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Scriptorium

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Scriptorium (IPA: [scriptorium] ouvir (https://upload.wikimedi
a.org/wikipedia/commons/e/e0/Scriptorium-%C3%A1udio.ogg)) (no
plural scriptoria) é o espaço onde os livros manuscritos eram
produzidos na Europa durante a Idade Média. Ainda é incerta
a origem dessa acepção da palavra e se sabe que, ao longo da
história, diferentes usos foram dados para o termo: ele chegou
a designar as ferramentas de escrita, o local de produção, o
conjunto de uma obra, uma coleção de livros de algum
monastério — o que mostrava sua proximidade com as
bibliotecas — ou ainda mesas de trabalho associadas à
atividade escriturária. Até meados do século XI, os scriptoria,
enquanto espaços de produção livreira, eram encontrados
dentro das catedrais e monastérios. Acredita-se que apenas as
instituições que contavam com boas condições materiais
poderiam ter um número suficiente de monges ou freiras
empenhados na escrita, de tal forma que trabalhos necessários
para a sobrevivência da instituição monástica, como a
agricultura e a criação de animais, não fossem prejudicados Iluminura do século XII
por falta de pessoas. Porém, a partir do renascimento do representando a torre e o
século XII, com o desenvolvimento do ambiente urbano e o scriptorium do mosteiro de São
surgimento das universidades, a importância das instituições Salvador de Tábara, na Espanha
eclesiásticas na produção de conhecimento foi
descentralizada. No mesmo período, catedrais, abadias e conventos passaram a compartilhar o
protagonismo na produção manuscrita com ambientes mais laicos ou corteses. Isso ocorre na
Península Ibérica, quando Afonso I de Portugal e Afonso X de Leão e Castela contavam com
equipes de amanuenses que trabalhavam para coordenar, pela palavra escrita, os projetos políticos
e culturais de seus respectivos reinos.

Para que os amanuenses pudessem escrever eram necessárias diversas ferramentas e produtos: a
pedra-pomes, que servia para polir o pergaminho; as penas, que serviam como ferramenta para
escrever; e as tintas, que deixavam as marcas da escrita sobre os pergaminhos. As etapas da
produção do livro na Idade Média iam desde a criação de animais para retirada do couro, que
passaria por diversos procedimentos até virar um pergaminho, até intervenções que o
transformariam em um suporte apropriado para a escrita. As tintas também deveriam ser
produzidas. Depois que as tintas, a pena e o pergaminho estivessem prontos, um ou mais copistas
poderiam trabalhar na escrita de um manuscrito. A produção era coordenada por algum monge ou
freira, chamados geralmente de "bibliotecários", pois teriam acesso à biblioteca e escolheriam os
livros a serem copiados. As produções ainda deveriam contar com um copista, que escrevia e
delimitava os espaços destinados à escrita, às iluminuras, miniaturas e rubricas. Esta cadeia de
produção dos manuscritos, junto ao desenvolvimento urbano e cultural a partir do século XII,
passou por transformações que a integraram no mercado do livro, ligado à criação e comércio do
pergaminho. A partir do século XIII, o mercado do livro integrado nas rotas de comércio faz
circular desde o mundo muçulmano a invenção chinesa do papel, que era mais barato e tinha uma
produção menos penosa.

Nos scriptoria, trabalhavam monges e freiras copistas, alguns dos quais ficaram conhecidos por
conta de seus trabalhos e são estudados e recuperados nos dias de hoje. Atualmente, nomes como
Florêncio de Valeranica, Herrard de Landsberg e Cristina de Pisano são considerados artistas por
conta de seus trabalhos como iluminadores, compiladores e escritores de manuscritos no medievo.
Porém, nem só de lindas obras e reconhecimento viviam os amanuenses: os erros que cometiam,
em razão do penoso trabalho, aliados a diversos outros motivos, rondavam aqueles que
trabalhavam escrevendo. Estes erros, inclusive, foram considerados como obra de um demônio
conhecido como Titivillus, que assombrava os copistas, induzindo-os a erros que, por vezes, eram
bastante embaraçosos.

Os scriptoria desenvolveram-se até chegarem aos locais de produção dos mais diversos produtos
feitos em conjunto, como é o caso dos ateliês, onde uma ou mais pessoas organizavam a produção
de manufaturados, como pinturas e obras de arte. Também há menções aos scriptoria na cultura
popular: filmes, seriados e animações ainda inspiram-se nos mistérios dos scriptoria medievais,
tal sua importância para o acesso atual ao conhecimento escrito dos tempos mais antigos da
história.

Índice
O scriptorium na História
Usos dados à palavra scriptorium na História
As regras monásticas e o trabalho de escrita
Os scriptoria nos mosteiros
São Bento
São Bernardo
São Columbano
São David
São Fruela
São Martinho
São Pedro
O longo século XII: renascimento cultural e comercial
Alemanha
França
Inglaterra
Itália
Leão e Castela
Portugal
A produção dos livros manuscritos
Utensílios para produção do livro manuscrito
Fazendo o pergaminho
Elaborando a tinta
Esquadrinhando o manuscrito
Interpolando o texto
Freiras e monges copistas
Cristina de Pisano
Florêncio de Valeranica
Herrad de Landsberg
Produção e venda de pergaminhos
Miniaturas de dedicação
Titivillus: o demônio patrono dos escribas
Dos scriptoria ao ateliê
Na cultura popular
O Nome da Rosa
Vikings
Uma Viagem ao Mundo das Fábulas
Ver também
Notas
Referências
Bibliografia
Artigos Científicos
Teses e Dissertações
Livros e capítulos de livros
Páginas da Web

O scriptorium na História
O filólogo Du Cange foi o primeiro a compilar excertos de
autores medievais que utilizavam o termo scriptorium para
designar um espaço no qual se praticava a escrita. Du Cange
lembra os registros de Elfrico de Eynsham, Adelardo de Bath e
Pedro Abelardo entre outros nomes menos conhecidos.[1] A
existência de um lugar de escrita dentro dos mosteiros é
atestada no poema 126 de Alcuíno de Iorque, assim como em
outros registros do século XII francês associados a Simon de
Quatro exemplos de como eram os
Tournai.[2]
estiletes chamados de scriptorium
por Isidoro de Sevilha
A origem do significado de scriptorium como um lugar de
escrita é no entanto obscura. Nas Etimologias, grande
enciclopédia da Antiguidade Tardia, Isidoro de Sevilha usava scriptorium para chamar o estilete,
uma ferramenta de metal utilizada na escrita em tábuas de cera.[3]

Ainda é incerto quantos monastérios ou catedrais possuíam um espaço destinado à leitura e à


escrita de livros manuscritos na Idade Média e ainda que saibamos onde eles tenham existido, é
difícil saber se os livros presentes em suas bibliotecas foram comprados, trocados ou feitos no
local, já que as informações em relação à autoria de grande parte destas cópias é precária.[3]

A palavra também pode estar ligada aos lugares onde algum escrivão ou nobre fazia seus registros.
No final da Idade Média, scriptorium poderia fazer referência a uma pequena sala ou mesmo à
mobília que acompanhava o monarca por onde ele andava. Na corte de Avis, no século XV,
sabemos que D. Pedro de Coimbra mandou construir uma sala "scriptorio", a qual adornou com
pinturas de filósofos e de profetas.[4]

Na época contemporânea o termo também possui diferentes significados. Muitas vezes


scriptorium é mencionado na literatura acadêmica como forma de chamar os produtos
amanuenses, e não o local de produção em si. Por outras vezes, encontramos o termo designando a
totalidade da obra de um monastério, de uma chancelaria real ou, com mais frequência, de um
autor.[2] Há estudos recentes que tratam o scriptorium não como um lugar específico, mas como
uma atividade geral de cópia, de tradução ou de estudo e de composição de obras manuscritas.[5]

Usos dados à palavra scriptorium na História


Espaço para a produção de livros manuscritos.[1]
Lugar de escrita dentro dos mosteiros.[2]
Estilete utilizado para escrever em tábuas de cera.[2]
Lugar onde um escrivão ou nobre fazia seus registros.[4]
Produtos do trabalho dos monges amanuenses.[2]
A totalidade da obra escrita de um monastério, chancelaria real ou autor.[2]
Atividade de cópia, tradução, composição ou estudo obras manuscritas.[5]

As regras monásticas e o trabalho de escrita


Muitas regras monásticas incentivavam a escrita por parte de
seus monges amanuenses. As regras de Santo Agostinho e de
São Bento, por exemplo, pregavam a necessidade da realização
das leituras orantes, divididas em diferentes modalidade e
horários. As leituras litúrgicas, que eram as leituras dos textos
da bíblia e as leituras espirituais, eram realizadas de forma
coletiva ou individual e tinham a intenção de inspirar os
monges a seguir o caminho dos padres e mártires da Igreja
Católica.[6] Acredita-se que a escrita por parte dos monges
agostinianos e beneditinos tenha origem na necessidade de
armazenamento de livros, imposta pelo hábito da leitura,
somado ao alto preço que se pagava pelos livros na Alta Idade
São Bento entregando a regra para
Média e os momentos de dificuldade material que passavam os monges beneditinos.Nimes,
os monastérios no início do medievo.[7] França, 1129

A regra de São Pacômio é um exemplo, na Antiguidade Tardia,


de incentivo às práticas de leitura e escrita. Todo monge que se pretendesse pacomiano deveria
saber ler e escrever, podendo ser alfabetizado dentro do ambiente monástico.[8] No século VI,
Ferréol d'Uzès escreveu em sua regra que aquele que não trabalhasse na terra, com as mãos no
arado, deveria ocupar as suas mãos escrevendo com a tinta no pergaminho.[9]

Na Hispânia visigótica, as regras também indicavam a importância da prática de escrita entre os


monges. Na Regula Monachorum, Isidoro de Sevilha estipulava que nenhum converso deveria ser
aceito no cenóbio sem antes prometer por escrito se estabelecer nele permanentemente.[10]
Também há evidências da importância da leitura e da escrita nos mosteiros das Ilhas Britânicas
durante o período da Heptarquia. Na regra de São David, preservada por Rhygyfarch,
encontramos menção ao papel da redação no cotidiano da comunidade. Segundo o tópico 23 dessa
regra, após o trabalho fora do mosteiro, os monges retornavam às celas, gastando o resto do dia e
chegando a adentrar a noite em leituras, escritas e orações.[11]

Os scriptoria nos mosteiros


Os scriptoria monásticos se caracterizaram pela transcrição de escritos relacionados à Igreja
Católica como a Bíblia, textos de Padres ou santos, relacionados à moral, missas e regras
monásticas. Além destes tipos de obras, os monges copistas também copiavam obras de literatura,
ciência e filosofia antiga, com o intuito de preservar o conhecimento.[12] O trabalho dos monges
copistas fazia parte de uma série de funções a serem exercidas dentro de um mosteiro e era
considerado um trabalho feito pela via espiritual, sendo os scriptoria o lugar onde os monges se
armavam espiritualmente para a vida cotidiana.[6]

São Bento
A Ordem de São Bento tem como documento fundador a
Regra de São Bento, que serviu de guia para a construção de
abadias e mosteiros que seguiam seus ensinamentos.[13] Em
seus scriptoria, os monges beneditinos copiaram tratados
antigos sobre agricultura, astronomia, biologia, botânica e
música.[14] Sabe-se que a cópia de livros chegou a ser uma das
principais ocupações dos beneditinos.[15] Não havia menção,
na regra de São Bento, à necessidade de escrever ou de copiar
textos.[16] As cópias dos textos foram realizadas a partir das
necessidades de leitura e da transformação dos mosteiros
beneditinos em centros tradicionais de estudos sobre a vida de
Jesus Cristo. Os livros foram copiados para que pudessem
durar para a posteridade e para que a vida espiritual dos
Planta da Abadia de São Galo, monges fosse aprimorada através do estudo das escrituras
indicando a localização do sagradas.[17] Foi na abadia de Monte Cassino que São Bento
scriptorium
escreveu sua regra, em 529.[18] Monte Cassino é considerada
uma espécie de metrópole das abadias e, no século XI, sob o
comando dos abades Desiderio e Oderico, atingiu o auge da produção de seus livros.[19][20][21] Foi
nesta época que Monte Cassino se tornou a mais importante produtora de livros da Itália, que
ficaram conhecidos pelas elaboradas decorações que seus monges faziam, sendo também
considerada um centro que zelava pela cultura artística.[22][23] Sabe-se que em Monte Cassino
foram compiladas obras de Platão, Aristóteles, Cícero e Virgílio.[24]

O principal documento sobre a organização da produção manual dos livros nos mosteiros é a
planta baixa da Abadia de São Galo, na Suíça. Nela consta o desenho de uma sala com uma mesa
central e sete assentos. Acredita-se que esse modelo de scriptorium enquanto sala retangular com
sete cadeiras próximas às janelas tenha servido de parâmetro para outros monastérios
beneditinos. Em um período onde a iluminação artificial era cara e precária, uma fonte de luz
natural próxima ao copista era essencial. No centro do scriptorium ficava uma grande mesa
quadrada, onde provavelmente deixavam-se os materiais utilizados pelos escribas. Acima desta
sala encontrava-se a biblioteca, onde eram organizados os manuscritos que seriam reproduzidos e
aqueles que já haviam sido produzidos pelos copistas residentes no monastério.[25]
São Bernardo
A abadia de Claraval foi criada por São Bernardo às margens
do rio Aube, na França, em 1115, e seguia a ordem de
Cister.[26] A abadia é conhecida pelo seu scriptorium e pela
tradição de armazenamento de livros em sua biblioteca. No
século XIII, seu scriptorium esteve no ápice, sendo que a
maioria dos livros contidos na biblioteca da abadia eram
cópias realizadas por seus próprios monges. Além dos textos
sagrados, livros de história, filosofia, matemática e medicina Detalhe do plano da Abadia de São
foram copiados em Claraval.[27] Outra atividade do Galo, no qual se pode ler: Infra
scriptorium de Claraval era a tradução de textos do latim e do sedex scribentum / supra biblioteca.
grego para o vernáculo.[28]

São Columbano
No ano de 614, São Columbano fundou a abadia de Bobbio, na província de Placência, Itália. Entre
os séculos VII e XII, esse centro monástico transformou-se em um dos mais importantes da
Europa. Muito de sua fama advém de seu scriptorium, cujo catálogo inclui mais de 700 códices.
Neles estão 25 dos 150 manuscritos mais antigos da literatura latina. A vasta produção do
scriptorium de Bobbio contava com o trabalho de monges irlandeses que introduziram a arte
hiberno-saxônica na Itália, além de um sistema de abreviaturas próprio.[29]

São David
O Saltério de Rhygyfarch cita São David como o fundador do mosteiro da Abadia de Glastonbury.
Embora existam menções a atividades de produção escrita desde ao menos a época de Ine de
Wessex, no século VII, é no século X, quando Dunstano foi abade, que o scriptorium de
Glastonbury começa a produzir com frequência regular. Uma biografia do século XI descreve
Dunstano como um copista e um iluminador, alegando que o abade era muito habilidoso no
desenho de imagens e em formar letras.[30] Dunstano, além de incentivar a produção de livros no
scriptorium, também atuou junto à biblioteca do mosteiro no sentido de estabelecer uma política
de aquisição de livros. No século XII, a coleção entesourada impressionou o viajante, conhecedor
de livros e historiador Guilherme de Malmesbúria por conta de sua beleza e antiguidade.[31]

São Fruela
No final do século IX, São Fruela fundou o monastério de Tábara, com o apoio do rei Alfonso III. A
história da fundação desse mosteiro foi intercalada na Bíblia de Leão de 920, de João, o Diácono,
amanuense que copiava escrituras diversas, como cédulas reais e livros litúrgicos. João registrou
nessa obra uma biografia de São Fruela, a quem conheceu pessoalmente. Nela nos conta que em
920 existia um cenóbio na região de Tábara, o qual estava sob a influência do rei das Astúrias. A
região era estratégica para a reconquista e o repovoamento da região de Zamora. O mosteiro ficou
conhecido por seu scriptorium, responsável por produzir aqueles que são considerados os mais
belos exemplares da série dos Beatos. É provável que tenha sido entre 940 e 945 que um monge do
monastério de Tábara chamado Magio trabalhou no chamado Beato de São Miguel. Protótipo de
outros Beatos, a obra está atualmente na Biblioteca e Museu Morgan de Nova Iorque.[32]
Consta em documento de doação de Dona
Sancha aos Templários que o mosteiro foi
destruído nas incursões do califa Almançor por
volta de 988. A torre original, tal como
conhecida através das iluminuras, foi substituída
por uma torre românica construída no
século XII. Ainda assim, algumas características
moçárabes permaneceram na estrutura, como os
capitéis e os arcos de ferradura.[33]

São Martinho
À esquerda, imagem do Beato de Tábara (968-970)
Em 555, na Calábria, Cassiodoro fundou um
atribuída a Emetério, na qual se vê a antiga torre
monastério dedicado a São Martinho. Nele, moçárabe. À direita, aparência atual de São
cultivou um viveiro de peixes que deu nome à Salvador de Tábara, com a torre românica e sem o
localidade. O assim chamado monastério de pequeno scriptorium de madeira.
Vivário tinham como principal objetivo
aprofundar os conhecimentos sobre a Bíblia e se tornou um centro de estudos do livro sagrado
cristão. Cassiodoro também se dedicou ao estudo de obras pagãs e da Antiguidade Clássica como
forma de complementar os estudos em relação à Bíblia. Em seu mosteiro, a biblioteca era o
principal espaço a ser cultivado e os escribas tinham posição diferenciada.[34][8] A fama e
competência de seu scriptorium foram tão grandes que autores e estudiosos iam até a Itália para
buscar livros copiados e escritos em Vivário.[35]

A principal obra do scriptorium do monastério de Vivário são as


Instituições (Institutiones), atribuídas a Cassiodoro. Elas tinham
como objetivos normatizar o trabalho na biblioteca e servir de fonte
para acesso dos monges, como plano de estudo. A obra é dividida em
dois livros, que trazem uma relação dos manuscritos encontrados na
biblioteca de Vivário e também um diário de trabalho de
Cassiodoro.[36] O monastério de Vivário é considerado uma
verdadeira academia, pois lá as escrituras sagradas eram estudadas e
textos eram traduzidos do grego para o latim.[37]
Iluminura das Institutiones,
de Cassiodoro, na qual se
São Pedro pode notar o viveiro de
peixes à frente do mosteiro
O monastério de Valeranica tinha recursos suficientes para obter um (Vivário)
espaço específico para a produção dos livros manuscritos, armazenar
uma grande biblioteca e ter um sistema de ensino e aprendizagem.
Florêncio de Valeranica trabalhou nesse monastério e ficou conhecido como príncipe dos
calígrafos espanhóis por causa da grande qualidade de suas iluminuras.[38][39] A Bíblia de Leão de
960, Comentário aos Salmos de Cassiodoro, Morália em Jó (Moralia in Iob) de Gregório Magno e
a Bíblia de 943 estão entre as principais obras produzidas no local.[40] O scriptorium de
Valeranica esteve entre os principais centros receptores e criadores de livros manuscritos durante
a Alta Idade Média.[41] O sucesso desse scriptorium pode ser explicado pela relação que tinha com
outros mosteiros, tanto no oriente quanto no ocidente. Sabe-se que Valeranica ampliou o contatos
com outros mosteiros durante o século X. Essa medida desenvolveu sua rede de relações pelo
território castelhano, tornando possível obter mais livros resultantes de trocas entre mosteiros,
assim como tornar suas produções mais conhecidas.[42]
O longo século XII: renascimento cultural e comercial
O ocidente medieval assistiu a grandes mudanças a
partir do século XII. As populações urbanas
aumentaram no momento em que as cruzadas e o
movimento de reconquista abriam novas
oportunidades comerciais. As comunas e os burgos
demonstram a relevância econômica de um novo
grupo social burguês[nota 1], que passou a comprar
muitos artigos de luxo e, dentre eles, livros. O
Iluminura do Livro de Jogos, obra do scriptorium período também é associado ao renascimento do
de Afonso X. A imagem mostra três copistas século XII, termo proposto por Charles H. Haskins
trabalhando em 1927.[44] Haskins pesquisou o movimento de
retomada dos clássicos, sustentando que os
monastérios e as escolas cristãs teriam exercido um papel mais importante do que o das cidades
italianas[nota 2] nos processos de racionalização e secularização do período. Seu trabalho lançou
questões a respeito do surgimento do individualismo, da racionalidade, da secularização, assim
como do estabelecimento de uma nova mentalidade crítica no século XII.[46]

O século XII foi o momento em que a literatura escrita em línguas vernáculas mais se expandiu.
Essa nova cultura textual tem relação com os movimentos de tradução, cópia e troca de
manuscritos entre diferentes culturas religiosas. O desenvolvimento do método teológico e da
lógica no ocidente medieval deveu muito a traduções do árabe para o latim realizadas com
frequência por judeus.[47] O número crescente de textos e autores chegou a interferir no sistema de
autoridades utilizado pela cultura latina medieval.[48] Dentro desse contexto, Jacques Le Goff viu
no século XII o surgimento de um novo tipo de indivíduo. Um indivíduo que pensa e ensina seu
pensamento com alguma independência das autoridades sacerdotais e seculares: o intelectual, cuja
melhor personificação seria Pedro Abelardo.[49]

Entre os séculos XII e XIII assistimos a expansão da atividade dos scriptoria monásticos ao lado
da ascensão de centros mais laicos de produção escrita. Na Alemanha os centros laicos de
produção de livros manuscritos competiam desde cedo com os mosteiros. Em Portugal e na
Espanha existiu uma divisão de tarefas dentro da cadeia produtiva do livro entre esses dois polos
de produção escrita.[50] Nesse período a produção e o comércio dos livros aumentou com vistas a
atender a novas demandas burguesas e aristocráticas a partir das nascentes universidades ou do
trabalho ligado às chancelarias reais.[51][49]

Alemanha
No século XII, a abadia de Helmarshausen, na região de Hesse, tornou-se o principal centro de
produção e difusão de livros no norte da Alemanha. Entre 1120 e 1200, seu scriptorium criou
documentos manuscritos que ficaram famosos por suas iluminuras. A localização geográfica da
abadia, próximas aos rios Reno e Mosa, facilitou o contato com compradores, fornecedores de
papel assim como o intercâmbio de documentos com outros mosteiros. Por volta de 1150, o
número de obras produzidas aumentou atendendo também a crescente demanda por parte do
público leigo.[52]

No final do século XII, o scriptorium se renovou sob as ordens de Henrique, o Leão, duque da
Saxônia e da Baviera. Contatos com a Inglaterra levaram a inovações de estilo perceptíveis no
saltério de Matilde de Inglaterra. Por volta de 1180 é produzido o Evangelho de Henrique, o Leão,
um livro luxuoso cravejado de joias. O Evangelho de Tréveris,
finalizado pouco depois, mobilizou a divisão do trabalho no
scriptorium. Embora os amanuenses de Helmarshausen tenham
rompido com as tradições românicas, nunca chegaram a se
aproximar da iluminação e da pintura gótica. Por volta de 1200 a
produção de livros de luxo cessa. Pesava cada vez mais a
competição dos scriptoria dos centros episcopais, parcialmente
laicos e muito mais próximos do mercado livreiro.[53]

França
Centros de produção
manuscrita, tradução e
iluminação de pergaminhos
foram estabelecidos na França Capitular adornada com a
durante a época carolíngia. Os imagem de um copista, assinada
pelo irmão Rufilo
primórdios da Escola Catedral
de Paris datam do século X,
com Abão de Fleury.[54] É no século XII, no entanto, que a Escola
de Paris impõe-se como um centro da translatio studiorum,
congregando professores como Pedro Abelardo, Hugo de São
Victor e Bernardo de Claraval, dedicados ao ensino do trívio e do
quadrívio. No começo do século XIII, o papa e a nobreza passam
a ver essas nascentes instituições como possíveis aliadas políticas
e culturais. Nesse espírito são editadas bulas com o objetivo de
reconhecê-las e protegê-las, elevando-as com frequência ao
Iluminura representando Hugo estatuto de studium generale. Universidades do século XII, como
de São Victor (1096-1141) as de Paris ou de Bolonha, foram instituídas por esse tipo de
procedimento.[55][49]

Os studia e as nascentes universidades transformaram-se em centros de controle e produção da


palavra escrita. No final do século XIII, registra-se grande atividade comercial nas casas
pergamineiras próximas à Sorbona, assim como por parte dos copistas que habitavam ao redor da
Catedral de Notre Dame.[56]

Inglaterra
No século XI, o abade Paulo de Caen financiou a construção de um pequeno scriptorium no
monastério de St. Albans, para que copistas profissionais pudessem trabalhar do lado de fora no
monastério sem que os monges tivessem mudanças em sua rotina.[57]

No mesmo século, no priorado de Worcester, desenvolvia-se um scriptorium produtivo e que


indicava o estabelecimento de uma cultura de escrita e treinamento para escribas. No scriptorium
de Worcester, sabe-se que cinco copistas trabalharam no cartulário conhecido como Liber
Wingorniensis. Anos depois, na tentativa de preservar alguns documentos em Worcester, por
iniciativa do bispo Vulstano, um monge trabalhou como rubricador e demarcou os espaços para a
escrita e outros dois monges trabalharam escrevendo o texto de um códice.[57]
Já no século XII, em Malmesbúria, sabe-se que alguns documentos encontrados foram produzidos
em um scriptorium onde mais de cinquenta e quatro copistas trabalhavam. Estes textos foram
encomendados pelo abade Godofredo de Jumièges, que desejava ter na abadia todos os textos que
considerava importante para sua instrução. O coordenador da produção foi Guilherme de
Malmesbúria, que contou com três assistentes especialistas. Há evidências de que os outros
copistas não eram acostumados com a função, tendo sido chamados para o trabalho por conta da
necessidade de pessoas suficientes para a produção.[57]

Em Salisbúria se organizaram copistas para trabalhar coletivamente na produção de manuscritos.


Sabe-se de oito copistas bem treinados que trabalharam juntos na produção de um manuscrito.
Eles teriam sido levados de diferentes lugares para trabalhar na Catedral de Salisbury.[57]

Itália
Acredita-se que é no século XI que a Escola de Salerno
produz um dos mais famosos regimentos de saúde, o
Regimen sanitatis Salernitanum. O regimento foi
composto por um autor anônimo na forma de 370
versos, o que indica o estímulo à incorporação de
conselhos de saúde através das artes da memória. O
poema aconselha ao leitor comer e beber de modo
comedido, não sucumbir à raiva e a lembrar-se de viver
em alegria e descanso. O texto foi copiado e difundido no
século XIII por Arnaldo de Vilanova, mestre da Escola de
Medicina de Montpellier.[58]
Figura produzida no ateliê de Giovannino
de Grassi, do livro História Plantarum, com
No final do século XI, a revisão dos modelos de influência da ilustração de Salerno
ilustração botânicos está ligada à produção da Escola de (século XIV-XV)
Salerno. A observação das plantas, aliada ao interesse de
reconhecê-las, distingui-las e classificá-las, atinge seu
maior esplendor com o manuscrito denominado Carrara Herbal, produzido no norte da Itália no
século XIV-XV. Ele é considerado a primeira coleção moderna de imagens naturalistas.[59] A
ilustração científica produzida ou inspirada pelas atividades da Escola de Salerno influenciou a
ornamentação lombarda realizada nas oficinas do Quattrocento.[60]

Leão e Castela
A Escola de Tradutores de Toledo foi um movimento que envolveu a tradução de livros do árabe,
do hebraico e do grego para o latim, que aconteceu na cidade de Toledo, na Espanha, entre os
séculos XII e XIII. O movimento era composto por monges católicos e judeus sefarditas, que
participavam ativamente das traduções. O fenômeno da tradução na cidade de Toledo pode ter
tido como principal propulsor a presença árabe na cidade antes da ocupação cristã no século XI,
presença que teria deixado uma herança intelectual aos seus habitantes. O interesse pela tradução
levou a Toledo pessoas de toda a Europa, evidenciando a existência, a partir do século XII, de
copistas profissionais no ofício dos manuscritos. Em sua primeira fase, a escola é associada ao
patrocínio de Dom Raimundo de Toledo, assim como ao trabalho de Domingo Gundisalvo e
Abraão ibne Daúde. Essas primeiras fases da Escola de Tradutores de Toledo, durante o
século XII, ocorrem no momento no qual a produção dos manuscritos encontrava seu lugar dentro
do scriptorium monástico da Catedral de Toledo. Sob o comando do rei Afonso X, os tradutores
entraram em contato com a rede de scriptoria da corte no mesmo momento em que a realeza
passava a patrocinar traduções de textos antigos e de saberes árabes
para a língua castelhana.[61][62] Em 1254, o rei Afonso X fundou um
importante centro de estudos de árabe e de latim em Sevilha e
posteriormente transferiu para a Catedral de Toledo o centro de
estudos sobre astronomia.[63] A Escola de Tradutores de Toledo
parece ter seguido a mesma técnica de tradução dos tempos de Don
Raimundo até os de Afonso X. O trabalho era dividido em uma
equipe formada por duas pessoas, sendo que uma conhecia a língua
do manuscrito e a outra dominava a língua para a qual se traduziria
o texto.[64]

O scriptorium de Afonso X
Catedral de Toledo tinha várias sedes espalhadas
pelo reino, como nas cidades de
Toledo, Múrcia e Sevilha, sendo
que cada uma destas sedes contava com os seus próprios
funcionários e suas próprias funções.[65] Por conta desta
fragmentação do scriptorium por diferentes lugares do reino,
as equipes de trabalho acabavam, muitas vezes, por não
atuarem de forma coordenada e conectada uma com a
Iluminura do livro Cantigas de Santa
outra.[66] Devido ao seu grande incentivo ao trabalho de cópia
Maria (séc. XII), produzido no
de manuscritos, Afonso X ficou conhecido sob o alcunha de
scriptorium do rei Afonso X. O rei
"rei sábio". Em sua coleção de livros manuscritos estão temas gesticula enquanto dita a obra para
muito abrangentes, como tratados filosóficos, cantigas, um escriba
liturgias hebraicas, manuais de medicina e astrologia
árabes.[67] Ou seja, o scriptorium de Afonso X se caracteriza
pela produção de obras de cunho histórico, normativo, científico, musical e poético durante as
últimas décadas do século XIII.[68] O scriptorium de Afonso X, além de ser considerado um centro
de pesquisa e transmissão de matérias humanísticas e ser frequentemente relacionado à Escola de
Tradutores de Toledo, fez com que a produção de livros, traduções, miniaturas e iluminuras na
Idade Média estivesse ligada ao papel centralizador da corte, com a intenção de ensinar a língua
latina a nobres de sua corte e de traduzir textos para o castelhano, de forma a levar ao longo de seu
reino o conhecimento advindo de outras localidades. O Rei Sábio também encomendou produções
de tema legislativo como forma de reafirmar a centralidade do rei e a sua fusão com a imagem do
próprio reino.[69] Os copistas de Afonso X compilaram conhecimento proveniente dos judeus,
muçulmanos e cristãos. O sistema de produção dos livros manuscritos era o mesmo seguido nos
monastérios, com a diferença de que o número de pessoas disponíveis para o trabalho era
abundante, assim como os recursos.[61]

Portugal
Os scriptoria relacionados a Afonso I de Portugal estavam ligados aos mosteiros e ao monarca.[70]
Preocupado com as invasões dos mouros, Afonso Henriques espalhou por Portugal diversos
mosteiros agostinianos e beneditinos para que seu poder não se perdesse à medida que o território
fosse se distanciando da sede real. Assim, a partir das duas principais abadias de seu reino, Santa
Cruz e Alcobaça, as ordens beneditina e agostiniana se espalharam para outras partes de
Portugal.[70] Porém, estavam conectados com as intensões políticas no que se relaciona à escrita e
tradução de códices. Foram os mosteiros que ajudaram o reino a delimitar seu território nos anos
iniciais. Os bispados representaram o poder administrativo e as instituições como monastérios e
abadias representavam o poder temporal naqueles lugares onde o rei não conseguia chegar.[71] Isto
é uma consequência de não haver ainda uma corte portuguesa
que pudesse governar, então o papel que as cortes ocupariam é
tomado pelos mosteiros.[72] No que diz respeito à produção do
conhecimento nos mosteiros de Afonso Henriques, se destaca
a escrita de crônicas com a intenção de se preservar a fé
católica e de conservar a memória do reino através da
escrita.[72][50]

Logo quando foi fundado, no século XII, o scriptorium do


Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, abrigou copistas que
escreveram a história do próprio monastério e a história de
Portugal, reflexo do fato de que a demarcação do território
português no reinado de Afonso I se deu a partir das
instituições monásticas estabelecidas pelo rei.[73] A
importância de Santa Cruz para a cultura escrita em Portugal
está diretamente ligada às crônicas escritas em seu
scriptorium. O registro do conhecimento era uma forma de se
complementar a prática religiosa.[74] Além das crônicas o
Iluminura do rei Afonso I de
monastério se ocupava dos anais que também faziam parte de
Portugal. Os detalhes em azul e
dourado explicitam a nobreza do
seus registros e apenas a partir do século XIV é que o
manuscrito scriptorium de Santa Cruz irá estabelecer um padrão para
suas produções.[50] A partir do século XIV, a produção no
mosteiro se volta para a vida dos homens considerados
importantes pelo reino de Portugal, como nobres, cavaleiros e religiosos influentes.[75] Entre as
principais produções de seu scriptorium estão as Crônicas Breves de Santa Cruz de Coimbra e a
Vida de São Teotônio.[76]

Fundada em 1153, mas inaugurada sua construção atual em 1247, a abadia de Santa Maria de
Alcobaça, em Portugal, teve grande importância política e religiosa no reino de Afonso I e foi
conhecida por seguir da forma mais rígida possível os mandamentos da Regra de São Bento, e
estava ligada à Ordem de Cister.[77][78][79] Entre os trabalhos realizados pelos monges
alcobacenses se destacam a agricultura, a meditação, o estudo e o trabalho caligráfico. Em relação
à caligrafia, sabe-se que na época de sua maior prosperidade, o período entre os séculos XIII e XV,
a biblioteca de Alcobaça armazenava em média quinhentos livros.[80] O trabalho intelectual pode
ser visto como uma tradição em Santa Maria de Alcobaça, sendo que na segunda metade do
século XIII, seus monges ministravam aulas de gramática, lógica e teologia, e o mosteiro, em
conjunto com Santa Cruz e Lorvão, constituiu a base da cultura relacionada aos livros do
século XIII em Portugal.[81] Os principais autores dos quais se armazenava livros na abadia foram
Santo Agostinho, São Gregório Magno, Orígenes e Santo Ambrósio.[80] Destes livros, a sua maioria
foi produzida no scriptorium alcobacense.[79]

A produção dos livros manuscritos


O trabalho nos scriptoria acontecia até que a luz do sol não entrasse mais pelas janelas. Escrever
de noite não era comum porque as velas, melhor forma de iluminar o local sem a luz do sol,
poderiam queimar os manuscritos em algum acidente, causando, além de um incêndio, a perda de
todos os códices.[82] O bibliotecário ou armário era quem comumente estava no comando da
produção dos copistas, decidindo quais livros seriam copiados e tendo acesso irrestrito às
bibliotecas. Havia também os iluminadores, que faziam as iluminuras, que recebiam este nome
porque suas cores literalmente iluminavam o manuscrito. Os rubricadores, que faziam as
capitulares ornamentadas e os miniaturistas, que faziam as
miniaturas, desenhos de maior simplicidade do que as
iluminuras, que recebiam este nome por causa da palavra
latina minium, que significava vermelho.[83]

Utensílios para produção do livro manuscrito


Pedra-pomes - Seu principal uso era o de polir o
pergaminho, mas também poderia ser utilizada para afiar
o bico da pena.[84]
Facas - Poderiam ser utilizadas para raspar o
pergaminho, com o fim de tirar algum relevo
remanescente de sua produção, cortar as penas para que
ficassem com a forma desejada e raspar o pergaminho
para corrigir os erros dos copistas.[84]
Canivetes - Utilizados para dar forma à ponta da pena das
aves.[84] Manuscrito que permite observar a
divisão do trabalho amanuense: em
Chifres - Utilizados como tinteiros.[84]
preto, a delimitação do espaço das
Penas - Utilizadas para escrever, depois de terem sido letras; em vermelho, as rubricas e
afiadas da forma desejada pelo copista.[84] capitulares; em azul, vermelho,
Compassos - Eram necessários para desenhar eventuais verde e dourado, as iluminuras
círculos, medições ou, com a ponta seca, traçar as linhas
a serem seguidas pelo copista na hora de escrever.[84]
Espátula - Utilizada para misturar a tinta no momento de sua produção.[84]
Sovelas - Instrumentos utilizados para fazer as pautas a serem seguidas pelos copistas. As
sovelas são formadas por um cabo de madeira e possuem uma agulha grossa na ponta.[84]

Fazendo o pergaminho
Até o início do século XIII, o pergaminho foi o material mais
utilizado para os manuscritos. Em finais do século XIII, por
conta da dificuldade de fabricação e de seu consequente alto
preço no mercado, o pergaminho foi substituído pelo papel. O
pergaminho ficou quase restrito aos documentos oficiais,
ligados às cortes e à igreja, por conta de sua maior
durabilidade. Não é à toa que os documentos manuscritos que
temos acesso nos dias de hoje foram feitos com pergaminho e
não papel.[85]

O pergaminho poderia ser obtido através do couro de animais


como a vitela, as ovelhas e as vacas. A pele mais apreciada
para pergaminhos era a da vitela, por conta de sua
maleabilidade, pouca quantidade de pelos e espessura.[86] O
couro era lavado com produtos cáusticos para que a carne e os
Trabalhador papeleiro faz os últimos
nervos se desgrudassem da pele, sendo necessário, para isso,
ajustes em um pergaminho seco e deixá-lo de molho por várias semanas. Logo após esse
esticado, século XV processo, com um grande cutelo, o artesão raspava os dois
lados do couro para deixar sua superfície livre de pelos e
carne. As peles, então, voltavam a ser lavadas para que os
produtos cáusticos de sua superfície fossem removidos.[87][88] A pele do animal era esticada e
secada para que sua superfície ficasse uniforme. No próximo passo, já nas mãos do copista, o
pergaminho era raspado com pedra pomes para tirar as pequenas impurezas e deixar a superfície o
mais uniforme possível.[86]

Por causa do grande número de etapas de produção, era possível levar até vinte dias de trabalho
para que um pergaminho ficasse pronto.[87][88] Devido a complexidade e demora em sua
produção, seu preço era muito alto e, por isso, muitos deles acabavam sendo reutilizados,
acarretando na criação de palimpsesto.[86] A partir do século XIII a prática de produção de um
pergaminho foi aprimorada, deixando para trás pergaminhos engordurados, cheios de pelos e
irregulares, ao ponto que no século XV, os pergaminhos poderiam ser feitos com peles não
consideradas nobres e parecerem um pergaminho de vitela.[89][90]

Elaborando a tinta
A tinta utilizada para a escrita no pergaminho ou no papel deveria ser preparada e, para isto, havia
diversas receitas. Geralmente a cor utilizada para a escrita dos textos era o preto por causa de sua
durabilidade, variando o tom de acordo com o material usado.[91] As tintas pretas mais utilizadas
eram as designadas metalogálicas, feitas por meio da mistura de ácido tânico, noz da galha, sulfato
de ferro e goma arábica, que resultava em um aspecto viscoso. Quando esses quatro elementos
eram misturados nas proporções erradas, criavam uma tinta extremamente ácida que acabava por
queimar os manuscritos com o passar do tempo.[92] As cores púrpura, verde, vermelho e dourado
também aparecem nas iluminura, nas rubricas e em adornos ao longo do texto, mas são mais raras
por terem diferentes significados. O dourado, por exemplo, era atribuído à divindade, o verde à
ressurreição, o azul à nobreza e o vermelho representava o sangue de Jesus Cristo.[91]

Esquadrinhando o manuscrito
Uma vez que se tinha o pergaminho e a tinta em mãos, era
necessário demarcar com faca e régua os espaços destinados à
escrita. Desenhava-se uma margem em cada fólio, assim como
linhas para guiar o trabalho do copista. Após estas etapas,
ainda poderia-se utilizar giz para deixar as páginas mais
brancas e cera para a fixação da tinta. O escriba carregava em
uma mão a pena para escrever. Na outra, um raspador, que o
ajudava a apagar e corrigir aquilo que havia sido escrito
errado. Quando o escriba acabava de escrever, deixava no
pergaminho as instruções para o próximo passo, exercido pelo
iluminador ou pelo miniaturista. Era hora de preencher os
espaços das margens e também as lacunas deixadas pelos
copistas para que se pudesse inserir as miniaturas ou as
iluminuras. O manuscrito ainda passavam pelas mãos de um
corretor, que checava possíveis erros cometidos na passagem Moralia in Iob de Gregorio Magno:
do modelo para a cópia. O próximo passo eram as rubricas Iluminura por Florêncio de
feitas pelo rubricador, que consistiam em cabeçalhos dos Valeranica (945)
capítulos, comentários ou algo que deveria ser acrescentado ao
manuscrito. As primeiras letras, normalmente maiores que as
outras e feitas em cores diferentes das do restante do texto, eram realizadas nessa etapa.
Normalmente as rubricas eram feitas na cor vermelha, mas também poderiam ser em azul, em
casos excepcionais, e em ouro, naqueles manuscritos mais elaborados e de grande importância,
representando a nobreza do documento. As rubricas tinham esse nome pois eram geralmente
feitas em tinta vermelha de tonalidade forte chamada rubro. O último passo na confecção de um
pergaminho era a adição das cores nas iluminuras, que poderiam ser das mais variadas.[93][94]

Interpolando o texto
O trabalho dos copistas era técnico, repetitivo e muito cansativo. Mas por vezes esses profissionais
do texto realizavam interpolações, adicionando conteúdos, notas de margem ou frases ao final de
uma parte da obra trabalhada. O problema já era conhecido dos gregos antigos, que levantavam
questões sobre a transmissão textual de sua literatura. Suspeitas chegaram a afirmar que o canto
XXIV da Odisseia era uma interpolação de um copista.[95] Na Baixa Idade Média, as interpolações
e intervenções posteriores por vezes acompanhavam interesses e disputas de legitimidade, honra e
direitos sobre terras entre as diferentes linhagens da nobreza.[96] Por outras vezes, as
interpolações dos copistas eram mais inocentes, como aparece em um testemunho anônimo do
século VIII. Cansado do trabalho duro e repetitivo, o copista se expressou em uma nota em língua
latina:

Ó abençoado leitor! Lave as mãos e leve o livro à mão, gire suavemente as folhas,
afaste os dedos da letra! Porque quem não sabe escrever pensa que não é esforço.
Oh, quão irritante é a escrita! Os olhos cansam, o lombo enfraquece e ao mesmo
tempo fica ruim para todos os membros. Escreva três dedos, todo o corpo dói.
Portanto, como o marinheiro anseia por chegar ao seu porto de origem, o mesmo
acontece com o escritor na última linha.
— Pertz 1863, p. 586.

Freiras e monges copistas


Os monges copistas eram aqueles monges que trabalhavam nos scriptoria escrevendo ou copiando
os livros.[83] Também chamados de amanuenses, comumente a estes monges é atribuída grande
importância histórica, já que seu trabalho possibilitou que o conhecimento dos antigos chegasse
até nossos dias. Os monges amanuenses poderiam ser classificados como copistas mais velhos,
chamados de antiquários, ou copistas mais novos, denominados de livreiros.[97][98]

É importante observar a presença de mulheres copistas em alguns scriptoria, contrariando a ideia


de que esse tipo de ofício era restrito a ambientes exclusivamente masculinos. Restrições às
mulheres no entanto se davam a partir de livros que tinham a leitura indicada ao público
masculino. Textos relacionados à vida religiosa indicavam a leitura para monges em vez de
freiras.[99] Sabe-se que na abadia de Munsterbilzen, na Bélgica, uma cópia de Etimologias, de
Isidoro de Sevilha, foi elaborada por oito mulheres copistas. Pode-se identificar a atividade
feminina pois elas assinaram o manuscrito após escrevê-lo. Porém, dificilmente os manuscritos
eram assinados. Por mais que não haja muitas provas concretas em relação à autoria ou à cópia
feminina de diversos manuscritos, algumas obras, além daquelas cuja autoria é assinada, podem
apresentar pronomes femininos. Outra forma de identificar o protagonismo feminino nas obras é o
seu conteúdo, podendo algumas vezes a autoria feminina ser identificada por uma carta de amor a
seu amado.[100]

Cristina de Pisano
Cristina de Pisano nasceu em Veneza, no ano de 1364, e é
considerada a primeira mulher escritora da Europa. Quatro
anos mais tarde, se mudou para Paris, onde seu pai, Thomas
de Pisano, foi médico e astrólogo na corte do rei Carlos V, o
que possibilitou a Cristina ter acesso aos livros da biblioteca
real.[101] Cristina começou a escrever depois da morte de seu
marido, em 1389, para sustentar a família. Acredita-se que
tenha sido a primeira mulher a ter a escrita como fonte de
renda.[102][103] Em 1422, Cristina passa a viver no Convento
de Poissy, na França, onde vem a falecer em 1430. Cristina
escreveu tratados morais, de política e educação, sendo A
Cidade das Mulheres, de 1405, uma de suas principais obras.
Iluminura de Cristina de Pisano, Chama atenção nas obras da autora a ideia pouco difundida na
produzida em 1453, em Paris época de que a diferença entre homens e mulheres tinha
origem social, e não natural.[104]

Florêncio de Valeranica
Florêncio de Valeranica foi um monge amanuense conhecido
como príncipe dos calígrafos espanhóis. Apesar de ser monge,
alguns autores propõem que Florêncio deve ser visto como um
artista por causa da qualidade de suas iluminuras e pelos
dados indiretos deixados em suas obras.[39] Por outro lado,
alguns estudiosos do tema duvidam de sua condição de
monge, já que Florêncio chegou a se identificar enquanto
peregrino. Talvez tenha sido um imigrante moçárabe que
realizava seu trabalho de forma itinerante, passando por
diversos scriptoria relacionados às cortes de Espanha.[105]
Entre as principais obras copiadas pelo monge estão Moralia
em Jó, datada do ano de 945, e A Bíblia de Oña, terminada no Iluminura do livro Hortus Deliciarum,
ano de 943.[106] de Herrad de Landsberg, 1180

Herrad de Landsberg
Herrad de Landsberg compilou o livro conhecido como Hortus deliciarum, possivelmente em um
scriptorium no monte São Odílio, na Alsácia, onde teria contado com a contribuição de quarenta e
seis freiras durante a produção. O lugar de escrita dessa compilação ainda é incerto, assim como a
identidade das freiras que trabalharam nesta obra.[107][15] Por mais que tivesse a intenção de ser
uma antologia, a compilação de Langsberg é considerada uma enciclopédia. A própria autora
comparou seu trabalho ao de uma abelha que coleta mel de diferentes flores. Langsberg buscou
diferentes fontes de conhecimento para escrever seu livro, como a filosofia e a história sagrada. A
enciclopédia de Landsberg se ateve ao estudo da pintura, mitologia, história e geografia.[108][15]

Produção e venda de pergaminhos


Num primeiro momento, o fornecimento da matéria-prima necessária para a produção dos livros
era suprida pelos monastérios. Os monges utilizavam os animais criados no ambiente monástico
para a produção das penas de aves, usadas para escrever, e para a produção do pergaminho. Eram
raros os casos em que o e pergaminho era comprado de comunidades que rondavam o
monastério.[109] Principalmente entre os séculos VII e VIII, por conta do alto preço do produto, é
comum o seu reaproveitamento para a escrita de outra obra. Como forma de não se gastar muito
para comprar novos materiais, os monges raspavam os pergaminhos já usados, mas sem grande
importância em seu conteúdo, para que pudessem escrever novos livros.[110] Porém, a partir dos
finais do século XI e o começo do século XII é perceptível o impacto do renascimento do século
XII, com o nascimento de universidades e o desenvolvimento do ambiente urbano na Europa
medieval, assim como uma baixa no protagonismo monástico em relação à produção de livros.[111]

A partir do século XII o pergaminho passou a ser, na maioria


dos casos, vendido por artesãos que desenvolviam suas
funções nas áreas urbanas, o que não impossibilitou a
existência de monastérios onde ainda se produzia a matéria
prima para os livros.[112] Os chamados pergaminheiros se
diferenciavam dos copistas pois lidavam com o processo de
fabricação de pergaminhos e não com a confecção de
manuscritos. Tanto produtores de papel quanto produtores de
pergaminho eram chamados de pergaminheiros.[87][113]

Os fabricantes de pergaminho poderiam adquirir o couro para


a produção de diversas formas: através de açougueiros,
matadores, vendedores de peles ou artesãos que revendiam
materiais.[114] O mercado era grande o suficiente para que o
O polimento com pedra pomes
pergaminho fosse vendido e comprado em cidades diferentes
de onde o manuscrito iria ser produzido.[115] O mesmo se
passava com o papel. Sabe-se que o scriptorium de Afonso X
importava papel do mundo islâmico, quando este tipo de suporte para a escrita ainda não tinha
tomado a proporção que chegaria a alcançar na produção dos livros a partir do século XIII.[116]

A demanda por pergaminhos era muito grande e o número de produtores disponível na maioria
dos casos era baixo. Em Castela, entre os séculos XIII e XV, não se encontravam corporações de
ofício ligadas à produção de manuscritos. Por conta deste baixo número de produtores disponível,
os copistas poderiam trabalhar como iluminadores, assim como iluminadores poderiam trabalhar
em diferentes funções. Neste contexto de desligamento das relações mais estreitas e internas com
o mundo da produção eclesiástica, a partir do século XV artesãos do livro também poderiam
aglutinar-se nas cercanias das universidades, onde se tinha uma demanda crescente por seus
serviços. Neste contexto, é grande a presença de artesãos judeus e de mulheres ligadas à produção
e venda de pergaminhos de couro.[117] O clero e as nobrezas cristãs desvalorizavam essa função por
conta da necessidade de se lidar com carniça, produtos químicos para a limpeza de peles, além do
duro trabalho braçal que demandava a produção.[118][119]

Miniaturas de dedicação
A miniatura de dedicação tinha por objetivo demonstrar, através de uma imagem, a cerimônia de
doação do livro manuscrito. A imagem geralmente mostra a pessoa que está doando o livro com a
cabeça baixa ou ajoelhada enquanto entrega o manuscrito para o receptor.[120] O doador poderia
ser um membro do clero, da corte, um mecenas, o autor ou o tradutor do manuscrito. Porém, em
alguns casos, o mecenas também pode ser o receptor do livro que, por regra, aparece na iluminura
mais alto do que o doador e ambos são representados com roupas que identificam a sua origem
social. Entre os receptores de miniaturas de dedicação mais usuais podemos encontrar Jesus
Cristo, a virgem Maria, santos, imperadores, reis e nobres.[121] A iconografia das miniaturas tem
origem na Antiguidade Clássica e se relaciona com as oferendas aos deuses ou imperadores.[122]
Acredita-se que o primeiro códice a conter miniaturas de dedicação
seja o de Dioscórides de Viena, doado à princesa bizantina Anicia
Juliana, em 512. A Primeira Bíblia do rei francês Carlos II também
apresenta uma miniatura de dedicação, data do ano de 845 e foi
doada ao pelo abade Martinho de Tours. Outro exemplo é o Codex
Hitda, evangelhos comissionados pela abadessa Hitda de Meschede
e dedicados à Santa Valburga durante o domínio da dinastia
otoniana.[123] Livros com miniaturas de dedicação também foram
publicados em Leão e em Castela, como o Livro de Horas de
Fernando e Sancha, de 1055, assim como o livro do scriptorium
afonsino, do século XIII chamado Livro das Formas e das Imagens,
dedicado a Afonso X.[124] No século XV, Cristina de Pisan o
presenteou a rainha Isabel da Baviera com suas obras coletivas,
códice construído entre 1410 e 1416.[125]

Pode-se dividir as miniaturas de dedicação em dois momentos:


antes e depois do século XIII. No primeiro momento, a paisagem
das miniaturas era normalmente uma igreja e o receptor também Miniatura de dedicação.
estava ligado à igreja católica. No segundo momento, a partir do Tradução do livro Tratado
desenvolvimento do ambiente urbano e das monarquias, as sobre a oração dominical
miniaturas de dedicação são secularizadas e os receptores passam a sendo entregue por Jean
Miélot para Felipe III, Duque
ser, também, pessoas ligadas às cortes. Posteriormente, no
de Borgonha. 1454-1457
século XIV, o manuscrito passa a ocupar um status de obra de arte e
sua leitura se converte em atividade intelectual que representa
valores estéticos e econômicos da aristocracia. Assim as imagens tornam-se mais complexas ao
passo em que evidenciam diferentes hierarquias sociais através de detalhes, cores e gestos. É
também a partir do século XIV que as mulheres começam a ser representadas com mais frequência
nas miniaturas, em especial como mecenas e como receptoras.[122]

Titivillus: o demônio patrono dos escribas


É comum encontrar nos manuscritos medievais erros de
escrita cometidos por copistas. Entre as principais causas de
erros ortográficos estão a falta de familiaridade com a língua
na qual se estava escrevendo e a desatenção. Além disso,
poderia haver uma troca de palavra por um sinônimo feita
intencionalmente pelo escriba, mas que acabava sendo escrito
da forma errada.[126] Outros motivos que poderiam levar os
copistas a cometer erros na escrita era a baixa iluminação do
lugar onde escreviam, a penosa e longa carga de trabalho e a
cansativa repetição do mesmo movimento por horas. Um dos
exemplos mais ilustrativos destes erros aconteceu no códice
conhecido como Bíblia Maldita, escrita no século XVII. Na
Recorte da obra Nossa Senhora hora de escrever o sexto mandamento, o copista se confundiu
das Mercês (c. 1485), Burgos,
e em vez de condenar a prática do adultério, a bíblia maldita
Mosteiro de Las Huelgas de Diego
de La Cruz. Titivillus aparece
acaba por incentivar o leitor a cometer este pecado ao conter
carregando livros as palavras "cometerás adultério" ao invés de "não cometerás
adultério".[127]
Reclamar da negligência dos copistas, de seus erros de tradução e de ortografia, eram atitudes
recorrentes desde ao menos a patrística.[128] Por outro lado, entre as preocupações constantes dos
autores cristãos e da literatura medieval em geral estavam o mapeamento e o detalhamento das
atividades do demônio.[129] Era uma prática comum na Idade Média explicar o que dava errado a
partir da atuação de demônios. Foi inventado um demônio para praticamente todo mal que
acontecia na vida cotidiana.[130]

É difícil identificar exatamente quando o mapeamento das atividades dos demônios começaram a
ser feitas. Sabe-se, porém, que desde a Antiguidade os olhos e as cabeças dos demônios eram
raspados das imagens por medo de possíveis interações dele com quem estava olhando para a
imagem.[131] Também pode-se afirmar que no monastério de Silos, desde o ano 1100, já se
conheciam os diferentes demônios que serviam o Diabo, demônio principal. Titivillus era um
desses demônios, que contribuía, em especial, para que os escribas cometessem os mais diversos
erros ao exercerem as suas funções no scriptorium.[130] Nos Sermones Vulgares de Jacques de
Vitry, publicado por volta de 1220, encontramos a descrição de um demônio carregando um
pesado saco cheio de erros gramaticais, pensamentos ociosos e palavras impróprias proferidas
durante uma missa. Pouco mais tarde, Caesarius de Heisterbach, em seu Dialogos Miraculorum,
finalizado em torno do ano 1230, falava também de um certo demônio que com uma mão saqueava
palavras erradas que causam tumulto e confusão. Com a outra mão, os erros eram levadas ao
ombro oposto, onde seriam igualmente depositados em uma grande sacola.[132]

É justamente como demônio do saco que a personagem Titivillius é nomeada pela primeira vez.
Não parece haver significado explícito para seu nome, uma vez que o demônio já existia antes de
ser assim nomeado. Porém, sabe-se que em 347, na obra Cassiana, Plauto utiliza a palavra
titivicullum para falar sobre algo muito pequeno, ou sem importância.[130] No Tractatus de
Penitentia, João de Gales apresenta em versos a imagem de Titivillus, o capeta que "recolhe os
fragmentos dessas palavras, com as quais ele enche seu saco mil vezes por dia".[133]

No século XIV, a imagem do demônio do saco se associa mais e mais à imagem do demônio dos
escribas, tendo impacto relevante no imaginário das ordens monásticas, assim como nas
representações de monges ociosos que não realizavam seu trabalho corretamente. Estudiosos
apontam que é no século XV que Titivillus torna-se o demônio patrono dos escribas, sendo
acusado como responsável por incitá-los aos erros em cópias assim como na redação de
manuscritos.[134]

Dos scriptoria ao ateliê


No século XII, os scriptoria monásticos começam a conviver cada vez mais com centros laicos e
urbanos de escrita. Por volta de 1139, o Livro das Ordens (Liber Ordinis) da abadia de São Vítor
em Paris registra a existência de escribas que trabalhavam na cidade por encomenda. A situação se
intensifica no século seguinte. Com a cadeia produtiva das obras escritas cada vez mais complexa,
envolvendo redes de iluminadores, copistas, diagramadores e papeleiros, o mercado começa a ser
dominado pelos vendedores de livros. Um bom exemplo desse período é o ateliê de Giovannino de
Grassi, que atendia pedidos de várias partes da Europa fazendo concorrer em seu estilo a
ilustração científica com a ornamentação lombarda.[60]

Com a invenção do sistema mecânico de tipos móveis no século XV, o scriptorium cede sua
centralidade ao atelier.[135] Johannes Trithemius, abade de Sponheim, escreveu em 1492 o livreto
De laude scriptorum para celebrar as glórias de uma atividade cada vez mais ameaçada pela
disseminação de obras impressas em papel. A obra defendia os "pilares do estilo de vida
monástico", como por exemplo a escrita e as orações,
comemorando nomes ligados à scriptoria famosos como os de
Cassiodoro, Beda, Alcuíno, Rabano Mauro e Pedro Damião. A
cópia de manuscritos era vista por Trithemius como a mais
alta das atividades manuais a serem preservadas pelos monges
por razões pedagógicas e para incentivar a disciplina
religiosa.[136] Alguns centros tradicionais de produção livreira
tentaram se adaptar aos novos tempos. Esse é o caso de Santa
Cruz, em Coimbra, que a partir da década de 30 do século XVI
começa a contar com uma tipografia dentro do mosteiro.[137]

Na cultura popular
Produções literárias e cinematográficas contemporâneas
nutrem-se dos mistérios dos scriptoria medievais. O interesse
pela história da criação, cópia, iluminação e transmissão dos Ilustração de Giovannino de Grassi,
manuscritos da Idade Média aproxima os produtos culturais 1395, com influência da ilustração
contemporâneos da pesquisa filológica, erudita e acadêmica, científica de Salerno
dando vida aos espaços de leitura e escrita dos mosteiros e
figurando-os a meio caminho do passado histórico e do imaginário que temos dele. Nessas
figurações, o passado histórico, representado nas narrativas dos historiadores, encontra um
passado prático, mobilizado e significado segundo problemas da atualidade.[138]

O Nome da Rosa
No romance histórico O Nome da Rosa, o medievalista e
escritor italiano Umberto Eco prepôs reconstruir de modo
ficcional um manuscrito perdido. Nele, um velho monge conta
a história de uma série de assassinatos ocorridos em um
mosteiro do norte da Itália no início do século XIV. Junto a
seu mestre, o franciscano Guilherme de Baskerville, o
narrador Adso, então muito jovem, busca resolver os crimes
na medida em que continuam a ocorrer. O romance é
Dormitório do Mosteiro Eberbach organizado em capítulos que seguem o horário das tarefas
empregado como scriptorium no espirituais ao longo de sete dias: matinas (2h30min às 3h da
filme O nome da rosa madrugada), laudes (5 e 6 horas da manhã), primeira
(7h30min), terceira (9 horas), sexta (meio-dia), nona (14 e 15
horas), vésperas (16h30min) e completa (6 horas).[139] Ainda no primeiro dia, logo após a nona
hora, os dois personagens principais entram no scriptorium.[140]

Localizado no segundo andar do Edifício, logo abaixo da rica biblioteca, o espaço de leitura e de
escritura é descrito pelo narrador da seguinte forma:

Chegados ao topo da escada entramos, pelo torreão setentrional, no scriptorium e


aqui não pude conter um grito de admiração. O segundo andar não era bipartido
como o inferior e se oferecia portanto aos meus olhos em toda sua espaçosa
imensidão. As abóboras, curvas e não muito altas (...), sustidas por robustas
pilastras, encerravam um espaço difuso por excelente luz (...) As vidraças não eram
coloridas como as da igreja, e os encaixes de chumbo prendiam quadrados de vidro
incolor, para que a luz entrasse de modo mais puro possível, não modulada por arte
nenhuma, e servisse à sua finalidade, que era iluminar o trabalho de leitura e de
escritura. (...) Antiquários, livreiros, rubricadores e estudiosos estavam sentados
cada um à própria mesa, uma mesa embaixo de cada uma das janelas. (...) os
monges que trabalhavam no scriptorium estavam dispensados dos ofícios da
terceira, da sexta e da nona para não precisar interromper o seu trabalho durante as
horas de luz. (...) Cada mesa tinha todo o necessário para miniaturar e copiar: os
chifres de tinta, penas finas que alguns monges estavam afiando com uma faca
afiada, pedra-pome para deixar liso o pergaminho, réguas para traças as linhas
sobre as quais seria estendida a escritura. Junto a cada escriba, ou no topo do plano
inclinado de cada mesa, ficava uma estante, sobre a qual apoiava o códice a ser
copiado, a página coberta por moldes que enquadravam a linha que era transcrita
no momento. E alguns tinham tintas de ouro e de outras cores. Outros, porém,
estavam apenas lendo livros, e transcreviam apontamentos em seus cadernos
particulares ou tabuletas.
— Eco 1986, p. 91-92.

Apesar do narrador comparar o scriptorium do mosteiro fictício ao da abadia de São Galo, já


foram apontadas outras inspirações para a literatura de Umberto Eco. O cenário labiríntico da
biblioteca anexa, com escadas e caminhos apertados, além do trabalho escriturário interior, foi
visto como tendo sido inspirado pelas iluminuras dos beatos de Liébano produzidas em São
Salvador de Tábara.[141][142]

Vikings
Na série de televisão Vikings temos cenas que reconstroem vilas nórdicas, fortalezas, cortes e
cidades cristãs, além de um scriptorium monástico. A série é inspirada em fontes medievais, e foi
escrita e criada por Michael Hirst para a emissora History. A direção mobilizou um grande
trabalho de recriação histórica [143]. No segundo episódio da primeira temporada, um bando de
guerreiros escandinavos alcança por mar o norte da Inglaterra, então Reino da Nortúmbria. As
tomadas que seguem representam o saque do mosteiro de Lindisfarne em 793. Elas introduzem
também o personagem Athelstan, monge copistas e iluminador, figura central nas primeiras três
temporadas. As referências ao apocalipse e aos dragões que em meio à tempestade anunciam a
chegada de um bando do norte leva o espectador a crer que Athelstan estivesse alternando a
leitura do profeta Jeremias com a escrita de uma das versões da Crônica Anglo-Saxônica.[144]

Uma Viagem ao Mundo das Fábulas


A animação Uma Viagem ao Mundo das Fábulas contou com um
intenso trabalho de recriação histórica. A atmosfera do desenho
animado buscou capturar o clima das florestas e mosteiros da
Hibérnia medieval. Os produtores Tomm Moore e Ross Stewart
projetaram as imagens do scriptorium e de seus personagens em
uma viagem à ilha de Iona, próximo às ruínas do monastério
fundado por Columbano no final do século VI.[145] O enredo se
passa no século IX, e gira em torno das aventuras de Brendon, um
pré-adolescente de 12 anos de idade. Ele vive no mosteiro próximo a
uma vila remota assediada por grupos bárbaros, e precisa recuperar
Fólio 291º do Livro de Kells,
o Livro de Kells, também conhecido como Grande Evangeliário de iluminado por uma imagem
São Columba. A animação foi indicada ao Oscar em 2009.[145] de João Evangelista
Ver também
História das bibliotecas
História do livro

Notas
1. Neste caso, burguesia não diz respeito à acepção moderna da palavra, enquanto classe social
dominante do sistema capitalista, mas sim a comerciantes medievais que viviam nos burgos.
[43]

2. Quando nos referimos a cidades italianas na Idade Média, estamos falando daquelas cidades
que constituem o Reino Itálico, sendo que a unificação italiana, no território que hoje
conhecemos (conhecida como Risorgimento), só acontece no século XIX.[45]

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