Você está na página 1de 62

REDAÇÃO TÉCNICA

ORGANIZAÇÃO:
PATRÍCIA MEDEIROS PAZ
2

SUMÁRIO

1 INTRODUZINDO O ASSUNTO: LINGUAGEM........................................................5

2 FUNÇÕES DA LINGUAGEM..................................................................................10
2.1 Função referencial................................................................................................11
2.2 Função emotiva ou expressiva.............................................................................11
2.3 Função conativa...................................................................................................12
2.4 Função poética.....................................................................................................12
2.5 Função metalingüística.........................................................................................13
2.6 Função fática........................................................................................................14

3 POR QUE ESTUDAR REDAÇÃO TÉCNICA?.......................................................14

4 QUESITOS E QUALIDADES DE UM TRABALHO TÉCNICO...............................17


4.1 Clareza.................................................................................................................18
4.2 Objetividade..........................................................................................................18
4.3 Completeza..........................................................................................................18
4.4 Correção...............................................................................................................18
4.5 Ordem...................................................................................................................19
4.6 Acuidade...............................................................................................................19
4.7 Simplicidade.........................................................................................................19
4.8 Outras...................................................................................................................20
4.9 Revisão.................................................................................................................20

5 DESCRIÇÃO...........................................................................................................20
5.1 Descrição técnica.................................................................................................21
5.2 Descrição do processo.........................................................................................23
5.3 Plano padrão de descrição...................................................................................26

6 RELATÓRIO...........................................................................................................26
6.1 Estrutura...............................................................................................................27
3

7 MEMORANDO........................................................................................................28

8 CARTA COMERCIAL.............................................................................................29
8.1 Estrutura...............................................................................................................29

9 CURRÍCULO...........................................................................................................30
9.1 Estrutura...............................................................................................................31

10 EMAIL...................................................................................................................33

11 OFÍCIO..................................................................................................................33
11.1 Estrutura.............................................................................................................33
11.2 Observações......................................................................................................34

12 GRAFIA DE NÚMEROS.......................................................................................35
12.1 Por extenso........................................................................................................36
12.2 Em algarismos....................................................................................................36
12.3 Em algarismos e por extenso (forma mista).......................................................37
12.4 Em algarismos romanos.....................................................................................38
12.5 Números em textos legais e administrativos......................................................39
12.6 Grafia de datas...................................................................................................39
12.7 Grafia de horas...................................................................................................40

13 NORMAS ESPECIAIS PARA ELABORAÇÃO DO TEXTO TÉCNICO................40


13.1 Abreviaturas.......................................................................................................41
13.2 Algarismo cardinais............................................................................................41
13.3 Assinatura e aposto............................................................................................41
13.4 Cargos ou funções.............................................................................................42
13.5 Datas..................................................................................................................42
13.6 Destaque de idéias e expressões
estrangeiras..................................................42

14 UM CASO ESPECIAL: A AMBIGUIDADE...........................................................42


14.1 Como eliminar a ambiguidade............................................................................43
4

15 COESÃO TEXTUAL.............................................................................................44

16 A COERÊNCIA TEXTUAL....................................................................................45

17 PRONOMES DE TRATAMENTO.........................................................................47
17.1 Concordância do pronome com o verbo............................................................47
17.2 Formas de tratamento........................................................................................47

18 ERROS DE PARALELISMO.................................................................................48

19 CRASE..................................................................................................................50
19.1 Casos em que não ocorre crase........................................................................52
19.2 Crase Facultativa................................................................................................54

20 PONTUAÇÃO.......................................................................................................54
20.1 Vírgula................................................................................................................54
20.1.1 Casos em que não se usa vírgula...................................................................55
20.1.2 Casos em que se usa vírgula..........................................................................56
20.1.3 Vírgula facultativa............................................................................................58
20.2 Ponto-e-vírgula...................................................................................................59
20.3 Dois–pontos........................................................................................................60
20.4 Travessão...........................................................................................................60
20.5 Parênteses.........................................................................................................61
20.6 Reticências.........................................................................................................61
5

1 INTRODUZINDO O ASSUNTO: LINGUAGEM

“Somente o homem é um animal político, isto é, social e cívico, porque


somente ele é dotado de linguagem. A linguagem permite ao homem exprimir-se e é
isso que torna possível a vida social”, disse Aristóteles (384-322 a.C.).
O filósofo grego define o homem como político no sentido do vocábulo
grego politikós, ou seja, cidadão, aquele que é capaz de viver na polis (cidade), em
sociedade. E ele atribuía à capacidade de linguagem, que nos é inerente, o fato de
os homens conseguirem viver em sociedade.
A linguagem animal, constituída pela emissão de sons e comportamentos
determinados, permite e garante a sobrevivência e a perpetuação das espécies. Há,
porém, uma diferença entre a linguagem animal e a linguagem humana. Enquanto a
primeira é estática e condicionada, não consciente, a segunda é fruto do raciocínio,
e a expressão por meio dela é consciente e intencional, não meramente instintiva. E
mais, a linguagem humana é dinâmica e criativa.
Num primeiro momento, podemos definir linguagem humana como todo
sistema que, por meio da organização de sinais, permite a expressão ou a
representação de idéias, desejos, sentimentos, emoções. Essa representação
possibilita leitura, o que concretiza a dinâmica da interação, da comunicação e,
conseqüentemente, da socialização. Num segundo momento, podemos defini-la
como a capacidade inerente ao homem de aprender uma língua e de fazer uso dela.
Em resumo:

• língua representa o idioma de um país;

• linguagens são as diversas maneiras que as pessoas usam para


se comunicar.

É importante sabermos que existem diferentes tipos de linguagens à


nossa volta, as quais apelam a todos os tipos de sentidos. A linguagem da pintura
explora linhas, cores, formas, luminosidade; a da escultura se vale de formas,
6

volumes, tipos de material para sua expressão. Os cartazes luminosos das ruas
comerciais, por meio de luzes, figuras e linguagem verbal, tentam nos dizer alguma
coisa. As histórias em quadrinhos que, via de regra, exploram imagens e palavras,
realizam o cruzamento verbo visual.
Antes mesmo da escrita, surgiram as gravuras rupestres e o sistema
hieroglífico dos egípcios como representações simbólicas, em que signos, à maneira
de desenhos, retratavam seres, situações, ritos e até histórias, expressas,
primitivamente, sobre pedra, madeira, papiro. Na era da internet, utilizando o
computador, os navegadores da rede criaram um código especial para se
comunicar, aproveitando os sinais gráficos oferecidos pelo teclado (as chamadas
caracteretas: :-) = sorriso; :-( = tristeza; ;-) = piscada, cumplicidade; escrever com
letras maiúsculas significa gritar, etc).
Como você percebeu, diversos são os tipos de textos e os códigos
utilizados na interação social, e um dos mais importantes é a língua. Recapitulando,
reconhecemos dois grandes tipos de sistemas de signos:

• linguagem verbal: aquela que utiliza a língua (falada ou escrita);

• linguagem não verbal: aquela que utiliza qualquer código que


não seja a palavra.

A partir dessas considerações, percebe-se que o homem utiliza inúmeros


tipos de linguagens para expressar suas impressões, para representar coisas, seres,
idéias, dentre elas a linguagem verbal. A língua é um sistema de representação
constituído por palavras e por regras que as combinam, permitindo que
expressemos uma ideia, uma emoção, uma ordem, um apelo, enfim, um enunciado
de sentido completo que estabelece comunicação. É importante salientar que essas
palavras e essas regras são comuns a todos os membros de uma determinada
sociedade. Isso significa que a língua pertence a toda uma comunidade, como é o
caso da língua que você fala – a língua portuguesa.
Quando um membro da comunidade, isto é, um falante faz uso da língua,
ele realiza um ato de fala. A fala é um ato individual e depende de várias
circunstâncias: do que vai ser falado e de que forma, da intencionalidade, do
contexto, de quem fala e para quem se está falando. No entanto, o falante vale-se
7

de um código já convencionado e instituído antes de ele nascer, ou seja, a


criatividade de seu uso individual está limitada à estrutura da língua e às
possibilidades que ela oferece.

Linguagem Verbal Língua Fala


Código verbal de uma
Sistema composto de Uso individual do código
determinada
signos lingüísticos verbal.
comunidade

Os falantes de uma língua adquirem naturalmente e gradativamente o


conhecimento necessário para a língua da comunidade a que pertencem, cuja
estrutura já tem, predeterminados convencionalmente, os signos lingüísticos e as
possibilidades de comunicação entre eles, o que permite a comunicação. À soma
dos conhecimentos linguísticos de uma língua chamamos gramática.
Por termos o conhecimento da gramática da língua, conseguimos
associar uma sequência de sons a um conceito, formando palavras, ou construindo
frases, escolhendo as palavras e a ordem adequada dessas palavras no texto para
nos comunicar. Trata-se, pois, de uma gramática natural da língua que permite
entender enunciados e fazer-nos entender através deles. Vejamos os exemplos:

O menino empinou papagaio a tarde toda. Enunciados gramaticais, isto é,


Os meninos empinaram papagaio a tarde toda. combinações possíveis e inteligíveis
A tarde toda, os meninos empinaram papagaio. na língua portuguesa.
Papagaios, os meninos empinaram-nos a tarde toda.

Enunciado agramatical, isto é,


combinação não usual na língua
portuguesa, embora com todas
Meninos toda empinaram os tarde papagaio a as palavras pertencentes a sua
estrutura.

A gramática natural não deve ser confundida com as gramáticas que


tentam, de forma sistematizada, registrar, descrever e/ou prescrever os fenômenos
gramaticais. Do mesmo modo, não se deve confundir o conjunto de regras gerais e
internas da língua com o conjunto de regras utilizadas pela gramática normativa.
8

A gramática normativa tenta estabelecer um determinado uso da língua,


chamado uso culto ou norma culta, norma padrão. Trata-se, portanto, de um
conjunto de regras que impõe um padrão de linguagem a ser seguido pelos falantes
por ter prestígio social. No entanto, nem sempre ele coincide com a gramática
natural:

FORMAS DA GRAMÁTICA
FORMAS DA GRAMÁTICA NATURAL
NORMATIVA
Fazem duas semanas que ele não vem. Faz duas semanas que ele não vem.
Assisti o filme. Assisti ao filme.
Me contaram o que aconteceu. Contaram-me o que aconteceu.
Tu sabe o que ele faz. Tu sabes o que ele faz.

Cabe destacar que o conhecimento da variante considerada de prestígio


é importante porque ela, convencionalmente, é empregada e exigida em diversas
situações de natureza social (entrevista de trabalho, pedido a uma autoridade
pública, texto empresarial, trabalho acadêmico, etc).
Em consequência da complexidade que envolve o ato comunicativo
efetivo, os conceitos de certo ou errado ficam muito superficiais. É necessário
considerar um novo conceito: a adequação. Um texto pode ser considerado
adequado quando é apropriado aos elementos presentes no processo de
comunicação:

CANAL
COMUNICADOR RECEBEDOR
MENSAGEM
Emissor, transmissor, Receptor, destinatário,
codificador, remetente, de(s)codificador,
locutor, falante. CÓDIGO interlocutor,
ouvinte.

Entende-se que o uso que cada indivíduo faz da língua depende de várias
circunstâncias: do que vai ser falado (assunto), do meio utilizado (canal), do contexto
9

(ambiente espaço-temporal), do nível social e cultural de quem fala e,


importantíssimo, de quem é o interlocutor (ou seja, quem é a pessoa para quem se
está falando). Isso significa que a linguagem do texto deve estar adequada à
situação, ao interlocutor e a intencionalidade do falante. Assim, seria inadequado um
professor universitário fazer uma palestra para alunos de primeira a quarta séries do
Ensino Fundamental empregando palavras eruditas, desenvolvendo argumentos
complexos e estruturas sintáticas muito elaboradas, ele não seria compreendido por
seus interlocutores.

SITUAÇÃO TEXTO ADEQUAÇÃO


Texto de um e-mail E aí, cara? Adequado
enviado por uma Vamos no cinema à noite? (O texto contradiz algumas
adolescente a uma amiga. Me responda logo. regras da gramática
Bj, Ju. normativa, mas é
adequado).
Texto de um e-mail Professora, Adequado
enviado por uma Mando-lhe este e-mail para (O texto é adequado e não
adolescente a uma justificar minha ausência contradiz as regras da
professora. no dia da prova. Adoeci de gramática normativa).
repente, mas amanhã
estarei de volta na escola e
levarei o atestado médico.
Obrigada,
Juliana da Silva.

De maneira geral, podemos distinguir dois tipos de registro da língua:

• o padrão coloquial: emprego das estruturas da língua de forma


espontânea e funcional. Utiliza-se em contextos informais, íntimos e
familiares, que permitem maior liberdade de expressão. Esse padrão
mais informal também é encontrado em propagandas, programas de
televisão ou de rádio, etc.

• o padrão culto: emprego das estruturas da língua de forma mais


cuidadosa e tradicional. Utiliza-se em situações que exigem maior
formalidade, sempre tendo em conta o contexto e o interlocutor.
10

Caracteriza-se pela conformidade ao conjunto de regras da gramática


normativa.
No entanto, o padrão culto e o padrão coloquial são classificações
extremas de inúmeros níveis de uso da língua, ora mais formais, ora mais informais,
tanto quanto inúmeras são as situações de comunicação ao longo de nossa vida em
Bate-papo Apresentação de
sociedade. O grande desafio
com é você estar preparado para
relatório utilizar o nível de
à direção
professor. da empresa.
linguagem adequado à situação, ao(s) interlocutor (es).

Bate-papo
com amigo.
Língua

Bate-papo
com pais. Defesa de
tese em
ambiente
acadêmico.
Padrão Padrão
Coloquial Culto

2 FUNÇÕES DA LINGUAGEM

Como estudamos, a linguagem pode ser utilizada para alcançar os mais


diversos fins. Dependendo do objetivo, o emissor lançará mão de determinados
elementos da linguagem. Função pode ser entendida aqui como serventia. Assim, a
linguagem serve para comunicar, para exprimir emoções, para levar o receptor a
uma ação, para agradar, embelezar, para esclarecer algo da própria linguagem, ou,
simplesmente, para manter viva a comunicação.
11

2.1 Função referencial

A principal preocupação dessa função é comunicar; por isso, denota,


referencia, informa. É necessário o uso de vocábulos precisos para que a
comunicação se estabeleça. Não se permite aqui nenhum descuido quanto à
gramática. A linguagem é exata, objetiva. Está centrada no referente. Exemplo:

De acordo com as exigências publicadas na Folha de São Paulo, no dia


20 de junho de 2009, em que Vossa Senhoria procura por um técnico em
eletrotécnica, apresento-me como candidato à vaga.

A função referencial é a função predominante na


correspondência comercial e oficial.

2.2 Função emotiva ou expressiva

Ao utilizar essa função, o redator tem em vista exteriorizar emoções. Não


há preocupação com o receptor, mas com as afirmações do eu. Nesse tipo de
correspondência, há interjeições, exclamações, manifestações de alegria, medo,
dor. Podem ocorrer palavrões e insultos. Exprime a atitude do emissor diante do
conteúdo que quer transmitir. Exemplo:

O dia mais importante da minha vida foi aquele em que, recordando todos
os meus erros, achei que já chegara a hora de procurar uma nova maneira de ser
útil ao próximo, de dar novo rumo às minhas relações humanas.

A função praticamente ausente na redação


comercial e oficial.
12

2.3 Função conativa

É a função que está centrada no destinatário; tem como objetivo


influenciar o comportamento e é representada pelo imperativo e vocativo. Quando a
situação exigir objetividade, atenção rigorosa do receptor e o redator sentir que é
necessário influenciá-lo a tomar uma decisão, deve usar a função conativa. Ela
desvencilha-se da linguagem doce, repleta de subterfúgios e eufemismos. Em vez
de seria interessante que V. Sa. providenciasse, usa-se: insistimos que V. Sa. deve
providenciar. Exemplo:

Sentimo-nos alegres em poder ajudar V. Sas. a conseguir maior


produtividade em sua organização. Indiquem-nos qual a matéria prima que lhes
interessa e nós a enviaremos, sem qualquer compromisso da sua parte.
Não permitam V. Sas. que concorrentes bem mais informados os
ultrapassem e lhes roubem fatia de mercado tão cobiçada. Se for de seu interesse,
consultem-nos.

Embora de maneira controlada, a função conativa

também ocorre na redação comercial e oficial.

2.4 Função poética

Há aqui a criação de uma linguagem nova. Às vezes, pode até ocorrer


violação e transgressão intencional da norma padrão. Pode haver ruptura da norma,
mas não do código. A intenção é produzir um texto que emocione e não informe. A
função poética centra-se na própria mensagem. Exemplo:

Rangel:
13

Quem sabe pode e quer você empreitar um serviço de que precisamos?


Pretendemos lançar uma série de livros para crianças, como Gulliver, Robinson, etc,
os clássicos, e vamos nos guiar por umas edições do velho Laemmert, organizadas
por Jansen Muller. Quero a mesma coisa, porém com mais leveza e graça de língua.
Creio até que se pode agarrar o Jansen como “burro” e re-escrever aquilo em língua
desliteraturizada, porque a desgraça da maior parte dos livros é sempre o excesso
de “literatura”.
Lobato.

Como se pode ver, é função própria da arte


literária.

2.5 Função metalinguística

Função centrada no código, isto é, seu objeto é a própria linguagem.


Serve para dar explicações ou precisar o código utilizado pelo emissor. Tem por
objetivo a própria língua. Exemplo:

Recebemos sua carta de 18-6-2009 e com muito prazer atendemos a seu


pedido de esclarecimento sobre as características da carta comercial.
Quanto às disposições, as cartas podem ser digitadas de três modos
diferentes. Segundo o estilo A, colocam-se destinatário e invocação junto à margem
esquerda do papel; data e assinatura são colocadas de modo que a última letra
atinja a margem direita. Para o início dos parágrafos contam-se dez toques após a
margem esquerda...

Só em casos especiais é que se usa esta função na


correspondência empresarial ou oficial.
14

2.6 Função fática

Seu objetivo é estabelecer a comunicação, controlar sua eficácia, prender


a atenção do receptor. Está centrada no contato físico ou psicológico. Apenas
aproxima receptor e emissor. Exemplos: alô, né, não é, sabe. Bom dia! Você está
me entendendo?

Função própria da língua oral.

3 POR QUE ESTUDAR REDAÇÃO TÉCNICA?

Não se há de negar que a linguagem fez e faz parte da vida de todo e


qualquer indivíduo. Desde o princípio das civilizações, o homem vem-se utilizando
dessa ferramenta para estabelecer relações com o meio e também com o outro.
Como vimos anteriormente, para tanto, se desenvolveram diferentes modos de
expressar e de significar. Traduz-se, então, a linguagem sob as mais diversas
formas – gestos, cores, desenhos, palavra, etc – as quais se apresentam ligadas ao
homem de tal modo a se poder dizer que a mente humana é inseparável do
funcionamento dos signos; se é que não deva identificar-se com este
funcionamento. Das cavernas à tela do computador, muitos são os sinais e símbolos
desenvolvidos pelos seres humanos para registrar, expressar e significar variados
momentos de sua trajetória.
Comecemos pensando que o homem, como ser de linguagem que é, faz
uso da língua com os mais diferentes propósitos. Quando falamos de língua, porém,
estamos nos referindo não só ao conceito que a compreende como estrutura ou
esquema em termos lingüísticos. Muito mais que isso, estamos considerando a
língua com a sua carga de expressividade, ou seja, com aquelas funções capazes
15

de se traduzirem não pelos olhos do corpo, nem mesmo pelo intelecto, mas sim
pelos olhos do espírito, o que reclama tanto as emoções quanto às sensações
humanas.
Sendo assim, pode-se ressaltar alguns pontos importantes sobre a língua:

• é uma atividade humana em fase de processo, de


(re)construção e também desconstrução. Nesse sentido ela não deve
ser tratada como uma realização já pronta ou acabada;
• não é verdade que uma palavra se relaciona com outra. Quem
relaciona e faz com que tal relação valha é o sujeito de linguagem que
é o próprio homem.

Entretanto, o uso da linguagem, e dos signos por extensão, não se dá de


qualquer maneira. Pelo contrário, ocorre sob a forma de enunciados-textos os quais
comportam um repertório de gêneros resultantes das atividades humanas no seio da
sociedade. Trata-se de gêneros textuais/discursivos (orais, escritos e até mesmo
sob outra forma de signo que não a palavra).
A propósito disso, os gêneros não podem ser vistos dissociados nem da
vida cultural nem da social. Devem, isso sim, ser entendidos como fenômenos
históricos, fruto do trabalho coletivo, envolvendo os homens em sociedade por meio
das mais diferentes atividades comunicativas do dia-a-dia.
A partir dessa constatação é que podemos apresentar a redação técnica.
Ela surgiu com a necessidade de se normalizar os gêneros textuais que circulam
dentro de uma empresa (carta comercial, memorando, ofício, etc). De garantir ao
estudante, quando entrar no mercado de trabalho, reconhecer a comunicação
escrita que passará por suas mãos diariamente, como também saber escrevê-la.
No entanto, é importante saber que esses textos não são estáticos, eles
mudam de acordo com as atualizações tecnológicas. Uma das estratégias que
passou a ser usada mundialmente é a redação de informações de maneira muito
mais objetiva. Com a necessidade de se trabalhar na direção da qualidade total,
incrementou-se a necessidade de discriminar os procedimentos e os padrões
utilizados no dia-a-dia, especificando-os em linguagem clara e sem duplicidade de
sentido, de forma a minimizar o ato de refazer o trabalho e acelerar o intervalo de
tempo entre os fatos e as ações.
16

Alguém pode argumentar que um texto mal escrito não representa perda
financeira substancial para uma empresa? Mas, ao imaginarmos diversos
documentos mal escritos na mesma empresa, constatamos que os leitores se
tornam: desmotivados para a leitura. E isso acaba gerando a famosa troca oral de
informações e falta de credibilidade para com as lideranças.
Conclui-se então que, em tempo de mercados mundiais e luta por
sobrevivência na era da globalização, não basta investir em informatização e
tecnologia, mas sim naquilo que dentro da sociedade humana é valor de troca: a
comunicação.
Em termos empresariais, essa comunicação tem valores bem definidos: a
clareza e a objetividade das informações proporcionam e impulsionam a exatidão
das mensagens e a agilidade das decisões, molas da sobrevivência e lucro.
Não devemos nos esquecer de que a mudança cultural que se impôs na
linguagem das correspondências equivale também a um estilo de vida moderno, em
que a informação valorizada é aquela da mais fácil digestão – haja vista a grande
influência dos meios de comunicação de massa.
Além disso, você deve reconhecer que um leitor, por mais inteligente que
seja, precisa de tempo para decodificar as palavras, reconhecer os seus sentidos e
identificar as relações entre as ideias. Assim, torna-se evidente que, quanto menor o
esforço do leitor para decodificar o texto, ou seja, quanto menor for o desgaste
mental, mais ele aprenderá sobre a mensagem.
Que características você, que escreve a um cliente respondendo a
solicitações, passando informações sobre diversos assuntos, subsidiando
informações para que a sua gerência tome decisões, quais as características que
você, como emissor e também destinatário, destacaria como sendo importantes em
um texto empresarial?
Vamos apresentar uma lista de características e você irá assinalando
se as considera importante ou não :

Vocabulário sofisticado ( ) sim ( ) não


Clareza ( ) sim ( ) não
Vocabulário simples e formal ( ) sim ( ) não
Vocabulário informal ( ) sim ( ) não
Objetividade ( ) sim ( ) não
17

Frases curtas ( ) sim ( ) não


Frases longas ( ) sim ( ) não
Frases rebuscadas ( ) sim ( ) não
Gramática correta ( ) sim ( ) não
Vocabulário técnico ( ) sim ( ) não

Tanto o vocabulário sofisticado quanto as frases longas e rebuscadas não


contribuem para um rápido entendimento da mensagem, levando o leitor a um
desperdício de tempo, quando não a uma desmotivação progressiva que acarretará,
inconscientemente, a rejeição da mensagem. Portanto, devem ser assinalados no
item não.
Com relação ao vocabulário técnico (relacionado com cada área de
formação profissional), dependendo da situação, pode ser tanto assinalado como
sim, ou com não, de acordo com a formação profissional do interlocutor da
mensagem. Os itens restantes devem ser marcados com sim.

4 QUESITOS E QUALIDADES DE UM TRABALHO TÉCNICO

Para que se possa apresentar bons trabalhos técnicos é necessário que


se tenha certas práticas em redação técnica, e esse quesito somente poderá ser
totalmente atendido após a realização de muitos exercícios. Clareza, objetividade,
completeza, correção, ordem, acuidade e simplicidade são algumas das qualidades
que se deve ter em mente desde a coleta dos dados necessários para a confecção
dos gêneros técnicos a serem elaborados. Óbvio que o público que se deseja atingir
e a forma de apresentação tem fundamental importância no sucesso de um trabalho
técnico.
18

4.1 Clareza

A clareza de raciocínio é absolutamente fundamental. Tal clareza é


estendida desde a proposta do trabalho até sua conclusão, quando o autor está livre
para, nas premissas apresentadas, discutir a validade do desenvolvimento do
trabalho, os materiais e métodos utilizados, os resultados obtidos, discutindo-os e
interpretando-os.

4.2 Objetividade

Ao escrever um texto técnico, é necessário que o autor torne suas ideias


claras, não deixando por conta da imaginação do leitor possíveis interpretações
dúbias: esse é o trabalho de romancistas, poetas, jornalistas e publicitários. Os fatos
ocorridos no desenvolvimento do trabalho devem estar claramente explicitados,
convencendo o leitor com dados e fatos, baseando-se em verdades claramente
formuladas e em argumentações lógicas.

4.3 Completeza

O tratamento de cada assunto deve ser feito de modo completo; cada


argumentação deve ser conduzida plenamente, até uma conclusão lógica.

4.4 Correção

Todas as informações contidas nos relatórios técnicos devem, antes de


tudo, ser corretas, no sentido mais amplo da palavra. Isso significa que o texto,
figuras e gráficos apresentados não possuam erros, sobre os quais cita-se:
19

ortográficos, de concordância verbal e nominal, de ordem, de gênero, de transcrição


de dados, entre outros.

4.5 Ordem

A apresentação deve seguir uma ordem tal que o leitor possa


acompanhar o raciocínio lógico exibido pela redação do trabalho.

4.6 Acuidade

A precisão e a exatidão nas mensurações, bem como o registro e a


transcrição de tais medições havidas, devem ser suficientes para que o trabalho
técnico não possa ser questionado. É importante ressaltar também que as palavras
utilizadas para expressar as ideias sejam exatamente aquilo que tais palavras
significam, e não o que se supõe que significam. É importante ter certeza do
significado das palavras empregadas: a consulta sistemática a um bom dicionário e
o hábito da leitura, não somente de literatura técnica, na maioria dos casos,
resolvem esses problemas.

4.7 Simplicidade

A simplicidade ao escrever e expressar as ideias deve fazer parte da


proposta inicial do texto técnico. Jargões, gírias, regionalismos, entre outros, não
devem ser utilizados. Deve-se tentar, antes de se perder em palavras, explicar os
fenômenos ocorridos, por figuras ou diagramas que esclareçam o objeto da
particular descrição.
20

4.8 Outras

Outras qualidades dos trabalhos técnicos, não menos importantes que as


já descritas, são:
1. brevidade: não utilizar mais palavras dos que as necessárias para
expressar uma ideia;
2. coerência;
3. estilo: apresentar o trabalho técnico de maneira que seja agradável
ao leitor;
4. interesse: o texto deve prender a atenção do leitor, fazendo-o
interessar-se pelo assunto.

4.9 Revisão

É conveniente que o autor efetue uma revisão geral do texto, relendo-o


com atenção e corrigindo possíveis erros que não tenham sido observados durante
a elaboração.

5 DESCRIÇÃO

Basicamente, usamos três formas para expressarmo-nos oralmente ou


por escrito; dependendo da intenção do falante, dos objetivos e da situação da fala
e/ou escrita; usamos a narração, a descrição ou a dissertação. Ou podemos ainda,
usar, em um único texto, uma combinação de dois ou três tipos, que se
complementam entre si em função de suas características particulares. Para este
momento, iremos estudar a descrição, mais precisamente a descrição técnica,
devido a sua grande ocorrência em textos vinculados ao relato de serviços de
manutenção dentro da empresa.
21

Na descrição não há sucessão de acontecimentos no tempo, de sorte que


não haverá transformações de estado de pessoa, coisa ou ambiente que está sendo
descrito, diferentemente da narração, mas sim a apresentação pura e simples do
estado do ser descrito em um determinado momento.
A descrição se caracteriza por ser o retrato de pessoas, objetos ou cenas.
Para produzir o retrato de um ser, de um objeto ou de uma cena, podemos utilizar a
linguagem não-verbal, como no caso das fotos, pinturas e gravuras, ou a linguagem
verbal (oral ou escrita). A utilização de uma dessas linguagens não exclui
necessariamente a outra: pense, por exemplo, nas fotos ou ilustrações com
legendas, em que a linguagem verbal é utilizada como complemento da linguagem
não verbal. Pense também num anúncio de animal de estimação perdido em que, ao
lado da descrição verbal, também seja apresentada, como complemento àquela
informação, a sua foto.

5.1 Descrição técnica

Um tipo especial de descrição objetiva é a descrição técnica, que procura


transmitir a imagem do objeto por meio de uma linguagem técnica, com vocabulário
preciso, normalmente ligado a uma área da ciência. É o caso da descrição de peças
e aparelhos, de experiências e fenômenos, do funcionamento de mecanismos, da
redação de manuais de instrução e de artigos científicos.
Nas descrições técnicas deve-se buscar a clareza e a precisão para que
se alcance uma comunicação eficaz, objetiva e convincente, que não permita
interpretações variadas. Por isso, nestes textos, a linguagem deve ser denotativa
(linguagem que traduz a realidade).
A descrição técnica apresenta, é claro, algumas características gerais da
literatura, porém, nela se sobressaem mais a precisão do vocabulário, a exatidão
dos pormenores e a sobriedade de linguagem do que a elegância e os requisitos de
expressividade linguística. A descrição técnica deve esclarecer, convencendo; a
literária deve impressionar, agradando. Uma traduz-se em objetividade; a outra,
predominantemente conotativa (sentido figurado).
22

Esse tipo de descrição pode aplicar-se a objetos (sua cor, forma,


aparência, dimensões, peso, etc), a aparelhos ou mecanismos, a processos
(funcionamento de mecanismos, procedimentos, fases de pesquisas), a fenômenos,
fatos, lugares, eventos. Mas nenhum desses temas lhe é exclusivo; eles podem
também fazer parte do texto literário. O que, então, distingue essas duas formas de
composição é o objetivo e o ponto de vista: a descrição que Eça de Queirós faria de
uma sala é bem diversa, quanto ao objetivo, da que faria um policial encarregado de
descreve-la num relatório, se nela tivesse ocorrido um crime de morte.
O ponto de vista é tão importante quanto o objetivo, dele dependem a
forma verbal e a estrutura lógica da descrição: qual é o objetivo a ser descrito
(definição denotativa)? Que parte dele deve ser ressaltada? De que ângulo deve ser
encarado? Que ordem descritiva deve ser adotada? Lógica, psicológica ou
cronológica? A quem, a que espécie de leitor se destina? A um leigo ou a um
técnico?
Assim, uma vitrola ou uma máquina de lavar roupa podem ser descritas
do ponto de vista:

• do possível comprador (legenda de propaganda);


• do usuário (o jovem ou dona de casa);
• do técnico encarregado da sua montagem ou instalação;
• do técnico que terá, eventualmente, de fazer o conserto.

São fatores que precisam ser levados em conta, pois deles dependem a
extensão, a estrutura e o estilo da descrição técnica. O seguinte exemplo pode dar-
nos uma ideia do que deve ser esse tipo de composição:

O motor está montado na traseira do carro, fixado por quatro parafusos à


caixa de câmbio, a qual por sua vez, está fixada por coxinas de borracha na
extremidade bifurcada do chassi. Os cilindros estão dispostos horizontalmente e
opostos dois a dois. Cada par de cilindros têm um cabeçote comum de metal leve.
As válvulas, situadas nos cabeçotes, são comandadas por meio de tuchos e
balancins. O virabrequim, livre de vibrações, de comprimento reduzido, com têmpera
23

especial dos colos, engrenagens oblíquas. As bielas contam com maneias de


chumbo-bronze e os pistões são fundidos de uma liga leve. (Manual de Instruções)

Trata-se de um parágrafo de descrição que tem em vista o usuário em


geral, leigo, pois o emprego de termos técnicos está reduzido ao mínimo
indispensável ao seu esclarecimento.
A descrição tipicamente científica, descrição de campo ou de laboratório
consiste, muitas vezes, numa enumeração detalhada das características do objeto
ou ser vivo. Nesse caso, ela se caracteriza por uma estrutura de frases curtas, em
grandes partes nominais, como no seguinte exemplo, em que o Autor faz a
descrição de um holótipo (espécime único a partir do qual foi descrita uma espécie
ou subespécie) de Hyla rizibilis. A ordem da descrição é a lógica: O Autor começa
pela cabeça (suas dimensões em relação ao corpo), e vai detalhando os olhos, o
tímpano, as narinas, os dentes, a língua, os membros superiores e inferiores, etc. O
último parágrafo da descrição é destinado a indicar a aparência de conjunto,
destacando o colorido dorsal. O seguinte fragmento é ilustrativo:

Membros anteriores curtos e robustos; o antebraço mais desenvolvido


que o braço. Dedos longos e robustos, os externos unidos por uma membrana
vestigiária. Discos do tamanho do tímpano, o do polegar um pouco menor. Polegar
com prepólex rudimentar, um pouco; calos subarticulares e carpais bem
desenvolvidos.

É possível notar: vocabulário de sentido exclusivamente denotativo ou


referencial, frases curtas, muitas delas nominais (sem verbos), ausência de
afetividade lingüística.

5.2 Descrição do processo

Quando o propósito é mostrar o funcionamento de aparelho ou


mecanismo, ou os estágios de um procedimento (como, por exemplo, as fases da
fabricação de um produto, de um trabalho de pesquisa, de uma investigação ou
24

sindicância), denomina-se descrição do processo, cujas características principais


são:

• exposição em ordem cronológica;


• objetividade: nada de linguagem abstrata ou afetiva;
• ênfase na ação, que deve ser suficientemente detalhada;
• indicação clara das diferentes fases do processo;
• ausência de suspense: ao contrário da narração literária, o
interesse da descrição de processo não deve depender da expectativa
ou suspense.

O núcleo, miolo ou corpo de quase todos os relatórios técnicos é em


essência uma descrição do processo, uma exposição narrativa. Esse tipo de
descrição é, talvez, o mais difícil por exigir do autor não apenas conhecimento
completo e pormenorizado do assunto, mas também muito espírito de observação e
senso de equilíbrio: se ela sai por demais detalhada, pode tornar-se confusa, se
muito simplificada, pode revelar-se incompleta ou inadequada. Por isso é que quase
toda descrição de processo vem acompanhada de ilustrações (desenhos, mapas,
diagramas, gráficos, etc) não apenas como esclarecimento indispensável, mas ainda
como meio, por assim dizer, de “dosar” os detalhes.
O seguinte parágrafo pode servir como amostra de descrição de
processo:

Transmissão de um programa de rádio.

Os sons que se produzem dentro do campo de ação do microfone são por


estes captados e transformados em corrente elétrica equivalente. Estas correntes,
devido ao fato de serem extremamente fracas, são conduzidas a um amplificador de
microfone, que as amplifica convenientemente, depois do que são transferidas para
um amplificador de grandes dimensões chamado modulador. Existe no equipamento
transmissor um circuito gerador de alta frequência, que fornece a onda a ser
irradiada pela Estação. Esta onda R.F (alta frequência) será misturada com as
25

correntes de som amplificadas pelo modulador e transmitidas no espaço por meio de


uma antena transmissora.

É possível perceber:

• o propósito (transmissão de programa de rádio);


• os estágios sucessivos do processo:
- som capturado;
-transformadores;
-correntes elétricas conduzidas;
-amplificadores;
-transferidas a um amplificador de grandes dimensões;
-onda R.F misturada com as correntes amplificadas;
- transmitidas pela antena.
• as partes componentes (microfone, amplificador, etc);
• e por último, o resultado (transmitidas no espaço por meio de
uma antena).

O relato de experiência de laboratório é uma descrição de processo,


como se vê no seguinte exemplo:

Oxidação com permanganato em meio peridíneo.

Dissolveram-se 0.5 de ciantolina em 500 ml de piridina, em ebulição, e


adicionou-se com pequenos intervalos 2g de permanganato de potássio. A mistura
foi refluxada durante 7 horas e deixada em repouso por um dia. Após esse período,
aqueceu-se mais uma hora e filtrou-se o líquido perinídido a quente. Destilou-se a
maior parte da peridínea, recolhendo-se ao esfriar 0.3g da ciantolina cristalizada
com P.F 278-279 °C. O resíduo do filtro foi lavado com 20ml de água quente (80°C),
quatro vezes, e o total dos líquidos, depois de frio, acidificado com ácido orgânico,
com aspecto gelatinoso, que foi, por centrifugação, separado e lavado várias vezes,
sendo-se a seguir com um dessecador a vácuo.
26

Verifica-se que, apesar do vocabulário técnico, a descrição se faz de


maneira clara e objetiva: a cada frase ou estágio da experiência corresponde um
período sucinto (o mais extenso deles tem apenas três orações) com escassa
subordinação. Constata-se ainda o feitio interpessoal da exposição narrativa:
“dissolveram-se...”, “a mistura foi refluxada...”, ou “aqueceu-se...” etc, em vez de
“dissolvemos”, “refluxamos” ou “aquecemos”, isto é, voz passiva (sofre a ação) e não
ativa (pratica a ação).

5.3 Plano padrão de descrição

Apoiados nesses elementos básicos (estrutura, características, objetivo e


ponto de vista), podemos esboçar o seguinte plano padrão para a descrição técnica
de um objeto ou um processo.
a) Objeto.
1 . Qual é o objetivo?
2 . Para que serve?
3 . Qual é a sua aparência?
4 . Que partes o compõem?
5 . ... (descrição detalhada).

b) Processo (funcionamento).
1 . Princípio científico em que se baseia.
2 . Normas a seguir para que entre em funcionamento.
3 . Fases ou estágios do funcionamento.

c) Conclusão (ex.: apreciação das qualidades, visão de conjunto,


aplicações práticas, etc).

6 RELATÓRIO
27

Vejamos então, o primeiro modelo de texto técnico que estudaremos, o


relatório. É o relato expositivo, detalhado ou não, do funcionamento de uma
instituição, do exercício de atividades ou acerca do desenvolvimento de serviços
específicos num determinado período.

Importante: posteriormente estudaremos outro tipo de relatório, o de


estágio. É imprescindível que você não confunda esse modelo, usado
corriqueiramente dentro da empresa, com o trabalho acadêmico que você deverá
entregar ao final de seu curso.

6.1 Estrutura

1. Título – RELATÓRIO ou RELATÓRIO DE...


2. Texto – registro das principais atividades desenvolvidas, podendo ser
indicados os resultados parciais e totais, com destaque, se for o caso, para os
aspectos positivos e negativos do período abrangido. O cronograma de trabalho a
ser desenvolvido, os quadros, os dados estatísticos e as tabelas poderão ser
apresentados como anexos.
3. Local e data.
4. Assinatura e função ou cargo do (s) funcionário (s) relator (es).

Observação: no caso de Relatório de Viagem, aconselha-se registrar


uma descrição sucinta da participação do servidor no evento (seminário, curso,
missão oficial e outras), indicando o período e o trecho compreendido.
Exemplo:
28

RELATÓRIO

Introdução: apresentar um breve resumo das temáticas a serem


abordadas. Em se tratando de relatório de viagem, indicar a denominação do
evento, local e período compreendido.

Desenvolvimento: relato organizado dos assuntos pertinentes ao relatório.

Considerações finais: resultados e resoluções sobre o assunto tratado.

Brasília, .....de .... de 200...

Nome,
Função ou Cargo.

7 MEMORANDO

É uma correspondência interna e sucinta entre duas seções de um


mesmo órgão.
Sua característica principal é a agilidade (tramitação rápida e simplicidade
de procedimentos burocráticos).
29

MEMORANDO Nº _____________
PARA: __________________________________ ____/____/______
DE: ______________________________________________

ASSUNTO: ___________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
_____________________________________________________________
Assinatura

8 CARTA COMERCIAL

É a forma de correspondência emitida por particular, ou autoridade com


objetivo particular, não se confundindo com o memorando (correspondência interna)
ou o ofício (correspondência externa), nos quais a autoridade que assina expressa
uma opinião ou dá uma informação não sua, mas sim, do órgão pelo qual responde.

8.1 Estrutura

1. Local e data.
2. Endereçamento: com forma de tratamento, destinatário e cargo.
3. Vocativo.
4. Texto.
30

5. Fecho.
6. Assinatura: nome e, quando necessário, função ou cargo.
Exemplo:

CÂMARA DOS DEPUTADOS


GABINETE DA DEPUTADA MARIA DA SILVA

Brasília, 4 de maio de 2004.

José Maria da Silva,


Diretor.

Prezado Senhor:

Em atenção à carta de V. Sa., informo que o processo de transferência de


estudantes para as escolas técnicas federais é feito de forma pública, com normas
estabelecidas em editais e divulgadas pelas instituições. Cabe ao candidato pleitear
a vaga de acordo com os critérios estabelecidos.
Contando com a compreensão de V. Sa., coloco-me à disposição para
sanar eventuais dúvidas quanto a esse assunto.

Cordialmente,

Maria da Silva,
Deputada Federal.

9 CURRÍCULO

Conjunto pormenorizado de informações a respeito de uma pessoa,


geralmente exigido quando da procura ou solicitação de emprego. Inclui detalhes da
31

formação intelectual e profissional da pessoa, especificando os cursos que tenha


realizado; relaciona as atividades anteriores e experiência adquirida, assim como
dados pessoais.
Ao redigir um currículo, alguns cuidados básicos devem ser levados em
consideração:
a) objetividade: um texto interessante em geral não é longo, mas enxuto;
b) boa apresentação: deve ser digitado e impresso, de preferência, em
equipamento de boa qualidade.
c) especificidade: não se deve enviar a uma empresa xerocópia de um
currículo. O currículo deve parecer que foi escrito para aquela empresa
específica, candidatando-se a uma vaga específica. Também não se
admite o currículo escrito à mão.
d) Modernamente pode ser enviado por e-mail.

9.1 Estrutura

1. Dados pessoais.
2. Objetivo.
3. Formação escolar.
4. Experiência profissional.
5. Qualificações.
6. Cursos.
7. Idiomas.
8. Local e data.
9. Assinatura.
10. Carta de apresentação (opcional).

Exemplo:
32

CURRÍCULO

Dados Pessoais
Nome, endereço completo, data de nascimento, sexo, telefones e e-mail de contato.
Não listar números de documentos. Sendo relevante para a vaga, coloque a
categoria da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Objetivo
Cargo pretendido.

Formação Escolar
Exemplo: Técnico em Eletrotécnica – Edute Satc – 2002.
A ordem das informações é decrescente (da maior para a menor graduação) e não
se deve listar nenhuma formação escolar abaixo do ensino médio.

Experiência Profissional
Nome da empresa.
Cargo, período (se houver crescimento dentro da empresa, especificar).
Citar somente três experiências, em ordem decrescente.

Qualificações
Informações que não podem ser comprovadas por documentos. Exemplo:
conhecimento sobre manutenção de computadores.

Cursos
Somente aqueles comprovados por diploma ou certificado.

Idiomas
Exemplo: Língua Inglesa – básico (não é necessário ter diploma).

Criciúma, 9 de março de 2009.


Assinatura.
33

10 E-MAIL

É a principal forma utilizada na transmissão de informações, em razão de


seu baixo custo e da rapidez de sua veiculação. Embora cada vez mais difundido,
ainda é usado apenas para comunicações informais ou oficiais que não requeiram
confirmação de assinatura.
Ao se fazer uso do e-mail, deve-se preencher sempre o campo “Assunto”,
pois esse dado é importante para a organização das mensagens. Do mesmo modo,
quando se anexa um arquivo, é regra de cortesia indicar minimamente o seu
conteúdo. Leve-se em conta, também, que, ao se valer do e-mail como forma de
envio de informações, ainda que não oficial, deve-se usar da linguagem formal que
se usaria em qualquer outro documento, evitando-se a linguagem descontraída que
caracteriza o e-mail pessoal.

11 OFÍCIO

É o documento destinado à comunicação oficial entre órgãos da


administração pública, de autoridades para particulares e de empresas para pessoas
que ocupem altos cargos hierárquicos dentro de outros órgãos.

11.1 Estrutura

1. Título abreviado (“Of.”) ou não, número de ordem e ano.


2. Local e data.
3. Endereçamento: forma de tratamento, cargo ou função seguido do
nome do destinatário, instituição quando necessário e endereço.
4. Vocativo: função ou cargo.
5. Assunto: síntese do texto (em negrito).
6. Texto com parágrafos numerados a partir do segundo.
34

7. Fecho: “Respeitosamente” ou “Atenciosamente”, segundo a relação


hierárquica entre o remetente e o destinatário.

11.2 Observações

Trata-se de documento formalmente semelhante ao memorando, sendo a


diferença básica o destino: enquanto o memorando é uma correspondência interna,
o ofício tem por fim a comunicação externa.
Na comunicação externa deve ser usada a carta, em vez do ofício,
quando o assunto for eminentemente particular.
Exemplo:
35

Timbre

Of. n. ..../..../ano

Brasília, .... de ......... de 200.......


A(o) (forma de tratamento)
(Nome) (Cargo ou função)
(Instituição)
(Cidade) (Estado)

Assunto: Síntese.

Senhor (Cargo ou função):

Texto

Atenciosamente,

Nome,
Cargo ou Função.

12 GRAFIA DE NÚMEROS

Nos textos técnicos há maneiras diferentes de se grafar os números, ora


por extenso, ora por algarismos, dependendo do contexto e da forma de utilização.

12.1 Por extenso


36

a. Quando todos os numerais (cardinais ou ordinais) na frase são


formados com uma única palavra:
1 - Foram debatidas quinze proposições, oito das quais projetos de lei.
2 - O Plenário votou duzentos projetos de lei e cem projetos de
resolução.
3 - Foram aprovados mil candidatos; o primeiro classificado tirou nota
máxima.
4 - O projeto foi aprovado no quinquagésimo dia de discussão.

Observação: a expressão um mil (escrita muitas vezes, por segurança,


hum mil) é cabível apenas no preenchimento de cheques.

b. Os números fracionários, quando nenhum dos elementos passar de 10:


dois terços, quatro quintos, nove décimos.

12.2 Em algarismos

a. Quando os numerais, cardinais ou ordinais, são formados por mais de


uma palavra (neste caso, havendo numeral de apenas uma palavra na mesma frase,
também ele será grafado em algarismos):

1 - O Deputado apresentou 21 projetos de lei e 13 de resolução.


2 - Compareceram ao jogo 75.834 torcedores.
3 - Foram aprovados 20 candidatos para a área I e 23 para a área II.
4 - O 12º projeto foi aprovado.
5 - O Plenário aprovou o 7º e o 12º item da pauta.

b. Os números fracionários, quando um dos elementos é maior de 10:


1/11, 2/30, 12/24.
c. As frações decimais, em qualquer caso: 0,3; 12,35.
37

d. Na indicação de valores monetários não redondos (o valor deve ser


precedido do símbolo da moeda, com espaço entre eles): R$ 92,35; US$ 346,75; €
2.345,50.

e. Na indicação de porcentagens (sem espaço entre o número e o


símbolo): 1%, 12%, 132%.

f. Sempre que a referência for ao número em si (e não a quantitativos),


como em numerações, códigos, etc. Incluem-se neste caso números de endereços,
telefones, páginas, documentos, caixas postais, etc:

1 - Foi sorteado o número 7.


2 - Av. Brasil, 1240, ap. 1402, C.P. 23683.

12.3 Em algarismos e por extenso (forma mista)

a. Números redondos de 2 mil em diante:

1 - Foram assentados 2 mil sem-terra.


2 - A população do Estado subiu para 32 milhões de habitantes.
3 - A população mundial está perto dos 7 bilhões.

Observação: para indicar aproximação, deve-se usar apenas número


redondo: Cerca de 2 mil servidores entraram na Justiça contra a medida (não:
*Cerca de 1.980 servidores...).

b. Quando o número, de milhar em diante, tiver uma casa decimal depois


da virgula:

1 - Cerca de 1,3 bilhão de pessoas vivem em miséria absoluta no


mundo.
38

2 - Foram atendidos pelo programa 2,4 milhões de pessoas.

c. Na indicação de valores monetários redondos ou aproximados (pode-


se designar a moeda por extenso ou com o símbolo correspondente, com espaço
entre este e o número):
1 - 20 mil reais ou R$ 20 mil; 2,7 milhões de reais ou R$ 2,7 milhões;
2- 1,250 bilhão de dólares ou US$ 1,250 bilhão; 132.000 euros ou €
132 mil.

Observação: moedas pouco conhecidas devem ter o seu nome


referenciado por extenso na primeira menção, podendo-se, a partir de então, usar o
símbolo respectivo.

12.4 Em algarismos romanos

a. Na designação de séculos, dinastias, papas, reis, imperadores (e


assemelhados), grandes divisões das Forças Armadas, acontecimentos repetidos
periodicamente: século III, século XX, os faraós da IV dinastia, João XXIII, João
Paulo II, D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, I Exército, II Distrito Naval, VI Comar, II
Bienal de São Paulo, XII Copa do Mundo.

b. Quando o intitulativo for conhecido ou registrado com romanos: Clube


XV de Piracicaba, Centro Acadêmico XI de Agosto.

12.5 Números em textos legais e administrativos


39

a. Nos textos legais e documentos administrativos que demandem


segurança especial, valores monetários, porcentagens e demais quantitativos devem
ser escritos duplamente, em algarismos e por extenso entre parênteses:

1- Fica aprovado o crédito de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais).


2 - Ficam desapropriados 2.350 ha (dois mil trezentos e cinqüenta
hectares) da Fazenda X para fins de reforma agrária.
3 - Esta licitação refere-se à compra de 235 (duzentas e trinta e cinco)
impressoras e 128 (cento e vinte e oito) monitores.

12.6 Grafia de datas

a. No texto corrente, as datas e os anos devem ser escritos de forma


plena; o primeiro dia do mês é designado com ordinal:

1 - O Brasil proclamou a independência em 7 de setembro de 1822.


2 - Entre 1986 e 1988, o Congresso elaborou a atual Constituição
brasileira, assinada em 8 de outubro de 1988.

b. Datas que se tornaram efemérides são escritas por extenso: o Sete de


Setembro, o Quinze de Novembro, o Dois de Julho. Mas (dia 1º): o 1º de Janeiro, o
1º de Maio.

c. As décadas devem ser mencionadas sem a referência ao século (salvo


quando houver possibilidade de confusão):

1 - O “milagre econômico” da década de 70 caracterizou-se...


2- Os anos 20 foram fortemente influenciados pela Semana de Arte
Moderna de 1922.
12.7 Grafia de horas
40

As horas serão grafadas segundo o que segue:

a. O símbolo de horas é h, o de minutos é min e o de segundos é s, sem


ponto nem s indicativo de plural, sem espaço entre o número e o símbolo.

b. Na menção de horas apenas, não se usa o símbolo, mas a palavra


hora(s) por extenso.

c. Na menção de horas e minutos, usa-se o símbolo de horas, mas não o


de minutos.

d. Na menção de horas, minutos e segundos, usam-se os símbolos de


horas e minutos, mas não o de segundos.

Exemplos:

1 - A reunião será realizada às 14 horas.


2 - A Ordem do Dia iniciou às 16h32.
3 - O eclipse está previsto para as 7h23min40.

13 NORMAS ESPECIAIS PARA ELABORAÇÃO DO TEXTO TÉCNICO

Algumas particularidades são essenciais a constituição dos gêneros


textuais na empresa. Elas vão desde sinais de pontuação a consultas sistemáticas a
dicionários.

13.1 Abreviaturas
41

Para o uso de qualquer abreviatura, deve-se sempre consultar um


dicionário. É importante lembrar que não se abreviam símbolos com ponto final nem
se usa s para pluralizar abreviaturas.

13.2 Algarismos cardinais

Usa-se ponto numa seqüência, ou divisão numerada:

RECUSAR PREFERIR
1- 1) 1). 1.- 1.
2- 2) 2). 2.- 2.
3- 3) 3). 3.- 3.

13.3 Assinatura e aposto

Coloca-se sob o nome de quem assina uma correspondência o cargo ou


a função que ocupa na empresa ou repartição. Não se usa fazer traço para a
assinatura.
Após o nome (apenas iniciais em maiúsculo) de quem assina a carta,
coloca-se a função ou o cargo que a pessoa exerce na empresa. Observe que após
o nome segue uma vírgula e após o cargo segue ponto final:
Fulano de Tal,
Diretor.

13.4 Cargos ou funções


42

Não se antepõe qualquer título ao nome do signatário:

ANTIGO ATUAL
Dr. Tomé de Souza, Tomé de Souza,
Diretor. Diretor.

13.5 Datas

Após a data, coloca-se ponto e o mês deve ser escrito com letra
minúscula:

Criciúma, 30 de junho de 2009.

13.6 Destaque de ideias e expressões estrangeiras

Palavras que necessitam de destaque no texto e expressões estrangeiras


(quando não aportuguesadas), podem ser grafadas com um traço contínuo, em
itálico ou e serem utilizadas em negrito.

14 UM CASO ESPECIAL: A AMBIGUIDADE

Ambiguidade, na frase, é a obscuridade de sentido. Frases ambíguas


permitem duas ou mais interpretações diferentes, devendo, por isso, ser evitadas em
textos que devem primar pela clareza e precisão. Por exemplo, quando se diz:
“Maria falou para a moça que trabalha ali”, quem na verdade trabalha ali: Maria ou a
moça?
E esta: “Vou te mandar um porco pelo meu irmão, que está bem
gordo”. Será que é o irmão que está gordo ou o porco?
43

No plano da expressão lingüística, devemos então cuidar das seguintes


falhas:

• ambiguidade provocada pelo pronome relativo que; Exemplo:


Havia um homem entre a multidão que dava gritos histéricos. Quem
dava gritos histéricos: o homem ou a multidão?
• ambiguidade provocada pelo pronome possessivo. Exemplo: O
professor falou com o diretor em sua sala. De quem era a sala: do
professor ou do diretor?

14.1 Como eliminar a ambiguidade

Evite o pronome relativo que se referindo a dois substantivos. Exemplo:


Havia um homem entre a multidão que dava gritos histéricos. Usando a técnica do
deslocamento:

1. Havia um homem que dava gritos histéricos entre a multidão.


2. Entre a multidão que dava gritos histéricos havia um homem.

Usando a técnica da substituição do relativo: o pronome relativo que tem


como sinônimos: o qual, a qual, os quais, as quais.

1. Havia um homem entre a multidão, a qual (= multidão) dava


gritos histéricos.
2. Havia um homem entre a multidão, o qual (= o homem) dava
gritos histéricos.

Evite o emprego ambíguo do possessivo, reconstruindo a frase.


Exemplo: O professor falou com o diretor em sua sala.

1. O professor falou, em sua sala, com o diretor.


2. O professor falou com o diretor na sala deste.
44

15 A COESÃO TEXTUAL

A coesão é o fenômeno textual que consiste no modo como os


elementos presentes na estrutura superficial se encontram interligados, por meio de
recursos também linguísticos, formando sequências veiculadoras de sentido. Assim
sendo, elementos como substantivos, adjetivos, verbos, preposições, pronomes,
advérbios, conjunções (operadores argumentativos) entre outros, são responsáveis
pela tessitura textual. Observam-se aspectos da coesão no seguinte trecho:

VAMOS À LUTA!

Os onze brasileiros escalados por Luiz Felipe Scolari para enfrentar a


Alemanha no final da Copa do Mundo, hoje, às 8h, não estarão sozinhos no Estádio
Internacional de Yokohama, no Japão. Jogaremos com eles. Sentados na ponta do
sofá, ajudaremos Rivaldo e os Ronaldos a escolher o canto certo e empurraremos o
goleiro Kahn para o outro lado do gol. A cada bola levantada para o atacante Klose,
subiremos na cadeira para ajudar nossos zagueiros a afastarem o perigo. Diante da
televisão, faremos de tudo para que o melhor ataque da Copa supere a melhor
defesa da competição. Para evitar o tetra deles. Para comemorar o nosso penta.
(Correio Brasiliense, 30 de junho de 2002)

Exemplos de coesão:

• os itens eles, estarão e sozinhos referem-se a os onze brasileiros, no


início do texto, e propiciam a recuperação de algo já apresentado. São,
portanto, elementos remissivos a este que é denominado de referente;
• o adjetivo com valor adverbial de modo sentados, bem como as formas
verbais ajudaremos, empurraremos, subiremos, faremos e a pronominal
nosso recuperam a idéia de nós, elíptica e contida em jogaremos, primeira
ocorrência desinencial em que a idéia aparece realizada;
45

• as duas ocorrências do conjuntivo e mostram que esse elemento é um elo


tanto entre palavras Rivaldo e Ronaldos como entre orações
ajudaremos...e empurraremos...;
• a preposição para também demonstra o seu valor de elemento de ligação,
assim como outras preposições encontradas;
• a forma pronominal possessiva deles recupera a referência aos jogadores
alemães, realizada concretamente em o goleiro Kahn e o atacante Klose.

Apesar das diferenças morfossintáticas que alguns dos elementos em


destaque apresentam entre si, eles cumprem um mesmo papel do ponto de vista da
organização do texto: o de garantir as ligações internas, a tessitura textual, pois,
sendo elemento remissivo de um referente ou apenas ligando palavras ou
estruturas, todos eles são coesivos.

16 A COERÊNCIA TEXTUAL

A coerência consiste nas relações de significação subjacentes à


estrutura aparente ou superficial do texto. São as relações lógicas estabelecidas
entre as ideias. Diz respeito aos princípios de acordo entre as estruturas semânticas
internas ao próprio texto e ao contexto (ambiente, momento, interlocução, etc). É o
sentido ou os sentidos que o texto possibilita apreender. A coerência é, na verdade,
o próprio texto, pois um texto sem coerência seria o não-texto e este não existe.
No texto “Vamos à luta”, vimos que todos os elementos analisados não
têm apenas uma missão de unir pura e simplesmente um elemento linguístico a
outro ou de substituí-lo sem nenhum valor significativo. Todos eles unem palavras
ou segmentos com lógica, estabelecendo uma relação de sentido entre as estruturas
superficiais. Além disso, o texto como um todo nos apresenta informações, levando-
nos a construir sentidos para ele que dependem de outras condições além das do
texto: o fato para o qual se chama atenção, que é o jogo de final de campeonato
entre Brasil e Alemanha; o tempo oportuno em que o texto foi produzido: momento
da copa de 2002, movimento esportivo mundial; lugar onde será realizado o jogo:
Japão; a importância do goleiro Kahn, do atacante Klose e da zaga do time alemão,
46

sugerindo únicos perigos superáveis para nossa seleção; e a informação sobre a


importância da vitória, que, para os alemães, representa o tetra, e, para nós, o
penta.
Além da informatividade, outro fator também é perceptível: a
intencionalidade do autor. Pode-se depreender, entre outras, a intenção do apelo ao
exemplificar como deveremos ajudar os nossos jogadores por meio de nossas
atitudes, ao assistir ao jogo, para garantir a vitória do Brasil.
A possibilidade de compreensão do texto se faz pelo conhecimento
compartilhado entre autor e possíveis leitores: citações como os nomes de Rivaldo e
Ronaldo, do goleiro Kahn e do atacante Klose nos remetem a informações de outros
textos, de outras situações, que nos auxiliam, enquanto leitores, a compreender o
que está sendo dito ou não dito, apenas inferido. Esse aspecto de intertextualidade é
fundamental para que a informação que está sendo veiculada seja compreensível e
interpretável, pois se trata de um conhecimento de mundo compartilhado por
locutores e interlocutores (autor e leitores). Nessa mesma perspectiva, reside a
aceitabilidade, que não significa necessariamente a aceitação do argumento, mas
sim o aceite do texto enquanto produtor de sentido(s) para o leitor. Mesmo que não
pense da mesma forma que o autor do texto, o fato de discordar de seus
argumentos ou da maneira como conduziu a discussão já é um indício de que o
leitor compreendeu que aquela produção é um texto, com uma estrutura sintático-
semântica, embora haja discordância no nível discurso.
Todos esses fatores concorrem para a construção dos sentidos dos
textos, portanto da própria coerência textual.

17 PRONOMES DE TRATAMENTO
47

Segundo a gramática, são denominados pronomes de tratamento certas


palavras ou expressões que valem por pronomes pessoais, como: Você, Senhor,
Vossa Excelência, Sua Senhoria, etc.

17.1 Concordância do pronome com o verbo

Os tratamentos Vossa Excelência, Vossa Senhoria e outros que incluem a


palavra vossa pertencem à terceira pessoa do singular: Receba V. Sa. Os meus
votos de consideração.
A concordância com esses pronomes se faz com o verbo na terceira
pessoa, isto é, embora designem a pessoa a quem se fala (a segunda), esses
pronomes exigem a terceira pessoa. Exemplo: Vossa Senhoria não atendeu a meu
pedido...

17.2 Formas de tratamento

Na correspondência comercial, podem-se utilizar diferentes formas de


tratamento: senhor, senhora, Vossa Senhoria. A carta familiar admite o uso de tu e
você. A utilização de vós fornece ao texto ares pretensiosos.
Empregar com acerto a forma de tratamento adequada e escrever
mantendo a uniformidade de tratamento é questão de atenção. Não se devem
misturar, em uma correspondência, as pessoas gramaticais.
Não se pode esquecer que os pronomes de tratamento possuem
destinatários específicos. Vejamos alguns exemplos:

Destinatário Tratamento Abreviatura Vocativo


Reitor de Vossa
Não existe Magnífico Reitor,
Universidade Magnificência
Presidentes e Vossa Senhoria V.S.a. Senhor Fulano
Diretores de de Tal ou Senhor
48

+ cargo
Empresa
respectivo,
Cônsul Vossa Senhoria V.S.a. Senhor Cônsul,
Outras Senhor + cargo
Vossa Senhoria V.S.a.
Autoridades respectivo,

18 ERROS DE PARALELISMO

Paralelismo é o mesmo que simetria de construção. Consiste em formar


estruturas gramaticais idênticas a elementos da frase que estejam coordenados
entre si, seja sintaticamente, seja semanticamente. Como evidenciam os exemplos a
seguir, o paralelismo é fator tanto de correção quanto de clareza do enunciado.
Exemplo de erro de paralelismo sintático: Servidores públicos cogitam
uma nova greve e organizar manifestações contra a reforma da Previdência. O erro
nessa frase está em construir o verbo cogitam com dois complementos assimétricos,
substantivo o primeiro (greve) e verbo o segundo (organizar). O certo é construí-lo
ou somente com verbos, ou somente com substantivos, como se segue:

• Servidores cogitam fazer nova greve e organizar manifestações


contra a reforma da Previdência.
• Servidores cogitam nova greve e manifestações contra a reforma
da Previdência.

Neste outro exemplo, o erro, grosseiro, está em coordenar palavras com


orações: Durante o incidente, mostrou paciência, não ser medroso, inteligência e ter
criatividade. As formas adequadas seriam:

• Durante o incidente, mostrou paciência, coragem, inteligência e


criatividade.
• Durante o incidente, mostrou ser paciente e corajoso, e ter
inteligência e criatividade.
49

Na frase a seguir, a expressão “e que” é motivo de falso paralelismo num


período que não contém nenhum quê anterior: O Diretor nomeado é excelente
profissional e que
tem sólida formação jurídica. Forma correta:

• O Diretor nomeado é excelente profissional e tem sólida


formação jurídica.

Outras vezes a frase, mesmo estando correta do ponto de vista sintático,


pode apresentar falta de paralelismo semântico. Neste caso, a impropriedade está
em tratar de forma simétrica elementos semanticamente díspares. Observe-se o
seguinte exemplo, em que funcionários e computadores são postos, indevidamente,
num mesmo plano de significação: A diferença entre os funcionários e os
computadores disponíveis na empresa é preocupante. Corrigindo:

• A diferença entre o número de funcionários e o de


computadores disponíveis na empresa é preocupante.

Outro exemplo de paralelismo semântico imperfeito, este ocasionado pela


coordenação de continentes com país: Desde o início do atual Governo, o Ministro
viajou à Europa, à África, à América do Norte e aos Estados Unidos. Forma
corrigida:

• Desde o início do atual Governo, o Ministro viajou à Europa, à


África e à América do Norte. Neste último continente visitou os Estados
Unidos.

Advirta-se, por fim, que a falta de paralelismo ocorre mais comumente nas
correlações, que requerem, assim, atenção redobrada, a começar pelas próprias
expressões correlativas.
50

• Exemplos corretos de pares correlatos: não só ... mas também,


não só ... como também, (não) tanto ... quanto, (não) tanto ... como,
nem ... nem, ou ... ou, ora ... ora, seja ... seja.
• Exemplos incorretos: *não tanto ... mas também, *tanto ...
porque.

19 CRASE

Crase é a fusão de dois ou mais sons iguais em um só. Aborda-se aqui a


que se indica com o acento grave ( ` ) e que resulta da fusão de dois aa, escritos
à(s).
O primeiro desses aa é sempre a preposição a. Esta ocorre quando
presentes na frase palavras que a requerem. Palavras como: dirigir-se a, falar a, ir a,
referir-se a, retornar a (verbos); alusão a, amor a, combate a, menção a, referência
a, respeito a (substantivos); igual a, ligado a, semelhante a, similar a (adjetivos);
anteriormente a, próximo a, quanto a, relativamente a (advérbios).
Já o segundo a da crase pode ser:

• o artigo definido feminino a(s), o que significa que somente


substantivos do gênero feminino (estejam expressos ou implícitos)
admitem a crase: Os deputados retornaram à sessão imediatamente;
• o a inicial do pronome relativo a qual, as quais: Trata-se das
pessoas às quais devemos nossas vidas;
• o pronome demonstrativo feminino a(s), equivalente a
“aquela(s)”: Esta emenda é semelhante à que foi apresentada ontem;

Observação: Um recurso prático para saber se há ou não a crase nos


três casos acima consiste em substituir a expressão feminina por uma masculina: se
o masculino resultar em ao(s), a crase se confirma. Exemplos: Os deputados
retornaram ao plenário imediatamente; Expressemos o amor ao País e o respeito
aos regulamentos; Este é o projeto ao qual se acrescentou um parágrafo; Trata-se
51

dos heróis aos quais devemos nossas vidas; Este parecer é semelhante ao que foi
apresentado ontem; Nosso destino está ligado ao do Brasil; Aos que muito
reclamavam pediu paciência.

• o a inicial dos demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo:


Encaminhe-se àquele balcão.

Observação: Aqui, na dúvida, deve-se substituir o pronome por outro que


não comece por a. Se aparecer um a, a preposição se confirma. Exemplos:
Encaminhe-se a este balcão; Foste a que reunião?; Evite dar ouvidos a isto.
Deve-se, ainda, usar o acento de crase nos seguintes casos (trata-se de
casos particulares que não deixam de enquadrar-se nas regras acima):

a. Nas locuções formadas de palavras femininas: O povo ficou na praça à


espera (à mercê / à disposição / à procura) do Presidente da
República; O trabalho foi feito às pressas (às carreiras / às
escondidas / à risca); Chegaram a Brasília às 14 horas (à tarde / à
meia-noite / à toa); À medida que (À proporção que) o tempo passava,
mais impacientes ficávamos; O soldado à paisana foi levado à força
pelo policial militar.
b. Diante de topônimos (nomes de lugar) que pedem o artigo feminino:
Faremos uma excursão à Bahia, a Sergipe, a Alagoas e à Paraíba.

Observações:
1. Para saber se o topônimo pede ou não o artigo, deve-se trocar
a preposição a por de ou em. Caso o resultado seja da e na, o
artigo se confirma. Observe-se: Fui à Bahia. / Estou na Bahia. Mas:
Fui a Sergipe. / Estou em Sergipe. / Voltei de Sergipe.

2. Topônimos que não admitem o artigo passam a exigi-lo


quando especificados, ocorrendo então a crase. Exemplos:
Viajamos a Brasília, depois fomos a São Paulo. / Viajamos à
Brasília de Juscelino, depois fomos à São Paulo da garoa.
52

c. Quando a expressão à moda de (ou à maneira de) estiver


subentendida: Tinha estilo tão rebuscado, que todos diziam que
escrevia à Rui Barbosa.
d. Diante das palavras casa e distância, quando especificadas: O bom
filho volta à casa dos pais todos os dias. (Mas: O bom filho volta a casa
todos os dias.); Via-se um barco à distância de cem metros. (Mas: Via-
se um barco a distância.)
e. Diante da palavra terra, quando significa “solo”, “planeta que
habitamos”, “lugar de nascimento ou onde se vive”: O agricultor dedica-
se à terra; Quando os astronautas voltarão à Terra?; Viajou em visita
à terra dos antepassados.

Observação: Não há crase quando a palavra terra está em contraposição


a bordo: Os marinheiros voltaram a terra depois de um mês no mar.

f. Na locução à uma “unanimemente, conjuntamente” e diante do numeral


uma quando em referência a hora: Os sindicalistas responderam à
uma: greve já!; O avião aterrissou pontualmente à uma hora.

19.1 Casos em que não ocorre crase

Como, conforme já referido, são necessários dois aa para haver a crase,


esta não ocorrerá:

a. Se houver apenas o artigo a(s): O brasileiro aprendeu a lição: é preciso


paciência para enfrentar a crise.
b. Quando já houver preposição: Ficamos esperando-o desde (após /
durante) as 7 horas.
c. Se houver apenas o pronome demonstrativo a(s) ou apenas os
pronomes aquele(s), aquela(s), aquilo: Auxiliava tanto as pessoas ricas
como as pobres.
53

d. Diante de palavras masculinas (de d em diante, o a é apenas


preposição): Os projetos em discussão estão subordinados a turno
único.
e. Diante de verbos: Estamos dispostos a vir e a trabalhar. Demorou a
chegar, mas não tardou a sair.
f. Quando o a, sozinho, antecede palavra no plural (neste caso, não há
artigo definido, pois o substantivo é empregado com sentido
indeterminado): A atuação do administrador está sempre sujeita a
restrições.
g. Diante do artigo indefinido uma, ou quando ele puder ser subentendido:
O funcionário entregou o ofício a uma pessoa indevida; Foi submetido
a cirurgia delicada.
h. Entre palavras repetidas, ainda que do gênero feminino: cara a cara,
frente a frente, gota a gota, de lado a lado.
i. Diante de pronomes de tratamento, pessoais, indefinidos, relativos quem
e cuja, demonstrativos esta e essa: Fizemos referência a Vossa
Excelência (a Sua Excelência / a Vossa Eminência / a Sua Santidade,
a você); Não entregaste a mim (a ela) o documento.

Observação: Os pronomes de tratamento senhora, senhorita, madame


e dona (este, especificado) e o indefinido outra admitem o artigo, ocorrendo a
crase: Desejo felicidade à senhora e à Dona Carmélia; As pessoas perguntavam-se
umas às outras quando
findaria aquele pesadelo.

j. Antes de Nossa Senhora e de nomes de santas: Nas suas aflições,


apelava a Nossa Senhora e a Santa Bárbara.

19.2 Crase facultativa


54

Emprega-se facultativamente o acento de crase quando é opcional o uso


da preposição a, caso da letra a abaixo, ou do artigo definido feminino, caso das
letras b, c, d. Casos em que a crase é facultativa:

a. Depois da preposição até: O visitante foi até à / a sala do Diretor.


b. Diante de pronome possessivo feminino acompanhado de substantivo:
No discurso de ontem, limitou-se à / a sua pregação de sempre.
c. Diante de nomes próprios femininos (o uso do artigo antes de
substantivos próprios personativos é variável conforme a região ou a
intimidade com a pessoa): Em suas dificuldades, sempre recorria à / a
Júlia.
d. Quando é indiferente usar ou não artigo diante do substantivo: Todo
trabalhador tem direito à / a aposentadoria.

20 PONTUAÇÃO

Os sinais de pontuação são utilizados com a finalidade de: a) orientar a


leitura, indicando as pausas, o ritmo e a entoação com que se deve ler a frase; b)
separar palavras, expressões e orações que devem ser distinguidas ou que se
deseja destacar; c) esclarecer o sentido da frase, evitando dubiedades e
truncamentos.

20.1 Vírgula

A vírgula (,) indica pausa breve. Entretanto, deve-se estar atento ao fato
de que nem toda pausa breve da fala corresponde a uma vírgula na escrita, do
mesmo modo que nem toda vírgula corresponde, necessariamente, a uma pausa.
Isso porque a vírgula tem o seu emprego determinado, sobretudo por fatores de
ordem sintática. Dois desses fatores são a ordem direta e a ordem inversa.
55

A ordem direta consiste em enunciar os termos da oração segundo a


seguinte progressão: sujeito – verbo – complementos do verbo (objetos) – adjunto
adverbial. Quando se tem essa sequência, o uso da vírgula é, de modo geral,
desnecessário. Exemplo: O Presidente da Câmara (sujeito) encerrou (verbo) a
sessão (objeto direto) às vinte horas (adjunto adverbial).
Quando a ordem direta é quebrada por deslocamentos (inversões ou
intercalações) dos termos, tem-se a ordem inversa. Neste caso, a vírgula se faz,
quase sempre, necessária, devendo-se usar uma só vírgula para separar os termos
invertidos (no início da oração) e duas para isolar os termos intercalados (no meio
da oração). Exemplos: Às vinte horas, o Presidente da Câmara encerrou a sessão
(inversão do adj. adv.); O Presidente da Câmara, às vinte horas, encerrou a sessão
(intercalação do adj. adv.).
As regras que se passa a apresentar, embora abrangentes, não esgotam
todas as possibilidades de emprego ou não da vírgula. Nos casos omissos, nos de
vírgula facultativa e naqueles eventualmente conflitantes, deve o redator guiar-se por
critérios como: eufonia, ritmo da frase, clareza do enunciado, necessidade de ênfase
(a vírgula realça os elementos que separa).

20.1.1 Casos em que não se usa vírgula

a. Entre sujeito e predicado; entre verbo e seus objetos; entre nome


(substantivo, adjetivo ou advérbio) e complemento nominal; entre nome
e adjunto adnominal: Todos os parlamentares presentes no plenário
(sujeito) aplaudiram o orador (predicado); O Presidente desejou
(verbo) sucesso (obj. dir.) aos servidores recém-empossados (objeto
indireto).
b. Entre a oração principal e a subordinada substantiva, por ser estreito o
vínculo sintático entre elas (as orações substantivas, grifadas abaixo,
completam a principal, exercendo a função de sujeito, objeto, etc): É
necessário que Vossa Senhoria esteja presente; Todos acreditam que
o resultado será positivo.
56

c. Com o período na ordem direta, antes das orações subordinadas


adverbiais proporcionais, conformativas e comparativas, sobretudo
quando a oração principal é curta: Os parlamentares iam saindo à
medida que seus votos eram registrados; Todos votaram conforme se
tinha acordado.
d. Antes de oração adverbial reduzida de gerúndio que denote meio, modo
ou instrumento: Fez a viagem despachando os processos;
Participamos do evento representando nosso País.
e. Quando, num período simples, as conjunções mas e porém ligam
termos equivalentes sintaticamente: Ele sentiu cansaço mas
satisfação; É acomodado porém inteligente.

20.1.2 Casos em que se usa a vírgula

Entre termos da oração:

a. Para isolar o aposto explicativo: O criador de Capitu, Machado de Assis,


é um dos maiores escritores brasileiros.
b. Para isolar expressões de natureza explicativa, retificativa, continuativa,
conclusiva ou enfáticas, tais como: além disso, aliás, a propósito, a
saber, assim, com efeito, digo, em suma, enfim, isto é, isto sim, não,
ou antes, ou melhor, ou seja, por assim dizer, por exemplo, realmente,
sim, vale dizer: Com efeito, os problemas foram solucionados; Os
projetos foram, sim, aprovados.
c. Para isolar o vocativo: A palavra, Deputado, está agora com Vossa
Excelência.
d. Para separar o predicativo deslocado: Os manifestantes, lentos e
tristes, desfilaram em frente ao palácio.
e. Para separar o adjunto adverbial deslocado: No momento da explosão,
toda a cidade estava dormindo; As metrópoles brasileiras, por causa
do êxodo rural, não param de crescer.
57

f. Para isolar conjunções que aparecem no meio da frase: O Deputado foi


atingido em sua imagem; cabe-lhe, portanto, o direito de resposta.
g. Para indicar a elipse (supressão) de uma palavra, geralmente um verbo:
Como nesta frase, a pausa antes do vocativo, não obstante a vírgula
obrigatória, é muitas vezes imperceptível.
h. Para separar o complemento verbal quando anteposto ao verbo e
repetido pleonasticamente: O Parlamento, às vezes a imprensa o
critica injustamente.
i. Para separar entre si termos coordenados dispostos em enumeração: O
Presidente, o Líder, o Relator ressaltaram a importância da matéria.
j. Quando as conjunções e, ou e nem aparecem repetidas vezes
(geralmente, para efeito de ênfase): Neste momento, devem-se votar
os requerimentos, e o parecer, e as respectivas emendas; Nem a
promessa, nem o discurso feito em plenário, nem a apresentação de
emenda foram suficientes para acalmar os ânimos dos manifestantes.
k. Para separar as locuções tanto mais ... quanto mais (quanto menos),
tanto menos ... quanto menos (quanto mais): Parece que quanto
menos nos preocupamos, (tanto) mais os problemas são solucionados
naturalmente.
l. Para separar os nomes de lugar nas datas e nos endereços: Brasília, 1º
de outubro de 2004; Rua João Batista, 150.
m. Entre orações coordenadas não unidas por conjunção: Subiu à tribuna,
começou a falar, fez um lindo discurso; Certos modismos vêm,
passam, tornam a voltar.
n. Para separar orações iniciadas por conjunções coordenativas
adversativas (mas, porém, contudo, etc), conclusivas (logo, portanto,
etc) ou alternativas (ou, quer ... quer, ora ... ora, etc): A sessão
começou tarde, mas foi muito produtiva; Já esgotamos a pauta,
portanto podemos encerrar a sessão.
o. Antes da conjunção e, quando inicia oração cujo sujeito é diferente do
sujeito da oração anterior (para evitar leitura incorreta): O Presidente
chamou à tribuna o homenageado, e o Deputado iniciou seu discurso.
58

p. Antes das conjunções e, ou e nem, quando se repetem no início de


cada oração: Ou vota-se, ou discute-se, ou encerra-se a apreciação da
matéria.
q. Para separar as orações adverbiais deslocadas, inclusive as reduzidas:
Quando o professor entrou, os alunos se levantaram; Ao entrar o
professor, os alunos se levantaram.
r. Para isolar as orações adjetivas explicativas: Lembre-se de nós, que
sempre o apoiamos; O Brasil, cuja economia chegou a ser a oitava do
mundo, precisa voltar a crescer.

20.1.3 Vírgula facultativa

Relembre-se aqui que, nas intercalações, ou se empregam duas vírgulas,


ou não se emprega nenhuma. A vírgula é opcional:

a. Antes da conjunção nem, quando usada uma só vez: Não achou nada(,)
nem ninguém.
b. Com as expressões pelo menos e no mínimo: Chegaram atrasados,
mas(,) pelo menos(,) trouxeram o trabalho pronto; Pode-se dizer(,) no
mínimo(,) que sua reação foi imprudente.
c. Nos adjuntos adverbiais deslocados de pequena extensão: Aqui(,) são
elaboradas as leis federais; A doença(,) àquela altura(,) era
irreversível.
d. Com o período na ordem direta, diante de orações subordinadas
adverbiais, sobretudo quando a oração principal é longa ou a adverbial
é reduzida: O Presidente considerou os requerimentos anti-regimentais
e inconstitucionais(,) no momento em que foram apresentados à Mesa.
e. Antes das conjunções explicativas (pois, porque, etc): Chega de
barulho(,) pois muito estrago já foi feito.
f. Após as conjunções conclusivas (logo, portanto, etc) e as adversativas,
com exceção de mas ( entretanto, no entanto, todavia, etc), quando
iniciam a oração: Todos trabalharam muito; assim(,) merecem
59

descanso; A discussão está atrasada, portanto(,) devemos nos


apressar.

20.2 Ponto-e-vírgula

Sinal intermediário entre a vírgula e o ponto, o ponto-e-vírgula (;) indica


uma pausa mais sensível que a vírgula e menos que o ponto. É empregado:

a. Para separar partes de um período que já tenha elementos separados


por vírgula(s): No dia 10, estavam presentes no plenário 490
deputados; no dia 12, 510./ O projeto passou primeiro pela Comissão
de Constituição e Justiça e de Cidadania; depois foi para a de
Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; está
agora na da Amazônia, Integração Nacional e de Desenvolvimento
Regional.
b. Para separar orações coordenadas de sentido contrário, não unidas por
conjunção: Alguns são dedicados, interessados pelo assunto; outros
são desinteressados, alienados completos.
c. Para separar orações coordenadas, em geral adversativas e
conclusivas, de modo a dar destaque a sua idéia: O número de votos
assegurados já era suficiente, com folga, para a aprovação do projeto;
o Presidente, no entanto, continuava tentando construir um consenso
geral.
d. Para separar os itens de uma enumeração, sobretudo quando
precedidos de letras ou números. Esta é a praxe, por exemplo, dos
atos normativos em relação aos incisos, alíneas e itens:
“Art. 96. Os veículos classificam-se em:
I - quanto à tração:
a) automotor;
b) elétrico;
c) de propulsão humana; [...]
II - quanto à espécie:
60

a) de passageiros:
1 - bicicleta;
2 - ciclomotor;
3 - motoneta; [...].”(Código de Trânsito Brasileiro)

20.3 Dois-pontos

Os dois-pontos (:) marcam uma pausa repentina e indicam que a frase


não está concluída. São empregados:

a. Para introduzir uma citação: O leiloeiro bateu o martelo e declarou:


“Arrematada a mercadoria!”
b. Para introduzir uma enumeração: Votaram-se duas emendas: a
aglutinativa e a modificativa.
c. Para introduzir uma explicação, uma complementação ou uma
conclusão: O Brasil respira aliviado: a inflação galopante foi debelada.

20.4 Travessão

O travessão (–), traço que se distingue do hífen (-) por ser mais comprido,
é usado:

a. Para indicar, nos diálogos, a fala dos interlocutores: – Questão de


Ordem, Presidente.
b. Para isolar termos ou orações no interior de um período, caso em que
deve ser usado duplamente, à semelhança dos parênteses: A Região
Sudeste – Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo –
é a que possui a maior densidade demográfica do País.
61

20.5 Parênteses

Os parênteses (()) são utilizados para isolar palavras, expressões ou


frases intercaladas no período ou a ele justapostas. Servem assim:

a. Para incluir uma reflexão ou um comentário incidental: A situação (tinha


consciência disso) exigia dele pulso firme.
b. Para encaixar uma explicação, um esclarecimento, uma definição ou
um exemplo: Os países que fazem parte do Mercosul (Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai) vêm intensificando suas trocas
comerciais.
c. Para indicar a fonte (autor, bibliografia, etc) do que se afirma ou
transcreve: “Progresso é a realização de utopias.” (Oscar Wilde)

20.6 Reticências

As reticências (...) são utilizadas para denotar emoções variadas (uso sobretudo
literário), para assinalar a interrupção de uma frase ou para indicar a omissão de
partes de um texto. Nesses dois últimos casos, são usadas:

a. Quando o emissor deixa o pensamento em suspenso ou quando a frase está


incompleta: Se o projeto será aprovado? Bem...
b. Para indicar hesitação: Pensamos que... Achamos que... Que isso não é certo.
c. Para indicar, nas citações, que uma parte da frase ou do texto foi omitida,
recomendando-se neste caso o seu emprego entre colchetes: “A política de
desenvolvimento urbano [...] tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das
funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.” (CF, art. 182)
62

REFERÊNCIAS

ABREU, Antônio Suárez. Curso de Redação. 12 ed. São Paulo: Ática, 2004. 168p.

ANTUNES, Irandé. Aula de Português. São Paulo: Parábola, 2003. 181 p.

BACK, Eurico & SOUZA, Ana Cláudia de. Prática de Leitura e Produção de Texto:
Curso de Língua Portuguesa para Universitários.Criciúma: Unesc, 2001. 86 p.

BRASIL. CONGRESSO. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Manual de redação.


Brasília: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2004.

MARTINS, Dileta Silveira & ZILBERKNOP, Lúbia Scliar. Português Instrumental.


23 ed. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2002.

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica: a prática de fichamento, resumos,


resenhas. 7 ed. São Paulo: Atlas, 2005. 328p.

MEDEIROS, João Bosco. Correspondência: Técnicas de Comunicação Criativa.


18 ed. São Paulo: Atlas, 2006. 384p.

NICOLA, José de. Língua, literatura e produção de textos. São Paulo: Scipione,
2007. 424p.

PÊCHEUX, Michel. O Discurso: Estrutura ou acontecimento. São Paulo: Pontes,


2002. 68p.

PORTAL SÃO FRANCISCO. Disponível em:


http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/morfologia/pronomes-de-tratamento.php.
Acesso em: 5 jul. 2009.

ROSSI, Maria Aparecida Lopes. Gêneros Discursivos no Ensino de Leitura e


Produção de Textos. São Paulo: Cabral, 2002. 183 p.

STEINER, Elisângela Just. Procedimentos para Normalização de Trabalhos.


Apostila de Metodologia Científica. Criciúma, 2008.