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BRITO BROCA

lÁ Vida Literdria
_no C-.Srasil 1900
4" EDIÇÃO

J
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"/\. VIDA LITERÁRIA
n B RASIL - I9ºº'
Brito Broca, é obra que, de há

muito, aguardava nova edição.

Esgotadíssima, pois apenas se

encontra em bibliotecas pú­

blicas ou nas estantes de bi-

por nossa literatura, é obra de

reedição indispensável. E cabe

a José Olympio levar o livro,

novamente, ao público interes­

sado. Do valor da obra já disse

a crítica especializada, desde a

sua primeira edição."

LEODEGÁRIO A. DE
AZEVEDO FILHO

Projêssor emérito da UERJ,


titular daUFRJ e presidente da Academia
Brasileira de Fi!ologitt
STE Liv:Ro E BRITO-
_ é--üm precioso
BRo_CA
E
-. D

estudo acerca das relações eritre · Iireratur� -� socie­


dade e já se ttansformou em obra de referência em rioss.a
historiografia literária. Lançado em 1956, c�mo parte
inicial de um projeto (não implementado) que pretendia
percorrer o tema ao longo .de rodas as fases das letras bra­
sileiras, o livro logo obteve quatro prêmi�" de repercússão.
nacional, entre eles o Sílvio Romero, #ABL.
Até hoje, A vida literdria no'!Jrasil- 1900 é conside-
rada a obra maior de Brito Broca. Num estilo.saborosa"
. mente simples, o autor efetua_ um ffiinucioso regísttô da
formação cultural dos homens de letras do país, ou;
quase sinonimamente, do Rio de Janeiro, no· p_er,íod()_'
da belle époque.
Nada escapa à veia investigativa de 'Brito Broca:
as reformas urbanísticas da então capital federal, o poder .
da imprensa nos mecanismos de legitimação literária,
a formação de grêmios e associações culturais e artísti­
cas, a expansão do mercado editorial, as interseções
entre política e literatura, as idiossincrasias dos escrit:�:.l'­
res. Neste particular - o da recuperação da �ipequeÍ1a
histórià', feita de afetos e desafetos, no cotidian.o das
relações interpessoais - Brito Broca revela-se admirável
cronista, enlaçando um· rigoroso registro factual a fin�S
percepções da alma humana.
Tal olhar, atento simultaneamente ao fato literáiio,
à sua motivação 'íntima e à sua circulação Social, predo­
.
mina em grande parcela da vasta produção do autor.
Torçamos para que A vida literdria no Brasil- 1900 seja a
primeira de uma série de reedições qlle devolvam, em ,toda.
.
a inteireza, a inestimável contribuição de Brito BrO ca para
o mapeamento dos autores, das idéias e dos livros com os
quais se tornou possível pensar este país.

ANTONIO CARLOS SECCHIN


Professor titular de literatura brasileirct da Faculdade de
Letras dtt UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras
JOSÉ OLYMPIO
E D IT O R A

BRITO BROCA

LÁ Vida JJ,terdria no <Brasil


1900
S•EDIÇÃO

o o
© Herdeir9s de-Bdto Broca, 2004

edição à
Reservam-se os direitos desta
A.
EDITORA J O S É OLYMPIO LTD
Cristóvão
Rua Argentina, 171- 1º andar - São
va
20921-380 - Rió de Janeiro, RJ - República Federati do Brasil
Tel.: (21) 2585-2060 fox: (21) 2585-2 086
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Projeto de capa e miolo


VICTOR BuRTON

Assistente de Design
FERNANDA MELLO

Foto
AUGUSTO MALTA
gentilmente cedida sua reprodução
pelo Museu llistórico Nacional

II ustrações
PLANTAS DE FACHADAS
feitas para o Album Comemorativo,
encomendado pela Comissão
da Avenída Central e publicado em 1905

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO- NA-FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

B88Iv
Broca, Brito, 1903-1961
A vida literária no Brasil - 1900
Brito Broca. - 5.ed. - Rio de Janeiro : José Olympio:
Academia Brasileira de Letras, 2005

Apêndice
Inclui bibliografia
ISBN 85-03-00796-7

1. Literatura brasileira - História e crírica. 2. Brasil - Vida intelectual.


I. Título.

05-2243. CDD 869.909


CDU 821.134.3(81).09

... . . ...,, . . . "'"


lA Peregrino júnior
lÁ Elísio, josé e joão
Condé
À memória de minha avó úl1aria Teodora de 'lJrito
n n n n ntt--+----t-
SUMÁRIO

Um domfl!!ixote das Letras FRANc1sco DE Assis BARBOSA 13


1\(gta à 14 edição 30
1\(gta à 24 edição 31

CAPÍTULO 1 3 5
LAeuforia do "1900""""" 1l(g tempo do "bota-abaixo""""" O alvião do prefeito
Passos"""" Mundanismo e vida literdria"""" "O Rio civiliza-se""""" LA 'era do
automóvel""""" LAntagonismo entre o subúrbio e o centro urbano

CAPÍTULO II 39
LA decadência da boêmia """" 'Da rua do Ouvidor à avenida Central """"
Influência da Academia Brasileira de Letras """" O drama de josé do Patrocínio
"""" LA esterilidade literdria de Aluísio Azevedo

CAPÍTULO III 55
LA boêmia dourada """" '11{,quintados e superfinos """" Os salões """" .(gurinda
Santos Lobo em Santa Teresa """" Coelho Neto na rua do Rozo """" Sousa
Bandeira em Barão de ltambi """" Uma musa da época """" Vila Kyrial """"
"'Freitas Vale, o Magnífico"

CAPÍTULO IV 71
Os cafls """" 13ilac e o advento da Confeitaria Colombo """" ú'vfarginais da li­
teratura"""" Superestimação da anedota"""" Um Chat Noir carioca"""" "LAsu­
blime porta""""" ú'vfachado de Assis na Garnier """" LA roda dos simbolistas

CAPÍTULO V 87
<Jfj!;remiações literdrias """" A Imprensa e a t_Academia dos Novos """" O fta­
casso da "Goncourt" brasileira """" LA sociedade brasileira dos homens de letras
e seu programa """" "LA muralha que defenderd o pomar onde em sonhos
desabrochamos"

SUMÁRIO .g_.7
CAPÍTULO VI 97
Unidade e federação nas letras � vfcademias e agrupamentos literdrios esta­
duais � (__/[visita de Coelho Neto ao Maranhão � <A Oficina de Novos, a
Tertúlia das Letras e a Nova Cruzada� Sílvio Romero e a província

CAPÍTULO VII 103


Escdndalos na Academia� <Aeleição de Mdrio de Alencar� Oswaldo Cruz
e o critério dos expoentes � Oposição a Lauro Müller � <A renúncia de José
Veríssimo � J0±ando o presidente Afonso Pena ouviu o que não lhe agradou

CAPÍTULO VIII 119


Escritores na política � <Aoratória parlamentar de Sílvio Romero� Os pro­
jetos de Coelho Neto na Cdmara� 'R!Ji Barbosa� e.Articulaçãoftacassada da
candidatura de Euclides da Cunha� Os monarquistas� O príncipe dom Luís
impedido de desembarcar no Rio � <A abstenção do Conselheiro Aires

CAPÍTULO IX 141
<Asedução de Paris � La douceur de vivre � Bilac intoxicado de "parisina"
� L/ÍS excentricidades de josé Albano� 'lheo Filho� Patrocínio Filho e sua
mitomania� .(j;teratura de panegírico � Euclides da Cunha prefere o sertão ao
bulevar � 'Densidade e tenuidade

CAPÍTULO X 153
e.A Grécia no Brasil � 'Da Arcddia ao Romantismo � úWachado de Assis
veste casaca nos deuses do Olimpo � O esporte e o Helenismo � Uma tese
falsa� úWonteiro Lobato lendo Homero em e.Areias� Os gregos" e os ''lati­
nos" ameaçados

CAPÍTULO XI 161
úWodas literdrias � joão do Rio revela Oscar Wilde � N!.,etzsche �
Assunção e Exaltação� 'Tolstoi e o anarquismo� Elísio de Carvalho, homem
que adota todos os figurinos � lbsen � Eça de Queirós � 'Fradique Mendes
visto por juó Bananére

8 � u1 Vida Literária no Bl-a7lf


CAPÍTULO XII 181
Usos e costumes Simbolistas ,_ lÍOrror .à vulgaridade ,_ Os que bebiam
e os que não bebiam ,_ .!Jvros esquisitos e trajes extravagantes,_ O misticismo
,_ c_Aclimatação do Simbolismo no Sul ,_ Os agrupamentos no Rio e
na província

CAPÍTULO XIII 193


tA mania das conferências ,_ Um espetdculo mundano,_ Os temas,_ 71[gva
modalidade de Parnasianismo ,_ O êxito de Bilac, Coelho Neto e Medeiros e
Albuquerque,_ vis tournées dos conferencistas na província,_ Osório Duque­
Estrada e Sebastião Sampaio em excursão pelo Norte

CAPÍTULO XIV 20!


Editores e best-sellers ,_ uís inovações do livreiro Quaresma ,_ Euclides da
Cunha e o lucro de ordem moral ,_ cA reabilitação de Francisco Alves ,_
O teste de um editor ,_ O lançamento de A esfinge ,_ 1i(i;zões do êxito desse
romance de Afrânio Peixoto

CAPÍTULO XV 209
cA Biblioteca Nacional na avenida ,_ uís iniciativas de Manuel Cícero
Peregrino da Silva ,_ O ministro Seabra foz política ,_ &vocações de João do
Rio e O/avo Bilac,_ Os apontamentos de Capistrano de Abreu,_ Onde as con­
ferências não eram puramente "literdrías"� tAssunto para um romance de
]erome K Jerome

CAPÍTULO XVI 215


1<jp Branco no Itamarati ,_ O sucesso das conferências de Ferrero bA 'Ferri agi­
ta o ambiente no Rio e em São Paulo ,_ O itinerdrio Paris-Buenos Aires de
Anato/e France ,_ C/emenceau e o padre Gajfre ,_ 'Debate entre católicos
e livres-pensadores ,_ Paul Adam ,_ uís tristes jornadas de Rubén Dario

CAPÍTULO XVII 251


cAmizades e inimizades ,_ cJvfachado de Assis entre josé Veríssimo e Nabuco
,_ cA exaltação afetiva de Graça Aranha,_ O ressentimento de Oliveira Lima

SUMÁRIO� 9
e o gosto de "dizer verdades" � 'Francisco Escobar, o amigo exemplar �
011onteiro Lobato e Godofredo Rangel

CAPÍTULO XVIII 265


Polimicas � e.A ofensiva de Sílvio Romero contra José Veríssimo �
"e.A morte da polidez" � Onde aparece um jovem intelectual que seria mais
tarde Assis Chateaubriand � Um caso político que se transforma em caso
literário � O processo póstumo de Machado de Assis

CAPÍTULO XIX 285


lA literatura nos jornais e nas revistas� Ojornalismo, second métier para os
escritores� Inovações da imprensa no começo do século XX� c.AKosmos,
publicação típica do "1900"� O desenvolvimento das artes gráficas no Brasil
� Os anais de Domingos Olímpio � 1@ Branco e a Revista Americana �
O Pirralho anuncia o Modernismo

CAPÍTULO XX 315
Críticos militantes e cronistas� e.Aatividade de José Veríssimo� AraripeJúnior
� Osório Duque-Estrada, 'o guarda-noturno do vernáculo'; Medeiros e
Albuquerque, expressão típica do reviewer�João do Rio, historiador de uma época
� e.Acolaboraçãofeminina nosjornais� Çjilberto Amado e Antônio Torres

CAPÍTULO XXI 331


e.A literatura brasileira no estrangeiro � Correspondência de Figueiredo
Pimentel e Tristão da Cunha para o Mercure de France � Uma advertência de
Remy de Gourmont � 'Taunay, Coelho Neto e Aluísio Azevedo traduzidos na
Europa e na América Latina � 011artin García Merou � O Brasil �
011elhor mercado para os livros portugueses

CAPÍTULO XXII 343


Em agosto de 1914 � e.A francofilia dejosé Veríssimo� 'Fundação da Liga
...

pelos Aliados � Um artigo de João Ribeiro � Oliveira Lima, Capistrano de


Abreu e Antônio Torres. Germanófilos � Como se prolongou no Brasil la belle
époque � !Jteratura de guerra

I o t9'9 lÁ Vida Literária no Br.asjJ


APílNDJCE I
À guisa de conclusão 351

APílNDJCE II
Nota n 1 O "bota-abaixo" 353
º

Nota nº 2 Eleição de Afrânio Peixoto 358


Nota nº 3 363

APílNDJCE III
Origens literdrias do cinema brasileiro 366

Índice Onomdstico 369

Cronologia de Brito Broca 397

SUMÁRIO �II
Francisco
de Assis Barbosa
li
Um dom Quixote das letras

Dos livros em que Brito Broca apenas começara a reunir sua produção jorna­
lística na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro (Americanos, 1944;
Machado de Assis e a política.. ., 1957; Horas de leitura, 1957), surge-nos uma
imagem incompleta, até deformada, do grande trabalhador intelectual que ele
foi, imagem como a que se reflete nos espelhos parabólicos: reduzindo, dimi­
nuindo, empequenecendo a figura. Não é caso único em nossa literatura.
Carlos de Laet será talvez o exemplo mais ilustre de distorção, em confronto
semelhante, no conjunto da obra enfeixada em volumes e no da obra disper­
sa na imprensa. E o grande polemista da fase final do Império e de quase to­
da a Primeira República, um dos maiores escritores do seu tempo, em língua
portuguesa, inclusive da falada e escrita no Brasil, está ainda à espera de al­
guém que se disponha a juntar os milhares de artigos que se encontram por
assim dizer perdidos em jornais e revistas numa militância que perdurou mais
de meio século. Como cronista literário, a militância de Brito Broca não
abrange, é bem verdade, período tão longo. Jornalista profissional desde 1927,
data da sua admissão em A Gazeta, de São Paulo, a decisão de só escrever so­
bre literatura para os jornais coincide com a sua transferência para o Rio de
Janeiro (fins de 1937), continuando a manter na mesma A Gazeta a coluna
iniciada em 1935 com o pseud6nimo de Alceste. Até a morte, em 1961, são
mais de trinta anos de intensa atividade jornalística, dos quais vinte e cinco ex­
clusivamente dedicados ao jornalismo literário. Desse escritor partido aos pe­
daços, como ele próprio se definiu, numa entrevista a Renard Perez, publica­
da no Correio da Manhã, uma seleção de tudo quanto publicou, em jornais e
revistas, segundo cálculo pessimista, daria para uns quinze volumes de trezen­
tas páginas, num total nunca inferior a quatro mil e quinhentas páginas com­
pactas, contendo a melhor informação literária nacional e estrangeira das úl-

UM DOM QUIXOTE DAS LETRA S � l 3


timas décadas. Mesmo assim, não teríamos reconstituída por inteiro a imagem
real de Brito Broca. Restariam outros pedaços como a admirável biografia
Raul Pompéia (1956) - pequeno livro, só no tamanho; os pedaços daquela

que seria fatalmente a sua obra capital: a história da vida literária no Brasil, do
período colonial ao modernismo. O pedaço, aparecido em 1956, em edição
ilustrada do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura,
reeditado em 1960, pela Livraria José Olympio Editora, A vida literdria no
Brasil- 1900, documentário da nossa historiografia literária, dá bem a idéia
do painel, se completado, em dimensão e profundidade.
A tantos projetos dilacerados se junta agora mais um: os pedaços das suas
memórias, de que se conheciam os trechos antológicos estampados na Revista
do Livro e no Jornal de Letras. Nascido na mesma cidade, amigo de duas gera­
ções (meu pai já o fora do seu), coube a mim organizar a edição deste livro, uti­
lizando o texto que encontrei datilografado em três cópias, do qual uma parte
fora a publicada no primeiro daqueles periódicos, sob o titulo "Quando havia
província", de que se tirou separata em 1961. Em todas as cópias, o autor fize­
ra emendas, cotejadas com os originais manuscritos, sempre que possível, já
que destes pouca coisa se salvou. As outras duas partes do volume, ''Anos de
aprendizagem" e "Na Revolução de 32", foram construídas com artigos e crô­
nicas de conteúdo autobiográfico. Com a epígrafe ''Anos de aprendizagem",
Brito Broca publicou muita coisa em A Gazeta, visando um livro de memórias.
Mas nem chegou a coletar o material, que tinha de ser com certeza selecionado
para uma nova redação mais literária e menos jornalística.
Não recebi em ordem os papéis destinados a esta edição. É preciso que
0 diga, embora sem qualquer intenção de censura a quem tão carinhosamente
os deteve. Cometeria com isso uma grande injustiça para com a irmã do es­
critor, dedicadíssima à sua memória, e que em vida lhe fizera as vezes de anjo
da guarda, numa presença constante, embora não vivessem sob o mesmo te­
to. Tampouco ouso fazer qualquer reparo ao meu amigo Alexandre Eulálio,
inexcedível na admiração ântuma e póstuma, e que se tornou por assim dizer
0 arquivista do seu acervo literário. Ao contrário. O que desejo deixar bem
claro é que assumo integral e absoluta responsabilidade na organização do tex­
to das memórias, não só quanto à seriação dos capítulos da primeira parte, co­
mo quanto à seleção do material coligido nas duas outras. Pois o organizador

I 4 � W Vida Literdria no Brfii·t

·· ·-·· ·=��----
não deixa de ser um intruso, na sua forçada co-autoria, em obras deste gênero:
ninguém possui o dom divinatório de s_aber o que ainda passaria pelo crivo da
reelaboração ou o que estaria destinado, não à letra de fôrma, mas simples­
mente ao cesto dos papéis inúteis. Brito Broca era, na sua aparente displicên­
cia, muito exigente consigo mesmo, e talvez desejasse ainda polir aqui e ali o

diamante que deixou por lapidar.


Displicente para com as coisas materiais, nunca para com a literatura,
o seu retrato tem muito de parecido com o que traçou do pai, homem probo
e de uma incrível capacidade de trabalho, multiplicando-se no seu ofício de
guarda-livros de inúmeras casas comerciais da cidade, sem se descurar das suas
funções de secretário da Câmara Municipal. "Como conseguiu esse emprego
não sei" - diz o filho, como que fazendo o próprio auto-retrato -, "dada a
sua absoluta incapacidade de solicitar favores ou recorrer a proteções. Os
maiorais da política local, vendo nele, naturalmente, um moço honesto e tra­
balhador, resolveram aproveitá-lo no cargo. Há circunstâncias em que as pes­
soas se tornam necessárias somente pelas próprias qualidades. Meu pai ter-se­
ia apresentado aos olhos do comendador Rodrigues Alves como o homem
indicado para o posto: modesto, laborioso, dedicado, sabendo apagar-se nas
suas funções e não fazer sombra a ninguém." Todos os adjetivos contidos nes­
te pequeno trecho de boa prosa são aplicáveis a Brito Broca.
Escritor sem biografia, nada de extraordinário aconteceu na sua vida, toda
concentrada no devotamento à literatura, que foi integral e absoluto. Do ofício
de ler e escrever fez a sua única razão de viver. Era a sua realidade. Realidade bem
diversa da realidade do homem comum, do burguês, ou do carreirista. Uma su­
pra-realidade, pode-se admitir, diante da qual o imaterial prevalece sobre o ma­
terial. Nunca pensou em se arrumar na vida, e isto porque, sendo solteiro, a vi­
da material nunca foi objeto permanente do seu interesse. T ítulos, posições,
glória, dinheiro, nada disso, para ele, teve importância. Seria quando muito o
acessório, não o essencial, na sua existência de extasiado permanente pelo poder
literário. Comia, bebia e dormia sempre pensando nos livros que estava lendo
ou nos livros que tinha ainda para ler nos dias subseqüentes, em todos os dias,
em todas as horas, em rodos os minutos. Horas de leitura, horas de viver.
Tão identificado estava com essa maneira de ser que não podia com­
preender houvesse alguém capaz de diferenciar os dois conceitos: vida e lite-

UM DOM QUIXOTE DAS LETRAS � l 5


ratura. Daí o seu espanto ao ser advertido por um secretário de jornal:
"Não escreva sobre literatura; trate de assuntos gerais." Um absurdo, este
de separar.vida e literatura, como se fossem coisas antagônicas. Impossível
fixar a linha divisória entre literatura e assuntos gerais. "Mas então" - per ­
guntava - ('os escritores também não são homens, não participam da vida,
não informam as flutuações em que vivem ou viveram?" Argumentava:
"Não é o caráter literário de um tema que o particulariza, restringindo-lhe
o alcance; é a maneira estreita, artificiosa e convencional de tratá-lo. Não é a
literatura - por onde a vida e a humanidade se exprimem -, é a literatice."
E concluía: "Mas como evitar essa confusão, infelizmente tão comum no es­
pírito de muita gente?''
O amor que Brito Broca devotava à lireratura só era comparável ao horror
que tinha pela literatice. Literatura era para ele um território a bem dizer sa­
grado, onde se detivera para todo o sempre, definirivamente, com a humilde
tenacidade de um carruxo. Estava numa biblioteca como o frade no seu con ­
vento. Desligava-se do mundo. E que não fossem incomodá-lo. Nem os in­
fiéis, nem os arrivistas. Não podia conceber que ousassem desrespeitar o seu
culto. É reveladora desta sua atitude o episódio que deixou registrado numa
das páginas, à moda de um diário de reflexões e reminiscências. '1Certo escritor"
- conta ele -, "pouco amigo dos livros, embora goste de publicá-los, ven ­
do-me preocupado com determinados problemas de pesquisa literária, dizia­
me:/ - Do que me admiro é da paciência que você tem com a literatura ...
/Nada respondi, mas pensei:/ - Pois eu, do que me admiro é da paciência
que a literatura tem com você." ,. :· .. - .....:_ ... ,·.,_·-<"
.,,-,- , .--, - .-,:; ._·
_ "'

T ímido, avesso ao doesto e à v�rrina, réagi ; � u odo, sem espalhafato,


� S� rrÍ

contra os pecados que se cometiam contra a literatura, especialmente aquele que


lhe parecia o mais grave de todos: o de invocar o seu santo nome em vão. Sem
fazer concessões, tratava os jovens com simpatia, sobretudo os da província, com
menos oportunidade e até sem nenhuma oportunidade de aparecer, como os
das capitais. Era com alegria que descobria um valor novo ou que levantava do
esquecimento um escritor desprezado, autor de um romance ou de um livro de
contos que tivesse passado despercebido. Mas não tolerava qualquer espécie
de contrafação, muito menos a atitude daqueles que faziam da literatura simples
pretexto para atingir objetivos exrraliterários, às vezes objetivos inconfessáveis.

I6 � L/Í Vida Literária no B.ra"sril


Não escreveu contra ninguém, nunca teve gosto pelo panfleto, e em par­
ticular o panfleto de sal grosso que se praticou em certa época no Brasil, por
imitação francesa ou reflexo português. Do mesmo modo, aborrecia-lhe o elo­
gio fácil, o panegírico, o endeusamento, a idolatria. Aqueles que procurassem
destruir um tabu apenas pelo prazer de destruir não contariam jamais com seu
apoio, como também aqueles que se curvassem reverentes diante do tabu, pois
num e noutro caso - dizia - não se deve opor uma visão unilateral a outra,
também unilateral. Nesse sentido, condenou o que chamou injustiças de re­
voltados (como Lima Barreto) ou de simples inconformados (como Antônio
Torres) contra certos e determinados figurões. Sua luta era diferente. Alheava­
se das competições. E prosseguia no seu trabalho silencioso, e durante muito
tempo ignorado, sem se importar com êxitos e vantagens. Pouco se lhe dava
ser incluído na categoria dos escritores festejados, com nome e fotografia nos
jornais. Conhecia de sobra o mecanismo das promoções pessoais, mas não
o utilizava em seu proveito. Seria trair a si mesmo. Seria quebrar um voto
de pobreza. Renegar, em suma, o seu ideal literário.
Não se considerava um crítico realizado ou um historiador de idéias, mas um
simples leitor ou anotador de livros. Não fosse a insistência de José Simeão Leal,
diretor do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, ja­
mais teria publicado o livro que lhe daria notoriedade: A vida literdria no Brasil
-
1900 Por isso mesmo chamou a Simeão "pai do livro", na dedicatória do pri­
.

meiro exemplar que recebeu da edição de 1956. Pai da primeira e tio da segun­
da, editada por José Olympio. Foi esse o livro de maior repercussão naquele ano,
o que obteve maior número de prêmios. Mas o sucesso não lhe subiu à cabeça.
Continuou a ser o mesmo Brito Broca de todos os dias, só que bastante encabu­
lado pelos cumprimentos e pelas homenagens. Tudo aquilo lhe parecia estranho,
porque demasiado e imerecido. Que falassem do livro, discutissem as suas idéias,
apontassem erros e defeitos. Nada, porém, de exageros. O exagero era uma doen­
ça tropical, que precisava ser exterminada tal como acontecera com a febre ama­
rela. O trabalho intelectual não poderia ser confundido com o futebol, o rádio,
o cinema, que criam os seus ídolos. Já se arrependia de ter concordado em escre­
ver e publicar o livro. -1àlvez fosse preferível continuar tudo como antes, vivendo
afastado do ruído publicitário, anônimo, desconhecido, cumprindo a sua rotina
diária, do seu quarto de hotel à redação do jornal, não sem passar, é claro, pelos

UM DOM QUIXOTE DAS LETR A S �!7


salões da Biblioteca Nacional ou pelos balcões das livrarias, para ver as novidades,
ou à sombra das prateleiras dos sebos, a buquinar alguma raridade. Assim prati­
cava e ente°ildia que devia ser praticada o que se chama vida intelectual: solitária,
silenciosa, desinteressadamente.
Esse comportamento está como que impresso no pseudônimo que Brito
Broca escolheu para assinar as suas cr6nic as em A Gazeta, quando deliberou
fazer exclusivamente jornalismo lirerário e passou a se dedicar ao trabalho de
pesquisa sobre a história da nossa vida literária. Foi buscá-lo no personagem
bastante conhecido de Moliere, o Alceste d' O Misantropo, como quem encon­
tra a descrição do seu próprio caráter através de um herói de ficção. Alceste
possui de fato uma ponta de heroísmo, ao se afastar voluntariamente da socie­
dade do seu tempo, os salões festivos da brilhante sociedade parisiense da épo­
ca de Luís XIV, por não mais suportar a presença de aduladores e imbecis .
A vida espiritual constitui, desde enrão, a sua fortaleza. Longe de tudo e de to­
dos, do luxo e da banalidade, a leitura é sua derradeira esperança de alegria e
nela procura a felicidade que jamais conseguira desfrutar de outro modo.
Renuncia a tudo, até mesmo ao amor pela bela Celimi:ne, por senti-la dema­
siadamente apegada aos prazeres e intrigas mundanas, incapaz de se despren­
der do círculo de seus adoradores. À figura austera e um tanto grotesca de
Alceste, Molii:re contrapõe, no mesmo cenário, a do frívolo Filinto, amigo das
dissipações, sempre afável, simpático, maneiroso, a distribuir amabilidades e
galanteios. Agrada a todo mundo, e é por isso mesmo falso e postiço, enquan­
to que Alceste encarna a sinceridade, ainda que rabugenta, excessiva, brutal.
Não direi que Brito Broca levasse o compromisso contraído com a adoção
do pseud6nimo às últimas conseqüências. Modesto, simples, generoso, embo­
ra sem desmentir ao seu herói imaginário, comporia um tipo de misantropo
à moda brasileira, um pouco do Alceste de Moliere e um pouco do Timon de
Atenas, mas sem exageros. Sua probidade intelectual era a mesma, sem no
entanto conduzi-lo aos extremos de agressividade de Alceste, sem chegar a ali­
mentar qualquer espécie de aversão ao gênero humano que faria Timon dese­
jar que todos os atenienses se enforcassem dependurados na mesma figueira.
A sua misantropia era mansa, bem mais mansa que a de Alceste, que, por si­
nal, retirada a carapaça de insociabilidade, não deixava de abrigar no fundo do
coração uma dose ponderável de ternura.

r 8 bA lA Vida Literária no B1'llsil


Brito Broca não aconselharia ninguém a se enforcar numa figueira, nem
mesmo o pior de todos os literatos que ·aparecessem sobre a face da Terra.
Nesse ponto, esqueceria Moliere, para seguir o exemplo de Machado de Assis,
que abominava as discussões estéreis, não por comodismo ou por esperteza,
mas pelo '(tédio à controvérsià'. Repetiu mais de uma vez a tirada do mestre,
não sem deixar bastante claro que a aceitava em seu sentido ético, de condu­
ta intelectual, ('e não como um processo utilitarista de acomodação às conve�
niências sociais". No seu entender, a participação de um escritor só tinha
finalidade no trabalho fecundo, fosse o da criação artística ou o da investiga­
ção literária. O resto era secundário. Não negava a importância do fator social
na literatura, mas se recusava a admitir que a crítica se fizesse apenas por esse
prisma. É um ponto de vista, respeitável sem dúvida, mas com o qual não es­
tou de acordo. A literatura é efeito e não causa do fato social. Mesmo assim,
reconheço que essa ortodoxia de beletrista não impediu que Brito Broca se
inscrevesse entre os primeiros a demonstrar, com Astrojildo Pereira e antes
mesmo de Raimundo Magalhães Júnior, que a arte de Machado de Assis não
esteve desvinculada da política, e foi uma arte interessada.
"Tudo nos seus romances'' - acrescentou - ('está ligado a uma realidade
concreta, às flutuações do meio fluminense, aos usos e costumes da época, sob
o signo das instituições que nos regiam." Mais do que isso, viu na obra de
Machado de Assis "as linhas de uma filosofia revolucionária''. Ainda que perma­
necesse nostalgicamente fiel ao velho regime, e não quisesse renunciar de todo
aos preceitos da arte pela arte, fez literatura interessada, numa palavra, partici­
pou. Por isso mesmo, na sua opinião, contos como '(O alienistà' e "Teoria
do medalhão" e o próprio romance de Brás Cubas teriam contribuído para
o "preparo do terreno para o advento da República, com a crítica mordente e a
sátira cruel da mentalidade política e social da Monarquià', com um poder
muito maior de persuasão que os romances interessados do naturalismo.
É de Brito Broca uma das análises mais lúcidas e bem formuladas do ro­
mance de Machado de Assis, ao traçar a psicologia de Cotrim, personagem
das Memórias póstumas de Brds Cubas. Vale a pena acompanhar a exegese,
a partir do momento em que Brás Cubas inicia a defesa do cunhado, contra
as imprecações de desafetos que o acusavam de bárbaro. Não seria tão desu­
mano assim. '10 único fato alegado neste particular" - acentua Brás Cubas

UM DOM .Q_lJ.lXOTE DAS LETRAS � I 9


- "era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço, de onde estes des­
ciam a escorrer sangue." E desculpando o cunhado: além de mandar somen­
te os perversos e fujões, acontecia que, "tendo longamente contrabandeado
em escravos, habituara-se, de certo modo, ao trato um pouco mais duro que
esse gênero de negócios requerià'. Daí o reparo: ('Não se pode honestamente
atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações so­
ciais." O procedimento de Cotrim para com os escravos não o impedia de ter
sentimentos pios comprovados no amor que dedicava aos filhos e na dor que
sofrera "quando lhe morreu Sara, dali a alguns meses''.
Emoldurado o quadro, remata Brito Broca: "Machado denuncia nessa
figura de romance a deformação moral produzida pelo regime servil. Não ha­
via então birola única para os sentimentos. Negro não era gente. E um exce­
lente pai de família, desvelando-se em carinho com os filhos, tratava, muitas
vezes, da maneira mais impiedosa os cativos. A sociedade escravocrata conci­
liava perfeitamente essas duas atitudes e, pelo efeito das relações sociais, o ho­
mem que se julgava bom jamais se apercebia da maldade que praticava casti­
gando os escravos." Em poucas linhas, Brito Broca sintetizava a mensagem
antiescravista das Memórias póstumas de Brds Cubas, livro que assinala a fase
definitiva do grande romancista e que começou a ser publicado em março de
1880, em folhetins da Revista Brasileira, muito antes da Lei dos Sexagenários
(que é de 1885) ou da própria abolição, que só viria a ser sancionada pela
princesa Isabel oito anos mais tarde. A propósito da abolição, o exegeta não
deixa de assinalar a atitude de outro personagem de Machado de Assis, este do
Memorial de Aires, o barão de Santa Pia, fazendeiro em Paraíba do Sul, que re­
solvera, ante a perspectiva da libertação, antecipar-se ele próprio a uma lei que
considerava imoral e desumana. Num acesso de raiva, concedeu alforria a
todos os seus escravos.
O barão de Santa Pia, colérico, esbravejava: "Quero deixar provado que
julgo o ato do governo uma espoliação por intervir no exercício de um direi­
to que só pertence ao proprietário, e do qual uso com perda minha, porque
assim quero e posso." E Brito Broca comenta:·� atitude de Santa Pia mostra­
nos muito bem como pensava e raciocinava um escravocrata da época. (. ..)
A idéia da legitimidade da escravidão transcendia no seu espírito a do poder
do governo para suprimir uma instituição cuja existência dependia exclusivamen-

2O � C/Í Vida Literdria no 'B?âsil


te do governo. Santa Pia jamais veria que o espoliador era ele, beneficiando­
se de uma lei universalmente condenada, que precisava ser abolida. ( ... )
Naturalmente o barão seria capaz de todas as bondades, dentro dos limites de
uma instituição monstruosa. Só não seria capaz de reconhecer que esta não
era boa. Tal a mentalidade dos escravocratas, admiravelmente sugerida por
Machado de Assis."
A defesa de Machado de Assis é, em última instância, a defesa do próprio
Brito Broca. "Porque o escritor não sabia atirar o chapéu para o ar, erguer fre­
neticamente os braços e dar vivas na rua acusavam-no de indiferente à nossa
realidade social. Até hoje a exuberância tropical de muitos críticos insiste nesse
ponto de vista errôneo." Estas mesmas palavras bem que Brito Broca gostaria
que fossem aplicadas ao seu caso pessoal, justificando-lhe a posição refratária
a qualquer movimento político, pois nunca compareceu a um comício nem
assinou qualquer manifesto, ou apoiou este ou aquele candidato a vereador,
deputado, senador ou presidente da República. Seu único partido era a litera­
tura. Nem mesmo quis participar da vida literária, a dos grupos e dos cafés,
das igrejinhas e das livrarias. Pode parecer um paradoxo, mas é exato: o histo­
riador da nossa vida literária não fazia vida literária.
Entregava-se com entusiasmo, isso sim, ao trabalho intelectual. Seria capaz
de redigir sozinho suplementos e revistas literárias. Assim aconteceu por exem­
plo com os suplementos de A Gazeta ou do Correio da Manhã; com "Letras e
artes", ao tempo do saudoso Jorge de Lacerda; com o jornal de Letras, ao lado
de Elísio Condé; com a Revista do Livro, juntamente com Alexandre Eulália, o
seu grande companheiro e maior amigo dos últimos anos. Na redação é que
.
convivia com os companheiros de letras, debatia problemas literários. No
Correio da Manhã ficaram famosas as discussões à hora do jantar, na cantina,
com Ótto Maria Carpeaux, com quem aliás se entendia maravilhosamente. É
que os dois tinham lido tudo ou quase tudo dos principais autores da literatu­
ra ocidental, mas nem sempre estavam de acordo. E a conversa de repente se
encrespava. Pegava fogo, falando ambos apressadamente, quase aos gritos, co­
mo duas metralhadoras engasgadas. A faísca do incêndio podia ser uma estân­
cia de Camões ou uma posição divergente acerca do grau da importância do
romance picaresco espanhol. Mas a vida literária de Brito Broca terminava ali.
Nada de prolongá-la além das redações. Suas incursões semanais pela Lapa e ar-

UM DOM Q,_:i_J)XOTE DA�, LETRAS�


.... 2I
redores, aos sábados, com a pontualidade de um burocrata, não as fazia em
companhia de escritores ou jornalistas, mas só, sempre só, absolutamente só.
Não era, nunca foi um boêmio, nem tinha tempo de o ser. Sempre
demonstrou ojeriza por esse tipo de literato, contrário ao seu feitio e tempe ­
ramento. Daí o desapreço que demonsrrou por figuras características do cha­
mado espírito boêmio, que outrora pontificaram em confeitarias e botequins,
como Paula Nei (que achava sem graça) ou Emílio de Meneses (que tão pou­
co produziu, talvez por jamais ter levado a sério a atividade intelectual). A
boêmia literária era, para ele, coisa do passado, uma condicionante do ro­
mantismo, impossível de ser transposta à nova situação social de um Brasil a
caminho da industrialização. "Deixando os bancos da faculdade" - escreveu
sobre o mito da boêmia-, "os bacharéis (dos tempos do romantismo) pro­
curavam montar suas bancas de advogado, seguir a magistratura ou tentar a
política, enfim, tornar-se homens sérios, para os quais a própria literatura era
qualquer coisa de austero. Se escritores como Aureliano Lessa e Bernardo
Guimarães mantiveram ainda certo feitio boêmio, depois de formados, não 0
levaram a ponto de incompatibilizá-los com a vida burguesa. E o caso de
Fagundes Varela não pode ser tido como exceção: este não foi, a rigor, um
boêmio; foi um atormentado, que procurava no álcool solução para conflitos,
cuja natureza nos parece obscura.n

A mesma tese procurei demonstrar com relação a Lima Barreto, ao escre­


ver-lhe a biografia. Se a boêmia já era uma aberração na primeira década do
século, não passaria de uma atitude ridícula de decrépitos anacrônicos ao
tempo em que Brito Broca se transferiu de São Paulo para o Rio de Janeiro,
em 1938,trazido pela mão amiga de Genolino Amado. Seu primeiro conta­
to com a cidade de Machado de Assis e Lima Barreto, ele o recordou em uma
crônica impregnada daquele sentimento de posse, comum a todos nós, bra­
sileiros de todos os estados, rapidamente assimilados ao meio, enleados pela
paisagem, dominados pelo espírito da sua gente, tal o poder mágico de ab­
sorção da terra carioca.
A crônica de Brito Broca, pequena obra-prima em que recorda a sua ini­
ciação, começa assim: "Daqui, da janela de um quinto andar na Cinelândia,
nesta tarde remansosa de sábado, amenizada por ventos propícios, contem­
plando a cidade, não posso reprimir certa emoção. O Rio se me apresen ta sob

.
··-
2 2 � <A Vida Literária no Brasil
o aspecto heróico, pelo qual eu o encarava, há dez anos atrás, nos primeiros
tempos da minha cidadania carioca. Lembro-me do ardor e da efusão lírica
com que lhe percorria os bairros, deixando-me ficar a sós, numa praça distan­
te, ou num café modesto de arrabalde, excursionando pelas imediações dos
morros e em outros recantos típicos, à busca ansiosa dessa coisa vaga, fugidia,
terrivelmente abstrata que se costumava chamar o espírito da cidade. Ah! co­
mo eu desejava então ler o livro, o romance que me desse tão preciosa chave!
Paris vive em centenas de novelas, nas mais diversas épocas históricas, desde a
Idade Média, com a Notre Dame de Victor Hugo, aos dias de ocupação de
1940, em que não faltaram romancistas, passando pela era napoleónica,
a Restauração, com Balzac, e ao Segundo Império, com Zola. E o Rio, onde
encontrar o livro em que a nossa cidade seja sentida, vivida, interpretada,
revelada na sua essência mais íntima?"
Leu todos os romances do Rio de Janeiro, de Joaquim Manuel de Macedo
e Manuel Antônio de Almeida a José de Alencar e Machado de Assis, de Aluísio
Azevedo e Lima Barreto a Gastão Cruls e Marques Rebelo, de Arnaldo Tabaiá
e Otávio de Faria a Miécio Tati e Carlos Heitor Cony. Passou a reconhecer to­
da a coreografia carioca, física e sentimental. Por isso mesmo, lamentava que o
progresso não apenas do Rio, como o de São Paulo, as duas grandes cidades
brasileiras que ele mais amou, tivesse se processado de um modo tão arbitrário,
atendendo mais à gula dos especuladores imobiliários que ao planejamento dos
urbanistas. Na página de agora, conservando os traços elegantes do cronista,
surge o observador atento aos problemas de psicologia social e geografia huma­
na. Primeiro, fala do contraste, do que se fez em Paris e do que deixou de ser
feito em São Paulo e no Rio de Janeiro: ''A evolução de Paris" - escreveu -,
"apesar do vandalismo estratégico do barão Haussmann, no século passado,
foi feita de modo a preservar o caráter próprio da cidade. Se a abertura dos
boulevards e outras remodelações de Haussmann prejudicaram-lhe a fisiono­
mia urbana, esta não perdeu no que tem de mais característico. Não pudemos
impor a mesma lei às principais capitais do Brasil, como Rio e São Paulo, on­
de o progresso demasiado rápido devia determinar fatalmente a desfiguração
da paisagem primitiva. "
E continua: "Mas o certo é que esse progresso) sobretudo no Rio) tem vio­
lentado muito mais do que seria necessário o caráter da cidade. Nada se res-

l.JM DOM .QtJJ.XOTE DAS .LETRAS �23


peitou até agora. Nenhuma preservação de elementos tradicionais, nenhuma
defesa dos valores históricos da urbe. Já não falamos nas demolições determi­
nadas péla necessidade de alargamento das ruas ou da abertura de novas vias
de acesso; estas são indispensáveis, embora não bastem para resolver o pro­
blema do tráfego; aludimos, sobretudo, às constantes demolições de edifícios
como o do Palace-Hotel, para a construção de mastodontes arquitetônicos de
vinte andares, ao lado dos pardieiros enquistados no coração da urbe. J>. sa­
nha do 'bota-abaixo' não terá limites. Já houve quem propusesse o arrasa­
mento do majestoso prédio da Santa Casa, o qual, disse o escritor americano
Waldo Frank, seria preservado como um tesouro nos Estados Unidos, pois,
ao contrário do que comumente se pensa, os ianques respeitam muito mais
,,
as tradições do que nós.
Por fim, reunindo na mesma crítica todos os que no passado tão impiedo­
samente desfiguraram o velho Rio e até os que hoje pretendem criar um no­
vo Rio, como se o autêntico de nada valesse, Brito Broca adverte: "Ora, essa
fúria demolidora, sem nenhum controle, tem desvirtuado de maneira brutal
a fisionomia urbana do Rio nos últimos quinze anos. Atinge-se no coração a
própria paisagem, a própria natureza. A rênue camada de mito que a cidade,
ao rirmo de um progresso bem mais dirigido, poderia comportar, perde-se
toda. Onde encontrar-se ainda sinais do Rio de Machado de Assis? Do pró­
prio Rio de Lima Barreto já não há traços. Dia a dia se vão escasseando, se
vão diluindo os elementos típicos. O Rio que amei há doze anos atrás, não
reconheço mais no de hoje."
Essa ternura pelo Rio, que foi dele, e que é também minha, não impediu a
Brito Broca, como a mim por igual acontece, de continuar amando a cidade em
que nascemos, a nossa sempre lembrada Guaratinguerá. Na sua obra, numero­
sas são as referências a fatos e personagens locais, o que bem indica que jamais
esqueceu a sua terra. Nem isso é possível, mesmo quando se pretende, num ras­
go patético, cipiônico, renegar o solo pátrio. A vida de todo homem está ligada
de modo inarredável à casa, à rua, à cidade em que nasceu. Com Brito Broca, o
que houve foi a transferência lírica para o seu mundo infanril, que constituía, pa­
ra ele, um dos motivos permanentes de sobrevivência, uma como que volta à ale­
gria de viver. Alexandre Eulália contou-me que, certa tarde, em pleno Instituto
Nacional do Livro, surpreendeu-o a cantar os hinos colegiais do seu tempo de

2 4 � LA" Vida Literdria lJrasil


iio
menino. Sabia todos de cor, na ponta da língua. Esses hinos infantis povoavam
com certeza a sua solidão, como a música de um órgão numa catedral vazia.
A evocação da cidade natal tinha força para operar a metamorfose do mi­
santropo, transformando-o em admirável memorialista, cheio de graça e de
humour, uma nova fonte de vida e comunicabilidade. É que, à maneita
de Proust, realizava-se na procura do tempo perdido. As histórias que conta­
va de Guaratinguetá eram fabulosas. Recompunha todos os casos que ouvira
de meu pai e do Chico Bicudo. Reconstituía as tertúlias da farmácia do
Fagundes. E, quando estava em maré de confidências, o que era raro, expli­
cava minuciosamente o episódio anedótico que motivara o seu exílio, um dos
muitos equívocos da vida sem lances extraordinários de Brito Broca, num pe­
ríodo de lura brava entre as duas facções municipais do finado Partido
Republicano Paulista, que Deus o tenha em sua santa glória. Luta brava que
teve como epílogo as manifestações populares do Dia 50· e da Independência
da Aparecida, que ficaram na minha lembrança de menino, no decênio que
antecedeu a Revolução de 1930. Independência da Aparecida, sim, pois assim
se chamou naquele tempo distante a criação do atual município de Aparecida
do Norte, ao ser desmembrado do de Guaratinguerá.
Esta, porém, seria a parte não escrita das memórias de Brito Broca.
Da parte reunida neste volume há que se lembrar os episódios da passagem
por Guaratinguetá do rei Alberto e do aviador Edu Chaves, as variações em
torno da palavra "endromista", neologismo que é uma criação do gênio inven­
tivo da nossa cidade de Guaratinguerá, além das recordações da avó, dona
Maria Teodora de Brito, ou nhá Marica simplesmente, que insistia em dizer
ao neto: "Minha vida é um romance . . .>'

Em 1960, ofertando-me um exemplar da 2' edição de A vida literdria no

Brasil - 1900, ele me mandava um "abraço afetuoso" (... ) "até as memórias


guaratinguetaenses'>. Conversamos mais de uma vez sobre este livro que pre­
parava com carinho, e já então podia trabalhar com o conforto que jamais ti-

* O chefe locaJ do PRP dissera num discurso que a oposição só venceria as eleições "no dia 50",
isto é, no "Dia de São Nunca". Aconrece que a oposição, presrigiada por Washington Lufs, em
dissídio com os Rodrigues Alves, acabou vencendo uma eleição em Guaratinguetá. E comemo­
rou a vitória numa passeata que passaria à crônica da cidade con1 o non1e de Dia 50.

ÜM DOM QUIXOTE DAS LETRAS� 2 5


vera nos quartos de p ensão e pequenos hotéis em que morara em São Paulo
ou no Ri9 de Janeiro. Sim, porque estava instalado, ((arrumado'', começava a
pôr em ordem a livraria e a papelada que vinha acumulando em mais de trin­
ta anos de dispersiva atividade jornalisrica. Só nos dois ültimos anos de vida
passava a ter condições para realizar, com tranqüilidade e segurança, o traba­
lho a que se devotara, a obra que planejara, sempre interrompida. Tornara-se
redaror do serviço público (graças a José Renato dos Santos Pereira, então di­
retor do Instituto Nacional do Livro), redator do Correio da Manhã (graças a
Alínio de Sales, então direror-gerente do grande jornal). Com o salário de
A Gazeta, vivendo como um simples operário das letras, o dinheiro não lhe
faltaria, nem constituiria problema, para quem se dispunha a arregaçar
as mar.gas e tocar para a frente a construção do edifício apenas parcialmente
levantado com 0 primeiro volume deA vida literdria no Brasil Quanto à pes­
quisa, só faltava, ao que parece, concluir a parte relativa ao período colonial.
Romantismo e naturalismo, tinha por terminado. E estava quase pronto para
o prelo o volumeA vida literdria no Brasil - Época modernista, até hoje não
publicado, mas cujos originais datilografados, em grande parte, encontram-se
em poder de Alexandre Eulálio.
Do legado deixado por Brito Broca, as "memórias guaratinguet aenses"
tinham de ser cuidadas por Homero Sena ou por mim, conterrâneos e com­
panheiros. Aceitei a tarefa, correndo rodos os riscos e vencendo rodas as difi­
culdades que enumerei nas palavras iniciais deste prefácio. Em notas de pé de
página, dou conta de c omo fiz e por que o fiz. As minhas notas são numera­
das, para distinguir das do auror, sempre assinaladas por um asterisco. O livro
recorda a nossa terra e a nossa gente, ª formação do escritor, as suas preocu­
pações, as suas inquietações e os seus lazeres, e tudo isso se resume afinal na
paixão da leitura - o maior, o verdadeiro, o único prazer da vida de Brito
Broca. Não pudera fazer como Proust, mandando forrar de cortiça as paredes
do seu apartamento, para evitar qualquer rumor que viesse de fora. Proust era
rico e Brito Broca nunca teve dinheiro. Mas isso não importa. Cervantes es ­
crevera 0 Dom Qu ixote numa casa de cômodos de Valladolid, por entre "o ba­
rulho, o falatório, a algazarra constante das comadres pelos corredores".
Br i(o Broca morou, durant e rnuito tempo, e ali escreveu a rr1aior parte da
sua obr a, noradarnenreA vida litmíria no Brasil, num pequeno hotel de má

2 6 é::A W Vída Literária nó 1Jrasi!


fama, que por ironia se chamava Hotel Perfeito. Como o personagem cer­
vantino, teria contudo o seu Castelo· do Verde Gabão numa fazenda de
Guaratinguetá, onde se refugiava, de quando em quando, com o seu amigo
Lauro Moreira, para encontrar afinal o maior bem que não conseguira jamais
alcançar no Rio de Janeiro ou em São Paulo: "O silêncio propício à medita­
ção, aos regozijas da vida interior e ao trabalho intelectual."
A Fazenda das Três Barras era o seu Castelo do Verde Gabão. "Bem seme­
lhante" - escreveu - "ao ambiente do solar, onde dom Quixote foi tão ge­
nerosamente recebido, eram os casarões de nossas velhas fazendas, numa das
quais, em dias amáveis, já pude desfrutar o mesmo silêncio que Cervantes
tanto aspirava. Nessas antigas habitações, remanescentes dos nossos costumes
patriarcais, alguns aposentos ficam de tal maneira isolados de outros que,
quando não há muitas pessoas na casa, os ruídos se perdem completamente
e a consciência da solidão pode ser perfeita.''
Nesra mesma evocação, Brito Broca faz o elogio da leitura: "Mas é preciso
acentuar: o encanto não vem apenas do silêncio e da ausência de contatos
humanos; vem, ainda, do delicioso abandono do nosso espírito ao sentir-se
fora do círculo de vulgaridade em que nos enreda nos ambientes urbanos
o convJvio forçado, e muitas vezes co�idiano, de pessoas que nos enfadam e
nos constrangem. A leitura de um livro, o gozo intelectual de suas idéias, não
sof;em af'er{�s �om o ruído dos automóveis e dos bondes a chegar-nos ao ou­
vido, mesmo num décimo andar; sofre, principalmente, com o último imbecil
que nos tolheu o passo na rua e a perspectiva de outros que teremos de atu­
rar, dentro em pouco. Essa esperança, constante e inevitável, de pessoas vir­
tualmente alheias ao nosso espírito, vivendo num plano diverso, em conflito
tácito conosco, parece traduzir-se nos rumores que nos cercam e dela nos sen­
timos livres naquele silêncio tão bem evocado por Cervantes, o silêncio em
que se escancararn as portas do nosso mundo interior."
E mais adiante, como que falando do seu drama íntimo e de todo o ideal
que não pudera alcançar em vida: "Mas não julgo seja absolutamente neces­
sário ao homem estar só para gozar os privilégios da solidão. O enlevo de dom
Quixote na casa do Cavaleiro do Verde Gabão veio, sobretudo, da certeza de
encontrar-se ele entre pessoas inteligentes, capazes de compreendê-lo e respei­
tar-lhe os sonhos. O filho do cavaleiro era poeta e dom Quixote senriu-se ma-

ÜM DOM QUIXOTE DAS LETRAS � 2 7


ravilhado no trato daquele sonhador como ele e daquele fidalgo atencioso, po-
. lido e culto. Uma das bases da compreensão entre os espíritos é o respeito aos
hábitos, aus cacoetes e, por assim dizer, às manias que quase todos n6s pos­
suímos - respeito, mais do que tudo, à necessidade de solidão de cada um.
E isso s6 se dá quando podemos limitar o nosso convívio ao dos temperamen­
tos afins, ao das pessoas com quem sintonizamos.''
Há muito de verdade nessas reflexões, que valem por uma pungente pági­
na autobiográfica de um homem para quem a vida se resumiu na literatura,
seu único ideal. E o rabugento misantropo, o incorruptível Alceste, assim ter­
mina o seu desabafo, através da evocação do Cavaleiro da Triste Figura, e com
o pensamento voltado para a Fazenda das Três Barras: "Dom Quixote deixar­
se-ia ficar de bom grado na casa do Cavaleiro do Verde Gabão, se não o im­
pelisse para adiante, nas suas andanças inelutáveis, um destino de aventuras.''

Rio de Janeiro, 1967

Esta introdução é reproduzida das Memórias de Brito Broca, cujo texto foi organizado e anota­
do por Francisco de Assis Barbosa (N. da E.).

O livro de Brito Broca foi quatro vezes premiado:


PELA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO RIO (Prêmio Paula Brito)
PELA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (Prêmio Sílvio Romero)
PELA SOCIEDADE PAULISTA DE ESCRITORES (Prêmio Fdbio Prado)
PELO PEN-CLUB DO BRASIL (Prêmio Luísa Cldudio de Sousa)

À direita: A capa da 1.a edição.

2 8 � cA Vida Literdria no ,!J:Yasil


BRITO BROCA

A VIDA LITERARIA
NO BRASIL - 1 900

MINISl'ÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

SER VIÇO DE lJOCU.11lENZ'.t!ÇdO


-. J..i& ta à 1" edição

Este livro deyerá constituir o 3º volume de um trabalho que projetei sobre a


vida literária no Brasil. O período colonial e o romantismo constituirão o pri­
meiro; o período naturalista, o segundo; a fase modernista, o quarto. Por mo­
tivos circunstanciais vim a escrever, antecipadamente, o volume que hoje apa­
,
rece como obra autônoma.
Não precisarei insistir na distinção que estabeleço entre vida literária e
literatura. Embora ambas se toquem e se confundam, por vezes, há entre elas
a diferença que vai da literatura estudada em termos de vida social para a lite­
ratura em termos de estilística. Aliás, essa distinção André Billy já fez na série
que dirige na França Histoire de la Vie Littéraire (Tallendier).
Não dispondo de roteiros para obra dessa natureza no Brasil, usei de cerra
arbitrariedade no planejamento e na disposição da matéria. Os franceses limi­
tam geralmente o " 1 900" entre a última década do século passado e a Primeira
Guerra Mundial. Para n6s o " 1 900" caracterizou-se propriamente pela fase de
remodelação do Rio de Janeiro. Daí o presente volume no estudo da vida lite­
rária do Rio, só aludindo incidentalmente à dos outros estados. Estivéssemos
tratando do romantismo, o centro de convergência seria São Paulo e Recife. No
período colonial reríamos de nos ocupar sobretudo de Bahia e Minas.
Depois dessas observações, que não me pareceram inteiramente desneces­
sárias, só tenho a dizer que este livro deve tudo a José Simeão Leal. Não fora
seu estímulo generoso e amigo, eu certamente não o teria escrito. Aqui lhe
deixo minha mais profunda gratidão. Estendo ainda os agradecimentos a
Herman Lima, que num gesto de alta camaradagem forneceu as ilustrações
para o texto; a Fausto Cunha pela revisão atenciosa dos originais; a Heloísa
Ramos e Adalardo Cunha, pelo empenho com que se houveram na revisão ti­
pográfica; a Carlos Ribeiro, Américo Jacobina Lacombe, Alramir Alves da
Silva, Afrânio Coutinho, pelas informações prestadas e a simpatia com que
acompanharam minhas pesquisas na elaboração desta obra.

B.B

3 O � CÁ Vida Literária no B_r4§il


l?'l?{;Jta à 2• edição

Quando publiquei este livro, em 1 9 56, declarando que ele, embora com cará­
ter autônomo, devia fazer parte de uma série de quatro, em que eu preten­
dia historiar a vida literária no Brasil dos tempos coloniais ao modernismo,
tinha em mira só reeditá-lo algum dia, juntamente com os outros volumes,
já então em preparo. Mas uma sorte excepcional o bafejou, levando-o a des­
pertar o maior interesse do público e desfrutar os favores da crítica, além dos
quatro prêmios com que foi contemplado. Esgotando-se rapidamente a edi­
ção, meu velho e querido amigo José Olympio propôs-se a lançar a segunda,
dentro de poucos meses. Mas eu vi logo no livro várias falhas e não me con­
formei em entregá-lo de novo ao público, sem corrigi-las na medida das mi­
nhas possibilidades.
Pedi um pequeno prazo e voltei às pesquisas, ao mesmo tempo que me
valia de sugestões, informes e advertências de vários escritores, amigos e tes­
temunhas da época. Continuava assim mergulhado no rexro, que já me con­
sumira tanto tempo, e movido pelo desejo de melhorá-lo, corria o risco de
multiplicar indefinidamente as alterações e, numa permanente insatisfação,
não preparar tão cedo os originais da segunda edição. Foi preciso pois impor
um estreito limite a esse remanuseio. Na realidade, obras dessa natureza nun­
ca chegam a uma versão definitiva, sendo sempre s�scetíveis de ampliações.
No caso, restringi-me a corrigir alguns erros de datas e de nomes, a enrique­
cer com os elementos que possuía mais à mão a maioria dos capítulos,
sem que isso importasse numa alteração substancial dos mesmos. Somente o
capítulo sobre a Biblioteca Nacional sofreu algum tanto na estrutura, por
uma sugestão inteligente e amiga de Eugênio Gomes, que prontamente aco­
lhi. Nos demais ) os acréscimos não atingiram a configuração primitiva. As­
sirn mesmo, o livro ganhou cerca de trinta páginas, sendo o capítulo XVI
o que teve ampliação mais sensível.
Aos agradecimentos já manifestados aos que me auxiliaram na primeira
edição, devo juntar aqui outros a Vivaldo Coaracy, Cruz Filho, Jaime Adour
da Câmara, Andrade Muricy, Agrippino Grieco, Gastão Cruls, Alexandre
Eulália, que me valeram nesta, com preciosas contribu ições. Razões de or­
dem técnica irnpediram o livro desta vez de trazer ilustrações; entretanto,

N O TA f::;:;A 3 l
vem ele enriquecido de um índice onomástico, que tanta falta lhe fizera.
E José Olympio me prometeu uma edição ilustrada, quando puder apresen­
tar, de m{ia só vez, todos os volumes: a série completa. Deles posso dizer que
o quarto, intitulado A época modernista, já vai bem adiantado, devendo ficar
pronto ainda este ano, para ser também publicado separadamente.

B. B.
Rio, abril de 1959

3 2 � u1 Vida Literária ti0'1.Brasil


LA Vida JJ,terdria no <Brasil
1900
li <Z> C
AP ÍT uLo I

u1euforia do "1900" � 1{g tempo do "bota-abaixo"� O alvião do pre­


feito Passos � c5'V!undanismo e vida literdria � "O Rio civiliza-se" �
u1 'era do automóvel"� u1ntagonismo entre o subúrbio e o centro urbano

� primeira década do século XX foi para o mundo ocidental um


�'\ período de euforia de que a civilização brasileira participou vi­
vamenre. Abafada à custa de muito sangue e muito sacrifício a
__ revolta de Canudos, compleramenre desarticulados os focos
monárquicos e extintos os últimos pruridos do florianismo, o país entrava nu­
ma fase de relativa calma e prosperidade. Campos Sales saneava as finanças
preparando o terreno para o grande programa de realizações do governo
Rodrigues Alves. Oswaldo Cruz inicia a campanha pela extinção da febre
amarela e o prefeito Pereira Passos vai tornar-se o barão Haussmann do Rio
de Janeiro, modernizando a velha cidade colonial de ruas estreitas e tortuosas.
Com uma diferença: Haussmann remodelou Paris tendo em vista objetivos
político-militares, dando aos bulevares um traçado estratégico, a fim de evitar
as barricadas das revoluções liberais de 1 830 e 1 848; enquanto o plano de
Pereira Passos se orienrava pelos fins exclusivamente progressistas de empres­
tar ao Rio uma fisionomia parisiense, um aspecto de cidade européia. Foi o
período do "bota-abaixo". 1 O alvião da prefeitura caiu implacável sobre deze-

1 . Ver nota nil 1 em Apêndice II.

'�
::1.& CAPÍTULO I � 3 5
nas, centenas de prédios. A 7 de setembro de 1904, o presidente da República
e outras .autoridades, num bonde sobre trilhos improvisados, já podiam per­
correr a avenida Central de ponta a ponta. O plano de urbanização prosseguia
triunfante, desconcertando os céticos, os pessimistas que tinham julgado im­
possível o êxito da empresa. E a transformação da paisagem urbana se ia refle­
tindo na paisagem social e igualmente no quadro de nossa vida literária.
A frase já tão ridicularizada de Afrânio Peixoto, de que "a literatura é o sor­
riso da sociedade)', apesar do seu tom melífluo, não será inteiramente errônea
se tomarmos literatura no caso por vida literária. 2
Com alguma razão, poderia ele dizer que a "vida literária é o sorriso da so­
ciedade", ou antes que a literatura em termos de vida social se intensifica, na
medida em que há prosperidade, paz e harmonia no ambiente. A Revolta da
Armada e a Reação Florianista em 1893 desarticularam completamente a vida
literária do Rio. Retornando a calma, ela começa a se recompor. No governo
Rodrigues Alves, encontramo-la em pleno fastígio. Para criar um quadro social
adequado à modernização da cidade - e contribuir, talvez, para que esta fos­
se mais bem aceita pelos refratários -, o próprio prefeito Pereira Passos pro­
curava incentivar os espetáculos mundanos. Assim, promove ele batalhas de
flores no Campo de Santana, a exemplo do que se fazia nas capitais européias.
A primeira não chega a atrair o público; mas a segunda obtém pleno êxito;
instituem-se prêmios, ornamenta-se o parque, e o presidente Rodrigues Alves
comparece escoltado por um piquete de alunos da Escola Militar. Embora
a crônica da época diga que, na realidade, não houve batalha, a festa dá um be­
lo saldo de mais de dezessete contos, distribuídos por associações de caridade.

2. É geralmente na bonança que o escritor, o artista, colhe os frutos da tempestade. Em artigo


publicado no jornal do Brasil em 19-10-1891, José Veríssimo escrevia: "A vida literária no Brasil
se, por motivos de fácil explicação, não foi jamais intensa, nunca também foi tão apagada como
no presente momento. A literatura, ao menos no Brasil, parece fugir às épocas agitadas e ser
avessa aos períodos de excitação política. A época mais rica e mais gloriosa da nossa, o roman­
tismo, sobretudo o seu primeiro período, certo é alentado pelo entusiasmo das idéias e senti­
mentos políticos da geração que fez a Independência e o Império. Entretanto não é no próprio
meio e momento da agitação donde saiu, esperançosa e cheia de viço, a nova nacionalidade,
que ele surge e se desenvolve, senão quando, constituída, entre ela tranqüilamente na posse de
si mesma. O segundo período do romantismo passa-se igualinente em urna era desagirada, ape�
nas mais profundamente alvoroçada por um faro externo, a Guerra do Paraguai."

,,

36 � (../[ Vida Literdria ;�''Brasil


Essa febre de mundanismo que o Rio começa a viver, reflete-se nas relações
literárias. As seções mundanas dos jornais ocupam-se, ao mesmo tempo, de li­
teratura. Figueiredo Pimentel, autor do célebre slogan "O Rio civiliza-se", na
discuridíssima coluna do "Binóculo" na Gazeta de Notícias- cujas edições do­
minicais, com páginas coloridas, eram magníficas -, faz comentários sobre o
último baile, a última recepção, entrelaçando-os com a notícia de uma confe­
rência ou de um livro de versos. E o corso em Botafogo, de que ele foi o prin­
cipal animador, torna-se até certo ponto um espetáculo literário. Os escritores
vão ali colher os potins, tecer as intrigas. Ação idêntica exerce João do Rio, pri­
meiro no "Cinematógrafo", na Gazeta de Notícias, mais tarde no "Pall-Mall­
Rio", n'O País, pura imitação dos "Pall-Mall", de Michel-Georges-Michel,
o cronista elegante de Deauville e da Côte d'Azur. Para atrair o público, a lite­
ratura procura valer-se da fotografia, das ilustrações, identificando-se tanto
quanto possível com os motivos sociais e mundanos, nas revistas da época.
O velho bibliófilo Martins costumava dizer a Capistrano de Abreu que o
gosto pela leitura, no Rio, havia desaparecido de 1 870 em diante, com as cor­
ridas de cavalos. Que conclusões tiraria esse remanescente da idade de ouro do
Império, ao ver, na década de 1900, a literatura de braços dados com aquilo
que sempre fora considerado a sua pior inimiga: a vida mundana?
José do Patrocínio, a sonhar com meios rápidos de locomoção e tentando
debalde fazer subir ao céu um aeróstato, foi o primeiro a trazer da Europa o au­
tomóvel. Todo mundo correu espantado para contemplar aquela máquina dia­
bólica, de que se desprendia muita fumaça e um cheiro insuportável de gasoli­
na. Parecia um "bicho de Marte", a passear pela Terra. Dentro de alguns dias,
como o jornalista e alguns amigos quisessem exigir uma velocidade demasiada
do monstro - três quilômetros por hora -, levaram-no de encontro às árvo­
res da rua da Passagem que o deixaram completamente inutilizado. Na versão
de Luís Edmundo, teria sido Bilac, quando aprendia com Patrocínio a guiar a
máquina, o causador dessa façanha, motivo por que se julgava o poeta o pre­
cursor dos desastres de automóvel no Brasil. Logo depois, eram desembarcados
os carros de Guerra Duval e do capitão Cardia; e o novo veículo ia aos poucos
se incorporando à vida da cidade, concorrendo para realçar-lhe os contornos
da fisionomia urbana. O Rio civilizava-se. "( . . . ) Subitamente, é a era do Auto­
móvel" - exclama João do Rio, escrevendo com maiúscula o nome do veícu-

CAPÍTULO 1 é::A 3 7
lo infernal. "Para que a era se firmasse" - explica ele - "fora precisa a trans­
figuração da cidade. E a transfiguração se fez, como nas feéricas fulgurantes, ao
tantã de Satanás. Ruas arrasaram-se, avenidas surgiram, os impostos aduanei­
ros caíram, e triunfal e desabrido o automóvel entrou, arrastando desvairada­
mente uma catadupa de automóveis. Agora, vivemos positivamente nos mo­
mentos em que o chofer é rei, é sóberano, é tirano.>'
A Fon-Fon, revista da época, falava em nosso "meridionalismo exagerado",
no "esquisito feitio de supercivilizados", em que nos tínhamos ajeitado desde
que o "sr. Passos" nos tinha dado a avenida. O estilo art nouveau, também en­
viado pela França com os livros e as revistas, predominava nas armações, nos
lustres e nas decorações das confeitarias e dos cafés. Eram os "clássicos)', os in­
falíveis espelhos a que se refere Luís Edmundo, "diante dos quais os elegantes
da época alinhavam os plastrons das gravatas e corrigiam a posição das lustro­
sas cartolas". 3
Os escritores superestimavam essa modernização da cidade, atribuindo ao
Rio, em contos, romances e crônicas, ambientes e tipos que na realidade aqui
não existiam. E os requintes de civilização, prevalecendo na parte urbana da
metrópole, iam fazendo naturalmente com que os velhos costumes recuassem
para a zona suburbana. Começaria a acentuar-se um certo antagonismo entre
a "cidade", os bairros aristocráticos, de gente fina, dos supercivilizados, e o su­
b úrbio com sua pequena burguesia, de costumes simples - antagonismo de
que a obra de Lima Barreto constituiria uma admirável ilustração.
Já em 1 6 de abril de 1902, antes do governo Rodrigues Alves, um pequeno
jornal, intitulado Progresso Suburbano, pintava a vida nos subúrbios como uma
pastoral - "mais tranqüila, mais suave e talvez mais amorosa, poética e doira­
dà' - em face da vida da cidade, "incômodos, empurrões, furtos e desgostos)).
Mas eram esses incômodos, esses empurrões e esses furtos, que a "grande
literaturà1 reclamava como elementos imprescindíveis do Rio parisiense, do
Rio civilizado de Figueiredo Pimentel.

3. Luís Edmundo. O Rio de Janeiro do meu tempo, vol. 2, pág. 517, Imprensa Nacional, Rio,
1938.

3 8 é:::A IJÍ Vida Literária n'O 1':3rasil


CA ÍT l l
li iZt
P UL O

L/Ídecadência da boêmia ;,q 1Ja rua do Ouvidor à avenida Central ;,q


Influência da Academia Brasileira de Letras ;,q O drama de José do
Patrocínio ;,q <Á esterilidade literdria de Aluísio Azevedo

or volta de 1 900, as principais figuras da chamada geração boêmia


de 1 889 já se haviam aburguesado. Aluísio Azevedo, desde 1 89 6

""
que conseguira entrar para a carreira consular) abandonando pra­
( ricamente a literatura; Coelho Neto, casado, com filhos, entregue
a uma produção metódica e regular, rornara-se o antípoda do boêmio. E é de
Olavo Bilac, num "Curso de poesia'', em 1 904 (ver a revista I<osmos), o elo­
qüente protesto contra o costume de considerar-se o poeta um ser estranho na
criação, um homem à parre na sociedade. la longe a época - dizia ele em
que o poeta se julgava na obrigação de trazer melenas; agora não passava de
um homem como os outros, seguindo os trâmites normais da existência. A ge­
ração nova de então surgia nesse clima diferente, em que já não se compreen­
dia a atitude do artista morrendo de fome, do escritor sacrificando tudo pelo
ideal literário e fazendo uma própria vitória do seu desaj ustamento no am­
biente social. Mesmo os simbolistas, com todo o desapego ao utilitarismo,
com um ódio inalienável à burguesia, já haviam dado provas de que não se po­
de ignorar as contingências da vida marerial. Enquanto Coelho Neto declara­
va a João do Rio, no Mornento Literário: ''Ah! meu amigo, o artista não é o zoi­
lo das confeitarias à cata de jantar.»

CAPÍTULO I I /:;;;:::::=r 3 9
Dois fatores, porém, concorreram sensivelmente para a decadência da boê­
mia: o desenvolvimento e a remodelação da cidade e a fundação da Academia
Brasileira; em 1896. O Rio começou a perder o carárer semiprovinciano de
velha urbe, com a vida centralizada numa pequena área, onde todos se encon­
travam e todos se conheciam. A abertura da avenida Central veio deslocar, em
parte, os pequenos grupos que se formavam, à tarde, em diferentes pontos da
rua do Ouvidor; e o sistema de expedientes em que repousa a subsistência dos
chamados boêmios sofria com isso um grande golpe. Era a dispersão dificul­
tando as "facadas", o jantar "filado" e outras tantas estratégias cotidianas de
que viviam os Rocha Alazão e os Raul Braga. Mas também a popularidade
deles se desgastava com o crescimento da cidade. A cotação de um tipo popular
é tanto maior quanto menor o meio em que ele vive. Nas amplas perspectivas
da avenida Central os boêmios inveterados já não desfrutavam o prestígio
que os cercava nos estreitos limites da rua do Ouvidor.
Por outro lado, é impossível negar certa influência da Acadernia Brasileira
no crescente aburguesamento do escritor, entre nós, na primeira década do sé­
culo XX. Sob o signo de Machado de Assis, a prova de compostura se tornara
imprescindível para a admissão no novo grêmio, que desde o início se revesti­
ra de uma dignidade oficial incompatível com os desmandos da boêmia. De
onde a reação de um dos boêmios mais típicos: Paula Nei. Vendo-se excluído
do número dos quarenta imo rtais fundadores da Academia, lançou as bases
de uma Academia Livre de Letras, em que colocou alguns boêmios, como
B. Lopes, Emílio de Meneses, Dermeval da Fonseca, mas também alguns ho­
mens sérios, como Érico Coelho, que protestou logo, dizendo não fazer parte
da referida sociedade. O propósito de Paula Nei era hostilizar o grupo de
Machado de Assis, tanto assim que publicara uma notícia dizendo não terem
sido aceitos na novel Academia, por não haverem reunido o número de sufrá­
gios suficientes, os srs. Lúcio de Mendonça, Oliveira Lima, Rodrigo Otávio,
Graça Aranha. No entanto, desdenhando e ridicularizando a casa de Machado
de Assis1 rnuitos boêrnios não tiveram a superioridade precisa para voltar as
costas e ignorá-la: foi o que aconteceu com B. Lopes, Lima Barreto e Emílio
de Meneses, que acabaram indo bater-lhe às portas. Os dois primeiros, vendo
a ínu(ilidade da ten[ativa e sentindo, principalrnente, a i1npossibilidade de ab­
dicar das condições de vida que os incornpatibilizavam corn a Academia, be1n

4 o bA L/Í Vida Literária no;JJrasil


depressa desistiram. Em carta a Monteiro Lobato, Lima Barreto explicava
o insucesso: "Sei bem que não dou para a Academia e a reputação de minha
vida urbana não se coaduna com a sua respeitabilidade. De modo próprio, até
deixei de freqüentar casas de mais ou menos cerimônia - como é que podia
pretender a Academia? Decerto não ... "

Emílio de Meneses, porém, não desistiu e, depois de vários fracassos, con­


seguiu ser eleito para a vaga de Salvador de Mendonça, a 1 5 de agosto de 19 14.
Já então havia falecido Machado de Assis, que sempre se opusera às pretensões
('acadêmicas' ) do popularíssimo boêmio. Não será demais lembrar, a propósi­
to, o episódio já muito citado e que encontramos em Minhas memórias dos
outros, de Rodrigo Otávio: "Machado entendia, e não cessava de o dizer, que
a Acadernia devia ser, também, uma casa de boa companhia; e o critério das
boas maneiras, da absoluta respeitabilidade pessoal não podia, para ele, ser
abstraido dos requisitos essenciais para que ali se pudesse entrar. Por esse
te1npo, alguns de nossos colegas andavam procurando criar no ânimo de
Machado uma ambiência favorável à aceitação da candidatura de certo poeta,
de notório talento, mas de ternpera1nento desabusado e assinalado sucesso em
rodas de boêmios ... Nesse dia, o nome do poeta veio à tona; a controvérsia fo­
ra acalorada. Machado não interveio nela; conservou-se calado; mas, quando
o levávamos para o bonde, na avenida, ao chegar ao canto da rua da Assem­
bléia, ele nos convidou a que seguíssemos por essa rua, e, a dois passos, nos
fez entrar em uma cervejaria, quase deserta nesse momento. Não sabendo de
todo o que aquilo significava, nós o acompanhamos sem dizer palavra, e vi­
mo-lo deter-se no meio da sala, entre mesinhas e cadeiras de ferro, e, também
sem dizer palavra, estender o braço, mostrando ao alto de uma parede um qua­
dro, a cores vivas, em que, meio retrato, meio caricatura, era representado em
busto, quase do tamanho natural, grandes bigodes retorcidos, cabelo revolto
na testa, carão vermelho e bochechudo, o poeta, cuja entrada no seio da imor­
talidade se pleiteava, sugestivamente empunhando, qual novo Gambrinus,
um form idável vaso de cerveja ... A cena causou em todos profunda impressão
e, tal era o respeito havido por Machado que, em vida dele, não se falou mais
na candidatura de Ernílio de Meneses . . . )) 1

1 . Rodrigo Otávío, Minhas rnernórias dos outros (Nova Série), José Olyn1pio, Rio, 1 935.

CAP ÍTULO I I � 41
Segundo Medeiros e Albuquerque, a Academia já havia tido um membro
sem compostura: Pedro Rabelo. Não se sabe como Machado o tolerou; sen­
do curiosa"" a coincidência de se tratar de um escritor que se especializava
em pastichar, com habilidade extraordinária, o romancista de Brds Cubas.
Mas Emílio de Meneses acabou eleito por medo - informa-nos Medeiros.
Muitos acadêmicos receavam as sátiras do poeta ) que faziam todo mundo rir
e eram "modelos de perversidade". Eleito, Emílio preparou um discurso
d e recepção, em que ao invés de estudar a obra do antecesso r, como era de
praxe, se punha a falar de si mesmo, defendendo-se das acusações de boêmia
e agredindo ferozmente alguns acadêmicos que lhe haviam combatido a can­
didatura. Submetido à censura da Academia, o discurso teve vários trechos
impugnados pelo enrão presidente Medeiros e Albuquerque. Emílio fez-lhe
saber que cortaria tudo, mas quando fosse ler o discurso, incluiria o que
fora censurado. Medeiros mandou preveni-lo de que, se fizesse, ele, como
presidente, levantaria a sessão e daria ordem ao contínuo para rnergulhar
o salão em semi-obscuridade. O escândalo foi evitado porque Emílio morreu
antes do dia da posse. Mas o discurso, publicado na Revista da Academia
Brasileira de Letras (número de dezembro de 1 926), com os corres impostos
pela censura acadêmica, justifica o que Coelho Neto teria observado a
Medeiros e Albuquerque , quando acabou de ouvi-lo: "E dizer que isso é 0
discurso de um homem de espírito!''
A principal preocupação de Emílio de Meneses foi defender-se da pecha de
boêmio, renegando, na verdade, aquilo que havia sido o principal motivo
de sua popularidade. "Boêmio e desregrado ... " - exclama em cerra altura -,
"boêmio e desregrado porque nos momentos decisivos faz o que qualquer ho­
mem medianamenre digno tem obrigação de fazer. Boêmio e desregrado que
nunca foi visto em espelun cas. Boêmio e desregrado que com mais de trinta
anos de residência no Rio não sabe o que seja um desses celebrizados bailes
carnavalescos, onde o mulherio2 se excita de jogo e condimenta de álcool.
Boêmio e desregrado, por fazer a sua hora3 à mesa de um café ou de uma con­
feitaria, trocando idéia, dizendo ou ouvindo versos e frases de espírito, como

2. "Mcrcrrício elcg<intc" foi substituído pela censura <1c<1dê1nica por "rnulhcrio".


3. " . . . porque gosta de fà.zer" ficou reduzido a "por fazer".

4 2 � e.A VidtZ Literária no Bfizsil


faziam e fazem ainda alguns dos que muito brilho emprestaram e emprestam
às cadeiras que entre vós ocupam ... "
Era uma retratação em regra, embora o poeta acabasse confessando que
nessas "confabulações literárias)) inocentes entrava certa dose de uísque. Mas o
lamenrável é que protestando conrra a condição de boêmio, num discurso de
absoluta chatice, em que empregava termos de gíria policial, como pivete, e
roda sorte de expressões deselegantes ao atacar os inimigos, vinha testemunhar
justamente a falta de compostura que lhe atribuíam.
De qualquer forma, havia no discurso uma profissão de fé anriboêmia.
E estamos certos de que, no fundo, um Lima Barreto desejaria, também, for­
mular o mesmo protesto, pois seu desejo seria igualmente renunciar à vida
desregrada, trocando-a pela dignidade acadêmica. O autor do Triste fim de
Policarpo Quaresma deixou-se influenciar pelas sugestões de uma tradição que
se perdia. O seu tipo de desajustado, vindo postar-se nas esquinas da avenida,
sujo e bêbado, refletia os extremos de um não-conformismo já démodé. Homem
metódico, trabalhador, sério, sem possuir uma verdadeira índole boêmia,
descambou nos desmandos boêmios por uma espécie de equívoco. Não viu
outra saída para a revolta que o torturava senão no terno roto e na dipsoma­
nia à Verlaine, quando a época já não co1nportava tais excessos, oferecendo
novas possibilidades de adaptação aos escritores.
Quanto a B. Lopes, a 1 9 de setembro de 1 9 1 6, um dia depois do seu
falecimento, dava O País a notícia nos seguintes termos: ( ... ) O Brasil, país
"

imenso e novo, precisa progredir. Cada cidadão, pois, deve organizar sua vida
dentro de normas utilitárias e práticas. O poeta boêmio é assim um tipo que
aqui não pode mais existir. O último deles foi decerto esse pobre B. Lopes,
onrem colhido pela morte." Sim, findara a época da boêmia, mas não passara
ainda a dos últimos boêmios, que se constituíam em pequenos núcleos até
mesmo depois da guerra de 1 9 14.

Como expressão dessa fase final da boêmia, assistimos ao drama pungen­


te da decadência de José do Patrocínio. O homem que havia empolgado o Rio
de Janeiro com seus discursos returnbantes, seus artigos inflamados, não pas-

CAPÍTULO l i &::::'9 4 3
sava agora de uma sombra de si mesmo. Remontemos, num golpe de vista, às
origens desse drama.
A campanha abolicionista se fizera ainda sob o signo do romantismo, ani­
mada muito mais pelo coração de que pela razão; e Patrocínio era o tipo do ins­
tintivo, do temperamental, do orador romântico das barricadas liberais, ade­
quado à situação. O movimento assemelhara-se a uma vaga sentimental que
viesse crescendo, encrespando-se, superando rodos os obstáculos, onda avassa­
ladora cujo bramido se exprimia, principalmente, na voz do tribuno negro.
A índole boêmia e desregrada de Patrocínio se ajustava a essa atmosfera de lu­
ta, passando a ser vista como parte integrante do ardor com que se lançava na
refrega. O 13 de maio trouxe a vitória. Nunca, no Rio de Janeiro, um homem
teria sido aclamado como Patrocínio. O povo delirava em torno dele, numa
efusão tamanha, que depois da semana comemorativa da Lei Áurea lhe foi ne­
cessário procurar repouso numa cidade do interior. Na noite de 13 de maio,
quando os foguetes espocavam em rneio das lu1ninárias da cidade ern festas, al­
guérn teria dito ao herói: "Que belo dia para rnorreres, Patrocínio!"
Vitoriosa a campanha, Patrocínio, que não morreu, pois não bastarn fra­
ses românticas para decidir um destino, tornou-se um herói em disponibili­
dade. Essencialmente temperamental, precisava aplicar o instinto de lura nu­
n1a outra causa qualquer. E a causa que se oferecia agora à fibra do lidador era
a da República. Patrocínio adere à República, alegando que nunca tivera vo­
cação monárquica. Dois anos depois do 1 5 de Novembro, Floriano o depor­
tava, juntamente com outros insubordinados, para Cacuí, nos confins da
Amazônia. De lá regressando doente, Patrocínio procura debalde reaj ustar-se
num clima de lura; defende apaixonadamente Prudente de Morais, o restau­
rador da ordem civil, a quem passaria a chamar de "santo varão". E continua
a proferir discursos no esforço inútil de transrnitir as sugestões de outrora.
Não mais consegue retomar o facho que caíra por terra; e no começo do sé­
culo acentua-se a decadência do herói.
Passara o quarriênio agitado de Prudente de Morais, a República consolida­
ra-se, iniciava-se um período de prosperidade, que se prolongaria pelos gover­
nos de Rodrigues Alves e Afünso Pena. O ro1nantisrno pertencia a um passado
distante, os cosrurnes rnodificavam-se ern todo o sentido, a boêmia declinava, o
jornalismo transfórrnava�se atendendo às novas solicitações do público.

4 4 � L/Í Vida Literária no ,J}rasil


-

Não encontrando mais ernprego para o élan romântico, a índole combativa,


Patrocínio continuava o mesmo Zé do Pato, boêmio irregular a se deixar ficares­
quecido pelas mesas de café, nas rodinha; dos amigos, em torno dos cálices de
vermute, a contrair dívidas, como a esperar um milagre da força instintiva de sua
desbordante personalidade. Os desregramentos que outrora se anulavam na eclo­
são dessa força começavam a destacar-se, aos olhos de todos, como vícios e fra­
quezas nos contornos mais triviais. No dia 13 de maio, quando o grande homem
era carregado em triunfo pelas ruas, trazia no bolso a conrrafé da penhora que de­
via atingir o material da Cidade do Rio. Não lhe faltou quem lhe fosse em auxí­
lio: o capitalista Manuel José da Fonseca, que generosamente lhe pagou a dívida.
Assim se resolviam suas aperturas, no momento em que a glória o bafejava.
Agora, desencantado o herói, restava o boêrnio entregue aos próprios recursos.
E não hesitava em defender qualquer opinião, em valer-se de toda sorte de expe­
diente para viver, porque era preciso viver; esse homem virtualmente morto ti­
nha, corno todo mundo, necessidade de comer, vestir-se, sustentar a farnília.
A Cidade do Rio, jornal que ele fundara e em que fizera a parte mais aguda
da campanha abolicionista, de cujas sacadas se habituara a discursar, já não in­
teressa ao público. E tudo vai à matroca. Os redatores recebem, às vezes, algum
dinheiro por meio de vales, enquanto o diretor continua a aumentar-lhes os or­
denados hipotéticos e imaginários. Em 1 900, a folha se acha instalada à rua do
Sacramento, 8, onde Patrocínio arrendara o material de urna empresa tipográfi­
ca meio arruinada e dois pavimentos do prédio. O triste espetáculo da decadên­
cia do homem reflete-se no jornal. Um dia, os redatores encontram o prédio fe­
chado: por falta de pagamento, o proprietário pusera-lhe as trancas nas portas.
Ninguém sabe onde anda Patrocínio no momento. A folha está na iminência de
não sair nessa tarde. Mas Vivaldo Coaracy, um dos redatores - de quem colho
estas informações -, consegue de Gaetano Segreto uma velha oficina abando­
nada, na rua Uruguaiana, tremendo ninho de pulgas, onde improvisavam, aos
trances e barrancos, um núrnero pavorosamente mal impresso da Cidade do Rio.
Dali, passa o jornal a ser feito na tipografia do Didrio, de Vítor da Silveira,
à rua do Rosário, e ante essas mudanças de local, que não iam sem um certo
pitoresco, surge logo a piada: já não se tratava da Cidade do Rio e sim da
'1Cidade Errante') . A situação piora cada vez rnais. Apesar da sirnpatia que
Patrocínio sabia despertar nos redatores, não podiam eles suportar por muito

CA P Í T U L O 1 1 �45
tempo a contingência de trabalhar quase sem remuneração, na vaga esperan­
ça do dia em que seu José tivesse dinheiro. Um a um, vão abandonando o jor­
nal perm;necendo apenas, numa resistência dramática, os mais fiéis, como
Henrique Câncio e Batista Júnior. E ali, na rua do Rosário, a Cidade do Rio
vem, finalmente, a ''morree'.4
Mas, antes disso, Patrocínio Já encontrara derivativo para a vocação herói­
ca, numa derradeira batalha. Quando ia mais ardente a campanha abolicionis­
ta, revelara ele aos amigos a idéia que de há muito trazia em mente: construir
um balão, um balão dirigível, como ainda não se conhecia, e que seria a maior
conquista do século XX.5 Voltava agora, nos dias amargos da decadência, pa­
ra o velho sonho, a ele se entregando de corpo e alma. Ah! Duvidavam do seu
gênio? Pois haviam de ver. Subiria ao céu no prodigioso invento e pairando
sobre a multidão deslumbrada recuperaria a auréola perdida do herói; o povo
iria carregá-lo em triunfo, ainda uma vez, como outrora. Os planos já lhe fer­
viam no cérebro; pensava em ganhar muito dinheiro, pagar todas as dívidas e
fundar outro jornal com largo programa patriótico e construtivo.
Retirado numa espécie de hangar na solidão de lnhaúma, empenha-se
febrilmente na construção da aeronave, que reria o nome de Santa Cruz.
Muitos amigos se interessaram pelo invento, procurando obter o apoio de ai-

4. Vivaldo Coaracy, Couves da minha horta, José Olyinpio, Rio, 1949.


5 . Em A conquista, de Coelho Neto, lemos:
"Foi em uma dessas palestras que Pauocínio revelou o seu grande segredo: tinha resolvido o
problema da direção dos balões.
- Já sei que vocês vão sair daqui comentando as minhas palavras com pilhéria. Pois, meus ami­
gos, é a verdade: tenho o segredo de Dédalo.
- As asas de cera.
- Perdão, não ria. Falo sério e vocês não têm o direito de duvidar de minhas palavras, porque
ainda não dei provas de loucura ou de imbecilidade.
- Então vai tudo agora pelos ares?
Patrocínio não respondeu a Anselmo e continuou:
1'enho estudado a questão com empenho e posso exclamar: Eureka1 Trabalho lentamente,
porque aqui no Rio de Janeiro não há um f11ndidor que execute um molde perfeito. Dá-se-lhe
um desenho e o bruto faz coisa inteiramente diversa. E a gente que se len1bre de protestar. Vocês
sorriem? Pois sim . . . Eu hei de rir !á de cin1a, quando, depois de rneu banho frio e de u1n cálice
de conhaque, sair daqui no rneu balão, às seis da rnanhã, para a!n1oçar às onze crn Lisboa."
(Págs. 401-402, 4• cd., Livraria Chardron, Porto, 1928.)

4 6 � e.A Vida Literária rr(i�Brasil


guns políticos, como Nilo Peçanha, Germano Hasslocher e Barbosa Lima.
O primeiro chegou a apresentar um projeto concedendo-lhe uma subven­
ção. Parece que Patrocínio conseguiu até levar o presidente Campos Sales a
Inhaúma para ver de perto o arcabouço do aparelho.
Mas o tempo foi passando e o Santa Cruz não se concretizava em realida­
de; o balão não subia. Começam as troças pelas mesas de café. Patrocínio é
acusado de servir-se do pretexto do balão para obter dinheiro. Enquanto isso,
a doença, fruto naturalmente de muitos anos de vida desregrada, ganha terre­
no no seu corpo prematuramente arruinado. Não tardam os dias de penúria.
Enferm o, esquecido pelos amigos, os companheiros de noitadas boêmias, só
dispõe agora de um recurso para viver: a colaboração semanal em A Notícia.
E há ocasiões em que o seu estado de saúde agravando-se não lhe permite es­
crever o artigo em tempo; é então o Zeca (Patrocínio Filho) quem o escreve e
o leva ao jornal, dizendo que o pai o ditara por não poder manejar a pena.
Não se sabe se o Rochinha, diretor d'A Notícia, acreditava ou não na menti­
ra. Exímio pasticheur, tendo extraordinária facilidade em imitar o estilo alheio,
o Zeca com grande facilidade podia simular o do pai.
Naquele dia, porém, Patrocínio, apesar de sentir-se muito mal, insistiu em
escrever o folhetim. Abordaria três temas: a figura do caricaturista Rafael
Bordalo Pinheiro que acabava de falecer, a Sociedade Protetora dos Animais e
a agressão armada de que fora vítima o bispo do Rio Grande do Sul. Na quin­
ta tira o papel escapou-lhe das mãos e foi obrigado a interromper: interrom­
peu para morrer.6
Morto o herói, o governo encarregou um engenheiro de dar parecer so­
bre a aeronave, cuja construção ficara inacabada e o técnico decidiu pelo ne­
nhum valor do invenro. A carcaça do Santa Cruz foi vendida em leilão co­
mo ferro-velho.

Implicitamente ligada a esse fim da boêmia, não deixando de encerrar,


também, algo de dramático, foi a esterilidade literária de Aluísio Azevedo,

6. Ernesto Sena, "José do Patrocínio'', in Kosmos, fevereiro, 1905.


que, entrando para a carreira consular, p6de conseguir a situação de seguran­
ça econ6!1)ica pela qual tanto ansiara.
A 25 de novembro de 1884, endereçara ele uma carta aflitiva a Afonso
Celso, seu confrade de letras e deputado prestigioso, pedindo-lhe um empre­
go público, como um náufrago em busca da tábua de salvação. "Seja lá o que
for" diz o romancista -, "tudo serve, contanto que não tenha de fabricar
'Mistérios da Tijucà e possa escrever 'Casas de pensão'." O almejado emprego
não veio e Aluísio se viu obrigado a renunciar definitivamente ao projeto de
uma obra cíclica, retratando a sociedade brasileira, à semelhança dos "Rougon
Macquart", da qual O cortiço e a Casa de pensão foram suas únicas realizações.
Afinal, proclamada a República, o escritor presta um concurso para a car­
reira consular e em 1896 é nomeado vice-cônsul em Vigo. Estaria, agora, em
condições de entregar-se de corpo e alma à atividade literária, não mais pro­
duzindo novelas romanescas, ao gosto do grande público, e sim as obras que
arquitetara, com sentido essencialmente artístico, nos moldes do naturalismo
zolesco. Fazer no ficcionismo brasileiro o que Perez Galdós fizera na Espanha
e Eça de Queirós em Portugal.
O cargo não era porém uma sinecura. A crescente emigração de habitan­
tes da Galiza para o Brasil sobrecarregava de serviços o consulado de Vigo, e
Aluísio parecia ter a índole de um funcionário dedicado e zeloso. Contudo,
sempre lhe sobraria tempo, uma vez que já não precisava consumir as energias
na produção por atacado de romances-folhetins. As primeiras cartas de Vigo,
endereçadas ao amigo Pedro Freire, mostram o Aluísio preocupado com cer­
to adiantamento necessário à instalação do consulado e à solvência de com­
promissos exigidos pelo início de "uma nova vidà' na cidade espanhola. O es­
critor reclama, invoca os bons ofícios do amigo, queixa-se, lastima-se com um
amargor talvez excessivo para quem vinha, afinal de contas, de uma existência
precária e conseguira as garantias de um emprego público.
Da obra cíclica, nem mais uma palavra. Nenhuma alusão ao futuro ro­
tnance (o último, o Livro de uma sogra, publicara-o no ano anterior), nenhum
projeto, coisa pouco compreensível nurn homem que não fizera outra coisa,
até então, senão escrever. Enquanto isso, o que se nota no romancista é urna
ponta crescente de neurastenia na maneira de ver e ju!gar o que terr1 ern vol­
ta de si. Corno se explica, num intelectual tamanho tédio, tamanha aversão ao

48 /;:;:A <Á Vida Literária no-·"Brasi!


ambiente espanhol? "Deixa que te digà' - escreve a Pedro Freire, a 24 de ju­
nho de 1 896 - "que a tal Espanha salerosa de que falas s6 perdura na imagi­
nação dos que sonharam com Byron e outros encantadores mentirosos." E por
aí vai numa agressividade incrível, injusto para com a terra e o povo. Não che­
ga a amenizar o mau e o feio) nem mesmo pelo traço pitoresco. "Bestializo­
me aqui de um modo fantástico, meu amigo: sinto brotarem-me ferraduras
por todo o corpo e até na alma já me repontam orelhas de burro." E isso ali
na Galiza, região de tradições encantadoras, de paisagens maravilhosas, de al­
deias de cromo e presépio, a dois passos de Pontevedra, velha cidade de arca­
das, de Lugo, com seus casarões armoriados, Santiago de Compostela, cidade
medieval num cenário de sonho. Não tivera Aluísio a curiosidade de visitares­
ses lugares tão próximos? Não se mostrara sensível à graça romântica de tan­
tos aspectos típicos e exóticos?
Dez anos depois, em Cardiff, suas impressões da Inglaterra e dos ingleses
seriam do mesmo teor. Em carta a Figueiredo Pimentel (5 de junho de 1905)
desencadeia uma catilinária impiedosa e feroz contra os ingleses. Só distingue
os aspectos grosseiros do povo, os lados vulneráveis da civilização britânica.
Não se lembra de Dickens, T hackeray, etc. Nessa mesma carta, lamenta o ex­
cessivo trabalho do consulado e a necessidade em que se vira de abandonar o
livro que estava escrevendo sobre o Japão. Era a época em que se escusava de
não poder dar resposta ao inquérito do Momento Literdrio, de João do Rio, di­
zendo: "Tenho sobre a mesa uma montanha de papéis a despachar; o cônsul
inibe o escritor de responder."
Não conhecemos carta de Aluísio Azevedo datada do Japão, onde serviu
nos fins do século XIX. Pelas confidências que fez a Afrânio Peixoto sabemos,
no entanto, qual o sentido do livro de impressões que estava escrevendo sobre
aquele país, e que ficou incompleto. Como bom discípulo do naturalismo,
procurava ver a realidade da vida japonesa, sem se deixar influenciar pelo ro­
manesco de um Loti por detrás do Japão decorativo de lenda e poesia; desco­
brira a nação que assimilara o progresso europeu e americano, tornando-se ca­
da vez mais forte, e constituindo verdadeira ameaça para o Ocidente. Seria um
depoimento fiel da terra das gueixas e das musmés, rão deformada pela fanta­
sia dos que sobre ela escrevia1n. Mas a Guerra Russo-japonesa levou-o a desis­
tir da idéia. Tudo aquilo que pretendia revelar tornara-se conhecido do mun-

CAPÍTULO ll �49
..
do inteiro. Os telegramas e as notícias diárias dos jornais tinham desvendado
a verdadei!a face do povo até ali sempre visto por um prisma romântico. E o
livro já lhe parecia sem oportunidade, mesmo porque as previsões feitas pelo
autor divulgadas depois que os fatos as comprovaram podiam acarretar-lhe a
acusação de charlatanismo. Mas não haveria nisso um simples pretexto para
quem sentia cada vez menos o desejo de escrever? Só o conhecimento dos ori­
ginais da obra incompleta, depositados na Academia Brasileira, segundo pare­
ce, poderá dizer até onde se justificava o gesto do escritor.
Em Nápoles, em 1907, Rodrigo Otávio visitou o romancista, deixando
desse encontro um expressivo depoimento. Num passeio a Capri, "no jardim
de tosco albergue, mal protegido do sol pelas largas folhas de um parreiral",
não pôde deixar de dirigir a pergunta que um escritor faz a outro, principal­
mente quando não o vê há muito tempo. Que livro teria na forja? Houve um
instante de constrangimento - diz o memorialista - quebrado pela presen­
ça de um a rapariguinha graciosa que trazia um prato de figos. Não quis insis­
tir na pergunta; mas foi o romancista quem se empenhou em explicar porme­
norizadamente o caso, como quem procura justificar-se a si próprio. "Queria
trabalhar, por certo; tinha a ânsia de produzir, mas faltava-lhe a atmosfera, a
paisagem, o espetáculo. Se fora um poeta, faria versos em que falaria a sauda­
de que tinha da terra; mas não era senão um pintor e faltava-lhe o modelo.
Estava estudando, acumulando elementos espirituais, mas que só se poderiam
materializar no livro, transformar-se no romance, quando voltasse a viver em
sua terra com sua gente. Escrever assim, longe e de memória, não devia; e es­
tava tendo força para resistir ao desejo sôfrego que o queria arrastar, como se
resiste aos prazeres do fumo e do ópio. Mas, sentia que a obra sairia artificial
e imprestável." Seria exato isso, ou uma confissão disfarçada de esgotamento e
impotência? - interroga Rodrigo Otávio.7 Ficamos na mesma dúvida.
Mas ainda em Nápoles, em 1909, o convívio de Afrânio Peixoto que por
ali passara, em demanda da Grécia e Oriente Próximo, tivera o dom de desper­
tar em Aluísio anseios de criação artística. Em carta de 3 de dezembro desse
ano, ao próprio Afrânio, escreve ele: "Por sua causa, só com aquelas palestras
lá em casa sobre literatura, têm-me aparecido tais pruridos de trabalhar que

7. Rodrigo Orávio, op. át.

5 O � W Vida Literária n� '1Jrasil


começo a ver na execução daquele livro que lhe falei uma necessidade impe­
riosa, começo a sentir que um carnegão q.uer ser espremido e já não resisto ao
desejo de tomar notas, desde que as idéias se apresentam." O livro seria um
romance inspirado na vida de Antônio Conselheiro, cujo drama muito recen­
te continuava a impressionar fortemente as imaginações. Aluísio, segundo pa­
rece, pretendia fazer de um tipo fictício, mais ou menos nos moldes do herói
de Canudos, uma espécie de dom Quixote da Fé, a pregar a bondade cristã, a
regeneração dos costumes, o que acabaria por levá-lo ao sacrifício e ao martí­
rio. Tema idêntico havia sido objetivado pelo romancista espanhol Perez
Galdós, em Nazarin, no qual procurara fundir a idéia do Quixote à de uma
revivescência de Jesus Cristo. Na sua longa permanência na Espanha, não se­
ria de estranhar que Aluísio houvesse tido a oportunidade de ler esse livro, sur­
gindo daí, juntamente com a lembrança do Antônio Conselheiro, a inspira­
ção do romance projetado.
Na mesma carta de 3 de dezembro de 1909, continua ele, dirigindo-se a
Afriinio Peixoto: "Ajude-me V. com o seu milagroso poder de vontade.
Ressuscite este Lázaro. Você que sabe tudo, indique-me alguns livros de bio­
grafias de santos e coisas religiosas; eu sou de uma monstruosa ignorância a es­
se respeito e nem sei onde ir buscar a lã com que tenho de encher o colchão
do meu herói. Acabei de reler o D. Quixote na edição da Academia espanho­
la e fiquei assombrado por ver quanto o Cervantes estava a par de toda a lite­
ratura de cavalaria, e para que o meu livro tenha razão de ser, será preciso que
eu, pelo menos, me aproxime um pouco daquele aparelhamento."8 Fiel à
orientação naturalista, Aluísio queria escrever um romance largamente do­
cumentado e solicitava o auxílio do autor de Bugrinha nesse sentido.
Em carta de 22 de dezembro, ainda a Afrânio, mostra-se entusiasmado na
empresa, continuando a manifestar os ímpetos criadores. E explica: "A ques­
tão toda é do tempo que me falta, tendo de ler tanto e de escrever com méto­
do. O plano que dei à obra agrada-me e o tom cômico que dei a umas peque­
nas coisas já escritas dão-me a esperança de que o romance não terá gênero
conhecido. Mas o diabo do livro é difícil como três mil diabos. Principia por
uma ligeira notícia sobre a rivalidade da família Araújo com a família Maciel

8. Aluísio Azevedo, O touro negro, Ed. Br!guicr.

C A P ÍT U L O II� 5 l
- mortes, depredações, incêndios, arrancamentos de tripas, e tudo isso a rir,
tudo isso de um c6mico que pretende tornar ridículo todo o sujeito com pre­
tensões a"'"guapo e valentão de província ou de vila. Imagine como deve ser es­
se trabalho, para ser coisa apresentável. Os sertões do Euclides vão fornecer-me
dados que eu terei de p6r no avesso. Os seus livros, que agradeço como famin­
to agradece comida, ainda não chegaram cá. "9
Na carta seguinte, dois meses depois, não fazendo alusão ao romance em
preparo, continua a lembrar-se dos livros que Afr!inio lhe recomendara para
documentar-se; mas na de maio de 1 9 10, já não fala no romance nem nas lei­
turas sobre religião. Teria sido posta de lado a tarefa? Conversando com
Afr!inio algum tempo depois, no Rio, de passagem para Buenos Aires, volta a
referir-se ao projeto. A idéia esrava ainda a preocupá-lo; não abandonara a em­
presa - afirma convicto. A verdade é que a obra não foi escrita. A incapaci­
dade para a produção literária parecia mesmo definitiva.
Alcides Flávio 10 alude também a um encontro com o romancista, em da­
ta que não chega a precisar, e que deve ser pelo começo do século, durante o
qual palestraram sobre a Europa e a impressão produzida por esta no espírito
de ambos. Aluísio desenvolveu o plano do trabalho que tinha em mira: "Uma
obra sociológica, extensa, sobre as catedrais. Folheara compêndios, estudara,
coligira apontamentos ... Seria o livro da maturidade, as páginas que devem fi­
car. " "Ouvi embevecido a longa descrição" - escreve Alcides Flávio -, "re­
nascia a mocidade naquele qüinquagenário: sonhos, fantasias, aspirações... "
Tratar-se-ia de outro projeto frustrado do romancista que procurava de­
balde voltar às letras para produzir qualquer coisa de mais sério e definitivo?
No entanto, numa confidência feita a Coelho Neto, nos tempos de mocida­
de, parecia ele antecipar uma explicação para essa esterilidade que causaria
tanta estranheza aos amigos: "Escrevo por força da fatalidade. Dão-me as le­
tras para viver, mas eu é que sei como vivo! Digo-te apenas que no dia - que
aliás não espero - em que conseguisse alguma coisa que me garantisse o te­
to e a mesa, deixava de mão a pena, papel e tinta, todas essas burundangas
que só têm servido para incompatibilizar-me com o clero, nobreza e povo.

9. Idem, ibidem.
10. Alcides Flávio, l/êlaturas, Livraria Casrilho.

5 2 � l/Í Vida Literária nq;�Brasil


De letras estou até aqui. Meu ideal é um emprego público, coisa aí como
amanuense ou escriturário com vencirr_ientos certos." E num artigo n'A
Notícia (9- 1 - 1 9 1 1), sem assinatura, sobre a morte do escritor Emanuel
Guimarães, encontramos esta referência: "Há poucos dias, Aluísio Azevedo
em pessoa dizia-nos o porquê daquela deserção. Tinha visto que ainda não
era tempo de tentar aquilo no Brasil. ))

C A PÍ T U L O II� 5 3
ÍTULo I I I
li <3> C A
p

cA boêmia dourada """"" 'Rr_,quintados e superfinos """"" Os salões """""


/gurinda Santos Lobo em Santa Teresa """"" Coelho Neto na rua do Rozo
""""" Sousa Bandeira em Barão de ltambi """"" Uma musa da época """""
Vila Kyrial""""" "'Freitas Vtile, o Magnifico"

ma outra transformação, porém, já se havia operado na paisagem


da nossa vida literária. Em 1 9 1 0, no discurso de recepção na
Academia Brasileira de Letras, João do Rio se referia ao dépaysement
que tornara bem trisres os derradeiros anos de vida de Guimarães
Passos, apressando-lhe possivelmenre a morte: ao regressar do exílio, o poeta
sentira-se deslocado no ambiente carioca, os companheiros de outrora se ha­
viam aburguesado e eram agora pais de família, ocupando posições que lhes
traçavam uma linha de reserva e austeridade nas atitudes, enquanto a boêmia
dos cafés se transformara na boêmia dourada dos salões. Na verdade, à medi­
da que decaía a boêmia dos cafés, surgia uma fauna inteiramente nova de re­
quintados, de dândis e rajfinés, com afetações de elegância, num círculo mun­
dano, em que a literatura era cultivada como um luxo semelhante àqueles
objetos complicados, aos pára-ventos japoneses do art nouveau. Em lugar dos
paletós surrados, das cabeleiras casposas, os trajes pelos mais recentes figuri­
nos de Paris e Londres, os gestos langues e displicentes dos blasés, que consti­
tuíam a chamada jeunesse dorée; em substituição às mesas de cafés, os clubes e
salões chiques, onde imperava o esnobisn10 e se aconselhava o ültimo livro de
D'Annunzio à grande dama que não suportava Paul Bourget.

C A P Í T U LO III � 5 5
Aliás, o café já não se prestava ao ritual dessa camada superfina; teremos o
advento do chá, não aquele chá pacato e familiar tomado à noite, no âmbito
.,.
dos casarõ es patriarcais, mas servido às cinco da tarde com a designação bri­
tânica de jive o'clock tea. "O Rio civiliza-se" - não se cansava de apregoar
Figueiredo Pimentel no "Binóculo". "O chá civiliza-se... tal qual o Rio", le­
mos na Fon-Fon (15-6-191 1). E o progresso continua, como se lê no potin:
não se contentando com o simples rótulo inglês, o chá nos dias remotos de
1 9 1 1 passara a anunciar-se desta forma: "Five o' clock tea... chez Madame X."
Que é essa espécie de chá evoluído? A própria revista logo em seguida nos
elucida: é "o pretexto, a intenção benevolente para a elegância de reuniões de
escol, da delícia da palestra sussurrada, em tête-à-the, numa sala aromada
de hortênsia, iluminada à eletricidade, cheia de mulheres lindas".
É esse o ambiente que João do Rio e Figueiredo Pimentel evocam a to­
do momento, nas suas crônicas em que gravitam as figuras mais conhecidas
e típicas da jeunesse dorée. Cronistas da "boêmia douradà' também se iden­
tificam com o gênero de dandismo que a caracteriza. João do Rio é um
D'Orsay de chapéu-coco, monóculo e polainas; e ele descreve Elísio de
Carvalho nestes termos: "( ... ) tem a face pálida de sempre, o que indica uma
secreta vida de mistério, a elegância de um fato bem cortado e uma lindís­
sima gravata com desenho esquisito, em que há das rosáceas bizantinas e das
paisagens do Japão."
Melhor ainda nos dará o diapasão da época, a maneira pela qual Valfredo
Martins, no prefácio para o Livro de amor de Nilo Bruzzi, traça o perfil do
poeta, tal como o conhecera por volta de 1 916: "Era um menino. Tinha a be-
1 i leza das mulheres e a volúpia dos homens. Seus cabelos esvoaçantes dir-se-iam
alvoroçados por carícias femininas. Nos olhos tinha o brilho inquieto das
vitrinas de joalherias. Nas olheiras, o violáceo dos crepúsculos e nas faces duas
rosas encarnadas. Sua boca era uma papoula esfarfalhada. Depois, este Dorian
Gray de Oscar Wilde surgia no luxo imprevisto das suas cigarreiras, tauxiadas
de madrepérola, dos seus anéis egípcios de lápis-lazúli, das suas cadeias de pia-
! 1 tina e oiro, das suas camisas rajadas e bizarras abrochando-lhe a gravata um
esrr1alte veneziano, onde sonhava a figura de um pierrô melancólico . "1 . .

l. Ni!o Bruz1.i, livro de tlmor (Prefácio), Tip. Bcsnard FrCrcs, Rio, 1926.

5 6 � LÁ Vida Literária nO �Brasil


Em termos semelhantes, Gonzaga Duque descreve Camerino Rocha: "( ...) era
um feixe de nervos com uma cabeça estranhamente adorável. Ainda a es­
tou a ver na minha mem6ria. Tinha essa palidez morena peculiar às moças do
norte, palidez caracteristicamente feminina e, por assim dizer, delicada, como
feita de uma velutina de ocre e p6-de-arroz. Era-lhe o nariz comprido e fino
de narinas sôfregas; o bigode farto, negro em arrogância cavalheiresca, no ar­
riçado das pontas, e a boca tímida, a conter ardências sensuais que pareciam
espumar nas duas filas nítidas e claras dos dentes. Negros e fundos, quase sem­
pre tornados melancólicos, com vago luzir dos poentes, eram-lhe os olhos em
que se traía a inquietação do seu grande espírito analítico e atormentado, e so­
bre a sua vasta fronte caíam em madeixas rebeldes os cabelos azevichados,
a que a luz dava reflexos azulacres e os cuidados tafuis da mocidade enchiam
do aroma cálido, sensualizante da baunilha afrodisíaca."
Sempre nesse estilo, tão representativo da época como o retrato, Gonzaga
Duque alude à versão de que Camerino Rocha ceava em porcelana de Sevres,
costumando no fim da ceia quebrar a louça preciosa de que se utilizara. Possuía
um criado inglês, filho deserdado de um lorde cruel. Só bebia vinhos Chipre, C6s
e Tokai. Não produziu nada, consumindo-se na boêmia dourada. Apanhando
uma tuberculose, foi para o Pará em busca de melhores ares e ali faleceu.2
Figueiredo Pimentel, antes do ('Binóculo>>, quando escrevia tremendos ro­
mances naturalistas, procurando escandalizar o público, não era um elegan­
te. Mas depois de lançar a famosa seção que se tornou um registro cotidiano
do mundanismo, sentiu-se na obrigação de trocar os ternos de uma modesta
alfaiataria no Méier pelo corre do Almeida Rabelo e de encomendar camisas
na Casa Caulon.
Five O'C!ock é justamente o título do livro em que Elísio de Carvalho nos
deixou curiosa documentação sobre aspectos e figuras dessa "boêmia douradà'
na primeira década do século XX. Num estilo afetado, com grande extração de
termos estrangeiros, em tudo semelhante ao de João do Rio (a quem o livro é
dedicado), carregando ainda mais na nota original, o cronista descreve-nos uma
comparsaria mundana do refinamento e decadentismo que parece moldada pe­
las silhuetas nevrálgicas de Jean Lorrain. Fala num célebre rez-cle-chaussée da rua

2. "Boên1ios", artigo in Kosrr1os, outubro, l 908.

CAPÍTULO JIJ � 5 7
Barão de Flamengo, onde todas as noites, entre o chá e uma partida de bridge,
se reúne um grupo de rapazes finos e cultos, ligados "pela familiaridade dos res­

taurantes e dos clubes". E recorta a figura do Pedro León y Villar, "homem su­
periormente inteligente, e deliciosamente encantador no trato íntimo...
Soberanamente culto, conhecedor como poucos da história de todas as precio­
sas do século da galanteria, profundamente cético... um desses bons !errados que
põe nas suas páginas o mesmo escrúpulo com que organiza a elegância das suas
belas roupas, o arranjo de sua casa e o prazer de sua existêncià'.3 Outros tipos
do mesmo gênero vão passando por essas páginas onde o nome de Oscar Wilde
vem constantemente à baila. São comparsas saídos dos romances de Jean
Lorrain, descendentes de Monsieur de Bougrelon e Monsieur de Phocas, à pro­
cura do novo, do raro, com neuroses estéticas, cansados de civilização. Neles não
subsiste o sentido do cotidiano: surgem como criaturas meio exóticas na cidade
que se vai modernizando. Elísio de Carvalho evoca "a ironia cintilante de Paulo
Barros, o humorismo de Silva Maia e a musa histérica de Júlio Eugênio", nesses
ambientes em que se fala de D'Annunzio, de lbsen, de Metterlinck, e ama-se
tudo que respira originalidade. Um ligeiro pastiche dos quadros que Marcel
Proust iria fixar em A la recherche du temps perdu.4
E uma prostituição de alto bordo, marcando a paisagem social do Rio nes­
sa época, estendia suas influências aos meios literários. "A cocote, como a he�
taira na Grécia e a gueixa no Japão, estava no centro da vidà) - escreve
Gilberto Amado. - "Na pensão da Tina Tatti políticos de prestígio, altos in­
dustriais, discutiam problemas do dia. As regras do jogo social obedecidas, co­
mo em Atenas e em Quioto. A palavra lupanar só aparecia em horas de zanga
em artigo ou discurso de Rui Barbosa. Condenar Susana Casterá, a referida
Tina Tatti, como mais tarde a Janine, a Eudóxia, donas de pensões de mulhe­
res, seria prova de mau gosto. )'5

3. Elísio de Carvalho, Five O'Clock, Garnier, Rio, 1909.


4. Segundo me informaram, o rez�de-chaussée a que se refere Elísio de Carvalho seria da casa de
Sancho de Barros Pimentel; Pedro León y Villar ocultaria a personalidade de Pedro Leão Veloso
Nero, jornalista e diplomata, que foi por muitos anos nosso embaixador em Paris, enquanto
Júlio Eugênio t<Jvez fosse o também diplomata Joaquim Eulálio Nascirnento, antigo colabo�
rador do jornal do Cornmercio.
5. Gilberto Amado, Mocidade no Río e primeira viagern à Europa, José Olympio, Rio, 1 956.

5 8 � <...A Vida Literária no-43rasil


À noite, o Clube dos Políticos, .na praça Tiradentes, o Palácio (depois
Internacional, em cima do edifício onde. se acha o Cine Palácio), os Tenentes
do Diabo, o Cercle Floreaux, se enchiam desses intelectuais superfinos que vi­
nham, por vezes, das redações dos jornais, dos teatros) ou dos primeiros cine­
mat6grafos insralados na avenida, quando não dos music-halls, onde lhes pare­
cia chique buscar emoções fortes na última novidade do século: a luta romana.
Os clubes noturnos ficavam, muitos deles, na rua do Passeio, e eram cen­
tros da jogatina, que então dominava o Rio; mas havia uma parte destinada ao
music-hall com pista ao centro para a dança. Por ali desfilavam, freqüentemen­
te, os exemplares mais típicos dos '(Trezentos de Gedeão)', rótulo que Bilac em­
prestara a essa grei: Guerra Duval, figura suprema do mundanismo literário;
Humberto Gottuzzo, cronista social; Leão Veloso, o Gil Vida! do Correio da
Manhã, monóculo enterrado no canto do olho esquerdo, linha impecável,
mandando buscar roupas no Poole e usando gravatas do Chavet; Gil Vida!, de
quem disse Costa Rego que por faceirice resolvera morrer em Paris; João do
Rio, vindo muitas vezes de urna seresta, em que estivera na companhia de al­
guns mulatos pacholas; Afonso de Montaury, repórter da Gazeta de Notícias, o
"lindo Afonso)', com fraque cortado no Raumier, ali se encontrava, não raro,
com o diretor do jornal, cujas tarefas cabulava, e Henrique Chaves, sempre dis­
posto a perdoar a cabulagem de seu elegantíssimo repórter. 5·'
l'�ão hesitavam também, por vezes, em escandalizar os burgueses com
suas atitudes arrogantes, forçando a nota, adotando as últimas modas do
bulevar. Em Paris, os figurinos lançaram as casacas de cores; logo Luís
Edmundo, João do Rio e Guerra Duval mandaram fazê-las idênticas, com
elas se apresentando no Municipal, onde enfrentaram, sem perturbação, uma
estrepitosa vaia.
É boêmia que predomina, quando o poeta Luís Pistarini retira-se para o
recanto natal de Resende, onde morrerá tuberculoso; quando Raul Braga e
tantos outros vão desaparecer, cada um de seu lado, tristemente esquecidos.
A "boêmia douradá' - legítimo produto da nova cidade que surge-, na qual
Guimarães Passos tentou em vão adaptar-se, procurando freqüentar os salões
e "vestindo u1na casaca de pano tão leve que das abas dizia-se serem asas de

5-a. Luís Ed1nundo, O Rio de janeiro do nu'11 ten1po, 3° vol., ln1prcnsa Nacional, Rio, 1938.

CAPÍTULO III 1:;;:%9 5 9


borboletà'. Para, também ele - "o último boêmio" -, num desfecho de re­
núncia; protesto, ir morrer em Paris.

Essa ((boêmia dourada') centralizava-se não somente nos clubes, como


também nos salões literários da época. No livro Idéias efantasias, Viveiros de
Castro escrevia: "Perguntai a uma menina de alta roda quem é Aluísio e
Rodolfo Bernardelli, ela não sabe. Onde o salão em que se fale de literatura
e arte, para o qual sejam convidados de preferência os escritores e poetas?"
De fato, se no Segundo Reinado quase não tivemos salões propriamente
literários, na primeira década da República, quando Viveiros de Castro fazia
essa observação, é que haviam desaparecido por completo. Um dos únicos sa­
lões no gênero, o da baronesa de Mamanguape (Carmen Freire), havia fecha­
do as portas depois da ruína econômica da família - acarretada pela Lei
Áurea - e a morte da baronesa em 1891.
O período de reajustamento político-social, que sucedeu à proclamação da
República, não era de molde a favorecer os hábitos mundanos. Mas no come­
ço do século, a crescente valorização das letras e a espécie de aliança que elas
então fizeram com o mundanismo, contribuíram para que surgissem alguns sa­
lões de caráter acentuadamente literário. Um dos mais notáveis teria sido o de
Laurinda Santos Lobo, no alto de Santa Teresa. Paulo de Gardênia (Benedito
Costa), cronista mundano da época, assim o recorda: "Era um museu. Havia
um gabinete chinês coberto de velhas sedas douradas, inestimáveis do império
1 '
celeste; cheio de bronze e de jades verdes, ligeiramente branco nas arestas, co­
mo miniaturas de vagas cristadas; de tapetes profundos onde os pés se perdiam,
deslizando fofos macios de seda e de veludo, de azul e de ouro, como só há na
China! Era um sonho do Oriente!. .. Da galeria forrada de madeiras preciosas
descortinava-se a baía, o Pão de Açúcar, e ao longe, o Corcovado, entre nuvens
no céu distante ... " Escritores e artistas, celebridades estrangeiras de visita ao
1 1
Rio, nunca deixavam de ir ao salão da sra. Santos Lobo. Lá estiveram Anatole
France, Suzanne Despres, Paul Adam, Jeanne Catul!e Mendes, lsadora Duncan.
Eram convivas freqüentes I-Iurnberto Gottuzzo, um dos hotnens 1nais elegan­
tes da época, Ataulfo de Paiva, cavalheiresco e mesuroso, Joaquim Sousa Leão,

6 O � cA Vida Literária�·no Brasil


Pai, Hélio Lobo, espreitando a glória acadêmica - figuras que surgiam para as
letras e para a política e ali se encontravam com velhos titulares do Império, co­
mo o barão Homem de Melo, de longas barbas brancas e perfil de Pedro li, o
conselheiro Nuno de Andrade, que escrevia contos e crônicas sob o pseudôni­
mo de Felício Terra, não escondendo a admiração pelo heroísmo dos nipôni­
cos na guerra russo-japonesa.
Na Muda da Tijuca havia o salão de Araújo Viana, cujo filho, o escritor
Vítor Viana, foi quem pela primeira vez empregou nos jornais do Rio "as pa­
lavras e frases prestigiosas, sedutoras que, à entrada do inverno, toda gente
com foros ou pretensões de mundanismo'' passou a empregar entusiástica e
abusivamente. 6
Mais mundanos que literários seriam os salões de Sampaio Araújo, na rua
Voluntários da Pátria, e o do casal Azeredo, na praia de Botafogo. Não raro
via-se ali Caruso ao lado de um poeta estreante; um cronista conversando
com figurões da política ou milionários banqueiros, gente da alta finança.
Na seção �'Cinematógrafo", de Joe, na Gazeta de Notícias, aparece constante­
mente o nome de madame Gomensoro, que possuía igualmente um salão,
onde procurava oferecer novidades e surpresas aos convivas. Era, às vezes,
uma orquestra típica; outras, um artista original que ela ia descobrir para dar
a nota de sensação da noitada. E muitos escritores consentiam, prazerosa­
mente, em repetir ali as conferências que haviam pronunciado para um vasto
auditório a 2$500 (dois mil e quinhentos réis) a cabeça.
Que se conversava, de preferência, em tais ambientes? Antes de tudo, as
novidades parisienses, depois o último romance de Anatole France, o fracasso
do Chantecler, de Rostand, a peça mais recente de Bataille, etc.
As temporadas francesas tinham grande repercussão nos salões. E quando
André Brulé apareceu pela primeira vez no palco do Municipal, encarnando
com a mesma desenvoltura o herói de L'enfant de l'amour e o papel de Arsene
Lupin, o gentilhomme cambrioleur, conquistou de chofre a simpatia e o culto
do alto mundanismo carioca. Nos salões discutia-se o talhe de suas famosas
casacas, a elegância insuperável de seus gestos e a dicção macia com que pro­
curava cinzelar as palavras. Lá esteve Brulé, urna noite, no palacete da sra.

6. João Luso, louvores, Edição Dois Mundos, Brasil-Portugal.

C A P Í T U L 0-11-1 � 6 1
Santos Lobo, a ouvir a leitura da peça de Roberto Gomes, Berenice, feita pelo
próprio autor, na versão francesa.
Veja� esta passagem d A esfinge, de Afrânio Peixoto, reproduzindo uma
'

cena muito típica de tais ambientes:


"Houve um silêncio, que o Passos não compreendeu. Olhavam-se os assistentes
numa tristeza maliciosa. Malignó, o conselheiro terminou:
- Não lhes dizia hd pouco?. .. E isto é o tribunal superior. ..
- Vanda vai recitar. .. - informou o Aníbal a Paulo, absorto no canto da
janela, olhando para fora.
- É inevitável.
- Qual será hoje?
- Le chien . . . Matelot ... Les bottines... C' est le vent . . um destes... Não co-
.

nhece o repertório?
A voz nítida de Vanda dizia ao canto do piano:
- Matelot! l&rsos de André Meunier. . .
E continuava, exagerando os ee mudos, carregando rr, nasalando mm e nn,
alongando o bico nos uu, aspirando os oui, cantando os finais com todo o bom­
tom da gente fina do Rio, que supõefolarfrancês corretamente. "7
"- Quem lhe sugeriu este dou? -perguntei.
- D'Annunzio... no 11 Piacere... Apenas falta É/ena para vender champa­
nha e limpar as mãos, por mais algumas moedas, jd se vê, na barba farte dum
príncipe italiano. . " 8
.

O famoso salão de Coelho Neto, na rua do Rozo, não possuía o mesmo


cunho de alto mundanismo, esse tom afetado e esnobe. Ali predominava a li­
teratura, a cordial idade, e até mesmo uma certa sem-cerimônia. A casa de
dois andares, com um jardim ao lado, estava sempre aberta a todo mundo,
aos plumitivos que vinham dos pontos mais distantes da província, com um
manuscrito e uma carta de apresentação para o escritor, cuja fama corria o
Brasil inteiro. As duas primeiras décadas do século foram, por excelência, o pe­
ríodo do apogeu de Coelho Nero, quando exerceu ele sensível influência em
nossas letras, aclamado não somente aqui como em Portugal. Aliás, alguns de

7. Afrânio PeixO(O, A esfinge (6ª ed.), pág. 177 e segs., Cia. Editora Nacional, Sâo Paulo, 1940.
8. Idem, ibidem. pág. 192.

6 2 � vi Vida Literdria �ft'Á' Brasil


seus melhores livros, Turbilhão, Treva, apareceram nessa época. Martins
Fontes chamava a residência da rua do Rozo de "Santa Casa de Coelho
Neto", pela franqueza generosa com que o escritor acolhia a todos, estimu­
lando-os, entusiasmando-os, distribuindo elogios com a maior facilidade. ''A
grande mesa de jacarandá ao centro, os armários manuelinos, pejados, de
bons livros camilianos; o pequeno ramo de salgueiro do túmulo de Musset,
colhido pelo mestre; os estudos de Antônio Parreiras; os bibelôs; um busto de
Eça de bronze, de expressão surpreendente, e pairando sobretudo, dando va­
lor a tudo, a graça sem par de dona Gaby'' - eis como retrata o ambiente o
cronista Benedito Costa.9
As reuniões se davam geralmente aos sábados. Pelos corredores, nas salas
e no jardim cruzavam-se figuras da nova e da velha geração: Oscar Lopes,
Fernando Guerra Duval, Gustavo Barroso, Olegário Mariano, Jorge Jobim,
Gregório da Fonseca, João Luso, Alberto de Oliveira, e mais tarde Álvaro
Moreyra, Felipe d'Oliveira, Humberto de Campos, Aníbal Teófilo, tantos
outros, sem falar em Olavo Bilac, o velho companheiro, o "suave Bilac'', co­
mo o denominara Coelho Neto. Não precisaria Martins Fontes descrever
com tamanha exaltação essas reuniões no livro Terras de fantasia, para imagi­
narmos a alacridade e o alarido que, com seu temperamento derramado, de­
via animá-las. Não eram só escritores: pianistas, violinistas, cantores moços e
velhos, pintores, escultores, mestres e alunos da Escola de Belas-Artes, iam
também à rua do Rozo, onde surgia, por vezes, um grupo como o da Flor de
Abacate, entre cantigas e reco-recos, numa ruidosa embaixada, para trazer a
Coelho Nero o diploma de sócio benemérito. Eleito "príncipe dos poetas",
Bilac foi ali coroado numa noite festiva e inesquecível em que Ângela Vargas
recitou "O caçador de esmeraldas", Gustavo Barroso leu páginas da Terra do
sol, Alcides Maia - que possuía grande admiração por Coelho Neto e dele
sofreu a influência leu capítulos do romance Ruínas vivas, Rosalina
Coelho Lisboa, irradiante de mocidade e beleza, declamou versos de seu pri­
meiro livro, Rito pagão.
Alberto de Oliveira costumava recitar "O corvo", de Poe, exigindo para is­
so um aparato cênico. Apagavam-se algumas lâmpadas e mergulhada a sala na

9. "Livro do meu destino", in jornal do Comrnercio (página de memórias datada de 1951).


l
.

{f

penumbra, punha-se ele a desfiar com voz cava os versos lúgubres: 'Nunca
mais! Nun�a mais!''1º
Compreende-se que os filhos de Coelho Neto, garotos endiabrados e ma­
liciosos, não levassem muito a sério os figurões que ali se reuniam. E daí os
apelidos que pespegavam em alguns deles. Goulart de Andrade, sempre irre­
quieto, passara a ser o "Mosquito Elétrico''; Bilac, o "Amolador", porque ti­
nha o costume de intrometer-se nas brincadeiras dos pequenos, "ora acirran­
do, ora satirizando os parceiros". 1 1 Mas o melhor espetáculo dessas reuniões
era o próprio Coelho Neto, com a sua palestra imaginosa e fértil, resumindo
os romances e as novelas que pretendia escrever, relembrando episódios de ju­
ventude, transmitindo impressões de leitura, a voz nítida e empastada, a ges­
ticulação perfeita, representando, não raro, como verdadeiro ator.
Em Orações e palestras, João Luso recorda, com emoção, o dia em que ou­
viu a narrativa do "Bom Jesus da Matà', essa admirável novela que iria figu­
rar no livro Treva. Outra vez, foi uma "primeira edição, tiragem verbal para
vinte ou trinta pessoas, da 'Fertilidade', com a sua apoteose do sangue do nas­
cente regando e fecundando a terra do lavrador alucinado".12 Numa noite, fa­
lava-se do luar e dos seus efeitos no sentimento de cada um. "Pois, a mim, o
luar me mete medo'', considerou Coelho Neto, e lá veio a história, desta vez
um caso verídico: a caminhada que, por motivo de doença súbita na família,
o escritor fora obrigado a fazer alta noite, ao plenilúnio, por entre as palmei­
ras da rua Paissandu até a residência do médico. Quando ele concluiu, não ha­
via no grupo quem não suasse frio, sob a sugestão da narrativa terrificante. 13
Era, sem dúvida, um grande improvisador. 14

10. Informação de Fernando Guerra Duval.


11. Paulo Coelho Neto, Relicdrio, Borsoi, 1956.
12. João Luso, Orações e palestras, José Olympio, Rio, 1941.
13. Idem, ibidem.
14. No Didrio secreto (vol. 1, pág. 102), Hu1nberro de Campos reproduz u1na conversa com
Manuel Bonfim, em que este, componente, outrora, da roda boêmia de que fazia parte Coelho
Nero, nos dá, por assim dizer, as origens do "salão" da rua do Rozo.
"Coelho Nero pertencia ao grupo" - explica Bonfirn -, "mas reve de casar muito cedo. A vida
de boêinia ew. feica nos cafés, para onde se ia depois do trabalho no jornal. Não podendo ficar
no Java ou no Londres após o trabalho da redação, ao lado dos companheiros, levava�os Neto
para a sua casa, onde ficavam todos até alta madrugada.

6 4 � cA Vida Literária no Brasil


Mais literários do que mundanos seriam os salões de Sousa Bandeira, de
Inglês de Sousa e de Coelho Neto. O primeiro, à rua Barão de Itambi, reunia
geralmente escritores consagrados, como José Veríssimo, Bilac, Alberto de
Oliveira, Rodrigo Otávio, Mário de Alencar, Graça Aranha, embora ali, tam­
bém, por vezes, aparecessem alguns novos: Alceu Amoroso Lima, Leonídio
Ribeiro. Sousa Bandeira, tio do poeta Manuel Bandeira, homem inteligente,
cético, com grande encanto pessoal, recitava Goethe e Schiller em alemão;
Shakespeare, em inglês; Dante, em italiano. Fazia as honras da casa a "não me­
nos letrada e fulgurante dona Luzià'.
No salão de Inglês de Sousa, à rua São Clemente, reuniam-se os intelectuais
mais jovens, componentes da chamada jeunesse dorée. Alceu Amoroso Lima,
Carlos de Ouro Preto, Renato Lopes, que depois iria fundar Ojornal, figuravam
entre os mais assíduos. Fazia-se música: Inglês de Sousa tocava flauta e o filho,
Carlos, violino. Improvisavam-se concertos. Representavam-se charadas anima­
das, que divertiam muito os convivas e, certa vez, encenaram a comédia de
Machado de Assis Não consultes médico, ensaiada pelo próprio Inglês de Sousa. 15
Uma das figuras femininas mais familiares nesses salões e que poderia ser
considerada uma das musas da época era Bebê Lima Castro. Permanecia na
memória de todos a recordação do poeta simbolista Orlando Teixeira "morren­
do de amor", como nos velhos tempos do romantismo, por essa criatura en­
cantadora. Uma triste história sentimental a do autor de Magn ificat, pobre,
feio, humilde, apaixonando-se pela jovem declamadora e cantora, cuja graça ir­
radiava na alta sociedade carioca. Da imensa distância que os separava tinha ele
plena consciência quando compôs as estrofes da fábula O sapo e a estrela, 16 na

Quando era, por qualquer motivo, obrigado a ficar em casa, eles iam para lá, reconstituindo a
roda, como em qualquer café da cidade."
15. Alceu Amoroso Lima explicou-me em que consistia esse divertimento, em que ele costu­
mava tomar pane. Apresentava-se, por exemplo, um dos convivas com um cabo de vassoura na
mão. Isto queria dizer "pau". Vinha depois falar com este um outro, mostrando-lhe um pedaço
de papel escrito: era a "lista". Surgia, finalmente, um terceiro, dizendo ser natural de São Paulo,
o que constituía a decifração da charada: "paulista."
16. No seu Panorama do movimento simbolista brasileiro {vol. II, pág. 171), Andrade Muricy
aludindo à poesia de Orlando Teixeira diz que Leopoldo Fróis, habituado como Chaby
Pinheiro, a recitá-la, fizera representar uma con1édia baseada nessa fábula. Há um pequeno
equívoco no caso. A con1édia cm questão intitulava-se, realmente, O sapo e a estrela, mas só o

C A P ÍT U L O III,�65
qual se dizia um mísero batráquio a contemplar do charco o clarão que luzia
ao longe, no firmamento inacessível. Mas apesar de tudo, deixava-se embalar
por umá ilusão consoladora. Platonismo, sonho... a simples imagem da sílfide
loura a sorrir confortava-o. E certo dia parte a jovem para a Europa. Já não ha­
via ilusão possível. O poeta definha pelas portas dos cafés da rua do Ouvidor e
do largo da Carioca. Abre-se o caminho para a tuberculose consumar a obra
destruidora. Na estação de Sítio, em Minas, irá morrer, apegado às lembranças
da felicidade precária que, naquele ambiente, a presença da criatura amada lhe
concedera um dia. Enquanto pelos chás dançantes e recepções as ressonâncias
do drama não tardarão a diluir-se em risos e palmas, ante os versos de O sapo
e a estrela, recitados com arte inimitável pela própria criatura que os inspirara.
Mas não era somente no Rio que continuava a tradição dos salões literá­
rios. Em São Paulo tínhamos o de Vila Kyrial, residência de José de Freitas
Vale, um palacete de linhas harmoniosas nas alturas de Vila Mariana, bairro
ainda pouco povoado, ambiente propício ao recolhimento de um poeta sim­
bolista. Grande amigo de Alphonsus de Guimaraens, que lhe dedicara um dos
livros, chamando-o de "Prince Royal du Symbole", Freitas Vale escrevia ver-

título fora decerto inspirado pela poesia, pois se tratava de tradução de um original francês de
Jacques Deval: Beauté. A semelhança entre o enredo arquitetado pelo comediógrafo e o ro­
mance infeliz de Orlando Teixeira, narrado em O sapo e a estrela, devia ser puramen[e aciden­
tal, já que não há probabilidade do autor francês ter tomado conhecimento do que se passara
com o poeta brasileiro.
Deval figurara o conflito de um astrônomo, homem feio, solteirão e já maduro, cuja vida quase
reclusa, inteiramente dedicada à ciência, sofre radical transformação, no momento em que se
apaixona por uma mulher jovem e leviana. Essa peça foi representada com grande êxito no Rio
e em São Paulo, por volta de 1924, encarregando-se Leopoldo Fróis e Sílvia Bertini dos papéis
principais. Acrescente-se o fato da tradução haver sido feita por João Luso, grande amigo de
Orlando Teixeira, de quem possivelmente partira a idéia de homenagear-lhe a memória, dando
o título de O sapo e a estrela à comédia de Jacques Deval.
A propósito desta nota, publicada na 1 ª edição, escreveu-me Andrade Muricy: "No que se refe­
re ao esclarecimento que traz a menção por mim feita de uma peça intitulada O sapo e a estrela,
devo informar-lhe, sem mais insistir, que pessoalmente, da minha amiga, a cantora e decla­
madora Violeta (Bebê) Lima Castro, a 'estrela' do 'sapo' Orlando Teixeira, recebi muito mate­
rial referente ao poeta paulista. Doença grave e afinal mortal de João Luso, meu cornpanheiro
do Jornal do Commercio, impediu-me de controlar os possíveis excessos de subjetivismo da
musa do poeta. E coino be1n comprova, não levei além minhas pesquisas."

66� <.A Vida Literdria·"rtO Brasil


sos em francês sob o pseudônimo de Jacques d'Avray. Político, ocupando a se­
natoria estadual em várias legislaturas, protegia os artistas jovens obtendo-lhes
pensõ es do governo para viagens de estudos à Europa. Patrocinou a primeira
exposição expressionista de Lasar Segai!, em São Paulo, em 1 913, e veio mais
tarde a apoiar os modernistas. Antigo conviva do salão de dona Veridiana
Prado, no século passado, trouxe para a mansão de Vila Kyrial o espírito pa­
risiense, europeu, que lá predominava. Acolhia a par de artistas jovens e irre­
verentes, como um Oswald de Andrade, figuras austeras como a do dr. Altino
Arantes, que não tardaria a ser presidente do estado. E os extremos se toca­
vam, espíritos das mais diversas orientações se entendiam às maravilhas nessas
noitadas inesquecíveis da rua Domingos de Morais.
Muitos intelectuais, figuras de relevo das letras brasileiras e estrangeiras ali
pronunciaram conferências para um auditório privado. Havia concertos de
canto, piano e outros instrumentos do pequeno grupo orquestral formado
por Carlos de Campos (contrabaixo), João Gomes Júnior (piano), Carlos
Pagliuchi (flauta), Sousa Lima (violoncelo) , Osório César e Alcino de Campos
(!"e 2º violino), e Antônio Palmieri (clarineta) . Num desses concertos foi
apresentada e executada pelo autor, o célebre compositor francês Darius
Milhaud, em primeira audição, uma sonata para violino e piano.
Tornaram-se igualmente célebres, nos extensos gramados de Vila Kyrial, os
jogos atléticos com o Magnum e o Hindu (pesadas peças de madeira) , e nos
salões da adega os campeonatos de pingue-pongue. Destes últimos, que se rea­
lizavam às terças-feiras, participaram Ciro de Freitas Vale, Luís Paranaguá,
Cornélio França, Dafnis Freitas Vale, Jorge e Jaime Americano, José Freitas
Vale e outros.
"Prince Royal du Symbole", Freitas Vale criara a Ordem dos Cavalheiros
da Kyrial, constituída pelos artistas, escritores e poetas que freqüentavam os
almoços de domingo na sua residência e a que, não raro, compareciam mais
de cinqüenta convidados. Reuniam-se na Galeria da Kyrial para preliminar­
mente cantarem o hino, letra e música do Chefe. Fundara-se também antes
disso a Hordem, formada pelos gourmets que não faltavam aos jantares sema­
nais, composta pelos cavalheiros (uma estrela), oficiais (duas estrelas), comen­
dadores (rrês estrelas). Entre os oficiais figuraram Altino Arantes e Elói Chaves,
e entre os comendadores, Washington Luís, Ciro de Freitas Vale e o próprio
José Freitas Vale. Esses jantares, que eram solenes, com damas decotadas, se­
nhores �e casaca, foram precursores, há mais de cinqüenta anos, dos de Vila
Kyrial. Para eles Freitas Vale inventava estranhas iguarias como a "sopa asiáti­
ca" e étoiles de caviar, além de curiosas sobremesas: o creme cléopatrique e a
Mousse neigeuse aux dattes d'Orient e aux cerises d'Occident.
Nos domingos de carnaval costumava haver almoços a fantasia, a que os
convidados compareciam mascarados, só se dando a conhecer quando à mesa
iniciavam a refeição. E seguia-se o corso na avenida Paulista, em que tomavam
parte os artistas freqüentadores de Vila Kyrial, tendo à frente o seu Chefe.
Certa vez, o notável florista Nemitz, o maior da época, realizando a idéia do
Chefe, construiu sobre um enorme caminhão uma cesta de compras enfeita­
da de folhagens e flores, dentro da qual se colocaram cerca de vinte ou rrinta
artistas vestidos de pierrô branco com botões verrnelhos e esse carro fez me­
morável sucesso no corso, precedido pelo automóvel do Chefe: um pierrô em
cetirn vennelho com botões brancos. É be1n conhecida a página entusiástica e
enfática do Pa!!-Mall-Rio, em que Paulo Barreto exalta as galas do senhor de
Vila Kyrial, "Freitas Vale, o Magnífico", comparando-o pelo refinamento, o
apuro do gosto, ao Des Esseintes de Huysmans. Começa considerando o pa­
lacete de Vila Mariana verdadeira Academia de Arte de São Paulo. "Curiosa
academia! A ela vão os jovens cheios de timidez e de sonhos, certos da desva­
necedora atenção que ainda ninguém lhes deu, os maiores gênios que passam
pelo Brasil e lá se encontram em sua casa, os artistas brasileiros cada vez mais
exilados num país onde o parasitismo político fenece o culto à beleza, os ho­
mens de espírito, os ho1nens de talento, os políticos, os estetas na atração de
1 1 uma hora imprevista que os repouse da crispante vulgaridade. Mas ainda aí
José de Freitas Vale não se descobre completamente. A academia para os sim­
ples visitantes é como os arredores de Elêusis para os não iniciados - uma lu­
minosa palestra em que se aprecia sensivelmente a correspondência dos senti­
dos, segundo os versos de Baudelaire e Augusto de Lima." E prossegue na
exaltação: Freitas Vale seria ainda a revivescência de nobre romano realizando
na vida um estranho poema de aperfeiçoamento. Alude à sala de banho, "vas­
ta como a dos Césares ou a dos irnperadores da fndia", aos vinhos espantosos,
ao órgão do salão, aos cardápios, às iguarias inéditas, aos perfumes, a todos os
encantos dessa casa que é un1a verdadeira pinacoteca. No capítulo dos vinhos.

6 8 � LA Vida Literária-1u; Brasil


a fantasia do cronista se requinta, Freitas Vale nos aparece agora qual um
misto de Hafiz e Des Esseintes, compreendendo religiosamente essa ambro­
sia dos deuses, como a visão gustativa da perfeição. Artista precioso transfor­
ma a adega numa orquestra do gosto em que "executa prelúdios e sinfonias".
E vem a descrição imaginosa e faiscante, bem à moda de Jean Lorrain: "Pelas
salas baixas da adega, dormem, numa temperatura sempre igual, faça frio ou
faça calor, os vinhos veneráveis - os vinhos da Borgonha, que têm a cor dos
cravos rubros a murchar, os vinhos de Bordéus, que cheiram à rosa e são cor
de sangue pálido -, violoncelos e violinos, sons de veludo e sons etéreos.
Depois, entramos no remanso dos vinhos do Reno, remontamos aos vinhos
húngaros, descemos ao Mediterrâneo, são todos os vinhos da Península e da
Grande Grécia e todos os vinhos dos Bálcãs e os vinhos com óleo da Grécia
e os raros vinhos dos vinhedos turcos. Salas e salas, onde dorme Dionisos, a
alma da cepa.''
Vila Kyrial sobreviveu ao progresso vertiginoso de São Paulo. Lá se encon­
,,
tra, sob a pátina do "1900 , a evocar um passado glorioso, com seus salões,
onde, até bem pouco, poderia ser vista a figura do octogenário risonho, o
"Prince Royal du Symbole" - Freitas Vale, o Magnífico.17

17. Na primeira edição, baseando-me em informações colhidas em fonte que m e pareceu


fidedigna, cometi alguns pequenos enganos sobre o que se passava em Vila Kyrial. Retificando­
os numa deliciosa carta, Freitas Vale observou com muita finura: "Esses equívocos são ex­
plicáveis, pois nunca a Fábula deixou de querer aproximar-se da Verdade, nem a imaginação se
conformou em não enfeitar a seu modo o histórico dos acontecimentos."
Não era, também, cada sala de Vila Kyrial dedicada a um grande poeta simbolista, como in­
forma Andrade Muricy no Panorama do movimento simbolista brasileiro (vol. II, pág. 59) por
mim citado. "Tenho, isto sim" - diz Freitas Vale -, "na minha biblioteca as primeiras pe­
quenas edições dos simbolistas, lançadas no início do movimento, quase todas pelo editor Léon
Vannier, hoje raríssimas, nisso cifrando a minha admiração por cada um e a minha adesão à
orientação renovadora que trouxeram à Poesia."
Freiras Vale faleceu em fins de 1957.
AP ÍTULo l V
li <Zf C
Os cafts"""" 1Jilac e o advento da Confeitaria Colombo"""" <.Marginais
da literatura """" Superestimação da anedota """" Um Chat Noir carioca
"""" "LAsublime porta""""" <.Machado de Assis na Garnier"""" LÁroda
dos simbolistas

s principais cafés "literários" do Rio são, entre outros, os da úl­


tima década do século XIX, do período áureo da boêmia: o Café
do Rio no cruzamento da rua do Ouvidor com a rua Gonçalves
Dias; o Java, no largo de São Francisco, esquina de Ouvidor; o
Café Paris, o Café Papagaio; o Café Globo, na rua Primeiro de Março, entre
Ouvidor e o beco dos Barbeiros, em cujos altos existe um tradicional restau­
rante já em decadência por volta de 1901.
Pontos igualmente preferidos pelas celebridades literárias: Confeitaria
Colombo, na rua Gonçalves Dias, e a Confeitaria Pascoal, na rua do Ouvidor,
além de outras menos freqüentadas como a Cailteau e a Castelões.
Foi na Pascoal que João do Rio ouviu numa tarde de grande movimento a
Baronesa de Mamanguape exclamar: "Sr. Olavo Bilac... " O adolescente voltou-se
e pôde pela vez primeira contemplar a fisionomia simpática do poeta aclamado.
E era assim também que o provinciano vindo de Minas, do Sul ou do Norte, ex­
perimentava o alvoroço de reconhecer à porta de um desses estabelecimentos
o poeta cujos versos sabia de cor, ou o romancista que tanto o impressionara.
Em carta de lº de fevereiro de 1 9 1 2, o jovem Carvalho Ramos, depois au­
tor de Tropas e boiadas, das lonjuras de Goiás declarava ao irmão Américo o que

C A P Í T U L O IV f::;:;:;9 7 1
mais o seduzia na perspectiva de mudar-se para o Rio: não era a maravilhosa
paisagem da Guanabara nem a vertigem da vida civilizada numa metrópole;
era "poder conhecer e admirar de perto o grande estilista de Inverno em flor,
do jardim das oliveiras, enfim Coelho Neto". 1
Essa curiosidade d o provinciano seria facilmente satisfeita num passeio
à tarde, pelos pontos principais da rua do Ouvidor, que tanto surpreendeu o
herói da Capital Federal, de Coelho Neto, arrancando-lhe esta exclamação:
"Mas é um beco!..." Por esse beco passava tudo quanto o Rio literário possuía
de mais notável na época. Entretanto, uma desinteligência de Olavo Bilac com
o gerente da Confeitaria Pascoal, que ficava naquela rua, fazendo com que ele
trouxesse a sua roda para a Colombo, na rua Gonçalves Dias, deslocara algum
tanto a freqüência dos intelectuais do famoso beco. Na esteira de Bilac vieram
Dermeval da Fonseca, conhecido pela ironia mordaz e a erudição musical;
Emílio de Meneses; o padre Severiano de Resende, quando ainda não havia ti­
rado a batina e usava-a com uma linda faixa de seda; Pedro Rabelo, sempre a
recitar o eterno soneto "A árvore", a fisionomia caracterizada pelo grosso pin­
ce-nez de míope; Plácido Júnior, extremado na admiração por Bilac, a quem
chamava de excelso poeta; Guimarães Passos - as costeletas típicas, as polai­
nas que lhe granjeavam prestígio mundano, os paletós justos -, tratando Bilac
i i de irmão e repetindo não raro o último verso do famoso soneto "O lenço":

"Panda, enfunado, côncavo de beijos."

Assim, aos poucos, todo mundo foi deixando a Pascoal. Oscar Lopes, "poe­
1 : ta jovem, atleta, moreno como um turco"; Armínio de Melo Franco, irmão de
Afonso Arinos; José do Patrocínio, já no começo da enfermidade que devia
levá-lo ao túmulo; o filho Zeca, recém-chegado da Europa, "metido numa
sobrecasaca cor de cinza'' e contando histórias assombrosas; Alberto Ramos,
. : sempre empenhado em contrariar a opinião da maioria; Félix Bocaiúva,
que tendo ido à Europa como poeta e dali voltara sociólogo;2 e Martins
'
. '
1 '
'
1. 1-Iugo de Carvalho Ramos, "Correspondêncià', in Obras Completas, Cia. Editora Panorama,
São Paulo, 1950.
2. ]. C., A Confiitaria Colombo, hist6ria aned6tica, 1929.

7 2 � l./Í Vida Literdria.np Brasil


Fontes, muito jovem ainda, eufórico, pletórico e derramado, distribuindo
saudações em verso:

"Flor de Guadalquivir, glória da ardente Espanha!"

Contra o prestígio crescente da Colombo surge um grupo de novos che­


fiados por Paulo Barreto, do qual fazem parte Camerino Rocha, Vítor Viana,
Mário Guaraná e outros. Procuram hostilizar com zombarias a roda de Bilac
a quem chamam de sr. Bilae, opondo à Musa Verde (o absinto) dos poetas da
Colombo, que costumam quase todos embebedar-se, o culto de Nietzsche,
o filósofo do super-humanismo. Não conseguindo, porém, estabelecer a cisão
no grupo, como pretendiam, acabam pouco a pouco deixando a rua do
Ouvidor e passando para a Gonçalves Dias.
Com o correr dos anos, a decadência da boêmia reflete-se na roda da Colombo,
que se vai tornando cada vez mais desfalcada, ao mesmo tempo que surgem alguns
elementos novos. Morre primeiro Plácido Júnior, depois Pedro Rabelo. Alberto
Ramos, funcionário exemplar, não tem mais tempo para freqüentar mesas de bar.
Bilac, proibido de beber pelos médicos, e sentindo os prenúncios da velhice, tam­
bém se vai afastando. Mas por ali aparece agora Gustavo Barroso, muito elegante,
de polainas e luvas; Joaquim de Sales, que se iniciava com grande brilho no jorna­
lismo; Goulart de Andrade e o jovem Adoasto de Godói.
Lima Barreto andara a princípio pelo Café Jeremias ou na Americana, onde
se via cercado por uma roda de "rapazes instruídos1', havendo determinação ex­
pressa de não se conversar jamais literatura, o que devia traduzir reação contra
o clima artificialmente literário dessas rodas boêmias. Depois, veio a tornar-se
assíduo no Café Papagaio, num grupo denominado Esplendor dos Amanuenses,
que se reunia todas as tardes para discutir "coisas graves e insolúveis", do qual
faziam parte Bastos Tigre, Domingos Ribeiro Filho, Rafael Pinheiro, Amorim
Júnior, Calixto, João Rangel e o caricaturista Carlos Lenoir, o Gil da revista
mundana A Avenida. Até certa época tomavam apenas café, segundo afirma
Lima Barreto, pois a situação econômica dos parceiros não dava para a cerveja
e muito menos para o uísque. 3

3. A ausência na l ª edição de indicação bibliográfica relativa a esse trecho, em que me repono

CAPÍTU L O IV t:::A 7 3
Ao lado das figuras conhecidas nas letras, gravitavam artistas, desenhistas
e caricaturistas, como Crispim do Amaral, Calixto, Ricardo Casanova, Julião
Machadó, Bambino, Ramos Lobão, André Thoreau, Renato, Raul, J. Carlos;
não raro, gente de teatro, e também os que se esterilizaram na boêmia) cujo
talento fracassado os amigos vieram dizer depois que era grande, porque, na
realidade, constitui tradição da boêmia a crença de terem tido talento os que
dela fizeram parte. Fala-se dos admiráveis sonetos de Raul Braga, um dos mais
lamentáveis alcoólatras, chamando o amigo para um canto, recitando-lhe ver­
sos e pedindo-lhe algumas moedas; fala-se do destino literário gorado de

às próprias palavras de Lima Barreto, na crônica "Os galeões do México" (Gazeta da Tarde,
20-5-1911), citada por Francisco de Assis Barbosa no livro A vida de Lima Barreto, pág. 131
(Livraria José Olympio Editora, Rio, 1952), fez com que dois ilustres críticos, Sérgio Milliet e
Wilson Martins, me atribuíssem um anacronismo por aludir ao uso do uísque entre os boêmios
do " 1900".
Mas é o próprio Lima Barreto quem fala e parece-me que ele tinha autoridade para informar­
nos sobre o assunto. São suas palavras na referida crônica: "E bebíamos café, só café, pois as fi­
nanças não penniti.�m o luxo da cerveja ou do uísque." Ta.inbém no Cemitério dos vivos {págs.
47-48), considerando as causas que o levaram à alcoolatria, conclui ele nestes termos: "( ... ) e eu
me aborrecia e procurava distrair-me, ficar n a cidade, avançar pela noite adentro, e assim co­
nheci o chope, o uísque, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele." Será que o uísque
aí figura apenas como um eufemismo de cachaça? Em todo caso, se ele se refere ao uísque é
porque a bebida era familiar a muita gente na época.
Entretanto, René Thiollier, no livro Episódios da minha vida (Anhembi, São Paulo, 1956), re­
montando ao ambiente literário do "1900", declara peremptoriamente: "O uísque ninguém o
suportava, no Brasil." Mas numa correspondência de São Paulo para o Correio da Manhã (17-
3-1907), encontro a notícia de uma desordem ocorrida durante o carnaval num clube, onde a
jeunesse dorée paulistana costumava tornar uísque e tentar a sorte na mesa verde.
E também Emílio de Meneses, no discurso de recepção na Academia, que não chegou a pro­
nunciar e do qual reproduzo trechos no capitulo II, defendendo-se da pecha de boêmio, fala em
"confabulações inocentes", em que entrava certa dose de uísque e de água-de-coco. Podería­
mos acrescentar ainda mais dois depoimentos, embora relativos ao fim do " 1900". No Diário
secreto, de Humberto de Campos (1.a volume), com data de 20 de abril de 1917, lemos o
seguinte: "Em uma casa de frutas um encontro: Oscar Lopes e Bastos Tigre bebem juntos um
uísque"; e a 23 do mesmo mês: "Alcides Maia que encontro quase todas as tardes, diante de
algumas tiras de papel e de tun copo de uísque, na terrasse da Sociedade Brasileira dos I-Iomens
de Letras."
Pois se os escritores bebiarn uísque em 1917, por que não havian1 de beber em 1911 ou anos
atrás? Decerto, não tanto c1uanro hoje, mas bebiam.

7 4 � t/Í Vida Literdria·"f1o·Brasil


Rocha Alazão, ex-secretário de Paula Nei, "facadistà' impenitente, que chega­
va a aterrorizar os proprietários das confeitarias e dos cafés, com receio de que
ele lhes espantasse a freguesia; apregoa-se a erudição do excêntrico Santos Maia,
senhor de grandes conhecimentos, sabendo grego, adorando Victor Hugo e
discorrendo com eloqüência sobre os mais variados assuntos. Comenta-se a
excentricidade do linotipista-poeta Constantino Pacheco, "um português lon­
go e lívido", em cujos versos crepitavam por vezes fagulhas de gênio, "um sen­
sitivo e um sensual'' que gosta de recitar pelas esquinas, "com voz soturna, a
sacudir umas grossas manoplas de pugilador", sonetos em que compara "a sua
volúpia a garras de pantera, proclamando nos intervalos, com um fulgor de
anarquista lírico, que o Brasil é um excelente país para os olhos do artista e
a bolsa dos patifes.. . ". 4
Todos esses tipos formam uma espécie de comparsaria secundária, indis­
pensável ao espetáculo cotidiano das rodas de café. Se nada representaram pa­
ra a literatura, ficaram na crônica da vida literária.
No livro Um poeta singular,5 Renato de Lacerda reporta-se a uma palestra
com Bastos Tigre, em que este teria explicado os motivos que concorriam para
esse ambiente de boêmia literária, cuja fase final se prolongou até a primeira
década do século. Antes de tudo, a relativa despreocupação em que viviam,
não sendo a existência tão difícil e complexa como nos dias atuais. Depois o
vinho, importado diretamente em grandes garrafões de Portugal, era vendido
por preço relativamente baixo, sem o "batismo" que hoje se tornou freqüen­
te, e até os abstêmios tinham prazer em bebê-lo. E finalmente a carência de
diversões numa época em que pouca gente possuía automóveis e o cinema da­
va os primeiros passos. Acrescenta Bastos Tigre que, sendo os próprios recin­
tos dos cafés e das confeitarias exíguos, os intelectuais se reuniam amiúde em
outros lugares públicos, dando assim muito na vista suas tertúlias ruidosas,
próprias da mocidade.
Quanto à bebida, não queremos crer fosse apenas porque o vinho era bom,
mas principalmente pela ligação íntima que estabeleciam entre a literarura e o
álcool, na época. "Sim, bebíamos, mas lealmente, sinceramente" - dizia

4. "Dona Dolorosa'', estudo de Agripino Grieco, in Mundo Literdrio, 5�7�1923.


5. Renato de Lacerda, Um poeta singular, B. Lopes, 1909 (edição do autor}.
Martins Fontes.6 À distância, não nos parece muito autêntica essa sincerida­
de. Temqs a impressão de que os chamados "boêmios" não podiam beber tão
lealmente assim sem repetir Musset, Verlaine, Baudelaire. Sentimos-lhes a
preocupação de posar o espírito, de "literatizar" o trato cotidiano da existên­
cia. São epigramas, mots d'esprit, a propósito de tudo. Uma despedida, uma
chegada, e lá vêm as quadrinhas; uma troça, uma brincadeira, e nada se resol­
ve sem versos ou pelo menos sem trocadilhos. O que nos surpreende hoje é
como puderam muitos desses escritores realizar obras realmente apreciáveis,
quando se dispersavam tanto em viver a literatura. O verso, meio de expres­
são da poesia, servia também para o poeta gracejar com um amigo ou hostili­
zar um inimigo, responder a uma piada e até dar "facadas" nos amigos.7 Pelas
mesas dos cafés, verificava-se o desenvolvimento de grande atividade panfletá­
ria em verso. É Bastos Tigre agredindo num soneto a elegil.ncia de Guerra
Ouva!; é Bilac satirizando um medíocre qualquer; e Emílio de Meneses

6. Raimundo de Meneses, Emílio de Meneses, O último boêmio (2ª ed.), Edição Saraiva, São
Paulo, 1949.
7. Veja-se, como exemplo, este soneto, intitulado «Requerimento engrossativo mas sincero -
Hino à dentada!", que Emílio de Meneses dirigiu a Manuel Lebrão, dono da Confeitaria Colombo,
; ;
que possuía extraordinária paciência com os literatos freqüentadores do estabelecimento:

"Lebrão! Tu sabes que Confeitaria


a
Colombo é verdadeira sucursal
Da nossa muito douta Academia
Mas sem cheiro de emprésdmo oficial.

Cerca-te sempre a grande simpatia


De todo literato honesto e leal,
E tu te vais tornando dia a dia
O Mecenas de todo esse pessoal.

Nisto mostras que és homem de talento,


Que não cuidas somente de pastéis
Nem de lucros tirar cento por cento.

Atende, pois, a um dos amigos fiéis,


'
Que está passando por u1n mau momento
. !
E anda doido a cavar trinta mil-réis!..."

76 � CÁ Vida Literdriit·ho Brasil


"enterrando" as celebridades do dia com seus temíveis epitáfios - pura rema­
nescência de Laurindo Rabelo. Essas est.rofes ferinas, passando de boca em bo­
ca, exerciam sobre o indivíduo visado ação terrivelmente corrosiva, que hoje
já não podemos compreender. Medeiros e Albuquerque atribui a eleição de
Emílio de Meneses para Academia Brasileira ao medo;8 os acadêmicos que lhe
deram o voto teriam sido coagidos pelo receio que lhes causavam as sátiras
mordazes do poeta.
Custa-nos acreditar em semelhante atitude, em nossos dias, quando nin­
guém mais se intimida com tais armas. O que emprestava, então, força ex­
traordinária às poesias satíricas e aos epigramas era a pequena sociedade à
parte que os escritores formavam num Rio de Janeiro muito menor, e ainda
com certo cunho provinciano. Nos grupinhos de cafés e confeitarias, essas
perfídias encontravam grande ressonância, acumulando sobre a "vítimà' boa
carga de ridículo. Atualmente, morreriam no riso anódino de duas ou três
pessoas numa porta de livraria, se a poesia continuasse a ter curso como ins­
trumento de ataque pessoal.
Outro aspecto característico desse tipo de vida literária foi a superestima­
ção da anedota. Alguns boêmios pareciam mais empenhados em deixar ane­
dotas do que obras, conseguindo assim ficar na memória da posteridade atra­
vés das historietas que hoje deles se contam, evocando menos o homem,
na sua fisionomia verdadeira, do que uma espécie de mito cristalizado pelo
tempo, já que as anedotas são freqüentemente apócrifas.

João do Rio, no Cinemat6grafo, faz datar do início do século o aparecimen­


to das primeiras casas de chope no Rio. Começou com o estabelecimento do
Jacob (o alemão Jacob Wendling), à rua da Assembléia. "Alguns estetas, imi­
tando Montmartre" - escreve Paulo Barreto no livro citado -, ('tinham inau­
gurado o prazer de discutir literatura e falar mal do próximo nas mesas de
mármore do Jacob. Chegavam, trocavam frases de profunda estima com os
caixeiros, faziam enigmas com fósforos, enchiam o ventre de cerveja e estavam

8. Medeiros e Albuquerque, Minha vida, 2-2 vol., 2ª ed., Calvino Filho, Editor, Rio, 1934.

C A P Í T U LO IV bA 7 7
suficientemente originais. Depois apareceram os amigos dos estetas que,
em geral, desconhecem a estética, mas são bons rapazes."
Vê-s;, pois, que embora o estabelecimento fosse alemão, os intelectuais ali
se reuniam imitando Montmartre. As casas de chope proliferaram, na primeira
década do século, despertando a "rancorosa antipatià' de Artur Azevedo, que via
nelas um meio de distrair a freqüência dos teatros. Em 1 908, porém, já se acha­
vam em decadência. "Outro dia, ao passar pela rua do Lavradio" - escreve o
autor do Cinematógrafo -, "observei com pesar que em toda a sua extensão ha­
via apenas três casas de chope." E mais adiante: "Os chopes morrem. É como­
vedor para quantos recordam a breve refulgência desses estabelecimentos."
Mas o que os intelectuais, os estetas, como os chamava João do Rio, ha­
viam desejado durante muito tempo, fora um cabaré, um cabaré à moda do
Chat Noir e do Mirliton, onde pontificava a verve de Aristide Bruant, em
Montmartre. O Chat Noir tornara-se o mais ramoso dos cabarés parisienses
no jin de siecle, chegando a ter certa repercussão na literatura da época. Há to­
da uma vasta cr6nica sobre ele e essas duas sílabas tão significativas aparecem
nas memórias de inúmeros escritores franceses, principalmente no diário de
Maurice Donnay. O Chat Noir passou mesmo a editar um pequeno jornal
com esse título sob a direção de Rodolfo Salis, no qual colaboraram grandes
j ;
figuras como Villiers de l'Isle Adam, Léon Bloy, Verlaine, Jean Moréas,
Laurent Tailhade, Jean Lorrain, etc. Todo o esprit montmartroís, esse produto
específico de Paris, ali florescia nas suas expressões mais típicas.
Num dos números da revista Kosmos, em 1904, Gonzaga Duque confessa:
"O cabaré foi a nossa grande aspiração. Se não o tivéssemos, estávamos desmo­
ralizados, porque sujeitar-nos-íamos à vulgaridade do burguesismo." Era a as­
'
. :
piração bem própria de um simbolista; queriam um Chat Noir brasileiro para
ali se reunirem, como haviam feito Verlaine, Moréas e tantos outros poetas,
desdenhosos da vulgaridade, em torno do absinto, num ambiente propício.
Procuravam debalde, na "turba dos especuladores", quem quisesse dotat
o Rio de um desses estabelecimentos, que seria para os '1estetas" algo semew
lhante a uma torre de marfim. Esperaram durante muito tempo até que um
dia surgiu a notícia: acabava de fundar-se no Rio um Chat Noir, exatamen­
te nos moldes parisienses, tudo quanto havia de mais rive gauche, de mais
butte sacrée. A artista, dona do estabelecimento, apresentava-se travestida de

7 8 � <.A Vida Literdria íúJ'Brasil


Aristide Bruant, o célebre chansonnier do Mirliton, e eram por todos os can­
tos expressões de argot, a atmosfera, en�m, que os escritores e artistas tanto
desejavam. Foi um acontecimento. "la-se ao Chat Noir, como a um supremo
prazer de arte" - dizia João do Rio -, "e a voz da pítia daquela Delfos re­
citava sonolentamente as Névroses de Ro!linat e os trechos mais profundos de
Baudelaire e Bruant."
De quando em quando, em meio de cançonetas francesas, como a Batignolle
e a Craneuse, ouviam-se os acordes do lirismo caboclo da Casa branca da ser­
ra. Nessa ocasião, Bilac, que já parecia preocupado com a idéia da morte que
0 atormentou nos últimos tempos, escrevia na Gazeta de Notícias que o Chat
Nair ia desmoralizar a morte. "Ainda ontem, naquela salinha cheia de dese­
nhos trágicos" - considerava ele-, "vi muito mocinho triste e muito velho
anquilosado a ouvir com sorrisos a 'apoteose da morte jovial'; adiantava que
um poeta de suas relações estava compondo uma canção destinada a fazer um
retumbante sucesso no Chat Noir" (intitular-se-ia O quilômetro 65); e con­
cluía: "Já temos no Rio de Janeiro um lugar onde se pode confortavelmente
rir da morte." Porque o ambiente apresentava um aspecto satânico, um clima
baudelairiano, e o próprio Bilac colaborou no repertório do Chat Noir, com
a Canção do dia. 9
Não durou muito tempo, apesar disso, o arremedo do famoso cabaré pa­
risiense. Segundo João do Rio, o Chat Nair teria morrido por falta de dinhei­
ro. Mas parece mais exata a versão de Gonzaga Duque, no artigo citado: surgiam
rixas, desordens, a polícia começou a intervir com freqüência e o estabeleci­
mento desmoralizou-se. Os "estetas'', que lhe emprestavam um cunho esnobe
e requintado, começaram a afastar-se; o Chat Nair não tardou a cerrar as por­
tas. Mas dele, como dos chopes do Jacob, ficou uma herança. Em pouco,
entraram a proliferar os cafés-concerto e os "cabarés" pela cidade. E para se
avaliar a repercussão, entre nós, do prestígio parisiense do Chat Noir, basta ver
o seguinte: na velha capital de Goiás, naquelas distâncias do Brasil Central,
ainda encontrávamos, em 1 9 1 1 , um bar com essa denominação. É o que ve­
rificamos na correspondência familiar do escritor goiano Carvalho Ramos,
apensa ao volume de suas Obras completas. Em carta à irmã, datada de 24 de

9. Eloy Pontes, A vida exuberante de OI.avo Bilac, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1944.

C A P Í T U LO IV �79
maio daquele ano, escrevia ele: "Este é o modo de viver sensato, natural, na
opinião de todos, de um rapaz desocupado ou de um estudante em férias:
beber qÚalquer droga inferior que seja no Chat Noir."

Além dos cafés, as livrarias eram os pontos de reuniões dos escritores. E en­
tre todas se destacava, como a mais freqüentada, e realmente a primeira, sob
qualquer aspecto, a Garnier. "A Sublime Portà' denominavam-se os umbrais
do famoso estabelecimento. ('Atravessá-là' - escrevia João Luso10 - "represen­
ta já um primeiro êxito, qualquer coisa como transpor de um passo resoluto
e heróico o marco da estrada simbólica, pata aquém do qual tudo é obscuri­
. '
1 dade, para além do qual tudo é consagração. Como geralmente se sabe e a to­
1! do momento se repete, o grande público da rua do Ouvidor adota um siste­
1; ma especialíssimo de satisfazer as suas necessidades de arte e de ideal. Foi ele
quem descobriu, pertence-lhe, nenhum outro público do mundo teria cora­
gem de lho disputar. E aliás, nada mais fácil é o ovo de Colombo; cumpria, po­
rém, tê-lo achado num momento de ditosa e radiosa inspiração. Consiste es­
se magnífico sistema em avançar lentamente, despreocupadamente para os
i ; mostradores da Garnier; lancear pelos vient de parattre duramente apertados
na sua capa amarela e amontoados em colunas de inabalável solidez, um olhar
de quem apenas se distrai e não acha que pata outra coisa possam servir os li­
vros e os autores; esbarrondar contra a vidraça duas ou três fumaças enérgicas
do cigarro que se ia apagar; e passar adiante a considerar com o mesmo des­
fastio recreativo a vi trine dum ourives, duma modista ou dum merceeiro.''
"Ficar ali de perna trançada, o ombro contra o batente, as duas mãos soli­
damente apoiadas no castão da bengala, eis a decisiva demonstração de talen­
to ou de valor que a história exige para conscientemente se pronunciar. Parar
àquela soleira ilustre, é indicar aos séculos vindouros a atitude da própria
estátua; é posar para a posteridade. A Academia por ser exclusivamente de le­
tras não pode dar, no seu seio restrito, lugar a todos os imortalizáveis; além
disso, dispõe apenas de quarenta cadeiras, em cada uma das quais se pode sen-

10. ''A sublime porra", artigo in Kosmos, novembro de 1908.

8 O t;::q c....A Vida Líterdria-izv Brasil


tar apenas um gênio; ao passo que a porta da Garnier, onde os vultos se po­
dem continuamente revezar, corresponde a um espaço ilimitado, independen­
te de eleições, sem poltronas embaraçosas, sem as insígnias do sr. Rodrigo
Otávio atravancando a apoteose dos eleitos. A porta da Garnier amplia a
Academia, ao mesmo tempo que repara as injustiças devidas à sua insuficiên­
cia. Se a Porta desaparecesse, a Academia sucumbiria no dia seguinte, pela lei
física de que nunca o conteúdo pode ser maior do que o continente. Reben­
taria como uma bexiga na qual se sopra demasiadamente ou afundaria como
um navio no qual se mete excessiva carga: em todo caso era uma vez a Acade­
mia... Por isso, a Academia estima e respeita a porta."
E Gina Lombroso Ferrero, no livro Nell'America Meridionale (Brasile -
Uruguay - Argentina), que publicou pouco depois da sua estada no Brasil em
1907, escreveu: ''A Livraria Garnier, do Rio, não é, na verdade, um simples esta­
belecimento comercial, mas um clube, uma academia, uma corte de mecenato."
Ali podia ser visto aquele que nunca andara pelos cafés e confeitarias:
Machado de Assis. Costumara outrora fazer ponto na Livraria Lombaert; de­
pois tornara-se comensal da Revista Brasileira, onde todas as tardes se reuniam
ao lado do mestre José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Coelho Neto, Taunay,
Nabuco e outros. Dessas tertúlias acompanhadas de um chá com torradas nas­
cera, como se sabe, a Academia Brasileira. Foi com o fechamento da Revista,
em 1899, que o grupo se transferiu para a Garnier. No dia 1 9 de janeiro
inaugurou esta o imponente edifício, até há pouco ocupado pela Livraria
Briguiet, oferecendo a todos os convidados um volume de Machado de Assis,
com a assinatura do autor. O romancista tornara-se uma das glórias da casa.
Para ali se dirigia, todos os dias, depois de encerrado o expediente no minis­
tério. Recebido respeitosamente, via-se logo cercado de atenções e de interesse.
Tinha uma cadeira que lhe era reservada, e, de pequena estatura, não se des­
tacava em meio dos confrades e admiradores, entre os quais se encontravam
sempre José Veríssimo e Mário de Alencar.
Assim o descreve Afrânio Peixoto n'A esfinge: "Frágil de compleição, min­
guado de corpo, severamente vestido, falando pouco, hesitante e às vezes gago,
reflexo material de grande reserva, ele ali ficava horas inteiras, observando aque­
la gente a exibir vaidades, a espostejar reputações, miúda e clamorosa. Na ironia
tranqüila que andava por seus olhos malinos, não se podia adivinhar se era de

C A P Í T U L O IV � 8 l
piedade dos algozes ou de simpatia pelas vítimas... talvez compassividade
de quem duvida se vale a pena o sacrifício de tanta agitação estéril... Somente
lá distante, nos mostradores e armários, ele se afirmava na confiança serena
de seu gênio, naqueles volumes todos que trazem o seu nome e o levarão por
diante. . . Brás Cubas... Memorial de Aires... Vdrias histórias... Dom Casmurro... '11
Até pouco antes de recolher-se definitivamente ao leito para morrer, o ro­
mancista não deixou de "assinar o ponto" na Garnier. Nos últimos tempos,
saía freqüentemente acompanhado por Mário de Alencar, de quem se separa­
va no largo do Machado.
Mas havia outras rodas na Garnier: a dos simbolistas, que se uniam aos
anarquistas e socialistas, na mesma atitude de hostilidade ao autor de Quincas
Borba12 e na qual se agrupavam Gustavo Santiago, Rocha Pombo, Múcio

1 1 . Afrãnio Peixoto, A esfinge, pág. 341 (6ª ed.), Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1940.
12. A propósíto, escreveu�me Andrade Muricy: "1Cndo freqüentado pessoalmente a todos os
intelectuais ali enun1erados, com exceção de Curvelo de Mendonça, creio poder assegurar�lhe
que não era uma antipatia etn cornum afinnada contra Machado de Assis que os reunia. Nem
mesmo era isso preocupação que desse na vista. Da parte dos simbolistas havia 'queixa', mágoa
pelo fato de Machàdo manter-se, não somente, como está no seu livro, 'acima das intrigas e

. i
dos mexericos peculiares aos círculos de escritores', porém alheio aos movimentos, que hoje
; ; sabernos terem sido perfeitamente legítimos, que vinham dar interesse mais complexo às nos­
'
sas letras e até sincronizá-las com a sua contemporaneidade mundial, quando o Naturalismo e
• !
o Parnasianismo eram abalados pela brilhante falange dos simbolistas e dos impressionistas eu­
ropeus, e aqui tidos por nefelibatas aqueles que encarnavam as novas tendências, cuja validade
nem sequer avaliavam aproximativamente. Reconheceu-o recentemente Alceu Amoroso Lima,
no seu Quadro sintético da literatura brasileira, quando escreve: 'Basta ver como o simbolismo
de 1890, ou mesmo de 1900, foi conservado à margem e os seus maiores representantes sis­
tematicamente afastados da Academia, em 1897 (Cruz e Sousa estava então no auge de um
imenso prestígio em todo o território nacional, como documenta o meu Panorama), que pre­
tendia ser, con10 quase foi - salvo esse erro capital dos maiores, como Machado de Assis ou
Joaquim Nabuco -, uma seleção de roda a elite intelectual da época. O simbolismo foi con­
siderado, pela gerontocracia parnasiana, naturalista, ou simplesmente intelectual, coino sendo
uma minoria desprezível.' (Pág. 106.) O ressentimento dos simbolistas não era caso de an­
tipatia ou de política literária, mas inevitável manifestação do próprio instinto de conservação.
Prova é que foi possível aos adversários dos simbolistas mantê-los num melancólico limbo até
nossos dias, quando ainda a crícica se não abalançou a um estudo sério de tantas e tão curiosas
personalidades, lirnitando-se a reconhecer, afinal, a extensão e a profundidade do movimento,
o que já representa um coineço da inevitável reabilitação, co1no quase sen1pre tardia para os in­
justiçados. f necessário !ernbrar essas circunstâncias para não julgar aquela gente em função da

8 2 � v1 Vida Literária.-no Brasil


Teixeira, Pedro Couto, Fábio Luz, Curvelo de Mendonça, Nestor Vítor e ou­
tros. Para essa roda pendia João Ribeiro, segundo nos informa Luís Edmundo.
Fazendo as honras da casa, ali estavam o francês Lanzac, que desde a mor­
te de Hyppolite Baptiste Garnier dirigia o estabelecimento, e o caixeiro prin­
cipal, Jacinto.
Embora Machado de Assis se colocasse acima das intrigas e dos mexericos
peculiares aos círculos de escritores, no fundo não devia apreciar muito aque­
le recinto, onde os intelectuais se cruzavam e tropeçavam uns nos outros.
Daí uma secreta preferência pela Livraria Quaresma, à rua São José, só fre­
qüentada com mais assiduidade por Alberto de Oliveira, Catulo Cearense
e João Ribeiro. Todos os dias, a caminho do Ministério da Viação, o mestre
não deixava de fazer ali uma pequena parada, tendo confidenciado, certa vez,
ao gerente José de Matos: "Sabe? Gosto mais de sua casa porque é silenciosa,
não há aquele zunzum da Garnier... "13
Na Livraria Briguiet, à rua Nova do Ouvidor, costumavam aparecer o ba­
rão Homem de Melo, grande figura do Império, com suas longas barbas en­
canecidas e sempre de sobrecasaca, Artur Orlando, Pandiá Calógeras, Graça
Aranha, Cindido de Oliveira e principalmente Rui Barbosa, depois de percor­
rer as outras livrarias e farejar os alfarrabistas.
À porta da Laemmert, também na rua do Ouvidor, apareciam Figueiredo
Pimentel, Jarbas Loretti, Elísio de Carvalho e, depois de 1 903, um dos mais
notáveis editados da casa: Euclides da Cunha.
Na Livraria Azevedo, à rua Uruguaiana, podiam ser vistos Carlos de Laet,
Fausto Barreto, Hemetério José dos Santos, Castro Lopes: a roda dos gramá­
ticos e dos professores.
E entre os alfarrabistas, como se chamavam então os livreiros antiquários,
os donos de sebos, destacava-se a figura do velho João Martins, português de
nascimento, com sua loja à rua General Câmara, e que merece referência mais
detalhada neste capítulo.

genialidade de Machado de Assis, mas da certeza de que se este se preocupasse com o aspecto
representativo da Literatura, eles e o movimento de repercussão mundial que aqui represen�
tavam poderiam ter tido um pouco de ar para respirar e um lugar ao sol."
13. Informação de Carlos Ribeiro.

C A PÍ T U L O IV � 8 3
Foi um tipo bem curioso de esquisitão, lembrando certos livreiros d o
cais d o Sena - remanescência pitoresca do Rio Imperial. Nascido na ilha
da Madei'ra, em 1840, veio para o Brasil muito jovem em busca de fortuna,
como tantos outros patrícios. Na terra natal já havia abandonado os estudos
depois do curso primário para dedicar-se ao comércio. Ao chegar ao Rio,
trazia apenas quatro libras no bolso, compensadas naturalmente por um
!inimo forte e a melhor disposição para lutar. Trabalhou primeiramente em
várias livrarias, como a de Cruz Coutinho e de José Maria de Lacerda; e n o
ano d e 1 871 se estabelecia com um pequeno sebo, à rua d o Parto (atual São
José), que já então centralizava esse gênero de comércio no Rio. Passou de­
pois para a rua Uruguaiana e finalmente para a General Câmara, 345, onde
instalou a livraria na parte da frente, vindo a residir com a família nos fun­
dos, no primeiro andar.
Ali se foram acumulando os volumes: raridades bibliográficas de toda espé­
cie transbordavam das estantes, sob camadas de p6, em pilhas que dificulta­
vam os movimentos dos fregueses. Dedicava-se João Martins de corpo e alma
ao estabelecimento, mas não encarava a profissão apenas pelo lado comercial;
tornara-se um grande entendido em assuntos bibliográficos e a ele recorriam
para resolver problemas dessa ordem muitos eruditos e pesquisadores. No sé­
culo XIX tinham freqüentado a loja José Feliciano de Castilho, Castro Lopes,
Afonso Pena, Salvador de Mendonça, o visconde do Rio Branco e outros co­
mo João Ribeiro, Rui Barbosa, Capistrano de Abreu, Leão Veloso, que nela
continuavam a ser vistos no começo do século XX.
Não somente livros velhos, como in-f6lios, manuscritos, se empilhavam

; ; na casa do velho Martins, papéis comidos de traça, comprados quase de gra­


ça, em vastos lotes, onde se vinham encontrar por vezes verdadeiras preciosi­
' i
dades. Assim foram descobertos ali os originais da História do Brasil de frei
Vicente do Salvador, doados pelo alfarrabista à Biblioteca Nacional, e um exem­
' l
plar raríssimo da Mauriciade, oferecido pelo mesmo ao Instituto Histórico.
Aliás, Melo Morais Filho costumava dizer que até 1880, mais ou menos, não
1
. ' se fazia caso de manuscritos e impressos no Rio; ficava-se até grato a quem os
1 '
. : pedia, limpando as gavetas e arcas de família de papéis amarelecidos pelo tem­
po. A vocação de alfarrabista de João Martins prevalecera-se, certamente, des­
. ! sa mentalidade. Mas de quantos livros raros e valiosos lhe foram ter às mãos,

84 � L/Í Vida Literária _no_,_flrasi!


por ínfimo preço, se valera para servir o interesse de eruditos, dos quais se fa­
zia freqüentemente amigo.
Vivendo sempre entre velharias, alheara-se, pouco a pouco, da cidade que
se expandia em torno. E passara a detestar o progresso, esse progresso mate­
rial e técnico, cujas inovações vinham distrair o povo da leitura. Enclausurado
na loja em que residia, negava-se a tomar conhecimento do que se desenrola­
va lá fora, especialmente das lutas políticas. Rasgou-se a avenida, puseram-se
abaixo centenas de prédios, os automóveis começaram a buzinar pelas ruas,
surgiram os primeiros cinematógrafos. O velho Martins, numa teimosia irre­
dutível de excênrrico, não quis jamais conhecer a avenida, a poucos passos do
local onde morava, nem se permitiu a heresia de entrar num cinema. Da de­
formação produzida em seu espírito por esses hábitos sedentários dá-se um
exemplo que, por ser anedótico, não será menos significativo. Vendo os livros
se amontoarem na loja, cujo recinto se ia tornando insuficiente para compor­
tá-los, os filhos do alfarrabista resolveram instalar no prédio ao lado, o 355,
um depósito. O empreendimento correu à revelia do pai, que não pôde ne­
gar-se, entretanto, a assistir à inauguração das novas dependências. Saiu do
número 345, e ao chegar ao 355, exclamou, surpreso, voltando-se para os
filhos: "Mas vocês vieram para tão longe !..."14
Assim, fiel ao passado, aos in-fólios e aos livros velhos com que ganhara
a vida, morreu João Martins já octogenário, por volta de 1 928, numa indife­
rença hostil ao progresso e ao mundo novo que surgia.

14. Informação de Carlos Ribeiro.


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ÍTU LO V
11 lZt C
AP

cAgremiações literdrias _, A Imprensa e a Academia dos Novos _,


Ofracasso da "Goncourt" brasileira _, <Ásociedade brasileira dos homens
de letras e seu programa _, "cAmuralha que definderd o pomar onde em
sonhos desabrochamos"

uando foi criada a Academia Brasileira, Paula Nei tentou de seu


lado fundar outra com os elementos que não haviam entrado na­
quela. A tentativa fracassou, mas a idéia parece ter permanecido.
Aliás, se a Academia Brasileira se havia constituído pelo modelo
francês da Casa de Richelieu, era natural, que aqui também, como na França,
surgisse a réplica de uma Goncourt.
Em agosto de 1 9 1 1 , o jornal A Imprensa, de Alcindo Guanabara, lança a ini­
ciativa dessa Goncourt brasileira. Seria a Academia dos Novos, composta de dez
membros efetivos e vinte correspondentes, um de cada estado. A Imprensa se dis­
punha de início a subvencionar o salão para o funcionamento da academia, acei­
tar a colaboração remunerada dos acadêmicos e editar-lhes os livros mediante cer­
tas condições. Os membros seriam eleitos por um plebiscito entre os intelectuais
convocados pelo jornal. 1 A realização do pleito foi marcada para 1 1 de agosto, e
parece ter havido certo movimento de interesse nas rodas literárias.

1. Damos em seguida a lista dos intelectuais aos quais foram dirigidas circulares, convidando�
os para o plebiscito: Antônio Sales 1 Aderbal de Carvalho J Alvarenga Fonseca 1 Artur Dias 1
Alberto Silva 1 Alfredo Brito 1 Antônio Ausuegésilo 1 Alberto Ramos 1 Aníbal Amorim 1 A. S.

C AP Í TU L O V � 8 7
Em artigo de 12 de agosto n'A Imprensa, sob o pseudônimo de Antônio
Simples, José do Patrocínio Filho, provavelmente um dos promotores do em­
preendi�ento, expunha o sentido da nova academia no "atual momento" da
literatura brasileira, procurando concluir do critério que deveria presidir à
eleição dos membros . Esse artigo é particularmente curioso pelo fato de já en­
contrarmos reclamos de renovação em termos um tanto semelhantes aos que
iriam constituir mais tarde os slogans modernistas.
Num tom meio à la diable, Patrocínio procurava resumir a evolução literá­
ria do Brasil, mostrando como havíamos passado do romanrismo para o par­
nasianismo, deste para o simbolismo até aquele momento, no qual surgiam as

i '.
Castro Meneses 1 Agenor Carvoliva 1 Amorim Júnior j Álvaro Pais 1 Arlindo Leal 1 Agrippino
Grieco 1 Agripino Nazaré 1 Alcides Maia 1 Adelmar Tavares f Augusto dos Anjos 1 Adoastro de
i ! Godói 1 Abner Mourão 1 Álvaro Moreyra 1 Aníbal de Matos 1 Alberto Nunes 1 A. G. Cardoni 1
' ; Aristides Rabelo 1 Amaral Ornelas 1 Afonso Duarte de Barros 1 Álvaro Colás 1 Aloisío de Castro 1
Américo Facó 1 Afonso Lopes de Almeida 1 Alcibíades Furtado 1 Aluísio França 1 Araújo Jorge 1
Adernar Barbosa Romeu ! Artur T hiré 1 Álvaro Fontes 1 Arnardo Pereira ! Antero de Vasconcelos
1 Artur Lemos 1 Alfredo Gomes J Alfredo Sarandi Raposo 1 Afonso Duarte de Barros J Álvaro
Bomilcar 1 Augusto de Lima Júnior 1 Alfredo Guanabara 1 A. Gasparoni 1 Armênio Jouvin 1
Agenor de Roure [ B. Lopes 1 Bueno Monteiro 1 Batista Cepelos 1 Bolívar Bastos 1 Bandeira
Filho 1 Bastos Tigre j Barão de Paranapiacaba l Batista Júnior 1 Carlos Porto Carrero 1 Curveio
de Mendonça 1 Colarino Barroso 1 Chichorro da Gama 1 Celso Vieira 1 Cândido Campos 1
Costa Rego 1 Carlos Maul 1 Cipriano Lage 1 Carvalho Guimarães 1 C. Tavares Bastos 1 Carlos
Humberto 1 Carlos Leite 1 Cândido Binencourt 1 Costa Macedo 1 Castro Pinto j Constâncio
Alves 1 Cardoso de Oliveira 1 Cunha Mendes 1 Carlindo Lélis 1 Carlos Leal 1 Dunshee de
Abranches 1 Da Costa e Silva 1 Domingos Magarinos 1 Domingos Ribeiro Filho 1 Da Veiga
Cabral 1 Deoclides de Carvalho 1 Dario Leite de Barros 1 Demétrio de Toledo 1 Deodato Maia
1 Daltro Santos 1 Dias de Barros 1 Domingos Barbosa 1 Emílio de Meneses ! Ernesto Sena 1
Ernesto Luís de Oliveira 1 Evangelista da Silva 1 Elísio de Carvalho ! Eurides de Matos [ Ernâni
Rosas 1 Eugênio de Leios 1 Elói Pontes 1 Eduardo Nazareno 1 Eduardo Machado 1 Eduardo
Salamonde j Emílio Alvim 1 Edmundo Rego [ Euclides Teixeira 1 Farias Brito 1 Fausto Barreto
1 Fábio Luz 1 Félix Pacheco 1 Floriano de Lemos 1 Felipe d'Oliveira 1 Faria Rocha 1 Figueiredo
Pimentel 1 Floriano de Brito 1 Frota Pessoa ! Franco Vaz J Fortunato de Medeiros J Fernando
Soares Brandão 1 Francisco Guimarães ! Generino dos Santos 1 Gastão Bousquet j Gastão
Tibiriçá 1 Gusravo Santiago 1 Gonçalo Jácomo 1 Goulart de Andrade 1 Gusravo de Aguillar
Pantoja 1 Goulart de Oliveira 1 Gastão Rodrigues j Heznetério dos Santos j Heitor Modesto 1
Humberto Gottuzzo 1 Heitor Beltrão 1 Hermes Fontes 1 Holanda Cunha J Heitor Lima !
Hermeto Lima 1 Hélio Lobo ) Henrique Silva 1 Henri Leonardes J Homero Batista 1 Hugo Mota
1 Isaías de Oliveira j Isidro Nunes J Inácio Raposo / Isidoro de Castro 1 Jai1ne Guimarães 1 José

8 8 � t.A Vida Literdritt'-no Brasil


manifestações de uma inspiração nova. Era bem expressivo seu protesto contra
0 simbo lismo nesse ano de 1 9 1 1, em que a estética dos Maeterlinck e dos
Rollinat dava os últimos frutos entre nós. A vida seria apenas essa coisa lamen­
tável e dorida que um Emiliano Perneta, um Gustavo Santiago, um Batista
Cepelos, o u - "num misticismo comovedor" - um Alphonsus de Guimaraens
ou um Pereira da Silva exprimiam?, interrogava ele. Onde ficava então a "glória
eterna da natureza?". "E a esperança imortal do homem? E a obra triunfal da
evolução eterna, realizando-se paralelamente a todas as desventuras?" Dar-se-ia
o caso - interrogava, logo adiante - se não fôssemos mais do que uma "gente
ansiosa e soluçante, tão irremissivelmente abatida pela existência que nem sequer

Vieira 1 J. Brito 1 Jacobino Freire 1 Júlio Salusse 1 João Luso \ Jaime Lessa 1 João Pereira
Barreto 1 José do Patrocínio Filho 1 Júlio Porto Carrero 1 José Mariano Filho 1 Joaquim Eulálio
1 José Oiticica 1 José Artur Boiteux 1 J. Barreiros 1 J. H. de Sá Leitão 1 Joaquim Viana 1 Jaime
Ferreira de Vasconcelos 1 Jorge Jobim 1 J. B. Macedo Guimarães 1 J. C. Delfino 1 João Neiva 1
J. J. César ! Joaquim de Sales 1 Lima Campos 1 Leal de Sousa 1 Luís Guimarães ! Luís de Castro
1 Leôncio Correia ! Luís Silva 1 Liberato Bittencourt 1 Leopoldo Brígido 1 Luís Edmundo 1
Ludovico Lins j Luís Pistarini 1 Lima Barreto 1 Luís Francisco 1 Ludgero Feital J Lafayette
Corres l 1.audeli no Freire 1 Lindolfo Xavier 1 Lindolfo Azevedo 1 Luís Loureiro 1 Leopoldino
Guimarães 1 Luís Mariano 1 Levy Autran 1 Mário Pederneiras 1 Múcio Teixeira 1 Maximiano
Maciel 1 Max Fleiuss 1 Manuel Duarte 1 Marques Pinheiro 1 Miguel Melo 1 Martins Fontes 1
Mateus de Albuquerque 1 Mário Guaraná J Morais Júnior 1 Mauro Pacheco 1 Mauro Carmo 1
Manuel Benício 1 Mário Pinto de Sousa 1 Miguel Monteiro 1 Miranda Rosa 1 Marcelo Gama 1
Mário Bhering 1 Mário Brant 1 Macedo Soares 1 Moreira Guimarães 1 Mário Bulhão 1 Mendes de
Aguiar 1 Melo Morais Filho 1 Morais Rego 1 Miguel Santos 1 Mário Hora 1 Maurício de Medeiros
1 Mário Gameiro 1 M. Monteiro 1 Mário Vilalva 1 Marcondes do Prado 1 Mário de Brito 1
Miguel Tavares 1 Nestor Vítor 1 Nogueira da Silva 1 Nazaré Meneses 1 Nuno de Andrade 1
Napoleão Reis 1 Noronha Santos 1 Norival Lemos 1 Osório Duque-Estrada 1 Oscar Guanabarino
1 Oscar Rosas 1 Oliveira Gomes 1 Oscar Lopes 1 Olegário Mariano 1 Osório Outra 1 Otaviano
Reinhelt 1 Otávio Silva 1 Óton do Amaral Henrique 1 Otávio Rodrigues 1 Otávio Tavares 1
Otaviano Nunes J Otávio Augusto J Oto Prazeres 1 Pedro do Couto ! Pereira da Silva [ Pinheiro
Viegas 1 Pena e Costa 1 Paulo Araújo 1 Pausílipo da Fonseca 1 Paula Chaves 1 Pinto da Rocha 1
Plínio Borgeco 1 Rocha Pombo 1 Raul Pederneiras 1 Rafael Pinheiro 1 Roberto Gomes 1 Ricardo
de Albuquerque 1 Rafael Holanda 1 Raul Maranhão 1 Rodolfo Machado 1 Reis Carvalho 1
Rubem Tavares 1 Raul Cintra 1 Solfieri de Albuquerque 1 Serafim França 1 Sebastião Sampaio 1
Sílvio Romero Filho 1 Tibúrcio de Freitas [ Tito de Barros 1 Teófilo de Albuquerque 1 Tomé Reis
1 Teodorico de Brito ! 'feixeira Mendes 1 Ternudo Lessa j Teixeira e Silva 1 Teotônio Torres [
Ulisses Sarmento 1 Uldarico Cavalcanti j William Schow 1 Virgílio Várzea j Vieira Fazenda 1
Vítor Viana j Vitorino de Oliveira 1 Virgílio Domingues 1 Xavier Pinheiro.

C A P Í T U L O. -Y l;;:P9 8
.. .
9
a pudéssemos ver sob todos os seus aspectos?". Não. Já estavam chegando ou­
tros P?etas, outros escritores ) enriquecendo de uma seiva nova nossa literatu­
ra. E apontava alguns deles numa identificação que não seria na totalidade dos
casos ratificada pelo futuro. Pois se o autor acertava ao reconhecer o talento
nascente de Marcelo Gama, de Alcides Maia, de Humberto de Campos, o con­
tingente que eles vinham trazer para as letras brasileiras aludia igualmente a
Domingos Ribeiro Filho e Alfredo Sarandi Raposo, a João Pereira Barreto, no­
mes de que a posteridade não romaria conhecimento.
Mas, nessa hora de efervescência intelectual, como decidir? Quem saberia
,,
dizer quais '<os legítimos representantes do momento ) talvez o mais intenso
que a literatura brasileira até então atravessara? "Pórtico da última consagra­
ção das nossas letras" - concluía Patrocínio -, "a nova academia devia re­
presentá-lo escrupulosamente, para que não falhasse o pensamento que a ins­
,,
tituíra. Era preciso que os novos acadêmicos traduzissem de fato as várias
correntes literárias daquela hora. Mas quais seriam eles? That is the question... ,
: ! : limitava-se a conjeturar o escritor.
O pleito realizou-se na data marcada, 1 1 de agosto, presididos os trabalhos
por uma mesa eleita por aclamação, composta de Xavier Pinheiro, Carlos

; ;
Maul e do "jovem poetà' Agripino Grieco. Foram levantadas várias prelimi­
'
nares, suscitando fortes discussões entre José do Patrocínio Filho, João Pereira
• !
Barreto, Alberto Nunes e outros.
A votação decorreu num ambiente agitado, sob o rigoroso controle da assem­
bléia, sendo eleitos para a comissão apuradora os escritores Bueno Monteiro,
Plínio Borgeco, Antero Vasconcelos, Jacobino Freire e Da Costa e Silva. O re­
sultado foi o seguinte: Bueno Monteiro - 31 votos; Emílio de Meneses -

24 votos; Alberto Nunes - 1 8 votos; Rocha Pombo - 1 8 votos; Félix


Pacheco - 1 6 votos; Goulart de Andrade - 1 6 votos; José do Patrocínio
Filho - 16 votos; J. Ferreira de Vasconcelos (Fausto Brasil) - 1 6 votos;
. ' Gastão Tibiriçá - 1 5 votos. Esses ficariam constituindo os dez membros da
academia. Francisco de Assis Barbosa lembra o fracasso de Lima Barreto que
'
. '
1 '
'
não conseguiu mais do que cinco votos. Era uma injustiça clamorosa. Mas ou­
tros escritores de grande mérito também foram preteridos por figuras de cujo
. ' valor literário ninguérn até hoje teve notícia, como Bueno Monteiro, Alberto
• 1
Nunes, Ferreira de Vasconcelos.

9 O � lA" Vida Llterd;7;·· no Brasil


No dia seguinte a Gazeta da Tarde dizia ter recebido a visita de um imor­
tal da nova academia, que viera declarar ter havido fraude na eleição. À última
hora apareceram vinte e sete eleitores cujos nomes não constavam na relação
estabelecida e que tiveram os votos clandestinamente distribuídos entre Bueno
Monteiro, Gastão Tibiriçá, Alberto Nunes e "um tal" Ferreira de Vasconcelos
- dizia o reclamante, citando os nomes dos vinte e sete eleitores, entre os
quais figuravam Augusto de Lima Júnior e Agenor de Roure. E o "acadêmico",
cuja identidade o jornal não revelava, declarava-se disposto a renunciar, caso
não fosse feita nova apuração. A Imprensa, noticiando o protesto, defendia-se
da parte que lhe pudesse tocar nessas acusações. Tomara todas as providências
para que o pleito procedesse livre e honestamente, isento de chorrilhos. Não
alimentara, porém, a presunção de consegui-lo plenamente. O sufrágio, mes­
mo em literatura, tinha seus percalços. Em todas as academias encontram-se
indivíduos menos fortes. Acrescentava tratar-se de uma controvérsia que o no­
vo sodalício agora constituído devia dirimir. Infelizmente a Goncourt brasi­
leira nem chegara) como não chegaria, na realidade) a constituir-se. Encon­
traria seu fim no próprio descontentamento suscitado pelo pleito. E um duelo
frustrado entre Patrocínio Filho e Ferreira de Vasconcelos marcaria o desfecho
grotesco dessa bela tentativa. 2
Em 1 9 14 volta a agitar-se a idéia da fundação de uma academia literária
no Rio. Mas se o modelo da primeira havia sido a Academie Goncourt,
o desta agora era a Société des Gens de Lettres, fundada em Paris nos mea­
dos do século XIX, com o propósito de defender os direitos autorais dos es­
critores. A idéia parece ter sido lançada por Oscar Lopes, numa crônica de

2. Qual o motivo do duelo frustrado entre Patrocínio Filho e Ferreira de Vasconcelos?


Naturalmente as reclamações veiculadas pela Gazeta da Tarde contra o pleito. No número d'A
Imprensa de 13 de agosto de 1911 encontramos uma pitoresca e movimentada descrição das
circunstâncias em que fracassou esse duelo. f uma página viva de reportagem da autoria, cer­
tamente, do próprio Patrocínio Filho com o enxerro de imaginação que jamais dispensaria em
trabalhos desse gênero.
Tudo principia numa atmosfera romanesca, cheirando a Ponson du Terrail. Às primeiras horas
da noite a correr, entre os intelectuais e artistas que faziam ponto nos cafés da avenida, a notí­
cia sensacional , Panocínio Filho, dando-se por ofendido, enviava suas testemunhas, Goulart de
Andrade e Costa Rego, a Ferreira de Vasconcelos. Seria um duelo a espada. Dizia-se que a polí­
cia já estava avisada e fã.ria tudo para impedir o encontro. Outros asseguravam que os adver-

C A P Í T U I,. Q___ y,� 9 1


J O de maio, ri O País, em que clamava ele contra a constante exploração dos
intelectuais pelos editores. Ninguém lê no Brasil - dizem os editores e os li­
vreiros. O comércio de livros é precário - afirmam os negociantes e todo
mundo acredita nisso. No entanto - observa o escritor - há cinqüenta anos
o público paga caríssimo pelo livro e os autores o vendem por meia pataca.

sários não compareceriam, versão rejeitada por alguns no que se referia a Patrocínio Filho.
Jamais deixaria ele de comparecer; não era aquele seu primeiro duelo, já tivera ocasião de se
bater em Paris.
O repórter prossegue carregando nas tintas. A noite decorria tenebrosa, bem à feição dos dra­
malhões. No Café Suíço aguardavam a madrugada. Entrara a chover, a inquietude aumentava.
Eis que, por volta das quatro horas, surge um automóvel amarelo, dentro do qual se distingue o
. l '
1 '
vulto de Patrocínio, em companhia das testemunhas. Salta do carro, dirige-se à redação d'A

:1 .
!! Imprensa, situada nas imediações do Café Suíço, apanha um embrulho, e retorna ao veículo, que
' !
parte a roda velocidade. Os repórteres tomam outro carro e procuram segui-lo, mas perdendo-o
' ; de vista, continuam na direção da zona sul, onde devia efetuar-se o encontro. No caminho são
abordados por uma viatura da polícia e interrogados a respeito do duelo, sobre o qual não sabem
dar informação alguma. No momento em que chegam a Ipanema também ali aparece um auto­
transporte da guarda-civil, trazendo o delegado Solfieri de Albuquerque. A polícia e os jornalis­
tas dão batida por vários recantos do bairro, sem conseguir localizar os contendores.
i ;
Finalmente no Leme surge a figura misteriosa de Patrocínio Filho (e aqui a reportagem con­
'
tinua com ar de narrativa cada vez mais rocambolesca). Intervém o agente Lima, da polícia, e
Patrocínio acaba encaminhando-se à delegacia a fim de dar explicações ao dr. Eurico Cruz. Lá
declara apenas que fora a Ipanema para uma ceia, com um amigo recém-chegado da Europa,
não havendo cogitado de duelo algum. O delegado se satisfaz com as explicações e o pseudo­
espadachim retira-se burguesmente à casa. Tudo seria motivo de riso nessa história se Américo
Facó, que vinha no automóvel de Solfieri de Albuquerque, não fosse vítima de um ligeiro aci­
dente numa curva apertada em Botafogo.
A mistificação de Patrocínio Filho, porém, ia até o fim. A reportagem concluía da seguinte for­
. '
' ma: os contendores não pareciam ter-se dado por satisfeitos nem resignados com a intervenção
policial "como desabafo de suas sensibilidades". Aludindo a esse duelo, no livro A vida deLima
Barreto, Francisco de Assis Barbosa empresta a Ferreira de Vasconcelos o título de cônsul.
Houve pequeno equívoco no caso. Ferreira de Vasconcelos era simplesmente jornalista, nunca
tendo andado pelos arraiais do ltamarati.
No seu livro O fabuloso Patrocínio Filho (Editora Civilização Brasileira, Rio, 1 957), Magalhães
Júnior mostra-nos que Patrocínio não desistiu de bater-se em duelo com Vasconcelos, con­
seguindo o e1nprazamento de um novo duelo que foi realizado a 16 de agosto, no bairro da
Alegria, segundo uma reportagem d'A Imprensa. '!focaram tiros de pistolas, passando as balas a
silvar sem tocar nenhum dos adversários. Ficou assim satisfeito o princípio de honra, sendo
aceita a reconciliação proposta pelos padrinhos.

9 2 � tA Vida Literdria no Brasil


De onde a conclusão: não há troca de direitos e deveres no comércio edito­
rial, o que há é uma soma de direitos do lado do editor e uma soma de de­
veres do lado do autor. Semelhante estado de coisas não poderia continuar:
"Bastam cinqüenta anos de cativeiro)) - protesta Oscar Lopes, anunciando
a próxima organização da Sociedade dos Homens de Letras, destinada a
quebrar essas cadeias "demasiadamente pesadas e infamantes que pesavam
sobre os escritores".
A 1 9 de junho, ainda n'O País, Isabela Nélson (pseudônimo de Abner
Mourão), em artigo sob o título "Homens de Letras", aludia aos fins da so­
ciedade - cuja iniciativa atribuía a Oscar Lopes -, dizendo serem essencial­
mente práticos. A sociedade constituiria uma agremiação de resistência, visan­
do por todos os meios os direitos autorais. Era preciso que o profissional das
letras fosse mais brandamente explorado pelo editor; era preciso que escrever
para o público se tomasse, no Brasil, uma profissão como outra qualquer, "ho­
nestamente remuneradà'! Reputava difícil um empreendimento dessa natureza
no Brasil, mas considerava como bastante animador o número de adesões que
Oscat Lopes vinha recebendo.
No jornal do Commercío de 5 de julho de 1 9 1 4 encontramos, publicados
na íntegra, os estatutos da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras.
Como seria fastidioso reproduzi-los aqui, textualmente, procuraremos resu­
mi-los nos pontos essenciais. A sociedade teria por fim primordial a união
dos homens de letras do Brasil, para a defesa direta dos respectivos interesses
profissionais, econômicos, morais e sociais, quer em juízo quer fora dele.
Nesse sentido, deveria facilitar aos sócios a publicação de trabalhos literários
e artísticos, e, futuramente, até de utensílios e material que aproveitasse a ins­
trução profissional dos mesmos; realizar cursos, congressos, conferências e fes­
tas de arte; influir junto aos poderes da República para que fossem votadas
e aplicadas leis de interesse literário e artístico; fomentar a fundação de socie­
dades congêneres nos estados; fiscalizar ex-officio a propriedade literária e ar­
tística de autores estrangeiros indevidamente explorada no Brasil; publicar
uma revista mensal interessando às especializações de todos os sócios.
Essas seriam as principais atribuições, por nos parecerem de caráter prático.
Algumas se revestiam de um cunho abstrato. De que maneira, por exemplo,
poderia a sociedade propugnar pelo verdadeiro e são estabelecimento de UIT18

CAPÍTULO V � 9 3
aristocracia intelectual? (Item do art. 32.) Tornava-se necessário precisar, antes
de tudo, o que se devia entender por aristocracia intelectual no caso. E que sig­
nificava o item J do art. 32: "Esforçar-se pelo estabelecimento de um processo
moral e fecundo de crítica, principalmente pela exemplificação, quando exer­
cida por qualquer um dos seus membros"? Coisa vaga e confusa que não podia
traduzir-se em termos de ação prática. Vários artigos dispunham sobre os só­
cios efetivos, honorários, correspondentes e beneméritos. Na categoria dos efe­
tivos seriam incluídos os autores literários, dramáticos, líricos e mais - dispo­
sição curiosa - "os publicisras com forma literária em livro ou jornal" cujos
trabalhos fossem profissionalmente remunerados. Havia também um artigo es­
tatuindo que o sócio não poderia vender a propriedade de suas obras sem pré­
vio assentimento da diretoria, importando a infração deste dispositivo na eli­
' '
' minação definitiva do sócio, sem direito de regresso ao grêmio.
Na primeira reunião preparatória, realizada numa das salas da Sociedade
' : Rio-grandense do Sul, na avenida Rio Branco, Oscar Lopes declarou que a
i ; idéia já havia sido agitada alguns anos antes por Costa Rego, Goulart de
Andrade, Sebastião Sampaio, e mais remotamente ainda, em 1890, segundo
informação de 'Gastão Bousquet. Lima Barreto, que havia descoberto os esta­
tutos dessa última, se dispusera, gentilmente, a oferecê-los aos fundadores da
nova agremiação, mas Oscar Lopes não tivera a ventura de recebê-los e consi­
derava-os extraviados.
Francisco de Assis Barbosa3 alude a uma carta publicada no Correio da
Noite (18-6-1914) em que Patrocínio Filho informa ao redator achar-se de
posse dos estatutos da sociedade, enviados pelo "eminente beletristi' Lima
Barreto. Devia tratar-se, naturalmente, desses estatutos antigos que Oscar
Lopes julgava terem-se extraviado e que vieram servir de modelo, talvez, para
os da Sociedade dos Homens de Letras, reproduzidos no Jornal do Commercio
de 5 de julho de 1 9 1 4. Dá-nos ainda a entender Francisco de Assis Barbosa
que Lima Barreto pretendia ocupar o cargo de bibliotecário da nova entida­
de, por isso se batera pela criação do mesmo durante a eleição da primeira di­
retoria. Essa diretoria ficou constituída da seguinte forma: presidente efetivo

3. Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto, pág. 218, Livraria José Olympio Editora,
Rio, 1952.

94 � <...A Vida Literdria p.o Brasil


- Oscar Lopes; presidente honorário - Olavo Bilac; vice-presidente -
Sebastião Sampaio; 1 Q secretário - Saraµdi Raposo; 22 secretário - Mateus
de Albuquerque; tesoureiro - Bastos Tigre.
Instalada na rua Gonçalves Dias, a Sociedade Brasileira dos Homens
de Letras durou até 1 9 1 7. Mas de suas atribuições muito pouco realizou: lirni­
rou�se a promover palestras, conferências e saraus artísticos, que constituíam
principalmente sucesso mundano. Quanto à proteção aos intelectuais, não
consta que tenha feito algo de positivo. Na verdade, reivindicar direitos auto­
rais numa época em que o grande, o maior problema dos escritores se resumia
simplesmente em encontrar quem os editasse a qualquer preço, era uma espé­
cie de demagogia literária inócua, soando falso. Pata urna ação eficiente o ca­
minho da Sociedade dos Homens de Letras seria antes o de promover aliança
entre os editores e os escritores a fim de obter do governo medidas que, favo­
recendo a difusão do livro, tornassem possíveis as reivindicações desejadas.
Sem isso, de nada valeria falar em cativeiro infamante, em quebrar as cadeias
que pesavam sobre os intelectuais. Na primeira reunião preparatória, Oscar
Lopes considerava a Sociedade dos Homens de Letras "a muralha que defende­
rá o pomar, onde em sonhos desabrochamos1'. E frases como esta não seriam
de molde a augurar um destino de ação muito prática para o novo grêmio.

CAPÍTULO V � 9 5
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Unidade e federação nas letras """" lAi:ademias e agrupamentos literd­


rios estaduais """" L/Ívisita de Coelho Neto ao Maranhão """" L/Í Oficina
de Novos, a Tertúlia das Letras e a Nova Cruzada """" Sílvio Romero
e a província

� predominância literária absoluta da corte sobre as províncias, du­


�\\: rante a monarquia, resultava em parte da centralização política.
Como tudo se resolvia na corte, era natural que as reputações li-
-- terárias ali também se fizessem. As faculdades de direito em São
Paulo e em Recife formaram núcleos de intensa vida intelectual; mas depois
de passarem por lá como estudantes, fundando peri6dicos acadêmicos, cola­
borando em jornais e revistas, declamando nos saraus, era na corte que os
poetas e os escritores vinham publicar seus livros e realizar-se literariamente.
Não será simples coincidência o fato de um dos mais acirrados inimigos des­
sa supremacia da corte no plano intelectual, Tobias Barreto, ter-se insurgido,
igualmente, contra a centralização política.
A República trazia como um dos pontos básicos do seu programa - nin­
guém o ignora - a organização federativa em oposição à unidade de poder
do Império. Não se deve admirar, pois, que o 1 5 de Novembro, transfor­
mando as províncias em estados, outorgando-lhes uma autonomia que até
então não possuíam, se refletisse no terreno literário, incentivando em di�
versos recantos do país a formação de agremiações e movimentos culturais
que procuravam colocar-se fora da órbita da metr6pole.

CAPÍTULO VI � 9 7
A questão de uma literatura do Norte em oposição a outra, do Sul, que
Franklin Távora já havia agitado sem ter encontrado verdadeiro apoio, ressur­
ge de novo em 1 89 1 , nos jornais do Rio. Mas convém notar que o termo sul
no caso não indicava precisamente a literatura dos estados sulinos, e sim a que
vicejava no Rio, sob o bafejo da metrópole, embora realizada por filhos de ou­
tras regiões do Brasil, mesmo de nordestinos. Tal era o ponto de vista de
Távora quando atacara José de Alencar.
No começo do século, o desenvolvimento dos centros literários nos esta­
dos continuava a pôr em foco o problema da criação de literaturas à parte.
Tanto assim que João do Rio fez disso um dos quesitos do Momento literdrio.
Quase todos os escritores interrogados negaram a possibilidade de tais litera­
turas. Alguns chegaram mesmo a referir-se com uma ponta de ironia às agre­
. l ''
1 miações estaduais, achando que fora do Rio continuava a não haver salvação
! 1
1 : '' literária possível no Brasil.
1 ', ; No entanto, depois da Padaria, no Ceará, e da Mina, no Pará, em 1892 e
1 894, respectivamente, as agremiações e as academias não cessavam de surgir
pelos estados, num crescente esforço de criar uma atmosfera literária e possi­
bilidades de ê�Íto no mundo das letras aos que se recusavam ou não podiam
buscar a consagração na rua do Ouvidor.
O Ceará sempre foi o estado do Brasil onde mais floresceram as academias
'
\ literárias. A primeira delas, a Fênix Estudantil, fundada em 1 870, deu origem
à Academia Francesa, que sofreu os reflexos da "escola de Recife'', através de
Rocha Lima. Desde então, as associações literárias ali se multiplicaram.
De um dissídio entre os "padeiros", membros da Padaria Espiritual, resul­
'
1 tou a fundação do Centro Literário, cuja existência verdadeiramente ativa vai
1
de 1895 a 1 905. "O Ceará não pára, o Ceará não cansà' - escrevia Valentim
Magalhães, referindo-se principalmente a essa agremiação, que editou livros e
'
revistas, a exemplo da Padaria. Paralela ao Centro, influiu também, poderosa­
'
' mente, na vida literária do estado a Academia Cearense, cuja primeira fase vai
'
de 1 894 a 1922. E outras agremiações de menor importância podem ser assi­
i
'
i ! naladas, como a Plêiade, cuja primeira reunião se deu em agosto de 1908,
'
na casa do poeta Alfredo Castro. Visitando o Ceará, no fim do século XIX,
Aderbal de Carvalho anotava: "Nesse estado a literatura j á chega a ser uma
i mania. Não há cearense que não rabisque o seu conto."

1 tÁ Vida Literdria'no Brasil


98 19"1
1
'
No Maranhão, onde as letras haviam recaído há muitos anos num verda­
deiro marasmo - embora de lá tivessem saído algumas das maiores figuras da
geração naturalista -, verificou-se uma renascença literária depois da passa­
gem de Coelho Neto por São Luís, em 1899, quando foi alvo de grandes ho­
menagens. Urgia restabelecer a supremacia intelectual da decantada Atenas
,,
brasileira. E "novos atenienses é justamente como Antônio Lobo chama os
escritores jovens, que começaram então a reunir-se em torno de Manuel
Bethencourt, velho professor de português naturalizado brasileiro, ao qual
submetiam os trabalhos, recebendo conselhos e ouvindo-o falar de Tolstoi,
Gogol, Turgenev, Zola, Spencer. Com a partida de Bethencourt para o Ama­
zonas há um refluxo nesse primeiro impulso, que ganha novo vigor logo de­
pois sob a égide de Fran Pacheco, que desempenhou um grande papel de ani­
mador no Maranhão. O Centro Caixeiral, onde elementos da nova geração
realizaram uma série de conferências, deu origem a várias sociedades culturais,
entre as quais a Oficina dos Novos, fundada em 190 l, em moldes semelhan­
tes aos da Padaria e da Mina.
Os membros, em número de vinte, intitulavam-se operários, e cada uma das
cadeiras tinha por patrono um dos principais vultos maranhenses. Eram realiza­
dos benefícios em fuvor da Oficina por meio de saraus literoteatrais, cujo pro­
duto revertia em auxílio às edições dos referidos membros. Os que se propuses­
sem a gozar desse auxílio tinham de submeter as respectivas obras à diretoria,
que nomearia uma comissão para examiná-las e dar parecer a respeito. Os mem­
bros efetivos pagariam a mensalidade de cinco mil-réis e os que faltassem em três
sessões consecutivas pagariam a multa de dois mil-réis. Além dos membros ou
sócios efetivos, haveria sócios honorários e correspondentes. Aluísio e Artur
Azevedo, Coelho Neto, Raimundo Correia e também o português Teófilo Braga
foram eleitos sócios honorários. A Oficina editava o Boletim da Oficina dos
Novos. Essa agremiação iria transformar-se em 1908 na Academia Maranhense
de Letras, fundada em 1 O de agosto desse ano, com quarenta membros.
Na Bahia, houve vários agrupamentos. Pedro Calmon alude à Tertúlia
das Letras, 1 do qual só tomou conhecimento por um convite impresso e sem
data, provavelmente de 1900 a 1901. Cada componente do grupo adotava

l. Pedro Calmon, História da literatura baiana, Livraria José Oly1npio Editora, Rio, 1949.

CAPÍTULO VI � 9 9
uma cor simbólica. Afrânio Peixoto era renille-saftan-passé e Juliano Moreira,
'(jaspe verdolengo".
Em maio de 1901 fundou-se a Nova Cruzada, que chegou a constituir um
dos movimentos literários mais consideráveis naquele estado. Iniciou-se com
um agrupamento de estudantes boêmios, reunindo-se no adro da Catedral.
Com o decorrer do tempo, as reuniões se foram efetuando ora numa alfaiata­
ria por detrás da Catedral, ora no Liceu de Artes e Ofícios, ora na Associação
Tipográfica ou na Associação dos Empregados do Comércio. Em setembro de
1 9 1 O possuía afinal estatuto, sendo os sócios classificados em três categorias:
neocruzados, cavalheiros de honra e cavalheiros beneméritos. Da Nova Cruzada
fizeram parte muitos simbolistas como Francisco Mangabeira, Pedro Kilkerry
e Carlos Chiacchio, que no período modernista ia exercer grande influência
i ; nos "novos1) baianos da época.
i ! Em 1 906, Sílio Bocanera ] únior criava em Salvador a Ateneida Baiana,
' :
' ;
por ele considerada a primeira grande tentativa no sentido do levantamento
das artes e ressurgimento do teatro na Bahia; instituição de caráter literário,
a ela seriam anexadas duas escolas de ensino público, teórico e prático, sob a
denominação de Conservatório Dramático e Musical, com o objetivo de for­
mar artistas nacionais dramáticos, musicistas e cantores. Uma organização,
como se vê, muito ambiciosa, unindo aos objetivos de uma academia de letras
empreendimentos didáticos, à semelhança do que já se dera no Ceará.
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A Ateneida Baiana não passou, no entanto, de um ideal sem conseqüência.
Quatro anos depois, fundava-se a Academia Baiana de Letras, de vida efême­
ra, embora tivesse realizado algumas sessões públicas, uma das quais em co­
memoração ao primeiro decenário da morte de Zola.
Em dezembro de 1901, um grupo de intelectuais, tendo à frente Olinto
de Oliveira, fundava a Academia Rio-grandense de Letras, com o objetivo de
incentivar o estudo da literatura gaúcha, a história, a biografia, a bibliografia.
A sessão inaugural realizou-se no dia 1 O de maio de 1 902, no Clube do
Comércio de Porto Alegre, sendo o primeiro presidente o próprio Olinto de
Oliveira. As cadeiras eram em número de vinte e cinco. Mas a agremiação du­
rou menos de um ano, não chegando a realizar nada de prático. Em junho de
1 9 1 O ressurgia com o nome de Academia de Letras Rio-grandense do Sul,
constituída de quarenta cadeiras. Na instalação solene, na Associação dos
1
,1
1 OO � cA Vida Literária .no Brasil
1
Empregados no Comércio, pronunciava o discurso inaugural o escritor Pinto
da Rocha.
Em 1 90 1 surgia a Academia Pernambucana de Letras. E em 1904, em
Goiás, já se fundava também uma academia da qual encontramos ligeiras no­
tícias no Almanaque Garnier do ano seguinte. Intitulava-se Academia de Goiás
e compunha-se apenas de doze cadeiras, seis das quais ocupadas por Joaquim
Bonifácio, Acrísio da Gama e Silva, Augusto Rios, Leopoldo de Sousa, Marcelo
Silva e pela senhorita Eurídice Natal. Enquanto a Academia Brasileira, fiel ao
modelo francês, fechava as portas às mulheres, a modesta congênere de Goiás
não só admitia uma mulher como a elegia, por aclamação, presidente do cená­
culo, cabendo as funções de secretário perpétuo ao poeta Joaquim Bonifácio.
A instalação da Academia e a posse da diretoria efetuaram-se, cabendo à pre­
sidente fazer o elogio de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera. Finda a
sessão solene, seguiu-se um grande baile oferecido pelos acadêmicos à senho­
rita Eurídice Natal.
Em novembro de 1 909, depois de uma tentativa frustrada em 1907, ins­
tala-se a Academia Paulista de Letras. Sua fundação foi precedida de acirrada
polêmica entre Vicente de Carvalho, Simões Pinto e Roberto Moreira, que se
manifestavam contra a idéia, e Amadeu Amaral e ]. J. de Carvalho, que a de­
fendiam. Ficou decidido que dela não poderiam fazer parte os que já perten­
ciam à Academia Brasileira. Admitiram-se também mulheres, mas as poetisas
Francisca Júlia, Zalina Rolim, juntamente com Alfredo Pujo!, Franco da Rocha
e padre João Gualberto, declinaram do convite à imortalidade, enquanto
Batista Cepelos não seria convidado, sob o pretexto de que já não residia em
São Paulo e sim no Rio.
Ao contrário de todas essas agremiações, a Academia Mineira de Letras
não foi fundada na capital do estado. Por iniciativa de Machado Sobrinho, vá­
rios intelectuais lançaram-lhe as bases em Juiz de Fora, onde, a 25 de dezem­
bro de 1909, se celebrou a primeira sessão - sessão monstro, que se inician­
do às sete horas da noite se prolongou até às onze. Discutiram-se os diferentes
artigos dos estatutos e foram rejeitados justamente os que preconizavam a
adoção da ortografia simplificada e a criação de uma escola de jornalistas -
duas realizações de nossos dias. Os acadêmicos eram a princípio em número
de trinta, e em 1910 passaram a ser quarenta. Houve logo depois uma nova

CAPÍTULO VI � l 0 I
sessão, esta definitivamente inaugural, com grande pompa e traje a rigor, efe­
tuada no Teatro de Juiz de Fora.
Sílvio Romero, que então residia naquela cidade, acompanhou com muito
interesse os trabalhos da academia, assistindo a várias reuniões e dando-lhe
apoio moral, denotando ainda uma vez, com essa atitude, ser o homem que
sempre lutara contra a ditadura da metrópole em nossas letras. No prefácio pa­
ra um livro de Albino Esteves, reconhecia como excelente a idéia da fundação
dessa academia, almejando que os outros estados do Brasil seguissem "tão ale­
vantado exemplo". Defendia-se da acusação injusta, que por vezes lhe fàziam,
de não haver dado entrada em seus escritos a certos e determinados autores
provincianos, explicando: "Na História da literatura brasileira", nos Estudos
sobre a poesia popular no Brasil, nos Novos estudos, nos Outros estudos de lite­
ratura contempori!nea, nos Ensaios de sociologia e literatura e em Provocações e
debates aparecem em profusão os escritores das províncias. Se algum mereci­
' :
' : mento me pode caber como crítico e historiador literário é ter sido sempre o
defensor constante dos talentos provincianos contra a estreiteza de espírito
revelada pelos criticalhos do Rio, no menosprezo sistemático que têm por nor­
ma contra todos os que não fazem parte da panelinha de elogio mútuo, em
que se dessoram a si próprios e fazem moer quantos lhes são adversos, nomea­
damente os bons escritores provincianos." Era portanto uma causa muito sua,
podia acrescentar, essa cuja vitória se ia aos poucos prenunciando.
Mas a lura continuava a ser desigual. "Centros literários nos estados parece
pilhérià' - respondia Luís Edmundo a João do Rio, no "Momento literário''
-, "quando o próprio país não pode criar ainda um centro de literatura à par­
te. Nós temos, é verdade, no Paraná, em Minas, em São Paulo, no Maranhão
e na Bahia, facções literárias com moços de bastante talento, mas não é crível
que eles formem núcleos característicos capazes de determinar centros de lite­
ratura à parte. De resto, os olhos estão todos voltados para o Rio... "
E seria preciso ainda muito tempo para que essa hegemonia da metrópole
ficasse seriamente abalada e os estados passassem a constituir células mais ou
menos independentes, como só hoje está acontecendo em alguns deles.

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1
I O 2 t;A u1 Vida Literdria' no Brasil
VII
li <Z> C A P Í T U L O
Escândalos na Academia -. LA eleição de Mdrio de Alencar -.
Oswaldo Cruz e o critério dos expoentes """" Oposição a Lauro Müller -.
LA renúncia de José Veríssimo """" f2J:±ando o presidente Afonso Pena
ouviu o que não lhe agradou

m 1 905, a Academia, erigida às alturas de grande instituição das


letras, graças à iniciativa do ministro Seabra, passa a ter sede pró­
pria, ocupando uma parte do edifício do Silogeu Brasileiro. Logo
�!!!!!!�� em seguida, porém, um fato veio atingir-lhe o conceito no meio
intelectual do país: a eleição de Mário de Alencar, que tivera como concor­
rente Domingos Olímpio. Tratava-se de preencher a vaga aberta pela morte
de José do Patrocínio. Domingos Olímpio, então diretor da revista Os Anais,
tendo alcançado três anos antes grande êxito com o romance Luzia-Homem
e publicando no momento outra obra do mesmo gênero, O almirante, na­
quela revista, era escritor em plena maturidade, consagrado pela crítica. Já
havia concorrido ele antes à vaga de Valentim Magalhães, perdendo para
Euclides da Cunha. Mário de Alencar, ainda moço, apresentava-se como
herdeiro de um nome ilustre e pupilo de Machado de Assis. Havia publica­
do apenas duas coletâneas de versos. Em 1905 estava, por assim dizer, no iní­
cio da carreira literária. Entre os dois candidatos, a escolha teria de pender
naturalmente para Domingos Olímpio. Mas começou logo a correr o boato
de que o eleito seria Mário de Alencar, amparado por dois poderosos padri­
nhos: Machado de Assis e o barão do Rio Branco. A cabala a seu favor era

C A P f T U L.P-� Y _l.I � l 0 3
grande, e Domingos Olímpio, com todo o mérito literário que lhe reconhe­
ciam, nãp lhe conseguiria fazer frente.
Foi justamente o que se verificou. A eleição realizou-se no dia 3 1 de outu­
bro de 1905, sendo disputada por mais um candidato: o padre Severiano de
Resende. Mário de Alencar obteve dezessete votos; Domingos Olímpio nove
e o padre Severiano de Resende apenas um. Machado de Assis foi acusado de
se haver esquecido propositadamente de apurar o voto de Oliveira Lima a fa­
vor de Domingos Olímpio. Convém declinar os nomes dos votantes de cada
um dos candidatos, pois revelam de maneira muito significativa como se de­
senvolveu a cabala. Em Mário de Alencar votaram: Machado de Assis,
Salvador de Mendonça, Lúcio de Mendonça, Araripe Júnior, Rodrigo Otávio,
Silva Ramos, João Ribeiro, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Sousa
Bandeira, Magalhães Azeredo, Graça Aranha, Domício da Gama, Rio Branco,
Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco e Garcia Redondo. Em Domingos
Olímpio votaram: José Veríssimo, Coelho Neto, Olavo Bilac, Guimarães
Passos, Alcindo Guanabara, Inglês de Sousa, Artur Azevedo, Filinto de
Almeida e Clóv.is Bevilaqua. O padre Severiano de Resende teve o voto de seu
coestaduano, o conde Afonso Celso.
Como se vê, toda a "panelinha" de Machado de Assis trabalhada pela
influência de Rio Branco bandeou para o lado de Mário de Alencar. Houve
apenas uma exceção: José Veríssimo; o que veio mais uma vez pôr à prova
a extraordinária independência do crítico. Embora intimamente ligado a
Machado de Assis, sendo das principais figuras de seu entourage, não recuou
ante a contingência de fazer-lhe oposição nesse caso. Quanto a Silva Ramos,
João Ribeiro, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Sousa Bandeira e
Garcia Redondo, que não pertenciam à ('panelinhà', votaram, naturalmen�
te, por motivos afetivos ou por qualquer outra razão extraliterária. Não
é de crer que algum deles julgasse a obra de Mário de Alencar superior
à de Domingos Olímpio. A favor deste ficaram, com exceção de Veríssimo,
os que não tinham ligações com o grupo "machadiano", do qual sempre
viveram afastados boêmios como Guimarães Passos, Artur Azevedo e o pró­
prio Olavo Bilac.
A derrota do romancista de Luzia-Homem provocou vários protestos na
imprensa. O Correio da Manhã (2-1 1-1905) foi um dos jornais que mais ata-
,1
1 I O 4 !:;:;:;9 cA Vida Literdria''tzo Brasil
caram a Academia pelo resultado da eleição, deslocando o caso algum tanto
para o terreno político e aproveitando a oportunidade para atingir o barão
do Rio Branco. Considerava a vitória de Mário de Alencar como resultado ex­
clusivo da influência do chanceler, que havia posto em campo seus lugares-te­
nentes José Pereira da Graça Aranha e Domício da Gama na tarefa de caba­
lar votos. Tudo isso por quê? Porque - dizia o grande órgão da oposição -
Rio Branco jamais se convenceria de que Domingos Olímpio não tinha sido
o autor de uns artigos editoriais, n'A Notícia, sobre sua política na questão do
Acre. 1 E terminava a nota nos seguintes termos: julgasse o público a diferen­
ça que havia entre as eleições da Academia e as do 2º Distrito da capital. Tinha
a Academia direito ao prestígio, a importância que reclamava, no momento
em que preteria o mérito legítimo de um mestre por um jovem poeta funcio­
nário da Secretaria da Câmara? Era o caso de dizer-se, como no Quincas
Borba, "Ao vencedor, as batatasr'.
Na seção "O dia" d' O País (1-1 1 - 1 905), Alcindo Guanabara, que havia vo­
tado em Domingos Olímpio, protestava com menos virulência, mas com
a mesma energia. Reconhecendo em Mário de Alencar "um moço de talento",
julgava-o muito longe de poder comparar-se em merecimento, instrução, ca­
pacidade e serviços com o velho jornalista, o cronista fulgurante, o romancis­
ta nacional que era por excelência Domingos Olímpio. A injustiça tornava-se
flagrante, clamorosa, e Alcindo Guanabara sentia-se no dever de registrá-la,
justamente por ser a primeira vez em que contra as eleições da Academia se
podia formular um protesto cujo fundamento toda a população culta do
Brasil devia apreciar. Recordava-se do caso de João Ribeiro, declarando pou­
co antes da eleição: "Presume-se que a Academia é uma consagração pelos tra­
balhos feitos. Aqui não é lugar dos que principiam."
Deduzindo das palavras do autor de Pdginas de estética, concluía Alcindo
Guanabara, que entre os dois candidatos não poderia haver hesitação: Domingos
Olímpio acabava "uma longa vida de publicista e romancistà', portador de um
nome que, malgrado o voto da Academia, continuaria a ser respeitado.

1 . Em carta a Frederico Abranches, datada de 7 de agosto de 1 902, Rio Branco referia-se ao au­
tor de Luzia-Homem corno "o capadócio Domingos Ol., capaz de todas as perfídias e moleca­
gens". Apud Álvaro Lins, Rio Branco, pág. 753, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1945.

CAPÍTULO V I I � l 0 5
Da imprensa dos estados vieram igualmente protestos. Uma correspondên­
cia de Heitor Lima para o Progressista de Minas Gerais (5 de novembro de
1905) �tribufa o resultado do pleito à "panela da rua do Ouvidor", ou, mais
precisamente, da Casa Garnier. Como Domingos Olímpio não era homem de
rodinhas literárias, fora preterido. Bastava freqüentar a Garnier para um "escri­
tor implume" derrotar um "velho e acatadíssimo literato". Domingos Olímpio
não tivera maioria de votos na Academia dos Imortais, mas contava com a
unanimidade deles no país que o admirava, o consagrava, o imortalizava. Na
Tribuna de Petrópolis, João de Deus Filho também exprimia veemente repro­
vação ao ato da Academia, formulando, no entanto, a esperança de que ain­
da se reabilitasse, concedendo por unanimidade a Domingos Olímpio o que
agora lhe negava.
Se o autor de Luzia-Homem tivesse vivido mais tempo, talvez conseguisse
entrar para a Academia numa das próximas eleições. Mas ele morreria, repen­
tinamente, logo no ano seguinte.

' :

j j Outro fato da mesma natureza que apaixonou os ânimos da Academia, che­


'

' "'
gando a criar uma atmosfera de crise, foi a eleição de Lauro Müller em 1 9 1 2.
,, Desta vez tratava-se de alguém que não era escritor e nem possuía livro publi­
cado, como exigiam os estatutos. Para atender esse último requisito, teve o can­
didato de mandar editar em volume um discurso. Medeiros e Albuquerque,
que fiscalizou a impressão do trabalho em Paris, diz haver escolhido o papel
mais grosso e os tipos maiores, não conseguindo assim mesmo fazer com que
o "livro" ultrapassasse as proporções de um simples folheto. Lima Barreto, co­
mentando sarcasticamente o fato, dizia que o discurso fora impresso em pape­
lão e letras garrafais. Mas quanto à circunstância de não se tratar propriamen­
te de um escritor, já havia precedentes na Academia. Joaquim Nabuco
invocara pela primeira vez o critério dos expoentes - a exemplo do que se da­
va na Academia Francesa - ao defender a candidatura do almirante Jaceguai
em 1 907, e Jaceguai foi eleito. Depois, em 1909, pelo mesmo critério, con­
seguiu eleger-se Lafaiete Rodrigues Pereira, a quem não se podia negar, no en­
tanto) de maneira absoluta, a categoria de escritor. Também escritor seria o

I O 6 """"' v1 Vida Literdri;, no Brasil


marechal Dantas Barreto, que publicara vários livros, inclusive um drama e
um romance; mas o "expoente) é que se candidatara e este é que vencera -
segundo diziam - porque havia prometido o Monroe à Academia. Depois da
eleição não cumprira a promessa.
Na candidatura de Oswaldo Cruz em 1 9 1 2, agitou-se de novo o proble­
ma. Afrânio Peixoto, no discurso com que o recebera na Academia, em 26 de
junho de 1 9 1 3 , justificava, nos seguintes termos, o critério dos expoentes:
"A tradição, que nos serviu de exemplo, no intuito dos que fundaram esta
companhia, imp6s em França a certeza de que 'a glória das letras faz parte in­
tegrante e necessária de um povo', e por isso, deliberadamente, ao lado dos fi­
dalgos, prelados, chanceleres, militares e sábios, fez sentar os poetas, romancis­
tas, historiadores e filólogos. Por que agora, no momento em que se admitiu
a dignidade da condição destes, suprimir os outros, que os dignificaram num
tempo em que por vezes os nobres e poderosos até de saber ler e escrever se
desdouravam? É esta a razão de honra por que todas as glórias nacionais têm
direito a uma representação entre acadêmicos. Príncipes, cardeais, ministros,
almirantes são aí recebidos como os homens de ciência mais transcendente ou
especializada... Vicq-d'Azir, d'Alembert, Flourens, Littré, Lesseps,J. B. Dumas,
Bertrand, Berrhellot, Poincaré... foram aí festejados ... Pasteur principalmen­
te, que nem livros de ciência escrevera e passou a vida a fazer bem maior a
construir glória mais duradoura. E não se cuidará que naquela terra, farta,
sobre todas, de grandes homens, não sobrem poetas, romancistas, oradores
e homens de teatro... com que preencher grêmio tão reduzido. Também
aqui sempre pensamos assim. No passado dos vossos confrades, nestes que
vedes em torno, encontrareis alguns que não cometeram novelas nem poe�
mas. Por que exigir de vós esses atentados? Lembra Renan que não foi aque­
la tragédia, trazida por Claude Bernard da província, que lhe abriu as por­
tas da Academia. "2 ..

Salvador de Mendonça acompanhando sempre com interesse os trabalhos


da Academia, embora já doente, tomou partido no caso, julgando ociosa a
distinção entre intelectuais de letras e intelectuais de ciência, quando se trata­
va da imortalidade acadêmica. A ciência - dizia - é uma literatura porque

2. Academia Brasileira de Letras, Discursos acadêmicos, vol. II, Civilização Brasileira, Rio, 1935.

C A P Í T U LQ Y, I I 6::A l O 7
. .
sem forma literária, isto é, incorporação perfeita do pensamento, não se com­
preende a verdadeira ciência. Achava mesmo que a Academia devia reservar
quatro lugares para as sumidades de toda ordem, ainda que estranhas às ciên­
cias e às letras. No entanto, quando lançada a candidatura de Lauro Müller,
ministro do Exterior, nesse mesmo ano de 1 9 12, Salvador de Mendonça foi um
dos primeiros a combatê-la. Apesar das precárias condições de saúde em que
se encontrava, diligenciou-se no propósito de evitar essa vitória eleitoral, que,
na sua opinião, decidiria a sorte da Academia. Escreveu a Rui Barbosa pedin­
do-lhe apoio, e Rui secundou-lhe o esforço, cabalando contra Lauro Müller.3
O candidato que concorria com Lauro era o barão de Ramiz Galvão, então
diretor da Instrução Pública. José Veríssimo foi seu mais aguerrido defensor.

3. As três cartas
que abaixo reproduzimos, do Arquivo da Casa de Rui Barbosa, dão bem idéia
; ! do empenho com que Salvador de Mendonça combateu a candidatura de Lauro Müller.
' !
'
"268, rua Marquês de São Vicente.

Meu caro Rui Barbosa,


A causa da defesa .da dignidade da nossa Academia vai em bom caminho. Temos por ora quinze
votos firmes e sã� os seguintes: Rui Barbosa, José Veríssimo, Augusto de Lima, Filinto de
Almeida, Salvador de Mendonça, Carlos de Laet, Jaceguai, João Ribeiro, Silva Ramos, Pedro
Lessa, Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Lafaiete, Garcia Redondo e Heráclito Graça.
Esperamos que o Arinos também nos mande o voto.
Consta-nos que o Bilac, o Murat e talvet o Bevilaqua não querem votar, o que bastaria para nos
dar vitória. O melhor, porém, é que V. escreva ao Murar e peça o voto que ele certamente lhe dará.
É também indispensável que V. escreva hoje ao Vicente de Carvalho pedindo-lhe que antes
de embarcar para a Europa - consta-me que embarca em Santos no dia 23, isto é, depois de
amanhã - lhe mande o voto ao Ramiz Galvão. É preciso também que V. fale ao Sousa
Bandeira pois isso bastará para que se conserve nos nossos arraiais: estou com medo de alguma
deserção. Feito isto teremos certeza de derrotar o ministro, o que nestes tempos será imenso
serviço à Academia Brasileira e ao Brasil todo.
De V.
Amigo velho e sincero admirador
a) Salvador de Mendonça (21 de julho de 1 91 2)."
Rui Barbosa atendeu prontamente ao apelo, como verificamos nesta carta que no mesmo dia
dirigiu a Vicente de Carvalho:
"Rio, 21 de julho, 1 9 12,
Meu caro col. dr. Vicente de Carvalho.
Não me leve a 1nal o apelo que, como presidente da Academia de Letras, lhe dirijo. Na próxima
1
1 I o 8 � LA Vida Literdfiti no Brasil
Por tratar-se de um chefe - insinuou Afrânio Peixoto -, já que Veríssimo
exercia o cargo de diretor da Escola Normal. A insinuação nos parece injusta.
O autor dos Estudos brasileiros sempre se manifestava contra o critério dos ex­
poentes, achando que a Academia por aí fugia aos verdadeiros fins. Mas
Afrãnio Peixoto vai além ainda, declara que pelo fato de Mário de Alencar ter
votado em Lauro Müller, Veríssimo vingou-se na História da literatura
brasileira fazendo passar o eixo das letras nacionais por Machado de Assis, "ex­
cluída a realeza de José de Alencar". Custa-nos crer que um simples ressenti­
mento pudesse levar a isso um homem de dignidade intelectual como José
Veríssimo, que tanto prezava a função da crítica e se habituara a exercê-la no
alheamento de influências pessoais. Por outro lado, é certo que no mesmo li-

eleição, em que se tem de prover a vaga do b. de Rio Branco, a questão se vai estabelecer entre
os nomes de Ramiz Galvão e Lauro Müller.
Este, evidentemente, não seria candidato, se não fosse ministro, contando, como tal, com as
fraquezas da época e com os votos coactos de oito ou dez diplomatas ou parentes de diplomatas
nossos, que nessa corporação têm assento. Aquele se recomenda por excelentes serviços às le­
tras, e só não pertence à Academia desde a sua fundação porque não quis. Sendo assim que se
põe o litígio, a vitória da candidatura seria, a meu ver, um triste sintoma do tempo e um golpe
na reputação da Academia.
Não sei como pensará o meu eminente confrade e amigo. Mas, se me acha com razão, rogo-lhe
não parta para a Europa, sem me enviar, escrito, o seu voto, que poderá decidir o pleito.
Nesse caso, aceite desde já os agradecimentos do seu am11 e ccfl obr.o.
a) Rui Barbosa."

Dias depois, vinha a resposta de Vicente de Carvalho.


"S. Paulo, 25 de julho de 1912.
Exmo. sr. dr. Rui Barbosa
Meu eminente confrade.
Só hoje recebi a sua carta de 21 do corrente, que me fora endereçada para Santos. Assim se explica
a demora desta resposta. Tenho adotado até hoje e pretendo manter sempre a norma de só votar,
nas eleições da Academia Brasileira, em candidatos que se tenham feito conhecer como escritores.
A todos os que solicitavam o meu voto em favor do sr. Lauro Müller, respondi invariavelmente
que precisava para manifestar-me conhecer previamente a obra literária do candidato, e pedia.­
lhes que me facilitassem ocasião disso. Logo que se tornou conhecido serem os srs. Lauro Müller
e Rarniz Galvão os dois únicos concorrentes na vaga do barão do Rio Branco, assentei em dar o meu
voto ao segundo, e dei-o, eferivarnente, enviando-o ontem ao nosso confrade sr. José Veríssimo,
presidente em exercício da Academia. Estimo que esse meu procedimento, ainda que não me

CAPÍTULO VII � 1 0 9
vro foi injusto com Sílvio Romero, dedicando-lhe apenas três linhas, e não
conseguimos desligar tal procedimento da mágoa que lhe teriam causado os
ataques b rurais de Sílvio. De onde nossa hesitação em repelir por completo a
afirmativa de Afrânio.
Afinal, a vitória de Lauro Müller fez com que Veríssimo renunciasse ao
cargo de secretário-geral da Academia, nunca mais ali comparecendo apesar de
reeleito e das instâncias do próprio Afdnio, de Mário de Alencar e Oliveira
Lima, que procuravam debalde trazê-lo de novo à grei. Um rompimento de­
finitivo selado com uma frase candente: "Deixemos que a Academia se faça à
imagem da sociedade a que pertence."4 Mais tarde, quando morreu Lauro
Müller, em discurso proferido na Academia em 1 3 de agosto de 1926,
Medeiros e Albuquerque relembrou as reações provocadas por esse pleito.
; ;

proporcionou ensejo de prestar a V. Ex. um pequeno serviço, estivesse de acordo com o desejo de
' :
'
V Ex. e lhe dê gosro. Subscrevo�me de V. Ex. at!.l Venerador e confrade, Vicente de Carvalho."
Recebendo a comunicação de Rui Barbosa do bom êxito das démarches, Salvador de Mendonça
mais uma vez lhe �screvia:
' 1.
'

"Rio, 28 de julho de 1912.


Meu caro Rui Barbosa
Por ausente da cidade só ontem me foi lida a sua carta de 21 que muito agradeço. Os frutos de
seu trabalho já aí estão. Avisou�me ontem o Veríssimo de que o Vicente de Carvalho não só
li remetera o voto no Ramiz Galvão, como lhe participara que, nas suas crônicas de S. Paulo para
O Imparcial, que vai começar em agosto, combaterá a candidatura do ministro.
Quando puder, mande-me dizer se o Sousa Bandeira entrou na fila. O Veríssimo tem evitado
lembrar-lhe os compromissos originários para com a candidatura do Ramiz, e quanto a esse
nosso confrade tudo esperamos de você.
Vejo o que diz quanto ao Murat; receio que venha a ser preso pelos amigos do ministro, embo�
ra declare não ter tenção de votar.
Temos agora firmes dezesseis votos, e como não houve ainda na Academia, ao que me dizem,
eleição com mais de trinta cédulas, já os dezesseis sólidos constituem formidável legião. Além
disto, esperamos ainda que o Arinos vote conosco e tenho razão para crer que o nosso Oliveira
Lima, cujo caráter ambos conhecemos, dadas cerras circunstâncias, votará no Ramiz.
Muito agradou aos nossos amigos acadêmicos a notícia que lhes dei: de que você comparecerá
às nossas sessões de agosto. Venha, venha animar os legionários da boa causa.
Seu velho amigo e ad1nirador,
a) Salvador de Mendonça."
4. Francisco Prisco, josé Veríssimo, Bedeschi, 1 937.

1
I I O � LÁ Vida Literária no Brasil
1
Declarou que Lauro era realmente o tipo expoente, julgando não ser isso
motivo para que não fosse eleito. Devia haver lugar na Academia para os
expoentes. Além do mais, tratava-se de um homem de espírito, admirável
causeur e que se quisesse fazer literatura tê-la-ia feito com superioridade, co­
mo fizera durante muito tempo jornalismo.
Além desses dois casos criados por eleições acadêmicas, registraram-se
dois escândalos naquele "augusto sodalício'' em recepções de imortais. O
primeiro verificou-se na noite de 1 8 de dezembro de 1 906, sob o olhar aus­
tero de Machado de Assis.
Era a posse de Euclides da Cunha, recebido por Sílvio Romero. Não se
esperava, naturalmente, da parte deste último um discurso puramente lite­
rário. Familiar de nossos problemas e egresso da política, jamais perderia a
ocasião, ao defrontar-se com um dos grandes intérpretes da realidade brasi­
leira, para tocar no cerne vivo dessa realidade. E foi justamente o que se deu;
mas Sílvio Romero, como por vezes lhe acontecia, ultrapassou certos limi­
tes impostos pelas exigências sociais e protocolares da cerimônia. Achava-se
presente o presidente Afonso Pena, dando com isso honra não muito co­
mum naquele tempo à Academia. O discurso de Euclides, que se encontra
reproduzido no livro Contrastes e confrontos, foi uma peça equilibrada e jus­
ta. Ergue-se Sílvio Romero e começa a fazer o elogio do recipiendário, a
mostrar o que Os sertões representa em nossa literatura; e depois de longas
explanações passa a relacionar esse testemunho dramático de Euclides com
a realidade atual do país. Toca no problema do café e acusa: ''A singular ru­
biáceà) - incrível fato! - "dá hoje para enriquecer com milhões as casas
importadoras do Havre, Hamburgo, Londres, Nova York e as filiais expor­
tadoras que aqui montaram, além dos grandes torradores estrangeiros, e só
não chega para enriquecer quem a produz: o fazendeiro nacional reduzido à
miséria com a agravação dos impostos ... " Já era crítica direta ao governo.
E mais adiante: "Não estamos no caso de ter academias de luxo, quando o
povo não sabe ler; de ter palácios Monroe, quando a mor parte da gente
mora em estalagens e cortiços... " - "de ter cá a reunião do Congresso Pan­
Americano, para dar-lhe, como ilustração, as trucidações de Mato Grosso e
o assassinato de deputados e senadores, em pleno dia, nos desregramentos
de uma política feroz!. . . " A crítica continuava nesse tom implacável, verbe-

C A P Í T U L O V I I é::="9 l l l
rando os empréstimos "loucamente avultados e ruinosos" para serem aplica­
dos em obras suntuárias, o déficit, etc... "Os governos'' - exclama Sílvio -,
"os chef;� políticos, os diretórios dos partidos, os grandes, os potentados, to­
dos os que formam essa classe dirigente, que nada dirige, não têm querido
cumprir o seu mais elementar dever para com as populações nacionais .. . ''5
É fácil imaginar qual seria a'perturbação dos acadêmicos diante do presi­
dente Afonso Pena, no decurso de tão furiosas invectivas.
Afrânio Peixoto6 diz ter Medeiros e Albuquerque recorrido a um estrata­
gema para distrair a assistência. Encontrando-se ao lado do orador, pusera-se
a subtrair tiras e mais tiras que jogava ao chão como por descuido, desvian­
do a atenção do público para aquele lado. Isto porém não chegou a atenuar
o escândalo. O presidente da República, honrando com sua presença a re­
; '
' cepção, teve de ouvir o que não lhe agradava. Foi indelicadeza chocante.
i ! Sílvio Romero porém não tinha papas na língua. Desde enrão, os discursos
; :
; ; de recepção na Academia passaram a ser censurados.
Outro escândalo na Academia na posse de Dantas Barreto, em janeiro
de 1 9 1 1 , teve origem em fatos já um pouco distantes.
Quando Jo�quim Nabuco aceitou o convite do governo da República
para defender os nossos direitos na questão de limites com a Guiana Inglesa,
se um Rio Branco e um Eduardo Prado - monarquistas de alta linhagem
- lhe apoiaram o gesto, o mesmo não se deu com a quase totalidade dos
que se mantinham fiéis ao regime decaído, e por este prosseguiam lutando
com esperança de êxito. Era um desertor a deixar as trincheiras, e crime tan­
to mais grave quanto se tratava de figura de primeira grandeza. Nabuco viu­
se atacado rudemente pelos correligionários, entre os quais sobressaía, na
sua virulência impiedosa, Carlos de Laet. Em carta a Domingos Alves
Ribeiro, ressalvando a coragem leonina de Eduardo Prado ao apoiá-lo, es­
creve o autor de Minha formação: "O sentimento de partido está, porém,
com os analfabetos e os estéreis como o Laet, cujo talento é uma bolsa de
veneno e nada mais, sem uma intuição, uma idéia política."7 Desde então,

5. Academia Brasileira de Letras, Discursos acadêmicos, vol. I, Civilização Brasileira, Rio, 1 934.
6. Fernão Neves, A Academia Brasileira de Letras, Rio, 1940.
7. Joaquim Nabuco, Cartas a amigos, Instituto Progresso Editorial, S. Paulo, 1949.

II2 � LA Vida Literdria·flo Brasil


Carlos de Laet tornara-se, verdadeiramente, a bhe noire de Nabuco, não o
poupando em epigramas e sátiras as JTlais cruéis.
Acresce o fato de Nabuco haver sido infeliz na tarefa de que fora incum­
bido pelo governo da República. Embora tivesse feito o máximo que se po­
dia fazer, na opinião dos entendidos, produzindo uma defesa brilhantíssima
dos nossos direitos, não conseguiu convencer o árbitro, cujo veredicto se
decidiu a favor da Inglaterra. Da circunstância prevaleceram-se não somen­
te os monarquistas, como também muitos republicanos, para fustigarem o
fracasso do "adesistà'. Medeiros e Albuquerque, um dos homens do 1 5 de
Novembro, insinuou as intenções sutis do governo da República, ao convi­
dar Nabuco para a referida empresa: se a escolha, como era natural, recaísse
num republicano, o fracasso deste ofereceria poderoso trunfo aos monar­
quistas contra o novo regime; entregue a Nabuco a causa, os saudosistas não
podiam articular a menor recriminação à República pelo desastre. Só
Nabuco ficava, assim, em má situação, prestando flanco aos ataques vindos
dos dois lados. O governo, porém, reconhecendo-lhe o esforço e o mérito,
ofereceu-lhe o cargo de embaixador em comissão que, logo aceito, incorpo­
rou o autor de Balmaceda ao quadro diplomático, ratificando-se dessa forma
o que os antigos correligionários chamavam de adesão. E a 5 de julho de
1906, quando Nabuco chegou ao Rio, depois de haver desenvolvido uma fe­
cunda política pan-americana e brasileira nos Estados Unidos, sendo recebi­
do com uma estrondosa manifestação por parte dos estudantes, os monar­
quistas se agitaram. Carlos de Laet tomou a dianteira, publicando num
matutino um panfleto em verso, intitulado: "O embaixador", obra de sarcas­
mo impiedoso no qual extravasou toda a sua fúria vingativa. São alexandri­
nos tersos, que soam como vergastadas e parecem denunciar, não só pelo rit­
mo, como pela natureza das imagens e o gosto das antíteses, a influência do
Guerra Junqueiro combativo da Morte de dom joão. Aliás, Junqueiro era dos
poetas mais populares no Brasil nessa ocasião, apaixonadamente admirado e
imitado por muita gente. Num dos pontos culminantes do panfleto, Laet ex­
clama, aludindo à adesão de Nabuco à República:

"Que foi crime, negais. Somente ao militar


é defeso o fugir? Vergonha o desertar?

CAPÍTULO VII � 1 1 3
Pois foi o que ele fez. Transfugiu do ideal;
bradou à tradição: - Vai-te embora, és um mal!
As esporas tirou de errante cavaleiro
e alistou-se de histrião nos circos do estrangeiro;
deixou na mesa santa a luz que lhe esplendia,
pra receber no escuro o pré da apostasia,
e afronta sobre afronta! a corruprora esmola
vinha daquela mão do Meroveu pachola
que o direito assaltara, e em tétrico momento
o decreto assinou do infame banimento...
E agora que te lembro o crime e o seu horror,
vai correndo, ó burguês, saudar o embaixador!"

í i
E lamenta a manifestação ter partido da classe estudantil:
'l
'
"Mas o que mais me dói é ver no lago impuro
a flor da mocidade, o germe do futuro.
Moços da minha terra! Ó nobres corações!
Não vades, por quem sois, glorificar traições!
De vosso entusiasmo excita-se a nevrose

!1 por levá-la, inconsciente, à negra apoteose.


Deixai esse papel aos vates alugados,
jornalistas a soldo, eunucos desbriados.

Se no peito guardais o amor da Monarquia,


não podeis aplaudir o herói desta folia;
se a República amais, dai-lhe ao gasto organismo
medula de leões, não restos do adesismo.
Repeli sugestões, não tomeis parte em farsas:
,
sede embora revéis, mas não sejais comparsas!'

Para concluir em tom iracundo:

,.
1 I I 4 � CÁ Vida Literária.)JO Brasil
1
"E agora pode vir... Sobre esta palhaçada
vinguei no meu protesto a moral ultrajada.''

Mas não terminaria aí a campanha vingativa de Laet. Continuaria mesmo


depois da morte de Nabuco. A 7 de janeiro de 1 9 1 1 , Dantas Barreto toma
posse na Academia Brasileira, para a qual fora eleito na vaga do autor de
Minha formação, sendo designado para recebê-lo Carlos de Laet. A figura
de Nabuco, cuja projeção estava muito viva, pois não se rinham esvanecido
ainda as ressonàncias das homenagens póstumas a ele prestadas nos Estados
Unidos e no Brasil, não foi, entretanto, exaltada com a glorificação perfeita
e sem restrições que era de esperar-se, nessa noite acadêmica.
Já de início o recipiendário, aludindo à figura de Nabuco, fizera uma ob­
servação infeliz: ''A última vez que o laureado escritor e diplomata viera ao
Rio de Janeiro, em 1 906, eu estava em Maro Grosso e nem sequer me foi
dado, nessa quadra de intensa vida internacional americana, ver os estragos
que o tempo havia produzido nesse moço elegante e forte (o grifo é nosso), de
uma beleza insinuante e atraente, que até aos homens impressionava e atraía."
Depois, esquivando-se de apreciar-lhe os méritos de escritor sob a alegação
verdadeiramente imprevista de lhe haver feito apenas uma leitura superficial
das obras,8 considerava: "Percebe-se que em Nabuco predominara o senti­
mento do aparato, a paixão do ruido mundano e que ele não seria capaz de
sacrificar um momento dessa necessidade psicológica a uma inspiração genial,
cuja síntese fosse preciso aproveitar no isolamento de si próprio, como faria
Coelho Neto, por exemplo."
Carlos de Laet poderia eximir-se de falar em Nabuco, mas ao contrá­
rio, aproveita a oportunidade para repetir a acusação de desertor, formu­
lada na sátira, e justificá-la. Apelando para a própria qualidade de militar
do novo eleito, pergunta como este procederia na guerra, se visse alguém
abandonar a trincheira. Levaria a arma à cara e faria fogo. Fora o que ele,

8. Já havia, no entanto, um precedente nesse sentído: o almirante Jaceguai, no seu discurso de


recepção, deixou de fazer, como lhe competia, o elogio de Teixeira de Melo, declarando que
desconhecia a obra do antecessor. (Fernando Néri, Correspondência de Machado de Assis,
Bedeschi, Rio.)

CAPÍTULO VII � 1 1 5
Laet, fizera. Essa justificação política num discurso acadêmico pareceu não
somente extemporânea, como de mau gosto. Certo efeito de escândalo tor­
nou-se i nevitável. Vários jornais teceram comentários desfavoráveis a Laet.
E Constâncio Alves, no seu tradicional rodapé do Jornal do Commercio,
disse que o discurso, tendo passado antes pela censura da Academia, ex­
primia logicamente o pensamento desta. Fora a Academia quem fuzilara
Nabuco no tiro disparado por Laet. José Veríssimo faz estampar uma car­
ta na mesma folha, no dia 1 4 de janeiro, declarando não considerar-se a
Academia absolutamente solidária com tal opinião já que a censura se
exercia em limites muito restritos.9 Constâncio Alves revida a 19 de janei­
ro com o artigo "Explicação, escavações e contradições", que Afrânio
Peixoto inclui na sua antologia Humor. 1° Começa acentuando o fato de a
i ;
Academia, pela afirmação do seu vice-presidente interino, condenar a des­
i � cortesia do orador. Assim, o caso se desvesria de toda a importância que
lhe atribuíram amigos de Joaquim Nabuco e da Academia, enganados por
aparências. Reduzido às suas verdadeiras proporções, aquilo não passara
de uma manifestação simplesmente individual de grande ódio pequenino.
Era a profanação de um inimigo que esguichava opiniões em terra de ce­
mitério. E lembrava o que Carlos de Laet já escrevera a 29 de maio de
1 904 no Jornal do Brasil: "Os mortos estão sujeitos a tais esguichadelas . . .
Nem por outra coisa s e rodeiam d e grades as sepulturas. Coitado d e quem
.,
morre e feliz de quem esguicha." Mas achava que não devia encerrar esse
breve comentário com palavras de dorida filosofia: não lamentar o morto
que ''desaparecera na glória de um crepúsculo radioso" e, sobretudo, não
invejar o vivo. Não seria invejável quem tivesse inveja daquele desastre

9. Em artigo publicado em 7 de dezembro de 1 910, na seção "Microcosmo", de O Pais, Carlos


de Laet se insurgira contra a censura acadêmica: "Designado para receber na Academia
Brasileira de Letras o sr. general Dantas Barreto, fui surpreendido com a intimação de exibir
previamente o meu discurso para que padecesse a censura da diretoria dessa ilustre agremia­
ção." E concluía, de que diante de tal censura não havia como estranhar a da velha mesa da
Consciência e Ordens, cujas licenças figuravam nas p<iginas das velhas edições,
Naturalmente, para não entrar em conAito com Laer, que se mostrava rebelde à censura, José
Veríssi1no deixou passar o "tiro", dessolidarizando-se dele, depois, na nora acirna referida.
. 1 O. Afrânio Peixoto, flurnor, Editora Guanabara, Rio.

,1
6 � � Vida Li terá-ria no Brasil
1
Il
acadêmico. E muito menos agora que a Academia lhe desmanchou a figu­
ra, assegurando ao público: esse trabuqueiro de políticos não foi executor
de sentença minha. Seu é o rancor que lhe moveu o dedo; sua é a arma de
que partiu o tiro. E realmente corporação literária não tem a Academia,
não pode ter em seu arsenal as garruchas de que se servem os cangaceiros.
Dessa forma, aquele que envolto no prestígio acadêmico parecia gente, per­
dera as proporções com que se impunha ao nosso temor. Já não estava mais
ali a sentinela fiel e terrível, apontando estrondoso mosquete: o que se via
era "um macaquito barbudo, empunhando a sua pistolinha de chumbo e a
rodos divertindo com a fraqueza dos seus estalos e com a sua jatincia joco­
sa de mata-gente". O artigo continua nesse tom, mostrando Constâncio
Alves que também a Laet se podia aplicar no fundo a pecha de um "deser­
tor", pois, com a cólera de um Marat, já rugira outrora contra a monarquia
em versos que passa a citar.
Laet não deixaria sem resposta esse artigo e a polêmica prosseguiu, con­
cluindo no clima de ironia e malícia, em que ambos se compraziam.

C A P Í T U L O., y _�_l � l 1 ]
llis; C A P Í T U L O VIII

Escritores na política """" cA oratória parlamentar de Sílvio Romero """"


Osprojetos de Coelho Neto na Câmara """" 'R::Ji Barbosa """" <Articulação
fracassada da candidatura de Euclides da Cunha """" Os monarquistas """"
O príncipe dom Luís impedido de desembarcar no Rio """" cAabstenção
do Conselheiro Aires

uito jovem, recém-saído da Faculdade de Direito de Recife,


quando hesitava ante o caminho a seguir, Sílvio Romero foi
eleito deputado à Assembléia Provincial de Sergipe, em 1874.
Só pronunciou um discurso, renunciando à cadeira. Nem por
isso abdicou das ambições políticas. Vindo para a corte, formou nas fileiras re­
publicanas, cabendo-lhe dirigir o Manifesto dos Homens de Letras do Rio de
Janeiro ao governo provisório, logo após o 1 5 de Novembro. Mas a desilusão
começa logo por um fracasso político. Tendo organizado o Partido Nacional
em Sergipe, a convite de Orlando Maciel e Coelho Campos, vê frustradas
as pretensões a uma vaga de senador pelo mesmo partido. Em 1894 concorre às
eleições federais de Sergipe, fracassando novamente. Mas agora, envolvido na
política do estado, vem a desempenhar um papel de petroleiro na jornada de
1 1 de setembro daquele ano, em Aracaju. Ao influxo de sua palavra incendiá­
ria o povo amotinado depõe o presidente Calasans. Foi o famoso Caso de
Sergipe, que repercutiu em todo o país.
No entanto, só em 1900 consegue eleger-se depurado federal por aquele
estado. Os discursos que então veio a pronunciar na Câmara se acham reuni­
dos em volume, e não ocupando número muito grande de páginas, podem fa-

C A P Í T U L O.. YJ I I � 1 1 9
zer crer que se esperava mais de um espírito tão ativo e dinâmico. Será um en­
gano. As legislaturas eram na época apenas de dois anos, e desses dois anos,
quatro meses Sílvio os passou na Europa em busca de melhoras para a saúde.
Em tais condições não se pode dizer que tenha tido uma atuação restrita.
Vê-se a disposição com que o depurado entrou na liça apresentando, logo na
estréia parlamentar, três projetos. Mas o desajustamento com que sempre lu­
tou esse homem independente e rebelde, habituado a decidir por conta pró­
pria, sem cogitar das imposições do meio, mais uma vez se manifestou. Os três
projetos provocaram forte reação na Assembléia, onde vozes se ergueram de
todos os pontos para acusá-los de inconstitucionais. Não recua ele ante os pro­
testos. Se a Constituição se ressente de defeitos que nos expõem a perigos de
ordem interna, o nosso dever é corrigi-los. Então, os protestos se multiplicam
com maior vigor. "É a reforma da Constituição que V. Exª pede?", exclama
' '
um deputado, criando um clima de esdlndalo no recinto.
: ;
A repulsa encontrada por esse primeiro movimento na Assembléia parece
ter refreado algum tanto o entusiasmo do escritor. Continuando a trabalhar
1 ! em outras funções, como as de relator do Código Civil, tornou-se parcimo­
nioso na ambição de legislar. Assim mesmo, voltou várias vezes à tribuna.
Sempre apegado ao cientificismo, procurava entroncar a posição política
numa base filosófica, e quando se discutiu a lei do casamento civil fez esta de­
.,
claração, decerto nunca mais ouvida na Assembléia Nacional: "Meu critério é
o da filosofia evolucionista, encarnada nas grandes linhas gerais do filósofo
magno Herbert Spencer."
Terminado o mandato em 1902, Sílvio Romero não conseguiu reeleger-se.
Em 1903 faz nova tentativa para voltar à Câmara, sem êxito. Estava encerra­
da, definitivamente, a carreira do político militante, mas não a do espírito polí­
tico que havia no escritor, pois continua este a revelar a preocupação dos proble­
mas brasileiros e, como panfletário, a investir contra os males da politicagem. E
seu último discurso, paraninfando a turma de bacharéis da Faculdade de Di­
reito do Rio, em dezembro de 1 913, discurso não pronunciado, mas reprodu­
zido no Jornal do Commercio com o título "O remédio", é ainda, no fundo, um
testamento político.
Medeiros e Albuquerque, que foi um dos auxiliares de Pereira Passos, como
diretor da Instrução Pública no Distrito Federal, tendo tomado parte ativa na

,.

! I 2 o � v1 Vida Literd;ia no Brasil


conspiração de que resultou o golpe de 1 5 de novembro, já havia exercido o
mandato na segunda legislatura de 1 894. Em outubro de 1 90 1 foi eleito depu­
rado na vaga de Herculano Bandeira, conseguindo reeleger-se em 1904 e de­
pois em 1906, quando permaneceu na Câmara até 1 9 1 1. Espírito essencial­
mente combativo, trocou tiros de revólver com adversários políticos e viu-se,
certa vez, obrigado a afastar-se do país para escapar à fúria de inimigos que de­
sejavam eliminá-lo a todo preço, e também para atender aos apelos do chefe de
polícia, que não sabia como garantir-lhe a vida, segundo o próprio escritor nos
informa no livro Por alheias terras. Da sua atividade política deixou duas leis de
grande importância: a dos direitos autorais e a da expulsão dos estrangeiros.
Eduardo Ramos, o autor de Prosas de Cassandra e Retalhos e bisalhos, de­
putado pela Bahia, foi quem apresentou o projeto convertido em lei em 8 de
dezembro de 1 900, mandando reconhecer a Academia Brasileira de Letras co­
mo instituição de utilidade pública. Só em agosto de 1922, no entanto, pas­
saria a fazer parte da "ilustre companhià', eleito para a vaga de Pedro Lessa.
Coelho Neto, que havia sido secretário do governo do estado do Rio logo
depois da proclamação da República e rejeitara por duas vezes a oportunida­
de para seguir a carreira consular e diplomática, representou o Maranhão na
Câmara Federal nas legislaturas de 1909 a 1 9 17. Foi o autor do projeto con­
cedendo um prêmio de dois contos de réis à melhor composição poética que
se adaptasse com todo o rigor do ritmo à música do Hino Nacional Brasileiro.
Era um problema ainda não solucionado. Parecia incrível; não tínhamos
um hino para cantar. No discurso com que justificou o projeto, Coelho Neto
aludia ao fato narrado por Euclides da Cunha. Quando se achava nas frontei­
ras do Brasil com o Peru, no desempenho da missão oficial que ali o levara,
Euclides tivera oportunidade de ouvir os peruanos, em plena selva amazônica,
entoarem, cheios de entusiasmo, o seu hino nacional. O escritor ficara pesaro­
so, fazendo votos para que não se vissem os nossos patrícios na contingência de
passar o dia 7 de setembro ali, a fim de não darem ao estrangeiro fronteiriço
o triste testemunho de um lamentável silêncio. Urgia obter-se uma letra para o
Hino Nacional Brasileiro, cuja música é, indiscutivelmente, de uma grande be­
leza marcial. As letras improvisadas que existiam eram verdadeiramente ignó­
beis. Por volta de 1 9 1 0, cantavam nas escolas, ao som do hino de Francisco
Manuel, um disparate de que se pode ter idéia à vista deste quarteto:

C A P Í T U L O V I I I é;::::41 l 2 I
"Ave Pátria surge agora
Ensinando a lei sublime
Que a justiça revigora
E a fraternidade exprime."

Diante de tal letra, é fácil compreender a decisão da comissão julgadora que


premiou os versos de Osório Duque-Estrada. Mas o projeto encontrou forte
oposição. Germano Hasslocher foi um dos que o combateram tenazmente, ale­
gando que a música é que deve inspirar os versos e nunca a poesia interpretar
a música. Argumento justo, sem dúvida, embora não fosse menos justo que
precisávamos, de qualquer forma, ter a letra de um hino para cantar.
Na Câmara, Coelho Neto geralmente não se ocupa de política partidária.
Os principais discursos por ele feitos se encontram no livro Falando. Em 1909
pronunciou uma longa oração, reclamando a necessidade de instalar-se o
Congresso Federal num prédio condigno. O edifício da Cadeia Velha, onde
funcionava, era tradicional, mas se achava em ruínas. Nele estivera preso
Tiradentes. A construção de um imponente edifício para o Parlamento brasi­
! ! leiro não impli�ava, no entanro, a destruição do velho casarão histórico. E
foi o erro que mais tarde se cometeu pondo abaixo a Cadeia Velha, em lugar
de restaurá-la. Infelizmente não tínhamos ainda o Serviço de Patrimônio
Histórico e Artístico.
A 6 de setembro, proferiu Coelho Neto um de seus mais longos discursos,
protestando contra a devastação das matas - assunto que se prestava, sem dú­
vida, a belas divagações literárias de que o escritor tirou partido, não deixan­
do por isso de possuir um cunho essencialmente prático. A 23 de julho de
1 9 12, ergueu a voz pedindo a repatriação dos restos mortais de dom Pedro I I
e dona Teresa Cristina, que s e achavam no mais completo abandono n o
Panteon dos Braganças em São Vicente de Fora. Outros discursos poderão
ainda ser lembrados, como o de 23 de outubro de 1 9 1 5, sobre o abandono da
terra, o êxodo para a cidade, assunto que, também servindo para evocações
virgilianas, não poderia ser acoimado de abstrato.
Em 1 9 18, o governo do Maranhão retira o nome do escritor da chapa ofi­
cial. Coelho Neto viaja para o Norte a fim de pleitear a reeleição, mas não pode
conjurar as forças poderosas que contra ele se erguem. Da derrota restar-lhe-ia

I 2 2 t:;:::9 cA Vida Literdria no Brasil


um consolo, uma carta admirável de Rui Barbosa: "(...) Não há de estranhar es­
tes arrancos do obscurantismo pelas regiões parlamentares, onde tudo vai bai­
xando, esfriando, cegando em progressão constante." E vinha depois uma alu­
são mordaz ao "povo que neste país se prezava de ateniense". Decerto, um único
,,
"ateniense , no caso, continuaria sendo Coelho Neto.
Militaram ainda na política, no período que estudamos, ocupando cadei­
ras na Câmara Federal, outros escritores, como o poeta e contista Faria Neves
Sobrinho, Artur Orlando, Félix Pacheco, Luís Murat e Alcindo Guanabara, os
dois últimos já entregues a essa atividade desde a última década do século.
No Senado tinham assento Luís Delfino e Rui Barbosa.
No discurso que por ocasião de seu jubileu pronunciou na Biblioteca
Nacional, Rui Barbosa defendia-se de ser literato: "Mas qual é, na minha
existência, o ato da sua consagração essencial às letras? Onde o trabalho, que
assegure à minha vida o caráter de predominante ou eminentemente literá­
ria? Não conheço. Traços literários lhe não minguam, mas em produtos ligei­
ros e acidentais, como o 'Elogio do poeta', a respeito de Castro Alves; a ora­
ção do centenário do marquês de Pombal; o ensaio acerca de Swifr, a crítica
do livro de Balfour; o discurso do Liceu de Artes e Ofícios sobre o desenho
aplicado à arre industrial; o discurso do Colégio Anchieta; o discurso do
Instituto dos Advogados; o parecer e a réplica acerca do Código Civil; umas
duas tentativas de versão homométrica da poesia inimitável de Leopardi; a
adaptação do livro de Calkins, e alguns artigos esparsos de jornais literários
pelo feitio ou pelo assunto." Mas certamente Rui Barbosa estabelecia um
conceito muito restrito de literatura para considerar-se fora dela. Bem mais
amplo foi o conceito de Batista Pereira, quando na Coletânea literária de Rui
não hesitou em incluir daquilo que pelo fundo é mais propriamente política,
direito, questões sociais.
Se o autor de Cartas de Inglaterra nunca procurou realizar-se na literatura
isso não o impediu de fazê-la em boa parte de sua vasta obra hoje reunida em
livro. Bastaria a categoria de grande orador, de verdadeiro gênio verbal que lhe
deve ser atribuída. 1

1. Parece-nos oportuno reclamar aqui um estudo sobre Rui Barbosa, escritor, um exame minu­
cioso daquilo que na sua obra pode ser considerado especificamente lireratura. Araripe Júnior

CAPÍTULO VIII � 1 2 3
Mas o caso de Rui Barbosa deve ser considerado antes o de um político
nas letras. Sob esse prisma, sua personalidade será apreciada, em parte, no ca­
pítulo das polêmicas. Mostraremos então como o debate em torno do proje­
to do C6digo Civil se transformou de uma questão parlamentar numa ques­
tão lingüística. Resta-nos pois acrescentar que uma das maiores conquistas
políticas de Rui Barbosa - seu triunfo em Haia, onde chefiou a delegação
brasileira à Conferência da Paz - tornou-se também uma consagração literá­
ria. Desde essa jornada passou a ser tido como o prot6tipo da inteligência
brasileira, o grande exemplo de nossa capacidade intelectual erguida às alturas
de um símbolo: a Águia de Haia. Vit6ria que foi, indiscutivelmente, tanto das
letras quanto da política.

; i Não poderíamos deixar de assinalar aqui a atividade dos escritores monar­


quistas em prol da idéia a que se mantinham fiéis. No começo do século,
Eduardo Prado, que iria falecer prematuramente em 190 l, continuava sua cam­
panha política ÍlO Comércio de São Paulo, ao lado de Afonso Arinos, que ocu­
paria provisoriamente a direção da folha de fevereiro de 1902 a julho de 1903.2
Data de pouco antes da morte do autor dos Fastos da ditadura militar no Brasil
sua famosa polêmica com o cientista e escritor Pereira Barreto, adepto apaixo­
nado do positivismo. Escrevera este um artigo n' O Estado de S. Paulo apontando

anunciou esse trabalho no prefácio de Contrastes e conftontos de Euclides da Cunha, mas não
chegou a escrevê-lo. Quem o fizer terá de pesquisar, por exemplo, as influências românticas na
juventude de Rui, sua paixão por Leopardi, de quem chegou a traduzir vários poemas. E uma
incursão na biblioteca do solar da rua São Clemente poderá fornecer alguns pontos de referên­
cia bem interessantes.
2. Até esta data, desde antes do princípio do século, O Comércio foi dirigido por Couto de
Magalhães Sobrinho, futuro redator - de 1906 em diante - da revista Álbum Imperial.
Arinos substitui Couto de Magalhães, e a Arinos, Laerre de Assunção, que dirige a folha até no­
vembro de 1904. De novembro desse ano a fevereiro do ano seguinte, pelo menos, aparecem à
testa do jornal os noines de Arn1ando Prado e Plínio Barreto. A 17 de rnaio de I 905, O
Comércio passa às rnãos de Francisco de Andrade Coutinho, que abandona a antiga orientação
partidária, transforn1ando-o em órgão "independente e imparcial", orienração que conservará
José Maria dos Sarnas ao substituí-lo na direção em março de 1 906.

I 2 4 � CÁ Vida Literária . no Brttsi!


0 catolicismo e a intolerância fradesca como motivo do atraso do Brasil e, de
maneira geral, da decadência dos povos latinos. Refutado pelo abade de São
Bento, travara-se a discussão entre ambos quando nela entrou Eduardo Prado,
fazendo uma série de acusações a Pereira Barreto, de cuja ciência zombava.
Pereira Barreto, por sua vez, acusa Prado de fradesco e de estar desviando "jesui­
ticamente" a discussão. No fundo, o motivo da polêmica não eram senão as con­
vicções republicanas do primeiro e o monarquismo arraigado do segundo.3
Teria sido mais ou menos nessa ocasião a visita de Eduardo Prado a José
do Patrocínio, que lhe mostrara apenas com um desenho a giz no soalho o ba­
lão que sonhava levar aos ares. 1'A Monarquia é o meu balão'', respondera o au­
tor da Ilusão americana, cuja esperança no restabelecimento do regime monár­
quico devia permanecer bem viva.4
Essa esperança subsistia também em Afonso Arinos, que numa carta de
1906 a Martim Francisco Ribeiro de Andrada, seu antigo colega de faculdade,
demonstrava acreditar firmemente na restauração brasileira. Nessa missiva> en­
viada de Paris a 26 de janeiro, depois de aludir à atividade dos monarquistas
franceses, que possuíam oitenta representantes nas duas câmaras, escrevia:
"Por que razão os monarquistas daí não deixam de parte o platonismo
e entram em ação pacífica como a campanha eleitoral, ou violenta, quando for
oportuno? A abstenção é a morre; principalmente a abstenção sistemática; é a
negação da política. Francamente, se os monarquistas não podem ao menos
disputar cadeiras de deputados e vereadores, é muito melhor deixarmos de ve­
leidades monárquicas e tratarmos de outra cousa. Sim, porque a continuar­
mos a viver nessa majestosa pasmaceira, não seremos outra cousa mais do que
aquele grupo obsoleto de sebastianistas do Burro do senhor Alcaide. "5
Desde o fim do século passado, quando profundamente desgostoso com o
empastelamento de O Comércio de São Paul.o, em conseqüência da rebelião de
Canudos, Arinos deixara de fazer campanha política pela imprensa; vivia en-

3. Jorge Americano, São Paulo naquele tempo (1895�1915), Edição Saraiva, S. Paulo, 1957.
4. Há duas versões da anedota: uma de Paulo Pires Brandão, em Vultos do meu caminho, e
outra de Osvaldo Orico, n' O tigre da Abolição. Refiro-me acima à do primeiro, a mesma que
veiculei no meu livro Machado de Assis e a política e outros estudos.
5. Manirn Francisco, Contribuindo, cap. II, ''.Afonso Arinos", Mon(eiro Lobato, S. Paulo,
1 92 1 .

CAPÍTULO V I I I � 1 2 5
tão quase sempre na Europa, em contato com elementos da família imperial,
sobretudo com o príncipe dom Luís, que freqüentemente o visitava em Paris;6
a fase qu'é dirigiu O Comércio, entre 1902 e 1903, constitui exceção.
Ligado a Eduardo Prado, sobre o qual escreveu um livro de polêmica, e
monarquista mais por espírito de revolta e inconformismo, como já sugeriu
Alberto da Costa e Silva,7 foi ·o poeta simbolista padre José Severiano de
Resende que, pelo seu temperamento romântico, ardorosamente combativo,
teve uma vida bastante agitada. Vindo de Minas para São Paulo com o intuito
de estudar direito, teve de abandonar a faculdade por haver assumido a defesa
do prof. conselheiro Justino de Andrade, quando este, devido às suas convic­
ções monárquicas, foi jubilado. A atitude de Severiano de Resende incompa­
tibilizou-o com os lentes e colegas que haviam imposto a Benjamim Constant
essa jubilação. Transferindo-se para Ouro Preto e desistindo afinal de ser ba­
charel, recolhe-se ao Seminário de Mariana, ordenando-se em 1 897. Depois
de uma viagem à Europa, deixaria a batina, fixando mais tarde residência em
[ j
Paris, sempre fiel a seu credo político que em 1 907, pelo menos, defendia no
'
Jornal do Commercio. 8
! ! Outro poeta·simbolista que formou nas hostes restauradoras: Edgar Mata,
falecido prematuramente em conseqüência de uma irremediável dipsomania.
Era filho do conselheiro Mata Machado, político liberal de grande projeção
em Minas, que por um dia deixou de ser visconde de Diamantina e foi, de­
"
pois, tenazmente perseguido por Floriano, quando presidente da primeira
Cl.mara de Deputados da República. Essas circunstâncias sentimentais teriam
concorrido para que Edgar Mata aderisse à Monarquia em 1 902, na época em
que trabalhou na redação d' O Comércio de São Paulo, assinando sua colabora-

6. Rodrigo M. E de Andrade, que, entre 1 9 1 1 e 1 9 1 4 fazia o liceu na Europa, recorda-se ter


visto inúmeras vezes na casa de seu tio em Paris o príncipe e Afonso Arinos em animada palestra
sobre a política brasileira e a possibilidade da restauração monárquica.
7. "José Severiano de Resende e alguns temas de sua poesia", in Revista do Livro n.ll 6, junho,
1957.
8. Quando da passagem de dom Luís pelo Rio de Janeiro, escreveu violentos artigos anti-re­
: ! publicanos, com epígrafes retiradas do seu livro Eduardo Prado. Assinava ainda padre Severiano
de Resende, e os artigos forarn reproduzidos no suplen1ento do Álbum Imperial de 20 de maio
e 5 de junho de 1907 (nürnero único).

I2 6 � l./Í Vida Literdria.. no Brasil


ção em prosa (exclusivamente literária, ao que se saiba) com o pseudônimo de
Mário Corvo.9
No mesmo jornal, quando estudante em São Paulo, trabalhou Arduíno
Bolívar, que depois se tornaria grande humanista, poetando em várias línguas
com a mesma desenvoltura com que traduzia e vertia, sempre se ocultando
numa inalterável modéstia. Distinguido pela amizade de Eduardo Prado, par­
ticipou com este das convicções monárquicas que conservou até os últimos
dias de vida, embora sem ter tido ação militante.
Martim Francisco, amigo fraternal de Afonso Arinos, era também muito li­
gado ao príncipe dom Luís, com quem manteve larga correspondência. Foi um
dos mais entusiásticos e met6dicos pregadores da restauração. De suas qualida­
des de humorista, tão apreciadas até hoje, nos livros Rindo, Falando, Viajando,
etc., sempre se valeu, em constantes escaramuças contra a República, fosse na
imprensa ou na tribuna parlamentar, da cadeira de depurado que ocupou de
1 9 1 2 a 1 9 14. Desfrutando de grande prestígio intelectual junto a Monteiro
Lobato ) seu sincero admirador, chegou a influir na Revista do Brasil, onde, em
dezembro de 1 9 18, além de exaltado editorial dedicado a dom Pedro II, publi­
cou-se, sem maior razão de ser, o retrato de dom Luís e de sua esposa, a prin­
cesa Maria Pia. O número de fevereiro de 1 9 19, em nota cheia de entusiasmo
que não pode provir senão da pena de Martim Francisco, anuncia a futura
colaboração do príncipe, coisa que aliás não chegou a se dar, devido à mor­
te do neto do imperador alguns meses depois.
Escrevendo com a maior assiduidade nos jornais do Rio e de São Paulo,
Carlos de Laet foi outro renitente defensor da Monarquia, envolvendo-se em
várias polêmicas, em que descambava não raro para o terreno pessoal, com to­
da sorte de diatribes e chacotas venenosas.10 Constâncio Alves foi um dos seus

9. Informação de José Teixeira Neves.


1 O. "Laer, solidamente vinculado às suas convicções monárquicas, tornara-se, após a implan­
tação da República, o mais acirrado defensor do regime extinto. E não ficava nisso: exercia se­
vera vigilância sobre os seus correligionários, censurando-os por quaísquer transigências com
o novo governo, tendo investido sem d6 nem piedade contra Joaquim Nabuco, quando este
aquiesceu en1 dirigir uma representação diplornática no estrangeiro." (Eugênio Gomes,
Introdução à polêmica entre Carlos de Laet e Constâncio Alves, Rio de Janeiro, Organização
Simões, Rio, 1957.)

CAPÍTULO VIII � 1 2 7
freqüentes antagonistas, e de como sabia aparar-lhe os golpes e revidá-los com
elegância e finura, podemos verificar na polêmica travada entre ambos em julho
de 1901 ·
- Laet no Correio da Manhã, Constâncio no Jornal do Commercio -

a propósito da discussão que o primeiro vinha mantendo com o republicano


histórico Antônio Felício dos Santos, recém-convertido ao catolicismo.
Ao lado de Laet, Afonso Celso também lutou pela Monarquia na im­
prensa. Destino político bem curioso o desse escritor que, republicano no
Império, quando depurado, tornou-se, após o 1 5 de Novembro, monarquis­
ta. Deixou copiosa colaboração política nos jornais. Passava, no entanto, aos
olhos de muira gente, como o protótipo daquilo que Léon Daudet chama­
va de salonnard, isto é, o monarquista de salão. Fato aré cerro ponto para­
doxal o de ter esse homem, descontente com o regime, escrito o livro que
melhor exprimiu a euforia do começo do século, Porque me ufano do meu país,
publicado em 1 9 0 1 . Livro cuja contrapartida seria a visão pessimista de Os
sertões, do republicano Euclides da Cunha.
Oliveira Lima, que se achava em Lisboa exercendo função diplomática, em
1 5 de novembro, continuou na "carreirà', como o barão do Rio Branco, em­
'

! ! bora nutrindo idéias monárquicas. Na sua obra notável, Dom joão VI no Brasil,
procurou reabilitar a figura do príncipe regente, verdadeiro fundador do
Império, até então retratado sob um aspecro ridículo e grotesco pelos hisro­
riadores jacobinos. Por volra de 1 9 12, esteve indicado para chefiar a embaixa­
da do Brasil em Londres. Mas nessa ocasião concedeu a O Imparcial uma en­
trevista em que muita gente viu uma profissão de fé monárquica. A idéia da
restauração ainda pairava no ar. Pinheiro Machado, o poderoso da época, que
se considerava o defensor da República, manobrando a bel-prazer o Senado,
exigiu uma retratação de Oliveira Lima para que a sua indicação pudesse ser
aprovada. O hisroriador negou-se a fazê-la e com isso perdeu o cobiçado pos­
to na Inglaterra. Suas simpatias pelo antigo regime levariam dom Luís a ten­
tar atraí-lo para a ação militante, como procurara fazer com vários intelec­
tuais. 1 1 Euclides da Cunha, por exemplo, dirigindo-se a Francisco Escobar,

l l. Em carta a Martim Francisco de 1 1 de setembro de 1 9 13, também reproduzida em


Contribuindo, fazia o príncipe os seguintes comentários a respeiro das eleições em véspera de
realização: "Ainda não sei qual será a sua atitude na questão das candidaturas. Quanto a mim,

,1 I 2 8 � LA' Vida Literárúi,. no Brasil


1
a 10 de abril de 1908, alude a uma carta que recebera de dom Luís e na qual
devia haver algum propósito indireto de aproximação política, a julgar pelo
seguinte trecho: "( ...) Um contraste: depois de responder a tua carta, irei res­
ponder outra - do príncipe dom Luís de Bragança!... Recebi-a há dias.
Tem oito páginas maciças, escritas num português impecável e surpreendente.
Não preciso dizer-te que ela não me fere a integridade republicana. Dom Luís
é sobretudo um escritor. Escreveu ao adversário político" - ele mesmo o ob­
serva - "obedecendo apenas às afinidades de temperamento. De qualquer
modo é um compatriota que estuda as nossas coisas e que ama o Brasil. E co­
mo, ao mesmo tempo, parece-me ter lucidez bastante para compreender que
a missão de sua dinastia está completamente acabada, irei responder-lhe desa­
fogadamente. Adeus. Abraço-te."12
Na verdade, quase todos os escritores monarquistas (com exceção talvez
de Eduardo Prado, Afonso Arinos, Martim Francisco e, numa posição mais
fechadamente conservadora, Carlos de Laet, que tinham formação doutri­
nária) foram mais ou menos sentimentais. Sob esse aspecto, podemos até

julgo ambos os candidatos 'indesejáveis'; mas a ter de optar, optaria pelo Rui, cujos partidários
representam o elemento mais são e de maior prestígio no país. Parece-me mesmo que
poderíamos aproveitar o momento para um acordo com os próceres desse grupo, a fim de con­
seguirmos um esforço comum pela restauração, logo após as eleições presidenciais, Que lhe
parece? Tan1bém muito estimaria conhecer o pensamento do dr. Oliveira Lima que, aposenta­
do, deve ter retomado a sua liberdade de ação."
12. Francisco Venâncio Filho, Euclides da Cunha e seus amigos, págs. 207-208, Cia. Editora
Nacional, S. Paulo, 1938.
Foi divulgada, aliás, na "Página literária" de A Gazeta de São Paulo, comunicada por Alves Mota
Sobrinho, uma carta inédita de Euclides a Escobar com referências dcsairosas à República e
considerações que se presumem humorísticas à possibilidade da restauração. "Mas penso con­
tigo" - escrevia Euclides-, "a nossa raça (?) está liquidada. Deu o que podia dar: a escravidão,
alguns atos de heroísmo amalucado, uma república hilariante e por fim o que aí está - a ban­
dalheira sistematizada. A Monarquia só nos poderia salvar se fosse heróica. Uma Monarquia
guerreira e atrevida. Imagina um Carlos XII arremessando-nos sobre o Prata e subjugando a
Argentina... Mas onde o encontrar? E onde estão os suecos? Quer isto dizer que a resrauração
não resolve o problema. Resignemo-nos." Mais adiante, anunciando a próxima publicação d Os '

sertões, o escritor afinnava: "Serei um vingador." A verdade é que, como tantos republicanos,
Euclides estava desiludido com o novo regi1ne, encarando o Império com maior espírito de
justiça. A cana é de Lorena, 1 0 de abril de 1902, e foi publicada a 22 de rnarço de 1952, ano
do cinqüenrenário d' Os sertões.

CAPÍTULO VIII �129


aproximá-los de Lima Barreto, que apesar do seu não-conformismo visceral,
traduzido principalmente em tendências maximalistas, nunca deixou de en­
carar com ternura a família imperial, de que havia sido devotado servidor
seu pai. O afilhado do visconde de Ouro Preto, que trataria tão rudemente
Floriano no Tristefim de Policarpo Quaresma, havia de referir-se sempre ao
velho monarca, à princesa Isabel e ao conde D'Eu em termos respeitosos,
nos quais podemos ver ainda reflexos do clima psicol6gico do paternalis­
mo imperial.
Agitou profundamente os ambientes monárquicos do país a passagem pelo
Rio e por Santos, em maio de 1 907, do príncipe dom Luís de Orleans e
Bragança, segundo filho da princesa Isabel. 13 Dias antes de aportar à Guanabara
o paquete Amazone, em que ele viajava com o propósito de excursionar pelos
diversos países da América do Sul, movimentaram-se as autoridades. Chegou
a haver uma conferência do presidente da República com os ministros. Ficou
decidido que não seria permitido o desembarque do príncipe. O dr. José da
Silva Costa impetrou uma ordem de habeas-corpus, declarando que a medida
tinha sido baseada no decreto de 24 de dezembro de 1889, que bania do ter­
ritório brasileiro a família imperial; o argumento não procedia por vários mo­
tivos, sobretudo porque o decreto fora ignorado pelo dispositivo constitucio­
nal do direito de locomoção. O tribunal negou o habeas-corpus, votando a
favor dele apenas Amaro Cavalcanti e Alberto Torres. Alegava-se o fato de
dom Luís ter perdido seus direitos de brasileiro em virtude de estar servindo
no exército austríaco (segundo o costume dos príncipes no exílio se alistarem no
exército de uma monarquia estrangeira).

13. O primogênito do conde D'Eu e da princesa Isabel era o príncipe dom Pedro de Alcântara,
que no ano seguinte, em virtude do seu casamento morganático com a condessa de Dobrzenski
de Dobrnicks, renunciou, para si e descendentes, a seus direitos de herdeiro do trono. Inves­
tido, por esse motivo, da dignidade de príncipe imperial, dom Luís dirigiu ao Diretório
Monarquista do Brasil, de que faziam pane, entre outros, o visconde de Ouro Preto e os con­
selheiros Lafaiete e João Alfredo, um manifesto político, muito comentado e discutido, em
1 9 1 3. Morrendo prematuramente sete anos depois, em março de 1 920, de moléstia contraída
na Grande Guerra (fizera esta corno oficial do exército britânico), foi o "príncipe perfeito",
corno lhe chamavam os correligionários, uma figura muito interessante e das mais característi­
cas da belle époque. o príncipe culto e exilado ern Paris, sonhando uma restauração inspirada
pelas idéias contemporâneas de Maurras, a que não lhe repugnaria dar un1a tintura progressista.

I 3 O � t.A Vida Literdria no Brasil


A 1 2 de maio, ao meio-dia, o Amazone atracou na baía. Dom Luís trazia
0 propósito firme de desembarcar. As autoridades, porém, dirigindo-se a bor­
do, lhe fizeram sentir que isso era impossível. Não tardaram a aparecer os
monarquistas para saudá-lo e trazer-lhe os seus protestos contra a medida do
governo. O conselheiro Lafaiete apresentou-lhe comovidamente os filhos e
amigos; Carlos de Laet pronuncia breve discurso; fala também Múcio Teixeira.
Cercam-no por todos os lados com pedidos de autógrafo, e como não existe
uma mesa ao lado, Andrade Figueira oferece a cartola para o príncipe sobre
ela escrever, explicando aos circunstantes: "Não tendo a minha cartola a quem
cumprimentar, é natural que mude de destino." 14
Apertando as mãos do sargento Nemésio Gay, da policia militar, dom Luís
declara ter o maior prazer em saudar um representante do glorioso exército
brasileiro. Algumas vozes corrigem: "Da policia." O sargento toma a palavra.
Falava como soldado que servia à pátria e como republicano; respeitava os sen­
timentos alheios e as opiniões contrárias; não negando os serviços prestados
pela Monarquia ao Brasil. Correspondendo aos sentimentos de gratidão dos
presentes pelo antigo regime, não podia esquecer, no entanto, o que os repu­
blicanos tinham feiro. Por isso propunha se dessem vivas também ao novo re­
gime e ao preclaro presidente Afonso Pena. Ouvem-se violentos protestos dos
presentes e o sargento acaba sendo preso pelo terceiro delegado auxiliar, por
ordem do chefe de polícia.
A permanência do príncipe na Guanabara, sem poder desembarcar, pro­
voca debates entre republicanos e monarquistas. Medeiros e Albuquerque
justifica em termos enérgicos a medida, alegando que dom Luís é austríaco
e não mais brasileiro. Lopes Trovão declara que se o príncipe descesse a terra
seriam dados certamente vivas e morras à Monarquia, suscitando conflitos
que atingiriam o visitante, e como se tratava de um estrangeiro, isso poderia
provocar uma questão internacional. Do seu lado, os monarquistas protes­
tam em artigos violentos, Carlos de Laet à frente. Os jornais ocupam-se lar­
gamente do fato, revivendo episódios da Proclamação da República.
O Correio da Manhã reproduz a célebre página de Raul Pompéia "Uma
noite histórica.''

14. Paulo Pires Brandão, Vultos do meu caminho.


O príncipe mostrava-se revoltado com a proibição. A um jornalista de­
clarou: "Só uma coisa lastimo - não poder festejar amanhã na minha pá­
tria o 1 3 de Maio... " E lavrou um solene protesto que se tornou público.
Dizia não ser verdade houvesse aberto mão dos seus direitos de cidadão bra­
sileiro e considerava a medida, violenta e arbitrária, um desrespeito às ga­
rantias da Constituição. ('Brasileiro como os que mais possam ser e sentin­
do vibrar em meu peito todas as fibras do patriotismo, revendo após dezoito
anos de exílio as terras do Brasil e não podendo nele desembarcar, apelo pa­
ra a opinião dos meus compatriotas, para o mundo civilizado, para Deus,
supremo regedor das nações, e confio que ainda um dia se me fará a justiça
que me é denegada."15
Em Santos não pôde também o príncipe dom Luís desembarcar, mostran­
do-se muito pesaroso por não lhe ser dada a oportunidade de visitar o túmu­
lo de José Bonifácio. Os monarquistas de São Paulo homenagearam-no, como
no Rio, e Martim Francisco jantou com ele a bordo.
Depois de visitar a Argentina, o Chile, a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai,
em dezembro de 1 907, dom Luís já se encontrava de novo na Europa e dali es­
! !
crevia ao dr. Vi�ente de Toledo Ouro Preto uma carta publicada pelo Jornal do
Commercio (4- 12-1 907). Tecia considerações sobre os exércitos que encontra­
ra armados e aparelhados nas nações platinas e no Pacífico; manifestava-se pe­
la obrigatoriedade do serviço militar; achava que a América do Sul tinha exces­
so de políticos, e lamentando não lhe ser concedido descer em terra brasileira,
dizia aguardar melhores tempos em que esse impedimento desaparecesse.
Dom Luís publicaria o livro Sous la Croix du Sud, premiado pela Academia
Francesa, no qual resume suas impressões de viagem pela América do Sul.
Refere-se aí à proibição do seu desembarque, 16 relembrando a emoção com

1 5 . Correio da Manhã, 12-5-1907.


16. Eis como o príncipe narra esses episódios: "Lançada a âncora, a Saúde e a Alfândega nos
visitam. Funcionários agaloados sobem a escada; um jornalista, representante de um dos
grandes diários da capital, se adianta, e dele recebo a notícia de haver o governo proibido o meu
desembarque. Cruel decepção! Na embriaguez da chegada havia�me esquecido a feição políti­
ca de minha viage1n, e apenas ansiava pelo momento em que, com os outros passageiros, me
seria dado precipitar-rne em uma das pequenas embarcações que cercam o Amazone, se bem
que ainda indeciso sobre a extensão da minha demora no Rio. (. .. ) Como uma avalancha os

I 3 2 f:;A l../Í Vida Literária no Brasil


que contemplara, ao cair da tarde, a paisagem da baía de Guanabara, e prin­
cipalmente a ilha Fiscal, onde se havia r.ealizado o último baile oficial da Mo­
narquia. Neste ponto faz hábil transição para narrar suas lembranças do 1 5 de
Novembro, e depois analisar, com a objetividade do interessado, a evolução
política brasileira desde 1850 até aqueles dias.
Em 1 9 1 5 candidatar-se-ia o príncipe à Academia Brasileira de Letras,
na vaga do almirante Jaceguai, perdendo por nove votos para Goulart de
Andrade, que foi eleito com vinte.

Tendo a obra de Euclides da Cunha grande conteúdo político, não é de


estranhar que o escritor experimentasse o desejo de intervir diretamente na
causa pública, de pôr em ação os princípios formulados em livros como
Os sertões. Houve um momento em que esse desejo aguçou, e a política lhe
acenou como verdadeira tentação, ou pelo menos derivativo feliz para sua
existência colocada num verdadeiro impasse.

meus amigos invadem o tombadilho. Enconrroado, afogado por uma multidão simpática, vejo­
me arrastado para o salão de bordo. Urna autoridade policial, muito correta, intima-me a de­
cisão dos poderes federais, contra a qual, vibrante de emoção, faço o meu protesto ... Acla­
mações, flores, discursos ... A política conquista seus direitos; e, assim, ao menos por algumas
horas, ser-me-á poupado o experimentar todo o peso da minha desilusão. Durante toda a tarde
os visitantes desfilam sobre o Amazone: antigos amigos, perdidos de vista desde a revolução;
conhecidos da Europa, acidentalmente no Rio; velhos servidores encanecidos pelo tempo;
muitos desconhecidos, representantes das novas gerações, que a reflexão, mais ainda que o en­
tusiasmo, conquistou ao nosso partido; e sem dúvida também muitos curiosos, para os quais
eu represento o assunto do dia, aquele de quem se ocupam todos os jornais da capital ... ( ... )
Na falta da alegria, que eu prelibava, de pisar o solo natal, me é grato sentir-me viver no meio
de compatriotas, ouvir falar minha língua, e poder enfim constatar que, se durante longos anos
o mundo político e a imprensa afetaram esquecer-nos, a lembrança do que os meus fizeram pelo
país subsiste profundamente gravada na alma popular." (Sob o Cruzeiro do Sul Brasil
Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai, Uruguai. Primeira edição em vernáculo traduzida pelo au­
tor com a colaboração do dr. Melo Resende. Montreux, 1 9 1 3.)
Dom Luís escreveu ainda: Dans !.es Alpes, A Travers l1ndo-Kush (traduzido em 1950 com o tt-'
tulo Onde quatro irnpérios se encontram por Lazinha Luís Carlos de Caldas Brito, Edições
O Cruzeiro) e Tour d'Afriqtte.

CAPÍTULO VIII � I 3 3
Foi por volta de 1908. Depois de haver regressado da expedição ao Purus,
em 1 90(Í, Euclides ficara adido ao Itamarati, sem passar a pertencer ao qua­
dro dos funcionários. O barão do Rio Branco precisava de seus serviços e que­
ria tê-lo ao lado. Eram trabalhos incessantes de cartografia, pesquisas técnicas,
série de tarefas que sobrecarregavam muitas vezes o escritor, na necessidade de
atender às múltiplas exigências do ministro, cuja operosidade se tornara pro­
verbial. O ambiente do Itamarati, o convívio forçado com certos diplomatas,
não se ajustavam ao temperamento áspero de Euclides. Grande admirador do
barão, no qual via uma das maiores figuras do Brasil, não se animava, porém,
a solicitar outro emprego, além de que nutria a esperança de ser aproveitado
numa missão diplomática no exterior.
Mas os dias passavam e a vida se lhe tornava um tanto exasperante. O remo­
delamento do Rio, a mentalidade arrivista que daí surgia, tudo era de molde
a irritá-lo. Não podia suportar aqueles arremedas de civilização européia. Em
carta de 12 de fevereiro de 1908 a Francisco Escobar, convidando-o para uma
visita ao Rio dizia: ''Admirarás os célebres melhoramentos. Fulminaremos, jun­
tos, o pioramento dos homens. Daremos pasto à nossa velha ironia ansiosa por
enterrar-se nos cachaços gordos de alguns felizes malandros que andam por aí
fimfonando desabaladamente, de automóvel, ameaçando atropelar-nos a nós ou­
tros, pobres altivos diabos que teimamos em andar nesta vida, dignamente, pe­
lo nosso pé." 17 A expressão "pobres altivos diabos" é bem significativa. Euclides
não se curvava à superioridade dos burgueses enriquecidos nessa época, em que
andar de automóvel era, muito mais do que hoje, privilégio dos ricos.
É nesse momento que o velho amigo Escobar, o generoso e dedicado
Francisco Escobar, velando pelos interesses do escritor, pensa em articular-lhe
a candidatura de deputado por Minas. Mineiro, dispondo de influência e li­
gações políticas no estado, julgara possível o projeto. Infelizmente, não conhe­
cemos detalhes sobre as démarches de Escobar; é uma página da biografia de
Euclides que ainda está a reclamar esclarecimento e pesquisa. Em 1 O de abril
de 1908, por uma carta do escritor ao amigo, percebemos que a idéia já vinha
sendo agitada por este há algum tempo. A princípio Euclides não a devia ter

17. Francisco Venâncio Filho, op. cit., págs. 203�204. A fonte das citações subseqüentes
é a mesma.

I 3 4 ""'"' v1 Vida Literdria no Brasil


levado muito a sério: tratar-se-ia apenas da inspiração fugitiva de uma velha
e inquebrantável amizade; mas agora Escobar a definia com segurança que 0
impressio nara. E Euclides se animava. "Não resisto à perspectiva que me des­
cerras!" - escrevia. - ''A idealização submeto-a aos estudos mais positivos,
envolvo-a no cilício dos algarismos, esmago-a ao peso das indagações as mais
objetivas - e ela revive-me, cada vez maior, e triunfante." Era a tentação viva)
imperiosa: a política surgindo-lhe como destino perfeitamente adequado ao
homem que lançara o libelo flamívomo d' Os sertões. "Ora, nesta quadra de
,,,
'grandes nivelamentos - raciocinava no decorrer da carta - "talvez tenha
realmente uma função providencial o aprumo de uma inteligência rebelde
e sonhadora. Penso até, num ímpeto de pecaminosa vaidade, que destruirei a
esterilidade de um Congresso de resignados, tolhidos por toda espécie de
compromissos." Euclides imaginava assim a possibilidade de vir a erguer a voz
na Câmara, liberto de injunções partidárias, já que seria o escritor, o homem
de pensamento, o estudioso dos nossos problemas que nele se elegeria. Con­
tinuava confessando que, de qualquer forma, a carta promissora de Escobar
perturbara-o. E considerando que, dentro de um ano, o laudo do árbitro ar­
gentino, na questão dos limites entre o Peru e a Bolívia, talvez nos lançasse na
"mais agitada das nossas controvérsias internacionais", achava a idéia da can­
didatura verdadeira inspiração do amigo. "Com efeito" - conjeturava -,
"qualquer que seja minha desvalia noutros assuntos, poderei esclarecer em
muitos pontos os debates que, inevitavelmente, se travarão no seio do Con­
_
gresso. Pelo menos serei um franco-atirador contra os que arremeteram com
a vigorosa política exterior do nosso único grande homem." O propósito de
defender o barão, seu ídolo, lhe viera logo como um dos principais encargos
dessa hipotética atividade parlamentar. Deixava, porém, para conversar mais
devagar com o amigo quando fosse a Minas, viagem que dependia apenas de
um estudo a ultimar-se, e tinha naturalmente os fins particulares de estreitar
as articulações da candidatura em questão. É verdade que uma coisa contri­
buía desde já para desinfluí-lo: "O caso da Bahia demonstrou-nos, exemplar­
mente, as 'fatalidades do poder' (... )" Mas achava que a sua "lúcida e sólida ex­
periência dos homens" já devia ter esclarecido a ele, Escobar, acerca dos
melhores rumos para flanqueá-las. Terminava dizendo-lhe que manteria a "re­
serva" nos pontos indicados pelo amigo, embora informasse "reservadamente"

C A P Í T U L O V I I I t;::q l 3 5
o barão do Rio Branco sobre os motivos essenciais da viagem. Com o apoio
do barão. contava Euclides nessa projetada aventura política, e sabe-se que o
ministro, como era de prever, não lho recusou.
Três dias depois, dirige-se novamente a Escobar, explicando-lhe os motivos
que o impediam de predeterminar o dia da viagem e pedindo-lhe que o escla­
,
recesse a respeito os "dignos patrícios' dali. Os "dignos patrícios'' seriam os ele­
mentos políticos manobrados por Escobar em favor do amigo. "Peço-te tam­
bém (e isto fica entre nós)" - acrescentava Euclides - "que impeças qualquer
notícia dos jornais sobre a viagem. O artigo do Clamor, de 3, deixou-me com
os cabelos em pé. Salva-se a sinceridade e o cativante entusiasmo do articulista
- mas o tom geral é quase alarmante nestes tempos em que as intenções mais
puras estão sujeitas aos piores comentários. Mantive - e tenho nisto o máxi­
mo interesse - a reserva, que desejas também, acerca da candidatura. Convém
que de tua parte faças também tudo para que ela se não revele."
Na correspondência do escritor compilada por Francisco Venâncio Filho,
no livro Euclides da Cunha e seus amigos, não existe depois desta data nenhu­
ma outra carta -� Escobar. Das exatas circunstâncias em que fracassou a can­
1 '
. ' didatura do autor de Os sertões não temos perfeito conhecimento. A versão
corrente é de que os próceres das Alterosas vetaram-na, pelo fato de o escri­
tor não ser mineiro.

Machado de Assis, que nunca tomou parte ativa nos acontecimentos po­
líticos, esteve por volta de 1905 em vias de desempenhar o papel que sempre
' dele reclamaram, os que o acusam sem fundamento de manter-se indiferente
' ! à realidade nacional.
' 1
' : No dia 20 de junho daquele ano, quando se cogitava da sucessão do pre­
sidente Rodrigues Alves, dois jomai• da oposição, o Correio da Manhã e a
Gazeta de Notícias, por iniciativa de Lúcio de Mendonça, lançaram a idéia de
que a escolha do novo candidato fosse feita por um processo que viria contra­
riar inteiramente as praxes em vigor. Cada estado designaria um delegado à
Convenção Nacional, que devia reunir-se na capital da República em 1° de
março de 1904, dois anos antes da eleição presidencial, para eleger os candi-

I3 6 &A (./[ Vida Literária no Brasil


daras aos cargos de presidente e vice-presidente da República. Na escolha do
delegado à convenção tomariam parte os eleitores de cada estado, para tal fim
convocados "na forma determinada em ato emanado de uma Comissão
Central Executiva, organizada nesta capital e composta de notáveis do parti­
do republicano" escolhidos no seio das diferentes classes sociais.
Mas como constituir-se a Comissão Central Executiva? Parece ter havido
algu ma hesitação a princípio. Decidiu-se afinal por um processo que se apre­
sentava como "altamente democrático') . Seriam indicados nomes que a todos
os respeitos se afigurassem idôneos para semelhante função política. E a lista
dos nomes logo depois de publicada deveria ficar pelo espaço de um mês su­
jeita à censura pública e à recusa dos próprios indicados, oferecida assim ao
mais amplo e livre debate. Só depois de encerrado esse debate seria constituí­
da de forma definitiva a Comissão, que assim teria a "possível forma de uma
investidura públici'.
Eis os nomes indicados como representantes das diferentes classes: dr.
Antônio Joaquim de Macedo Soares - magistratura federal; dr. Edmundo
Muniz Barreto - magistratura local; sr. João Cordeiro - Senado; dr. Cassiano
do Nascimento Ciimara dos Deputados; general Artur Oscar - Exército;
contra-almirante J. J. Proença - Marinha; dr. José Carlos Rodrigues - im­
prensa; dr. Paulo de Frontin - indústria; dr. Vicente de Sousa - proletariado;
dr. Raimundo Teixeira Mendes - filosofia; dr. Barros Franco - lavoura; st
Bento José Leite - comércio; dr. Demócrito Cavalcanti de Albuquerque -
funcionalismo público; sr. Virgílio da Silva Campos - escolas civis;
sr. Joaquim Sousa Reis Neto - escolas militares; dr. Manuel Timóteo da Costa
- magistério público; dr. Alfredo Gomes - magistério particular; sr. Machado
de Assis - literatura; sr. Aurélio de Figueiredo - artes; dr. José de Mendonça
- medicina; dr. João Carneiro de Sousa Bandeira - advocacia; dr. Adolfo
Aschoff - engenharia; monsenhor Alberto Gonçalves - clero; sr. coronel
Adolfo Hasselmann - proprietários e capitalistas.
A lista foi publicada a 2 de março, anunciando-se que o debate seria en­
cerrado a 20 de julho e que no dia 2 1 já seria conhecida a organização defini­
tiva da Comissão.
Não tardariam, porém, a verificar-se várias modificações. O representan­
te do clero, monsenhor Alberto Gonçalves, foi substituído primeiro por mon-

CAPÍTULO VIII � 1 3 7
senhor Olímpio de Campos e depois pelo padre Valais de Castro, deputado
por São Paulo. O do exército, o general Artur Oscar, que veio a falecer, teve
a substit�í-lo o general Henrique Valadares. O representante da filosofia,
Teixeira Mendes, declinou da indicação, por se tratar de um sistema de trans­
missão de autoridade contrário aos princípios de Augusto Comte, de quem
era grande ap6stolo no Brasil.
Outras substituições foram feitas, como a dos representantes da imprensa,
do funcionalismo público, etc. O que nos interessa frisar é que até o dia 22 de
julho, quando terminava o prazo para o debate, Machado de Assis continua­
va na lista. Teve quase cinco meses para pedir a substituição e não a pediu,
o que nos leva a crer que, mesmo contrariando as disposições de seu tempe­
ramento, consentia em exercer o mandato. Constituída a Comissão, foi desig­
nado o dia 24 para a primeira reunião de seus membros, num sobrado da rua
do Hospício, 84, às três horas da tarde. Mas dos vinte e quatro delegados apa­
receram apenas seis; Machado de Assis não se achando nesse número. A im­
prensa que patrocinava a iniciativa procurou justificar os faltosos. Tratava-se
de um sábado, dia tradicionalmente consagrado à rua do Ouvidor e, além dis­
so, de uma tarde úmida, cortada de aguaceiros.
Em nova convocação feira a 4 de agosto ainda aparece o nome de
Machado de Assis. A reunião é, porém, sucessivamente transferida para 1 5,
1 9 , 22 e 26 de agosto, quando afinal chegou a realizar-se com o compareci­
mento de treze delegados. Já nessa altura Machado de Assis era substituído
por Inglês de Sousa.
O relato que acabamos de fazer resume minuciosa pesquisa realizada por
Carlos Sussekind de Mendonça18 no propósito de averiguar o sentido de cer­
ta passagem de uma carta de Machado de Assis a Lúcio de Mendonça. O ro­
mancista se escusa evidentemente de aceitar o convite para uma função de ca­
ráter político. Eis o trecho da carta: ''A lembrança do meu nome, honrosíssima
em si, veio de encontro a um grande obstáculo. Não quero referir-me à repre­
sentação literária, que a bondade dos amigos me dá, como um prêmio de as­
siduidade e tenacidade no trabalho. Refiro-me à significação política, quando
eu vou galgando os sessenta anos, para não dizer a verdade inteira. Meu que-

1 8 . jornal do Commercio, 28-3-1937.

I 3 8 <::::A L/Í Vida Literdria no Brasil


rido, não é idade em que comece um papel destes quem não exerceu nenhum
análogo na mocidade." 19 Estaria nesses termos Machado de Assis se eximindo
de tomar parte na Comissão Central Executiva, instituída por iniciativa de
Lúcio de Mendonça? Parece que sim. Já iam longe os tempos do Machado
truculento do Paraíba, ardente de liberalismo, investindo contra a ditadura fi­
nanceira de Torres Homem; do Machado oposicionista do Didrio do Rio de
Janeiro. O conselheiro Aires já estava aposentado, e experimentava de manei­
ra cada vez mais sensível o "tédio à controvérsia''. Não era agora, aos sessenta
anos , que iria meter-se em alhadas.
Convém acrescentar mais uma palavra sobre o destino da Comissão
Central Executiva. Com a morre de Júlio de Castilhos, Lúcio de Mendonça
retirou-se do movimento de que vinha sendo a alma. E fê-lo declarando sem
rebuços que, quando lançara a idéia, procedia na certeza de que a "opinião
nacional, consultada lealmente, indicaria para o supremo posto o nome do
pr6cer gaúcho". Desaparecendo aquele que seria seu candidato, alheava-se
da iniciativa. Depois disso, também nenhuma outra notícia de reuniões da
Comissão Carlos Sussekind de Mendonça conseguiu encontrar, chegando
à conclusão de que teria sido dissolvida. Assim fracassou essa tentativa de es­
colher-se o candidato à presidência da República por um processo inteira­
n1ente inédito.

19. Machado de Assis, Correspondêncía, col. e anot. por Fernando Néri, pág. 323, W. M.
Jackson, São Paulo, 1 937.

CAPÍTULO VIII � 1 3 9
ll <Zt C A P Í T U L O IX

u1 sedução de Paris _, La douceur de vivre _, 'Bilac intoxicado de


"parisina" _, cAs excentricidades de José Albano _, 'lheo Filho _,
Patrocínio Filho e sua mitomania _, fj,teratura depanegírico _, Euclides
da Cunha prefere o sertão ao bulevar _, <IJensidade e tenuidade

unca exerceu Paris tão forte influência sobre nossa vida literária
quanto no período do pré-guerra, em 1 9 14, quando o próprio ci­
nema que seria, mais tarde, grande veículo de infiltração norte­
americana em nossos costumes - vinha então em boa parte da
França. Eram os filmes da Pathé Freres e da Gaumont, com o famoso Max
Linder, cômico diferente dos de hoje, e os principais artistas do teatro francês,
como Regina Badet, Suzanne Depres e a própria Sarah Bernhardt.
Mas não seria de admirar que vivêssemos, vestíssemos e escrevêssemos pe­
las receitas parisienses, se era bem poderosa igualmente a sugestão de Paris
sobre o mundo europeu e ocidental nessa época, tornando-se o centro de
atração da humanidade, o maior empório de prazer do planeta. Auferir da exis­
tência tudo quanto ela nos podia dar de belo e de bom, era uma receita que en­
tão só se aviava no bulevar.
Derrotada em 1 870, mutilada nos territórios da Alsácia e da Lorena,
a França, apesar da pregação nacionalista de Deroulêde, não se deixava domi­
nar pela obsessão da revanche, como aconteceria com a Alemanha, depois de
1 9 1 8 . Recalcando o pesar do desastre, em lugar de empenhar todas as forças
vivas e as reservas nacionais no preparo de uma nova guerra, sentira a predes-

CAPÍTULO IX � 1 4 1
tinação de dominar, não pelas armas, mas pelo fascínio do espírito, a univer­
salidade. A obra de Zola, de Maupassant, de Verlaine e de Rimbaud, dos na­
turalistas," dos simbolistas, dos impressionistas, de toda uma plêiade magnífi­
ca de intelectuais e artisras, projetando pelo mundo o livro francês, a moda
francesa, o gosto francês; e Paris dirando figurinos e fórmulas, seduzindo os
povos com o feitiço irresistível de uma cortesã, tudo isso constituía uma espé­
cie de desforra, ou pelo menos uma inebriante compensação para o golpe de
1 870. Iam-se esquecendo os perigos, no luminoso desígnio de civilizar, de en­
canrar a humanidade; enquanto a Alemanha ao lado, pesada, dura, rígida,
preparava-se para a conquista da França e da Europa, no choque inevitável.
Usando perfumes parisienses, o kaiser dizia ao jornalista Stéphane Lausanne
(Sa majesté la presse) que a França era um país esgotado, que só servia para o
prazer, e tinha como certo ir dentro em breve passar revista nas tropas impe­
riais na avenue des Champs-Elysées.
1 Maurice Donnay, no livro ]'ai vécu le 1900, 1 fala-nos de uma alemã, irri­
! !
tada com a intimação para tirar o chapéu num teatro parisiense, a ameaçar
em voz alta os franceses com a próxima vinda dos soldados alemães. Era o
dessous da delícíà de viver. Pressentia-se, por detrás de todo o esplendor art
nouveau, a germinação subterrânea de perigos imponderáveis. Numa tarde de
courses, Maurice Donnay confessa-se atordoado com a extravagância, a pom­
pa na ostentação dos adornos, na exibição dos trajes, tudo indicando um ex­
cesso d'avant la révolution. Alguma coisa estaria para acontecer pensava de
maneira profética. Na mesma ocasião, dona Flora, esposa de Oliveira Lima,
refratária a esses aspectos de civilização francesa, dizia que em Paris era só lu­
xo e luxúria. Mas com esse luxo e essa luxúria Paris nos fascinava. Vivíamos
sonhando com a "rue de la Paix". Numa crônica do livro Cinematógrafo, in­
titulada "Quando o brasileiro descobrirá o Brasil", João do Rio protestava
contra a nossa ignorância das coisas nativas, enquanto estávamos sempre
' 1
prontos a falar com perfeito conhecimento da realidade européia, vício que
era também, até certo ponto ) o do cronista. "É espantoso, cher confrere" -
ter-lhe-ia dito um colega estrangeiro. - "Todos seus compatriotas conhecem
Paris, como se lá tivessem estado, no entanto, ignoram o caminho mais sim-

1 . Maurice Donnay, )tzi vécu le 1900, Arthéme Fayard, Paris, 1950.

I 4 2 &A cA Vida Literária_ no Brasil


pies para ir a um arrabalde. Digo mais. Foi preciso perguntar a dez pessoas
para obter informações impressas sobre o Rio de Janeiro."
O chique era mesmo ignorar o Brasii e delirar por Paris, numa atitude afe­
tada e nem sempre inteligente. Na Revista da Semana de 5 de agosto de 1 9 1 6,
em plena guerra, encontramos a reprodução deste telegrama de Paulo de
Gardênia, autor do romance Letícia, que se desenrola em Petrópolis, num am­
biente muito semelhante ao d'A esfinge, de Afrânio Peixoto: "Paris, 2 -

Cheguei. Dormi pela primeira vez no meu berço. Sinto-me um recém-nascido.


Vou aprender a falar. Resolvi batizar-me na Madalena. Todas as nourrices de
Luxemburgo se oferecem para me criar. " O telegrama é acompanhado deste co­
mentário feito pela revista: "Que lhe atire a primeira pedra ou o primeiro riso o
,,
brasileiro que, ao chegar a Paris pela primeira vez, não sentiu a mesma emoção.
E que dizer do verdadeiro histerismo com que Tomás Lopes se refere a
Paris, numa carta de 1 6 de novembro de 191 1 a Coelho Neto: "(...) eu amo Paris
como um parisiense, amo essa cidade maravilhosa com paixão, com respeito,
com fúria, com volúpia, com ternura, com amor divino e amor profano."2
O maneirismo de Paulo de Gardênia não traduzia, pois, na época, uma
atitude excepcional. Muita gente manifestava assim, nesse tom melífluo, a pai­
xão por Paris. E as viagens se multiplicavam, o câmbio favorável, as compa­
nhias de navegação proporcionando facilidades aos escritores e jornalistas, os
jornais por sua vez muito interessados em terem correspondentes na Europa.
É assim um ir e vir contínuo de gente que chega com novos hábitos, falando
francês a qualquer propósito. Os que não podem viver em Paris nutrem pelo
menos um sonho: a glória de lá morrer. Ideal que o pobre Guimarães Passos
conseguiu realizar, chegando num crepúsculo de inverno à Gare du Nord, qua­
se moribundo, no tumulto da grande cidade.
Mas quantos, depois de haver desfrutado de Paris todas as delícias e sorti­
légios, desembarcam no Cais Pharoux a trautear o último coup!et do Rat Mort!
Bilac parte todos os anos, regressando sempre com um desejo único: o de par­
tir de novo. Fizera a primeira viagem em 1 89 1 , como correspondente da
Cidade do Rio. De Paris escreve a Max Fleuiss, aludindo ao Brasil como a uma
Cafraria Portuguesa, que a generosidade dos povos persistia em chamar país

2. Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional

CAPÍTULO IX � l 4 3
civilizado; para em outra carta lhe fazer perguntas assim: "Como vai essa ter­
ra ignób!.l?" Acabava de conhecer Eça de Queirós na casa de Eduardo Prado,
e parecia querer imitá-lo na maneira pela qual o romancista costumava refe­
rir-se a Portugal. Ao regressar dessa viagem, Bilac mostrara-se tão dépaysé no
ambiente brasileiro, que chegou a sugerir a Artur Azevedo este comentário no
Correio do Povo:3 "O nosso poeta está seriamente intoxicado" - dizia o cro­
nista, noticiando�lhe o regresso -, "ingeriu pantagruélicas doses de 'parisinà,
a famosa bebida de que falava Charles Nodier, e agora não há volta a dar-lhe.
Se ficar aqui a passear, entre o beco das Canelas e a rua da Vala, morre da pior
das nostalgias, a nostalgia de Paris." E acrescentava ter o poeta vindo com bi­
lhete de ida e volta da companhia Messageries, na certeza absoluta de tornar à
França. Não tornaria logo, dessa vez. Só no começo do século havia de iniciar
um ciclo de viagens anuais a Paris. Lá confessaria a Medeiros e Albuquerque
que detestava a narureza; nunca dissera isso a pessoa alguma, porque lhe fi­
1
i 1 caria muito mal como poeta, no Brasil, revelar tais sentimentos, mas a ver­
' i
dade era essa: só apreciava ambientes urbanos e civilizados.
João do Rio, Luís Edmundo, padre Severiano de Resende, Nestor Vítor,
Gilberto Amado, Theo Filho, rodos cumprem essa romaria indefectível. Uns
voltam logo, com a idéia fixa de uma nova viagem, outros por lá ficam meses
e até anos. Nestor Vítor, que se decidira a partir, pela circunstância muito es­
tranha de se achar desempregado, consegue permanecer em Paris longos anos,
como professor de português dos filhos do barão do Rio Branco.
Também por lá se encontra, em peregrinação inteligente, um homem que
costumava alternar as longas estadas na Europa com as caminhadas através
dos sertões de Minas. Passeia pelo cais do Sena em andar pausado, a mostrar
a um jovem de olhar inquieto os aspectos típicos da cidade, discorrendo sobre
o sentido da civilização européia em face da vida brasileira. O homem já um
pouco maduro é Afonso Arinos, e o jovem, Alceu Amoroso Lima. Outro bra­
sileiro, mal saído da adolescência, anda a percorrer os cabarés de Montmartre,
no anseio de penetrar em rodos os segredos e mistérios de Paris. Chama-se
Benjamim Cosrallat, e nos contos que virá a publicar mais tarde situará fre­
qüentemente no Rio uma atmosfera parisiense.

3. "Flocos'', in Correio do Povo, Rio de Janeiro, 25-3- 1891.

I 4 4 l;;:A C/Í Vida Literária no Brasil


No alto mundo da diplomacia, Graça Aranha se desfaz do alemanismo da
Escola de Recife, que lhe informara as páginas de Canaã, para se deixar levar
pelos encantos da civilização francesa, tornando-se amigo de Maurice Barres.
Na companhia de Felipe d'Oliveira e Araújo Jorge, Álvaro Moreyra desembar­
ca em março de 1 9 1 3 na gare de Lyon e depois de hospedar-se no Hotel de
Russie resolve transferir-se, "por economia e por literaturà', para o Quartier
Latin. Mais tarde, numa entrevista, dirá que se não fosse a guerra de 1 9 1 4 tor­
nar-se-ia poeta francês, pois ficando em Paris, como pretendia, deixaria de es­
crever em nosso idioma- fato tanto mais provável quanto os simbolistas, en­
tre os quais ele se encartava, já se inclinavam a versejar em francês.
No livro 365 dias de boulevard,4 Theo Filho descreve seu convívio em
Paris com Arnaldo Guimarães, jornalista brasileiro que ali residia, atraído não
pelo Paris do Quartier Latin e de Montmartre, mas o "Paris do fausto -
os chás finíssimos do Ritz, onde se encontraria com as últimas criações femi­
ninas, os jantares apurados do Pré-Catelan, onde o seu faro mundano adivi­
nharia os escândalos aristocráticos". Depois de haver passado na capital fran­
cesa os anos de 1 905 e 1906, a ela voltara em 1 9 1 2, como redator do
periódico Elegâncias. "Levando em Paris uma vida de privilegiado" - escreve
Theo Filho -, "as suas relações são raras: só as admite, quando são dignas de­
le. Levantando-se ao meio-dia, pondo duas horas para fazer toilette, almoçan­
do ligeiramente, vai à redação da Elegâncias às três da tarde e aí fica até às 7
da noite. Às sete horas começa a sua verdadeira vida: aperitivo no Café Riche,
jantar em qualquer taberne d'élite, dois atos do Vaudeville ou da Cigale e a ceia
na Abbaye ou no Rat Mort." Dizia gastar o quádruplo do que ganhava, fazer
dívidas para seguir o exemplo luminoso de Balzac e distrair o tédio, pois al­
guns j ulgavam também muito chique entediar-se em Paris.
E esse parisianismo agudo vem produzir alguns tipos excêntricos, como o
poeta José Albano (Josephus Albanus), sonetista camoniano, escrevendo em
português clássico versos cujos méritos só foram descobertos ultimamente.
Se andava por toda a Europa - Londres, Viena, Atenas -, Paris constituía
seu principal ponto de referência. Era dali, geralmente, que retornava narran­
do aventuras mirabolantes, duelos em que se teria portado como destro espa-

4. Theo Filho, 365 dias de boulevard, Leite Ribeiro & Mautílo, Rio, 1920.

C A P Í T U L O IX � 1 4 5
dachim matando o adversário. Luís Aníbal Falcão assim o descreve: "vestindo
sempre µm terno de veludo marrom" , que dizia ser a última moda de Londres,
"levando sempre as luvas que de tão gastas lhe mostravam as pontas dos de­
dos, usando bengala de falso junco, chapéu cheio de furos mal cobrindo a ca­
beleira ensebadà'. Seria esse um retrato da última fase, quando o poeta já en­
trava em triste decadência, com o espírito seriamente conturbado. João Ribeiro
notou-lhe ares de Musset na fina barba nazarena, nos coletes de veludo, no
monóculo que não lhe ia mal à figura. Mas achou que compondo esse tipo ro­
mântico antiquado, chamando a atenção de todos, Albano recaía afinal de
contas numa grande vulgaridade. Agripino Grieco salienta-lhe a distinção
de maneiras, vendo-lhe nas atitudes a imagem dos "leões do Segundo Império
francês ou da cavalheiresca Espanha dos sombreros emplumados". Enquanto
para Tristão da Cunha, esse estranho tipo lhe dava apenas impressão de muji­
que bolchevista. 5
1
i 1 Quando se via sem dinheiro em Paris, e era obrigado a recorrer à bolsa dos
1
brasileiros ricos, José Albano - dizem - lançava mão de um estratagema que,
certamente, lhe amortecia os escrúpulos de cavalheirismo. Pedia-lhes para subs­
crever a publicação de suas obras completas, apesar delas nunca virem a lume;
julgava com isso, naturalmente, fugir à condição de "facadistà' vulgar. Manuel
Bandeira alude a uma psicose que teria levado o poeta a uma casa de saúde; no
entanto, depois disso, fota ainda duas vezes à Europa; a primeira em plena guer­
ra; a última, em 1918, para não mais voltar. Albano embarcara então no Ceará,
em fins de 1 9 1 8, a bordo do Avaré, quando já havia sido assinado o Armistício.
E a julgar pelo que dele nos conta Theo Filho - seu companheiro de bordo
nessa ocasião - no livro Uma viagem movimentada, não estava o poeta nem
de longe restabelecido da psicose que o infelicitara. Albano cometera toda sor­
te de desatinos durante a travessia: falava em duelos, espadas e punhais, che­
' ' gando a causar pânico aos passageiros, embora acabassem reconhecendo que se
tratava de um inofensivo, pelo qual passaram a sentir profunda ternura.
É difícil dizer onde começa a constituir um traço de anormalidade o pendor
excessivo pela biague e a mistificação. Se as histórias mirabolantes de José Albano
resultavam das exaltações de um cérebro doentio, as de José do Patrocínio

5. Tristão da Cunha, Cousas do tempo, Anuário do Brasil, 1 922.

I4 6 � LA Vida Literária no Brasil


(Zeca) eram tidas, geralmente, como patranhas de bon vivant, divertindo-se
em mistificar os interlocutores e o público.6 Mas não seriam também exem­
plos típicos de mitomania? Não haveria um fundo de desequilíbrio na seren; ·

dade com que esse homem narrava os casos mais inverossímeis, engendran­
do toda sorte de romances desenrolados no ambiente parisiense, dizendo-se
amigo de príncipes, apaches, artistas famosos e celebridades mundiais? Difícil
concluir o que havia de verdade em suas crônicas tão vivas, como a verdade
nunca a souberam distinguir os que lhe escutavam as histórias prodigiosas.
Mas muito de seu espírito se encontra numa página em que procurou en­
quadrar a imagem de Theo Filho, com quem aliás possuía grande afinidade,
numa espécie de prefácio ao romance Anita e Plomark, aventureiros. COmo
Londres não comportara Wilde, D'Annunzio escandalizara a Itália, a Espanha
assassinara Ferrer, o Rio não pudera ser hospitaleiro a Theo Filho - dizia
Patrocínio. Então que fizera o romancista? "Remergulhou em Paris e deixou­
se estar. Viveu assim um pouco de todos os modos, quase como Shakespeare,
abrindo portinholas de carruagem à entrada dos teatros, quase como Lamartine,
para quem o luxo se tornara uma segunda natureza, quase como Dumas, a
quem as dívidas impediam o trânsito. Em certo inverno, em Londres, passou
três meses na cadeia; viajou para a América num steamer austríaco, foi detido
uma vez em Boulogne . . . "7
Estarão nesses traços menos Theo Filho do que o próprio Zeca, através de
uma imaginação que procurava fugir de toda maneira à vulgaridade, evoluin­
do num mundo fictício à feição de Jean Lorrain, embora o próprio Theo Filho

6. Desde muito cedo Patrocínio Filho revelava sua vocação de mistificador, segundo concluímos
de um depoimento de Joaquim de Sales que, adolescente, o vira pela primeira vez. Zeca contava
então 17 anos. Disse chamar-se Josephus Patroc.ínio, poeta simbolista e tuberculoso em terceiro
grau, acrescentando: "- Oprime-me o coração, uma dor, uma grande dor constante. Dilacera­
me a alma um profundo desespero. Sinto que a minha irmã morte se aproxima de manso e breve
um definitivo descanso me libertará do sofrimento, de todas minhas roxas angústias."
"Tais palavras caídas dos lábios de um quase menino" - escreve Joaquim de Sales - "dei­
xaram-me perplexo. Pouco tempo depois, descobri que Cruz e Sousa espalhara pela cidade uma
epidemia de gravatas e coletes violáceos, simbolizando esses martírios íntimos que nos seus dis­
cípulos eram conseqüência de um artifício literário": - "Se não me falha a memória." Men­
sário do jornal do Commercio, tomo IV, vol. 1.
7. José do Patrocínio Filho, prefiício de Anita e Plomark, aventureiros, � ed., Ed. Sehna, Rio, s/d.

C A P Í T U L O , I,,.x � 1 4 7
também andasse por essas paragens estranhas, oxigenando os cabelos como
Baudelaire. Continuando a falar do romancista, nessa página, Patrocínio alude
a um encontro com ele em Paris, numa garçonniere, num clima puramente
baudelairiano. Aparece então o criado chinês, esse criado chinês que sempre foi
uma obsessão de Patrocínio.8 Chama-se Liú-Tsé-Shum e estava a serviço de
Theo Filho, encarregado no momento de dar injeções numa morfinômana,
que o romancista recolhera em Montmarrre. Sugestões de Les civilisés etfamée
d'opium, de Claude Farrere, da literatura cosmopolita e decadente, que recebía­
mos através da filtragem parisiense. Mais tarde, em 1 9 17, em plena guerra,
Patrocínio Filho iria sofrer conseqüências imprevistas e amargas dessa mitoma­
nia, de tudo quanto vivia a divulgar dos seus amores fantásticos com Mata­
Hari, a famosa bailarina holandesa fuzilada em Vincennes, como espiã. A in­
discrição durante uma viagem fez com que o escritor incorresse na suspeita de
i

1
espionagem e fosse preso em Londres, dando muito trabalho à diplomacia bra­
i 1 sileira para obter-lhe liberdade. A odisséia dessa "Sinistra Aventurà' nos conta­
1
ria ele num livro de leitura realmente palpitante, em que revela excelentes qua­
'
1 ' lidades de escritor, embora nos deixando ainda uma vez na incerteza sobre
� :
onde termina a verdade e começa a fantasia.9

8. Numa entrevista para o jornal de Letras (novembro de 1952), Costa Rego aludiu a um cria­
do chinês de quem Patrocínio Filho costumava contar maravilhas. Mas acabara por se abor­
recer dessa preciosidade oriental. E passava a dizer, muito sério, aos amigos que encontrava:
'1- Sabe? Resolvi dar meu criado chinês de presente ao Costa Rego..."
9. Não será fácil também apurar o que houve de verdade nos famosos duelos com que
Patrocínio Filho procurava adotar no Rio uma tradição européia e particularmente da vida
literária francesa. Na entrevista ao jornal de Letras, Costa Rego declarou que o "Zecà' se batera,
i

i i
realmente várias vezes, embora seus encontros sempre terminassem de maneira cômica. "De
: 1 uma feita, convidou-me para padrinho" - informa Costa Rego. - "Procurei logo saber que
: :
' ' 1
arma deveria propor ao adversário. - O florete, declarou resoluto. - O florete, Zeca, você
sabe manejar esse instrumento, aquele negócio de dar estocada?... - Pois então? Já me bati a flo­
: 1
rete em Paris com o Edmundo! - O Edmundo!. .. (fiquei espantado) o Edmundo Bittencourt?
Você se bateu em Paris com o Edmundo Bittencourt? Ele sem pestanejar respondeu: - Não,
homem, o Edmundo ... Rostand."
Segundo o depoimento de contemporâneos, num almoço, na Brahma, oferecido a Agenor de
Roure, Patrocínio discute com Rafael Pinheiro, tribuno popular dos mais conhecidos da época.
O ton1 da pendência rapidamente se azeda. Patrocínio Filho chama um automóvel e intima
Rafael Pinheiro a acompanhá-lo à Quinta da Boa Vista a fim de se barerein. Lá, saca de um

I48 bPI v1 Vida Literdrfa no Brasil


Como expressão desse pans1anismo floresceu entre nós uma literatura
de viagem roda epidérmica, que teve seu desdobramento na ficção. Romances
e contos com personagens estranhos a nosso ambiente, intrigas em hotéis
de luxo entre mulheres vampirescas, príncipes decaídos, escroques internacio­
nais, onde aparecem com freqüência vícios elegantes como a cocaína e a mor­
fina. Tais os romances de Theo Filho, Dona Dolorosa, Bruno Pagaz, Anar­
quista, Mme. Bifteck Paff, principalmente Anita e Plomark, aventureiros, escrito
de colaboração com o francês Robert de Bedarieux e dedicado a Henri de
Régnier; os conros de Tomás e Oscar Lopes, de João do Rio e do próprio José
do Patrocínio Filho.
Quanto à atitude de quase todos os escritores brasileiros que visitavam
Paris, era mais de deslumbramento, de pdmoison, de que de compreensão.
Sentia-se Paris, uma Paris geralmente superficial e paisagística, sem procurar
analisá-la ou compreendê-la. Tudo ficava à flor da pele, em sensações, visões
fugidias e iluminadas, o que não excluía, por vezes, o inreresse da reportagem
e certa graça autêntica. É o que verificamos em 365 dias de boulevard, de Theo
Filho; Corpo e alma de Paris, de Tomás Lopes; Paris luz, Paris trevt!S, de José
Augusto Correia, e outras obras que podiam ser colocadas sob o signo daque­
la poussiere de Paris, de Jean Lorrain. Quem, no entanto, aproveitou, ao pé da
letra, esse título tão significativo em livro que se encarta mais ou menos no es­
pírito dos que citamos, foi o escritor português Justino Montalvão (Poeira de
Paris), enrão residente no Rio, no desempenho de funções diplomáticas. Uma
única obra de pensamento e análise distinguimos nessa literatura que bem de­
pressa passou: o Paris, de Nestor Vítor, onde o descritivo cede lugar à crítica

revólver enquanto Rafael Pinheiro lhe cai de guarda-chuvadas em cima, como se para o adver­
sário lhe bastasse aquela arma. Zeca dispara ferindo Rafael no braço, mas no mesmo momen­
to, ao procurar defender-se do guarda-chuva, vai cair num lago que existe naquele logradouro,
ficando a debater-se nas águas como um gato. Rafael parte para a cidade a fim de medicar-se,
o Zeca, retirado do lago pelos amigos que chegavam pressurosos, omite o verdadeiro motivo do
banho dizendo tratar-se de um acidente.
De outra feita, Patrocínio Filho teria sido desafiado pelo poeta Goulart de Andrade por causa
de umas cartas anônimas. O duelo realizara-se na Tijuca e o Rafael Pinheiro não já figuraria
como adversário e sim como testen1unha; n1as testemunha tão desastrada que fora atingida no
queixo pela bala destinada a uni dos antagonistas. (Deven1os essas inforrnações a Aloísio Neiva,
Jocelin Santos e Luís Ferreira Guimarães.)

C A P Í T U L O , .I � � 1 4 9
minuciosa e a sensação é substituída pela psicologia. Livro único em nossas le­
tras, constituindo verdad�ira exegese de uma cidade e de um povo.
A hegemonia de Paris, no ambiente intelectual brasileiro, só iria ser abala­
da depois da guerra, com o movimento modernista. No Pathé baby, de
Antônio de Alcântara Machado, publicado em 1 926, encontraremos, pela pri­
meira vez, o reverso dessa literatura incrítica de panegírico, cultivada pela
maioria de nossos escritores do " 1 900". Mas a reação se daria em termos de
caricatura, e não de análise. Persistia ainda a atitude emocional: do entusias­
mo excessivo íamos para o extremo oposto do ridículo e da sátira. A polêmi­
ca daí resultante, entretida pelos modernistas durante uma década, acabaria
no entanto por levar-nos à linba justa da compreensão. Não se tratava de exal­
tar ou desprezar Paris, França, Europa, e sim de compreendê-las.
Nessa época em que todo mundo delirava por Paris, houve um escritor
brasileiro que não manifestou absolutamente essa preocupação: Euclides da
. 1
.! 1
Cunha. Depois do êxito d' Os sertões, consagrando-se de um momento para
1
outro uma das grandes figuras das letras brasileiras, qual devia ser logo o pro­
' pósito de Euclides? Cogitar das possibilidades de uma viagem à Europa.
! !
Tínhamos mÓtivos para admitir que, nas suas caminhadas de engenheiro, já
andasse sonhando com isso. Entretanto tal não se dava. Desejava viajar, sem
dúvida, mas para recantos bem distantes e diversos das margens do Sena; seu
ideal era conhecer a fundo nossa hinterlândia, penetrar em florestas virgens,
palmilhar as regiões perdidas e selvagens da Amazônia.
Em carta de 1 903 ao dr. Luís Cruls, escrevia esta coisa admirável: "Ali­
mento há dias o sonho de um passeio ao Acre, mas não vejo como realizá­
lo."1º Ao invés de um passeio a Paris, expressão que andava sofregamente nos
lábios de todos os confrades de letras, Euclides da Cunha queria passear no
Acre, quer dizer, em lugar de um camarote de primeira em transatlântico de
' 1 luxo e hotéis confortáveis, os perigos, as dificuldades de comunicação, as as­
perezas e as hostilidades daquele recanto distante do Brasil. E no idealismo do
seu amor à terra, no seu deslumbramento de poeta, denomina singelamente
de passeio essa aventura perigosa. Não resta dúvida que lhe palpitava no ínti-

1 O. F. Venâncio Filho, Euclides da Cunha e seus arnigos, pág. 84, Cia. Editora Nacional, S. Paulo,
1938. Oo mesrno livro, as demais cicações.

1 5 O � LA Vida Literária no Brasil


mo um verdadeiro ideal de bandeirante. É o termo com que o escritor, um
ano depois, se refere ao mesmo anseio, em carta a José Veríssimo (7-7- 1 904),
mostrando-se animado a levar avante o propósito: "Que melhor serviço pode­
rei prestar à nossa terra?'', interroga. E justifica-se: 'l\.lém disto, não desejo
a Europa, o bulevar, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada mal­
gradada, e a vida afanosa e triste do pioneiro." Está aí, em termos bem claros
e precisos, como compreendia Euclides o tal passeio ao Acre.
Mal talvez lhe fosse mais fácil conseguir os meios para uma viagem a Paris
do que os recursos para uma excursão àqueles sítios inóspitos. De onde o ape­
lo à amizade de José Veríssimo, formulada na mesma carta: "Ampare por isto,
com o inegável prestígio do seu nome, a minha pretensão." Sabe-se que foi o
barão do Rio Branco quem, num gesto altamente compreensivo, possibilitou
a Euclides da Cunha a realização desse ideal, encarregando-o da chefia da mis­
são técnica e diplomática do reconhecimento do Purus. O autor d'Os sertões
chegou, assim, tal como aspirava, a viver a "vida afanosa e triste do pioneiro",
em comunhão profunda com a barbárie da terra amazônica.
Dois anos depois de haver desempenhado essa comissão, de regresso ao
Rio, já satisfeita, pelo menos em parte, a paixão bandeirante, não revela ain­
da curiosidade por Paris. Eis os termos em que se dirige a Alberto Rangel,
o grande amigo que lá se encontra, em carta de 1 0 de outubro de 1 907:
"Manda-me notícias mais amplas dessa Paris mirabolante e fantástica - que
eu nunca verei ... nem tenho desejos de ver." As reticências são significativas.
Se achava difícil uma viagem a Paris, mostrava não se preocupar absolutamen­
te com isso. Sentia, por certo, o quanto lhe restava a ver ainda aqui no Brasil,
e continuaria a trazer consigo aquilo que chamaríamos a hantise do sertão.
No entanto, Euclides da Cunha reve formação francesa como quase todos os
escritores brasileiros da época, lia em revistas e livros de Paris, e apesar de seu
'�francês barbarizado", IO-a chegou a encantar o prof George Dumas, numa
memorável palestra, a que este aludia com enlevo.
Houve um momento, porém - devemos ressalvar -, em que o autor
d'Os sertões pensou em Paris, chegando a vislumbrar a grande cidade como
campo de uma nova atividade intelectual, na qual enquadraria as tendências

1 O-a. Op. cit., pág. 220.


,
íntimas de seu espírito. Recapitulemos as palavras dirigidas a Alberto Rangel,
em carta de 20 de setembro de 1908: "Quem sabe se eu não poderia lecionar
a históri'á. sul-americana em Paris? No momento em que a civilização visivel­
mente se desloca para o Novo Mundo não é, talvez, um pensamento muito
ousado, este.'' Como se vê, o interesse por Paris ainda se manifestava em fun­
ção do entranhado americanismo que informa toda a obra do escritor.
Na carta seguinte, datada de outubro, ri-se da idéia. Não sabia por que ca­
prichos lhe viera à mente semelhante propósito: "Uma cadeira de história sul­
americana em Paris!... Oh! romintico escandaloso e recalcitrante que sou!
Felizmente são loucuras e absolutamente passageiras." Para aquele, que trans­
formara em realidade o sonho de "um passeio ao Acre", parecia romântica
a idéia realista e prática de um grande conhecedor de assuntos sul-americanos
ir dar um curso sobre a matéria em Paris. Se Euclides da Cunha tivesse vivido
; mais tempo, naturalmente acabaria indo à Europa. Não cremos que, homem
:1 inteligente, com roda sua índole sertanista, sua vocação de bandeirante,
i !
; i seu americanismo, se sentisse deslocado no bulevar, ou não conseguisse comu­
: ;
nicar-se intimamente com a civilização européia.
É possível que, diante do Sena a rolar mansamente em linhas clássicas,
se lembrasse com nostalgia da majestade bárbara do Amazonas, em cujas
águas navegara um dia; mas não lhe ocorreria estabelecer paralelos quantitati­
vos, como acontece com tantos viajantes. Saberia melhor do que ninguém
que, entre a Europa e o continente americano, o que existe, acima de tudo,
são diferenças qualitativas. As diferenças tão bem definidas por Gilberto
Amado na fórmula: densidade e tenuidade.

' '
l '
! '

I 5 2 � e.A Vida Literária no Brasil


li$! C A P Í T U L O X
I
cAGrécia no Brasil_, "DaArcddia ao Romantismo � UWachado deAssis
veste casaca nos deuses do Olimpo � O esporte e o Helenismo _, Uma tese
falsa _, UWonteiro Lobato lendo Homero em Areias _, Os 'gregos" e os
"latinos" ameaçados

� geração romântica no Brasil, como em toda parte, reagira con­


1
' �\: tra os deuses do Olimpo, estabelecidos na literatura com o classi­
cismo e principalmente com o arcadismo. Em 1868, Machado
de Assis fez representar uma peça em verso, Os deuses de casaca,
que encerrava uma sátira à mitologia grega, ainda sobrevivente, por certo, em
muita poesia da época. Na comédia de Machado, os deuses, convencidos de
que os homens já não lhes aceitavam a divindade, resolvem transferir-se para

1
a terra e cavar a vida em profissões práticas, como qualquer mortal. Daí a al­
guns anos surgiram as primeiras manifestações do parnasianismo entre nós, e
com isso os deuses iriam readquirir o prestígio antigo, para acabar retornando
l ao Olimpo, com maiores poderes ainda, e implantando a hegemonia da
Grécia na literatura brasileira. Machado de Assis foi, no entanto, dos poucos
que souberam subtrair-se a essa influência; envolvendo personagens gregos em
alguns contos, emprestou-lhes quase sempre um caráter satírico que os tornou
semelhantes aos comparsas de Os deuses de casaca.
! No mais, a Grécia triunfou plenamente em nossas letras até a guerra de

1 1914, pelo menos. Alguns citavam-na a cada passo, porque realmente lhe conhe­
ciam a história e freqüentavam os mestres da Antigüidade clássica; outros he-

1
L
CAPÍTULO X �I 53
lenizavam de oitiva, porque ninguém podia considerar-se verdadeiramente
culto, se não falasse em Heiror, Ajax e no cerco de Tróia.
Era geralmente uma Grécia de cartolina, puramente decorativa, nada ten­
do de comum com o verdadeiro espírito helênico, que dominava por toda
parte. Dela usou e abusou, como todo mundo sabe, Coelho Neto, decerto um
dos maiores responsáveis pela propagação dessa mania. Mas foram muiros os
culpados. João do Rio, cujo brilho do estilo mal disfarçava a cultura apressa­
da e superficial, citava a todo momento Sófocles, Eurípides, as eumênides,
etc.; e ao descrever, por exemplo, numa emocionante evocação, a «tragédia de
Rocinha'' - um homem enterrado no fundo de um poço, morrendo aos pou­
cos, sem que ninguém pudesse socorrê-lo -, não deixava de carregar em
Ésquilo e outros ingredientes gregos.1
O advento do futebol e a intensificação da prática dos esportes no Brasil,
na primeira década do século, começaram logo a ser encarados pelos escri­
tores mais apegados à Grécia, pelo prisma helênico. Em crônica na Gazeta
de Notícias, em 1908, depois incluída no livro Ironia e piedade, Bilac alude
; '
ao desenvolvimento do esporte entre nós, considerando o grande espaço que
l : os jornais coni'eçam a dedicar-lhe e às quatro ou cinco revistas no gênero,
' :
; j
já existentes no Rio de Janeiro. Depois, ante a notícia dos próximos Jogos
; :
' ' Olímpicos, em Montevidéu, cai em cheio na Grécia: "É impossível escrever
ou ler essas duas palavras" - considera - "sem evocar a idade de ouro da
humanidade, no berço daquela Grécia divina, cuja misteriosa e indizível
saudade arde perpétua, por um milagre psíquico, na alma de todo o homem
que pensa. Tal é o prestígio das cousas da Hélade antiga, que cada um de
nós, fechando os olhos, vê reproduzirem-se todo o cenário, toda a gente, to­
da a história, todos os costumes dessa remotíssima idade. É que cada um de
'. ! ! nós, artistas e poetas, sempre tem dentro da própria alma um pouco da al­
f '! !
'
' ' 1
ma da gente do Peloponeso ... " E arremata com esta exclamação extática:
"Os Jogos Olímpicos da Velha Hélade!" Logo porém se volta desiludido,
i1
' ' compreendendo que a trivialidade do presente - a era da máquina e da téc­
1
' nica - não comporta os esplendores da Antigüidade clássica. "Formosa e
ofuscante visão! Como há de ela reproduzir-se realmente, nesta triste idade

L João do Rio, No tempo de Venceslau, Ed. Vilas�Boas & Cia., Rio, 1917.

I 5 4 b"'i l/Í Vida Literdria no Brasil


moderna? Ninguém espera que os Jogos Olímpicos de Montevidéu este ano
possam competir em beleza e majestade com os do Peloponeso, no tempo
das Anfictiônias... "2
Mas anteriormente, em 1900, quando o futebol mal ensaiava os primeiros
passos, Bilac já se deslumbrava à grega com o espetáculo das regatas em
Borafogo. O título diz tudo: "Salaminá' ... Principiava descrevendo o aspecto
da praia, as águas azuis da baía, o "alegre sol do nosso tépido inverno". "Entre
ondas de povo, passavam as carruagens, conduzindo gente alegre. E a vozeria
da multidão em terra, e a matinada ensurdecedora das lanchas no mar apitan­
do - enchiam o ar de riso e delírio." Nisto, reboa um tiro de canhão; era o
início da "regata do campeonato do remo de 1900". Partem as baleeiras. Bilac
enche-se de entusiasmo lírico. Gritos desencontrados se cruzam no espaço.
A emoção sacode o povo aglomerado na praia, acompanhando nervosamente
a disputa. E, afinal, um nome corre de boca em boca, proclamando o vence­
dor: "Vésper!... Vésper!. .. Vésper!. "É o bastante para que o poeta, caindo em si,
.•

estabeleça logo a relação fatal: "Meninos! Foram músculos como esses que ga­
nharam a batalha de Salamina!. .. Sobre as areias da praia de Falero, Xerxes ti­
nha feito levantar o seu trono de ouro. E, mais numerosos que os grãos de
areia, os seus exércitos enchiam a terra, e, mais incontáveis do que os peixes, os
seus navios cobriam o mar. Mas a gente moça de Atenas, a ousada gente de
Tcmístocles, tinha os músculos e a coragem, que ides agora adquirindo."3
Era assim: regatas, jogos olímpicos, futebol, todos os esportes não podiam
set vistos de outra maneira, senão através da Grécia. No livro Ironia epiedade,
a que há pouco nos referimos, Bilac tem uma crônica em que caustica dura­
mente a nossa mania de "literatizar'' tudo. Não lhe passaria pela cabeça que
estava incorrendo na mesma pecha, quando envolvia Salamina, Temístodes,
Atenas, numa simples exibição esportiva. É que esse Helenismo decorativo,
profundamente impregnado do espírito da época, jamais se apresentaria sob o
aspecto de "literaturà' à maioria dos escritores de então.
Até Euclides da Cunha, fazendo timbre de sua barbárie, reivindicava uma
origem helênica, julgando-se um misto de tapuio, celta e grego.

2. Olavo Bilac, Ironia e piedade, 2ª ed., Livraria Francisco Alves, Rio, 1921.

1 3. Olavo Bilac, Crítica efantasia, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1904.

!
i C A P Í T U L O X "'9 l 5 5
t
Pela província não prevaleceu com menor intensidade semelhante tendên­
cia. No Paraná, onde houve uma vida literária florescente, o poeta simbolista
Dario Veloso, com suas inclinações esotéricas, chegou a criar em Curitiba um
Instituto Neopitagórico, que como o próprio título indica, pretendia fazer res­
surgir na bela capital sulina o culto de Pitágoras. Mas a sua helenofilia foi mais
adiante. Professor do Ginásio Paranaense da Escola Normal de Curitiba, onde
pontificava como mestre grego, num constante proselitismo estético-filosófi­
co, chegou a imaginar e a realizar este espetáculo verdadeiramente surpreen­
dente: a ressurreição das fesras helênicas da primavera em plena Curitiba.
Tasso da Silveira, no seu livro A igreja silenciosa, acentuando, de passagem, que
Curitiba presta-se admiravelmente a semelhante revivescência, recorda o espetá­
culo: "Foi nesse ambiente de luz e de harmonia, tão maravilhosamente apro­
priado, que Dario sonhou realizar, num quadro vivo, a ressurreição da hélade
i à medida do possível. A primeira festa da primavera efetuou-se,
pagã. E fê-lo
;1 se não me engano, no ano de 1 9 1 ] . Foi encantada surpresa para a população
i 1
; ! desprevenida. Estudantes do Ginásio e da Escola Normal e a infância das es­
colas primárias formavam o cortejo helênico que, atravessando a urbe, ia em
; '

! '. demanda do mais belo parque da cidade. Rapazes e moças vestiam alvas túni­
cas e levavam mantos de cores suaves, à maneira grega. À frente, as nove mu­
sas, reflorindo. Marchavam as crianças em duas alas, empunhando guirlandas
que formavam, entre uma fila e outra, ensombrada abóbada de flores. À lin­
da mascarada não faltaria, talvez, algo de menos lógico com o instante. Mas,
ali, casava-se tão bem a jovialidade, por assim dizer, atmosférica, à natureza
paramentada e risonha, que ninguém analisou o que nela pudesse haver de ex­
,,
temporâneo e esdrúxulo." "Depois - acrescenta - "dispersou o cortejo no
' parque e começaram os jogos olímpicos, os torneios de poesia e os hinos em
'

1 ! coro, à semelhança da Grécia antiga."4


� � E caso curioso, o próprio marechal Hermes se interessava pela Grécia an­
' 1
tiga. Contou-me o ator português Alexandre Azevedo que, quando, junta­
i1
' ' mente com Itália Fausta, pretendeu instalar o Teatro da Natureza, na praça da
República, no Rio, para represenrar ao ar livre Sófocles e Ésquilo, encontran­
do dificuldade em obter licença para isso, pediu uma audiência ao presidente

4. Tasso da Silveira, A igreja silenciosa, Anuário do Brasil, Rio, 1922.

I 5 6 1"""' tA Vida Literdria no Brasil


da República. O marechal recebeu-o e, informado do que se passava, mos­
trou-se vivamente interessado na quesr.ão, pediu detalhes e pôs-se a conversar
sobre o teatro grego com o ator. "Fiquei surpreendido" - disse-me Alexandre
Azevedo -, "o homem entendia mais da tragédia grega do que eu."5
Mas a questão apresenta outra face, um aspecto sociológico digno de ser
posto em realce. Essa mania da Grécia, como também da latinidade que de há
muito prevalecia entre nós, era um meio, por vezes inconsciente, de muitos
intelectuais brasileiros reagirem contra a increpação de mestiçagem, escamo­
teando as verdadeiras origens raciais, num país em que o cativeiro estigmati­
zara a contribuição do sangue negro. O movimento científico da Escola de
Recife, sob a influência germânica, em lugar de proclamar a legitimidade de
nossa formação étnica, carregara ainda mais no preconceito, levando-nos a ver
na mestiçagem um fator de decadência da nacionalidade.
Não é outro, no fundo, o pensamento que encontramos nas roupagens do
Canaã, de Graça Aranha. "Ser ou não ser uma nação" - lemos a cerra altura
do romance. "Momento doloroso em que se joga o destino de um povo...
Ai dos fracos!... Que podemos fazer para resistir aos lobos? Com a bondade
ingênita da raça, a nativa fraqueza, a descuidada inércia, como nos oporemos
a que eles venham? Tudo vai acabar e S:e transformar. Pobre Brasil!. .. "6
De onde o empenho em se adotar, "literariamente", a condição de grego
ou de latino como um meio de fugir a essa triste decadência. Ninguém era

1 mais "grego", na verdade, do que Graça Aranha, que em 1 924 acabou se in­
surgindo contra a Grécia. Basta ver a carta que ele escreveu a Rio Branco, alu­

11
dindo à festa oferecida a Ferrero no lramarari: "Naquela noite memorável em
que Guglielmo Ferrero foi recebido no Itamarati não lhe pude dizer todo o
meu entusiasmo pelo nobre acolhimento que V. Exª fez à inteligência e ao gê­
nio estrangeiro. Tive a deliciosa ilusão de que Cícero era recebido por Péricles ...
Jantamos em Arenas. O seu discurso foi uma excelente e fina interpretação do
gênio do hóspede e a evocação de Lombroso uma delicada homenagem à Filha

11
e à Italiana. E em tudo se excedeu a sua magnífica graça; e uma grande e rara

5. Dou pelo custo o depoimento do ator Alexandre Azevedo. A versão geral, segundo Magalhães
Júnior e1n Ofabuloso Patrocínio Filho, era que o 1narechal Hermes possuía escassas letras.
6. Graça Aranha, Canaã, 9ª ed., pág. 168, F. Briguier, 1943.

l C A P I T U LO X """'1 l 5 7
harmonia foi o traço de toda aquela tarde e da noite. Ferrero jamais esquecerá
esse momento grego no Brasil, em que ele foi recebido por Péricles - Rio
Branco eonversou com Platão -, Machado de Assis, e foi iluminado pelo olhar
e pela fronte de Minerva... Ainda como os atenienses, nós poderíamos dizer ao
historiador da Antigüidade que o juramento de Rio Branco na mocidade foi o
mesmo da juventude grega no altar da deusa: 'Não deixarei diminuir minha
Pátria, mas a engrandecerei.">? É o que André Gide denominaria, como classi­
ficou certa página semelhante de Maurice Barres: pura literatura de odalisca.
Depois disso, que dizer do Helenismo de Coelho Neto?
O próprio Tobias Barreto, já em 1 862, declarava: "Sou grego, pequeno
e forte." Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, protestava contra o fa­
to de se chamar Machado de Assis de mulato, dizendo: "A palavra não é lite­
rária, é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. De mais, o ser mulato em nada
• 1 ,,
: 1 afetava sua caracterização caucásica. Eu pelo menos vi nele o grego.
; 1 Quase na mesma época, Afrânio Peixoto escrevia: ''As sub-raças origina­
! 1
; 1 das do contato são inferiores, na imensa maioria dos indivíduos, aos seus
. '

; '
componentes. As proclamadas exceções individuais ajudam a regra e são jul­
! : gadas com benevolência. Se nos espanta e admiramos com fervor o talento
de alguns dos nossos mestiços célebres, ele não veio sem neuropatia, e é caso
para espanto e admiração .. .')8 Tese das mais falsas, inteiramente desmentida
pela ciência moderna.
Até Monteiro Lobato com seu espírito realista, em plena juventude, mos­
trara-se enamorado da Grécia, chegando a forçar um paralelo entre a Hélade
e o Brasil. Em carta a Godofredo Rangel (3-2-1 908),9 comunicando-lhe que
se achava em Areias, a ler Homero, escrevia: "Que diferença de mundos!
'
' Na Grécia, a beleza; aqui a disformidade. Aquiles lá; Quasímodo aqui." E lo­
1 ! go depois este trecho, em que o futuro auror do Jeca Tatu refletia diretamen­
!' ''
' '
te o preconceito da época: "Estive uns dias no Rio. Que contra-Grécia é o
Rio! O mulatismo dizem que traz dessoramento do caráter. Dizem que a
i1
. ; mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produ-

7. Apud Alvaro Lins, Rio Branco, josé Olympio, 1945.


8. Lopes Rodrigues, Castro Alves, Pongerri, Rio.
9. Monteiro Lobato, A barca de Gleyre, Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1944.

I 5 8 � cA" Vida Literária. no Brasil


tos instáveis. Isso no moral - e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde,
pela horrível rua marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios,
perpassam todas as degenerescências, todas as formas e más formas humanas
- todas, menos a normal. Os negros; da África, caçados a tiro e trazidos à
força para a escravidão, vingaram-se do português da maneira mais terrível
- amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos
subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde." Pouco adiante:
"Como consertar essa gente? Como sermos gente no concerto dos povos?.
Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui na sua in­
consciente vingança!... Talvez a salvação venha de São Paulo e outras zonas
que intensamente se injetam de sangue europeu. Os americanos salvaram-se
da mestiçagem com a barreira do preconceito racial. Temos também aqui es­
sa barreira, mas só em certas classes e certas zonas. No Rio não existe.'' E cita
o caso do americano que se levantou num restaurante em Taubaté, quando
ali foi sentar-se um guarda-freio preto. "Filosoficamente me parece horrível
isto - mas certo do ponto de vista racial"; e é evidente que ele aceitou ou
pelo menos admitiu esse ponto de vista absurdo. No entanto, o preconceito
da inferioridade étnica que levava os outros escritores a se refugiarem na
Grécia, como um sistema de defesa, atuaria no espírito de Lobato, de manei­
ra diversa, contribuindo para que ele passasse a ver, mesmo sob um aspecto
pessimista, a nossa realidade. Nas conclusões errôneas dessa carta não será di­
fícil encontrar o embrião do Jeca Tatu.
As visitas de Guglielmo Ferrero, Anatole France e Paul Adam ao Brasil rea­
cenderam a mania da Grécia e, sobretudo, da latinidade entre nós. Haviam
considerado o Brasil, nos termos mais lisonjeiros, como uma transplantação
í feliz da raça latina, circunstiincias que muito nos desvaneceram, reforçando a
! certeza de que éramos gregos, éramos de fato latinos.

1 Mas antes da obra de Gilberto Freyre procurar tirar-nos dessa ilusão com

1
que nos defendíamos, ingenuamente, de um sentimento absurdo de inferio­
ridade racial, Gilberto Amado, nas páginas de Grão de areia, 10 já erguera o
seu corajoso protesto. Num ensaio em forma de carta a um amigo, por ocasião
da guerra de 1 9 14, escrevia ele: "Pois paraibano pode ser latino?"; e pouco
1
1 10. Gilberto Amado, Grão de areia, pág. 1 9 e segs., Jacinto Ribeiro Santos, Ed., Rio, 1 9 1 9.

l CAPÍTULO X .� I 5 9
adiante: "Por minha parte me desvaneceria mil vezes mais a firmeza sem ên­
fàse CO!J:\. que o Brasil se reconhecesse a 'República mestiçà dos cientistas eu­
ropeus, que falam a verdade, do que a facilidade vaidosa com que ele se acre­
dita a 'República latinà ... 'o país irmão' ... 'os irmãos latinos da Américà ... "
Para, afinal, dizer com franqueza: "Sejamos cafuzos ou curibocas resignados,
procurando honrar o nosso sangue pela dignidade do nosso estilo de ho­
mens e não pelo blasonar de hereditariedades que não são nossas."
Era uma voz poderosamente realista a reivindicar a nossa autenticidade
racial. Os "gregosn e os "latinos" que pululavam na literatura brasileira esta­
vam seriamente ameaçados.

I 6 O � u1 Vida Literaria no Brasil


CA P ÍTV LO X 1
ll �
r_Modas literdrias � João do Rio revela Oscar Wilde � Nietzsche �
Assunção e Exaltação � 'Tolstoi e o anarquismo � Elísio de Carvalho,
homem que adota todos os figurinos � lbsen � Eça de Queirós �
'Fradique Mendes visto por juó Bananére

bem fácil imaginar a repercussão de um processo como o de Oscar


Wilde, no Brasil, nos dias atuais. Seriam telegramas sobre telegra­
mas, com múltiplos detalhes, títulos berrantes em manchetes, fo­
�!!i!i"'!!!!�Y tografias, comentários sobre a vida, os antecedentes do poeta, ar­
tigos a favor ou contra e, como complemento de tudo isso, muitos potins.
Mas em 1896, quando ainda estávamos bem distantes do sensacionalis­
mo que hoje invadiu todos os setores, mesmo os da literatura e da arte, as
coisas se passaram de maneira muito diferente. Não precisamos estender
muito nossas pesquisas para chegarmos a essa conclusão. Os telegramas lac6-
nicos sobre o fato na Gazeta de Notícias, o jornal mais literário da época, des­
pachos de três ou quatro linhas perdidas entre outras notícias do estrangeiro,
bastaram para dar-nos a medida do desinteresse da nossa imprensa pelo fa­
moso processo. Nenhum comentário chegamos a descobrir, nem mesmo nas
cr6nicas quase diárias em que Bilac, naquele jornal, se ocupava de aconteci­
mentos estrangeiros. Apenas n'A Cigarra, revista então dirigida pelo próprio
Bilac, assinalamos urna ligeira alusão, meramente acidental, à degenerescên­
'

l
cia de Wilde; enquanto em A mulata de Carlos Malheiro Dias, publicado em
1896, vemos um personagem Julião, no seu amoralismo cínico, que tanto es-

CAPÍTULO XI � 1 6 1
candaliza Edmundo, o herói do romance, referir-se, de passagem, a Wilde e
ao rei da J3aviera.
Por certo, se o caso se desse com um escritor francês, não passaria tão des­
percebido. Depois do domínio de Byron, no período romântico, não tínha­
mos reatado a familiaridade com nenhum poeta inglês; e além disso, o reno­
me de Wilde só se avultou depois do processo. Antes, sua voga estava mais
ou menos circunscrita ao ambiente londrino - onde os teatros lhe represen­
tavam com êxito as peças - e a determinados círculos de escritores france­
ses. Um dos primeiros artigos publicados sobre Wilde no Brasil, e talvez mes­
mo o primeiro, teria sido o de João do Rio, no número de abril de 1905, na
revista Renascença, sob o título "Breviário do artificialismo". Inicialmente, o

autor narra como travou conhecimento com a obra de Wilde, naquele tom
que lhe era peculiar, despertando por vezes a desconfiança de uma mistifica­
ção. Conta-nos que há cerca de dois anos estudava com Mrs. Fox os humo­
ristas e os pré-rafaelitas ingleses, quando, certo dia, depois de ouvi-la recitar
o trágico poema de Austin sobre Polifemo, foi procurar na biblioteca um li­
vro novo. Eis que seus dedos tocam num volume sujo, em mau papel, da
Casa Hunro, de Nova York. Eram os poemas de Wilde. Alvoroçou-se, pois
já conhecia a legenda do poeta. Abriu nervoso o volume, na iinsia de encon­
trar a "ode da perdição", experimentando a irresistível tentação do fruto
proibido. "Ah! este homem não se deve ler!" - atalhou Mrs. Gladys, que
depois de lembrar o processo, muito vermelha, prosseguiu: "Conheci-o em
Londres, antes... Era um homem assombroso. A cidade toda, a Inglaterra in-
teira venerava-o ... "
Seis meses depois, a Casa Crashley mandava participar a João do Rio
a chegada dos livros de Wilde que ele havia encomendado. O livreiro logo
lhe foi explicando que as obras de Wilde tinham sido queimadas depois do pro­
cesso, sendo difícil encontrá-las, e custavam muito caro, com exceção de In­
tenções, de que se fizera uma edição em Paris. E, expondo-a aos olhos do jovem
escritor, ia-lhe dizendo os preços, até chegarem num folheto de quatorze pá­
ginas do qual se fizera uma edição restrita de setenta e cinco exemplares, dis­
tribuídos entre os amigos do poeta, por ocasião do processo. Intitulava-se
Frases e Filosofias para uso da juventude. É esse folheto que João do Rio con­
sidera um "breviário de artificialisrno)), no referido arrigo, traduzindo-lhe um

I 6 2 l?"I l/Í Vida Literdria no Brasil


bom número de frases e procurando dar ao leitor uma notícia da vida e da
obra de Wilde.
Temos a impressão de que partiu daí a voga do wildianismo entre nós, so­
bretudo porque, logo em seguida, os livros do poeta passaram a ser vertidos pa­
ra o francês, vulgarizando-se rapidamenre no Brasil. Aliás, apesar das declara­
ções de João do Rio, imaginamos que foi através do francês que ele chegou a
Oscar Wilde. Uma de suas grandes influências francesas, Jean Lorrain, possuía
as maiores afinidades com Wilde. O mesmo princípio da arte pela arte que in­
forma todo o esteticismo de Wilde, levava os heróis de Jean Lorrain, como
Monsieur de Phocas, aos extremos dissolutos da decadência. João do Rio teria
lido Lorrain, do qual enconrramos traços acentuados e marcantes no livro de
contos Dentro da noite. E há uma curiosa coincidência a assinalar entre os dois
escritores: Jean Lorrain era o pseudônimo de Paul Duval, assim como João do
Rio o era de Paulo Barreto. Esse detalhe nos leva à hipótese de que o escritor
brasileiro escolhera o pseudônimo de João do Rio por sugestão do francês. Jean
Lorrain teria constituído uma ponre enrre Paulo Barreto e Wilde. 1
Pelas citações e traduções do autor do Cinemat6grafa, o romancista de
i1 Dorian Gray enrra em moda na literatura brasileira. Além de Salomé, João do

1
Rio traduziu Intenções e o Retrato de Dorian Gray, trabalhos apressados, mas
nos quais se percebe a nota de brilho e colorido que o cronista punha em tu­
do quanro escrevia. No enranto, a influência de Wilde, no caso, se manifestou
antes no tipo requintado, aristocrático, displicente, meio cínico, que ele com­
pôs procurando, até certo pomo, irritar, chocar, escandalizar o meio carioca

1
do " 1900", assim como o autor de Dorian Gray o fizera na Londres vitoriana.
Outro grande wildiano foi Elísio de Carvalho, que traduziu Uma tragédia
florentina, para se tornar depois perito em datiloscopia e escrever um livro -

Sherlock Holmes no Brasil-, morrendo num castelo da Europa, como convinha

t
1
1. O nome completo de João do Rio era João Paulo Coelho Barreto. Na intimidade familiar
chamavam�no João Paulo. "Fui aluno do seu pai, o prof. Alfredo Coelho Barreto" - escreve�
nos Vivaldo Coaracy -, "que sempre por essa forma, e com muito desvanecimento, se referia
ao filho. Talvez esse 'João' que quase todos ignoravam tivesse tanta influência na escolha do
nome literário quanto o Jean de Jean Lorrain. A aproximação entre Jean Lorrain e João do Rio,
aliás, é muito bem indicada. E, a aceitar o que diz a maledicência, não se limitaria ao terreno

1
intelectual ou literário."

C A P Í T U L O X I bA l 6 3
Mais tarde, ao traçar o perfil de Pinheiro Machado, em crônica que figu­
ra no livro No tempo de Venceslau, João do Rio se deixa levar, visivelmente,
pelas sug�stões de Nietzsche. O que ele admira no chefe gaúcho é sobretu­
do o homem de vontade, que sabia querer. Classifica-o de alma púnica, alma
de conquista, de luta, de domínio. E em pleno terreno da ética nietzschiana
escreve: "Cheio de erros ou de bens, ele foi o exemplo mais tenaz, mais agu­
do, mais esmagador do homem que quer, para além do bem e do mal." (O gri­
fo é nosso.) "O homem nasceu para dominar. É feliz aquele a quem só a
Morte arranca o supremo domínio. Porque é na vida a exceção e o único
que no pó interessa e empolga e prende e domina, como se vivesse e domi­
nasse e mandasse. "3
Sem visão de sociólogo, o cronista não explica o caudilho no meio e no tem­
po em que viveu: transforma-o num herói de Shakespeare, numa personificação
do amoralismo nietzschiano. Aliás as influências do autor de Zaratustra se con­
fundiam com as dos doutrinadores anarquistas, e por vezes com as de Ibsen e
do esoterismo, posto em moda pelos simbolistas. Caso típico dessa confusão te­
ria sido o do complicadíssimo Magnus Sondahl, descrito pelos cronistas con­
temporâneos como um tipo original e excêntrico. Era visto, não raro, pelos ca­
fés na companhia de Múcio Teixeira: "( ...) ruivo, de barba ralà' retrata-o Luís
Edmundo - "e o olho de cocoroca, Sar Peladan das nossas letras, fazendo do
cabalismo, do esoterismo, da teosofia oriental e do ocultismo da Índia uma espé­
cie de angu literário que nos era servido em graves e intermináveis discurseiras.''
No inquérito de João do Rio as explanações de Magnus Sondahl são as
mais estapafúrdias e sesquipedais. A contrafação de Nietzsche é logo revelada
'10 título do livro que o estranho filósofo diz ter em preparo: Assim falou Sinur,
e do qual lê trechos ao cronista: "Na sua mesa há seis qualidades de tintas" -
escreve João do Rio -, "desde o vermelho carmim à cor de violeta; em cada
tinteiro uma pena descansa." E Magnus, depois de limpar o pince-nez, se dis­
põe a responder ao inquérito, falando em ocultismo, hermetismo, cabalismo,
Comte, Buchner, Spencer, Swedenborg, etc.
Em 1 904, o hierofante lançara um pequeno jornal na cidade de Pomba,
O Libertarista, do qual encontramos apenas um número (o de julho)

3. João do Rio, No tempo de Venceslau, págs. 51�52.

I 66 � v1 Vida Literária no Brasil


na Biblioteca Nacional. Magnus intitulava-se redator único e proprietário do
periódico; havia fundado na cidade o Arcontado de Pomba, com uma seção
esotérica e outra exotérica, <'a fim de Promover a união socrática dos espíri­
tos". O artigo de fundo versava sobre Zaratustra e o jornal pregava aberta­
mente o amor livre.
N' O Rio deJaneiro cÚJ meu tempo, evocando essa figura bizarra, Luís Edmundo
alude ao boato de que Magnus Sõndbal praticava o nudismo nas praias ermas
da Guanabara, longe das vistas da policia. Estaria isso de acordo com as dou­
trinas defendidas n O Libertarista, e que, decerto, teriam alarmado a cidadezi­
nha onde o jornal apareceu. Magnus poderá ser assim considerado um precur­
sor das colônias nudistas de hoje; o que bem mostra a que extremos levaria a
má assimilação da filosofia de Nietzsche, no Brasil, nessa época.
Enquanto isso, no seu retiro de Taubaté, o jovem recém-formado em direi­
to, José Bento Monteiro Lobato, aconselha Nietzsche a outro jovem de tem­
peramento bem diferente que, também bacharel, iniciava a vida no interior de
Minas: Godofredo Rangel. O futuro autor de Vida ociosa não se entusiasma
com a filosofia do Assim falwa Zaratustra, e Lobato insiste: "Quanto a Nietzsche,
meu conselho é que passes por ele a galope no cavalo da tua inteligência; no
rabo desse cavalo amarrarás o ímã do teu temperamento, de modo que na ga­
lopada o ímã só atraia, só aproveite, só chame aquilo que te convier e que,

1 portanto, te virá aumentar. Se o forças a atrair o que parece bom, bonito, útil,

1 embora não seja essa a opinião do teu temperamento, ficas abarrotado, mas

1
e
não aumentado. Faça isso e não me voltarás a dizer que achas Nietzsche 'soporí­
fero'. Incrível! Talvez seja o único adjetivo que nunca jamais caberá a Nietzsche.
É ao contrário - é um matador do sono, da estagnação, da lagoa verde. É
um desencrostador.''
E conta a propósito, que se encontrando em São Paulo, no Gazeau, a fo­
lhear livros velhos, lia um aforismo, num volume de Nietzsche, quando ouvi­
ra um padre sobre o ombro dizer-lhe que se tratava de um autor dissolvente.
A resposra lhe viera instantãnea, como se o próprio Nietzsche a desse, por seu
intermédio: "Tal qual o sabão!" O que o leva a concluir: "Nietzsche é um sa­
bão, o melhor desengafeirador que encontrei na vida."4

4. A barca de Gleyre, pág. 109, Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1944.

CAPÍTULO XI � l 6 7
Em outras cartas, Lobato continua a preconizar as virtudes higiênicas desse
sabão. Se Godofredo Rangel resolveu, afinal, desengafeirar-se com Nietzsche
é o que não sabemos ao certo. Poderia ele alegar que dispensava uma filosofia
tão drástica. Não o chamara Lino Moreira em 1903, o "Anjo do Cenáculo",
descrevendo-o assim: "Muitíssimo simpático, grande pureza de linhas. Olhos
grandes e bons, meigos e de grande ternura. Bondosíssimo. Trato de moça, ca­
tivante, suave, irresistível. Generoso, modesto, de uma modéstia sincerà'? Pois
para uma criatura em tais condições, qual a necessidade de "desengafeirar-se"?
Entre as obras da época que refletiram a influência do filósofo alemão, des­
tacam-se dois romances falsos e medíocres dos quais podemos dizer terem si­
do a conseqüência direta da moda de Nietzsche no Brasil: Assunção de Goulart
de Andrade e Exaltação de Albertina Berta.5
O primeiro, alvo de uma crítica severa de José Veríssimo, no Imparcial, re­
sume-se no seguinte: um poeta de tipo d' annunziano, ardendo de anseios e de
sonhos, deixa morrer a esposa, arrastado pela sedução de uma mulher que lhe
traz os estímulos de que necessita para realizar-se artisticamente e conquistar a
glória. Mas, desaparecida a esposa, o sentimento de culpa que o acabrunha já
não lhe permite sentir-se feliz ao lado da amante, e uma barreira intransponí­
vel se ergue entre ambos. O tema é de pura inspiração nietzschiana: o direito do
artista de viver acima do bem e do mal, de não hesitar no sacrifício, seja lá de
quem for, quando se trata de atingir a plenitude da arte. Marta é uma discípu­
la inconsciente de Nietzsche. E não escapou esse aspecto marcante do roman­
ce a Barbosa Lima Sobrinho, quando estudou a obra de Goulart de Andrade
no discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras. Falando de Marta
diz ele: "Mulher culta, inteligentíssima, intrépida, máscula na segurança e na
força de seus sentimentos, domina e empolga o seu poeta. Não interessam as
convenções nacionais; despreza o julgamento público ou até mesmo deseja en­
frentá-lo e combatê-lo. De acordo com o voto de Nietzsche, estava sua alma li­
berta de toda obediência, de toda genuflexão e de todo servilismo."6

5. A moda de Nietzsche entroncava-se também com a de D'Annunzio. Ver a propósito o livro


de Gilberto Amado Minha formação no Recife, José Olympio, Rio, 1955.
6. Discursos acadêmicos, Academia Brasileira de Letras, voL X, pág. 307, Getúlio M. Costa,
Rio, 1938.

I 6 8 � c4 Vida Literdría no Brasil


Não será ocioso notar certa semelhança do tema de Assunção com o do
L'immoraliste, de André Gide, circunstância tanto mais curiosa quanto
Goulart de Andrade não devia ter lido esse romance, publicado alguns anos
antes de Assunção. Gide era então inteiramente desconhecido no Brasil e pou­
co conhecido mesmo na França. A semelhança denuncia justamente o encon­
tro de duas inspirações de fundo nietzschiano. Também em L'immoraliste ve­
mos Michel sacrificando a esposa a um ideal de vida, mal esclarecido por
Gide - já que disfarçava um sentimento só mais tarde revelado -, que, no
plano da ética nietzschiana, correspondia à tentação de Marta no romance de
Goulart de Andrade.
Segundo afirmam os contemporâneos, o romance Exaltação, de Albertina
Berta, foi escriro como uma resposta à Assunção. Aliás, a escritora já havia pro­
nunciado nessa época uma conferência sobre Nietzsche, em que Antônio
Torres distinguiu hábitos de leitura pouco freqüentes nas nossas patrícias,
considerando, todavia, que seriam insuportáveis se passassem o tempo a ler fi­
lósofos alemães. Nesse romance vemos a heroína, Ladice, apaixonar-se pelo
poeta Teófilo de Andrade somente pela leitura de alguns versos. Mas o poeta
é casado, e Ladice, para satisfazer à família, consente por seu lado num casa­
mento de conveniência com um homem a quem não ama. Vindo a conhecer o
poeta numa festa de caridade, depois de uma série de diálogos d'annunzianos
reiniciam o romance que parecia terminado. Certo dia, Ladice descobre um
bilhete da esposa ao marido; doente numa cidade do interior, a pobre mulher
lhe reclama, entre lágrimas, a presença. Profundamente compadecida ante

1i
aquela criatura amorosa e fiel, de cujo sofrimento se tornara a causadora,
Ladice resolve romper com o poera e suicidar-se em seguida, escrevendo-lhe
uma carta, com que finaliza o romance. Ladice teria dado assim uma réplica
a Marta, a heroína de Goulart de Andrade. O sentimento, o espírito de renún­
cia ante a dor alheia desta vez superava a ética de Nietzsche.

! A voga de Tolstoi no Brasil conjugou-se com as atividades anarquistas e


socialistas aqui verificadas nas duas primeiras décadas do século XX; mas da
mesma maneira que entre 1 930 e 1940 proliferaram entre nós os marxistas

CAPÍTULO XI 6:::9 I69


,,
puramente "literários , também no " 1 900" o anarquismo foi para muita gen­
te apenas "literatura''. E era Tolstoi o paradigma desses reformadores utópicos.
O termo·moda no caso não será exagerado, pois havia um cunho "exquis" de
atualidade e de modernismo, em sonhar com um mundo melhor "sob a bên­
ção universal da anarquiâ'.
No terreno da ficção, essa moda não produziu fruto apreciável. Curvelo de
Mendonça e Fábio Luz procuraram, sem êxito, escrever romances tolstoianos.
O primeiro publicou, em 1 904, Regeneração, com o propósito de demonstrar
as possibilidades de um socialismo espiritualista baseado no Evangelho, como
queria Tolstoi, mas não possuindo qualidade de romancista fez uma novela
declamatória, convencional, ingênua e meio didática. A ação descosida e en­
trecortada de longas divagações doutrinárias consistia, em síntese, no esforço
de um herói tolstoiano para implantar uma espécie de falanstério numa pro­
priedade agrícola, com a solidariedade do fazendeiro e contra as manobras do
advogado da família deste último.
Respondendo ao inquérito de João do Rio, salientava, entre os escritores
que mais lhe haviam influído na formação literária, Zola e Kropotkin, tendo
o cuidado de ressalvar que se tratava do Zola da última fase, o dos "Quatro
,,
Evangelhos , com inclinações sensíveis para o misticismo e a utopia social. E
ao escrever as novelas Na província, Elias Barrão e Chica Maria, O ideólogo,
inspirou-se nessa mística socialista em que Zola veio confluir em Tolstoi.
No Correio da Manhã, de que foi redator durante muito tempo, Pausílipo
da Fonseca publicou em folhetim, de outubro a dezembro de 1 9 1 1 , o roman­
ce socialista: A vitória da fome. Depois de haver sido antes florianista exaltado,
sofrendo a deportação para Mato Grosso em 1897 com setenta colegas e es­
crito um ensaio literário, Mdrtir daft, com enfática dedicatória à memória do
Marechal de Ferro, fez-se anarquista, pondo-se à frente de periódicos libertá­
rios. Domingos Ribeiro Filho, também vindo do florianismo pata o anarquis­
mo, colega de Lima Barreto, com quem, aliás, nunca chegou a sintonizar-se
afetivamente, publicou romances de tendência revolucionária, entre os quais,
O cravo vermelho, "estudo de uma moral". Lembraremos ainda o Grilheta, de
A. Azamar que, como os outros, não chegou a atingir verdadeiro nível literário.
Pela poesia soprou, igualmente, essa inspiração libertária e rolstoiana. O fu­
zilamento de Ferrer, na Espanha, provocou no Brasil uma vasta onda de poesia

I7O � u1 Vida Literdria no Brasil


revolucionária. Fanfa Ribas, de quem hoje ninguém mais se recorda, escreveu
"O Dragão de Monjuich" (Monjuich denominava-se a fortaleza onde 0 anar­
quista foi fuzilado); Gomes Ferro prote;tou contra o ato numa sátira violenra,
"Os sete bandidos de Ferrer''; e até Hermes Fontes, informa-nos Fernando de
Azevedo no livro Ensaios, saudou Ferrer que tombava "como um dos semeado­
res da colheita de amanhã". Outros poetas perfeitamente burgueses ergueram na
época vozes anarquistas e proclamaram as doutrinas de Tolstoi, sem a menor
idéia de provocar rebeliões de fato. Mas "Rebelião" foi precisamente o título da
poesia de Ricardo Gonçalves, em que Fernando de Azevedo distinguiu um "gri­
to vibrante de inspiração profética, de que se desprendem, pela força e pela sin­
ceridade, a emoção profunda e o sopro épico que animam as melhores estrofes
de Castro Alves". Na mesma esteira seguiram Max de Vasconcelos, Manuel
Custódio de Melo Filho, Raimundo Reis, Zeferino Brasil, nos dois sonetos
"Sangue", Alberto de Oliveira, no soneto "A fumaça da fábrica", Martins Fontes,
sempre alaridal, nos versos rubros de "Clangor anarquistà' .7
Já um Afonso Schmidt, escrevendo nessa tendência belos contos, repassa­
dos de forte sentimento de humanidade, e versos como os de "Caras sujas" e
"Os vagabundos", vivia também a própria literatura anarquista, na atitude de
rebelado com que embarcava num navio em Santos, partindo muito jovem
pe.ra a Europa, à mercê do destino. É impossível lembrar a odisséia do autor
de Mocidade pela Itália e França sem evocar a figura de Panait Istrati e os he­
róis de Máximo Gorki. Em Paris - conta-nos Ribeiro Couto8 - Schmidt
teria morado com anarquistas russos "bebendo com eles o chá reconfortan­
te do samovar característico, em quintos andares do Rive Gauche, e com eles
enchendo a cabeça de ideais dinâmicos". Estava o jovem brasileiro num ban­
co de jardim, "pensando em coisas sentimentais", quando dele se aproximou
um homem sisudo, em cuja estampa alguém reconheceria logo um policial.
"Olhe, não ande mais com aqueles rapazes... " Schmidt voltou-se surpreso.
E o homem paternal, com uma paternidade meio severa, explicou: "Já vi que

1
o senhor é um moço ingênuo e inexperiente. Mas agora está avisado: não se
meta com eles."

1
7. Fernando de Azevedo, Ensaios, Cia. Melhoramentos, São Paulo, 1929.
8. Revista do Brasil, número 7 1 .

CAPÍTULO XI � I 7 l
Schmidt teria respondido com um "Sim, senhor" de mocinho bem com­
portado, vítima de lamentável equívoco; no fundo, porém, se rejubilando
com: aquela glória que o elevava aos seus próprios olhos: ser alvo da vigilância
da polícia parisiense. Devia sentir-se em pleno romance esse jovem poeta líri­
co cheio de sonhos.9
Em artigo no Almanaque Garnier ( 1907), Curvelo de Mendonça mos­
trava que ao lado dos discípulos de Tolstoi, optando pela não-violência, ha­
via os adeptos de Kropotkin pregando uma ação francamente revolucioná­
ria e militante. Neste último grupo poder-se-iam incluir o prof. Vicente de
Sousa, José Oiticica, Mota Assunção, Joel de Oliveira, fundando pequenos
periódicos no Rio; Guedes Coutinho, J. Máz y Pí, realizando o mesmo no
Rio Grande do Sul. Os pontos de vista variavam, as convicções se tingiam
de nuanças.
i Alcindo Guanabara, que ao embarcar deportado para Fernando de Noronha,
i
; 1 em 1 897, envolvido na conspiração contra Prudente de Morais, levava debai­
i 1
i xo do braço A conquista do pão, de Kropotkin, era dos que oscilavam entre con­
ri. cepções vagas e incertas em busca de um sistema conciliatório. Viveiros de
-, : ':'' '';
'
.
'
Castro e Evaristo de Morais revelavam tendências libertárias em trabalhos jurí­
dicos. E o mesmo se verificava de quando em quando - informa-nos Curvelo
de Mendonça - nos escritos de José Veríssimo, Medeiros e Albuquerque,
Olavo Bilac, Frota Pessoa, Manuel Bonfim. Vítor Viana se inclinava para uma

9. Em livro sob o título de Primeira viagem, recentemente acrescido às suas "Obras completas",
Afonso Schmidt, em forma romanceada, conta-nos episódios de sua aventura européia: a
chegada em Paris, em 1905, com meia dúzia de francos no bolso, a lura pela subsistência na
grande cidade, enquanto aguardava das autoridades consulares uma passagem para o Brasil
como indigente. Schmidt realizou, ainda, segunda viagem à Europa, à qual se referiu numa en­
trevista a Paulo Dantas (A Gazeta, São Paulo, 1 2-12-1953). Dessa vez andou pela Itália, sem­
pre na atitude de um vagabundo romântico e não-conformista. Andou por Milão e outras
cidades da Itália e quase sem dinheiro chegou à fronteira francesa. Era o Mont-Cenis. De um
lado a Itália, do outro a França. Modanne estava próximo. Sendo a primeira estação francesa
' ' fronteiriça, era para lá que a polícia deportava os tipos suspeitos. Nas condições em que se en­
' i
' ' contrava, Schmidr não podia deixar de ser um tipo suspeitíssimo e cair sob as vistas das au­
: l .
toridades. E a aventura termina corn urna carta do jovern brasileiro ao príncipe dom Luís de
Orléans e Bragança. Do Castelo D'Eu, o príncipe envia-lhe cínqüenta francos. Schrnidt pode
então partir para Marselha, de onde fOi pela segunda vez repatriado.

I 7 2 t;::::.<9 <..A Vida Literdria no Brasil


espécie de socialismo estatal, enquanto Pereira da Silva, como outros poetas
simb olistas, numa atitude seráfica, declarava-se um tolstoiano puro.
Também tolstoiano seria Elísio de Carvalho, homem que parecia dispos­
to a adotar todos os figurinos do momento. Requinte? Esnobismo? No en­
tanto, dele partiu uma das realizações mais práticas que o clima tolstoiano
produziu no Brasil: a fundação de uma universidade popular, empreendi­
mento infelizmente efêmero. Nela figuravam como professores Felisbelo
Freire, lecionando história do Brasil; Fábio Luz, Higiene; Rocha Pombo, his­
tória Geral; Pedro Couto, filosofia; Sinésio de Faria, matemática. Por que te­
ria durado pouco tempo essa universidade? "Houve a inveja'' - explica-nos
Curvelo de Mendonça -, "houve o ciúme, houve a guerra, as más paixões do
homem que danificam a delicada flor da boa vontade. Crestou-se a jovem ins­
tituição formosa, voaram os sonhos, as esperanças todas. Como pode viver um
puro ideal em meio duma explosão?" E terminava dizendo que o ideal não
morrera com a universidade; apenas fugira dela aborrecido.
As representações de lbsen, promovidas em Paris por Lugné-Poe, fizeram
com que as obras do teatrólogo norueguês começassem a circular em francês,
nos fins do século passado, e chegava-se a falar, nos salões, duma moléstia da
época: a "ibsenite". Essa vulgarização teve ainda a favorecê-la o movimento
simbolista, cuja estética possuía certos pontos de contato com a de lbsen.
Justamente o crítico do simbolismo brasileiro, Nestor Vítor, foi um dos pri­
meiros, senão o primeiro) a tratar Ibsen, entre nós, num estudo que faz parte
do livro A hora, publicado em 1901, no qual figuram ainda dois ensaios, um
sobre o Cyrano de Bergerac, de Rostand, outro sobre Os desplantados de Barres.
Quanto a Ibsen, o crítico incide as vistas de preferência nos dramas românti­
cos e nas peças lírico-filosóficas, como Brand. É o caráter simbolista do teatro
de Ibsen o que mais atrai.
A presença no Brasil de um diplomata, especialista na obra de Ibsen e
amigo deste último, o conde Prozor, concorreu para a divulgação do autor de
Peer Gynt entre nós. O conde Prozor tinha uma filha muito inteligente que
conhecendo bem lbsen sabia também interpretá-lo admiravelmente em espe­
táculos de salão promovidos em Petrópolis. Em 1 9 1 1 , Araripe Júnior reunia
em livros vários ensaios sobre Ibsen, publicados em diferentes épocas, e ofe­
recia-os ao diplomata, já então fora do nosso país.

C A P Í T U L D_ X I é:A l 7 3
A literatura brasileira teve nesse período uma peça de pura inspiração
ibseniana, o Malasarte, escrita diretamente em francês por Graça Aranha e re­
presentada pela primeira vez em Paris em 1 9 1 1 , sob a direção de Lugné-Poe,
encarregando-se dos papéis principais: Pierre Samson, De Max, Greta Prozor
e Gina Barbieri. Graça Aranha quis fazer do conhecido tipo do nosso folclo­
re uma espécie de Peer Gynt tropical, não emprestando, entretanto, à peça um
caráter brasileiro. O enredo resume-se na aventura sentimental de Eduardo,
que atraído por Dionísia, uma ondina das águas guanabarinas, parte com ela
para a ilha da Boa Viagem, transformada em Citera, onde passam a desfrutar
os encantos do amor numa vida livre e natural. Mas como não fora feito para
o sonho, cedendo aos rogos da mãe, volta à terra firme, enquanto Dionísia e
Malasarte libram-se no oceano em demanda do palácio de coral. Eduardo re­
presenta a resistência da realidade aos convites do sonho, enquanto Malasatte
surge como o gênio de uma fantasia inquieta, capaz de descobrir a face mara­
vilhosa das coisas. A peça teve alguns elogios na imprensa francesa, inclusive o
de Henri de Régnier, na Révue Hebdomadaire.
Eça de Queirós não foi somente uma grande influência na literatura bra­
sileira; foi também moda literária, que se iniciou por volta de 1878, quan­
do se divulgou aqui O primo Basílio - implantando o que os cronistas da
época chamavam de "basilismo" -, até a guerra de 1 9 14, mais ou menos.
No começo do século XX, Eça continuava a ser uma obsessão para muitos
intelectuais brasileiros. E presenciavam-se episódios como este: numa parti­
da de Olavo Bilac para a Europa, os amigos, ao acompanhá-lo a bordo, re­
citavam versos com alusões aos personagens do romancista português. Bilac
ia a Portugal e era como se fosse encontrar aquela comparsaria d' Os Maias,
d' O primo Basílio, d'A relíquia, tida como criatura de carne e osso, gente de
verdade por todos os leitores e admiradores de Eça. Em meio dos adeuses
em verso, Goulart de Andrade enviava "uma beijoca bem boa no imortal
Johannes da Ega"; outro mandava recomendações ao conselheiro Acácio, e
assim por diante.
Ao chegar em Lisboa, Bilac apressa-se a telegrafar aos amigos, declarando
que beijara por todos a estátua de Eça, na praça Barão de Quintela. E depois,
no regresso do poeta, mal ele aparece a bordo, Guimarães Passos exclama:
"Viste lá o Libaninho? Gozando a vida, o pândego! ... " Bilac vai logo dando

1 7 4 � <.A Vida Literdria no Brasil


as últimas notícias de Portugal, as mais importantes, as que os amigos aguar­
davam com maior interesse: "Morreu o Teles da Gama ... O Dâmaso apa­
nhou ... O conselheiro Acácio mudou-se para o Brasil..."
Essa simples brincadeira de poetas e escritores, bem no tom da época, tes­
temunha o importante papel que os personagens de Eça desempenhavam no
convívio dos grupos literários. Que romancista hoje conseguiria transmitir aos
seus heróis esse milagre de humanidade, lançá-los no mundo desligados dos
livros como seres reais, no trato da existência cotidiana?
Também do poeta cearense Quintino Cunha conta-se que visitando Lisboa
em 1907, ao passar junto da estátua de Eça, afustando algumas pessoas presen­
tes, aproxima-se teatralescamente do pedestal e escreve:

"Conhecia a humanidade
Como ninguém conhecia
' Por cima desta verdade

í O manto da fantasia."

1
1
E no Teatro de Dona Maria teria pronunciado uma conferência sobre o
autor d'A cidade e as serras. 1 0
Na correspondência de Monteiro Lobato e Godofredo Rangel temos
ocasião de ver um grupo de jovens acadêmicos de direito, em São Paulo,
exercitando os primeiros passos na literatura, e sofrendo como os boêmios
do Rio a mesma sugestão de Eça. Basta notar o nome da agremiação que
formaram: O Cenáculo. E a idéia de chamar de Cainçalha o grupo não vi­
ria, precisamente, de um conhecido episódio narrado nas Farpas? Conta
Ramalho Ortigão que, para oferecer a uma senhora um leque perdido nu­
ma aposta, Eça de Queirós pedira aos amigos Antero, Ramalho, Oliveira
Martins e Junqueiro, que escrevessem na ventarola1 ornada de uma aquare­
la representando um grupo de cinco cães, uma frase qualquer. A de Antero

l foi a seguinte: "Quem muito ladra, pouco aprende"; a de Oliveira Martins:


"Escritor que ladra não dorme''; a de Ramalho: "Dentada de crítico cura-se
! com pêlo do mesmo crítico"; a de Eça de Queirós: "Cão lírico ladra à lua;

1 10. Lourdite Cunha, Quintíno Cunha no conceito dos seus contemporâneos, Pongetti, 1955.

l
cão filósofo aboca o melhor osso"; a de Guerra Junqueiro: "Cão de letras -
cachorro!" Esses "latidos" eram seguidos do seguinte Envoi assinado por
"A Matilha":

"São cinco cães, sentinelas


De bronze e papel almaço:
De bronze para as canelas,
De papel para o regaço."

Em carta a Godofredo Rangel em 1 O de janeiro de 1904, 1 1 Lobato estabe­


lece uma classificação para o grupo que parece em tudo inspirado por esse fa­
to: "Ricardo, Cão Lírico que ladra à lua; Tito, Cão Rafeiro, ou, como propôs
o Raul, Cachorro, só, sem mais nada; Lobato, Buldogue; Edgard, Cão de Fila;
Raul, cachorrinho de estimação; Cândido, Cão de Raça; Rangel, Cãozinho de
Colo; Lino, cachorro que late e não morde; Tito Franco, Perro Imundo;
Nogueira, Podengo de Clérigo; Júlio Costa, Cachorro Ensinado; Albino, o
Cunegundes... " É verdade que esses rapazes liam também muito Daudet e se
tinham impressionado tanto com o Tartarin de Tarrascon que haviam adota­
do no trato íntimo locuções provençais semelhantes às do romance, segundo
se depreende da correspondência em questão. "Té, Bezuquet! Vé, Tartarin!"
- escreve Lobato, despedindo-se de Godofredo Rangel, num bilhete. 12 Mas a
presença de Eça de Queirós era muito mais viva e os nomes dos seus heróis
aparecem constantemente nessas cartas, como se tratasse de pessoas das rela­
ções dos dois amigos. É Dâmaso para aqui, João da Ega para ali. Numa das
cartas datadas de Taubaté (28-12-1 903), comunica a Godofredo Rangel: "Eça es­
tá muito querido cá em casa; todos o 'adoram'. A semana passada apareceu­
nos um comediógrafo, José Piza, e durante três dias só lidamos com o Eça.
Meu avô lê A cidade e as serras, minha irmã lê A ilustre casa dos Ramires, eu
leio suas histórias de santos - e como somos só três neste imenso casarão,
não erro dizendo que a casa inteira lê o Eça."13 Também Ciro Arno, nas suas

1 1 . Monteiro Lobato, op. cit., pág. 26.


12. Idem, ibidem, pág. 8.
13. Idem, ibidem, pág. 19.

1 76 ,_, (/{ Vida Líterdria n o Brasil


Memórias de um estudante, conta-nos ter visto Júlio Prestes com o Francisco
Lagreca, ambos acadêmicos de direito, por volta de 1903, no Café Progrédior,
na rua 1 5 de Novembro, em São Paulo, recitando o prólogo d' O mandarim.
Prestes declamava:
"1º Amigo (bebendo conhaque e soda, debaixo d'árvore, num terraço à
beira d' água). Camarada, por estes calores de estio, que embotam a ponta da
sagacidade, repousemos do áspero estudo da realidade humana... Partamos
para os campos do sonho, vaguear por essas azuladas colinas românticas, on­
de se ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as
ruínas do idealismo... Façamos fantasia!..."
E Lagreca tomando a deixa, neste ponto, continuava: "Mas sobriamen­
te, camarada, parcamente!... E como nas sábias e amáveis alegorias da Renas­
cença, misturando-lhe sempre uma moralidade discreta... "
Três anos depois, Francisco Lagreca, num panfleto que teve muita reper­
cussão na época, Em defasa do mestre, se ergueria para defender Eça de Queirós
contra as críticas impiedosas de Fialho de Almeida.
Parece-me que até a guerra de 1 9 1 4 o culto de Eça de Queirós foi maior
no Brasil do que em Portugal. Não deixa de ser expressivo o fato de ter apa­
recido aqui, também, o primeiro estudo de conjunto da obra do romancista.
Publicou-o Miguel Melo, em 1 9 1 1 , sob o título Eça de Queirós, um volume
de mais de duzentas páginas, hoje verdadeira raridade bibliográfica. 14
Embora trazendo como epígrafe '1a obra e o homem", o estudo ressente-se
um pouco da falta de unidade, tendo resultado de artigos dispersos que o au­

l
tor procurou sistematizar. Na parte relativa à biografia, Miguel Melo escusou­
se de não fazer trabalho mais completo, alegando escassez de dados e decla­
rando que só numa viagem a Lisboa se poderiam obter subsídios necessários.
Outras falhas do livro decorreram também dessa carência de elementos infor­
mativos. Onze anos após a morte do romancista, os portugueses, que tinham
1 ao alcance tais elementos, não haviam começado a vulgarizá-los. Miguel Melo

1
foi, assim, o pioneiro de um assunto cuja exploração cabia em primeiro lugar
aos portugueses, e isso diz bem do quanto Eça preocupava os intelectuais bra­
sileiros na época. Detalhe curioso, que não podemos deixar de assinalar, é o

1
14. Miguel Melo, Eça de Queirós - A obra e o homem, Ran1ori & Cia., Rio, 1 9 1 1 .

CAPÍTULO XI � l 7 7
seguinte: ao referir-se a Oprimo Basílio, Miguel Melo descobre uma nítida se­
melhança com a Casa de boneca, de Ibsen; aproximação sem dúvida forçada,
mas qtfe indica a influência do "ibsenismo", então em moda.
Quando o jovem Adoasto de Godói se transfere para o Rio em 1903 e, de­
pois de obter emprego na Central do Brasil, se põe a escrever comentários le­
ves e elegantes n'A Imprensa de Alcindo Guanabara, é com o pseudônimo
de Carlos Eduardo que os assina. 15 Em 1 9 1 6 estará, ele, com Antônio Torres
e outros escritores, a publicar na Gazeta de Noticias umas epístolas morda­
zes a figurões do meio carioca. Daí resultará o livro Correspondência de joão
Episcopo, editado em 1 9 1 7, reunindo as melhores cartas de Torres e Adoasto
com as respectivas iniciais A. T. e A. G., traduzindo no título pura reminis­
cência de Fradique Mendes. Mas Gastão Cruls nos informa que, já pelas co­
lunas da A Notícia, Antônio Torres divulgara algumas "Opiniões de José
Eleutério", à maneira da Correspondtncia de Fradique Mendes ou de jer8me
Coignard, de Anatole France.
Ainda em 1 9 1 5 , na revista O Pirralho, publicada em São Paulo, encon­
tramos uma das últimas manifestações da moda de Eça de Queirós, num in­
quérito promovido por Oswald de Andrade, em que eram dirigidas aos escri­
tores as seguintes perguntas: acha Fradique Mendes um tipo representativo
de vida superior? Em caso contrário, qual na sua opinião o tipo perfeito? Res­
ponderam, entre outros, Amadeu Amaral, Cláudio de Sousa e Guilherme de
Almeida - que então se assinava G. de Andrade e Almeida-, todos enchen­
do mais de uma página da revista.
O futuro auror de Nós, depois de assinalar os atributos do herói de Eça,
concluía negativamente: ''Parece, sim, o homem superior, mas não o é. Não o
é, porque foi titubeantemente o camaleão, 'o devoto de todas as religiões, par­
tidário de todos os partidos, o discípulo de todas as filosofias', porque só an­
dou egoisticamente, 'à busca de verdades que não eram para o ruído e para o
mundo', porque não deixou uma obra, pois Fradique 'nunca foi verdadeira­
mente um autor'; faltou-lhe, para isso, 'a certeza do seu valor definitivo, a ar­
te paciente, o querer forte para produzir aquela forma que ele concebera em
abstrato, como a única digna de encarnar suas idéias'; não o é, porque teve a

1 5. Gastão Cruls, Antônio Torres a seus amigos, Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1950.

I78 °"""' <Á Vida Literária no Brasil


'desconfiança de si mesmo corno pensador, corno escritor e criador de urna
prosá; porque 'faltou-lhe na vida um fim sério e supremo, que as suas quali­
dades, em si excelentes, concorressem a realizar'; porque, ao seu cérebro 'ad­
miravelmente construído e mobilado, faltou urna idéia que o alugasse, para vi­
ver e governar lá dentro... "' E depois de várias considerações, Guilherme de
Almeida terminava dizendo a Oswald - a resposta era dada em forma de car­
ta a este último - que se quisesse encontrar um homem tratasse de procurá­
lo, não com a lanterna de Diógenes, mas com a lâmpada de Aladino.
Da resposta de Cláudio de Sousa, julgamos curioso destacar apenas o tre­
cho em que, declarando ser Fradique Mendes a personificação do próprio Eça,
afirmava a respeito do romancista: "Toda sua arte é feita num só bloco - isó­
gona, isomorfa, isotônica."
Mas já então Juó Bananére (Alexandre Marcondes Machado), no seu dia­
leto ítalo-brasileiro, atingia em vivo o formalismo raffiné de Fradique. Come­
çava declarando: 'Jl pergunta inzima non sta bê fetta, pur causa che si podi in­
tendê di varas maniera. Podi sê rappresentativo d'aquillos chi rappresenta inzima
du tiatro, podi sê rappresentativo d'aquillos chi tê appresentaçó suciali i podi sê
rappresentativo d'aquillos chi tê inzistenza reale, aripresentada inzima da a
Sucietà. " E concluía que o "Frederico Mendeso non passa di un tippo indiale,
uma criaçó literarima, sé pé nê gabeza" - juízo decerto justo, que muitos crí­
ticos de Eça, corno atualmente João Gaspar Simões, assinariam.
Não sendo o Fradique um tipo representativo de vida superior, qual, pois,
na opinião de Juó Bananére o tipo perfeito? "Na migna pinió"- responde ele
- "un uómo p'ra sê perfetto pricisa te cinco qua!idadi: 1) non sê molhere; 2) sê
xique e inleganti; 3) tê talentimo; 4) sabêpr'a burro; 5) afazê a barba nu migno
saló. "Depois disto, seria difícil ao "Frederico Mendeso" resistir.
D O
l$f C A P Í T U L O X1 1
ll
Usos e costumes Simbolistas """"' Hõrror à vulgaridade i.=, Os que
bebiam e os que não bebiam """"' f:ivros esquisitos e trajes extravagantes
""""' O misticismo """"' <-Aclimatação do Simbolismo no Sul _,,
Os agrupamentos no Rio e na província

movimento simbolista, mal compreendido pelos principais críti­


cos da época, como Romero e Veríssimo, desconhecido por gran­
de parte dos modernistas, só agora começa a ser visto nas suas
verdadeiras proporções. É certo que, se quantitativamente teve
ele muito maior importãncia do que se imaginava, qualitativamente não atin­
giu o mesmo nível. E essa importância se verificou também mais no terreno
da vida literária do que da literatura.
O simbolismo criou hábitos, costumes, modas que produziram uma sen­
sível modificação na paisagem do chamado mundo das letras. Como os parna­
sianos haviam combatido os românticos, os simbolistas combateram os par­
nasianos, imprimindo, porém, à ofensiva um caráter que já denunciava 0 das
guerrilhas modernistas. Era a luta não somente no plano teórico das polêmi­
cas em jornais e revistas, como também no plano prático das relações sociais,
deslocando-se para as mesas de café e portas de livrarias. Por ali parnasianos
e simbolistas trocavam epigramas venenosos e se mimoseavam reciprocamen­
te com os rótulos de "imbecil)', "idiotà', e coisa que o valha.
Mas essas escaramuças, já muitas vezes relembradas, caíram no puro domí­
nio da anedota e não iremos revivê-las ainda uma vez aqui. O que o Simbolismo

CAPÍTULO X I I � l 8 l
procurou, antes de mais nada, foi reabilirar o culto da poesia, a alta condição
do poeta no mundo, que os parnasianos, numa natural reação aos român­
ticos, tend"lam a banalizar. Com o parnasianismo a poesia enveredara, fre­
qüentemente, por setores que lhe eram inteiramente alheios - o da ciência,
da ação social, da luta política. Nas vésperas da República, surgiram muitos
panfletos em versos. O poeta ia perdendo aquela dignidade de ser superior
que coloca a arte acima de tudo e não desvirtua nem lhe abastarda o culto.
Os parnasianos, embora muitos fossem realmente boêmios, tinham sido, na
maioria, aquilo que hoje nos habituamos a chamar de "cavadores". Lutavam
ardorosamente pela vida, prontos até a fazer sonetos de encomenda, sempre
que isso lhes rrouxesse vantagens econômicas. Bilac não hesitou em pôr a ha­
bilidade de versejador, que nele prevalecia ao lado do verdadeiro poeta, a ser­
viço de empresas comerciais. Havia, entre os parnasianos, bons burgueses à es­
pera de oportunidade para se amesendarem na vida. E se continuavam em má
situação financeira, não seria pelo sacrifício que faziam da condição de poeta.
Uma das primeiras coisas que os simbolistas desprezaram e combateram
nos parnasianos foi a vulgaridade. Vulgaridade, já quase implícita nos câno­

nes da própria escola que reduzia o culto da forma a uma simples questão de
paciência - como na atitude perante a vida e o mundo. Mas não procura­
vam com isso preconizar uma volta ao desajustamento dos românticos e nem
j ulgar os poetas pelo fato de serem diferentes do comum dos mortais, como
incapazes de se articular na sociedade. Repeliriam, energicamente, a classifi­
,,
cação de "marginais que mais tarde lhes atribuíram, se ela então já estivesse
em uso. Concordavam em exercer empregos públicos, desempenhar funções
no ensino, na magistratura, etc., em lutar pela existência, enfim, à seme­
lhança de qualquer burguês, com uma ressalva apenas, a de não empenhar
nisso a condição de poeta. Este permaneceria intangível na sua elevada ca­
tegoria espiritual, acima de todas as pequenezas do mundo. E justamente
por essa dignidade, essa aristocracia moral, muitos deles se recusavam a cer­
tas competições no terreno da vida civil, vindo a arcar com dificuldades eco­
nômicas, preteridos em suas justas aspirações a determinados cargos, relega­
dos ao esquecimento quando se tratava de passar à frente dos outros ou
reclamar direitos. Não será mera coincidência, entre os simbolistas, o des­
prendimento de um Rocha Pombo, de um Nestor Vítor, de um Colatino

I 8 2 � tA Vida Literária no Brasil


Barroso; a incapacidade de um Alphonsus de Guimaraens para deixar o seu
retiro de Mariana e pleitear uma promoção.
Diz Medeiros e Albuquerque que até cerra época era difícil compreender­
se no Brasil um poeta que não bebesse.1 Poesia e alcoolatria eram coisas
que se completavam. Na realidade, bastava o fato de os intelectuais viverem
freqüentemente nas mesas de café e bar para serem levados a beber. Os par­
nasianos beberam muito e os simbolistas parece que neste ponto não modi­
ficaram os nossos costumes literários. Andrade Muricy no seu Panorama do
movimento simbolista2 estabelece dois quadros, quase diríamos dois times:
0 dos amantes do álcool e o dos abstêmios. No primeiro figuraram Emiliano
Perneta, Gonzaga Duque, Santa Rita, Venceslau de Queir6s, Oscar Rosas,
Lima Campos, Orlando Teixeira, Carlos Dias Fernandes, Zeferino Brasil,
Edgar Mata, Max de Vasconcelos, Maranhão Sobrinho, Tiago Peixoto,
Pedro Kilkerry, Ernãni Rosas, isto sem falar em B. Lopes, cuja dipsomania
chegou ao extremo; de Marcelo Gama, morto num desastre, quando se acha­
va alcoolizado, e Alphonsus de Guimaraens, o mais dramático e doloroso dos
exemplos. No segundo grupo, o dos abstêmios, encontramos Cruz e Sousa,
Silveira Neto, Nestor Vítor, Rocha Pombo, Graça Aranha, Domingos do
Nascimento, Dario Veloso, João ltiberê, Pethion de Vilar, Adalberto Guerra
Ouva!, Maurício Jubim, Saturnino de Meireles, Euclides Bandeira, Tristão da
Cunha, Félix Pacheco, Durval de Morais e quase todos os neo-simbolistas.
Mas é preciso convir que, com exceção de Cruz e Sousa, as maiores e as mais
características figuras da escola estão no outro grupo, o dos que bebiam. Estes
é que constituíam verdadeiramente o primeiro time, direi, usando de uma
linguagem trivial, e não há necessidade de justificar-lhes ou atenuar-lhes o ví­
cio perante a posteridade; nem eles admitiriam semelhante justificação.
Na França, como se sabe, o simbolismo teve um caráter revolucionário que
foi além do terreno literário. Muitos dos seus adeptos, como Laurent Tailhade,
derivaram francamente para o anarquismo. Entre nós, também se manifes�
rou esse aspecto da escola, embora sem tonalidades muito vivas. Nenhum dos

1. Medeiros e Albuquerque, Minha vida, vol. II, Calvino Filho, Editora, Rio, 1934.
2. Andrade Muricy, Panorama do movimento simbolista brasileiro, vol. 1, págs. 47�48, Instituto
Nacional do Livro, Rio, 1952.

1 CAPÍTULO XII � 1 8 3
nossos simbolistas foi a ponto de exclamar diante da famosa dinamite de
Vaillant - que deu uma página a Eça de Queirós: "Que importa, se o gesto
é belo?!. .<;", mas muitos sonharam com "a bênção universal da anarquià', como
o ideal de um mundo superior, feito para os poetas. O anarquismo puramen­
te utópico era o regime que convinha à "torre de marfim" dos simbolistas.
A aristocracia que os caracterizava não podia se amoldar à vulgaridade burguesa;
mas poucos se teriam lançado à ação militante que os anarquistas começatam
a desencadear na primeira década do século, entre nós, promovendo greves e
agitações. Essa aristocracia impunha até certo ponto aos poetas uma ética à
parte, diferente da dos outros mortais. Reconduziam eles a poesia para o ter­
reno da iniciação de que o parnasianismo a retirara, quando admitira implici­
tamente que com trabalho, paciência e buril, qualquer pessoa poderia ser mais
o u menos poeta. E o sentido de iniciação levou-os a se agruparem em círcu­
los fechados. O poeta procurava readquirir a qualidade de mago, senhor de
uma arte cujos poderes só ele conhece e que consiste em penetrar no próprio
mistério da existência. De onde as relações íntimas com o ocultismo e o títu­
lo de uma das principais revistas simbolistas entre nós: Rosa-Cruz. Por aí se
sentiam impelidos, igualmente, à extravagância de editarem livros com forma­
to e aspecto gráfico diferentes dos outros. Não precisaremos relembrar aqui
esses pruridos de originalidade.
Afdnio Peixoto, quando se assinava Júlio Afrânio, numa crise de saram­
po simbolista, manda imprimir em Leipzig o seu poema Rosa mística nas se­
te cores do arco-íris, cada capírulo numa cor. Começava "no vermelho aça­
frão, continuava vermelho sangue, chegava a azul, acabava violeta, sendo
o último ato de escuridão e de morte, negro. As cores iam de par com a gra­
dação psicológica."3 O volume Manchas, de Antônio Austregésilo, traz a ca­
pa toda manchada de negro, como se fora pelos dedos dos tipógrafos.
Outro poeta, mais original ainda, imagina um volume de forma circular,
correspondendo ao tírulo Lua cheia. E Osório Duque-Estrada, no Correio

3. O editor Brokauss, que imprimiu a obra, disse a Juliano Moreira: "Tenho nas minhas coleções
os livros mais extravagantes, grandes, mínimos, ilustrados, papéis preciosos, tenho tudo, mas tão
maluco quanto esse impresso com o arco-íris1 nenhum." Afrânio Peixoto renegou Rosa mística,
escrevendo à margem do exemplar existente na biblioteca da Acadenlia Brasileira: "Incorrigível.
Só o fogo. A.P 1 914." (Leonídio Ribeiro, Afrânio Peixoto, Edições Condé, Rio, 1950.)

I84 _, vf Vida Literdria no Brasil


da Manhã, desancando o livro de estréia de Álvaro Moreyra, começava nes­
tes termos : "Num enorme caderno amarrado com fitas roxas e que mais pare­
,,
ce uma camisa-de-força. 4 E com os �aracteres gráficos se fazem, por vezes,
..

combinações bizarras, recurso de que alguns modernistas iam lançar mão


mais tarde.
Seja dito de passagem que essas extravagâncias seduziam, na maioria dos
casos, os elementos de menor destaque, ciosos de chamar a atenção, de for­
çar a nota. Outra modificação trazida por alguns simbolistas no feitio ma­
terial dos livros foi a redução do número de páginas.
Bilac publicara suas Poesias num grosso volume; alentados eram tam­
bém os livros de Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e, principalmente,
Luís Murat. Não seduzia os simbolistas a idéia de uma produção maciça.
A poesia resultava de um estado de ascese, que não podia ser provocado a
todo instante. Em lugar de duzentas páginas, de centenas de versos, apenas
trinta ou vinte páginas, em que um poema era encerrado como uma planta
rara num vaso chinês.
Essa aristocracia dos simbolistas levava-os ainda a restaurar um principa­
do que os parnasianos não haviam herdado dos românticos. Se Bilac fora
certa vez eleito príncipe dos poetas brasileiros por votação promovida pela
revista Fon-Fon, não seria esse evidentemente o título que os simbolistas rei­
vindicavam . O principado para eles se resumia naquela atitude distante da
vulgaridade que fazia um Gustavo Santiago semelhante ao Des Esseintes, de
A Rebours, e imprimia certos toques de lenda e mistério à figura de alguns
poetas da escola. Isto contribuiu para que os simbolistas procurassem dife­
renciar-se do vulgo também pela indumentária. Muitos ostentavam um
dandismo gritante, de molde a escandalizar. Se as extravagâncias dos cha­
péus e das gravatas de B. Lopes denunciavam um fundo de plebeísmo,
o mesm0 não se podia dizer de Gustavo Santiago - "o homem que tinha a
mania de dar na vista" -, de Severiano de Resende, de Guerra Duval. Elísio
de Carvalho traça um curioso perfil do primeiro: "Santiago é uma figura in­
teressante, sugestiva, provocante aos olhos do profonum vulgus, uma figura de
boulevardier, trajando sempre de luto, jaqueta à Barres, cabeleira d'azeviche,

4. Álvaro Moreira, As amargas, não , Editora Lux, Rio, 1954.


...
sempre e eternamente revolta, à cabeça um largo chapéu de lebre, um sombrero
de grandes abas, para épater, não mais os burgueses, mas os pássaros agourei­
ros da mediocridade, lunetas atadas a uma larga fita preta. . "5 .

Emiliano Perneta também se vestira na mocidade com a "rebusca e a afe­


tação de um Théophile Gautier". O próprio Alphonsus de Guimaraens foi
na juventude um verdadeiro dândi, "figura de alto requinte à Brummell, à
Morny, à Maciel Monteiro, na toilette e no trato à Murger, no faquirismo es­
piritual e boêmio contemplativo, a olhar a vida com olhos de bondade e so­
nhos sublinhados sempre pelo seu sorriso triste".
Aliás, a extravagância no trajar não se limitava ao círculo dos simbolistas:
poetas, escritores e artistas de outras tendências adotavam-na, igualmente, na
primeira década do século XX. Eram polainas, capas espanholas, chapéus desa­
bados, gravatas de cores berrantes, monóculos insolentes, impertinências, arro­
; ! gâncias, espalhafàtos. Martins Fontes alude aos sapatos bicudíssimos com fivelas
de prata de Calixro Cordeiro, onde as iniciais se entrelaçavam, "fraques agudos,
em rabo de tico-tico, coleres altos, colarinhos ainda mais altos, gravatas de qua­
tro voltas à Diogo Antônio Feijó e caveirinhas de ouro, de prata, de coral, de
marfim, por rodo o corpo, pendentes de cadeias, subindo pelas frocaduras das
firas''. Famosos se tornaram os coletes roxos de Solfieri de Albuquerque, que tra­
zia geralmente, preso a uma fira de seda, um monóculo. Dessa excentricidade
Raul Pederneiras guardava ainda a marca no seu característico chapeirão.
Quanto ao uso do francês por alguns simbolistas, seria menos para estabele­
cer uma identificação mais perfeita com os modelos de além-mar do que para
acentuar a diferença, a separação entre os meios de expressão do poeta e os da
massa ignara. Escreveram em francês Alphonsus de Guimaraens (Pauvre lyre),
Eduardo Guimaraens, Freitas Vale, que adotava o pseudônimo de Jacques
d'Avray, sem falar de ltiberê da Cunha, educado na Europa e participante dos
cenáculos belgas. Mas pode ser, também, que assim procedessem por sentirem
que os meios-tons, os claros-escuros, as nuanças evanescentes do simbolismo
em que havia qualquer coisa de exótico para nós, não se afinassem com a ín­
dole do nosso idioma, reclamando o claviculário múltiplo e sutil do francês.

5 . Elísio de Carvalho, As modernas correntes estéticas na literatura brasileira, Livraria Garnier,


Rio, 1907.

I8 6 _,, lÁ Vida Literária no Brasil


Falando em monjas, conventos, altares, erguendo louvores a Mere Marie,
à feição de Verlaine, muitos simbolistas se faziam passar por espíritos reli­
giosos e místicos, inteiramente mergulhados na vida contemplativa. Seria sin­
cera essa atitude? Em alguns casos, como no de Alphonsus de Guimaraens,
devemos acreditar que sim; mas em outros, não passaria, talvez, de uma afe­
tação poética. Tal o que concluímos de um artigo de Venceslau de Queirós,
na revista Vida de Hoje, de São Paulo (14-12-1 899), sob o título "Falso mis­
ticismo". O autor de Rezas do diabo, que aliás duvida do sentimento religio­
so do próprio Alphonsus de Guimaraens, protesta contra essa afetação de cer­
tos simbolistas, citando Baudelaire, para quem o poeta moderno "não passa
de um perfeito comediante, cujo doloroso programa consiste em afeiçoar o
espírito a todos os sofismas como a todas as corrupções". Bastaria ver, entre
outros exemplos, o de Batista Cepelos. Num soneto, "Sapientià', impreca ele
contra o mundo, verdadeira feira de vaidades, dizendo que devemos andar

11
sempre com os olhos voltados para o céu. "Pois bem" - considera Venceslau
de Queirós -, "quem lê um salmo destes acredita que o seu autor é um ce­
nobita que vive na cela de um convento, tendo por leito um catre de ferro
com duro enxergão, uma bilha de água, um crucifixo, comendo uma vez por
dia pão negro e rezando sempre no seu breviário com a cabeça cheia de cinzas
e os rins de cilício. Mas que ingênuo é o leitor! B. Cepelos não é nada disso:

l
é um jovem com bom sangue a transparecer-lhe no rosto, bigodes alourados,
um perpétuo sorriso nos lábios sadios e vermelhos. Mas o interessante é no dia
em que publicou ele a tal lamúria, o encontrei à noite numa brasserie, em fren­
te de um chope, com demonstrações visíveis na sua fisionomia simpática de
que o céu a que se referia no seu soneto não é o céu dos católicos - é o céu...
da boca." Também o famoso satírico, padre Correia de Almeida, não acredi­
tava na religiosidade dos jovens discípulos de Alphonsus de Guimaraens, que

l
se reuniam em Belo Horizonte, na primeira década do século XX, como ve­
remos mais adiante.
O romantismo tivera seu maior desenvolvimento em São Paulo por cau­

1
sa da Faculdade de Direito; o naturalismo, embora produzindo seus frutos
na metrópole, deitou suas mais fortes raízes no movimento cientificista do
Recife. Com o simbolismo verificou-se um curioso fenômeno de aclimata­
1 ção nas províncias sulinas: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul.
1
l C A P Í T U L O X I I. � ! 8 7
Augusto Meyer fula num estado de cumplicidade sugestiva, "nas paisagens
outonais e em outras predisposições igualmente imponderáveis". "Porto
Alegre, ;idade roxa'' - dizia Aldo Mota.
E como se dera, havia quase cem anos, com o romantismo alemão, o sim­
bolismo brasileiro caracterizou-se pela formação de grupos, em que a admira­
ção mútua se identificava com uma extrema amizade. Amigos que choravam
e sofriam uns pelos outros. Muitos desses grupos já vinham do século XIX,
como, por exemplo, o que se formou no Rio em torno de Emiliano Perneta,
então redator-secretário da Folha Popular e que existiu por volta de 1 890-
1 892. Segundo Andrade Muricy, foi esse o grupo simbolista mais antigo e o
que lançou o movimento e os manifestos iniciais (sem embargo da prioridade
cronológica de Medeiros e Albuquerque). Entre seus componentes se conta­
vam, além do próprio Emiliano, B. Lopes (o de mais prestígio, graças ao êxi­
to nacional dos Cromos), Cruz e Sousa, Oscar Rosas, Virgílio Várzea, Gonzaga
Duque, Lima Campos, Artur de Miranda. Mais tarde, dessa turma só resta­
ram Cruz e Sousa e Artur de Miranda, agora porém acompanhados de Carlos
Dom Fernandes, Tibúrcio de Freitas, Nestor Vítor e Maurício Jubim.
A morte do "Cisne Negro" provocou uma cisão nas hostes simbolistas, daí
nascendo dois grupos, o da Rosa-Cruz, que incluía entre outros a Félix
Pacheco, Saturnino de Meireles, Pereira da Silva, Artur Guaraná e Carlos
Dom Fernandes, e o comandado por Nestor Vítor, de que participavam
Gustavo Santiago, Oliveira Gomes, Colatino Barroso, Silveira Neto, Antônio
Austregésilo, Rocha Pombo, os dois Pernetas, João Itiberê da Cunha, que vie­
ra da Bélgica, com o nome de Jean Itiberê, o Jic das crônicas musicais do
Correio da Manhã, portador das "sagradas escrituras simbolistas"; Santa Rita,
Sebastião Paraná, Dario Veloso e mais alguns. Maurício Jubim freqüentava as
duas rodas rivais. Tramava�se entre esses grupos uma série de pequenos me�
xericos, hostilidades, intriguinhas. Cada um negava, como é de praxe, qual­
quer valor ou mérito aos membros do outro grupo. A obra de Cruz e Sousa
era retalhada entre as duas hostes. Nestor Vítor publicou os Últimos sonetos;
a Rosa-Cruz retrucou editando as Evocações.
Havia também flutuando em meio dos dois grupos uma geração mais mo­
ça de escritores em perspectiva, simbolistas quase todos, nutridos de esperan­
ças e ambições, que também faziam parte da "vida literária'' do tempo. Alguns

I 8 8 '"""' <.A Vida Literdria no Brasil


deles fizeram alguma coisa no campo da literatura; outros foram absorvidos
por atividades mais remuneradoras. Lembraremos ao acaso Joaquim de Sousa
Reis, Alvaro de Castro Meneses, Júlio Tapajós, Cassiano Tavares Bastos,
Belisário de Sousa, Corinto da Fonseca, Mário Guaraná, Joaquim de Sales,
Pausílipo da Fonseca, José do Patrocínio Filho (o Zeca, que se assinava
Josephus de Patrocínio), Paulo Silva Araújo, Oliveira Góis. "Muitos não pas­
saram de vocações frustras. Mas, na época, estavam todos possuídos da 'cha­
ma sagradà e cada um se julgava uma das futuras luzes das letras nacionais.
Emb riagavam-se de Verlaine, Rimbaud, Mallarmé de mistura com Antônio
Nobre e Eugênio de Castro. E escreviam, escreviam, escreviam. Como nem
sempre tinham onde publicar suas produções, liam-nas uns aos outros em tor­
no das mesas dos cafés que freqüentavam."6
Gonzaga Duque, Mário Pederneiras e Lima Campos compuseram o grupo
que fundaria a Fon-Fon e ao qual se agregaram, depois, Eduardo Guimaraens,
Alvaro Moreyra e Felipe d'Oliveira, sendo esse, segundo Andrade Muricy,
o derradeiro grupo simbolista, que teve atuação no Rio.7
Em Curitiba houve o famoso grupo O Cenáculo, que na última década
do século XlX constituiu uma das expressões mais representativas do nosso
movimento simbolista. Nele se destacaram Silveira Neto, Dario Veloso, Júlio
e Emiliano Perneta (formando também no Rio, no grupo da Rosa-Cruz, co­
mo acabamos de ver), Eliseu Montarroyos, que posteriormente foi viver em Paris;
Justino de Melo; Nestor Vítor; Carvalho de Mendonça; Ernesto de Mendonça,
matemático e esteta, folclorista e historiador; Leôncio Correia, transferindo
mais tarde residência para o Rio. A revista que encontrou receptividade em
todo o país, atraiu também colaboração estrangeira, como a de lvam Gilkim
e Philéas Lebesgue, e desaparecendo depois de três anos de publicação, foi
substituída por outras de menor relevo: Azul, O Sapo, Turris Eburnea. Mas
esse grupo j á não pertence propriamente ao "1 900'', pois na entrada do sécu­
lo se dispersava, tornando-se menos vivo o movimento literário paranaense
que levara João do Rio e João Luso a considerarem Curitiba o primeiro cen­
tro intelectual do país.

6. Informação de Vivaldo Coaracy, em carta ao autor.


7. Andrade Muricy, op. cit., vol. III.
Em torno de Adolfo Araújo, fundador da A Gazeta, reuniram-se em
São Paulo Alphonsus de Guimaraens, padre Severiano de Resende, Viana do
Castelo, Freitas Vale (Jacques d'Avray).
Os irmãos Sarandi Raposo teriam levado o movimento do Paraná para
Minas. Em Belo Horizonte compuseram os "Romeiros do Ideal". Álvaro
Viana, Horácio Guimarães, Edgard Mata, Eduardo Cerqueira, Archangelus
Guimaraens, Batista Santiago, sendo que alguns "romeiros", como se vê, se
achavam igualmente integrados no grupo paulista, que tinha além d'A Gazeta,
a Vila Kyrial, de Freitas Vale, como fator de junção.
Alvaro Viana, figura esplêndida para chefe de escola: "alto, magro, olhos
profundos de sonhador e uma revolta cabeleira negrà', 8 funda a revista
Horus, sob o signo de Alphonsus de Guimaraens, que do seu retiro de
Mariana, a cidade episcopal que dorme no seio branco das litanias, acompa­
nhava com simpatia as evasões poéticas dos seus discípulos amados. Dom
Alphonsus - denominara-o Alvaro Viana, num poema que lhe dedicara.9
Costumavam reunir-se no Café Paris, na rua da Bahia, esquina de Afonso
Pena, espantando a nova capital de vinte e cinco mil habitantes com seus
ares fatais, pálidos, a falarem em paixões tenebrosas por mulheres inatingí­
veis. Já se dispersava o grupo, quando em 1 9 1 3 apareceu em Belo Horizonte
o jovem Agenor Barbosa, cujo poema "Novena de maio" passou logo a ser
recitado nos salões nos intervalos das danças. Em 1 923, em São Paulo, co­
mo redator do Correio Paulistano, Agenor Barbosa seria envolvido pelo mo­
vimento modernista, do qual, no entanto, nunca chegou propriamente a
participar. O padre Correia de Almeida não tolerava os simbolistas de Belo
Horizonte, j ulgando-os artificiais e insinceros nos transes de um falso mis­
ticismo, e crivava-os de epigramas.
No Espírito Santo, o dr. Belisário Vieira da Cunha fez da Fazenda Pros­
'
peridade, "situada numa serra a cavaleiro de Cachoeiro do ltapemirim", um
ii
' 'í
centro de influência literária que implicava de qualquer forma num agrupa­
' mento simbolista. Seu filho João Belisário figurou entre os cultores da esco­
' '
! la, embora só deixasse poesias esparsas em jornais e revistas. Atílio Vivaqua,
1 '
i

8. Djalma de Andrade, História alegre de Belo Horizonte, 1 ª série, 1947.


9. Eduardo Frieira, Páginas de crítica, Itatiaia, Belo Horizonte, 1956.

I 9 O � lÁ Vida Literdria no Brasil


no prefácio da Escada da vida, de Benjamim Silva (Rio, 1938), refere-se ao dr.
Belisário Vieira da Cunha como um patriarca renovador, em torno do qual se
reuniam os j ovens intelectuais do tempo.
Irreverentes ditadores literários saíram paradoxalmente daquela tranqüila
Atenas campestre, onde se editava o Martelo, panfleto literário-político, ilustra­
do pelo lápis ir6nico de Ant6nio Vieira da Cunha, outro filho do dr. Belisário.
E a essa revista sucedeu o Álbum, modelado no gênero de Les Décadents. IO
Em Porto Alegre havia o grupo de Zeferino Brasil e Marcelo Gama, de que
faziam parte Vítor Silva, Pinto da Rocha, Caldas Júnior, Maria de Artagão,
Fanfa Ribas, Alcides Maya e alguns outros; o de José Carlos Rodrigues,
Barbosa Neto, Mansueto Bernardi, Breno Arruda, José Picorelli, Aurélio
Porto, Maurício Cardoso e mais uns tantos pertencentes à geração de que saiu
o grupo do Debate (Getúlio Vargas, João Neves da Fontoura, Firmino Paim)
e o grupo mais jovem que Alvaro Moreyra evoca numa página de memórias
bem característica do lirismo travesso do autor:
"Todas as noites, uns rapazes se juntavam por fim na praça da Caridade,
em frente da Santa Casa, e ali se despediam, conversando, declamando, dis­
cutindo, pondo no ar as irreverências e fanatismos. Todas as noites e todas
as estações. Naquele tempo, as estações marcavam principalmente sentimen­
tos literários, apesar do frio de julho e do calor de janeiro. Sete rapazes.
Carlos Azevedo, o nosso músico. Antonius, o nosso pintor. Francisco Barreto,
o nosso crítico. Eduardo Guimaraens, Felipe d'Oliveira, Homero Prates, eu,
os nossos poetas. Cada um com o seu jeito. Nenhum influía em nenhum.
Gabriele d'Annunzio influía em todos. Felipe sabia de cor 'La nave' inteira e
imitava os homens dos romances da rosa. Homero envolvia as suas horas no
ritmo do corpo da mulher fatal da 'Gioconda', que, caminhando, desmancha­
va uma harmonia para criar uma harmonia nova. Eduardo escrevia as '.Argilas'
no molde dos poemas do homem divino. Antonius desenhava, nas mesas dos
cafés e noutras mesas, a máscara sem cabelos e de cavanhaque do nosso
Criador. Carlos só tocava Wagner porque D'Annunzio estava em Veneza
quando Wagner morreu. O Chico expunha a idéia de um livro sobre o teatro
italiano, culminando na Città Morta. Eu escondia uma paixão desvairada pe-

10. Apud Andrade Muricy, op. cit., vol. III.

CAPÍTULO XII � l 9 l
la Sirenetta... '!'ultima, che cantá per cantare, per cantare solamente, ebbe la sor­
te bel/a. Le sirene del mare la vollero per sorella'. Nenhum de nós tinha vinte
anos ... d ara Della Guardia passara pela nossa juventude, com as mãos boni­
tas, a voz dolente e aquelas peças doidas ... Voltávamos transidos dos espetácu­
los. A grande revelação! Desde o sonho que ela nos dera, vinda de tantas ce­
nas do mundo, ficamos interinos na realidade. .. A legenda gravada na placa
colocada no saguão do Teatro São Pedro e oferecida por um discurso de
Felipe, orientava a nossa exaltação: 'Cosa bel/a mortal passa, e non d'arte. '
A província é a sensibilidade. Da província é que vêm as ilusões, o encanto
dos erros bons, os ingênuos projetos que nunca se executam ... " 11

1 1 . Esta página foi incluída em As amargas, não . , Rio, 1954. Transcrita que estava de um velho
. .

recorte, preferimos conservá�la em sua forma primitiva.

1 9 2 � LA Vida Literdria no Brasil


ll � C A P Í T U L O XIII

LÁ mania das conferências """"' Um espetdculo mundano """"' Os temas """"'


N.gva modalidade de Parnasianismo """"' O êxito de Bilac, Coelho Neto e
Medeiros e Albuquerque """"' L/ÍS tournées dos conferencistas na província
-. Osório Duque-Estrada e Sebastião Sampaio em excursãopelo Norte

!
1
e quando data o costume de se pronunciar conferências lite­
rárias? "Na época românticà' - diz André Billy (Figaro
Littéraire - 1 7 de janeiro de 1 953) - "houve grandes orado­

1 res e grandes professores, mas não conferencistas." E o escritor

1
francês acha que a conferência teria sido inventada por Émile Deschanel,
que refugiado na Bélgica, depois do golpe de 2 de dezembro, inaugurou
o gênero em Bruxelas. Mas, pouco antes, em 1 870, Ernest Lecouvé, Henri
Brisson, já haviam feito em sala aberta, em Paris, palestras sobre temas fi­
losóficos e sociais. Logo depois, marcaram época as matinées de Ballandes
e as matinées do Odéon; enquanto na Bodiniere, na rua de Saint-Lazare,
com Jules Bois, Victor Du Bled, George Vanor, a conferência tomava um
caráter mundano. Mais tarde, a criação da Université des Annales pôs em
moda de tal maneira o gênero que as conferências se multiplicaram por to­
da parte, em Paris.
E no Brasil? Sabe-se que a época das conferências, entre nós, foi por ex­
celência a primeira década do século XX. Mas antes não existiria o costume?
Existia. Habituados a imitar em tudo os franceses, adotamos aqui a confe-

C A P Í T U L O X I I I 6:::9 1 9 3
rência, logo após a sua implantação em Paris.1 Na Gazeta de Notícias de 29
de agosto de 1875 encontramos um folhetim, sob a assinatura de Jorge
d'Odemfra, em que este reclama: "Não tivemos ainda conferências populares,
,,
o que tem havido são conferências literárias. Isto cinco anos após a data a que
André Billy faz remontar a inauguração do gênero. Mas por que reclama o fo­
lhetinista conferências populares? Muito simples: porque eram de caráter filo­
sófico e social as primeiras pronunciadas em Paris, segundo nos informa Billy.
Compreendemos perfeitamente o protesto, quando logo adiante vemos o fo­
lhetinista dizer que a idéia das conferências foi a de pôr o povo a caminho de
resolver os "problemas sociais)'. Do que deviam tratar era, sem dúvida, do
"aperfeiçoamento moral do povo e da sua felicidade". E citava a França, a pro­
pósito: assim é que lá se fazia.
Três anos depois, no mesmo jornal, encontramos outro folhetim, sob a
assinatura de Amenof Effendi, evidentemente pseudônimo, que num tom
humorístico, à moda das Lettres Persanes, simulando um egípcio em excur­
são pelo Brasil, escreve: "Uma das enfermidades que aqui encontrei, revela­
da muitas vezes por verdadeiros espasmos, é a conferenciomania. De repen­
te há uma convulsão epileptiforme, os diários escrevem verdadeiras loas,
entoam hinos, hosanas, os músicos forasteiros esperam ser chamados para
robustecer o aplauso, pagando-lhes já se vê, e um conferencista aparece.''
Continua Amenof Effendi dando-nos, em resumo, o quadro caricatural de
uma dessas conferências.
Portanto, já em 1878 havia quem considerasse a proliferação do gênero,
entre nós, uma verdadeira mania. Presumo no entanto, nas entrelinhas do fo­
lhetim, uma alusão satírica às famosas conferências da Escola da Glória, pro­
movidas pelo imperador, mais ou menos nessa época, e que, naturalmente,
tinham contribuído para criar a moda. A verdade é que só na primeira déca­
da do século XX a moda ressurgiria com muito maior intensidade.

1 . Já em 1865, Agassiz, em visita ao Rio de Janeiro, dava em francês, no Colégio Pedro II, uma
série de "lições familiares" , que outra coisa não eram senão conferências. "A principio a pre­
sença de senhoras foi julgada impossível como sendo demasiada inovação nos hábitos na­
cionais; mas esse preconceito logo vencido, as portas se abriram para todos à rnoda da Nova
Inglaterra." (Louis Agassiz e Elizabeth Cary Agassiz, Viagem ao Brasil (1865-1866), nad. de
Edgard Süssekind de Mendonça, Cia. Editora Nacional.)

I 9 4 � l/Í Vida Literdria no Brasil


No livro de memórias Minha vida (2° volume), Medeiros e Albuquerque
diz ter sido ele quem, ao regressar de· Paris, em 1906, lançara no Rio de
Janeiro as conferências remuneradas, fazendo com que por elas se interes­
sassem Bilac e Coelho Neto. Deve haver equívoco na data, ou essa classe de
espetáculo já estava aqui em voga, antes da iniciativa de Medeiros; pois no
Memorial do Rio de Janeiro, Ferreira da Rosa, reportando-se a jornais da épo­
ca, alude às "conferências literárias" do Instituto Nacional de Música, a dois
mil-réis a entrada, em 1905. "Enchia-se o recinto de senhoras e de homens"
- escreve ele - "para ouvir Coelho Nero sobre 'as grandes figuras da
Bíblia'; Bilac, sobre a 'tristeza dos nossos poetas'; Bonfim sobre o cinema;
Nepomuceno sobre 'a música popular desta rerrà; Medeiros e Albuquerque
sobre o <pé e a mão'.''
De qualquer forma, é certo que o sucesso extraordinário das conferências
pagas fez com que elas se tornassem - na própria expressão de Medeiros e
Albuquerque - "uma epidemia insuportável". A mania se foi alastrando de tal
modo que chegou até a invadir setores extraliterários: anunciavam-se palestras
sobre os assuntos mais arrevesados e extravagantes, a ponto de em 1907, na
revista Kosmos, Bilac, um dos que maior êxito obtinham como conferencista,
satirizar a "epidemia'', numa crônica: ''Tivemos conferências com músicà' -
escreve o poeta-, "conferências com música e canto, conferências com dança,
conferências com projeções de lanterna mágica, conferências com ilustrações a
crayon. E parecia que nenhuma outra novidade poderia ser inventada quando
se espalhou uma comovedora notícia: o sr. X. ia fazer uma conferência em ver­
so, uma conferência toda em verso, ritmada do princípio ao fim, sem uma li­
nha de prosa. Falar em verso durante uma hora sem descanso é positivamente
o recorde da facúndia poética. Pois o conferente levou a cabo essa proeza!
Que se inventará ainda de novo em matéria de conferência? Como se trata agora
de bater recorde e de vencer dificuldades cada vez maiores, é possível que, em
breve, leiamos nos jornais anúncios como este: 'O conferente falará uma hora so­
bre um pé só ou com a cabeça para baixo, sem mudar de posição'; ou como este:
'O conferente falará uma hora, fumando um charuto, sem tirá-lo da boca e não
deixando que ele se apague, durante rodo o tempo da palestra.' E de recorde
em recorde chegaremos a extremos inconcebíveis. Por exemplo: o conferente
A. anunciará que, no fim de sua conferência, comerá, à vista da assistência,

CAPÍTULO XIII �I9 5


um boi inteiro e beberá quatro tonéis de cerveja; e o conferente B. prometerá
dar um relógio Patek Philip e mais uma nota de quinhentos mil-réis a todos os
curiosos''de ouvi-lo do princípio ao fim, sem tossir, sem espirrar e sem bocejar. "
E Bilac termina com esta conjetura: "Qual será a mania predominante de
1908? Talvez seja a dança do ventre, ou o faquirismo, ou os balões cativos, o u
os duelos, ou o s divórcios, ou o s suicídios em massa."
O curioso é que no mesmo ano, o Correio da Manhã (16-1 1 - 1 907) publi­
cava o seguinte tópico, sob o título "As conferências e o cinematógrafo'': '<.Aca­
baram-se afinal as conferências literárias; tanto abusaram do gênero que o públi­
co compreendeu o fim principal que elas traziam e terminou abandonando o
salão do Instituto Nacional de Música. Não há mais anúncio, não há mais recla­
me capaz de chamar gente ao casarão da rua Luís de Camões; entendem todos
que aquilo é uma estopada e deixam-se ficar em casa, gozando a hora com li­
berdade, em vez de estar ouvindo na maior parte das vezes muita banalidade e
muita frase bombástica ditas ali ou por incipientes ou por literatos já gastos e ba­
tidos. A presença nas conferências literárias foi a moda e como toda moda caiu.
Veio-lhe como sucedâneo o cinematógrafo. Este entrou com mais afoitamento,
aparece por todos os cantos, a todas as horas, nos amplos salões da avenida
Central e nas saletas acanhadas dos subúrbios. É mais barato, mais divertido e tem
ainda a vantagem de se poder levar as crianças. Nem por haverem surgido às dú­
zias, qualquer cinématógrafo é menos freqüentado que as antigas conferências do
Instituto; o nosso público é muito mais inteligente do que se supõe: aqui, se mui­
tas vezes paga 2$000 (dois mil-réis) para sair com ouvidos saturados de babosei­
ras decoradas, quase sempre catadas em almanaques e folhinhas de larga distri­
buição, ali no cinematógrafo entra apenas com dez tostões para assistir episódios
que o divertem e que lhe dão muitos minutos de distração agradável e instrutiva."
Já estariam assim as conferências em crise, sofrendo a concorrência mortal
do cinema, nessa época em que Bilac anunciava o seu apogeu? Não, o tópico do
Correio exagerava: a moda talvez, numa atenuação gradativa, ia subsistir até a pri­
meira conflagração. Mas não é preciso considerar que apesar daquilo que pode­
mos chamar a sua "perversão", trouxe ela certas vantagens, concorrendo para que
fossem escritos alguns dos bons livros da literarura brasileira. O primeiro estudo
de conjunto da obra de Machado de Assis daí provém: resultou das palestras pro­
nunciadas por Alfredo Pujo! na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo,

I9 6 1"""I v1 Vida Literdria no Brasil


depois enfeixadas em volume. Também ali, Afonso Arinos realizou um curso so­
bre lendas e tradições do Brasil, transformado em livro. Uma das melhores obras
em prosa de Bilac são as Conferincias literdrias, onde encontramos a famosa exal­
tação do dom Quixote, o estudo sobre Gonçalves Dias, etc. E a conferência de
Gilberto Amado, no salão do Jornal do Commercio, a 9 de agosto de 1 913, sobre
o tema: ''A chave de Salomão", legou-nos uma das páginas mais notáveis das nos­
sas letras. Sem falar na série promovida por Manuel Cícero Peregrino em 1912,
na Biblioteca Nacional, de que vamos nos ocupar em outro capítulo.
Também apresentavam certo interesse, no que concernia ao folclore e à pe­
tite histoire, as palestras de Medeiros e Albuquerque, Alberto de Faria, Manuel
Bonfim e outros. Havia por vezes verdadeira réplica entre os conferencistas. A
uma palestra sobre o tema ('Casar é bom..." Medeiros e Albuquerque se apres­
sava a responder com outra: "( ...) Mas não casar é melhor." E quando Manuel
Bonfim falou sobre o ciúme suscitou muitas réplicas e comentários.
Geralmente, porém, o que prevalecia eram as divagações de pura forma,

1
floreios literários inconseqüentes, realçados pelo jogo cromático das antíteses.
Não conhecemos na literatura francesa, o nosso modelo preferido na época,
páginas como as que vários conferencistas aqui reuniram em livro. Lendo-as
hoje vemos como soam falso, como atendiam ao gosto de um auditório geral­

i
mente fútil, corrompido pela ênfase, o rebuscado, a literatice. Não seria de­
mais ver em muitas conferências nos moldes aludidos uma expressão inferior

1
do parnasianismo. Faziam-se elas com material semelhante ao da poesia par­
nasiana, havendo até identidade de vocabulário. Basta notar alguns temas:
"A água'', '<O fogo", "O espelho", ''A tentação", "A dança'', �'A noite e o dià',
''A mulher". Não parecem títulos de sonetos parnasianos? Assim, na medida
em que o parnasianismo, atingido pela campanha dos modernistas, entrou em
franco declínio para desaparecer quase totalmente, também a conferência li­

1
terária, com os caracteres que a tornavam tributária da escola, saiu de moda.
Hoje já a ninguém ocorre uma palestra sobre ((O dia e a noite" ou "A mulher",
à maneira de Oscar Lopes ou de Garcia Redondo. 2

l
1
2. Temas de conferências da época: "O que é melhor", de Carmem Dolores (a autora fazia um
paralelo entre a vida do campo e da cidade para concluir das vantagens da primeira); "Sem me
rir e sem chorar'', de Bastos Tigre; "O elogio da mentira'', de Marcelo Gama; "O rnistério dos

l
j_
CAPÍTULO XIII � 1 9 7
Medeiros e Albuquerque procura justificar a superficialidade em que
incorria a maior parte dos conferencistas, pelo público extremamente hetero­
gêneo a que eles deviam satisfazer. "As salas se enchiam, sobretudo de se­
nhoras e mocinhas muito gentis, muito encantadoras, mas que não possuíam
nem instrução regular, nem, por isso mesmo, preocupação literária de espécie
alguma. Tinham vindo à cidade passear ou fazer compras e aproveitavam
a ocasião para ir ouvir a conferência do dia. Mas a essas senhoras se juntavam ·
médicos, advogados, engenheiros ilustres, estudantes, homens de letras. Havia
de tudo. Se, portanto, o conferencista elevasse o nível da sua palestra, a gran­
de maioria da sala não o compreenderia. Daí a necessidade de satisfazer prin­
cipalmente à parte fútil, sem, entretanto, deixar de dar alguma satisfação à
outra. "3 Numa palavra: as conferências eram pagas, tornava-se necessário
agradar a freguesia.
Mas o êxito do gênero resultou, principalmente, do seu caráter munda­
no. Tratava-se de uma reunião social, onde as mulheres, geralmente, iam com
o espírito com que se vai ao chá-dançante, e os homens acorriam, em parte,
para ver as mulheres. Além do que, uma circunstância importantíssima pesa­
va no caso: em Paris se fazia assim, esse era o chique em Paris. O Instituto
Nacional de Música tornou-se a nossa Université des Annales. Quanto aos
escritores, inclinavam-se para o gêneroi não somente pelo lucro financeiro,
como porque nessa época, em que o sensacionalismo começava a se implan­
tar em nossas letras, e ainda não se dispunha do sistema de propaganda lite­
rária de hoje, pronunciar uma conferência constituía um dos melhores meios
de dar na vista, de chamar a atenção para a própria pessoa, fazer o próprio
reclame, enfim.
' Segundo Medeiros e Albuquerque, Bilac foi o mais popular dos intérpre­
'
'
1 '1 tes desse curioso espetáculo mundano. "Tinha uma voz muito bem timbrada.
!'
' ' Lia e dizia de um modo perfeito." E a julgar pelo que as conferências rendiam,
1

sentidos", de Lindolfo Color; ''.Anjos da guarda", de Belisário de Sousa; "O sabá", de Teixeira
Leite Filho; "Estética das batalhas", de Gregório da Fonseca; "Os mistérios do luar", de Floriano
de Lemos. De vez em quando, um conferencista, como Coelho Nero, anunciava um tema
sibilino, "Espectros divinos", aguçando com isso a curiosidade do público que comparecia para
ver do que se tratava.
3. Medeiros e Albuquerque, Minha vida, págs. 180� 1 8 1 .

I 9 8 � LÁ Vida Literária n o Brasil


ele, Medeiros, seria o segundo colocado, vindo depois Coelho Neto, aquele
"cuj a forma se mostrava incontestavelmente a mais perfeita ) mas cuja lingua­
gem , por isso mesmo, não era acessível a muita gente".
Os conferencistas excursionavam também pelo interior do país, onde a
moda por sua vez passou a ter igualmente os seus cultores. Tornou-se famo­
sa a viagem de Coelho Neto ao Rio Grande do Sul, em 1907, promovida por
A!cides Maia e Gregório da Fonseca. O autor do Sertão foi acolhido com en­
tusiasmo nas diversas cidades que visitou e principalmente em Porto
Alegre, onde a geração nova - Felipe d'Oliveira, Álvaro Moreyra, Homero
Prates e outros - dele se aproximou em atitude de respeito e admiração, e o
governo de Borges de Medeiros lhe tributou todas as honras. Em Cachoeira,
hóspede do pai de João Neves da Fontoura, iria impressionar fortemenre o
jovem advogado e inrelectual que um dia havia de sucedê-lo na Academia
Brasileira de Letras.4
Mas nem sempre encontravam uma atmosfera unânime de aplauso os con­

1
ferencistas em excursão pelos estados. Osório Duque-Estrada, visitando o
Nordeste, foi chamado de "estradeiro" em Fortaleza pelo Unitdrio, jornal de

lo
João Brígida. Sebastião Sampaio, que se apresentava como discípulo de João

l<:J do Rio e autor de um livro, Tortura do real,


cearense, por onde andou em 1908, como redator da
carregado de uma
teve sorte bem pior na capital
Gazeta de Notícias, en­
enquete sobre o Nordeste e realizando conferências. João
! Brígida apelidou-o de Ser-bestião. Numa palestra no Clube Iracema, quando
aludiu aos "luares verdes da terra de lracemà' provocou apartes e vaias por al­
guns esrudantes.s
Rafael Pinheiro, em Belém, foi vítima do jornal oposicionista Folha do
Norte, onde o jovem Humberto de Campos, com o pseud6nimo de Hélios,
fustigou-o rudemente. O conferencista resolveu desafiar a um duelo o dire­
tor do jornal, Cipriano dos Santos, e como este era hemiplégico, não poden-

4. "Borges de Medeiros", página de memórias de João Neves da Fontoura em O jornal,


24-2- 1957.
5. Gustavo Barroso, Consulado da China, Getúlio Costa, Rio. No mesmo livro o autor diz que
escava então em moda descobrir o norte.
As tournées de conferências deviam fazer-se, por vezes, em função dessa desccberta - acres­
centaremos nós.

CAPÍTULO XI I I �199
do aceitar o cartel, o ir1não, o engenheiro Máximo dos Santos, telegrafou do
Maranhão dizendo que iria a Belém substituí-lo. Mas parece que Rafael
Pinheir� , com um senso muito prático) não aceitou a substituição, porque
o duelo não se realizou.6 Eis alguns aspectos imprevistos da moda das con­
ferências. E é preciso acrescentar ainda que ela se estendeu até o próprio ter­
reno da oratória sagrada. Ninguém ignora o que foi o sucesso das conferên­
cias do padte Júlio Maria na época, atraindo grandes auditórios, não só de
fiéis como de profanos. Certa vez, o entusiasmo dos ouvintes chegou a tal
ponto que uma salva de palmas cobriu as últimas palavras do orador, tor­
nando-se necessária a intervenção das autoridades eclesiásticas para que tais
excessos não se repetissem nas igrejas.

6. Informação do escritor cearense Cruz Filho em carta ao autor.

2 O O � vf Vida Literária no Brasil


ll iZ> C A P Í T U L O XIV

Editores e best-sellers _,, lAs inovações do livreiro Quaresma _,, Euclides


da Cunha e o lucro de ordem moral_,, lÁreabilitação de Francisco Alves
"""' O teste de um editor _,, O lançamento de A esfinge _,, 'R{f,zões do b:ito
desse romance de Aft!tnio Peixoto

1
1
s principais editores da década de 1900, no Rio, eram os
Laemmerts, o Garnier, Francisco Alves, o Jacinto e o Quaresma.
Na província, o movimento editorial continua a ser muito pe­
queno. Em São Paulo, existe a Livraria Teixeira, que no século
XlX lançou dois best-sellers: Poesias, de Bilac, e A carne, de Júlio Ribeiro.
A Livraria Quaresma merece uma referência mais detalhada pelas inovações
que introduziu. Tendo em vista a pouca cultura do nosso povo, Pedro da Silva
Quaresma, que se instalara, desde 1 879, na rua São José, compreendeu que
o meio de levá-lo ao livro era dar-lhe leitura fácil, amena ou de interesse práti­
co, mas de cunho essencialmente popular, ao alcance de qualquer um e em bro­
churas de preço módico. Daí o verdadeiro gênero por ele criado entre nós, e
o rótulo de "edição Quaresmà', que passou a designar, de maneira geral, as edi­
ções populares para o grande público. Alguns escritores de terceira categoria for­
neciam-lhe essa subliteratura que ele espalhava, com grande êxito, por todos os
cantos do Brasil. Em qualquer velha residência lá pelos sertões da Bahia ou pe­
lo norte de M inas ainda é fácil descobrir-se até hoje, num canto de gaveta, al­
guma dessas "edições Quaresmà'. O leitor iletrado nelas encontrava um precio­
so elen1ento, que poderia, certarnente, atraí-lo para urn nível 111enos prin1ário.

CAPÍTULO XIV � 2 0 1
Com o pseudônimo de Viriato Padilha, Aníbal Mascare11has escreveu
Os roceirJJs - qualquer coisa de semelhante ao anedotário caipira de Cornélio
Pires - e O livro dos fantasmas - recoita de casos de assombração.1 Com o
pseudônimo de Aníbal Demóstenes, Ticho Brahe de Araújo escreveu o Orador
do povo, e assinando o próprio nome, Histórias brasileiras, narrativas para crian­
ças. Enquanto isso, Figueiredo Pimentel se fazia o autor anônimo do Manual
dos namorados. Mais difícil seria dizer quem se achava por detrás do Livro de
São Cipriano, cujas edições até aos nossos dias se têm multiplicado.
Muita gente decerto ignora que foi Pedro da Silva Quaresma quem lançou
Catulo da Paixão Cearense. Antes de conseguir a consagração no mundo das
letras, com o Meu sertão, Sertão em flor e tantos outros, Catulo escreveu para
o editor Quaresma vários livros de modinhas e canções, algumas originais e


outras selecionadas, livros que se denominaram Cancioneiro popular, Lira dos
; ! salões, Florilégio dos cantores, Lira brasileira. O autor renegou depois obras
- espécie de pré-história de sua carreira literária -, mas o certo }(J'ue elas
' i obtiveram extraordinária aceitação e continuam a ser até hoje procuradas, em­
1
; •
bora completamente esgotadas, apresentando o maior interesse para os pes­
; '. quisadores da nossa poesia popular e os estudiosos de folclore. De qualquer
maneira, foi desse Catulo seresteiro, de violão em riste, "edição Quaresma",
que veio a popularidade do lírico do "Marrueiro".
Ao mesmo tempo, Quaresma lançava com igual êxito os livros de modi­
nhas de Eduardo das Neves, figura popularíssima quarenta anos atrás, que
costumava fazer sempre canções de oportunidade sobre acontecimentos do
dia. Quem dentre nossos avós ou nossos pais não se recorda do "Cinco de
novembro, data fatal", feito a propósito da morte do marechal Bittencourt,
'

l !
1 ,
1 . 1. A propósito, escreveu-me o escritor cearense Cruz Filho: "Chegando a Fortaleza em 1918,
encontrei Aníbal Mascarenhas que fixara residência nesta capital, vindo do Rio. Lecionava en­
tão a cadeira de grego no Liceu do Ceará. Era um velho inteligente versado em Shakespeare.
Travei relações com ele e tivemos ocasião de trocar idéias a respeito de O livro dos fantasmas e
de Os roceiros, que ele disse haver escrito, a pedido do editor Quaresma, numa fazenda do es­
tado do Rio, onde se refugiara para concatenar as idéias, longe do bulício da capital. Falei-lhe
do conto A pantera negra, do italiano Emanuel Carneiro, cuja tradução se acha incluída na
edição de O livro dos fantasmas, que eu havia lido. A notícia surpreendeu-o; declarou-me não
ser autor dessa tradução e nem haver autorizado o editor a introduzi-la no livro."

2 O 2 � lA Vida Literdiia no Brasil


e "A Europa curvou-se ante o Brasil", cantando a glória de Santos Dumont?
Foram grandes sucessos da "edição Quaresma'', através da inventiva daquele
preto de cara achatada.
Outro título de mérito de Quaresma foi o de ter-se tornado pioneiro da
literatura infantil no Brasil. Decerto, a Figueiredo Pimentel cabe boa parte
desse mérito, pois era ele quem escrevia os livros, mas de nada lhe valeria a ca­
pacidade de escrevê-los, se não tivesse editor para publicá-los e estimular-lhe o
trabalho. Assim apareceram as Histórias do arco da velha, Histórias da baratinha
e principalmente os Contos da carochinha, com as imagens feéricas da Branca
de Neve, do Gato de Botas, da Gata Borralheira, que vêm cedendo lugar aos
heróis ((realistas" e brutais das narrativas norte-americanas.
Não era fácil a um escritor ter um original aceito pelos grandes editores do
Rio. Circunstância que levava muitos deles, principalmente novos, a apelar pa­
ra os editores de Portugal, cedendo muitas vezes os manuscritos gratuitamen­
te, só pelo prazer de vê-los publicados. Foi o que aconteceu com Lima Barreto,
em 1907, oferecendo por intermédio do amigo Antônio Noronha Santos os
originais das Recordações do escrivão Isaías Caminha a um livreiro daquele país.
O número de obras de autores brasileiros editadas em Portugal de 1 890
a 1 9 1 0 é bem grande, sendo que um dos nossos escritores mais fecundos,
Coelho Neto, havia tornado a Livraria Chardron, do Porto, sua editora qua­
se única. Machado de Assis, que de há muito vinha tendo também como edi­
tor único o Garnier, em janeiro de 1 899 vende-lhe a propriedade "inteira e
perfeita da obra literária'', constando de 15 livros, pela quantia de oito con­
tos de réis. Anteriormente, em 1896, a terceira edição de Memórias póstumas
de Brds Cubas e a segunda do Quintas Borba já tinham sido negociadas com
o mesmo Garnier a duzentos e cinqüenta mil-réis cada uma. Relativamente>
Machado ganhava muito mais com a colaboração literária nos jornais dessa
época, pois a Gazeta de Notícias costumava pagar-lhe pela publicação de um
conto cinqüenta mil-réis.
O Garnier foi editor de Canaã de Graça Aranha, escritor estreante que, no
entanto, já havia entrado para a Academia, em confiança, por assim dizer,
sob o penhor do livro em preparo, cujos capítulos haviam causado o maior en­
tusiasmo a Joaquim Nabuco. É bem conhecido o êxito do romance, publica­
do por volta de abril de 1902.

CAPÍTULO XIV � 2 0 3
Em dezembro do mesmo ano aparece Os sertões, de Euclides da Cunha, lan­
çado por Laemmert & Cia. Nessa época, com o falecimento do último
Laemmert, a casa estava sob a gerência de Gustavo Masow - informa-nos Luís
Edmundo (O Rio de janeiro do meu tempo), especializando-se na edição de

c@
obras científicas e sérias. Tal o motivo, naturalmente, pelo qual tinham sido
aceitos os originais de Os sertões. Euclides unha era um escritor novo, mas
o livro despertaria o interesse dos editores � fato de focalizar um assunto de
palpitante atualidade. A Guerra de Canudos, acontecimento recente e ainda
discutido, continuava, sob o ponto de vista editorial, pouco explorado. Em car­
ta de 10 de agosto de 1902 a Escobar, Euclides escreve: "Venho do Rio, onde
fui - celeremente, de um noturno a outro - para conversar com o Laemmert
e saber o dia que, afinal, ficará pronto o meu encaiporado livro. Felizmente, os
frios alemães receberam-me num quase entusiasmo, e, quebrado o antigo de­
salento, quase prevêem um sucesso àquelas páginas despretensiosas."2
José Veríssimo, arriscando todo o seu prestígio de crítico - pois se trata­
va de um autor desconhecido e o juízo podia não ser ratificado pelo públi­
co -, saúda-o num artigo consagrador no Correio da Manhã. Dentro em
pouco, a primeira edição estava prestes a esgotar-se, e em carta ao pai, datada
de 19-2-1903, Euclides declara: "(... ) recebi uma carta do Laemmert, decla­
rando-me que é obrigado a apressar a 2• edição, já em andamento, d'Os sertões,
para atender a pedidos que lhe chegam até de Mato Grosso".3
;l
Quanto rendeu essa primeira edição a Euclides? "Pelas contas que vi" -
diz ele ainda em carta ao pai (25-2- 1 903) -, "as despesas foram, de fato,
grandes - de sorte que, dividindo o líquido, terei um ou dois contos de réis.
É possível que seja mais feliz na 2• edição. Os homens, apesar do que dizem
(e nesta terra, são fáceis os juízos temerários), me parecem sérios. O que so­
bretudo me satisfaz é o lucro de ordem moral obtido, a opinião nacional in­
teira que, pelos seus melhores filhos, está inteiramente ao meu lado."4
Ah! O que seria da literatura neste país se não fosse isso que Euclides chama
de "lucro de ordem moral"?

2. Francisco Venâncio Filho, Euclides e seus amigos, Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1938.
3. Francisco Venâncio Filho, op. cit.
4 . Idem, ibidem.

2O4 � u1 Vida Literdria no Brasil


Coube à Livraria Francisco Alves editar o terceiro best-seller da década do
século 1900: A esfinge, de Afrânio Peixoto. Aliás, a atividade editorial dessa li­
vraria, depois restringida apenas a obras didáticas, foi grande no plano literá­
rio até 1920 mais ou menos.
Lançou vários volumes de Medeiros e Albuquerque, como Pontos de vista,
Em voz alta, Silêncio é de ouro; depois de apresentar as Conferências literdrias,
de Olavo Bilac, adquiriu-lhe a propriedade literária das Poesias, publicadas an­
teriormente em São Paulo pelo livreiro Teixeira. Editou romances de Júlia
Lopes de Almeida, alguns volumes de João do Rio, o livro de estréia de
Gilberto Amado, A chave de Salomão, o romance de Goulart de Andrade,
Assunção, a Hist6ria da literatura brasileira, de José Veríssimo, cujos livros an­
teriores tinham sido apresentados pela Garnier.
Convém acrescentar aqui duas palavras sobre a personalidade do livreiro e
editor Francisco Alves. Desfrutara ele em vida a fama pouco lisonjeira de ho­
mem atrasado, esquisito, com repentes de franqueza que se identificavam com
a legítima grosseria, comerciante até a medula dos ossos. Antônio Torres assim
lhe descreve a figura: "Pequenino e míope, a idade e o dinheiro pouco a pou­
co lhe transformaram a pele num pergaminho enrugado, que de longe já dava
à piruitária a ilusão de sentir cheirar a mofo. Falava aos berros com os empre­
gados. De manhã à noite, vendo contas, examinando faturas, somando, mul­
tiplicando, verificando a caixa, recebia sempre como inimigo a quem quer que
se aproximasse do seu cubículo pulverulento. Vivendo no meio de livros du­
rante meio século, morreu analfabeto; tratando, durante meio século, com os
homens mais bem-educados da capital, morreu labrego; milionário mais de
uma vez e tendo-se privado de todos os prazeres durante a vida, morreu pobre­
mente. Imperturbável diante das transformações que sofria a cidade; impassí­
vel diante da felicidade como diante do infortúnio; indiferente às sugestões da
beleza como a todas as sensações amáveis da vida, este asceta espontãneo e in­
consciente só era sensível ao dinheiro. ns E Torres conclui que o único gesto ca�
paz de redimi-lo teria sido o de legar à Academia Brasileira toda a fortuna, "pa­
ra que com o rendimento dela se impulsionasse a instrução primária no país
que lhe recompensara o trabalho com a riquezà'. Dada a sua irredutível e

5. Antônio Torres, Pasquinadas cariocas, págs. 134� 135, Livraria Castilho, Rio, 192 I .

CAPÍTULO XIV � 2 0 5
extremada lusofobia, o autor das Pasquinadas cariocas incorrerá em suspeição
no caso. Mas parece que era essa mesma a idéia generalizada a respeito do ve­

lho livr ro, enquanto ele vivera. Depois de sua morte, a versão modificou-se,
pelo menos no que concerne aos depoimentos de vários acadêmicos, como
Medeiros e Albuquerque, Afo1.nio Peixoto, Rodrigo Otávio, João Ribeiro,
Gustavo Barroso. Todos são acordes em assinalar a delicadeza de sentimentos
que havia por baixo daquelas maneiras aparentemente rudes e grosseiras.
Repeliu-se também como lenda a ignorância, a imagem de analfabeto vi­
vendo entre livros. Ao contrário, Alves não só tinha cultura, interessando-se
particularmente pelo estudo de geografia e de história, como chegara a escrever
várias obras didáticas, contribuindo para o desenvolvimento desse ramo edito­
rial de que fora considerado por Afrânio Peixoto o pioneiro no Brasil. Publi­
cava-as modestamente com pseudônimos, guardando disso absoluto segredo.
Guilherme Prado, que assinara uns Trechos de autores cldssicos, livro para os exa­
mes de preparatórios em 1887; F. de Oliveira, que adaptara para uso dos brasi­
leiros o popularíssimo método de Ahn, destinado ao ensino do francês, não
' ' eram mais do que pseudônimos de Francisco Alves. Falava correntemente
!: o francês - afirma-nos José Carlos de Macedo Soares6 - e conhecia também o
inglês e o italiano, tendo-os aprendido sem mestre. Como negociante, não se li­
mitava à avidez do lucro. Tinha por vezes rasgos de delicadeza com seus edita­
dos. Sabia ser generoso e estimulá-los. Segundo Medeiros e Albuquerque, no
que se referia às obras literárias, a regra adotada pelo editor era a seguinte: lan­
çava sem muita relutância o trabalho de um novo que lhe parecesse ter talento.
E punha-se a esperar o juízo do público. Se o primeiro livro se esgotava, deci­
dia-se de bom grado a lançar os outros trabalhos do mesmo autor. Se o público
não se interessava, também não se sentia ele na obrigação de exercer o mecena­
to. Procedia como bom negociante - observa Medeiros -, mas dando aquilo
que é mais difícil a um escritor inédito: a possibilidade de aparecer.7
Tratemos, particularmente, do caso de Afrânio Peixoto. Já se tornara autor
de muitas obras científicas, quando escreveu A esfinge. De literatura só havia

6. Edmundo Moniz, Francisco Alves, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio de

i Janeiro, 1943.
7. Medeiros e Albuquerque, Homens e cousas na Academia, Editora Renascença, Rio, 1 934.
i
1
2 O 6 � LÁ Vida Literdria no Brasil
produzido um livro, Rosa mística, poen1a sirnbolista, em prosa e verso, edita­
do em Leipzig com as cores do arco,íris. Assinara-o Júlio Afrânio; Júlio
Afrânio ainda era ele, por volta de 1905, quando João do Rio o entrevisrou
no Momento literdrio. Resolvendo abandonar o simbolismo, resolveu mudar
rambém de nome nas !erras, e é como Afrânio Peixoto que, em 191 1 , publi­
ca A esfinge. Deve-se notar que nessa ocasião o escritor já havia sido eleito pa­
ra a Academia Brasileira. Elegeram-no, pode-se dizer, quase exclusivam ente
pela obra científica, pois a literária, excluindo Rosa mística, um livro fracassa­
do, era praticamente nula. Mas Afrânio já havia adquirido um renome de gran­
de talento, de quase gênio, um novo Rui Barbosa que a Bahia nos enviava.ª
De regresso do Oriente, na primavera de 1 9 1 0, chegara a Paris, trazendo na
bagagem o manuscrito de A esfinge, datado de Heluam (Egito), embora nos pa­
reça um tanto problemático que tivesse tempo para escrever um romance de
trezentas páginas no decurso dessa viagem. Em Paris encontrava-se Francisco
Alves, que já lhe havia editado um manual de medicina legal. Afrânio foi pro­
curá-lo no Hotel do Louvre e contou-lhe o que acontecera com João Ribeiro,
quando oferecera o Fabordão ao Garnier. Este respondera-lhe: "O livro didáti­
co, a carne, é para o Alves; o osso, a literatura, é para mim." Não queria que
lhe sucedesse o mesmo, por isso propunha pagar-lhe a edição d'A esfinge.
Mas Alves observou irônico: "Atendo ao Garnier; se tenho o livro didático, de­
vo ter também o literário." Acrescentou que não seria osso pois sempre have­
ria mil médicos para esgotar uma primeira edição, curiosos de ver se o colega
1
não "escorregarà' como romancista. "E o melhor é que hão de verificar o con­

1
trário .. .') - ajuntou ainda, receoso de não ter sido amável.
Assim, logo que ambos retornaram ao Rio, A esfinge foi editada, fazen­
do-se a segunda edição um mês após a primeira. Desde Canaã, há oito anos
não se vira um romance tão adamado pela crítica e procurado nas livrarias.
1
N'A Imprensa (27-7-191 1), escreve Sousa Bandeira: "Está em pleno triunfo o
autor d'A esfinge. Mal chegado às livrarias do Rio de Janeiro, já o livro está
quase esgotado. Disputam-se com avidez os raros exemplares. Os críticos
mais em evidência dedicam-lhe artigos admirativos. Da primeira investida,
conseguiu ele, coisa extraordinária no Brasil: conquistar o público feminino.

8. Ver nota � 2 no Apêndice II.

CAPÍTULO XIV �207


Que não há hoje mundana de certo tom que, à hora dos chás elegantes ou
nos intervalos do Municipal, não pergunte, num sorriso adoravelmente ma­
licioso: "Que me diz d'A esfinge?"
E aqui está a circunstância digna de ser posta em relevo: nem Canaã, nem
romance algum, anteriormente, haviam constituído, entre nós, um êxito
mundano. E isto decerto pelo fato dos romancistas não se terem aplicado, até
então, em dar uma pintura minuciosa do alto mundo carioca, dos salões aris­
tocráticos, do meio diplomático e político, da sociedade elegante que vai
veranear em Petrópolis, como fizera Afrânio. Se Machado de Assis retratara
a nossa sociedade, era nos círculos pequeno-burgueses que mais incidira; e de
qualquer forma, essa pintura ficava em segundo plano, já que o romancista
quase somente se interessava pelas reações psicológicas dos personagens.
Com o naturalismo, veio a supremacia absoluta da pequena burguesia no ro­
mance. Fora daí, tínhamos geralmente os cenários da vida campesina; como
acontecia no próprio Canaã de Graça Aranha.
Embora uma parte d'A esfinge decorresse no interior da Bahia, o essencial
do romance consistia nos quadros do ambiente mundano do Rio, nessa épo­
; '

1; ca em que a capital se modernizava e procurava em tudo imitar Paris. Era exa-


tamente a imagem do "sorriso da sociedade" que Afrânio Peixoto ele pró-
prio homem elegantíssimo e freqüentador das rodas superfinas oferecia
a essa sociedade que sorria.
Compreende-se pois o amargor de Lima Barreto ante o sucesso d'A esfinge,
no momento em que a crítica e o público se desinteressavam de Recordações
do escrivão Isaías Caminha, no qual o mestiço pobre e revoltado procurava jus­
tamente vingar-se dessa sociedade.
'
'

i 1
!' ''


:t 1

,:• j

2 O 8 � l/Í Vida Literdria no Brasil


ll<Z• C A P Í T U L O X V
LÁBiblioteca Nacional na avenida _, lÂs iniciativas de Manuel Cícero
Peregrino da Silva _, O ministro Seabra fazpolítica _, Evocações deJoão
do Rio e O/avo Bilac _, Os apontamentos de Capistrano de Abreu .-,
Onde as conferências não eram puramente "!iterdrias" _, cAssunto para
um romance deJerome K Jerome

m junho de 1900, Manuel Cícero Peregrino da Silva, que exer­


cia o cargo de diretor da Biblioteca da Faculdade de Direito de
Recife, foi escolhido pelo presidente Campos Sales para dirigir a
�"'!!"!""'!'�f Biblioteca Nacional então instalada na rua do Passeio. Era um ho­
mem inteligente, de grande cultura e muita iniciativa. Tratou logo de impri­
mir uma orientação mais esclarecida àquele estabelecimento. E um dos pro­
blemas que lhe pareceram reclamar urgente solução foi a exigüidade do prédio,
onde funcionava a Biblioteca na rua do Passeio. O número de livros sempre a
crescer, a obstruir os corredores, apesar da galeria sul que já havia sido cons­
truída sobre a sala de leitura, em 1 889, e outra mais recente sobre a parte des­
tinada à moradia do diretor.
Em relatório apresentado no ano seguinte ao ministro da Justiça, Epitácio
Pessoa, Manuel Cícero aludia ao fato da Biblioteca Nacional de Buenos Aires
ter sido instalada há pouco num vasto e suntuoso edifício, dizendo que j á era
tempo de se fazer o mesmo com a do Brasil. Mas o governo de Campos Sales
caracterizou-se, como se sabe, por um rigoroso programa de restrição finan­
ceira. Não seria o mornento propício para um empreendimento que iria pas­
sar aos olhos de muita gente como obra sunruária.

1 CAPÍTULO XV t;:?'9 2 0 9
Manuel Cícero foi assi1n tratando de melhorar a Biblioteca, mesmo den­
tro das restritas possibilidades do velho prédio. Conseguiu estender mais qui­
··
nhentos metros de prateleiras nas estantes, dotou o edifício de um serviço
de extinção de incêndio; instalou uma oficina tipográfica destinada a impri­
mir os Anais e o Boletim; montou uma oficina de encadernação; e adquiriu
uma máquina de escrever para ser utilizada na correspondência oficial. Foi
a Biblioteca Nacional um dos primeiros esrabelecimentos públicos do Brasil a
adotar esta última inovação.
Em outros setores, seu extraordinário espírito de iniciativa se fez igualmen­
te sentir. De acordo com o Código Penal, todas as oficinas gráficas do país
eram obrigadas a enviar um exemplar dos impressos confeccionados à biblio­
teca pública do respectivo município. Assim sendo, a Biblioteca Nacional só
recebia exemplares de obras publicadas no Distrito Federal. Manuel Cícero
empenhou-se na modificação desse dispositivo, de maneira a vir a Biblioteca
a receber as obras lançadas por rodas as empresas editoras do Brasil. Para isso
conseguiu, em 1 9 0 1 , fosse apresentado na Câmara dos Deputados um proje­
to de lei, só transformado em decreto em dezembro de 1905 e regulado fi­
nalmente por instruções baixadas em 1 º de junho de 1 907. O projeto sofre­
ra forre oposição tanto na Câmara quanto no Senado, sendo tido como
inconstitucional, e Manuel Cícero o acompanhou em todos os trâmites, sem­
pre alerta, mobilizando influências para obter a aprovação, ciente que estava
da importância dessa lei para os fins da Biblioteca Nacional.
Mas o grande problema era a construção do novo prédio, e no momento
em que Rodrigues Alves empreendia o plano de remodelação da cidade, tor­
nava-se oportuna a medida já reconhecida como necessária pelos poderes pú­
blicos há mais de trinta anos. Ergue-se a voz de Artur Azevedo, nome popu­
laríssimo, a reclamar a reinstalação da Biblioteca em edifício conveniente, e
outros escritores a secundam, com veemência. O ministro da Justiça, J. J.
Seabra, compreende o prestígio que lhe poderia resultar de atender às solici­
tações da intelecrualidade do país e resolve avocar para si a iniciativa. Acontece
que não via ele com muito bons olhos o diretor da Biblioteca, pois possuía ou­
tro candidato para o cargo, no qual Manuel Cícero conseguira continuar. Daí
ter procurado agir sern a cooperação deste últirno, tratando logo de incumbir
do projeto do novo edifício o general Sousa Aguiar, que se encontrava nos

2 I O 6=A LA Vida Literária no Brasil


Estados Unidos. Mas o general, regressando ao Brasil, só pode dar os linea­
mentos definitivos na planta de acordo com Manuel Cícero, cuja orientação
na empresa se tornava indispensável. Os interesses técnicos tiveram de ceder
lugar às conveniências políricas.
E a 15 de agosto de 1905 era lançada a pedra fundamental do imponen­
te edifício que a Biblioteca até hoje ocupa, marcando o contraste de suas co­
lunatas com o cenário cubista dos arranha-céus vizinhos. Mais ou menos nes­
sa ocasião, João do Rio, na crônica "Horas da biblioteca'', inclusa no livro
Cinematógrafo, aludia ao encontro com o cavalheiro, que lhe dava a notícia
cheio de entusiasmo: "Afinal, meu amigo, a Biblioteca vai ter um extraordiná­
rio palácio, que já está por cinco mil contos! A nossa pobre preciosidade está
numa tal barafunda, com o pessoal brigado, a confusão dos catálogos, a con­
fusão das estantes, a confusão dos leitores, que só a mudança salvará." E a pro­
pósito da mudança, passa o cronista a referir-se, com leve toque de ironia,
às diversas espécies de freqüentadores: "Das dez da manhã até as três da tar­
de, aparece a primeira leva. As mesas ficam cheias de uma sociedade mais ou
menos ruidosa, que se levanta a cada passo para beber água, lavar as mãos e fu­
mar em certos retiros facilitadores de necessidades urgentes... A freqüência da
primeira enchente é em geral de estudantes, meninos ainda nos preparatórios
que posam o curso nas faculdades. Nenhum deles se contenta enchendo ape­
nas um boletim: enchem logo três. Durante alguns anos eu observei os três
pedidos de cada consultante e noventa e nove vezes em cem, lia Física, de.
Ganot; Geometria, de F. 1. C.; Química, de Langlebert, no primeiro boletim,
A rainha Margot, Os três mosqueteiros, O Guarani, Osfantoches
e nos outros:
de Mme. Diabo, Lucíola e Nand. Que fariam os consultantes sentados, ao mes­
mo tempo, com o Ganot, os Fantoches de Montepin e as aventuras de Dumas?

l
Os consultantes folheavam o Ganot, iam beber água, encostavam no Ganot
A rainha Margot ou a Nand e esrudavam regaladamente as aventuras dessas se­
nhoras em péssimas traduções portuguesas até às três da tarde, à hora em que
é preciso começar a passear pela rua do Ouvidor. Desse momento em diante
a concorrência amortece, os livros vão descansar e só às seis recomeça o mo­
,,
vimento. A sociedade é a mesma - estudantes em maioria.
E João do Rio se põe a descrever vários tipos de consulentes: o que deseja
ler Verlaine, mas não sabe que livro pedir; poesias, qualquer um serve; o que

CAPÍTULO XV �211
não tem preferência, entrou apenas para matar o tempo e contenta-se com
qualquer coisa; "os imorais que escrevinham, com sorrisinhos equívocos, o pe­
dido de Alfredo Gallis, da Martinhada ou dos tratados de Garnier; os poliglo­
tas, exigindo para meia hora um livro em alemão, outro em hebraico, outro
em sueco; Õs namoradores, aproveitando a mesa, a tinta e a caneta da casa pa­
ra escrever às futuras esposas" e muitos outros igualmente pitorescos.
Evoca, também, o cronista, alguns intelectuais velhos freqüentadores da
Biblioteca. O mais conhecido é Capistrano de Abreu, que entra por ali como
em casa própria e nem vai ao salão de leitura; apanha os livros e fica a lê-los
durante muitas horas, tomando notas; acaba indo-se embora distraidamente
e se esquecendo das notas. Mas não sofre nenhum dano com isso; no dia se­
guinte, os funcionários que o estimam e já estão habituados com essa distra­
ção entregam-lhe as notas, que tinham tido o cuidado de recolher e de guardar.
Outros íntimos da casa: o dr. Felisbelo Freire, sempre na seção de manuscri­
tos, onde, como numa espécie de consultório, atende todos os dias aos ami­
gos e aos que o procuram por qualquer motivo; o dr. Manuel Barata, a extrair
documentos para uma formidável história do Pará; o sr. Caldas Brito, "a in­
vestigar coisas de viticultura''; Chicharro da Gama, conhecido por algumas si­
nopses de história literária; e um diplomata aposentado que o cronista indica
simplesmente como Araújo , a encher os ócios da carriere com a leitura de fo­
lhetins de 1860, que ainda lhe provocam desmaios.
João do Rio não alude a Olavo Bilac, mas de uma crônica do livro Ironia e
piedade concluímos que o poeta, pelo menos de quando em quando, costu­
mava ir à Biblioteca. Aliás, desde a permanência em Ouro Preto, em 1 893, na
companhia de Afonso Arinos, adquirira ele o gosto da pesquisa histórica.
A crônica é a evocação enternecida de um menino curvado sobre um livro na
sala de leitura. O que João do Rio via pelo prisma humorístico, Bilac encarava
pelo prisma lírico. "Há poucas semanas" - conta o poeta -, "indo à Biblio­
teca Nacional reunir material de trabalho, fiquei sentado em frente a um mo­
cinho imberbe e pálido, que devorava com os olhos e com a alma as páginas
do livro que pedira. Quando cheguei, já ele estava no fim do volume; e, a ca­
da página voltada, uma vibração nova de ansiedade, de supremo gozo intelec­
tual, de infinito encanto de espírito, agitava a sua face de adolescente, sob a cla­
ridade crua de uma lâmpada elétrica. Os olhos, num movimento febril, iam do

2 I 2 � <.A Vida Literdria no Brasil


começo ao fim de cada linha, voando; os seus dedos torturavam a quina da fo­
lha, dobrando-a; uma ruga funda se lhe cavava na testa; e toda a sua cabeça pai-.
pirava no esforço de atenção. Havia, naquela atitude, um prazer tão agudo que
já era sofrimento. Aquela alma inocente, de menino de treze anos, atravessava
a crise de uma dessas tensões intelectuais, que já não são dadas a quem chega
à idade madura tendo abusado da inteligência. ,"1 Bilac continua a acompa­
.

nhar os movimentos do adolescente, até o vendo chegar ao fim da leitura e


abandonar o livro, procura surpreender-lhe o tírulo: Viagem à roda da lua, de
Júlio Verne, Era um romance de Júlio Verne que assim arrebatava o rapazinho!
E vai o poeta em transe lírico; põe-se a rememorar o encanto que encontrara
também, outrora, nas aventuras maravilhosas do novelista francês.
Mas na página de João do Rio a que nos referimos, depois de caricaturar
os ripos de freqüentadores do casarão da rua do Passeio, o cronista interroga:
"Que farão os leitores da Biblioteca enquanto estiverem a arrumar a outra na
avenida?" Ora, no Memorial do Rio de Janeiro, Ferreira da Rosa informa-nos
que a mudança começou no dia 12 de setembro de 1909 e terminou a 2 1 de
fevereiro de 1 9 1 0, acrescentando: "Sem interromper a freqüência dos leitores,
na melhor ordem, foram transportados mais de trezentos mil livros, cerca de
duzentos e setenta mil documentos manuscritos; cento e dezessete mil estam­
,,
pas, cinco mil cartas geográficas e vinte e oito mil peças numismáticas.
Segundo Pedro Calmon, o próprio Manuel Cícero levava no seu carro os
livros preciosos, acompanhando-os no trajeto, zelando por aquilo como faria
pelos objetos mais caros que lhe pertencessem. Não sofreu, pois, sensível per­
turbação o ritmo de vida dos consulentes com a mudança para o outro prédio.
No dia 29 de outubro de 1 9 1 0, em que se comemorava o centenário da
Biblioteca, era ela instalada em plena avenida Central, na extremidade da gran­
de artéria que marcava a nova etapa da vida urbana do Rio de Janeiro.
Manuel Cícero, no discurso inaugural, historiava as luras travadas para chegar
àquele resultado e expunha os planos que tinha em vista, agora que já contava
com melhor aparelhamento para realizá-los. Em 1907 estivera ele na Europa
e nos Estados Unidos, visitando bibliotecas de vários países e pondo-se a par
dos métodos mais modernos de organização e o funcionamento das mesmas.

1 . Olavo Bilac, Ironia e piedade, pág. 29 e segs., 2ª ed., Livraria Francisco Alves, Rio, 1 92 1 .
.Dessa experiência se beneficiou na direção da Biblioteca Nacional, que na no­
va sede se tornou algo modelar no gênero para a época. Depois de promover
ali o primeiro·curso de biblioteconomia realizado na América Latina, organi­
zou um programa de conferências, inaugurado em setembro de 1 9 12. Como
se sabe, as conferências tinham entrado em moda no Brasil no começo do sé­
culo XX. Mas eram excessivamente literárias, quando não frívolas. Manuel
Cícero procurou prevalecer-se do estado de espírito do público seduzido por
essa moda, atraindo ouvintes para palestras do mais vivo interesse cultural.
Assim, enquanto em outros locais Oscar Lopes falava sobre "O dia e a noite''
ou Bilac sobre o ciúme, na Biblioteca Nacional José Veríssimo discorria so­
bre "A nossa evolução literária"; Roberto Gomes tratava da ''.Arte e gosto
artístico no Brasil''; Juliano Moreira do "Progresso das ciências no Brasil";
Pandiá Calógeras do "Brasil e o seu desenvolvimento econômico"; Hélio Lobo
do "Brasil no conceito das nações". Tais os temas das conferências do primei­
ro ciclo em 1 9 12. Houve outros ciclos em 1 9 13, 1 9 1 4 e 1 9 1 5 , todos de pa­
lestras desse gênero, que tiveram repercussão em nossos meios intelectuais.
Neles tomaram parte, entre outros, Oliveira Lima, Roquerre-Pinto, Alberto
de Oliveira, Arrojado Lisboa, Leopoldo Bulhões, Afrinio Peixoto, João Ribeiro
(com o seu importante curso de folclore), Clóvis Bevilaqua, Amaro Cavalcanti.
E acontecia um escritor como Oscar Lopes, habituado a litetatejar para audi­
tórios mundanos, vir falar na Biblioteca, em termos de história e crítica, do
"Teatro brasileiro, seus domínios e aspirações".
Entretanto, ainda ali, João do Rio continuaria a ter os mesmos motivos pa­
ra exclamar: ''.Ah! os leitores da Biblioteca!. .. Que estranho romance, como os
de Jerome, se faria daquele remanso, onde o saber impenetrável dorme!"2

2. Jerorne K. Jeroine, humorisra inglês.

2 I 4 � LA Vida Literdria no Brasil


li <Z, C A P Í T U L O XV l

'l?.f9 Branco no ltamarati � O suces�o das conferências de Ferrero � Perri


agita o ambiente no Rio e em São Paulo � O itinerário Paris-Buenos Aires de
Anato/e France � Clemenceau e o padre Gaffee � 'Debate entre católicos e
livres-pensadores � Paul Adam � <Ás tristesjornadas de Rubén Darío

epois de dom Pedro II, foi o barão do Rio Branco o primeiro


estadista a pôr em prática uma nobre política de valorização
cultural, agrupando em torno de si muitos dos elementos mais
representativos da intelectualidade brasileira da época. Histo­
riador e jornalista ele próprio, procurou cercar-se de escritores e homens in­
teligentes , incorporando-os, por assim dizer, à obra que realizou no Minis­
tério do Exterior através de três quatriênios presidenciais. Utilizava-se dos
intelectuais, de acordo com as respectivas tendências, dando-lhes margem
para apurar as aptidões a serviço da nação. Domício da Gama foi, por exce­
lência, criatura de Rio Branco; Graça Aranha tudo devia a Nabuco e a Rio
Branco; Rui Barbosa e Nabuco tiveram com Rio Branco oportunidade para
maiores êxitos.
No !tamarati possuíam cargos de assistência jurídica e intelectual, Lafaiete,
ainda o próprio Rui, Clóvis Bevilaqua, José Veríssimo, Herácliro Graça.
Aluísio Azevedo, desfavorecido injustamente por Prudente de Morais, pôde,
afinal, graças ao barão , ser efetivado na carreira consular. Ligados ao ltamarati
se achavam Machado de Assis, Capistrano de Abreu, Martins Júnior, João
Ribeiro, Olavo Bilac, Pedro Américo.

CAPÍTULO XVI � 2 l 5
Euclides da Cunha nutria utn sonho: realizar uma excursão à Amazônia, não
como mrisra;·mas como bandeirante, achando que assim poderia prestar um gran­
de serviço ao Brasil; e Rio Branco soube compreendê-lo. Domício da Gama, que
intercedeu pelo escriror junto ao barão, narra-nos como foi o encontro dos dois
grandes espíritos, numa noite, no palácio de Vestfália, em Petrópolis. O ministro
e o autor d' Os sertões conversaram durante várias horas, encantado o primeiro por
encontrar "quem o entendesse e partilhasse o seu inreresse pelos assunros que lhe
eram caros, de fronreiras, de relações internacionais e da história diplomática do
Brasil, em que aquele engenheiro militar parecia bacharel, senão doutor''.
Escolhido para a chefia da expedição exploradora do Purus, Euclides pôde
retornar ao sertão, como tanto desejava, entrando em contato íntimo com a sel�
va amazônica, experiência brutal, da qual resultaram algumas páginas memorá­
veis de impressões e interpretação daquele mundo bárbaro. Coloca, depois, o
barão, a Euclides como cartógrafo no ministério e intervém em favor do escri­
tor, candidato por concurso a uma cadeira no Ginásio Nacional, quando o vê
envolvido numa "escandalosa cabalà'. E profonda seria a mágoa de Rio Branco
ante a tragédia da estação de Piedade. "Sei quanro de esperanças fundadas per­
deu o Brasil" - escreve ele ao pai do genial repórter de Canudos.
Já no caso de Sílvio Romero, embora lhe dispensasse a proteção, não pô­
de realizar-lhe o ideal. Euclides queria a "vida afanosa e triste do pioneiro",
desprezando os brilhos de uma posição social e política. Sílvio não era indife­
rente a esta última; tinha um ideal político, desejava ser reeleito deputado fe­
deral, retornar à Câmara, onde já exercera o mandato na legislatura de 19 00
a 1 902. Candidato pela oposição na legislatura seguinre, recorre a Rio Branco
para que este o ampare junto à comissão de reconhecimento de poderes.
Ignora-se até onde teria ido o esforço do ministro nesse sentido. Sílvio não
conseguiu reeleger-se. Logo depois, o crítico procura obter uma cadeira de de­
putado, não mais por Sergipe, mas pelo Distrito Federal, e apela, novamente,
para o ministro, a quem sugere uma manobra eleitoral propiciatória. Desta
vez, ainda, nada obteve. Como facilmenre se conclui, era bem mais fácil para
Rio Branco mandar um grande escritor explorar o Purus, do que se envolver
no cipoal da politicagem para levar à Câmara outro grande escritor.
Figura então quase ignorada, mesmo depois da publicação das Recordações
do escrivão Isaías Caminha, em 1909, Lima Barreto manifestava um grande

2 l 6 6'A v1 Vida Literdria no Brasil


r
.

1
.

desprezo pela maioria dos intelectuais protegidos de Rio Branco, vendo neles
os representantes de uma espécie de literatura oficial, que não podia deixar de
repugnar-lhe à índole não-conformista. E na mesma antipatia havia de envol­
ver a figura olímpica do barão, a estender sobre os escritores uma tutela bené­
vola, do alto da sua curul no ltamarati.
Em Vida e morte de Gonzaga de Sá, 1 o romancista desanca impiedosamen­
te o poderoso ministro. Começa num diálogo entre Augusto Machado, o nar­
rador da história, e Gonzaga de Sá, no qual se alude ao fato de Rio Branco ha­
ver recebido pela manhã um poeta. Desdenhoso e irônico, Gonzaga exclama:
"Tenho satisfação em ver de que modo superior vai o barão influindo em nos­
sas letras." E põe-se a atacar Rio Branco, considerando-o uma "mediocridade
supimpà', fora do seu tempo, sempre voltado para tolices diplomáticas e com
a inteligência desviada do presente. Nesse momento, precisamente, passa o
barão num luxuoso automóvel de capota arriada, com a imponente figura, tão
fotogênica, em que o herói de Lima Barreto só distingue o ventre abaulado.
"Este Juca Paranhos" - diz Gonzaga de Sá- "faz do Rio de Janeiro a sua chá­
cara ... Não dá satisfação a ninguém... "

E por aí vai atribuindo-lhe, como ideal de estadista, "o aparato, a filigrana


dourada, a solenidade cortesã das velhas monarquias européias - é a figura­
ção teatral, a imponência de um cerimonial chinês", a "observância de regras
de precedência e outras vetustas tolices versalhesas''. Lembra, então, o que
dom Pedro II teria dito quando leu o livro de Joaquim Caetano, L'Oyapock et
l'Amazone; uma obra daquela valia um exército de seiscentos mil homens.
No entanto, a filha do autor vivia na miséria, enquanto o Juca Paranhos, que
do livro se valera, era contemplado com todos os privilégios.
Infelizmente, em páginas dessa natureza, Lima Barreto deixava, com fre­
qüência, transparecer o ressentimento que lhe ia na alma e não conseguia man­
ter a objetividade de um ataque sereno: azedava-se. No fim dessas objurgató­
rias, quase ouvimos rilhar os dentes do herói, no qual se encarnava o autor,
chamando o barão de "egoísta, vaidoso e ingrato". Mas teria sido esse, talvez,
,
um dos casos excepcionais de um escritor contra o "Juca Paranhos' .

1. Lima Barreto, "Vida e morre de M. ]. Gonzaga de Sá", pág. 63 e segs., Revista do Brasil,
S. Paulo, 1 9 1 9.

CAPÍTULO XVI � 2 1 7
A política cultural do barão processava-se, ativamente, tanto no plano inter­
no, como np externo. Com a transformação da capital, a extinção da febre ama­
rela, era preciso atrair figuras ilustres ao Brasil, para que fossem lá fora transmitir
impressões favoráveis a nosso respeito. Essa época dos intelectuais no Itarnarati
foi aquela em que hospedamos alguns dos maiores vultos da cultura européia,
empenhando-se o ministro em fazê-los levar as melhores recordações do país.2

Depois da visita de Ramalho Ortigão em 1 887, nenhum escritor estrangei­


ro fora recebido no Brasil com tanto entusiasmo e honraria como Guglielmo
Ferrero. Chegou ao Rio a 23 de setembro de 1 907, de regresso de Buenos
Aires, onde estivera, inicialmente, realizando conferências. A visita foi negocia­
da por Machado de Assis, como presidente da Academia Brasileira de Letras,
com autorização de Rio Branco, ficando decidido que o grande historiador
aqui pronunciaria seis palestras pelo preço de mil francos cada uma. 3
Pelo espaço considerável que os jornais dedicaram à chegada do histo­
riador, pode-se concluir da importância extraordinária que o fato assumiu.
Além do elemento intelectual, grande parte do elemento oficial compareceu

2. Rio Branco recepcionou muitos políticos e escritores como Guglielmo Ferrero, Anatole
France e Clemenceau, no Itamarati, mas excetuando o primeiro, é difícil apurar se tais visitantes
tiveram algum subsídio direto ou indireto do ministro. Anatole France e Clemenceau, como
veremos mais adiante, aqui vieram com empresários. Teria o ltamarati favorecido também pe­
cuniariamente tais visitas?
3. Foi a seguinte a carta de Machado de Assis a Ferrero, enviada por intermédio de Camilo
Cresta:

"Rio-de-Janeiro, !e 1 8 mai 1907.

- Monsieur, -

Cette lettre, que j'ai l'honneur de vous écrire au nom de l'Académie Brésilienne, vous sera
remise par M, Camillo Cresta, narre ami. L'Académie, dont vous venez d'être élu membre cor­
respondanr, connair varre prochain voyage à Buenos-Aires. E!le recevrait un grand honneur et
un bien vif plaisir, si vous vouliez passer quelques jours à Rio de Janeiro. lei, Monsieur, oU vous
avez des adn1irareurs fervenrs er nornbreux vous pourriez nous donner deux ou trois con-

. 21 8 b""I <.A Vida Literdria no Brasil


ou se fez representar no cais Pharoux. E ali formou-se um cortejo de mui­
tos carros, acompanhando o historiador ao Hotel Alexandria, onde ficou
hospedado. Fettero veio juntamente com sua esposa Gina Lombroso, e o
pequeno Leo, filho do casal: "uma criança inteligente, viva, de uns lindos
olhos espertos e uns cabelos magnificamente louros", na expressão de
um noticiarista. Leo morreria prematuramente aos vinte e poucos anos,
quando já se havia iniciado na vida literária.
As conferências do historiador realizaram-se no Monroe, sendo todas con­
corridíssimas. Um desenho colorido de meia página, estampado na Gazeta de
Noticias, dá bem idéia do que foram essas noitadas memoráveis. A primeira
teve a presença do presidente da República, Afonso Pena, que chegou ao
Monroe em carro de Estado, escoltado por um piquete de cavalaria. Chovia
desabaladamente no momento mas ninguém deixou por isso de comparecer.
A apresentação do orador foi feita por Medeiros e Albuquerque, num discur­
so simples e conciso, como eram geralmente os seus. Escusava de estender-se
mais, explicando: "No momento em que toda a sala anseia por ouvi-lo
(a Ferrero), qualquer demora de minha parte seria descabida e impertinente."
Ferrero falou sobre a "Cultura latina no momento atual", essa cultura que
estava por assim dizer no seu esplendor, na primeira década do século XX, e
iria receber um golpe bem rude com as transformações resultantes da guerra de
1914. No dia seguinte, o noticiário dos jornais proclamava o êxito absoluto da
noitada. Ferrero admirável! A sala, um encanto. Machado de Assis sentara-se
ao lado do orador. Enquanto no Jornal do Commercio Araripe Júnior e José
Veríssimo escreviam artigos sobre a obra de Ferrero.4

férences publiques. Le sujet en serait à varre choix; naturellement il sera iralien, comme vous­
même, er moderne, comme varre esprit; personne ne sair dire comme vous de ce qui est matitre
anisrique et sociale.
Naus serons bien heureux si vous acceptez cette invitation. Monsieur Cresta naus dira par let­
tre ou par télégramme varre réponse, er j'en donnerai la nouveile à mes arnis et nos confrtres.
Agréez, Monsieur Ferrero, mes respecrueux hommages et l'assurance de notre grande admira­
tion. - Machado de Assis."'
4. Um tópico de uma carra de Capistrano de Abreu a José Veríssimo, datada de 24 de outubro
de 1907 ( Correspondência de Capistrano de Abreu, Instituto Nacional do Livro, 1954) leva-nos
a supor que ele subn1ereu a Ferrero seu livro Capítulos de história colonial. Seria curioso saber a
opinião do historiador italiano a respeito. Mas encontraria ele tempo para lê-lo em tão curta

CAP ÍTULO XVI � 2 l 9


Em 30 de setembro, o historiador fala sobre a "Corrupção e o progresso
no mundo antigo e no mundo moderno". E ao descrever o luxo em Roma -
comenta ffialiciosamente um cronista social -, uma das senhoras presentes,
ricamente trajada, teria sussurrado para outra ao lado: "Era esse o luxo em
Roma? Pensei que fosse coisa mais de espantar!. .. " A 2 de outubro, o terna foi
"Cleópatra e Antônio1'. 5
No dia seguinte, outro grande acontecimento intelectual e social solicita
as colunas dos jornais: o banquete oferecido a Olavo Bilac, no Palácio-Teatro,
por motivo do aniversário do poeta. Urna festa das mil e urna noites. O tea­
tro todo ornamentado, tanto na parte interna como na externa; a mesa em
forma de O, na platéia; o palco transformado em paisagem japonesa; o Rio
em peso reunido para aclamar o autor da "Via-l..áctea". lJm triunfo! Vários
oradores, inclusive, naturalmente, Coelho Neto. Martins Fontes fala em no­
me dos poetas (é fácil imaginar a exaltação, o entusiasmo e a exuberância que
; !
caracterizariam esse discurso). E Ferrero, num gesto profundamente simpáti­
co, de cordialidade intelectual, pede a palavra, considerando a indiscrição de
sua atitude em falar ali - de que se desculpa, já que está entre amigos e com­
panheiros de luta -, para terminar, dirigindo-se aos escritores presentes nes­
tes termos: "Eu não preciso ler os vossos livros, basta-me ler-vos nas fisiono­
mias para poder dizer que Olavo Bilac é um dos que mais têm contribuído
para o esplendor da vossa literatura."

permanência no Brasil? Eis o tópico em questão: "Peço�lhe deixe no Werneck bem embrulha­
do o exemplar dos meus Capítulos, devolvido pelo Ferrero."
5. Na Fon-Fon de 5 de outubro de 1907, encontramos, sob o título "Ecos das conferências do
Ferrero", vários diálogos, com evidente propósito de satirizar o êxito mundano dessas palestras.
Num deles lemos o seguinte:
"-À noite não te posso esperar. Vou fechar o negócio mais cedo. Tenho onde ir.
-Vais ao teatro?
- Qual!. .. Recebi um convite da Academia de Letras para assistir à conferência do Ferrero. Já
mandei a esposa escovar a casaca."
Enquanto negociantes burgueses, rapazes elegantes e grandes damas se preparavam assim para
o espetáculo, dois poetas modernos travaram este diálogo:
"- Então, é hoje a conferência do Ferrero?
- Não vai?
- Não tenho casaca."

2 2 O � W Vida Literária no Brasil


No dia seguinte o cronista Joé, na seção "Cinematógrafo" da Gazeta de
Notícias, escrevia: "A glorificação que se fez ontem a Bilac reflete-se em todos
os escritores brasileiros." E no dia 6, na mesma seção: "Hoje Bilac é o maior.''
As outras conferências de Ferrero foram sobre os temas: "Júlia e Tibério"
(5 de outubro), "Nero" (8 de outubro) e "O império, o cristianismo e o mun­
do moderno" ( 1 2 de outubro). Como choveu muito em todas essas noites,
Medeiros e Albuquerque não perdeu a oportunidade para uma piada: "O
Acióli devia mandar buscar o professor para o Ceará... " ("Cinematógrafo",
13 de outubro).
No mesmo dia 13, de trem especial, acompanhado por várias pessoas de
destaque, inclusive Raul Rio Branco, Ferrero parte para São Paulo. Desde que
chegara ao Rio o historiador não cessara de aludir a São Paulo; queria ver de
perto a contribuição de seus compatriotas à grande civilização que ali se plas­
mava. A recepção na Estação da Luz foi extraordinária. Enquanto no Rio
o acolhimento do historiador teve caráter mais oficial, em São Paulo revestiu­
se de cunho essencialmente popular. A banda de música do 12 Batalhão da
Força Pública tocou à chegada do trem. Entre os presentes notava-se o conse­
lheiro Antônio Prado. Acompanhado por grande multidão em delirantes acla­
mações, o historiador encaminhou-se para a Rotisserie Sportman, onde fica­
ria hospedado. Ali saudou-o em nome da colônia italiana o prof. Antônio
Picarolo; Ferrero falou da janela, endereçando ao povo. O espetáculo devia pa­
recer bem significativo, tendo-se em conta o fato de não estar ali um político
ou um desses heróis populares capazes de impressionar as massas, mas sim�
plesmente um escritor, um historiador. Que outro homem de letras tout court
conseguiria hoje semelhante acolhida?
Em São Paulo, Ferrero excursionou pelo interior visitando a Fazenda Santa
Veridiana, estabelecimentos agrícolas de Ribeirão Preto e outras cidades, onde
se pusera a conversar familiarmente com os colonos italianos, aconselhando�os
a trabalhar para o progresso do Brasil, ouvindo-lhes as confidências, sempre
numa atitude comunicativa e humana de filósofo e sábio. Na capital realizou
uma conferência no Teatro Politearna em benefício de uma obra de caridade,
e num gesto tocante foi depositar algumas flores no túmulo de Eduardo Prado.
A 24 de outubro estava de novo no Rio, para fazer, logo depois, uma rápida
visita a Minas (Belo Horizonte, Morro Velho), acompanhado por Graça Aranha

CAPÍTULO XVI � 2 2 1
e José Veríssimo. Este último, num artigo na revista Kosmos (novembro de
1 907) sob o título "Quatro dias em Minas'', diz ter visro o presidente João
Pinheiro discutir o dia inteiro com Guglielmo Ferrero e a sra. Ferrero, ambos
muito versados em questões econômicas e sociais, com idéias contrárias ao es­
tadista mineiro, combatendo-lhe os princípios protecionistas, que a Veríssimo
pareciam também exagerados. 6
De volta de Minas, o historiador e a esposa embarcariam para a Europa.
Deixariam suas conferências a mesma impressão de encantamento intelectual
em rodo mundo? Numa carra de 16 de novembro de 1 907 a Domício da
Gama, Euclides escrevia: "As conferências de Ferrero desiludiram-me. Sou um
maravilhado diante de tudo (disse-o Veríssimo ultimamente), e a minha ad­
miração não raro ultrapassa a realidade. Ferrero deixou-me a impressão de ser
o Fregoli da história. Desapontou-me. E na noite em que, com uma serieda­
1' :' de adorável, declarou haver descoberro uma lei histórica (uma lei histórica! e
' .
"
'1 não se apagaram as luzes do Palácio Monroe! o auditório não desmaiou!! o go­
1i '!

I'·
verno não decretou o estado de sítio!!), enrrei a desconfiar que ele não conhe­
1; cia a significação científica desta perigosa palavra - lei. Quem fará, um dia,
1:
I a história da glorificação das mediocridades? ... "7


É possível que, perante um auditório em grande parte mundano, Ferrero
não tivesse aprofundado os remas, mas Euclides procedia com leviandade jul­
gando o grande historiador somente por essas conferências do Monroe. Não
teria lido ainda a Grandeza e decadência de Roma?8

6. Em visita a Petrópolis, Ferrero perguntou por que não faziam a1i uma cidade universitária,
dizendo: "Este clima, esta serenidade, tudo isto que nos circunda, predispõe à concentração e
ao estudo ... Petrópolis é uma cidade em que os sábios e os artistas devem sentir�se muito bem"
- Correio da Manhã, 26-10-1907.
'.--! 7. Francisco Venâncio Filho, Euclides da Cunha e seus amigo.s, Cia. Editora Nacional, São

H
1 Paulo, 1938.
8 Em carta anterior, de 15 de agosto de 1907, ao mesmo Domício da Gama, eis como Euclides
1
se referia ao visitante: "A breve escala de quatro horas, que aqui fez Guilherme Fertero, na sua
passagem para Buenos Aires, foi 1nagnífica. O barão recebeu-o gentilmente. No Itamarati, antes
e depois do jantar que lhe foi oferecido, o extraordinário evocador da velha Roma lendária foi
verdadeirarnente cativante. É impressionadora a sua modéstia. O gênio tern ares tímidos e per�
turbados Je mestre-escola <la roça."(Francisco Ve nâccio Filho, op. cü.)

2 2 2 � l/Í Vida Literária no Brasil


De regresso à Europa, Ferrero não chegou a escrever, como se esperava tal­
vez, um livro sobre essa viagem à América do Sul. Escreveu-o, no entanto, a es­
posa, Gina Lombroso Ferrero, publicando-o em 1908 em Milão. Nell'America
Meridionale (Brasile-Uruguay-Argentina) intitula-se a obra que, alinhavada às
pressas, reportando impressões de uma curta permanência, não podia deixar de
incidir em equívocos e juízos levianos. Foi isso, pelo menos, que se deu na par­
te relativa ao Brasil. Sem pretender resumi-la aqui diremos que, depois de
uma visão da baía de Guanabara e da descrição da chegada ao Rio, a aurora
passa a ocupar-se do estado de São Paulo. A floresta tropical a que ela se refere
com tanta ênfase não seria outra coisa senão as matas que marginam o leito da
Central do Brasil, no trecho entre as duas capitais. Temos em seguida rápidos
aspectos de São Paulo, "o caráter marcante da urbe é a sua italianidade"; a vis­
ta geral sobre a organização de uma fazenda de café; impressões de Minas (tem­
peramento mineiro, etc., com os clássicos chavões), principalmente Belo Hori­
zonte, e alguns capítulos de comentários generalizados sobre o povo brasileiro.
É justamente quando a autora passa a tirar conclusões errôneas e apressadas.
Mas somos levados a admitir que ela se baseou em dados colhidos aqui mesmo,
pois muito pouco poderia ter observado numa visita de poucos dias. Quem lhe
teria fornecido informações? Possivelmente, os que mais de perto acompanha­
ram o casal Ferrero no Rio, em São Paulo e em Minas: Graça Aranha e José
Veríssimo. Ao primeiro, alude Gina Lombroso, considerando a Canaã uma
obra que exerceu no Brasil influência idêntica à da Cabana de Pai Tomás nos
Estados Unidos (sic). E de Veríssimo diz ela ter ouvido a seguinte declaração: a
democracia absoluta reinante no Brasil, onde não existe uma demarcação en­
tre as classes, a ausência de etiqueta, seriam o fruto muito mais da falta de for­
ça individual do que de uma idéia social; essa falta de força é que impede o
Brasil de formar uma sociedade escolhida, uma elite, pois ninguém possui os
meios para rejeitar os que dela não devem fazer parte. Gina Lombroso limita­
se a concordar com Veríssimo, acrescentando: a mollezza e a impontualidade
do brasileiro não podem ser comparadas a de nenhum país por ela visitado.

1
Mas pouco antes já afirmara em tom categórico: o verdadeiro defeito do brasi­
leiro, capaz de aterrorizar o europeu, é a indolência, que se confunde, às vezes,

t C A P Í T U L O X V I i::::::=1 2 2 3
com a covardia, a mentira, a avareza, a falta de iniciativa comercial - uma
indolência feita não tanto de inatividade quanto de passividade, e deve vir,
fatalmente.do negro.
Até onde Gina Lombroso teria concluído por conta própria? Até onde se
cingira às informações que lhe deram ou as interpretou mal? Problema de di­
fícil solução. Seria curioso saber como Veríssimo considerou o livro, em que
lhe é atribuído um julgamento pouco favorável ao caráter nacional. Nada con­
seguimos apurar a respeito. O que não nos escapou foram algumas reações da
imprensa, quando o livro se divulgou no Brasil. O Correio da Manhã, por
exemplo, num tópico (21 - 1 1-1908), protestou com veemência. Era o maior
desapontamento para quantos viviam apregoando os extraordinários resulta­
dos da visita de eminentes personalidades ao Brasil. A autora mostrara-se le­
viana, não consultara obras, não fizera uma boa colheira de informações, va­
lera-se apenas dos apontamentos do seu caderninho de notas e de rápidas
i 1
impressões. Daí os erros monstruosos em que incidira. O livro menos irritava
do que fazia rir. A parte referente ao Brasil continha coisas de provocar des­
manchas de hilaridade a um manequim da avenida. A inclusão do bicho-de­
pé, ao lado da febre amarela, entre as pragas que nos infelicitam, alarmando o
estrangeiro, era uma dessas pilhérias, que justamente por serem ditas a sério,
se tornariam "imortais". Ferrero não podia fugir à responsabilidade desse livro
tão cheio de erros, pois certamente o lera, página por página, e concordara com
tudo. Ora, era muito duro para o nosso coração andarmos a cercar de home­
nagens grandes vultos estrangeiros e vermos depois o pouco caso que de nós fa­
ziam. E ainda mais duro para o bolso do contribuinte o emprego de boas so­
mas para atrair tais visitantes, saindo às avessas o resultado de tão caras visitas.
Ante o livro do casal Ferrero podiam limpar as mãos à parede os que viviam
a sonhar coisas douradas com a propaganda do Brasil na Europa.

Ainda não se tinham esvanecido as ressonâncias das conferências de Ferrero


quando, nos primeiros dias de novembro de 1908, chegara a São Paulo, de re­
gresso de Buenos Aires, o criminologista italiano Enrico Ferri. Sua visita ao
Brasil apaixonaria os espíritos, provocando vivos debates e manifestações de

224 � LA Vida Literdria no Brasil


opiniões, mas como esse movimento se deu mais no plano político-social do
que no literário, não nos ocuparemos c\ele aqui com muitos detalhes.
Embora recebido em caráter oficioso, por tratar-se de uma grande figura
do pensamento europeu, Ferri não podia deixar de chocar a burguesia conser­
vadora pelas dourrinas socialistas e anticlericais que professava. Por outro la­
do, depois da proclamação da República, o socialismo utópico e o anarquis­
mo de Jean Grave, Kropotkin e Réclus tinham tomado certo incremento no
Brasil. Em São Paulo e no Rio surgiam periódicos fazendo propaganda dessas
dourrinas, que possuíam muitos adeptos também nos meios acadêmicos.
Já vimos como elas se tornaram uma moda literária entre nós, através da in­
fluência de Tolstoi. Esses elementos esquerdistas acolheriam Ferri, natural­
mente, com grande entusiasmo.
As conferências do cientista italiano encontravam assim terreno propício
para a exaltação dos ânimos, apesar do caráter puramente cultural que o ora­
dor procurava imprimir-lhes. É de notar o grande espaço que os jornais, nas
duas capitais, lhe dedicaram, revelando a repercussão pública do acontecimen­
to. Em São Paulo a reação foi pronta. Logo depois da primeira conferência,
as associações religiosas convidavam o padre João Gualberto para refutar as
idéias do visitante. Aceitando a incumbência, mas, obrigado a adiá-la por se
achar um pouco adoentado, o conhecido sacerdote só a 1 1 de novembro -
depois que Ferri já havia pronunciado sete conferências, sendo a última sobre
Zola e o processo Dreyfus - deu-lhe réplica no Salão Steinway, com uma bri­
lhante palestra sob o título "Lição a Ferri". Mobilizaram-se os dois grupos: ca­
tólicos e anticlericais, chegando a movimentar a polícia. O salão encheu-se de
tal forma, que se rornou necessário impedir a eutrada de muita gente, de on­
de os protestos e a intervenção policial, havendo até algumas prisões. O noti­
ciário alude a um grupo de pessoas que, decerto por não terem podido entrar
no recinto, ficaram na rua a dar vaias e assuadas.
Terminada a conferência, os adeptos do orador saíram incorporados, em
manifestação pública, indo até a redação d' O Estado de S. Paulo, a erguer vivas
à religião católica. No mesmo momento, ourro grupo, formado em grande
parte por estudantes, vitoriava Ferri, dirigindo-se à Rôtisserie, onde se achava
hospedado, prorrompendo em aclamações e cantando a Marselhesa. Urna noite
agirada e rumorosa. Daí a dois dias, o padre João Gualberto, no Salão Salesiano,

C A P Í T U L O X V I 6:;::o9 2 2 5
continuava a réplica noucra conferência, sob o tema "Má fé e incoerência de
Ferri".9 Nesse momento, Ferri já estava de viagem para o Rio, depois de um
telegrama de Graça Aranha desmentindo a notícia de que era Rio Branco, co­
mo ministro do Exterior, quem o convidava a visitar a capital da República.
Dirigindo-se ao cientista em nome do Centro Acadêmico, Graça Aranha tor­
nava bem claro que deste partia o convite.
No Rio, Ferri foi recebido na estação de dom Pedro II por grande massa
popular. Já em Cascadura entraram no trem Sousa Bandeira e Graça Aranha
para apresentar-lhe cumprimentos em nome da Academia Brasileira de Letras.
E formou-se um cortejo, que o acompanhou da estação ao Hotel dos Estran­
geiros, onde ficou hospedado.
Suas conferências, em número de seis, real izadas no Teatro de São Pedro
de Alcântara ao preço de 5$000 (cinco mil-réis) a poltrona, versaram os se­
I '

1
guintes temas: ''As maravilhas do século XlX", "Delitos e delinqüentes" (com
projeções luminosas), "Emílio Zola e o processo Dreyfus", "Do micr6bio ao
,
Homem)) (com projeções luminosas), "A mulher como é e como será' , "O ho­
mem no ano 2000".
Como em São Paulo, suscitaram muiras réplicas. A 23 de novembro,
Afonso Celso respondia ao visitante, no Gabinete Português de Leitura, fazen-

9. A título de curiosidade, lembramos a visita que Enrico Ferri fez a Miguel Trad, autor do "Crime
da malà', que se tornou famoso nos anais da polícia de São Paulo e só encontrou pendant em
1928, em outro delito da mesma natureza praticado por um tal Pistone.
Ferri conversou com Trad, em francês, e se absteve de dar opinião sobre o caso, como queria o
advogado da defesa, para não influenciar no julgamento.
Com o mesmo propósito, reproduzimos estes dois patins estampados no O Comércio de São
Paulo a 5 de novembro de 1908:

"Parece�me que voltamos à época do ferro, que se nos vem apresentando numa dimin uição de
sílabas. Assim é que já fomos visitados pelo Ferramenta, depois pelo Ferrari, Ferrigno, Ferrero
e agora pelo Ferri. Só resta que o nosso Rio Branco descubra lá pela Europa Fer, para comple�
tar a plêiade dos ferros, pois que F. já temos na crítica musical."

"2 horas no mesmo diapasão de voz, sem ingerir uma só gota de água!
- Sim senhor, este Ferri é um homem de fe rro."

O rrocadilho é detestável, mas não deixa de ser informativo.

1
L
226 � V'Í Vida Literdrta no Brasil
do sentir ao auditório que colocara o debate no terreno cultural, termina pe#
dindo a simpatia de todos os católicos para aquele homem de talento que ti­
nha a infelicidade de ser incrédulo. Logo depois o jornalista Oliveira e Silva,
no mesmo recinto, e o jovem advogado Nunes de Almeida secundavam a ré­
plica. Nunes de Almeida, falando sobre as "Superstições da civilização", ataca­
va Ferri do ponto de vista católico, declarando que os inimigos da Igreja é que
o tinham impelido para cá. Perguntava: "E que vem nos trazer ele? Nada de
novo. Tudo o que sai de sua boca é cediço e velho. Só as suas heresias têm tal­
vez mais lavor de forma e estilo." No mesmo dia Teixeira Mendes falou no
Instituto Nacional de Música, atacando como positivista as opiniões de Ferri
sobre a condição da mulher na sociedade.
Mais outras contraditas: a de Ernesto de Oliveira, na Associação dos
Empregados do Comércio e a de Carlos de Laet. Anunciou-se ainda que à pa­
lavra de todos esses oradores viria juntar-se a de Rui Barbosa, mas não encon­
tramos notícia de nenhuma conferência por ele pronunciada contra Ferri.
No dia 26 realizou-se no Pavilhão Internacional uma grande manifestação
operária ao visitante, saudado por Evaristo de Morais.10 Encontrando-se nes­
sa ocasião no Rio o cientista francês Charles Richet, preparou-se uma home­
nagem para os dois visitantes no Palácio Monroe, com a presença do barão do

10. Registrando o fato, a Gazeta de Notícias (27- 1 1-1908) descrevia o aspecto do local: "Por
roda a volta do hal!, na altura dos camarotes, viam-se escudos com vários nomes, salientando­
se um deles com o nome de Enrice Ferri. À direita, quase sobre o proscênio, no camarote des­
tinado ao ilustre manifestando, ostentavam-se as bandeiras nacional, italiana e americana."
Prosseguia depois nestes termos: "O eminente professor à sua entrada no ha!l foi recebido por
uma ruidosa salva de palmas, que se prolongou durante todo o seu trajeto até o camarote. Nesse
momento a atenção da numerosa assistência foi abstraída por um incidente. Enrice Ferri mostra­
va-se visivelmente contrariado, demonstrando, com significativos gestos, a sua reprovação,
primeiro ao adorno das bandeiras, que foram imediatamente retiradas, sob as aclamações da as­
sistência; depois, quando se cerrou o pano de boca do palco, à presença nele de seu retrato, que
se achava sobre um pedestal coberto com o pavilhão nacional e adornado com flores naturais.

1
Cobrindo a balaustrada em que se apoiava o grande propagandista, ficou apenas, como único
ornamento, a bandeira italiana."
No dia seguinte Ferri fazia publicar pelo Correio da Manhã a seguinte explicação: "A Gazeta faz
supor que eu haja mandado desguarnecer o pavilhão de rodas as bandeiras que lá se achavam,
fe rindo assim uma questão que eu não podia suscicar no momento em que recebia uma mani�
festaçáo de apreço. O que insinua a Gazeta é positiva1nente uma perfídia. Tendo de falar de um

l CAPITULO XVI � 2 27
Rio Branco. Os jornais assinalaram a solenidade, que teve como orador Olavo
Bilac. Para �xaltar as figuras de Ferri e Richet o poeta recorreu, naturalmente,
como não podia deixar de acontecer, ao slogan do gênio latino.
No dia seguinte, 29 de novembro, Ferri embarcava de novo para São Paulo,
onde devia pronunciar mais algumas conferências. Desta vez o orador p6de fà­
lar num ambiente de serenidade; tinham-se acalmado os ii.nimos. No entanto,
alguns cronistas acentuaram q·ue a maior vantagem dessa visita fora justamen­
te o de agitar o meio, suscitando discussões e polêmicas. O nosso marasmo in­
telectual precisava, de quando em quando, desses estímulos.
Dois anos depois, justamente em novembro de 1 9 10, voltava o crimina­
lista italiano ao nosso pais. E ao chegar ao Rio declarava à reportagem da
Gazeta de Notícias: '1Como da outra vez, continuarei a minha propaganda
política. Venho agitar idéias, expor teorias. Não pode haver melhor campo
do que este da América para as idéias forres e grandes." Regozijava-se com o
fato das opiniões se dividirem a seu respeito no Brasil. Achava que se todos
o aplaudissem e ninguém o contrariasse não passaria de um perfeito imbecil.
Interrogado sobre o anticlericalismo em Portugal - assunto palpitante no
momento com a recente proclamação da República naquele pais -, decla­
rou ser anticlerical, mas não intolerante. Não professando religião alguma
não admitia, no entanto, intolerância contra nenhuma delas.
Nessa segunda visita Ferri falou no Municipal sobre o s seguintes re­
mas: 1(Pan-americanismon, '(A mulher européia e a mulher americana", "O
homem de gênio'', "Emigração e colonização", "Minhas reminiscências do
1;
i 1
Parlamento italiano". O preço das cadeiras era 6$000, sendo o lucro liqui­
do destinado a associações de caridade. Mas já não conseguiu o sucesso da
1' primeira vez. Basta ver o comentário de Costa Rego nos seus "Traços da se­
mana'' , no Correio da Manhã, de 20 de novembro de 191 O: "Este amável re-

dos camarotes daquela casa de diversões, pedi que o mesmo camarote fosse desguarnecido das
bandeiras que o enfeitavam, porque ao mesmo tempo me tolhiam os movimentos quando eu
estivesse fazendo o discurso. Não houve nisso intenção de ofender os princípios de quem quer
que lá se achasse, tanto assim que as bandeiras dos outros camarotes continuaram a guarnecê­
los. Quanto ao fato de eu haver solicitado que retirassein do palco o meu retrato, ninguém de
boa fé há que veja nisso hostilidade nern indelicadeza, pois agi de acordo com os rneus senti­
rnentos íntimos que não podem absolutarnente ser baixados à significação grosseira."

2 2 8 l?'1 vf Vidtz Literdria no Brasil


volucionário Eurico Ferri, que há dois anos convulsionou o nosso meio inre­
lectual, não parece que esteja agora despertando o mesmo notável interesse. "
''Acabou-se aquela florida concorrência do sexo galante a que Ferri deve a me­
lhor parte dos aplausos conquistados na sua primeira viagem." E isto - repli­
ca o cronista - porque o orador se vem repetindo deploravelmente. Não tem
diro mais nada de novo. Só se tornaram mais altos os preços.11 Apresentou
agora uma segunda edição que não possui a vantagem de ser correta e aumen­
tada. Os próprios católicos já não se preocupam em rebater-lhe as idéias, por­
que estas lhes parecem enfadonhas: uma repetição de coisas já batidas. ''A pou­
co e pouco" - conclui Costa Rego - "o tamanho do gigante vai diminuindo
e as torrentes de eloqüência do orador italiano são como as belezas, por exem­
plo, da nossa Guanabara: muito boas para serem vistas por quem não as co­
nhece e as vê pela primeira vez."
De fato, tudo quanto havia de sugestivo e espetacular na eloqüência de
Ferri já devia ter perdido o sabor de novidade para o público brasileiro. Na
sua coluna ''A semanà', n'O Pais (20-11-1910) , Gilberto Amado testemu­
nha igualmente esse pouco interesse. Diz que ao sair de uma conferência
de Ferri encontrou alguns amigos que a comentaram com "admiração de­
masiado reduzidà': mostravam-se cansados do assunto, do tom de descober­
ta com que eram revelados lugares mais ou menos comuns da ciência, enca­
ravam com certa tristeza o cabotinismo lamentável do orador. Acha, porém,
que Ferri é no gênero realmente excepcional: "o mais dramático, o mais
emocionante, o mais cromático dos oradores já ouvidos no Brasil", já que
Rui Barbosa possui a desvantagem do porte, a discrição do sábio e do artis­
ta atilado infenso aos processos mirabolantes da oratória popular. Mas acon­
tece que o cientista italiano julga o Brasil pelo nosso índice de analfabetis­
mo, não percebendo, como percebeu Anatole France, que aqui existe uma
elite. Essa elite exigia dele menos frases feitas e alguma novidade. E como
poderia Ferri dizer novidades? Tratava-se de um pensador que se imobiliza­
ra. As doutrinas da escola antropológica - substância de suas idéias - ha­
viam perdido o prestígio. Ferri há quinze anos encerrara-se dentro dessas

1 1 . Detalhe curioso: o aumento apenas de mil�réis já era considerado uma elevação sensível de

l
preços na época.

C A P Í T U L O X V I f:::::A 2 2 9
idéias e estava prisioneiro delas. Sua conferência sobre "O homem de gê­
nio" tinha,, sido de uma ingenuidade inverossímil; sobre o "Pan-america­
nismo" nada adiantara ao que já se conhecia pelos discursos de Nabuco, os
artigos de José Veríssimo, os livros de Artur Orlando e Oliveira Lima. Daí
a conclusão: o orador falava para o Brasil analfabeto, aquele que vem descri­
to nos livros dos viajantes, o único que ao professor e sociólogo podia inte­
,,
ressar. E acentuando que o Brasil "já começava a agitar-se , reconhecia tris­
temente que fatos como o que acabava de chegar ao seu conhecimento -
a reação das populações do interior contra os agentes do censo - j ustifi­
cavam viesse Ferri dizer-nos ter sido a América descoberta por Colombo,
diferenciando-se a do Sul da do Norte por descender uma de latinos, outra
de saxônios.

Alguns meses mais tarde, a 3 de abril de 1909, realizava-se na Sorbonne,


por iniciativa da Sociedade Parisiense e da Missão Brasileira de Propaganda,
uma sessão em homenagem a Machado de Assis. Dava-lhe a honra de presi­
di-la Anatole France, que devia, dentro em pouco tempo, visitar o Brasil,
achando-se presente Charles Richet, de regresso do nosso país. No discurso de
abertura, Anatole declarava: ('Para mim, senhores, não é estender demasiado
o sentido desta festa, em ver a consagração do gênio latino nos dois mundos."
Oliveira Lima proferiu uma conferência sobre Machado de Assis e Mlle.
Leo Miceley, do Teatro Sarah Bernhardt, recitou versos do autor de Dom
Casmurro traduzidos por Victor Orban. Era "a consagração do gênio latino",
embora Machado de Assis não fosse propriamente latino.

A 17 de maio de 1909 ancorava no Rio o navio Amazon, trazendo a bor­


do, como mensageiro de latinidade, o próprio Anatole France, que se desti­
nava a Buenos Aires e a Montevidéu, devendo, somente na volta, visitar o
Brasil. O navio atracou à noitinha e Luís Edmundo, repórter do Correio da
Manhã, contaria no dia seguinte ao p1íblico, numa página não isenta de hu-

2 3 O � lA" Vida Literdria no Brasil


mor, assinada com a simples inicial W., de como malogrou sua tentativa de
entrevistar o grande escritor. Ao chegar a bordo já encontrara alguns mem­
bros da Academia Brasileira, entre os quais Filinto de Almeida, que tenta­
vam em vão se aproximar de Anatole. Mas por toda parte corria o zunzum:
"O 'homem' não fala. O 'homem' não recebe. Dizem que está doente."
Os passageiros garantiam, no entanto, que o "homem" havia passeado ain­
da pela manhã no tombadilho, com um livro na mão. O repórter interroga
o comandante. O escritor estava realmente enfermo, tendo declarado o seu
propósito de não receber pessoa alguma. Não obstante, conseguindo locali­
zar o camarote onde ele se ocultava, Luís Edmundo empurra ousadamente

l
!
a porta. Mas reportemo-nos às suas palavras: "Já tínhamos entrado. Uma ca­
beça branca moveu-se de um leito muito fofo, olhou-nos e ia-· nos perguntar

1
qualquer coisa, quando, entre um turbilhão de desculpas, pudemos dizer
quem éramos. '- Ah! - fez ele, o filósofo do Crainquebille, o poeta suave
do Lys Rouge. - Perdoai-me receber-vos assim. . . Mas uma súbita indisposi­
ção. . .' e tossiu. Era uma linda cabeça branca, com uns olhos meigos e ex­
pressivos. Víamos, enfim, Anatole France." Luís Edmundo acrescenta que o
escritor tinha numa das mãos o 4° volume da Grandeza e decadência de
Roma, de Ferrero. Não conseguiu, porém, arrancar-lhe nenhuma declara­
ção. Anatole declarou-lhe apenas que sofria muito. E levou a mão esquerda
à testa sorrindo, num gesto de quem, com gentileza, apaga dos olhos uma
sombra de fadiga e diz: "\'á-se embora." O repórter não teve outro recurso
senão aceitar o alvitre e dar a entrevista como frustrada, retirando-se. Na
manhã seguinte, a mesma comissão da Academia, que estivera a bordo na
véspera, procurou Anarole para convidá-lo a dar um passeio pela cidade.
Desta vez foram mais felizes os "imortais)'. O escritor resolveu aparecer e
aceitar o convite. No livro ltinéraire de Paris à Buenos Aires, 12 Jean-Jacques
Brousson, secretário de Anatole, que o acompanhou nessa viagem, descreve
o encontro com os membros da Academia em termos verdadeiramente ca­
ricatos: nunca vira uniformes tão dourados. Havia mais galões de que cos­
turas. E espadas, penachos e botões de metal grandes como escudos. Quan­
do apresentaram ao mestre o "amiral Jazagoie)) (almirante Jaceguai), "com

1 2. Jean-Jacques Brousson, ltinéraire de Paris à Buenos Aires, Crês et Cie, Paris, 1927.

CAPÍTULO XVI � 2 3l
voz marcial, os bigodes heróicos, dir-se-ia Cambronne em Waterloo, Anatole
exclamara� 'Almirante, o senhor é um herói. .. ', assoprando ao ouvido do se­
cretário: 'Por definição, um almirante é um herói ... Um general também.'
As apresentações continuaram e Brousson alude a uma, feita nestes termos:
"Nosso romancista nacional: Vicente Palambo." Entusiasmo. Abraços. Anatole
exclama: "Ah! senhor. Posso enfim estreitar nos meus braços o Balzac do
Brasil!" E ainda para o secretário, à parte: "Não parece um macaco que caiu
de um coqueiro em dia de tempestade?" O Balzac do Brasil nessa época só
poderia ser Coelho Neto. Brousson declara, aliás, em nota ao pé de página
que os nomes são inventados.
Depois de u m passeio pela cidade, Anatole é conduzido ao Hotel dos
Estrangeiros, onde lhe servem um petit déjeuner. Logo em seguida, a Aca­
demia o recebe em sessão solene. Saúda-o em francês o presidente, Rui
Barbosa, "esmagando-o de louros" - registra Brousson 13 -, "mas aos lou­
ros e às rosas mistura algumas urtigas. Louva a pureza do estilo, verbera
a impureza do fundo. Seu discurso cheira um pouco a homilia". Anatole
responde de improviso em poucas palavras, aludindo ao fato de no Brasil
não haver, como na Inglaterra, preconceitos de raça, considerando Rui
Barbosa campeão da "possibilidade da paz universal" e concluindo por sau­
dar, na Academia, uma cultura que fazia irradiar o espírito latino com al­
taneria e simplicidade.
Dali, segundo Brousson, teriam ido à Biblioteca Nacional onde mostra­
ram ao mestre o exemplar raríssimo da Bíblia de Guttenberg. Vendo os picos
de bichos que o danificavam, Anatole observa: "São os críticos." Miguel
Melo, funcionário da biblioteca, 14 testemunhou, apenas, o enlevo com que o
escritor, cuja paixão pelos velhos livros era bem conhecida, apalpou com res­
peito o exemplar, acariciando-lhe o papel, examinando-lhe a composição, a
impressão e por fi m exclamando: "Oh! le beau livre!"
À uma hora da tarde, o barão do Rio Branco ofereceu um almoço íntimo
ao hóspede no Itamarati e Anatole regressou a bordo, continuando, no mes-

13. Brousson grafa: "Ruis Barbozo. "


14. Antônio Noronha Santos, O que a mem6ria reteve, Niterói, 1956.

2 3 2 � LA Vida Literdria no Brasil


mo dia, a viagem para a Argentina. 15 Como Jean-Jacques Brousson se tives­
se incompatibilizado com o mestre, por haver enviado uma correspondência
inconveniente publicada pelo Cri de Paris, fora despedido do cargo de secre­
tário particular, sendo substituído pelo pintor Pierre Calmette, amigo íntimo
de Anatole e que o acompanhara na viagem.
A 22 de julho, de regresso de Buenos Aires, o escritor aportava novamen­
te no Rio, agora para permanecer uma semana e proferir duas conferências:
"Le positivisme et la paix du monde" e "Le christianisme avant et aprês
Jésus".16

15. Eis como Lima Barreto, grande ledor de Anatole France, referia-se em carta ao amigo
Antônio Noronha Santos, então em Paris, à passagem do escritor pelo Rio: "Recebi hoje a rua
carta e o teu cartão. Vieram no mesmo paquere e chegaram aqui com Anarole France.
O Veríssimo� o Medeiros e os insuportáveis estudantes (não estava o Lacerda) consagraram-no
a valer. O barão convidou-o a almoçar no Itamarati e a Academia deu uma sessão em honra a
ele. O Rui falou, falou com aquela pretensão e aquela falta de visão que lhe são peculiares, du­
rante hora e tanto, tentando fazer crítica à obra do Jerôme Coignard ou Sylvestre Bonnard,
como quiseres. Disse que era vice-presidente do Senado e se batia pela paz universal. Anatole
respondeu sobriamente e sem relevo. Sentia-se emovido (gostaste?) e apreciava muito esta ter­
ra, bela, etc., em que não havia prejuízos de raça, como na Inglaterra. Quanto à paz universal
disse que devíamos guardar-nos das surpresas dos sentimentos e dos enganos do coração. Como

1
já está consagrado, o grande homem andou aqui pelas ruas, em procissão, acompanhado de
repórteres, de fotógrafos, toda essa raça vil e besta de Gasparoni e Castelares. E assim passou
ele e eu não o vi nem de longe. O paquete chegou domingo à noite e a procissão andou pelas
ruas, durante as horas do expediente." - Lima Barreto, "Obras completas", Correspondência

ll ativa e passiva (lll tomo), Editora Brasiliense Ltda.


Lima Barreto exagerava quanto ao tempo consumido pelo orador; dado o tamanho do discur­

1
so, não chegaria a meia hora. Também atribuía a Rui Barbosa o que este não dissera: que era
vice-presidente do Senado e se batia pela paz universal.
16. Anatole France decidira-se a realizar essa excursão à América do Sul como um meio de
libertar-se, por algum tempo, da tutela de Mme. Arman Caillavet, que lhe ia parecendo cada
vez menos suportável. Mas tendo como companheiros de viagem os comediantes da troupe
Silvain que vinham realizar a temporada de inverno nas mesmas capitais onde o escritor deve­
ria proferir conferências, apaixonou-se pela atriz Jeanne Brindeau. A história desses amores
Brousson nos conta em tom burlesco no livro a que já nos referimos. Anatole teria mesmo ale­
gado doença, ao fazer escala no Rio, para que não fossem perturbar-lhe o idílio. E duas cartas
de Domfcio da Gama a José Veríssimo, publicadas na Revista da Academia Brasileira de Letras,
n11 136, nos niosnarn de como o romance já se tornara conhecido :aqui e a maneira pela qual o
escritor insistia em não se separar de sua deusa, no regresso do Prata. Eis a primeira, datada de
16 de julho de 1909'

1
O êxito das palestras não foi grande. Realizadas no Teatro Municipal à tar­
de, teriam atraído um pequeno público, mais curioso de ver em carne e osso
o autor de Lys rouge, do que interessado em acompanhar-lhe o pensamento si­
nuoso numa dissertação sem ênfase. Em crônica publicada n'O País (1 8-9-
1 9 1 O), Gilberto Amado relembraria, mais tarde, a quantidade verdadeiramen­
te escandalosa de pessoas resfriadas que enchiam a sala do Municipal, quase
chegando a cobrir a voz do orador com a multiplicação, sem conta, de espir­
ros e fluxões.
O Correio da Manhã, numa nota de 26-6-1909, aludia ao auditório escas­
so das conferências lamentando que os brasileiros não fossem esnobes como
os argentinos. Em Buenos Aires, por esnobismo, todo mundo quisera ouvir
Anatole. Aqui, nem esse motivo prevalecera.
No dia 4 de agosto, Anatole, acompanhado por Pierre Calmette e José
Veríssimo, embarcava para São Paulo. Embora a recepção lá não se tivesse reves­
tido de caráter tão popular, como acontecera dois anos antes com Guglielmo
Ferrero, São Paulo ainda uma vez manifestou invulgar entusiasmo por um vi­
sitante que, afinal de contas, não era nada mais do que um escritor. Basta ver

"Meu caro Veríssimo. O Anatole France deve embarcar amanhã no Magellan para Santos e Rio.
Recebo agora uma carta do nosso ministro em Montevidéu dando-me essa notícia e exprimin­
do o desejo do supradito France de alterar-se o itinerário combinado, desembarcando ele em
Santos e indo a São Paulo antes de vir ao Rio. Insinua o venerando Anacreonte que tem com­
panheiros de viagem para São Paulo (a troupe Silvain, penso) que lhe amenizariam a estada
naquele sítio e receia a fadiga da viagem de ida e volta por terra. A razão verdadeira da insinua­
ção v. sabe. Se eu fosse parte no assunto, proporia que lhe respondêssemos diplomaticamente
sobre o itinerário e conveniências pessoais, como o francês da comédia: 'Ohl moi; vous savez,
moije m'en fous! Mas quem sabe lá se vocês não preferem ter as primícias do mestre, ainda mes­
mo arrancando-o à doce companhia de sua amada? Devo preveni-lo do mau humor seguro do
nobre velho, se tiver de separar-se em Santos da alegria de sua jornada por estes 'países impos­
síveis'. Decida para que eu possa telegrafar hoje mesmo ao Lisboa."
A segunda carta, dois dias depois, informava:
"Outra mudança (femina mutantur et nos mutamus in illa): France virá diretamente ao Rio
pelo Oropesa. Ele mesmo mo telegrafou hoje de Montevidéu. Oropesa deve chegar aqui no dia
22. Será bom prevenir no Hotel dos Estrangeiros para os quartos. E a São Paulo para que não
o esperem em Santos."
Ao regressar a Paris, Anatole encontrou lvime. Caillavec em prantos, informada de tudo que se
passara na viagem. O escritor teve de renunciar aos amores com a jovem atriz, seguindo com a
sua velha companheira para Nice.

234 '=""" v1 Vida Literdria no Brasil


este número do programa da recepção publicado na véspera por um matuti­
no: brilhante marche aux flambeaux or11anizada pela mocidade acadêmica,
com a participação dos alunos de todos os estabelecimentos secundários e su­
periores da capital e da Banda de Música da Força Pública. Anatole receberia
a manifestação da sacada do Automóvel Clube, devendo ser executada a
Marselhesa quando ele ali surgisse. Tratava-se, no entanto, de um espírito não
conformista, de tendência revolucionária, cujas obras vinham provocando
constantes ofensivas dos elementos bien pensants.
Em São Paulo, Anatole visitou escolas, Museu do Ipiranga, instituições cul­
turais, tendo sido recebido pelo presidente do estado, Albuquerque Lins. Na
Escola Normal, saudou-o, com um pequeno discurso em francês, a aluna Martha
Puech. Na Faculdade de Direito, disse das irmãs Patureau, as únicas mulheres,
parece, a fazerem então o curso acadêmico, que eram les parures de l'Académie.
Ao contemplar o panorama da cidade do mirante da avenida Higienópolis,
num suave pôr-do-sol, quando acendiam as primeiras luzes, mostrou-se en­
cantado, deixando escapar esta exclamação: "Mais c'est beau!" Alfredo Pujo!,
que o acompanhara, ter-lhe-ia objetado: Como podia achar bela a paisagem
paulistana, depois do esplendor do Rio? Ao que o escritor respondera: "O Rio
é grandioso, é bonito demais. Para o meu temperamento este é o tipo de pai­
sagem que convém."17
A 7 de agosto, com a presença de todo o mundo oficial e de numeroso pú­
blico (ao contrário do que se dera no Rio), Anatole pronunciou no Teatro
Sant'Ana uma conferência sobre Pierre Lafitte, philosophe de bonne humeur.
Tendo manifesrado o desejo de visitar uma fazenda de café, embarcou no
dia seguinte para Santa Gertrudes, a convite do conde Prates, que o recebeu
regiamente na sua propriedade rural. Pôde então verificar "todas as operações
que sofre o café até ser exposto à venda em grão" e testemunhar o conforto e

1
o fausto de que podia cercar-se um fazendeiro em São Paulo. Também seria
esse o limite máximo a que chegaria a curiosidade pelo exótico num espíri­

1
to tão visceralmente francês e parisiense. Nas magníficas dependências da
fazenda do conde Prates, o autor do Petit Pierre experimentara a sensação de

17. Abner Mourão, ''Anarole France no Brasil", reportagem publicada n'O Estado a'e S. Paulo e
reproduzida no Dom Casmurro (13-5-1 944).

CAPÍTULO XVI � 2 3 5
contemplar um cenário rural, bem diferc::ute da campagne francesa, e ainda a sal­
vo das mutucas e borrachudos. No dia seguinte a essa excursão, durante a qual
foram feit�s muitos brindes e discursos, Anatole, sempre acompanhado por
José Veríssimo, embarcava para o Rio de onde regressaria à Europa. Sua cur­
ta permanência no Brasil marcou, certamente, um momento de efervescên­
cia cultural em que se falou muito em latinidade.18

No ano seguinte receberíamos a visita de outro francês ilustre: Clemenceau


- e ainda desta vez um anticlerical. No dia 14 de setembro o Correio da
Manhã publicava uma carta do acadêmico de direito Pio Benedito Oroni, di­
zendo ter lido nesse jornal a notícia de que alguns católicos programavam uma
vaia à chegada de Clemenceau. Queria esclarecer a questão: o que se prepara­
va era um movimento de solidariedade aos católicos espoliados de França.
Constaria esse movimento de uma série de conferências em que oradores com­
petentes e ilustrados analisariam a política de Clemenceau, o regime de exceção

18. O sacerdote francês L. A. Gaffre, que aqui esteve em 1 9 1 0 e de quem trataremos mais
adiante, em livro publicado em 1912, sob o título Visíons du Brésil, fez referências hostis a essa
visita de Anatole France à América do Sul. Declarou ter ouvido de altas personalidades
brasileiras juízos sobre o escritor nos quais encontrava eco das impressões que este deixara na
Argentina. Não se podia, absolutamente, imaginar na França a que ponto esse cuistre raffiné des
rôtisseries intellectuelles suscitou a troça e o fastio, e muito menos supor a magnificência do fra­
casso que, apesar de todos os reclames de um empresário teatral e a proteção dos poderes, con­
seguiu assegurar para as suas eructações rabelaisianas (alusão à conferência sobre Rabelais, pro­
nunciada na Argentina).
O erro de certos estrangeiros de renome, ao visitarem os países novos, era pensar que iam diri­
gir�se a gente sem cultura e podiam apresentar suas rapsódias como maravilhas inéditas a um
público cândido de neófitos das letras e das artes. Foi o que acontecera com Anatole.
Ignorando que a classe culta da Argentina e do Brasil, pela educação, pelas leituras, pelas perp
manências repetidas na Europa, sobretudo em Paris, estava ao corrente, às vezes bem melhor
do que muitos franceses, da evolução literária e dos costumes da França, julgou suficiente para
ganhar a forte soma de um contrato ler simplesmente diante do público as páginas de seu es­
tudo sobre Rabelais. Anarole France - considerava o padre Gaffre - teve de convencer�se de
que o gênio dissolvente do certos autores da moda não consumou ainda no estrangeiro a sua
obra de ceticismo e de imoralidade nas classes elevadas que se interessam pela palavra dos
oradores franceses.

23 6 � L/Í Vida Literária no Brasil


com que, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, oprimira os católi­
cos do seu país. Partia a iniciativa da União Católica Brasileira, de que o mis­
sivista era secretário. "Não concordamos de forma alguma com essa enfiada de
ateus que uns após outros vêm fazer a América" - escrevia ele -, "trazer aos
selvagens brasileiros a alta civilização européia, levar o dinheiro com que os mi­
moseamos e rirem-se lá do Brasil, pagando a nossa generosidade nos livros que
depois escrevem com mentiras que nos desacreditam."
Clemenceau aqui chegou a 1 5 de setembro, vindo de Buenos Aires, em
companhia do dr. Cognard, interno dos hospitais de Paris, seu médico parti­
cular que o acompanhava em todas as excursões. Embora cumprindo um con­
trato em condições semelhantes a Anatole France, 19 não deixou por isso indi­
ferente os poderes governamentais, que lhe prestaram expressivas homenagens.
Houve, no entanto, algumas notas dissonantes. O líder da maioria na Câmara,
J. J. Seabra, propôs se designasse uma comissão para comparecer ao desembar­
que do hóspede ilustre e saudá-lo em nome da casa. O líder da minoria,
Barbosa Lima, aprovou a resolução. Levanta-se porém o deputado Passos de
Miranda declarando-se contrário à idéia já que do "estudo da história francesa
não se verifica que haja razão para a homenagem pedidà'. Passa, então, a ana­
lisar a personalidade de Clemenceau sob o tríplice aspecto: literário, científico
e político. Literariamente, livros como MNée sociale e Grandpan não bastavam
para celebrizar o autor; cientificamente, tratava-se de um médico fracassado, e o
político não fizera mais do que combater os católicos. Esse estranho ponto de
vista suscitou o pronunciamento do deputado católico Altino Arantes que, em­
bora discordando dos processos violentos de Clemenceau, proclamou-lhe o mé­
rito dizendo ter o próprio político muitos traços simpáticos para os católicos,
como o de haver provocado a queda de um gabinete anti-religioso. Apoiava,
pois, a homenagem, pedindo apenas se tornasse a mesma extensiva aos parla­
mentares italianos também em visita ao Brasil. Aprovada a moção, fez-se repre­
sentar a Câmara no desembarque do grande derrubador de ministérios, sau­
dando-o em nome dela o deputado Quintino Bocaiúva.

19. Em carta dirigida ao Correio da Manhã (4�9� 1 9 1 0) , Guilherme da Rosa diz ter sido o pro�
motor da visita de Clemenceau ao Brasil para pronunciar conferências no Teatro Municipal.
Nesse sentido, já havia sido aberta urna assinatura.

CAPÍTULO XVI �237


No Senado, Francisco Glicério justificou um requerimento para que a ca­
sa se reunisse em sessão a fim de receber Clemenceau. Fernando Mendes com­
bateu a idéia, perguntando se já tinha havido precedentes. A mesa responde u
afirmativamente, aludindo a Root e aos senadores argentinos que acompanha­
ram Júlio Roca. Fernando Mendes replicou, dizendo que os outros traziam
uma missão oficial, enquanto Clemenceau nos visitava apenas como turista.
Lauro Sodré aparteou: Clemenceau era o apóstolo da liberdade da consciên­
cia humana. Interveio Glicério: ninguém poderia negar a Clemenceau o direi­
to de representar a França; sabia que o colega do Maranhão combatia o reque­
rimento exclusivamente pelo seu espírito religioso. Mas qual era o espírito
religioso do Brasil? Vivíamos num regime em que a Igreja estava separada do
Estado. E citava o caso de Joaquim Nabuco, recebido outrora no Parlamento
português, sem estar investido de missão oficial. Fernando Mendes retoma
a palavra, alegando que Clemenceau viera visitar-nos por interesses comer­
ciais. Era o que se depreendia dos anúncios publicados. Glicério replica: não
se tratava propriamente de interesses comerciais, mas de beneficiar uma insti­
tuição de caridade. Pergunta se o colega negaria o seu óbolo para tal fim.
Fala ainda Antônio Azeredo, chamando Fernando Mendes de reacionário, e o
requerimento, posto em votação, acaba sendo aprovado por todos, exceto pe­
lo irredutível Fernando Mendes. Recebido no Senado, Clemenceau foi sauda­
do por Glicério e por Jorge Morais, orador oficial, que falou em francês.
No dia 20 de setembro realizava ele a primeira conferência, dissertando so­
bre as origens da democracia. O auditório notou logo a diferença entre o po­
lítico francês e Ferri, cuja impressão permanecia viva no espírito de todos.
Clemenceau falava em tom de conversa, andando pelo palco, sem aquela ex­
traordinária ênfase do orador italiano. Em certa altura incitou os brasileiros
a darem maior desenvolvimento e amplitude ao sentimento de latinidade que
existe em nós, fazendo-o acompanhar de uma dose de empirismo, do senso
prático e espírito comercial, a fim de obtermos o mais cedo possível os mag­
níficos resultados da civilização norte-americana. E concluiu: os erros da de­
mocracia, apontados como prova de que ela nada vale, não são propriamente
da democracia e sim dos homens aos quais cumpre aperfeiçoar.
Na segunda conferência no dia 22, ainda sobre as origens da democracia,
Clemenceau salientou o papel do cristianismo, reformando moralmente o ho-

2 3 8 � LA Vida Literdria no Brasil


mem e elevando o nível moral da mulher. Manifestou suas simpatias pelo
Brasil e pelo regime presidencial.
No dia 24 falou sobre a democracia e a Igreja. As relações do Estado com
a Igreja nunca apresentaram aspectos tão delicados como nos dias atuais, dis­
se ele. Achava que o cristianismo tivera um alcance doutrinário propício a fo­
mentar a paz no mundo. A pregação da sua moral e o apostolado dos seus
princípios haveriam assegurado tal conquista se São Paulo e seus companhei­
ros de evangelização não a tivessem anulado pelos gestos de força do poder po­
lítico que veio assim prejudicar em grande parte a obra de Cristo: esse poder
polírico que aliava o tírulo de imperador ao de pontífice mentiu aos próprios
fundamentos da religião cristã. O princípio de Cristo "Dai a César o que é de
César" fora adulterado - afirmava o orador, passando a historiar o liberalis­
mo da Revolução Francesa para concluir que a intromissão dos sacerdotes nos
negócios públicos e no governo chegara na França a extremos intoleráveis.
Daí o esforço do orador e de outros para conseguirem a separação dos dois po­
deres. Resisrindo a tudo, venceram: a separação foi posta em prática. Não obs­
tante, os agoureiros continuavam a pressagiar males para a França. Mas cada
renovação parlamentar deitava por terra a esperança dos reacionários clericais.
O aspecto fundamental dessa separação - finalizava Clemenceau - era o en­
sino. A França resolvera o problema instituindo a história leiga.
Já no dia 23 se iniciara a série de conferências promovidas pelos carólicos

1 em resposta a Clemenceau. Falou primeiramente Lúcio dos Santos sobre


"A democracia e o governo", sustentando a tese de que se tornava necessário

l.
um fundo religioso para que o governo democrático não degenerasse numa
absoluta anarquia, sendo ele incompatível com o livre-pensamento.
No dia 26, Oliveira e Silva, o mesmo que já contraditara Ferri, pronuncia­
va uma palestra na Associação dos Empregados do Comércio, refutando as
idéias de Clemenceau.
A 28 de setembro já o político francês se encontrava em São Paulo reali­
zando uma conferência no Teatro de Sant'Ana.20 A 6 de outubro se achava

20. Nu1na nota de 25�9� 191 O, a Gazeta de Notícitls con1entava, em tom chocarreiro, o fato de
C!emenceau estar sendo aco1npanhado, desde Buenos Aires, pela Cia. Francesa de Grand
Guignol, que representava scrnpre na mesrna cidade, e às vezes no mesn10 teatro, em que o estadista

1 CAPÍTULO XVI � 2 3 9
novamente no Rio, falando na Escola Politécnica. A 1 O, logo após a procla­
mação da República em Portugal, despedia-se do público brasileiro proferin­
do sua última conferência no Municipal. Fez então, "como irmão mais velho1'
- na expressão de um matutino -, a crítica construtiva de várias coisas que
vira no país. Falou do problema operário, das excelentes condições de equipa­
mento das nossas Forças Armadas (aludindo à Força Pública de São Paulo,
instruída por militares franceses), da questão religiosa e dos telegramas que re­
cebera de Porrugal. Terminou salientando a obra de Oswaldo Cruz e Vital
Brasil, atribuindo-nos a primazia intelecrual na América. De regresso à França,
Clemenceau publicou o livro Notes de voyage dans l'Amérique du Sud, com re­
ferências amáveis ao Brasil.

No dia 8 de dezembro de 191 O, dois meses após a partida de Clemenceau,


chegava ao Rio o padre L. A. Gaffre, dominicano francês, que excursionava
pela América do Sul seguindo o mesmo itinerário do famoso político, com o
propósito de combater-lhe as idéias. Vinha ele cumprir um programa de cin­
co conferências, mas somente a 18 proferiu a primeira e isto, talvez, por cau­
sa da insurreição da Marinha, que se verificou no dia 1 0 e foi logo abafada
pelo governo.
O presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, juntamente
com o ministro da Viação, J. J. Seabra, compareceu ao Teatro Municipal, on­
de se realizou a palestra, indo cumprimentar o orador. O padre Gaffre falou
sobre o seguinte tema: "A verdadeira democracia na sua essência e nos seus

se fazia ouvir, uma peça em um aro por ele escrita na mocidade: Le Voile du Bonheur. Ora,
Clemenceau vinha�se irritando sensivelmente com isso. Em Buenos Aires quis mesmo impedir
a representação, não conseguindo. Qual o motivo de semelhante ojeriza? É que ele considera�
va a peça um pecado de juventude, qualquer coisa como aqueles versos "Se eu fosse o teu gati�
nho" que Carlos de Laet conletera outrora e dos quais não podia ouvir falar. Le Voi!e du
Bonheur devia ir à cena no Palace Théâtre nessa noite.
No dia seguinte, o cronista teatral da Gazeta dizia ter agradado em cheio o ato único, causan�
do a melhor impressão no público. O enredo, inspirado num conto chinês, era forte e co�
movente. Não havia, pois, motivo para Cleinenceau envergonhar�se do seu trabalho.

2 4 O _, vf Vida Literária no Brasil


princípios é fruto da lgrejà'. Falaria no dia 19 sobre "A democracia entre as
mãos dos agitadores torna-se o socialismo inimigo da lgrejà', e no dia 2 1 so­
bre ''A necessidade de católicos trabalharem para a verdadeira democracia e
impedir os excessos do socialismo revolucionário" .
Nessa ocasião, o dominicano francês já conquistara o auditório, não so­
mente pela segurança com que desenvolvia as teses, como pelas qualidades es­
pecíficas de orador, a magnífica dicção, a gesticulação sóbria. Os católicos
exulravam e o Municipal se enchia de um auditório atento.
As conferências, segundo o costume da época, eram pagas (cinco mil-réis
a cadeira) , revertendo, porém, o produto em favor de obras de caridade. Numa
delas foi visto na platéia o padre Sena Freitas, aquele mesmo Sena Freitas que
se tornara famoso pela sua polêmica em 1888 com Júlio Ribeiro, a propósito
d'A carne. Depois de se haver retirado para Portugal, ali passando muitos
anos, chegara há pouco ao Brasil, onde devia fàlecer, em 1 9 1 3.21 Mas os anti­
clericais não se mantinham impassíveis. E assim, do seu lado, promoviam
também uma série de conferências em contradita ao sacerdote francês. Da pri­
meira, realizada no Palácio Monroe, incumbiu-se o conhecido tribuno Coelho
Lisboa.22 E o mais curioso é que a ela compareceram igualmente o presiden­

1
te da República e o ministro da Viação.
O marechal Hermes e J. J. Seabra, como bons políticos, cortejavam, de igual
maneira, Deus e o diabo. Deve-se levar em conta, além disso, que em 191 O os
nossos governos ainda sofriam influência das idéias positivistas, sob cuja égide se
proclamara a República. Coelho Lisboa atacou com veemência o padre Gaffre,
causticando-lhe a presunção de querer destruir toda a força da palavra eloqüen­
te de Clemenceau com banalidades ditas em belo estilo e em bom francês.

21. Interrogado pela Gazeta de Notícias a 25 de outubro de 1 9 1 0 sobre a proclamação da


República em Portugal, o padre Sena Freiras, apesar da insistência do repórter, recusou-se ter­
minantemente a manifestar-se. "Eu vim para o Brasil anres do movimento" - declarou ele -,
"muito doente, 'neurastênico', com uma violenta surmenage. A receita do médico era paz de es­
pírito, e o senhor exige de mim uma incursão ao meu regime dietético."
22. No seu Didrio secreto (1.U tomo), Humberto de Campos reporta-se a um encontro com
Bilac em que este lhe dissera ter visto Coelho Lisboa, numa Sexta-feira Santa, numa roda de
moços à porta da Garnier, dizendo-·lhes: "Rapazes, dou-lhes a minha palavra de honra de que
Deus não existe."

CAPÍTULO XVI �241


As demais conferências de Gaffrc tiveram por temas: "O que deve ser a
mulher para cumprir o seu papel social" e "Paz e guerra - a paz universal
pela educação". Arrematando seus pontos de vista sobre o papel social da
mulher, declarou ele, ante a surpresa do audir6rio, que havia percorrido o Rio
de Janeiro, à noite, fora aos lugares mais suspeitos e vira moças de vinte-e até
homens de idade avançada em lupanares dos mais avilrantes: "Que fazeis, v6s
,
ó mães! ó pais!, que não sabeis reter em casa vossos maridos e vossos filhos!'
- exclamou, enérgico.
Ora, essa excursão do sacerdote francês pelo Rio noturno fora testemunha­
da por um rep6rter da Gazeta de Notícias, que a descrevera, de maneira pito­
resca, anteriormente, a 14 de dezembro, numa crônica sob o título: (<O Bas­
,,
fond do Rio. Diz o repórter ter encontrado às sete horas da noite, na rua da
Carioca, com um cavalheiro envergando correta sobrecasaca, chapéu-coco,
colete e gravata, tudo de cor negra, denotando um apuro smart, levando um
guarda-chuva e um sobretudo no braço. Não lhe foi difícil reconhecer o pa­
dre Gaffre à paisana. Começou então a segui-lo, à distância, a fim de não des­
pertar suspeita. O padre parou à porta do Cinema Soberano; mais adiante, à
do Cinema Ideal, e mais adiante ainda, já no largo do Rússio, à do Cinema
Brasil. Em todos lera o programa com atenção. Via-se, porém, que era sim­
ples curiosidade e não vontade de entrar. Observara com a mesma curiosida­
de todos os bares e cafés, baratos ou chiques, da rua da Carioca. Perambulou
cerca de hora e meia pelo Rossio (praça Tiradentes) , contornando o largo pela
calçada que circunda o jardim umas seis vezes no mínimo. Entrou na Stadt
München e tomou uma garrafa de água mineral; penetrou depois no Moulin
Rouge, permanecendo apenas na parte do jardim, dos divertimentos públicos
ao ar livre. O rep6rter sempre a espreitá-lo.
Acabou deixando o largo e encaminhando-se pela rua Visconde do Rio
Branco até a esquina de Lavradio. Eram quase nove horas da noite - "a hora
mais violenta do vício)' no Rossio e naquelas ruas circunvizinhas. Capoeiras, ma­
rinheiros, soldados, as "mariposas') no clássico trottoir, tudo isso fazia o circuns­
pecto cavalheiro parar a cada instante, observar, ouvir e até dirigir perguntas.
Agora, volta ele pelo largo; o repórter perde-o de vista uns cinco minutos,
para reencontrá-lo na esquina do Stadt München e acompanhá-lo na direção
do largo da Carioca. Ali, o padre enrra pela rua Senador Dantas, indo ter à

2 4 2 � LA Vida Literdria no Brasil


Lapa, onde faz, como no Rossio, um detalhado reconhecimento, observando
rodo s os cafés-cantantes da avenida Mein de Sá e adjacências.
Em seguida, aboleta-se num bonde que vai para o Catete e salta no largo do
Machado. Sempre na pista, o repórter o vê agora caminhar, como quem se di­
rige para o Hotel dos Estrangeiros; mas ei-lo que dobra a esquina de Almirante
Tamandaré, indo por esta até a praia do Flamengo. Deviam ser onze horas da
noite. O local estava quase deserto. O padre Gaffre toma do sobretudo que le­
vava no braço e veste-o: o sobretudo não era mais do que uma batina.
Assim, readquirindo a postura eclesiástica, como num passe de mágica, o
sacerdote francês inclina para a praça José de Alencar, desaparecendo no Hotel
dos Estrangeiros, onde se achava hospedado. Eis por que pudera, na noite de
23 de dezembro, fazer aquela enérgica interpelação ao auditório.
Do Rio, Gaffre foi a São Paulo, onde pronunciou também algumas con­
ferências, e de regresso à França publicou, em 1912, um livro muito simpáti­
co ao nosso país intitulado Visions du Brési!. Embora, como declarava ele na
introdução, não viesse dizer nada de novo a nosso respeito - contentando-se
em projetar no claro-escuro da memória suas ('visões" -, a obra oferece mui­

1j
tos aspectos interessantes.
Chegando ao Rio a 8 de dezembro de 1910, o padre Gaffre foi testemu­
nha, como já vimos, da insurreição da Marinha em prosseguimento da revol­
ta de João Cindido, e o quadro que ele nos dá do bombardeio da cidade é vi­
vo e animado. As páginas seguintes nos vão revelando um viajante inteligente,
sabendo surpreender os detalhes característicos do país, embora incidindo,
num ou noutro ponto, em generalizações apressadas. Os flagrantes do Rio e de
São Paulo; o encontro com Rio Branco em Petrópolis e com Rui Barbosa na
Fazenda do Rio das Pedras, nas proximidades de Campinas; as impressões da
Trapa, em Tremembé; a reprodução de um diálogo com um negro velho na­
quele recanto do interior paulista, são páginas de boa reportagem, que denun­
ciam no padre Gaffre um jornalista ágil, mestre no gênero choses vues.
Não deixa ele de referir-se ao movimento anticlerical, sensível no Rio e em
São Paulo, acusando nesta última cidade a ação nefasta da maçonaria italiana,
o que o leva a derivar para o tom polêmico. Pior do que a febre amarela, a va­
ríola e as cobras venenosas lhe parecem os ódios religiosos. Decerto, não po­

1
dia separar a sua condição de viajante estudioso, jornalista e escritor, da de

CAPÍTULO XVI � 2 4 3
sacerdote católico, e era precisamente nessa condição que viajava. Seu livro ti­
nha de servir à causa a que o autor se consagrara revestindo-se em muitas pá­
ginas de ;,m caráter combativo, mas será difícil negar o prisma de simpatia
através do qual desfilam essas "visões do Brasil".

Mais ainda do que Anatole France e Ferrero, Paul Adam iria dar grande
extração, entre n6s, à palavra "latinidade". Chegou ao Rio em meados de
maio de 1 9 1 1 para uma prolongada permanência no Brasil, onde dizia pre­
tender estudar o aspecto do problema das raças na América Latina. Recepção
oficial, almoços, passeios, visitas a estabelecimentos públicos.
Na primeira conferência realizada no Rio, sobre o tema '<O mito de fcaro",
tratou do gênio inventivo e do espírito científico das raças latinas. Aquilo que
o poeta latino tinha imaginado, o inventor latino conseguira realizar: a avia­
ção. E aqui vinha o elogio a Santos Dumont. Desse ponto de vista, esforçava­
se por mostrar que todas as grandes invenções haviam partido do gênio lati­
no. O ciclo das descobertas fora obra dessa raça privilegiada. Entre os povos
latinos existe, pois, um parentesco, resultante das mesmas concepções de qua­
lidades comuns e de um único gênio. E não poderiam esses laços do espírito
transformar-se em relações materiais? Sim, um tratado de aliança entre a
França e o Brasil era coisa que se impunha.
Na segunda conferência, a 3 de junho, no Clube dos Diários, com a pre­
sença do presidente da República, o marechal Hermes da Fonseca, Paul Adam
falou sobre o "Mito de Vênus", para exaltar a superioridade da mulher latina
sobre as demais e concluir, por aí, das virtudes da mulher brasileira.
Mas na sessão solene com que a Academia Brasileira o recebeu, em 20 de
maio, José Veríssimo, ao saudá-lo num pequeno discurso em francês, acentuou,
com espírito realista e a sinceridade brusca que lhe era comum: "Não sei su­
ficientemente, permita-me dizer-vos, o que poderá haver de verdadeiro na con­
cepção que vos é cara de raça latina e latinidade. Quanto a mim, duvido muito
da propriedade dessa designação de raça latina. Não obstante, creio no espíri­
to latino como resultado da cultura que a Itália, a França e a Ibéria receberam
de Roma, aumentando e transmitindo a outros povos. Apesar das influências

244 é<A LÁ Vida Literdria no Brasil


ernográficas diversas que agiratn sobre nós brasileiros, constatareis aqui esse es­
pírito e haveis de encontrar, possivelmente, motivos para ratificar vossas idéias e
sentimentos sobre o futuro das nações de língua e cultura latina."
Do Rio Paul Adam foi a São Paulo, a Santa Catarina, a Ouro Preto e ao
Amazonas, como se depreende do livro que publicou em 1914, em Paris, sob
0 título Visages du Brésil. Era uma obra naturalmente encomendada para a

propaganda do Brasil no estrangeiro; o autor não se limita a impressões de via­


gem, fula também da nossa história, de nossas condições político-sociais, in­
dicando os que lhe forneceram os dados para isso. Referindo-se a Tiradentes,
chama-o "l'enciclopédiste". E não pode deixar de provocar-nos um sorriso irô­
nico ao descrever a avenida Central com as calçadas desertas, exceto nas pro­
ximidades dos cinematógrafos, os parques e jardins abandonados pelo povo
(que até hoje não tem o hábito de freqüentá-los, como na Europa) ; e aludin­
do à carestia da vida - tudo era, então, terrivelmente caro no Rio de Janeiro.
No entanto, apesar dos louvores ao Brasil, de haver escrito no prefácio:
"Gostaria que os turistas apaixonados por Viena e Moscou fossem, para seu
regozijo, às igrejas da Bahia e Ouro Prero", da exaltação da nossa latinidade,

l
Paul Adam suscitou ressentimentos por não ter esquecido os mulatos e as mu­
latas que andam pelas ruas do Rio: ''Ses yeux afticains, sa figure portugaise, son
allure indienne reparurent en mille damés entravées, empanachées, couvertes de
kermines royales. " Esta e outras referências semelhantes os leitores brasileiros

l
não lhe perdoariam.

Em junho de 1912, chega também ao Rio o poeta e escritor Rubén Dario.


Não era a primeira vez que vinha ao nosso país. Já estivera aqui como delega­
do da Nicarágua, em 1906, na Conferência Pan-americana a que compareceu
o secretário de Estado norte-americano Elihu Root e constituiu uma das gran­
des conquistas da diplomacia de Rio Branco e Nabuco.
No livro El archivo de Rubén Darío, de Alberto Ghiraldo, encontramos
uma carta do escritor venezuelano Rufino Blanco Fombona, manifestando
ao autor de Los raros, seu velho amigo, o desprazer que lhe causara vê-lo
exaltar os Estados Unidos numa poesia "El aguila", incluída no livro de um

CAPÍTULO XVI �245


"escritor português". Tendo-se mostrado sempre hostil aos Estados Unidos,
Fombona não podia perdoar a Darío esse "infame" poema. No mesmo li­
vro, temos a resposta de Darío, num tom muito bem-humorado, dizendo
que saudar a águia, quando hacemos cosas dip/,omdticas, nada tem de parti­
cular, e explicando: "O escritor português de que você fala, não é português
e sim brasileiro. Os versos foram escritos depois de haver eu conhecido
Mr. Root e outros grandes e gentis ianques e publicados j untos com os de
um poeta do Brasil."
Por essa ocasião, Elísio de Carvalho, que visitou o poeta num luxuoso
apartamento de hotel em Santa Teresa, encontrou-o "vestido com uma im­
pecável correção britinica, taciturno, numa atitude impassível e extática, em­
bebido no próprio pensamento, o rosto fundamente contraído num ríctus de
consternação". Era o tipo do intelectual blasé. Apoiava as mãos sobre a mesa,
onde se achavam, entre outras brochuras, um livro de Remy de Gourmont,
Pages choisies de Gobineau e o De profandis de Oscar Wilde, "encarando so­
turnamente o panorama que se desenrolava diante dos seus olhos de asiático,
numa atmosfera azul, diáfana e etéreà,. Darío queixa-se, a princípio, de ne­
vralgias violentas, acompanhadas de "ataques misteriosos", cuja origem nin­
guém lhe explicava; depois falam de Wilde, e o poeta lê precisamente um
canto de E! aguila, o poema consagrado aos Estados Unidos e que provocara
o protesto de Fombona; lê ainda um soneto sobre tema metafísico e delica­
das quadras à maneira de Omar Khayyam.
E o esplendor da natureza brasileira, aquela paisagem luxuriante que dali
se descortinava, não lhe havia inspirado nenhum poema? - pergunta-lhe
Elísio de Carvalho. Darío limita-se a responder que para ele o mundo exterior
,,
não existe. ('De fato - completa o cronista -, "misto de anjo e de sátiro,
o poeta atravessa a vida como um sonâmbulo, vivendo, ora mergulhado nos
abismos da sombra, ora num mundo de claridades." E dando os últimos re­
toques nesse retrato, talvez um tanto literário, arremata: ''A sua existência
é uma luta dolorosa, sem tréguas, gerada pelo contraste que existe entre seu
aéreo sonho de beleza e a realidade tangível, brutal e esmagadora, entre as cria­
turas de sua imaginação e os seres que lhe cercam.')23

23. Elísio de Carvalho, Five O'c-lock, Garnier, Rio, 1909.

246 1"""'I u1 Vida Literdria no Brasil


Em 1 9 12, Darío já se encontrava afastado da diplomacia, dirigindo duas
grandes revistas ilustradas, uma delas, Mundial, circulando em Paris. A servi­
ço desta última vinha ele ao Brasil fazer conferências. Seu nome já se havia
tornado célebre em rodo o continente; era o grande poeta que encabeçara um
verdadeiro movimento modernista na literatura hispano-americana: No en­
tanto, ao saudá-lo na Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo acentua­
va: "(...) filhos do mesmo continente, quase da mesma terra, oriundos de po­
vos em suma da mesma raça ou pelo menos da mesma formação cultural, com

l
l
grandes interesses comuns, vivemos nós, latino�americanos, pouco mais que
alheios e indiferentes uns aos outros, e nos ignorando quase por completo."
O interessante é que nesse próprio discurso Veríssimo parecia dar uma prova

1 dessa ignorância, referindo-se à personalidade de Rubén Darío em termos in­


teiramente vagos, sem caracterizá-lo por qualquer detalhe, limitando-se a fa­
lar em poeta de "sentimento ao mesmo tempo profundo e alto)', em "prosa­
dor de esquisita elegâncià'. Somos inclinados a crer que ele também nunca
havia lido um livro do autor de Tierras solares.
O grande acontecimento nessa visita de Rubén Darío à capital da
República foi a conferência sobre Joaquim Nabuco que ele devia realizar na
noite de 17 de junho no Clube dos Diários, e que não chegou a proferir pes­
soalmente por motivo bem singular. Os jornais da época referem-se à decep­
ção da numerosa assistência, na qual se encontrava o presidente da República,
ao ser informada de que o poeta não falaria por ter adoecido repentinamente
- um resfriado em conseqüência da chuva do dia anterior -, frisava a Gazeta
de Notícias. O sr. Alfredo Guido, gerente da revista Mundial, fazia essa comu­
nicação ao público, pedindo-lhe desculpas e declarando ao mesmo tempo que
a conferência seria lida pelo sr. Javier Bueno, secretário do ilustre visitante.
Não se salvou com isso a situação. Em primeiro lugar, as pessoas que ali se
achavam tinham vindo mais pelo desejo de ver o poeta. Depois, o secretário
lia mal, em voz baixa, não se fazendo escutar pela maior parte da assistência.
Dentro em pouco, muita gente entediada começou a retirar-se, e foi um mo­
vimento desanimador de casacas e smokings naquela sala elegante. Qualquer
coisa de verdadeiramente lamentável.
No dia seguinte, O País publicava na íntegra a conferência tão mal ouvida
pela assistência. Não encontramos nela nada de novo sobre Joaquim Nabuco,

C A P Í T U L O X V I .:::--9 247
nem mesmo - o que seria particularmente interessante - as impressões dos
contatos pessoais do poeta com o grande brasileiro. É uma página de prosa
límpida e ;onora, mais propriamente de divagações em torno dessa figura,
que pelo seu caráter olímpico não podia deixar de seduzir o espírito artístico
de Rubén Dario. Apenas, em dada altura, já temos a indefectível menção de
Nietzsche, as alusões ao Assimfalava Zaratustra - citação inevitável na época.
E quanto ao resfriado do poeta, conseqüente da chuva do dia anterior, não
foi mais do que um dos excessos de libação alcoólica a que esse temperamen­
to boêmio e amargurado com freqüência se entregava, sem atender às exigên­
cias do momento. 24
Do Rio, Rubén Dario foi a São Paulo, onde, a julgar-se por um curiosís­
simo depoimento de René Thiollier, seu velho conhecido, que o acompanhou
durante a permanência ali, caiu numa situação deplorável.25 Dir-se-ia qual­
quer coisa de semelhante à tragicômica dipsomania de William Faulkner,
quando em 1952 visitou a Paulicéia. Desde que chegou, o poeta não soube di­
zer outra coisa senão isto: "Tengo sed! Tengo sed!"
A mesma frase ansiosa que René Thiollier dele ouvira outrora na terrasse
do Café de La Paix, em Paris. E como lá, seu desejo em São Paulo concentra­
va-se no seguinte: um copo de whisky and soda. Nenhum interesse pela cida­
de, completa indiferença por tudo o que via. Sua opinião sobre o Brasil resu­
mia-se no seguinte: ''Es el mismo que mi pais, pero mds grande!" Impossível
tirar-lhe mais uma palavra a respeito. Em traços animados, René Thiollier
mostra-o desolado diante do Grande Hotel, negando-se a "subir a pié una es­
calera en un siglo de fuces"; depois, entusiasmando-se com a esposa de Paul
Adam, o escritor francês que nessa mesma ocasião visitava São Paulo (Es una
princesa de gloria!), para acabar atirando-se na carna, vencido pelo álcool.
No dia seguinte, na audiência concedida gentilmente pelo presidente do esta­
do, o conselheiro Rodrigues Alves, que desconchavo! Fora necessário antes
não atender absolutamente as suas constantes súplicas: "Tengo sed!" Mesmo as­
sim, no palácio, enquanto espera o presidente, o poeta não mantém a linha,
dobra o corpo sobre os joelhos, finca neles os cotovelos, esconde a testa entre

24. Informação de Alvaro Moreyra.


25. Renê 'fhiollier, O homem da galeria, São Paulo.

248 """" l/Í Vida Literdria no Brasil


as mãos. E uma sobrecasaca nova, que lhe vai muito mal, lhe tolhe os movi­
mentos, dando-lhe uma postura ridícula. Diante do presidente, sua atitude
não se torna mais conveniente. Rodrigues Alves, homem gentilíssimo, esten­
de-lhe afavelmente a mão. Sentando-se ao lado, num canapé, Rubén Dario
parece meio aturdido, encara-o com um olhar macilento e vago, como se es­
tivesse muito distante dali. Não lhe responde as perguntas. A conversa se ar­
rasta constrangedora para todos os presentes até o tiro de magnésio que atrai
assustado o ajudante-de-ordens, que se achava no gabinete vizinho e leva o
poeta, num sorriso fatigado e palerma, a dizer em francês ao conselheiro: ''II
a cru sUrement à un attentat anarchiste!"
A convite de Altino Arantes, secretário do Interior, vai daí a dois dias as­
sistir a urna festa no Butantã, e ali o descalabro se torna mais con1pleto ainda.
Ao tentar pronunciar um discurso, a pedido de senhoras presentes, a "língua
travou-se em golfadas aziumadas" e "mal seguro nas pernas, tombou por so­
bre a mesa dos doces, mutilando copos e pratos, conspurcando-se todo".
Não tardaria a partir para Santos, a caminho de Buenos Aires. "la pálido"
- diz René Thiollier. - "Dobrava-se sobre si mesmo como um Cristo, sob
o peso do seu lenho na sua via dolorosa."

l
Muitos outros escritores, políticos e cientistas estrangeiros visitaram o Brasil
no período que estudamos. O desenvolvimento do nosso país e da Argentina

l
despertava a curiosidade dos europeus pela América do Sul. E era um mercado
que se abria também ao interesse financeiro de certos viajantes. A frase faire
FAmérique tornou-se um slogan da época. Aqui estiveram Jean Jaures, Paul
Doumer (que viria a tornar-se mais tarde presidente da França, posto em que
seria assassinado) , o cientista francês Georges Dumas (iniciando uma série de
visitas que se repetiriam com alguns intervalos até por volta de 1930); Jane
Catulle Mendes, que escreveu depois um livro de poemas sobre o Rio, La vil/e
merveilleuse, e foi, segundo Onestaldo de Pennafort, quem batizou a nossa ca­
pital de Cidade Maravilhosa; a escritora italiana Bianca Papacena (a quem se
refere Gilberto Amado em Chave de Salomão [l' ed.], recordando-lhe uma
conferência sobre a melomania dos napolitanos) ; a anarquista espanhola Belém

1 CAPÍTULO XVI �249


Saaraga (que excursionou por cidades do interior de São Paulo com grande es­
dndalo da�. populações católicas e devia visitar-nos de novo em 1931, sem pro­
duzir o mesmo rumor) ; vários escritores portugueses como Manoel Sousa
Pinto, Abel Botelho, João de Barros, e o espanhol Biasco Ibáfiez, de passagem
para Buenos Aires. Se muitos nos elogiavam depois, de volta aos respectivos
países, também várias tolices se divulgaram a nosso respeito. Ante o progresso
de que tanto nos ufanávamos, a avenida Central magnífica, não faltava quem,
a exemplo do famoso ator francês Antoine, fosse descobrir cobras no coração
do Rio de Janeiro. Aos livros sobre o Brasil a que já nos referimos, convém
acrescentar, no entanto, como um dos mais interessantes e honestos, o do fran­
cês Jean de Montlaur, que nos visitou em 19 13: Sur la trace des "bandeirantes".
A convite de Afonso Arinos, de quem era grande amigo, o autor fez pelo ser­
tão de Minas uma longa excursão relatada minuciosamente em páginas leves,
informativas, a que não falta o senso do pitoresco. Este, ao contrário dos
demais, não nos fala do Rio nem de São Paulo; trata apenas de Belo Horizonte
e algumas outras cidades mineiras em capítulos subsidiários e, se alude a serpen­
tes, diz pelo menos tê-las visto no sertão.

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! 1
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l: 25O &;::::q cA Vida Literária no Brasil


li •$> C AP fTU LO XVI I

cAmizades e inimizades """" <Yvfachado de uíssis entre José Veríssimo e


7\(gbuco """" cAexaltação afetiva de (jraça <.Aranha """" O ressentimento
de Oliveira JJ,ma e o gosto de "dizer verdades" """" 'Francisco Escobar,
o amigo exemplar """" ú'ifonteiro .(gbato e Çjodoftedo 'JV:!,ngel

1
l
l
� lgumas expressivas amizades marcaram as relações literárias no
l� começo do século XX. Quadro verdadeiramente edificante foi

1i
por exemplo o de Machado de Assis, no seu ocaso sereno, cerca­
-- do pela admiração e a estima de amigos ilustres.
E caso bem curioso: tido como retraído, acusado injustamente de pos­
suir um coração frio , sua vida nos oferece, entretanto, um belo espetáculo
humano do culto da amizade. '1Pouco íntimo com os íntímos1'; ((Recebia
mais do que davà' são, entre outras, as acusações que lhe fazem. Mas é
preciso considerar o elastério que a nossa exuberância tropical pode empres­
tar a esse termo íntimo. Pouco íntimo seria talvez Machado de Assis, no
conceito de muita gente, porque não costumava dar piparotes na barriga dos
amigos, nem permitia certas franquias de trato, que refletem antes uma vis­
ceral tendência para o plebeísmo, do que a aproximação estreita de dois
espíritos. Não fazia confidências, guardava sempre irrepreensível discrição
no que se referia à vida particular; mas suas cartas aí estão para mostrar que

1 sabia ter sempre a palavra de conforto adequada e justa para as atribulações


e as dores dos amigos. O equívoco resulta, em última análise, do fato de

l
Machado ter sido um homem extremamente polido num país de derrama-

CAPÍTULO XVII � 2 51
dos como o nosso. Tomava-se por indiferença e secura de alma o que não
era senão medida, equilíbrio, a atitude de quem possuía os sentimentos
rigorosamente policiados.
À primeira vista, por exemplo, parece estranho que o autor de Dom
Casmurro se entendesse tão bem com um espírito da natureza de Joaquim
Nabuco. Temos a impressão de que grande distància os separava, e sob cer­
tos aspectos, constituía mesmo um antítese do outro. Já houve quem preten­
desse oferecer explicação para esse afeto no sentimento de piedade: Nabuco
teria pena de Machado e por isso o cercava de solicitudes e atenções. Mas se
examinarmos bem o caso veremos que havia um forte traço comum de tem­
peramento a aproximá-los: aquela polidez a que aludimos acima. Embora se
tivesse apaixonado por uma grande causa social como a escravidão, entregan­
do-se de corpo e alma à campanha, feita não s6 na imprensa e no Parlamen­
to como na praça pública; embora sua índole fosse a de um político militan­
,
1 te, de homem de luta, que não experimentava o "tédio da controvérsià -
!
' 1
aspectos pelos quais se distanciava de Machado -, Nabuco possuía a mesma
discrição, o mesmo senso da medida nas expansões íntimas, o mesmo pudor
que parecia frieza em Machado de Assis. Se não hesitava em fazer confidên­
cias - coisa incompatível com o temperamento do amigo -, soube, enrre­
tan to, guardar uma linha impecável de recato em Minha formação, que, ape­
sar do narcisismo de certas páginas, está longe de apresentar o caráter aberto
e instintivo das "confissões" à Rousseau. Mesmo no capítulo "Massanganâ',
a nota de ternura e emoção é toda ela contida. Nabuco controlava rigorosa­
mente os sentimentos, não suportando a idéia de que pudessem descobrir­
lhe algumas lágrimas nos olhos. E marca muito bem a atitude assumida por
ele nas amizades mais íntimas, a resposta que deu a Oliveira Lima quando es­
te se declarava disposro a lhe dizer "verdades", isto é, coisas desagradáveis, ao
outro. Resposta idêntica daria, certamente, Machado de Assis. Também ele
não suportaria a idéia de dizer coisas desagradáveis a um amigo pela necessi­
dade de ser franco. E s6 isto basta para acentuar a afinidade entre ambos.
Nas cartas que trocaram não há uma palavra menos amável, a menor referên­
cia capaz de ferir a suscetibilidade de um ou de outro; nenhum desses gestos
bruscos que se escudam no pretexto da franqueza. O entendimento, dentro
das conveniências afetivas, era perfeito.

2 5 2 � l/Í Vida Literdria no Brasil


De José Veríssi1no, ta1nbén1 Machado se achava separado por sensíveis di­
ferenças de temperamento; no entantq, a admiração que o primeiro votava
ao mestre, e a maneira pela qual este soube correspondê-la, estabeleceu estrei­
ta aproximação entre ambos. Nesse caso ainda, vemos como o romancista,
acusado de receber mais do que dar, sabia servir de bom grado aos amigos.
Nada pedindo a Veríssimo, atendia, não raro, pedidos deste: ora uma inter­
venção junto às "autoridades competentes" para que não faltasse água em Lins
de Vasconcelos, onde residia o crítico; ora uma reclamação ao diretor dos Cor­
reios, que o romancista solícito devia encaminhar. E vemos Machado, sempre
prestativo, respondendo que já havia tomado providências, deixando cair, a to­
do momento, sem derrames, a palavra doce de amizade e confiança.
Já com relação a Mário de Alencar, Machado assumiu uma atitude quase
paternal. Mário sentia-se atormentado por neuroses, em que devia subsistir
certa influência hereditária. José de Alencar experimentara verdadeira angústia
nos subterrâneos dos metrôs, em Londres; o filho, como se conclui de algumas
de suas cartas, parecia ter a fobia de andar de bonde e em outros veículos. É as­
sim, em tom lamurioso, queixando-se dos nervos, de doenças imaginárias,
num constante desalento, que se dirige ele ao amigo mais velho, aconselhan­
do-lhe também remédios, segundo o costume de todos os valetudinários.
E Machado, já mortalmente ferido pela moléstia que devia levá-lo à sepultu­

1
ra, não se cansa de enviar-lhe palavras de estimulo, encorajando-o, consolan­
do-o, com dedicação exemplar. Não faltou quem descobrisse uma ponta de
ridículo, ou pelo menos de trivialidade, nessas cartas de dois doentes, um
procurando animar o outro; mas, na verdade, o que distinguimos nelas é a
revelação de um Machado humano, estóico, caminhando sem um lamento
para a morte, sempre mais preocupado com os males do amigo do que com
os próprios, como acontece aos pais com relação aos filhos. As amizades do
cético de Brds Cubas foram, assim, na vida literária do Brasil, um elemenro
construtivo e, principalmente, uma tocante página de humanidade.

1 Joaquim Nabuco conheceu Graça Aranha nas reuniões da Revista Brasileira


por volta de 1 896 e sentiu-se logo tomado da mais viva simpatia por aquele

l CAPÍTULO XVII �253


jovem brilhante, inteligente, com certo gosto da atitude que o autor de Minha
,
formação não desdenharia. Nomeado para defender os direitos do Brasil na
questão de limites com a Guiana Inglesa, Nabuco levou Graça Aranha como
secretário; e mais tarde, ministro do Brasil em Londres, não dispensou a pre­
sença do amigo em idêntico posto na legação,
O que particularmente teria ligado Nabuco a Graça Aranha seria a juven­
tude dionisíaca deste último. Já em pleno outono, o artista de Pensées détachées
aquecia-se ao calor do entusiasmo do amigo mais moço. Sensibilidade de es­
teta, adorando as belas frases, o gesto largo, o romancista de Viagem maravi­
lhosa possuía o sentido heróico das grandes emoções. Tinha o louvor fácil e
inspirado. Bem sabemos como nunca receou o ridículo de escrever cartas em
estilo ultraconvencional, à semelhança daquela em que felicitou Rio Branco
pelo banquete a Guglielmo Ferrero. Mas a época comportava um pouco de li­
teratice, de artificialismo, e embora Nabuco, com o seu senso perfeito de equi­
líbrio, jamais incidisse nesse pecado, não veria com maus olhos certos exage­
ros do amigo. E como poderia vê-los se as afetações refletiam sempre a
incontinência de uma admiração muito viva e exaltada?
Em carta a Graça Aranha, em 5 de janeiro de 1905, Nabuco escrevia no
tom mais fervoroso: "Antes de tudo, os nossos mais felizes votos de ano­
bom. Sabem que sua felicidade é hoje parte da nossa. Quanto a nós dois,
particularmente nada em minha vida me parece tão generoso da parte da
providência como a sua amizade. Ela foi para mim uma renovação das fon­
tes da vida, isto é, da esperança, e a bela eflorescência do seu espírito é para
mim como que uma segunda mocidade intelectual. Isto diz tudo; o nome é
seu, o gozo é meu.'ii
É lamentável que não tenhamos, a par das cartas de Nabuco, as de Graça
Aranha. Imaginamos, porém, o quanto elas seriam trabalhadas, requintadas e
formais. Por tal motivo não se tornariam tão freqüentes quanto as de Nabuco.
Este escrevia facilmente - sente-se a fluidez do seu pensamento - missivas
espontâneas, que não traíam a procura, o rebuscamento, o esforço. Para Graça
Aranha, escrever uma carta ao amigo seria uma tarefa, e como o autor de

L Joaquim Nabuco, Cartas a amigos, col. e anot. por Carolina Nabuco, vol. II, pág. 201.
Instituto Progresso Editorial, São Paulo, 1949.

2 5 4 &A u1 Vida Literdria no Brasil


Canaã era um temperamento meio agráfico, devia exaurir-se algum tanto no
desejo de transformar cada missiva numa obra de arte. Nabuco compreendia
isso, e dirigindo-se à esposa do romancista; insinuava, com muito tato e finu­
ra: "Faça o Graça escrever-me, de vez em quando, não uma dessas cartas lon­
gas que o fatigam ou devem fatigar pelas vibrações que há nelas, eu o sei bem,
porque as recebo com toda a força que as causou, porém, meras noras de um
minuto de extensão, frescas da emoção ou impressão que liberam (em vez de
deixar a impressão acumular-se de dia para dia, como um peso inútil e sem­
pre crescente) , coisa que não lhe dê que pensar, que lhe possa mesmo ditar.
Assim eu ficarei mais contente, pois a carta longa, apressada, ansiosa, revelan­
do esforço, acumulação de esforço, por mais prazer que me dê, traz-me escrú­
pulos, pesar de o ver gastar-se por minha causa, fatigar-se." Vejam até onde ia
a delicadeza do amigo. E continuava no mesmo tom apreensivo: i'Eu não creio
que ele tenha a constituição menos resistente do que a do Magalhães de
Azeredo, mas quisera vê-lo diminuir a intensidade e o número das vibrações
da vida intelectual, a fim de poder com tal economia dar as obras a que está
destinado sem sacrifício e sem abalo. "2
Os cuidados de Nabuco podiam sugerir a um glosador malicioso a idéia
caricatural de Graça Aranha recolhendo-se ao leito, extenuado, deprimido,
e ante a pergunta: "Que foi? Que lhe aconteceu?", esta resposta surpreendente:
''Escreveu uma carta a Nabuco e esgotou-se muito, o médico recomendou-lhe
agora quinze dias de absoluto repouso ... "
Não levaremos a tanto a malícia e nem diremos que Graça Aranha produ­
ziu tão pouco em sua carreira literária com receio de enfraquecer-se. Aliás, es­
quivando-se de responder ao inquérito de João do Rio, no Momento literdrio,
dava-lhe alguns conselhos declarando que não se deve escrever muito. E o que
se conclui é que essa amizade para Nabuco foi, acima de tudo, uma ilusão de
rejuvenescimento. Em setembro de 1908, informado da possibilidade de ver
o amigo eleito deputado, a ele se dirige nestes termos: "Parece-me que sou eu
que estou a entrar para a vida parlamentar outra vez. " Nos umbrais da velhi­
ce, Graça Aranha procuraria nos moços dos quais se cercou, em atitude essen­
cialmente emocional, a mesma ilusão.

2. Idem, ibidem, págs. 259-260.

CAPÍTULO XVII � 2 5 5
Foi também a amizade de Nabuco que levou Graça Aranha à Academia
Brasileira, em circunstâncias verdadeiramente excepcionais. Graça Aranha
havia pubÍ icado na Revista Brasileira um capítulo do romance que tinha em
esboço e se intitularia Canaã. Fizera-o sob o pseudônimo feminino de Flávia
do Amaral e obtivera muitos elogios, inclusive do visconde de Taunay. Fun­
dada a Academia em 1 896, estabelecera-se, como requisito essencial pata se
fazer parte dela, possuir um livro publicado. Graça Aranha não publicara ain­
da nenhum livro, mas Nabuco, já havendo lido muitas páginas de Canaã, em
preparo, propôs a inclusão do amigo no número dos sócios fundadores. Con­
vidado por Lúcio de Mendonça, Graça Aranha escusou-se da honra, permi­
tindo-se divergir da própria fundação da Academia.
Com suas "tendências francamente libertárias'' mostrava-se contrário a tu­
do que traduzisse proteção oficial às letras, e considerava a Academia nesse rol.
Referia-se depois às condições de nossa literatura, "pequenino ribeiro, cujas
águas se quer agora captar para levá-las a uma piscina limpá', terminando:
"Deixemos o filho da floresta entregue à sua braveza habitual. Deixemo-lo en­
grandecer-se livremente." A Academia não aceitou a recusa, apesar da crítica
um tanto impertinente de Graça Aranha, e este acabou concordando ) em car�
ta a Machado de Assis: "Rendo-me à discrição; sou um forçado da Academia.
Agora deixe-me a consolação de que a amizade como fundamento da solida­
riedade humana também é um princípio libertário. E assim, posso exclamar
tranqüilo: como é doce a incoerência."
Trinta anos depois, já na velhice, como num esforço de rejuvenescimento
- segundo observou maliciosamente Medeiros e Albuquerque-, o autor de
Canaã daria, afinal, expansão àquele ímpeto libertário de outrora, colocando­
se ao lado dos jovens modernistas e rompendo com a Academia, na tumultuo­
sa sessão de junho de 1924.
i

Bem ao contrário de Graça Aranha, Oliveira Lima era o tipo do homem


feiro para não se entender com Nabuco. A amizade entre ambos, no entanto,
durou rnuito tempo. Teve início quando Oliveira Limai contando apenas
quinze anos, escreveu un1 artigo sobre o apostolado abolicionista de Nabuco,

.,
25 6 é::A l/Í Vida Literdria no Brasil
gesto que muito comoveu este último. Mais tarde se encontraram em Lisboa,
. estreitando as relações de cordialidade. Desde então, vivendo sempre um lon­
ge do outro, passaram a corresponder-se.
Não podemos acompanhar pelas cartas, hoje publicadas - pois figuram
em pequeno número as dirigidas a Oliveira Lima -, a evolução dessa ami­
zade. Percebe-se que o autor de Dom joão VI no Brasil mantinha-se mais
assíduo na correspondência. Até a missiva de 1 º de março de 1906, em que
Nabuco expõe, com relativa franqueza, suas queixas ) o tom deste era, porém)
de perfeita afetuosidade, embora as barreiras entre ambos já se viessem acen­
tuando de maneira muito sensível. Foi a política pan-americana de Nabuco
que acabou por separá-los. Encarregado da nossa representação diplomática
na Venezuela, Oliveira Lima passara a encarar os Estados Unidos com pouca
simpatia. Não se pode negar, no caso, certa influência do governo Castro -
hostil aos americanos do norte -, junto ao qual o ministro brasileiro servia.
Lima acusava Nabuco de haver-se identificado demasiado com os Estados
Unidos ) como se identificara com outros países, onde tinha exercido comis­
sões diplomáticas. Na Inglaterra, tornara-se inglês; na França, francês; na
Itália, italiano. Talvez Oliveira Lima se esquecesse de que, na Venezuela, ele
também se ia tornando venezuelano.
Em carta a Graça Aranha, em fevereiro de 1906, dois meses antes do rom­
pimento, Nabuco declara haver guardado seu drama trinta anos na gaveta,
sem se apressar em publicá-lo, dizendo: "Como vê, não tenho a doença do
Oliveira Lirna, a incontinência da pena." Pedia-lhe para vigiar o que estava es­
crevendo ou ia escrever nos jornais sobre a ida de Mr. Root ao Brasil - uma
conquista diplomática de Nabuco -, acrescentando: "Está mais admirador
do Castro do que do Roosevelt. Eu sinto ver o Oliveira Lima afastar-se assim
diplomaticamente de mim, porque pensava ser ele um monroísta firme. Não
sei o que ele dirá. Pelo tom em que me escreve vejo, porém, que esramos mui­
to afastados em tudo que é critério nacional, um do outro. Será ele o minis­
tro das Relações Exteriores? Eu perdia na troca por certo."3
Em 1 5 de fevereiro, ao mesmo Graça, Nabuco mostra-se alarmado com
as cartas de Oliveira Lima: "Está tomado de admiração pelo Castro, por

3 . ] . Nabuco, op. cit., vol. II, pág. 244 e segs.

CAPÍTULO XVII � 2 5 7
Venezuela, e acredita em tudo que lhe dizem contra os americanos. É mui­
to perigosa.. a propaganda que ele me diz estar fazendo e eu recomendo ao sr.,
que a pode acompanhar aí com a réplica, que o não deixe de fazer."
Daí a quinze dias, escrevendo a Oliveira Lima, já não mais se contém.
Sua censura é, entretanto, serena, discreta e elegante. Alega que não se mos­
tra assíduo na correspondência, como outrora, porque a compreende, sem­
pre, como um prazer, escreve somente para ser agradável aos amigos. Não
é justo que eles em troca lhe enviem cartas com o propósito de lhe fazer
passar un mauvais quart d'heure. "Estas palavras" - observa Nabuco -
"bastam para lhe dizer a impressão que me deixa a leitura de suas cartas
de certo tempo a esta parte. O senhor parece interessado em que a Con­
ferência naufrague (tratava-se da Conferência Pan-americana a realizar-se no
Rio de Janeiro em 1 906), toma o partido da Venezuela, condena os que me
auxiliam aqui, tudo isso é seu direito, mas eu não compreendo porque o
exercita dirigindo-se a mim mesmo, que nunca lhe falei nem escrevi senão
para lhe ser agradável."4 E externada a queixa, explicado o motivo do silên­
cio, Nabuco confessa em nada terem variado seus sentimentos para com
o destinatário.
O autor de Minha formação colocava a questão no terreno da polidez,
da delicadeza. Não se escreve a um amigo senão com o objetivo de agradá-lo,
e nunca de lhe dizer coisas aborrecidas, mesmo se estas forem justas.
Não possuímos a resposta de Oliveira Lima. Imaginamos, entretanto, os
rermos em que foi redigida, pela carta de Nabuco de 30 de março de 1906.
Lima estabelecia como condição para continuarem a amizade ouvir Nabuco
as "verdades" (isto é, as coisas desagradáveis) que aquele lhe quisesse dizer.
Nabuco repele prontamente a condição, pois nunca haveria reciprocidade no
caso: jamais diria "verdades", coisas aborrecidas aos amigos. E conta a propó­
sito o seguinte: "Há tempos um patrício nosso surpreendia-se de me achar
com o cabelo todo branco, tendo eu sido seu colega de Academia. O dele es­
tava muito mal pintado, mas eu nada lhe disse. Era somente uma questão de
vaidade, mas rnesrno nessa me doeria tocar.'' Todo homem se encontra aqui
neste episódio. "O gosto de dizer 'verdades' aos que nos mostram afeição" -

4. Idem, ibidem, págs. 259--260.

2 5 8 � tA" Vida Literária no Brasil


continua Nabuco - "não prova maior sinceridade do que a atenção em nun­
ca os melindrar. ,,5
Consumara-se o rompimento inevitável. Não poderiam jamais viver em
sintonia dois temperamentos tão díspares. A divergência na política diplomá­
tica de ambos fora, talvez, mais efeito de que causa. Oliveira Lima, homem
decerto tão educado quanto Nabuco, era um exasperado, um ressentido.
Não poderia perdoar o êxito do amigo em todos os terrenos. Numa das páginas
do journal, André Gide observa a impressão constrangedora de superioridade
que Claudel lhe dava. Mostrava-se mais rico, mais virtuoso, mais importante,
mais tudo do que Gide. Com maiores motivos, igual impressão devia sentir
Oliveira Lima diante de Nabuco. O autor de Um estadista do Império tinha
uma inteligência mais brilhante, de mais efeito exterior do que a do amigo;
realizara um destino político superior ao deste; via-se aclamado, lisonjeado,
incensado por toda parte, e para cúmulo ainda, era um ser fisicamente belo,
de uma beleza que devia humilhar a obesidade de Oliveira Lima.
Já outro contemporâneo de Nabuco, Tobias Barreto, detestara-o pelas
mesmas razões. Também este gostaria de dizer verdades ao autor de Minha
farmaçdo. O gosto de dizer verdades é muito próprio dos ressentidos. Nabuco,
porém, não concordaria em chamar de amigos os que as dissessem. A amiza­
de para ele era um contato afetivo, em que as partes se propõem não desgos­
tar uma à outra. A harmonia de sua existência luminosa conservara-o fiel à po­
lidez, à finura, ao amável convencionalismo - e por que não usar de palavras
mais precisas? -- , à doce, à generosa hipocrisia, indispensável ao convívio das
pessoas bem educadas.

Uma grande e bela amizade, profundamente criadora, foi a de Francisco


Escobar e Euclides da Cunha. Basta dizer que sem a intervenção solícita, pro­
tetiva e estimulante de Escobar, talvez Os sertões não viesse a ser escrito.
Logo ao chegar a São José do Rio Pardo para construir a famosa ponte
a que ligou seu nome, Euclides travou conhecimento com esse homem ex-

1
5. J. Nabuco, op. cit., pág. 250.

CAPÍTULO XVII b:"9 2 59


traordinário. Francisco Escobar era presidente da Câmara Municipal da ci­
dade. M1Jito esquisito, Euclides tinha qualquer coisa de bicho-do-mato nas
maneiras. Em certos casos, como se dera no primeiro encontro com Coelho
Neto, mostrava-se de uma casmurrice hostil e desconcertante. Mas logo que
se afinava com o interlocutor desapareciam as barreiras, era o amigo franco,
expansivo e afetuoso. Entre ele e Francisco Escobar parece que a intimida­
de se estabeleceu rapidamente. Euclides teria sentido bem depressa a sinto­
nia do seu espírito com o desse homem modesto, cuja atitude discreta disfar­
çava a poderosa personalidade de um sábio. Assim no-la descreve Venâncio
Filho, n'A gl6ria de Euclides da Cunha: "Estatura mediana, magro e peque­
nino, esquivo e desprendido, com o olhar manso e profundo, a voz tímida
e sem entono."6
Os testemunhos sobre a vasta cultura de Escobar são expressivos e deles
não é lícito duvidar. Rui Barbosa chamou-o de "eruditíssimo e doutíssimo".
Autodidata, era um desses homens dos quais se pode dizer que sabia tudo e
tudo aprendera, sem visar nenhum interesse material e irnediato, nenhuma
ambição a não ser a da cultura, volúpia na qual reside o verdadeiro prazer do
sábio. Prazer nada egoístico, ao contrário, pródigo e generoso, caracterizando­
se justamente pela possibilidade de "dar", de repartir com os outros todos os
bens que entesourou. Será inútil acrescentar que essa família de espíritos se vai
tornando cada vez mais rara em nossos dias, quando as circunstâncias da vida
moderna já quase não permitem a cultura desinteressada, ante a escassez
de tempo e o alargamento progressivo do campo dos conhecimentos.
Acumulando tão vasto saber, tão largas aptidões, Francisco Escobar de­
certo adquirira uma noção suficientemente profunda da responsabilidade in­
telectual para não se animar a escrever obra alguma. Como alguém o censu­
rasse por isso, respondeu: "Haverá alguma coisa que já não tenha sido dita?"
Sim, é sempre essa a interrogação que entibia a capacidade criadora e realiza­
dora dos que muito leram e muito estudaram. Valerá a pena acrescentar mais
um livro aos montões existentes pelo mundo, sem trazer com isso qualquer
contribuição nova e fundamental? Infelizmente, nunca formularam tal per-

6. Francisco Ven âncio Filho, A glória de EUc!ides da Cunha, pág. 27, Cia. Editora Nacional,
1940.

. 2 6O � vf Vida Literdria no Brasil


gunta centenas de escritores que vivem a obstruir as montras das livrarias
com obras inteiramente inócuas, justificadas apenas pela necessidade de sa­
tisfazer uma vaidade.
Mas se não se dispunha a escrever para repetir o que já havia sido dito,
Escobar julgava, talvez, que outros poderiam descobrir essa novidade, ou pe­
lo menos exprimi-la de uma nova maneira. Daí o seu empenho em auxiliar
generosamente Euclides da Cunha na elaboração d' Os sertões.
Euclides havia enviado de Canudos, para onde fora como corresponden­
te d' O Estado de S. Paulo, uma série de reportagens. Páginas apressadas, es­
critas no decorrer da campanha, constituindo qualquer coisa de informe -
apesar de uma grande vivacidade impressionista - da qual se poderia re­
tirar, no entanto, o arcabouço de um livro sólido, amplo, definitivo. Teria
Euclides o propósito firme de escrever esse livro? É de supor-se que sim -
tratava-se, no fundo, de uma libertação, de um desabafo; não o faria, possi­
velmente, nos lazeres da atividade profissional em São José do Rio Pardo se
não encontrasse as condições propícias, e principalmente o clima estimulan­
te criado por Escobar.
O monumento d' Os sertões se ergueu assim, ao bafejo de uma amizade de­

11
sinteressada, que nada pedia para si, contentando-se em mirar-se no êxito e na
glória do amigo. E se não se sabe, precisamente, até onde teria ido a assistên­
cia erudita de Escobar na elaboração da obra - Euclides supria muitas falhas
de cultura com os recursos de um extraordinário poder verbal -, sabe-se que
livros, documentação, nenhum elemento de consulta lhe faltou graças à soli­
f citude e à competência do amigo. Foi Escobar, por exemplo, quem lhe tradu­
ziu o latim da Flora, de Martins, socorrendo o escritor num dos pontos prin­
cipais d'Os sertões, e concluído o trabalho, o mesmo Escobar, pródigo também
no amparo material, fê-lo copiar por um sargento de polícia. Mais tarde, pu­
blicado o livro, é ainda o companheiro vigilante quem adverte o autor sobre
os erros de português que haviam escapado e podiam açular a férula dos gra­
máticos. Tal a extensão e a perseverança dessa fecunda amizade. É justo, por­
tanto, que à glória intangível de Euclides se ligue a lembrança do coração ge­
neroso que por detrás dela se apagou.

CAPÍTULO XVII � 2 6 !
traordinário. Francisco Escobar era presidente da Câmara Municipal da ci­
dade. Mqito esquisito, Euclides tinha qualquer coisa de bicho-do-mato nas
maneiras. Em certos casos, como se dera no primeiro encontro com Coelho
Neto, mostrava-se de uma casmurrice hostil e desconcertante. Mas logo que
se afinava com o interlocutor desapareciam as barreiras, era o amigo franco,
expansivo e afetuoso. Entre ele e Francisco Escobar parece que a intimida­
de se estabeleceu rapidamente. Euclides teria sentido bem depressa a sinto­
nia do seu espírito com o desse homem modesto, cuja atitude discreta disfar­
çava a poderosa personalidade de um sábio. Assim no-la descreve Venâncio
Filho, n'A glória de Euclides da Cunha: "Estatura mediana, magro e peque­
nino, esquivo e desprendido, com o olhar manso e profundo, a voz tímida
e sem entono.>'6
Os testemunhos sobre a vasta cultura de Escobar são expressivos e deles
não é licito duvidar. Rui Barbosa chamou-o de "eruditíssimo e doutíssimo".
Autodidata, era um desses homens dos quais se pode dizer que sabia tudo e
tudo aprendera, sem visar nenhum interesse material e imediato, nenhuma
ambição a não ser a da cultura, volúpia na qual reside o verdadeiro prazer do
sábio. Prazer nada egoístico, ao contrário, pródigo e generoso, caracterizando­
se justamente pela possibilidade de "dar", de repartir com os outros todos os
bens que entesourou. Será inútil acrescentar que essa família de espíritos se vai
tornando cada vez mais rara em nossos dias, quando as circunstâncias da vida
moderna já quase não permitem a cultura desinteressada, ante a escassez
de tempo e o alargamento progressivo do campo dos conhecimentos.
Acumulando tão vasto saber, tão largas aptidões, Francisco Escobar de­
certo adquirira uma noção suficientemente profunda da responsabilidade in­
telectual para não se animar a escrever obra alguma. Como alguém o censu­
rasse por isso, respondeu: "Haverá alguma coisa que já não tenha sido dita?"
Sim, é sempre essa a interrogação que entibia a capacidade criadora e realiza­
dora dos que muito leram e muito estudaram. Valerá a pena acrescentar mais
um livro aos montões existentes pelo mundo, sem trazer com isso qualquer
contribuição nova e fundamental? Infelizmente, nunca formularam tal per-

6. Francisco Venâncio Filho, A glória de E'uc!ides da Cunha, pág. 27, Cia. Editora Nacional,
1 940.

__ 2 6 O � t..A Vida Literdria no Brasil


gunta centenas de escritores que viven1 a obstruir as montras das livrarias
com obras inteiramente inócuas, j ustificadas apenas pela necessidade de sa­
tisfazer uma vaidade.
Mas se não se dispunha a escrever para repetir o que já havia sido dito,
Escobar julgava, talvez, que outros poderiam descobrir essa novidade, ou pe­
lo menos exprimi-la de uma nova maneira. Daí o seu empenho em auxiliar
generosamente Euclides da Cunha na elaboração d' Os sertões.
Euclides havia enviado de Canudos, para onde fora como corresponden­
te d' O Estado de S. Paulo, uma série de reportagens. Páginas apressadas, es­
critas no decorrer da campanha, constituindo qualquer coisa de informe -
apesar de uma grande vivacidade impressionista - da qual se poderia re­
tirar, no entanto, o arcabouço de um livro sólido, amplo, definitivo. Teria
Euclides o propósito firme de escrever esse livro? É de supor-se que sim -
tratava-se, no fundo, de uma libertação, de um desabafo; não o faria, possi­
velmente, nos lazeres da atividade profissional em São José do Rio Pardo se
não encontrasse as condições propícias, e principalmente o clima estimulan­
te criado por Escobar.
O monumento d'Os sertões se ergueu assim, ao bafejo de uma amizade de­
sinteressada, que nada pedia para si, contentando-se em mirar-se no êxito e na
glória do amigo. E se não se sabe, precisamente, até onde teria ido a assistên­
cia erudita de Escobar na elaboração da obra - Euclides supria muitas falhas
de cultura com os recursos de um extraordinário poder verbal -, sabe-se que
livros, documentação, nenhum elemento de consulta lhe faltou graças à soli­
citude e à competência do amigo. Foi Escobar, por exemplo, quem lhe tradu­
ziu o latim da Flora, de Martius, socorrendo o escritor num dos pontos prin­
cipais d'Os sertões, e concluído o trabalho, o mesmo Escobar, pródigo também
no amparo material, fê-lo copiar por um sargento de polícia. Mais tarde, pu­
blicado o livro, é ainda o companheiro vigilante quem adverte o autor sobre
os erros de português que haviam escapado e podiam açular a férula dos gra­
máticos. Tal a extensão e a perseverança dessa fecunda amizade. É justo, por­
tanto, que à glória intangível de Euclides se ligue a lembrança do coração ge­
neroso que por detrás dela se apagou.
1
1
i CAPÍTULO XVII � 261
As cartas de Monteiro Lobato e Godofredo Rangel, publicadas em volu­
me em 1944, sob o título de A barca de Gleyre, vieram dar-nos o exemplo ra­
ro, entre �6s, de uma amizade mantida, durante mais de quarenta anos, qua­
se somente por correspondência. Pois desde que se separaram em São Paulo,
após haverem concluído o curso de direito e tendo cada qual seguido para
o seu lado, pouquíssimas foram as ocasiões em que se avistaram pessoalmente.
Em palestra com um jornalista, Godofredo Rangel declararia mais tarde
que, no fundo, não conhecia muito bem Lobato. Com isso queria, natural­
mente, dizer que a correspondência, por mais sincera e franca, nunca chega
a substituir as impressões diretas do convívio pessoal, e este tinha sido relati­
vamente escasso entre ambos. Na verdade, muitos detalhes característicos e es­
senciais da nossa maneira de ser se perdem no lastro do convencionalismo in­
separável do tom epistolar. A carta é sempre uma coisa escrita e como tal,
comportando, indefectivelmente, um arranjo que supera toda improvisação
e espontaneidade. Por isso mesmo, a correspondência dos grandes homens
nunca chega a desencantar um certo mito, através do qual eles nos impõem as
respectivas imagens. Se passamos a vê-los de perto, de muito perto, ainda sub­
siste uma distância suficiente para resguardá-los da vulgaridade.
Assim, em quase meio século de assídua correspondência, é possível
que Monteiro Lobato e Rangel nunca se apresentassem um ao outro de pijama
e de chinelos; a intimidade lhes permitiria ficar apenas em mangas de camisa,
embora pareça-me que o autor de Vida ociosa, pelo que se conta do seu feitio,
talvez nem chegasse a essa sem-cerimônia.
A amizade originou-se no período acadêmico, quando Lobato e Rangel,
juntamente com outros companheiros, constituíram um Cenáculo, qual­
quer coisa mais ou menos no gênero dos '1Vencidos da vidà'. Eram, além dos
dois amigos já citados: Lino Moreira, Tito Lívio Brasil Albino de Camargo,
.•

Cândido Negreiros, Rangel de Freitas, José Antônio Nogueira e Ricardo


Gonçalves. Moravam no Minarete, uma república de estudantes, no Belen­
zinho, da qual foram desertando aos poucos. Na segunda carta a Godofredo
Rangel, Lobato já lhe comunica que, juntamente com Ricardo, fugira do
Minarere,7 "agora habitado só pelo Nogueirà'. Informa-o, também, de que o

7. lvfonteiro Lobato, A barca de Gleyre, pág. 13, Cia. Editora Nacional, S. Paulo, 1944.

2 6 2 � vi Vida Literdria no Brasil


"depauperado Cenáculo'' revivera apenas por um momento. Já co1neçava a
dispersão dos companheiros. Rangel, formado em direito, retornava à provín­
cia nativa de Minas; Lobato, de posse do canudo de bacharel, não tardaria a
retirar-se, primeiro para Taubaté, depois para Areias, a Oblivion de Cidades
mortas, onde exerceria por algum tempo as funções de promotor público, até
que a morte do avô o tornasse fazendeiro, trazendo-lhe a posse de uma gran­
de propriedade rural nas fraldas da Mantiqueira.
Foi essa situação de ambos, isolados na província, sem convivência intelec­
tual e com tempo de sobra, que os levou, inicialmente, a manter uma constan­
te correspondência. Depois, veio o hábito, e através de uma vida bastante aci­
dentada, Lobato, mesmo sem a freqüência de outrora, nunca mais deixou de
escrever ao amigo. Conquanto não se conheçam as cartas de Godofredo Rangel,
percebe-se que o que eles procuravam, através desse desabafo, indispensável pa­
ra ambos, era a imposição recíproca de um exercício literário. Lobato se entre­
tém a discorrer sobre os livros que leu e os que pretende ler, estendendo-se em
juízos críticos, às vezes meio chocarreiros, mas quase sempre inteligentes. Rangel
envia-lhe originais de contos, esboços de romance, e Lobato aprecia-os sem
complacência, ao mesmo tempo que submete os próprios trabalhos à crítica do
amigo. Livros, teorias estéticas e filosóficas, reminiscências de leituras surgem
a qualquer pretexto. Se Lobato vai jogar futebol no Palmeiras (1 904) e fica der­
reado, lembra-se logo da Vida intensa, de Th. Roosevelt. É essa, sem dúvida,
a correspondência mais literária até agora conhecida no Brasil. Note-se, porém,
que não os consideramos "literatos" no mau sentido. Intelectual até a medula,
na mocidade, Lobato não perde o contato íntimo com a existência, e o senso
realista que lhe caracterizou a ficção já transparece, a todo momento, nessas pá­
ginas. Basta ver o seguinte: nas numerosas cartas datadas da fazenda, nunca se
deixa levar pelo sentimento bucólico. Quando descreve o seu dia de trabalho na
propriedade rural, não procura sublinhá-lo com nenhum traço de poesia: é o fa­
zendeiro que aparece em lugar do escritor. Lendo continuadamente e falando
sempre de livros, não vê o campo através dos livros e muito menos dos romances.
Ao calor dessa amizade essencialmente literária vão surgir dois livros dos
maiores da literatura brasileira contemporinea: Urupfs e Vida ociosa. Assistimos
à germinação lenta de ambos: as hesitações, as consultas, as sugestões, as adver­
tências ) através das quais se foram concretizando em realização nítida e perfeita.
O êxito literário leva Lobato para São Paulo, atira-o numa empresa em que
o escritor vem a exercer verdadeira revolução em nosso comércio editorial, en­
quanto Godo fredo Rangel, introvertido, abúlico e tímido, lá permanece nas
cidadezinhas pacatas de Minas. E não tardarão as cartas a se desfazerem, pou­
co a pouco, do cunho literário; os juízos críticos começam a escassear, os no­
mes de escritores se vão tornando menos freqüentes, aparecendo apenas como
objeto de negócio editorial, e já são apenas assuntos de interesse prático ou
notícias sobre a saúde, os desgostos de família e as volições da fortuna que ne­
las figuram. Também a assiduidade dos correspondentes decai sensivelmente. ·

Até que em 1941 vamos encontrar esta conclusão bem significativa: "Mas o
nosso tédio, Rangel" - escreveu Lobato -, ''chama-se 'velhice'. Somos uma
porcaria. Somos uns cacos de pote. Nada mais nos sabe ao paladar porque já
perdemos o paladar."
A última fase dessa amizade ultrapassa de muito o período da vida literária
brasileira que nos propusemos historiar aqui. Mas a verdade é que a etapa ge­
nuinamente "literárià' da correspondência não vai além de 1916 ou 1917, quan­
do os dois amigos terminavam de escrever as obras que iriam consagrá-los.
O que se teria dado, daí em diante, fora um esgotamento progressivo da capa­
cidade criadora de ambos ou um desgaste igualmente progressivo da crença na
literatura, porque nunca mais chegariam eles ao nível ali atingido. O paladar,
j á haviam, pois, começado a perdê-lo nessa época, bem antes de 1941. Lobato
acaba por encontrar um derivativo na literatura infantil; Godofredo Rangel en­
trega-se, quase por completo, ao inglório mister de traduzir. Compreende-se
que já tivessem bem pouco que dizer um ao outro. Na realidade, Lobato não
possui mais nenhuma mensagem literária a transmitir aos homens. E justificar­
se-á nestes termos, em carta de 7-5-1926: "De escrever para marmanjos já me
enjoei." Só lhe resta a compensação de contar histórias aos pequenos, ainda um
meio de manter certo compromisso com a "crença" perdida.
E Godofredo Rangel? Sem o estímulo e a atmosfera de excitação intelec­
tual propiciada pelas cartas "literárias" de Lobato, o auror de Vida ociosa vai
se encolher ainda mais no retraimento em que sempre viveu. Escreverá, sim,
para guardar os originais na gaveta. Limitar-se-á a traduzir esterilmente os vo­
lumes, sempre enviados pelo velho amigo, relembrando os Maupassant,
os Daudet e os Nietzsche do período heróico da mocidade ...

2 6 4 � lÁ Vida Literdria no Brasil


li <$> C A P Í T U L O XV I I I

Polêmicas ,_, CÁ ofensiva de Sílvio 'Rgmero contra José Veríssimo ,_,


"cA morte da polidez" ,_, Onde aparece um jovem intelectual que seria
mais tarde cAssis ()Jateaubriand ,_, Um caso político que se transforma
em caso literdrio ,_, O processo póstumo de <.J'vfachado de cAssis

polêmica de tipo camiliano, que encontrou em Carlos de Laet


um dos seus maiores adeptos entre nós, já estava um tanto fora
de moda pot volta de 1909, quando Sílvio Romero desfechou
contra José Veríssimo o violentíssimo ataque das Zeverissimações
ineptas da crítica. Tínhamos aqui de novo a agressão mais no terreno pessoal

l
do que no das idéias, em termos rudes e brutais, com um requinte de plebeís­
mo a que nunca chegara Camilo e nem mesmo Laet.

1
Sílvio Romero e José Veríssimo já haviam sido outrora amigos; mas
possuíam diferenças de temperamento muito sensíveis pata poderem enten­
der-se por muito tempo. O primeiro era um emocional, deixando-se fa­
cilmente dominar pelas paixões; de uma largueza de vista extraordinária
quando generalizava, cedia, por vezes, às influências sentimentais nos
momentos em que individualizava. Nutria admirações fanáticas e ojerizas
também extremadas. 1

1. O bilhete que a seguir transcrevemos e que nos foi comunicado por Antônio Simões dos

1
Reis, com quem se encontra a correspondência inédita de José Veríssirno, mostra�nos que pelo
menos até 1901 as relações entre os dois críticos eram as mais cordiais.
O segundo, ao contrário, não possuindo a mesma erudição, o mesmo ca­
bedal de cultura filosófica e científica, tinha uma noção mais nítida do fenô­
meno literário, resistindo às simpatias o u às antipatias pessoais, sabendo jul­
gar com equilíbrio e objetividade exemplares. Além disso, Veríssimo exercia
essa crítica chamada militante, a apreciação regular dos livros do dia, na qual,
embora com imparcialidade, mostrava-se um tanto dogmático, assumindo
ares professorais, que não podiam deixar de suscitar o espírito de pirraça com
que Sílvio Romero costumava se opor à rigidez dos mestres. E o choque tor­
nou-se inevitável, sobretudo no momento em que se ergueu entre ambos a
figura de Tobias Barreto.
Sílvio Romero fizera-se o defensor, o apóstolo do talento de Tobias, e fa­
nático como quase todos os ap6stolos, cometia erros de julgamento quando
entrava em jogo a figura do amigo querido. Não podendo conformar-se com
o esquecimento, realmente injusto, em que figurava Tobias, excedia-se ao rei­
vindicar-lhe os direitos. Estaria sempre mal com Sílvio Romero quem tocasse
na glória de Tobias. Foi um dos crimes cometidos por José Veríssimo: procurar
reduzir as proporções do filósofo de Escada e negar a importância e mesmo a
existência dessa "Escola de Recife", que seria o grande apanágio de Tobias e a
que Sílvio Romero se filiava, como sucessor direto do mestre e amigo.
A arremetida furiosa de Sílvio, nas páginas das Zeverissimações ineptas da crí­
tica,' lembra de perto os excessos e destemperos camilianos. Basta vet o seguiu-

"Meu caro José Veríssimo

Saúde

Venho pedir-lhe, com todo empenho, que tome sob sua proteção, na Escola Normal, a meni­
na Eugênia Courtois, minha tutelada, a qual vai prestar exames em banca que V. figura com
todo o seu valor e prestígio. Será mais um favor que terei a juntar às muitas finezas que devo à
sua bondade, nunca desmentida para comigo, o que gostosamente reconheço. De seu velho
amigo sempre ao seu dispor,

Sílvio Romero.
Fevereiro, 1 6 de 1901."

2. Sílvio Romero, Zeverissimações ineptas da crítica (Repulsas e Desab<1fos). Of. do Cornércio do


Porto, Porto, 1909.

2 6 6 """° v1 Vida Literdria no Brasil


re: um dos instrumentos de ataque utiliza.do a todo instante pelo agressor é o
achincalhe do antagonista por meio de apelido - processo, aliás, freqüente­
mente adotado por Sílvio Romero nas polêmicas, como observa Sílvio Rabelo.
Todos os que provocaram a discussão foram alvos de cognomes depreciativos:
Teófilo Braga tornou-se o Mané Teófilo e o Joaquim da Terceira; Valentim
Magalhães, Coringa; Laudelino Freire, Lomelino, o Burregote; Capistrano de
Abreu, o Caspento, o Seboso. Não são de estranhar, assim, as antonomásias ri­
dículas que ele pespega em Veríssimo. Começa por chamá-lo de Tucano Em­

I
palhado, em seguida, passa a tratá-lo por Zé Bríssimo, Quasímodo- alusão ao
físico pouco esbelto do crítico -, dando-lhe, por vezes, em tom galhofeiro, o
tratamento familiar de Zezé.
Logo no primeiro capítulo, manda o "Sainte-Beuve peixe-boi" pescar tar­
tarugas nas margens do Amazonas e deixar de dizer "asnidades"; mais adian­
te, adverte-o nestes termos: ''Se continuares a disparatar, atiro-te em cima
o Pedro do Couto e verás"; em outro ponto diz: ''Anda, Zezé: pede auxílio
ao Capistrano, o famigerado Bumba, a todo o agulheiro, e vem; quero esma­
gar-te de vez, patureba." E insistindo sempre nos apelidos: José dos Crichanás
- pratica maldades desre gênero: "O sr. Zé Bríssimo, como lhe chamam
os minhotos e os transmontanos." Não poupa igualmente os adjetivos:

1
José Veríssimo é , entre outras coisas nada amáveis, um ('espírito malévolo e
indeciso, pretensioso e precavido, insolente e cheio de cautelas e receios)'.

1
Todo esse arsenal de classificações pejorativas é mobilizado na argumenta­
ção com que Sílvio Romero procura refutar, entre outros, dois pontos princi­

l
pais: as insinuações de José Veríssimo de que ele, Sílvio, vivendo a defender a
cultura alemã, não sabia alemão e quer surrupiar a idéia de Martins com rela­

1! ção à história do Brasil. Tais insinuações, Veríssimo as fez em artigos publica­


dos no jornal do Commercio e incluídos no volume de Homens e coisas estran­
geiras. E o fato de se tratar de artigos de jornal, na colaboração assídua que
l Veríssimo vinha mantendo de há muitos anos na imprensa do Rio, deu logo
motivo a Sílvio para considerar leviana essa vasta produção, em que se desdo­
brava a atividade infatigável do crítico. Devolvendo a Veríssimo o rótulo que

l
ele aplicou à obra de Valentim Magalhães, Sílvio acusa-o de ter feito, mais do
que ninguém no Brasil, "literatura apressada'', e excetua dessa classificação pre­
cisa1nente os livros de 1nenor importância, e que ficaram esquecidos: Educação

l CAPÍTULO XVIII l::;;:q 2 6 7


nacional, A Amaz8nía e Pesca na Amazônia, no propósito evidente de negar
o critico e o escritor. Só tais livros, que não eram propriamente de literatura,
valiam alguma coisa: o resto não passava de "pacotes ou embrulhos de inhames
e rapaduras'' - <'literatura baratà' -, parte diariamente, parte por semana, par­
te por mês; a rateio no quiosque d'A Notícia, em grosso no armazém d' OJornal,
por carregamento na feira mensal da Kosmos. Alegando que Sainte-Beuve e
Scherer escreviam cada um seu artigo de critica por semana, mas não colabo­
ravam ao mesmo tempo em quatro ou cinco jornais, Sílvio deixa entrever o
quanto o irritava a fecundidade de José Veríssimo - fecundidade que, aliás,
não chegava a fazer pendant com a dele próprio, Sílvio.
Sai fora do nosso objetivo a apreciação da essência da polêmica. Que­
remos apenas acentuar-lhe o feitio no quadro dos "costumes" literários da
época. Registraremos, no entanto, que o autor de Zeverissimações procurou
demonstrar a autenticidade dos seus conhecimentos de alemão, dizendo
tê-los adquirido nos tempos do Recife, com Tobias, aperfeiçoando-os mais
tarde em Parati, e apresentando entre outras provas, nesse sentido, as citações
que fizera outrora, de obras e artigos de revistas alemãs, ainda não traduzi­
dos. Quanto às idéias de Martius, não possuíam originalidade alguma e já se
encontravam nas obras dos primeiros cronistas, não podendo, portanto, re�
cair nele, Sílvio, a pecha de ter-se apropriado delas. Também o famoso caso
da "morte da metafísica" vem à baila em certa altura, em virtude de uma alu­
são irônica de Veríssimo. 3 Sílvio Romero declara que quando pronunciou sua
conhecida frase, em 187 5, com grande escândalo da junta examinadora da

3. "Os rapazes do meu tempo ouviram anunciar com a insolência das convicções mais de sen�
cimento que de razão, a morte da metafisica. Foi então muito celebrado um deles que, com a
petulância da idade e do meio saber, da sua banca de examinando, afirmara seguro aos lentes
pasmados que 'a metafísica morreu!'
Na véspera havia aparecido aqui a filosofia de Comte. E nos moços, que dela tinham ouvido falar,
não faltaram apodos ao velho professor carrança que, com benigna e superior ironia, perguntara,
entre risonho e escarninho, ao jovem futuro doutor: 'Quem foi que a matou, foi o senhor?'
Pois quem tinha razão não eram os que anunciavam a morre da sedutora afilhada, se não filha,
de Aristóteles, nem os rapazes que ingenuamente o acreditavam, nem o moço que o repetiu
com a certeza de quem lhe houvesse assistido ao trespasse ou verificado o óbito. Quem tinha
razão era o enfezado velho, o mestre atrasado e caturra, malsinado de tal forma por aquela mo­
cidade por não ter logo crido no que ela, confiadamente, sem maior estudo, repetia.

l 2 6 8 1"""I tA Vida Literdria no Brasil


Faculdade de Direito de Recife, referia-se à velha metafísica ontológica e não
à parca metafísica kantesca de simples tendência do espírito, que vai sempre
formando sínteses provisórias, ou à crítica do conhecimento, preconizada pe­
lo magno pensador. Essa argumentação é feita, porém, ao estribilho de remo­
ques, chufas e repentes furibundos, num tom que surpreenderia o próprio
Camilo da BoJmia do espírito.
Zeverissimaçães ineptas da crítica provocou o revide de dois artigos de
A. Bandeira de Melo,4 incluídos, juntamente com outros em favor de José
Veríssimo, num livro sob o título A morte da polidez. Bandeira de Melo come­
ça dizendo: "Quando um pensador esquecido do próprio decoro e abandona­
do à violência do seu temperamento, entra a firmar na indeterminação e in-

Não só a metafísica não morreu, mas, depois de um rápido sumiço, e decadência, talvez para se
refazer em melhores climas da anemia de que, em verdade, enfermara, voltou mais forte, mais
louçã, e o que mais é, com os velhos ares da antiga dama e senhora do pensamento humano. E em
vez de modesta, humilde, vexada, como partira, altaneira, soberba, falando grosso.
E ainda quando aquela rapaziada, como gatos pingados que lhe houvessem acompanhado o
féretro, a dava por de uma vez enterrada, já ela reflorescia com uma porção de cousas em ismo,
na França, na Alemanha, na Inglaterra, na Itália e em roda a parte onde se filosofava. Por que,
se excetuarmos o comtismo ortodoxo ou a síntese spenceriana, e ainda assim, que são as lu­
cubrações do neokantismo ou do neocriticismo, os diversos sistemas oriundos do evolucionis­
mo, as filosofias de Hartmann, de Schopenhauer e do próprio Haecke!, tanto quanto ele é um
filósofo, se não metafísica?
Em vez da Ciência, da Ciência com maióscula, da ciência unificada, experimental, positiva, de­
sembaraçada de todas as preocupações das causas finais ou primeiras, restrita ao fato, ao relati­
vo e refugando absolutamente o absoluto, como um momento se esperou, e se teve o direito de
esperar, tomar a si fazer a filosofia nova e definitiva, e substituir-se pelos seus resultados gerais
à antiga, como a última e assente explicação do universo e da vida, o que se viu foi, sob a in­
fluência de causas complexas e múltiplas, toda a especulação filosófica invadida por novos idea­
lismos, novos materialismos, novos fenomenismos, novos espiritualismos e por todas as aber­
rações e extravagâncias das ontologias mais disparatadas, de que algumas abstratas chegaram a
ir buscar, confessadamente ou não, às obsoletas metafísicas asiáticas os seus critérios e con­
cepções, e outras resvalaram às insanidades do ocultismo e à abusão do espiritismo disfarçados
sob o presunçoso nome de ciência psíquica.
E estava morta a metafísica! Como se pudesse morrer de repente uma maneira de pensar que,
sobre ser talvez a mais acomodada à nossa miserável constituição cerebral, não exige outro es­
forço que o de pôr em movimento os órgãos correspondentes a essa fi.1 nção!"
José Veríssimo, Homens e cousas estrangeiras (3ª série, 1905-1908), I�I. Carnier, Rio, 1 9 1 O.

j
4. Era como se assinava então Assis Chateaubriand.
consistência do doesto chulo, da pacholice pulha, da linguagem mascavada e
da probidade defeituosa os seus processos de crítica; e, muito de indústria,
postergando os meios de defesa dos sujeitos educados, elege a grosseria e o de­
saforo armas de combate entre homens de letras, vem a pêlo saber se estamos
diante de um cérebro equilibrado, de uma consciência ponderada e justa, ou
o que é melhor, e muito mais acertado, se diante de uma mentalidade em de­
cadência, de uma inteligência enferma, combalida, impotente para dominar
as suas paixões, para julgar a bête humaine, cuja posse da alma s6 inspira o de­
sejo de injuriar e de malsinar. "5
E por aí segue Bandeira de Melo, exprobrando a atitude de Sílvio e fazendo,
em seguida, a defesa de José Veríssimo. Repele como absurda a acusação contra
este último de escrever por empreitada, de ser um penny a liner, quando fato

li
idêntico se dera com um Macaulay, um Vogt, um Faguet, um Roosevelt, um
Ferri, sem nenhum desdoiro para os mesmos. Nega o conhecimento da língua
alemã a Sílvio, alegando que na História da literatura brasileira, ao citar os auto­
1:
res alemães, não aludia à página, como fazia com os livros franceses. E procura
revidar, assim, todos os argumentos do sergipano, a começar pelo título do li­
,
vro, ao qual opõe a fórmula "Romerizações ineptas da críticà .
Os artigos de A. Bandeira de Melo constituem a parte principal do volu­
me; os outros são de menor importância, inclusive um pequeno estudo de
Oliveira Lima sobre Veríssimo que não se refere à polêmica, e uma "carta ao
cidadão Liberato Bittencourt" sobre assunto apenas correlato.
Sílvio Romero prometia ainda uma segunda série das Zeverissimações, não
tendo, porém, chegado a publicá-la. É possível que num desses movimentos
comuns à sua sensibilidade, bem depressa se houvesse arrependido da violên­
cia desmedida do ataque.
Mas Veríssimo desta vez não deu provas da imparcialidade exemplar nele
sempre louvada. Alguns anos depois, quando apareceu, em publicação p6stu­
ma, sua História da literatura brasileira, vemo-lo dedicar a Sílvio Romero ape-

5. A. Bandeira de Melo, A morte da polidez (a propósito das Zeverissimações ineptas do sr. Sílvio
Rotnero), edição de alguns arnigos (sern data).
(Os artigos foratn, antes, esrnmpados no jornal Pequeno, do Recife, em dezembro de 1910 e
janeiro de 1 9 1 !.)

27o � L/Í Vida Literária no Brasil


nas estas linhas: "Mas o primeiro dos escritores brasileiros que, de parte um
breve e malogrado excurso pela poesia, fez obra copiosa de crítica geral e par­
ticular, é o sr. Sílvio Romero, simultaneamente discípulo, por Tobias Barreto,
dos alemães e , muito mais diretamente, dos franceses por Taine e Scherer, pe­
lo que é da literatura propriamente dita, e de Spencer, Haeckel, Noiré e
Ihering, pelo que é da filosofia e pensamento geral."

As discussões sobre pontos de gramática eram muito freqüentes no século


XIX. Mesmo quando outros motivos arrastavam os escritores a um debate, es­
te se inclinava, não raro, para o esmiuçamento dos erros de português, a emu­
lação no conhecimento do idioma.
Tal se dera, por exemplo, na polêmica célebre entre Carlos de Laet e
Camilo Castelo Branco. Nessa, porém, os contendores se empenharam em
termos sarcásticos, de uma virulência que já descambava para o achincalhe
pessoal. Maior seria ainda o achincalhe, em outro debate famoso: o de Júlio
Ribeiro com Sena Freitas, a propósito d'A carne.

1
Em 1 902, quando no caso da Réplica, Rui Barbosa provocava a mais
séria disputa gramatical entre nós verificada, pode-se dizer que se filiava a
uma linha tradicional das polêmicas na literatura brasileira, embora se afas­
tando de outra: a das expressões grosseiras e contundentes, do ataque pessoal.
Com lampejos de sarcasmo e numa absoluta firmeza de tom, o debate se
manteve sempre num certo nível que não seria evidentemente aquele em que
costumavam colocar-se um Laet e um Júlio Ribeiro, quando discutiam.
Recordemos os fatos, acentuando, antes de tudo, a singularidade quase
única de se tratar de um caso político que veio a derivar num caso literário,
ou, mais particularmente, gramatical. 6
Ministro da Justiça no governo de Campos Sales, Epitácio Pessoa, em 1899,
incumbira Clóvis Bevilaqua, jurista de nomeada e professor da Faculdade de

1 6. Na conferência "Rui Barbosa e o Código Civil" (Dois momentos de Rui Barbosa, Casa de Rui

1
Barbosa, 1949), San Tiago Dantas procura mostrar que os objetivos de Rui ao fazer da Réplica
um caso gramatical eram essencialmente políricos, o de retardar a votação do projeto.

CA P Í T U L O X V I I I � 2 7 1
Direiro do Recife, de redigir o projeto do nosso Código Civil. Já então Rui
Barbosa, no-seu jornal A Imprensa, criticava a idéia. Percebia-se o propósito de
conseguir com brevidade o texto jurídico para que a sua aprovação fosse ob­
tida ainda no quatriênio de Campos Sales, que devia deixar o governo em
1902. Um trabalho desse vulto não podia, entretanto, ser feito com pressa e,
principalmente, por uma única pessoa - dizia Rui Barbosa -, ainda mais
se tratando de um "noviço", ao qual faltava o "requisito primário, essencial,
soberano para tais obras: a ciência de sua língua, a vernaculidade, a casta cor­
reção do escrever". A escolha fora determinada, assim, mais por um rasgo do
coração do que da cabeça.
Dentro de seis meses, Clóvis Bevilaqua dava por terminado o projeto;
Epitácio Pessoa passava-o pelo crivo de uma comissão de juristas e entregava­
º a Campos Sales, que o remetia à Câmara Federal. Aqui começaria o esforço
para apressar o debate e a votação. Publicado a 13 de maio de 1900 no Didrio
Oficial, o projeto só em 1901 entraria em discussão. Multiplicar-se-iam as
emendas, modificando consideravelmente o texto original, e dada a pressa
com que era feito o trabalho, não se cogitava de recompor os artigos, na or­
dem de uma linguagem clara, correta e precisa. Fáceis de ser atendidos pare­
ceram estes requisitos ao sr. J. J. Seabra, presidente da Comissão Parlamentar
"dos vinte e um", o qual, tomando os originais, embarcou para a Bahia, e lá
os confiou ao conhecido filólogo professor Ernesto Carneiro Ribeiro, pedindo­
lhe para revê-los gramatical e literariamente. O velho mestre teria hesitado a
princípio, compreendendo naturalmente a impossibilidade de realizar obra
perfeita no exíguo prazo que lhe impunham, mas, num verdadeiro tour deforce,
ao cabo de "quatro dias e algumas horas", deu conta do trabalho, fazendo
setenta e sete emendas no texto.
Volta Seabra com o projeto que, depois de sofrer, ainda, novas emendas de
forma na Câmara, é aprovado, subindo imediatamente ao Senado. Tudo isso
num ritmo de atropelo que a extensão e a gravidade da empresa não compor­
tavam. No Senado esperava o projeto uma Comissão Especial, já constituída
sob a presidência do Rui Barbosa. Segundo Medeiros e Albuquerque, Rui ex­
perimentava um profundo ressentimento por não ter sido encarregado da ela­
boração do Código, nem consultado a respeito. De qualquer maneira, já havia
denunciado em 1 899, como vimos, o erro básico do gran<le en1preen<lirnento

2. 72 � l./Í Vida Literdria no Brasil


jurídico. Compreende-se o duplo ardor com que se empenharia agora, quan­
do o projeto lhe vinha às mãos, em mostrar que tivera razão: a obra saíra man­
ca, falha, imperfeita.
No fim de três dias apenas, apresentou duzentas e dezessete folhas manus­
critas que deram um volume de quinhentas e sessenta e uma páginas, edita­
das pela Imprensa Nacional, e cujo título na íntegra era o seguinte: Parecer do
senador Rui Barbosa sobre a redação do projeto da Câmara dos Deputados. Aqui
vem a surpresa, o fato desconcertante que transformou a questão legislativa
numa questão literária: em lugar de criticar os aspectos j urídicos do Código e
propor modificações substanciais no texto, Rui empregara todo o seu exausti­
vo labor em mostrar simplesmente isto: o Código estava mal redigido, sofria
de inúmeros vícios de linguagem, cacofonias, erros palmares. Quando se espe­
rava a palavra do jurista, surgia o gramático fazendo cair sobre o texto aquela
"mole ingente de saber profundo", segundo a expressão de Clóvis Bevilaqua.
Rui falara em "mão-de-obra literária do projeto", mas se encartaria mesmo no
terreno literário o que acabava de fazer?
Se os juristas e os parlamentares se mostraram surpreendidos, pois não
imaginavam que a redação das leis devesse sofrer semelhante apuro de lingua­
gem, os escritores, na maior parte, não viram também com entusiasmo esse
trabalho de gramático, de purista, inimigos que quase todos são das questiún­
culas gramaticais. Assim, ao mesmo tempo que prestava flanco à acusação dos
1 políticos de não ser um homem de realidades, de exaurir-se em minúcias de

1
forma, Rui Barbosa passaria a sofrer a hostilidade dos escritores. A repercus­
são do parecer foi extraordinária. Sobre ele se manifestaram vários críticos
literários como José Veríssimo e Medeiros e Albuquerque?
Veríssimo, cuja férula não iria mal com as preocupações gramaticais, apre­

l
ciou em longo artigo o "trabalho de Hércules" de Rui Barbosa, inquirindo, no
entanto, se não fora este demasiado meticuloso excedendo a justa medida na
,,
censura. "Não ouso dizê-lo - declara o crítico -, "tanto mais que sua reda­
ção é sempre, no meu fraco parecer, melhor, isto é , mais correta, mais verná­
cula, mais precisa, mais clara e ainda em cima - o que para um homem de
letras é importante - mais elegante que a do projeto e as inúmeras partes em

1
7. Autores e livros, volume XI, n° 7.

CAPÍTULO XVI � I � 273


que o emendou." Nem por isso se exime de discutir alguns pontos. E depois
de articular ligeiras observações considera: "Oh! esta nossa língua portuguesa
quem pode jatar-se de sabê-la toda, de poder sem contestação plausível
apoiar-lhe o u reprovar-lhe uma forma, uma expressão, um vocábulo, afirmar
com segurança, fora dos casos vulgares de incorreção manifesta e dos solecis­
mos indiscutíveis, que isto é errado ou aquilo é certo, que isto é vernáculo
e aquilo não é?" Reconhecia, não obstante, existir um tipo superior e incon­
testável de correção, e este o possuía, como raros entre nós, Rui Barbosa, cujo
parecer sobre a redação do Código Civil era uma alta e sábia lição de portu­
guês que a todos devia aproveitar.
Já Medeiros e Albuquerque, depois de criticar ferinamente a pressa com
que agiu o sr. Seabra ("Quando ele 'pega num serviço', o que quer é dar conta
dele o mais depressa possível") e a infelicidade de sua interferência no caso, de­
>! nuncia a atitude de Rui Barbosa que, movido pelo despeito, realizou não o tra­
balho sereno de correção para o qual não lhe faltava competência, mas uma
corrigenda feroz de mestre-escola, de palmatória em punho, azedo e rabugen­
to, no esforço de encontrar erro a todo custo. "Tanta fúria pôs nessa tarefà' -
diz Medeiros - "que foi danando, danando e acabou por se corrigir a si mes­
mo." Algo de semelhante a certos animais que num acesso de cólera chegam a
morder a si próprios. Ressalvando a forma admirável de Rui Barbosa ao falar e
escrever o português - "para defender a justiça ou para criar sofismas'' -,
acha o crítico que, em alguns pontos, exagerou, descendo a futilidades; nou­
tros, "querendo emendar errou crassamente)'. Oferece vários exemplos do que
afirma, chegando a retirar de um deles um trocadilho rabelaisiano.
De Portugal se fez ouvir Candido de Figueiredo, num artigo, "Lição aos
legisladores", inteiramente favorável a Rui Barbosa. O douro senador escalpe­
lara e desnudara numerosos erros de sintaxe, vastas impropriedades de vocá­
bulos, galicismos imperdoáveis, neologismos disparatados, obscuridades de
construção e muitas outras mazelas que, sem o cuidado e o saber do dr. Rui
Barbosa, colocariam lastimosamente o projetado Código Civil brasileiro a par
de algumas leis portuguesas.
Apesar disso, Rui Barbosa se tornou alvo de toda sorte de remoques e per­
fídias, reação natural dos políricos que haviam colaborado no projeto e se
sentiarn vivarnente rnelindrados com a crítica.

2 7 4 � lA' Vida Literdria no Brasil


.
O Parecer foi publicado a 27 de julho de 1902, no órgão oficial dos traba­
lhos legislativos. Logo depois, numa revista de direito, Clóvis Bevilaqua de­
fendia-se da parte que lhe tocava na crítica à redação do projeto. No dia 26 de
outubro, o Didrio do Congresso abria suas colunas à publicação das "Ligeiras
observações sobre as emendas do dr. Rui Barbosa", do professor Carneiro
Ribeiro, enquanto a 7 de novembro, no mesmo órgão, vinha a "'.Resposta ao
parecer do senador Rui Barbosà', pelo relator da Comissão Especial, deputa­
do Anísio de Abreu. Jornais do Rio e de São Paulo estampavam igualmente,
sob diversas assinaturas, várias contraditas a Rui Barbosa.
Nessa altura, o debate já assumira o caráter anômalo de uma questão par­
lamentar submetida a discussão extraparlamentar. Rui Barbosa aguardou
o arremate da ofensiva coordenada contra o Parecer e, no dia 1 1 de novem­
bro, num discurso memorável, acusou aquela anomalia jurídica, mostrando
numa série de itens percucientes como estava sendo viciada a discussão do
projeto. Ao mesmo tempo preparava a contra-resposta, não somente ao pro­
fessor Carneiro Ribeiro, como a Clóvis Bevilaqua e a todos os que tinham
procurado refutar a critica gramatical à redação do projeto. E daí essa obra
extraordinária, a Réplica, que pela extensão e profundidade confirmava e ab­
,,
solvia o Parecer, constituindo verdadeiro "monumento de saber gramatical ,
de proporções nunca atingidas em nossas letras. Seria o grande laurel de
Rui Barbosa, mas um laurel pelo qual viria a pagar o mais duro tributo. Se o
Parecer já lhe conferira o diploma de gramatiqueiro impertinente, a Réplica
consolidava esse título.
Acentue-se ainda a circunstância bastante significativa: o idioma cuja corre­
ção lhe merecia tanto zelo, não era o brasileiro diferenciado do português, vivo,
atual, atendendo às necessidades de expressão de um povo jovem que se expan­
dia ao sol dos trópicos; nem mesmo a língua clara, elegante e ágil de um Eça de
Queirós, e sim o português clássico de Vieira e Bernardes, solene e hierático.
Para Rui Barbosa o projeto tinha sido redigido num "dialeto brasileiro", "surrão
amplo, onde cabem à larga, desde que o inventaram, para sossego dos que não
sabem a sua língua, todas as escórias da preguiça, da ignorância e do mau gos­
to, rótulo americano daquilo que o grande escritor lusitano tratara por um no­
me angolês". E os parlamentares atingidos por essa férula rude vingam-se redu­
zindo o autor do Parecer e da Réplica à condição ridícula de um gramatiqueiro,

1 CAPÍTULO XV I I I � 275
preocupado com regrinhas> defendendo um vernáculo inumano, retórico e con­
vencional. Mesmo depois da consagração de Haia, em 1907, assim continuaria
a vê-lo certa ::amada intelectual, insistindo em colocá-lo fora da literatura viva.
No movimento modernista seria ele considerado a personificação de tudo que
se devia destruir para se criar algo de novo e original em nossas letras.
Com a publicação da Réplica, a polêmica atingiu o clímax. Essas páginas
maciças iriam desencadear na Bahia um verdadeiro drama no espírito do ve­
lho professor Carneiro Ribeiro. Dizem que depois de as ter lido, exclamou
transfigurado: "Vou responder a Rui, embora isto me custe a vida!..."
No entanto, na conferência "Rui e a réplicà',8 Américo de Moura mostra­
nos que o Parecer não continha "nenhum agravo ao revisor extraparlamentar
do 'projeto'». Ao contrário, evidenciava-se o propósito do antigo discípulo de
homenagear o mestre. Eis que surgem as "Ligeiras observações", e aqui se per­
cebia o gramático baiano, agindo, não em defesa própria, mas defendendo an­
tes a Comissão de Redação do projeto e procurando acusar Rui no que este
escrevera "fora do substitutivo", numa atitude gratuita de adversário pessoal.
O revide do professor Carneiro Ribeiro só veio à luz em 1905, num vo­
lume de mais de novecentas páginas, intitulado Redação do projeto do Código
Civil e a réplica do dr. Rui Barbosa. Seria a "Tréplica'', com a qual praticamen­
te se encerrou o debate.
Quando recebeu o volume, Rui pôs-se a lê-lo diariamente, de lápis em pu­
nho, segundo seu costume, fazendo anotações. Não podia desprender-se do li­
vro. Era uma espécie de obsessão. Volta e meia lá se achava curvado sobre ele,
na tarefa minuciosa e paciente. Certo dia, num gesto rompante, resolveu pôr
um paradeiro naquilo: chamou o desembargador Palma, seu amigo, pedindo­
lhe que levasse o livro dali. E explicou: precisava trabalhar, ganhar dinheiro,
advogar, e o diabo do volume a tomar-lhe o tempo, a persegui-lo, como uma
tentação verrumante. Não mais queria vê-lo pela frente, levasse dali, por fa­
vor... Assim conseguiu libertar-se do desejo de dar "uma tunda no Carneiro",
segundo suas próprias palavras.
Alguns anos depois, na campanha eleitoral de 1 9 19, indo à Bahia, aclama­
do pelo povo, numa hora de emoções, Rui confraternizou-se com o antigo

8. Américo de Moura, Rui e a Réplica, Casa de Rui Barbosa, 1949.

2 76 °"""' LÁ Vida Literdria no Brasil


r
.

mestre. Foi comovente o encontro: Carneiro, alto; Rui, muito baixo, estreita­
ram-se num forte abraço, entre lágrimas. "Meu caro Rui!" - dizia o primeiro.
l "Meu velho mestre!" - exclamava o segundo.

Entre as polêmicas que se desenrolaram no âmbito estadual não podemos


deixar de reviver, em linhas gerais, a que se travou no Rio Grande do Sul em
torno da peça Talita, de Pinto da Rocha, em 190 7.
Pinto da Rocha, gaúcho de nascimento, residiu muito tempo em Portugal,
onde se identificara com aspectos da terra e do povo. Daí haver escolhido um
assunto português ao escrever o drama em verso Talita. Para esclarecer melhor
o leitor sobre o rumo da polêmica, procuraremos dar uma síntese do tema
desse drama.
Num recanto de Trás-os-Montes, um daqueles velhos curas de aldeia, tão
familiares à novelística romântica, recolhe certo dia uma criança enjeitada, tra­
tando-a como filha e dando-lhe o nome de Talita. Ao chegar à meninice, a pe­
quena torna-se cega, vítima de catarata. Faz então um voto à Virgem do Carmo,
prometendo tomar o hábito das carmelitas se lhe fosse restituída a vista. Um dia
aparece na aldeia jovem médico em temporada de repouso. Enamorando-se de
Talira, opera-a da catarara, deixando-a completamente curada. A jovem corres­
ponde-lhe o afeto, mas declara a impossibilidade de tomá-lo por esposo em vir­
tude do voto que fizera. O rapaz fica desesperado; é quando intervém o bondo­
so cura para conciliar a situação, narrando um sonho em que a Virgem lhe
aparecera para comunicar que dispensara Talita do cumprimento da promessa.
O feliz desfecho é consumado com a descoberta da mãe da enjeitada ainda em
tempo de reconhecer a filha e concordar com o casamento.
A peça foi representada no Rio, no Teatro Apolo, no dia 1 7 de agosto de
1906. No volume em que o autor reuniu as opiniões da crítica e a resposta que
lhes deu, encontramos somente juízos favoráveis referentes a essa primeira re­
presentação na capital da República. O Pais, o Correio da Manhã, A Tribuna,
a Gazeta de Notícias, A Notícia, o jornal do Commercio e outras folhas são pró­
digas de elogios. N' O País, sob a assinatura A. A., destacamos um comentário
curioso. O autor alude ao fato de Pinto da Rocha, depois de haver cumprido

l CAPÍTULO XVII I �277


0 mandato de deputado pelo Rio Grande do Sul, em duas legislaturas, não
haver sido reeleito. Não seria aquela peça que influíra no caso, acontecendo
com ele o qlie acontecera a outros brasileiros que pagaram duramente crimes
análogos, como José de Alencar, prejudicado na política pela sua categoria de
escritor? A verdade é que a peça reve o melhor acolhimento da crítica, embora
não saibamos se o mesmo teria acontecido por parte do público. Nosso teatro
atravessava aliás uma época de decadência, que se acentuaria até por volra de
1930, três décadas em que, com poucas exceções, recaímos no êxito popular
das comédias ligeiras. Era natural que o aparecimento de uma peça de cunho
literário, escrita em verso como Talita, despertasse particular atenção.
Dentro de um ano, mais ou menos em julho de 1907, Talita é represen ta­
da em Porto Alegre. Então, ao lado de críticas favoráveis, largamente elogiosas,
surgem outras, agressivas e ferinas, nas quais se percebe logo a intenção de atin�
gir, através do teatrólogo, o político. O Petit ]ournal (22-7- 1907) eo Correio
do Povo (22-7-1 907) tecem um coro de louvores. O último assinala o fato dos
autores gaúchos não terem conseguido sair do âmbito provinciano. Pinto da
Rocha era o primeiro a lograr repercussão na metrópole, com uma peça repre­
sentada por excelente companhia dramática. Peça que na inrerpretação dessa
mesma companhia o povo de Porto Alegre acabava de aplaudir. A Gazeta do
Comércio (22-7-1907) publica uma crítica também favorável. A 3 de agosto, no
Correio do Povo, José Picorelli, em longo artigo, elogia a peça defendendo-a das
acusações que lhe haviam sido feitas num "diário de rapazes de talento", suge­
rindo a seguinte reflexão: "Entre nós, quando a crítica não afunda nas estrelas,
cambaleia no lodo." Por outro artigo de Picorelli, no mesmo jornal, a 13 de
agosto de 1907, vê-se que a réplica não ficara sem tréplica. "É que como um
consolo à minha temeridade" - escreve o autor - "dois nomes de lutadores
de têmpera, de lança em riste, esperavam-me sorrindo. " Um desses nomes era
Vítor Silva, "grande apaixonado da formà', o Herédia brasileiro, como havia
sido chamado por um dos membros da Academia Brasileira; outro, Augusto
,,
Daisson, "jornalista experimentado , cujo espírito ia do folhetim literário para
a crônica política e os mais variados assuntos. No artigo em questão, Picorelli
responde apenas a Daisson, incidindo principalmente em dois pontos: o fato
de 7álita ser uma peça brasileira embora sobre tema português, e não procede­
rem as críticas à técnica do verso nela empregada.

2 7 8 � W Vida Literária no Brasil


Então, o debate parece que já estava apaixonando vivamente o meio lite­
rário e a opinião pública de Porto Alegre. A 18 de agosto, ainda no Correio do
Povo, Picorelli alude à volta do "autor d,; primeiro folhetim", que não era ou­
tro senão João Neves da Fontoura, com quem resolvera não discutir. Suas pa­
lavras se revestem agora de tom áspero e agressivo, pois justifica o fato de ha­
ver retornado à arena por uma questão de "honestidade e pudor literário".
Narra então uma conversa que tivera com Vítor Silva, na qual lhe dera parte

1 dos argumentos que pretendia opor ao primeiro folhetim do "Debate". Viera,


porém, o segundo folhetim do jornal, escrito de tal forma que jamais poderia

! duvidar de ter sido Vítor Silva seu autor. Eis agora a acusação de Picorelli a
João Neves da Fontoura: de haver composto o primeiro folhetim calcado em
apontamentos, que como ele pr6prio confessara, lhe foram fornecidos por ou­
trem, e, ante o revide, de se haver defendido por intermédio de Vítor Silva.
Entre os artigos sobre a peça, reunidos em livro por Pinto da Rocha, pelos
quais nos guiamos para fazer este resumo da polêmica, não encontramos, in­
felizmente, os de João Neves da Fontoura, o que nos impede de configurar de

l
maneira mais exara a extensão do debate. Enquanto se formava o sarilho em
torno da peça em Porto Alegre, a companhia Eduardo Vitorino seguia para

1
Pelaras, representando-a ali na primeira quinzena de agosto. As folhas locais
Opinião Pública e Reforma não pouparam elogios, mas no Diário Popular
(12-8-1907) aparece uma crítica feroz assinada com as iniciais G. S. Na cidade
1 de Rio Grande, segundo depreendemos de um artigo do Bisturi (1-9-1907),
correram até boatos de perturbação da ordem no préstito popular com que se
j pretendia homenagear Pinto da Rocha. "As famílias embora sobressaltadas" -
l
l
diz o jornal - "não desistiram de assistir à representação de Talita, em vez de
caudais de sangue, correram torrentes de aplausos ao dr. Pinto da Rocha."
Em quarenta e tantas páginas no livro a que nos referimos, o autor pro­
curou rebater os principais argumentos da crítica contra a peça. Era fútil a cen­
sura de um brasileiro e rio-grandense ter ido buscar em Portugal o assunto de
um drama. Não é o assunto que imprime o caráter de nacionalidade à obra li­
terária. Fácil lhe seria argumentar com exemplos: Vigny, Byron, Victor Hugo
e até nosso Gonçalves de Magalhães serviram-se de temas estrangeiros, sem
por isso incorrerem naquela rola censura. Depois, tendo passado a infância e
a adolescência em Portugal, nada mais natural que ali encontrasse inspiração

1 CAPÍTULO XVIII �279


para um drama. Defende a autenticidade dos caracteres que pusera em cena;
só quem não conhecia a aldeia portuguesa podia considerar falsos os tipos e 0
-
ambiente e� que decorria a peça. Protesta contra a afirmativa de que o teatro
moderno já não comporta o drama em verso e se justifica com vários exem­
plos, entre os quais o maior de todos, Rostand, cujo êxito estrondoso com
Cyrano de Bergerac era relativamente recente. Termina rebatendo as acusações
sobre deficiências técnicas, versos frouxos, pobreza de rima, etc., para concluir
que a "crítica indígena dos zoilos é como o Saara: esterilidade completa, be­
duínos e camelos''.
Eis uma ligeira idéia dessa polêmica que teve, pelo menos, a vantagem de
agitar o meio literário do Rio Grande do Sul, embora inspirada, segundo se
afirma, por motivos de natureza política. 9 Pinto da Rocha, proclamando esses
motivos, não se valeu deles, entretanto, como argumento contra os censores;
procurou dar-lhes combate no campo literário em que se colocava a questão,
sem contudo sopitar um fundo de virulência em certos arremates.

Embora sempre contasse com um grande número de admiradores que não


se cansavam de endeusá-lo, o autor do Quincas Borba, na sua longa carreira li­
terária, sofreu muitos ataques insólitos e violentos. É bem conhecida a severi­
dade com que o tratou Sílvio Romero no livro Machado de Assis (1897), de­
terminando o pronunciamento ardoroso do conselheiro Lafayette (Labieno)
em defesa do romancista. Mas pouca gente conhecerá, certamente, um opús­
culo do mesmo Sílvio Romero, publicado em 1882, O naturalismo em liter­
atura, no qual Machado e Luís Delfino são alvos do mais desabrido ataque
que atinge em ambos não somente a obra como também o homem. Para dar
uma idéia do tom dessa catilinária, basta dizer-se que um dos rótulos com que
Sílvio Romero mimoseia o autor de Dom Casmurro é o de "capacho de todos

9 . "Pinto da Rocha, na Gazeta do Comércio de que era diretor, fazia uma oposição acérrima ao
governo de Borges de Medeiros. Em represália, os escritores do Partido Republicano procura­
ram ferir o autor de Talita na sua vaidade de poeta e dramaturgo, com uma flagrante e cruel in­
justiça. No Rio Grande daquele ternpo, a política imperava sobre tudo e determinava rodos os
julgamentos." - Informação de Vivaldo Coaracy ern carta ao autor.

2 8 O � LA Vida Literdria no Brasil


os governos". Mais tarde, na obra a que acima nos referimos, reconsiderou os
desmandos de tão rude ofensiva, embora ainda submetesse os méritos de
Machado de Assis a uma série de restrições graves.
Outro "inimigo" do romancista, que pela sua insignificante projeção lite­
rária não tem sido lembrado, foi Pires de Almeida. Também a Cruz e Sousa
se atribuem uns versos terrivelmente maldosos sobre o autor de Brás Cubas.
E houve uma ocasião em que Machado se viu de tal maneira hostilizado que
Carlos de Laet chegou a anunciar-lhe, por brincadeira, o desejo de reforçar
a onda, provocando-o a uma discussão, o que levou o romancista a responder
de pronto, cheio de horror: "Não faça isso; para você seria um divertimento;
para mim, um martírio. n
Pois como se sabe, depois do período de juventude, em que revelou
acentuados pendores de combatividade, Machado sempre se mostrou infenso
a discussões e jamais se empenharia numa contenda em defesa própria, como
aquela em que Alencar se engalfinhou com Joaquim Nabuco, em 187 5, pelas
colunas do O Globo.
Mas o processo post-rnortem das glórias literárias constitui uma praxe em
quase todas as literaturas. Surgem então os advogados do diabo, reclamando
o purgatório para aqueles que a posteridade costuma endeusar. Foi o que se
deu também com Machado de Assis. Mal se haviam esvanecido as manifesta­
ções de pesar pela morte do grande escritor, o prof. Hemetério José dos
Santos, em carta aberta a Fábio Luz, pelas colunas da Gazeta de Notícias (16-
1 1- 1908), vinha erguer uma série de impiedosas acusações à memória do ro­
mancista. Nessa página que se tornou célebre - reproduzida no Almanaque
Garnier de 191 O - e freqüentemente citada, podemos considerar dois aspec­
tos: um, visando em Machado o homem - seu procedimento para com
a madrasta e a indiferença pela sorte da raça a que pertencia; outro, visando o
escritor, numa crítica tão feroz quanto ridícula e injusta.
Desprezara Machado a madrasta, mulher de cor, logo que o casamento e
a posição social o levaram para outro ambiente, ao lado de gente branca -
acusa Hemetério. Não discutimos esse ponto, embora nos pareça que não se
pôde aferir até hoje, em termos exatos, até onde teria ido essa lamentável fra­
queza do "filho" de Maria Inês. Mostrara-se indiferente ao problema da es­
cravidão, ao destino de seus irmãos de cor que não lhe mereceram mais do

CAPÍTULO XVI I I � 2 8 !
que "pálidas aguareladas", ao contrário do que se dera com Macedo, Bernardo
Guimarães, Gonçalves Dias, Manuel Antônio de Almeida, Agrário de Meneses,
Trajano GJvão, Artur e Aluísio Azevedo, Nabuco, Sílvio Romero, Rui Barbosa.
Aqui já é impossível não denunciar o exagero de Hemetério dos Santos. Onde
encontrar o "problema do negro" na obra de Manuel Antônio de Almeida e
principalmente em Sílvio Romero, este último até acusado de escravocrata?
Sim, é verdade que Machado, pelo desejo de subir na escala social, exi­
mira-se de lutar pela sorte do negro, mas o mesmo acontecera com outros
mestiços, principalmente com Tobias Barreto, sem que se procure evocar es­
te exemplo como uma possível atenuação para a propalada indiferença de
Machado. Acusa-o Hemetério até de não haver se casado com uma mulata,
de não "amparar com seu nome uma que fosse do mesmo ciclo da sua cor".
Machado seria um "Calabar" que desertara dos seus "pela porta da traição e
do suborno".
Depois vem a história já hoje tão velha do escritor alheio à realidade bra­
sileira, "às nossas guerras e às nossas questões externasn, ponto de vista errô­
neo e absurdo que não nos daremos ao trabalho de discutir aqui. "É uma
arte doentia" - diz Hemetério -, "de uma perversidade fria, não sentida di­
retamente do meio, mas copiada de leituras, pacientemente ruminadas de ro­
mances franceses e ingleses." Aliás, logo no início do artigo declarava o gra­
mático: "Tive sempre pela obra de Machado de Assis o sentimento que
desperta o trabalho chinês de acurada paciência em papelão, lata ou chumbo
derretido; efêmero, porque a ausência do fundo que se lhe nota não tem for­
ça de eternizar a forma; passageiro, porque essa mesma forma não se estitna
e não se valoriza pela excelência da construção e pela variedade dos materiais.
Machado de Assis não foi um observador fiel do nosso modo de ser, um psi­
cólogo mesmo no sentido corrente dessa palavra, durante sua vida muito
alongada e sempre bafejada pelo carinho dos seus e pelo aconchego que sem­
pre teve de estranhos e que o elevou a posições culminantes."
Basta, sem dúvida ... No decorrer desse artigo tão maldoso, através das assa­
cadilhas à memória do morto, percebe-se logo para onde o professor de portu­
guês, o gramático de bitola estreita, quer levar a questão. "O segredo da arte de
Machado de Assis é primário e rudimentar" - afirma Hemetério -: "está
num vocabulário rninguado e pobre, repetido tão amiúde, indo e tornando,

2 8 2 � cA" Vida Literária no Brasil


passando incessantemente sobre uma mesma tônica, que o leitor acaba por
adormecer." "Quem ler três páginas de. Dom Casmurro, do Brds Cubas e do
Memorial de Aires deve ter lido toda a sua obra." E agora chegou o professor
finalmente ao ponto crucial: a gabada forma de Machado de Assis. Um equí­
voco - diz ele -, trata-se de um escritor incorreto, cujos erros não serão di­
fíceis de esmiuçar. Justamente o que o gramatiqueiro estava ardendo por fazer
desde o início. Grande parte do artigo é então ocupada pela rebusca voluptuo­
sa de pronomes mal colocados, de sintaxes duvidosas, dentro do campo estrei­
to em que a férula do mestre-escola pôde retouçar à vontade. Depois de tu­
do chegou a esta conclusão fenomenal: enfim, Machado de Assis ficará na
literatura brasileira ao lado de quem? De Gonçalves de Magalhães. Por quê?
Porque, apesar de branco, este foi também roído pelas misérias da vida, pelos
preconceitos vesgos e zarolhos que roeram o criador de Quincas Borba. to
Dois anos depois, no mesmo número do Almanaque Garnier de 191 O,
que reproduzia este artigo, Pedro do Couto, de quem já se conheciam opi­
niões desfavoráveis a Machado de Assis, externadas no livro Pdginas de crítica

.1
(1906), pretendia fazer uma revisão do autor de Dom Casmurro, para concluir
que seu único mérito era o de escrever bem. Não tinha filosofia nem psicolo­
gia, nenhum traço forte das paixões individuais ou coletivas se lhe descobria

l1 na obra; alheara-se dos fenômenos morais e sociais - a repisada canr"ilena! -,


e se nos contos ainda passava, nos romances se apresentava inteiramente va­
zio. Só lhe restava aquilo: "escrever bem". Fórmula vaga e ambígua de que

1 muita gente continua a utilizar-se para classificar certos escritores. Nem isto,
no entanto, concederia a Machado o professor Hemetério na sua atitude pú­
nica de vingador.

1 0 . Ver nota nll 3 no Apêndice ll.

1
l\ lZ> C A P Í T U L O XIX

l/Í literatura nos jornais e nas revistas � O jornalismo, second métier


para os escritores """"' Inovações da imprensa no começo do século XX �
l/Í Kosmos, publicação típica do "1900" """"' O desenvolvimento das
artes grdjicas no Brasil� Os anais de Domingos Olímpio � 'Rjp Branco

l
e a Revista Americana � O Pirralho anuncia o Modernismo

o certo é que a industrialização da imprensa não se vinha fa­


zendo com prejuízo, pelo menos sensível, da literatura. A maioria
dos jornais do Rio continuava a acolher e a pagar colaboração
literária. Quase o mesmo se dava em São Paulo e em proporções
reduzidas, naturalmente, em algumas outras capitais de províncias. O Jor­
nal do Commercio pagava a trinta, cinqüenta e até sessenta mil-réis a colabo­
ração; o Correio da Manhã, cinqüenta. Em 1907, Olavo Bilac e Medeiros e
Albuquerque tinham ordenados mensais pelas crônicas, publicadas respec­
tivamente na Gazeta de Notícias e em O País; o mesmo acontecia com
Coelho Neto no Correio da Manhã. E a Gazeta de Notícias (número de 12
de setembro de 1907, onde colhemos essas informações) afirmava, de cer­
to com algum exagero, que a colaboração no Rio era mais bem paga do que
em Paris, acrescentando: isto por deferência aos literatos, porque a folha
não aumentaria um número de tiragem dando por dia um artigo do mais
festejado e aclamado escritor. Precisamente a declaração que João Luso, no
Momento Literário, dizia ter ouvido de um dos diretores de jornal, ele que
confessava fazer da imprensa o principal meio de vida e nela colher sua
"grande ração".

CAPITULO XIX � 28 5
Mas não se pode negar que os jornais, proporcionando trabalho aos inte­
lectuais, mesmo quando se tratava de simples rotina de redação, sem nenhum
J
cunho liter rio, facilitava a vida de muitos deles, dando-lhes um second mé­
tier condigno, no qual podiam, certamente, criar ambiente para as atividades
do escritor. Lembremo-nos de que a imprensa propiciara, como continua
a propiciar, a mudança para a metrópole de grande número de intelectuais,
que não conseguiriam realizar-se literariamente se permanecessem no recan­
to nativo da província.
Em 1906, ao fundar A Gazeta em São Paulo, Adolfo Araújo mandou con­
vidar o poeta Alphonsus de Guimaraens, seu amigo, que acabava de perder
o lugar de juiz municipal de Mariana, para trabalhar na redação, com o orde­
nado de quatrocentos mil-réis mensais (soma avultada na época). O poeta não
aceitou por motivo que devia ser ponderável, uma vez que o ordenado era bas­
tante convidativo. Se viesse para São Paulo, muito mais fácil lhe seria conse­
guir repercussão no Rio, e sua obra não ficaria tão pouco conhecida, como
ficou, aré os dias atuais, quando a crítica resolveu afinal redescobri-la.
Ouçamos a opinião do próprio Bilac, que fez da imprensa o principal meio
de vida. No prefácio de Ironia e piedade, em 1916, escrevia ele: "Hoje não há
jornal que não esreja aberto à atividade dos moços. O talento já não fica à por­
ta de chapéu na mão, trisre e encolhido, vexado e em farrapos, como mendigo
tímido que nem sabe como haverá de pedir a esmola. A minha geração se não
teve outro mérito, teve este que não foi pequeno: desbravou o caminho, fez da
imprensa literária uma profissão remunerada, impôs o trabalho. Antes de nós,
Alencar, Macedo e todos os que traziam a literatura para o jornalismo eram
apenas tolerados: só o comércio e a política tinham consideração e virtude."
No seu inquérito Momento Literdrio, em 1905, João do Rio propunha aos
escritores brasileiros, entre outras perguntas, a seguinte: "O jornalismo, espe­
cialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?" Na verda­
de, os termos da pergunta não estavam definidos com muita precisão. Qual o
sentido exato de jornalismo no caso? O da literatura feita para servir os jor­
nais, a dos escritores que colaboram, ou a chamada tarimba de redação, exer­
cida também, freqüentemente, por escritores?
Nem todos os entrevistados interpretaram da mesma maneira a questão.
Mas uma grande parte concordou em ver no jornalismo pelo menos uma

28 6 � tA Vida Literdria no Brasil


face favorável à arte literária. Félix Pacheco, por exen1plo, acentua: "Toda a
melhor literatura brasileira dos últimos trinta e cinco anos fez escala pela im­
prensa." Silva Ramos, achando que se, para a arte literária, o jornalismo seria
fator mau, ressalva: para o literato era "6timo, porque, facultando-lhe um em­
prego de rep6rter ou de noticiarista, quando mais não seja, coloca-o ao abri­
go das primeiras necessidades". Frota Pessoa, depois de fazer restrições, consi­
dera-o num meio em que a indústria editorial é tão arisca e molina, um
estimulante eficaz à atividade dos neófitos de valor. Sousa Bandeira, conde­
nando a imprensa puramente industrial, acha que um jornalismo literário,
uma pequena dose de literatura, ao lado dos telegramas e das notícias para
atrair o burguês, é um gênero apreciável. Afrilnio Peixoto mostra-se favorável
ao jornal, principalmente porque este tende, cada vez mais, a substituir o li­
vro. Se a literatura feita no jornal é apressada, lucra por outro lado com a di­
fusão. Favoráveis sem restrições se declararam Bilac, Si1vio Romero, Medeiros
e Albuquerque. Inteiramente contrários se mostraram Luís Edmundo, Elísio
de Carvalho, Pedro do Couto, Inglês de Sousa, Gustavo Santiago. Mas, como
dissemos, nem todos encararam a pergunta da mesma maneira, e a tecla em
que geralmente tocaram os refratários foi o caráter industrial da imprensa. Isto
para um simbolista, como Gustavo Santiago, e um empedernido boêmio, co­
mo Guimarães Passos, não podia deixar de ser coisa incompatível com a arte.
Sob qualquer aspecto, era porém injusto negar o papel do jornalismo no
desenvolvimento da literatura brasileira. Que ela podia e pode ser praticada
sem nenhum prejuízo para a arte literária, tivemos um exemplo expressivo no
caso de Machado de Assis, que não só foi cronista como redator parlamentar e
até, durante algum tempo, tarimbeiro de redação. Na época em que João do
Rio recolheu essas respostas, o jornalismo brasileiro estava passando por uma
fase de modernização, cuja primeira etapa, aliás, já havia sido iniciada vinte e
poucos anos antes com a Gazeta de Noticias, de Ferreira de Araújo, e a Cidade
do Rio, de José do Patrocínio. Entretanto, esses reformadores tinham ainda
conservado o feitio doutrinário da imprensa e Ferreira de Araújo se caracteri­
zara, sobretudo, pelo largo acolhimento que dispensava à literatura. Por volta
de 1 888, a Gazeta de Noticias era a folha que abria maior espaço à colaboração
literária no Brasil, e que melhor pagava os escritores, só encontrando um con­
corrente nesse terreno: o Diário Mercantil, de Gaspar da Silva, em São Paulo.
Mas na segunda fase de modernização, de 1900 em diante, os jornais, sem
desprezarem a colaboração literária, iam tomando um caráter cada vez menos
doutrinário , sacrificando os artigos em favor do noticiário e da reportagem.
As notícias de polícia, particularmente, que outrora, mesmo quando se trata­
va de um crime rocambolesco, não mereciam mais do que algumas linhas,
agora passavam a cobrir largo espaço; surge o noticiário esportivo, até então
inexistente, e tudo isso no sentido de servir o gosto sensacionalista do públi­
co que começava a despertar. Conseqüência: facultando trabalho aos intelec­
tuais, aos escritores, os jornais lhes pediam menos colaboração literária -
crônicas, contos ou versos - do que reportagem, noticiário, tarimba de re­
dação. Foi ao que se amoldou logo um João do Rio, fazendo da reportagem
um gênero literário e vindo assim a servir simultaneamente ao jornalismo
e à literatura. Nem todos, porém, se adaptavam à situação ou a ela se subme­
tiam: daí o protesto contra o chamado abastardamento da inteligência, ao
qual preferiam muitos a esterilidade das mesas de café e os expedientes da
boêmia. Já que o jornal não lhes acolhia o soneto burilado ou o conto, não
se conformavam em dar-lhe a reportagem ou o noticiário, como qualquer
redator anônimo.
Quem colocou a questão em termos muito lúcidos foi Medeiros e Albu­
querque: "É certo" - respondeu ele a João do Rio - "que a necessidade de
ganhar a vida em misteres subalternos de imprensa (sobretudo o que se cha­
ma 'a cozinhá dos jornais; a fabricação rápida de notícias vulgares), misteres
que tomam muiro tempo, pode impedir que os homens de certo valor deixem
obras de mérito. Mas isso lhes sucederia se adotassem qualquer outro empre­
go na administração, no comércio, na indústria. . . O mal não é do jornalismo:
é do tempo que lhes toma um ofício qualquer, que não os deixa livres para a
meditação e a produção." Podia concluir: num país como o Brasil, em que
ninguém na época (como até hoje, hélas.0 encontrava meios para viver da pró­
pria produção literária, urgindo o exercício de outro emprego qualquer, quan­
do não se tratasse de uma sinecura, essa atividade, como o jornalismo, não
prejudicava a literatura. Já que o escritor brasileiro não podia dispensar um se­
cond métier, era melhor alinhavar notícias, forjar reportagens, como fizeram
tanros, a reproduzir aquilo que Silva Ramos, no referido inquéri to, chama
COITI finura: o quadro lendário do poeta rnorrendo de fo1ne.

2 88 """7 vf Vida Literdria no Brasil


Significativa nos parece a maneira pela qual alguns entrevistados aludem
a Ferreira de Araújo. Com ele sim, tornava-se possível a arre literária no jornal,
porque o jornal deixava de ser uma indústria. Não percebiam que se Ferreira
de Araújo vivesse mais tempo teria cedido também aos imperativos da indus­
trialização dos jornais.

Entre as inovações de nossa imprensa no início do século XX, com relação


à literatura, podemos distinguir as seguintes: a decadência do folhetim, que
evoluiu para a crônica de uma coluna focalizando apenas um assunto, e daí
para a reportagem; o emprego mais generalizado da entrevista, muito pouco
utilizada até 1 900; e a crítica literária em caráter mais regular e permanente.
Tudo isso por certo decorreu da própria evolução da imprensa. Tornando­
se mais leves, os jornais passaram a solicitar crônicas mais curtas e vivas, con­
dizentes com as exigências da paginação, em vez dos folhetins que atravanca­
vam o texto. Ganhando ao mesmo tempo em caráter informativo o que
perdiam em feição doutrinária, deviam naturalmente utilizar, em escala cada
vez maior, os meios mais diretos de informação: a reportagem e a entrevista.
Quanto à crítica literária regular - uma vez por semana, na maioria dos ca­
sos -, atendia-às mesmas necessidades modernas da imprensa: a de orientar

l os leitores sobre o que se publicava no mundo das letras.

l Essas inovações eram ainda incrementadas pelo sensacionalismo, que come­

l
çava a tomar corpo entre nós. "Não se quer conhecer as obras, prefere-se inda­
gar a vida dos autores" - escrevia Paulo Barreto no Momento Literdrio, justifi­
cando o inquérito que acabava de realizar. Atravessávamos precisamente uma

l
época em que a vida dos autores se tornava mais interessante do que as obras.
Mas ter-se-ia processado essa evolução da imprensa no sentido também de
dar maior lugar à literatura? Em relação às duas últimas décadas do século
!
XIX, acreditamos que não. Já em 1 875, com o aparecimento da Gazeta de
Noticias, a literatura conquistara bom terreno em nossa imprensa, conquista
que o Didrio Mercantil, de Gaspar da Silva, em São Paulo, não viera senão en­
riquecer. E seguiram de perto outros jornais do Rio como O País ( 1884),

f
Novidades (1 887-1892), o Correio do Povo (189 1 ), A Notícia, A Imprensa, nos

CAPÍTULO XIX � 2 8 9
últimos tempos do Império e nos primórdios da República, todos abrindo
espaço relativamente apreciável às letras, apesar das perturbações políticas
d
desses dois ecênios. Depois de 1900, os jornais que vinham do século ante­
rior não teriam feito mais do que continuar o que já se tornara rotina quanto
à literatura. Como alguns desses jornais se desenvolveram, tomando novas
dimensões e aumentando o número de páginas, a parte literária foi muitas
vezes favorecida por essa expansão. Não seriam, no entanto, as concessões à
literatura que dariam maiores possibilidades de trabalho aos escritores na
imprensa, e sim o desdobramento e a ampliação de seções puramente jorna­
lísticas. Começamos a ver muitos escritores a fazer reportagem policial e a
alinhavar "sueltos", anonimamente, ao lado dos artigos assinados que publi­
cavarn, 1nuitas vezes, na primeira página.
Procuremos assinalar, por alto, a contribuição da literatura em nosso jorna­
lismo no período em questão. Principiando pelo Jornal do Commercio, diremos
que foi quase o único que se manteve fiel ao folhetim. Ali ainda se podia ler
o rodapé parisiense "Ver, ouvir e contar'', de Jaime Séguier, que substituíra o
barão Sant'Ana Néri, depois da proclamação da República. João Luso instala­
ra-se nas suas "Dominicais", em que arquitetava geralmente uma história sobre
a epígrafe de um Jàit-divers, quando não recordava alguma figura recém-faleci­
da. Constâncio Alves, às quintas-feiras, no c'Dia a dià', colocava-se mais ou me­
nos na linha de Machado de Assis, que desde os fins do século XJX deixara de­
finitivamente de colaborar em jornais. Era o folhetim característico de outrora,
entrelaçando os assuntos mais diversos com certos arremates de espírito vieux
jeu, que lembrava também o do cronista da "Semanà'. Félix Pacheco, poeta
simbolista e bibliógrafo, que segundo Luís Edmundo começou como repórter
de polícia em 1901, tornar-se-ia o grande homem do jornal do Commercio.
Entrando para a Academia Brasileira em 1913, iniciaria uma tradição: a de
possuir sempre o velho órgão um representante entre os "imortais". 1'Da vos�
sa capacidade jornalística damos pleno testemunho" - proclamava Sousa
Bandeira ao recebê-lo na Academia. "Do sisudo artigo de fundo sobre coisas
financeiras e militares, passais insensivelmente a uma acirrada discussão polí­
tica; um belo artigo literário sucede a uma vária maliciosa e por vezes perver�
sa; um elegante t6pico do dia fala com graça comedida de um acontecimento
mundano; as discussões que tendes travado com os vossos colegas de imprensa

2 9 O � cA Vida Literária no Brasil


passam logo a fazer época no Jornalismo, e não vos desdenhais também de su­
gerir ao Diabo a quatro coisas de faceta brej eirice."1 Marcam época duas cola­
borações estrangeiras, a do escritor italiano Vicenzo Grossi e a do português
Cândido de Figueiredo, que ali erguera sua tribuna de debates gramaticais, tra­
vando de uma feita séria polêmica com Cândido Lago do Correio da Manhã.
Urbano Duarte, Tobias Barreto, Escragnolle Dória, José Veríssimo, Araripe
Júnior colaboram ou mantêm seções no jornal do Commercio.
No começo do século XX, Veríssimo ainda conserva a seção "A semana
literárià', em que publicou muitos dos artigos reunidos nas séries dos Estudos
de literatura brasileira e de Homens e coisas estrangeiras.2 Na sala da redação,
quando da morte de Machado de Assis, João Luso viu Euclides da Cunha
escrevendo um famoso artigo.3 Não é raro aparecer também pela redação

L Discursos acadêmicos, vol. II, pág. 347.


2. Ignora-se o motivo pelo qual José Veríssimo teria deixado nessa época o Jornal do
Commercio, onde voltaria a colaborar mais tarde. Mas parece-nos que nos dão uma pista neste
sentido os dois tópicos que destacamos da Correspondência de Capistrano de Abreu: "O ano
passado, quando Eduardo Prado chegou da Europa, Rodrigues (José Carlos Rodrigues) disse:
estão os srs. Nabuco e Aranha em Londres a se entusiasmarem pelos artigos de José Veríssimo
e a dizer deles maravilhas com o Oliveira Lima. Ele não vale o que pago." Carta a Mário de
Alencar de 17-8- 1901.
"O caso de Veríssimo entristeceu-me muito, e continua a entristecer-me. Coitado! Para que
se meteu a ter brio com o Prudente e o Amaro? Acho que o Rodrigues foi cruel e desumano.
O caso não seria para tanto, melhor seria ver nele os apertos de um pai de família que não
ganha bastante para sustentá-la; e não passa de pretexto." Cana a Mário de Alencar de 1-9-
1901. Correspondência de Capistrano de Abreu, vol. 1, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do
Livro, 1954.
3. "A mesa em que Euclides se instalara ficara a dois passos da minha; e não haveria curiosidade
mais naturaJ do que essa de espreitar um artista admirado e queridíssimo entregue a uma obra
na qual eu tinha certeza de que ele poria toda a sua inteligência e todo o seu sentimento.
Euclides, com o cotovelo esquerdo fincado na mesa, a cabeça inclinada e apoiada na mão, com­
punha, de quando em quando, duas ou três linhas ... Acendia um cigarro, tirava-lhe três ou qua­
tro fumaças, arremessava-o, em mais de meio; voltava a fincar o cotovelo, a encostar a fronte;
e a mão direita ia e vinha sobre o papel, durante longo minuto, vagarosamente, mas sem in­
terrupção. Não emendava; não fazia entrelinhas - pelo menos tão a miúdo que chegasse a dar­
me na vista; moscrava uma serenidade perfeita; e o seu trabalho avançava linha a linha e quase
se poderia afirmar letra a letra, como uma renda nítida e delicada nas n1ãos da mais paciente
bordadeira. Levou aquilo nlais de três horas, para ocupar no dia seguinte um resurni<lo espaço
de jornal." ("Oon1inicals" - }orn(tl do Commercio - 22-8-909.)

CAPÍTULO XIX � 2 9 1
o barão <lo Rio Branco, que tirando o paletó e alisando a ponta do charuto se
põe a escrever uma nota política. Todo mundo sabe que o grande ministro,
fiel à vocação jornalística, ainda encontra tempo para colaborar, de quando
em quando, na respeitável folha de José Carlos Rodrigues.
A Gazeta de Notícias continua a ter a colaboração de Bilac, que vinha do
século XIX. Como substituto de Machado de Assis, desprezara, no entanto, 0
folhetim para tornar-se o que hoje chamamos um colunista. Por volta de
J 900, ainda ali escrevem Pedro Rabelo e Guimarães Passos. De 1907 em dian­
te, o feitio um tanto pesado do jornal começa a aligeirar-se. O desenvolvimento
das artes gráficas permite-lhe publicar lindas páginas coloridas. Aos domingos,
remos então qualquer coisa de semelhante a um suplemento literário, ilustra­
ções coloridas e forografias ilustrando um texto em que figura sempre o
"Cinematógrafo'', de Joe, comentários dos dias da semana, algumas poesias,
um conto e artigos nem sempre de escritores brasileiros, quando não são pu­
ros comentários de vulgarização literária e científica. Já falamos da grande im­
portância literária que teve o "Binóculo", de Figueiredo de PimenteL como re­
gistro da vida mundana carioca. A seção continuou por alguns anos, mesmo
depois da morte daquele que a lançou e a ocupou durante muito tempo. Com
esses comentários diários de abertura às notas sociais, Figueiredo de Pimentel
não chegou propriamente a criar um gênero literário, mas um tipo de seção
jornalística. Desde então os jornais nunca mais dispensaram o que se chamou
a "cabeçà' das "sociais", uma croniqueta leve, fútil ou lírica, como introdução
risonha às notícias de aniversários, noivados, casamentos. Muitos escritores
haviam de fazer um estágio nessa seção que se amoldaria a outros feitios, quase
sempre nos limites da subliteratura.
Grande sucesso literário da Gazeta de Notícias foi a publicação das cartas
de Max Nordau, que, segundo se dizia, eram traduzidas por Capistrano de
Abreu. Max Nordau tornara-se conhecidíssimo como autor das Mentiras
convencionais da civilização e pelo terrível processo que fizera dos simbolis­
tas decadentes e místicos, no livro A degenerescência. As cartas giravam qua­
se sempre em torno de problemas sociais e tinham grande repercussão, sen­
do largamente discutidas nos ambientes intelectuais. Ramalho Ortigão, que
colaborara muitos anos na Gazeta de Notícias e dela se afastara depois do
1 5 de Novembro, reataria a colaboração interrompida em data que não pu-

2 9 2 t:::::::r lÁ Vida Literária no Brasil


demos precisar, mas seria depois da queda da Monarquia portuguesa.
Segundo Joaquim Leitão, o escritor teda conseguido cobrir com isso 0 dé­
ficit na receita produzido pelo seu pedido de demissão de bibliotecário da
Aj uda e de 1 º oficial de Secretaria da Academia, em conseqüência da Repú­
blica em Portugal.4
O País criou a tradição da coluna no canto da primeira página (lado es­
querdo), em que figurava um artigo geralmente literário. Ali se estendeu por
muitos anos a colaboração de Carlos de Laet, com a rubrica �'Microcosmo",
mantida outrora no Jornal do Commercio. Júlia Lopes de Almeida, Cármen
Dolores, depois substituída por Gilberto Amado, Oscar Lopes (na rubrica
"A semani'), Olavo Bilac, Abner Mourão sob o pseudônimo feminino de
lsabela Nelson, Artur Azevedo, Oliveira Viana, Eduardo Salamonde eram ou­
tros colaboradores. N' O País publicou Júlia Lopes, em série, o livro Correio da
roça, e entre outros contos, as "Reflexões de um marido" (dezembro de 1907),
de que Artur Azevedo retirou o tema da comédia O dote.
Foi de particular importância a colaboração portuguesa, destacando-se
as crônicas de Justino de Montalvão, as "Cartas de Lisboi' de José Maria
Alpoim - que alternavam a política com a literatura e as questões gerais -,
as "Cartas de Paris" de Xavier de Carvalho, as páginas excelentes de Câmara
Reys. E causando a maior repercussão em nosso ambiente literário, pela ori­
ginalidade de espírito e humor, os artigos de Santo Tirso, que se encontram
reunidos nos livros De rebus pluribus e Cartas de algures. Em 1914, Carlos Dias
Fernandes publicava em folhetim o romance Os cangaceiros.
Em A Notícia, a literatura ocupou até por volta de 191 O mais ou menos
um lugar de destaque. Havia uma nota diária no alto da terceira página em
que os assuntos tratados, com exceção da crônica política - estampada ape­
nas num dia da semana -, relacionavam-se geralmente com as letras, a histó­
ria e os temas culturais. Era a "Crônica literárii' de Medeiros e Albuquerque,
sob o pseudônimo de J. Santos, a crônica de João do Rio ou as Antiqualhas e
Memórias do Rio de janeiro de Vieira Fazenda, que se prolongaram em folhe­
tins semanais por muito mais de um ano.
No Jornal do Brasil ainda encontramos os artigos venenosos de Carlos

4. "Ra111a!ho Ortigão, Epistológrafo'', artigo de Joaquim Leitão en1 Vamos ler, 25-3-1 937.

CAPÍTULO XIX � 2 9 3
de Laet, a colaboração do padre Severiano de Resende, não raro com sentido
polêmico, ':5 assinaturas de Afonso Celso e de Barista Júnior Qoão Phoca).
N'A Imprensa, onde o diretor Alcindo Guanabara escreve diariamenre seu
arrigo político ou sobre questões gerais, podemos assinalar a colaboração de
Sousa Bandeira, Afonso Lopes de Almeida, Afonso Costa, José do Patrocínio
Filho, por volta de 1911, sob o pseudônimo de Antônio Simples, e Oliveira
Viana já revelando nessa mesma época, quando ainda não havia publicado li­
vros, sua envergadura de sociólogo e prosador, ocupando-se de problemas bra­
sileiros com o mesmo desembaraço com que abordava motivos literários.
Na Tribuna aparecia o nome de Gastão Bousquet, enrão muito conhecido
como cronista e teatrólogo, figura viva na memória dos contemporâneos,
embora não houvesse deixado qualquer obra. E pela redação era visto o poe­
ta Luís Pistarini, também hoje quase esquecido, com chapéu largo, gravata de
,,
laço frouxo e imenso à moda dos pintores, '�meio revisor e meio repórter , em
busca dos vales, cujo produto consumia nas mesas dos cafés. Podemos acres­
cenrar os nomes de Xavier Pinheiro e de Fábio Luz, que praticou a crítica
literária durante algum tempo.
O aparecimento do Correio da Manhã em 1901, fundado por Edmundo
Bittencourr com o propósito de combater o governo Campos Sales, veio agirar
não somenre os arraiais políticos como também literários. Tornara-se o grande
jornal do dia, de orientação essencialmenre polêmica, onde se fazia o proces­
so dos figurões da época. Tudo pois que ali aparecia no terreno das letras
obtinha, pela projeção da folha, a maior repercussão. A crítica literária foi fei­
ta inicialmente por José Veríssimo, mais tarde por Osório Duque-Estrada.
Como uma contrapartida dos folhetins de Vieira Fazenda, n'A Notícia, Melo
Morais Filho escrevia sobre aspectos do Rio antigo as crônicas que seriam
reunidas no livro Fatos e mem6rias; aos domingos, Artur Azevedo publicava
um dos seus conros brejeiros, que pela leveza e graça atraíam numerosos lei­
tores. 5 Cândido Lago tornou-se famoso com a sua seção "O que é correto",
discutindo questões de gramática e problemas lingüísticos. Heráclito Graça,

5. No livro Artur Azevedo e sua época, Raimundo Magalhães Jr., às págs. 210 e segs., refere-se de­
talhadamente ao episódio pitoresco a que já aludira Antônio Sales na Revista da Acadernia
Brasileira de Letras (março de 1 930). Recla.inava-se contra o fato de o C'orreio da Manhã só publi­
car contos de Artur Azevedo, dando�lhes destaque na p rimei ra página, quando havia muitos

_ 2 9 4 � l/Í Vida Literdria no Brasil


relegado ao ostracismo depois de haver ocupado pos1çoes de destaque no
Império, encontrou no Correio da Man.hã, para onde o levou Leão Veloso Filho
(Gil Vida!) , a sua cátedra de assuntos gramaticais. Foi verdadeira revelação
pois, excetuando os íntimos, ninguém sabia que esse antigo político cearense
era versado em tais assuntos. Também Mário Barreto aí publicou as suas
Cartas filol6gicas. Logo na fundação do jornal aparecem as colaborações dos
monarquistas Afonso Celso Júnior e Carlos de Laet, mas não duram muito
tempo. Laet dentro em pouco se desentende com Edmundo Bittencourt e
despede-se da folha, juntamente com Afonso Celso, pondo-se a atacar desa­
bridamente o diretor, que responde no mesmo tom. Guimarães Passos,
Teotônio Filho (Theo Filho), Cármen Dolores, Medeiros e Albuquerque,
Viriato Correia, Bastos Tigre, mantendo desde 1901 a seção "Pingos e respin­
gos" sob o pseudônimo de Cirano & Cia., Luís Edmundo, Costa Rego (este
com os "Traços da semaná'), figuram entre os redatores e colaboradores do
Correio. Antônio Sales publica em folhetim o romance Aves de arribação. Fialho
de Almeida, que depois da proclamação da República portuguesa ficara em

valores novos no gênero à espera de oportunidade para aparecerem. A campanha era feita não só
fora como dentro do próprio jornal, onde o espírito grivois do autor de O badejo parecia algo
destoante, e acabou levando Edmundo Bíttencourt a suprimir o conto dominical, embora con­
servando a colaboração de Artur Azevedo em outros gêneros. Ao mesmo tempo que assim pro­
cedia, criava a grande oportunidade reclamada pelos novos, lançando um concurso de contos
originais e traduzidos. Para os primeiros, se classificados, a remuneração seria de cinqüenta mil­
réis; para os traduzidos, din mil-réis, devendo os autores assinar com pseudônimo.
Rapidamente se avultou a massa dos manuscritos recebidos, e como o público já estivesse
sentindo a falta dos contos de Artur Azevedo, a direção do jornal resolveu antecipar o julga­
mento da parte recebida. As preferências do júri recaíram logo no conto j'A viúvà', de Tibúrcio
Gama. Foi estampado na primeira página, no lugar onde figuravam os contos de Artur
Azevedo. Mas qual a verdadeira identidade do autor? Daí a dias o Correio da Manhã recebe uma
carta que assim terminava: "Pedindo aos meus ilustres colegas que relevem um movimento,
aliás inofensivo, da minha curiosidade, ou se quiserem, do meu amor-próprio, declaro-lhes que
desejando verificar à puridade se poderia ombrear com os escritores novos n a produção de con­
tos dignos do Correio da Manhã, escrevi e enviei-lhe, copiado com letra estranha e assinado com
o pseudônimo de Tibúrcio Gama, o conto 'A viúva', que, apesar de simples e ligeiro, foi o es­
colhido para ser publicado. Confesso que a escolha não me contrariou, mas como não posso
nem devo receber o prêmio de um torneio oferecido aos moços, rogo aos meus ilusrres colegas
que destinem os 50$000 de Tibúrcio Gama a um conto suplementar que seja efetivamente es­
crito por urn moço. - Rio de Janeiro, 18 de março de 1906 - Artur Azevedo."

CAPÍTULO XIX � 2 9 5
situação crítica no seu país, sem ter jornal onde escrever, é convidado por
Edmundo Bittencourt para colaborar no Correio e aí publica o primeiro ar­
tigo político' sob a rubrica "Saibam quantos. . . " a 9 de dezembro de 1910.
Dentro de algum tempo, porém, é obrigado a silenciar pois o governo por­
tuguês lhe faz sentir que se continuar a colaboração será exilado. O escritor,
que não se conformava em deixar Portugal, curva-se à imposição. Entre ou­
tros colaboradores de além-mar destacavam-se Paulo Osório, dom João da
Câmara e Manuel de Sousa Pinto (este, aliás, brasileiro de nascimento). Fazia
parte do corpo redatorial uma curiosa figura: o italiano Mário Cataruzza, fale­
cido precocemente por volta de 1908. Vindo para o Brasil, aprendera o portu­
guês com extraordinária facilidade e rapidez, adquirindo logo os mais amplos
conhecimentos dos nossos problemas políticos. Fazendo a crônica parlamen­
tar e os comentários internacionais mostrava-se sempre bem-informado, ver­
sando elegantemente os assuntos. Louro, rosto cheio e corado, onde brilhavam
uns óculos de aro de ouro, com a expansividade natural da raça, deixou uma
viva lembrança na memória dos contemporâneos.
Na província, desde a Monarquia muitos jornais sempre deram destaque à
literatura, mas em poucos deles poderemos assinalar seções ou colaborações de
importância, pois os olhos dos que pretendiam realizar-se na vida literária esta­
vam sempre voltados para a metrópole. Era principalmente aqui que todos de­
sejavam aparecer em letra de fôrma. Não obstante, alguns jornais de São Paulo
conseguiram levar para suas colunas muitos nomes consagrados. José Veríssimo,
Olavo Bilac, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque, Artur Azevedo e outros,
que ali já vinham colaborando com relativa assiduidade no século XIX, conti­
nuaram a fazê-lo no seguinte. De excepcional importância foi a colaboração de
Oliveira Lima e Euclides da Cunha n' O Estado de S. Paulo, jornal onde apare­
ciam as assinaturas de Valdomiro Silveira, Amadeu Amaral, etc. e que lançou
Monteiro Lobato. O Correio Paulistano, à semelhança do O País, estampava no
canto esquerdo da primeira página um artigo freqüentemente literário.
Adolfo Araújo, jornalista e homem de letras, velho companheiro de Afonso
Arinos no Comércio de São Paulo, ao fundar A Gazeta em 1906, não conseguin­
do trazer para o corpo redatorial o poeta Alphonsus de Guimaraens, que havia
perdido o emprego em Minas, teve no entanto a colaboração deste nas colunas
do novo jornal leve e combativo. Várias poesias Alphonsus de Guimaraens ali

2 96 � LA Vida Literária no Brasil


publicou, inclusive a famosa "Vila do Carmo" (lQ de agosto de 1906). A l"
de janeiro de 1907 vemo-lo apresentando seu amigo padre Severiano de
Resende e estampando-lhe a poesia "Arté místicà'; logo depois, publicando
um conto "Death Club", qualquer coisa meio à Edgar Poe e de menor signi­
ficação literária, como toda a prosa desse grande poeta.
Em Porto Alegre, ao comemorar seu quarto aniversário em 1Q de outubro
de 1899, o Correio do Povo criava uma seção "Poetas do sul", em que com da­
dos biográficos e clichês passavam a ser divulgadas as produções dos "novos"
do Rio Grande, no propósito de revelá-los à literatura nacional que os igno­
rava, corno explicava o artigo de apresentação. Mantida por muito tempo
no decorrer do século XX, a referida coluna revelou alguns nomes que ultra­
passaram as fronteiras do estado, corno Pinto da Rocha e Zeferino Brasil.
Alcides Gonzaga6 diz que dessa data em diante foram sem número os homens
de letras que surgiram através do Correio do Povo. E no que concerne ao Rio
,,
Grande do Sul é preciso lembrar Simões Lopes Neto, "escritor municipal ) na
frase já célebre de Carlos Reverbel, publicando na imprensa de Pelaras os ad­
miráveis contos regionais a que só atualmente a crítica fez justiça.
Podemos assinalar ainda a colaboração literária do Didrio de Pernambuco,
cuja fase mais brilhante para as letras decorreu aliás no século XIX entre 1859

1
e 1888, quando nas colunas desse jornal se formou urna verdadeira elite in­
telectual. No século XX aparecem os nomes de Gilberto Amado - nos seus
famosos "Golpes de vista'', sob a assinatura de Áureo -, Artur Orlando,
Aníbal Fernandes, erc.

1
!
No terreno das revistas e dos periódicos devemos distinguir os de caráter
essencialmente literário dos que, possuindo mais interesse geral e cunho mun­

1 dano, davam também um espaço maior ou menor à literatura.


As últimas manifestações de um gênero de revistas muito freqüente no sé­
culo XIX, em que predominava a caricatura e a charge, seriam A Cigarra e A
Bruxa, ambas de Julião Machado e Olavo Bilac, entre 1895 e 1 896. No limiar

)
6. Alcides Gonzaga, flornens e coisas de jornal, Livraria do Globo, Porco Alegre, s/d.

CAPÍTULO XIX � 2 9 7
do século XX, com o desenvolvin1ento da arte gráfica e da reportagem, o lá­
pis do caricaturista não bastará para dar todo interesse ilustrativo a um perió­
,
dico; surgi�á então um elemento novo na imprensa: o fotógrafo.
Um dos primeiros exemplos dessa articulação da caricatura com a re­
portagem fotográfica vamos encontrar na Revista da Semana, que começou
a circular em 20 de maio de 1901. Fundou-a Álvaro Teffé, auxiliado por
Medeiros e Albuquerque e Raul, que ali iniciou por assim dizer a carreira ar­
tística. Intitulava-se "órgão de informação ilustrado e popular'', e como pro­
curava manter ainda certo compromisso com a tradição do século XIX, subs­
tituía, por vezes, a fotografia pela gravura decalcada naquela. Que parte teve a
literatura, a princípio, na Revista da Semana? O artigo de apresentação expli­
cava: publicaria contos e romances pelo critério do interesse que a ação pudesw
se despertar, uma vez que a linguagem fosse clara, acessível a todos e o entrecho
nada tivesse de censurável. Acusaria o recebimento de livros, registrando-os
sem criticá-los, e não faria política literária, nada de escolas ou de capelinhas.
Nota curiosa: já se cogitava então de literatura infantil, haveria sempre um
conto da carochinha para crianças. A Revista da Semana tornou-se logo de­
pois propriedade do jornal do Brasil, e em 1915 passaria para as mãos de
Carlos Malheiro Dias, Aureliano Machado e Artur Brandão, encetando uma
fase em que se acentuaria o cunho mundano com a primazia de uma litera­
tura por ele moldada.
No mesmo ano de 190 l, surgia em Paris, nos moldes de L1llustration
Française, a !lustração Brasileira, já com a predomináncia da fotografia sobre o
desenho. Trazia o propósito de tornar-se instrumento de comunicação mais ín­
tima entre o Brasil e a Europa; por isso mesmo, a parte literária, bem desenvol­
vida, ficava a cargo de colaboradores brasileiros e portugueses. Como Paris era
o maior centro de elegância do mundo, encarregava-se a revista de oferecer, em
primeira mão, as últimas novidades em matéria de modas femininas e infantis.
Não encontramos indicação alguma sobre o diretor e os redatores no cabeçalho,
mas somos levados a atribuir a participação do barão do Rio Branco na inicia­
tiva, sobretudo pelo fato da revista ter deixado de circular em 1902, quando re­
gressava ele ao Brasil para assumir a pasta do Exterior no governo Rodrigues
Alves. Em janeiro de 1909, porém, tínhamos no Rio a Ilustração Brasileira apa­
recendo quinzenalmente. Apresentava um bom elenco de colaboradores esttan-

2 9 8 _, V'Í Vida Literdria no Brasil


geiros, e entre os brasileiros se incluíam Olavo Bilac, Eduardo Salamonde, Paulo
Barreto, Manuel Bonfim, Júlia Lopes de Almeida. Medeiros e Albuquerque es­
crevia a "Crônica de 15 dias'' sob as iniciais M. A., e Pires de Almeida, em mau
estilo, mas sempre com larga informaç.ão, evocava homens, coisas e feitos do
passado. A revista publicava em suplemento, fora do texto, romances de aven­
turas, como o Arsfnio Lupin de Maurice Leblanc e a Guerra nos ares de Wells,
no que seguia, igualmente, uma praxe de L7llustration Française.
O lançamento de uma Ilustração Brasileira em Paris, em 190 l , resultaria,
naturalmente, da circunstância de não possuirmos, até então, oficinas gráfi­
cas em condições de imprimir um magazine desse gênero. Já devíamos pos­
suí-las em janeiro de 1904, quando apareceu o primeiro número de Kosmos,
de feitio moderno, ligeiramente inspirado em L7llustration Française, embo­
ra conservando caráter próprio e inconfundível. A direção alegava no entanto
os incríveis embaraços com que tivera de lutar num "meio como o nosso tão

1
mal aparelhado para semelhante empresà', a necessidade de reunir em suas ofi­
cinas os mais variados ramos das artes gráficas, que nos mais adiantados cen­
tros constituíam verdadeira especialidade. Vencendo tais obstáculos, Kosmos
pretendia ser um álbum de "nossas belezas naturais, dos primores dos nossos

j artistas, propagando seu conhecimento a outros pontos do país e do estran­


geiro". Já não encontraríamos ali aquelas gravuras decalcadas do século XIX: o

1
desenho separava-se completamente da fotografia. Embora dando margem à
nota mundana e social, Kosmos seria uma revista de cultura com o predomí­
nio da parte literária e artística - a revista mais típica talvez de nosso "1900",
coincidindo seu aparecimento com a abertura da avenida. Um álbum em que
a literatura se enquadrava numa larga moldura artística de ilustrações e foto­
grafias. Quanto à política, alheava-se completamente das lutas partidárias.
Registraria apenas os fatos sem ultrapassar os limites da crônica. O elenco de
colaboradores reunia nomes consagrados ou pelo menos já bastante conheci­
dos. Dos novos, quase somente João do Rio, que começava a aparecer com as
primeiras reportagens na Gazeta de Notícias. Lima Barreto, muito moço,
não tendo ainda publicado livro, não conseguiria impor-se como escritor aos

1
diretores da 'ilindíssima revista)'.7

7. Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto, pág. 156, José Olyinpio, Rio, 1952.

C A P Í T U L O X I X 6::='9 2 99
A crônica de abertura, nos primeiros nún1eros, vinha assinada com as ini­
ciais O. B., ,de Olavo Bilac, que a deixou de fuzer, logo depois, por ter de partir
para a Europa, retomando-a mais tarde ao regressar. Da rubrica teatral encar­
regara-se a princípio Artur Azevedo, que seria substituído por João do Rio.
A crítica literária, sem rigorosa assiduidade, foi exercida por José Veríssimo.
Gonzaga Duque, além da crítica de arte, publicou páginas muito curiosas de
memórias. Outros colaboradores freqüentes foram: João Ribeiro, Vieira
Fazenda, Lima Campos, Raul Pederneiras, Félix Pacheco, Coelho Neto,
Capistrano de Abreu, Medeiros e Albuquerque e Euclides da Cunha, que ali
deixou duas páginas admiráveis, ainda não reunidas em livro. Tinha a revis­
ta como diretor Mário Behring, e circulou de 1904 a 1906. Dois meses de­
pois do aparecimento de Kosmos, seria lançada outra revista mensal do mes­
mo gênero, ao que tudo indica destinada a fazer concorrência àquela que
surgira como qualquer coisa de novo e excepcional em nosso ambiente.
Intitulava-se Renascença, era dirigida pela parceria Rodrigo Otávio-Henrique
Bernardelli. O artigo de apresentação dizia ser idéia antiga dos editores lan­
çar um magazine desse tipo, que estava fazendo falta ao meio literário brasi­
leiro, lançamento que, então, se impunha ante o desenvolvimento das artes
gráficas no Brasil. Aludia ao fato da Kosmos tê-los precedido na arena, e lou­
vava-a como "atestado eloqüente do que se é capaz de fazer entre nós". O
momento assinalava, sem dúvida, uma tendência de franco renascimento es­
tético, sendo sintoma animador o aplauso geral às várias obras de remodela­
ção do Rio. 8 Registrando essa tendência, Renascença surgia como expressão
de um surto de progresso, "oferecendo ao mesmo tempo à literatura pátria
ensejo e oportunidade de tornar conhecidas as produções do variado enge­
nho de seus beneméritos servidores". Os colaboradores haviam sido recruta­
dos, em grande parte, entre os que figuravam nas páginas de Kosmos: José
Veríssimo escrevia artigos de crítica; Coelho Neto publicava conferências,
fantasias; Bilac e Guimarães Passos assinavam contos, gênero em que ambos
não foram além da mediocridade; Sílvio Romero dava em primeira mão ca­
pítulos do livro Brasil social. Não faltariam as cr6nicas de João do Rio nem
os artigos de Elísio de Carvalho. Sob o pseud6nimo de Cosme Velho, Araripe

8. Isco não era perfeicamente exato: as obras sofreram onda de oposição da irnprensa e do povo.

3 O O � (_,/{ Vida Literdria no Brasil


' ,
Júnior publicou no decorrer de muitos nó.meros o romance Miss Kate. Ou­
tros colaboradores: Max Fleiuss, Vieira Fazenda, Afonso Celso e o barão de
Paranapiacaba, remanescente do byronismo, com soporíferas traduções do
Corsário e do Prometeu acorrentado de Ésquilo.

1
Revista bem típica do espírito mundano que dominou a literatura no iní­
cio do século XX foi A Rua do Ouvidor, título já bastante significativo. A Rua
da Ouvidor, fundada em 1889, circulou até 1913, e refletia a ditadura do fa­
1 moso "beco" na vida social do Rio - ditadura fortemente abalada de 1904
1 em diante com a abertura da avenida. Serpa Júnior - mais gerente de jornal
do que propriamente jornalista - julgava ir ao encontro do gosto do público
oferecendo-lhe um magazine capaz de refletir o mundanismo que marcava de
maneira tão expressiva a fisionomia da cidade. Mas a aceitação não correspon­
deu à expectativa. E como Serpa Júnior, embora doente, fosse homem de von­
tade, resolveu a todo o custo manter a revista. A Rua do Ouvidor passou, desde
certa época, a trazer sempre na primeira página o retrato de um figurão com
uma notícia biográfica muito elogiosa, carregada de adjetivos laudatórios.
Por esses panegíricos Serpa Júnior cobrava bom preço dos figurões, conseguin­
do assim, graças ao grão de incenso na vaidadezinha alheia, manter durante
bastante tempo um magazine que prestou bons serviços à literatura. Crônicas,
versos - principalmente versos - vinham ao lado dos patins e dos comentá­
rios mundanos. Serpa estimulava os talentos novos afirma-nos Vivaldo
Coaracy9 -, acrescentando terem estreado n'A Rua do Ouvidor muitos escri­
tores que mais tarde conquistaram renome nas letras.
Em agosto de 1903, antes mesmo de se iniciarem as obras de abertura da
avenida Central, surgia o semanário A Avenida, de Domingos Ribeiro Filho,
com tendência humorística, em que faria toda sorte de perversidades o lápis
de Gil. O artigo de apresentação abria logo com trocadilhos: devendo A
Avenida ser larga e ampla, não haveria jamais "a estreiteza de vistas, a nota pes�
,
soal irritante, o conceito insultuoso, as opiniões parciais' , etc. Seu sonho era
no entanto ambicioso: dar ao Rio de Janeiro um periódico que, pelo feitio e
barateza, colocasse o público "a par do mais perfeito e moderno jornalismo do
mundo". Segundo depreendemos de um artigo de Domingos Ribeiro Filho

9. Vivaldo Coaracy, Couves da minha horta, José Olympio, Rio, 1949.

CAPÍTULO XIX � 3 0 1
em Renascença, 10 a revista teve seu período de apogeu, em que chegou a ven­
der quinze mil exemplares. Foi nessa época que Gil e Bastos Tigre em­
preenderam a série dos "Prontos" - um soneto sobre qualquer nome do dia,
ilustrado por uma charge
cujo êxito foi grande. O mesmo Domingos
-

Ribeiro alude à decadência da revista, que deixaria de circular em 1905. ''A pi­
careta do dr. Frontin'' - escreve ele no artigo citado - "demolia o nosso pré­
dio à rua dos Ourives, 33, e a imbecilidade nacional economizava, de sábado
em sábado, mais vinte ou trinta mil-réis." O periódico teria sofrido assim as
conseqüências da própria abertura da avenida cujo advento anunciava.
E o fim seria o triste desfecho tão freqüente na boêmia da época. ''Acabamos
no fundo de um barbeiro, e de tudo quanto nos era caro só o Gil ficou com
o seu lápis imaculado e adorado" - informa-nos Domingos Ribeiro Pilho.
Explorando o mundanismo, nenhuma dessas revistas, como acabamos de
ver, conseguira uma grande penetração popular e teria vida longa. Somente a
Fon-Fon, fundado em 1907, e a Careta, em 1908, lograriam sobreviver e che­
gar até nossos dias. Ambas fariam também da nota humorística, dos potins, in­
tercalados entre duas fotografias de casamento ou piquenique, um de seus
principais instrumentos de sucesso. São bem significativas as palavras do
artigo de apresentação da Careta: "Lançandoà publicidade este semanário,
é preciso confessar, e contritamente o fazemos, que a Careta é feita para o
Público, o grande e respeitável Público com P grande. Se tomamos essa li­
berdade foi porque sabíamos perfeitamente que ele não morre de caretas.
Longe vai o tempo em que isso acontecia. Todavia a nossa esperança é justa­
mente que o público morra pela Careta a fim de que ela viva."
A Fon-Fon teve grande importância como órgão da última fase do simbolis­
mo. Ali se reuniam Mário Pederneiras, Gonzaga Duque, Hermes Fontes, Álvaro
Moreyra, enquanto os parnasianos, irredutíveis às libertinagens dos discípulos
de Verlaine, procuravam abrigo nas páginas da Careta. Quanto ao Malho, fun­
dado em 1902, e que obteve grande popularidade, dedicou-se de preferência
à crítica, nele não desempenhando a literatura qualquer papel digno de nota.
Vejamos agora as revistas que não cortejavam o grande público. A 8 de ou­
tubro de 1904, quase um ano após o aparecimento de Kosmos, seria lançada

1 0. Renascença, vol. 5s:i., pág. 138.

., 3 O 2 � cA Vida Literdria no Brasil


uma revista essencialmente literária, sem tom mundano ou social, filiando-se
ainda pela apresentação gráfica aos modelos do século XIX e, principalmen­
te, à Semana de Valentim Magalhães. É verdade que o título Os Anais denun­
ciava a inspiração francesa de Les Annales, que se tornara então uma das pu­
blicações literárias parisienses muito lidas no Brasil. A iniciativa partia de
Domingos Olímpio, o romancista de Luzia-Homem, que figurava como dire­
tor. Seu amor às !erras parecia forte e sincero. Já desiludido da política, exer­
cia por essa época a advocacia no Rio e escrevia novos romances. A revista
Os Anais não era uma publicação ilustrada, nem fazia, como a Kosmos, certas
concessões ao mundanismo. "Anais das ciências, das letras e das artes... " - di­
ziam as primeiras palavras do artigo de apresentação, enquanto no cabeçalho
ainda se acrescentava o Ler1no indústria. A revista se destinava a ocupar um
posto vago na imprensa do Rio de Janeiro, "posto de sacrifício, abandonado
por trabalhadores de superior engenho", cujo vestígio brilhante testemunha­
vam sinceros sacrifícios mal apreciados. Julgava possível naquele período de
"animadora atividade intelectuar' conseguir "restaurar a tradição interrompi­
da por desalentos lamentáveis, e todavia gloriosa como precioso subsídio ao
desenvolvimento desta terra''. Os Anais seriam pois um registro de nossa vida
intelectual, "uma resenha cuidadosamente feita das idéias, dos fatos, dos fenô­
menos sociais estudados pelo aspecto mais prático e intuitivo''. Ao lado da cola­
boração rigorosamente selecionada - crítica, romance, versos, crônicas
comerciais e um noticiário de fatos mais importantes do país e do estrangei­
ro, enfeixaria, para leitura dominical, um punhado de informações muito
úteis àqueles que não podiam andar em dia com os jornais. Na parte propria­
mente literária contava não somente com a colaboração de escritores brasilei­
ros como também de portugueses, e já anunciava a de Fialho de Almeida.
Franqueava, ao mesmo tempo, as colunas aos intelectuais dos estados. Mas
quanto a Fialho só encontramos a reprodução de muitos de seus artigos, e
nenhum escrito especialmente para a revista. Deparam-se-nos, também, vá­
rias reproduções de Eça, Ramalho, Oliveira Martins, Camilo, selecionadas
com bom gosto. O periódico que aparecia, semanalmente (aos domingos),
trazia como artigo de abertura uma crônica política de Pojucan, pseudôni­
mo de Domingos Olímpio. A critica literária, sob a rubrica de "A livraria'',
fo i feita em caráter de book reviewer por Walfri<lo, e mais tarde em 1 906 por

CAPÍTULO XIX � 3 0 3
" Nunes Vidal. Em 1 905, João do Rio, que já colaborava na revista, passou a
ocupar-se da."crônica teatral, reservando-se, porém, o direito de não escrevê-la
toda semana, já que nosso movimento nesse setor nem sempre oferecia motivos
dignos de comentários. Entre os colaboradores figuravam padre Severiano de

1
Resende, Gonzaga Duque, Evaristo de Morais, Virgfüo Várzea, José Veríssimo,
Coelho Neto, Eunápio Deiró, Rocha Pombo, este escrevendo vários artigos
em continuação sobre Farias Brito; Sílvio Romero, refutando, no decorrer de
1
vários números, as teorias expostas por Manuel Bonfim, na América Latina,
páginas vivas de polêmica, mais tarde englobadas em volume; Araripe Júnior
publicando, entre outros artigos, a introdução do ensaio sobre Ibsen. No dia
l
em que Domingos Olímpio morria de congestão cerebral, a revista com isso
deixava de circular.
Na mesma linha de Os Anais, podemos colocar a Revista Americana, que
teve relativamente vida longa, durando de 1 909 a 1 9 1 9.
Num estudo sob o título "Um americano e a literatura americanà', incluí­
do na I' série de Homens e cousas estrangeiras (Garnier, 1 902), José Veríssimo
afirmava: "Pouquíssimo sabemos nós brasileiros das literaturas americanas, e
não sei se eu poderei, generalizando, afirmar que pouquíssimo sabemos nós
americanos da literatura uns dos outros. Nesta nossa comum e recíproca ig­
norância, os Estados Unidos, não obstante sua supremacia no continente, não
tem quinhão consideravelmente menor que o México ou a Venezuela, por
exemplo. Ignoramo-los intelectualmente quase tanto corno ao Chile ou à
Argentina." Pois para combater essa ignorância lançava-se em outubro de
1909, no Rio, a &vista Americana, mais ou menos nos moldes da Revista
Brasileira do século XIX, tendo como redatores: A. G. Araújo Jorge, Joaquim
Viana e Delgado de Carvalho, gente do ltamarati, com o apoio de Rio Branco,
a iniciativa do grande ministro. O artigo de apresentação ressaltava o desconhe­
cimento recíproco em que viviam, sob o ponto de vista cultural, os países do no­
vo continente. O telégrafo nos trazia, em fragmentos, o que se passava no pla­
no político e econômico entre as nações vizinhas, mas quanto ao aspecto
"estritamente intelectual" nada sabíamos. E no intuito de divulgar as diversas
manifestações espirituais da América e "seguir do mesmo passo, paralelamen­
te, o traçado superior de sua evolução político-econômica)', a Revista se propu­
nha tornar-se um elo entre as figuras representativas da intelectualidade desta

. 3� O 4 � <A' Vida Literdria no Brasil


parte do mundo. Pretendia facultar assim ao historiador, ao geógrafo, ao polí­
tico, ao jornalista, ao artista e ao filósofo "elementos seguros determinantes de
uma noção exata e precisa dos múltiplos e parcelados aspectos de nossa vida es­
piritual", na certeza de que esse congraçamento moral constituía o primeiro
passo para uma aproximação política inteligente.
A Revista Americana circulou mensalmente até 1 9 19. Nela colaboraram
Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Araripe
Júnior, José Oiticica. Euclides ali publicou, na versão definitiva, o ensaio "Da
Independência à República', estampado primeiramente n'O Estado de S. Paulo,
depois refundido e ampliado. Trazia também com freqüência artigos de escri­
tores hispano-americanos, como Augustín Vedia, Benjamim Subercasseaux, re­
produzidos na língua original.
Revista literária com preocupações políticas e filosóficas seria a Floreal,
cujo primeiro número apareceu em fins de 1907. Poderia também figurar no
capítulo das modas literárias, pois refletia em parte as tendências libertárias ba­
fejadas pela voga de Tolstoi. Lançou-a um grupo de escritores novos, à frente
dos quais se encontrava Lima Barreto, como uma reação contra os círculos fe­
chados das principais revistas da época, eivadas de mundanismo. O futuro cria­
dor de Policarpo Quaresma chegara a colaborar na Fon-Fon, com o pseudôni­
mo de Philéas Fogg e S. Holmes, não se ajustando ao tipo de literatura que lá
predominava. 'iFantasio, imagino, faço química, escrevo pilhérias ... " - dizia
em carta ao poeta Mário Pederneiras, seu amigo e um dos ('donos" da revista.
"Não há meio! Demais, vejo que as coisas minhas não agradam, ficam à espe­
ra, enquanto as de vocês nem sequer são lidas, vão logo para a composição." 1 1
Não se articulando na Fon-Fon, muito menos se articularia na Kosmos ou
na Renascença. Sentira, no entanto, a necessidade de um periódico para comu­
nicar-se com o público, reconhecendo ser o jornal o caminho mais curto pa­
ra chegar-se ao editor. Na companhia de Antônio Noronha Santos, Domingos
Ribeiro Filho e outros escritores, igualmente rebelados contra a hegemonia das
"panelinhas", planejou e lançou a nova revista, em que punha as melhores espe­
ranças. Floreal apresentava-se, antes de tudo, como expressão do pensamento

1 1 . Francisco de Assis Barbosa, op. cit., pág. 1 56. O biógrafo não pôde averiguar se essa carta
chegou a ser enviada. Mas pelo menos foi rascunhado esse desabafo.

CAPÍTULO XIX � 3 0 5
livre, sem injunções de escolas ou de ('malocas literárias". Contra a sofistica­
ção dos mei:lalhões da época, preconizava absoluta autenticidade. Era preciso
que, burro ou inteligente, o escritor fosse ao fim de si mesmo dizendo o que
tinha a dizer com a mais ampla liberdade de fazê-lo - tais as palavras de Lima
Barreto no artigo de abertura.
Os redatores deviam contribuir com uma quota para cada número.
Obtiveram uma sala por trás da oficina de um alfaiate na rua Sete de Setem­
bro, onde instalaram a redação, animados das melhores intenções. Mas a im­
prensa não deu muita ressonância ao aparecimento da revista. Apenas algumas
notas discretas, com exceção de um artigo de Gonzaga Duque. Do primeiro
número venderam-se trinta e oito exemplares. Feita pequena concessão ao
gosto do público, do segundo chegaram a sair oitenta e dois exemplares. No
terceiro obteve-se uma grande vitória moral: as referências amáveis de José
Veríssimo na coluna crítica do jornal do Commercio. Isto não bastou para
prolongar a vida de Floreal, que se extinguiu depois do quarto número. Era
lógico. Dificilmente se poderia admitir um periódico literário nessa época
sem um forte lastro de mundanismo. Além do mais, esses jovens escritores
com hábitos boêmios não estavam suficientemente organizados para levar
avante uma iniciativa tão árdua. Lima Barreto perdia o instrumento de divul­
gação com que sonhava. Não teria sua revista, mas havia de conservar sem­
pre a combatividade que o caracterizava, escrevendo sem cessar nas revistas e
nos jornais alheios.
A maioria das revistas simbolistas foi publicada no século XIX, principal­
mente na província. Em Curitiba, onde já haviam aparecido umas dez, conti­
nuaram no começo do século seguinte a surgir outras como Brevidrio de
Romário Martins e Alfredo Carvalho; Turris Eburnea, de Aluísio França;
Acacia, de Dario Veloso; Victrix, de Emiliano Perneta. Em Belo Horizonte,
Álvaro Viana publicou Horus, em 1902. Na Bahia, a Nova Cruzada, agremia­
ção de caráter simbolista, publicou sua revista com o mesmo título de 1901 a
1 9 1 1 . Neste ano a Nova Cruzada é substituída por Os Anais, sob a direção
de Álvaro Reis.
No Rio as revistas simbolistas mais características foram Rosa-Cruz e
Revista Contemporânea. A Fon-Fon, embora tivesse agrupado algumas figuras
principais da úlrin1a fase do movimento e exercido n1uita influência, possuía

.. 3 O 6 � lÁ Vida Literdria no Brasil


no entanto feição mundana e popular que não condizia estritamente com
a aristocracia literária das publicações es.sencialmente simbolistas.
Rosa-Cruz (cujo título, aliás, era grafado da seguinte maneira:"Rosa t"), diri­
gida por Saturnino Meireles, circulou na primeira fase de junho de 1901 a setem­
bro do mesmo ano, aparecendo apenas quatro números. Ressurgiu três anos de­
pois, entre junho e agosto de 1904, não indo além de três números. Teve entre
os colaboradores, na primeira fase: Luís Delfino, Cabral de Alencar, Rafaelina
de Barros, João Andréia, Colatino Barroso, Carlos Góis, Archangelus de
Guimaraens, Alphonsus de Guimaraens, Miguel Melo e Amadeu Amaral; na
segunda fase: Flávio da Silveira, Mário Tibúrcio, Heitor Malaguti, Bernardes
Sobrinho e Roberto Gomes. Quando faltava matéria, transcrevia páginas de
simbolistas franceses como Mallarmé, Tristan Corbiere, Maeterlinck. A revista
nasceu na mesa de um café da rua Gonçalves Dias; onde se reuniam, com fre­
qüência, Saturnino Meireles, Gonçalo Jácome, Pereira da Silva, Carlos Dias
Fernandes e outros simbolistas, todos inculcados num esteticismo agudo, enca­
rando com desdém as necessidades materiais da existência. Saturnino Meireles,
que possuía modesto emprego público, era o "mais abonado do grupo)), 12 assu­
mindo assim a maior responsabilidade econômica da empresa. Os colaborado­
res, em lugar de receber, contribuíam cada um com cinqüenta mil-réis por nú­
mero. Havia absoluta intransigência com relação aos objetivos essencialmente
artísticos da revista. Rosa-Cruz não publicava anúncios. Certa vez, um número
corria o risco de não sair por falta de cinqüenta mil-réis para pagar a tipografia.
Alguém chegado ao grupo ofereceu o dinheiro. Mas tratava-se de um profano,
de um homem que não era artista, e os "cavaleiros do Graal" não podiam rece­
ber ofertas dessa natureza, que assumiam caráter mercantil. Foi preciso o ho­
mem sentar-se à mesa e, auxiliado pelo grupo, escrever de qualquer maneira uma
poesia, realizando assim, de forma simbólica, sua iniciação artística para os
cinqüenta mil-réis serem aceitos sem escrúpulo. Tal era o drama dessas revistas,
quase todas de vida efêmera, destinadas a oferecer veiculo de divulgação aos poe­
tas e escritores desdenhosos do grande público.
Em janeiro de 1903 aparecia uma revista que, não sendo simbolista, pos­
suía, no entanto , um caráter acentuadamente artístico: A Ateneída. Era dirigida

12. C. Tavares Bastos, arr. n o jornal do Commercio, 27-3-1937.


por Trajano Chacon, que procurava moldá-la por um feitio novo para ela
atraindo a colaboração de todos os escritores e artistas brasileiros, sem distin­
ção de idad; e de escolas. Não foi além de dois ou três números.
Também Coelho Neto, em 1907, pretendeu fundar uma revista literária,
segundo nos informa Cármen Dolores, num artigo no Correio da Manhã, de
1 1 de outubro desse ano. Intitular-se-ia A Caravana e devia desenvolver um
largo programa artístico. ''Agora que a nossa sociedade se mostra sedenta de
intelectualidade" - diz o tópico - "e acompanha com interesse os mínimos
passos nesse terreno, uma manifestação de arte dessa natureza deve receber
imediatamente o impulso de mil vontades, de mil aplausos, soprando-lhe
votos de sucesso, acoroçoando a obra do fecLmdo lutador, garantindo enfim,
por todos os meios, a vida forte da caravana, revista literária e artística a sair
todos os meses, impressa em excelente papel e publicando crônicas, artigos,
poesias, contos, até um romance de autor brasileiro escrito especialmente
para essas páginas.) ) Na conferência "Coelho Neto em três esboços íntimos'',
publicada no livro Orações e palestras,13 João Luso alude, porém, à A Caravana
como uma "instituição realmente superior, superior a tudo e que por todos os
ramos e expressões de arte devia estender a sua influência animadorà'. Eleito
presidente por unanimidade, Coelho Neto fez na primeira assembléia prepa­
ratória e desde logo geral - um almoço no velho Hotel Globo - a exposi­
ção rápida e intuitiva do programa que infalivelmente ia executar. O plano
comportava uma colossal empresa editora, um teatro-modelo, um curso de li­
teratura e filosofia da arre, outros departamentos relacionados entre si e for·
mando um organismo soberano, complexo. Tudo isso não passou de belo sonho
de um grande idealista. No entanto, pelo menos um número de A Caravana
chegou a aparecer, segundo pudemos apurat.
Em São Paulo, no século XIX, a Academia de Direito centralizara o mo­
vimento editorial de revistas e jornais literários. Mas à medida que as letras
começaram a deslocar-se para fora das arcadas - o que já se verificava em
1885 -, o número dessas publicações dirigidas por estudantes começou, igual­
mente, a diminuir, e elas foram perdendo a projeção de outrora. Em 1887,
o jornal mais literário de São Paulo já não possuía ligação com o ambiente

13. João Luso, Orações e palestras, José Olympio, Rio, 194 1 .

3o8 � c4 Vida Literdria n o Brasil


acadêmico: era o Didrio Mercantil, de Gaspar da Silva, onde colaboravam
Júlio Ribeiro, Sena Freitas, Bilac, Teófilo Dias, Augusto de Lima e muitos ou­
tros, sem falar na copiosa colaboração de escritores portugueses.
No início do século XX:, porém, a ausência de um periódico literário de
vulto em São Paulo se torna sensível. Percebemos então o esforço de alguns es­
tudantes para retomar a tradição da fase romântica, em que as tevistas e as so­
ciedades literárias acadêmicas se multiplicavam na capital provinciana. Em
1901 aparecia o primeiro número da Arcddia Acadêmica, cujo artigo de apre­
sentação dizia o seguinte: "Um grupo de rapazes, sacudindo o jugo opressor da
apatia, encarando a satisfação íntima como prêmio principal do esforço, o tra­
balho constante como primordial elemento de felicidade, reunido delineou as
bases para a organização de um grêmio que pelo estímulo obrigasse os sócios
ao estudo. Como concretizar este sonho? 1º) Reuniões semanais nas quais ha­
verá quatro oradores determinados pelo acaso para dissertar sobre assuntos
científicos e lirerários; 22) tiragem bissemanal de uma revista ... ", etc. Segundo
Afonso de Freitas, 14 Monteiro Lobato colaborou nesse primeiro número da
Arcddia Acadêmica. Nem a revista nem a sociedade duraram muito tempo.
Outras tentativas semelhantes, sem maior repercussão, podem ser assina#
!adas: A Musa (1905), fundada por Júlio Prestes, René Thiollier e Mário
Porto, teve a colaboração de Batista Cepelos; a Imprensa Acadêmica (1906), de
Vilalva Júnior, Ricardo Gonçalves e Adriano Marrey, que em março do ano
seguinte passou a denominar-se Revista Nova, com a colaboração de Flexa
Ribeiro, Tito Franco, Rodrigues Dória, Arlindo de Lélis; enquanto fora dos
círculos da faculdade, no bairro do Brás, o Cromo, folha literária quinzenal,
acolhia as primícias do talento de Afonso Schmidt.
Em 1903, numa cidade do chamado norte de São Paulo, Pindamonhan­
gaba, apareceria um jornalzinho, mais tarde famoso por ter divulgado as pri­
meiras produções de Monteiro Lobato. Intitulava-se O Minarete e circulou
de 1903 a 1907. Fundou-o Benjamim Pinheiro, logo depois de diplomado em
direito, com o objetivo de derrubar a política dominante no município. O tí­
tulo O Minarete foi sugerido pelo próprio Monteiro Lobato que, estudante de

14. Afonso A. de Freitas, A imprensa periódica de São Paulo, desde seus primórdios em 1823 até
1914, pág. 547, Tip. do Diário Oficial, S. Paulo, 1 9 1 5.

CAPÍTULO XIX � 3 0 9
·· direito em São Paulo, colaborava ativamente na pequena folha, chegando
muitas vezes a escrever todo um número com diversos pseudônimos. Assi­
nava-se: Lob�toyewski, Pascalon o Engraçado, Hélio Bruma, Mem Bugalho,
etc., e muito do material que reuniu depois em livro sob o título Cidades
mortas proveio dessas colaborações n' O Minarete. Godofredo Rangel que
adotara o pseudônimo de Bezuquet, herói do Tartarin, de Daudet, deixara
enterrado nas colunas desse jornalzinho um livro que - segundo a expres­
são de Lobato - faz falta à nossa literatura. Lobato ali publicou, primeira­
mente, um romance ''Lambeferas'', em "capítulos curtinhos e esquizofrêni­
cos", que parece anteceder certas extravagâncias modernistas; e outro, "O
queijo de Minas ou História de um nó cego", de colaboração com Godofredo
Rangel: rornance joco-sério em português de lei, com duas mortes trdgicas e outras
coisas interessantíssimas no qual os autores deixam de escrever os pedaços que os
leitores naturalmente pulam. A obra não foi por diante porque Lobato diz ter
implicado com um personagem de Rangel, matando-o; este último, em revi­
de, matou um personagem de Lobato, e dessa forma continuaram até fica­
rem apenas os autores em campo.
Entre as páginas de Godofredo Rangel publicadas n' O Minarete, Lobato
cita o conto "Simbólico vagido" e o itinerário de viagem "De São Paulo ao
Guarujá", "um primor de descritivo" em que já se revelavam as qualidades do
escritor mineiro. O Minarete agitou o ambiente em Pindamonhangaba, a
"Princesa do Norte", então despojada da antiga majestade com a crise do ca­
fé, que depois da abolição dominou todo o vale do Paraíba. Foi "um perpétuo
escândalo" na modorra da velha cidade.
A Vida Moderna, aparecendo em 1907 em São Paulo, traria certamente
a ambição de se tornar uma revista ilustrada e literária da importância da
Kosmos no Rio. Mas esse papel só viria a desempenhá-lo O Pirralho, cujo pri­
meiro número surgiu a 12 de agosto de 1911 prolongando-se a publicação até
1917. Sendo a revista mais típica e importante do " 1900" paulistano, seria
também a mais representativa do nosso pré-modernismo. Foram seus direto­
res Dolor de Brito e Oswald de Andrade - embora não figurassem os nomes
no cabeçalho -, que contaram desde o início com a parceria de Voltolino
(Lemmo Lemmi), um dos caricaturistas mais típicos da vida paulistana, então
lançado pelo O Pirralho. Como a Fon-Fon, a Careta e outras revistas ilustradas

3 I O � c_A Vida Literdria no Brasil


do Rio, O Pirralho possuía não somente o caráter humorístico como literá­
rio, social e até político. O attigo de apresentação era concebido nos seguin­
tes termos: O Pirralho passava a c�ntar como arranjara um padrinho.
Nascera num sábado ao meio-dia. Mais tarde, com extravagante precocidade,
rimara Sobrinho com Biscoitinho. Os circunstantes, pasmados, viram nisso
grande vocação de poeta. Logo, porém, vieram firmar-se os puros instintos
de crítica do "incorrigível caçoador risonho". Foi por esse tempo que apare­
ceu em São Paulo a grande atriz italiana Mimi Agugl ia. O Pirralho conta
que, louco de amor, a ela se apresentou uma noite, declarando-lhe: "ó sa­
cerdotisa da dor! Eu amo o teu olhar que corta fundo . . . ", e nesse tom pros­
seguiu a exaltar-lhe a alma siciliana, a paixão estonteadora, a vida soberba,
até que Mimi, não podendo mais conter-se de rir, perguntou-lhe se queria
um autógrafo. Encabulado O Pirralho respondeu: "Não é isso, eu não sou
nenhum anarquista para nascer e não me batizar. Eu quero que a senhora
seja minha madrinha.') Mimi gostou, riu, aceitou o convite, e juntamente
com Mascagni, que na ocasião também se achava em São Paulo, levou O
Pirralho à pia batismal.
Essa história, cujo espírito hoje nos parece terrivelmente vieux jeu, leva­
nos à conclusão de que a revista teria sido fundada ao bafejo da excitação in­
telectual e artística produzida pela presença em São Paulo da grande trágica e
do grande compositor italiano. Quem percorrer a coleção de O Pirralho veri­
ficará o que há pouco assinalamos: que a revista se ligava por um lado ao cli­
ma " 1900" e por outro já prenunciava o modernismo. Não dispensava ainda
umas colunas de prosa melíflua com os "bilherinhos a Mfriam", l5 gênero sub­
simbolista com larga aceitação na época. Mas só a presença de Juó Bananére
nas suas páginas constituía uma nota viva de irreverência e demolição. Foi O
Pirralho que lançou esse escritor tão original e pitoresco em dialeto macarr6ni­
co ítalo-brasileiro, cujas crônicas de inventiva desopilante prepararam terreno

1 5 . Esse gênero epistolar tornava-se comum e, como tudo em nossas letras, teria vindo da lite­
ratura francesa, onde esrava então em voga, cultivado porém num plano elevado. As Lettres à
l'Amazone de Retny de Gourmont foram muito lidas, e Salomon Reinach chego:.i a amenizar a
história da filosofia minisuando-a "sem lágrirr1as" , em forma de cartas, nas Lettres à Zoé.
Lembraremos ainda as Lettres à Ang?:le, de André Gide. Entre as crônicas epistolares que se multi­
plicaram em nossas revistas, basta citar as "Canas de mulher'', de Jracerna, na Revúta da Semana,

CAPÍTULO XIX � 3 l 1

para o modernismo, ridicularizando muitos valores formais e m que repou­
sava então a nossa literatura. Mais tarde, em 1916, Juó Bananére seria substi­
tuído na seção "Cartas d'abaixo piques" por Juó Larangére, pseudônimo de
Geswaldo Castiglione, que nas crônicas do "Pirralho macarrônico" jamais
atingiria o mesmo grau de humor de seu antecessor, esse que na vida civil foi
o pacato cidadão Alexandre Marcondes Machado.
O Pirralho realizou grande programa de inquéritos literários, em que
eram ouvidos tanto escritores do Rio como de São Paulo. Ao lado de perguntas
bem à moda do "1900" sobre a elegância de Fradique Mendes ou a possibi­
lidade de "um suicídio verdadeiramente original e belo em nossos dias",
interrogava os intelectuais cariocas sobre o estado atual das letras na capital
da República, e - como estava em foco a questão do presumido tesouro da
ilha da Trindade - quais os livros que levariam se tivessem de ficar ali isolados
durame algum tempo.
O grande animador da revista era Oswald de Andrade, um Oswald pré­
modernista, de cavanhaque alourado, lembrando um oficial da guarda imperial
russa, escrevendo de colaboração com Guilherme de Almeida peças em francês
(Mon coeur balance) e saudando Emílio de Meneses em vesperais parnasianas.
Apesar disso, já revelava o futuro autor de Serafim Ponte Grande os pruridos
iconoclastas que iriam caracterizá-lo. Mantinha a seção '(Lanterna mágica'',
onde em meio a muitas crônicas anódinas se mostrava não raro combativo.
E em O Pirralho publicara alguns capítulos das Memórias sentimentais de joão
Miramar, romance cuja forma submetida a completo desmonte iria produzir
a versão modernista do romance lançado em 1924.
Em 1915, O Pirralho lamentava a ausência dos colaboradores franceses
Léon Werth, Gabriel Renillard, Max Goth, Marcel Milliet, René Morand,
"talvez caídos na defesa da pátria invadidà' . Seria ainda um vestígio do sim­
bolismo essa colaboração francesa? O certo é que em 23 de janeiro do mesmo
ano surpreendemos, num potin, uma referência à "literatura futuristà', entre
aspas, donde concluímos que, pelo menos com a reserva prudente das aspas,
já se começava a falar em futurismo no Brasil.
Em 191 3, dirigida por Gelásio Pimenta, aparece A Cigarra que, como
a Vida Moderna, concedendo largo espaço ao mundanismo, vinha também
con1 propósitos literários já de si revelados pelo título. "A grande ambição

3 I 2 t:::::::r lÁ Vida Literária no Brasil


de A Cigarra" - dizia o artigo de abertura - "é ser uma revista artística;
cantar ao sol com voz que se esforçará ___: não fosse ela cigarra - por fazer
,
alta e estridente. ,
Com programa sério e definido, anunciando uma nova fase em nossas le­
tras, surge em 1916 a Revista do Brasil. Sem concessão alguma à frivolidade e
ao mundanismo, encartava-se na linhagem da Revista Brasileira do século X1X
que, depois de algumas tentativas como a d' Os Anais de Domingos Olímpio
e da Revista Americana, tinha ficado sem continuidade. Era de feição mais lar­
gamente cultural do que estritamente literária, e trazia nas dobras um objeti­
vo político no elevado sentido da palavra. Apresentava-se com a "deliberação,
a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalistà'. Pro­
curava, no entanto, precisar o sentido do termo: esse nacionalismo não encer­
raria qualquer forma de hostilidade ao estrangeiro; nenhum prop6sito de iso­
lar o Brasil da humanidade, "o que seria um disparate", não se podendo negar
a dívida de civilização que nos prende a outros povos. Um nacionalismo vi­
sando um fim mais humano do que regional. Assim, a Revista, sem ser exclu­
sivamente de hist6ria, de literatura ou de ciência, teria um pouco de tudo,
orientada pelo desejo superior de alertar a consciência brasileira para que "o
milagre hist6rico da persistência de nossa integridade territorial", perdendo o
"caráter fenomenal1' com que se vinha apresentando, se tornasse a "resultante
natural e lógica da fusão completa e indissolúvel de todos os elementos étni­
cos e sociais, que formam de norte a sul a nação brasileirà'.
Se O Pirralho, pela irreverência, pelo tom satírico, anunciava o modernis­
mo no que este teve de essencialmente demolidor, a Revista do Brasil vinha
preparar o terreno para a fase construtiva que havia de seguir-se à demolição.

CAPÍTULO XIX � 3 1 3
li <$> C AP ÍTU Lo XX

Críticos militantes e cronistas '=""' A atividade deJosé Veríssimo '=""' Araripe


júnior '=""' Osório Duque-Estrada, 'o guarda-noturno do verndculo';
Medeiros e Albuquerque, expressão típica do reviewer '=""' João do Rio,
historiador de uma época '=""' A colaboração feminina nos jornais '=""'
Gilberto Amado e Antônio Torres

s principais críticos militantes da época são ainda os do século


XIX: José Veríssimo, Sílvio Romero, Araripe Júnior, Nestor
Vítor, João Ribeiro. Até o aparecimento de Tristão de Ataíde, em
1919, não houve outra revelação no gênero.
A atividade crítica de José Veríssimo continuou a exercer-se em caráter mi­
litante, desdobrando-se em colaborações múltiplas, em jornais e revistas não
somente do Rio como também de São Paulo. Não é de estranhar, pois, fizes­
se ele, por vezes, simples trabalho de book reviewer; mas esta não seria a nor­
ma de sua crítica quase sempre judicativa.
Quando Euclides da Cunha, nome inteiramente desconhecido em 1902,
publica Os sertões, Veríssimo arrisca todo seu prestígio de crítico para saudar
no estreante um talento invulgar. Quando aparecem em livro os versos de
Maciel Monteiro, é Veríssimo o primeiro a sair em campo para demonstrar
que o renome do poeta não passava de um equívoco literário (artigo na revis­
ta Renascença - 1905). Raramente se limitava à atitude de simples comenta­
rista; seu empenho era geralmente firmar uma opinião, julgar. Crítico de alto
saber e competência, considerou-o Euclides da Cunha, acrescentando: mas
que gostava de roubar no peso . . . - acusação semelhante a que foi feita por

CAPÍTULO XX � 3 1 5
André Billy a Paul Souday, de procurar ter sempre razão contra o autor. t
Comunicando-lhe João Luso esse juízo de Euclides da Cunha, Veríssimo res­
pondera: "Quanto ao saber e à competência, estou bem longe do que deseja­
ria; quanto ao resto, trato de dar a cada um o que, pela balança de meu crité­
,
rio, ele pagou e mereceu,,
Sua probidade crítica parece não sofrer dúvida, pelo menos dentro do re­
lativismo da imperfeição humana. Não se lhe conhecem os "ódios" de que fo­
ram passíveis os maiores críticos, embora injusto com Sílvio Romero, quando
lhe dedicou apenas três linhas na Hist6ria da literatura brasileira. E "afeto", no
sentido em que aqui empregamos a palavra, não possuiu também, pois é im­
possível distinguir na admiração por Machado de Assis mais do que o resul­
tado de um rigoroso julgamento crítico.
; 1 Várias vezes mostrou como desconhecia as razões do coração no exercí­
; :
cio da crítica. Foi severo com Joaquim Nabuco, quando este formava na pa­
nelinha da Revista Brasileira. N' O Imparcial, atacou rudemente o romance
' '
Assunção, de Goulart de Andrade, redator dessa folha, embora assim o fizesse
:i
depois de consultá-lo sobre o que preferia: a crítica desfavorável ou o silêncio.
i Goulart de Andrade naturalmente preferiu a crítica, mesmo desfavorável;
e Veríssimo não lhe poupou os mais duros golpes. Faro idêntico se deu quan­
do Miguel Melo, secretário do referido jornal, publicou o romance A visão da
estrada. Segundo Humberto de Campos, o autor de Estudos brasileiros entrara
em O Imparcial pelas mãos de Miguel Melo, que o defendia com devotamen­
to sem limites, na rua, na redação, em toda parte, sempre que o crítico era ata­
cado. Isso não impediu Veríssimo de, obtida a licença do amigo, desancar sem
contemplação o romance. Também os ídolos do dia esbarravam com freqüên­
cia no juízo independente e corajoso de Veríssimo. Sua crítica ao romance
Rei negro, de Coelho Neto, se pode parecer errada em muitos pontos, era um
exemplo de coragem na primeira década do século XX, em que Coelho Neto
se via quase unanimemente elogiado em todo o país.
"Zé Veríssimo" chamavam-no, transformando o sobrenome em adjetivo pelo
seu amor à verdade. Outros não lhe poupavam o trocadilho fatal: "Severíssimo."
Contudo, é possível que o homem tivesse suas fraquezas. Corre a versão de que

1 . Littératu.re française contemporaine, Col. A. Co\in.

· J.I 6 b%i vf Vida Literdria no Brasil


ligado ao barão do Rio Branco, no ltamarati, publicava, de quando em quan­
do, umas críticas sem assinatura ao ministroJ no Correio da Manhã. Edmundo
Bittencourt certo dia fez preceder uma dessas notas da seguinte indicação:
"Escreve-nos o sr. José Veríssimo, etc... " Teria sido esse o motivo do afastamen­
to do crítico daquele jornal? Em pesquisas nas coleções do Correio consegui­
mos obter indícios de que o fato é verdadeiro, embora não pudéssemos apu­
rar as circunstâncias exatas em que se deu. A ele também se refere Medeiros e
Albuquerque, em Minha vida (2• volume).
A grande atividade crítica de José Veríssimo em jornais e revistas foi até
1908, mais ou menos. Quando Lima Barreto publicou as Recordações do escri­
vão Isaías Caminha, já ele lhe respondeu por carta, fazendo uma ligeira aprecia­
ção <lo ron1ance, por não estar exercendo a crítica em jornal algum, naquele
momento. Em 191 1, o caso da eleição de Lauro Müller desgostara-o, profun­
damente, levando-o a não mais freqüentar as sessões da Academia. Pretendia
dar por finda a vida literária.2 Entregara-se, nessa época, naturalmente, à ela­
boração de sua História da literatura brasileira, como o arremate e o coroamen­
to de uma carreira, produto da experiência de longos anos de crítica.

Mas, em 1912, quando se fundava O Imparcial, foi solicitado a voltar, no­


vamente, à colaboração jornalística. A Campanha Civilista sacudira os espíri­
tos em todo o país, fazendo com que muitos escritores tomassem partido.
Veríssimo nunca fora um intelectual puro, nunca se alheara dos problemas bra­
sileiros. Ei-lo agora, n' O Imparcial, jornal de combate, a escrever, não somente
artigos de crítica literária, como também de crítica política, usando nestes
da mesma férula que se tornara proverbial naqueles. Investe rudemente contra
tudo que lhe parece errado no tumultuoso quatriênio do marechal Hermes
da Fonseca. E se a crítica literária já lhe havia acarretado muitas desilusões,
maiores seriam ainda as que resultariam dos comentários políticos. Já pelos
meados de 1913, em carta a Afrânio Peixoto, escrevia: ''A minha só ambição
hoje é viver à parte e sinceramente. A isso tudo me impele, minhas opiniões,
meus sentimentos, as reações do meio que me não são favoráveis. Sinto que o
meu comércio não pode ser agradável aos meus contemporâneos, e parece-me
sábio não lho impor ou sequer aceitar os convites da sua generosidade."

2. Francisco Prisco, josé Veríssimo, sua vida e sua.1 obras, Redeschi, Rio, 1 937.

C A P Í T U L O XX � 3 l 7
Mas Veríssimo ainda se empolgaria por uma grande causa: a dos aliado s
contra os impérios centrais, na guerra de 1914. Sua campanha na imprensa ,
principalmente a favor da França, foi enérgica e infatigável. Fez uma viagem
ao sul do Brasil para estudar in loco as proporções da infiltração alemã em nos­
so país, e seu último artigo, dois ou três dias antes de morrer, seria contra o
militarismo prussiano. Manuseava as provas da História da literatura brasileira
quando faleceu, em fevereiro de 19 16.
Sílvio Romero nunca fez propriamente crítica militante em jornal ou
revista. E por isso mesmo se irritava com a atividade excessiva desenvolvida
por Veríssimo nesse sentido. Esporadicamente escrevia, sobre alguns livros do
momento, como Os sertões, de Euclides da Cunha, e o Paris, de Nestor Vítor,
artigos incorporados à edição da História da literatura brasileira, de Nélson
Romero. Causa estranheza, no entanto, o prefácio que fez para o romance

; :
Dona Dolorosa, de Theo-Filho, obra, pelo assunto e pela forma, das menos
indicadas para comunicar-se com um espírito como o de Sílvio Romero.
) i
Araripe Júnior somente no século XIX teve atuação de crítico militante, na
Atualidade e principalmente na Semana, onde publicou uma série de artigos,
: i
depois reunidos em livro, sob o título de O movimento de 1893. No começo
do século XX, deixou de escrever regularmente em qualquer jornal. Seus ar­
tigos de crítica, mais com o caráter de ensaio, pelo que se diferençavam dos
de Veríssimo, aparecem de quando em quando no Almanaque Garnier, na
Revista Americana e principalmente no Jornal do Commercio, onde estampa
Os didlogos das novas grandezas do Brasil, editado em 1909. Também no Jornal
do Commercio concorrera para a consagração de Euclides da Cunha, num ar­
tigo de fevereiro de 1903.
Se não foi propriamente o "descobridor" de Agripino Grieco, como já se
disse , pois só se manifestou favoravelmente sobre o livro de versos deste últi­
mo, Ânforas, em 1910, depois de artigos elogiosos de Medeiros e Albuquerque
e João do Rio, consolidou, sem dúvida, o êxito do estreante com a autoridade
de sua crítica. Mas foi, certamente, quem lançou Albertina Berta, enviando ca­
pítulos do romance Exaltação para serem publicados no jornal do Commercio
acompanhados de uma carta a Félix Pacheco, na qual louvava entusiastica­
mente os méritos da obra: "O Jornal publicando esses fragmentos" - escre­
via ele - "não fará senão concorrer para que no horizonte das nossas letras

·3 1 8 """° v1 Vida Literdria no Brasil


desponte um astro de primeira grandeza." E o romance editado em 1916 com
prefácio do próprio Araripe Júnior teve a saudá-lo um coro de louvores, de
que Antônio Torres foi um dos poucos a destoar.
Por volta de 1908, com o retraimento passageiro da atividade critica de
José Veríssimo, que oferecia um instrumento rigoroso de controle à produ­
ção literária, devia ter�se criado uma atmosfera mais ou menos propícia às
guirlandas de elogio mútuo e aos louvaminhas sem restrição na imprensa. É
pelo menos o que concluímos da rompância com que então se apresentou
Osório Duque-Estrada na seção "Registro literário", no Correio da Manhã.
'(O 'Registro'" - dirá ele mais tarde "nasceu da necessidade de reação con­
tra o aviltamento a que havia chegado entre nós a crítica literária de jornal".3
No artigo inicial, co1neçava por declarar sempre haver detestado o gramá­
tico, "não como postiça e hipocritamente o detestam certos parvoalhos da li­
teratura, comodamente escudados nesse falso desdém para melhor se forrarem
à responsabilidade dos atentados que cometem contra a sintaxe e o bom sen­
so)'. Detestava o gramático cuja "visão ferida de miopia crônica e circunscrita
à estreiteza das regras invariáveis e às nequices ridículas de uma filologia bara­
ta de belchior" não possuía o senso largo do conhecimento da "linguagem
comparada, dos processos de formação do vernáculo, das idiossincrasias des­
te, dos seus recursos, das suas preciosidades e dos seus enxovalhos'' . E alegava
que entre essas duas correntes havia lugar para "um certo espírito de transi­
gência e de conciliação, que somente o filólogo de boa polpa ainda possui".
Por esse prisma pretendia nortear a seção então iniciada. Osório passou logo
a ser visto como um mestre-escola rabugento, de palmatória em punho, fazen­
do crítica estreita com a preocupação dos erros de português, justamente o ti­
po do gramático que ele dissera abominar. Acusaram-no de excessiva severida­
de com os novos, pecha de que se defendeu citando os nomes das figuras de
proa que haviam sido alvo da sua férula.4 Chamaram-no de "guarda-noturno
da literatura brasileira'';5 e ele aceitou o título dizendo que para o exercício

3. Osório Duque-Estrada, Critica e polêmica, pág. l, Henrique Velho & Cia., Rio, 1924.
4. Medeiros e Albuquerque diz que foi graças à seção de crítica do Correio da Afanhã que
Osório Duque-Estrada, "agressivo e brutal", amedrontando alguns acadêmicos, conseguiu ser
eleito para a Academia Brasileira. (Afinha vida, 211 vol.)
5. Hermes Fontes q uem lhe deu esse título, segundo informação de Jain1e Adour da Cârnara.
·dessa "função meramente policial, para náo dizer profildtica, bastara-lhe uma
única habilidade: a de converter a pena de escritor em apito de vigilante".
O "Registro literário", no Correio da Manhã, prolongou-se de 1908 a 19 14.
Em 19l5, Osório Duque-Estrada passou para O Imparcial. E reria ainda uma
fase final no Jornal do Brasil, iniciada em 1921. Apesar de toda a rabugice, é
preciso lembrar que Osório Duque-Estrada lançou um poeta novo: Raul
Machado. Foi a sua grande "descoberta", feita durante uma excursão pelo
norte. Osório enviou para o Correio da Manhã dois sonetos do jovem, que,
elogiado pelo critico, se tornou imediatamente conhecido no Rio.6
A classificação de book-reviewer, que não poderia ser aplicada a José
Veríssimo, ajustava-se perfeitamente a Medeiros e Albuquerque, na "Crônica
literária" que manteve durante muitos anos n'A Noticia, sob o pseudônimo de
;1
J. Santos. Ali passava em revista todos os livros do dia, não somente de lite­
ratura como de outros gêneros, numa crítica ligeira, informativa e impressio­
; '

nista ao tnesmo tempo. Ocupava-se tanto de um romance como de um tratado


de medicina legal ou coisa semelhante, com aquele enciclopedismo fácil que
:i o habilitava a falar com graça, inteligência e leveza dos mais diversos assuntos.
Do vasto material que deixou nos rodapés d'A Notícia podia-se, entretanto,
retirar uns dois ou três llvros, algumas centenas de páginas de boa crítica, dignas
de ser conservadas. Aliás, depois de João do Rio, foi Medeiros e Albuquerque
quem mais dispersou atividade literária na imprensa nesse quartel de século.
Ora sob pseudônimo, ora com as simples iniciais ou com o próprio nome, nós
o encontramos por toda parte. :É claro, si1nples e sempre agradável. Informado
de tudo quanto se edita na França, nos Estados Unidos e na Inglaterra, sabe
digerir para o público os assuntos mais complexos, apresentando-os em fór­
mulas intuitivas. Foi um dos primeiros a falar sobre Freud no Brasil. Nesse
afã de vulgarização cultural, chegou a condensar romances de sucesso lança­
dos no estrangeiro, reunindo depois alguns desses resumos em livro, sob o

6. Mas quando Raul Machado publicou seu primeiro livro, Versos, Osório Duque-Estrada as­
sim se manifestou: "É o livro de estréia de u1n poeta de dezenove anos, que já foi por mim reve­
lado por estas mesmas colunas do Correio. A meu ver o autor teve pressa e1n dar à publicidade
os belos e pron1ctedores frutos <lo seu brilhante ralenro. Há várias incorreções ainda nesses ver�
sos e nem urna das novas produções consegue ultrapassar os dois sonetos que apresentei ao
leitor." (Correio da Jvlanhã, 21-6-1909.)

3 2 O � e.A Vida Literária no Brasil


título Literatura alheia. Teria sido assim, entre nós, un1 precursor do gênero
digest, hoje tão em voga.

O cronista por excelência do "1900" brasileiro seria Paulo Barreto (João


do Rio). E uma das principais inovações que ele trouxe para nossa imprensa
literária foi a de transformar a crônica em reportagem - reportagem por ve­
zes lírica e com vislumbres poéticos. Machado de Assis, Bilac e outros eram
cronistas sem o temperamento de repórteres; o primeiro, principalmente, sa­
bendo comentar com sutileza e finura os acontecimentos populares, como
os jàits-divers, mantinha-se deles um tanto distanciado. Capazes de formular
as considerações mais inteligentes e irônicas sobre um crime passional que
abalara a cidade, jamais lhes passaria pela cabeça ir à cadeia ver de perto o cri­
minoso e conversar com ele. Foi essa experiência nova que João do Rio trou­
xe para a crônica, a do repórter, do homem que, freqüentando os salões, vare­
java também as baiúcas e as tavernas, os antros do crime e do vício. Subia o
morro de Santo Antônio pela madrugada com um bando de seresteiros e ia
aos presídios entrevistar os sentenciados. Alma encantadora das ruas intirular­
se-ia um dos seus livros. A crônica deixava de se fazer entre as quatro paredes
de um gabinete tranqüilo, para buscar diretamente na rua, na vida agitada da
cidade, o seu interesse literário, jornalístico e humano.
Por outro lado foi João do R.io dos primeiros a vulgarizar em nossa im­
prensa o hábito das entrevistas. Era um gênero quase desconhecido aqui até
o início do século XX, o que não será para admirar uma vez que, mesmo na
Europa, até 1890 não se havia propagado. Basta ver o seguinte: os escritores
brasileiros que iam ao Velho Mundo não se preocupavam em abordar os gran­
des vultos das letras européias. Se porventura vinham a conhecer alguns deles,
como no caso de Artur de Oliveira que freqüentou Victor Hugo e Théophile
Gautier - nem de longe se lembravam de entrevistá-los. Em 1891, quando
Bilac foi pela primeira vez a Paris, como representante da Cidade do Rio, o
naturalismo estava em pleno apogeu no Brasil, onde o Zola era considerado
uma divindade para muita gente. Não passaria, pois, pela cabeça do poeta
entrevistar o autor de Nana� Nas suas correspondências na referida folha não
encontramos nenhum sinal da idéia. Mais tarde, Valentim Magalhães em ex­
cursão pela Europa anunciaria o projeto de uma entrevista com Zola, que não
se realizou. S6 em 1898, em correspondência para o Jornal do Commercio,
Tobias Monteiro nos daria conta de uma palestra com o pai do naturalismo.
Mas já esrávamos no limiar do século XX e em nossa imprensa começava a
manifestar-se aquilo que Gilberto Amado chamaria "a facilidade moderna", e
de que a obra de João do Rio constituiu uma expressão rípica.
O autor do Cinematógrafo principiou muito jovem, com apenas dezesse­
te anos, escrevendo primeiro em algumas revistas sem importância; depois,
entre 1898 e 1899, na Cidade do Rio, de Patrocínio, artigos sob o pseudôni­
mo de Claude que ficaram esquecidos, embora produzissem certo rumor
na época pela truculência e o desassombro com que neles eram hostilizadas
; 1
muiras figuras de relevo.
Em 1900, na Gazeta de Notícias, chamaria a atenção do público, empreen­
; :
dendo uma série de reportagens depois englobadas em livro sob o titulo
! :
: : Religiões do Rio. Era um processo desconhecido de buscar e apresentar a infor­
' i
i 1 mação, um modo ignorado de impressionar e esclarecer o público. As repor­
tagens causaram sensação e foram lidas com avidez; não falrou quem dissesse
que aquilo tudo era fantasia, simples invencionice de um cérebro imaginoso.
Edirado o livro, foi considerado até um plágio das Les petites religions de Paris
de Jules Bois. No entanto, parece que descontando alguns exageros, algumas
deformações caricaturais, no fundo tudo era mais ou menos exato.7
Alguns anos depois, quando lançou a série de reportagens sobre feitiços
e feiticeiros, constante de um dos seus livros, deu�se o mesmo. Muita gente
duvidou da verdade. A polícia resolveu levar o caso à conta de simples litera­
tura. Mas dentro em pouco, recebia a queixa de alguns moradores de São
Cristóvão sobre a algazarra terrível que se fàzia nas vizinhanças de algumas re­
sidências. O delegado realizou a diligência e descobriu espantosos antros de
feitiçaria. Ficava comprovado o faro e a fidelidade de rep6rter de João do Rio.
Em 1891, Jules Huret empreendera em L'Écho de Paris um inquérito so­
bre a situação do naturalismo na França, ouvindo sessenta e quatro escritores
dos mais notáveis numa série de entrevistas que, publicadas de 3 de março a

7. É o que nos assegura Agrlpino Grieco, que conheceu o Rio da época.

3 . 2 2 � v1 Vida Literária no Brasil


5 de julho, apareceram no mesmo ano de 1891 em livro sob o título Enquête
sur l'évolution littéraire. Foi esse o mod�:::lo do "Momento Literário'', o inqué­
rito realizado por João do Rio na Gazeta de Noticias em 1905, e que teve a
maior repercussão no país fazendo com que nos estados os jornais o aplicas­
sem às respectivas literaturas. A idéia encontrou muita simpatia por parte de
certos escritores, que dessa forma tiveram excelente oportunidade para falar de
si mesmos, o que não era muito freqüente numa época em que mal despon­
tava o sensacionalismo na imprensa. O enternecimento de Mário Pederneiras,
por exemplo, ao referir-se aos próprios versos tornava-se comovedor. Mas o
mesmo não se daria com um José Veríssimo, que recusou o convite ao recla­
mo, achando - aliás sem razão alguma - que se tratava de um processo de
fazer livros à custa dos outros. Enquanto Machado de Assis, com desculpas
amáveis, protelou indefinidamente as respostas, a ponto de levar João do Rio
a desistir de obtê-las.
A produção de Paulo Barreto na imprensa nas duas primeiras décadas do
século XX foi simplesmente assombrosa. Basta dizer que os quinze ou vinte vo­
lumes que deixou não absorveram senão uma pequena parte de centenas de crô­
nicas, reportagens, contos, artigos dos mais diferentes gêneros, muitos firmados
com outros pseudônimos. É difícil distinguir nessas páginas escritas quase ao
correr da pena, ao trepidar dos linotipos e às fumaçadas de um cigarro, onde ter­
mina o jornalismo e começa a literatura. João do Rio conseguia realizar, freqüen­
temente, um acordo entre as duas formas de atividade intelectual. "Literatura
apressadà' diria, talvez, José Veríssimo, aplicando-lhe o mesmo rótulo com
que condenara a obra dispersiva de um Valentim Magalhães. Mas até onde um
severo julgamento crítico possa rejeitar o mérito literário de João do Rio, ainda
deixará margem para a valorização do jornalista, ou antes do repórter, do cronis­
ta que se tomou verdadeiro historiador de uma época. Se o artificialismo e a ên­
fase repontam não raro nas suas páginas, é porque nisso se encontravam os prin­
cipais traços da época. Imitava os cronistas parisienses e cosmopolitas - Jean
Lorrain, Michel-Georges Michel, Gomez Carrillo - num ambiente que fazia
tudo por aproximar-se de Paris e tingir-se de cosmopolitismo.
De sua obra, cuja leitura parecerá hoje a muita gente, sob determinados
aspectos, insupo rtável, sobreviverá sem dúvida o documento. João do Rio foi
um dos homens mais atacados e também mais admirados no meio intelectual

CAPÍTULO XX � 3 2 3
brasileiro. A lusofilia de que sempre deu provas lhe valeu, principalmente, de­
sabridas agressões. Antônio Torres, que jamais o poupou, chegou a conside­
rar-lhe a memória "abjetà'. Admirando e exaltando Pinheiro Machado, era
natural que o cronista de No tempo de Venceslau se visse fustigado pelos dois
jornais que se tornaram o mais forte reduto do antipinheirismo: o Correio da
Manhã e O Imparcial. Este último deu-lhe até um apelido ridículo. Mas João
do Rio parecia comprazer-se com a animosidade que provocava e encará-la
com um fundo de humor. Chegava a suscitar a onda de maledicência em tor­
no de sua pessoa, bem à semelhança do modelo francês Jean Lorrain,8 vendo
no próprio escândalo um elemento de êxito.

8. O nome de Jean Lorrain, que tem figurado tantas vezes nas páginas deste livro, parecerá es�
tranho à maioria dos leitores. É um escritor inteiramente esquecido, mesmo na França. Cremos
"
que nenhum dos seus livros foi reeditado nos últimos quarenta anos e com dificuldade se des­
cobrirá um exeinp!ar de algum deles nos buquinistas do cais do Sena em Paris. Seu nome tem
l :
aparecido apenas en1 memórias e diários íntimos de escritores do " 1 900" francês, como
l : Maurice Donnay e Alberr Keim (Le demi-sitcle).
Pergunte-se a nossos escritores que já dobraram a casa dos cinqüenta quem foi Jean Lorrain e
rodos se lembrarão, encontrando-se nesse número, naturalmente, um Agripino Grieco. Foi
João do Rio quem mais contribuiu para a vulgarização do autor de Monsieur de Phocas no
Brasil, deixando-se influenciar por ele não somente nas crônicas e nos contos, como nas
próprias atitudes, no tipo que posava com a intenção preconcebida de chocar, de irritar o am­
biente. Para compreensão do próprio João do Rio e do nosso "1900" literário, parece-nos in­
dispensável recordar em poucas linhas a figura e a obra de Lorrain.
Chamava-se Paul Duval e nascera em Fecamp; descendia, pela linha paterna, de uma família de
armadores e marujos. Menino nervoso, inquieto, de sensibilidade precoce e fantasia exaltada,
vivera cercado pelo carinho materno. Depois do voluntariado, recusando-se a seguir a carreira
marítima, partiu para Paris, pensando na glória literária. Foi quando a mãe o aconselhou a ado­
tar um pseudônimo, explicando-lhe o motivo: se não obtivesse êxito, ninguém ficaria saben­
do do fracasso. Precaução de provinciano procurando acautelar-se contra as opiniões desfa­
voráveis dos vizinhos. Ela própria sugeriu o pseudônimo: Jean Lorrain. Em Paris, enquanto
foisait son droit, Paul Duval começou a penetrar nos salões, nas rodas literárias, ao mesmo tem­
po que percorria as barracas de feira nos subúrbios, as tavernas, bebendo com gente do povo e
com voyous. Fez-se logo freqüentador do Chat Noir, colaborando no jornal que Salis mantinha
nesse famoso cabaré.
Aos poucos, a assinatura de Jean Lorrain vai aparecendo em jornais e revistas, em crônicas
que seduzem por tudo quanto reflere1n dos vícios, do frisson, das neuroses de Paris fin de sià:Íe.
Lírico, de um colorido por vezes gritante, alterna visões fugitivas e Ítnpressionisras com per�
fis satíricos de grandes figuras do mundanisino bou!evardier. Cáustico, irreverente, tendo a

3 2 4 � <Jf Vida literária no Brasil


Os contemporâneos descrevem-no como urna criatura particularmente
encantadora, amigo dos escritores novos, favorecendo os jovens de talento que
apareciam pelas redações dos jornais. Deu a mão a Diniz Júnior, a Batista
Júnior, a Nogueira da Silva e outros. Os estreantes de valor mereciam-lhe com
freqüência um artigo de estímulo.
Depois de João do Rio, foi Olavo Bilac o cronista mais fecundo da primei­
ra década do século XX. Somente por volta de 1910 vai ele abandonando esse
gênero de atividade jornalística e literária de que fez durante muito tempo seu
principal meio de vida. O prosador em Bilac nunca chegou, porém, à altitude
do poeta. O cronista caracteriza-se pela facilidade, leveza, tom fluente, sem

arte como uma razão soberana, desdenhoso de tudo quanto traduz vulgaridade, evidencia
sempre o desejo de escandalizar. Com as crônicas, os versos, os primei ros romances e contos
que publica em livro, também o seu tipo se torna conhecido nas rodas parisienses. l'raz as
mãos pesadas de anéis, toma éter, ostenta propósitos cínicos, procurando mistificar freqüen­
temente os interlocutores.
Além do pseudônimo de Jean Lorrain, utiliza-se de muitos outros, como o de Restif de la
Bretonne, cujo primeiro nome foi obrigado a mudar para Ratif, por causa do protesto de um
descendente do autor de Nicolas. lviais tarde, chegará mesmo a publicar muitas páginas sob a
assinatura macabra de "Le Cadavre". Percorre os bas-fands de Paris, nessa época em que ainda
existem apaches, e se envolve no meio deles em sortidas perigosas. Compraz-se em ser visto
na companhia de efebos equívocos, de rufiões, de gente com ficha na polícia. Oscar Méténier,
filho do comissário do distrito da Sorbonne, livra-o amiúde de conseqüências desagradáveis.
Nessa época, em que os duclos estavam em rnoda, também se bate várias vezes; de uma feita
com René Maizeroy, de outra com Marcel Proust.
Atraem-no igualmente as viagens, o gosto exótico. Como Gide, embriaga�se com o sol da
Argélia, o clima de volúpia e esquecimento que se respira naquelas planícies à beira do deserto.
Heures d'Aftique, um dos seus mais belos livros, faz lembrar o Amyntas de Gide. Aparecem ali
muitos acidentes da geografia gidiana: Consrantine, Biskra, El-Kantara. Esse homem que tan­
to escandalizava Paris com sua arrogância, e queria que lhe atribuíssem um fundo de monstruo­
sidade, era, em última análise, alma ingênua e pura, segundo o teste1nunho dos amigos.
Rachilde deixou dele um retrato enternecedor em Portraits d'hommes, onde nos conta os apuros
de que o tirou um dia, em que o pobre Lorrain se viu despojado do dinheiro e da roupa, num
hotel suspeito. Filho amoroso, co1no Marcel Proust, tinha pela mãe verdadeira adoração , e es­
crevia-lhe também lindas cartas. Os últimos anos de vida - morreu relativamente moço em
1906 - passou-os na Cóte d'Azur, em busca de urn sol consolador que o libertasse dos mias­
mas de Paris, la vil/e empoisonnée.
Deixou grande nümero de obras, das quais po<lerernos citar: Monsieur de Phocas, cerrarnente
a mais conhecida; Histoire de niasques, Propos d'mes sin1p!es, Le vice errant, Princesse d'Jvoire

C A P Í T U L O XX � 3 2 5
grande relevo, capacidade de tirar sempre conclusões gerais de um fato parti­
cular, num� filosofia que, se não abusa do paradoxo, não se abalança em aven­
turas arriscadas. Muito da vida do Rio de Janeiro também se reflete em suas
páginas, embora como já assinalamos lhe faltasse a vocação de repórter. Mas,
excetuando-se os méritos do poeta, o aspecto da personalidade de Bilac qne
dominou nessa época não foi a do cronista e sim a do orador. Os contempo­
râneos são unânimes em reconhecer-lhe a superioridade neste terreno: o
encanto pessoal, o belo timbre de voz, a gesticulação sóbria, um conjunto de
atributos excepcionais com que sabia seduzir os auditórios.
Quando Júlia Lopes de Almeida entrou a escrever nos jornais, por volta de
1885, encontrou ainda forte barreira de preconceitos contra as mulheres es­
critoras que tinham tido como pioneiras, no século pas s ado , Corina Coaracy.
O surto de literatura feminina que se verificou na França na última década do
' '
século XX havia de ter influído, no entanto, para o descrédito desse precon­
' '
ceito no ambiente brasileiro. Por outro lado, com o desenvolvimento da lite­
: :
) : ratura nos jornais, as colaborações pagas, as escritoras também se julgavam
com direito a retirar proventos econômicos do trabalho intelectual. No come­
ço do século XX, Júlia Lopes de Almeida prossegue a sua colaboração em crô­
nicas assíduas em mais de um jornal, e, fazendo pendant a essa extraordinária
atividade, surge outra cronisra do mesmo gênero: Cármen Dolores.
Chamava-se na vida civil Emília Moncorvo Bandeira de Melo e iniciara

et d'!vresse, Mon.rieur de Bougrelon, Quelques hommes, Fards et poisons. Jean Lorrain é um repre­

sentante típico do decadentismo fin de siecf.e, que teve no A Rebours e no Là-Bas, de Huysmans,
sua expressão mais elevada, e recaiu na subliteratura com Félicien Champsaur, cujos romances
repletos de ilustrações foram também muito lidos no Brasil até 1 922. Reagindo contra o natu­
ralismo, essa arte procura fugir da realidade sob todos os aspectos. Indica um estágio de cansaço
da civilização em que o homem toma horror à própria humanidade, passando a repelir tudo
quanto é natural, num anseio de reconstruir o mundo com dados inteiramente artificiais. O
personagem mais típico de Lorrain, o Mr. de Phocas, foi inspirado, certamente, pelo Des
Esseints de Huysmans. É um ser absurdo, fantástico, que anda em busca do raro, de emoções
inteiramente novas, de uma cor estranha por ele imaginada e que será a chave de todos os valo­
res estéricos. Perversão, crueldade, degenerescência, monstruosidade - tais os caracteres fre­
qüentes dos personagens de Jean Lorrain, uma comparsaria delirante que hoje já não impres­
siona pessoa alguma, embora nela encontremos traços de uma autêntica inventiva artística, Se
no Brasil seu discípulo foi Paulo Barreto, em Ponugal, não podemos negar�lhe a influência em
cenas páginas de Fialho.

32 6 � v1 Vida Literdria no Brasil


a carreira literária numa enquhe feira pelos redatores do Almanaque do País.
Escrevera a princípio por diletantismo, depois, forçada pelas necessidades eco­
nômicas, pôs-se a desdobrar-se em colaboração permanente em jornais e revis­
tas. Com o pseudônimo de Júlia de Castro publicara, primeiramente, uma série
de contos n'O Pais. Na Tribuna aparecera como Leonel Sampaio, assinando
artigos literários; adotara finalmente o pseudônimo de Cármen Dolores, com
que se tornou conhecida na coluna ''.A semana'', d' O Pais. Espírito combativo,
defendera o divórcio e várias reivindicações femininas. As contingências econô­
micas levaram-na a intensificar a produção literária e jornalística, num labor in­
cessante, com que procurou resistir estoicamente à doença. Pouco antes de seu
falecimento, a 13 de agosto de 1911, compareceu ainda com a crônica sema­
nal rí O País. Gilberto Amado, que a substituiu na referida coluna, dedicou-lhe
a primeira crônica em 21 de agosto do mesmo ano, considerando como o
traço mais simpático da personalidade de Cármen Dolores "a paixão pela vi­
,,
da, a bravura dos entusiasmos, a violência das sensações , "essa exaltação des­
lumbrada, essa robusta ventura de viver, mercê da qual se reconhece que este
mundo mau é um excelente mundo". E o autor da Chave de Salomão tor­
nou-se um dos maiores cronistas da última etapa do nosso "1900".
Quando chegou do Nordeste ao Rio, já havia tido uma fase brilhante
como colaborador do Didrio de Pernambuco. Muito moço, o que nele impres­
sionava era o cabedal de cultura e sobretudo a seriedade de pensamento.
Numa época em que o parnasianismo e depois o simbolismo haviam concor­
rido para a supervalorização da palavra, era homem que procurava sempre di­
zer alguma coisa, tirando ao mesmo tempo do vocábulo mais do que simples
efeitos inesperados. Sua colaboração n'O Pais, que aliás já datava de 1909,
sem caráter regular, marcou uma fase em nossa imprensa literária, anunciando
o anseio de renovação dos modernistas. Senhor de mentalidade nova, realista,
procurava "compreender" a Europa sem imitá-la, destruir preconceitos e mi­
tos que vinham deformando a imagem do brasileiro aos seus próprios olhos.
Esse Gilberto Amado de O País não pode ser hoje devidamente julgado pelo
pequeno número de páginas de sua colaboração reunida em livro. É preciso
entrar em contato com ele nas crônicas semanais, nas coleções do jornal.
No mesmo sentido, porém de caráter mais polêmico e sem aquele lirismo
que o autor da Chave de Salomão sabia por vezes transfundir nas crônicas, foi
.
a colaboração de Antônio Torres na imprensa carioca. A vocação de escritor já
se revelara quando seminarista, em artigos escritos na Estrela Polar, órgão da
diocese de Diamantina. Dando largas a um espírito combativo que despertou
bem cedo, publicou nessa folha inúmeros artigos polêmicos atacando as
"sensaborias atéias de Veríssimo", as pornografias escandalosas de Medeiros e
Albuquerque, a "patetice dos brasileiros" que aplaudiam Enrico Ferri, falando
em Eça e em Zola. Escrevera ainda de Botucatu para esse jornal, no mesmo
espírito, umas "Cartas paulistas". Vindo para o Rio deixou a batina, e depois
de uma fase difícil em que teve a ampará-lo a solicitude de alguns amigos
e conterrâneos, seu nome começa a chamar a atenção do público em artigos e
crônicas na Gazeta de Notícias. Era uma crítica de costumes e fatos feita com
sarcasmo, ironia e desassombro, indo ao encontro do fundo do não-confor­
mismo quase inconsciente do leitor médio. Apesar dessa atitude rebelde
e atrevida, saberia, no entanto, manter certo sistema de compromisso com
o espírito burguês, que Lima Barreto, na mesma linha, não respeitou.
Nos estados seria difícil distinguir cronistas com projeção na vida literária
do país, pois os que lá se iniciavam, não encontrando ambiente, não tarda­
vam a transferir-se para a metrópole. Em São Paulo, poderíamos talvez lem­
brar um nome, hoje inteiramente esquecido, mas que teve seu grande mo­
mento: Antônio de Godói. Passando a exercer o cargo de secretário do Correio
Paulistano depois de uma viagem à Europa, manteve nesse jornal três seções
muito lidas: "Naipe de paus'', '1Cartões-postais" e ''.Atualidades", assinando-as
sempre com o pseudônimo de Egas Muniz. Uma seleção dessas crônicas foi
depois enfeixada em livro, e nelas podemos notar um detalhe curioso: o de ter
sido Egas Muniz um dos cronistas literários que se ocuparam do futebol,
quando este começava a implantar-se entre nós. Suas opiniões a respeito são,
porém, um tanto contraditórias. Numa página de "Naipe de paus", comen­
tando um jogo realizado em São Paulo, vemo-lo exclamar: "Oxalá que o en­
tusiasmo desses moços não se esmoreça, que continue com o mesmo fervor,
constituindo assim núcleos para o desenvolvimento da nossa mocidade tão in­
dispensável para a nossa vida."9 Mas em outra página, de "Atualidades",
considerava o futebol moda que haveria de passar. Uma "coisa brutal, perigosa,

9. Antônio de Godói, G'rônicas de Egas Muniz, Rochsdtil<l & Cia., Sue., São Paulo, l 906.

3. 2 8 _, v1 Vida Literária no Brasil


intolerável'', não merecendo outro qualificativo semelhante exercício, "em que
a inteligente moderação e o irônico predomínio do espírito'' desapareciam para
dar lugar a "uma simples exibição de força muscular, a um delírio de corridas,
de encontrões, de pontapés e de tombos", etc. Em nome do bom gosto -
continuava -, esse esporte, tal como aqui se compreendia, devia ser repelido
como nocivo à integridade física da geração que despontava. Não propria­
mente pelo futebol em si - dava a entender o cronista -, mas porque o tí­
nhamos deturpado com "os incorrigíveis pendores do nosso temperamento".
Jogo inglês só por ingleses deveria ser praticado - opinião que hoje nos pa­
recendo absurda não o seria naquele tempo, quando o futebol se revestia ain­
da de um cunho exótico no Brasil.
Mais tarde, Lima Barreto, inimigo ferrenho desse esporte - encarando-o
aliás, de um ponto de vista social, como bem observou Francisco de Assis
Barbosa10 -, diria: "O futebol é coisa inglesa que nos chegou pelos arrogan­
tes e rubicundos caixeiros da rua da Candelária e arredores, nos quais todos
teimamos em ver lordes e pares do Reino."
Enquanto Coelho Neto, um dos nossos escritores mais entusiastas do "es­
porte bretão", como no tempo se dizia, fazia-o derivar em linha reta dos jogos
atléticos da Hélade, colocando-o sob o signo daquele culto da Grécia que aqui
predominava, tirando-lhe por meio dessa reversão literária o caráter "bretão'>.

l O. Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto, pág. 276, José Olympio, Rio, 1952.
li � C A P Í T U L O XXI

tA literatura brasileira no estrangeiro """"' Correspondência de


Figueiredo Pimentel e Tristão da Cunha para o Mercure de France """"'
Uma advertência de Remy de Gourmont """"' Taunay, Coelho Neto e
Aluísio Azevedo traduzidos na Europa e na América Latina � Martin
Carda Merou � O Brasil � Melhor mercado para os livrosportugueses

partir de 1900 manifestam-se os primeiros esforços de penetra­


ção da literatura brasileira no estrangeiro, principalmente na
Europa. Dada nossa estreita afinidade com a França, era na­
tural que nossos escritores nutrissem, desde logo, o ideal de ali
encontrar alguma ressonância.
Em 1901, o Mercure de France, que vinha mantendo seções sobre literatu­
ras estrangeiras, iniciou a publicação da rubrica "Letrres brésiliennes'', a cargo
de Figueiredo Pimentel. Teríamos agora, pelo menos, a ilusão de que os fran­
ceses tomariam conhecimento de nossa existência. Uma carta de Remy de
Gourmont ao escritor brasileiro, datada de 19 de novembro de 1900, informa­
nos das circunstâncias em que se inaugurou a referida colaboração. Figueiredo
Pimentel já se correspondia de há muito com Remy de Gourmont, um dos
diretores do Mercure; era, pois, natural que viesse solicitar a este um lugar
para nossas letras na importante revista francesa. Gourmont escreve: "Se o
sr. Carvalho foi dispensado pelo Mercure, é que desde que aceitou a redação de
'Lettres brésiliennes' não deu ainda um artigo, e isso há quase um ano. Espero,
ao contrário, que o senhor enviará logo a sua primeira crônica." O Carvalho
a que alude Gourmont não deve ser outro senão o escritor português Xavier

CAPÍTULO XXI � 331


de Carvalho, correspondente da Gazeta de Notícias e d'O Pais na França.
Assim, graças à intervenção do autor de Culture des idées, a rubrica foi confia­

da a Figuei edo Pimentel. Gourmont faz, porém, curiosa advertência ao con­
frade brasileiro na mesma carta:
'(Escrevendo para a França, o senhor escreve para um povo mais ou menos
cético e que não costuma entusiasmar-se senão raramente. Deverá pois cuidar
de ser moderado nos elogios, mesmo com relação aos melhores escritores bra­
sileiros. Para um francês dizer de alguém: é um escritor de talento - já cons­
titui grande elogio. Há certamente nas mesmas palavras empregadas pelas
duas línguas uma grande diferença de sentido; há sobrerudo grande diferença
de temperamento entre os dois povos. O senhor não conhece a neve e a gea­
da, enquanto a n6s o inverno nos esfria todos os anos."1
Parece que Remy de Gourmont já havia sido notificado da facilidade com
que se distribuem elogios em nosso meio literário. Procurara assim acautelar
o escritor brasileiro contra a impressão que poderiam produzir na França as
notícias de uma literatura em que os talentos e os gênios proliferassem com
facilidade assombrosa.
Figueiredo Pimentel não decepcionou Remy de Gourmont, pelo menos
nas primeiras crônicas. Em carta de 5 de julho de 1901, o escritor francês
declara-lhe: "Esteja tranqüilo; graças ao senhor a literatura brasileira toma seu
lugar entre as melhores e as mais interessantes. Continue a enviar-nos as cor­
respondências. Quanto mais for conhecida, mais será admirada."
As "Lettres brésíliennes'), de Figueiredo Pimentel, procuravam oferecer aos
franceses vistas gerais de nossa literatura tanto no presente como no passado.
Recapitulava aspectos da ficção romântica, resumindo a obra de José de
Alencar, Taunay e outros; tratava ora dos naturalistas, ora dos simbolistas, ci­
tando Alphonsus de Guimaraens.
Não conseguimos precisar até quando se prolongou a colaboração de
Figueiredo Pimentel no Mercure de France. Mas é certo ter sido substituído por
Tristão da Cunha, em 1908, a julgar pela data da primeira das "Lemes" incluí­
das no livro Cousas do tempo.2 No sucinto pref.ício desse livro o autor explica:

1 . "Letras e artes", suplemento literário de A Manhã, 13-4� 1952.


2. Tristão da Cunha, Cousas do tempo, Anuário do Brasil, Rio, 1922.

3 3 2 _, v1 Vida Literária no Brasil


"Os ensaios 'Joaquim Nabuco', 'Estética da vida' e os da série 'Letras brasileiras�
saíram primeiro no Mercure de Prance, de onde os traduzo, j untando-lhes algu­
mas reflexões que me pareceu avisado guardar do leitor estrangeiro." Por aí ve­
mos, também, que na referida rubrica Tristão da Cunha adotava um método
diferente do de Figueiredo Pimentel, preferindo dedicar sempre cada carta a
determinado escritor, muitas vezes a propósito de um livro que acabava de apa­
recer. Figueiredo Pimentel traçava panoramas de caráter mais jornalístico;
Tristão da Cunha emprestava uma feição mais literária às "Cartas", procuran­
do enquadrá-las nas dimensões de pequenos ensaios. Mais tarde quem ia subs­
tituí-lo na mesma rubrica seria o padre Severiano de Resende, que escrevia so­
bre nossas letras de Paris, onde viveu durante muitos anos.
Até que ponto essas "Lettres" do Mercure de Prance poderiam ter desper­
tado algum interesse pela literatura brasileira, já não dizemos no público, mas
entre os escritores franceses? Seria difícil pesquisa a respeito. Se passamos a ter
algumas obras de escritores brasileiros ou sobre os mesmos editadas em fran­
cês, isso deve ser encarado antes como resultado de influências diplomáticas
que desde então começaram a movimentar-se nesse sentido.
Em 1910, o Canaã de Graça Aranha, aparecendo em tradução francesa de
Clement Gazot, com prefácio do conde Prozor, conseguia na imprensa pari­
siense excelente acolhimento. Guglielmo Ferrem, que visitara o Brasil três anos
antes, escrevia um artigo de duas colunas no Pigaro, assinalando em Canaã não
somente o valor literário como filosófico. Paul Adam secundava esse artigo,
ocupando-se, demoradamente, do romance em Le Temps. Edmond Jaloux, na
Revue de Paris, declarou: "Há em Canaã uma sinfonia e um poema."
No Monde Nouveau, André Toledano (quem seria este?), depois de um golpe
de vista pela nossa literatura, considerou: "Canaã marca data na história das le­
tras brasileiras, a data mais importante, sem dúvida... Antes de Canaã os ro­
mancistas brasileiros souberam descrever com talento os costumes e as paisa­
gens de sua terra, e suas obras ofereciam ao leitor europeu real interesse do
exotismo pitoresco; com Graça Aranha, o romance brasileiro se eleva acima de
um particularismo puramente descritivo para abordar com toda ousadia um
problema filosófico e social que, pelos seus próprios dados, embora permane­
cendo brasileiro, ultrapassa o campo nacional: o da transformação de uma na­
ção sob a influência de emigração estrangeira e sobretudo alemã, ou, como diz

C A P Í T U L O X X I '-"""' 3 3 3
·o próprio autor, a tragédia que se passa na alma do povo quando ele sente que
se desdobrará �té ao infinito, pois na hora em que a nacionalidade brasileira to­
ma conhecimento de si mesma, sente a dor de se ver condenada a desaparecer."
Interessante o crítico dividir a história do romance brasileiro em duas fases: an­
tes e depois de Canaã. Teria feito essa classificação com perfeito conhecimento
de causa ou por informações de outrem? Neste caso, não se lembraram de di­
zer-lhe qual o lugar de Machado de Assis em nossa novelística?
As conclusões de Graça Aranha eram, como se sabe, falsas, e o romance,
podendo dar ao estrangeiro uma idéia lisonjeira da capacidade criadora de
nossa literatura, apresentava o problema social brasileiro sob o aspecto de um
derrotismo etnográfico que não correspondia à realidade.
Isso veio a suscitar uma denúncia de Gilberto Amado, em artigo r1 O Pais
(1 1-12-1910). Aludindo ao fato do barão do Rio Branco, ante um protesto do
embaixador italiano, ter intimado Aluísio Azevedo a retratar-se de declarações
feitas à imprensa do Rio, considerava que por essa pauta rigorosa cabia à nos­
sa diplomacia castigar Graça Aranha, porque Canafí era o mais vigoroso libelo
contra o Brasil e a mais definitiva condenação que já se escrevera sobre o cará­
ter de um povo. Traduzido e divulgado na Europa, concorria para anular entre
os sábios, os literatos e o público rodos os esforços da, em boa hora, suspensa
comissão de propaganda. Graça Aranha dizia talvez verdades - concordava
Gilberto Amado -, mas são as que mais nos humilham e corroboram a idéia
que o europeu tem de nossa incapacidade org&nica para fundar uma civilização.
Acentua o fato de Ferrero no artigo que escreveu sobre o livro, "numa lu­
cidez crítica de espantar", ter declarado que este representava o pensamento
de Rio Branco. Canafí diria assim no centro do mundo, em Paris, no francês
puro de Mr. Prozor, as verdades cruas que provavam os nossos defeitos sob

ili
o prestígio de um alto nome diplomático.
Não obstante, pouco depois o romance de Graça Aranha aparecia nos
Estados Unidos, em tradução inglesa, com prefácio de Ferrero e recomenda­

j'
.
' .
' ' do por uma frase consagradora de Anatole France: The great american novel
;.·' i
Não é de estranhar que o livro provocasse tantos louvores. Graça Aranha
·

nessa época desempenhava com brilho suas funções diplomáticas na França,


e soubera aproximar-se de muitas figuras de renome, entre as quais Maurice
Barrês. Em tais condições, bem sabemos como os franceses têm o elogio fácil.

LI! 3 3 4 � vf Vida Literária no Brasil


Fora recebido na Sorbonne com as honras de grande amigo da França e sau­
dado por Edmond Rostand; considerado por Bergson o "represenrant par
excellence de la pensée brésilienne, dont j' aprécie pour ma part hautement
le talent et les travaux".
No mesmo ano de 1910 aparecia em edição Garnier uma pequena seleção
de contos de Machado de Assis, traduzidos para o francês sob o título de
Quelques contes. Não sabemos que suscitasse a mesma onda de encômios. Isso,
embora um ano antes Oliveira Lima tivesse lançado em plaquette sua confe­
rência pronunciada na Sorbonne: Machado de Assis et son oeuvre littéraire, com
avant-propos de Anatole France.
É verdade que em 1 899, quase no fim do século, uma sra. Alexandrina
Highland, residente em São Paulo, em vias de retornar à Alemanha, pedi­
ra a Machado de Assis autorização para traduzir-lhe as obras em alemão.
O escritor, preso por um contrato com o editor Garnier, mandara-lhe perguntar
se consentia na tradução, ressalvando que, de sua parte, não desejava proveito
econômico, contentando-se em se tornar conhecido numa língua estrangeira.
A resposta de Garnier foi a de um comerciante cem por cento. Começando
por fazer senrir a Machado de Assis que um escritor, mesmo bem traduzido,
perde sempre sua originalidade numa língua estrangeira, lamenta não poder
conceder gratuitamente os direitos de tradução. "Les allemands savenr forr
bien se faire payer de leur côté; Mme. Highland devra done me verser cent
francs par chaque volume de vous qu'elle se proposerait de traduire."
Ainda em 1910 - ano feliz para a vulgarização de nossa literatura na
França - Victor Orban, que havia em 1909 dado a lume um ensaio em fran­
cês sobre Machado de Assis, lançava a antologia Littérature brésilienne, com
prefácio de Oliveira Lima.3 Era a primeira vez que se realizava em língua es­
trangeira um trabalho desse gênero: "uma antologia metódica, racional e tan­
to quanto possível completa dos escritores brasileiros do século XVI aos dias
atuais", acentuava Oliveira Lima. Até enrão só tínhamos tido versões isoladas,
de poesias principalmente, como Goran Bjorkman havia feito na Suécia.

3. Em artigo n'O País (23-1 1 -1910) Carlos de Laet criticou severamente a obra, aludindo ao
grande espaço que o autor nela concedera a Oliveira Lima, vinte páginas, enquanto a Alencar
só dera sete.

CAPÍTULO XXI � 3 3 5
.. Essa apresentação de conjunto constituía qualquer coisa de inédito. Os tre­
chos antológicos eram precedidos de pequenas notícias sobre os autores, e as
poesias traduzidas em prosa. Mais tarde, em 1921, Victor Orban lançaria uma
antologia unicamente poética, sob o título La poésie brésilienne.
Em 1918, o diplomata e escritor brasileiro Benedito Costa publicou em
francês um panorama crítico-histórico de nosso romance: Le roman au Brésil. E
explicava que, sendo um hábito entre intelectuais brasileiros que vão à Europa
escrever sobre o Velho Mundo no Brasil, preferira falar do Brasil na Europa, com
o fim de concorrer para destruir a idéia absurda e inconcebível que guardavam
os europeus acerca de nosso país.
Oliveira Lima, quando servia em Bruxelas, fez na Universidade de Louvain
uma série de conferências sobre a língua portuguesa e a poesia brasileira.
Depois, no Théâtre de La Monnaie, a convite da Sociedade de Geografia de
Bruxelas, na presença do rei, falou em francês sobre o Brasil e a sua história.
Iniciou na mesma época na Revue de Paris, sobre os mais ilustres escritores
e oradores brasileiros, artigos que Jean Finot ficou de editar em volume, o que
parece não se realizou.4
Medeiros e Albuquerque também pronunciou na Sorbonne, em 14 de ju­
nho de 1912, uma conferência em francês sobre a formação da nacionalidade
brasileira, conferência essa de que se ocupou Gastou Deschamps, com elogios,
na primeira página de Le Temps e que foi publicada em La Revue, então dirigi­
da por Jean Finot, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras,
eleito em setembro de 1910.5
Esporadicamente, algum francês ou brasileiro escrevia sobre a nossa litera­
tura em jornais parisienses. Lembraremos o artigo de Xavier Marques "Le
Brésil littéraire", publicado em La Vie Littéraire e reproduzido em vários jor­
nais da Itália; o artigo de Ferrero, "Une académie américainen, em Le Fígaro
(21-4-1908); o conde Prozor, na Revue Hebdomadaire (20-6-912), discorren­
do sobte joaquim Nabuco et la culture brésilienne; os louvores de Émile Faguet,
anteriormente às Pensées détachées de Joaquim Nabuco em Les Annales (29-9-
1907). Faguet, como se sabe, julgou tratar-se de um pseudônimo e imaginou
' 1
'! 4 . Correio da Manhã, 19-9- 1 9 1 0.
5. Medeiros e Albuquerque e Oliveira Lima", artigo no jornal do Brasil (21-1-1924).
"

33 6 _, e.A Vida Literdria no Brasil


Nabuco um homem no limiar dos sessenta anos, com esmerada educação
franco-inglesa, influenciado por Chateaubriand, Shelley e Renan, não igno­
rando a filosofia alemã e Augusto Comte. Estendeu-se em comentários mui­
to simpáticos ao livro, entremeados de várias citações.
Em 19 13, Martin Brusot, que no ano anterior também havia sido eleito
membro correspondente da Academia Brasileira, publicava em Berlim uma
versão alemã do Sertão, de Coelho Neto, sob o título Wildnis. E daí a dois
anos, outra obra desse escritor, as novelas da Treva: Der Tode Kollektor.
Já no ano de 1897, um jornal argentino publicara em folhetins a primeira
tradução espanhola de Inocência, sendo que em 1896 o escritor José Clementina
Soro fizera uma adaptação teatral do romance. Pouco depois, em 1902, La
Nación estampava outra tradução do mesmo livro, feita esta por Arturo Costa
Alvarez e que apareceu em volume na Biblioteca de la nación. 6 Argeu Guimarães
nos dá conta igualmente de outra versão castelhana do romance de Taunay edi­
tada em Bogotá, da autoria do presidente Concha, da Colômbia, e trazendo um
prefácio de António Gomez Restrepo. A tradução pareceu-lhe "chocha, feita
por alguém que não conhecia o nosso falar e caía às vezes na cilada das palavras
parecidas, mas de sentido diametralmente diverso, tão freqüentes nos dois idio­
mas". Gomez Restrepo disse-lhe que o ex-presidente, homem de letras, recebera
o romance brasileiro de Taunay quando embaixador na Santa Sé, das "mãos da­
divosas" de Magalhães de Azeredo.7
Não obstante, o aparecimento do romance de Artur Lobo, Rosais, no
Chile, em 1900, traduzido por Clemente Barahona Vega para a revista La Lira
Chilena, abria um caminho quase virgem para a divulgação de nossas letras na
América espanhola. Cabia ao escritor mineiro, muito pouco conhecido no
Brasil, essa primazia que, no entanto, não contribuiu para dar-lhe merecido
renome no seu país. Artur Lobo iria falecer no ano seguinte, em plena moci­
dade, deixando cerca de uma dezena de livros em prosa e verso, hoje inteira­
mente desconhecidos fora dos círculos de pesquisadores de nossa história lite­
rária. A tradução de Rosais resultara de uma iniciativa de intercâmbio literário
de outro escritor mineiro: Nélson de Sena.

6. Afonso Taunay: "História bibliográfica de Inocência", jornal do Commercio, 17-1 1 - 1 957.


7. "Inocência e Maria", artigo do Diário de São Paulo, 3- 1 1-1 957.

C A P Í T U L O X X I """°' 3 3 7
Em 1902, as Memórias póstumas de Brás Cubas, numa versão de Júlio
Piquet, eram editadas em Montevidéu pela lmprenta de La Razón. Na corres­
pondência de Machado de Assis encontramos uma carta a Luís Guimarães
Filho em que o romancista, acusando o recebimento do exemplar da tradu­
ção, agradece-lhe muito a diligência e a lembrança. Teria o poeta, como diplo­
mata, concorrido para esse empreendimento? Os termos da carta nos levam a
supor que sim. ''A tradução só agora a pude ler completamente" - escreve-lhe
Machado - "e digo-lhe que a achei tão fiel como elegante, merecendo Júlio
Piquer ainda mais por isso os meus agradecimentos."
No ano seguinte, o romance de Joaquim Felício dos Santos, Acaiaca, apa­
recia no Chile ainda em tradução de Clemente Barahona Vega (membro cor­
respondente do Grêmio Literário Santa Rita Durão, de Belo Horizonte) , numa
edição congratulatória da visita do cruzador Almirante Barroso, em maio de
1903. Não deixa de ser curioso que dois livros como Rosais e Acaiaca, hoje
completamente esquecidos, figurem entre os vanguardeiros de nossas obras
traduzidas na América espanhola. Também em homenagem aos oficiais do
Almirante Barroso fez-se em Valparaíso uma edição de Los cantos de! sabid, an­
tologia de artigos e poesias de escritores brasileiros traduzidos por Clemente
Barahona e Leonardo Eliz.
Poucos anos depois, por volta de 1905, Aluísio Azevedo conseguira ter
seu romance O mulato editado em castelhano em Buenos Aires, traduzido
pelo seu amigo Costa Alvarez, e lançado anteriormente em folhetim em
La Nación. Pela correspondência do romancista, publicada em O touro negro,
tomamos conhecimento do incidente provocado por uma carta de Aluísio,
da Inglaterra, onde se encontrava, com o tradutor de O mulato. Essa carta
suscitaria um artigo de Homero Batista, no Correio do Povo de Porto Alegre,
acusando o romancista de haver desprestigiado o Brasil, deprimindo-lhe o
idioma e o meio literário. Aluísio responde numa outra missiva, muito lonw
ga, dirigida a Batista Xavier, diretor do Petit Journal ("Bato às portas do seu
jornal"), na qual repele como absurdas e falsas as acusações do sr. Homero,
que confessa nunca ter visto mais gordo. Reafirma, no entanto, aquilo que
realmente afirmara: a infelicidade do escritor brasileiro é escrever em portu­
guês) "língua mais rica, mais harmoniosa, mais literária e enfim mais com··
plera" do que qualquer outra, circunstância que não a impede de ser "pouco

3 3 8 � cA" Vida Literdria no Brasil


lida e por conseguinte ohscura". Foi esse, corno se sabe, um ponto de vista
em que sempre insistira Aluísio: a impossibilidade de um escritor conquistar
público capaz de compensar-lhe materialmente o trabalho e adquirir reper­
cussão merecida escrevendo em português. E quando o tribuno Coelho
Lisboa, na Câmara dos Deputados, num discurso sobre os filhos de Aurélio
de Figueiredo, profliga a indiferença do meio, a falta de universalidade do
idioma, o romancista se apressa a enviar-lhe de Cardiff uma carta aplaudin­
do-o em termos entusiásticos: "É a primeira vez que do cimo do parlamento
brasileiro se atira ao ar uma girândola de verdades a respeito da língua que
nos sepulta. Abençoados foguetes! Vou juntar a esta carta um artigo que so­
bre ela escrevi em resposta a um ataque que me fizeram do Rio Grande do
Sul, e só faço, porque agora que me acho em boa companhia com o teu dis­
curso. Se ainda não conheces esse artigo terás margem para alguns sorrisos. "8
Mas no que se referia ao desconhecimento da literatura brasileira nos países
hispano-ameticanos, Aluísio Azevedo exagerava atribuindo-o à falta de re­
ceptividade do idioma. Maior era ainda na época nossa ignorância das litera­
turas desses países de língua castelhana. E em 1900, quando apareceu em
Buenos Aires El Brasil intelectual de Martin Garcia Merou, José Veríssimo,
numa longa apreciação, aludia às explicações que o escritor argentino propu­
nha para o desconhecimento recíproco entre as nações americanas. ((Uma
cultura" - escrevia Veríssimo, reportando-se ao pensamento de García
Merou -, "quaisquer que sejam os socorros que lhe traga o estrangeiro, só
se faz com o gênio nacional. Só ela, por isso, pode de fato dar a feição, a me­
dida, o valor de um povo. Só ela, sobretudo, pode exprimir o que há na sua
alma, dizer as suas aspirações, manifestar as suas capacidades."9 Ora, os paí­
ses americanos viviam até então voltados para a Europa, não tinham ainda,
,,
senão em alguns casos, sabido imprimir aquele "gênio nacional às respecti­
vas produções literárias, sendo justificável pois o desinteresse recíproco que
predominava entre eles nesse terreno.
A publicação de ElBrasil intelectual de Garcia Merou, constituíra, no entan­
to, verdadeiro marco para a aproximação intelectual de nosso país e a Argentina.

8. Aluísio Azevedo, O touro negr(), Briguiet, Rio, 1944.


9. José Veríssimo, .E'studos de literatura brasileira (3ª série), Garnier, Rio.

CAPÍTULO XXI � 3 3 9
O autor exercera durante muitos anos, no século XIX, as funções de minis­
tro plenipote!'ciário da nação vizinha no Rio de Janeiro. Já possuía vasta ba­
gagem de 1 1 volumes nos mais diversos gêneros quando aqui se instalara. Não
tardou que se relacionasse com alguns escritores, como Araripe Júnior e Taunay,
e se interessasse pela nossa literatura, passando a estudá-la. Segundo nos infor­
ma Veríssimo, no momento em que escrevia El Brasil intelectual Merou não co­
nhecia na Argentina outros trabalhos sobre as letras brasileiras senão uma análi­
se da Confederação dos Tamoios de Magalhães, por João María Gutiérrez, alguns
juízos literários de Ernesto Quesada (que aqui também foi ministro da Argen­
tina no século XIX), "a soberba descrição de um trecho da natureza fluminense
que enquadra uma das belas cenas do Fruto proibido", de Groussac, e "as pági­
nas ligeiras que nos dedicou Sarmiento nas suas Viagens". Com esse livro ofere­
ceu pela primeira vez ao leitor argentino uma visão panorâmica de nossas letras
já com certo sentido orgii.nico. É verdade que não fez propriamente uma histó­
ria da literatura brasileira. Como assinala Verísssimo, interessou-se mais pelo
nosso pensamento social, dando maior atenção aos ensaístas, aos críticos políti­
cos do que aos romancistas e aos poetas. Daí o grande lugar que ocupa no livro
o estudo das idéias, do roteiro intelectual de um Sílvio Romero e de um Tobias
Barreto. Mas a obra encerra uma vasta soma de informação crítica sobre nossas
letras até os fins do século XIX, e Garcia Merou prestou à literatura brasileira na
América espanhola um serviço idêntico ao que Ferdinand Wolf e Ferdinand
Denis prestaram na Europa, estes, naturalmente, contemplados com polpudas
recompensas de dom Pedro II.
Quanto à penetração de nossa literatura em Portugal, é preciso que se
diga que, nas duas primeiras décadas do século XX, embora muitos dos me­
lhores escritores lusos continuassem a colaborar nos jornais brasileiros, e a ter
aqui o melhor mercado para os seus livros, pouco se interessavam pelo que
produzíamos. "Só Junqueiro apanhava e apanha o Brasil" - julgava João do
Rio, testemunha insuspeita no caso -, "não porque o tenha estudado em de­
talhe, mas porque é gênio e gênio possuidor de um espírito de síntese extraor­
dinário."1º Se muitos dos escritores brasileiros eram editados em Portugal,
; j
( 1 seus livros, na maioria dos casos, só aqui praticamente circulavam. João do
:!
10. João do Rio, Portt;gaí d'agora, Livraria Garnier, Rio, 1 9 1 1 .

3__4 O � l./Í Vida Literária no Brasil


Rio, no entanto, atribui aos irmãos Lello, do Porto, um grande papel em
prol das nossas letras ao lançarem as obras de Coelho Neto e Sílvio Romero,
,,
que teriam causado a impressão de '<um arrancar de cortinas em Portugal. O
êxito do Sertão, por exemplo, fora ali considerável. Mas apesar de haver si­
do o escritor brasileiro que encontrou melhor receptividade no ambiente por­
tuguês, Coelho Neto parecia possuir mais admiradores entre os confrades lu­
sos do que propriamente leitores. Basta ver o seguinte: no livro Barbear,
pentear... Fialho de Almeida inclui um capítulo intitulado "Coelho Neto".
Esperamos encontrar um estudo sobre Coelho Neto, e logo verificamos que o
autor do Rei negro ali figura como Pilatos no credo: o capítulo é uma tremen­
da verrina contra a falta de amparo para a atividade literária em Portugal. É
verdade que Coelho Neto foi estudado ligeiramente em artigos por Malheiro
Dias, Maria Amália Vaz de Carvalho e Manuel de Sousa Pinto, mas se trata­
va de escritores muito ligados ao Brasil. Os males que Fialho denuncia na re­
ferida verrina constituem, na realidade, a melhor justificativa para a pouca
penetração da nossa literatura em Portugal no começo do século XX.
Segundo o testemunho de João do Rio, os editores lusos respondiam às quei­
xas dos escritores patrícios sobre a exígua remuneração que lhes davam, dizen­
do: "Mas aqui não se lêem livros. Não é possível dar mais porque teríamos pre­
juízo. O nosso grande mercado é o Brasil. No Brasil é que se lê." l l

1 1 . Idem, ibidem.

CAPÍTULO XXI � 3 4 1
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li <Z, C A P i T u L o XXI I

Em agosto de 1914... �A francofilia de José Veríssimo � Fundação da


Liga pelos Aliados � Um artigo de João Ribeiro � Oliveira Lima,
Capistrano deAbreu e Antônio Torres. Germanójilos � Como se prolon­
gou no Brasil la belle époque � Literatura de guerra

m agosto de 1914 foi a surpresa, o imprevisto: a guerra, a guerra


como até então não se conhecia, conflagrando de um momento
para outro toda a Europa, estendendo-se pela Asia e Africa.
O povo se aglomerava, nervosamente, à porta dos jornais on­
de se afixavam os últimos telegramas, e a figura de Guilherme II, o "kaiser",
se delineava aos olhos de todos, como um paranóico feroz ameaçando o
mundo. Mas apesar do clima de apreensões que logo se forn1ou1 não senti­
mos, a princípio, como os europeus, que qualquer coisa acabava definitiva­
mente naqueles dias. Era o fim de uma época, de um teor de vida. La be!le
époque, que na Europa terminou nesse agosto trágico de 1 9 14, teve assim pa­
ra nós uma espécie de suplemento, prolongando-se no decurso da guerra.
Quais os primeiros efeitos da luta em nosso ambiente literário? Vivendo
espiritualmente em Paris, a maior parte dos intelectuais brasileiros não podia
deixar de logo tomar o partido da França. João do Rio adiantou-se em lan­
çar o protesto coletivo de inúmeros escritores no artigo: "O Imperador Louco",
publicado na Gazeta de Notícias em 7 de agosto. O gesto inicial de repulsa dos
homens de espírito e sensibilidade ia para a fúria desaçaimada de Guilherme li
a querer esmagar a graça francesa que tanto nos encantava. Além do mais, o

C A l' Í T U L O XXII �343


f golpe atingia, igualmente, aquilo que não cansávamos de proclamar na épo­

1 ca: nossa condição de latinos.

1 "Não só nós latinos" - escrevia João do Rio, no referido artigo -, "nós fi­

1
lhos do Medirerrãneo, a pia batismal da civilização perfeita, que sentimos o hor­
ror do grande mal. Todas as raças, todos os povos hão de sofrer-lhe as conseqüên­
cias. Os escombros do esforço universal clamarão contra o frenesi do Imperador
Louco que incendeia a terra e a encharca do sangue de milhões de homens."
A essas expressões passionais de João do Rio sucederiam n' O Imparcial os
artigos mais refletidos, nem por isso menos enérgicos, de José Veríssimo, que
desde logo saía a campo, também em defesa da França. Em 24 de agosto, nu­
ma página sob o título "Nós americanos e a guerrà', explicava o crítico:
"O universal movimento de simpatia pela França é menos amor desta que re­
provação da Alemanha, do regime político-militar que ela se deu e da arro­
gância que lhe insuflou uma quem sabe se não exagerada confiança na sua
força." Pacifista, Veríssimo alimentava, como muita gente na época, a espe­
rança de que essa primeira grande guerra fosse a "últimà'. E argumentava da
seguinte forma: "A presente guerra, longe de ser um desmentido aos pacifis­
tas, é uma comprovação de suas doutrinas e um acoroçoamento à sua fé e à
sua propaganda. Desta vez a lição será por tal forma tremenda que o mundo
inteiro a ouvirá. Ouçamo-la desde já nós americanos." Louvando-se em Júlio
Rocca, ei-lo a tirar da tragédia as premissas de uma política pan-americana a
ser adotada na situação. "Consoante o conselho do provérbio, aprendamos
na desgraça alheia. Um ilustre estadista e glorioso general argentino, dom
Júlio Rocca, segundo telegrama aqui publicado, com autoridade que está
bem longe de ter o humilde subscritor destas linhas, já aconselhou tirásse­
mos desta memorável lição os ensinamentos que ela comporta. Estes são cla­

li ros: que acabemos de uma vez por todas com as nossas macaqueações da po­

I ,'
lítica européia, pretensões de hegemonia, disputas de preeminência, ciúmes
internacionais, obsoletas ojerizas de raças, rivalidades nacionais, tudo sem
razão de ser aqui, tudo produto de imitação do que se passa na Europa, e es­
forcemo-nos do mesmo passo, com sinceridade e um alro sentimento de
amor de nossas pátrias e benquerença ao nosso continente, por acabar com
quaisquer motivos de suspeita e divisão recíproca, ou arredar resolutamente
os que possam surgir."

3A 4 &A vf Vida Literdria no Brasil


Em 30 de agosto Veríssimo volta pesaroso e severo num longo artigo,
''A autoria da guerra", atribuindo aos alemães toda a responsabilidade da des­
graça que caíra sobre o mundo. Referindo-se ao kaiser, manifestava a mais viva
indignação ante seus devotos: ''Aqui mesmo nesta América democrática e civil,
mais do futuro que do presente, almas que se presumem de republicanas, por
uma perversão intelectual ou por esnobismo de classe, rendem-lhe culto."
Logo depois começou a marcha dos alemães sobre Paris e foi verdadeiro
traumatismo moral para a maioria dos nossos escritores. Veríssimo figurou no
número dos que mais sofreram com isso. Homem de alma aparentemente
rija, juiz austero em coisas literárias, habituado a não vergar às razões do
coração, mostrou-se de sensibilidade única ante a tragédia da França. No mo­
mento em que o governo francês se retirava para Bordéus e os generais alemães
já falavam em almoçar no dia seguinte em Paris, viu-se esmagado como ao
peso de um grande infortúnio. Parecia ter envelhecido dez, vinte anos -
testemunhou João Luso. "O seu rosto, já pálido, enlividara, rugas profundas
se lhe abriam na testa, ao redor dos olhos, havia em todo ele uma tristeza trá­
gica, um imenso abatimento." Chegava a corcovar, vergado ao peso de enor­
me desgraça. No dia seguinte, apresentava ainda pior aspecto: "Os olhos es­
moreciam, como se toda a satisfação e necessidade de ver para sempre lhes
fugissem; a voz enrouquecida velava-se e as pernas começavam a arrastar-se
penosamente." Uma impressão lastimável; parecia sentir a própria existência
empenhada na queda iminente da França.
Mas nos dias de setembro, trava-se a chamada batalha de Mame. Os ale­
mães recuam. Paris estava salva. O plano de ofensiva fulminante do Estado­
maior germânico caíra por terra. Foi um respiro de alívio aos que sofriam pela
França. "E imediatamente Veríssimo aparece remoçado, com vinte anos de
menos, falando alto e rindo resplandecente de vigor, vivacidade e júbilo",
para a 6 de outubro voltar à coluna costumeira, na segunda página do jornal,
com o artigo "O dever da Américà', mostrando que o novo continente não
podia eximir-se de uma intervenção ante o que se passava pelo mundo.
,,
"Não seria insólito - declarava em tom firme - '<que a América pela voz
possante dos Estados Unidos, com que se deveria toda coligar por amor da ci­
vilização, da democracia e da paz, levantasse o seu quos ego para pôr um para­
deiro à catástrofe iminente e impedir que os vitoriosos, sejam quais forem,

CAPÍTULO XXI1 � 3 4 5
·· abusem da sua vitória, como já está fazendo, com revoltante brutalidade, um
dos beligeran5es." Sobre a maneira eficiente de levantar esse quos ego não nos
informava, porém, o crítico. E a 30 de novembro é que o vemos distrair-se
um pouco da guerra para retornar à crítica literária, publicando um longo
artigo n' O Imparcial sobre o romance Maria Bonita, de Afrânio Peixoto.
Dentro de seu setor continuaria, no entanto, a agir sem cessar, escrevendo
artigos sobre artigos, muitos dos quais transcritos em Le Temps e na Revue
Univmitaire, a fuzer conferências, a promover festas em benefício das vítimas,
vindo a assumir a presidência da Liga pelos Aliados, que nessa ocasião se fun­
dou. Na liga seriam os principais colaboradores Nestor Vítor e Graça Aranha,
este já esquecido do germanismo "tobiático" que impregnara as páginas de
Canaã e transformado em apologista barrésiano da França Eterna. Só não te­
ria o criador de Milkau e Lentz a secundar-lhe a ação na imprensa, uma vez
que Graça Aranha era de temperamento agrálico.
O último artigo de Veríssimo, publicado em 27 de janeiro de 1916,
n' O Imparcial, ainda seria uma furiosa catilinária contra a Alemanha. Intitula­
se "No aniversário do kaiser", e nela o crítico atribuía ainda a Guilherme II
toda a responsabilidade da guerra, dizendo: "O principal agente, com larga
premeditação e longo e acurado preparo desse crime é, porém, sem dúvida
possível, o ilustre aniversariante de hoje." Para terminar em tom irônico:
"Faço votos sinceros pela sua preciosa existência, para que assista ao fim da
catástrofe que perversamente promoveu."
Quem não viria a assistir ao fim da catástrofe seria infelizmente o críticot
falecendo daí a seis dias, a 2 de fevereiro, com grande pesar de todo o país.
Mas no mesmo O Imparcial onde Veríssimo desenvolvia intensa campanha
a favor da França, assinalamos logo no início da guerra (13 de outubro de
19 14) um artigo de João Ribeiro que encarava um dos episódios cruéis da
luta, a violação da neutralidade da Bélgica, por um prisma completamente
diverso daquele pelo qual vinha sendo considerado no momento. Embora se
possa atribuir a João Ribeiro certa simpatia pela Alemanha, onde estivera du­
rante muito tempo, cuja língua e literatura versava como poucos no Brasil, de­
ve-se reconhecer o acerto com que raciocinava. ''A neutralidade dos fracos e dos
pequenos)) - escrevia ele - "era um princípio entretido , assegurado e susten�
rado pelos grandes povos. Mas se os grandes povos, os três maiores da Europa,

3.4 6 &A LÁ Vida Literdria no Brasil


apelavam agora para as armas, é que o direito escrito se evidenciava imperfeito
e necessitava uma revisão. Estavam, pois, nulos todos os tratados e, exceto
o princípio de humanidade, que palpita ém todos os corações, não era lícito
pensar em cláusulas já agora obsoletas." E acentuava: "Violando a neutralida­
de da Bélgica, a Alemanha afirmou apenas uma verdade banalíssima e inevitá­
vel: a revisão da carta européia." E achava que os aliados não pediam outra coisa
senão isso quando queriam a destruição do Império Alemão, indispensável ao
restabelecimento de um equilíbrio em que deveria fundar-se a paz européia.
Historiador, João Ribeiro reportava-se à lição de história que nos mostra sem­
pre o desencadear de um conflito no Velho Mundo no momento em que de­
terminada nação se torna muito mais forte do que as outras. Pelo equilíbrio eu.­
ropeu lutaram Carlos V e Francisco I muitos anos; pelo mesmo motivo a
Inglaterra iria unir-se a outros povos nas diversas coligações contra Napoleão.
A maioria de nossos escritores declarou-se francamente a favor dos aliados,
mas nem por isso deixou de haver alguns german6filos ferrenhos a exemplo de
Oliveira Lima, Capistrano de Abreu e Múcio Teixeira.1 E como a Alemanha fi­
cara apenas com uma reduzida minoria nas letras e no jornalismo brasileiro,
alguns espíritos refratários aos excessos passionais e com a visceral tendência
para o "contrà' decidiram apoiá-la. Teria sido o caso de Antônio Torres, cujas
crônicas - a concluir pelas que foram reunidas em Pasquinadas cariocas e
Verdades indiscretas denu