de uma função f : R → R somável, o conjunto
dos racionais é µ-nulo. Mais geralmente, qualquer conjunto nulo é µ-nulo.

Deixamos para o exercı́cio 1 mostrar que


220 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Proposição 4.1.6. µ está concentrada em S se e só se S c é µ-nulo.


No caso de uma medida µ definida pelo menos em B(RN ), e apesar do
que dissémos acima, é possı́vel identificar o menor conjunto fechado onde µ
está concentrada, e é este conjunto que se diz o suporte da medida µ(2 ).
Teorema
 4.1.7. Se µ é uma medida
definida
S pelo menos em B(RN ), V =
U ⊆ R : U é aberto e µ-nulo , V = U ∈V U e F = V c , temos que
N

a) V é o maior conjunto aberto µ-nulo,


b) µ está concentrada no conjunto fechado F = V c e
c) Se G ⊂ F é fechado e G 6= F , então µ não está concentrada em G.
Em particular, se µ ≥ 0 é finita então µ(G) < µ(F ).
A demonstração deste resultado é o exercı́cio 13.
Exemplos 4.1.8.
1. No caso da medida de Lebesgue,
 qualquer aberto U ⊆ RN não-vazio satisfaz
mN (U ) > 0. Portanto, V = U ⊆ RN : U é aberto e nulo = {∅} e V = ∅,
donde F = RN . Por outras palavras, o suporte de mN é RN .
2. Se δ é a medida de Dirac na origem, então V = R\{0} é evidentemente o
maior aberto δ-nulo, e portanto F = {0}, ou seja, o suporte de δ é {0}.
3. No caso do exemplo 4.1.4.1, é fácil ver que F = [−1, +1].
4. Se µ é o exemplo 4.1.4.2, então F = R.

Podemos agora introduzir a


Definição 4.1.9 (Decomposição de Jordan). Uma decomposição de jor-
dan da medida real µ é um par (π, ν) de medidas positivas finitas tais que
• µ(E) = π(E) − ν(E), para qualquer E ∈ M, e
• π e ν estão concentradas em conjuntos disjuntos.
Exemplos 4.1.10.
1. Se A e B são quaisquer conjuntos disjuntos em L(R) com medida finita e
µ(E) = m(E ∩ A) − m(E ∩ B), é fácil ver que as medidas dadas por π(E) =
m(E ∩ A) e ν(E) = m(E ∩ B) são uma decomposição de Jordan para µ.
2. Se f : RN → R é somável em RN e µ, π e ν são, respectivamente, os integrais
indefinidos de f , f + e de f − , então π e ν são medidas positivas finitas e
Z Z Z
µ(E) = f= f+ − f − = π(E) − ν(E).
E E E

Observamos que
2
Referiremos na secção 4.4 a generalização desta ideia a contextos mais gerais.
4.1. A Decomposição de Hahn-Jordan 221


• π e ν estão
 concentradas, respectivamente,
em P = x ∈ RN : f (x) > 0
e N = x ∈ RN : f (x) < 0 ,
• P e N são, evidentemente, conjuntos disjuntos.

Concluı́mos que (π, ν) é uma decomposição de Jordan de µ. Em particular,


a decomposição de Jordan do integral indefinido de f corresponde à usual
decomposição f = f + − f − .

As medidas π e ν que formam uma qualquer decomposição de Jordan


estão concentradas em conjuntos disjuntos P e N . É claro que N é π-
nulo, porque está contido no complementar de P , e P é ν-nulo, porque está
contido no complementar de N . Introduzimos a este respeito a seguinte
terminologia:

Definição 4.1.11 (Medidas Singulares). Se π está concentrada num con-


junto ν-nulo, π diz-se singular (em relação a ν), e escrevemos π⊥ν.

No caso de medidas em RN , dizemos simplesmente que π é singular, sem


mais qualificativos, quando π é singular em relação à medida de Lebesgue.
A demonstração do seguinte resultado não apresenta quaisquer dificuldades:

Proposição 4.1.12. π⊥ν se e só se π e ν estão concentradas em conjuntos


disjuntos. Em particular, π⊥ν se e só se ν⊥π.

Exemplos 4.1.13.
1. A medida de Dirac δ em R é singular (em relação à medida de Lebesgue),
porque tem suporte em S = {0}, e S é um conjunto m-nulo.

2. A medida de Lebesgue é singular em relação à medida de Dirac, porque a


medida de Lebesgue está concentrada em B = R\ {0} = Ac e δ(B) = 0.

3. Note-se que as medidas de Lebesgue e de Dirac estão concentradas em con-


juntos disjuntos mas não têm suportes disjuntos.

Supondo que (π, ν) é uma decomposição de Jordan da medida µ onde π


está concentrada num conjunto ν-nulo P , é claro que ν está concentrada no
conjunto π-nulo N = P c . Notamos que:

• Se E ⊆ P então µ(E) ≥ 0, porque µ(E) = π(E) − ν(E) = π(E) ≥ 0, e

• Se E ⊆ N então µ(E) ≤ 0, porque µ(E) = π(E) − ν(E) = −ν(E) ≤ 0.

Por outras palavras, todos os subconjuntos de P têm medida não-negativa,


e todos os subconjuntos de N têm medida não-positiva. Os conjuntos com
estas propriedades designam-se:
222 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Definição 4.1.14 (Conjuntos µ-Positivos, µ-Negativos). Sendo µ uma me-


dida real, dizemos que E ∈ M é µ-positivo (respectivamente, µ-negativo)
se e só se para qualquer F ∈ M temos F ⊆ E ⇒ µ(F ) ≥ 0 (respectivamente,
µ(F ) ≤ 0).
Exemplos 4.1.15.
1. O conjunto ∅ é simultaneamente µ-positivo, µ-negativo e µ-nulo.
2. Se µ é o exemplo 4.1.4.1, é fácil ver que A = [−1, 0] é µ-positivo e B = [0, +1]
é µ-negativo.
3. Se µ é o integral indefinido da função somável f e E é mensurável, então E é
µ-positivo (respectivamente, µ-negativo) se e só se f (x) ≥ 0 (respectivamente,
f (x) ≤ 0) qtp em E.

A demonstração das seguintes propriedades é o exercı́cio 4.


Proposição 4.1.16. Seja µ uma medida real e P, Q, Pn ∈ M.
a) P é µ-positivo e Q ⊆ P =⇒ Q é µ-positivo e µ(Q) ≤ µ(P ),

b) P é µ-negativo e Q ⊆ P =⇒ Q é µ-negativo e µ(Q) ≥ µ(P ),


c) Pn µ-positivo para qualquer n ∈ N =⇒

[
P = Pn é µ-positivo e µ(P ) ≥ µ(Pn ), para qualquer n ∈ N.
n=1

Sempre supondo que (π, ν) é uma decomposição de Jordan da medida µ,


π está concentrada no conjunto ν-nulo P e N = P c , os conjuntos P e N
formam uma partição de X onde P é µ-positivo e N é µ-negativo, o que nos
conduz à seguinte
Definição 4.1.17 (Decomposição de Hahn). Se µ é uma medida real e
P, N ∈ M, o par (P, N ) é uma decomposição de Hahn para µ se e só se

P é µ-positivo, N é µ-negativo, X = P ∪ N e P ∩ N = ∅.

Podemos portanto dizer que se µ tem uma decomposição de Jordan então


tem igualmente uma decomposição de Hahn. É também muito fácil mostrar
que se µ tem uma decomposição de Hahn então tem necessariamente uma
decomposição de Jordan. Para isso, e supondo que (P, N ) é uma decom-
posição de Hahn, definimos

π(E) = µ(E ∩ P ) e ν(E) = −µ(E ∩ N ).

As medidas π e ν são positivas e finitas, π⊥ν e temos (figura 4.1.2)

µ(E) = µ(E ∩ P ) + µ(E ∩ N ) = π(E) − ν(E), i.e., µ = π − ν.


4.1. A Decomposição de Hahn-Jordan 223

N X
E∩N
E∩P
P

Figura 4.1.2: µ(E) = µ(E ∩ P ) + µ(E ∩ N ) = π(E) − ν(E).

Se µ tem uma decomposição de Hahn (P, N ), é ainda muito simples mostrar


que µ tem mı́nimo e máximo finitos, que são exactamente os valores µ(N ) e
µ(P ). Basta notar que, como P é µ-positivo e N é µ-negativo, segue-se da
proposição 4.1.16 que, para qualquer E ∈ M,

0 ≤ µ(E ∩ P ) ≤ µ(P ) e µ(N ) ≤ µ(E ∩ N ) ≤ 0.

Concluı́mos que

µ(N ) ≤ µ(E ∩ N ) ≤ µ(E ∩ P ) + µ(E ∩ N ) ≤ µ(E ∩ P ) ≤ µ(P ),

ou seja, µ(N ) ≤ µ(E) ≤ µ(P ), e µ tem máximo em P e mı́nimo em N .

A técnica que vamos utilizar para estabelecer a existência de decomposições


de Hahn e de Jordan é sugerida por esta observação elementar. Tem os
seguintes passos essenciais:

(I) Mostrar que qualquer medida real µ tem máximo na classe dos con-
juntos µ-positivos,

(II) Provar que se o máximo referido em (1) é atingido no conjunto P então


N = P c é µ-negativo, i.e., (P, N ) é uma decomposição de Hahn de µ.

A próxima proposição corresponde ao passo (I) acima indicado:

Proposição 4.1.18. Se µ é uma medida real então existe um conjunto µ-


positivo P tal que µ(P ) = max {µ(Q) : Q ∈ M, Q µ-positivo }.

Demonstração. O conjunto ∅ é µ-positivo, e portanto a classe dos conjuntos


µ-positivos não é vazia. Temos em particular que

0 ≤ α = sup {µ(Q) : Q ∈ M, Q µ-positivo } ≤ ∞.


224 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Existem naturalmente conjuntos µ-positivos Qn tais que µ(Qn ) → α, e temos


de 4.1.16 c) que

[
P = Qn é µ-positivo e µ(P ) ≥ µ(Qn ), para qualquer n.
n=1

Como µ(Qn ) ≤ µ(P ) ≤ α e µ(Qn ) → α é evidente que µ(P ) = α.

Antes de mostrar que N = P c é µ-negativo, que é o passo (II) que


referimos, precisamos de estabelecer um resultado auxiliar, aliás com um
argumento muito interessante, onde provamos que qualquer conjunto com
medida estritamente positiva contém um subconjunto µ-positivo, também
com medida estritamente positiva.

Lema 4.1.19. Se µ(E) > 0, existe um conjunto µ-positivo P ⊆ E com


µ(P ) ≥ µ(E) > 0.

Demonstração. Dado A ∈ M, seja ν(A) = inf {µ(F ) : F ∈ M, F ⊆ A}(3 ).


Notamos que ν(A) ≤ 0, porque podemos sempre tomar F = ∅. Observamos
igualmente que

(1) A é µ-positivo se e só se ν(A) = 0.

(2) Se B ⊆ A e B ∈ M então ν(B) ≥ ν(A).

Notamos também que se ν(A) > −∞ então


1
(3) Existe B ⊆ A tal que ν(B) ≤ ν(A).
2
Basta-nos considerar dois casos:

• Se ν(A) = 0 então podemos tomar B = ∅, e

• se ν(A) < 0 então ν(A)/2 > ν(A) = inf {µ(F ) : F ∈ M, F ⊆ A}.

Se ν(A) = −∞ a observação (3) é obviamente falsa, porque µ(B) 6= −∞,


mas neste caso existe B ⊆ A tal que µ(B) ≤ −1. Concluı́mos que

(4) Se A ∈ M, então existe B ⊆ A tal que B ∈ M e


 
1
µ(B) ≤ max −1, ν(Pn ) .
2

Definimos duas sucessões de conjuntos Pn e Fn por indução como se


segue (ver figura 4.1.3):
3
Veremos imediatamente a seguir que −ν é na realidade uma das medidas que formam
a decomposição de Jordan de µ.
4.1. A Decomposição de Hahn-Jordan 225

F1

F2

F3
F4

P1 = E P2 P3 P4


[ ∞
\
Figura 4.1.3: F = Fn , P = Pn e E = P ∪ F .
n=1 n=1

(a) P1 = E e,
para qualquer n ∈ N,

(b) Para a sucessão dos Fn , e de acordo com (4), seleccionamos um con-


junto Fn ∈ M tal que
 
1
(5) Fn ⊆ Pn e µ(Fn ) ≤ max −1, ν(Pn ) ≤ 0.
2

(c) Para a sucessão dos Pn , tomamos Pn+1 = Pn \Fn .

Deve ser evidente que os conjuntos Fn são disjuntos e os conjuntos Pn for-


mam uma sucessão decrescente, onde

\ ∞
[
Pn ց P = Pn e E = P ∪ F com F = Fn .
n=1 n=1

Como µ(Fn ) ≤ 0 e os conjuntos Fn são disjuntos, temos



X
(6) − ∞ < µ(F ) = µ(Fn ) ≤ 0 e µ(Fn ) → 0.
n=1

Para n suficientemente grande temos de (6) que µ(Fn ) > −1 e de (5) que

ν(Pn )
(7) 0 ≥ ≥ µ(Fn ) → 0, ou seja, ν(Pn ) → 0.
2
Como P ⊆ Pn , obtemos de (2) e de (7) que 0 ≥ ν(P ) ≥ ν(Pn ) → 0. Temos
assim que ν(P ) = 0, i.e., P é µ-positivo. Para concluir a demonstração,
notamos que µ(P ) = µ(E) − µ(F ) ≥ µ(E) > 0, porque E = P ∪ F .
226 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Passamos a demonstrar o principal resultado desta secção:

Teorema 4.1.20 (da Decomposição de Hahn-Jordan). Qualquer medida


real tem decomposições de Hahn e de Jordan.

N = X\P X

E P∗

Figura 4.1.4: Demonstração de 4.1.20.

Demonstração. De acordo com 4.1.18, existe um conjunto µ-positivo P tal


que
µ(P ) = α = max {µ(E) : E ∈ M, E µ-positivo } < +∞.
A demonstração resume-se a mostrar que N = X\P é µ-negativo, conforme
dissémos na observação (II) acima, e argumentamos por contradição.
Se N não é µ-negativo, existe E ⊆ N com µ(E) > 0. De acordo com
4.1.19, existe neste caso um conjunto µ-positivo P ∗ ⊆ E com µ(P ∗ ) > 0. O
conjunto P ∪ P ∗ é portanto µ-positivo e µ(P ∪ P ∗ ) = µ(P ) + µ(P ∗ ) > α, o
que contradiz a definição de α.
Concluı́mos assim que N é µ-negativo e (P, N ) é uma decomposição de
Hahn para µ. Por esta razão, e como já observámos, existe também uma
decomposição de Jordan (π, ν) para µ, onde as medidas em causa são dadas
por π(E) = µ(E ∩ P ) e ν(E) = −µ(E ∩ N ).

A questão da unicidade destas decomposições é bastante mais simples


de analisar, e por isso a sua verificação fica para os exercı́cios 5 e 6.

Teorema 4.1.21. Seja µ uma medida real, e suponha-se que (π, ν) e (P, N )
são, respectivamente, decomposições de Jordan e de Hahn para µ. Então,

a) Se π ∗ e ν ∗ são medidas positivas finitas tais que µ = π ∗ − ν ∗ , então


π ≤ π∗ e ν ≤ ν ∗.

b) Em particular, se (π ∗ , ν ∗ ) é uma decomposição de Jordan de µ, então


π ∗ = π, e ν = ν ∗ .
4.1. A Decomposição de Hahn-Jordan 227

c) Se (P ∗ , N ∗ ) é uma decomposição de Hahn para µ, então P ∩ N ∗ e


P ∗ ∩ N são µ-nulos.
Sendo µ uma medida real, a respectiva decomposição de Jordan (π, ν)
existe, de acordo com o resultado acima, e é única, de acordo com 4.1.21.
Passamos a escrever µ+ , em lugar de π, e µ− , em lugar de ν.
Exercı́cios.

1. Prove que µ está concentrada em S se e só se S c é µ-nulo (proposição 4.1.6).

2. Demonstre a proposição 4.1.12.

3. Sendo I = [0, 2] e J = [1, 3], determine decomposições de Jordan e de Hahn


para a medida µ dada por µ(E) = m(E ∩ I) − m(E ∩ J).

4. Seja µ uma medida real no espaço mensurável (X, M). Demonstre 4.1.16,
ou seja:
a) Se P é µ-positivo, Q ∈ M, e Q ⊆ P , então Q é µ-positivo, e µ(Q) ≤ µ(P ).
b) Se P é µ-negativo, Q ∈ M, e Q ⊆ P , então Q é µ-negativo, e µ(Q) ≥
µ(P ).
c) Se Pn é µ-positivo para qualquer n ∈ N, então ∪∞
n=1 Pn é µ-positivo, e
µ(∪∞
n=1 Pn ) ≥ µ(Pn ).

5. Mostre que, se µ : M → R é uma medida real, (π, ν) é uma decomposição


de Jordan para µ, e π ∗ , ν ∗ : M → [0, +∞[ são medidas positivas finitas tais
que µ = π ∗ − ν ∗ , então π ≤ π ∗ e ν ≤ ν ∗ . Em particular, a decomposição de
Jordan de (X, M, µ) é única (teorema 4.1.21, a), e b)).

6. Prove que se (P, N ) e (P ′ , N ′ ) são decomposições de Hahn de (X, M, µ),


então P ∩ N ′ e P ′ ∩ N são µ-nulos (teorema 4.1.21, b)).

7. Seja f : RN → R localmente somável, e µ o respectivo integral indefinido.



a) Mostre que µ está concentrada em P = x ∈ RN : f (x) > 0 quando
f ≥ 0.
b) Suponha agora que f = f + − f − muda de sinal em RN , e é somável em
RN . Sejam π e ν os integrais indefinidos de f + e f − . Mostre que (π, ν)
é a decomposição de Jordan de µ = π − ν.
c) Continuando a alı́nea anterior, as medidas π, ν e µ estão definidas res-
pectivamente nas σ-álgebras Lf + , Lf − , e Lf . Mostre que Lf = L|f | =
Lf + ∩ Lf − .

8. Sendo n ∈ N, suponha que δn é a medida de Dirac com suporte em {n}, e


X∞
(−1)n
µ= δn .
n=1
2n

Determine decomposições de Jordan e de Hahn para a medida µ.


228 Capı́tulo 4. Outras Medidas

2
9. Seja λ o integral indefinido de f (x) = e−x sen(πx), e µ a medida referida no
exercı́cio anterior. Determine decomposições de Jordan e de Hahn para λ + µ.

10. Seja µ uma medida real no espaço (X, M) e E ∈ M. Mostre que

a) µ+ (E) = sup {µ(F ) : F ∈ M, F ⊆ E}, e


b) µ− (E) = − inf {µ(F ) : F ∈ M, F ⊆ E}.

Z b
sen(x)
11. Existe alguma medida real µ tal que µ([a, b]) = dx?
a x

12. Suponha que µ é uma medida real em B(R), e f (x) = µ(] − ∞, x]). Prove
que f (x) = g(x) − h(x), onde g e h são funções crescentes e limitadas em R.

13. Demonstre o teorema 4.1.7. sugestão: Verifique que pode substituir


a classe V referida no teorema 4.1.7 pela classe (numerável) formada pelos
rectângulos abertos com vértices de coordenadas racionais que são µ-nulos.

14. Suponha que Q = {q1 , · · · , qn , · · · } e

X∞
(−1)n
µ= δqn .
n=1
2n

Determine decomposições de Jordan e de Hahn para a medida µ. Mostre que


(dependendo da enumeração dos racionais em causa) os suportes de µ+ e de
µ− podem ser iguais.

15. Suponha que µ é o integral indefinido de uma função somável f . As medidas


µ+ e µ− podem ter o mesmo suporte?

4.2 A Variação Total de uma Medida


A noção de variação total de uma medida real ou positiva µ é análoga à
de oscilação de uma função real, num dado conjunto. Se µ está definida na
σ-álgebra M, temos

Definição 4.2.1 (Variação Total). A variação total de µ é a função |µ|


definida em M por:(4 )

|µ| (E) = sup {µ(F ) : F ⊆ E, F ∈ M} − inf {µ(F ) : F ⊆ E, F ∈ M} .


4
A utilização do sı́mbolo |µ| para designar a variação total de µ é tradicional, mas é
ambı́gua, porque se presta a confusões com o simples valor absoluto da função µ. Conven-
cionamos a este respeito que o valor absoluto de µ(E) será sempre designado por |µ(E)|.
4.2. A Variação Total de uma Medida 229

Conforme sugerido no exercı́cio 10 da secção anterior, a variação total de


uma medida real µ calcula-se facilmente das suas decomposições de Jordan
e de Hahn. Sempre supondo que F ⊆ E e F ∈ M, temos

µ(F ) = µ+ (F ) − µ− (F ) ≤ µ+ (F ) ≤ µ+ (E) = µ(E ∩ P ),

e analogamente

µ(F ) = µ+ (F ) − µ− (F ) ≥ −µ− (F ) ≥ −µ− (E) = µ(E ∩ N ).

Podemos assim concluir que

max {µ(F ) : F ⊆ E, F ∈ M} = µ(E ∩ P ) = µ+ (E), e

min {µ(F ) : F ⊆ E, F ∈ M} = µ(E ∩ N ) = −µ− (E).


A variação total de µ em E é portanto dada por |µ| (E) = µ+ (E) + µ− (E),
ou seja, |µ| = µ+ + µ− . Passamos também a dizer que µ+ e µ− são, respec-
tivamente, a variação positiva e a variação negativa de µ. Note-se que |µ|,
µ+ e µ− são medidas positivas, que são finitas quando µ é uma medida
real. Quando µ é positiva, é claro que a variação total de µ pode ser definida
como em 4.2.1, mas nesse caso temos obviamente µ = |µ|, e esta medida não
é necessariamente finita.
Exemplos 4.2.2.
1. Se f : RN → R é somável e µ é o respectivo integral indefinido, então µ+ e
µ− são os integrais indefinidos de f + e f − . A variação total de µ é portanto
dada por
Z Z Z Z
|µ|(E) = µ+ (E) + µ− (E) = f+ + f− = (f + + f − ) = |f |.
E E E E

Por outras palavras, a variação total |µ| é o integral indefinido de |f |.


2. Se µ = δ1 − δ−1 , então a decomposição de Jordan de µ é (δ1 , δ−1 ), donde
|µ| = δ1 + δ−1 .
3. Observe-se ainda que
X∞ X∞ X∞ X∞
(−1)n + 1 − 1 1
µ= n
δ n ⇒ µ = δ
2n 2n
, µ = δ
2n−1 2n−1
e |µ| = δ .
n n
n=1
2 n=1
2 n=1
2 n=1
2

A variação total de uma medida real pode ser também calculada pela:

Proposição 4.2.3. Se µ é uma medida real, ou positiva, então


(∞ ∞
)
X [
|µ| (E) = sup |µ(En )| : En ∈ M, E = En , En ’s disjuntos .
n=1 n=1
230 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Demonstração. O resultado é evidente quando µ é uma medida positiva. Se


µ é uma medida real então temos para qualquer partição {En } que

X ∞
X ∞
X
+ −

|µ(En )| = |µ (En ) − µ (En )| ≤ µ+ (En ) + µ− (En ) =
n=1 n=1 n=1
= µ+ (E) + µ− (E) = |µ| (E), i.e.,
( ∞ ∞
)
X [
sup |µ(En )| : En ∈ M, E = En , En ’s disjuntos ≤ |µ| (E).
n=1 n=1

Por outro lado, e supondo que (P, N ) é uma decomposição de Hahn para µ,
tomamos E1 = E ∩ P, E2 = E ∩ N e En = ∅, para n > 2, donde

X
|µ(En )| = |µ(E1 )| + |µ(E2 )| = µ(E ∩ P ) + µ(E ∩ N ) =
n=1
= µ+ (E) + µ− (E) = |µ| (E), e
( ∞ ∞
)
X [
|µ| (E) ≤ sup |µ(En )| : En ∈ M, E = En , En ’s disjuntos .
n=1 n=1

De acordo com este resultado, podemos substituir a definição 4.2.1 pela


seguinte, agora aplicável a qualquer medida real, positiva ou complexa:

Definição 4.2.4 (Variação Total). Se µ é uma medida (positiva, real ou


complexa) definida em M, a variação total de µ é a função |µ| : M →
[0, ∞], dada por:
(∞ ∞
)
X [
|µ| (E) = sup |µ(En )| : En ∈ M, E = En , En ’s disjuntos .
n=1 n=1

Exemplo 4.2.5.
Podemos definir “pentes de Dirac” em qualquer conjunto X, e na σ-álgebra
P(X). Dado um conjunto numerável S = {x1 , x2 , · · · , xn , · · · } ⊆ X e uma
sucessão de reais ou complexos c1 , c2 , · · · , se existe uma medida π concentrada
em S e tal que π({xn }) = cn , escrevemos

X X
π= cn δxn e temos π(E) = cn , onde IE = {n ∈ N : xn ∈ E} e E ⊆ X.
n=1 n∈IE

Deixamos para o exercı́cio 1 verificar que a medida π existe se e só se se verifica


um dos seguintes casos:
• cn ≥ 0 para qualquer n ∈ N, ou
P∞
• a série n=1 cn é absolutamente convergente.
4.2. A Variação Total de uma Medida 231

Dizemos então que π é um “pente de Dirac”, ou uma medida discreta. A


variação total de π é dada por:
X
|π| (E) = |cn | .
n∈IE

O próximo teorema agrupa algumas observações elementares, todas de


muito simples verificação. Note-se que mesmo quando µ é uma medida
complexa é ainda verdade que |µ| é uma medida positiva finita.
Teorema 4.2.6. Se µ é uma medida real ou complexa, então:
a) |µ(E)| ≤ |µ| (E) ≤ |µ| (F ), para quaisquer E, F ∈ M com E ⊆ F .
b) E é µ-nulo ⇐⇒ |µ| (E) = 0.
c) |µ| é uma medida positiva finita, donde µ é de variação limitada.
d) µ está concentrada em S ⇐⇒ |µ| está concentrada em S.
e) Se µ e λ são medidas reais (resp., complexas) e c ∈ R (resp., c ∈ C),
então µ + λ e cµ são medidas reais (resp., complexas). Em particular,
o conjunto das medidas reais (resp., complexas) definidas em (X, M)
é um espaço vectorial real (resp., complexo).(5 )
Demonstração. Para provar a), tomamos na definição (4.2.4) E1 = E e
En = ∅ para n > 1, para concluir que |µ(E)| ≤ |µ| (E). É igualmente fácil
verificar que se E ⊆ F então |µ| (E) ≤ |µ| (F ).

Se |µ| (E) = 0, F ∈ M e F ⊆ E segue-se de a) que µ(F ) = 0, e portanto E


é µ-nulo. Por outro lado, se E é µ-nulo então é óbvio da definição (4.2.4)
que |µ| (E) = 0.

Deixamos para o exercı́cio 2 a demonstração de c). Supondo verificad esta


afirmação, é evidente que d) é equivalente a b).

A afirmação e) resume propriedades elementares de séries convergentes.

A medida µ diz-se de variação limitada se e só se |µ| (X) < +∞, sendo
claro que apenas as medidas positivas, que aliás coincidem com a sua variação
total, podem não ter variação limitada. Passamos a designar por M (M, Y )
o espaço das medidas µ : M → Y , onde Y = R ou Y = C, que por vezes
simplificamos para M (M) quando Y é evidente do contexto, e deixamos
para os exercı́cios 4 e 5 a verificação do seguinte resultado:
5
As medidas reais (resp., complexas) em (X, M) são funções µ : M → R (resp.,
µ : M → C) de tipo especial, e formam assim um subespaço do espaço de todas as funções
f reais (resp., complexas) definidas em M. Este último designa-se usualmente por RM
(resp., CM ).
232 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Proposição 4.2.7. A aplicação definida em M (M, C) por kµk = |µ| (X) é


uma norma, e com esta norma M (M, C) é um espaço de Banach complexo.
Analogamente, M (M, R) é um espaço de Banach real.

Observações 4.2.8.
1. Se µ é o integral indefinido de uma função somável f : RN → R, então
Z
kµk = |µ| (RN ) = |f |dmN = kf k1 .
RN

2. Seja M (B(RN )) o espaço de Banach formado por todas as medidas reais


definidas em B(RN ), que se diz o espaço das medidas de Borel(6 ). O
operador Ψ : L1 (RN ) → M (B(RN )) que associa a cada classe [f ] o integral
indefinido de f é linear e preserva normas, de acordo com a observação acima.
O espaço de Banach M (B(RN )) contém por isso um subespaço de Banach
isomorfo a L1 (RN ). Dizemos portanto que o espaço de Banach M (B(RN ))
é uma extensão do espaço de Banach L1 (RN ), se bem que esta afirmação
pressuponha que “identificamos”, ou seja, tratamos como se fossem o mesmo
objecto, tanto a classe [f ] como o seu integral indefinido(7 ).

Aproveitamos para generalizar a medidas reais e complexas a noção de


medida completa que introduzimos em 2.3.15:

Definição 4.2.9 (Medida Completa). A medida µ é completa se e só se


todos os subconjuntos de conjuntos µ-nulos são mensuráveis, i.e., se e só se
o espaço (X, M, |µ|) é completo, no sentido de 2.3.15.

Exemplos 4.2.10.
1. O integral indefinido de f é completo, se tomarmos M = Lf .

2. Se µ é uma medida complexa definida em M, a sua menor extensão completa


está definida da forma óbvia na σ-álgebra Mµ = M|µ| , dada por:

Mµ = {E ⊆ X : Existem A, B ∈ M, A ⊆ E ⊆ B, |µ|(B\A) = 0} .

Exercı́cios.
6
Mais geralmente, se X é um espaço topológico, as medidas definidas em B(X) dizem-se
de Borel em X.
7
Os elementos de M (B(RN )) são também distribuições, que por vezes se chamam
funções generalizadas. Esta terminologia reflecte exactamente a identificação entre
funções e os respectivos integrais indefinidos, no sentido que certas medidas são (i.e., cor-
respondem a) funções “normais”, e outras são apenas “funções generalizadas”. O espaço
M (B(RN )) é igualmente referido num dos célebres Teoremas de Representação de Riesz,
neste texto o teorema 5.5.11, que aliás identifica os elementos de M (B(RN )) com um tipo
especial de distribuições.
4.2. A Variação Total de uma Medida 233

1. Recorde o exemplo 4.2.5. Verifique que existe uma medida


P∞ π concentrada em
S e tal que π({xn }) = cn se e só se cn ≥ 0, ou a série n=1 cn é absolutamente
convergente, e calcule a variação total de π.

2. Conclua a demonstração do teorema 4.2.6. Sugestão: Para provar c),


comece por mostrar que |µ| é σ-subaditiva.

3. Seja µ uma medida definida no espaço mensurável (X, M). Prove que

a) |µ| = 0 se e só se µ = 0,
b) Se λ é uma medida definida em M, então µ⊥λ ⇔ |µ| ⊥ |µ|.

4. Seja V = M (M, C) o espaço vectorial das medidas complexas definidas em


(X, M), com as operações óbvias de soma e produto por escalares. Sendo
µ, λ ∈ V, e α ∈ C, mostre que

a) |µ + λ| ≤ |µ| + |λ|, e |αµ| = |α| |µ|.


b) kµk = |µ| (X) é uma norma em V, i.e., V é um espaço vectorial normado.
c) Suponha que µ = α + iβ, onde α e β são medidas reais. Mostre que

max{kαk, kβk} ≤ kµk ≤ kαk + kβk.

Sendo µn = αn + iβn , onde αn e βn são medidas reais, conclua que

kµn − µk → 0 ⇐⇒ kαn − αk → 0 e kβn − βk → 0.

d) Podemos também adoptar no espaço(8 ) V a norma da convergência uni-


forme, dada por kµk∞ = sup{|µ(E)| : E ∈ M}. Mostre que neste caso
estas normas são equivalentes, i.e., existem números reais positivos não-
nulos a, b tais que

akµk∞ ≤ kµk ≤ bkµk∞ , para qualquer µ ∈ V.

sugestão: Suponha que µ é real, e use a sua decomposição de Hahn.


e) Mostre que podemos ter µn (E) → µ(E) para qualquer E ∈ M sem
que kµn − µk → 0, ou seja, existem sucessões em V que convergem pon-
tualmente, mas não convergem no sentido de qualquer das normas que
referimos. sugestão: Recorde o exercı́cio 6 da secção 3.5.

5. Continuando o exercı́cio anterior, mostre que V é um espaço de Banach.


sugestão: Pode ser conveniente proceder da seguinte forma:

a) Mostre que se kµn − µm k → 0 então µn converge uniformemente para


uma função limitada µ : M → C.
b) Prove que µ é uma função aditiva, e use o facto de kµn − µk∞ → 0 para
concluir que µ é σ-aditiva, ou seja, é uma medida.
c) Conclua que kµn − µk → 0, e portanto V é um espaço de Banach.
8
V é um subespaço do espaço das funções limitadas f : M → C.
234 Capı́tulo 4. Outras Medidas

6. Seja ainda V o espaço vectorial das medidas complexas definidas em (X, M),
com as operações já referidas.
a) Sendo λ ∈ V, mostre que U = {µ ∈ V : µ⊥λ} é um subespaço vectorial
normado de V. U é um espaço de Banach?
b) Verifique que o conjunto W formado pelas medidas discretas é igualmente
um espaço vectorial normado de V. W é um espaço de Banach?

4.3 Medidas Absolutamente Contı́nuas


Sabemos que se a medida µ é o integral indefinido de Lebesgue da função
f , então:
mN (E) = 0 =⇒ µ(E) = 0.
Introduzimos a noção de continuidade absoluta para exprimir esta relação
entre medidas. O exemplo que acabámos de mencionar é especialmente
simples, porque mN é uma medida positiva, mas é fácil frasear a definição
correspondente de modo a ser aplicável a qualquer tipo de medidas.

Definição 4.3.1 (Continuidade Absoluta). Se µ e λ são medidas em M,


dizemos que µ é absolutamente contı́nua (em relação a λ) e escrevemos
µ ≪ λ se e só se qualquer conjunto λ-nulo é igualmente µ-nulo. Quando λ
é a medida de Lebesgue, é usual omitir a referência “em relação a λ”.
Exemplos 4.3.2.
1. Como dissemos acima, se a medida µ é o integral indefinido da função f em
RN , então µ ≪ mN .
2. A medida de Dirac não é absolutamente contı́nua. Por exemplo, o conjunto
A = {0} é m-nulo, mas não é δ-nulo.
3. Se µ é uma medida real em (X, M), temos µ ≪ |µ|, µ+ ≪ |µ| e µ− ≪ |µ|.
Em particular, |µ| = 0 se e só se µ = 0, ou seja,

|µ| (X) = 0 ⇐⇒ µ(E) = 0 para qualquer E ∈ M.

A continuidade absoluta de µ em relação a λ pode ser expressa de diver-


sas formas equivalentes, e analisaremos algumas delas nos exercı́cios. Ob-
servamos desde já que

Teorema 4.3.3. Se µ e λ são medidas em M, então:

µ ≪ λ ⇔ |µ| ≪ |λ| ⇔ Para qualquer E ∈ M, |λ| (E) = 0 ⇒ |µ| (E) = 0.

O resultado seguinte generaliza o exercı́cio 10 da secção 3.3 a qualquer


medida complexa.
4.3. Medidas Absolutamente Contı́nuas 235

Teorema 4.3.4. Se µ e λ são medidas em M e µ é de variação limitada,


então µ ≪ λ se e só se

(1) ∀ε>0 ∃δ>0 ∀E∈M |λ|(E) < δ =⇒ |µ(E)| < ε.

Demonstração. Supomos primeiro que a condição (1) é falsa, i.e.,

∃ε>0 ∀δ>0 ∃E∈M tal que |λ|(E) < δ e |µ(E)| ≥ ε.

Passamos a provar que µ não é absolutamente contı́nua em relação a λ.


Para isso, notamos que existem conjuntos En tais que
1
|λ|(En ) < e |µ(En )| ≥ ε, donde |µ| (En ) ≥ ε.
2n
Consideramos os conjuntos

[ ∞
\
Fn = Ek e F = Fn onde Fn ց F.
k=n n=1

Recordamos do lema de Borel-Cantelli que



X
|λ|(En ) < ∞ =⇒ |λ|(F ) = 0, ou seja, F é λ-nulo.
n=1

Por outro lado, como Fn ց F e, por hipótese, |µ| é uma medida finita,
temos que |µ|(Fn ) → |µ|(F )|. É claro que En ⊆ Fn , e por isso

|µ|(Fn ) ≥ |µ|(En ) ≥ |µ(En )| ≥ ε =⇒ |µ|(F )| ≥ ε > 0.

É portanto evidente que F é λ-nulo mas não é µ-nulo, ou seja, µ não é absolu-
tamente contı́nua em relação a λ. Deixamos a conclusão desta demonstração,
que envolve verificar que (1) ⇒ µ ≪ λ, para o exercı́cio 4.
Exercı́cios.

1. Sendo µ e λ medidas definidas em M, quais destas afirmações são equiva-


lentes a µ ≪ λ?
a) Para qualquer E ∈ M, λ(E) = 0 ⇒ µ(E) = 0.
b) Para qualquer E ∈ M, |λ| (E) = 0 ⇒ µ(E) = 0.
c) Para qualquer E ∈ M, |λ| (E) = 0 ⇒ |µ| (E) = 0.
d) Para qualquer P ∈ M, se λ está concentrada em P então µ está concen-
trada em P .

2. Considere as medidas dadas em M = P(R) por µ1 (E) = δ(E), µ2 (E) =


#(E ∩ Z) e µ3 (E) = #(E ∩ Q). Mostre que µ1 ≪ µ2 ≪ µ3 .
236 Capı́tulo 4. Outras Medidas

3. Sejam µ e λ medidas definidas em M. Dizemos que (µa , µs ) é a decomposição


de lebesgue de µ em ordem a λ se e só se µa e µs são medidas definidas em
M tais que
µ = µa + µs , com µa ≪ λ e µs ⊥λ.
Prove que esta decomposição, a existir, é única(9 ). Conclua em particular que

µ ≪ λ e µ⊥λ =⇒ µ = 0.

4. Sejam µ e λ medidas definidas em M, onde µ é de variação limitada.


a) Prove que se µ e λ satisfazem a condição (1) referida no teorema 4.3.4
então µ ≪ λ, o que conclui a demonstração do referido teorema.
b) Prove que se µ é absolutamente contı́nua em relação a λ e |λ|(En ) → 0
então µ(En ) → 0.
c) Verifique que a afirmação b) é falsa se µ não é de variação limitada.

5. Sendo µ o integral indefinido da função somável (ou não-negativa) f : RN →


R, mostre que mN ≪ µ se e só se f (x) 6= 0 qtp.

6. Seja V o espaço vectorial normado das medidas complexas definidas em


(X, M) referido no exercı́cio 4 da secção anterior. Dado λ ∈ V, mostre que
U = {µ ∈ V : µ ≪ λ} é um subespaço de Banach de V.

4.4 Medidas Regulares


Passamos a dizer que µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes se e só se µ
está definida numa σ-álgebra M ⊇ B(RN ). Recorde-se que se M = B(RN )
dizemos também que µ é uma medida de Borel(10 ). A noção de regula-
ridade (exterior) foi definida em 2.3.13 para medidas de Lebesgue-Stieltjes
positivas, onde indicámos exemplos destas medidas, regulares ou não.
Exemplos 4.4.1.
1. Se f ≥ 0 é localmente somável, o respectivo integral indefinido é uma medida
de Lebesgue-Stieltjes σ-finita e regular.
2. Se f (x) = x−2 em R, e µ é o integral indefinido de f , então µ é σ-finita, mas
não é regular em B(R), porque

µ({0}) = 0 6= inf{µ(U ) : 0 ∈ U ⊆ R, U aberto } = ∞.

3. Conforme já observámos, o cardinal em RN é uma medida de Lebesgue-


Stieltjes que não é regular nos conjuntos finitos não-vazios.
9
A existência deste tipo de decomposições será estabelecida, mais adiante, no Teorema
de Radon-Nikodym-Lebesgue.
10
É também comum dizer que a restrição da medida de Lebesgue à σ-álgebra de Borel
é A medida de Borel.
4.4. Medidas Regulares 237

Para estudar a possı́vel regularidade de uma medida de Borel µ ≥ 0, é


conveniente introduzir a função µ∗ : P(RN ) → [0, ∞] dada por

µ∗ (E) = inf {µ(U ) : E ⊆ U, U aberto } ,

que é uma medida exterior, como vimos no exemplo 2.5.5.5. É claro que µ
é regular em N ⊆ M se e só se µ(E) = µ∗ (E) para qualquer E ∈ N , mas
exibimos já múltiplos exemplos em que µ 6= µ∗ . Deixamos para o exercı́cio
1 a demonstração das seguintes relações entre µ e µ∗ :

Lema 4.4.2. Se µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva definida na


σ-álgebra M então

a) µ(E) ≤ µ∗ (E) para qualquer E ∈ M.

b) µ(U ) = µ∗ (U ), para qualquer aberto U ⊆ RN .

A teoria desenvolvida no Capı́tulo II mostra que µ∗ determina a σ-álgebra


dos conjuntos µ∗ -mensuráveis, que designaremos Lµ (RN ), e sabemos que
E ⊆ RN é µ∗ -mensurável se e só se

µ∗ (F ) = µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F \E), para qualquer F ⊆ RN .

A restrição de µ∗ a Lµ (RN ) é, como sabemos, uma medida, que neste caso
é evidentemente regular, e que designaremos por µr . Temos naturalmente
que, em geral, M = 6 Lµ (RN ) e µ 6= µr .
Muitos dos argumentos que utilizámos no Capı́tulo II no estudo da me-
dida de Lebesgue são facilmente adaptados a este contexto mais abstracto.
Por exemplo, na demonstração de a) na proposição seguinte basicamente
repetimos ideias utilizadas na proposição 2.2.10.

Lema 4.4.3. Se µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva então:

a) E ∈ Lµ (RN ) se e só se

(1) µ(U ) = µ∗ (U ∩ E) + µ∗ (U \E), para qualquer aberto U ⊆ RN .

b) B(RN ) ⊆ Lµ (RN ), ou seja, µr é uma medida de Lebesgue-Stieltjes.

Demonstração. a) Qualquer conjunto µ∗ -mensurável satisfaz a condição (1),


tendo em conta a definição de Lµ (RN ) e 4.4.2 b). Suponha-se portanto que
E satisfaz a condição referida e F ⊆ RN . Dado qualquer aberto U tal que
F ⊆ U ⊆ RN , é claro que:

µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F \E) ≤ µ∗ (U ∩ E) + µ∗ (U \E) = µ(U ).

Segue-se que µ∗ (F ∩ E) + µ∗ (F \E) ≤ µ∗ (F ) e portanto E é µ∗ -mensurável.


238 Capı́tulo 4. Outras Medidas

b) Para provar que B(RN ) ⊆ Lµ (RN ), é suficiente estabelecer que qual-


quer aberto V ⊆ RN é µ∗ -mensurável. De acordo com a) e com 4.4.2 b),
basta-nos verificar que, se U e V são abertos, donde U ∩ V é também aberto,
temos:

(2) µ(U ) ≥ µ∗ (U ∩ V ) + µ∗ (U \V ) = µ(U ∩ V ) + µ∗ (U \V ).

Recordamos de 1.6.18 que existem conjuntos compactos Kn ր V , e obser-


vamos que

U \Kn é aberto e U \Kn ⊇ U \V =⇒ µ(U \Kn ) ≥ µ∗ (U \V )

Como µ é uma medida, temos

µ(U ) = µ(U ∩ Kn ) + µ(U \Kn ) ≥ µ(U ∩ Kn ) + µ∗ (U \V ).

É claro que µ(U ∩ Kn ) ր µ(U ∩ V ), donde obtemos (2).

Exactamente como concluı́mos no Capı́tulo II que a medida de Lebesgue


é a maior solução regular do Problema de Borel, podemos estabelecer que

Corolário 4.4.4. Se µ está definida e é regular na σ-álgebra A então A ⊆


Lµ (RN ) e µ é uma restrição de µr .

Demonstração. Se E ∈ A e U é aberto, e dado que µ = µ∗ em A, temos

µ(U ) = µ(U ∩ E) + µ(U \E), i.e., µ(U ) = µ∗ (U ∩ E) + µ∗ (U \E),

ou seja, E ∈ Lµ (RN ).

O próximo lema identifica conjuntos E ∈ M∩L(RN ) para os quais temos


µ(E) = µr (E) = µ∗ (E), ou seja, conjuntos onde a medida µ é necessaria-
mente regular.

Lema 4.4.5. Seja µ uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva. Se µ∗ (E) <


+∞ e E ∈ M ∩ Lµ (RN ) então µ(E) = µr (E) = µ∗ (E).

Demonstração. Existem conjuntos abertos Un ⊆ RN tais que

E ⊆ Un e µ(Un ) = µr (Un ) → µ∗ (E) = µr (E).

Podemos supor sem perda de generalidade que



\
µ(Un ) = µr (Un ) < +∞ e Un ց B = Un , onde é óbvio que B ⊇ E.
n=1

Aplicamos o teorema da convergência monótona de Lebesgue às medidas µ


e µr para concluir que
4.4. Medidas Regulares 239

• Como Un ց B, temos µ(Un ) → µ(B) e µr (Un ) → µr (B). Como


µ(Un ) → µr (E) e µ(Un ) = µr (Un ), segue-se que

µr (E) = µ(B) = µr (B) < +∞ e µr (B\E) = 0 = µ∗ (B\E).

• Como 0 ≤ µ(B\E) ≤ µ∗ (B\E) = 0, é claro que µ(B\E) = 0 e por-


tanto µ(E) = µ(B) = µr (E).

É evidente do lema anterior que se µ é uma medida de Borel positiva


finita, por exemplo se µ é uma medida de probabilidade, então µ é regular.
Veremos imediatamente a seguir que o mesmo resultado é válido se µ é finita
em conjuntos compactos(11 ), caso em que µ se diz localmente finita.
Exemplos 4.4.6.
1. A medida de Lebesgue é localmente finita.
2. O integral indefinido de uma função localmente somável e não negativa é
uma medida positiva localmente finita.
3. O pente de Dirac em R dado por π(E) = #(E ∩ Z) é uma medida positiva
localmente finita.
4. O integral indefinido de f (x) = x−2 é uma medida σ-finita que não é local-
mente finita e não é regular em B(R).

Teorema 4.4.7. Qualquer medida de Lebesgue-Stieltjes positiva, localmente


finita e definida em M é regular em M ∩ Lµ (RN ) ⊇ B(RN ). Em particular,
qualquer medida de Borel positiva e localmente finita é regular.

Demonstração. Seja E ∈ M ∩ Lµ (RN ) e Bn a bola aberta de raio n e centro


na origem. É claro que

E ∩ B n ∈ M ∩ Lµ (RN ) e µ∗ (E ∩ B n ) ≤ µ(Bn+1 ) ≤ µ(B n+1 ) < +∞.

Segue-se do lema 4.4.5 que µ(E ∩ B n ) = µr (E ∩ B n ). Como E ∩ B n ր


E, concluı́mos que µ(E) = µr (E) quando E ∈ M ∩ Lµ (RN ). Por outras
palavras, µ é regular em M ∩ Lµ (RN ) ⊇ B(RN ).

A questão da aproximação de conjuntos mensuráveis por conjuntos aber-


tos é, como sabemos, muito relevante no estudo da medida de Lebesgue, e
é natural procurar resultados análogos para outras medidas de Lebesgue-
Stieltjes. A próxima proposição deve ser comparada com o teorema 2.2.16.
11
No contexto de RN , os conjuntos compactos podem ser substituı́dos nesta definição
por conjuntos elementares, ou limitados. A referência a compactos reflecte a adaptação
da definição a outros espaços topológicos.
240 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Proposição 4.4.8. Se µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva, σ-


finita e regular em M, então as seguintes afirmações são equivalentes:

a) E ∈ Lµ (RN ),

b) Para qualquer ε > 0 existe um aberto U ⊇ E tal que µ∗ (U \E) < ε,

c) E = B\N , onde B é de tipo Gδ e µ∗ (N ) = 0.

Demonstração. Como µ é σ-finita, existem conjuntos Xn ∈ M tais que


Xn ր RN e µ(Xn ) < +∞. Como µ é regular, existem abertos Vn ⊇ Xn tais
que µ(Vn ) < +∞ e Vn ր RN .

a) ⇒ b): Dado ε > 0, existem abertos Un ⊇ E ∩ Vn tais que


ε
µ(Un ) < µ∗ (E ∩ Vn ) + , já que µ∗ (E ∩ Vn ) ≤ µ(Vn ) < +∞.
2n
Como µ(Un ) = µ∗ (Un ) e Un , E ∩ Vn ∈ Lµ (RN ), concluı́mos que
ε
µ∗ (Un \(E ∩ Vn )) = µ(Un ) − µ∗ (E ∩ Vn ) < .
2n
S∞
Se U = n=1 Un então E ⊆ U , U é aberto e

X

µ (U \E) ≤ µ∗ (Un \E ∩ Vn ) < ε
n=1

b) ⇒ c):TExistem abertos Un tais que E ⊆ Un e µ∗ (Un \E) < n1 . Tomamos


B= ∞ n=1 Un e notamos que

E ⊆ B, B é de tipo Gδ e µ∗ (B\E) = 0.

c) ⇒ a): Se E = B\N onde B ∈ B(RN ) ⊆ Lµ (RN ) e µ∗ (N ) = 0, então


N, E ∈ Lµ (RN ).

Podemos adaptar o teorema 2.3.18 a este contexto mais geral:

Corolário 4.4.9. Se µ é uma medida de Borel positiva, σ-finita e regular


(e.g., se µ é localmente finita) então µr é a maior extensão regular de µ, a
menor extensão completa de µ, e a única extensão completa e regular de
µ.

Demonstração. Vimos em 4.4.3 c) que µr é a maior extensão regular de µ.


Por outro lado, é fácil concluir de 4.4.8 c) que qualquer extensão completa
de µ está definida pelo menos em Lµ (RN ), e coincide com µ nessa classe de
conjuntos.
4.4. Medidas Regulares 241

É por vezes útil aplicar estas ideias na seguinte forma:

Corolário 4.4.10. Sejam µ e λ medidas de Lebesgue-Stieltjes positivas e


localmente finitas, definidas respectivamente em M e N . Se µ e λ coincidem
nos conjuntos abertos, então coincidem igualmente em qualquer conjunto
E ∈ M ∩ N ∩ Lµ (RN ).
Exemplo 4.4.11.
Sejam f e g funções não-negativas, e localmente somáveis em R. Suponha-
Rb Rb
se que a f dm = a gdm, para quaisquer a, b ∈ R. Designando por φ e γ
respectivamente os integrais indefinidos de f e de g na σ-álgebra L(R), é claro
que φ(U ) = γ(U ), para qualquer aberto U , e tanto φ como γ são localmente
finitas. DeRacordo com R o resultado anterior, φ e γ coincidem na σ-álgebra
L(R), i.e., E f dm = E gdm, para qualquer E ∈ L(R). Temos por isso que
f ≃ g.

O próximo resultado é uma generalização de 2.3.9 e 2.3.10.

Teorema 4.4.12. Se µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva, σ-finita


e regular em M então as seguintes afirmações são equivalentes:

a) E ∈ Lµ (RN ).

b) Para qualquer ε > 0 existem F (fechado), e U (aberto), tais que F ⊆


E ⊆ U , e µ(U \F ) < ε.(12 )

c) Existem A, B ∈ B(RN ) tais que A ⊆ E ⊆ B e µ(B\A) = 0.

Demonstração. É uma adaptação directa das ideias em 2.3.9 e 2.3.10:

a) ⇒ b): De acordo com a proposição 4.4.8, existem abertos U ⊇ E e


V ⊇ E c tais que
ε ε
µ∗ (U \E) < e µ∗ (V \E c ) < .
2 2
Tomamos F = V c , e notamos que F ⊆ E ⊆ U e µ(U \F ) < ε.

b) ⇒ c): Existem conjuntos fechados Fn e abertos Un tais que


1
Fn ⊆ E ⊆ Un e µ(Un \Fn ) < .
n
S∞ T∞
Tomamos A = n=1 Fn eB= n=1 Un , donde

A, B ∈ B(RN ), A ⊆ E ⊆ B, e µ(B\A) = 0.
12
A regularidade interior de µ é a condição µ(E) = sup{µ(K) : K ⊆ E, K compacto }.
Como RN é σ-compacto, este resultado mostra que em RN a regularidade exterior implica
a regularidade interior para medidas σ-finitas.
242 Capı́tulo 4. Outras Medidas

c) ⇒ a): Temos E = B\N , onde N ⊆ B\A, e recordamos a proposição


4.4.8.

Tal como no caso da medida de Lebesgue, podemos complementar este


teorema 4.4.12 com as seguintes observações:

Teorema 4.4.13. Se µ é uma medida de Lebesgue-Stieltjes positiva, σ-finita


e regular, e µ∗ (E) < +∞, então as seguintes afirmações são equivalentes:

a) E ∈ Lµ (RN ).

b) Para qualquer ε > 0, existem K (compacto) e U (aberto) tais que

K ⊆ E ⊆ U e µ(U \K) < ε.

c) Para qualquer ε > 0, existe J ∈ E(RN ) tal que µ∗ (E∆J) < ε.

É útil adaptar as ideias expostas nesta secção a medidas de Lebesgue-


Stieltjes reais ou complexas. A regularidade destas medidas pode ser definida
como se segue:

Definição 4.4.14. Seja µ uma medida de Lebesgue-Stieltjes, definida pelo


menos em A. Dizemos que µ é regular em A se e só se |µ| é regular em
A, no sentido da definição 2.3.13.

Como as medidas complexas são limitadas, é muito fácil verificar as


seguintes observações, que deixamos como exercı́cio:

Lema 4.4.15. Seja µ uma medida de Lebesgue-Stieltjes complexa, definida


pelo menos em A. Então µ é regular em A se e só se, para qualquer E ∈ A,
existem conjuntos abertos Un ⊇ E tais que |µ|(Un \E) → 0. Em particular,

a) Se µ é real, então µ é regular se e só se µ+ e µ− são regulares, e

b) Se µ = α + iβ é complexa, onde α e β são medidas reais, então µ é


regular se e só se α e β são regulares.

De acordo com 4.4.9, quando µ é uma medida de Borel complexa então |µ|
tem uma única extensão regular e completa, que está definida na σ-álgebra
L|µ| (RN ). Para simplificar a notação, escrevemos:
n o
Lµ (RN ) = L|µ| (RN ) = E ⊆ RN : ∃A,B∈B(RN ) A ⊆ E ⊆ B, |µ| (B\A) = 0 .

O próximo lema relaciona as extensões regulares de uma medida real µ


com as extensões regulares da sua variação total |µ|.
4.4. Medidas Regulares 243

Lema 4.4.16. Seja µ uma medida de Borel real e ρ uma extensão regular
de µ. Então |ρ|, ρ+ e ρ− são extensões regulares, respectivamente, de |µ|,
µ+ e µ− .

Demonstração. Designamos por A o domı́nio de definição de ρ, e por λ a


restrição de |ρ| a B(RN ). É claro que |ρ| é uma extensão finita e regular de
λ, e segue-se de 4.4.10 que A ⊆ Lλ (RN ), onde
n o
Lλ (RN ) = E ⊆ RN : ∃A,B∈B(RN ) A ⊆ E ⊆ B, λ(B\A) = 0 .

A medida ρ tem uma decomposição de Hahn na σ-álgebra A ⊆ Lλ (RN ).


Por outras palavras, as medidas ρ+ e ρ− estão concentradas em conjuntos
disjuntos P, N ∈ Lλ (RN ). Existem, por isso, conjuntos A+ , B + , A− , B − ∈
B(RN ) tais que

A+ ⊆ P ⊆ B + , A− ⊆ N ⊆ B − , e λ(B + \A+ ) = λ(B − \A− ) = 0.

Sendo (ρ+ , ρ− ) a decomposição de Jordan de ρ, concluı́mos que ρ+ e ρ−


estão concentradas, respectivamente, em A+ e A− , que são disjuntos e Borel-
mensuráveis. Como µ = ρ = ρ+ − ρ− em B(RN ), as restrições de ρ+ e ρ−
a B(RN ) formam a única decomposição de Jordan de µ em B(RN ), i.e.,
coincidem com µ+ e µ− em B(RN ). Portanto ρ+ , ρ− e |ρ| são extensões de
µ+ , µ− e |µ|. A regularidade de ρ+ e ρ− resulta do lema 4.4.15.

O próximo teorema adapta para medidas complexas em B(RN ) ideias


já referidas para medidas positivas. Mais uma vez, estas medidas são uni-
camente determinadas em B(RN ) pelos seus valores nos conjuntos abertos,
mas notem-se a este respeito as observações feitas no exercı́cio 4.

Teorema 4.4.17. Se µ é uma medida complexa de Borel então:

a) µ é regular em B(RN ).

b) µ tem uma única extensão completa e regular µr , definida em Lµ (RN ).

As extensões não regulares de medidas complexas podem ter propriedades


surpreendentes, e indicamos um exemplo interessante no exercı́cio 11. Esse
exercı́cio mostra em particular que λ pode ser extensão de uma medida
complexa µ sem que |λ| seja extensão de |µ|.
Como já referimos, a noção de regularidade é aplicável a medidas definidas
em qualquer espaço topológico. Os teoremas demonstrados nesta secção
foram-no sempre no contexto de RN , mas não é difı́cil generalizá-los. Na
verdade, só invocámos propriedades especı́ficas de RN nas demonstrações de

• 4.4.3, quando referimos que os abertos (em particular RN ) são σ-


compactos (Teorema de Cantor 1.6.18), e
244 Capı́tulo 4. Outras Medidas

• 4.4.7, porque utilizámos a compacidade de B n .

É na verdade fácil mostrar que os teoremas desta secção são aplicáveis pelo
menos em qualquer espaço topológico localmente compacto onde os abertos
sejam σ-compactos.
Recorde ainda que a noção de suporte de uma medida de Lebesgue-
Stieltjes foi referida a propósito do teorema 4.1.7. O exercı́cio 9 adapta esta
noção a medidas regulares definidas em espaços topológicos mais gerais.
Exercı́cios.

1. Seja µ ≥ 0 uma medida de Lebesgue-Stieltjes em RN , e µ∗ : P(RN ) → [0, ∞]


dada por µ∗ (E) = inf {µ(U ) : E ⊆ U, U aberto }. Prove as afirmações a), b) e
c) da proposição 4.4.2.

2. Suponha que µ é regular, mas não é σ-finita, e mostre que µr não é neces-
sariamente a menor extensão completa de µ.

3. Mostre que existem medidas σ-finitas distintas em B(R), que coincidem nos
conjuntos abertos.

4. Suponha que µ e λ são medidas de Borel, e considere as afirmações:


a) µ(U ) = λ(U ), para qualquer aberto U .
b) µ(U ) = λ(U ), para qualquer rectângulo compacto U .
c) µ(U ) = λ(U ), para qualquer rectângulo aberto limitado U .
Mostre que se µ e λ são medidas complexas então todas as afirmações acima
são equivalentes. E se µ e λ são medidas positivas? A resposta depende de µ
e λ serem σ-finitas?

5. Demonstre o corolário 4.4.10.

6. Seja f ≥ 0 uma função Riemann-integrável em qualquer rectângulo limitado


de RN , e λ : J (RN ) → R o seu integral indefinido de Riemann. Mostre que o
integral indefinido de Lebesgue em Lf é a única extensão regular e completa
de λ.

7. Demonstre o teorema 4.4.13.

8. Demonstre o lema 4.4.15.

9. Suponha que µ é uma medida positiva num qualquer espaço topológico X,


definida numa σ-álgebra M ⊇ B(X). Seja U a união de todos os abertos
µ-nulos, e F = U c . Mostre que se µ é regular, no sentido em que

µ(E) = sup{µ(K) : K ⊆ E, K compacto } para qualquer E ∈ B(X),

então F é o menor conjunto fechado onde µ está concentrada. É este conjunto


que se diz neste caso o suporte de µ.
4.5. Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R 245

10. Recorde o teorema 2.3.17, sobre a menor extensão completa de um dado


espaço de medida. Mostre que quando µ é uma medida de Borel regular e
σ-finita temos, usando a notação de 2.3.17,

Bµ (RN ) = Lµ (RN ) e µ = µr .

11. Recorde o teorema 2.4.18 e o exercı́cio 5 da mesma secção. Na notação do


exercı́cio referido, considere a medida real µ(U ) = ρ(U ∩ A) − ρ(U ∩ B). Mostre
que µ é uma extensão não regular da medida de Borel nula. Porque razão este
exemplo não contradiz o teorema 4.4.17?

4.5 Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R


As medidas de Lebesgue-Stieltjes localmente finitas são fáceis de descrever
em termos das respectivas funções de distribuição. No caso mais simples,
que é o de uma medida µ finita em R, consideramos a função dada por
f (x) = µ(] − ∞, x]), e observamos que

(4.5.1) µ(]a, b]) = f (b) − f (a), para quaisquer a ≤ b ∈ R.

Dizemos que f é função de distribuição da medida µ se e só se satisfaz


4.5.1, e é fácil verificar que

• Se µ é localmente finita em R, existe uma função f : R → R que


satisfaz 4.5.1.

• As funções de distribuição de µ são da forma g(x) = f (x) + C, onde


C ∈ R é arbitrário.

• A função f determina a medida µ unicamente em B(R). Dizemos que


µ é a medida de Lebesgue-Stieltjes determinada por f , ou a derivada
generalizada de f (13 ).

A expressão “derivada generalizada”, análoga à de “função generalizada”,


tem origem na Teoria das Distribuições. Repare-se que se a função f é
diferenciável qtp e satisfaz a regra de Barrow, então
Z b
µ(]a, b]) = f (b) − f (a) = f ′ dm, para quaisquer a ≤ b ∈ R.
a

Neste caso, é claro que a medida µ é o integral indefinido da derivada usual


de f (14 ). Mais uma vez identificando a função f ′ com o respectivo integral
indefinido, podemos dizer que a derivada de f no sentido usual coincide
13
Diz-se também “derivada no sentido das distribuições”.
Como µ e o integral indefinido de f ′ coincidem nos intervalos, coincidem igualmente
14

em B(RN ), e em qualquer σ-álgebra onde ambas sejam regulares.


246 Capı́tulo 4. Outras Medidas

com a derivada generalizada de f se e só se a função f satisfaz a regra de


Barrow. Dito doutra forma, o objectivo do 2o Teorema Fundamental do
Cálculo pode resumir-se como se segue:
Z
Esclarecer as condições em que µ(E) = f ′ dm.
E

Exemplos 4.5.1.
1. A função f (x) = x é função de distribuição da medida de Lebesgue em R,
i.e., a medida m é a derivada generalizada de f . Note-se que m é o integral
indefinido da derivada usual de f , e é absolutamente contı́nua.
2
2. Se µ é o integral indefinido de g(x) = ex , que é localmente somável em R,
podemos tomar para f , por exemplo, a função dada por
Z x Z b
f (x) = gdm, donde f (b) − f (a) = gdm.
0 a

µ é o integral indefinido de g, que é a derivada usual de f , e é mais uma vez


absolutamente contı́nua.

3. A função de Heaviside é função de distribuição da medida de Dirac δ, i.e., δ é


a derivada generalizada da função de Heaviside. A medida de Dirac não é um
integral indefinido, porque a função de Heaviside não é contı́nua. A derivada
usual da função de Heaviside é nula qtp, e δ é uma medida singular.

Como dissemos, é fácil mostrar que se µ é uma medida localmente finita


em R então existem funções f que satisfazem a identidade 4.5.1. No entanto,
se encararmos esta identidade como um problema em que f é um dado e µ
é a incógnita, já não é tão simples caracterizar as funções f para as quais o
problema tem solução. Enunciamos este problema, para posterior referência,
como o

4.5.2 (Problema de Stieltjes). Dada uma função f : R → R, determinar uma


σ-álgebra Sf contendo os intervalos do tipo ]a, b] e uma medida µ definida
em Sf tal que µ e f satisfazem 4.5.1.

A resolução do problema de Stieltjes pode ser muito útil, em particular


no contexto da Teoria das Probabilidades. Recorde-se que se X é uma
variável aleatória real, então a sua função distribuição de probabilidade é
a função f : R → R, tal que f (x) é a probabilidade do acontecimento
{X ∈ R : X ≤ x}. A figura 4.5.1 exibe o exemplo clássico do dado ideal,
onde a função f é uma função em escada. A probabilidade do acontecimento
{X ∈ R : a < X ≤ b} é dada por f (b) − f (a), mas a teoria deve esclarecer:

• Quais são os subconjuntos de R aos quais podemos associar uma pro-


babilidade, i.e., quais são os acontecimentos, e
4.5. Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R 247

1 2 3 4 5 6

Figura 4.5.1: Distribuição de probabilidade do dado ideal.

• Como calcular a probabilidade do acontecimento A, quando A não é


um intervalo do tipo ]a, b].
Qualquer medida µ que coincida com a probabilidade nos intervalos
]a, b] é solução de um problema de Stieltjes, e pode ser usada para resolver
questões da Teoria das Probabilidades com técnicas e resultados da Teoria
da Medida.

y = f (x)

m(f (E))

m(E)

Figura 4.5.2: µ(E) = m(f (E)), quando f é contı́nua e crescente.

Começamos por mostrar que o problema de Stieltjes tem sempre solução


quando f é crescente e contı́nua, revisitando e expandindo ideias que intro-
duzimos a propósito do exemplo 2.4.13 (ver figura 4.5.2). Este resultado
é interessante, em especial porque revela, como veremos, a existência algo
inesperada de medidas que não são integrais indefinidos, e também não são
“pentes de Dirac”. Dada uma qualquer função f : R → R, consideramos a
248 Capı́tulo 4. Outras Medidas

classe dos conjuntos cuja imagem é mensurável, i.e.,

Sf = {E ⊆ R : f (E) ∈ L(R)} .

Podemos definir µf : Sf → [0, ∞] por µf (E) = m(f (E)), e notamos que se


f é contı́nua e crescente e E =]a, b] é um intervalo de extremos a ≤ b então
• f (E) é um intervalo de extremos f (a) e f (b), pelo que E ∈ Sf , e

• µf (E) = m(f (E)) = f (b) − f (a).


Por outras palavras, a função µf satisfaz a identidade 4.5.1, e é solução do
problema de Stieltjes para a função f se e só se (R, Sf , µf ) é um espaço de
medida, o que passamos a verificar no próximo teorema.
Teorema 4.5.3. Se f : R → R é contı́nua e crescente então:
a) Sf é uma σ-álgebra e B(R) ⊆ Sf .

b) µf é uma medida positiva.

c) m∗ (f (E)) = inf {µf (U ) : E ⊆ U, U aberto } para qualquer E ⊆ R.

d) (R, Sf , µf ) é a única solução completa e regular do problema 4.5.2.


Demonstração. a) é uma consequência directa do lema 2.4.11. Para provar
b), notamos como óbvio que µf (∅) = 0 e µf é monótona. A função µf é
também σ-subaditiva, porque

! ∞
! ∞
!
[ [ [
µf F En = m(f En ) = m f (En ) ≤
n=1 n=1 n=1


X ∞
X
≤ m(f (En )) = µf (En )
n=1 n=1
Recordamos da demonstração de 2.4.11 que

• Se f é crescente, então o conjunto N , formado pelos y ∈ R para os quais


a equação f (x) = y tem múltiplas soluções, é numerável e portanto
nulo.

Se A e B são disjuntos, então F (A) ∩ F (B) está contido em N , e é portanto


nulo. Supondo que A, B ∈ Sf , temos então

µf (A ∪ B) = m(f (A ∪ B)) = m(f (A) ∪ f (B)) =

= m(f (A)) + m(f (B)) − m(f (A) ∩ f (B)) = µf (A) + µf (B).


Dito doutra forma, µf é aditiva, além de monótona e σ-subaditiva, e é por
isso σ-aditiva (a) do exercı́cio 3).
4.5. Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R 249

Para verificar c), seja E ⊆ R e considerem-se conjuntos abertos Vn tais


que
Vn ⊇ F (E) e m(Vn ) → m∗ (f (E)).
Os conjuntos Un = f −1 (Vn ) ⊇ E são abertos (porquê?) e f (E) ⊆ f (Un ) ⊆
Vn . Concluı́mos que

m∗ (f (E)) ≤ m(f (Un )) = µf (Un ) ≤ m(Vn ) → m∗ (f (E)),

donde µf (Un ) → m∗ (f (E)). É claro em qualquer caso que

m∗ (f (E)) ≤ inf {µf (U ) : E ⊆ U, U aberto } ,

pelo que a igualdade em c) está estabelecida. Finalmente, se E ∈ Sf é


também imediato que

µf (E) = m(f (E)) = m∗ (f (E)) = inf {µf (U ) : E ⊆ U, U aberto } .

A verificação de d) é a b) do exercı́cio 3.
Exemplo 4.5.4.
Considere-se a função
 1
 π arcsen(x) + 21 , para − 1 ≤ x ≤ +1,
f (x) = 0, para x < −1, e

1, para x > 1.

f é uma função contı́nua e crescente, e a respectiva medida de Lebesgue-


Stieltjes µf é uma medida de probabilidade. Na verdade, sabendo que um
“oscilador harmónico linear” qualquer(15 ), por exemplo, um pêndulo simples,
se desloca em unidades normalizadas de acordo com x = sen(t), podemos
concluir que µf (E) é a probabilidade do acontecimento “x ∈ E”, quando o
oscilador é observado num instante de tempo t escolhido ao acaso.

A “escada do Diabo” é uma função contı́nua e crescente na recta real, à


qual podemos naturalmente aplicar o teorema 4.5.3.
Exemplo 4.5.5.
a medida de cantor, designada aqui ξ, é a medida de Lebesgue-Stieltjes
determinada pela “escada do Diabo”, e é uma medida de probabilidade.

A seguinte propriedade de ξ é particularmente relevante no que se segue:


Proposição 4.5.6. ξ é uma medida singular, porque tem suporte no con-
junto de Cantor C.
15
“Clássico”, por oposição a “quântico”. No caso quântico, a determinação da função
f requer a solução prévia da equação de Schrödinger apropriada.
250 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Demonstração. É claro que ξ(R) = ξ(]0, 1]) = f (1) − f (0) = 1, e portanto


ξ está concentrada em I = [0, 1]. Por outro lado, sendo U = I\C, sabemos
que U = ∪∞ n=1 ]an , bn [ é um conjunto aberto, e a “escada do Diabo” f é
constante em cada um dos intervalos [an , bn ]. Notamos como evidente que
0 = f (bn ) − f (an ) = ξ(]an , bn ]) ≥ ξ(]an , bn [) ≥ 0. Segue-se assim que:

X
ξ(U ) = ξ(]an , bn [) = 0, e ξ(C) = ξ(C) + ξ(U ) = ξ(C ∪ U ) = ξ(I) = 1
n=1

Concluı́mos que ξ está concentrada em C, e é por isso singular.

Registe-se deste exemplo que a derivada generalizada de uma função


contı́nua pode ser uma medida singular não-nula, que por esta razão não é
um integral indefinido.
O próximo lema indica condições necessárias para a existência de soluções
do problema de Stieltjes aplicáveis a qualquer função F .

Lema 4.5.7. Se o problema de Stieltjes para f tem solução µ, então:

a) A função f é contı́nua à direita em R,

b) O limite de f à esquerda de x é f (x) − µ({x}), e, em particular

c) f é contı́nua em x se e só se µ({x}) = 0.

Demonstração. Deixamos para o exercı́cio 2 as afirmações b) e c). Para


provar a), supomos que In =]a, xn ], onde os xn decrescem para a. Como
os conjuntos In ց ∅, e µ(In ) 6= ∞, temos µ(In ) = f (xn ) − f (a) → 0, i.e.,
f (xn ) → f (a).

Repare-se que se µ é um “pente de Dirac” e f é uma sua função de


distribuição, então existem pontos x1 , x2 , · · · , tais que µ({xn }) 6= 0, e f
não é contı́nua em qualquer um destes pontos. Em particular, a medida de
Cantor ξ, que como vimos não é um integral indefinido, também não é um
“pente de Dirac”, porque é a derivada generalizada de uma função contı́nua.
Mostraremos a seguir, ainda nesta secção, que na realidade todas as medidas
positivas localmente finitas em R são da forma µ = µc + µd , onde qualquer
uma destas medidas pode ser nula, e:

• µc , dita a parte contı́nua de µ, é a derivada generalizada de uma


função contı́nua crescente, que dizemos ser uma medida contı́nua, e

• µd , dita a parte discreta de µ, é uma série ou soma finita de medidas


de Dirac (um pente de Dirac), i.e., é uma medida discreta.

Exemplo 4.5.8.
4.5. Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R 251

Seja f (x) = x + int(x), onde int(x) é a usual “parte inteira” do real x. A


derivada generalizada de f é dada por:
X
µ(E) = m(E) + δn (E),
n∈Z

onde
P δn é a medida de Dirac em x = n, com δn ({n}) = 1. A medida ρ =
n∈Z δn é o pente de Dirac propriamente dito. A medida de Lebesgue é a
parte contı́nua de µ, e ρ é a sua parte discreta.

Estabeleceremos a existência da decomposição µ = µc +µd provando uma


correspondente decomposição para funções: qualquer função monótona f é
da forma f = g + s, onde g e s são monótonas, g é contı́nua, e s é o que
dizemos ser uma função discreta(16 ), i.e., é uma soma, ou série, de funções
do tipo da função de Heaviside. Mais exactamente,
Definição 4.5.9 (Função Discreta). s : R → R é uma função discreta
se e só se existem sucessões de reais xn , an , yn , bn , tais que

X∞  an , para x < xn ,
s(x) = hn (x) para x ∈ R, onde hn (x) = y , para x = xn ,
 n
n=1 bn , para x > xn .

As funções g e s dizem-se, respectivamente, a parte contı́nua e a


parte discreta, de f . Os pontos xn referidos em 4.5.9 são, como veremos,
os pontos de descontinuidade de f .

f =g+s Parte contı́nua g Parte discreta s

d1 d2

d2
d1
x1 x2 x1 x2 x1 x2

Figura 4.5.3: Parte contı́nua e parte discreta de F .

Qualquer função monótona f : R → R tem, por razões elementares,


limites laterais em qualquer ponto a ∈ R e limites em ±∞. Supondo por
exemplo que f é crescente e a ∈ R, temos na verdade

f (a+ ) = lim f (x) = inf{f (x) : x > a} e analogamente


xցa

f (a− ) = lim f (x) = sup{f (x) : x < a}.


xրa

16
Estas funções dizem-se também de saltos, por vezes na forma latina “saltus”.
252 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Temos igualmente, com S = sup{f (x) : x ∈ R} e I = inf{f (x) : x ∈ R}, que

f (+∞) = lim f (x) = S e f (−∞) = lim f (x) = I.


x→+∞ x→−∞

Caso f seja decrescente devemos apenas trocar as referências a sup e a inf


nas identidades acima. Note-se também que os limites em a ∈ R são finitos,
por razões óbvias, mas é claro que f (+∞) e/ou f (−∞) podem ser infinitos.
Sendo x ∈ R, escrevemos também

∆f (x) = f (x+ ) − f (x− ).

Provamos agora que:

Proposição 4.5.10. Qualquer função monótona é contı́nua excepto num


conjunto numerável.

Demonstração. Supomos sem perda de generalidade que f : R → R é cres-


cente. Designamos por D o conjunto onde f é descontı́nua. Sendo x ∈ R,
definimos Ix =]f (x− ), f (x+ )[, donde D = {x ∈ R : Ix 6= ∅}. Temos, então:

• Se x 6= y então Ix e Iy são disjuntos (supondo x < y, é óbvio que


F (x+ ) ≤ F (y−)).

Para cada x ∈ D escolhemos um racional qx no intervalo Ix , definindo desta


forma uma função injectiva f : D → Q, dada por f (x) = qx . Concluı́mos
que D é numerável.

Teorema 4.5.11. Se F : R → R é monótona em R, existem funções


monótonas g, s : R → R, tais que g é contı́nua, s é discreta e F = g + s. As
funções g e s são únicas, a menos de uma constante aditiva.

Demonstração. Supomos F : R → R crescente em R, e contı́nua excepto


em D = {x1 , x2 , · · · , xn , · · · }. Para simplificar o argumento, supomos F
limitada, e contı́nua à direita, em R. (Deixamos o caso geral para o exercı́cio
6). Definimos bn = F (xn ) − F (x− n ). Sendo D∩]x, y] = {xnk : k ∈ N}, é fácil
verificar que

X ∞
X
(i) bnk ≤ F (y) − F (x), e bn ≤ lim F (y) − lim F (x) < ∞.
y→∞ x→−∞
k=1 n=1

Seja agora δxn Pa medida de Dirac no ponto xn , com δxn ({xn }) = bn > 0. É
claro que ρ = ∞ n=1 δxn é também uma medida positiva, que é igualmente
finita, de acordo com (i). A função de distribuição s de ρ é dada por

X ∞
X
s(x) = ρ(]−∞, x]) = δxn (]−∞, x]) = hn (x), com hn (x) = δxn (]−∞, x]).
n=1 n=1
4.5. Medidas de Lebesgue-Stieltjes em R 253

Em particular, s é uma função discreta crescente. De acordo com 4.5.7 a) e


b), s é contı́nua à direita em R, e

(ii) s(xn ) − s(x− −


n ) = ρ({xn }) = δxn ({xn }) = bn = F (xn ) − F (xn ).

Definimos g(x) = F (x) − s(x), donde g é, igualmente, contı́nua à direita em


R. Concluı́mos de (ii) que

g(xn ) − g(x− − −
n ) = [F (xn ) − F (xn )] − [s(xn ) − s(xn )] = 0.

Concluı́mos que g é também contı́nua à esquerda em R, logo contı́nua em


R. Note-se ainda que g é crescente, porque, sendo D∩]x, y] = {xnk : k ∈ N},
segue-se de (i) que

X
s(y) − s(x) = bnk ≤ F (y) − F (x) =⇒ g(x) ≤ g(y).
k=1

Se g1 + s1 = g2 + s2 , onde as funções gi são contı́nuas, e as funções si


discretas, então h = g1 − g2 = s2 − s1 é uma função contı́nua e discreta, e
portanto h é, evidentemente, constante.

O próximo corolário usa a decomposição em parte contı́nua e parte dis-


creta para mostrar que o problema de Stieltjes tem solução para F crescente
quando F é contı́nua à direita.

Corolário 4.5.12. Seja F : R → R crescente, e contı́nua à direita em R.


Suponha-se, ainda, que

• F é contı́nua excepto em D = {x1 , · · · , xn , · · · },

• δxn é a medida de Dirac com δxn ({xn }) = F (xn ) − F (x−


n ),

• F = g + s é a decomposição de F referida em 4.5.11,

• Sg = {E ⊆ R : g(E) ∈ L(R)}, e µF : Sg → [0, ∞] é dada por



X ∞
X
µF (E) = m(g(E)) + δxn (E) = µg (E) + δxn (E).
n=1 n=1

Então (R, Sg , µF ) é a única solução completa e regular do problema 4.5.2.

Demonstração. (R, Sg , µF ) é uma solução do problema de Stieltjes 4.5.2,


porque é um espaço de medida, de acordo com 4.5.3, e

µF (]a, b]) = g(b) − g(a) + s(b) − s(a) = F (b) − F (a).

É muito simples verificar que (R, Sg , µF ) é completo e regular.


254 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Combinado com o lema 4.5.7, este resultado encerra a análise do pro-


blema de Stieltjes quando F é crescente: é agora claro que neste caso o
problema de Stieltjes tem solução se e só se F é contı́nua à direita em R.
Veremos na próxima secção as condições em que o problema de Stieltjes tem
solução quando F não é crescente.
Exercı́cios.

1. Mostre que qualquer medida positiva em R localmente finita é derivada ge-


neralizada de F : R → R. Mostre igualmente que:
a) Se as funções F e G têm a mesma derivada generalizada µ então G(x) =
F (x) + C, para qualquer x ∈ R.
b) Se F : R → R é crescente e tem uma derivada generalizada µ, então µ é
única em B(R), e regular em B(R).

2. Suponha que o problema 4.5.2 tem uma solução µ para a função F .


a) Prove que se an → b pela esquerda então F (an ) → F (b)−µ({b}). Conclua
que F é contı́nua em b se e só se µ({b}) = 0. (Lema 4.5.7).
b) Suponha que µ é uma medida real, e prove que existem os limites
lim F (x), e lim F (x).
x→−∞ x→+∞

c) Em que condições temos µ(]a, b[) = µ(]a, b]) = µ([a, b[) = µ([a, b])?

3. Conclua a demonstração de 4.5.3. sugestão:


a) Verifique que µF é σ-aditiva, adaptando o argumento usado em 2.2.14.
b) Mostre que (R, SF , µF ) é completo.

4. Seja F : R → R a “escada do Diabo”, e ξ a respectiva medida de Lebesgue-


Stieltjes. Mostre que o conjunto de Cantor é o suporte de ξ.

5. Suponha que F : R → R é crescente e contı́nua. Mostre que L(R) ⊆ SF se e


só se F transforma conjuntos nulos em conjuntos nulos, i.e., se e só se
m(E) = 0 =⇒ m∗ (F (E)) = 0.
6. Conclua a demonstração de 4.5.11. Em particular, prove a afirmação (i) da
demonstração referida, e mostre que o resultado é igualmente válido quando f
não é limitada nem contı́nua à direita.

7. Determine as partes contı́nua e discreta da função F definida abaixo, e da


respectiva medida de Lebesgue-Stieltjes.

 0, para x < 0,
F (x) = 2x + 1, para 0 ≤ x < 3, e
 2
x , para x ≥ 3.
8. Determine uma função crescente, contı́nua à direita na recta real, e descon-
tı́nua nos racionais. Determine igualmente uma função contı́nua, diferenciável
em x se e só se x é irracional.
4.6. Funções de Variação Limitada 255

4.6 Funções de Variação Limitada


A análise do problema de Stieltjes quando F não é crescente é facilitada pela
introdução da classe das funções de variação limitada. Suponha-se para isso
que µ é uma medida real, e F uma sua função de distribuição. Sabemos
que µ tem variação total limitada, e este facto restringe de forma muito
significativa a função F , como passamos a mostrar.
Se I é um intervalo, qualquer conjunto finito P = {x0 , · · · , xn } ⊂ I, onde
supomos xk ր, determina uma partição finita de J =]x0 , xn ] em subinter-
valos Ik =]xk−1 , xk ], com 1 ≤ k ≤ n. Como µ é de variação limitada, temos
n
X n
X
|F (xk ) − F (xk−1 )| = |µ(Ik )| ≤ |µ| (J) ≤ |µ| (R) < +∞.
k=1 k=1

Podemos assim concluir que


( n )
X
sup |F (xk ) − F (xk−1 )| : x0 < x1 < x2 < · · · < xn , xk ∈ R < +∞.
k=1

Definição 4.6.1 (Funções de Variação Limitada). Se F : S → R e I ⊆ S ⊆


R é um intervalo, a variação total de F em I, designada VF (I), é dada
por
( n )
X
VF (I) = sup |F (xk ) − F (xk−1 )| : x0 < x1 < x2 < · · · < xn , xk ∈ I .
k=1

F diz-se de variação limitada em I se e só se VF (I) < +∞. BV (I) é a


classe das funções F : I → R de variação limitada em I, e N BV (R) (17 ) é a
subclasse de BV (R) formada pelas funções que satisfazem ainda a condição
F (x) → 0 quando x → −∞.
Exemplos 4.6.2.
P
1. Se F : R → R é a função de Heaviside, então nk=1 |F (xk ) − F (xk−1 )| é 1,
se x0 < 0 e xn ≥ 0, ou 0, caso contrário. Portanto, VF (R) = 1.
Rx
2. Se F (x) = a f dm, onde f é somável, então F é de variação limitada, porque
se P = {x0 , · · · , xn } ⊂ I, então
n
X n
X Z xk n Z
X xk Z
|F (xk ) − F (xk−1 )| = | f dm| ≤ |f |dm ≤ |f |dm.
k=1 k=1 xk−1 k=1 xk−1 I

3. A função f (x) = x sen(1/x) (com f (0) = 0) é contı́nua, e portanto uniforme-


mente contı́nua, em [0, 2π]. Apesar disso, f não é de variação limitada em
[0, 2π] (exercı́cio 10).
17
BV e NBV são iniciais para as expressões inglesas “Bounded Variation” e “Normalized
Bounded Variation”.
256 Capı́tulo 4. Outras Medidas

4. Sendo f : [a, b] → R, é relativamente simples verificar que f é de variação


limitada em I se e só se o gráfico de f é rectificável (exercı́cio 8).

Para simplificar a notação, e supondo que P = {x0 , x1 , · · · , xn }, onde


x0 ≤ x1 ≤ · · · ≤ xn , escrevemos
n
X
SV (f, P) = |f (xk ) − f (xk−1 )|, e Vf (x) = Vf (]−∞, x]) .
k=1

Registamos como evidente que

• P ⊆ P ′ =⇒ SV (f, P) ≤ SV (f, P ′ ).

• Vf é sempre uma função crescente.

• Se I = [x, y] então Vf (I) ≥ |f (y) − f (x)|.

• f é de variação limitada se e só se Vf é limitada. Neste caso, f é


limitada.

Passamos a demonstrar

Lema 4.6.3. Sendo f : R → R então:

a) Se y ≥ x, então Vf (y) = Vf (x) + Vf ([x, y]) ≥ Vf (x) + |f (y) − f (x)|.

b) Lema de Jordan: f ∈ BV (R) se e só se existem funções crescentes e


limitadas g, h : R → R tais que f = g − h.

c) Se f ∈ BV (R) então f é contı́nua à direita em x se e só se Vf é


contı́nua à direita em x.

Demonstração. a) Dados conjuntos finitos P1 ⊂ ]−∞, x] e P2 ⊂ [x, y] é claro


que P = P1 ∪ P2 ∪ {x} é um subconjunto finito de ] − ∞, y], e

SV (f, P1 ) + SV (f, P2 ) = SV (f, P) ≤ Vf (y).

Como P1 e P2 são arbitrários, concluı́mos que

(i) Vf (x) + Vf ([x, y]) ≤ Vf (y).

Por outro lado, se P é um subconjunto finito de ]−∞, y], tomamos P ′ =


P ∪ {x}, P1 = P ′ ∩ ]−∞, x] e P2 = P ′ ∩ [x, y]. Temos então que

SV (f, P) ≤ SV (f, P ′ ) = SV (f, P1 ) + SV (f, P2 ) ≤ Vf (x) + Vf ([x, y]) .

Como P é arbitrário, concluı́mos desta vez que

(ii) Vf (y) ≤ Vf (x) + Vf ([x, y]) ,


4.6. Funções de Variação Limitada 257

As desigualdades em (i) e (ii) e a observação já referida que |f (y) − f (x)| ≤


Vf ([x, y]) estabelecem a afirmação em a).
Para demonstrar b), suponha-se primeiro que f ∈ BV (R). As funções f
e Vf são limitadas, e definimos
1 1
g = (Vf + f ) e h = (Vf − f ) donde f = g − h e Vf = g + h.
2 2
Tanto g como h são limitadas, e a desigualdade Vf (y)−Vf (x) ≥ |f (y) − f (x)|
mostra que g e h são ambas crescentes.
Suponha-se agora que f = g − h onde g e h são funções limitadas e
crescentes, e note-se que SV (f, P) ≤ SV (g, P) + SV (h, P), para qualquer
conjunto finito P ⊂ R. Temos portanto Vf (R) ≤ Vg (R) + Vh (R) < ∞.
A demonstração de c) é o exercı́cio 3.

Podemos finalmente estabelecer a existência de soluções do problema de


Stieltjes 4.5.2, quando a função em causa não é crescente.
Teorema 4.6.4. Se f : R → R, então as seguintes afirmações são equiva-
lentes:
a) f é de variação limitada e contı́nua à direita em R, e

b) Existe uma medida real µ tal que µ(]a, b]) = f (b)−f (a), para quaisquer
a ≤ b ∈ R.
Neste caso, as medidas |µ|, µ+ e µ− são as derivadas generalizadas de Vf ,
g = 12 (Vf + f ) e h = 12 (Vf − f ).(18 )
Demonstração. Começamos por provar que a) ⇒ b): Recorde-se da demon-
stração do lema anterior que as funções g e h são crescentes e limitadas.
Como f é contı́nua à direita, notamos também de c) no mesmo lema que Vf
é contı́nua à direita, e segue-se que g e h são igualmente contı́nuas à direita.
O problema de Stieltjes tem solução para as funções g e h, conforme
verificámos em 4.5.12. Sendo π e ν as derivadas generalizadas de g e h, e
dado que f = g − h e Vf = g + h, é então claro que
• π e ν são medidas finitas,

• µ = π − ν é a derivada generalizada de f , e

• τ = π + ν é a derivada generalizada de Vf .
Se µ = µ+ − µ− é a decomposição de Jordan de µ, temos do teorema
4.1.21 que µ+ ≤ π e µ− ≤ ν. Notamos que
18
A igualdade entre medidas aqui referida pressupõe a selecção prévia de um domı́nio de
definição apropriado e comum. Recorde que a igualdade é válida em qualquer σ-álgebra
onde as medidas em causa sejam regulares, por exemplo, em Lµ (R).
258 Capı́tulo 4. Outras Medidas

• |µ|(]x, y]) ≤ τ (]x, y]) = Vf (y) − Vf (x), porque µ+ ≤ π e µ− ≤ ν, e

• Vf (y) − Vf (x) = Vf ([x, y]) e Vf ([x, y]) ≤ |µ|(]x, y]), como notámos no
inı́cio desta secção.
Concluı́mos que τ (I) = |µ|(I) para qualquer intervalo I =]x, y], donde se
segue que τ = |µ|. Segue-se igualmente que π = µ+ e ν = µ− .
Para mostrar que b) ⇒ a), observe-se que f é contı́nua à direita pelo lema
4.5.7, e é de variação limitada porque, como notámos, Vf (R) ≤ kµk.

Passamos a analisar em mais detalhe as funções de variação limitada que


são contı́nuas. Começamos por provar que a variação total de uma função
contı́nua pode ser calculada como se segue:
Lema 4.6.5. Se f é contı́nua em R, I ⊆ R é um intervalo, e P(I) é a
famı́lia de todas as partições finitas de I em intervalos, então
( )
X
(1) Vf (I) = sup m(f (i)) : R ∈ P(I) .
i∈R

Temos além disso que, se I é um intervalo compacto,


X
(2) diam(R) → 0 =⇒ m(f (i)) → Vf (I).
i∈R

Demonstração. Supomos I = [a, b], e escrevemos


( )
X
Φ(I) = sup m(f (i)) : R ∈ P(I) .
i∈R

Para evitar sobrecarregar a notação, usaremos aqui o mesmo sı́mbolo para


designar uma partição R de I em subintervalos, e para designar o conjunto
dos extremos dos subintervalos em R (a continuidade de f torna irrelevante
saber a que subintervalo pertence cada extremo). Notamos que
• Sendo R uma partição de I, então
X
(i) SV (f, R) ≤ m(f (i)) ≤ Φ(I), donde se segue que Vf (I) ≤ Φ(I).
i∈R

• Dado um subintervalo i ∈ R, sejam xi e yi pontos onde f atinge o


seu máximo e mı́nimo no fecho i. Seja R′ o refinamento de R com os
pontos xi e yi . Um momento de reflexão mostra que
X X
Vf (I) ≥ SV (f, R′ ) ≥ |f (yi ) − f (xi )| = m(f (i)),
i∈R i∈R

donde Vf (I) ≥ Φ(I), e concluı́mos de (i) que Vf (I) = Φ(I).


4.6. Funções de Variação Limitada 259

Para provar (2), suponha-se Vf (I) < ∞ e ε > 0. Sendo R0 ⊂ I uma


qualquer partição fixa tal que

(ii) SV (f, R0 ) > Vf (I) − ε/2,

definimos n como o número de pontos em R0 . Como I é compacto, f é


uniformemente contı́nua em I, e existe δ > 0 tal que

|x − y| < δ ⇒ |f (x) − f (y)| < ε/4n.

Provamos em seguida que se adicionarmos um ponto a qualquer partição


ε
com diâmetro inferior a δ, a soma SV aumenta menos de 2n , ou seja,

(iii) Se R é uma partição de I, diam(R) < δ, z ∈ I e R′ = R ∪ {z}, então


ε
SV (R, f ) ≤ SV (R′ , f ) ≤ SV (R, f ) +
2n
Para verificar esta afirmação, supomos sem perda de generalidade que
z 6∈ R e x, y ∈ R são pontos consecutivos de R tais que x < z < y. Temos
neste caso que

SV (f, R′ ) = SV (f, R) − |f (x) − f (y)| + |f (x) − f (z)| + |f (z) − f (y)|.

Como |x − y| < δ, é óbvio que |x − z| < δ e |z − y| < δ, donde

SV (f, R′ ) − SV (f, R) = −|f (x) − f (y)| + |f (x) − f (z)| + |f (z) − f (y)| ≤

≤ |f (x) − f (z)| + |f (z) − f (y)| < ε/2n.


Seja finalmente R′′ = R ∪ R0 , que resulta de adicionar n pontos a R, e
observe-se de (ii) e (iii) que
ε
Vf (I) − ε/2 < SV (f, R0 ) ≤ SV (f, R′′ ) < SV (f, R) + .
2
Dito doutra forma, temos para qualquer partição R com diam(R) < δ que
X
Vf (I) − ε < SV (f, R) ≤ m(f (i)) ≤ Vf (I).
i∈R

Dada uma função f : X → R, a respectiva indicatriz de Banach é


a função B : R → [0, +∞] que conta, para cada y, as soluções da equação
f (x) = y. Por outras palavras, B é dada por

B(y) = # ({x ∈ X : f (x) = y}) .

Aproveitamos o anterior lema 4.6.5 para demonstrar o seguinte resultado


clássico, que é mais um processo de cálculo da variação total de funções con-
tı́nuas.
260 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Teorema 4.6.6 (de Banach-Vitali). Se f é contı́nua em I = [a, b] Re B : R →


[0, +∞] é a sua indicatriz de Banach, então B é B-mensurável e R Bdm =
Vf (I). Em particular, f ∈ BV (I) ⇐⇒ B ∈ L1 (R).
Demonstração. Seja P uma partição de I em intervalos, i ∈ P e Ai a função
caracterı́stica da imagem de i, que é o intervalo f (i). Observe-se que
y = f (x) tem soluções x ∈ i ⇐⇒ y ∈ f (i) ⇐⇒ Ai (y) = 1.
Sendo B a indicatriz de Banach, note-se em particular que
X
B(y) ≥ Ai (y).
i∈P

A desigualdade acima é uma igualdade exactamente quando nenhum inter-


valo i contém mais do que uma solução da equação y = f (x). A soma à di-
reita é uma função que passamos a designar BP , envolve apenas funçõesR car-
acterı́sticas de intervalos, que são Borel-mensuráveis, e é óbvio que R Ai =
m(f (i)). Temos assim que
X Z X
(i) BP = Ai é Borel-mensurável, e BP = m(f (i)).
i∈P R i∈P

A seguinte observação é totalmente elementar:


(ii) Se R é um refinamento de P então BP ≤ BR ≤ B.
Se B(y) ≥ N , i.e., se a equação y = f (x) tem pelo menos N soluções
x1 , · · · , xN , tomamos δ = min{|xk − xm | : k 6= m}. Se o diâmetro da
partição R é inferior a δ, então cada intervalo i ∈ R contém no máximo
uma das N soluções, e portanto BR (y) ≥ N . Por outras palavras,
(iii) Se B(y) ≥ N então existe δ > 0 tal que diam(R) < δ ⇒ BR (y) ≥ N.
Dado n ∈ N, seja Pn a partição do intervalo I em 2n subintervalos In,k de
igual comprimento (b−a)
2n . Observamos que

(iv) Pn+1 é um refinamento de Pn e diam(Pn ) → 0.


De acordo com (i) e (iv), segue-se de 4.6.5 que
Z
(v) BPn → Vf (I).
R

De acordo com (ii), (iii) e (iv) as funções BPn ≤ B formam uma sucessão
crescente, e BPn ր B. Pelo teorema de Beppo Levi, B é Borel-mensurável,
e concluı́mos usando (v) que
Z Z
BPn → B = Vf (I).
R R
4.6. Funções de Variação Limitada 261

Existem outras identidades semelhantes a (1) no lema 4.6.5, e estabele-


cemos aqui o seguinte resultado:

Teorema 4.6.7. Se f ∈ BV (R) ∩ C(R), µ é a sua derivada generalizada e


E ∈ B(R), então
(∞ ∞
)
X [

|µ| (E) = sup m (f (En )) : E = En , En ’s ∈ B(R) disjuntos .
n=1 n=1

Lema 4.6.8.

Demonstração. Começamos por mostrar que

(i) m∗ (f (E)) ≤ |µ| (E), para qualquer E ∈ B(R).

• Se E é um conjunto elementar, então existe uma


[ famı́lia finita P for-
mada por intervalos disjuntos e tal que E = i. É claro que
i∈P
X
m(f (E)) ≤ m(f (i)) ≤ |µ|(E).
i∈P

• Se E é um conjunto aberto existem conjuntos elementares En ր E,


donde f (En ) ր f (E), m(f (En )) → m(f (E)) e |µ(En ) → |µ|(E).
Temos então

m(f (En )) ≤ |µ|(En ) =⇒ m(f (E)) ≤ |µ|(E).

• Se E ∈ B(R) existem abertos Un ⊇ E tais que |µ| (Un ) → |µ| (E), e é


óbvio que

m∗ (f (E)) ≤ m(f (Un )) ≤ |µ|(Un ) → |µ| (E).

Estabelecemos assim (i) e definimos agora Ψ : B(R) → [0, ∞] por:


(∞ ∞
)
X [

Ψ(E) = sup m (f (En )) : E = En , En ’s ∈ B(R) disjuntos .
n=1 n=1

Como os conjuntos En ’s são disjuntos, concluı́mos de (i) que



X ∞
X

m (f (En )) ≤ |µ| (En ) = |µ| (E), donde
n=1 n=1

(ii) Ψ(E) ≤ |µ| (E) para qualquer E ∈ B(R).


262 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Quando E = I é um intervalo, é evidente de 4.6.5 que |µ|(I) ≤ Ψ(I), e


segue-se de (ii) que

(iii) Ψ(I) = |µ| (I) para qualquer intervalo I ⊆ R.


S∞
Suponha-se
S∞ que A, B ∈ B(R) são disjuntos. Dadas partições A = n=1 An ,
e B = n=1 Bn , a famı́lia dos conjuntos An e Bn é uma partição de A ∪ B,
pelo que
X∞ ∞
X
Ψ(A ∪ B) ≥ m∗ (f (An )) + m∗ (f (Bn )).
n=1 n=1

Como as partições referidas são arbitrárias, temos ainda

(iv) A, B ∈ B(R) e A ∩ B = ∅ =⇒ Ψ(A ∪ B) ≥ Ψ(A) + Ψ(B).


S∞ S∞
Considerem-se partições de E = k=1 Ak = n=1 En , e note-se que


[ ∞
X
En = Ak ∩ En =⇒ m∗ (f (Ak ∩ En )) ≤ Ψ(En ), e
k=1 k=1


[ ∞
X
f (Ak ) = f (Ak ∩ En ) ⇒ m∗ (f (Ak )) ≤ m∗ (f (Ak ∩ En )).
n=1 n=1

Obtemos imediatamente:

X ∞ X
X ∞ ∞
X
m∗ (f (Ak )) ≤ m∗ (f (Ak ∩ En )) ≤ Ψ(En ).
k=1 n=1 k=1 n=1

Como a partição formada pelos Ak ’s é arbitrária, estabelecemos:


X
(v) Ψ(E) ≤ Ψ(En ),
n=1

Para concluir a demonstração, registamos que

• (iv) e (v) =⇒ Ψ é uma medida positiva em B(R).

• (ii) =⇒ Ψ é finita, e portanto regular, em B(R).

• (iii) =⇒ Ψ = |µ| nos intervalos compactos.

Segue-se que Ψ e |µ| coincidem nos abertos, e em B(R).


4.6. Funções de Variação Limitada 263

4.6.1 Funções Absolutamente Contı́nuas


Tal como observámos a propósito da noção de variação total, é fácil adaptar a
definição de continuidade absoluta para ser directamente aplicável a funções.
Suponha-se que f é função distribuição de uma medida real µ absolutamente
contı́nua em R. De acordo com 4.3.4,

para qualquer ε > 0, existe δ > 0 tal que m(E) < δ ⇒ |µ| (E) < ε.

Se E = ∪nk=1 Ik , onde I1 ,P
· · · , In são intervalos disjuntos, e Ik tem extremos
xk ≤ yk , temos m(E) = nk=1 (yk − xk ), e por isso:
n
X n
X n
X
(yk − xk ) < δ ⇒ |f (yk ) − f (xk )| = |µ(Ik )| ≤ |µ| (E) < ε.
k=1 k=1 k=1

A definição seguinte regista estas observações:

Definição 4.6.9 (Funções Absolutamente Contı́nuas). Se f : I → R onde


I ⊆ R é um intervalo, dizemos que f é absolutamente contı́nua em I se
e só se para qualquer ε > 0 existe δ > 0 tal que, para quaisquer intervalos
disjuntos I1 , · · · , In em I, onde Ik tem extremos xk ≤ yk , temos
n
X n
X
(yk − xk ) < δ ⇒ |f (yk ) − f (xk )| < ε.
k=1 k=1

Exemplos 4.6.10.
Rx
1. Se a função g : R → R é somável, então a função f (x) = −∞ gdm é função
distribuição de uma medida absolutamente contı́nua em R, e portanto f é uma
função absolutamente contı́nua em R, como aliás verificámos directamente no
exercı́cio 10 da secção 3.3.
2. Se f satisfaz uma condição de Lipschitz (19 ) em I, i.e., se existe uma constante
K tal que |f (x) − f (y)| ≤ K|x − y|, é evidente que f é absolutamente contı́nua
em I.
3. A função f (x) = sen(x) satisfaz uma condição de Lipschitz em R com K = 1,
e portanto é absolutamente contı́nua em R.
4. É fácil verificar que a “escada do diabo” é uniformemente contı́nua em R,
mas não é absolutamente contı́nua.
5. Qualquer função absolutamente contı́nua é uniformemente contı́nua (é o caso
n = 1, na definição 4.6.9.)

As ideias que referimos no lema 4.6.5 podem ser também utilizadas para
reformular a definição acima.
19
Rudolf Lipschitz, 1832-1903, matemático alemão, professor na Universidade de Bona.
264 Capı́tulo 4. Outras Medidas

Lema 4.6.11. Se f : I → R onde I ⊆ R é um intervalo, então f é absolu-


tamente contı́nua em I se e só se para qualquer ε > 0 existe δ > 0 tal que,
para qualquer famı́lia finita P de intervalos disjuntos i ⊆ I, temos
X X
m(i) < δ ⇒ m(f (i)) < ε.
i∈P i∈P

Demonstração. Se f satisfaz a condição referida neste lema é claro que f é


absolutamente contı́nua nos termos da definição 4.6.9. Basta observar que
se o intervalo i tem extremos xk e yk então |f (yk ) − f (xk )| ≤ m(f (i)).
Suponha-se por outro lado que f é absolutamente contı́nua. Dada uma
famı́lia P de intervalos disjuntos e sendo xi e yi os extremos de i, temos:
X X
m(i) < δ ⇒ |f (yi ) − f (xi )| < ε.
i∈P i

A função f tem máximo e mı́nimo no intervalo [xi , yi ], e designamos por ui


e vi pontos do intervalo [xi , yi ] onde ocorrem estes extremos, com ui ≤ vi .
Definimos ji =]ui , vi [ e observamos que os intervalos ji formam igualmente
uma famı́lia de intervalos disjuntos em I. Notamos como evidente que
m(ji ) ≤ m(i) e |f (vi ) − f (ui )| = m(f (i)), e concluı́mos que:
X X X X
m(i) < δ ⇒ m(ji ) < δ ⇒ m(f (i)) = |f (ui ) − f (vi )| < ε.
i i∈P i∈P i∈P

Podemos agora mostrar que as funções absolutamente contı́nuas são de


variação limitada em intervalos compactos:

Teorema 4.6.12. Se f é absolutamente contı́nua no intervalo I ⊆ R então


f é de variação limitada em qualquer subintervalo compacto J ⊆ I.

Demonstração. Seja J = [a, b] ⊆ I ⊆ R. Como f é absolutamente contı́nua


em I, existe δ1 > 0 tal que, para qualquer famı́lia P de intervalos disjuntos
em I, temos: X X
(1) m(i) < δ ⇒ m(f (i)) < 1.
i∈P i∈P

Como J é limitado, é evidente que existe uma partição finita de J em in-


tervalos disjuntos j, cada um dos quais com comprimento inferior a δ1 .
Designamos esta partição por Q, e supomos que é constituı́da por N subin-
tervalos. Supomos ainda que R é uma qualquer partição de J, e definimos
P = Q ∪ R e, para qualquer j ∈ Q, Pj = j ∩ P. Pj é uma partição do
subintervalo j, e é imediato de (1) que
X X
m(i) = m(j) < δ1 ⇒ m(f (i)) < 1.
i∈Pj i∈Pj
4.6. Funções de Variação Limitada 265

Resta-nos notar que


X X XX
m(f (i)) ≤ m(f (i)) = m(f (i)) < N.
i∈R i∈P j∈Q i∈Pj

É assim evidente que Vf (J) ≤ N , i.e., f é de variação limitada em J.


Exemplos 4.6.13.
1. A função f (x) = x sen(1/x) (com f (0) = 0) é uniformemente contı́nua em
[0, 1], mas não é de variação limitada em [0, 1]. Portanto, f não é absoluta-
mente contı́nua em [0, 1].
2. A função f (x) = sen x é absolutamente contı́nua em R, e portanto é de
variação limitada em qualquer intervalo limitado. Não é no entanto de variação
limitada em R.

Completamos agora o teorema 4.6.4 para o caso em que a medida µ é


absolutamente contı́nua. O próximo teorema será usado na próxima secção
para mostrar que as funções absolutamente contı́nuas são precisamente as
funções que são integrais indefinidos de funções somáveis.

Teorema 4.6.14. Se