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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

MESTRADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

KAY FRANCIS LEAL VIEIRA

DEPRESSÃO E SUICÍDIO:

UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIOLÓGICA NO CONTEXTO

ACADÊMICO

JOÃO PESSOA – PB

2008
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Universidade Federal da Paraíba


Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Psicologia
Mestrado em Psicologia Social
Núcleo de Pesquisa: Aspectos Psicossociais de Prevenção e Saúde Coletiva

DEPRESSÃO E SUICÍDIO:

UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIOLÓGICA NO CONTEXTO

ACADÊMICO

Kay Francis Leal Vieira


Mestranda

Maria da Penha de Lima Coutinho


Orientadora

João Pessoa – PB

2008

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Universidade Federal da Paraíba


Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social
Mestrado em Psicologia Social
Núcleo de Pesquisa: Aspectos Psicossociais de Prevenção e Saúde Coletiva

DEPRESSÃO E SUICÍDIO:

UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIOLÓGICA NO CONTEXTO

ACADÊMICO

Kay Francis Leal Vieira

Dissertação de mestrado, apresentada ao Programa


de Pós-Graduação em Psicologia Social da
Universidade Federal da Paraíba como requisito
parcial para obtenção do título de Mestre em
Psicologia Social.

João Pessoa
2008

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Universidade Federal da Paraíba


Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social
Mestrado em Psicologia Social
Núcleo de Pesquisa: Aspectos Psicossociais de Prevenção e Saúde Coletiva

DEPRESSÃO E SUICÍDIO:

UMA ABORDAGEM PSICOSSOCIOLÓGICA NO CONTEXTO

ACADÊMICO

Kay Francis Leal Vieira

Dissertação aprovada em 25 de fevereiro de 2008.

BANCA AVALIADORA

____________________________________________________
Profª Dra. Maria da Penha de Lima Coutinho (UFPB)

Orientadora

____________________________________________________
Profº. Dr. Valdiney Veloso Gouveia (UFPB)
Membro

____________________________________________________
Profª Dra. Natália Ramos (Universidade Aberta de Lisboa)
Membro

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Aos meus filhos, Pedro e Júlia, que abriram mão


de momentos especiais; que sentiram minha
ausência e sofreram por ela, ora por saudade
ora por impaciência; à vocês que vêem com
alívio e felicidade este fim de etapa, meu
reconhecimento pelo sacrifício, pois souberam
amar o suficiente para suportar as dificuldades
da caminhada para podermos juntos
compartilhar a alegria da vitória.

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AGRADECIMENTOS

À Deus, fonte de inspiração e sabedoria, pelas oportunidades e pela força interior


necessária para seguir adiante;

Ao meu esposo Jairo, por todo o amor, companheirismo e compreensão nos momentos
de ausência e estresse, e por sempre acreditar em mim;

Aos meus filhos, Pedro e Júlia, pelo que eles são e pelo que eles transformaram a
minha vida;

Aos meus pais, primeiras referências do saber e do gosto pelos estudos, em especial à
minha mãe e amiga, Kay, pela ajuda, demonstrando na prática que ser avó é ser mãe duas vezes;

Ao meu irmão David, pela amizade e companheirismo;

Às minhas avós, Leó e Lindalva, pela grandiosa sabedoria transmitida em meio a tanta
simplicidade;

À minha cunhada Silvia, pelo suporte e ajuda necessários nessa caminhada;

À minha irmã Elayne, que mesmo à distância sempre representou uma fonte de
incentivo, força e credibilidade;

À professora Dra.Maria da Penha de Lima Coutinho, de quem levo ensinamentos tanto


na vida profissional quanto pessoal, pela brilhante orientação e pela confiança em mim
depositada;

Ao professor Dr. Valdiney, por toda ajuda e contribuições nesse trabalho e por me
mostrar que “as aparências enganam”;

À professora Natália, pela gentileza e disponibilidade em fazer parte da banca


avaliadora;

Ao professor Natanael, pela acessibilidade e gentileza com que trata as pessoas que o
cercam;

À professora Ana Alayde, por toda colaboração e conhecimentos transmitidos em


meio a tanta doçura;

Aos meus colegas do Núcleo de Pesquisa, com especial gratidão à Evelyn, pela
amizade, disponibilidade e carinho, e à minha amiga Alexandra, com a qual sempre pude
contar durante essa caminhada;

Às minhas colegas de Mestrado, pelas experiências e conhecimentos compartilhados,


em particular à Camila, minha amiga de tantos anos, pelos momentos vividos e pelo carinho
demonstrado;

Aos estudantes de Psicologia, pela participação na coleta de dados e pela


demonstração de confiança neste estudo;

À CAPES, pelo apoio financeiro, fundamental para a realização desta pesquisa.

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A idéia do suicídio é uma grande consolação:

ajuda a suportar muitas noites más.

(Friedrich Nietzsche)

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RESUMO

Na atualidade os fenômenos da depressão e do suicídio encontram-se cada vez mais presentes


em todos os espaços sociais.Embora nenhum acontecimento ou conjunto de circunstâncias
possam prever o suicídio, existem certas vulnerabilidades que tornam um indivíduo mais
propenso a cometer esse ato do que outros. Dentre essas vulnerabilidades há um grande
destaque para as doenças mentais, sendo a mais comum, a depressão, responsável por 30%
dos casos mundialmente relatados. Esta pesquisa objetivou apreender as representações
sociais dos estudantes de Psicologia acerca da depressão e do suicídio, bem como investigar o
índice epidemiológico destes fenômenos no contexto acadêmico. Este estudo foi aprovado
pelo Comitê de Ética do CCS/UFPB e compreendeu uma pesquisa descritiva, com
procedimentos multimétodos. Participaram do estudo 233 alunos, de ambos os sexos,
matriculados no curso de Psicologia de uma universidade pública. Na coleta dos dados
utilizou-se a técnica da Associação Livre de Palavras, o Inventário de Depressão de Beck
(BDI), a Escala de Ideação Suicida de Beck (BSI), o questionário sócio-demográfico e
Entrevistas em Profundidade. A Associação Livre foi utilizada com três estímulos indutores:
depressão, suicídio e eu – mesmo e seus dados foram processados pelos softwares Tri-Deux-
Mots, e Evoc. Para a análise do BDI e da BSI foi utilizado o programa estatístico SPSS. Os
conteúdos apreendidos pelas Entrevistas em profundidade foram submetidos à Análise de
Conteúdo Temático.O BDI avaliou um índice de 10,73% de estudantes com a sintomatologia
depressiva.Constatou-se mediante análise da BSI, a presença da ideação suicida em 11% da
amostra. Os dados analisados com a utilização dos softwares anteriormente citados
demonstraram similaridades em suas descrições, atuando como complementares na
compreensão das representações sociais da depressão e do suicídio. Mediante a análise de
conteúdo temático das entrevistas, observou-se que os fenômenos pesquisados encontravam-
se bastante presentes no cotidiano dos participantes, uma vez que estes demonstraram suas
representações enfatizando fatos ocorridos em suas relações interpessoais. Através da análise
dos dados pôde-se observar que a depressão foi representada semelhante a descrição clínica
categorizada nos distúrbios psicoafetivos. O suicídio emerge como uma fuga frente às adversidades
advindas do meio ambiente somada a fragilidade da subjetividade dos jovens acadêmicos. A auto-
imagem dos estudantes, de uma forma geral, emerge de forma positiva, coincidindo com o que se
espera dos acadêmicos de psicologia. As auto-representações assumem contorno diferenciado em
relação ao tempo de vínculo ao curso de psicologia, ora ancorado em manifestações referentes à
proximidade do enfrentamento da realidade profissional, ora concentrando-se em manifestações sócio-
cognitivas. O índice epidemiológico da depressão, assim como a presença da ideação suicida entre os
jovens acadêmicos demonstra a necessidade de uma maior atenção a essa população, no sentido de
promover diferenciados serviços de apoio psicológico na formação desses futuros profissionais.

Palavras-chave: Depressão; Suicídio; Estudantes de psicologia; Representação Social.

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ABSTRACT

At our present time the depression and suicide phenomenon have become ever more present
in all social levels. Although no event or set of circumstances can foresee suicide, certain
vulnerabilities exist that makes an individual more inclined to commit this act than others.
Amongst these vulnerabilities, mental illness is the most prominent, of which depression is
responsible for 30% of the cases world-wide. To instrumentalize this inquiry, a psychosocial
method was used, anchored to the Theory of the Social Representations of Moscovici and in
the Theory of the Central Nucleus of Abric. This research objectified in understanding the
social representations of Psychology students concerning depression and suicide, as well as
investigating the epidemiologic index of these phenomena in the academic context. This study
was approved by the Ethics Committee of CCS/UFPB and undertook a descriptive research
with multi-method procedures. The study comprised of 233 students of both genders and
registered the Psychology course of a public university. In the collection of the data, the Free
Association of Words technique, the Inventory of Depression of Beck (BDI), Suicidal
Idealization Scale of Beck (BSI), a social-demographic questionnaire and an in depth
interview were all used. The Free Association was used with three inductive stimuli:
depression, suicide and I-myself and the data were processed by the Tri-Deux-Mots and Evoc
software. For the analysis of the BDI and the BSI the SPSS statistical program was used. The
contents learned from the in depth interviews were submitted to the Analysis of the Thematic
Content. The BDI evaluated that 10.73% of the students has depressive symptomology. BSI
analysis also evidenced the presence of the suicidal idealization in 11% of the sample. The
data analyzed with the use of software previously cited demonstrated similarities in its
descriptions, acting as complementary in the understanding of the social representations of
depression and suicide. By means of the analysis of thematic content of the interviews, it was
noted that the researched phenomena was quite present in the daily life of the participants.
Where they show that their representations emphasize facts occurred in their interpersonal
relationships. The analysis of the data showed that depression was represented similar to the
clinical description categorized in the psycho-affective disturbances. Suicide emerges as an
escape front to the adversities of the environment added to the fragility of the subjectivity of
the young academics. The auto-image of the students, in general, emerges as positive one,
coinciding with what is expected of psychology students. The auto-representations assume
differentiated contours in relation to the time of bond to the psychology course, however
anchored in referring manifestations to the proximity of the confrontation of the professional
reality and concentrating in social-cognitive manifestations. The epidemiologist index of
depression, as well as the presence of the suicidal idealization among the young academics,
demonstrates the necessity of an increased attention to this population on the part of the of
superior education institutions. So to promote specific services of psychological support in
the formation of these future professional.

Word-key: Depression; Suicide; Psychology Students; Social representation.

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SUMÁRIO

LISTA DE TABELAS................................ ................................ ................................ .....xi


LISTA DE FIGURAS ................................ ................................ ................................ ...xiii

APRESENTAÇÃO ................................ ................................ ................................ ........ 15

CAPÍTULO I

1. DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA ................................ ................................ ............. 20


1.1 Objetivo ................................ ................................ ................................ ................ 24
1.1.1 Objetivos geral ................................ ................................ ............................... 24
1.1.2 Objetivos específicos ................................ ................................ ..................... 24

CAPÍTULO II

2. DEPRESSÃO ................................ ................................ ................................ .............. 26


2.1 Desenvolvimento Sócio-histórico da Depressão................................ ...................... 26
2.2 Diagnóstico e Classificação da Depressão ................................ .............................. 28
2.3 Etiologia................................ ................................ ................................ ................. 31
2.4 Teorias Explicativas ................................ ................................ ............................... 32
2.4.1 Explicações Psicodinâmicas................................ ................................ .......... 32
2.4.2 Explicações da Aprendizagem ................................ ................................ ...... 33
2.4.3 Explicações Cognitivas................................ ................................ ................. 34
2.4.4 Explicações Fisiológicas................................ ................................ ............... 34
2.4.5 Explicações Humanístico-Existenciais ................................ .......................... 35
2.5 Tratamento da Depressão ................................ ................................ ...................... 35

CAPÍTULO III

3.SUICÍDIO................................ ................................ ................................ ..................... 38


3.1 Concepção Sócio-histórica do Suicídio................................ ................................ ....38
3.2 Definições do Suicídio ................................ ................................ ............................ 40
3.3 Teorias Explicativas do Suicídio................................ ................................ .............. 41
3.3.1 Teorias Psicológicas ................................ ................................ ....................... 42
3.3.2 A Teoria Psiquiátrica ................................ ................................ ...................... 44
3.3.3 As Teorias Sociológicas................................ ................................ .................. 45
3.4 Epidemiologia ................................ ................................ ................................ ......... 46
3.5 Tipos de Suicídio................................ ................................ ................................ ..... 48
3.6 Fatores de Risco e fatores de Prevenção ................................ ................................ ..50
3.7 Estratégias Nacionais de Prevenção do Suicídio ................................ ...................... 54
3.8 Depressão e Suicídio ................................ ................................ ............................... 56

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CAPÍTULO IV

4. A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS................................ ....................... 63


4.1 Uma abordagem dimensional ................................ ................................ ................. 64
4.2 Uma abordagem estrutural................................ ................................ ..................... 67
4.3 As representações sociais da depressão e do suicídio ................................ .............. 70

CAPÍTULO V

5. MÉTODO ................................ ................................ ................................ .................... 75


5.1 Tipo de Estudo ................................ ................................ ................................ ....... 75
5.2 Locus do Estudo................................ ................................ ................................ ..... 75
5.3 Amostra ................................ ................................ ................................ ................. 76
5.4 Instrumentos................................ ................................ ................................ ........... 76
5.4.1 Técnica de Associação Livre de Palavras................................ ....................... 76
5.4.2 Escala de Ideação Suicida de Beck – BSI................................ ....................... 77
5.4.3 Inventário de Depressão de Beck - BDI ................................ ........................ 78
5.4.4 Entrevistas em Profundidade................................ ................................ .......... 78
5.5 Aspectos Éticos ................................ ................................ ................................ ...... 79
5.6 Procedimento para coleta dos dados ................................ ................................ ....... 79
5.7 Análise dos Dados................................ ................................ ................................ ..80
5.7.1 Análise da Técnica de Associação Livre de Palavras................................ ...... 80
5.7.2 Análise do Inventário de Depressão de Beck-BDI................................ .......... 83
5.7.3 Análise da Escala de Ideação Suicida de Beck – BSI ................................ ..... 83
5.7.4 Análise das Entrevistas ................................ ................................ ................. 84

CAPÍTULO VI

6. RESULTADOS E DISCUSSÃO................................ ................................ .................. 86


6.1 Perfil dos participantes ................................ ................................ ............................... 86
6.2 Resultados e discussão dos dados apreendidos pela TALP................................ .......... 87
6.2.1. Análise e discussão dos dados obtidos pelo software Tri-Deux-Mots...................... 87
6.2.2 Análise e discussão dos dados obtidos pelo software EVOC................................ ....90
6.3 Resultados e discussão dos dados apreendidos pelo BDI ................................ ............ 96
6.4 Resultados e discussão dos dados apreendidos pela BSI ................................ ........... 100
6.5 Resultados e discussão dos dados apreendidos pelas Entrevistas............................... 106

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................ ................................ ......................... 139

REFERÊNCIAS ................................ ................................ ................................ ............ 146

ANEXOS ................................ ................................ ................................ ...................... 152


ANEXO A – Autorização do Comitê de Ética do CCS/UFPB ................................ ........ 152
ANEXO B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido................................ ............ 153
ANEXO C – Inventário de Depressão de Beck - BDI................................ ..................... 154
ANEXO D – Escala de Ideação Suicida de Beck - BSI................................ ................... 157

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 –Perfil sócio-demográfico dos estudantes do curso de Psicologia (N=233)........ 86

Tabela 2 – Freqüência de maiores escores do Inventário de Depressão de Beck – BDI (N=25)


................................ ................................ ................................ ................................ ........ 98

Tabela 3 – Perfil dos estudantes com depressão segundo o Inventário de Depressão de Beck –
BDI (N=25) ................................ ................................ ................................ ..................... 99

Tabela 4 – Perfil dos estudantes com Ideação Suicida segundo a Escala de Ideação Suicida de
Beck – BSI (N=27) ................................ ................................ ................................ ........ 101

Tabela 5 – Freqüência de ideação suicida conjuntamente com a depressão (N=27)........ 103

Tabela 6 – Classes, Categorias e Subcategorias emergentes da Análise de Conteúdo


Temático, com suas respectivas freqüências e percentagens. ................................ .......... 107

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 –Análise Fatorial de Correspondência das Representações Sociais da Depressão e do


Suicídio................................. ................................ ................................ ................................ . 88

Figura 2 – Quadrante de distribuição das evocações livres dos estudantes de Psicologia no


Teste de Associação Livre de Palavras para o estímulo-indutor “depressão” (N=233). ........... 91

Figura 3 – Quadrante de distribuição das evocações livres dos estudantes de Psicologia no


Teste de Associação Livre de Palavras para o estímulo-indutor “suicídio” (N=233) ............... 93

Figura 4 – Percentagens de participantes com sintomatologia da depressão (N=233)............ 96

Figura 5 – Freqüência de escores no Inventário de Depressão de Beck – BDI(N=233) ......... 97

Figura 6 – Percentagem de participantes com ideação suicida.(N=233) .............................. 100

Figura 7 – Percentagem de estudantes que conhecem entre seus colegas universitários alguém
que já tenha pensado / tentado ou consumado o ato suicida. ................................ ................. 102

Figura 8 – Presença de ideação suicida em indivíduos com histórico de tentativas prévias de


suicídio. ................................ ................................ ................................ ............................... 106

Figura 9 – Percentagens das Classes Temáticas das Entrevistas................................ ......... 108

Figura 10 – Percentagem das Categorias pertencentes à Classe Temática DEPRESSÃO. ... 109

Figura 11 –Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Descrição da


DEPRESSÂO ................................ ................................ ................................ ..................... 110

Figura 12 – Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Manifestações da


DEPRESSÂO. ................................ ................................ ................................ ..................... 113

Figura 13 –Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Fatores desencadeantes


da DEPRESSÃO................................ ................................ ................................ .................. 115

Figura 14 – Percentagens das Subcategorias pertencentes à Categoria Tratamento da


DEPRESSÂO. ................................ ................................ ................................ ..................... 116

Figura 15 - Percentagens das Categorias pertencentes à Classe Temática SUICÍDIO......... 119

Figura 16 - Percentagens das subcategorias pertencentes à Categoria Descrição do


SUICÍDIO ................................ ................................ ................................ ........................... 120

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Figura 17 - Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Personalidade Suicida.123

Figura 18 - Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Tipos de Suicídio....... 126

Figura 19 - Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Fatores contribuintes do


SUICÍDIO ................................ ................................ ................................ ........................... 128

Figura 20 - Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Métodos do SUICÍDIO.133

Figura 21 - Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Correlação


DEPRESSÃO/SUICÍDIO. ................................ ................................ ................................ ... 135

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1. APRESENTAÇÃO:

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a partir da década de 1990, a

depressão vem ocupando uma posição de destaque, no rol dos problemas de saúde coletiva;

sendo considerada a quarta de todas as doenças mais onerosas, em todo o mundo. Desde o seu

surgimento vem sendo conceituada e classificada de modo diferente, adotando parâmetros,

autores e escolas distintas, suscitando controvérsias com relação ao termo. No senso comum,

o termo designa alterações psicológicas simples e perturbações psiquiátricas graves, a

flutuações de humor ou de caráter. Pode designar tanto um estado afetivo normal quanto um

sintoma, uma síndrome, uma doença ou várias doenças (Coutinho, 2005).

De acordo com Paim (1983), nos estados depressivos, as funções psíquicas encontram-

se perturbadas em seu conjunto. Os sintomas mais destacados são: a tristeza vital, a angústia e

a inibição da psicomotricidade. Entretanto, afirma o autor, ao lado desses sintomas axiais, os

enfermos deprimidos se queixam de um sentimento de impotência psíquica, que os impede de

realizar as suas tarefas habituais, diminuição da capacidade de concentração e

enfraquecimento da vontade. A memória se encontra comprometida em suas capacidades de

fixação e de evocação. Na maioria dos casos, os pacientes revelam redução da atividade

voluntária: permanecem quase sempre sentados ou deitados, numa atitude de inércia, com a

fisionomia triste, abatida e contraída; revelando uma expressão de profundo sofrimento. Nos

casos mais acentuados, a expressão fisionômica reflete tristeza, inquietação e grande

ansiedade.

A depressão emerge como resultante de uma inibição global da pessoa que afeta a

função da mente, altera a maneira como a pessoa vê o mundo, sente a realidade, entende as

coisas e manifesta suas emoções. Deste modo, segundo Camon (2001), é considerada uma

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doença do organismo como um todo, que compromete o ser humano na sua totalidade, sem

separação entre o psíquico, o social e o físico.

Assim como a depressão, o suicídio vem sendo considerado um grave problema de

Saúde Pública, uma vez que representa uma questão que se agrava a cada dia, traduzindo-se

em índices extremamente significativos.

Dados da OMS (2000), mostram que a taxa mundial de suicídio é estimada em torno

de 16 por 100 mil habitantes, com variações conforme sexo, idade e país. Estima-se que as

tentativas de suicídio sejam 20 vezes mais freqüentes que os suicídios consumados. Conforme

Prieto e Tavares (2005), observou-se um aumento de 60% nos índices de suicídio nas ultimas

décadas, considerando-se os dados do mundo inteiro. A morte por suicídio passou a ocupar a

terceira posição entre as causas mais freqüentes de falecimento na população entre 15 e 44

anos de idade em alguns paises. Atualmente, segundo a OMS, os jovens representam o grupo

de maior risco em 30 paises.

A taxa oficial de mortalidade por suicídio, no Brasil, é estimada em 4,1 por 100 mil

habitantes, para a população como um todo; estando, para o sexo masculino, em torno de 6,6

por 100 mil e para o sexo feminino, em 1,8 por 100 mil.

Tanto o suicídio como a depressão, é uma realidade que nos cerca, mas que possui um

caráter mascarado, visto que seus dados não são totalmente confiáveis, devido a preconceitos

e tabus relacionados a essa temática. Para Cassorla (1998), as estatísticas sobre os atos

suicidas são falhas e subestimadas, e isso se deve a vários fatores, que incluem desde

dificuldades de conceituação até aspectos sócio-culturais.

De acordo com Silva e Boemer (2006), o ato suicida tem como característica ser

clandestino, ou seja, sem testemunhos, dissimulado, ocorrendo como se estivesse

transgredindo regras expressas por nossa sociedade capitalista, na qual a morte é banida, não

enfrentada e evitada.

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Neste estudo, suicídio é entendido como o ato de pôr um fim à própria vida, a exemplo

do que preconiza Durkheim (2003), que define esse fenômeno como “todo o caso de morte

que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria

vítima, ato que a vítima sabia dever produzir esse resultado” (p.15).

Apesar da inexistência de estudos comprobatórios sobre a relação entre o transtorno

depressivo e a ideação suicida, sabe-se que dentre os fatores psiquiátricos associados ao

suicídio, em primeiro lugar está à depressão, alteração afetiva predominante no ato suicida,

desde sua ideação, intenção, até o suicídio de fato (Ballone, 2003).

Para o desenvolvimento do presente estudo utilizou-se o aporte teórico/metodológico

da Teoria das Representações Sociais (TRS), desenvolvida pelo francês Serge Moscovici,

partindo-se do pressuposto de que o grupo pesquisado, no caso os estudantes de Psicologia,

têm um conhecimento socialmente construído que os permite elaborar um conhecimento

prático acerca da depressão e do suicídio.

Estudar essas temáticas na perspectiva das Representações Sociais significa analisá-las

não apenas através dos aportes teóricos, normativos e científicos, mas com vista a um novo

olhar, voltado para a construção de um conhecimento prático e compartilhado por um

determinado grupo de pertença. Sendo assim, será possível perceber como essas

representações emergem, os significados e as relações que estabelecem entre si, e em que

medida uma determina a outra (Coutinho, 2005).

Este estudo desenvolve-se em seis capítulos. O primeiro refere-se à Delimitação do

Problema, cuja finalidade é de contextualizar as temáticas introdutórias, justificando assim, a

relevância e o alcance da presente pesquisa, bem como apresentar os seus objetivos.

O segundo e o terceiro capítulos dizem respeito à Fundamentação Teórica, sendo

que aquele apresenta a temática da depressão, enquanto este aborda o comportamento suicida

e a relação existente entre estes dois fenômenos.

17
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No quarto capítulo é apresentado o aporte teórico que fundamenta a presente pesquisa,

a Teoria das Representações Sociais, enfatizando a abordagem dimensional e estrutural

existentes.

No quinto capítulo é descrito o Percurso Metodológico, no qual se encontra

delineado todo procedimento que envolve a amostra, o campo de investigação, os

instrumentos utilizados e as etapas do processo de análise.

O sexto capítulo apresenta os Resultados e Discussão dos Dados, bem como as

Considerações Finais.

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CAPÍTULO I
DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA

19
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CAPÍTULO I

Delimitação do Problema

A depressão, na sociedade contemporânea, vem se apresentando de forma bastante

significativa, configurando índices bastante elevados. Esse transtorno ocasiona um sofrimento

psíquico que interfere, significativamente, na diminuição da qualidade de vida, na

produtividade e incapacitação social do indivíduo, atingindo desde crianças até pessoas

idosas, rompendo barreiras de idade, classe sócio-econômica, cultura, raça e espaço

geográfico (Coutinho et al, 2003).

De acordo com a Organização M undial de Saúde (OMS), a depressão ocupa uma

posição de destaque no rol dos problemas de Saúde Pública, possuindo uma prevalência de

17% em toda a vida. Segundo Versiani (2004), embora possa ocorrer em episódios – de longa

duração – ou apenas uma vez na vida de uma pessoa; a depressão é considerada uma doença

crônica, mais incapacitante que males como diabetes ou insuficiência cardíaca. O Ministério

da Saúde afirma que a depressão acomete, ao longo da vida, entre 10% e 25% das mulheres e

entre 5% e 12% dos homens (Brasil, 2006).

Assim como a depressão, o comportamento suicida vem sendo considerado um sério

problema de Saúde Pública, despertando interesse de pesquisadores no campo das mais

diferentes ciências. Fenômeno complexo, o suicídio configura um assassinato, onde vítima e

agressor são a mesma pessoa. Dutra (2002), define-o como o desejo consciente de morrer e a

noção clara de que o ato executado pode resultar nisso.

Conforme Botega (2007), em termos globais, a mortalidade por suicídio aumentou

60% nos últimos 45 anos. Nesse período, os maiores coeficientes de suicídio mudaram de

faixa, da população idosa para a jovem.

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Entretanto, sabe-se que as estatísticas sobre os atos suicidas são falhas e subestimadas,

pois o número de suicídios que consta nas estatísticas oficiais é extraído das causas de morte

assinaladas nos atestados de óbito. Porém, esses atestados nem sempre são confiáveis, uma

vez que a família e a própria sociedade comumente pressionam para que a causa seja

falsificada. De acordo com Cassorla (1998), certamente, a subestimação estatística é mais

intensa quando se trata de crianças e adolescentes, em que os atos autodestrutivos são negados

ou até escondidos pela família, diante de maiores sentimentos de culpa e/ou vergonha pelo

ato.

Além disso, como destaca Cassorla (1992), uma grande proporção de suicídios é

confundida com acidentes, principalmente, quando se trata de crianças e adolescentes. Outro

fator complicador, nas estatísticas, é que não existem meios de verificar os suicídios

inconscientes, dentre eles os acidentes e as doenças.

Diferentemente de outros sintomas, como por exemplo, a ansiedade, poucos estudos

objetivam relacionar a ocorrência do suicídio e da depressão. Entretanto, sabe-se que,

freqüentemente, existem pensamentos sobre a morte, nos quadros depressivos. Trata-se não

apenas da ideação suicida típica, mas, sobretudo, da preferência em estar morto a viver “desse

jeito” (Ballone, 2005).

Os estudantes universitários, sempre foram considerados colaboradores da ciência,

participando de várias pesquisas, nas mais diferentes áreas, tanto como participantes,

opinando acerca dos mais variados objetos sociais, quanto alvo, ele próprio, de investigação.

Recentemente, porém, os universitários têm despertado outro tipo de interesse nos

pesquisadores, no que diz respeito à saúde e à qualidade de vida dessa população.

Uma pesquisa realizada pela Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das

Instituições Federais de Ensino Superior), por meio do Fórum Nacional de Pró-Reitores de

Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), revelou que 39% dos estudantes das

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instituições federais de ensino superior (Ifes) passam por alguma dificuldade emocional.

Segundo o diagnóstico, realizado pelo psicólogo Marcelo Tavares, professor da Universidade

de Brasília (UnB), dos 39% de alunos com crises psicológicas, pelo menos 5,5% faz uso de

medicação psiquiátrica e 24% já procuraram ajuda psicológica. Além disso, estima-se que

entre 10 a 20% dos estudantes das universidades federais estejam em processo agudo de crise,

que requer apoio psicológico imediato.

De acordo com Figueiredo e Oliveira (1995), o estudante, ao ingressar na

universidade, passa por situações de crise acidentais, uma vez que sai do seu ambiente

familiar e se depara com um mundo desconhecido, podendo viver vários conflitos. Isto,

afirmam as autoras, gera um desequilíbrio emocional, decorrente da insegurança surgida

nessas novas relações. A não superação dessa crise, decorrente da não-adaptação às novas

vivências ou ao novo ambiente, poderá se constituir para o aluno em um fator causador de

estresse, gerando problemas orgânicos, dificuldades de relacionamento, baixa produtividade

escolar, angústias, estados de depressão e, em situações mais acentuadas, ocorrer perda do

interesse pela vida, que o leva ao suicídio.

O ingresso no ensino superior, conforme preconiza Almeida (2005), marca o início da

transição para o mundo do trabalho, assim como a autonomia própria do jovem adulto. Este

processo tem lugar numa fase importante do desenvolvimento psicossocial do estudante, uma

vez que as suas preocupações e problemáticas são muitas vezes um espelho de dificuldades na

resolução de tarefas normativas de desenvolvimento, características da transição da

adolescência para a fase adulta.

Conforme Cardoso et al (2004), o jovem adulto tem um grande desafio na construção

final da sua personalidade, e é com a entrada no ensino superior que essa construção atinge o

ponto crucial. Nessa fase da vida, destacam os autores, é atribuído um novo papel ao jovem,

que envolve ao mesmo tempo poder e responsabilidade, exigindo do estudante grande nível

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de maturidade para poder responder aos desafios que lhes são postos a nível acadêmico sem

se desviar de seus objetivos pessoais.

Os profissionais da saúde, dentre eles o da Psicologia, durante o curso de graduação,

são preparados para cuidar, proporcionar bem-estar, salvar vidas. Palavras como depressão e

suicídio, quando mencionadas, apenas é correlacionado ao aspecto clínico do tratamento. A

temática é tratada de forma técnica, sem que os sentimentos a ela relacionados sejam

abordados, mesmo quando esses fenômenos se tornam realidade (Igue, Rolim e Stefanelli,

2002).

No que diz respeito à formação do profissional de saúde, em especial a do psicólogo,

Dutra (2000) afirma que nem sempre os estudantes recebem uma formação adequada para se

trabalhar com a morte, principalmente com as condutas autodestrutivas, demonstrando

inabilidades para lidar com pacientes suicidas.

Dessa maneira, percebe-se a necessidade de se conhecer as representações que os

universitários do curso de Psicologia possuem acerca de temas como a depressão e o suicídio.

Foi utilizado para tanto, a abordagem da Teoria das Representações Sociais (TRS), partindo-

se do pressuposto de que esse grupo possui um conhecimento socialmente partilhado acerca

das citadas temáticas, que os permite elaborarem um conhecimento prático em relação a elas.

Segundo Moscovici (1978), a Teoria das Representações Sociais implica em compreender a

realidade e sua interação com os outros.

A presente pesquisa, relevante para o campo da Psicologia Social e para as ações que

atendam aos problemas associados à qualidade de vida, no contexto universitário; pretende

desenvolver os seguintes objetivos:

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OBJETIVO GERAL:

Apreender as representações sociais dos estudantes, do Curso de Psicologia de uma

universidade pública, acerca da depressão e do suicídio.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

Analisar as representações sociais acerca da depressão e do suicídio sob o

ponto de vista dos estudantes do Curso de Psicologia da citada universidade;

Identificar o índice de depressão nos estudantes de Psicologia da citada

instituição);

Traçar um perfil sócio - demográfico dos universitários de Psicologia de uma

instituição pública.

Identificar a presença de ideação suicida entre os estudantes de Psicologia;

Comparar as representações sociais dos universitários entre os diferentes

períodos por eles cursados;

Identificar os diferentes campos semânticos acerca da depressão e do suicídio

elaborados pelos participantes..

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CAPÍTULO II
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – DEPRESSÃO

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CAPÍTULO II

DEPRESSÃO

2.1 DESENVOLVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DA DEPRESSÃO:

A Bíblia é uma fonte, que inaugura uma história, arbitrária e não-científica da

depressão: a história de Saul, descrita no I livro de Samuel. Conta a Bíblia que aquele, ao ser

nomeado rei por seu pai, tomou decisões incorretas e precipitadas. Por esse motivo, foi

punido por Deus e por seu progenitor, sendo substituído no trono. Revoltado, voltou às costas

para o criador do universo e desde então, passou a ser afligido por demônios através de uma

dor imensa e uma tristeza profunda (Coutinho e Saldanha, 2005).

A mitologia grega, por sua vez, também relata histórias de pessoas cujo sofrimento é

associado a “males da alma”. Um bom exemplo, entre tantos casos mitológicos, refere-se à

descrição feita por Homero na Ilíada acerca do sofrimento depressivo de Ájax.

De acordo com Solomon (2002), a história da depressão no Ocidente está,

estreitamente, ligada à história do pensamento ocidental e pode ser dividida em cinco estágios

principais, conforme se observa na descrição a seguir.

A visão da depressão, no mundo antigo, era, surpreendentemente, semelhante à nossa.

Hipócrates declarava ser a depressão uma doença, essencialmente, cerebral que deveria ser

tratada com remédios orais; e a questão primordial entre os médicos que o seguiam, era sobre

a natureza humoral do cérebro e a formulação correta desses remédios orais.

Na Idade Média, a depressão era vista como a manifestação do desfavor de Deus, uma

indicação de que o sofredor estava excluído do bem-aventurado conhecimento da salvação

divina. Foi nessa época que a doença foi estigmatizada; em episódios extremos, os que

sofriam dele eram tratados como infiéis.

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O Renascimento romantizou a depressão e nos trouxe o gênio melancólico, nascido

sob o signo de Saturno, cuja apatia significava insight e cuja fragilidade era o preço pago pela

visão artística e a complexidade da alma.

Os séculos XVII a XIX compuseram a era da ciência, quando experimentos buscavam

determinar a composição e a função do cérebro, e elaborar estratégias biológicas e sociais

para refrear as mentes que saiam do controle.

A era moderna começou, no início do século XX, com Sigmund Freud e Karl

Abraham; cujas idéias psicanalíticas da mente e do eu nos deram boa parte do vocabulário,

ainda em uso, para descrever a depressão e suas origens; e com as publicações de Emil

Kraepelin, que propôs uma moderna biologia da doença mental como uma aflição que pode

ser separada de uma mente normal ou superimposta a ela.

A palavra depressão origina-se do latim e é composta de duas outras palavras: de

(baixar) “premère” e (pressionar), isto é, “deprimère” que, literalmente, significa

“pressionar para baixo”. (Coutinho e Saldanha, 2005). O termo depressão foi, inicialmente,

usado em inglês para descrever o desânimo em 1660, e que entrou para o uso comum em

meados do século XIX Solomon (2002).

Segundo Ballone (2005), o termo depressão pode significar: um sintoma que faz parte

de inúmeros distúrbios emocionais, sem ser exclusivo de nenhum deles; como também uma

síndrome traduzida por muitos, e variáveis sintomas somáticos; ou ainda, uma doença

caracterizada por marcantes alterações afetivas.

Do ponto de vista psicopatológico, os quadros depressivos têm como elemento central

a tristeza. Entretanto, eles caracterizam-se por uma multiplicidade de sintomas afetivos;

instintivos e neurovegetativos; ideativos e cognitivos; relativos à autovaloração; volição e à

psicomotricidade. Também podem estar presentes sintomas psicóticos e fenômenos

biológicos (marcadores biológicos) associados (Dalgalarrondo, 2000).

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No cotidiano, a palavra depressão é utilizada de forma genérica, abrangendo um

grande número de doenças, principalmente, aquelas ditas mentais; distorcida do seu

significado real. No senso comum, designa desde alterações psicológicas e perturbações

psiquiátricas graves a flutuações de humor ou de caráter (Coutinho, 2005).

2.2 DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO DA DEPRESSÃO:

Segundo o DSM - IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – 4ª

edição) os seguintes critérios são utilizados para o diagnóstico da depressão:

Estado deprimido: sentir-se deprimido a maior parte do tempo;

Anedonia: interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina;

Sensação de inutilidade ou culpa excessiva;

Dificuldade de concentração: habilidade freqüentemente diminuída para pensar e

concentrar-se;

Fadiga ou perda de energia;

Distúrbios do sono: insônia ou hipersonia, praticamente, diárias;

Problemas psicomotores: agitação ou retardo psicomotor;

Perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar;

Idéias recorrentes de morte ou suicídio.

De acordo com o número de itens respondidos, afirmativamente, o estado depressivo

pode ser classificado em três grupos:

1) Depressão menor: 2 a 4 sintomas por duas ou mais semanas, incluindo

estado deprimido ou anedonia;

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2) Distimia: 3 ou 4 sintomas, incluindo estado deprimido, durante dois anos, no

mínimo;

3) Depressão maior: 5 ou mais sintomas por duas semanas ou mais, incluindo

estado deprimido ou anedonia.

Já a Classificação Internacional de Doenças – CID 10 descreve a depressão sob os

seguintes critérios:

1- Humor depressivo;

2- Perda do interesse (pelas atividades habitualmente agradáveis);

3- Diminuição da energia (ou aumento da fadigabilidade);

4- Perda da confiança ou da auto-estima;

5- Sentimentos inapropriados de culpa ou de recriminação;

6- Ideação ou comportamento suicida;

7- Problemas de concentração;

8- Atraso ou agitação psicomotora;

9- Perturbações do sono de qualquer tipo;

10- Aumento ou diminuição do apetite.

Coutinho e Saldanha (2005) alertam para o fato de que devem estar presentes pelo

menos dois dos três primeiros sintomas. A presença de quatro sintomas indica um episódio

ligeiro; de seis, episódio de gravidade moderada; de oito, episódio grave.

O episódio depressivo pode ser classificado, na prática, quanto à sua gravidade,

etiologia ou sintomatologia.

Sendo assim, classificando-se a depressão através dos níveis de gravidade, de acordo

com o Ministério da Saúde (Brasil, 2006), a depressão pode ser:

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Leve: Apresentando dois dos sintomas a seguir: humor deprimido, perda de interesse

(anedonia), falta de energia e mais dois dentre os expostos anteriormente (CID-10). O

paciente não pára suas funções completamente.

Moderada: Dois dos sintomas a seguir: humor deprimido, perda de interesse (anedonia), falta

de energia e mais três dentre os expostos, anteriormente (CID-10). O individuo apresenta

dificuldade em executar suas funções.

Grave ou Severa: Dois dos sintomas a seguir: humor deprimido, perda de interesse

(anedonia), falta de energia e pelo menos mais quatro dentre os expostos, anteriormente (CID-

10), alguns em grande intensidade; mas considerável inquietação e agitação, ou retardo

psicomotor; às vezes, com sintomas psicóticos, como delírios e alucinações.

Quanto à sua causa, a depressão pode ser classificada como:

Depressão endógena: Trata-se de um tipo de depressão onde, predominam, os sintomas

classificados como endógenos, de natureza mais neurobiológica, mais independente de fatores

psicológicos. Segundo Dalgalarrondo (2000), os sintomas típicos são: anedonia;

hiporeatividade geral; tristeza vital; lentidão psicomotora; perda de apetite e de peso corporal;

sintomas mais intensos pela manhã, melhorando ao longo do dia; insônia terminal (indivíduo

acorda de madrugada e não consegue mais dormir); diminuição da latência do sono REM

(inversão da arquitetura do sono); ideação de culpa.

Depressão Reativa: Refere-se ao tipo de depressão desenvolvida como uma reação a um

fator estressor externo, representando uma associação entre fatores precipitantes internos e

externos; e formas moderadas dessa patologia. De acordo com Coutinho (2005), é entendida

como um sofrimento psíquico e/ou dor moral desencadeada por uma situação ou

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acontecimento desagradável; que interfere, significativamente, na diminuição da qualidade de

vida, na produtividade e capacitação social do indivíduo.

Quanto aos sintomas, a depressão pode ser classificada em neurótica ou psicótica.

A depressão neurótica: segundo Abreu (2003), caracteriza-se por apresentar, pelo menos,

cinco dos itens a seguir: perda do interesse ou falta de motivação; demora em responder aos

estímulos prazerosos; piora dos sintomas pela manhã; agitação ou retardamento psicomotor;

significativa perda de peso; resposta anterior a terapias biológicas (como terapia eletro

convulsiva) ou a medicamentos antidepressivos, durante um episódio anterior com sintomas

desencadeantes similares.

A depressão psicótica: é um tipo grave que ocorre associado aos sintomas depressivos, um

ou mais sintomas psicóticos, como delírios de ruína ou culpa, delírio hipocondríaco ou de

negação de órgãos, alucinações com conteúdos depressivos (Dalgalarrondo, 2000).

2.3 ETIOLOGIA:

O transtorno depressivo possui uma etiologia multifatorial, composta por fatores de

ordem biológica, genética e psicossocial. Os fatores biológicos associam a depressão a causas

físicas ou orgânicas, isto é, pode ocorrer, secundariamente, em relação a determinadas

doenças físicas, ou em relação a determinados medicamentos.

Do ponto de vista genético, sabe-se que esse transtorno, em si, não é herdado, apenas a

predisposição o é; não há evidência de uma herança direta. Segundo Abreu (2003), em

especial para a forma de depressão psicótica, bem como o distúrbio bipolar, o risco herdado é

maior.

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As mulheres são mais suscetíveis à depressão do que os homens, o que indica causas,

possivelmente, genéticas para esse transtorno, se considerarmos as diferenças sexuais e

ignorarmos as culturais e educacionais. Essa explicação fica reforçada quando se tem

informação de que essa maior incidência no sexo feminino é, significativa, depois da

puberdade. Nesse sentido, afirma Abreu (op cit), pode haver uma facilitação biológica, ligada

aos níveis de certos hormônios femininos associados com a depressão, bem como ao fato de

que o cérebro da mulher processa a informação emocional de modo, ligeiramente, diferente

do cérebro do homem, o que pode aumentar o risco de incidência.

No que se refere ao campo psicossocial, sabe-se que são vários os fatores que podem

contribuir para o desenvolvimento da depressão. Uma perda significativa, uma doença

crônica, conflitos de relacionamento, uma mudança brusca de estilo de vida, a aposentadoria e

dificuldades financeiras; estão entre exemplos, bastante, freqüentes capazes de desencadear a

doença.

2.4 TEORIAS EXPLICATIVAS

2.4.1 Explicações Psicodinâmicas

A teoria da depressão de Freud mais aceita, gira em torno das conseqüências de perda.

Em um ensaio intitulado Luto e Melancolia, autor observou algumas semelhanças entre

depressão e luto (os sentimentos de tristeza e pesar que ocorrem quando alguém amado

morre), e embasou sua teoria nessas semelhanças.

Primeiramente, Freud observou que tanto o luto quanto a depressão ocorrem após a

perda de um objeto amado. Em segundo, reconheceu que, amiúde, experimentamos

sentimentos ambivalentes em relação a objetos de amor perdidos. Podemos amá-la , mas, ao

mesmo tempo, sentirmos raiva ou até mesmo odiarmos a pessoa por ter nos deixado ou nos

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rejeitado. Em terceiro, mostrou que os deprimidos são injustificável e freqüentemente

autocríticos, e sentem raiva de si mesmos, incriminam-se por coisas que não são culpa sua.

Freud sugeriu que isso ocorre porque elas tentam lidar com a perda introjetando,

simbolicamente, o objeto perdido e quando o introjetam torna-se parte do seu próprio eu, os

sentimentos negativos que estavam associados ao objeto perdido, voltando-se para si

Portanto, para Freud, o fator crucial na depressão é a raiva internalizada, e o evento que

dispara o processo é a perda.

Teorias psicodinâmicas, mais recentes, apontam para o papel do estresse como

causador da depressão, e sugerem que uma perda pode ser um dos seus tipos. Segundo

Holmes (2001), as evidências são abundantes de que estresse agudo e crônico, de muitos

tipos, pode conduzir a esse transtorno, mas a abordagem psicodinâmica não supriu evidências

concernentes como um causa o outro.

2.4.2Explicações da Aprendizagem

Segundo Holmes (2001), os teóricos da aprendizagem oferecem duas explicações para

a depressão. A primeira é a de que é causada por baixos níveis de gratificação ou altos níveis

de punição (ou ambos). Pesquisas indicam que baixos níveis de gratificação e altos níveis de

punição podem resultar em humor entristecido ou disforia leve, mas até o momento, eles não

foram, diretamente, ligados a níveis clínicos de depressão.

A segunda é que os comportamentos depressivos são aprendidos ou mantidos, porque

resultam em gratificações (ex. atenção, preocupação) de outros. No entanto, em vista das

pesquisas indicarem que os indivíduos deprimidos são evitados, em vez de gratificados por

outros, não parece que muitas depressões resultem de gratificações.

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2.4.3 Explicações Cognitivas

Existem duas teorias cognitivas explicativas da depressão. A primeira sugere que

devido à atenção e à recordação seletiva, os indivíduos desenvolvem cognições negativas que

os conduzem a esse transtorno. Há evidências de que os indivíduos deprimidos têm cognições

negativas e que eles prestam atenção e recordam, seletivamente, material depressivo; mas não

há fortes evidências de que cognições negativas causam níveis clínicos dessa doença. Ao

contrário, parece que cognições negativas podem predispor os indivíduos, quando estão sob

estresse. As condições negativas podem também servir para mantê-la, uma vez que se

estabeleça (Holmes, op cit).

A segunda sugere que a depressão é decorrente de sentimentos de desamparo em

controlar os aspectos negativos da vida. Essa explicação do desamparo aprendido, de acordo

com o autor supracitado, foi típica de investigação intensiva durante os últimos anos, mas os

resultados têm sido inconsistentes e fracos. Os indivíduos deprimidos, em geral, sentem-se, de

fato, desamparados, mas na maioria desses casos, esses sentimentos parecem ser um resultado

e não sua causa.

2.4.4 Explicações Fisiológicas

Do ponto de vista fisiológico, a depressão é considerada como originária de um baixo

nível de atividade neurológica, nas áreas do cérebro que são responsáveis pelo prazer. Isso é

atribuído a diminuição dos níveis de norepinefrina ou serotonina. Dividindo-se assim, em dois

tipos, fisiologicamente, causadores desse distúrbio; um devido à pequena quantidade de

norepinefrina; e outro de serotonina. A diminuição desses neurotransmissores podem também

explicar os distúrbios de sono, alimentação e função sexual, que, freqüentemente,

acompanham a depressão.

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Apoio para a explicação fisiológica é suprida por achados que drogas que aumentam e

reduzem os níveis de reurotransmissores, exercem o efeito de reduzir e aumentar a depressão

e que os níveis do metabólito da norepinefrina aumentam e reduzem com aumentos e

reduções da depressão (Holmes, 2001).

2.4.5 Explicações Humanístico – existenciais

Os teóricos humanístico-existenciais acreditam que a depressão origina-se do

reconhecimento de que nós não atingiremos nossas metas pessoais e uma conseqüente

desistência da responsabilidade, que é uma morte simbólica.

2.5 TRATAMENTO DA DEPRESSÃO

Para o tratamento da depressão existem dois caminhos: o psicoterapêutico e o

medicamentoso. De acordo com Abreu (2003), em conjunto, é o que existe de mais eficaz,

pois apenas a psicoterapia pode não ser suficiente, por haver um desequilíbrio no

funcionamento do corpo. Por outro lado, apenas medicamento não resolve, pela razão

complementar: a depressão se caracteriza por ser um distúrbio do humor, do afeto, tendo

repercussões em todo o psiquismo, não existindo remédio milagroso, capaz de trabalhar com

essa esfera, que é alcançada na psicoterapia.

Tratamento Medicamentoso Segundo o Ministério da Saúde (Brasil, 2006),

aproximadamente, ⅔ das pessoas com episódio depressivo melhoram com o primeiro

antidepressivo. Existe um prazo de cerca de duas semanas para o medicamento começar a

fazer efeito, sendo de seis meses a duração mínima do tratamento completo. Geralmente,

produzem, em média, uma melhora dos sintomas de 60% a 70%, no prazo de um mês,

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enquanto a taxa de placebo é em torno de 30% (Souza, 1999). Em casos de tratamento da

depressão leve, não são indicados os antidepressivos, sendo recomendada primeiramente a

psicoterapia.

Tratamento Psicoterapêutico As intervenções psicoterápicas podem ser de

diferentes formas, como por exemplo, psicoterapia de grupo, psicodinâmica breve, terapia

comportamental, cognitivo-comportamental, de grupo, de família, dentre outras. Abreu (2003)

alerta para o fato de ser bastante alta a freqüência da repetição de episódios depressivos numa

mesma pessoa: cerca de 50% dos que já tiveram um distúrbio depressivo terão outro, em

algum momento de suas vidas. De acordo com a autora, esse fato ocorre devido a um

tratamento, exclusivamente, medicamentoso. Em um trabalho psicoterapêutico, o psicólogo

vai ajudar a mudar a perspectiva a partir da qual o individuo se percebe e percebe sua vida em

geral. Ao ver a vida de um novo ângulo, irá reagir de forma diferente, ficando, portanto, mais

resistente à instalação da depressão.

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CAPÍTULO III
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – SUICÍDIO

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CAPÍTULO III

O SUICÍDIO

3.1 CONCEPÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DO SUICÍDIO:

De acordo com Jamison (2002), ninguém sabe quem foi o primeiro a cortar a própria

garganta com um pedaço de sílex, a ingerir um punhado de bagas venenosas, ou cair,

intencionalmente, sobre sua lança num campo de batalha. Também não sabemos quem foi o

primeiro que pulou por impulso – ou premeditadamente – de um alto penhasco; que entrou

sem alimento numa tempestade de gelo; ou se fez ao mar sem a menor intenção de voltar. E

nunca saberemos quem foi, o porquê ou como, o primeiro homem a se matar o fez, pois as

observações registradas acerca do suicídio são, necessariamente, muito mais recentes do que

suas primeiras ocorrências.

Os compêndios da história revelam que, para o Direito Canônico, a religião cristã

sempre condenou o suicídio. Os documentos antigos tratam de vários suicídios. No entanto, a

Bíblia descreve um número relativamente pequeno deles, e como afirma Alves (1999) assim

mesmo, quase todos estavam condicionados por acontecimentos externos, como no caso de

cabos-de-guerra, que se matavam para não serem aprisionados pelo inimigo.

Um caso bastante conhecido, relatado pela Bíblia diz respeito ao suicídio de Judas

Iscariotes, um apóstolo de Cristo que o teria traído por 30 moedas. Arrependido, suicidou-se,

posteriormente. Porém, foram encontrados em Jerusalém e revelados pela imprensa mundial,

recentemente, documentos sobre ele que afirmam que o mesmo fora o mais íntimo e confiável

apóstolo de Jesus Cristo, e que teria sido escolhido para entregar o Filho de Deus para revelá-

lo como o Salvador e assim redimir os pecados da humanidade.

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Entre alguns povos orientais, dominados pelo fanatismo religioso ou imbuídos de

tendências para o abandono de si mesmo, para o desdém pelos bens terrenos, o suicídio

tornou-se fato banal. Na China antiga, este fenômeno constituía ato bastante comum.

Na História do Egito, ficou célebre o caso de Cleópatra, que se deixou picar por uma

cobra, depois de ter experimentado diferentes venenos em condenados, chegando à conclusão

de que a picada de uma víbora era o meio de morte mais suave. Na Grécia, foram numerosos

os suicídios de reis em determinadas circunstâncias, ora como expiação, ora para não cair em

mãos dos inimigos. Durante a Idade Média, foram raros, devido ao anátema religioso lançado

aos suicidas, entretanto, Alves (1999) destaca que com a Renascença, os suicídios parecem ter

aumentado em número.

Mesmo em tempos recentes, diversos acontecimentos políticos implicaram uma

verdadeira onda desse ato. Nesse sentido, foram, particularmente, numerosos os provocados

pela ascensão do nazi-fascismo, em diversos países europeus, quando as perseguições

políticas e raciais criaram um clima em que o suicídio passava a representar a forma de morte

mais suave e um meio de se livrar de grandes tormentos físicos e morais.

Na atualidade, podemos observar esse fenômeno nos atentados que ocorrem em

decorrência do fanatismo religioso, onde os chamados “homens-bomba” se suicidam e

provocam a morte de muitos. Sem dúvida, o mais conhecido ocorreu no dia 11 de setembro de

2001 nos Estados Unidos, onde houve uma série de ataques contra alvos civis. Na manhã

desse dia, quatro aviões comerciais foram desviados de suas rotas, sendo dois deles jogados

contra as torres do World Trade Center, em Manhattan, Nova Iorque. Um terceiro avião foi

reportado pelas autoridades norte-americanas como tendo sido intencionalmente derrubado

contra o Pentágono pelos seqüestradores, no Condado de Arlington, Virgínia. Os destroços do

quarto avião foram vistos espalhados num campo próximo de Shanksville, Pensilvânia. Os

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atentados causaram a morte de 2973 pessoas e o desaparecimento de mais 24 (Wikipédia,

2006).

Como objeto de estudo, o suicídio vem sendo observado desde o século XVIII.

Segundo Ordaz e Vala (1997), muitos foram os autores que se dedicaram à investigação desse

fenômeno, como por exemplo, Esquirol, Adler, Freud entre outros, que o relacionaram a

desordens mentais hereditárias. Já o grande sociólogo Durkheim, atribuiu-o a causas externas

ou sociais, discutindo-o enquanto fato social.

3.2 DEFINIÇÕES DO SUICÍDIO:

O comportamento suicida é classificado, com freqüência, em três categorias: ideação

suicida, tentativa de suicídio e suicídio consumado. Segundo Werlang et al (2005), apesar de

haver poucos dados disponíveis, alguns estudos clínicos e epidemiológicos sugerem a

presença de um possível gradiente de severidade e de heterogeneidade entre essas diferentes

categorias. Assim, num dos extremos tem-se a ideação (pensamentos, idéias, planejamento e

desejo de se matar) e, no outro, o suicídio consumado, com a tentativa entre eles.

Suicídio é, traduzindo-se a palavra, a morte de si mesmo (CASSORLA, 1992); é uma

palavra originada do latim, derivada da junção das palavras sui (si mesmo) e caederes (ação

de matar). Num sentido geral, é um ato voluntário através do qual um indivíduo possui a

intenção e provoca a própria morte.De acordo com Stevenson (1992), não existe uma

definição única aceitável ; entretanto, a morte deve ter sido auto-infligida. Esse autor também

alerta para o fato de que, sem a existência de um bilhete, por parte do suicida, pode ser um

diagnóstico difícil.

A definição desse fenômeno implica, necessariamente, um desejo consciente de

morrer e a noção clara de que o ato executado pode resultar nisso. Caso contrário, é

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considerado morte por acidente ou negligência. Entretanto, o fato de estar consciente de que

vai efetuar um ato suicida não elimina o estado de confusão mental que o indivíduo

experimenta antes da ação.

Utiliza-se também, na literatura, o termo parassuicídio, que segundo Vega Piñero et al

(2002) refere-se a condutas cuja intenção não é acabar com a própria vida, mas sim modificar

o ambiente. Essas condutas são características da adolescência e de pessoas imaturas, como

forma de reação a um conflito, sendo diagnosticadas em numerosas ocasiões de transtornos de

personalidade. São denominadas também de “chamadas de atenção” e em algumas ocasiões

tem caráter de chantagem emocional.

O suicídio é uma realidade que nos cerca, embora muitas vezes não desejemos ou não

possamos aceitá-lo, talvez porque tal situação nos coloca diante de um fenômeno que sempre

provocará perplexidade no ser humano, que é a morte voluntária (Dutra, 2002). Segundo

Minayo (1998), é um fenômeno universal, registrado desde a alta antiguidade, rememorado

pelos mitos das sociedades primitivas, criticado pelas religiões, como ato de rebelião contra o

Criador, aparecendo ainda, em muitos escritos filosóficos, como ato de suprema liberdade.

3.3 TEORIAS EXPLICATIVAS DO SUICÍDIO:

Como fato social, o suicídio tem aguçado o interesse de psiquiatras, psicólogos,

juristas e sociólogos. De acordo com Alves (1999), a origem do gesto humano de voltar-se

contra si mesmo de modo violento, a ponto de destruir sua própria existência, tem causa

múltipla. O desencantamento humano com as ideologias que fenecem no dobrar do milênio, a

vida complexa das grandes cidades, o desemprego, a criminalidade, o medo da violência

urbana e rural são fatores sociais que influenciam na “taxa social do suicídio”

Também fatores menos genéricos e mais particulares podem fazer recrudescer a taxa

de suicídio em uma determinada sociedade, como a desagregação familiar, as doenças e, de


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um modo geral, a imitação, as paixões amorosas, o alcoolismo, as drogas, a impotência sexual

masculina, a frigidez, retaliações políticas, as vicissitudes dos planos econômicos e até o

período do ano, no verão, o índice se eleva (Alves, 1999).

As teorias explicativas tentam esclarecer a conduta suicida. Detalharemos agora as

justificativas que cada teoria dá para a ocorrência do ato suicida.

3.3.1. Teorias Psicológicas:

* Psicanalíticas:

Para Freud, o suicídio é resultante da pulsão entre Eros e thanat, com predomínio final

para este último. A idéia de suicídio seria parte do homicídio, pois considera esse ato um

crime, ao qual se deu um giro de 180 graus, dando destaque à existência da ambivalência

amor-ódio, que segundo ele, está presente na dinâmica de todo suicida. Outro aspecto

importante seria a associação da agressividade e, portanto do instinto de morte, com o ato

suicida.

Jung supõe que o ato suicida ocorre quando existe uma situação em que só a morte

pode pôr fim, aquilo que o eu está envolto, ou seja, um conflito de tal envergadura que, aliado

a uma falta de vitalidade, torna impossível encontrar uma solução emergente. Para ele, esse

ato destrói a harmonia entre o consciente e o inconsciente, derivada de impulsos agressivos

reprimidos (Vega-Piñero et al, 2002).

Segundo Alfred Adler, o suicídio ocorre, principalmente, em indivíduos dependentes

que, em geral, tentam obter gratificações dos demais, possuidores de fortes sentimentos de

inferioridade ou baixa auto-estima, que centram seus pensamentos em si mesmos, e tentam

sobressair a qualquer preço. Ainda de acordo com este autor, isso proporciona a essas pessoas

a sensação de serem donas da vida e da morte, de serem onipotentes (Corrêa e Barrero, 2006).

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O psicanalista Karl Menninger propôs que em todos os seres humanos existem fortes

propensões para a autodestruição, e o suicídio seria apenas uma de suas manifestações, que se

apresenta de três formas: “suicídio crônico” “palmo a palmo”, em que o indivíduo organiza

lentamente sua morte à custa, por exemplo, de condutas anti-sociais, alcoolismo, uso de

drogas, comer ou fumar em excesso, entre outros; o suicídio localizado, como a

automutilação, as propensões a acidentes, a impotência, a frigidez, etc.; e o suicídio orgânico,

ocasionado por processos destrutivos internos, focais ou generalizados. A Karl Menninger

deve-se os três desejos implícitos em todo ato suicida: (1) o de morrer; (2) o de matar; (3) o de

ser morto (Corrêa e Barrero, 2006).

* Cognitivas:

Beck e cols. descobriram que a desesperança estava mais ligada ao suicídio

consumado do que a experiência subjetiva da depressão. Em sua Teoria Cognitiva, ele

considera o modo como a unidade estrutural e organizacional que contém determinados

esquemas, como uma suborganização, específica dentro da organização da personalidade, que

incorpora os componentes básicos da mesma: os cognitivos, os afetivos, os comportamentais

e os motivacionais (Corrêa e Barrero, op. cit). O modo suicida estaria caracterizado pelos

componentes a seguir enumerado:

 Componentes Cognitivos:

Pensamentos suicidas.

Pensamentos relacionados com o eu (inadequado, incompetente, desamparado,

desesperançado, etc.).

Pensamentos relacionados com o entorno (os demais me aborrecem, me abandonaram,

evitam-me, ninguém me quer, ninguém precisa de mim).

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Pensamentos relacionados com o futuro (as coisas não mudarão, não suporto por mais

tempo esse sofrimento que nunca terminará).

 Componentes Afetivos:

Disforia.

Mistura de emoções diversas (tristeza, raiva, culpa, depressão, medo, angústia,

sentimentos de solidão, desesperança, humilhação).

 Componentes Comportamentais:

Comportamentos autodestrutivos (tentativa de suicídio).

Planificação suicida.

Ameaças e gestos suicidas.

3.3.2. A Teoria Psiquiátrica

A explicação psiquiátrica é que os suicidas possuem alguns transtornos mentais, que

implicam num comportamento anormal. Baseia-se na alta prevalência de transtornos mentais

que aparecem nesses sujeitos (Vega-Piñero, et al, 2002).

Segundo Corrêa e Barrero (2006), essa foi, a primeira teoria, que tentou explicar as

causas do suicídio, que surgiu no princípio do século XIX, iniciada com Pinel e seu discípulo

Esquirol. Desde o fim do século XVII, foram os médicos, e em particular os alienistas, que

iniciaram o debate sobre a etiologia do suicídio. No século XVII, alguns livros já discutiam o

assunto, associando-o a loucura ou a melancolia.

A teoria psiquiátrica do suicídio foi, entretanto, primeiramente sistematizada por

Esquirol, a partir de 1927 com seu livro Les Monomanies. Segundo ele, esse fenômeno

apresenta todas as características das alienações mentais e o ser humano só atenta contra sua

vida, quando está mergulhado no delírio; concluindo então que os suicidas são alienados.

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A partir dos trabalhos, principalmente de Esquirol, os médicos passaram a discutir três

concepções diferentes sobre a etiologia do suicídio. A primeira, aquela de Esquirol que dizia

que o ato suicida seria secundário, uma alienação não específica; a segunda, defendida por

Bourdin, associava a uma doença mental específica, a monomanie suicidee; e a terceira, que

se tornou majoritária, na segunda metade do século XIX, separava-o em diferentes causas; a

alienação mental era reconhecida, entretanto, como a mais comum. Apesar das diferenças dos

autores, algo era consensual entre eles: a importância das afecções mentais como causa do

suicídio e defesa da descriminalização desse ato (Corrêa e Barrero, 2006).

Na atualidade, essa teoria é conservada em plena vigência, pois, embora nem todos,

que cometam suicídio, tenham um transtorno mental, a mortalidade decorrente desse ato entre

as pessoas que têm tal tipo de transtorno é, significativamente, maior do que a observada na

população geral. Segundo os autores supracitados, mais de 90% das pessoas que se suicidam

têm uma doença mental diagnosticável, no momento em que cometem esse ato. Por esse

motivo, as doenças psiquiátricas são um fator de risco conhecido e seu tratamento adequado é

um dos pilares da prevenção do suicídio.

3.3.3 As Teorias Sociológicas:

A teoria sociológica do suicídio surgiu no final do século XIX, por intermédio do

francês Emile Durkheim. Este autor é reconhecido como o pai da Sociologia e o precursor dos

estudos sociológicos do suicídio. Ele focalizou os efeitos prejudiciais que a sociedade exerce

sobre os indivíduos e, em seu trabalho mais conhecido Lê Suicide (1897), estabeleceu um

modelo para as investigações desse ato.

Segundo esse mesmo autor, não são os indivíduos que se suicidam, mas a sociedade

através deles, e postula que a incidência desse fenômeno numa determinada sociedade

depende do nível de integração social e das regras nela existentes . Dependendo do nível de

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integração, os suicídios classificam-se em egoístas ou altruístas e, obedecendo aos níveis de

regulação existentes, dividem-se em anômicos ou fatalistas.

Cerca de trinta anos após o livro de Durkheim, em 1930, Maurice Halbwachs publica

seu livro Les causes du suicide, este critica em vários pontos a obra daquele, mas contribui

para uma melhor compreensão dos aspectos sociológicos do suicídio. A principal contribuição

de Halbwachs, segundo Corrêa e Barrero (2006), foi, a tentativa de resolver o conflito

individual X coletivo. Esses autores consideram-na importante, na compreensão de aspectos

sociais do suicídio e na reflexão de aspectos desse conflito.

Entretanto, num nível presumivelmente genético, estudos de adoção mostram que os

parentes biológicos de um suicida são muitas vezes mais suicidas do que os parentes adotivos

daquela pessoa. Gêmeos idênticos tendem a partilhar a propensão ao suicídio, mesmo que

sejam separados ao nascer e não tenham conhecimento um do outro. Gêmeos não idênticos

não têm essa tendência. Desta forma, percebe-se a influência tanto dos elementos externos,

como da importância da genética como fatores predisponentes da ideação suicida.

3.4 EPIDEMIOLOGIA:

As estatísticas sobre atos suicidas são falhas e subestimadas, e isso se deve a vários

fatores, que incluem desde dificuldades de conceituação até aspectos sócio-culturais. De

acordo com Cassorla (1998), certamente, a subestimação estatística é mais intensa quando se

trata de crianças e adolescentes, em que os atos autodestrutivos são negados ou até escondidos

pela família, diante de maiores sentimentos de culpa e/ou vergonha pelo ato. Mesmo os

serviços de saúde têm dificuldade em associar componentes suicidas a eventos que os

solicitam.

O ato suicida é facilmente identificado, no caso de enforcamento ou de morte

provocada por um ferimento à bala, estando à arma ainda nas mãos do suicida; porém a morte
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resultante de uma combinação de dosagens subletais de álcool e outras substâncias, ou até

mesmo um simples acidente automobilístico, por exemplo, tornam as conclusões difíceis de

serem tiradas.

Segundo Stevenson (1992), há uma tendência para o sub-relato de suicídios, que

reflete, indubitavelmente, em algum grau, a tentativa de poupar-se aos membros da família,

um trauma emocional desnecessário. Além disso, a morte por esse ato pode ter impacto sobre

certos temais legais, tais como benefícios obtidos por seguros.

Prieto e Tavares (2005), destacam que há algum tempo, a Organização Mundial de

Saúde (OMS, 1975), já ressaltava a possibilidade de que as diferenças entre as taxas de

incidência e de suicídio entre os diversos países deve-se, em grande parte, à falta de

uniformidade nos procedimentos de notificação. E, poderia se assegurar, com confiança, que

as diferenças dos índices refletiam variações na incidência do fenômeno, se os mesmos

métodos e regras para verificar se uma morte ocorreu por suicídio ou não, fossem aplicados

em todos os países.

A taxa oficial de mortalidade no Brasil, de acordo com dados da OMS, é de 4,1 por

100 mil para a população como um todo, estando para o sexo masculino, em torno de 6,6 por

100 mil habitantes, e para o sexo masculino, em 1,8 por 100 mil habitantes

Segundo Cassorla (1998), sabe-se que o suicídio é a terceira causa de morte entre

aquelas consideradas como violentas ou externas, no estado de São Paulo. Além disso, 28%

do total dos suicídios ocorridos na Grande São Paulo acontecem entre jovens entre 15 e 24

anos.

Se nos reportarmos ao Nordeste, percebemos que essa taxa não é muito diferente . No

Rio Grande do Norte, segundo os estudos de Dutra (1998), constatou-se que no período de

1985 a 1996 ocorreram 561 suicídios. Desse total, 26% foram de jovens entre 15 e 24 anos,

estatísticas essas, que se aproximam dos dados verificados em São Paulo. A autora ainda

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ressalta que esses números podem ser considerados alarmantes, considerando-se que se trata

de um estado nordestino, sem os problemas de uma cidade como São Paulo, que abriga uma

metrópole de mais de 10 milhões de habitantes. O Rio Grande do Norte, diferentemente

daquele, é um estado semi-industrializado, possuindo características sócio-culturais e

demográficas distintas.

Dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) relatam que 900.000

pessoas cometeram suicídio em 2003, representando uma morte a cada 35 segundos. Para

cada óbito por suicídio, há no mínimo cinco ou seis pessoas próximas ao falecido, cujas vidas

são, profundamente, afetadas emocional, social e economicamente (Botega, 2007).

Conforme a Secretaria de Segurança Pública do estado da Paraíba, ocorreram no ano

de 2006, 22 (vinte e dois) casos de suicídio no estado. Para o ano de 2007, até o mês de

setembro, já eram 16 (dezesseis).

3.5 TIPOS DE SUICÍDIO:

Segundo Solomon (2002), os suicidas dividem-se em quatro grupos:

O primeiro, aquele que comete o ato sem pensar no que está fazendo. Tais pessoas são

as mais impulsivas e as mais propensas a serem levadas ao suicídio por um evento externo

específico; seu comportamento suicida tendem a ser repentinos.

O segundo, meio apaixonado pela morte consoladora, comete suicídio como vingança,

como se o ato não fosse irreversível. Tais pessoas não estão fugindo da vida, mas correndo

para a morte, desejando não o fim da existência, mas a presença da obliteração.

O terceiro comete suicídio por uma lógica falha em que a morte parece ser a única

saída de problemas intoleráveis. Esses indivíduos consideram as opções, planejam seus

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suicídios e escrevem bilhetes. Geralmente, acreditam não somente que a morte vá melhorar

sua condição, mas também que ela removerá um fardo das pessoas que os amam.

O último grupo comete suicídio através de uma lógica racional. Tais pessoas – devido

a uma doença física, instabilidade mental ou uma mudança nas circunstancias de vida – não

desejam experimentar a dor da vida e acreditam que o prazer que elas podem vir a sentir é

insuficiente para compensar a dor atual.

Para Durkheim (2003), os suicídios podem ser divididos em três categorias sociais:

suicídio egoísta, o altruísta e o anômico.

O egoísta: ocorre como resultado de um afastamento da sociedade, resultando numa

individualização desmesurada; que resulta de uma falta de integração, na sociedade; e está

associado com sentimentos de depressão e apatia. O autor atribui o aumento das taxas de

suicídio à decadência de afiliação à família e à religião, duas instituições que servem para

integrar e regular a sociedade.

O altruísta: difere do egoísta por características marcantes. Enquanto este se deve ao intenso

individualismo, aquele decorre do fato de o indivíduo estar sob obediência do coletivo. O

individuo se identifica tanto com a coletividade que é capaz de tirar sua própria vida por ela,

sendo visto como algo que ocorre, principalmente, em sociedades coletivas, onde os

indivíduos suicidam-se para o bem comum, se sacrificando pela comunidade.

O anômico: ocorre como resultado de uma mudança brusca na ordem social aceita e nas

normas que prescrevem o comportamento na sociedade. Esse tipo de suicídio é o mais comum

após crises sociais ou políticas, e ocorre entre indivíduos que estão tentando ajustar-se a novos

status sociais ou ocupacionais.

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3.6 FATORES DE RISCO E FATORES DE PREVENÇÃO:

A prevenção do suicídio se dá mediante o reforço dos fatores ditos protetores, bem

como através da diminuição dos fatores de risco, tanto no nível individual como coletivo.

Risco, segundo Benincasa e Rezende (2006), é um conceito da Epidemiologia Moderna e

refere-se à probabilidade da ocorrência de algum evento indesejável. Os de risco são

elementos com grande probabilidade de desencadear ou associar-se ao desencadeamento de

um evento indesejado, não sendo, necessariamente, o fator causal. Já os de proteção são

recursos pessoais ou sociais, que atenuam ou neutralizam o impacto do risco. Os autores

supracitados acrescentam ainda que a percepção dos riscos volta-se à perspectiva do controle

preventivo dos mesmos, buscando, por meio da educação, influir nos comportamentos

deletérios para a saúde do corpo e do meio ambiente.

Os fatores de risco têm sido mais abordados pela literatura do que os de proteção.

Segundo Botega et al (2006), dentre os principais fatores de risco destacam-se: transtornos

mentais (como por exemplo, a depressão), perdas recentes, perdas de figuras parentais na

infância, dinâmica familiar conturbada, personalidade com fortes traços de impulsividade de

agressividade, certas situações clínicas (como doenças crônicas incapacitantes, dolorosas,

desfigurantes), ter acesso fácil a meios letais.

O Ministério da Saúde (Brasil, 2006) alerta para o fato de existirem alguns sinais na

história de vida e no comportamento das pessoas, que indicam que um determinado indivíduo

possui um maior risco para o comportamento suicida. São eles: (1) comportamento retraído,

inabilidade para se relacionar com a família e amigos, pouca rede social; (2) doença

psiquiátrica; (3) alcoolismo; (4) ansiedade ou pânico; (5) mudança na personalidade,

irritabilidade, pessimismo, depressão ou apatia; (6) mudança no hábito alimentar e de sono;

(7) tentativa de suicídio anterior; (8) odiar-se, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou

com vergonha de si; (9) uma perda recente importante – morte, divórcio, separação, etc; (10)

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história familiar de suicídio; (11) desejo súbito de concluir os afazeres pessoais, organizar

documentos, escrever um testamento, etc; (12) sentimentos de solidão, impotência,

desesperança; (13) cartas de despedida; (14) doença física crônica, limitante ou dolorosa; (15)

menção repetida de morte ou suicídio.

Alguns fatores sócio-demográficos indicam indivíduos sob maior risco de suicídio:

sexo masculino, faixa etária entre 15 e 35 anos ou acima dos 75 anos, extratos econômicos

extremos (muito ricos ou muito pobres), residentes em áreas urbanas, desempregados

(principalmente perda recente do emprego), aposentados, ateus, solteiros ou separados e

migrantes (WHO, 2003).

Conforme Botega et al (2006), um dos grupos de maior risco para o suicídio é o dos

indivíduos que já tentaram cometer esse ato em algum momento de suas vidas. Tal risco foi

estimado em 100 vezes maior do que o da população em geral. Segundo os autores, os estudos

têm demonstrado que a adesão desses indivíduos ao tratamento é baixa, mas que, por outro

lado, existem estratégias eficazes no sentido de evitar novas tentativas.

Pessoas com histórico de suicídio na família são muito mais propensas a se matar. De

acordo com Solomon (2002), isso ocorre em parte porque tornam o impensável pensável. Por

outro lado, ocorre também porque a dor de viver quando alguém que se ama aniquilou-se

pode ser quase intolerável.

Existem três características próprias do estado em que se encontra a maioria das

pessoas sob risco de suicídio: ambivalência, impulsividade e rigidez/constrição (Brasil, 2006).

A ambivalência é a atitude interna característica dos indivíduos que pensam ou tentam se

matar; ao mesmo tempo querem viver e morrer. O predomínio do desejo de vida sobre o de

morte é o fator que possibilita a prevenção do suicídio. O suicídio é entendido como um ato

impulsivo que pode ser transitório e durar apenas alguns minutos ou horas. Geralmente, é

desencadeado por eventos negativos do dia-a-dia. Em relação à terceira característica, a

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rigidez/constrição, o Ministério da Saúde afirma que o estado cognitivo de quem apresenta

comportamento suicida é, geralmente, de constrição. A consciência da pessoa passa a

funcionar de forma dicotômica: tudo ou nada. Os pensamentos, os sentimentos e as ações

estão constritos, ou seja, constantemente pensam sobre suicídio como única solução e não são

capazes de perceber outras maneiras de solucionar seus problemas. Análoga a essa condição é

a “visão em túnel”, que representa o estreitamento das opções disponíveis de muitos

indivíduos em vias de se matar.

Quatro sentimentos principais são apresentados como indicadores de risco para a

consumação, ou pelo menos tentativa, do ato suicida. São denominados de “regra dos 4D”,

devido ao fato de todos os sentimentos começarem com a letra “D”. São eles: depressão,

desesperança, desamparo e desespero (Brasil, 2006).

No que se refere aos fatores de proteção do suicídio, Botega et al (2006) destacam os

seguintes: pessoas que possuem bons vínculos afetivos, sensação de estar integrado a um

grupo ou comunidade, religiosidade, estar casado ou com companheiro fixo, ter filhos

pequenos.

Pessoas com maior envolvimento religioso, de um modo geral, possuem menores

taxas de suicídio. A religiosidade também é apontada como auxiliar no enfrentamento de

doenças graves. Entre os muçulmanos as taxas de suicídio são mais baixas quando

comparadas às outras religiões, provavelmente, por causa do pesado julgamento moral sobre o

suicídio e conseqüente senso de punição, além de outras características culturais, como por

exemplo, a proibição do consumo de álcool (Botega et al, 2006).

Uma percepção mais otimista da vida, com razões para se continuar vivendo opondo-

se ao sentimento de desesperança, é um fator de proteção contra o suicídio, como por

exemplo, apego aos filhos pequenos e o sentimento de importância na vida de outras pessoas.

No sexo feminino, a gravidez e a maternidade auxiliam para que as mulheres tenham menores

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taxas de suicídio, em especial nos anos próximos da gestação. Nesses casos, é válido ressaltar,

que há uma exceção para os casos de depressão pós-parto.

Outra forma de proteção, encontrada, particularmente, no sexo masculino, é ter uma

ocupação, estar empregado, sentindo-se produtivo e socialmente mais integrado por meio de

seu trabalho. De forma geral, o sentimento de “pertencer”, no sentido de possuir forte ligação,

seja à comunidade, a um grupo religioso ou étnico, a uma família ou a algumas instituições,

protegem o individuo do suicídio (Botega et al, 2006).

A prevenção do comportamento suicida refere-se não apenas ao objetivo de evitar a

morte das pessoas, mas também em considerar as sérias implicações na sociedade que são

provocadas pela ocorrência desses atos.

A literatura sobre o suicídio mostra que o componente inconsciente está implicado em

todo ato suicida, seja o ato consumado ou simplesmente um gesto ou comportamento

autodestrutivo. Segundo Dutra (2002), o abuso de drogas, bastante comum nos dias atuais, é

um bom exemplo de autodestrutividade.

Dados da OMS (2000) indicam que o suicídio, geralmente, aparece associado a

doenças mentais – sendo que a mais comum, atualmente, é a depressão, responsável por 30%

dos casos relatados em todo o mundo. Outras doenças como o alcoolismo, a esquizofrenia e

transtornos de personalidade também são citados como fatores predisponentes.

Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos,

emocionais, socioculturais, filosóficos e até religiosos que, embaralhados, culminam numa

manifestação exacerbada contra si mesmo. Para decifrá-los, os estudiosos recorrem a

“autópsia psicológica”, um procedimento que tem por finalidade reconstruir a biografia da

pessoa falecida por meio de entrevistas e, assim, delinear as características psicossociais que

levaram à morte violenta. (Vomero, 2003).

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A psicóloga Blanca Guevara, da Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do

Sul (PUC-RS), especialista em autópsia psicológica, em entrevista à Revista Super

Interessante de janeiro de 2003, afirma que existem causas imediatas predisponentes – como a

perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira – que

agem como o último empurrão para o suicídio. A análise das características psicossociais do

indivíduo revela os motivos que, ao longo da vida, o auxiliaram a estruturar o comportamento

suicida. Pode mostrar as razões para morrer que estavam enraizadas no estilo de vida e na

personalidade.

3.7 ESTRATÉGIAS NACIONAIS DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO:

No Brasil, até há pouco tempo, o suicídio não era visto como um problema de saúde

pública. Entre as causas externas de mortalidades, ele encontrava-se na sombra dos elevados

índices de homicídio e de acidentes de transito, 7 e 5 vezes maiores, em média e

respectivamente (Botega et al, 2006). No entanto, a necessidade de se discutir a violência, de

modo geral, trouxe à tona o problema do suicídio.

No final do ano de 2005, o Ministério da Saúde montou um grupo de trabalho com a

finalidade de elaborar um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, com representantes do

governo, de entidades da sociedade civil e das universidades. Em 14 de agosto de 2006, foi

publicada uma portaria com as diretrizes que deverão orientar tal plano. Dentre os principais

objetivos a serem alcançados destacam-se:

1) Desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida e prevenção de danos;

2) Informar e sensibilizar a sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública

que pode ser prevenido;

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3) Fomentar e executar projetos estratégicos fundamentados em estudos de eficácia e

qualidade, bem como em processos de organização da rede de atenção e intervenções

nos casos de tentativas de suicídio;

4) Promover a educação permanente dos profissionais de saúde da atenção básica,

inclusive do Programa Saúde da Família, dos serviços de saúde mental, das unidades

de urgência e emergência, de acordo com os princípios da integralidade e da

humanização.

Antes mesmo da finalização de um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio,

esperado para 2007, com destinação de verba orçamentária específica, o Ministério da Saúde

já lançou um manual de prevenção destinado a equipes de saúde mental e uma bibliografia

comentada sobre o comportamento suicida. Recentemente, foi publicado outro manual

destinado ao treinamento das equipes da rede básica de saúde.

Há hoje, considerável informação a respeito do que, em vários países, já foi feito para

a prevenção do suicídio, do que deu certo e do que não funcionou. Já temos evidências

científicas disponíveis, agora, segundo Botega (2007), é esperar o esforço final da área técnica

do Ministério da Saúde, para fazer do Brasil o primeiro país da América Latina a elaborar e a

executar ações de prevenção do comportamento suicida.

O Brasil, como primeiro país da América Latina a elaborar e apresentar Diretrizes

Nacionais de Prevenção do Suicídio, está viabilizando não só a explicitação da preocupação

com um fenômeno que tende a ficar à margem das discussões sociais e políticas como

também acenando com a possibilidade de escrever um capítulo mais otimista em relação à

intervenção do Estado nos problemas de saúde pública que são enfrentados por uma nação. As

diretrizes são, certamente, o primeiro passo em uma jornada que busca intervir sobre um

complexo fenômeno humano, destacando as possibilidades inestimáveis de um olhar

preventivo sobre o que afeta a saúde de nossa sociedade (Botega et al, 2006).

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3.8 DEPRESSÃO E SUICÍDIO:

Embora nenhuma doença ou conjunto de circunstâncias possam prever o suicídio,

certas vulnerabilidades, moléstias ou eventos tornam alguns indivíduos muito mais propensos

a se matar do que outros. O elemento mais comum é a psicopatologia ou doença mental. Entre

os diversos tipos de doença mental, bem poucas estão particular ou poderosamente ligadas à

morte auto-infligida: os distúrbios de ânimo (depressão e depressão maníaca), esquizofrenia,

distúrbios de personalidade limítrofe e anti-social, alcoolismo e abuso de drogas (Jamison,

2002).

Segundo Corrêa e Barrero (2006), a relação entre suicídio e depressão é estreita, a

ponto daquele ser, ainda hoje, considerado por muitos um sintoma ou uma conseqüência

exclusiva deste. De fato, a importância da associação entre um e outro é um dos dados mais

conhecidos e replicados na literatura psiquiátrica. Além disso, o comportamento suicida é

freqüentemente considerado um dos sintomas característicos, senão específico, da depressão,

mesmo nos grandes sistemas nosográficos de classificação, como o CID 10, ou em escalas e

inventários internacionalmente conhecidos para avaliação dos sintomas depressivos, como o

Inventário de Depressão de Beck, utilizado no presente estudo.

Porém, o comportamento suicida não está, exclusivamente, associado com a

depressão, mas com praticamente todos os diagnósticos psiquiátricos. Mais de 90% das

pessoas que se matam tem um diagnóstico psiquiátrico, e, praticamente, todos estão

associados a uma maior mortalidade por suicídio, quando comparados a população geral

(Corrêa e Barrero, 2006). Entretanto, muitos pacientes com sintomatologia depressiva, nunca

se tornam suicidas, assim como muitos suicídios são cometidos por pessoas que não vinham

passando por um processo depressivo.

Segundo Solomon (2002), os dois elementos não são partes de uma única equação

lúcida, uma ocasionando a outra. São entidades separadas que com freqüência coexistem,

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influenciando-se mutuamente. O autor afirma ainda que não existe nenhuma correlação forte

entre a severidade da depressão e a probabilidade do suicídio; alguns suicídios parecem

ocorrer durante disfunções severas, embora algumas pessoas em situações desesperadas

apeguem-se à vida.

Para Corrêa e Barrero (2006), é difícil estabelecer características distintivas entre os

pacientes deprimidos que se suicidam e os que não. Entretanto, algumas considerações

podem ser feitas a partir da convergência dos vários estudos epidemiológicos realizados:

1. A mortalidade por suicídio é cerca de duas vezes maior nos homens do que nas

mulheres deprimidas. Esse dado torna-se ainda mais importante ao lembrarmos que a

prevalência da depressão é, aproximadamente, duas vezes maior do que nos homens;

2. Fatores de risco observados em outras patologias, como história de tentativa de

suicídio prévia ou história familiar de depressão, são, igualmente, importantes nos

pacientes com depressão maior;

3. Uma história de internação psiquiátrica é também um importante preditor de

risco suicida. Os pacientes com historia de internação têm um risco duas vezes maior

de se matarem do que os que nunca foram internados, de forma que a decisão clínica

de se hospitalizar ou não um paciente pode ser considerada um bom preditor de risco;

4. O risco suicida é maior logo após uma internação e nos períodos iniciais da

depressão, em geral, poucos meses após ser diagnosticada.

Atrás de um ato suicida há sempre uma motivação desencadeante. Na maioria dos

casos, essa motivação diz respeito a quadros psicopatológicos, havendo grande destaque para

o transtorno depressivo. No entanto, existe também, como, destaca Brandão (2004), a

ocorrência do suicídio de motivação moral por si só, no qual entre os motivos desencadeantes

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podem estar às causas ideológicas, os motivos religiosos, a vergonha, a culpa, as perdas

amorosas, enfim, a perda das relações objetais.

Apesar de o suicídio envolver questões socioculturais, genéticas, psicodinâmicas,

filosófico-existenciais e ambientais, na quase totalidade dos casos o transtorno mental é um

fator vulnerável que necessita estar presente para que, culmine no suicídio do individuo,

quando somado a outros fatores.

Bertolote e Fleischmann (2002 apud Botega et al, 2006) realizaram uma revisão

sistemática de 31 artigos publicados entre 1959 e 2001. No total, 15.629 casos de suicídio em

indivíduos com idades acima de 10 anos foram avaliados quanto à presença de transtorno

mental, seja por avaliação psiquiátrica ocorrida antes do suicídio, ou pelo método de autópsia

psicológica após o mesmo. O estudo mostrou que em 97% dos casos de suicídio caberia um

diagnóstico de transtorno mental na ocasião do ato fatal.

A associação entre depressão e suicídio é inequívoca. O risco deste aumenta mais de

20 vezes em indivíduos com episódio depressivo, sendo maior ainda em sujeitos com

comorbidades com outros transtornos psiquiátricos ou doenças clínicas. Dados de autópsia

psicológica mostram que, aproximadamente, metade dos indivíduos que faleceram por

suicídio estava sofrendo de depressão; se considerarmos os indivíduos com outros transtornos

mentais, para os quais a sintomatologia depressiva era central, como nos transtornos de

ajustamento com sintomas depressivos, a porcentagem sobe para cerca de 80% (Botega et al,

2006).

De acordo com Holmes (2001), as mulheres são três vezes mais propensas a tentarem

o suicídio do que os homens, embora os estes sejam três vezes mais propensos a serem bem

sucedidos em suas tentativas. A razão para essa diferença ainda não está bem definida, mas

acredita-se que isso se deva ao fato delas serem mais propensas a sofrerem de depressão do

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que eles, reconhecendo-se assim, o importante papel desempenhado pela depressão frente aos

atos suicidas.

Porém, outra hipótese também é destacada para explicar essa diferença: os homens

usam técnicas mais violentas (revólveres, saltos de prédio) do que as mulheres (overdose,

corte dos pulsos), aumentando assim, as chances das tentativas serem bem-sucedidas.

Durkheim, em sua obra O Suicídio destaca a influência da depressão sobre o ato

suicida, quando define os tipos de suicídio nos estados psicopáticos. O suicídio melancólico,

segundo ele, relaciona-se, geralmente, a um estado de extrema depressão, exagerada tristeza,

que faz com que o doente já não consiga mais apreciar de maneira sadia as relações que ele

tem com as pessoas e as coisas que o cercam.

Segundo Ballone (2003), os sintomas depressivos mais associados ao suicídio dizem

respeito ao severo prejuízo da auto-estima, aos sentimentos de desesperança e à incapacidade

de enfrentar e resolver problemas. Esses sintomas podem não estar presentes no inicio do

quadro, mas à medida que a depressão vai se tornando mais grave, a baixa da auto-estima vai

piorando, vão surgindo sentimentos de inutilidade e, progressivamente, o sujeito vai ficando

mais desesperado. Para Holmes (2001), os indivíduos deprimidos cometem suicídio porque, a

partir do seu ponto de vista a vida não vale a pena ser vivida.

Como já foi dito anteriormente, as estatísticas a respeito do suicídio são falhas e

subestimadas. O mesmo ocorre com as estatísticas que buscam descrever a relação entre esse

fenômeno e o transtorno depressivo.

É provável que a taxa de suicídio entre indivíduos deprimidos seja bastante elevada,

porém, não podemos afirmar com certeza, devido ao fato de que muitos pacientes,

severamente, deprimidos não dispõem de energia para se matar. Nesses casos, destaca Holmes

(2001), os suicídios ocorrem depois que o individuo começa a melhorar. Os indivíduos ainda

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encontram-se deprimidos, mas à medida que melhoram, obtêm mais energia e, aí sim, são

capazes de executar o ato.

Segundo Jamison (2002), nas suas formas grave, a depressão paralisa todas as forças

vitais que nos faz humano; deixando em troca um estado árido, desesperante e entorpecido. É

uma condição estéril, fatigante e agitada; sem esperança ou capacidade. Ainda conforme a

autora, para os indivíduos com essa doença, o risco de suicídio é mais alto se ela for muito

grave, a hospitalização for exigida ou o ato fora tentado alguma vez. Depressões brandas ou

moderadas, embora com freqüências dolorosas e debilitantes, não carregam com elas o

mesmo risco alto de suicídio.

De acordo com Wilkinson; Moore e Moore (2003), o suicídio é, habitualmente, uma

característica da doença depressiva grave, mas, ocasionalmente, mesmo doentes, ligeiramente,

deprimidos consumaram esse ato, totalizando 15% dos indivíduos depressivos. Esse fato

ressalta ainda mais o caráter complexo e multifacetado desse fenômeno.

Segundo Baptista (2004), há variações entre as estatísticas que correlacionam

depressão e suicídio, no entanto, a correlação entre essas duas variáveis pode ser identificada

na maioria das pesquisas. Também é questionada a idéia de que 15% dos pacientes com

depressão se suicidam, podendo esse ser um dado superestimado, já que, hoje em dia, os

métodos medicamentosos e psicoterapêuticos são bem diferenciados dos de uma ou duas

décadas passadas, podendo haver um viés nas pesquisas longitudinais anteriores, além do que,

existem, hoje em dia, variadas formas, tipos e níveis de diagnóstico de depressão, o que pode

obscurecer tais estatísticas.

Malone (2000 apud Baptista 2004) relatou que indivíduos depressivos que tentaram

suicídio relatam maior depressão subjetiva, desesperança e ideação suicida do que os

depressivos que nunca tentaram suicídio, além do que o número, a duração e a severidade dos

episódios depressivos não foram diferentes entre os dois grupos. No entanto, o autor não

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controlou uma série de variáveis que poderiam estar enviesando esses dados (análise por faixa

etária, inicio dos episódios), além do fato de a amostra utilizada no estudo (N=84) ter sido

pequena.

Baptista (2004) destaca também outro estudo realizado com o objetivo de investigar a

relação entre depressão e suicídio. Trata-se de um levantamento epidemiológico de quase mil

estudantes secundários chineses, na zona urbana (randomizados), onde os pesquisadores

encontraram o humor depressivo isolado como preditor de 35% da variação da ideação

suicida em homens e 25% em mulheres. Os resultados sugerem que eles não consideram o

suicídio até estarem com um nível mais significativo de depressão, ao passo que elas podem

começar a pensar em suicídio com menores níveis de depressão. No entanto, as características

culturais específicas de cada país ou região podem estar influenciando os resultados na

pesquisa relatada.

De um modo geral, como já foi dito anteriormente, na maioria das pesquisas é possível

identificar a existência da correlação entre depressão e suicídio. Sendo assim, faz-se

necessário a implementação de medidas preventivas, de diagnóstico precoce da depressão, no

intuito de prevenir também o suicídio.

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CAPÍTULO IV
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA - A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

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CAPÍTULO IV

A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

A Teoria das Representações Sociais é uma forma sociológica de Psicologia Social,

originada na Europa por Serge Moscovici (1961), através da publicação de seu estudo La

Psychanalyse: Son image et son public. Segundo Farr (1998), ela difere, marcadamente, das

formas psicológicas de Psicologia Social, que são atualmente predominantes nos Estados

Unidos da América. Esse contraste ocorre entre uma tradição de pesquisa européia e uma

americana de Psicologia Social Moderna.

Segundo Jodelet (2001), a representação social é

[...] uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um


objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um
conjunto social. Igualmente, designada como saber de senso comum ou ainda
saber ingênuo, natural, esta forma de conhecimento é diferenciada, entre outras do
conhecimento cientifico.

O termo representação social surgiu com Moscovici, no campo da Psicologia Social,

porém a origem desse conceito provém de estudos realizados por Durkheim, no campo da

Sociologia, sob a denominação de representação coletiva. Em 1912, quando publica “As

formas elementares da vida religiosa”, ele elabora o conceito de representações coletivas, em

que propõe um conjunto sistemático de elementos que tentam explicar uma multiplicidade de

fenômenos sociais (Nóbrega, 2001).

Do ponto de vista de Durkheim, as representações coletivas abrangiam uma cadeia de

formas intelectuais que incluíam ciência, religião, mito, modalidades de tempo e espaço, etc.

de fato, qualquer emoção ou crença que ocorresse dentro de uma comunidade, estava incluída.

Nesse sentido, Moscovici (2003) alerta que isso representa um sério problema, pois, segundo

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ele, pelo fato de se querer incluir demais, inclui-se muito pouco: querer compreender tudo é

perder tudo.

A noção durkheimiana classifica e opõe as representações coletivas às representações

individuais, considerando que o pensamento social possui uma matéria e estados específicos

que somente podem ser interpretados por fatores outros. Para Durkheim, as representações

coletivas têm suas leis próprias, e pertence à outra natureza, que é diferenciada do pensamento

individual. Segundo Nóbrega (op cit.), a oposição entre o individual e o coletivo, tanto marca

a falha de Durkheim sobre a noção das representações coletivas, como explica o fato de que

esse conceito tenha sido negligenciado pelos estudiosos durante muito tempo.

4.1 UMA ABORDAGEM DIMENSIONAL:

Já Moscovici (1978) busca explicar como os pensamentos se estruturam e se

organizam em relação ao contexto social. Para tanto, ele acrescenta novos elementos às idéias

contidas na teoria da representação coletiva, fazendo com que a noção de representação social

se situe na fronteira entre a psicologia e a sociologia.

Moscovici (2003) afirma que um grande estímulo ao seu estudo das representações

sociais foi a necessidade de reabilitar o conhecimento do senso comum, o qual está

fundamentado nas experiências cotidianas, na linguagem e nas práticas sociais. No período da

Guerra, o autor começou a preocupar-se com o impacto da ciência na cultura das pessoas. Na

época, defendia-se, na sociedade, que o conhecimento do senso comum era contaminado,

errado e deficiente; ele reagiu a essa idéia, enfatizando a importância do senso comum.

Nesse sentido, Moscovici assinala algumas diferenças entre o universo retificado,

âmbito do conhecimento científico, e o universo consensual, do qual faz parte o conhecimento

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do senso comum. Enquanto, o primeiro tenta estabelecer explicações do mundo, imparciais e

independentes das pessoas, procurando apoiar-se no que considera fatos puros; o segundo

prospera através da negociação e da conversação, apoiando-se na memória coletiva e no

consenso.

A representação social refere-se à maneira do indivíduo pensar e interpretar o

cotidiano, ou seja, constitui-se em um conjunto de imagens, dotado de um sistema de

referência que o permite interpretar sua vida e a ela dar sentido.

A elaboração e funcionamento de uma representação podem ser compreendidos

através dos processos de objetivação e ancoragem, que compreendem a imbricação a

articulação entre a atividade cognitiva e as condições sociais em que são forjadas as

representações.

Jodelet (2001) afirma que, de acordo com a Teoria das Representações Sociais, a

objetivação é o processo pelo qual o indivíduo reabsorve um excesso de significações,

materializando-as, ou seja, é um processo de construção formal de um conhecimento, pelo

indivíduo. Já a ancoragem, como instrumento do saber, é uma modalidade que permite

compreender como os elementos de representação não só exprimem relações sociais, mas

também contribuem para construí-las. A ancoragem, portanto, assegura o elo entre a função

cognitiva de base da representação e a sua função social, bem como fornece à objetivação os

elementos imaginativos para servir na elaboração de novas representações.

Segundo Moscovici (2003), a objetivação une a idéia de não-familiaridade com a de

realidade, torna-se a verdadeira essência da realidade. Objetivar é descobrir a qualidade

icônica de uma idéia, ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem.

Sobre a ancoragem o autor afirma que é um processo que transforma algo estranho,

perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um

paradigma de uma categoria que nós pensamos ser apropriada. (p. 61).

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O processo de objetivação é organizado sob três condições estruturantes: construção

seletiva, esquematização estruturante e naturalização. A ancoragem também é organizada sob

três condições estruturantes: a atribuição de sentido, a instrumentalização do saber e o

enraizamento no sistema do pensamento.

Inicialmente, conforme o modelo proposto por Moscovici, as representações sociais

possuíam duas funções: formação de condutas e orientação das comunicações sociais.

Posteriormente, Abric (1994) acrescentou outras duas funções às representações, justificadas

pela evolução das pesquisas realizadas a propósito das cognições e práticas sociais. Foram

elas: a função identitária, que permite salvaguardar a imagem positiva do grupo e sua

especificidade, e a função justificadora, que permite aos atores manterem ou reforçarem os

comportamentos de diferenciação social, nas relações entre grupos (Nóbrega, 2001).

Segundo Vala e Monteiro (2004), as representações sociais apresentam uma dimensão

funcional e prática, que acaba por ser evidente na organização dos comportamentos, das

atividades comunicativas, na argumentação e na explicação cotidianas e na diferenciação dos

grupos sociais.

Moscovici (2003) classifica e analisa os três tipos de sistemas indutores das

representações: difusão, propagação e propaganda. A primeira pode ser caracterizada por uma

indiferenciação dos laços entre o emissor e o receptor da mensagem. Ao contrario, da segunda

que exige uma organização mais complexa das mensagens. Essa modalidade de comunicação

tem propriedades semelhantes às do conceito de atitude (Nóbrega, 2001). E a terceira,

diferentemente das duas anteriores, é uma forma de comunicação de um grupo cuja dinâmica

encontra-se inscrita nas relações sociais conflituosas e que tem por objetivo engendrar a ação

relativa à representação que ele se faz do objeto do conflito.

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4.2 UMA ABORDAGEM ESTRUTURAL:

Para Abric (1998, 2003), as representações sociais são orientadas por um duplo

sistema (central e periférico), que permite compreender uma das características básicas das

representações, que pode parecer contraditória: sendo, simultaneamente, estáveis e rígidas,

por serem determinadas por um núcleo central, profundamente, ancorado no sistema de

valores partilhado pelos membros do grupo; e móveis e flexíveis por se abastecerem das

experiências individuais, integrando os dados do vivido e da situação específica, tomando

como referência à evolução das relações e das práticas sociais, nas quais se inserem os

indivíduos ou os grupos.

Enquanto uma modalidade de conhecimento particular, a representação social tem por

função a orientação de comportamentos e a facilitação da comunicação entre os indivíduos,

considerando a indissociabilidade entre a experiência subjetiva e a inserção social dos

sujeitos. Por conseguinte, as representações sociais dos estudantes de Psicologia pesquisados

sobre os transtornos psicoafetivos podem ser compreendidas como uma interpretação coletiva

da realidade vivida e falada por aquele grupo social, direcionando comportamentos e

comunicações.

Desse modo, identificar as representações sociais acerca da depressão e do suicídio é

compreender as formas que as pessoas utilizam para criar, transformar e interpretar essas

problemáticas, vinculadas à sua realidade. Como também conhecer seus pensamentos,

sentimentos, percepções e experiências de vida compartilhadas; destacadas nas modalidades

diferenciadas de comunicação, de acordo com o contexto cultural e a classe social a que

pertencem; e as instituições às quais se está vinculado, prolongando-se para além das

dimensões intrapsíquicas e concretizando-se em fenômenos sociais palpáveis de serem

identificados e mapeados (Coutinho, 2005).

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Estudar esses dois eixos temáticos ancorados nas Representações Sociais significa

estudá-los não apenas através dos aportes teóricos, normativos e científicos, mas com vistas a

um novo olhar, voltado para a construção de um conhecimento prático e compartilhado por

um determinado grupo de pertença. (Coutinho, 2005; Coutinho e Saldanha, 2005).

Apreender as representações sociais dos acadêmicos de Psicologia acerca da depressão

e do suicídio significa compreender os processos de classificação e nomeação que permitem

entender os transtornos psicoafetivos do anonimato e ancorá-los numa rede de significação, a

partir do consenso desse grupo. Em seu ambiente social, são veiculadas as crenças, opiniões,

sentimentos acerca desses eixos temáticos entre o grupo de pertencimento.

Para se obter a estruturação dos elementos do núcleo central e periférico, utilizou-se a

Teoria do Núcleo Central, considerada como uma proposição teórico-metodológica

complementar ao estudo de Moscovici, de modo a torná-lo mais heurístico, tanto na prática

social quanto na pesquisa. Essa teoria propõe-se a identificar e analisar os processos que

determinam as representações sociais, enquanto conjuntos sócio-cognitivos organizados e

estruturados em dois subsistemas: um sistema central e um sistema periférico (Abric, 1998;

2003).

O conhecimento do conteúdo de uma representação social não é suficiente para defini-

la, sendo necessário identificar os elementos centrais – o núcleo central. Este possibilita à

representação, sua significação, determina os laços que unem entre si os elementos do

conteúdo e que regem sua evolução e sua transformação. É um elemento unificador e

estabilizador das representações sociais (Abric, 2003). O outro subsistema estrutural – o

sistema periférico – organizado em torno do primeiro; funciona na periferia da representação

social, servindo de “pára-choque entre uma realidade que a questiona e um núcleo central que

não deve mudar facilmente” (Flament, 2001, p. 178). Essa afirmação assinala que, para ser

protegido o núcleo central e para ser assegurada a estabilidade de uma representação social,

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na sua periferia, comportam as verbalizações mais subjetivas e menos, freqüentemente,

proferidas pelo grupo de pertença acerca do objeto representacional; e por esse motivo,

absorvidos pelos esquemas periféricos. Desse modo, esse sistema serve de dispositivo para

amortecer o confronto entre a realidade subjetiva e os elementos consensuais, constitutivos do

núcleo central de uma representação social.

As representações sociais referem-se à maneira como as pessoas pensam e interpretam

o cotidiano, constituindo um conjunto de imagens, dotado de um sistema de referência que

permite interpretar sua vida e a ela dar sentido, compartilhando sua interpretação com seu

meio social e cultural (Coutinho e Saldanha, 2005). Desse modo, acessar as representações

sociais da depressão e do suicídio é procurar compreender as formas que as pessoas utilizam

para criar, transformar e interpretar essas problemáticas vinculadas à sua realidade. De acordo

com Coutinho (2005), é também

[...] conhecer seus pensamentos, sentimentos, percepções e experiências de vida


compartilhadas, destacadas nas modalidades diferenciadas de comunicação, de
acordo com o contexto cultural e a classe social a que pertencem e as instituições às
quais se está vinculado, prolongando-se para além das dimensões intrapsíquicas e
concretizando-se em fenômenos sociais palpáveis de serem identificados e mapeados
(p.26)

Compreende-se aqui que, estudar as representações sociais é buscar conhecer o modo

como um grupo humano, neste estudo os estudantes de Psicologia, constroem um conjunto

de saberes acerca de determinado objeto, no caso a depressão e o suicídio. O referencial

teórico da Teoria das Representações Sociais é aqui adotado, enfatizando um saber real,

contribuindo para o entendimento de como indivíduos, futuros profissionais da psicologia,

através de suas representações, dão significado às temáticas pesquisadas.

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4.3 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA DEPRESSÃO E DO SUICÍDIO.

Os fenômenos depressão e suicídio vêm se apresentando como alvos freqüentes de

estudos acerca das representações sociais elaboradas pelos mais diversos grupos de afiliação.

Observou-se na literatura existente um número bem mais acentuado de pesquisas que

investigaram as representações do transtorno depressivo em relação ao comportamento

suicida. Os tópicos a seguir descrevem alguns estudos realizados utilizando-se como aporte

teórico-metodológico a Teoria das Representações Sociais.

As representações sociais da depressão;

Coutinho (2005) realizou uma investigação acerca das representações sociais da

depressão elaboradas por crianças com sintomatologia. Para tanto, utilizou como instrumento

de screening o Inventário de Depressão Infantil (CDI), e em seguida fez uso da Técnica de

Associação Livre de Palavras, Entrevistas semi-estruturadas e do Desenho-estória com Tema.

Através da análise dos dados, a autora percebeu que para as crianças pesquisadas

representaram a depressão como uma doença causada pela tristeza, dor e separação, enquanto

que o ser depressivo foi representado como uma pessoa nervosa, que chora e não interage.

Um outro estudo foi realizado por Coutinho et al (2003) em escolas públicas e grupos

de conveniência para idosos, na cidade de João Pessoa, PB. Participaram da amostra 32

crianças e 31 idosos. Foram utilizados os instrumentos: Inventário de Depressão de Beck -

BDI, Inventário de Depressão Infantil – CDI, Entrevistas Semi-Estruturadas e a Técnica de

Associação Livre de Palavras. Os resultados apontaram convergências e divergências quanto

às concepções, causas e tratamentos da depressão. Observou-se que nas representações dos

atores sociais elementos figurativos como: a tristeza e a morte, oriundos de situações

traumáticas, carências existenciais, isolamento social e sentimentos de rejeição. Percebeu-se

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que ambos os grupos apreenderam suas representações não apenas pelo conhecimento teórico

e comunicação informal, mas também pelo conjunto de problemas imediatos que se

defrontam na vida cotidiana.

Na pesquisa realizada por Barros et al (2006), que teve como objetivo apreender as

representações sociais da depressão elaboradas por adolescentes inseridos no contexto do

ensino médio, os resultados indicaram que os grupos apresentaram algumas divergências,

sendo a mais significativa delas relacionadas às causas da depressão. Os adolescentes da

escola pública atribuíram esta patologia à causas mais voltadas à dimensão psicossocial,

objetivadas em fatores concretos oriundos das inibições sociais e econômicas.

Diferentemente, os adolescentes da escola privada atribuíram às causas da depressão a

dimensões afetivas e psicológicas.

Fonseca (2007), objetivou estudar, através do suporte teórico – metodológico das

Representações Sociais (RS), a depressão sob o ponto de vista dos estudantes universitários

dos cursos de Psicologia e Medicina. A forma como os participantes representaram a doença

foi diferenciada: para os estudantes do primeiro curso foram evidenciados os fatores

emcocionais, enquanto para o segundo os fatores orgânicos foram mais comumente apontados

como determinantes da depressão.

Um estudo desenvolvido por Monteiro, Coutinho e Araújo (2007), teve como objetivo

apreender as representações sociais da depressão elaboradas por adolescentes com e sem

sintomatologia depressiva no contexto do ensino médio em escolas públicas e privadas.

Utilizaram o Inventário de Depressão Infantil - CDI no rastreamento da amostra e o teste de

associação livre de palavras entre os 210 participantes.Os resultados indicaram que as

representações sociais elaboradas pelos estudantes sem sintomatologia ancoram a depressão

na morte e na dor, ao passo que os adolescentes com sintomatologia depressiva basearam-se

na solidão e na droga. Esses resultados sugerem que a depressão pode interferir

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negativamente no cotidiano, nas atividades escolares, na auto-estima e na sociabilidade na

adolescência.

As representações sociais do transtorno depressivo também foram alvo de investigação

no estudo de Santana (2007). Neste, os participantes foram idosos vinculados a instituições de

curta e longa permanência, onde se observou que considerando-se os resultados de ambos os

grupos, as representações sociais da sintomatologia da depressão foram ancoradas em

elementos psicoafetivos e orgânicos, relacionados diretamente com a realidade social do

contexto e das instituições onde se encontravam inseridos os participantes da pesquisa. Desta

maneira, independente das diferenças individuais e/ou grupais, a depressão foi representada

figurativamente como sendo sinônimo de doença, tristeza e dor na alma.

Saraiva (2007) realizou sua investigação utilizando um tipo específico da depressão, a

pós parto, objetivando apreender as representações sociais desta patologia elaboradas por

mães puérperas com e sem sintomatologia. Tais representações denotaram uma aproximação

com a concepção de depressão descrita tradicionalmente pela nosologia psiquiátrica.

Comparado as manifestações registradas nas falas das puérperas, a autora constatou que o

campo semântico que emergiu das mães com sintomatologia de depressão aglutinava poucos

elementos consensuais, significando que, para representar a depressão, as mães deprimidas

tiveram dificuldades em emitir palavras para expressarem este transtorno.

As representações sociais do suicídio;

Como já foi dito anteriormente as representações sociais do comportamento suicida

tem sido pouco investigadas pela literatura especializada. Dentre os poucos estudos realizados

encontra-se o de Igue, Rolim e Stefanelli (2002), que objetivou apreender as representações

que os membros de uma equipe de enfermagem de uma instituição psiquiátrica possuía acerca

do suicídio. Observou-se que os participantes representaram este fenômeno como um ato

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decorrente de uma escolha própria, uma auto e hetero - agressão, causada por uma falta de

perspectiva diante da vida.

Araújo (2007) investigou as representações sociais da ideação suicida elaboradas por

adolescentes inseridos no contexto escolar. A autora observou que, para os participantes, a

ideação suicida mostrou-se consistentemente associada a fatores relacionados à depressão

(sentimentos de desesperança e solidão).Percebeu-se também a associação do pensamento de

morte à solidão, tragédia, raiva e também a palavra ajuda como e,elemento representativo

para esse fenômeno.

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CAPÍTULO V
PERCURSO METODOLÓGICO - MÉTODO

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CAPÍTULO V

MÉTODO

5.1 TIPO DE ESTUDO

O presente estudo trata de uma pesquisa de campo, ancorada em uma abordagem

multimétodo de cunho qualitativo e quantitativo, fundamentado nos aportes teóricos e

metodológicos das Representações Sociais.

Qualitativo porque se fundamenta na pesquisa qualitativa, que segundo Gonzalez Rey

(2002) debruça-se sobre o conhecimento de um objeto complexo: a subjetividade, cujos

elementos estão implicados, simultaneamente, em diferentes processos constitutivos do todo,

dos quais mudam em face do contexto em que se expressa o sujeito concreto.

Ainda de acordo com o autor acima citado, a pesquisa qualitativa se diferencia da

quantitativa por estar orientada à produção de idéias, ao desenvolvimento da teoria, e nela o

essencial é a produção do pensamento, não o conjunto de dados sobre os quais se buscam

significados de forma despersonalizada na estatística.

O cunho quantitativo desta pesquisa diz respeito aos dados obtidos através do teste de

Associação Livre de Palavras que serão processados pelos softwares Evoc e Tri-Deux-Mots, e

interpretados por meio da Análise Fatorial de Correspondência (AFC).

5.2 LOCUS DO ESTUDO;

O presente estudo foi realizado numa universidade pública do estado da Paraíba.

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5.3 AMOSTRA;

A amostra foi do tipo não-probabilística, intencional e acidental; constituída por 233

estudantes universitários do curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, de

ambos os sexos, regularmente matriculados desde o 1º ao último período. A justificativa da

amostra se deu mediante duas razões; a primeira refere-se a faixa etária dos participantes,

predominantemente jovem, levando-se em consideração o significativo crescimento dos

fenômenos pesquisados neste período do desenvolvimento. O outro motivo diz respeito à

formação e atuação destes futuros profissionais da saúde, mais especificamente da saúde

mental.

5.4 INTRUMENTOS;

Para obtenção dos dados, foram utilizados os seguintes instrumentos: a Associação

Livre de Palavras, o Questionário Sócio-demográfico, a Escala de Ideação Suicida de Beck

(BSI), o Inventário de Depressão de Beck (BDI), bem como um questionário sócio-

demográfico, contendo algumas informações sobre os participantes.

5.4.1 Técnica de Associação Livre de Palavras;

O Teste de Associação Livre de Palavras, originalmente, desenvolvido por Jung na

prática clínica, teve como objetivo realizar diagnóstico psicológico sobre a estrutura da

personalidade do sujeito. Esse teste foi adaptado no campo da Psicologia Social por Di

Giacomo (1981) e desde então vem sendo, amplamente, utilizado nas pesquisas sobre as

representações sociais.

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Nóbrega e Coutinho (2003) destacam que, diferentemente dos objetivos clínicos de

Jung, os pesquisadores em Representações Sociais visam identificar as dimensões latentes nas

RS, através da configuração dos elementos que constituem a trama ou rede associativa dos

conteúdos evocados em relação a cada estímulo indutor.

O Teste de Associação Livre de Palavras é um tipo de investigação aberta que se

estrutura através da evocação de respostas dadas a partir de um ou mais estímulos indutores.

Estes devem ser previamente definidos em função do objeto a ser pesquisado ou objeto da

representação, levando-se em consideração também as características da amostra ou sujeitos

da pesquisa.

5.4.2 Escala de Ideação Suicida de Beck (BSI);

A Escala de Ideação Suicida de Beck (BSI – Beck Scale for Suicide Ideation) foi

validada aqui no Brasil por Cunha com et al (1997). É uma versão de auto-relato de outro

instrumento clínico, a SSI, Scale for Suicide Ideation, apresentada por Beck, Kovacs e

Weissman (1979). A SSI consistia num instrumento sistemático, que fornecia indicadores de

risco de suicídio, num tipo de entrevista semi-estruturada.

A BSI é constituída por 21 itens. Os primeiros 19 itens, apresentados com três

alternativas de respostas, refletem gradações da gravidade de desejos, atitudes e planos

suicidas. Os dois últimos itens, não incluídos no escore final, de caráter informativo, fornecem

importantes subsídios sobre o paciente, a respeito do número de tentativas prévias de suicídio

e quanto à seriedade da intenção de morrer na última delas.

A BSI foi estruturada de forma a permitir que os cinco primeiros itens possam ser

usados como triagem da ideação suicida. Assim sendo, se a resposta do examinado for 0 ao

grupo de afirmações 4 – “indicando ausência de intenção ativa” – ou ao grupo de número 5 –

“indicando evitação de morte, se confrontado com uma situação ameaçadora para a vida” –
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ele deverá ser orientado a passar imediatamente ao item 20, deixando de dar resposta aos 14

seguintes (Cunha, 2001). Tais itens são mais específicos, a respeito de planos e atitudes, com

uma intenção suicida subjacente. Caso tenha havido qualquer escolha diferente de 0, no item

4 ou 5, o examinando fará escolhas referentes aos grupos de afirmações dos itens 6 a 19.

Quanto ao item 20, deve ser respondido por todos os examinandos, tenham ou não

preenchido os 14 itens anteriores. Já o item 21 só será respondido por sujeitos com história de

alguma tentativa prévia de suicídio.

5.4.3 Inventário de Depressão de Beck (BDI);

Outro instrumento a ser utilizado é o Inventário de Depressão de Beck (BDI). O BDI

(Beck Depression Inventory) é a sigla pela qual é, universalmente, conhecido o instrumento

Inventário de Depressão, para medida da intensidade da depressão, um dos primeiros recursos

dimensionais desse tipo.

O BDI foi, originalmente, criado por Beck, Ward, Mendelson, Mock e Erbaugh (1961)

e revisado por Beck, Rush, Shaw e Emery (1979/1982). É uma escala de auto-relato, de 21

itens, cada um com quatro alternativas, subentendendo graus crescentes de gravidade da

depressão, com escores de 0 a 3. (Cunha, 2001).

O BDI é indicado para sujeitos de 17 a 80 anos, embora citem a existência de

pesquisas desenvolvidas aquém e além desse período etário. Também, na literatura,

encontram-se varias referências a estudos em amostras de adolescentes.

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5.4.4 Entrevistas em Profundidade;

Foram realizadas 20 (vinte) entrevistas em profundidade, também conhecidas como

entrevistas abertas, que segundo Minayo (1998a), é aquela em que o entrevistado tem a

possibilidade de discorrer sobre o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo

pesquisador. De acordo com a autora, esse tipo de entrevista não é, simplesmente, um

trabalho de coleta de dados, mas uma situação de interação social entre o pesquisador e o

entrevistado. Trata-se de uma condição de aprofundamento de uma relação intersubjetiva, em

que o afetivo, o existencial, o contexto do dia-a-dia, as experiências e a linguagem do senso

comum são condições essenciais para apreender o objeto de um estudo qualitativo (Minayo,

1998a, p. 124).

5.5 ASPECTOS ÉTICOS;

Considerando os aspectos éticos referentes à pesquisa envolvendo seres humanos, o

presente estudo foi submetido à avaliação, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa

do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade Federal da Paraíba.

5.6 PROCEDIMENTO PARA COLETA DOS DADOS;

A fase de coleta dos dados foi realizada nos meses de novembro e dezembro de 2006,

de forma coletiva a todos os participantes. Foi feito um contato prévio com os professores,

que concordaram em ceder um tempo de suas aulas para que os alunos participassem da

pesquisa em sala de aula.

Os estudantes foram previamente informados a respeito dos objetivos e procedimentos

da pesquisa, bem como, da confiabilidade dos dados e do anonimato da sua colaboração. Em

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seguida, foi solicitado que assinassem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de

acordo com as normas da Resolução 196/96 sobre Pesquisa Envolvendo Seres Humanos.

Os instrumentos foram utilizados na seguinte ordem: Teste de Associação Livre de

Palavras (ALP), Questionário Sócio-demográfico, BDI – Inventário de Depressão de Beck, e

por fim, a BSI – Escala de Ideação Suicida de Beck.

Quanto às entrevistas, estas foram realizadas de maneira individual, aleatoriamente,

sem levar em consideração os resultados apreendidos pelos instrumentos anteriores. Também

foi solicitado que assinassem o Termo de Consentimento Livre e esclarecido, sendo as

entrevistas gravadas com o devido consentimento dos participantes.

5.7 ANÁLISE DOS DADOS;

5.7.1 Análise da Técnica de Associação Livre de Palavras;

Os dados obtidos através do teste de Associação Livre de Palavras foram processados

por dois softwares: o Evoc e o Tri-Deux-Mots.

Antes dos dados serem lançados nos softwares, foram realizadas etapas sucessivas de

organização do material coletado. Cada etapa caracteriza-se da seguinte forma:

Elaboração do Dicionário: O dicionário é formado a partir da digitação de todas as

respostas dos participantes referentes aos três estímulos indutores.

Organização de Categorias: A organização das categorias dá-se a partir de critérios de

similaridade semântica entre as palavras. O agrupamento das palavras com

similaridade semântica tem a função de evitar a redundância e torná-las,

estatisticamente, significativas.

Banco de Dados: O banco de dados é construído a partir de todas as variáveis fixas e

de opinião referentes a cada estímulo indutor, evocadas pelos participantes.

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Análise da Técnica de Associação Livre de Palavras através do software Tri-

Deus-Mots

O Tri-Deux-Mots (Cibois, 1998) compreende um conjunto de cinco programas

computacionais, Impmot, Tabmot, Ecapem, Anecar e Planfa, que, mediante o seu

processamento, possibilita a representação gráfica da atração e do distanciamento obtidos

entre as variáveis fixas, identificadas pelo Questionário sócio-demográfico e as variáveis de

opinião, obtidas pelas respostas dos participantes aos estímulos indutores coletados pela

técnica de Associação Livre de Palavras. Esse conjunto de programas computacionais revela-

se bastante apropriado para o tratamento de questões abertas, questões fechadas e associação

livre de palavras (Oliveira; Amâncio; Sampaio, 2001).

Os dados foram interpretados por meio da análise fatorial de correspondência (AFC).

Esse procedimento fornece uma representação gráfica composta por eixos ou fatores (F1 e

F2), que revelam a atração obtida entre as variáveis fixas e as de opiniões, que são formadas

pelas respostas de associação do sujeito, face aos estímulos indutores, que foram: depressão

(Estímulo 1), suicídio (Estímulo 2) e eu mesmo (Estímulo 3).

Análise da Técnica de Associação Livre de Palavras através do software EVOC

O outro programa computacional utilizado para processar os dados apreendidos pela

técnica de Associação Livre, o Evoc (Vergés, 2002), compreende um conjunto de 16

programas informatizados, que permite a identificação dos temas que emergem do núcleo

central e do sistema periférico das representações sociais, a partir das respostas a cada um dos

estímulos indutores, de acordo com Abric (1998) e Sá (1998).

A partir do banco de dados construído para o processamento do Tri-Deux-Mots,

aproveitou-se a mesma disposição de variáveis fixas e de opinião utilizadas; e foram

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elaborados três bancos de dados correspondentes ao conjunto de palavras emitidas, a partir de

cada um dos três estímulos indutores.

Após a preparação do banco de dados, foi processado o software, de modo a realizar

uma análise lexicográfica, demonstrando, graficamente, as palavras pertencentes ao núcleo

central e ao sistema periférico das representações sociais.

É identificada à freqüência de aparecimento dos termos evocados e a ordem de

aparecimento das respostas registradas. O primeiro lugar é reservado para a evocação

preferida pelo participante; e os demais lugares seqüenciais são, automaticamente,

estabelecidos pelo programa, obedecendo à ordem da emissão das respostas (o segundo lugar

é a primeira resposta dada pela participante e assim por diante).

O gráfico construído permite o estabelecimento de quatro quadrantes, representados

num esquema figurativo, em que podem ser identificadas. No quadrante superior esquerdo, as

evocações que, provavelmente, constituem parte do núcleo central. Já no inferior direito, as

evocações que provavelmente pertencem ao sistema periférico, enquanto que as demais

evocações são consideradas como intermediárias e merecedoras de interpretação dentro do

contexto dos resultados obtidos.

Entre os elementos periféricos ocorre o inverso, com as palavras evocadas com menor

freqüência e de pouco preferência. Os elementos intermediários apresentam variações nesses

valores, com as palavras contidas no quadrante inferior esquerdo tendo uma freqüência de

evocação inferior à freqüência média das palavras e as mais preferidas, ao passo que o

quadrante superior direito possui uma freqüência maior que a freqüência média, combinada

com as evocações menos prioritárias.

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5.7.2 Análise do BDI – Inventário de Depressão de Beck;

O Inventário de Depressão de Beck (BDI) foi utilizado para identificar a presença da

depressão nos estudantes, bem como avaliar a severidade desse transtorno. Segundo Cunha

(2001), os critérios de corte para os diferentes níveis de depressão são os seguintes: 0-9 

depressão mínima; 10-16 depressão leve; 17-29  depressão moderada; 30-63 depressão

severa. A autora citada ressalta, porém, que os pontos de corte podem variar conforme o

propósito do examinador e a amostra.

5.7.3 Análise da BSI – Escala de Ideação Suicida de Beck;

Nos casos que, em resposta ao item 4 ou 5, o sujeito revelar a existência de alguma

intenção suicida, respondendo, portanto, aos itens 6 a 19, pode-se avaliar a gravidade da

ideação suicida, somando os escores dos itens individuais (de 1 a 19) e obtendo um total. De

acordo com Cunha (2001), os itens 20 e 21 são meramente informativos e não são

recomendados pontos de corte específicos.

A presença de qualquer escore diferente de 0, em qualquer item, revela a existência de

ideação suicida. A BSI possibilita a análise sob dois pontos de vista: a) a presença ou não da

ideação suicida; e b) a intensidade com que cada indivíduo deseja morrer, se tem intenções,

planos detalhados, ou se tem em vista algum método, preparando-se para chegar à execução

de um ato suicida e, naturalmente, o grau com que admite isso.

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5.7.4 Análise das Entrevistas

Todas as entrevistas foram gravadas mediante permissão concedida, anteriormente,

pelo participante. Após a gravação de todas as entrevistas, as narrativas foram transcritas e os

conteúdos apreendidos foram analisados por meio da análise de conteúdo temático. De acordo

com Bardin (2002), a análise de conteúdo constitui:

um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por


procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens,
indicadores (quantitativos ou não) que permitem a inferência de conhecimentos
relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas
mensagens... (p. 42).

Segundo a autora citada, a análise das entrevistas deve seguir a ordem das etapas

descrita a seguir. A primeira, de constituição do corpus, foi formada pelos textos transcritos

das entrevistas; em seguida, foi feita a leitura flutuante, livre para tornar possível detalhar,

tornando-as mais orientadas e concisas, o que permitiu a composição das Unidades de

Análise, que consiste na emersão e definição das categorias emergentes e empíricas,

codificadas e validadas, internamente, por dois pesquisadores que trabalham com o mesmo

referencial teórico-metodológico. Destaca-se que as categorias empíricas foram elaboradas a

posteriori, para que fosse possível a apreensão de todos os conteúdos que emergiram a partir

das narrativas dos participantes, transcritas das entrevistas. Depois da composição das

unidades temáticas, foi a vez da codificação e recortes, por meio do agrupamento do material

decomposto em subcategorias e categorias simbólicas e, finalmente, da descrição das

categorias identificadas.

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CAPÍTULO VI
RESULTADOS E DISCUSSÃO

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CAPÍTULO VI

RESULTADOS E DISCUSSÃO

6.1 PERFIL DOS PARTICIPANTES;

Em conformidade ao segundo objetivo específico, foi traçado um perfil dos

participantes, com a finalidade de se conhecer, de forma mais aprofundada, aspectos

relacionados à vida dos atores sociais. Esse perfil encontra-se descrito na tabela 1.

Tabela 1: Perfil sócio-demográfico dos estudantes do curso de Psicologia (N=233).

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6.2 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS APREENDIDOS PELA TÉCNICA DE


ASSOCIAÇÃO LIVRE DE PALAVRAS – TALP.

6.2.1 Análise e discussão dos dados obtidos pelo software Tri-Deux-Mots;

Os dados coletados através da Técnica de Associação Livre de Palavras foram

processados pelo software Tri-Deux-Mots, e analisados pela Análise Fatorial de

Correspondência (AFC), que oferece uma leitura gráfica das variações semânticas na

organização do campo espacial; revelando aproximações e oposições das modalidades. É

possível também apreender a atração entre as variáveis fixas (período do curso, faixa etária e

sexo) e as de opinião, que correspondem às palavras evocadas pelos sujeitos para cada um dos

estímulos utilizados («depressão», «suicídio» e «eu mesmo»).

A análise dos resultados foi orientada pela leitura do gráfico a seguir:

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Figura 1 – Análise Fatorial de Correspondência das Representações Sociais da Depressão e do Suicídio.

Em relação ao fator 1, no lado esquerdo do gráfico, em itálico, emergiu o campo

semântico elaborado pelos estudantes dos últimos períodos do curso (7º, 8º, 9º e 10º

períodos), que se auto-representaram como pessoas otimistas, que se encontram em processo

de busca, o que lhes traz cansaço e ansiedade. A depressão foi representada como uma

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tristeza, uma melancolia, que gera ansiedade, angústia, dor, apatia e incapacidade, podendo

levar à morte. O suicídio também foi objetivado pelo elemento morte, sendo ele motivado por

um sentimento de desesperança perante a vida.

Observa-se que, apesar da vivência da transação entre o estudante e o profissional,

estes universitários conservam o otimismo durante essa busca por sua identidade profissional.

O cansaço a que os estudantes se referem, provavelmente, pode estar relacionado ao período

no qual os dados foram coletados, ou seja, próximo ao término do período letivo da

universidade. Percebe-se que a depressão foi ancorada no conhecimento erudito oriundo da

nosologia da psicologia clínica e da psicanálise. O elemento morte, presente tanto na

objetivação da depressão, quanto do suicídio, indica a existência de uma relação entre as

representações sociais desses dois fenômenos.

Ainda no fator 1, no lado direito, em oposição às respostas dos participantes

matriculados nos últimos períodos do curso, emergiu o campo semântico elaborado pelos

estudantes com idades entre 23 e 27 anos, que se auto-representaram como pessoas

extrovertidas, amorosas e ligadas à família. A depressão foi representada como uma tristeza,

enquanto que o suicídio representa uma fuga, uma desistência da vida diante de uma

desilusão.

Observa-se que esse grupo de afiliação se auto-representou ancorando-se em

manifestações sociais, afetivas e comportamentais, caracterizando uma auto-imagem positiva.

A representação dada à depressão é oriunda da nosologia clínica, destacando-se seu principal

elemento, a tristeza. O suicídio, representado como uma fuga, e pode ser compreendido como

uma saída encontrada pelo individuo para a solução de seus problemas.

Em relação ao fator 2, na parte superior, emergiu o campo semântico elaborado pelos

estudantes dos primeiros períodos (1º, 2º e 3º período), que se auto-representaram como

estudantes, tímidos e leais. A depressão foi representada como uma doença, causadora de

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medo, angústia e escuridão, decorrentes de uma desilusão na vida. O suicídio também foi

representado como uma doença, decorrente de um desequilíbrio, que causa medo e tristeza,

caracterizando o fim da vida.

Percebe-se que as auto-representações desse grupo de afiliação foram ancoradas em

manifestações próprias de acadêmicos de início de curso de graduação, enfocando sua

timidez, lealdade e papel social de estudante. Observa-se também que, para os universitários

do inicio do curso, as representações da depressão e do suicídio são bastante semelhantes,

uma vez que os atores sociais utilizaram evocações similares para representarem esses dois

fenômenos.

Por contraste, na parte inferior do fator 2, surgiu o campo semântico constituído pelos

estudantes do 4º, 5º e 6º períodos, que se auto-representaram como esforçados, perseverantes

e estressados. A depressão foi representada como uma solidão, causadora de um sofrimento

psíquico, que se deve buscar ajuda. O suicídio foi representado como um ultimato, problema

para o qual se faz necessário o apoio da família.

Observa-se que esses estudantes se auto-representaram ancorando-se em

manifestações decorrentes de sua dinâmica acadêmica, indicando dificuldades nesse percurso,

mas também destacando vontade de seguir em frente. A depressão e o suicido foram

ancorados nos sintomas clínicos, onde se enfoca para os dois fenômenos a necessidade de

ajuda, no caso do suicídio, uma ajuda mais específica, a da família. Mais uma vez, percebem-

se, através das evocações dadas pelos atores sociais, semelhanças entre as representações

sociais dos dois estímulos.

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6.2.2 Análise e discussão dos dados obtidos pelo software EVOC;

A partir dos dados obtidos no Teste de Associação Livre de Palavras e do seu

processamento pelo EVOC, foi possível elaborar as Figuras 1 e 2, contendo as palavras

evocadas, a sua freqüência e a ordem média de aparecimento das respostas.

Figura 2 – Quadrante de distribuição das evocações livres dos estudantes de Psicologia no Teste de Associação
Livre de Palavras para o estímulo-indutor “depressão” (N=233).

De acordo com a Figura 2, para o estímulo-indutor «depressão», cada palavra evocada

foi registrada com sua respectiva freqüência acima ou abaixo de 10; e ordem de aparecimento

da resposta acima ou abaixo de 2,6. As respostas dos participantes indicaram, no quadrante

superior esquerdo, no seu núcleo central, as evocações «tristeza, dor, sofrimento e ruim». Os

sentimentos de tristeza, sofrimento e dor psíquica, enquanto elementos unificadores e

estabilizadores das representações sociais acerca da depressão, expressa o sofrimento psíquico

que acompanha a vivência subjetiva e social dos acadêmicos investigados, que se relacionam

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ao senso comum, já identificados em outros grupos de pertencimento, como crianças,

adolescentes, adultos jovens.

Essa representação social acerca da depressão está ancorada no conhecimento erudito,

manifesto pela nosologia psiquiátrica ou pela psicologia clínica, cujos estudos remetem às

descrições internacionais da depressão, enquanto transtorno psico-afetivo ou do humor, a

exemplo, do que apresenta a CID-10 da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2007)

combinada com o DSM -IV, da Associação Psiquiátrica Americana (APA, 1994).

A outra evocação que emerge, no núcleo central da representação social da depressão,

ao lado da tristeza, do sofrimento e da dor, refere-se ao elemento «ruim»; que expressa uma

dimensão afetivo-atitudinal em relação ao sofrimento psíquico, denunciando duas vivências

possíveis experimentadas pelo grupo investigado: por um lado, a indireta informação de que

conhecem a dor do sofrimento psíquico e, por outro lado, a presença de um sentimento de

alteridade, uma vez que, muito embora não tenham experimentado esse transtorno

psicoafetivo, eles se identificam, na relação com o seu grupo de pertença, com os colegas

depressivos, representando socialmente esse sofrimento psíquico.

Os sistemas periféricos próximos e distantes, localizados, respectivamente, nos

quadrantes superior direito/inferior esquerdo e no quadrante inferior direito da Figura 2,

parecem desdobrar o conceito unificador de «tristeza, dor e sofrimento», nos elementos

denotativos de «angústia, ansiedade, estresse», que revelam o conjunto de sintomas presentes

no sentimento de abandono («solidão, vazio, isolamento, ausência e carência»), no «choro»,

associado aos elementos de «descrença, frustração e medo», e às queixas psicossomáticas, do

tipo «doença, fadiga e desânimo». O elemento «remédio» pode sinalizar a objetivação da

depressão ancorada no seu tratamento, principalmente, dando ênfase às manifestações físico-

orgânicas do sofrimento psíquico. Essa constatação também vem reforçar a convergência do

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senso comum com os estudos eruditos, as pesquisas científicas, que manifestam

conceituações da vivência do adoecer psíquico, situadas na esfera físico-orgânica.

Destaca-se, ainda, nesse conjunto de evocações, que emergiram do estímulo

“depressão”, que os estudantes pesquisados, consensualmente, associaram o sofrimento e a

dor psíquica ao elemento «suicídio», presente no sistema periférico próximo da estrutura

representacional da depressão.

Figura 3 – Quadrante de distribuição das evocações livres dos estudantes de Psicologia no Teste de Associação
Livre de Palavras para o estímulo-indutor “suicídio” (N=233).

De acordo com a Figura 3, para o estímulo-indutor «suicídio», cada palavra evocada

foi registrada com sua respectiva freqüência acima ou abaixo de 10, e com a ordem de

aparecimento da resposta, acima ou abaixo de 2,4. As respostas dos estudantes de Psicologia

apresentaram, no núcleo central, o elemento «morte», ancorando, portanto, a representação

social do suicídio no comportamento suicida classificado por Werlang, Borges e Fensterseifer

(2005), na sua maior gravidade: o ato consumado. Ainda, na centralidade dessa representação
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social, o elemento «morte» vem acompanhado das objetivações «desespero, depressão e

fraqueza», que assinalam a ancoragem em fatores desencadeantes do ato suicida, focalizados

no estado de sofrimento psíquico, de desesperança, de angústia e de fraqueza do ser suicida.

Observa-se que, eles centralizam e estabilizam a representação social do suicídio,

apresentando uma dimensão valorativa e atitudinal ao suicida, atribuindo-lhe uma condição

negativa de um ser fraco («fraqueza»).

Com respeito ao vocábulo fraqueza, chamam a atenção os dois sentidos possíveis para

significado do ser fraco. Por um lado, percebe-se um estado de qualidade de fraco, enquanto:

falta de força, de vigor, de solidez ou energia; debilidade, fragilidade, desânimo e desalento.

Nesse sentido, portanto, a fraqueza deve ser entendida como uma manifestação,

predominantemente, orgânica. De outro lado, pode significar uma avaliação negativa na

direção de uma falha ou defeito, como covardia, falta de obstinação, ou seja, o lado fraco de

um caráter de um ser, o que revela uma propensão para ceder a sugestões, imposições ou

impressões. Fraqueza aqui deve ser encarada como uma manifestação psicológica.

Essas duas esferas da representação social do suicídio, a partir da evocação

«fraqueza», são corroboradas pelas manifestações valorativas de que o suicídio é um ato de

«covardia e fuga», elementos presentes no sistema periférico próximo, ilustrado no quadrante

superior direito da Figura 3. Nesse quadrante, ainda são evidenciados elementos psicoafetivos

em que é ancorada a representação social da depressão («tristeza, dor, angústia, solidão e

sofrimento»), assim como a expressão «loucura» componente da espera neuro-psíquica.

Chama atenção a expressão «escolha» observada na periferia próxima ao núcleo

central, denotando, provavelmente, uma interpretação da realidade psicossocial que envolve

os adultos jovens universitários, enquanto, profundamente, nefasta e sofrida, que naturaliza o

senso comum do ato suicida, como uma preferência ou opção, ação eleita ou escolhida

(«escolha») diante do sofrimento e da dor psíquica que desbota ou desvanece o brilho da

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existência desses estudantes de Psicologia. Nessa direção, compreendem-se as expressões

«perda e luto», no contexto do prejuízo, do dano, da desgraça e do desaparecimento de um

jovem no auge da sua mocidade, como conseqüência da concretização do ato suicida.

A reação psicossocial a esse estado de morbidez, que acompanha os elementos

representacionais do suicídio expressados pelos participantes, congrega palavras pouco

consensuais, pois que agrupadas na periferia distante ilustrada no quadrante inferior direito da

Figura 3, mas denotadoras de forte apelo de resistência: «nunca, desejo e vida». A menção à

«família» parece resgatar os elos de vida que os trazem à realidade e os mantém vigilantes e

escudados, frente aos impulsos destrutivos advindos do sofrimento psíquico. O «desamor» e a

«punição» são os elementos aversivos que os protegem de pensamentos suicidas e da

concretização do ato de atentar contra sua própria vida.

As representações sociais acerca do suicídio parecem apontar para situações

contrastantes, que oscilam entre a vida e a morte, possivelmente, sinalizando para uma tênue

linha divisória que separa o viver e o morrer. Essa oscilação encontra-se presente na

naturalização do suicídio, enquanto uma possibilidade muito próxima dos estudantes de

Psicologia investigados, sugerindo a convivência com ideação suicida dentro do seu grupo de

pertencimento.

As evocações constantes dos sistemas central e periférico das representações sociais

da «depressão» e do «suicídio» elaboradas pelos estudantes parecem demonstrar uma

estrutura representacional semelhante e interligada. Este paralelo está posto uma vez que as

objetivações registradas para o estímulo-indutor suicídio são, expressamente, carregadas do

elemento «depressão», no núcleo central, e das próprias representações sociais desse objeto

social, no sistema periférico que emergiu do estímulo suicídio «tristeza, dor e sofrimento».

Por sua vez, esses últimos elementos constituem o núcleo central da representação social da

depressão elaborada pelos participantes.

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Entretanto, de acordo com os elementos constantes do núcleo central dos dois objetos

representacionais, observa-se que essas semelhanças e interligações apontam, ainda, para uma

maior interdependência do suicídio com relação à depressão. Do ponto de vista da

representação social da depressão, os atores sociais investigados evocaram o suicídio no seu

sistema periférico.

6.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS APREENDIDOS PELO INVENTÁRIO

DE DEPRESSÃO DE BECK – BDI.

Em concordância com o terceiro objetivo específico, foi feito um levantamento para se

investigar o índice epidemiológico da depressão nos alunos do Curso de Psicologia. Nestes,

observou-se que dos 233 estudantes, 25 apresentaram pontuação acima do ponto de corte (16)

proposto por Cunha (2001), o que representa um índice de 10,73% da amostra total, conforme

demonstra a figura 4.

100 89,27

80

60
Sem sintomatologia

40 Com sintomatologia

20 10,73

Figura 4: Percentagens de participantes com sintomatologia da depressão.

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O BDI classifica os níveis de escores em quatro grupos: Depressão Mínima (0 a 9

escores); Depressão Leve (10-16); Depressão Moderada (17-29); Depressão Severa (30-63).

Os resultados do Inventário de Depressão de Beck aplicado aos estudantes de Psicologia

revelam que a maioria deles (71,67%) classifica-se no primeiro grupo, o qual não corresponde

a um quadro de depressão, como pode ser verificado na figura a seguir. Nesta mesma, pode-se

constatar que 17,6% dos estudantes estão na classificação de depressão leve, enquanto 7,73%

classificam-se como depressão moderada. Observou-se também a ocorrência de sete casos de

depressão severa, o que corresponde a 3% da amostra.

80 71,67
70
60
Depressão Mínima
50
Depressão Leve
40
Depressão Moderada
30
17,6 Depressão Severa
20
7,73
10 3
0

Figura 5: Freqüência de escores no Inventário de Depressão de Beck - BDI (N=233).

Utilizando o ponto de corte proposto por Cunha (2001), o de 16 escores, observou-se

um índice de 10,73% da amostra total, somando-se os estudantes com depressão moderada e

severa. A tabela a seguir traça um perfil de acordo com os sintomas da depressão mais

eminentes na população estudada, sendo possível, pois, assinalar as principais manifestações

desse transtorno.

97
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Tabela 2: Freqüência de maiores escores do Inventário de Depressão de Beck - BDI

(N=25).

Os principais elementos representativos da depressão, encontrados nos participantes

foram os relacionados à tristeza, à autocrítica, à insatisfação, à ideação suicida e ao

sentimento de culpa. Observou-se que esses elementos são similares aos apontados pela

nosologia psiquiátrica como principais sintomas da depressão. Observou-se também o

aparecimento da ideação suicida, objeto de nossa investigação, como uma das características

mais eminentes no quadro depressivo.

A partir dos dados apreendidos pelo questionário sócio-demográfico foi possível traçar

um perfil desses universitários que pontuaram no Inventário de Depressão de Beck (BDI),

conforme demonstra a Tabela 3.

De acordo com esse perfil, constatou-se que dos 25 estudantes com depressão, 20

(80%) eram do sexo feminino e 5 (20%) do sexo masculino. A maioria (92%) encontrava-se

na faixa etária dos 18 aos 22 anos. Em relação ao estado civil, todos os estudantes afirmaram

serem solteiros; e apenas 12% deles trabalhavam.

No que se refere à renda familiar, observou-se que 8 estudantes (32%) possuíam renda

de até 3 salários mínimos, 9 (36%) estudantes possuíam renda familiar entre 4 a 7, 8 (32%)

afirmaram possuir renda entre 8 a 11. Quanto à habitação: 16% dos estudantes afirmaram

98
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morar sozinhos; a maioria, ou seja, 44% moravam com os pais; 20% moravam com colegas e

outros 20% possuíam outro tipo de moradia.

Tabela 3: Perfil dos estudantes com depressão segundo o Inventário de Depressão de

Beck - BDI (N=25).

99
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6.4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS APREENDIDOS PELA ESCALA DE

IDEAÇÃO SUICIDA DE BECK – BSI;

Em conformidade ao quarto objetivo específico, o de identificar a presença da ideação

suicida, nos estudantes de Psicologia, constatou-se mediante análise dos dados coletados pela

Escala de Ideação Suicida de Beck, a presença da ideação suicida em 27 indivíduos, o que

corresponde a 11% da amostra, conforme demonstra a figura 6.

100 89

80

60
Sem sintomatologia

40 Com sintomatologia

20 11

Figura 6: Percentagem de participantes com ideação suicida.(N=233)

Detalhando-se os dados apreendidos através do questionário sócio-demográfico, foi

possível traçar um perfil específico desses indivíduos que apresentaram ideação suicida. Esse

perfil encontra-se descrito a seguir na tabela 4.

100
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Tabela 4: Perfil dos estudantes com Ideação Suicida segundo a Escala de Ideação

Suicida de Beck - BSI (N=27)

Dos 27 estudantes que apresentaram ideação suicida, 63% destes eram do sexo

feminino, e 37% do sexo masculino; a faixa etária da maioria (74,1%) encontrava-se entre 18-

22 anos de idade. Em relação ao período do curso, percebe-se que 30% dos estudante com

ideação suicida encontravam-se matriculados nos primeiros períodos, 37% estavam cursando

os períodos considerados do meio do curso (4º, 5º e 6º períodos) e 33% eram alunos

concluintes ou pré-concluintes (a partir do 7º período).

No que se refere ao estado civil dos participantes, observou-se que a quase totalidade

dos participantes (96,3%) era solteira, e 88,9% não trabalhavam. Em relação à renda familiar

desses estudantes observou-se que 11,1% possuíam renda familiar de até 3 salários mínimos,

44,4% de 4 a 7 salários mínimos e 44,4% de 8 a 11 salários mínimos. Importante ressaltar o

valor do salário mínimo na época que era de R$ 350,00 (trezentos e cinqüenta reais).

101
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A respeito da habitação desses indivíduos com ideação suicida, percebeu-se que

11,1% residiam sozinhos, 40,7% com os pais, 33,3% com colegas e 14,8% afirmaram possuir

outro tipo de habitação.

Foi perguntado também no questionário sócio-demográfico, a título informativo, se os

participantes conheciam, entre seus colegas universitários, alguém que já tivesse pensado e/ou

tentado cometer o suicídio, onde se observou que 77,8% dos estudantes afirmaram

positivamente.

90
77,8
80 Conhece alguém que
70 já tenha pensado,
tentado ou mesmo
60 consumado o suicídio
50
40 Não conhece alguém
30 22,2 que tenha pensado,
tentado ou
20
consumado o
10 suicídio.
0

Figura 7: Percentagem de estudantes que conhecem entre seus colegas universitários alguém que já tenha
pensado / tentado ou consumado o ato suicida.

Através da análise dos dados apreendidos pela Escala de Ideação Suicida e, também,

pelo Inventário de Depressão de Beck, pôde-se perceber que dos estudantes que apresentaram

ideação suicida, a maioria (84,61%) apresentou também sintomatologia depressiva, seja ela

leve, moderada ou severa.

Entretanto, foi registrada a presença da ideação suicida em indivíduos que não

apresentaram o transtorno depressivo, fato esse que corrobora com alguns estudiosos, como

por exemplo, Solomon (2002) e Jamison (2002), no que tange a relação entre a depressão e o

102
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suicídio como fenômenos para os quais não existe relação de causalidade, e sim de co-

existência, um influenciando o outro.

Tabela 5: Freqüência de ideação suicida conjuntamente com a depressão. (N=27)

Os resultados, apreendidos por meio da Escala de Ideação Suicida de Beck (BSI),

permitiram não só detectar a presença ou não dos pensamentos suicidas, mas também

possibilitou uma maior compreensão dos fatores a eles relacionados, como por exemplo, as

razões ou motivos que cada indivíduo tem para desejar sua própria morte, os preparativos para

uma possível concretização do ato e a intensidade com a qual esses pensamentos lhe vêem a

mente.

Em relação à duração da ideação suicida, a maioria dos participantes da pesquisa

(67%) afirmou ter breves períodos com idéias de se matar, que passam rapidamente, e que

esses pensamentos de morte ocorrem raramente (81,5%). Esses dados referem-se à

intensidade da ideação suicida, que nessa população pode ser compreendida como fraca/leve.

A gravidade e a duração dos pensamentos suicidas correlacionam-se com a probabilidade de

tentativa de suicídio, que é, por sua vez, o principal fator de risco para o suicídio completo

(Silva et al, 2006).

No que se refere à aceitação, por parte dos estudantes, dos pensamentos de morte que

lhes vem à mente, percebe-se que 55,6% da amostra declararam ter um julgamento imparcial

sobre o ato suicida, revelando que não aceitam, nem rejeitam a idéia de se matar. Tal fato

103
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demonstra que o suicídio é uma possibilidade cogitada por eles para a resolução de seus

problemas atuais, representando uma saída frente às adversidades encontradas. A Organização

Mundial de Saúde (2003) alerta, nesse sentido, que se torna preocupante quando o suicídio

passa a ser a única alternativa para suas dificuldades.

A maioria dos participantes (63%) afirmou ser capaz de se controlar quanto a cometer

o suicídio, e 51,9% dos estudantes relataram que não chegariam a cometer o suicídio por

causa da família, dos amigos, da religião ou de um possível dano por uma tentativa mal

sucedida. Esses dados corroboram com o que afirma a literatura (Botega et al, 2006; Prieto e

Tavares, 2005; Silva et al, 2006)) no que tange aos fatores de risco e de proteção, estando

inclusas nestes últimos as pessoas com bons vínculos afetivos e familiares e que possuam

algum tipo de religião.

A respeito das razões que os participantes afirmaram ter para cometer o suicídio,

observou-se que 48,1% dos estudantes declaram que essas se baseiam, principalmente, numa

fuga de seus problemas, enquanto que para 40,7% as razões têm em vista influenciar os

outros, e também representam uma maneira de solucionar seus problemas pessoais. Esses

dados corroboram com o senso comum, verificados em estudos sobre as representações

sociais do suicídio realizados por Vieira, Saraiva e Coutinho (2007).

Aproximadamente, 60% dos participantes afirmaram não terem elaborado um plano

específico sobre como cometeriam o suicídio. No que se refere ao método que utilizariam

para concretizar esse ato, 63% dos estudantes relataram não terem acesso a um método ou a

uma oportunidade de se matar.

Entendendo que o ato suicida representa, ao mesmo tempo, um ato de coragem e de

covardia, percebeu-se que os indivíduos mesmo apresentando desejo de pôr um fim à própria

vida, não têm certeza se chegariam realmente a praticá-lo, pois 55,6% dos participantes

afirmaram que não estavam certos de que teriam a coragem o a capacidade de se matarem,

104
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enquanto 44,4% confessaram que não concretizariam o ato, ou seja, não chegaria a cometer o

suicídio por não terem coragem, ou a capacidade necessária para tal ato, apesar da existência

das ideações suicidas.

No que se refere às expectativas futuras, 55,6% dos participantes relataram que

esperam não fazer uma tentativa de suicídio, enquanto que 44,4% afirmaram que não estavam

certos de que fariam uma tentativa.

A respeito dos preparativos para a realização do ato suicida, observou-se que a grande

maioria (85,2%) relatou não terem feito maiores preparativos para esse acontecimento, pois

77,8% disseram nunca terem chegado a escrever um bilhete suicida e também não terem

tomado providências em relação ao que aconteceria depois que eles tivessem cometido o

suicídio.

Aproximadamente, 52% dos participantes afirmaram estar tentando evitar contar as

pessoas sobre o seu desejo de se matar, provavelmente, devido ao fato de o suicídio ser

considerado um tabu, mesmo nos dias atuais, representando motivo de vergonha, sinônimo de

loucura ou insanidade mental.

O último aspecto, investigado pela BSI, diz respeito às tentativas anteriores de

suicídio, onde se observou que 59,3% dos participantes informaram nunca terem realizado

uma tentativa de suicídio, 37% tentaram se matar uma vez e 3,7% tentaram cometer o suicídio

mais de duas vezes ao longo da vida. Esses resultados mostram-se bastante preocupantes,

uma vez que se sabe que a tentativa prévia de suicídio é considerada um fator bastante

relevante para uma nova tentativa ou mesmo para o suicídio consumado.

Desses estudantes, que já tentaram cometer o suicídio em algum momento de suas

vidas, observou-se que 55% dos mesmos apresentaram novamente ideação suicida no

momento da realização da coleta dos dados. Ressalta-se aqui, a importância da reincidência

do comportamento suicida, através dos pensamentos recorrentes de morte. A figura 9 ilustra a

105
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percentagem de estudantes com histórico de tentativas prévias de suicídio que estão

apresentando mais uma vez pensamentos de morte.

60 55

50 45

40 Presença de ideação
suicida
30
Ausência de ideação
20 suicida

10

Figura 8: Presença de ideação suicida em indivíduos com histórico de tentativas prévias de suicídio.

6.5 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS APREENDIDOS PELAS

ENTREVISTAS.

Com o objetivo de descrever os conteúdos das representações sociais, bem como

ratificar as evocações apreendidas através da Técnica de Associação Livre de Palavras, foram

realizadas entrevistas com 20 estudantes de psicologia, escolhidos aleatoriamente, de acordo

com a disponibilidade e interesse dos mesmos. O número de entrevistas foi estabelecido

segundo o critério de saturação definido por Sá (1998).

Os resultados obtidos, através dessa técnica e submetidos à Análise de Conteúdo

Temático, foram agrupados em classes temáticas, categorias e subcategorias, conforme

demonstra a tabela a seguir.

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Tabela 6: Classes, Categorias e Subcategorias emergentes da Análise de Conteúdo


Temático, com suas respectivas freqüências e percentagens.

107
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Conforme os dados contidos na Tabela 6, observa-se a emersão de um total de 463

interlocuções, formando três classes temáticas, dez categorias e quarenta e sete subcategorias.

As três classes temáticas foram: DEPRESSÃO, SUICÍDIO, RELAÇÃO DEPRESSÃO /

SUICÍDIO, havendo uma maior ênfase para a temática do suicídio, responsável por mais da

metade das interlocuções apreendidas (52,5%). As classes temáticas DEPRESSÃO e

RELAÇÃO DEPRESSÃO / SUICÍDIO apresentaram um total de 35,2% e 12,3%,

respectivamente, conforme ilustrado na figura a seguir.

60
52,6
50
35,2 Depressão
40
Suicídio
30

20 12,2 Relação
Depressão/Suicídio
10

Figura 9: Percentagens das Classes Temáticas das Entrevistas.

A maior incidência de interlocuções, sobre a temática do suicídio, pode ser justificada

mediante a complexidade do ato; e também pelo fato da grande vivência do comportamento

suicida, seja através de experiências pessoais, familiares ou sociais, conforme foi

demonstrado anteriormente na Figura 7. Aos participantes, foi perguntado se o mesmo

conhecia entre seus colegas universitários alguém que já havia pensado, tentado ou mesmo

chegado a falecer por suicídio.

Detalhando a primeira classe temática, DEPRESSÃO, observou-se o surgimento de

quatro categorias: Descrição, correspondendo a 39,9% das interlocuções; Manifestações,

responsável por 31,3% dos recortes analisados; Fatores desencadeantes, com 14,7% ; e, por

108
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fim, a categoria Tratamento, representando 14,1% das unidades temáticas, conforme pode

ser observado na figura 10.

45
39,9
40
Descrição
35 31,3
30
Manifestações
25
20 Fatores
14,7 14,1
15 desencadeantes
10 Tratamento
5
0

Figura 10: Percentagem das Categorias pertencentes à Classe Temática DEPRESSÃO.

Percebe-se nessa figura, uma maior ênfase nas falas dos estudantes de Psicologia, no

que se refere à conceituação e à descrição dos sintomas característicos da depressão, em

relação às causas e ao tratamento. A explicação para esse fato, provavelmente, encontra-se no

currículo do curso, cujas disciplinas abordam de forma mais aprofundada a definição e a

sintomatologia dos transtornos. Com vistas clínicas, essa atitude prepara o estudante para a

identificação da depressão, com a finalidade de realizar o diagnóstico.

A primeira categoria da classe temática DEPRESSÃO, refere-se à Descrição dessa

patologia, tendo suas unidades temáticas agrupadas em três subcategorias: Transtorno do

Humor; Dificuldade de diagnóstico; e Apatia, conforme figura 11.

109
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45
40 40
40
35
Transtorno do
30 Humor
25 Dificuldade de
20
20 diagnóstico
15 Apatia
10
5
0

Figura 11: Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Descrição da DEPRESSÂO.

De acordo com a figura 11, percebe-se que as três subcategorias da Descrição da

depressão apresentaram as seguintes percentagens quanto às unidades temáticas: 40%

correspondentes ao Transtorno do Humor; 40% relacionado à Dificuldade de diagnóstico;

e 20% à subcategoria Apatia.

A primeira descreve a depressão como um distúrbio do humor, representando um

sofrimento psíquico caracterizado, principalmente, pelo humor depressivo. Para esses

estudantes, a depressão representa, principalmente, uma oscilação do humor, na qual

prevalece o sentimento de tristeza, conforme pode ser observados pelas interlocuções a seguir:

“(...) estado de espírito ( ) instabilidade ( ) profundo estado de humor ( 2) é viver uma


angústia sem fim ( doença que traz uma profunda tristeza ( ) é simplesmente sofrer
intensamente ( ) quando uma pessoa fica muito triste ( 4) abala todo o sistema psicológico
( ) tem que ter no mínimo duas semanas ( ) estado de tristeza profunda ( 2 ). é um vazio ( )
é um estado de extrema angústia (2 ) um estado constante de não saber o que fazer ( ) um
estado de anedonia ( ) distúrbio do humor ( ) é uma doença (3) sofrimento psíquico muito
grande ( )”

Essa associação entre depressão e tristeza já foi constatada em estudos anteriores sobre

a representação social desse transtorno, elaborada tanto por crianças, adolescentes, adultos

jovens ou idosos (Coutinho, 2005; Barros, 2005; Fonseca, 2007; Santana, 2007).

110
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A segunda subcategoria da Descrição da depressão reflete a dificuldade de diagnóstico

dessa doença, muitas vezes confundida com o sentimento de tristeza. Para os participantes, a

depressão é um transtorno de difícil percepção, sendo seus sintomas muitas vezes mascarados,

o que leva a um diagnóstico tardio. Os participantes manifestaram, por repetidas vezes, a

incerteza de que eles ou pessoas próximas tivessem sofrido de tal transtorno.

Como já foi descrito, anteriormente, no referencial teórico deste estudo, o DSM -IV

reconhece a tristeza (humor deprimido) como um dos sintomas mais comuns ao estado

depressivo. Dessa forma, o conhecimento prático corrobora com a visão científica da

depressão e justifica a importância desse sentimento, no que se refere à identificação e ao

manejo do quadro, mediante exemplos das falas:

“ (...)doença difícil de se diagnosticar (5 ) é um termo que se popularizou ( ) está muito no senso


comum ( ) sem entender de fato o que é uma depressão( ) é mais um apelo do que uma vontade de
ficar só( ) passa despercebida ( ) existe uma diferença entre o estado depressivo e a doença
depressão ( ) depressão não é uma tristeza ( ) é diferente ( ) todo mundo fica triste alguma vez na
vida ( ) não seria necessariamente uma depressão ( ) ) penso que é algo duradouro (2) poderia sim
existir características de um momento depressivo( ) mas não seria uma depressão( ) ele teve mas não
chegou a receber mesmo um diagnóstico ( já tive muita tristeza( ) muitas vezes achei que tivesse
depressão ( ) mas depois entendi que estive triste muitas vezes ( ) já tive períodos de estar muito triste
( 2) mas não sei se tive depressão ( ) as pessoas acham que todo tipo de tristeza é depressão ( )”.

Esses recortes apontam também para a existência de uma banalização do termo

depressão, utilizado para descrever qualquer tipo de oscilação do humor. Percebe-se,

conforme preconiza Coutinho (2005), que a palavra depressão é uma constante no linguajar

do nosso cotidiano, passando a ser integrante do conhecimento do senso comum e da maneira

de pensar de diferentes grupos sociais.

No conhecimento elaborado pelos estudantes de Psicologia, observou-se uma

significativa importância do elemento tristeza na construção da representação social da

depressão, visto que, no percurso de toda a elaboração do conhecimento, esse elemento foi,

constantemente, evocado no discurso dos participantes, ora para definir o fenômeno, ora para

enfatizar a dificuldade de se diferenciar a simples tristeza do transtorno depressivo.

111
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Por fim, a terceira categoria da Descrição da depressão mostra essa patologia através

do comportamento apático de seus indivíduos portadores. As representações sociais dos

participantes ancoram-se na apatia apresentada pelo indivíduo, objetivada pelo olhar perdido,

distante.

De modo geral, é possível constatar, de acordo com as falas dos atores sociais,

apresentadas a seguir, que o ser depressivo é aquele que apresenta inibição psicomotora, e que

se encontra desmotivado com a vida.

“(...) estado de constante apatia em relação à vida ( ) enorme vontade de parar o tempo ( )
deixarmos tudo para outro dia ( ) adiar responsabilidades ( ) evitar o sol ( ) e qualquer
outro tipo de luz ( ) é um estado em que você se sente desmotivado ( )” é você não ver o
outro ( ) não ver o mundo ( ) nada lhe traz prazer ( ) sem vontade de fazer as coisas ( ) ela
olhava e parecia que não via nada (2)”.

A depressão, conforme enfatiza Santana (2006), é uma doença que compromete a

autodeterminação e a funcionalidade do indivíduo, que passa a sentir-se “desligado” do

mundo, sem entusiasmo ou interesse por nada.

A segunda categoria que emergiu na classe temática DEPRESSÃO refere-se às suas

Manifestações. Conforme ilustra a figura 12, essa categoria foi composta por quatro

subcategorias: Psicoafetiva, responsável por 45,1% das interlocuções dessa categoria; a

Cognitiva, representando 7,8% das falas dos participantes; a Comportamental, com 35,3%

dos recortes analisados; e, por último, a categoria Psicossomática, totalizando 11,8% das

unidades temáticas.

112
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50 45,1
45
40 36,3
35
Psicoafetivas
30
Cognitivas
25
Comportamentais
20
Psicossomáticas
15 11,8
10 7,8
5
0

Figura 12: Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Manifestações da DEPRESSÂO.

As Manifestações relacionadas à subcategoria Psicoafetiva, referem-se aos sintomas

característicos da depressão, no que diz respeito aos sentimentos dos indivíduos com essa

patologia, conforme pode ser observado nas falas apresentadas a seguir:

“(...) tristeza (5 ) melancolia ( ) cansaço ( ) apatia ( 3) desistência ( ) mal estar ( )


sensação de desânimo ( 3 ) desengano ( ) angústia ( ) ansiedade(2) medo ( ) aquela coisa
de não aceitar de si mesmo( ) baixa auto-estima ( ) ela só chorava ( )”.

As interlocuções agrupadas, na subcategoria Cognitiva, referem-se aos pensamentos

advindos do transtorno depressivo, com maior ênfase para a ideação suicida, indicando uma

possível relação entre os pensamentos de morte e a depressão, de acordo com a análise dos

recortes a seguir:

“ (...)pensamento de morte ( 2 ) pensa em se matar ( ) pensava não ser capaz de fazer as


coisas ( )”.

A subcategoria Comportamental refere-se às Manifestações, da depressão, que se

refletem no comportamento do indivíduo depressivo que, de acordo com os participantes, são,

principalmente, o isolamento e a indisposição, conforme pode ser observado nas falas a

seguir:

113
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“(...) vontade de não fazer nada ( ) vontade de ficar só ( ) isolamento ( 4 ) indisposição


motivacional pra sair de casa ( ) algo que você vai se desmotivando com o tempo ( )vivia
trancada no quarto ( ) o quarto sempre escuro ( )ele começava a se isolar( 2 ) a se fechar (
2 )a não querer falar com ninguém ( ) a se culpar por ter falhado ( ) só queria ficar
sozinha( ) sem ver ninguém ( )”.

Por último, na subcategoria Psicossomática, encontram-se agrupadas as interlocuções

referentes aos sintomas físicos desencadeados pelo psicológico, a exemplo dos recortes a

seguir:

“(...) chega a provocar dores no corpo ( ) arrepios ( ) problemas físicos ( ) falta de


apetite ( 2) mudanças no sono ( ) “.

As interlocuções dos participantes demonstram que a depressão é representada pelos

estudantes de Psicologia como uma doença que afeta todas as esferas do organismo

(psicoafetiva, cognitiva, comportamental e psicossomática), ratificando o que afirma a

literatura específica sobre o comprometimento global, causado pela depressão na vida do

indivíduo (Camon, 2001; Coutinho, 2003; Versiani, 2004).

Entretanto, apesar de afetar todas as esferas da vida do indivíduo, observou-se que os

prejuízos mais, intensamente, sentidos e que determinam de forma mais significativa a

representação social dos participantes, referem-se aos aspectos psicoafetivos objetivados,

principalmente, no sentimento de tristeza.

Na categoria Fatores desencadeantes da depressão, observou-se que as representações

sociais dos estudantes de Psicologia, no que diz respeito às causas dessa patologia, envolvem

aspectos multifatoriais. As subcategorias formadas sobre os fatores contribuintes para o

desenvolvimento da depressão foram: Psicológico, Social e Físico-orgânico. A figura 13

ilustra a percentagem de cada uma dessas subcategorias.

114
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60 54,2

50

40
Psicológicos
29,1
30 Sociais
Físco-orgânicos
20 16,7

10

Figura 13: Percentagem das Subcategorias pertencentes à Categoria Fatores desencadeantes da DEPRESSÂO.

A primeira subcategoria agrupa as evocações dadas pelos participantes em relação aos

fatores psicológicos que podem desencadear o transtorno depressivo. Sendo assim, a

subcategoria Psicológicos, é responsável por 16,7% das interlocuções pertencentes à categoria

Fatores desencadeantes, apresenta as motivações de ordem afetiva e/ou emocional como

justificadoras do aparecimento da depressão. Percebe-se que, sob a ótica desses estudantes de

Psicologia, o aparecimento da depressão está relacionado a uma perda afetiva ou a um

momento de estresse emocional, conforme pode ser observado nas interlocuções apresentadas

a seguir:

“ (...) porque um parente morreu ( ) porque acabou um relacionamento( ) pessoas que


vivem em constante estresse( ) um evento bastante traumático ( )”.

A subcategoria Social, responsável por 54,2% dos recortes analisados, agrupa as

unidades temáticas referentes aos fatores de ordem social, apontados pelos estudantes como

desencadeadores de um processo depressivo. Nesses fatores sociais estão inclusos, também,

os de ordem familiar e profissional, ou seja, todas as relações interpessoais do sujeito,

conforme demonstram os recortes a seguir:

115
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“ (...)passando por um momento difícil ( 2 ) ( ) existe a depressão que todo mundo pode
passar por ela( ) porque perdeu um emprego ( )causas sociais mesmo ( ) depende de
como aquela pessoa foi formada ( ) o tipo de criação que ela teve ( ) o meio em que ela
está inserida ( ) ele tenta disfarçar pra ninguém perceber que ele tem depressão ( 2 ) no
contexto familiar ou pessoal ( )cada vez que ele errava ( ) que ele falhava ( )”.
Recortes semelhantes a esses foram encontrados em um estudo anterior realizado por

Sá (2004) que objetivou apreender as representações sociais da depressão elaboradas por

profissionais da saúde mental, pessoas deprimidas e familiares.

Por fim, a terceira subcategoria, Físico-orgânico, demonstra o senso comum das

causas da depressão, ancorando-se em fatores químicos, genéticos e neurológicos. A

depressão, conforme pôde ser observado através das falas dos participantes apresentadas a

seguir, representa uma disfunção cerebral a qual todos os indivíduos estão sujeitos.

“(...) existe a depressão por fatores químicos ( ) a química que surge no cérebro( ) eu acho
que tem causas genéticas ( ) doença do cérebro ( 3 ) que seria a depressão bipolar( ) ”.

A última categoria da classe temática DEPRESSÃO refere-se às formas de Tratamento

desse transtorno, e é composta por quatro subcategorias: Psicoterapêutico, responsável por

26,1% das interlocuções dos participantes; Medicamentoso, correspondendo à 43,5% das

unidades temáticas; a Ajuda de amigos e familiares, com 8,7% das evocações; e por fim,a

Ajuda religiosa, representando 21,7% dos recortes analisados. A figura a seguir demonstra a

percentagem dessas subcategorias pertencentes à categoria Tratamento da Depressão.

50
43,5
Psicoterapêutico
40

Medicamentoso
30 26,1
21,7
Ajuda de amigos e
20
familiares
8,7 Ajuda religiosa
10

Figura 14: Percentagens das Subcategorias pertencentes à Categoria Tratamento da DEPRESSÂO.

116
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Na primeira subcategoria Psicoterapêutico, encontram-se agrupadas as falas dos

participantes, no que diz respeito ao tratamento profissional especializado. Os atores sociais

focaram suas interlocuções em acontecimentos de suas vidas, diferentemente do que se

esperava dessa população, uma vez que, como estudantes de Psicologia. Acreditava-se que

suas representações fossem baseadas no conhecimento científico. Ao contrário, os

participantes enfatizaram, na maioria de suas falas, experiências pessoais anteriores, conforme

pode ser observado nas falas a seguir:

“ (...)minha mãe me colocou numa psicóloga ( ) depois me levou num psiquiatra ( ) só


obtive êxito quando procurei ajuda profissional ( ) nunca cheguei a procurar ajuda
profissional ( ) ele faz terapia ( ) precisei de um acompanhamento psicoterapêutico ( )”.

Em relação à segunda subcategoria, Medicamentoso, observou-se a associação do uso

de remédios para o tratamento da depressão, ancorados em experiências pessoais anteriores,

assim como se observou na subcategoria acima descrita. As falas, apresentadas a seguir,

remetem a episódios anteriores, onde os atores sociais reconhecem que, ao apresentarem um

episódio depressivo, faz-se necessária a intervenção medicamentosa prescrita por um

profissional.

“ (...)fiquei tomando remédios ( ) deve ser tratada por medicamentos( ) já tomei


medicamentos( 2 ).meu namorado toma medicamentos ( 2 )e aparentemente nem parece ter
depressão ( ) precisei de ajuda profissional ( ) que pudesse passar um medicamento ( ) por
ter sido uma coisa mais profunda ( )”.

A subcategoria Ajuda de amigos e familiares também se relaciona com a história de

vida dos participantes, enfatizando-se a importância dessa ajuda para o tratamento da

depressão. Nas unidades temáticas apresentadas a seguir, apesar de pouco significativa em

termos percentuais, expressa-se a idéia de que a sintomatologia deve ser tratada por meio de

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intervenções sociais, ou seja, através de pessoas próximas ao doente, que teriam o poder de

ajudar na recuperação do ser depressivo.

“(...)o fato de eu ter amigos e familiares próximos me ajudou ( ) na recuperação que foi
longa ( )”.

Por fim, a subcategoria, Ajuda religiosa, é composta por interlocuções referentes ao

auxílio espiritual, recebido durante o episódio depressivo, justificando, de certa forma, a

opção por esse tipo de ajuda ao invés da profissional. Esses recortes são, perceptivelmente,

baseados, mais uma vez, em experiências pessoais dos participantes da pesquisa, conforme

pode ser observado nos recortes a seguir:

“(...)eu já tinha o auxílio de uma instituição religiosa( ) foi um auxílio muito grande ( )

então não precisei de auxílio profissional( ) foi mais um auxílio eclesiástico ( )buscaram

forças em si mesmos e em Deus ( )”.

Esse tipo de tratamento espiritual, baseado no sobrenatural e no imponderável, foi

encontrado também em estudo sobre a representação social da depressão pós-parto, realizado

por Saraiva (2007), onde as puérperas com sintomatologia depressiva afirmaram acreditar e

esperar pela ajuda divina para recupera-se do estado no qual se encontravam.

A segunda Classe Temática, denominada SUICÍDIO, foi constituída por cinco

categorias: Descrição, responsável por 30,9% das unidades temáticas; Personalidade

suicida, com 10,3%; Tipos de Suicídio, representando 14% dos recortes analisados; Fatores

contribuintes, com 37%; e Método utilizado, correspondendo a 7,8% das interlocuções.

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40 37
35 30,9
30 Descrição
25 Personalidade suicida
20 Tipos de suicídio
14
15 Fatores contribuintes
10,3
10 7,8 Método utilizado

5
0

Figura 15: Percentagens das Categorias pertencentes à Classe Temática SUICÍDIO.

Conforme demonstra a figura 15, percebe-se que as maiores percentagens de

interlocuções ocorreram na categoria Fatores contribuintes, o que leva a crer que os

participantes focaram suas representações do suicídio nos acontecimentos que levariam uma

pessoa a cometer tal ato.

Descrevendo, de modo específico, a primeira categoria da classe temática SUICÍDIO,

percebe-se que essa se refere à Descrição desse ato, tendo suas unidades temáticas agrupadas

em seis subcategorias: Dificuldade de conceituação, responsável por 9,3% das unidades

temáticas; Fuga, com 18,7%; Aspecto social também com 18,7% dos recortes analisados;

Preconceito, com 17,3%; Desesperança, com 25,3%; e Fim, responsável por 10,7% das

interlocuções, conforme ilustra a figura 16.

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30 Dificuldade de
25,3 conceituação
25 Fuga

20 18,7 18,7
17,3 Aspecto social
15
10,7 Preconceito
9,3
10
Desesperança
5
Fim
0

Figura 16: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Descrição do SUICÍDIO.

A primeira das subcategorias supracitadas reflete a dificuldade encontrada pelos

participantes em definir o ato suicida, conforme demonstra as falas dos participantes

apresentadas a seguir.

“ (...)é difícil falar de algo tão complexo ( ) é meio paradoxal( ) algo totalmente anormal (
) algo grotesco ( ) eu acredito que isso é muito simplório ( ) você limitar o sofrimento
daquele sujeito a um querer chamar atenção ( ) eu acho que é uma coisa muito mais
complexa ( )”.

A baixa percentagem de interlocuções na subcategoria Dificuldade de conceituação

também pode ser interpretada como reflexo da dificuldade encontrada pelos estudantes de

Psicologia em encontrar palavras que definam esse fenômeno, para o qual, como ressalta

Stevenson (1992), não existe uma definição única aceitável devido à complexidade do ato.

A segunda subcategoria denominada Fuga, traduz a representação do ato suicida como

uma escolha feita pelo indivíduo para a solução de seus problemas, caracterizando assim, uma

fuga diante do sofrimento vivido, conforme pôde ser observado nas seguintes interlocuções:

“ (...)ato de fuga ( 7 ) forma de aliviar o sofrimento( ) um ato de revolta( ) rebeldia( ) uma


opção ( ) você está fugindo dos problemas ( ) fugindo da vida( ) ao cometer o suicídio
você está fazendo uma escolha( )”.

A fuga como elemento representativo do suicídio também foi constatado mediante

análise dos dados coletados através da Técnica de Associação Livre de Palavras, onde se

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observou que, para os participantes, o suicídio emerge como uma fuga frente às adversidades

advindas do meio ambiente, somada a fragilidade da subjetividade do indivíduo.

A terceira subcategoria, Aspecto social, relaciona o suicídio ao contexto no qual o

indivíduo encontra-se inserido, indicando que para a compreensão desse fenômeno, é

necessário que se leve em conta os aspectos sociais da vida do suicida, conforme preconizam

as seguintes falas:

“(...)é muito difícil entender o suicídio sem levar em conta o contexto ( )tem acontecido
muito ultimamente( ) o suicídio como uma questão que não é de responsabilidade de uma
pessoa ( ) o suicídio é em último caso um ato individual ( ) eu não acho que o suicídio seja
um ato individual ( ) por um fator externo que desencadeou ( ) ele culmina no
comportamento de uma pessoa ( ) mas até chegar a esse ponto, tem todo um contexto ( )
tem toda uma configuração pra se chegar a ele ( ) eu não creio que ninguém se suicide de
uma hora pra outra ( ) tem toda uma história ( ) nessa hora acho que o apoio social é o
que mais pesa ( ) porque você sente que ainda há alguém por você ( ) que se importa com
você ( )”.

Como foi dito anteriormente, os estudos pioneiros nesse sentido são os do sociólogo

Émile Durkheim para o qual o suicídio representa um ato social e não individual. Durkheim

estudou as conexões entre os indivíduos e a sociedade, acreditando que pudesse demonstrar o

quanto um ato individual é o resultado do meio social que o cerca.

Na quarta subcategoria Preconceito, encontra-se agrupadas as falas dos participantes

relacionadas às atitudes frente ao suicídio. Os participantes referem-se às dificuldades

encontradas para se falar sobre esse fenômeno devido a sentimentos de vergonha e/ou culpa

perante uma tentativa.

Percebe-se, através das falas dos participantes que o suicídio é um tema que não faz

parte das conversas familiares do dia-a-dia das famílias, pois se acredita que falar sobre esse

tema seria o mesmo que incentivar sua prática, conforme pôde ser interpretado através das

interlocuções apresentadas a seguir:

“(...) suicídio é um tabu( ) suicídio não é uma coisa que a gente sai falando por aí( ) as
pessoas não gostam muito de falar sobre isso( ) tem um certo preconceito por quem já
tentou ( ) não sei te dizer o real motivo( ) porque esse assunto ficou meio que proibido ( )
meus pais não queriam falar sobre esse assunto( ) perguntar a minha irmã o que realmente
aconteceu, nem pensar( ) até hoje não sei( ) é uma coisa que ninguém fala lá em casa( )

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acho que eles tem vergonha( ) ou medo( ) de que pelo fato de relembrar vá fazer com que
minha irmã tente de novo( )”.

De fato, o efeito imitativo do suicídio já é conhecido pela suicidologia, o que motivou

a Organização Mundial de Saúde a considerar que cuidados por parte da imprensa ao noticiar

casos de suicídio constitui um dos pilares básicos dessa organização na prevenção do suicídio

(Corrêa e Barrero, 2006).

A subcategoria Desesperança descreve o suicídio mediante o sentimento de desilusão

perante a vida, característico do indivíduo que comete esse ato. De acordo com as falas dos

atores sociais apresentadas a seguir, a pessoa que se suicida é alguém que não conseguiu

enxergar uma saída para seu sofrimento, alguém que não conseguiu encontrar esperanças para

continuar vivendo.

“(...)falta de esperança( 2 ) o sujeito olhar e não ver mais saída ( 3 ) mesmo que haja uma
saída ( ) não tem mais esperança( ) não tem um escape ( ) a pessoa está num estado de
angústia bastante exacerbada ( 2 ) a esperança se aniquila ( ) ela fica sem esperança( ) e
quer morrer mesmo ( ) o suicídio vem quando você não acredita mais que possa mudar ( )
enquanto você acredita que existe uma possibilidade ( ) mesmo que não seja do jeito que
você quer ( ) mas que existe essa possibilidade ( ) eu creio que o suicídio não aconteceria (
) é como se o suicídio fosse a última esperança ( )”.

A desesperança perante a vida é descrita pela literatura especializada como um dos

sentimentos mais comuns do indivíduo com risco de suicídio (Correa e Barrero, 2006; Botega

et al, 2006; Baptista, 2004). Segundo o Manual de Prevenção ao Suicídio, elaborado pelo

Ministério da Saúde, a desesperança é apontada como um dos fatores de risco para a

consumação, ou pelo menos tentativa, do ato suicida. Esse sentimento faz parte da chamada

“regra dos 4D”, que destaca como indicadores de risco para o comportamento suicida, além

da desesperança, a depressão, o desamparo e o desespero (Brasil, 2006).

A última subcategoria da Descrição do Suicídio foi denominada Fim, uma vez que

descreve as representações do suicídio objetivadas nesse elemento. De acordo com os recortes

descritos a seguir, o suicídio representa a atitude final, o fim da vida e, dessa forma, o fim do

sofrimento e da angústia vividos.

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“(...) a atitude final( )é o fim de tudo ( ) ) é quando a possibilidade de mudança de


alguma coisa ( ) alguém que não vê que tem uma alternativa ( 2 ) ela se vê acuada ( ) então
vê no suicídio a única porta pra escapar daquilo ( 2)”.

Essa representação do suicídio pode ser entendida não só como o fim da vida, mas

também e, principalmente, como o fim do sofrimento que o individuo estava vivenciando,

pois conforme destaca Silva e Boemer (2006), o individuo que busca comete o suicídio é

alguém que, não suportando mais tanto sofrimento, vê na morte o único descanso, a única

saída para aliviar sua dor.

A segunda categoria formada na Classe Temática SUICÌDIO foi denominada

Personalidade Suicida, uma vez que abrange as representações dos estudantes de Psicologia

no que diz respeito as características pessoais da pessoa que apresenta comportamentos

autodestrutivos.

Essa categoria foi formada por cinco subcategorias que representam os tipos de

Personalidade Suicida sob a ótica dos participantes da pesquisa: a Personalidade Patológica,

representando 32% das unidades temáticas; a Impulsiva, com 16%; a Covarde, também

responsável por 16% dos recortes analisados; a Corajosa, com 24%; e a Depressiva,

correspondendo a 12% das interlocuções analisadas.

35 32
30
24
25 Patológica
Impulsiva
20
16 16 Covarde
15 12 Corajosa
10 Depressiva
5

Figura 17: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Personalidade Suicida.

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Conforme demonstra a figura 17, a maioria dos estudantes de Psicologia investigados

acredita que a pessoa que comete o suicídio apresenta uma Personalidade Patológica. De

fato, a literatura ressalta que, de acordo com estudos realizados através de autópsia

psicológica, observou-se que a maioria dos indivíduos que cometeram suicídio apresentava

algum tipo de transtorno mental no momento de sua morte (Botega et al, 2006).

Nessa subcategoria encontram-se agrupadas as falas dos participantes no que se refere

à associação do ato suicida com um estado de alienação mental do indivíduo, conforme pode

ser observado nas interlocuções descritas a seguir:

“(...) é algo totalmente anormal ( ) o individuo que comete o suicídio esta num estado de
transe total ( ) ou num universo paralelo ( )porque ele perde a noção da gravidade da
situação ( ) suicídios decorrentes de alienação ( ) de causas religiosas ( ) ou uma filosofia
( ) por causa de algum culto ( )”.

A subcategoria Personalidade Impulsiva agrupa as falas que descrevem a pessoa

com comportamento suicida, como alguém que não pensa duas vezes antes de agir, como

pode ser observado nas interlocuções abaixo apresentadas.

“(...) devem ser pessoas que agem sem pensar ( 2 ) pessoas impulsivas (2)”.

Tal representação encontra-se confirmada pelo conhecimento científico, uma vez que

a impulsividade é considerada um fator de risco para o comportamento suicida (Prieto e

Tavares, 2005; Werlang, Borges e Fensterseifer, 2005).

A terceira subcategoria foi denominada Personalidade Covarde, pois, de acordo com

as falas dos participantes apresentadas a seguir, a pessoa que comete o ato suicida é alguém

que se acovardou perante a vida. Ao invés de tentar superar os problemas cotidianos, o

indivíduo decide pôr um fim à própria vida na tentativa de livrar-se do sofrimento vivido.

“ (...)pessoas que acham mais fácil fugir( ) ao encarar seus problemas ( )ato de covardia
(2)”.

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Em contraste com essa subcategoria, emergiram interlocuções referentes à

Personalidade Suicida, associando o suicídio a um ato de coragem. Essas interlocuções foram

agrupadas, na subcategoria Personalidade Corajosa, uma vez que descrevem as

representações do suicida ancorando-se no sentimento de coragem para realizar o ato, como

pode ser observado nas seguintes falas:

“(...)ato de coragem ( 4 ) suicídio é uma ação muito forte ( ) então você tem que ter muita
coragem ( )”.

Observou-se que o suicídio é visto pelos estudantes como algo paradoxal, pois

representa para alguns um ato de covardia, enquanto para outros consiste num ato de extrema

coragem, uma vez que a pessoa abriu mão da própria vida. Se por um lado, os participantes

descrevem o suicídio como uma fuga dos problemas, por outro reconhecem que é preciso ter

coragem para decidir e cometer esse ato.

Por fim, a subcategoria Personalidade Depressiva demonstra as representações

sociais do suicida associando-o com o ser depressivo, conforme se observou nas interlocuções

apresentadas a seguir. Para os participantes o indivíduo que comete o suicídio é alguém que

sofre de depressão e que em decorrência dessa patologia começa a desenvolver o

comportamento suicida, seja através da ideação, da tentativa ou mesmo do suicídio

consumado.

“(...)o suicídio pode ser oriundo de um processo depressivo ( ) é o ápice da depressão (


)pessoas que estão acometidas de uma profunda depressão( )”.

De fato, o senso comum corrobora com o saber científico, uma vez que se sabe que a

depressão constitui um forte fator de risco para o suicídio. De acordo com OMS (2000), a

depressão é responsável por 30% dos casos de suicídio mundialmente relatados. Essa doença,

conforme ressalta Corrêa e Barrero (2006), envolve o modo como a pessoa pensa e sente,

fazendo com que as pessoas deprimidas experimentem extremos sentimentos de tristeza,

desesperança, assim como irritabilidade, perda de interesse ou prazer em atividades que antes

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lhes eram prazerosas, e perda de energia. Além disso, destacam os autores, os deprimidos têm

maiores níveis de ansiedade, alterações de sono, apetite e libido, maiores preocupações com

sua saúde física e pensamentos de morte ou suicídio.

A terceira categoria que emergiu na Classe Temática SUICÍDIO refere-se aos tipos

desse fenômeno classificados, sob a ótica dos participantes desta pesquisa, em três grupos.

Sendo assim, a categoria Tipos de suicídio foi composta por três subcategorias: Suicídio real,

responsável por 44,1% das unidades temáticas; Chamar atenção, com 32,4%; e Suicídio

indireto, correspondendo a 23,5% dos recortes analisados.

50 44,1

40
32,4
30 Suicídio real
23,5
Chamar atenção
20 Suicídio indireto

10

Figura 18: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Tipos de Suicídio.

Conforme demonstra a figura 18, para os atores sociais, o suicídio é classificado em

três tipos, sendo o primeiro denominado de Suicídio real por haver nesses casos a verdadeira

intenção de se matar. Esse tipo de suicídio é classificado pelos participantes como o ato de

tirar a própria vida, quer se tenha conseguido obter êxito ou apenas realizado uma tentativa, a

exemplo dos recortes a seguir.

“(...) pessoa que tira a própria vida (7) quando a pessoa vai de contra a vida dela ( )
quando ela tenta se matar( 3 ) destruição ( )ato praticado pela própria pessoa ( ) ele
causa uma angústia ( ) um sofrimento muito grande ( )”.

126
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Na subcategoria Chamar atenção, encontram-se agrupadas as falas dos participantes

em relação a outro tipo de suicídio, aquele no qual a verdadeira intenção não é morrer, mas

sim chamar a atenção dos outros para si e para seu sofrimento, conforme pode ser observado

nas interlocuções a seguir apresentadas. De acordo com Vega Piñero (2002), essas condutas

são características da adolescência ou de pessoas imaturas, possuindo em alguns casos caráter

de chantagem emocional.

“ (...)aqueles que querem chamar atenção ( 2 ) mas acabam sendo vítimas ( ) no


adolescente é tido como chantagem ( ) no adulto e no idoso é algo pra chamar atenção ( )
não acredito que aquilo ali tenha sido realmente uma tentativa( ) foi mais pra chamar
atenção( )ela tá mais querendo protestar mesmo ( ) querendo modificar a realidade ( ) que
ela não foi capaz de modificar com a vida dela ( ) eu acredito que ela esteja também
querendo chamar a atenção ( )”.

O terceiro tipo de suicídio definido pelos participantes se refere a uma forma de

comportamento autodestrutivo realizado indiretamente, sem que haja o reconhecimento da

intenção mórbida desse ato. Os exemplos de Suicídio indireto incluem o consumo excessivo

de bebidas alcoólicas, o uso de drogas, o tabagismo, a condução imprudente de um

automóvel, ou seja, a negligência, de uma forma geral, com a própria saúde, conforme pode

ser percebido nas seguintes falas:

“(...) pessoa que bebe( ) que fuma( ) que anda em alta velocidade( ) de certa forma ela ta
cometendo suicídio ( ) uso de drogas( ) o próprio cigarro( ) alguns estilos de vida que
você sabe que são danosos( ) mas que continua qualquer que seja a causa ( )”.

A quarta categoria formada, na classe temática SUICÍDIO, refere-se aos Fatores

contribuintes do comportamento suicida, ou seja, dos fatores motivacionais que levam o

indivíduo a pensar, tentar ou mesmo cometer o suicídio.

Essa categoria foi composta por onze subcategorias: Psicológicos, responsável por

13,3% das unidades temáticas; Sexualidade, com 2,2%; Aparência física, também com

2,2%; Desestruturação familiar, correspondendo a 7,8 das interlocuções; Tentativas

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anteriores, com 8,9%; Cognitivos, com 28,9%; Acadêmicos, representando 10%;

Problemas financeiros, com 5,6%; Doenças crônicas, com 1,1% Adolescência, com 4,4%;

Perdas recentes, responsável por 15,6% dos recortes analisados.

Psicológicos
35
28,9 Sexualidade
30

25 Aparência física
20
15,6 Desestruturação
15 13,3 familiar
10
10 7,8 8,9 Tentativas anteriores
5,6 4,4
5 2,2 2,2 Cognitivos
1,1
0
Acadêmicos

Problemas
Figura 19: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Fatores contribuintes do SUICÍDIO.
financeiros

A grande quantidade de fatores apontados pelo senso comum como contribuintes para

o ato suicida corrobora com o saber científico, à medida que é de conhecimento da literatura

especializada que o suicídio é um fenômeno complexo que possui etiologia multifatorial.

Na subcategoria Psicológicos, encontram-se agrupadas as interlocuções descritas a

seguir, que apontam, como fatores desencadeantes do comportamento suicida, os problemas

emocionais, seja advindo de um estresse ou mesmo de um quadro depressivo. Para os

participantes, o suicídio pode ser causado por problemas psicológicos pelos quais o individuo

esteja passando, problemas estes que o levaria a apresentar sentimentos de desengano e

desesperança perante a vida.

“(...) pessoas que vivem em constante estresse ( ) desengano ( ) se sente triste ( ) não vê
saída ( ) depressão (3) pessoas que não tem mais tolerância aos problemas( ) começa num
estado em que ele ta se questionando ( ) perdendo os valores da vida( ) até que chega ao
ponto de cometer o suicídio( ) também já tinha uma depressão diagnosticada( )”.

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Já na subcategoria Sexualidade, encontram-se as falas dos participantes no que se

refere à influência da opção sexual no desenvolvimento do comportamento suicida. De fato,

estudos revelam que indivíduos com orientação sexual minoritária apresentam maior risco de

cometer suicídio (Bahls & Bahls, 2002).

“ (...)após várias tentativas ( ) se descobriu homossexual ( )”.

A subcategoria Aparência física representa as unidades temáticas que apontam a

influência da imagem corporal como fator contribuinte para o risco de suicídio. Os recortes a

seguir referem-se à narração de episódios, onde se atribui a causa desse fenômeno à baixa

auto-estima decorrente da não aceitação da aparência física.

“(...)se sentia mal em relação a aparência física ( ) em relação à obesidade ( )”.

A quarta subcategoria referente aos Fatores contribuintes do SUICÍDIO foi

denominada Desestruturação familiar, uma vez que agrupa as interlocuções dos

participantes que relacionam às causas do suicídio à falta de estrutura familiar, bem como

pressões sofridas por membros da família, conforme se observou nas interlocuções a seguir.

“(...) falta estrutura familiar ( ) ela tava passando por problemas familiares ( ) minha mãe
é uma pessoa extremamente manipuladora ( ) dominadora ( ) aí minha irmã não agüentou
a pressão ( ) o pessoal fala que ele tinha problemas com os pais ( ) brigavam muito ( )”.

Essa representação é confirmada pelo conhecimento científico que aponta a família e

os amigos como elementos fundamentais no tocante ao tipo de apoio e direcionamento que

esses podem fornecer em momentos difíceis da vida, além da construção da percepção do

mundo e, conseqüentemente, dos traços comportamentais individuais (Baptista 2004).

Na subcategoria Tentativas anteriores, encontram-se agrupadas as unidades

temáticas que ressaltam a importância da existência de uma tentativa de suicídio anterior para

o acontecimento de uma nova ou mesmo para a concretização do mesmo. Observou-se que as

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falas dos participantes apresentadas a seguir foram baseadas em episódios vivenciados por

cada participante, onde os mesmos relatam exemplos de indivíduos que se suicidaram, ou que

pelo menos tentaram, justificando esse tipo de comportamento a existência de alguma

tentativa prévia.

“(...)ele já tinha tentado outras vezes ( ) ela comentou que já havia tentado suicídio ( ) uma
amiga minha tentou recentemente o suicídio ( ) ela ta no hospital ainda ( ) não conseguiu,
mas tentou( ) conheci uma menina que tinha uma cicatriz no pulso ( )conheço uma pessoa
que tentou três vezes ( )em todas as vezes ele escrevia uma carta de despedida ( )”.

Com base em dados da Organização Mundial de Saúde, Botega, Mauro e Cais (2004)

relatam que 15 a 25% das pessoas que tentam o suicídio, tentarão novamente se matar no ano

seguinte, e 10% das pessoas que tentam o suicídio conseguem efetivamente matar-se nos

próximos dez anos.

Conforme demonstra a Figura 19, a subcategoria Cognitivos apresentou a maior

percentagem de unidades temáticas pertencentes à categoria Fatores contribuintes, o que

indica que a maioria dos participantes acredita que a ideação suicida representa um forte fator

preditivo do suicídio. Os recortes analisados e descritos a seguir referem-se a narrativas de

pensamentos de morte ocorridos tanto pelos participantes como por pessoas próximas.

Percebe-se, de acordo com as falas dos estudantes, que boa parte reconheceu já terem pensado

em cometer o suicídio em algum momento de suas vidas.

“(...) tinha pensamentos de morte ( ) pensando besteira ( ) veio a idéia( ) foi muito difícil
ela tirar da cabeça esses pensamentos de morte ( ) o suicida tem sempre que idealizar as
coisas antes( ) eu já vi casos de crianças idealizando isso ( )já pensei várias vezes ( ) as
vezes passa pela minha cabeça pensamentos de morte ( ) quando to com problemas ( ) aí
eu penso que se eu morresse seria melhor ( ) seria mais fácil ( )eu fiquei pensando sobre
esse tema e colocando pra mim ( ) se um dia eu faria ( ) se um dia eu chegaria a esse ponto
( ) de perder mesmo o sentido da vida ( )eu só pensei me colocando no lugar dele ( )eu já
pensei em me matar (4) mas acho que não chegaria a cometer( ) fiquei até assustada em me
pegar pensando nisso ( )eu fiquei bem triste e pensei em morrer também ( )meu namorado
já pensou ( ) ele pensou em cometer o suicídio e contou pra mim ( )ele contou que as vezes
tinha vontade de se matar”

A presença da ideação suicida é considerada um grande fator de risco para o suicídio

consumado. A maioria das pessoas com idéias de morte comunica seus pensamentos e

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intenções suicidas, dando sinais ou fazendo comentários sobre sua vontade de pôr um fim à

própria vida (Brasil, 2006). Estima-se que 60% dos indivíduos que se suicidaram tinham,

previamente, ideação suicida. A gravidade e a duração dos pensamentos suicidas

correlacionam-se com a probabilidade de tentativa de suicídio, que é, por sua vez, considerada

um dos principais fatores de risco para o suicídio consumado (Silva et al, 2006).

A subcategoria Acadêmicos apresenta as unidades temáticas referentes à associação

do comportamento suicida com problemas acadêmicos. Esses problemas podem agrupar

diversos fatores, como por exemplo, dificuldades de aprendizagem, baixo rendimento escolar,

problemas de relacionamento com colegas, a exemplo do que preconizam as interlocuções

descritas a seguir.

“(...) desavenças no curso ( 2 ) decepções acadêmicas ( ) ele prestou vestibular pra um


curso ( ) e mentiu, dizendo que tinha feito pra outro( ) decepção quando a cidade toda
descobriu ( ) dentro do curso ele teve brigas( ) a não aprovação no mestrado ( ) era
estudante de psicologia ( )”.

A oitava subcategoria referente aos Fatores contribuintes do Suicídio, foi denominada

Problemas financeiros, pois se encontram nela as interlocuções relacionadas aos fatores

econômicos, referidos pelos participantes como desencadeadores do comportamento suicida.

Dívidas, pobreza e baixa qualidade de vida são apontadas, pelos estudantes de psicologia,

como fatores contribuintes do ato suicida. Como pode ser observado nos seguintes recortes:

“(...) quando algumas pessoas estão muito endividadas ( ) a pessoa que passa fome ( )
muito pobre ( ) não tem saneamento básico ( ) pode se suicidar porque não encontrava
outra solução ( )”.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (2000), a maioria das pessoas que

comete suicídio passou por acontecimentos estressantes nos três meses, anteriores ao suicídio,

sendo os problemas financeiros apontados como um desses acontecimentos.

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A subcategoria Doenças crônicas ressalta a influência de patologias sofridas pelo

individuo como fator contribuinte para o comportamento suicida, mediante análise das

interlocuções apresentadas a seguir.

“(...) quando tem uma doença incurável ( )”.

Nesse sentido, há por parte da literatura específica, o reconhecimento de que a partir

da fase adulta, faixa etária de investigação da presente pesquisa, há o maior surgimento de

doenças. De acordo com Corrêa e Barrero (2006), a partir dessa faixa etária, ocorre também o

surgimento de certas patologias que, apesar de, isoladamente, não levar a um maior risco de

suicídio, tem que ser consideradas, quando coexistem outros fatores de risco. Entre essas

patologias, os autores citam como exemplos a doença de Parkinson; a diabetes; e a Aids.

A décima subcategoria formada agrupa as falas dos participantes que representam o

aparecimento do comportamento suicida ancorando-se no período da Adolescência.

Observou-se através dos recortes analisados e descritos a seguir que esse período do

desenvolvimento humano é apontado como justificador da presença da ideação suicida ou

mesmo da realização de uma tentativa de suicídio.

“(...) mas era coisa de pré-adolescente ( ) eu era adolescente ( ) mas eu acho que é coisa
de adolescência mesmo ( ) agora eu vejo que era coisa de adolescente ( )”.

Werlang, Borges e Fensterseifer (2005) afirmam que a adolescência é um período

propício ao aparecimento das idéias suicidas, uma vez que faz parte do processo de

desenvolvimento de estratégias; para lidar com problemas existenciais como, por exemplo,

compreender o sentido da vida e da morte. A questão se torna preocupante apenas quando o

suicídio passa a ser a única alternativa para suas dificuldades.

Por fim, a última subcategoria referente aos Fatores contribuintes do suicídio

denominou-se Perdas recentes por agrupar as unidades temáticas que associam o

aparecimento do comportamento suicida a algum tipo de perda sofrida, recentemente, pelo

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indivíduo. Essa perda, de acordo com as falas dos participantes apresentadas a seguir, é na

maioria das vezes, de ordem afetiva, podendo ser uma morte na família ou mesmo uma

separação conjugal. Porém, também foram indicadas como motivação para o suicídio as

perdas matérias, com destaque especial para a perda do emprego.

“(...) foi no início do processo de separação ( ) ela tinha terminado o relacionamento ( )


terminou o casamento ( ) ela voltou a morar com a minha mãe ( ) que é uma relação muito
delicada ( ) pra ela foi muito angustiante ( ) ter que voltar( ) e ainda voltar derrotada ( )
sem casamento ( ) sem emprego ( ) sem nada ( ) Há pouco tempo minha mãe faleceu ( )
então ficou só eu e meu irmão ( ) o término do namoro ( )”.

A quinta e última categoria formada na Classe Temática SUICÍDIO diz respeito aos

Métodos utilizados para cometer esse ato. Essa foi formada por cinco subcategorias assim

denominadas: Medicação, responsável por 26,3% das unidades temáticas; Substâncias

tóxicas, com 31,6%; Uso de armas, com 5,3%; Saltos de prédio, correspondendo a 21%; e

Afogamento, representando 15,8% dos recortes analisados, conforme ilustra a figura 20.

35 31,6
30 26,3
25 Medicação
21
Substãncias tóxicas
20
15,8 Uso de armas
15
Saltos de prédio
10 Afogamento
5,3
5

Figura 20: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Métodos do SUICÍDIO.

Todas as unidades temáticas pertencentes às subcategorias citadas são baseadas em

relatos dos participantes, de episódios de tentativas que foram realizados por eles ou por

pessoas próximas; ou até mesmo do suicídio consumado, por pessoas do seu convívio.

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A subcategoria denominada Medicação agrupa as interlocuções referentes ao uso de

remédios para a busca da própria morte, como pode ser observado nas falas a seguir:

“(...) ela tentou o suicídio tomando uma caixa de remédios ( ) ela tomou um remédio ( ) ela
se embebedou e tomou meia cartela de Valium ( ) ela tomou 2 litros de vinho ( )e tomou 6 a
8 comprimidos ( )”.

Já na subcategoria Substâncias tóxicas encontram-se os recortes relacionados ao uso

de algum tipo de veneno ou água sanitária por parte do suicida, como pode ser observado nos

recortes a seguir:

“(...) ela tomou água sanitária ( ) tomou um veneno ( 5 )”.

A subcategoria Uso de armas apresenta as unidades temáticas descritas abaixo que

relacionam às mortes auto-infligidas mediante utilização de armas de fogo. Foi,

surpreendente, baixa a freqüência desse tipo de representação por parte dos participantes, uma

vez que a literatura apresenta esse tipo de método como um dos mais comumente utilizados.

“(...) ele deu um tiro ( )”.

A quarta subcategoria relacionada aos Métodos utilizados refere-se aos Saltos de

prédio. Nesta subcategoria há um importante fator destacado nas interlocuções, que diz

respeito ao efeito imitativo do suicídio. Nesse sentido, percebe-se que o conhecimento do

senso comum apresentado a seguir concorda com o que preconiza o conhecimento científico,

no que tange a vulnerabilidade de alguns indivíduos que, ao tomarem conhecimento de um

suicídio, sentem-se estimulados a cometer também esse ato.

“(...) cheguei até a sentar no parapeito da minha janela ( ) mas olhei e achei que ia doer
muito ( ) e falei assim :não, não ( ) se lembra quando teve uma época que todo mundo se
jogava de um prédio ?( )”.

Por fim, a última subcategoria dos Métodos utilizados foi denominada Afogamento,

uma vez que contém relatos de episódios de tentativas de suicídio, onde o individuo buscou a

morte tentando afogar-se, conforme demonstram as falas a seguir:


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“(...)“...pensou mas não teve coragem de se jogar lá na Lagoa ( ) ficou parado ( ) mas não
conseguiu ir adiante ( )”.

Os dados descritos na categoria Métodos utilizados apontam para uma diversidade de

meios usados para se cometer o suicídio. Vale ressaltar que a utilização desses métodos

depende também de fatores econômicos, culturais e políticos. Como exemplo disso, destaca

Baptista (2004), a existência de leis de porte de armas ou controle de venda de substâncias

tóxicas.

A terceira e última Classe foi denominada Relação Depressão / Suicídio, uma vez

que contém as representações dos estudantes de psicologia pesquisados, no que diz respeito à

existência ou não de algum tipo de relação entre esses dois fenômenos.

Essa Classe Temática foi formada por uma única categoria, Correlação, sendo

composta por três subcategorias: Existência, responsável por 66,7% das unidades temáticas;

Dúvidas, com 7%; e Inexistência, correspondendo a 26,3% dos recortes analisados,

conforme ilustra a figura 21.

80
66,7
70
60
50 Existência
40 Dúvidas
30 26,3 Inexistência
20
7
10
0

Figura 21: Percentagem das subcategorias pertencentes à Categoria Correlação DEPRESSÃO/SUICÍDIO.

A subcategoria Existência agrupa as falas dos participantes, que afirmaram acreditar

na existência de uma relação entre depressão e suicídio. Os dados indicam que a maioria, dos

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estudantes de psicologia, informou acreditar na existência de uma correlação entre depressão

e comportamento suicida, à medida que apontam essa patologia como um fator desencadeante

do suicídio. Os recortes analisados e apresentados a seguir refletem a crença de que o ser

depressivo possui maior chance de vir a cometer o suicídio do que os indivíduos sem essa

patologia.

“(...) quando a pessoa está depressiva ela corre um risco maior ( ) acredito que tem tudo a
ver( ) quanto mais deprimida a pessoa está mais chances ela tem de tentar se matar( ) a
depressão é o principal motivo para que uma pessoa venha a tentar o suicídio ( ) acho que
tem toda relação(3) quanto mais grave a depressão( 2) quanto mais severos os sintomas( )
e quanto mais tempo dure a depressão ( ) mais chances o individuo tem de cometer suicídio
( 2) ou pelo menos tentar( ) todos os casos de suicídio que eu já ouvi falar foram de pessoas
que estavam passando por um processo depressivo( ) eu acredito que existe uma correlação
sim( 5 ) porque quando você não encontra sentido pra viver( ) pra acreditar em você( ) ou
acreditar na própria vida( ) isso pra muita gente seria o ponto final( ) eu acho que de
alguma forma há indícios sim( ) eu acho que todo suicida era depressivo( ) eu acredito
plenamente( ) eu acredito firmemente que é uma decorrência ( 3) é como se fosse o estágio
mais perigoso que a depressão pode atingir ( ) seria terminar num suicídio ( )última fase
de uma depressão mais profunda ( ) a depressão se não tiver um acompanhamento de um
profissional pode trazer uma tentativa de suicídio( ) na grande maioria dos casos existe
uma relação direta da depressão com o suicídio.( ) uma relação de desencadear ( ) eu
acho que dificilmente uma pessoa vai fazer isso sem estar passando por uma depressão ( )
eu acho que tem a ver e muito ( )”.

Essa representação corrobora com os estudos realizados pelo conhecimento científico,

pois na literatura especializada o comportamento suicida é um dos sintomas característicos,

senão específico, da depressão (Corrêa e Barrero, 2006). Os grandes sistemas nosográficos de

classificação, como CID 10 e DSM -IV, e algumas escalas internacionalmente reconhecidas

para a avaliação dos sintomas depressivos, como o Inventário de Depressão de Beck, também

reconhecem a associação entre esses dois fenômenos.

Embora o comportamento suicida não esteja associado, exclusivamente, com a

depressão, mas com quase todos os diagnósticos psiquiátricos, observou-se que as falas dos

participantes atribuem a depressão um papel fundamental no surgimento da ideação suicida,

que levaria a uma tentativa ou mesmo ao suicídio consumado. De acordo com as

representações apreendidas, a pessoa que comete o suicídio era alguém que vinha passando

por um episódio depressivo, que fez com que ele buscasse a própria morte.

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Na subcategoria Dúvidas, encontram-se as unidades temáticas referentes às falas dos

participantes que não souberam opinar sobre a possível existência de uma correlação entre

depressão e suicídio. Os recortes a seguir demonstram que eles possuíam dúvidas ou receio

em afirmar seu posicionamento quanto a essa temática.

“(...) não sei se dá pra fazer uma relação de causalidade ( ) não necessariamente a
depressão vai sempre levar ao suicídio( 2 ) acredito sim que exista relação, mas não muito
estreita ( )”.

Por fim, na subcategoria Inexistência ,encontram-se as interlocuções referentes à

negação da associação entre depressão e suicídio, onde se observou mediante análise dos

recortes a seguir, que os estudantes reconheceram que nem toda depressão leva a um ato

suicida ou mesmo que esses dois fenômenos não possuem relação alguma.

“(...) nem toda depressão faz com que o indivíduo pense em morrer ( 2 ) nem todo mundo
que tem depressão chega a tentar o suicídio( ) não é todo suicida que é depressivo ( 2 ) nem
todo depressivo vai se tornar suicida ( ) não tem esse grau de obrigatoriedade ( ) eu não
consigo ver uma relação entre depressão e suicídio ( ) eu não acho que a pessoa se suicida
porque está depressivo ( ) suicídio não está ligado à depressão ( ) quando você está
depressivo você não tem disposição para cometer (2 )tem que ter muita mobilidade ( ) coisa
que uma pessoa com depressão não tem ( )eu pensei e não estava com depressão ( ) “.

Apesar da relação entre depressão e suicídio ser reconhecida pela suicidologia, sabe-se

que muitos pacientes com sintomatologia depressiva nunca se tornaram suicidas, assim como

muitos suicídios são cometidos por pessoas que não vinham passando por um processo

depressivo. Nesse sentido, afirma Solomon (2002), acredita-se que esses dois fenômenos são

entidades separadas que com freqüência coexistem, influenciando-se mutuamente.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

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CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Atendendo ao objetivo principal de apreender as representações sociais dos estudantes

de Psicologia acerca da depressão e do suicídio, o presente estudo, através dos resultados

obtidos, possibilitou uma análise científica do que se chama senso comum. Essa análise

baseou-se no pressuposto de que o conhecimento do senso comum permite-nos compreender

esses fenômenos, a partir de um conhecimento socialmente elaborado e partilhado. Foi

possível conhecer os pensamentos, sentimentos e percepções dos participantes da pesquisa,

identificando nessas representações suas opiniões, crenças, valores e atitudes.

Mediante análise dos dados coletados, pôde-se observar que a depressão foi

representada pelos estudantes de forma semelhante à descrição clínica, categorizada nos

distúrbios psicoafetivos, independentemente, das variáveis sócio-demográficas pesquisadas.

Em relação a essas variáveis, mediante análise feita através do software Tri-Deux-Mots,

observou-se que ocorreu o não-aparecimento da variável sexo, o que indica que as

representações sociais dos estudantes a respeito dos estímulos dados não foram,

significativamente, diferentes entre homens e mulheres. Já as variáveis relacionadas ao

período no qual o estudante estava inserido, bem como sua faixa etária; apresentaram

diferenças significativas em relação aos estímulos estudados.

O suicídio, objetivado pelos estudantes através do elemento morte, representa para

esse grupo uma fuga, uma saída escolhida pelo individuo, face às adversidades advindas do

meio externo. Investigou-se também a experiência desses indivíduos com o fenômeno

suicídio e percebeu-se que os estudantes em sua totalidade afirmaram conhecer dentre seus

colegas universitários alguém que já tivesse pensado, tentado ou mesmo chegado a óbito, em

decorrência do ato suicida.

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Observou-se que as evocações dadas ao estímulo depressão foram, muitas vezes, as

mesmas dadas ao estímulo suicídio, significando uma semelhança entre as representações

sociais desses dois fenômenos, para o grupo pesquisado. Tanto para a depressão quanto para o

suicídio foi dada a objetivação «morte», o que implica dizer que ambos os fenômenos

encontram-se interligados, podendo os dois levar o individuo a óbito. Outra similaridade

encontrada, nas representações da depressão e do suicídio, refere-se à descrição desses dois

fenômenos, ambos representados como «doença» e enfatizando-se a ajuda da «família» para a

melhora dos quadros.

A auto-imagem dos estudantes, de uma forma geral, emergiu de forma positiva,

coincidindo com o que se espera dos acadêmicos de psicologia. As auto-representações

assumem contorno diferenciado em relação ao tempo de vínculo ao curso de psicologia, ora

ancorado em manifestações referentes à proximidade do enfrentamento da realidade

profissional, ora concentrando-se em manifestações sócio-cognitivas.

Observou-se que as auto-representações, desse grupo de afiliação, foram ancoradas em

manifestações próprias do período no qual o estudante estava inserido. Os acadêmicos de

início do curso ressaltaram sua timidez e seu papel social de estudante, enquanto os alunos

concluintes enfatizaram a busca por sua identidade profissional e o otimismo perante a

vivência da transação entre sua condição de estudante e de psicólogo.

No que se refere à análise realizada mediante utilização do software EVOC, observou-

se que as evocações constantes dos sistemas central e periférico das representações sociais da

«depressão» e do «suicídio» elaboradas pelos estudantes de Psicologia parecem demonstrar

uma estrutura representacional semelhante e interligada.

Esse paralelismo está posto, uma vez que, as objetivações registradas para o estímulo-

indutor suicídio são, expressamente, carregadas do elemento «depressão»; no núcleo central,

e das próprias representações sociais desse objeto social, no sistema periférico o qual emergiu

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do estímulo suicídio «tristeza, dor e sofrimento». Estes elementos, por sua vez, constituem o

núcleo central da representação social da depressão, elaborada pelos participantes. Associada

aos aspectos psicoafetivos, encontra-se uma manifestação atitudinal, o elemento «ruim», que

complementa a estrutura central acerca da depressão.

Entretanto, de acordo com os elementos constantes do núcleo central dos dois

construtos representacionais, observa-se que essas semelhanças e interligações apontam,

ainda, para uma maior interdependência do suicídio com relação à depressão. Do ponto de

vista da representação social do transtorno depressivo, os atores sociais investigados

evocaram o suicídio no seu sistema periférico.

No que se refere à investigação da ocorrência desses fenômenos, na comunidade

acadêmica; observou-se que 10,73% dos estudantes de psicologia apresentaram

sintomatologia depressiva, conforme análise do Inventário de Depressão de Beck. Os

sintomas dessa patologia destacados, por essa população, apresentaram-se de forma

semelhante aos principais sintomas descritos pela nosologia psiquiátrica.

A presença da ideação suicida foi encontrada em 11% dos estudantes de psicologia,

índice similar ao encontrado na investigação da incidência da depressão. Entretanto,

observou-se que apenas 55,56% dos estudantes com ideação suicida haviam obtido pontuação

superior ao ponto de corte considerado, no instrumento utilizado para a investigação do

transtorno depressivo. Sendo assim, constatou-se que 29,63% apresentaram apenas uma

manifestação de alguns sintomas característicos dessa patologia, mas que não constituiu um

quadro de depressão.

Complementando os dados apreendidos, observou-se que 14,81% dos estudantes que

apresentaram ideação suicida no momento da pesquisa, não apresentaram nenhuma espécie de

manifestação depressiva. Esse fato ressalta a complexidade do comportamento suicida, sendo

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necessário para sua compreensão à análise de diversos fatores, uma vez que a etiologia desse

fenômeno é definida pela literatura específica como multifatorial.

Levando-se em consideração que 85,19% dos estudantes com ideação suicida

apresentaram também o transtorno depressivo, seja, de forma leve, moderada ou severa, os

dados apontam para a existência de uma relação entre a depressão e a ideação suicida, sendo a

primeira entendida como um fator de risco para a ocorrência do segundo.

Por ser um ato definitivo e irreversível, a prevenção do suicídio faz-se por meio da

tentativa de diminuição dos fatores de risco, tanto no nível individual como coletivo, bem

como através do reforçamento dos fatores de proteção. Sendo assim, o diagnóstico precoce e

o tratamento correto da depressão, pode ser entendida como uma das maneiras mais eficazes

de prevenção do suicídio. Um histórico de tentativas anteriores também representa um forte

indicador de risco para o ato suicida, devendo, pois, ser levado em consideração, na tentativa

de prevenir, a consumação do ato.

O índice epidemiológico da depressão, assim como a presença da ideação suicida

encontrados na amostra pesquisada, demonstra a necessidade de uma maior atenção a esses

jovens acadêmicos, no sentido de promover diferenciados serviços de apoio psicológico na

formação desses futuros profissionais.

Por meio da entrevista em profundidade e da análise temática do conteúdo, que

emergiu das interlocuções dos participantes da pesquisa; foi possível refletir sobre a dimensão

dos fenômenos pesquisados, bem como a interligação existente entre eles. Através da análise

das classes temáticas, categorias e subcategorias emergentes observou-se que, tanto a

depressão quanto o comportamento suicida, afetam todas as esferas da vida do indivíduo,

influenciando suas relações interpessoais do dia-a-dia.

Os dados apreendidos através das entrevistas foram de extrema importância, uma vez

que possibilitou uma maior compreensão das representações sociais dos estudantes de

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psicologia, acerca dos fenômenos pesquisados. Através dessa técnica foi possível também se

obter uma ratificação de alguns aspectos enfatizados na Associação Livre de Palavras,

analisados e discutidos com a utilização dos softwares Tri-Deux–Mots e Evoc. A utilização da

abordagem multimétodo foi de suma importância, uma vez que proporcionou uma

complementaridade de informações imprescindíveis para a compreensão de fenômenos tão

complexos, como a depressão e o suicídio.

As falas dos atores sociais, apresentadas no conteúdo temático das entrevistas,

enriqueceram não só a análise das representações sociais apreendidas através da Técnica de

Associação Livre de Palavras, como também possibilitou uma compreensão mais detalhada

dos sentimentos do ser depressivo e do indivíduo que apresenta comportamento suicida.

As representações sociais acerca da depressão e do suicídio, elaboradas pelos

estudantes de psicologia, foram permeadas de conhecimento oriundo do senso comum,

interligadas com experiências de vida dos atores sociais, intercalando-se também com o

conhecimento erudito. O conhecimento dessas representações é de suma importância, não só

pelo significado da futura atuação profissional desses indivíduos; mas também da qualidade

de vida dos mesmos, que necessitam de uma maior atenção, no que se refere à saúde mental e

ao bem-estar biopsicossocial.

Considerando que as representações sociais dos indivíduos interferem na forma como

eles vêem, e lidam com a patologia, reconhece-se que a análise aqui apresentada não é

conclusiva, necessitando de uma maior complementação, no sentido de apreender as

representações sociais dos indivíduos que apresentaram o transtorno depressivo, bem como a

ideação suicida. Reconhece-se também a necessidade de uma possível ampliação deste

estudo, abrangendo uma maior quantidade de estudantes de psicologia, ou mesmo, de outros

cursos.

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No que se refere à aplicabilidade do estudo, acredita-se que a investigação de

transtornos como a depressão e a ideação suicida na comunidade acadêmica, especificamente

em estudantes de psicologia, possa possibilitar, uma maior preocupação com a qualidade de

vida e com a formação profissional desses universitários, propondo um acesso mais fácil aos

serviços de ajuda psicológica da instituição. Além disso, acredita-se, também que a

compreensão da forma como esses indivíduos vêem e lidam com os fenômenos pesquisados,

sob a ótica da Teoria das Representações Sociais, possibilita uma complementaridade entre o

saber cientifico e o senso comum.

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REFERÊNCIAS

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ANEXOS

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ANEXO A – Autorização do Comitê de Ética do CCS/UFPB

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ANEXO B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

Universidade Federal da Paraíba – CCHLA


Departamento de Psicologia
Mestrado em Psicologia Social
Núcleo de Pesquisa Aspectos Psicossociais de Prevenção e da Saúde Coletiva
Orientadora: Profª. Drª. Maria da Penha L. Coutinho – e-mail: penhalcoutinho@yahoo.com.br
Mestranda: Kay Francis Leal Vieira – e-mail: kayleal@bol.com.br

CONSENTIMENTO PARA PARTICIPAR DO ESTUDO

INFORMAÇÕES: A sua participação na pesquisa é voluntária, não sendo, portanto,


obrigatório o fornecimento dessas informações e/ou sua colaboração nas atividades solicitadas
pelo Pesquisador. Caso decida não participar do estudo, ou resolver a qualquer momento
desistir do mesmo, não sofrerá nenhum dano, nem haverá modificação na assistência que vem
recebendo na Instituição.
Solicito sua autorização para apresentar os resultados deste estudo em eventos
científicos e publicar em revista cientifica. Por ocasião da publicação dos resultados, seu
nome será mantido em sigilo. O pesquisador estará a sua disposição para qualquer
esclarecimento que considere necessário em qualquer etapa da pesquisa.

Estamos interessados em saber como os universitários têm se sentido ultimamente,


bem como as opiniões que possuem a respeito de determinados assuntos. Ao final deste
questionário também lhe são pedidas algumas informações complementares. Todas as
informações são confidenciais e não existem respostas consideradas certas ou erradas.
Apesar deste estudo não oferecer benefício imediato aos participantes, contribuirá ao
banco geral do conhecimento psicológico. Os resultados finais deste estudo estarão
disponíveis no primeiro semestre de 2008. Para obtê-los, favor contatar os responsáveis pela
pesquisa através dos meios acima citados.

Consentimento: Certifico haver lido o anteriormente descrito e compreendo que sou livre
para interromper minha participação na pesquisa em qualquer momento sem que isso acarrete
penalização. Pela presente, dou meu consentimento para participar do estudo.

João Pessoa, ________ de __________________ de 2007.

_______________________________________________
Assinatura do participante

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ANEXO C – Inventário de Depressão de Beck

BDI

1. a) Não me sinto triste.


b) Eu me sinto triste.
c) Estou sempre triste e não consigo sair disto.
d) Estou tão triste ou infeliz que não consigo suportar.

2. a) Não estou especialmente desanimado quanto ao futuro.


b) Eu me sinto desanimado quanto ao futuro.
c)Acho que nada tenho a esperar.
d)Acho o futuro sem esperança e tenho a impressão de que as coisas não podem
melhorar.

3. a) Não me sinto um fracasso.


b) Acho que fracassei mais do que uma pessoa comum.
c) Quando olho para trás, na minha vida, tudo o que posso ver é um monte de
fracassos.
d) Acho que, como pessoa, sou um completo fracasso.

4. a) Tenho tanto prazer em tudo como antes.


b) Não sinto mais prazer nas coisas como antes.
c) Não encontro um prazer real em mais nada.
d) Estou insatisfeito ou aborrecido com tudo.

5. a) Não me sinto especialmente culpado.


b) Eu me sinto culpado grande parte do tempo.
c) Eu me sinto culpado na maior parte do tempo.
d) Eu me sinto sempre culpado.

6. a) Não acho que esteja sendo punido.


b) Acho que posso ser punido.
c) Creio que vou ser punido.
d) Acho que estou sendo punido.

7. a) Não me sinto decepcionado comigo mesmo.


b) Estou decepcionado comigo mesmo.
c) Estou enjoado de mim.
d) Eu me odeio.

8. a) Não me sinto de qualquer modo pior que os outros.


b) Sou crítico em relação a mim por minhas fraquezas ou erros.
c) Eu me culpo sempre por minhas falhas.
d) Eu me culpo por tudo de mal que acontece.

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9. a) Não tenho quaisquer idéias de me matar.


b) Tenho idéias de me matar, mas não as executaria.
c) Gostaria de me matar.
d) Eu me mataria se tivesse oportunidade.

10. a) Não choro mais que o habitual.


b) Choro mais agora que o habitual.
c) Agora, choro o tempo todo.
d) Costumava ser capaz de chorar, mas agora não consigo mesmo que o queira.

11. a) Não sou mais irritado agora do que já fui.


b) Fico aborrecido ou irritado mais facilmente do que costumava.
c) Agora eu me sinto irritado o tempo todo.
d) Não me irrito mais com coisas que costumavam me irritar.

12. a) Não perdi o interesse pelas outras pessoas.


b) Estou menos interessado pelas outras pessoas do que costumava estar.
c) Perdi a maior parte do meu interesse pelas outras pessoas.
d) Perdi todo o interesse pelas outras pessoas.

13. a) Tomo decisões tão bem quanto antes.


b) Adio as tomadas de decisões mais do que costumava.
c) Tenho mais dificuldades de tomar decisões do que antes.
d) Absolutamente não consigo mais tomar decisões.

14. a) Não acho que de qualquer modo pareço pior do que antes.
b) Estou preocupado em estar parecendo velho ou sem atrativo.
c) Acho que há mudanças permanentes na minha aparência, que me fazem parecer sem
atrativo.
d) Acredito que pareço feio.

15. a) Posso trabalhar tão bem quanto antes.


b) É preciso algum esforço extra para fazer alguma coisa.
c) Tenho que me esforçar muito para fazer alguma coisa.
d) Não consigo mais fazer qualquer trabalho.

16. a) Consigo dormir tão bem como o habitual.


b) Não durmo tão bem como costumava.
c) Acordo 1 a 2 horas mais cedo do que o habitual e acho difícil voltar a dormir.
d) Acordo várias horas mais cedo do que costumava e não consigo voltar a dormir.

17. a) Não fico mais cansado do que o habitual.


b) Fico cansado mais facilmente do que costumava.
c) Fico cansado em fazer qualquer coisa.
d) Estou cansado demais para fazer qualquer coisa.

18. a) O meu apetite não está pior do que o habitual.

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b) Meu apetite não é tão bom como costumava ser.


c) Meu apetite é muito pior agora.
d) Absolutamente não tenho mais apetite.

19. a) Não tenho perdido muito peso se é que perdi algum recentemente.
b) Perdi mais do que 2 quilos e meio.
c) Perdi mais do que 5 quilos.
d) Perdi mais do que 7 quilos.

20. a) Não estou mais preocupado com a minha saúde do que o habitual.
b) Estou preocupado com problemas físicos, tais como dores, indisposições do
estômago ou constipação.
c) Estou muito preocupado com problemas físicos e é difícil pensar em outra coisa.
d) Estou tão preocupado com meus problemas físicos que não consigo pensar em
qualquer outra coisa.

21. a) Não notei qualquer mudança recente no meu interesse por sexo.
b) Estou menos interessado por sexo do que costumava.
c) Estou menos interessado por sexo agora.
d) Perdi completamente o interesse por sexo.

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ANEXO D – Escala de Ideação Suicida de Beck

BSI

1. a) Tenho um desejo de viver que é de moderado a forte.


b) Tenho um desejo fraco de viver.
c) Não tenho desejo de viver.

2. a) Não tenho desejo de morrer.


b) Tenho um desejo fraco de morrer.
c) Tenho um desejo de morrer que é de moderado a forte.

3. a) Minhas razões para viver pesam mais que minhas razões para morrer.
b) Minhas razões para viver ou para morrer são aproximadamente iguais.
c) Minhas razões para morrer pesam mais que minhas razões para viver.

4. a) Não tenho desejo de me matar.


b) Tenho um desejo fraco de me matar.
c) Tenho um desejo de me matar que é de moderado a forte.

5. a) Se estivesse numa situação de risco de vida, tentaria me salvar.


b) Se estivesse numa situação de risco de vida, deixaria vida ou morte ao acaso.
c) Se estivesse numa situação de risco de vida, não tomaria as medidas necessárias
para evitar a morte.

Se você assinalou as afirmações “a”, em ambos os grupos 4 e 5, passe para o item 20.
Se você assinalou “b” ou “c”, seja no grupo 4 ou 5, prossiga respondendo o item 6.

6. a) Tenho breves períodos com idéias de me matar que passam rapidamente.


b) Tenho períodos com idéias de me matar que duram algum tempo.
c) Tenho longos períodos com idéias de me matar.

7. a) Raramente ou ocasionalmente penso em me matar.


b) Tenho idéias freqüentes de me matar.
c) Penso frequentemente em me matar.

8. a) Não aceito a idéia de me matar.


b) Não aceito nem rejeito a idéia de me matar.
c) Aceito a idéia de me matar.

9. a) Consigo me controlar quanto a cometer suicídio.


b) Não estou certo se consigo me controlar quanto a cometer suicídio.
c) Não consigo me controlar quanto a cometer suicídio.
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10. a) Eu não me mataria por causa da minha família, de meus amigos, de minha religião,
de um possível dano por uma tentativa mal sucedida.
b) Eu estou um tanto preocupado a respeito de me mata,r por causa da minha família,
de meus amigos, de minha religião, de um possível dano por uma tentativa mal
sucedida.
c) eu não estou ou estou só um pouco preocupado a respeito de me matar, por causa da
minha família, de meus amigos, de minha religião, de um possível dano por uma
tentativa mal sucedida.

11. a) Minhas razões para querer cometer suicídio tem em vista principalmente influenciar
os outros, como conseguir me vingar das pessoas, torná-las mais felizes, fazê-las
prestar mais atenção em mim, etc.
b) Minhas razões para querer cometer suicídio não tem em vista apenas influenciar os
outros, mas também representam uma maneira de solucionar meus problemas.
c) Minhas razões para querer cometer suicídio se baseiam principalmente numa fuga
de meus problemas.

12 a) Não tenho plano específico sobre como me matar.


b) Tenho considerado maneiras de me matar, mas não elaborei detalhes.
c) Tenho um plano específico para me matar.

13 a) Não tenho acesso a um método ou a uma oportunidade de me matar.


b) O método que usaria para cometer suicídio leva tempo e realmente não tenho uma
boa oportunidade de usá-lo.
c) Tenho ou espero ter acesso ao método que escolheria para me matar e, também,
tenho ou teria oportunidade de usá-lo.

14 a) Não tenho a coragem ou a capacidade para cometer suicídio.


b) Não estou certo se tenho a coragem ou a capacidade para cometer suicídio.
c) Tenho a coragem e a capacidade para cometer suicídio.

15. a) Não espero fazer uma tentativa de suicídio.


b) Não estou certo de que farei uma tentativa de suicídio.
c) Estou certo de que farei uma tentativa de suicídio.

16. a) Eu não fiz preparativos para cometer suicídio.


b) Tenho feito alguns preparativos para cometer suicídio.
c) Meus preparativos para cometer suicídio já estão quase prontos ou completos.

17. a) Não escrevi um bilhete suicida.


b) Tenho pensado em escrever um bilhete suicida ou comecei a escrever, mas não
terminei.
c) Tenho um bilhete suicida pronto.

18. a) Não tomei providências em relação ao que acontecerá depois que eu tiver cometido
suicídio.
b) Tenho pensado em tomar providências em relação ao que acontecerá depois que eu
tiver cometido suicídio.

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c) Tomei providências definidas em relação ao que acontecerá depois que eu tiver


cometido suicídio.

19. a) Não tenho escondido das pessoas o meu desejo de me matar.


b) Tenho evitado contar às pessoas o meu desejo de me matar.
c) Tenho tentado não revelar, esconder ou mentir sobre a vontade de cometer suicídio.

20. a) Nunca tentei suicídio.


b) Tentei suicídio uma vez.
c) Tentei suicídio duas ou mais vezes.

Se você tentou suicídio anteriormente, por favor, continue no próximo grupo de afirmações.

21. a) Durante a última tentativa de suicídio, meu desejo de morrer era fraco.
b) Durante a última tentativa de suicídio, meu desejo de morrer era moderado.
c) Durante a última tentativa de suicídio, meu desejo de morrer era forte.

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