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Fotojornalismo e

Fotografia Documental
Material Teórico
Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Fabio Henrique Ciquini

Revisão Textual:
Prof. Me. Claudio Brites
Imagem e Imagem Técnica: Aspectos
Estéticos e Históricos

• O que é uma imagem?


• O que é uma imagem técnica e o nascimento da fotografia?
• O contexto para o desenvolvimento da fotografia;
• O daguerreótipo;
• A fotografia como enunciado da verdade no século XIX;
• Usos pioneiros da fotografia pela mídia.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Compreender culturalmente o conceito de imagem e sua importân-
cia social;
· Entender a relação entre imagem técnica e o ambiente do século XIX;
· Relacionar fotografia e seu uso pela mídia.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

O que é uma Imagem?


Sabemos que, nos dias atuais, é bastante comum o uso da fotografia tanto
por amadores quanto por profissionais. Entretanto, é importante ressaltarmos que
a relação entre homem e produção/uso de imagens projetadas externamente é
muito anterior ao nascimento da fotografia. Em culturas como a egípcia (3.100
a.C. – 30 a.C.) e a grega (2000 a.C. – 146 a.C.), era comum a confecção de
máscaras mortuárias. Ou seja, a partir do falecimento de uma pessoa – geralmente
alguém importante –, produzia-se como parte de um ritual funerário um molde de
gesso, cera ou até mesmo ouro para que o falecido simbolicamente permanecesse
entre os vivos, para que fosse continuamente rememorado pela sua imagem, cuja
origem vem da palavra latina imago.

A palavra latina imago significa representação visual de pessoa ou objeto e origina a


Explor

palavra imagem. Na Grécia Antiga, as máscaras mortuárias eram denominadas eidos


ou eidolon, que posteriormente dão origem ao vocábulo ídolo.

Em especial na cultura do Egito Antigo, a confecção de máscaras mortuárias


dos faraós ficou bastante conhecida como parte do processo de mumificação dos
corpos, sendo uma das máscaras fúnebres mais famosas a imago em ouro maciço
do jovem Faraó Tutancâmon.

Figura 1 - Máscara mortuária do Faraó Tutancâmon, Museu do Cairo Cerca de 1320 a.C.
Fonte: Wikimedia Commons

Sabendo disso, podemos afirmar uma relação simbólica de permanência.


À máscara funerária caberia o papel de continuidade, de duplicação do rosto do
falecido como estratégia de permanência. Dessa forma, a imagem, de acordo com

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Belting (2006), operaria como elemento de presentificação daquele que se foi,
como uma presença de uma ausência.

Trocando ideias...Importante!
Ao abordarmos o conceito de imagem, concentramo-nos aqui na ideia de imagens que
se projetam externamente em suportes (a máscara mortuária é um suporte, assim como
a fotografia, o cinema etc.). Entretanto, não temos nossas próprias imagens internas
como os sonhos e a imaginação, por exemplo? É importante sabermos que, entre as
imagens externas projetadas e nossa imagens internas, há um trânsito de mão dupla,
ambas se influenciam mutuamente.

O que é uma Imagem Técnica


e o Nascimento da Fotografia?
A história cultural da imagens compreende distintas manifestações e em diferentes
épocas. Nas paredes de cavernas, como em Altamira, Peche-Merle, Lascaux e
Serra da Capivara (essa última no Piauí), há o registro de imagens produzidas há
50 mil e 30 mil anos.
Explor

Sugestão de filmes: O ateliê de Luzia e A caverna dos sonhos esquecidos.

Além das imagens rupestres, sabemos do uso de máscaras mortuárias (imagos) e


também de manifestações artísticas como esculturas, desenhos e pinturas nas quais
imagens são projetadas, tridimensionalmente, como nas primeiras, ou bidimensio-
nalmente, como nesses últimos. Sob esse cenário, pode-se afirmar que a produção
de imagens esteve conectada a uma habilidade manual e/ou artística durante longa
data, ou seja, para produzir uma pintura, por exemplo, era necessário um conheci-
mento instrumental de formas, perspectivas, cores etc. No entanto, em meados do
século XIX, inicia-se uma revolução no processo de produção de imagens.

Essa ruptura importante na produção de imagens está atrelada ao desenvolvimento


de um aparato capaz de, por meio da ação da luz, registrar uma cena ou um evento
sem que fosse necessário algum tipo de habilidade instrumental, como no caso da
pintura. A essa invenção se deu o nome de fotografia, fato que inaugura a era da
imagem técnica, que é uma imagem produzida por meio de um aparelho sem que
seja necessária uma habilidade manual, como na pintura ou no desenho.
Explor

Foto = luz, grafia = escrita, portanto, fotografia seria uma escrita a partir da luz.

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

É importante ressaltar que a origem do processo fotográfico, no entanto, é


bastante diferente do modo como pensamos e utilizamos a fotografia nos dias de
hoje. Se atualmente a fotografia faz parte do cotidiano e praticamente cada pessoa
possui sua câmera fotográfica acoplada ao celular, em meados do século XIX as
primeiras experiências com fotografia eram verdadeiros experimentos científicos
complexos, os quais exigiram um amplo conhecimento de física e química.

Com uma câmera obscura adaptada, o militar aposentado, inventor e litógrafo


francês Joseph-Nicèphore Niépce (1765-1833), registra em 1826/1827 o que se
tem notícia como a fotografia mais antiga captada, denominada como Vista da janela
em Le Gras. Durante oito horas de exposição (hoje produzimos uma fotografia
com centésimos ou até mesmo milésimos de exposição à luz), Niépce deixou a
câmera recebendo luz e sensibilizando a chapa de metal tratada quimicamente para
gravar a ação da luz, processo esse que ele nomeou como heliografia (do grego
helios = sol; e grafia = escrita).

Figura 2 - Artista utilizando a câmera escura, século XVIII.


Fonte: Wikimedia Commons

Figura 3 - Nicéphore Niépce: Vista da janela em Le Gras (1826/1827).


Fonte: Wikimedia Commons

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Figura 4 - Nicéphore Niépce: imagem original em placa de metal. Vista da janela em Le Gras (1826/1827).
Fonte: utexas.edu

É importante compreendermos que, apesar da “precariedade visual e técnica” do


registro fotográfico pioneiro de Niépce, a experiência do francês foi extremamente
importante, pois marcou justamente o início da era da imagem técnica, ou seja,
imagens produzidas por meio de um aparato técnico, a fixação de uma imagem
por um aparelho e que não depende de uma habilidade manual do artista.

O Contexto para o Desenvolvimento


da Fotografia
Sabemos que, para o desenvolvimento de ideias, descobertas e invenções são
necessárias condições que auxiliam esse processo. Com o desenvolvimento da
fotografia, em meados dos anos 1920 do século XIX, não foi diferente. O mecanismo
da câmera escura, que data do século 3 a.C., por exemplo, foi crucial, pois, por
meio dele já se sabiam princípios ópticos básicos da formação da imagem, como
sua projeção invertida, por exemplo. Outro elemento fundamental nesse ambiente
de descobertas fotográficas do século XIX foi o espírito racionalista e científico
que havia na França daquele período. O Positivismo como corrente filosófica e o
estímulo à ciência e aos métodos científicos são fatores que estimulam Niépce – e
também a outros inventores – a continuar seus estudos científicos, muitas vezes com
um auxílio financeiro do governo francês. Em suma, o espírito da modernidade
com seus estímulos à ciência, à razão e crença na técnica é condição amplamente
favorável para o desenvolvimento da técnica fotográfica. A imagem técnica quer
substituir mãos e olhos dos artistas:
Com a fotografia, a produção de imagens obedece a novos protocolos.
Enquanto o desenhista ou pintor depositam manualmente uma matéria
bruta e inerte (os pigmentos) sobre um suporte, sem que ocorra nenhuma
reação química, enquanto suas imagens surgem no decorrer de seu
processo de fabricação, com a fotografia acontece de maneira diferente.
A imagem fotográfica surge de uma só vez, e ao final de uma série
de operações químicas, no decorrer das quais as propriedades de luz
interferem com a dos sais de prata [...] a passagem da ferramenta para

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

a máquina e a da oficina para o laboratório são acompanhadas de uma


mudança igualmente determinante dos materiais. A uma matéria bruta e
inerte, não sofrendo nenhuma outra ação a não ser estética (o grafite do
lápis, os pigmentos pictóricos, etc.) sucede um material fotográfico que
deve ser quimicamente transformado (ROUILLÉ, 2009, p. 35).

Nesse ambiente, no qual acredita-se na máquina e na razão, a fotografia surge


como uma importante ferramenta para produzir novos modos de ver o mundo,
alinhados à essa necessidade de ter o mundo como um ambiente racional e técnico.

O Daguerreótipo
Justamente por haver essas condições favoráveis, a fotografia não pode ser
considerada “filha de pai único”. Vários pesquisadores, artistas, inventores e
entusiastas da ciência pesquisavam, em diferentes partes do mundo, modos de se
fixar a imagem obtida pela ação da luz.

No final dos anos de 1820, Niépce conhece o pintor, cenógrafo e inventor


Louis Jacque Daguerre (1787-1851) e, ao descobrirem que pesquisavam a fixação
da imagem pela luz, resolvem unir forças para chegar a melhores resultados. Em
1829, assinam um contrato de cooperação de pesquisa.

Com a morte de Niépce, no ano de 1833, Daguerre herda os estudos e desen-


volvimentos do colega inventor e, posteriormente, em 1835, solicita ao governo
francês a patente da daguerreotipia, técnica de fixação da imagem que em poucos
anos receberia o nome como conhecemos hoje; fotografia. É importante notarmos
que, apesar de ter herdado parte dos estudos de Niépce, Daguerre foi importante
no desenvolvimento da fotografia principalmente porque pesquisava melhores for-
mas de fixar a imagem na chapa e de reduzir o tempo de exposição da placa de
metal à ação da luz – em meados dos anos 1830, consegue reduzir drasticamente
o tempo de cerca de 60 minutos para 30.

Figuras 5 e 6 - Daguerreótipo de Joseph Niépce (esquerda) e Daguerreótipo de Daguerre (direita).


Fontes: britannica.com e Wikimedia Commons

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Apesar do anseio em separar técnica e ciência de olhar e subjetividade, ou seja,
de colocar a fotografia em um patamar diferente e superior em relação às artes
visuais, as experiências iniciais em fotografia possuíam forte influência artística,
sobretudo no gênero retrato e natureza morta. Como o hábito de ver e discutir
a imagem estava fortemente influenciado pelas práticas artísticas do período, as
experiências fotográficas dos anos 1820 e 1830 reforçam essa influência, ao
mesmo tempo em que buscam autonomia, como evidenciaremos no próximo item.

Figura 7 - O ateliê do artista. Daguerreótipo de 1837 de Louis Daguerre.


Fonte: Wikimedia Commons

Figura 8 - Viste du boulevard du Temple. Daguerreótipo de 1838 de Louis Daguerre.


Fonte: Wikimedia Commons

O aperfeiçoamento da técnica fotográfica nos anos 1830 fez com que os tempos
de exposição das chapas à luz caíssem significativamente; no entanto, é muito
comum observarmos daguerreótipos da época ainda com motivos estáticos, como
no daguerreotipo Viste du boulevard du Temple, em que não há carros circulando
pelas ruas de Paris. São dois motivos para isso: o primeiro é justamente essa questão
técnica, pois, como o tempo de entrada de luz no daguerreótipo era longo, o que
estava em movimento ficava com um aspecto de rastro ou mesmo nem aparecia
na imagem; o outro motivo se dava por conta da influência das artes visuais nos
primórdios da fotografia, de certo modo, era interessante para os daguerreotipistas
se assemelhar à pintura , pois assim não causariam um estranhamento tão grande
junto à população.

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

Explor Você já experimentou fazer uma foto de algo em movimento rápido e com pouca luz
disponível? Se sim, provavelmente notou a presença de um rastro desse objeto que está em
movimento e isso acontece pois o tempo do obturador foi mais lento do que o movimento
do objeto fotografado.

No ano de 1839, o governo francês decide “presentear” o mundo com a


invenção de Louis Daguerre e, no dia 19 de agosto daquele ano, anuncia em um
evento pomposo na Academia de Ciências da França a técnica da daguerreotipia e
seus benefícios de reprodução do real. É importante mencionarmos tal evento, pois,
justamente no dia 19 de agosto comemora-se o Dia Internacional da Fotografia, e
também por um fato curioso que marcou a cerimônia em Paris.

Irritado com a celebração em torno de Louis Daguerre, Hippolyte Bayard


(1801-1887), que havia inventado um processo positivo de gravação da imagem
em papel – portanto mais sofisticado que a sensibilização de placas de cobre de
Daguerre –, pede para que um amigo distribua durante o evento de anúncio pú-
blico da daguerreotipia para o mundo uma foto sua “morto na banheira” e com
uma mensagem apelativa ao público dizendo que o suicídio se deu pois ele não foi
reconhecido como pioneiro da fotografia. O famoso “autorretrato de Bayard na
banheira” causou comoção entre os presentes que se sentiram culpados pelo sui-
cídio de um pioneiro não reconhecido da fotografia. Apesar do contorno trágico,
a história é interessante pois tudo não passou de encenação de Hippolyte Bayard,
que, aproveitando-se da ideia da fotografia como registro do real, simulou sua mor-
te e fez com que muitos comprassem a história, já que uma fotografia “não mente”
– como acreditavam os homens da ciência do século XIX.

Como dissemos anteriormente, vários pesquisadores, em diferentes partes do mundo,


Explor

foram responsáveis pelo desenvolvimento da técnica fotográfica. No entanto, como a França


era o mais importante centro cultural, econômico e político do século XIX, os pesquisadores
franceses que lá estavam tiveram vantagem da presença em um grande centro. Hercule
Florence, um francês radicado aqui no Brasil, desenvolveu técnicas de impressão pela luz
do sol e, em 1833, já escrevia em seus diários o uso da técnica da photographie. Essa
importante descoberta da fotografia é descrita na obra Hercule Florence: a descoberta
isolada da fotografia no Brasil, de Boris Kossoy.

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Figura 9 - Autorretrato de Bayard afogado na banheira. 1839.
Fonte: unicamp.com.br

A Fotografia como Enunciado


da Verdade no Século XIX
As décadas que se seguiram ao anúncio público da invenção da fotografia em
1839 foram bastante intensas. Técnicas fotográficas como o negativo de colódio
úmido e a talbotipia e um início de sua popularização com o uso dos cartões de
visita promoveram a fotografia e davam-lhe grande visibilidade social. No entanto,
uma característica da fotografia permanecia forte nessas primeiras décadas: a
fotografia como expressão da realidade.

O ambiente de desenvolvimento da técnica, tal como mencionamos na seção


anterior, e toda uma época consagrada à razão, à ciência e à exatidão levaram
a fotografia, uma imagem técnica, a ser alocada nesse mesmo panorama. Ao
contrário do olho subjetivo do artista que cria, recria, intensifica cores e contrastes,
a fotografia operaria por uma semelhança absoluta com o real, pois os raios de luz
não mentem e não há a subjetividade do operador, que depende exclusivamente da
câmera fotográfica. Esse é um tipo de crença predominante sobre a fotografia de
meados do século XIX até posteriormente à Segunda Guerra Mundial, como atesta
o exemplo mencionado do autorretrato de Bayard. A fotografia como um espelho
inequívoco da realidade, um documento.

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

Também com uma intenção de comprovação da realidade e instrumental cientí-


fico estão os experimentos do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge (1830-1904)
e do francês Étienne-Jules Marey (1830-1904). Muybridge desenvolveu, a partir
dos anos 1870, um sistema com várias câmeras que disparavam simultaneamente
e captavam movimento. Dessa forma, as fotografias mostravam o movimento de-
composto, o que tornou possível, por exemplo, a comprovação de que o cavalo,
em determinado momento do galope, ficava com as quatro patas no ar. Com in-
teresse científico e artístico, o fotografo inglês desenvolveu estudos de observação
da fisiologia mecânica de movimento de diferentes animais e também humanos,
tendo inventado também um aparelho chamado de zoopraxiscópio, que permitia
a ilusão de que imagens estáticas criassem movimento. De forma paralela ao foto-
grafo inglês, Étienne-Jules Marey inventou uma espécie de fuzil fotográfico, capaz
de registrar 12 fotografias em um frame, ou seja, várias fases de um movimento
em uma única foto, cuja função era representar a decomposição do movimento.
Marey denomina essa técnica de cronofotografia, uma fotografia capaz de registrar
diferentes tempos (cronos), frações muito breves do tempo e os registros mecâni-
cos desses movimentos em intervalos muito curtos.

Figura 10 - O voo do pelicano, 1882. Cronofotografia de Jules Marey.


Fonte: Wikimedia Commons

Outro exemplo de como a fotografia adquire um uso documental e científico


no final do século XIX são os diagnósticos psiquiátricos realizados na clínica
médica Salpêtrière, em Paris. Nesse centro médico, dedicado ao atendimento de
mulheres com algum transtorno psicológico e psiquiátrico, o médico Jean-martin
Charcot (1825-1893) acredita ser a fotografia uma “revelação da realidade” (DIDI-
HUBERMAN, 2003), de tal forma que transformou uma ala do hospital em um
estúdio fotográfico para que as pacientes em crise fossem fotografadas. A intenção
de Charcot era a de que a fotografia operasse objetivamente como uma lupa capaz
de fisgar expressões, garantindo assim a verdade sobre o diagnóstico, uma vez que
a fotografia atuaria como “verdadeira retina” do cientista.

Há nos três exemplos mencionados um forte componente presente na fotografia


de todo o século XIX: a noção de que ela atua como uma prova incontestável da
verdade, um documento comprobatório de que tais sintomas indicam tal doença
(caso da clínica Salpêtrière) e de que a fotografia – como um instrumento científico
– é capaz de enxergar para além do que os olhos observam (como nos exemplos
de Muybridge e Jules Marey). Como o espírito da época, racional e científico,

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estimula essa característica da fotografia (imagem técnica obtida por um aparelho),
há um caminho quase natural sugerido e que viabiliza a fotografia como elemento
de informação. Portanto, nesse cenário que a imagem técnica é considerada um
documento que comprova algo, o seu uso pela mídia vai reforçar a ideia – amparada
pelo ditado popular – de que a fotografia não mente; portanto, se eu vejo, acredito.

Usos Pioneiros da Fotografia pela Mídia


Conforme a parte técnica das câmeras fotográficas melhorava, como os tempos
de obturador mais velozes, e a fotografia se popularizava, atividades com grande
movimento e eventos diversos passaram a ser registrados pela técnica. Daí em
diante, a ideia de fotografar algo para que as fotos desse evento servissem como
prova testemunhal foi uma consequência natural do processo.

Em meados dos anos 1840, alguns jornais passaram a utilizar a fotografia como
base para as ilustrações do jornal, ou seja, a fotografia não era inserida diretamente
nas publicações, mas servia como matéria-prima para o desenhista. Jorge Pedro
Sousa (2004) nos explica:
Até meados do século passado, desenhistas, gravuristas e gravuras de
madeira eram intermediários entre fotógrafos e fotografias e leitores. […]
Até essa altura, a tecnologia usada envolvia papel, lápis, caneta, pincel e
tinta para desenhar; depois, tornava-se necessário recorrer à madeira, a
cinzéis e serras para criar as gravuras. Um exemplo eloquente é o registro
do que aconteceu a uma das primeiras fotografias de acontecimentos, o
daguerreótipo das consequências de um incêndio que destruiu um bairro
de Hamburgo, em 1842, realizado por Carl Stelzner. A The illustrated
London News, revista seminal que durante muito tempo esteve à frente
das publicações ilustradas, grandes artificies da comunicação/informação
visual, usou uma imagem desenhada a partir desse original, para ilustrar
o sucedido, pois a reprodução de fotografias constituía um problema com
que se defrontavam os primeiros jornais e revistas desse tipo. De qualquer
modo, também é de relevar que o gosto da época privilegiava o desenho
(SOUSA, 2004, p. 25-26).

Apesar de a citação ser longa, é muito importante nos atentarmos a ela. Nos
mostra de forma clara que, por mais que houvesse empolgação em torno da fotografia
– seu uso como prova testemunhal e científica e um início de popularização entre o
público dito amador –, a fotografia não substitui o gosto das pessoas pela pintura.
Nos primeiros anos pós-desenvolvimento da fotografia, grande parte das pessoas
ainda eram desconfiadas sobre a técnica, assim, grande parte ainda preferia nos
jornais o uso de ilustrações, pois esteticamente era mais agradável. Um outro
motivo fundamental também era o fato de que, para inserir fotografias diretamente
nos jornais, seriam necessários equipamentos que possibilitassem tal feito, o que,
em meados dos anos 1840, ainda não era possível. Diante disso, os ilustradores
dos jornais recebiam o daguerreótipo (foto) de um acontecimento e, com base nele,

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

reproduziam artisticamente como achavam que ele poderia ser. Assim, mesmo com
fotos que testemunham fatos, não podemos ainda considerá-las como exemplares
do fotojornalismo, pois eram imagens-referência para os ilustradores. O que é
interessante notar é que, aos poucos, a fotografia foi sendo utilizada por diferentes
jornais e revistas na Europa e nos Estados Unidos e, também, lentamente substituiu
as ilustrações artísticas nesses veículos.

Figura 11 - Daguerreótipo de Carl Friedrich Stelzener. Ruínas de Hamburgo, 1842.


Fonte: ufpr.br
Explor

Ilustração a partir do daguerreótipo de Stelzener publicada no The illustrated London


News: https://goo.gl/N5JZlp

Entre o daguerreótipo de Stelzener e a ilustração publicada na revista londrina,


há diferenças importantes: o uso de cores e a dramaticidade da cena na ilustração
certamente impactam mais o leitor do que a cena estática e “somente” com as
ruínas do incêndio. É importante lembrarmos que, na década de 1840, os tempos
de captura da imagem ainda não permitiam o registro de cenas com grande
movimento e ação – como mencionamos nos experimentos de Muybridge e Jules-
Marey. Apesar disso, é possível afirmarmos (pelo próprio nome da revista, Ilustrated
London News) que o desejo por ver e observar acontecimentos crescia no período.
De acordo com Souza (2004, p. 27), o fundador da revista afirmou no número um
que “a revista daria aos seus leitores informação em contínuo dos acontecimentos
mundiais e nacionais com a ajuda de imagens caras, variadas e realistas”. E, de
certa forma, esse contínuo uso da imagem em suas diferentes formas elevou a
tiragem da revista de “200 para 300 mil exemplares entre 1855 e 1860” (SOUZA,
2004, p. 27).

Como a televisão ainda não havia sido inventada, o apetite por imagens das
pessoas de certa forma era satisfeito pelas imagens das revistas e dos jornais. Além
da The Illustrated London News, outras revistas, que enfatizavam o uso de imagens
como principal meio de informar seu público, surgiram, como a Illustration em
Paris. Elas buscavam nas imagens sobretudo a documentação do exótico e do
diferente, como em países do Oriente e da África, o registro de povos e culturas

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que apenas se sabia que existiam, mas que raramente haviam sido testemunhadas
pelas lentes dos fotógrafos-viajantes, que afirmavam o caráter objetivo e realístico
do seu material.

Se ainda hoje é comum programas jornalísticos televisivos despertarem a curiosidade dos


Explor

telespectadores anunciando que “visitaram tal país e experienciaram tal cultura indígena
isolada”, imagine a novidade que eram as fotografias sobre culturas e povos isolados no
final do século XIX?

Hoje, quando vamos viajar, levar uma câmera não é grande problema. Se prefe-
rirmos, levamos apenas nossos smartphones e fotografamos – com boa qualidade
técnica inclusive. No entanto, no século XIX, para que os fotógrafos produzissem
as imagens de povos e culturas distantes, a tarefa logística era das mais complica-
das: os equipamentos fotográficos eram grandes e pesados e carregavam também
o laboratório para fazer a revelação das chapas.

Agora imagine toda essa dificuldade logística de equipamento em uma guerra:


Roger Fenton, fotógrafo britânico, foi pioneiro na cobertura fotográfica em zonas
de conflito, trabalhando na Guerra da Crimeia (1853-1856) na região dos Balcãs.
O trabalho de Fenton na Crimeia tem características que se destacam nas origens
do fotojornalismo, como a dificuldade logística para os deslocamentos (ele se
locomovia pelo conflito com uma carroça laboratório) e também pelo fato de o
seu trabalho ter sido encomendado por um empresário inglês. Segundo Freund
(1989, p. 108), a “expedição de Fenton tinha sido encomendada na condição de
que ele jamais fotografasse os horrores da guerra, para não assustar as famílias dos
soldados”; ou seja, o que observamos nas fotos de Fenton da Guerra da Crimeia
são cenas paisagísticas sem nenhum tipo de conflito e soldados com seus uniformes
alinhados e pomposamente montados sob seus cavalos.

Figura 12 - A carroça laboraório de Roger Fenton e seu assistente, 1854.


Fonte: Wikimedia Commons

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

Figura 13 – Valley of shadow of death, 1854.


Wikimedia Commons
Explor

Militar pousa para Fenton. Guerra da Crimeia, 1854: https://goo.gl/ft76QZ

A cobertura fotográfica de guerras, a partir de Fenton, torna-se um dos assuntos


mais abordados pelo jornalismo. Rebeliões na Índia, a intervenção britânica na
China e a Guerra Civil Americana são alguns dos conflitos fotografados. Em
especial, destacamos que, para o fotojornalismo, a Guerra Civil Americana também
tem uma importância fundamental, já que as imagens possuem mais dinamicidade,
com fotos de soldados nas trincheiras e a luta dos fotógrafos para que as fotos
publicadas indicassem o nome do seu autor, antecipando uma preocupação sobre a
autoria das imagens que até hoje preocupa fotojornalistas. Uma outra característica
a se destacar sobre o conflito norte-americano é a extrema violência das imagens:
opostas às imagens calmas e posadas de Roger Fenton, as fotografias de Mathew
Brady, Alexander Gardner, entre outros exibem corpos nas trincheiras (não raro
alguns pedaços) e hospitais de campanha lotados de feridos.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Sites
Brasiliana Fotográfica
http://brasilianafotografica.bn.br

Livros
Fotografia & história
KOSSOY, Boris. São Paulo: Ateliê editorial, 2014.

Vídeos
Matéria jornalística sobre Hercule Florence:
https://www.youtube.com/watch?v=V_NQpGaDJBI

Leitura
Fotografia e o real
Artigo da Profª. Dr.ª Dulcília Buitoni.
https://goo.gl/f6bB55
Experiências com cronofotografia
Artgo de Hélio Augusto Godoy-de-Souza.
https://goo.gl/tajkkb

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UNIDADE Imagem e Imagem Técnica: Aspectos Estéticos e Históricos

Referências
FREUND, Gisèle. Fotografia e sociedade. Lisboa: Vega, 1989.

KOSSOY, Boris. Fotografia & história. São Paulo: Ateliê editorial, 2014.

ROUILLÉ, Andre. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São


Paulo: Senac, 2009.

SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental.


Florianópolis; Letras Contemporâneas, 2004.

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