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APRESENTAÇÃO

Educar implica uma ação humana e humanizadora que requer respeito,


compromisso e coragem. Tal fenômeno é idealizado nas teorias e viabiliza-
do em ações no cotidiano das escolas. Nesse contexto, a história da educa-
ção vem destacando renomados autores e neste momento, honrosamente,
temos o orgulho de apresentar um deles comprometido com a educação
de nosso século e que pela sua trajetória profissional vem contribuindo de
maneira significativa para a formação de docentes e não-docentes.
Clóvis Roberto dos Santos é expoente nesse cenário e vem acumu-
lando e multiplicando saberes no âmbito da educação superior paulista
e brasileira. Com alma de educador, este notável professor construiu sua
carreira baseada na ética e no amor pela docência e que, como nosso
ilustre professor Paulo Freire, em todos os escritos, é um defensor da
educação humanizadora e de cunho político.
Temos a impressão de que milhares de linhas não seriam suficientes
para retratarmos, de maneira fidedigna, a pessoa, o amigo, o profissional
presente e atuante, o nosso... querido mestre. Como o jequitibá de Ru-
bem Alves, Clóvis Roberto demonstrou-se firme em seus ideais em nos
obsequiar com mais uma obra reflexiva sobre o compromisso do gestor
educacional e escolar com a educação permanente e problematizadora.

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X A gestão educacional e escolar para a modernidade

Anuncia em seu discurso a solidariedade, enquanto compromisso históri-


co de educadores, como uma das formas de se encaminhar as atividades
educativas capazes de promover uma ação política pedagógica em prol
da educação escolar de qualidade.
Trata-se de um trabalho iluminado pelos componentes humanos e
científicos que demandam ações educativas comprometidas com a for-
mação de educandos e futuros educadores.
Finalmente, gostaríamos de registrar nosso apreço, nosso pro-
fundo respeito que humildemente dedicamos ao nosso amigo Clóvis,
desejos de infindáveis possibilidades de aprendermos sempre com sua
sabedoria.

Ana Maria Oliveira Rocha


Pedro Hernandes Soler
Sueli Barreiro Fernandes
(Professores do curso de Pedagogia
das Faculdades Anhanguera/
Uni-A de Santo André – SP)

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PREFÁCIO

Com imensa satisfação aceitei escrever um prefácio para A gestão edu-


cacional e escolar para a modernidade, obra em que o professor Clóvis
Roberto dos Santos aborda com competência a importância da forma-
ção do educador, capacitando-o para a gestão educacional e escolar nos
tempos atuais.
O autor inicia o texto contextualizando o curso de Pedagogia
em sua trajetória histórica até as atuais diretrizes curriculares nacionais,
apontando temas relevantes como as diretrizes curriculares do curso e a
importância da distribuição de sua carga horária. Traça, ainda, o perfil do
profissional da educação segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educa-
ção Nacional (LDB) e a Constituição Brasileira, propondo novos parâme-
tros para a formação e atuação de gestores educacionais e escolares.
O segundo capítulo traz como referência as tendências que “mol-
darão o mundo de amanhã”, considerando a “Era do Conhecimento” em
que nos encontramos e que certamente trará uma revolução nos proces-
sos de ensino e de aprendizagem. Para tanto, o autor aponta a necessi-
dade de mudança da cultura e formação dos profissionais da educação
e cita Rubem Alves: “professor é profissão, educador é vocação e entre
os dois há um abismo”.

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XII A gestão educacional e escolar para a modernidade

No capítulo “A organização escolar: o processo de gestão”, o au-


tor contempla as áreas fundamentais de gestão, discute a qualidade do
ensino público no Brasil e propõe ações para implantar uma escola de
sucesso contando com uma gestão mais eficiente e moderna.
Na seqüência, o professor Clóvis mostra a evolução de um diretor
escolar clássico até chegar à figura do gestor escolar como mediador en-
tre a escola e os órgãos da Secretaria da Educação. Defende, como forte
tônica de qualidade, a importância da formação desse gestor para que
se possa visualizar a instituição como uma organização integrada.
Por fim, no último capítulo, o autor propõe algumas reflexões so-
bre a formação e atuação do gestor educacional e escolar, e aponta a
carência de bons diretores escolares. O texto discute as lacunas existen-
tes desde a graduação até a prática vivenciada na realidade por esses
profissionais, lacunas que impedem a formação de um gestor escolar
capaz de enfrentar desafios, resultando em “diretores que repetem os
modelos que talvez na faculdade eles mesmos tenham questionado”,
perpetuando dessa forma a crise no ambiente escolar.
Esta obra contribuirá para o enriquecimento dos processos de en-
sino e aprendizagem e o repensar na formação de gestores educacionais
e escolares.

Prof. Ms. Carlos Roberto Pagani Jr.


Diretor Executivo
Centro Universitário de Santo André
(Uni-A/Anhanguera)

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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1
O curso de Pedagogia e a formação
dos profissionais da educação básica 1
1. O curso de Pedagogia 1
2. A formação dos gestores educacionais
e escolares conforme normas atuais 6
3. Como formar o gestor educacional
e escolar para a modernidade 15

CAPÍTULO 2
Da administração escolar à gestão educacional e escolar:
um longo caminho de mudanças 21

CAPÍTULO 3
A organização escolar: o processo de gestão 31

CAPÍTULO 4
O gestor educacional e escolar para a modernidade 45

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XIV A gestão educacional e escolar para a modernidade

CAPÍTULO 5
Algumas reflexões sobre a formação
e a atuação do gestor educacional e escolar 53

Considerações finais 63

ANEXO
Resolução CNE/CP no 1, de 15 de maio de 2006
Institui Diretrizes Curriculares Nacionais
para o curso de graduação em Pedagogia, Licenciatura 71

APÊNDICE I
O cargo de diretor de escola no magistério público estadual
de São Paulo 83

APÊNDICE II
A dimensão legal das atribuições e competências
do diretor de escola estadual de São Paulo 93

Referências 103

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O CURSO DE PEDAGOGIA
capítulo 1

E A FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS


DA EDUCAÇÃO BÁSICA

O domínio de uma profissão


não exclui o seu aperfeiçoamento;
ao contrário, mestre é quem
continua aprendendo.
Pièrre Furter

1. O CURSO DE PEDAGOGIA

Profundas reflexões sobre o curso de Pedagogia, no


contexto da educação superior brasileira, vêm de lon-
ga data. Apesar de algumas definições, redefinições, de
inúmeros encontros, seminários, congressos, fóruns,
simpósios etc. sobre o assunto, nos quais os rumos do
curso foram buscados, ele continua bastante controver-
so, suscitando muitas discussões, pois há queixas sobre
sua eficácia na formação de profissionais da educação
docentes e não-docentes. Há até autoridades educacio-
nais propondo sua extinção pura e simples. Não chega-
mos a este ponto, mas é preciso melhorá-lo muito, não
tanto na sua normatização pelo Conselho Nacional de

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2 A gestão educacional e escolar para a modernidade

Educação, mas na sua estrutura e em seu funcionamento nas instituições


de educação superior.
Durante muito tempo, especialmente a partir da vigência da atual
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei no 9.394, de
20/12/1996, travaram-se no Conselho Nacional de Educação, no Minis-
tério da Educação e nos meios acadêmicos acaloradas discussões: de um
lado, muitas entidades de classe e as grandes universidades, especialmente
as públicas, defendendo o curso como formador de todos os profissionais
da educação, e de outro, os defensores de dois cursos: o Normal Superior,
para formar docentes para a educação infantil e séries iniciais do ensino
fundamental, e o de Pedagogia, para a formação dos profissionais não-do-
centes, tudo conforme o expresso no TÍTULO VI, DOS PROFISSIONAIS DA EDUCA-
ÇÃO, especialmente os artigos 62, 63 e 64 da LDB.
No contexto histórico, temos que o Governo Federal, conforme De-
creto no 19.890, de 18/04/1931, demonstrou pela primeira vez maiores
preocupações com a formação do magistério para a educação básica em
nível superior. Mas somente com a publicação do Decreto no 1.190, de
04/04/1939, a intenção começa a se materializar com a criação da Facul-
dade de Filosofia, Ciências e Letras e do curso de Pedagogia para formar
professores de educação que iriam exercer o seu magistério nos cursos
normais de nível médio para futuros docentes da escola primária, hoje cor-
respondente às séries iniciais do ensino fundamental. Adotou-se, na época,
para o curso de Pedagogia, o esquema de duração conhecido como 3 + 1,
isto é, 3 anos para o bacharelado e 1 para a licenciatura.
O curso de Pedagogia, conforme Parecer CNE/CP no 5/2005, já

[...] foi definido como lugar de formação de “técnicos em educação”.


Estes eram, na época, professores primários que realizavam estudos
superiores em Pedagogia para, mediante concurso, assumirem funções
de administração, planejamento de currículos, orientação a professores,
inspeção a escolas, avaliação do desempenho dos alunos e dos docentes,
de pesquisa e desenvolvimento tecnológico da educação, no Ministério da
Educação, nas Secretarias da Educação dos Estados e dos Municípios.

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Com base na primeira LDB brasileira (Lei no 4.024, de 20/12/1961),


o antigo Conselho Federal de Educação (CFE) aprovou o Parecer no 25/62,
mantendo a duração do curso de Pedagogia em 4 anos, no mesmo esque-
ma anterior de 3 + 1.
A Lei no 5.540, de 28/11/1968 (reforma do ensino superior), alterou
a LDB vigente (Lei no 4.024/61), e seu artigo 30 assim dispunha:

A formação de professores para o ensino de segundo grau, de disciplinas


gerais ou técnicas, bem como o preparo de especialistas destinados
ao trabalho de planejamento, supervisão, administração, inspeção e
orientação, no âmbito de escolas e sistemas escolares, far-se-á em nível
superior.

Esses mesmos dispositivos constaram dos artigos 29 a 33 da Lei no


5.692, de 11/08/1971 (reforma do ensino de 1o e 2o graus, hoje ensino
fundamental e médio, respectivamente). Sobre o assunto, foi baixada a
Resolução CFE no 2/69, anexa ao Parecer CFE no 252/69, determinando:

A formação de professores para o ensino normal e de especialistas para


as atividades de orientação, administração, supervisão e inspeção, no
âmbito de escolas e sistemas escolares, será feita no curso de graduação
em Pedagogia, de que resultará o grau de licenciado com modalidades
diversas de habilitação.

A denominação “especialistas da educação” surgiu com a Lei no


5.540/68 e foi repetida pela Lei no 5.692/71, ambas expressamente revoga-
das pela atual LDB, Lei no 9.394/96, cujo artigo 92 diz:

Revogam-se as disposições das leis 4.024/61, 5.540/68 [...], e, ainda,


as leis 5.692/71 e 7.044/82 e as demais leis e decretos-lei que as
modificaram e quaisquer outras disposições em contrário.

Ora, é princípio jurídico vigente que, se as normas regulamenta-


das forem revogadas, as regulamentadoras perdem toda sua eficácia. É

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o que aconteceu com a Resolução CFE no 2/69, ficando então extintas as


expressões “especialistas da educação” e “habilitações”. Mesmo assim,
a Resolução CNE/CP no 1/2006 deixou isso expresso: “Artigo 15 – Esta
Resolução entra em vigor na data de sua publicação, ficando revogadas
a Resolução CFE no 2, de 12 de maio de 1969, e demais disposições
em contrário”. Sobre as “habilitações”, o artigo 10 diz o seguinte: “As
habilitações em cursos de Pedagogia atualmente existentes entrarão em
regime de extinção, a partir do período letivo seguinte à publicação des-
ta Resolução”.
A Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Edu-
cação (CNE) aprovou a Resolução no 3/97, cujo artigo 2o dispõe:

Integram a carreira do Magistério dos Sistemas de Ensino Públicos os


profissionais que exercem atividades de docência e os que oferecem
suporte pedagógico direto a tais atividades, incluídas as de direção ou
administração escolar, planejamento, inspeção, supervisão e orientação
educacional.

Só para registro: o Plano de Carreira do Magistério Estadual de São


Paulo, estabelecido pela Lei Complementar no 836/97, em substituição à an-
tiga “Classe de Especialistas da Educação”, criou a “Classe de Suporte Peda-
gógico” com os seguintes cargos e requisitos principais para sua ocupação:

a) Diretor de escola: licenciatura plena em Pedagogia ou pós-graduação na área


de educação e oito anos, no mínimo, de efetivo exercício no magistério.
b) Supervisor de ensino: licenciatura plena em Pedagogia ou pós-graduação na
área de educação e oito anos, no mínimo, de efetivo exercício no magistério,
dos quais dois anos em cargo ou função de suporte pedagógico.
c) Dirigente regional de ensino: curso superior, licenciatura de graduação
plena ou pós-graduação na área de educação e oito anos, no mínimo, de
efetivo exercício no magistério, dos quais dois anos em cargo ou função
de suporte pedagógico.

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O curso de Pedagogia, depois de idas e vindas, muitas discussões e


debates acalorados na academia, na mídia, nos conselhos de educação, nos
sindicatos dos trabalhadores da educação, finalmente teve aprovadas suas
diretrizes curriculares, sobre as quais comentaremos a seguir. A Resolução
CNE/CP no 1, de 15/05/2006, é transcrita na íntegra, como anexo ao térmi-
no deste livro.
Por essa Resolução, fica definido o curso de graduação em Pedago-
gia, em nível de licenciatura, conforme termos explicitados nos Pareceres
CNE/CP nos 5/2005 e 3/2006, cuja consulta pode ser feita no site www.mec.
gov.br/cne. Tal curso destina-se à formação de docentes para o exercício na
educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, e também nos
cursos de ensino médio, na modalidade Normal, assim como em cursos de
educação profissional na área de serviços e apoio escolar, e em outras áreas
nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos.
Um bom conceito de docência é dado pela Resolução CNE/CP no
1/2006 como uma

[...] ação educativa e processo pedagógico metódico e intencional,


construído em relações sociais, étnico-raciais e produtivas, as
quais influenciam conceitos, princípios e objetivos da Pedagogia,
desenvolvendo-se em articulação entre conhecimentos científicos e
culturais, valores éticos e estéticos inerentes a processos de aprendizagem,
de socialização e de construção do conhecimento, no âmbito do diálogo
entre visões de mundo.

Seguem-se outras recomendações, os pontos centrais para a formação


do pedagogo, assim como as aptidões dos egressos, englobando 16 objetivos
eminentemente didáticos e outros de fundo filosófico, político e ideológico
para a formação de profissionais que vão atuar nas comunidades indígenas.
O artigo 6o diz da estrutura do curso de Pedagogia, que deve respei-
tar a diversidade nacional e a autonomia das instituições educacionais.
A carga horária, definida no artigo 7o, será de, no mínimo, 3.200
horas de efetivo trabalho acadêmico. Essa carga horária será distribuída

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da seguinte forma: a) 2.800 horas para assistência às aulas, realização de


seminários, participação na realização de pesquisas, consultas a bibliotecas
e centros de documentação, visitas a instituições educacionais e culturais,
atividades práticas de diferentes naturezas, participação em grupos coope-
rativos de estudos; b) 300 horas para estágio supervisionado em educação
infantil e anos iniciais do ensino fundamental e em outras áreas específicas
previstas no projeto pedagógico da instituição; c) 100 horas em atividades
teórico-práticas de aprofundamento em áreas específicas de interesse dos
alunos, por meio da iniciação científica, da extensão e da monitoria.

2. A FORMAÇÃO DOS GESTORES EDUCACIONAIS E ESCOLARES


CONFORME NORMAS ATUAIS

A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), no TÍTULO


VI, DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO, trata especificamente do assunto em seu
artigo 64:

A formação de profissionais da educação para a administração,


planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional, para a
educação básica, será feita em cursos de graduação em Pedagogia ou em
nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida,
nesta formação, a base comum nacional.

Posteriormente, pela Resolução CNE/CP no 1/2006, foi regulamen-


tada a referida formação. Diz o artigo 14:

A Licenciatura em Pedagogia, nos termos dos Pareceres CNE/CP nos


5/2005 e 3/2006 e desta Resolução, assegura a formação de profissionais
da educação prevista no artigo 64, em conformidade com o inciso VIII
do artigo 3o da Lei no 9.394/96.
§ 1o – Esta formação profissional também poderá ser realizada em
cursos de pós-graduação, especialmente estruturados para este fim e
abertos a todos os licenciados.

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§ 2o – Os cursos de pós-graduação indicados no § 1o deste artigo


poderão ser complementarmente disciplinados pelos respectivos
sistemas de ensino, nos termos do parágrafo único do artigo 67 da Lei
no 9.394/96.

Sobre o citado § 2o do artigo 14, o Conselho Estadual de Educação


de São Paulo aprovou a Deliberação CEE no 53/2005 para fixar as normas
para os cursos de especialização que se destinam à formação de profissio-
nais da educação prevista na Resolução no 1/2006 do Conselho Nacional
de Educação.
Por sua vez, o referido artigo 67 da LDB cuida da valorização dos pro-
fissionais da educação como de responsabilidade dos sistemas de ensino.
Seu parágrafo único assim dispõe: “A experiência docente é pré-requisito
para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério,
nos termos das normas de cada sistema de ensino”.
Tal delegação para definir esse pré-requisito poderia gerar discrepân-
cias, pois cada sistema de ensino o faria conforme seus interesses, peculia-
ridades e possibilidades, inclusive com o tempo de experiência docente po-
dendo ser de apenas meses, quando o bom senso e a tradição determinam
um mínimo de dois anos, sacramentado pela Resolução CNE/CEB no 3/97.
Sobre sistema é sempre bom lembrar Savianni (1996, p. 77), quando ele

[...] conclui que as seguintes notas caracterizam a noção de “sistema”:

a) intencionalidade;
b) unidade;
c) variedade;
d) coerência interna;
e) coerência externa.

Ora, vê-se por aí a estrutura dialética que caracteriza a noção de “sis-


tema”. Com efeito, intencionalidade implica os pares antitéticos sujeito-
objeto, consciência-situação (toda consciência é consciência de alguma
coisa). A unidade se contrapõe à variedade, mas também se compõe com

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8 A gestão educacional e escolar para a modernidade

ela para formar o conjunto. A coerência interna, por sua vez, só pode se
sustentar desde que articulada com a coerência externa. Do contrário,
ela será mera abstração. Por descuidar do aspecto da coerência externa é
que os sistemas tendem a desvincular do plano concreto esvaziando-se
em construções “teóricas”.

O sistema de ensino brasileiro, como conhecemos hoje, teve seu


início praticamente na década de 1930 com a criação do Ministério da
Educação e da Saúde, posteriormente Ministério da Educação e Cultura e,
hoje, só Ministério da Educação, mas consagrado com a sigla MEC. Além
disso, desde os jesuítas, não havia grandes preocupações com a educação
popular de qualidade, já que esse tipo sempre foi (continua sendo) um pri-
vilégio dos ricos e poderosos com condições de mandar seus filhos para as
melhores escolas daqui, evidentemente as particulares, ou até para outros
países, especialmente da Europa e dos Estados Unidos. A catequese, como
sabemos, tinha outros objetivos que não os de formação para a cidadania,
auto-realização e preparação para o trabalho, porque era mais um movi-
mento contra a Reforma Protestante do que uma proposta pedagógica.
As Constituições brasileiras anteriores a 1934, isto é, de 1824 e 1891,
pouco dispuseram sobre o assunto. A atual, promulgada em 05/10/1988, tra-
ta da educação e do ensino em 10 artigos específicos, os de nos 205 a 214.
Ela dispõe, em seu artigo 211 e parágrafos, que existem no Brasil
quatro tipos de sistemas de ensino, da União, dos estados, do Distrito Fe-
deral e dos municípios, que os organizarão em regime de colaboração com
as seguintes competências:

a) à União – autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar,


respectivamente, os cursos das instituições de educação superior e os
estabelecimentos do seu sistema de ensino;
b) aos Estados e ao Distrito Federal – organizar, manter e desenvolver os órgãos
de ensino, bem como autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e
avaliar, respectivamente, os cursos das instituições de educação básica
e superior e os estabelecimentos do seu sistema de ensino;

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c) aos Municípios – organizar, manter e desenvolver os órgãos e instituições


oficiais do seu sistema de ensino, bem como baixar normas complementares
e autorizar, credenciar e supervisionar os estabelecimentos do seu sistema
de ensino.

Os municípios poderão optar por integrar o sistema estadual de en-


sino ou compor com ele um sistema único de educação básica. Essa é
uma precaução válida porque mais de 30% dos mais de 5.500 municípios
brasileiros não têm condições administrativas, técnicas e financeiras de or-
ganizar e manter seu sistema de ensino.
Ainda sobre sistema de ensino, vejamos a composição dos vários
tipos, conforme artigos 16, 17 e 18 da LDB:

1. O sistema federal de ensino compreende:


1.1. as instituições de educação mantidas pela União;
1.2. as instituições de educação superior criadas e mantidas pela
iniciativa privada;
1.3. os órgãos federais de educação.
2. Os sistemas de ensino dos estados e do Distrito Federal
compreendem:
2.1. as instituições de educação mantidas, respectivamente, pelo
Poder Público estadual e pelo Distrito Federal;
2.2. as instituições de educação superior mantidas pelo Poder
Público municipal;
2.3. as instituições de ensino fundamental e médio criadas e
mantidas pela iniciativa privada;
2.4. os órgãos de educação estaduais e do Distrito Federal,
respectivamente.
3. Os sistemas municipais de ensino compreendem:
3.1. as instituições de ensino fundamental, médio e de educação
infantil mantidas pelo Poder Público municipal;
3.2. as instituições de educação infantil criadas e mantidas pela
iniciativa privada;
3.3. os órgãos municipais de educação.

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10 A gestão educacional e escolar para a modernidade

Para as pessoas exercerem cargos e funções de profissionais da educa-


ção, nos vários sistemas de ensino, como gestores educacionais (delegados
de ensino, dirigentes regionais de ensino, supervisores ou inspetores regio-
nais de ensino ou assemelhados) e escolares (diretores de escola, vice-di-
retores de escola ou assistentes de direção, diretores administrativos, dire-
tores ou coordenadores pedagógicos, orientadores educacionais etc.) para
a educação básica, sua formação será, obrigatoriamente, feita em cursos de
Pedagogia, licenciatura plena ou nível de pós-graduação, conforme artigo
64 da LDB e regulamentado pela Resolução CNE/CP no 1/2006, devidamente
homologada pelo ministro da Educação.
Apesar dessas recentes mudanças, ainda sem condições de análise
mais profunda e de avaliação inviável pelo tempo decorrido, mas com
base na baixa qualidade oferecida por muitos cursos de Pedagogia, como
atestam as últimas avaliações MEC, via Enade (Sinaes/Inep), cremos que
a formação dos gestores continuará mostrando um descompasso enorme
com a gestão para a modernidade, em razão também de os referidos cursos
manterem-se resistentes a mudanças, repetindo a formação do passado,
quando a educação não ganhara o destaque que assume hoje no contexto
das atividades sociais e profissionais, exigindo repensar o ato de educar.
Acresce-se ainda que as mudanças que vêm ocorrendo no campo da gestão
empresarial não podem ser ignoradas, tendo em vista a precariedade de
estudos e das pesquisas educacionais e a necessidade de preparar pessoas
capazes de entender o novo significado que assumem a gestão educacional
e a escolar – dos sistemas e das escolas, respectivamente.
Matérias publicadas recentemente na mídia sobre educação escolar,
com a participação de duas autoridades sobre educação escolar, mostram a
importância do gestor, especialmente do escolar, isto é, aquele que exerce
o cargo ou a função de diretor de escola:

1. Revista Veja, no 2.047, ano 41, no 6, de 13/02/2008, p. 9-13, com


a secretária de Estado da Educação de São Paulo, Maria Helena
Guimarães de Castro:

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