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13 | 11 setembro 2019

AS ARTES ENTRE AS LETRAS 13 A

Isabel Patim
prof. universitária

CARPE DIEM
– a propósito de Literatura & Artes Plásticas
A exposição de pintura LES MAGRANES de JOSEP to qualitativo. Antes, desafiam-no. Para tal, contribuem Ros não recria apenas expressões linguísticas ou dis-
ROS está patente na Galeria Ortopóvoa até 5 de ou- os títulos dados às obras artísticas. cursos estéticos, mitos ou representações: convoca pa-
tubro.
– quando a tela também pinta um poema
As telas de Josep Ros exibem-se ao observador, que está Les magranes é a tela que dá título à exposição patente
sempre a ser observado, num convite mágico ao diálogo, ao público na Póvoa de Varzim. À semelhança de gran-
de maior ou de nula dimensão interdisciplinar, pincela- de parte dos restantes trabalhos em exibição, é o Pintor
do pelo artista valenciano num cromatismo que convoca, quem leva o poema à criação plástica, em primeira ins-
também, narrativas e discursos literários e mitológicos. Os tância e, em última, ao leitor/observador, cujo proces-
poemas e narrativas, as fábulas e as estórias, são deslidas so de descoberta pode ser orientado pelo seu próprio
e recriadas na pintura de Josep Ros, num processo a que imaginário. A textualidade remete aos saborosos fru-
chamo pictufictione, ainda que reconheça que este termo tos, “Els fruits saborosos” de Josep Carner: “I despullant,
é redutor dos universos abordados na sua obra. de dia, les hortes i els jardins, / en premi de les teves vo-
Com formação em Belas Artes e História de Arte, Ros lences sobiranes, / tos temples ornaria de flamejants
reconhece o papel de Jesus Acevedo, “mago da cor”, magranes / que, ben ferides, llencen un xàfec de robins”.
como figura determinante no seu interesse pelo cro-
matismo. Fruto de visitas a diferentes museus euro-
peus, Ros deixa-se “influenciar pela pintura clássica
europeia”, à qual diz sentir-se muito ligado, e que aca-
ba por se converter numa referência em todo o seu
trabalho.
Como refere Afonso Pinhão Ferreira no catálogo bilin-
gue desta 20.ª exposição da Galeria Ortopóvoa, “cada
pintura, exposta nos palácios do seu reino é uma ilus- «Vanitas» (óleo sobre tela, 116x81cm)
tração intelectual, onde num fundo místico sobressai
uma tela mística, que confere ênfase ao imaginário e ra a sua arte outras geografias, obras, artistas e narrati-
à fantasia”. Parabéns à Galeria que inaugura também vas. É o caso da tela intitulada “Llacuna Estígia”, síntese
a sua remodelada página em linha disponível em <ht- que remete para a obra do pintor flamengo Joachim Pa-
tps://www.ortopovoa.pt/galeria-de-arte/>. tinir, ‘El paso de la laguna Estigia’, pintura que represen-
ta o tema clássico relatado por Virgílio na Eneida ou por
Dante no Inferno – o Juízo Final e Ars Moriendi.

«Les magranes» (óleo sobre tela, 100x80cm)

– das mitologias na narrativa plástica


Importa notar, no discurso plástico de Ros, a mitologia
convocada como natureza clarificante da tela, que de-
ve ser criticamente entendida pelo observador e, con-
siderando-se o relativismo cultural, cada observador/
leitor, a descodificará de modo diferenciado. As estó-
«Venena Pello» (óleo sobre tela, 100x100cm, pormenor) «Llacuna Estígia» (óleo sobre tela, 80x100cm)
rias são assim recontadas, num contexto contemporâ-
neo, as personagens deslidas, reimaginadas e remol- Nesta tela, o espaço de Caronte sobre as águas do rio Es-
A pintura de Ros esboça uma identidade própria no pa- dadas, conferindo à mitologia o papel de tradução dos
tige é reescrito; fala-me do Corvo de Poe, da fábula de
norama da arte contemporânea, ao mesmo tempo que princípios que governam a Humanidade para além do
Esopo da Rã e do Escorpião, das libélulas, da serpen-
o artista se aprofunda no pensamento e nas questões tempo e do espaço.
te e do pecado, das borboletas e da sua simbólica: a da
recriadas que apresenta. Da policromia da obra artísti- E nesta linha podemos, também, observar e reflec-
transformação, a da felicidade e beleza, e a da efemeri-
ca emergem cenários e figuras que se exibem, convo- tir sobre a tela “Vanitas”. Este título, que convoca o ter-
dade da vida, com a qual Ros nos confronta, numa pic-
cam-se discursos, narrativas, representações e mitos mo que se refere à pintura que simbolicamente repre-
que comunicam com o observador, como se de uma senta, através de um conjunto de objectos, a brevidade tufictione consubstanciada na pincelada serenidade
Pinacoteca se tratasse, convidando-o a dela usufruir. da vida e a transitoriedade dos prazeres terrenos, ten- com que degustamos um saboroso café, na e com a te-
Na obra de Ros sobressai a individualidade da sua ex- do associado elementos vanitas, como pétalas de flo- la, que também nos observa.
pressão artística, numa linha de beleza clássica em que res caídas, caveiras, candeias ou ampulhetas, encontra- A Arte de Viver coloca ao nosso dispor a Arte e a Vida,
as figuras, conceptualmente, não se reduzem à sime- dos em retratos ou naturezas-mortas, recria-se e remol- com ou sem fantasia, plena ou vazia de imaginação, no
tria matemática, livres das irregularidades do quotidia- da-se nesta tela de Ros, pela presença do mito grego de encontro profícuo do Eu com o Outro, no Espaço e no
no, nem se submetem a qualquer sentido de julgamen- Circe, e das Artes Circenses. Tempo, e oferece-nos Momentos – e este é nosso!